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PSICANÁLISE I

Sándor Ferenczi

psidigital
Martins Fontes
Sumário

Prefácio do doutor Michael Balint VII


Nota dos tradutores franceses......................................... XI

I. Do alcance da ejaculação precoce......................... I


Tl'tulo original: 11. As neuroses à luz do ensino de Freud e da psicanálise 5
m. Interpretação e tratamento psicanalíticos da impotência

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BAUSTEINE ZUR PSYCHOANAL YSE
Copyright © Payot, através de acordo com Mark Patterson psicossexual 23
Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda., IV. Psicanálise e pedagogia 35
para a presente edição V. A respeito das psiconeuroses 41
VI. Interpretação científica dos sonhos 57
VII. Transferência e introjeção 77
VIII. Palavras obscenas. Contribuição para a psicologia do pe-
Tradução: Álvaro Cabral
Revisão técnica e da tradução: Cláudia Berliner
ríodo de latência 109
Revisão tipográficà: IX. Anatole France, psicanalista 121
Tereza Cecília de Oliveira Ramos X. Um caso da paranóia deflagrada por uma excitação da
Edvaldo Ângelo Batista zona anal·......................................................... 129
XI. A psicologia do chiste e do cômico 133
Produção gráfica: Geraldo Alves XII. Sobre a história do movimento psicanalítico 145
Composição: Antônio José da Cruz Pereira XIII. O papel da homossexualidade na pato gênese da paranóia 155
Arte-final: Moacir K. Matsusaki XIV. O álcool e as neuroses 173
XV. Sonhos orientáveis............................................. 179
XVI. O conceito de introjeção 181
XVII. Sintomas transitórios no decorrer de uma psicanálise 185
Todos os direitos para o Brasil reservados à XVIII. Um caso de déjà vu 197
LIVRARIA MARTINS FONTES EDITORA LTDA. XIX. Notas diversas 201
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 - Te!.: 239-3677 XX. A figuração simbólica dos princípios de prazer e de rea-
01325 - São Paulo - SP - Brasil lidade no mito de Édipo 203
XXI. Filosofia e psicanálise 213
XXII. Sugestào e psicanálise 221
XXIII. Notas diversas...... 23 I
XXIV. O conhecimento do inconsciente........................... 233
XXV. Contribuiçào para o estudo do onanismo 239

Prefácio do Doutor Michael Balint

Acaba de ser empreendida apublicação em francês de toda a obra


psicanalítica deFerenczi. É um fato histórico extraordinário que essa·

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publicação tenha tido que esperar tanto tempo, mais de 30 anos após
a morte de Ferenczi. O presente volume constitui a primeira parte des-
sa obra, compreendendo os anos de 1908 a 1912. A edição dos volu-
mes seguintes está prevista numa ordem cronológica.
Ferenczi é, sem dúvida, uma das figuras mais enigmáticas entre
os pioneiros da psicanálise; por isso talvez seja oportuna uma breve
introdução que trate da personalidade e da posição do autor.
Em 1914, Freud escrevia em História do Movimento Psicanalíti-
co: "A Hungria, geograficamente tão próxima da Áustria e cientifica-
mente tão distante, produziu um único colaborador, S. Ferenczi, mas
um colaborador que, por si só, vale toda uma Sociedade. " Mais tarde,
em 1933, em sua notfcia necrológica, Freud escreveu que certos artigos
de Ferenczi "fizeram de todos os analistas seus alunos". Aí está um
dos aspectos do complexo quadro; podemos acrescentar-lhe que Fe-
renczi era certamente, entre todos os analistas da nova geração que co-
meçou a se agrupar em torno de Freud, aquele que desfrutou da maior
intimidade com ele; foi o primeiro a quem Freud chamou "caro ami-
go" em suas cartas, o único convidado a viajar com ele durante suas
férias ciosamente protegidas. Foi ainda ele - nós o sabemos - que
Freud, desde o inlcio de seu relacionamento mútuo, imaginou de bom
grado ter por genro.
O outro aspecto do quadro é o fato histórico de que, perto do fim
da vida de Ferenczi, na segunda metade dos anos 20, uma divergência
de pontos de vista sempre crescente surgiu entre Freud e Ferenczi; no instalou-se como clínico geral e neuropsiquiatra; foi contratado, final-
início, ela parece limitar-se aos problemas técnicos mas, na verdade, mente, como perito psiquiátrico junto aos tribunais. Exerceu a clínica
envolvia diversos problemas teóricos essenciais; em 1932, redundou na geral até 1910,' depois abandonou-a, para consagrar sua atividade pro-
desavença aberta entre os dois homens. },> fissional inteiramente à psicanálise. Conservou seu cargo de perito psi-
Quem é, pois, o homem que se perfila por trás dessa obra e dessa quiátrico junto aos tribunais por alguns anos mais, rescindindo-o após
vida? No restante desta introdução, proponho~mé a descrever as ori- a guerra de 1914-18. Amigo de Max Schiichter, redator-chefe de uma
gens e a evolução de Ferenczi. Para tanto, dois caminhos, pelo menos, das principais revistas médicas da Hungria, logo iniciou sua colabora-
se me oferecem. Um deles seria percorrer de um,extremo ao outro a ção-nela, tanto com artigos originais quanto com notas e comentários
vida de Ferenczi no prefácio deste primeiro volume; o outro, acompa- de leitura. Gostava de contar que fora solicitado a redigir uma nota
nhar sua evolução até ofim do per(odo tratado neste tomo. Como am- sobre A Interpretação dos Sonhos e que se recusara a escrevê-Ia depois
bas as soluções apresentam sérios inconvenientes, decidi-me pela de terfolheado rapidamente o livro, achando que ele não valia a pena.
segunda, que oferece ao leitor a possibilidade de compreender melhor Alguns anos mais tarde, ouviu falar de um método elaborado em Zu-
os textos que lhe são submetidos. Esta parte da minha introdução ter- rique que permitia medir O funcionamento mental com a ajuda de um
minará, portanto, no ano de 1912. cronôme:ro. Era algo suficientemente preciso para seduzi-Io; comprou'
Ferenczi descende de uma famI1ia deveras interessante. Seu pai, um cronometro e, a partir desse instante, ninguém escapou ao seu ze-
embora fosse um judeu polonês imigrado na Hungria, alistou-se em lo. Q~em ficasse ao seu alcance nos cafés de Budapeste, escritor, poe-
1848, aos 18 anos, no exército de voluntários que lutavam contra os ta, pintor, zelador dos banheiros ou garçom, era irremediavelmente
Habsburgo pela independência da Hungria. Como só tinha um n(vel submetido à "prova de associação ". Assim foi levado a reparar a omis-
modesto de instrução, obteve autorização, após a capitulação de 1849, são do passado e leu de ponta a ponta toda a literatura psicanaWica
para estabelecer-se como livreiro com sua esposa em Miskolcz, peque- dispon(vel na época.

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na cidade de prov(ncia húngara. Seu negócio prosperou rapidamente No começo de 1908, aos 34 anos, escreveu a Freud para solicitar
e ele tornou-se o editor de um dos principais poetaS da resistência hún- que lhe .conce!,e~se o pr!vilégio de uma entrevista. Segundo parece,
gara, Michel Tampa, um pastor protestante. Fun(Jou numerosa fam(- Freud fiCOUtao ImpressIOnado com Ferenczi que o convidou a apre-
lia - teve onze filhos, que abraçaram todos proflSsã,es liberais. Ferenczi, sentar uma comunicação no primeiro congresso de psicanálise, em Salz-
nascido em 1873, foi o quinto dos homens. Perdelio pai quando ainda burgo, em abril de 1908, e a visitá-Ia em Berchtesgaden, onde afamI1ia
era adolescente,' sabemos que, quando iniciou seuS,estudos de medici- Freud devia passar suas férias de verão - um acontecimento inaudito.
na aos 17 anos, em Viena, sua mãe jd era viúva~' No ano seguinte, em 1909, quando Freud visitou os Estados Unidos
Como se podia esperar nessas circunstâncias;iFerenczi idealizou ninguém duvidava de que Ferenczi o acompanharia na viagem. Foi ~
o pai, adquiriu um intenso "complexo fraterno',~e desenvolveu uma começo de uma amizade sem nuvens durante muitos anos, que assim
relação extremamente ambivalente com a mãe. Após a morte do mari- permaneceu até a I Guerra Mundial.
do, a viúva assumiu a direção da livraria e, como tinha onze filhos, 1!umerosas vi~gens de verão e inúmeras discussões cientificas se
certamente não podia dedicar muito tempo a cada um deles. Seja co- s~gUlram~_das qUOlSFerenczi não era o único a tirar proveito. Em vá-
mo for, subsiste o fato de que Ferenczi, ao longo'de toda a sua vida nas o~~sloe~, Freud menciona em suas cartas como este ou aquele co-
tinha .uma grande necessida~e de amor. Possuía, sem dúvida, uma per~ m.e~tano feito no decorrer dessas conversas o ajudou a transpor uma
sonalldade calorosa e esfuziante, e expressava generosamente todos os dif/culd~de. Por seu lado, Ferenczi, em seus artigos, nunca perdeu a
seus sentimentos; mas, de certa maneira, nunca parecia estar inteira- 01?ortumdade de expressar sua gratidão a Freud pelo estlÍnulo propor-
mente satisfeito com o que recebia: precisava sempre de algo mais. c/onado a algumas de suas idéias.
Seus anos de estudo em Viena representaram sua primeira expe- Todos os artigos contidos neste primeiro volume, que termina com
nhICia de independência no mundo. Contou-nos com freqüência que, o ~n~ de 1912~pertencem a esse pedodo. Nele iremos encontrar alguns
(/{)eon trário do que aconteceu em seu per/odo escolar, não foi um alu- c1ass/cos da literatura anaWica, como "Transferência e Introjeção"
fiO muito estudioso na universidade,' preferiu a boa vida. Não obstan- "Palavras Obscenas ", "O Papel da Homossexualidade na Patogêlles~
te, terminou seu curso no tempo normal':"':::'
sem jamais ter encontrado dg.Paranóia", "Sintomas Transitórios", "Filosofia e Psicanálise", etc.
Freud nem ter ouvido falar dele. Regressou então a Budapeste e E mteressante assinalar que todos os artigos dessa época tratam de ques-
tões c/lnicas ou teóricas; Ferenczi sempre se preocupara, certamente,
com problemas de ordem técnica, mas seu primeiro artigo técnico só
datará de 1913. Pouco a pouco, o seu interesse por esse assunto o in- -
vadiu inteiramente e dedicou-lhe quase por completo os últimos anos
de sua vida. "i}
Gostaria de fazer ainda uma observação. O titulo do primeiro ar-
tigo psicanalttico de Ferenczi, a sua comunicação)ço congresso de psi-
canálise de Salzburgo em 1908, apenas alguns m~gs após seu primeiro
encontro com Freud, era "Psicanálise e Pedagogia". Por uma ou ou-
tra razão, esse artigo foi publicado somente em h#ngaro durante a vi-
Nota dos Tradutores Franceses
da de Ferenczi (salvo uma breve nota deiJ?ànk que servia de
apresentação para todas as comunicações feitaiwo Congresso).
Na literatura psicanalítica, foi esse o prime!ço artigo sobre a pe-
dagogia; entretanto, foi ignorado e depois esqueCido. O mais provável
é que tenha parecido suscetr'vel de gerar contrové,rsias inoportunas na
época. Ele contém, sem dúvida, algumas idéias q~e ainda hoje parece-
riam audaciosas, mas estou certo de que o leitor.~'êonsideraráo artigo A tradução dos textos que compõem este volume defrontou-se com um
muito interessante e estimulante.'(:;,· grande número de problemas e dificuldades. Parece que isso ocorre freqüente-
Isso nos oferece uma espécie de preâmbuld:às posições que Fe- mente quando se trata de Ferenczi: a maioria dos que participaram em em-
renczi assumirá no movimento psicanalttico. Nós volumes seguintes, preendimentos que envolvem sua obra teve essa mesma experiência.
Existe "algo" na obra de Ferenczi que suscita ao mesmo tempo o entu-

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encontraremos vários artigos que suscitaram reaç6,êsanálogas eforam,
siasmo e a exasperação.
por conseqüência, ignorados pela maioria dos psicanalistas. Ferenczi é considerado um dos pioneiros da psicanálise. Entretanto, sua
Proponho-me, como disse mais acima, a cprltinuar esta introdu- obra é pouco conhecida, ou mal conhecida, sobretudo na França: apenas uma
ção nos volumes seguintes; descreverei os· eveljios históricos, arti- dúzia de artigos foram traduzidos até hoje e um pequeno volume, Thalassa,
culando-os com a obra produzida durante essê?r.nesmoperíodo, por publicado pelas Éditions Payot. .
um lado, e as reações. do mundo psicanaWico .~. idéias de Ferenczi, A realização deste volume seguiu, portanto, o processo aparentemente
por outro.., inevitável das iniciativas ligadas à pessoa de Ferenczi: houve voluntários entu-
siastas e desinteressados, que não economizaram seus esforços, mas a equipe
de tradução desagregava-se a todo o instante, pelos mais variados motivos.
Houve dificuldades de prazos, de saídas, de regressos, de meias-voltas, de ar-
tigos perdidos, de outros traduzidos várias vezes ou só pela metade ...
Uma interrogação se põe nesse caso: não se deverá buscar a explicação
desses avatares no próprio caráter da obra de Ferenczi? A sedução e a repulsa
que ela exerce simultaneamente evocam as reações que, de modo geral,
a psicanálise provoca no grande público: uma dupla reação de fascínio e me-
do. Mas quando se trata de Ferenczi, os próprios psicanalistas reagem como
o público leigo. Qual poderá ser a causa disso?
Aqueles que conheceram Ferenczi descrevem-no como um fragmento de
vida em estado puro, não aceitando limites nem restrições, agindo em todas
as direções ao mesmo tempo, interessando-se por tudo com igual intensidade,
pronto para todas as experiências. Outros acrescentam que esse extravasamento
vital tinha um perfume de desespero e morte. Isso combina bem, sem dúvida,
com a. reputação de otimista inveterado de Ferenczi. Pois o que pode haver
de mais ?esesperado do que a recusa absoluta em renunciar à esperança? Será
necessáno procurar a explicação da atitude geral em relação a Ferenczi nesse
, .
,\ t.J"
caráter desenfreado, ilimitado, desesperado? Seja como for, as reações incons-
cientes opõem-se amiúde às intenções conscientes. : \~i ~~\
Além dos problemas de ordem psicológica, os tradutores tiveram que en- (.: I \i-- L'
frentar igualmente um certo número de problemas técnicos e práticos. \\
~
Ferenczi escrevia indiferentemente em alemão e em húngaro. Ele mesmo \ \

c~, \ \ (~' \ •
traduzia com freqüência seus textos - muito livremeni~ - de uma língua pa- ~ '~-.J"
ra a outra. Tampouco era raro que uma conferênciage divulgação destinada ,
aos médicos húngaros se transformasse em artigo pargJ>sicanalistas de língua / 1\
/ ~
ale':l~ e sofresse as. mo~i.fic~Çõ7s correspondente~. I>.êt}yezes"é ~uito difícil
deCidir qual dos dOISongmals diferentes deve servir para a traduçao. Procura- Do Alcance dçr"Ejaculação Precoce!
mos levar em conta, segundo o caso, o interesse te6riéo, histórico ou docu- /
mentário. Evitamos misturar as versões. Entretanto, cêÍ1as passagens de textos
húngaros são confusas: a terminologia estava mal definida na época em que
eles foram escritos. Por outro lado, a terminologia elaborou-se mais rapida-
mente em alemão do que em húngaro. Por isso recorremos nesses casos ao
texto alemão, para esclarecer os pontos obscuros, sem deixar de permanecer
fiéis, no conjunto, ao texto húngaro. Em outros casos, buscamos socorro nas
traduções inglesas mais recentes. ')('1
A busca da explicaçãoJisiológica de uma expulsão prematura do
O próprio Ferenczi é muito independente em suaterminoJogia; as dife- esperma e dos estados nervosos concomitantes já deu origem a toda
rentes noções psicanalíticas, à medida que vão apan~cendo,figuram em sua uma literatura. Mas falou-se m'uito pouco ou nada das conseqüências
obra sob denominações às vezes diversas. ConservamQs as expressões empre- nervosas de um coito assim abreviââo no tempo por parte do parceiro
gadas por Ferenczi quando nos parecia que nenhurriâi"confusão era possível. do outro sexo. Entretanto, fundados 'nas investigações inovadoras de

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Em outros casos, preferimos dar aos conceitos o norií~iquetêm hoje, em vez Freud, aqueles que examinaram mais de \3erto_a::!ida sexual ou conju-
de inventar um termo francês que teria desorientado o,leitor ou acarretado uma gal de mulheres que padecem de uma neuro~dstia puderam cons-
sobrecarga do texto com' notas inúteis, de fato, par~l.a sua compreensão. tatar que os estados de medo, de ansiedade ou de angústia são sempre
Enfim, certos textos originais são difíceis de encontrar ou até mesmo to- provocados pela insatisfação sexual, ou pela satisfação incompleta ou
talmente inacessíveis. Há artigos que tivemos de traduzir a partir de traduções,
imperfeita, cuja causa mais freqüente é a ejaculação precoce do par-
o que é uma verdadeira heresia na matéria. . ,y
Reproduzimos no final deste volume a lista cronológica das obras de Fe- ceiro masculino, Além disso, deixando de lado os casos francamente
renczi, de acordo com o catálogo contido no tomo·IV de "Bausteine zur patológicos de ejaculação precoce (quase sempre associada a inúmeros
Psychoana(yse", o "Koechel" da obra de Ferenczi,completada pela biblio- outros sinais de neurastenia sexual e sempre imputável a uma excessi-
grafia publicada no fim de "Final Contributions to the;Problems and Methods va masturbação), parece que, de modo geral, o sexo masculino apre-
of Psycho-Analysis", posterior ao catálogo de "Bausteine". senta, em relação ao sexo feminino, uma ejaculação precoce relativa.
Nessa lista, assinalaremos as versões que serviram de base para os textos Em outras palavras, mesmo no caso mais favorável, quando a dura-
contidos no presente volume. ção da fricção no homem é normal, grande número de mulheres não
chegam ao orgasmo; seja porque a anestesia permanece completa até
o fim, seja porque, tendo-se produzido uma certa excitação libidinal,
esta não atinge o grau necessário ao orgasmo, o ato fica concluído pa-
P .S. - Uma terceira assinatura leria seu lugar embaixo desta nota: a do doutor Gérard ra o homem e a mulher fica excitada mas insatisfeita.
l\lendel,diretor da coleção" Science de I'Homme", publicadapelas ÉditionsPayot. Com Esse estado, quando se torna permanente, leva necessariamente
efeito, durante estes últimos anos, ele participou amplamente nas dificuldadesque aca- a um estado de tensão nervosa; só o egoísmo masculino, sobrevivência
bamos de descrever: sem ele, a edição francesa das obras completas de Ferenczi seria do velho regime patriarcal, pôde desviar a atenção dos homens ... lo-
apenas um amontoado de textos incompletos no fundo de uma gaveta. go, dos médicos, deste problema.
Estamos habituados desde longa data a admitir que somente os

I. Journa! médica! de Budapesl, 1908. /


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:', DOALCA.J~D.. A EJACU! ..AÇÃO p~Êê6'cf '(


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homens têm direito à libido sexual e ao orgasmo; estabelecemos e im- \miar de,hcitação mas, pelo contrário, propicia uma aceleração da eja-
pusemos às mulheres um ideal feminino que exclui a possibilidade de '-culaçã-6. Esse efeito aumenta consideravelmente te -
como é
exprimir e de reconhecer abertamente desejos sexuais, e só tolera a acei- indiscutivelmente o caso em 90070 dos homens - a satisfação foi por
taçào passiva, ideal que classifica as tendências libidinais, por muito )argo tempo obtida por via auto-erótica. Por isso, na grande maioria
pouco que elas se manifestem na mulher, nas categorias patológico e Idos homens que se casam, a ejaculação é relativamente precoce.
"vicioso". . Em contrapartida, a mulher, durante sua adolescência, é metodi-
Submetendo-se às concepções do homemtalit~ para o seu mundo J
camente subtraída a toda e qualquer influência sexual, quer se trate
ético quanto sob muitos outros aspectos, a mulhê:r assimilou tào bem dO plano real ou do plano mental; e, além disso, os esforços tendem
essas idéias que toda idéia contrária; aplicada a elà.:própria, lhe parece í a fazê-Ia detestar e desprezar tudo o que envolva o domínio da sexuali-
impensável. Até mesmo a mulher que sofre da mais severa das angús- ~ dape. Assim, pois, comparada com seu futuro esposo, a mulher que
tias e que - de acordo com o interrogatório - sÓ,rbonheceu excitações se câsa--.é, do p09!g" de.,vi,s,ta s.exual, pelo menos hipestésica, quando
frustradas, rejeita com veemência e sincera indig'riação ser "do gêne-
ro" daquelas a quem "essas coisas" podem fazer'falta. Não só ela não não ~n;~t~~G~~/aii~~g() para extrair as conclusões sociológicas
as deseja - afirma em geral - mas considera-as; no que lhe diz res- do problema e decidir quem dos dois tem razão: aquele que inclui os
peito, um tratamento desagradável, repugnante'que dispensaria per- homens, por sua vez, na exigência de castidade até o casamento, ou
feitamente se o seu marido não se importasse tanto com issol. aquele que propõe a emancipação das mulheresl. O médico, que ape-
Entretanto, os impulsos libidinais do organismo, despertados e não nas busca remédio para os sofrimentos humanos e está menos preocu-
satisfeitos, não se resolvem à força de decretos Di,orais; na falta de ser pado com os males da sociedade, inclina-se evidentemente para essa
saciado, o desejo sexual encontra sua saída em: sintomas patológicos segunda alternativa; ele se sente mais seduzido por uma tendência ca-
- geralmente a angústia e, nos indivíduos predispostos, neuroses (his- paz de provocar uma diminuição da histeria feminina do que por aquela

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teria, neurose de angústia). ' ;jM~ que, ao preconizar a observância da castidade no homem, tende a es-
Se os' homens rompessem seu, modo de pensar egocêntrico para tender a histeria igualmente ao sexo masculino.
imaginar uma vida em·que lhes tocasse sofrer constantemente a inter- Na realidade, não creio que a escolha se reduza a esses dois extre-
rupção do ato antes da resolução orgástica da tensão, dar-se-iam con- mos. Deve existir uma solução para administrar melhor o interesse se-
ta do martírio sexual. suportado pelas muUiêres e do desespero xual da mulher, sem que por isso se sacrifique a ordem social
provocado pelo dilema que as reduz a escolher entie o respeito a si mes- fundamentada. na família.
mas e a plena satisfação sexual. Elescompreendepam melhor por que :' ('. O movimento de iniciação sexual das. mulheres antes do casamen-
uma porcentagem tão importante de mulheres foge ao dilema através . to coristituium tímido começo nesse sentido. E se o número de suges-
da doença. . .', ;~;." , tões e projetos simplistas e absurdos é enorme, existe, contudo, a
A teleologia própria do raciocínio humanolfrião se resigna facil- esperança de que o procedimento brutal e geralmente praticado que
mente ao postulado de que "no melhor dos mundôsposs{veis" um fun- consiste em entregar, no dia do casamento, uma mulher amedrontada
cionamento orgânico tão elementar deve apresentar naturalmente igual e ignorante da sexualidade a um homem já detentor de numerosas ex-
diferença de duração para resultar na satisfação~em ambos os sexos. periências, será um dia abandonado. Enquanto vigorarem as condi-
E a experiência parece confirmar, com efeito, que'hão se trata de uma ções atuais, não é surpreendente que a ejaculação relativamente rápida
di ferença orgânica nos dois sexos mas de uma diferença de condições do homem e a relativa anestesia da mulher sejam naturalmente admiti-
de vida e de pressão cultural, para explicar essa '.,'discronia" na sexua- das na vida conjugal, e que, em conseqüência da "significação exem-
lidade dos cônjuges. ;;~' plar da sexualidade"2, as uniões baseadas na satisfação mútua, ou
A maior parte dos homens casa-se após um número maior ou me- seja, as uniões felizes, sejam tão raras,
nor (geralmente bastante grande) de aventuras sexuais e a experiência
mostra que, nesse domínio, o hábito não acarreta-uma elevação do li-
1. Em minha opinião. as mulheres estão erradas quando crêem que o remédio pa-
ra seus males seria o direito de voto. Não é o direito à escolha polftica mas à escolha
I. Nota bene: o instinto feminino tem razão a esse respeito: a abstinência total sexual que elas deveriam reivindicar com mais sólidas razões.
é menos nociva para o sistema nervoso do que a excitação·.frustrada. 2. "Yorbildlichkeit der Sexualitat". Freud.
11

As Neuroses à Luz do Ensino de


Freud e da Psicanálise!

Há alguns anos, no Terceiro Congresso Nacional de Psiquiatria,


fiz uma exposição sobre a "neurastenia" , na qual reivindiquei uma clas-
sificação nosológica sistemática desse quadro tão confuso e tão com-
plexo que abrange tantos diagnósticos errôneos os ausentes. Mas,
embora a orientação fosse correta quando eu separava os estados de

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debilidade neurastênica dos estados nervosos que acompanham as afec-
ções orgânicas, por um lado, e os estados puramente psiquiátricos, por
outro, tornei-me culpado, entretanto, de uma omissão grave ao negli-
genciar totalmente as investigações realizadas sobre as neuroses pelo
doutor Freud, de Viena. Essa omissão pode ser-me imputada com se-
veridade tanto maior na medida em que os trabalhos de Fr.eud já eram
de meu pleno conhecimento nessa altura. Li em 1893 o artigo de Freud
e Breuer sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos; mais
tarde li umacomunicação individual onde ele demonstrava que são os
'-JÚJd.maÜsÍncis.s_e.xua.is~dainfância que se encontram na origem das psi-
coneuroses. ....'\
Hoje, tendo tidqitantas ocasiões de me convencer da exatidão das
teorias de Freud, pqsso fazer-me, com boas razões, a seguinte pergun-
ta: por que as deixei de lado naquele momento, por que me pareceram
a priori inverossimeis e artificiais, e, sobretudo, por que essa teoria da
origem sexual das neuroses suscitou em mim tanto desprazer e aversão
que nem mesmo julguei oportuno verificar se, porventura, ela com-
portava alguns elementos de verdade?
Seja dito em minha defesa que a maior parte dos neurologistas
cometeu o I11esmoerro e, entre eles, homens de grande valor como Krae-
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1. Conferência realizada na Sociedade Real de Medicina de Budapeste, em 28 de
março de 1908. ( J
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pelin, Aschaffenburg ainda hoje o cometem. Em contrapartid~, alguns ção demasiado fácil do caráter banal dessa atividade, insisto no fato
pesquisadores que se decidiram subseqüentemente a tentar a IOterpre- de que se trata aqui do onanismo excessivo, praticado mesmo depois
tação dos problemas particulares suscitados pelos casos de neurose por da puberdade, e não do onanismo habitual da infância, limitado a um
meio das teorias e dos laboriosos procedimentos de Freud converteram- certo período; pois esse tipo de onanismo está tão generalizado, sobre-
se em sua maioria em ardorosos adeptos desse ensino até então negli- tudo no sexo masculino, que considero por minha parte ser a ausência
ge'nciado, e o nú~ero de discípulos de Freud é hoje considerável. total de antecedentes auto-eróticos o que lança uma dúvida sobre o bom
A brevidade do tempo de que disponho impede-me de expor - equilíbrio psíquico do indivíduo, dúvida que na maioria dos casos se
ainda que a tentação seja grande - como Freud;e,Breuer reconhece- justifica.
ram, examinando as particularidades de uma só paCiente histérica, que Já exprimi em outro artigo o que penso sobre as variações da im-
poderiam passar por simples esquisitices ou capricpos, a presença de portância atribuída ao efeito patogênico da masturbação: o apogeu é
fenômenos psíquicos de significação universal, c~~mados a deseu:pe- representado peladegenerescência medular e o perigeu pela .inocuida-
nhar, no desenvolvimento futuro da psicologia qprmal e patológIca, de total. Estou entre aqueles que não superestimam a importância do
um papel ainda difícil de avaliar. Devo igualmen~~renun~ia~ a acom- onanismo; mas, por minha experiência, posso igualmente afirmar que
panhar Freud, que caminha doravante com plena 4leependencl.a ao lon- na neurastenia, tomada no sentido restrito que Freud lhe dá, a auto-
go de passagens difíceis que o conduziram - d~pols de vános erros satisfação excessiva jamais está ausente e explica suficientemente os sin-
corajosamente reconhecidos - à sua posição at~~, a única que, em tomas. Assinalo, de passagem, que o dano provocado no estado psí-
minha opinião, está apta a explicar os fenômenos~nigmáticos das neu- quico de numerosos masturbadores pelas opiniões exageradas que se
roses e, por conseguinte, a curá-Ias. Poupar-Ihes:eiigualmente a leitu- divulgam a respeito do caráter vergonhoso e nocivo da masturbação,
ra dos dados da literatura e as estatísticas. Limitar-me-ei, no âmbito precipitando-os na Cila da angústia ou da psiconeurose quando ten-
desta conferência, a elucidar alguns pontos es~enct~s dessa teoria com- tam sufocar sua paixão para evitar a Caribde da neurastenia; é infini- .
plexa e a ilustrar seu alcance mediante exemplost,'clínicos. tamente mais grave do que o efeito direto do onanismo.

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Uma tese fundamental dessa nova teoria é'que, nas neuroses, a A masturbação excessiva é patogênica pelo fato de que tende a
sexualidade desempenha um papelespecífico,atéJinesmo;que a maio- libertar o organismo da tensão sexual por um sucedâneo menos eficaz
ria das neuroses reporta-se, em últíma análise, 'a:~uma síndrome que do que o processo normal, ou seja, para citar Freud, mediante uma
mascara funções sexuais anormais. ,'ti;'- "descarga inadequada". Concebe-se perfeitamente que esse modo de
Num primeiro grupo, Freud classifica os estados neuróticos em satisfação, praticado em excesso, esgota as fontes de energia neuropsí-
que uma perturbação atual dajisiologia das funções sexuais parece agir quica do indivíduo. O coito normal é uma função complexa, sem dú-
como causa patogênica direta, sem intervenção de fatores psicológi- vida, mas não obstante uma função reflexa, cujos arcos reflexos passam,
cos. Dois estados mórbidos pertencem a esse grupo, ao qual Freud dá em sua maioria, pelo bulbo e pelos centros subcorticais, embora os cen-
o nome de "neuroses atuais" mas a que poderíamos igualmente apli- tros nervosos superiores estejam igualmente envolvidos; na masturba-
car, sem trair o autor, um nome que as define bem por oposição às ção, pelo contrário, em conseqüência da pobreza das estimulações
psiconeuroses, qual seja, o de jisioneuroses. Trata-se da neurastenia, sexuais externas, os centros de ereção e de ejaculação só conseguem
num sentido restrito do termo, e de uma síndrome nitidamente delimi- chegar a uma tensão suficiente para deflagrar o mecanismo reflexo in-
tada, que recebeu o nome de neurose de angústia; em alemão Angst- do captar energia numa fonte psíquica superior, a imaginação.
flC'l/rose. Se eliminarmos do grupo de doenças designado pelo termo Repito que tudo o que precede diz essencialmente respeito às for-
flC'urastenia tudo o que lhe está impropriamente ligado e pode ser elas- mas víscero-espinhais da neurastenia; resta descobrir se as outras for-
~ificado numa entidade mórbida mais adequada, subsistirá uma sín- mas da entidade mórbida astênica, como por exemplo a astenia psíquica,
drmne bastante característica onde dominam as cefaléias, as raquialgias, no sentido estrito do termo, dependem igualmente da mesma explicação.
" \ n<:p~[turbações gastrointestinais, as parestesias, um grau variável de No segundo grupo das neuroses atuais, a que Freud chama Angst-
\ill1p()t~nciã--e,com cOIlsequeI1cTàdesses diversos fatores, um estado de neurose - neuroses de angústia -, os sintomas principais são uma
depressão. Segundo as observações de Freud, o fator patogênico prin- irritabilidade geral que se manifesta essencialmente pela hiperestesia
dpal dessas neuroses neurastênicas, no sentido estrito do termo, era auditiva e a insônia, um estado de expectativa ansiosa crônica e especí-
~(1l1qitllído pela masturbação excessiva. Para afastar a priori a obje- fica, freqüentem ente focalizada na saúde de outra pessoa, às vezes na
do próprio paciente (hipocondria), crises de angústia quase sempre as- gústia virginal (Freud), que aparece geralmente tanto nos homens co-
sociadas ao medo de um infarto, de um ataque de paralisia, e que se mo nas mulheres no momento das primeiras relações. É evidente que
fazem acompanhar de distúrbios respiratórios, cardíacos, vasomoto- o psiquismo - mal preparado - não pode participar corretamente na
res e secretórios. As formas de angústia podem manifestar-se sob uma libido. A angústia manifesta-se com freqüência naqueles que experi-
forma rudimentar: suores, palpitações, bulimia ou diarréia, ou sim- mentam uma intensa excitação sexual mas não podem satisfazer sua
plesmente pesadelos e terrores noturnos (pavor nocturnos). As verti- libido em virtude de obstáculos externos ou internos. Citemos, a título
gens desempenham um papel considerável nas neuroses de angústia e de exemplo, a neurose dos noivos que tive ocasião de observar muitas
podem atingir uma tal intensidade que limitam, de maneira parcial ou vezes, e que se faz acompanhar de toda a gama de sintomas classica-
total, a liberdade de movimento do paciente. Urna parte das agorafo- mente descritos por Freud. Graves neuroses de angústia são provoca-
bias é, de fato, a conseqüência de crises de vertigem ansiosa; o pacien- das pelo coito interrompido, tanto nos homens como nas mulheres.
te receia os deslocamentos por temer que a ~crise de angústia' o Nesse caso, é uma forte inibição psíquica que impede o fluxo normal
surpreenda em plena rua. Nesse caso, a fobia é, p,Qrtanto,uma defesa da libido. A ejaculação precoce do marido é uma causa freqüente de
contra a angústia, e a própria angústia é aqui umlfenômeno que não angústia na mulher: pode-se atribuí-Ia à masturbação excessiva. Essa
pode ser analisado no plano psicológico mas que ~êexplicaunicamen- combinação de neurose conjugal, marido neurastênico e mulher an- .
te pela fisiologia. I}~f~} siosa, é extremamente difundida.
Todos esses sintomas e síndromes poderiam;fâcilmente abrigar-se De acordo com a minha experiência, a abstinência total é melhor
sob a ampla capa da neurastenia e da histeria, se Freud não tivesse con- tolerada do que as excitações frustradas; no entanto, pode provocar
seguido mostrar a unidade etiológica destas, pertencente, urna vez mais, uma neurose de angústia. Essa explicação da neurose de angústia é sus-
ao domínio da sexualidade. Com efeito, a neurose de angústia tentada pelos resultados terapêuticos. A angústia cessa quando os obs-
apresenta-se quando a energia sexual, a Iibido,;~éldesviada da esfera táculos que se opõem à manifestação psíquica da excitação são

psidigital
ps(quica, propagando-se a tensão sexual exclusivamente por via bul- eliminados. O remédio para a angústia virginal é a continuidade de uma
bar e subcortical. Portanto, ao passo que nas concUções normais a ener- relação normal; o de muitas neuroses é pôr fim aos modos de coito
gia sexual se propaga, igualmente para a esfera:psíquica, .na neurose impróprios; a angústia da mulher é freqüentemente curada pelo refor-
de angústia o psiquismo não participa ou só participa de modo insufi- ço da potência de seu cônjuge.
ciente no afeto sexual, quer por estar ocupado .alhures, quer por ser
inacessivel à libido devido a uma forte inibição, qúer ainda por ser in-
capaz de perceber corretamente a excitação; de sorte que a excitação
espalha-se, na totalidade ou em medida excessiva, pelas vias nervosas
inferiores. Uma das mais notáveis descobertas de Freud consiste em Na seqüência desta exposição, desejo abordar um capítulo mais
que essa c1ivagem entre o psiquismo e a libido manifesta-se subjetiva- complexo e mais importante da teoria de Freud; deverei, para tanto,
mente pela angústia, quer dizer, a excitação que não pode manifestar- deixar de lado as explicações fisiológicas e mecanicistas, visto que, neste
se no plano psíquico provoca no organismo efeitós fisiológicos acom- ponto, são as considerações psicológicas que predominam. Freud agru-
panhados de uma sensação de angústia, de ansiedade. A neurose de pa nesse capítulo duas doenças: a histeria e a neurose obsessiva. Até
angústia opõe-se, a esse respeito, diretament,e à'neurastenia, onde se agora, a neurose obsessiva era geralmente classificada no capítulo da
recorre de maneira exclusiva à energia psíquica.i:: neurastenia; em contrapartida, admite-se que a histeria é uma neurose
Por uma comparação tomada à física - maS'que exprime muito psicogênica cujos sintomas se explicam por mecanismos mentais incons-
bem o princípio do processo - poderíamos dizer'/:ltie a transformação cientes ou semiconscientes. Mas os autores que estudaram essas doen-
da excitação sexual em fator de atividades motora·;·vasomotora, secre- ças, mesmo quando suas experiências e observações são de valor
tória, respiratória, que têm por corolário a angústia quando o circuito inestimável para a neurologia, não souberam unificar seus pontos de
psiquico lhe é vedado e não tem outro meio de escoar-se a não ser pe- vista acerca dessa doença complexa e, em especial, não souberam
Jas vias nervosas inferiores, é análoga à transforIl]:açào da eletricidade explicar-nos por que os sintomas se apresentam necessariamente em
em calor quando encontra uma forte resistência no circuito condutor. tal ou tal paciente segundo um agrupamento e uma ordem dados. Ora,
O exemplo mais conhecido de neurose de angústia sexual é a an- na medida em que esse problema continuava sem resposta - deixa-
Foi essa a semente de onde germinou o método de análise psicoló-
mos de lado, neste ponto, uma certa presciência confusa do pap~l do gica de Freud, a psicanálise. Esse método abandonou totalmente a hip-
inconsciente - cada caso de histeria apresentava-nos problemas mde- nose e é praticado em estado vígil, o que o coloca ao alcance de um
cifráveis, à semelhança da esfinge. Mas enquanto a esfinge mantém-se número muito maior de pacientes e afasta a objeção daqueles que pre-
petrificada em sua tranqüila contemplação do infinito, a histeria. - tendem que os fatos revelados pela análise baseíam-se na sugestão.
como que para desafiar insolentemente com seusesgares ~ nossa 1m: No decorrer de suas investigações, Freud estabeleceu que todos
potência - muda incessantemente de ro~t.o e torna o pacle.nt.e que e os esquecimentos não dependem do desgaste, do apagamento natural
vítima dela insuportável tanto para a famlha como para o medico. Es- das impressões mnêmicas; muitas impressões são esquecidas porque o
te, que esgotou rapidamente todos os recursos ~a::.quimioterapia e ~a psiquismo inclui uma instância de julgament~, a censura: que recalca ,1.'''::.0''
hidroterapia, cansado de tratamentos por sugestao com resultados efe- sob o limiar da consciência as representações msuportávels ou doi oro- -<'"
meros, aguarda com impaciência a chegada do v~rãoa fim de poder sas. Freud designa esse processo como Verdriingung - rejeição, re-
despachar seu doente para o campo ... o mais lonMpossível. Mas, ain-
pressão recalque - e demonstrou que esse mecanismo desempenha
da que ele volte melhor, ao primeiro choque psíqüico sério a recaída
o mes~o papel nas funções mentais normais e patológicas.
sobrevirá inevitavelmente. E assim continua durante um ano, dez anos
O recalque das lembranças desagradáveis nunca é, na prática, um ' \
ou mais, de forma que mais ninguém, entre os especialistas e os clíni-
processo que se conclui com inteiro sucesso; entretanto, o combate en-
cos acredita no caráter benigno da histeria. Ness~condições, o evan-
tre o grupo de representações afetivamente investido com sua tendên-
gelho de Freud é uma verdadeira libertação tanto para o médico quanto
cia para a repetição - o que Jung denomina complexo -, por um I~do,
para o doente, pois anuncia a descoberta da ch~ve para o problema
e a censura que se lhe opõe, por outro, pode eventualmente termmar '
da histeria, uma compreensão mais profunda d~ssa penosa doença e
num compromisso mútuo. Nesse caso, nem a tendência para o recal- I ';~\,,\
seu caráter curáve1. . '1ft que nem a tendência para a repetição podem realizar-se inteiramente, )
Breuer foi o primeiro a relacionar o conjunt~~dos sintomas apre-

psidigital
mas o complexo fica representado na consciência por intermédio de (
sentados por uma paciente histérica com traumátIsmos psicológicos,
uma associação superficial qualquer. ,I
choques psíquicos esquecidos mas cuja lembrançà';, investida dos afe-
tos correspondentes, permanece latente no inconsciente e, como um Segundo Freud, são esses representantes ou símbolos de comple-
enclave estranho no psiquismo, provoca tensões côntínuas ou periódi- xos que constituem a maioria dessas idéias súbitas que, interrompendo
cas no aparelho neuropsíquico. Com a ajuda da hipermnésia provoca- bruscamente o desenrolar normal do pensamento, vêm-nos ao espírito
da pela hipnose, Breuer e Freud estabeleceram que os sintom.as são, sem razão aparente ou, como se costuma dizer, "por acaso"; com fre-
na realidade, os símbolos dessas lembranças latentes; em segUida, no qüência, uma certa recordação da infância longínqua, parecendo anó-
estado vígil, levaram a paciente a adquirir consciência dos aconteci- dina e insignificante, revela ser a representante de um complexo e não
mentos passados que foram revelados no decorrer do sono hipnótico, se poderia compreender por que a nossa memória acumulou tal lem-
suscitando assim uma violenta descarga emocional; esta apaziguada, brança se uma investigação mais profunda não descobrisse que ela dis-
os sintomas desapareceram definitivamente. Segundo Breuer e Freud, simula a recordação de outro evento muito significativo e que nada
o recalcamento da lembrança e de seu afeto, latentes no inconsciente, tem de anÓdino. São essas lembranças que Freud chama "recordações
devia-se ao fato de que, no momento do choque psíquico, o índivíduo encobridoras" .
não estava em condições de reagir ao aconteCimento, ou seja, de Um complexo pode também manifestar-se por um súbito distúr-
exprimir-se por palavras, gestos, uma mímica, pranto ou riso, cólera, bio da expressão, da linguagem, dos atos, por gestos involuntários, sor-
irritação ou outras manifestações de uma emoção intensa, em outras risos confusos, lapsos diversos, inversões, lacunas.
palavras, em condições de elaborar suas emoções mediante associações Um terceiro modo de manifestação dos complexos recalcados é
de idéias. As emoções e as idéias, não podendo resolver-se corretamente o sonho. Uma obra de Freud entre as mais notáveis trata da interpre-
ao nível psíquico, refluíram para a esfera orgânica e converteram-se tação de sonhos; aí se encontra a tese capital que propõe ser sempre
em sintomas histéricos. O tratamento, a que os autores chamaram ca- o sonho a manifestação mais ou menos velada de um desejo recalca-
tarse, permitiu ao paciente eliminar essa lacuna, "'abreagir" os afet~s do. Como a censura é muito menos severa durante o sono do que no
não-liquidados, suprimindo assim o efeito patogênico da lembrança pn- estado vígil, a análise de sonhos permite abordar as representações e
vada de seu afeto e tornada consciente. os afetos recalcados no inconsciente.
Jung enriqueceu com um excelente instrumento o método de aná- involuntários do paciente, sua mímica, seus lapsos e confusões, seus
lise psicológica de Freud ao demonstrar que os complexos podem esquecimentos, e o incitamos a explicá-Ios. Fazemos com que relate
manifestar-se no decorrer do chamado teste de associação livre. Esse sistematicamente seus sonhos e analisamos todos seus detalhes, sem-
teste consiste em enunciar alternadamente para o paciente uma pala- pre de acordo com o método exposto mais acima. Examinamos igual-
vra indiferente ou uma palavra afetivamente investida, devendo o pa- mente as reações do paciente ao teste de associação de Jung; podemos,
ciente reagir, o mais rapidamente possível, com uIna outra palavra. A por esse caminho, tentar o acesso aos seus complexos. .
qualidade da réplica e a duração do tempo de reaç~~ - que bas!a n:e- Se esse trabalho de análise difícil e profundo for mantldo durante
dir em quintos de segundo - permitem-nos determinar as reaçoes In- muito tempo, vários meses, talvez, com um paciente histérico, este re-
vestidas de um complexo inconsciente, o que nos possibilita, em seguida, velará mais cedo ou mais tarde a existência de numerosos complexos
atingir mais depressa e mais facilmente as imagen~:mnêmicas esqueci- em estreita relação com os sintomas. Verifica-se então que o próprio
das mas sempre ativas, os grupos de representaç9.es recalcadas pela sintoma histérico é apenas um representante de complexo, indecifrável
. ,'d"
censura. :::~:: isoladamente, mas que pode ser interpretado desde que o complexo a
Vi ser empregada uma variante interessante d9:teste de associação que ele está ligado - por um fio associativo freqüentemente tênue -.
na clínica de Zurique. Jung e Peterson praticamd:>;teste submetendo se liberte do recalque e se torne consciente. O médico, além do que
o paciente examinado a um~ corrente ~alvânic~ fr~.ê.adurante? re?is- terá aprendido sobre a patogênese dos sintomas, também constatará
tro das reações. Um galvanometro mUlto senslvel;hgado ao cirCUito, com prazer e interesse que o sintoma, se foi analisado até o fim, e ~~~s
mostra em geral, no momento das reações relaciori~das com o comple- uma reação, em geral bastante violenta, desaparece total e definiti-
xo uma oscilação positiva intensa, permitindo-nó,:s:assim comparar a vamente.
influência dos complexos sobre as diferentes reáçQ'es e representá-Ios Freud certamente não empreendeu suas pesquisas a partir de uma
teoria pronta e acabada; pelo contrário, foi a experiência acumulada
grafi~~~:~e~uas grandes linhas,co~o's~pratica,i'\nétoêlode análise

psidigital
que lhe serviu de base para formar uma opinião. Para afastar os obs-
psicológica: ensinamos o. paciente a'~{{primir em:i,lavras. tudo o que táculos acumulados em seu caminho, ele não recuou diante das tarefas
lhe acode ao espírito, semexerCerC~í!i~anenhurti,~.,1c.omos~ ele se ob- mais penosas. Para completar a análise das neuroses, elaborou a única
servasse a si mesmo. Esse modo de:pensar opõe-~~J;sob mUltos aspec- teoria do sonho que é verdadeiramente satisfatória e que se apresenta
tos ao modo de pensar consciente;' onde as idéias!'quese afastam do como uma das mais notáveis realizações do espírito humano; depois,
suj~ito são imediatamente rejeitadas como sem valo~;;inutilizáveis e mes- teve de se dedicar à explicação do "acaso", ou dos atos falhos, e foi
mo perturbadoras. Mas em análise interessamo-n'o's'precisamente pelo assim que acabou escrevendo a Psicopata/agia da Vida Cotidiana; uma
que a consciência superior não quer aceitar; por issóconvidamos o pa- monografia igualmente única no seu gênero, deve sua existência às in-
ciente a contar tudo o que lhe vem ao espírito quando dirige sua aten- vestigações dedicadas aos procedimentos e motívações inconscientes do
ção justamente para essas idéias súbitas. No começo, as associações chiste e de cômico. Enfim, reunindo os resultados obtidos, Freud lan-
mantêm-se superficiais, dizem respeito aos ?conte?,imentos cotidia~os çou as bases de uma psicologia nova que representa, tenho a convic-
e às impressões novas que preocupam o indivíduo; mas logo, por in- ção disso, um ponto de mutação na evolução desta disciplina. O próprio
termédio das idéias súbitas, surgem traços mnêmicos mais antigos - Freud atribui muito mais importância aos resultados teóricos do que
as recordações encobridoras - cuja interpretação suscita, para gran- aos êxitos terapêuticos; mas a minha intenção. hoje, é apresentar-Ihes
de surpresa do próprio paciente, lembranças antigas, essenciais na vi- os novos dados da patologia e da terapêutica das neunses.
da do sujeito, que lhe escapavam até então. Essas lembranças já são Pelo método analítico, Freud chegou à estranha conclusão de que
suscetíveis de pertencer a complexos recalcados. A principal função da os sintomas psiconeuróticos resultam de complexos sexuais recalcados.
análise consiste em levar o paciente a adquirir consciência do conjunto Mas essa conclusão torna-se menos estranha quando se pensa que as
de seu universo intelectual e emocional, assim como da gênese desse pulsões sexuais estão entre os instintos humanos mais possantes, aque-
universo, e a reencontrar os motivos que determinaram o recalque das les que tendem a exprimir-se por todos os meios e que, por outro lado,
idéias ou das emoções. Essa análise - essa confissão científica - exi- a educação esforça-se por sufocar desde a infância. As noções inculca-
ge muito senso psicológico e tato. ' das: consciência moral, honra, respeito à família, ou seja, a consciên-
No decorrer da análise, observamos atentamente todos os gestos cia por um lado e, por outro, as leis escritas da Igreja e do Estado,
mento em que o complexo se tornou consciente, o sintoma desapare-
suas ameaças e punições, tudo concorre para reprimir os instintos se-
ceu definitivamente. Sem mesmo levar em conta o êxito terapêutico,
xuais ou, pelo menos, para confiná-Ios em estreitos limites. O conflito
a a?álise permite-nos, de maneira inegável, uma compreensão muito
.torna-se, portanto, inevitável; segundo a resistência do indivíduo e a
maIs profunda da gênese dos sintomas histéricos do que todos os ou-
relação de força dos instintos que se procuram exprimir, esse combate tros meios de investigação conhecidos até hoje.
termina ou pela vitória da sexualidade, ou por seu completo reca1ca-
Eis outro exemplo: uma jovem de boa família, 19 anos de idade,
mento, ou ainda, e esse é o caso mais freqüente, por um meio termo,
que manifestava a respeito dos homens um pudor extraordinário e até
uma solução de compromisso. A psiconeurose nada mais é do que uma
mesmo repugnância, viu desaparecerem suas parestesias histéricas à me-
forma de compromisso. A consciência do histérico consegue afastar
dida que a análise permitiu despertar a lembrança de experiências se-
o grupo de representações sexuais afetivamente investidas mas este en-
xuais da infância relacionadas com as partes doloridas de seu corpo,
contra, no entanto, um modo de exprimir-se pela via simbólica - a
e que ela tomou consciência das fantasias sexuais que a elas se ligaram
das associações - convertido em sintomas orgânicos.
no momento da puberdade. Em particular, um sonho da paciente for-
* neceu a explicação da raquialgia. De aspecto banal, no começo, esse
J,U-~ .
sonho, mostrou-se muito significativo quando a análise mostrou ' a seu
proposlto, como as perdas seminais recordavam à paciente uma certa
,.

A psicanálise forneceu-me numerosas prova$;de que só a interpre-


publicidade vista nos jornais. A paciente, cujos conhecimentos fisioló-
tação segundo Freud pode elucidar os sintomas da histeria. Eis alguns
exemplos colhidos entre outros. .)\;11' g~co~eram um tanto escassos, sentira-se apreensiva porque, em sua in-
fancla, sofrera de leucorréia, em conseqüência de práticas onânicas'
Um jovem de 17 anos veio me procurar: qUéixa-se de salivação
intensa que o obriga a cuspir o tempo todo. Nãop'ode fornecer nenhu- a raquialgia era determinada pelo seu medo de ser vítima de atrofi~
ma informação sobre acausa ou aorigem do ma.l10 exame não reve- esp~n~al, mal atribuída pela concepção popular e pela publicidade jor-
nahstlca à masturbação.
lou nen~uma. afecção ·prgânica: ra\isalivação; ~~pe eu· efetivamente

psidigital
constateI, deVIa ser qualIficada, portanto; como.'$ãlivação histérica ou Na base dos sintomas de uma outra jovem histérica (soluços, rigi-
ptialismo. Mas; em vez de prêscreverbochechos'rttedicamentosos bro- dez, angústia histérica) a análise descobriu cenas de exibicionismo vis-
meto, hipofosfato ou eventualmente atropina,ifdmiti o paciente em tas na infância, uma tentativa de agressão sexual sofrida na adolescência
psicanálise. Em primeiro lugar, a análise revelou1que a necessidade de e as fantasias correspondentes que suscitavam sua repugnância.
cuspir manifestava-se essencialmente na presençl'de mulheres. Mais Surpreender-se-ão os leitores que se possa ter semelhantes conver-
tarde, o paciente lembrou-se de já ter tido anteriormente esse transtor- sas com uma jovem. Mas Freud já respondeu apresentando aos médi-
no quando, no Museu Anatômico do Vàrosligetl, vira moldes repre- cos esta pergunta igualmente justificada: como se atrevem eles a
examinar e até a tocar nesses órgãos de que o neurologista não se can-
sentando os órgão genitais femininos e outros reproduzindo os sintomas
de doenças venéreas na mulher. Diante desse espetáculo, ele fora to- s~ de falar? Com efeito, da mesma forma que seria estúpido renun-
CIa:, por falso pudor, às intervenções ginecológicas em moças, também
mado de um mal-estar, saíra às pressas do museu e voltara para casa
a fim de ... lavar as mãos. Por que razão o fizera, não pôde dizê-Io; seria imperdo~ve~ deixa~ sem cuidados médicos, por simples pudor, as
mas a seqüência da análise revelou que a visita ao museu despertara doe.nçasdo ps~qUlsmo. E evidente que a análise deve ser praticada com
nele a lembrança de sua primeira relação, quando sentira uma repug- mUIto tato; o Juramento hipocrático do "nil nocere" o exige tanto do
nância intensa à vista do órgão genital feminino eem seguida se lavara neurologista quanto do ginecólogo. E se uma mão inábil ou criminosa
durante horas a fio. Mas a explicação para essa repugnância excessiva p.ode ~rejudicar.o paciente, isso tampouco é peculiar à neurologia: a
só veio a ocorrer no final da análise, quando o rapaz se lembrou de CIrurgIa oferece Igualmente numerosos exemplos. Mas isso não é uma
ter, aos cinco anos de idade, praticado o cunnilingus com garotinhas r,azão suficiente para preescrever a cirurgia ginecológica ou a psicaná-
de sua idade, entre elas sua própria irmã. A causa da salivação era, ltse. ~n:a fra,~ede Goethe caracteriza muito bem essa hipocrisia de cer-
portanto, essa lembrança reca1cada, latente sob a consciência. No mo- tos medIcos: Du kannst vor keuschen Ohren nicht nennen was keusche
Herzen nicht entbehren konnen."t '
1. Um bosque perto de Budapeste, equivalente ao Bois de Boulogne em Paris. (Nota
dos tradulores franceses, doravante NTF):
Poderia acumular exemplos infinitamente. Uma paciente histéri- tecimento foi seguido de enurese noturna repetida. Mais tarde, duran-
ca de 40 anos, que sentia por momentos um insuportável amargor na te a análise, fiquei sabendo que o rapaz, no início da infância,
boca, lembra-se no decorrer da análise de que sentira esse mesmo tra- entregara-se - entre outras investigações de ordem sexual -.a uma
\'0 amargo no dia em que seu irmão, vítima de doença incurável, to- coprofagia recíproca com seus camaradas, e quando a mãe o beijava,
mara seu quinina não pela mão dela, como de hábito, mas de uma outra ocorria-lhe o pensamento insuportável de que poderia tentar essa ex-
pessoa, tão desastrada que o comprimido se desfizera e o produto amar- periência também com ela. Essas lembranças, há tanto tempo esqueci-
go tinha incomodado o doente. A análise revelou mais adiante que, das, ressurgiram quando ele contou o episódio em que foi amarrado
na sua infância, seu pai, que a amava muito, a colocava com muita por seus companheiros e em que, com o relaxamento dos esfíncteres,
freqüência sobre os joelhos, a apertava nos braços e a beijava, intro- deixou escapar seus excrementos; o rapaz recalcara essas lembranças,
duzindo sua língua entre os lábios da criança. O gosto amargo simbo- porque se lhe haviam tornado insuportáveis. Houve um período em
lizava igualmente a personagem paterna, grande fumante todo im- que eu podia provocar a crise evocando qualquer uma das necessida·
pregnado do cheiro do fumo. Neste caso, comoiem tantos outros, des naturais. Foi necessário um longo esforço verdadeiramente "pe-
existe "superdeterminação" do sintoma que, por via de conversão, ex- dagógico" a fim de tornar essas lembranças mais toleráveis. Este caso,
prime vários complexos. .,", que eu não tive a possibilidade de tratar mais demoradamente, confir- .
As crises histéricas, as cãibras, produzem-se ~ como a análise mos- ma a concepção de Jung, que considera a análise um tratamento dinâ-
trou - quando uma impressão psíquica está tão intensamente vincu- mico que deve habituar o paciente a enfrentar as representações penosas.
lada ao complexo recalcado que a consciência não pode proteger-se de Quando a análise pode ser suficientemente demorada, ela revela,
sua reprodução e abandona-se a ela inteirament~J O mecanismo é o em todos os casos de histeria, a presença de lembranças recalcadas de
seguinte: o psiquismo, tal como o corpo, apreseq(a pontos histeróge- acontecimentos sexuais da infância, e de fantasias reprimidas relacio-
nos; quando atingidos, provoca-se o estado desd#o por Freud como nadas com os mesmos, onde proliferam, à custa das tendências se-

psidigital
"dominação da consciência pelo inconsciente" ((Jberwéiltigung durch
'1<\."'1,
xuais normais, todas as chamadas perversões. O tratamento ànalítico
das Unbewusste). De acordo com as minhas próprias análises, os mo- tem essencialmente por objetivo entregar à sua destinação primordial
vimentos, contrações e caretas que redundam na'1ti'ise de histeria são as energias desviadas para vias anormais e desperdiçadas na prOdução
os símbolos e os sintomas que acompanham as lêitibranças e as fanta- e manutenção de sintomas mórbidos. Só depois de se alcançar esse re-
sias recalcadas. '.. . :);~j., sultado é que se pode recorrer ao arsenal atualmente conhecido do tra-
Um jovem aprendiz de 15 anos foi-me apres.~ntado por seu pai: tamento das neuroses que tenta empregar a libido liberada em atividades
suas crises de histeria, que eu mesmo pude observarem várias ocasiões, físicas e psíquicas, mais especialmente aquelas que correspondem às
manifestavam-se por contrações tônicas e clônicas~que demoravam al- tendências do indivíduo: os esportes ou então, um meio excelente para
guns minutos; no final das crises, o paciente puxava a língua com vio- a mulher, as atividades beneficentes.
lência três ou quatro vezes. A primeira crise produzira-se quando, por Com base no que precede, seguiremos mais facilmente Freud na
brincadeira, jovens aprendizes o tinham amarrado, causando-lhe grande sua explicação da gênese das idéias obsessivas e dos atos obsessivos,
susto. Segundo a teoria atualmente em voga, tratar-se-ia de uma sim- ou seja, da neurose obsessiva, que forma o outro grande grupo das
ples histeria traumática; entretanto, a análise revelou que a doença ti- psiconeuroses. Nas pessoas que sofrem dessa doença, representações
nha uma origem muito mais profunda. Em primeiro lugar, soube-se sem qualquer vínculo aparente com o encadeamento normal das idéias
que, três meses antes, o rapaz tinha caído numa fossa repleta de água impõem-se constantemente à consciência sob o efeito de uma compu!-
suja e nauseabunda, e que parte do líquido penetrara em sua boca. A são interior reconhecida como mórbida mas irresistível. Em outros ca-
evocação dessa lembrança def1agrou uma crise intensa. Uma outra cri- sos, o paciente deve incansavelmente repetir o mesmo gesto ou o mesmo
se violenta precedeu o aparecimento da lembrança de um fato ocorri- ato, na aparência totalmente desprovido de significação ou de objeti-
do aos 13 anos de idade. Quando brincava de cabra-cega com seus vo, cujo caráter patológico é dolorosamente percebido por ele sem que
companheiros, estes, por zombaria, puseram-lhe nas mãos uma vara possa impedi-lo. Todas as tentativas para explicar e curar essa afecção
suja de excrementos; quando, num gesto instintivo, ele levou a mão fracassaram até agora. Na mais recente edição do seu ma:nual, Oppe-
ao rosto para retirar a venda, não pôde evitar o contato da boca e do nheim diz ainda: "O prognóstico da neurose obsessiva é grave ou, pe·
nariz com os excrementos que tinham aderido a seus dedos. Esse acon- 10 menos, duvidoso." E isso não deve causar surpresa, visto que, não
dispondo do método psicanalítico de Freud, ignorávamos a gênese da ver ou tocar um livro, até o dia em que a origem de seu mal pôde ser
enfermidade e não podíamos entender o verdadeiro significado do sin- descoberta: aos 8 anos de idade, um rapazinho de 12 anos tinha por
toma nem descobrir o caminho para a cura. Ora, por meio da análise, duas vezes praticado nela o coito regular; perdera. desses episódios, to-
tal como foi exposta mais acima, depreendeu-se que a idéia obsessiva da a recordação até aos 16 anos quando, ao ler o livro J~ck, o Estnp~-
é apenas o sintoma de um complexo de representações recaJcado, ao dor acudiu-lhe a idéia de que, se se casasse, seu mando a matana
qual ela se liga por via de associações, e que também as neuroses ob- por~ue ela já perdera há muito a inocência. A paciente conseguiu ain-
sessivas dissimulam lembranças e fantasias Iibidinais. A diferença en- da desembaraçar-se dessa idéia deslocando o medo para os romances
tre a histeria e a neurose obsessiva consiste no seguinte: na histeria, e para os livros em geral, o que sua consciência suportava aparente-
a energia psíquica do complexo recalcado converte-se em.sintoma or-· mente melhor do que a lembrança dos acontecimentos sexuais infan-
gânico; na neurose obsessiva, pelo contrário, a consciência, para tis. A consciência, para garantir sua tranqüilidade, não se preocupa
libertar-se do efeito deprimente de uma representação, priva-a do afe- muito com a lógica. _ . .
to que lhe está vinculado e investe-o_numa outra representação, anódi- Um de meus pacientes estava obcecado por uma repugnancla Imo-
na, associada superficialmente com a original. Freud deu o nome de derada à carne gordurosa e a todos os produtos salgados, mas tudo
substituição a esse mecanismo específico de deslocamento dos afetos. se reordenou assim que a análise revelou que, em sua infância, um ra-,
O pensamento obsessivo que vem importunar a consciência de forma paz gordo e corpulento, muito mais velho do que el~, ,Praticara nele
incessante nada mais é do que um bode expiatório injustamente perse- um coito per os. A carne gordurosa representava o pems, o gosto sal-
guido pelo paciente, enquanto o pensamento efetivamente' "culpa- gado, o esperma.
do" desfruta de perfeita tranqüilidade no inconsciente. E o equilíbrio Foi igualmente o estímulo "sal" que, no teste de associação, pro-
psíquico só se restabelece depois de ter sido descoberta, por meio da vocou num aprendiz de tipógrafo de 17 anos uma reação nitidamente
análise, a representação recalcada. O complexo desvendado apodera- perturbada: a análise obteve a explicação pela prática do cunnilingus .
se então da emoção falsamente localizada, com uma avidez que recor- na infância.

psidigital
da a das misturas não saturadas, e acura sobreV~p1. O paciente será Os gestos e os atos obsessivos - e trata-se ainda de uma desco-
provido de uma lembrança desagradável ou do dissabor de uma toma- berta de Freud - são medidas de proteção da consciência contra as
da de consciência, mas.estará livreda,~q.éiaobs~<~iva. próprias idéias obsessivas. O ato dissimula sempre uma idéia obs~ssiva
Nas mulheres, são muito freqüentes as cham:adas idéias obsessi- que, por sua vez, dissimula um sentimento de culpa. A obsessao de
vas de tentação. Elas são acometidas pela idéia de:,,~ejogar pela janela, limpeza, de asseio, é portanto uma forma desviada de apagar nódoas
de enterrar uma faca ou uma tesoura no corpo dofilho, etc. A psica- morais que suscitaram a idéia obsessiva. As compulsões a contar, a
nálise de Freud mostrou que, na realidade, essas mulheres estão, com ler todas as tabuletas ritmar regularmente os passos a caminhar, etc ...
freqüência, insatisfeitas em seu relacionamento, ,e'o que elas querem etc ... servem todas p~ra desviar a atenção de pensamentos desagradá-
preservar da tentação é justamente sua fidelidade. conjugal. Uma pa- veis. Um paciente de Freud sentia-se obrigado a apanhar e meter nos
ciente de Freud, uma jovem, era constantemente torturada pela idéia bolsos todos os pedaços de papel. Essa compulsão desenvolvera-se a
de não poder reter a urina quando se encontrava em reuniões sociais. partir de uma outra idéia obsessiva, o horror a todo e qualquer ~ap~l
Por isso ela se retirara num completo isolamento. A análise fez apare- escrito, horror que dissimulava as angústias de uma correspondencla
cer que a representação da incontinência dissimulava a culpa de uma amorosa secreta. Um de meus pacientes, pessoa muito esclarecida, era
lembrança sexual completamente esquecida, na qual intervinha a sen- levado por um medo supersticioso a colocar dinheiro, a todo o instan-
sação da necessidade de urinar. te, numa certa caixa de esmolas de igreja. A análise mostrou que a doa-
Um de meus pacientes, excepcionalmente bem dotado sente-se coa- ção monetária devia representar um ato de contrição porque, certa vez,
gido a uma meditação perpétua sobre a vida, a morte, ; maravilhosa ele tinha desejado a morte do pai. E se a caixa de esmolas se tornara
organização do corpo humano, o que aniquila de maneira quase total o objeto apropriado para exprimir a contrição era porque, certa vez,
sua alegria de viver e sua capacidade de trabalho. A análise revelou em sua infância, o paciente jogara pedras em vez de dinheiro na caixa
que, na sua infância, tinha ousado manifestar sua curiosidade pelos de esmolas de uma igreja.
órgãos genitais da mãe; ainda hoje sofre a punição por isso. Freud ficou estupefato com a elevada proporção de traumas se-
Uma de minhas pacientes sentia uma repugnância inexplicável ao xuais infantis revelados pela análise das neuroses. Acreditou no início
que todas as neuroses eram a conseqüência de acidentes fortuitos de Quando se trata de neurose complexa, a análise só pode resolver,
ordem sexual. Mas quando a análise de indivíduos saudáveis fez apa- evidentemente, os sintomas psiconeuróticos; as fisioneuroses subsistem
recer a lembrança de traumas análogos na infância, sem que mais tar- como um depósito insolúvel e só reagem às regras apropriadas de hi-
de sobreviesse uma psiconeurose, Freud teve de admitir que o verdadeiro giene sexual.
agente patogênico não é o trauma em si mas o recalque das representa- Não posso deixar de assinalar aqui, certamente, que algumas das
ções que a ele se ligam. minhas análises foram fracassos. Mas isso aconteceu quando não levei
Foi assim que Freud restabeleceu em seus direitos a predisposição em consideração as contra-indicações enunciadas por Freud, ou quan-
indiyidual no que se refere à origem das neuroses, ao passo que, no do o meu paciente ou eu mesmo perdemos prematuramente a paciên-
começo, impressionado pela grande freqüência dos traumas, só lhe atri- cia. Ainda não encontrei um fracasso que pudesse ser atribuído ao
buíra pouca importância. Mas tornou precisa a noção mal definida de método: mesmo através dos malogros, o método analítico foi-me de
tara hereditária ou de predisposição ao postular ade constituição se- uma ajuda inestimável para avaliar e compreender o caso e, em parti-
xual anormal, da qual uma forma se caracteriza pelo recai que exage- cular, para obter dados que a anamnese de rotina jamais me poderia
rado dos complexos sexuais. ter fornecido.
Partindo de suas investigações sobre as neuroses, Freud, em sua Para traçar um quadro completo do que a análise fornece à pato-
mais recente obra, refez a história do desenvolvimento sexual do indi- logia, cumpre saber que a aplicação científica do método em psiquia-
víduo. Nesse trabalho, demonstrou que a libido é inseparável da vida tria está igualmente em plena expansão. A excelente monografia de Jung
e que ela acompanha o indivíduo desde sua concepção até a morte. Na permitiu compreender a sintomatologia da demência precoce a partir
criança, nos anos que precedem a fase educativa, as tendências libidi- de psicologia dos complexos; eu mesmo pude convencer-me, segundo
nais desempenham um papel muito maior do que se ,acreditava até ho- o caminho traçado por Freud, de que o mecanismo da paranóia con-
je; é nessa idade, no período das perversões infantis,·quando a satisfação siste numa projeção sobre outrem ou, de modo mais geral, sobre o

psidigital
da libido ainda não está vinculada a um órgão preciso, quando as no- mundo externo, de complexos destinados ao recalque.
ções morais ainda não limitam a satisfação dos dêsejos,. que as oca- Não se deve supor, entretanto, que Freud põe de lado todos os
siões são numerosas para receber impressões qÜe, mais tarde, o fatores patogênicos que não sejam de caráter sexual. Já mencionei a
indivíduo gostaria de recalcar, mas cujo recalcamento provoca fenô- importância que ele atribui à predisposição hereditária; por outro la-
menos mórbidos naqueles que estão para tal precli~postos. do, o medo, os choques psíquicos, os acidentes, podem deflagrar igual-
Todo esforço de pedagogia sexual que não le'l~ em consideração mente a neurose em conseqüência de sua força traumática. Mas só os
os fatos que a psicanálise de Freud nos revelou, et#nda revelará, está fatores sexuais podem ser considerados a causa específica da neurose,
condenado a ser um discurso moralizador e oco;,tt porque estão sempre presentes e, com freqüência, são os únicos emeau-
!~~}L sa, e também porque modelam os sintomas à sua própria imagem e
.~~;~,,:~.;: semelhança. E - last not leastl - a prova terapêutica mostra que o
sintoma neurótico desaparece assim que o fator sexual é redescoberto
Neurastenia, angústia, histeria e neurose obsessiva apresentam-se e eliminado, e que a libido, perturbada em sua expressão fisiológica
quase sempre em estado combinado; mas onde os sintomas estão con- ou desviada por via psíquica, é devolvida à sua destinação.
fundidos, podemos sempre constatar, se nos dermos ao trabalho de Espero encontrar uma violenta oposição às teorias de Freud, em
procurar, a "combinação etiológica" descrita por FrelJd. Aquele que, especial aquela que trata da evolução da sexualidade. Isso é natural.
após um longo período masturbatório, interrompe bruscamente suas Pois a própria validade da teoria de Freud estaria posta em dúvida se
práticas, apresentará, simultaneamente, parestesias'neurastênicas e es- a censura oposta à sexualidade só se manifestasse nos neuróticos, sem
tados ansiosos. Uma jovem de constituição sexual anormal que se en- que houvesse dela o menor vestígio nas pessoas saudáveis, particular-
contra, pela primeira vez, diante das exigências efetivas do amor sentirá mente nos médicos saudáveis.
uma angústia que a tendência para o recalque fará evoluir para a histe- Todos nós saímos da adolescência atulhados de uma multidão de
ria. A impotência psicossexuaJ que, depois de Freud, deixou de ser um representações sexuais recalcacias, e a reticência em face da discussiio
problema terapêutico, apresentou-se como uma combinação de neu-
rose histérica, obsessiva e atual.
aberta da sexualidade é uma defesa contra sua irrupção na consciên-
cia. Como já disse, eu próprio recusei-me por muito tempo a aprofun-
dar o problema. Mas posso assegurar-Ihes que a observação livre de
preconceitos da vida sexual é suficientemente instrutiva para aceitar 111
o sacrifício necessário à vitória sobre a antipatia e a resistência - hu-
manamente compreensíveis - que sentimos em analisar esses proble-
mas. Sem dúvida, compreendo agora a minharepugnância em adotar
a teoria de Freud, mas isso não me ressarce dos anos perdidos em que, Interpretação e Tratamento Psicanalzíicos
para enfrentar os enigmas das neuroses, dispunha unicamente do arse-
nal pouco afiado do passado. ' da Impotência Psicossexual1
É o neurologista praticante que se exprime por minha boca quan-
do insisto na importância das novas teorias nô~domínio da neuropato-
logia e da psiquiatria. Se nos situarmos num ponto de vista mais elevado
e mais geral, as possibilidades contidas nessa'Ilova teoria para se che-
gar a uma compreensão mais profunda do filncionamento do apare- São raros os argumentos objetivos opostos à interpretação e ao
lho mental e da economia das forças que óregem são ainda mais tratamento das psiconeuroses segundo o método de Freud. Um dentre
eles é o que diz ter esse tratamento apenas uma ação sintomática. Tal-
consideráveis. ",
Estou convencido de que a psicologia individual e coletiva, assim vez suprima os sintomas histéricos mas não cura o substrato histérico.
como a história das civilizações e a sociologia que nela se fundamenta, Freud responde corretamente que a crítica é muito mais indulgente com
extrairão uma força de progresso importante~dosconhecimentos que os outros modos de tratamento da histeria. Por outro lado uma análi- '

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as investigações de Freud nos revelam. "1ft" se suficientemente profunda - que Freud compara às es~avações ar-
j'-::);:j queológicas - pode provocar no paciente uma modificação tão
fundamental da personalidade que talvez não tenhamos mais o direito
de considerá-Ia patológica. As observações de Jung e de Muthmann
permitem até concluir que uma análise levada a seu termo reforça as
defesas do indivíduo em face de novos traumas psíquicos, quase ao
ponto de um indivíduo são não-analisado. Sabemos agora que os indi-
víduos saudáveis conservam durante toda a vida um certo número de
complexos de representações inconscientes recalcadas, que podem, por
ocasião de um trauma, intervir com toda a sua energia afetiva para
aumentar seu efeito patogênico.
Em compensação, a obrigação de fornecer tal prova desaparece
quando a nossa tarefa limita-se à redução de um único sintoma. Entre
elas, uma das mais difíceis continua sendo o tratamento da chamada
impotência psíquica.
É tamanho o número de pessoas atingidas e tão grande é seu in-
fortúnio moral, que nunca deixei de multiplicar as tentativas de trata-
mentos medicamentosos2 e sugestivos3 para remediá-Io. Os dois

1. Conferência pronunciada em 7 de novembro de 1908 na Sociedade Real de J\le-


dicina de Budapeste.
2. Ferenczi, De Ia pharmacologie neurologique, "Gyógyàszat", 1906.
3. Ferenczi, De Ia valeur Ihérapeulique de I'hypnose, "Gyógyàszal", 1904.
métodos me valeram alguns êxitos mas nunca resultados verdadeira- num complexo de representações inconscientes, cuja força de interdição,
mente satisfatórios. Sinto-me hoje muito mais feliz por poder apresen- de inibição, manifestava-se no instante preciso do coito. Esse estado mór-
tar resultados mais positivos, graças ao método psicanalítico de bido é muito conhecido sob o nome de "impotência psíquica"; sabíamos
Freud 1. Antes de qualquer consideração de natureza teórica, quero que é a inibição resultante do medo o que interrompe a passagem do arco
passar a expor alguns casos, reservando os meus comentários para a reflexo, aliás intato. Entretanto, era admitido geralmente que esse es-
conclusão. tado explicava-se pela simples "pusilanimidade", ou pela lembrança
Um artesão de 32 anos vem me consultar. Seu comportamento tí- de um fracasso sexual, e nossa ação médica limitava-se a tranqüilizar,
mido, quase submisso, anuncia de imediato a "neurastenia sexual". a encorajar, com, por vezes, alguns resultados. Conhecendo a psicolo-
Penso primeiramente que ele está oprimido por uma culpa de mastur- gia segundo Freud, eu não podia me satisfazer com uma explicação
bação e suas conseqüências. Mas seu mal é muito mais sério; depois tão superficial; fui levado a supor que a impotência não era determi-
que chegou à maioridade, nunca soube o que era satisfação sexual por nada pelo "medo" mas por processos mentais inconscientes de con-
causa de uma ereção imperfeita e de uma ejaculação precoce. Já con- teúdo bem definido, cuja,s raízes remontavam à primeira infância,
sultara vários médicos; um deles, bem conhecido por seus anúncios pu- provavelmente um desejo sexual infantil que, no decurso do desenvol-
blicitários na imprensa, apostrofara-o brutalmente: "Você se esgota, vimento cultural, tornou-se impossível ou mesmo impensável. A todas
é isso que lhe acontece!" O paciente, que entre 15 e 18 anos tinha efe- as minhas perguntas formuladas nesse sentido, o paciente respondia
tivamente praticado o onanismo, adquiriu a firme convicção de que negativamente. Nada de particular acontecera com ele: nunca fizera
a impotência era a conseqüência merecida e irremediável desse "crime qualquer observação nem tivera experiência alguma de caráter sexual
da mocidade". em relação com seus pais, sua família ou seu meio; na sua infância,
Essa experiência penosa afastara-o por algum tempo dos médicos; pouco se ocupava "dessas coisas"; jamais apresentara tendências ho-
mais tarde, fez nova tentativa com um outro médico que o tratou pelo mossexuais; a idéia de fazer funcionar suas "zonas erógenas" o repug-

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meio privilegiado da terapêutica sugestiva: a corrente elétrica, nava (erotismo anal, oral); exibicionismo, sadismo, masoquismo,
prodigalizando-lhe fortes encorajamentos. Mas'não obteve qualquer eram-lhe inteiramente desconhecidos. No máximo, reconheceu, bas-
resultado. O paciente ter-se-ia resignado à sua sorte se não tivesse en- tante constrangido, uma predileção algo excessiva pelos pés e sapatos
contrado recentemente uma jovem a seu gosto.:Foi o que o decidiu a femininos, sem poder dar qualquer informação sobre a origem dessa
fazer essa "última tentativa". ',;, atração fetichista. Naturalmente, convidei o paciente a contar-me em
O caso é muito banal: a anamnese não continha nenhum elemen- detalhes como adquiriu seus conhecimentos sexuais, suas fantasias de
to significativo. Viu-se que a impotência era acompanhada de um con- masturbação, o desenrolar de suas primeiras tentativas sexuais frus-
junto de sintomas neuróticos, principalmente~transtornos de sono, tradas. Contudo, mesmo essa anamnese aprofundada não revelou na-
pesadelos, hiperestesia auditiva, parestesias diversas e uma hipocon- da que pudesse fornecer uma explicação satisfatória de seu estado.
dria intensa; tratava-se, portanto, de uma neurose de angústia na acep- Sabemos, porém, desde Freud, que uma anamnese, mesmo supondo-
ção de Freud, provocada pela insatisfação' sexual e as freqüentes se a maior franqueza e uma excelente memória do paciente, não tra-
excitações frustradas. Pois o paciente, apesar da:deficiência de seu me- duz a verdadeira história do desenvolvimento do indivíduo; a consciên-
canismo de coito no momento crítico, fantasiava continuamente, em cia sabe "esquecer" tão bem as lembranças e os pensamentos que se
estado vígil ou de sonolência, situações sexuais que eram acompanha- tornaram penosos que somente o laborioso trabalho de análise pode
das de ereções intensas. Foi esse fato que me fez suspeitar de que, além fazê-Ias surgir do recalcamento e trazê-Ios para a consciência. Apli-
das conseqüências nervosas da abstinência, o paciente devia sofrer tam- quei, portanto, sem hesitação, o método psicanalítico.
bém de psiconeurose, devendo a causa da impotência ser procurada A análise confirmou rapidamente as minhas suspeitas quanto à
psiconeurose. A par dos sintomas já mencionados, o paciente'queixava-
I. As minhas fontes na literatura são: o conjunto das obras de Freud, assim como se de diversas parestesias histéricas; depois, surgiram vários temas ob-
as seguintes obras de dois médicos vienenses: sessivos: a impossibilidade de olhar as pessoas nos olhos, covardia, sen-
- Dr. Steiner: Die funktionelle Impotenz des Mannes [A impotência funcional
timento de culpa, medo do ridículo, etc.
masculina!. Wiener Med. Presse. 1907. 42~ parte.
- Dr. Steckel: Nervõse Angstzustiínde [Os estados nervosos de anglÍstia], Viena, Essas formações obsessivas são muito características da impotên-
Braunmüller, 1908. cia sexual. A covardia derivada da impotência explica-se pela difusão
em toda a personalidade do efeito humilhante dessa insuficiência. Freud
diz muito corretamente que a eficácia sexual prefigura toda a persona- te essa observação. Ocorre que esses sujeitos sonham várias vezes nu-
lidade (Vorbildlichkeit der Sexualittit). O grau de segurança da eficá- ma mesma semana que se submetem às provas de bacharelato, de
cia sexual orienta a segurança do julgamento e dos atos. Entretanto, licenciatura, etc., mas que não podem ser bem-sucedidos por falta de
uma preparação suficiente. Essa incapacidade no sonho resulta do sen-
o sentimento imotivado de culpa, tão importante em nosso paciente,
timento de incapacidade sexual. Também é provavelmente uma metá-
faz suspeitar da existência de pensamentos de algum modo "verdadei-
fora vulgar para significar o coito, o que explica por que os impotentes
ramente culpados", mas profundamente recalcados. Pouco a pouco
a quem tive em tratamento sonhavam freqüentemente com armas de
a análise acumulou o material que me permitiu deduzir a natureza des~
sa "culpa". fogo enferrujadas, emperradas, que não duram muito, não acertam
No começo, chamou-me a atenção o interesse acentuado que o pa- no alvo, etc.
Uma certa crueldade ativa surgia amiúde nos sonhos do nosso pa-
ciente manifestava em seus sonhos pelas mulheres corpulentas "de quem
ciente; via-se decepando o dedo de alguém a dentadas, mordendo-o
jamais via o rosto"; com elas, mesmo em sonhos, era-lhe impossível
no rosto, etc.; não foi difícil descobrir a origem desta na hostilidade
consu~ar o ato: no último momento, em vez da ejaculação esperada,
que sentira em sua infância contra um irmão, mais velho vinte anos
ele era invadido por uma angústia intensa e acordava em sobressalto
do que ele, hostilidade plenamente justificada pelo comportamento da- .
em meio a pensamentos como: "Isso não pode ser!", "Esta situaçã~
quele em relação ao caçula. Essa tendência para a crueldade encontra-
é impensável!". Após esses sonhos angustiantes, acordava extenuado,
se igualmente em estado vígil, mascarada pela pusilanimidade do pa-
moído, cobeno de suor, o coração palpitante, e passava um péssimo dia.
ciente. Toda a vez que se mostrara covarde diante de alguém, geral-
O fato de que nesses sonhos jamais vira o rosto da mulher consti-
mente um superior, passava depois longos minutos a fantasiar situações
t~i u~ exen;plo típico de deformação onírica (Tr,qumentstellung), cuja
fmalldade e tornar irreconhecível a mulher par;:t;fquem convergem os onde daria provas de energia ou de audácia em face dessa mesma pes-

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soa, ou então lhe infligiria diversas punições corporais. É a manifesta-
pensamentos libidinais. Em contrapartida, o despertar em sobressalto
ção de l'esprit d'escalierl, tão freqüente nos psiconeuróticos cujas
indica uma tomada de consciência incipiente da;:'timpossibilidade des-
sa situação" com a mulher evocada fiO sonho.;;,\. crise de angústia é fantasias permanecem, em geral, no estado de eternos devaneios; na
próxima ocasião, a velha timidez virá reprimir o insulto prestes a bro-
a reaçào afetiva da consciência superior à realização desse desejo.
tar, reter a mão prestes a agredir. A estreita relação psicológica entre
.U:n ~xcelente autor húngaro (Ignotus) desç.9briu,ao que parece,
a eXlstencla da deformação onírica e da censuraiqnírica, como o teste- covardia, crueldade e impotência sexual é posta em grande evidência
munha o seguinte fragmento de um poema: -~'í1:\ por Ibsen no personagem do bispo Nicolas da peça Os Pretendentes
',;;~
à Coroa. Essa pusilanimidade e essa timidez têm sua origem no respei-
... Os sonhos de um poltrão revelam o hbmem. to que outrora compensava a revolta da criança contra os castigos cor-
porais e as reprimendas dos pais e dos irmãos mais velhos.
Que ele nem em sonhos se atreve a ser (~r~.
A vida o quebra e o agride tão durament~i;
Dada a relação fisiológica e a estreita associação de idéias que existe
entre as funções de ejaculação e de micção, não surpreende que a aná-
'. 'H~*;
Àqueles a quem o orgulho médico leva a'<1~sprezar a literatura, lise tenha igualmente revelado no paciente uma inibição para a mic-
respondo como o fiz no meu artigo intitulado),~O Amor na Ciência" ção. Era incapaz de urinar na presença de outra pessoa. Quando estava
(<?~ógyàszat, 1901): as fontes do nosso conhecirt'iento da psicologia in- sozinho num urinol público, produzia um jato normal e regular. Mas
dl\'ldual não se encontram na literatura médica mas, antes, nas obras se entrasse uma outra pessoa, o jato era interrompido, "como se o ti-
literárias e poéticas. vessem cortado". Esse grande pudor que manifestava mesmo em rela-
O interdito que impedia a satisfação sexual era tão forte no nosso ção a homens me fez concluir que o componente homossexual nesse
paciente que, mesmo em suas fantasias sexuais diurnas, no momento paciente é superior à média, como na maioria dos neuróticos. Pensei
de imaginar o ato, refreava-se e desviava seu pensamento para outras que sua origem podia estar ligada à pessoa de um irmão com quem
coisas. Freud fez-me observar com que freqüência os impotentes repe-
tem o sonho típico do exame, o que, aliás, se encontra igualmente nos J. Em francês no texto húngaro. A expressão "o espírito da escada" alude ao fato
individuos de potência normal; eu mesmo posso confirmar plenamen- ?e se,encontrar tarde demais a resposta que devia ter sido dada no momento oportuno,
Isto e, antes de descer a escada. (N, T.)
ele compartilhara a cama durante muitos anos, e com quem tinha con- o paciente só se mostrou meio convencido e manteve-se em sua
cluído uma aliança ofensiva e defensiva contra.as provocações do ir- negativa. Mas, no dia seguinte, veio anunciar-me, muito embaraçado,
mão mais velho. Quando falo de "homossexualidade superior à média" que tendo refletido maduramente sobre tudo o que fOia dito, lembrara-
é para sublinhar que a observação psicanalítica confirma a teoria da se de que em sua juventude (dos 15 aos 18 anos) tomara com freqüên-
bissexualidade, a saber, que a estrutura primitivamente bissexual do cia para objeto de suas fantasias de masturbação a sua experiência in-
homem não deixa apenas vestígios anatômicosl mas também traços fantil com a irmã; os remorsos provocados pela imoralidade desses
psicossexuais que, sob o efeito de circunstâncias exteriores favorece- pensamentos é que o tinham levado a abandonar esse tema; na mesma
doras, podem tornar-se dominantes. ocasião, parara de masturbar-se. Depois, nunca mais voltara a pensar
Instruído por outras análises de casos semelhantes, eu suspeitava nessas coisas.
de que a mulher corpulenta do sonho dissimulava alguma parente pró- Encorajei o paciente a prosseguir em suas tentativas de relação se-
xima do paciente: mas ele rejeitou essa suspeita com indignação e xual durante o período de análise. Pouco depois da interpretação do
anunciou-me triunfalmente que só uma de suas irmãs era corpulenta, sonho precedente, chegou com ar radiante e anunciou-me que na vés-
precisamente aquela que ele não suportava. Mas aqueles que constata- pera, pela primeira vez em sua vida, tivera uma relação rematada por
ram, como eu, com que freqüência uma simpatia penosa para a cons- um orgasmo completo e de uma duração satisfatória; com a avidez ca-
ciência é dissimulada sob um excesso de rudeza e de mau humor, não racterística dos neuróticos, repetiu a proeza por mais duas vezes no
se deixarão desarmar por essa informação ("Ich hasse weil ich nicht mesmo dia, cada vez com uma mulher diferente.
lieben kann"2, lbsen). Prosseguiu em tratamento ainda por algum tempo e decidi anali-
Pouco depois, o paciente relatou-me uma estranha alucinação hip- sar os outros sintomas de sua neurose; mas como seu principal objeti-
nagógica que já se produzira anteriormente. No momento de adorme- vo tinha sido alcançado, o paciente não se sentiu suficientemente
cer, teve a impressão de que seus pés (que sentüi~como se estivessem motivado para continuar; portanto, dei por concluído o tratamento.

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calçados, quando, na verdade, estavam descalçês}se erguiam, ao pas- Algumas explicações são necessárias para compreender esse sucesso
so que a cabeça afundava; foi tomado então de arigústia, como lhe acon- terapêutico. A importante obra de Freud sobre o desenvolvimento da
tecia tan~as .vezes em sonhos, e acordou em sobç~ssalto. Já mencionei sex~alidade no indivíduo (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade)
o seu fetlchlsmo de sapatos e pés; retomei, port:ànto, a análise apro- ensma-nos que a criança recebe suas primeiras impressões sexuais de
fundada das associações, idéias e lembranças do paciente sobre esse seu meio ambiente imediato, e que essas impressões determinam a es-
tema, o que fez surgir lembranças há muito esquicidas e deveras desa- colha posterior do objeto sexual. Ocorre, porém, que em decorrência
gradáveis para ele. Essa irmã corpulenta "que el~.não suportava", dez de fatores constitucionais ou de circunstâncias exteriores (criança ex-
anos mais velha do que o paciente, tinha o hábitp de mandar o irmão cessivamente mimada, por exemplo), essa escolha de objeto incestuo-
nessa época de 3-4 anos de idade, abotoar e des~Íj'Qtoar-lhe os sapatos; so acaba por fixar-se. Entretanto, o sentimento moral nascente do
também era freqüente fazê-Io saltar,a cavalo erii~~\la perna nua, defla- indivíduo defende-se com todas as suas forças e recalca os desejos con-
grando assim urna sensaçâo voluptuosa. (Tratà~e, sem nenhuma dú- trário.s à moral. No início, o recalcamento funciona perfeitamente, co-
vida, de uma "lembrança encobridora" ,riJ~~cepção de Freudj rno vImos no caso precedente ("Período da defesa bem-sucedida",
certamente se passaram ainda outras coisas entr~Leles.) Quando, mais Freud); mas, sob o efeito das modificações orgânicas da puberdade,
tarde, ele quis recomeçar, sua irmã, que já tinhâ.?J5-16 anos, chamou- talvez de secreções internas, o desejo pode renascer, de modo que se
o severamente à ordem por esse desejo, qualifiq~dó de imoral e incon- tornará necessário um novo recalcamento. Em nosso paciente, esse se-
veniente .'V gundo recalcamento é assinalado pela interrupção da masturbação. Mas
Assim, pude comunicar ao paciente a minh~ firme convicção de o rec~lcamento acarreta igualmente a eclosãci da neurose, da qual cer·
que a base psicológica de sua impotência devia ser procurada em seu tos sl~tomas, e~tre outros, são a impotência, datando das primeiras
desejo recalcado mas vivo de repetir esses atosdiesejo que se tornara tentatlvas de COIto, e a aversão por sua irmã mais velha. O paciente
incompatível com a "moral sexual civilizada". era incapaz de consumar o ato sexual porque toda mulher lhe lembra-
va - inconscientemente - a irmã; e não podia suportar a irmã por-
que - sem o saber - via nela não só a sua parente mas também a
I. Ferenczi. Des slades inlermédiaires de Ia sexualilé, "Gyógyászat" 1909.
2, "Odeio porque nào posso ,amar." ' mulher, e a "antipatia" constituía a melhor das proteções. Entretan-
to o controle do inconsciente sobre a personalidade física e psíquica freqüência de seus próprios pais e educadores". Irei até mais longe:
d~ indivíduo só se mantém até que a análise desvende o conteúdo dos "Não é raro que a criança seja a vítima de iniciativas sexuais dis-
pensamentos que nele se dissimulam. A partir do instante. e:n ,que a farçadas por parte de pais mais velhos. Penso não só nos miseráveis
consciência projeta sua luz sobre esses processos, o poder tlralllc,o do habitantes de casebres superlotados, mas também nos meios privile-
complexo inconsciente desmorona: os pensa.m,e~tos afastados del~am giados onde se poderia supor que as crianças estão ao abrigo das ten-
de ser um reservatório de afetos sem posslblhdades de ab-reaçao e tações." 1 O papel trágico desempenhado pela ama-de-leite na vida do
integram-se no encadeamento normal das id,éias., , ~ paciente confirmou-se posteriormente; quando o paciente, há alguns
No caso estudado, foi assim que, graças a anallse, a censura pod,e anos, manifestou a intenção de casar, a ama-de-leite, que estava então
ser contornada; por conseguinte, a energia ~f~ti.v~ do complexo de!- com mais de 70 anos, suicidou-se de desespero; o paciente estava per-
xou de ser convertida em sintoma orgânico (mlblçao sexual), mas po- suadido de que ela se matara porque tinha ouvido falar muito mal da
de desintegrar-se sob o efeito da atividade de, id~a,ção ~e, ,como todos mulher que ele queria desposar. Esse drama desencadeou as crises de
os afetos conscientes, apagar-se ao perder sua Slglllflcaçao madequada. angor cardíaco, que assumem aqui o sentido literal de "dores do cora-
ção": uma dor moral convertida. A insuficiência sexual existe desde
a puberdade; foi consideravelmente melhorada pela análise; contudo,
* * como o paciente submeteu-se igualmente a um tratamento urológico,
A impotência psic~ssexual re~ulta ~e um~ "fixação in~~stuosa"; quero reter somente o aspecto patogênico deste caso.
longe de ser uma exceçao, essa ongem e rel~tIvamente frequente, En-
contro sua confirmação nas análises de Stemer· e de Steckel, que che-
garam a conclusões idênticas. Eu mesm0'p0ss~ ci!ar outros,casos. Um
psiconeurótico em vias de cura (que sofna de Idéias .obses~lv~s angus- A par dos casos de inibição psicossexual determinada por com-

psidigital
tiantes e de compulsões) também apresentava uma lmpotenCla sexual plexos inconscientes, Steiner distingue duas outras categorias de impo-
em todos os pontos semelhante à do paciente anterior; Esse sintoma tência masculina, que ele atribui essencialmente ou a uma fraqueza
desapareceu por completo quando completou 28 anos de idade, a~ós congênita (Minderwertigkeit), ou a influências pós-puberdade. O va-
seis meses de análise, assim que foram reveladosse~s pensamentos m- lor dessa classificação é, na minha opinião, mais prático do que teórico.
cestuosos infantis em relação à mãe. Se eu somar a ISSOque, entre seus Um estudo mais profundo dos casos "congênitos" mostra que um
complexos de representações inconscientes, esse paciente ~l~mer:tav~ grande número dentre eles depende da pseudo-hereditariedade. Os fi-
também idéias hostis ao pai, reconheceremos aí uma perSOll1~ICaçao tI- lhos de pais anormais estão expostos desde tenra idade a influências
pica do mito de bdipo, cuja significação geral para a humallldade nos psicológicas anormais por parte de seu meio e recebem uma educação
foi igualmente revelada por Freud. falseada; são essas mesmas influências as que, eventualmente, deter-
As raízes da impotência psíquica podem remontar aos pensame~- minarão mais tarde a neurose e a impotência; sem elas, a criança "de-
tos libidinais recalcados da infância; eles não envolvem somente os paIS feituosa" talvez se tivesse conVertido também num homem normal.
mas também outras pessoas; basta que elas tenham pertencido, de um Freud compara a patogênese das psiconeuroses à da tuberculose.
modo ou de outro, à categoria das pessoas "respeitáveis". Darei o exem- Na tísica, a predisposição desempenha um papel importante mas o ver-
plo de um paciente de 45 anos, cujas crises de. angor cardíaco (angora dadeiro agente patogênico é, de qualquer modo, o bacilo de Koch, e
pectoris nervosa), assim como o estado de insuficiência sexual, encon- se ele pudesse ser neutralizado, ninguém morreria só de predisposição.
traram sua explicação em fantasiaS irrespeitosas a respeito de sua de- As influências sofridas na infância desempenham o mesmo papel nas
funta ama-de-leite. A fixação incestuosa (se é lícito exprimi-l o assim neuroses que as bactérias nas doenças infecciosas. Cumpre admitir, sem
a respeito de pessoas que não são do mesmo sangue) resultava do fato dúvida, que quando a predisposição é muito acentuada, as influências
de que a própria ama-de-leite não tinha respeitad?, em seu amor pela onipresentes e inevitáveis da vida corrente podem bastar para provo-
criança, os limites necessários: até os 10 anos de Idade, o rapa~ com- car uma incapacidade funcional; não obstante, deve ser também afir-
partilhara do seu leito, e ela aceitara sem protestos sua ternura ~á for- mado que são as influências e não a predisposição que determinam os
temente impregnada de erotismo. São casos como e~ses que me !lzeram
dizer que "as tentações e os perigos que ameaçam a Juventude vem com
~intorna~ da ncuro~e; assim, mesmo nesses casos, a terapêutica analíti- lhe tivesse reduzido a potência; mas, após algumas hesitações no co-
ca tem algumas chances de dar certo. Resta saber, naturalmente, .se meço, logrou um relativo êxito. Entretanto, o medo de não poder sa-
é vantajoso ou não para a sociedade que indivídu?s_tão vulneráveIs, tisfazer as exigências sexuais mais assíduas do casamento acabrunhava
do ponto de vista psíquico, sejam postos em condlçoes de prolongar a tal ponto esse homem já submetido aos efeitos de um complexo in-
fantil, que sobreveio uma inibição total da função.
a espécie. . . ,
Na minha opinião, a impotência psicossexual adqulfld~ apos apu- Este caso é instrutivo sob vários aspectos. Demonstra que se a po-
\'1".111"" ~,', 1111 I1I'nrrncin difere da incluída nos complexos lI1COnSClen- tência funcional é restabelecida após o desaparecimento das idéias an-
I,,, ~J,. 11111 ,.111 •• 11111"1\1111 ri" PI"I'IIIIII 1IIIIIIIIdll\l'II1lJ OIl!l1 ~CXlllll <lllrllIllc gustiantes atuais, isso não quer dizer que o medo era a única causa da
1111\ ,','1111 l"II\IH1 perde C~'i\ lili'lildad<: M11111dL:i~o de elll''''1 i111"jÚ
IIIIIU íllihil.,:i'io; é mc~m() rrováveJ que neste caso, como em outros semelhan-
!l.l·lla qll:dqlll'l' (I\\cdo de: \111111 illfe:c(,:l\o. de umH docll(,:a, cxcilaçno "e- I l:S, () mcdo atual só é patogéníco porque constitui o alvo de um deslo-
'\\la\ dl'll\(\siadl\ intensa. ete.), pode-se supor que subsistem nele camcnto de afeto cuja origem está dissimulada no inconsciente. A
Cllll\pleXOSinfantis sexuais recalcados. Assim, o efeito excepcionalmente análise superficial e os métodos sugestivos debilitaram simplesmente
intenso, patológico, do agente patogênico é devido ao afeto ligado a o sintoma na medida em que reduziram a sobrecarga que pesa sobre
esses complexos e deslocado para a reação atual. o aparelho neuropsíquico a um nível em que o paciente pode por si.
De um ponto de vista prático, Steiner tem razão em isolar esse gru- mesmo se acomodar a ele. Por outro lado, este caso ilustra como as
po porque, como ele observa judiciosamente, pode-se tratar esses ca- experiências sexuais infantis, à parte a fixação incestuosa, quando são
sos tranqüilizando o paciente, aplicando-lhe não importa que tera- acompanhadas de uma intensa humilhação, podem estar igualmente
pêutica sugestiva ou então por uma análise bastante superficial (que na origem de uma inibição psicossexual posterior.
é muito simplesmente a antiga catarse segundo Breuer e Freud, "a ab- Existe um modo de humilhação sexual infantil que merece men-
reação"). Entretanto, esses tratamentos não têm o valor profilático de

psidigital
ção especial, em virtude de sua importância prática: trata-se da humi-
uma psicanálise mais profunda; as análises, segundo Muthmann, Frank lhação que o meio inflige à criança surpreendida no ato de masturbar-se,
e Bezzola, apresentam-se, portanto, como de,menor eficácia. Têm a e cujo efeito deprimente é ainda acrescido pelas punições corporais e
vantagem, porém - como o procedimento po,! sugestão - de impor as ameaças de doenças mortais que as acompanham. Mas não se pode
uma carga muito menos pesada tanto ao paciente quanto ao médico. censurar aos pais e educadores a aplicação de um método tão indelica-
Foi uma análise superficial desse gênero que curou um jovem pa- do e perigoso para o futuro da criança, quando até uma parte dos mé-
ciente meu que se tornara impotente em conseqüência de uma gonor- dicos o aprova e o inflige a seus próprios filhos. Entretanto, Freud
réia, por medo da infecção, e também um outro de meus pacientes que mostrou-nos como a maneira de desabituar a criança do onanismo age
se tornou impotente depois de ter visto um simgramento menstrual. de forma determinante sobre o desenvolvimento posterior do caráter
Um homem de 36 anos recuperou sua autoconfíança após ter sido - ou de uma neurose. O isolamento psíquico das crianças em face dos
encorajado e tranqüilizado por sugestão: outrora muito ativo no pla- problemas sexua.is, o rigor excessivo da repressão dos hábitos infantis,
no sexual, ficara impotente quando uma união.legal o colocou na obri- o terror e a humIlhação, o respeito esmagador e a obediência cega im-
gação de cumprir seu "dever" conjugal. Nesse caso, entretanto, postos pelos pais e, com freqüência, tão pouco justificados, contribuem
continuei a análise mesmo depois do restabelecimento da função e che- para reali-zar uma verdadeira produção artificial de futuros neuropa-
guei à descoberta dos seguintes fatos: o paciente, por volta dos 3 ou tas e impotentes psicossexuais.
4 anos de idade, tinha masturbado, por instig'~Wão de um adulto, os Em conclusão, a minha concepção da impotência masculina fun-
órgãos genitais de uma menina da mesma idade; a menina, ao mesmo cional é a seguinte:
tempo, com um pequeno prego de 'madeira corno aqueles de que se ser-
via o pai do paciente, um tanoeiro, para repar~r. barris furados, tinha- I? A impotência psicossexual é um sintoma parcial de uma psi-
lhe perfurado o prepúcio. Isso lhe causara grande sofrimento; fora ne- coneurose, de acordo com a tese de Freud, ou seja, que se trata da ma-
cessária uma intervenção cirúrgica para ext~air o prego. Ao medo nifestação simbólica da lembrança de acontecimentos sexuais vividos
somara-se a humilhação. A aventura chegara aos ouvidos de seus pe- na pri.meira infância, depois recalcados no inconsciente, do desejo in-
quenos amigos, que lhe puseram o apelido de "o preguento" . Tornou-se conSCIente de conseguir a sua repetição, e do conflito psiquico que daí
taciturno e arredio. Na puberdade, assaltou-o o medo de que a cicatriz resulta.
2? No caso de impotência sexual, essas lembranças e desejos
relacionam-se com pessoas ou representações de modos de satisfação
sexual incompatíveis com a consciência do adulto civilizado. A inibi-
ção sexual é, portanto, um interdito oriundo do inconsciente, que, no
início, visava apenas um certo modo de satisfação sexual mas que, pa-
IV
ra impedir com maior segurança o retorno associativo da lembrança
e do desejo, estendeu-se a toda a atividade sexual em geral.
3? Os acontecimentos
determinarão posteriormente
sexuaís dos primeiros anos da infância que
a inibição podem ser traumas psicológi-
Psicanálise e Pedagogia!
cos graves: mas quando a predisposição para a neurose é mais acen-
tuada. impressões aparentemente benignas e inevitáveis nas nossas
condições de vida podem acarretar as mesmas conseqüências.
4? Entre as causas patogênicas determinantes da impotência psi-
cossexual, ocupam um lugar privilegiado a fixação incestuosa e a hu-
milhação sexual infantil.
5? A ação inibidora do complexo recalcado pode manifestar-se O estudo das obras de Freud e as análises pessoalmente efetuadas
desde a primeira tentativa sexual e tornar-se permanente. Nos casos podem convencer todos nós de que uma educação defeituosa é não só
mais benignos, a inibição só aparece mais tarde, por ocasião de um a origem de defeitos de caráter mas também de doenças, e de que a
ato acompanhado de apreensão ou de excitação particularmente intensa. pedagogia atual constitui um verdadeiro caldo de cultura das mais di-
Mesmo nesses casos, uma análise suficientemenÜ(profunda mostra que versas ne~roses. Mas a análise dos nossos pacientes leva-nos, queira-

psidigital
ao lado (ou, mais exatamente, por trás) da câllsa deprimente atual mos ou nao, a rever igualmente a nossa própria personalidade e suas .
dissimulam-se, como nos casos graves, lembranças sexuais infantis re- origens; daí extraímos a convicção de que mesmo a educação guiada
calcadas e fantasias inconscientes a elas vinculadas. pelas mais nobres intenções e efetuada nas melhores condições ~ uma
6? A compreensão integral dos casos de impotência psicossexual ~ez que 7steja baseada nos princípios errôneos geralmente em vigor -
só é possível com a ajuda da psicanálise segundo Freud. Nos casos mais mfluenCla de forma nociva e de múltiplas maneiras o desenvolvimento
graves, é difícil obter uma melhora por qualquer outro meio; nos ca- natural; se continuamos gozando de boa saúde, apesar de tudo, devemo-
sos mais benignos, os métodos sugestivos ou uma análise superficial 10 certamente à nossa constituição psíquica mais robusta, mais resis-
podem dar igualmente resultados. tente. Seja como for, mesmo que não tenhamos adoecido, muitos so-
7? A psiconeurose da qual a impotência funcional é um sintoma ~rimento.s psíquicos inút~is podem ser atribuídos a princípios educativos
parcial vê-se geralmente complicada pelos sintomas de uma neurose ImpróprIOS; e, sob o efeito dessa mesma ação nociva, a personalidade
atual (neurastenia, neurose de angústia). de al~~n~ ~entre nós tornou-se mais ou menos inapta para desfrutar
sem mlblçao dos prazeres naturais da vida.
Naturalmente, todas essas observações e interpretações só são vá- Uma interrogação surge então espontaneamente: qual seria o meio
lidas nos casos de impotência de origem exclusivamente psicogênica, terapêutica e ~rofilático co~tra esses males? Que ensinamentos práti-
e não nos casos de incapacidade fisiológica ou orgânica; entretanto, co~ a pe?~gogla pode extrair das observações devidas à investigação
a associação de estados mórbidos orgânicos e funcionais é, repetimos pSlcana!JUca?
uma vez mais, um fenômeno freqüente. Ess~ questão não constitui um problema de ciência abstrata. A
peda~o~la está para a psicologia como a disciplina da jardinagem para
a botamca. Mas se nos lembrarmos de como Freud, partindo também
de um problema prático limitado - de neuropatologia - chegou a

. 1. Conferência no Congresso dos psicanalistas em Salzburgo em 1908 "Gyógyàs-


:zat", 1908. '
uma perspectiva psicológica de uma envergadura absolutamente ines- de idéias podem comparar-se às sugestões alucinatórias negativas pós-
perada, podemo-nos permitir uma excursão pelos gramados do jardim- hipnóticas; pois assim como podemos obter que o indivíduo hipnoti-
de-infância, não sem uma certa esperança heurística. zado, ao despertar, deixe de perceber as impressões ópticas, acústicas
Assinalo desde já que considero esse problema insolúvel para um ou táteis, ou uma parte delas, também a humanidade é atualmente edu-
homem só, e ainda mais no âmbito de uma única conferência. Necessi- cada para uma cegueira introspectiva. Mas o homem assim educado,
tamos, neste caso, da colaboração de todos; da minha parte, limitar- tal como O hipnotizado, retira muita energia psíquica da parte cons-
me-ei hoje a ventilar os problemas que se apresentam de imediato e ciente de sua personalidade; portanto, mutila consideravelmente a ca-
a determinar exatamente a situação atual. pacidade de funcionamento desta; por um lado, alimenta em seu
O único regulador do funcionamento psíquico do recém-nascido inconsciente uma outra personalidade, verdadeira parasita, que com
é sua tendência para evitar a dor, ou seja, as excitações, uma tendên- o seu egoísmo natural e suas tendências para satisfazer seus desejos
cia a que se dá o nome de "princípio de desprazer" (Unlustprinzip). a todo custo é como que a sombra, o negativo de todo o belo e o bem
iv1ais tarde, esse princípio cai sob o domínio da autodisciplina inculca- de que se vangloria a consciência superior; por outro lado, a consciên-
da pela educação; entretanto, a tendência para evitar a dor continua cia só poderá evitar reconhecer e perceber os instintos associais dissi-
a manifestar-se também a todo o instante no psiquismo do adulto civi- mulados se os empurrar para trás de uma muralha de dogmas morais, .
lizado, ainda que sob uma forma sublimada; o homem esforça-se, ape- religiosos e sociais, desperdiçando o melhor de suas forças para man-
sar de tudo - e em contradição com todos os ensinamentos da moral ter esses dogmas. Tais muralhas são, por exemplo: o sentimento de de-
-, por obter o máximo de satisfação com o mínimo de esforço. ver, a honestidade, o pudor, o respeito às leis e às autoridades, e assim
Entretanto, a pedagogia atual contraria freqüentem ente esse prin- por diante, ou seja, todas as noções morais que nos impelem a levar
cípio tão sábio e, por assim dizer, evidente. Vou citar imediatamente em consideração os direitos de outrem e a reprimir os nossos desejos

psidigital
um de seus mais graves erros, a saber, o recalcamento das emoções e de poder e de fruição, ou seja, o nosso egoísmo.
representações. Poderíamos até dizer que a pedagogia cultiva a nega- Mas, por outro lado, quais são as desvantagens dessa custosa or-
ção das emoções e das idéias. ganização?
É dificil definir o princípio que a rege. É com a mentira que ela Já expus em outro artigo como esse novo método de investigação
mais se aparenta. Mas ao passo que os mentirosos e os hipócritas dissi- psicológica individual que é a psicanálise permitiu mostrar que os sin-
mulam as coisas para os outros ou então apresentam-lhes emoções e tomas das chamadas afecções psiconeuróticas (histeria, neurose obses-
idéias inexistentes, a pedagogia atual obriga a criança a mentir para siva) são sempre as manifestações, as projeções deslocadas, deformadas,
si mesma, a negar o que sabe e o que pensa. por assim dizer simbólicas, das tendências libidinais involuntárias ou
Mas os sentimentos e as idéias assim recalcados, imersos no in- inconscientes, essencialmente da libido sexual. Se considerarmos o nú-
consciente, nem por isso foram suprimidos; no decorrer do processo mero elevado e sempre crescente de pessoas atingidas por essas doen-
educativo, eles se multiplicam, se avolumam, aglomeram-se numa es- ças, parece desejável considerar, nem que seja apenas com um objetivo
pécie de personalidade distinta, enterrada nas profundidades do ser, profilático, a possibilidade de uma reforma pedagógica que permitiria
cujos objetivos, desejos e fantasias estão, em geral, em contradição ab- evitar o emprego de um mecanismo psíquico tão freqüenternente noci-
soluta com os objetivos e as idéias conscientes.> vo: o recalcamento de idéias.
Poder-se-ia considerar esse sistema perfeitamente satisfatório, visto Por outro lado, se a tendência para o recalcamento de idéias e emo-
que propicia uma relativa espontaneidade às idéias certas, socialmente ções afetasse somente aqueles que estão predispostos para isso, pou-
orientadas, mergulhando no inconsciente as tendências grosseiramen- pando as constituições mais robustas, conviria refletir seriamente para
te egoístas, anti ou associais, que assim'perdem'súa nocividade. A psi- saber se é permissível abalar, em proveito da parte mais débil e, por-
canálise mostra-nos, porém, que esse modo delrfeutralização das ten- tanto, a menos valiosa da humanidade, a solidez das bases das princi-
dências as sociais não é eficaz nem rentável. Pará'manter as tendências pais organizações culturais dos seres humanos em seu conjunto.
latentes recalcadas e escondidas no inconscient~f é necessário edificar A experiência prova, contudo, que o recalcamento também influen-
organizações defensivas poderosas, de funcionamento automático, cuja cia de maneira incontestável o curso da vida do chamado homem nor-
atividade consome uma quantidade excessiva de en,ergia psíquica. As mal. A solicitude inquieta com a qual a censura vigia as representações
regras de defesa e intimidação da educação moral baseada no recalque de desejos inconscientes não se limita, em geral, a essa tarefa, mas
estende-se igualmente às atividades conscientes do psiquismo, tornan- cação e a própria existência dos homens. Os instintos egoístas libertos
do a maioria das pessoas inquietas, timoratas, incapazes de reflexão de suas cadeias não irão destruir a obra milenar da civilização huma-
pessoal, escravas da autoridade. A adesão desesperada às supersti?ões na? Poder-se-á substituir O imperativo categórico da moral por outra
e às cerimônias religiosas esvaziadas de seu sentldo e de seu conteudo, coisa?
o temor exagerado da morte e as tendências hipocondríacas da huma- A psicologia ensinou-nos que isso é perfeitamente possível. Se, ter-
nidade: o que significa tudo isso senão estados n~uróticos do psiq.uis- minado o tratamento psicanalítico, o doente até aí portador de grave
mo popular, sintomas histéricos, formações obsesslvas e atos obsessIvos neurose reconheceu claramente suas tendências para a satisfação de de-
ao nível da psicologia das massas, determinados por complex~s de re- sejos contrários às concepções inconscientes do seu psiquismo ou às
presentaçôes enterrados no incons~iente, exatamente como os ~m~~mas suas convicções morais conscientes, produz-se a cura dos sintomas. E
dos doentes propriamente ditos. A anestesia das mulheres hlstencas, ela se produz mesmo se, em conseqüência de obstáculos insuperáveis,
à impotência dos homens neuróticos, corresponde a curiosa tendência o desejo, cuja manifestação simbólica é o sintoma psiconeurótico, não
da sociedade para o ascetismo, essencialmente contrário à natureza (abs- possa vir a ser ulteriormente satisfeito. A análise psicológica não re-
tinência, vegetarianismo, antialcoolismo, etc.). E assim como o psico- sulta, portanto, no reinado desenfreado de instintos egoístas, incons-
neurótico se defende contra o reconhecimento de sua própria perversão cientes e eventualmente incompatíveis com os interesses do indivíduo, .
inconsciente por meio de reações exageradas, contra os pensamentos mas na ruptura com os preconceitos que entravam o autoconhecimen-
considerados impuros por um asseio patológico, contra as representa- to, a compreensão dos motivos até então inconscientes e a possibilida-
ções libidinais que o agitam por uma "honestidade" excessiva, tam- de de um controle dos impulsos que se tornaram conscientes.
bém a máscara de respeitabilidade que os inflexíveis juízes morais da "O recalcamento de idéias é substituído pelo julgamento conscien-
sociedade apresentam dissimula - à sua própria revelia - todos os te", diz Freud. As condições externas, o modo de vida, praticamente
pensamentos e tendências egoístas que tanto condenam nos outros .. O

psidigital
não devem mudar.
rigor deles poupa-Ihes a obrigação de reconhecer esse estado de cOI~as O homem que se conhece realmente, além do sentimento exaltan-
e, ao mesmo tempo, fornece-Ihes uma saída para um de seus desejos te que essa consciência lhe proporciona, torna-se mais modesto. In-
inconscientes escondidos: a agressividade. dulgente para com os defeitos de outrem, está pronto para perdoar;
Isto não é um requisitório; eles pertencem à elite da nossa socie- até mesmo, se nos referirmos ao princípio segundo o qual" tout com-
dade atual; é muito simplesmente um exemplo para mostrar que a edu- prendre e'est tout pardonner" I, é somente a compreender que ele as-
cação moral edificada sobre o recalcamento produz em todo homem pira - não se sentindo qualificado para perdoar. Disseca os motivos
saudável um certo grau de neurose e origina as coridições sociais atual- de suas emoções e impede assim que elas cresçam até converter-se em
mente em vigor, onde a palavra de ordem do patriotismo encob.re, de paixões. Contempla com um certo humor sereno os diversos agrupa-
maneira muito evidente, interesses egoístas, onde sob a bandeira da mentos humanos acotovelarem-se em obediência a diferentes palavras
felicidade social da humanidade propaga-se o esmagamento tirânico de ordem e, em seus atos, não é a "moral" altaneiramente proclama-
da vontade individual, onde na religião se venera séja um remédio contra da que o guia mas uma lúcida eficácia; é o que o incita igualmente a
o medo e a morte - orientação egoísta - seja um modo lícito da into- dominar entre os seus desejos aqueles cuja satisfação poderia ofender
lerância mútua; quanto ao plano sexual, ninguém quer ouvir falar do os direitos de outrem (o que, portanto, pelas reações suscitadas, aca-
que cada um faz. A neurose e o egoísmo hipócrita são, portanto, o baria sendo perigoso para ele próprio) e a vigiá-Ios atentamente, sem
resultado de uma educação baseada em dogmas que negligenciam a ver- negar a existência deles.
dadeira psicologia do homem; e no que se refere a esta última caracte- Se afirmei antes que toda a sociedade atual é neurótica, não é pa-
rística, não é o egoísmo que cumpre condenar, sem o qual não se pode ra fazer uma vaga analogia ou uma comparação. Não é uma cláusula
conceber na terra nenhum ser vivo, mas a hipocrisia, certamente um de estilo mas a minha convicção profunda, a de que o remédio para
dos mais característicos sintomas da histeria do homem civilizado em essa doença da sociedade só pode ser a exploração da personalidade
nossos dias. t,.:~ verdadeira e completa do indivíduo, em particular do laboratório da
Existem aqueles que reconhecem a realidade desses fatos mas que
tremem à idéia do que seria da civilização humana se não houvesse mais
princípios dogmáticos, sem apelo nem explicação, para zelar pela edu-
vida psíquica inconsciente que hoje deixou de ser totalmente inacessí-
vel; e o meio preventivo: uma pedagogia fundada, isto é, a ser funda-
da na compreensão e na eficácia, e não em dogmas.
v
A Respeito das Psiconeuroses1

Para tentar responder ao desvanecedor convite que me fez a So-


ciedade de Medicina de Budapeste de expor diante de seus membros
um capítulo da neurologia, dois caminhos se me oferecem.
O primeiro seria abordar sucessivamente todas as neuroses fun-
cionais e descrever, a propósito de cada grupo mórbido, todos os fatos

psidigital
novos que surgiram no decorrer destes últimos anos. Após madura re-
flexão, renunciei a esse projeto; pois, se eu apenas quisesse citar todas
as formações patológicas reunidas hoje sob a denominação geral de
"neuroses funcionais", ver-me-ia diante de tamanho caos, de uma tal
avalancha de construções verbais greco-Iatinas - e sobretudo bárba-
ras -, que receio aumentar somente a confusão que ainda reina atual-
mente no domínio das neuroses.
Cogitei, portanto, na adoção de um segundo método. Em vez de
considerar as coisas da maneira fragmentária, tentarei dar-Ihes uma
visão de conjunto, após tê-Ias passado pelo filtro da experiência pessoal.
Um dos autores alemães mais espirituais do século XVIII, Georg
Christian Lichtenberg, levantou um dia esta questão paradoxal: por
que os pesquisadores científicos jamais pensam em servir-se não só de
lentes de aumento, mas também de lentes redutoras? Isso equivale a
dizer que seria proveitoso abandonar, de tempos em tempos, a perpé-
tua investigação em profundidade que se perde nos detalhes, à custa
da visão de conjunto, para considerar a totalidade dos resultados obti-
dos, com uma certa distância. Ele exprimiu assim, aproximadamente,
a mesma idéia que Herbert Spencer, quando opinou que toda a evolu-
ção natural passa por uma fase em que a diferenciação deve ceder o
passo a uma atividade de integração.

I. Extrato do ciclo de conferências pronunciadas em 1909 perante a Sociedade de


Medicina de Budapeste.
entre as modificações constatadas e os sintomas psíquicos apresenta-
Portanto, se examinar todas as neuroses através dessas lentes re- dos pelo indivíduo, para em seguida deduzir daí a significação psicoló-
dutoras, sua multiplicidade deságua muito naturalmente em dois gru- gica das diferentes partes do cérebro. Entretanto, o exame do cérebro
pos que não podem ser mais simplificados. não mostra modificação nenhuma na mania e na melancolia, nem na
Um dos grupos de neuroses situa-se essencialmente no plano so- paranóia, histeria ou neurose obsessiva; em outras afecções (paralisia
mático, mesmo que também afetem a vida mental (pois não existe doen- geral, alcoolismo, demência senil), é verdade que ocorrem certas mo-
ça orgânica que seja isenta de efeito psíquico). Em compensação, o dificações, mas sem que seja possível demonstrar a relação exata entre
outro grande grupo de neuroses (apesar da presença de fenômenos or- a lesão cerebral e o quadro psicopatológico; por isso podemos afirmar
gânicos) só se explica por fatos exclusivamente dependentes do plano sem receio que sabt:mos tão pouco, no dia de hoje, sobre o princípio
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pSlqU1CO. anatomopatológico das psiconeuroses quanto sobre as relações mate-
Causará surpresa, sem dúvida, que na época atual do monismo riais do funcionamento mental em geral.
seja possível classificar as doenças numa base tão dualista. Apresso- .ora, ,se ?S nossos cientistas admitem, de bom ou de mau grado,
n: e, ~o.is, a assin~lar que, teoricamente, sou adepto dessa concepção sua Ig~orancla quanto ao mecanismo funcional da matéria pensante,
fllosoflca denomInada monismo agnóstico, que reconhece, como seu eles nao podem, ao que parece, resignar-se a admiti-Io no que se refere
nome indica, um princípio único na base de todos os fenômenos exis- à patologia dessa matéria. Seria tão pouco hon,esto falar de movimen-
tentes; entretanto, devemos acrescentar logo, com modéstia, que nada tos moleculares das células cerebrais, em vez de sentimento, pensamento
sabemos nem podemos saber quanto à natureza desse princípio bási- ou vontade, quanto seria hoje mal fundamentado descrever as psico-
co. Entendo, porém, que o monismo é apenas um ato de fé filosófica ses e as chamadas psiconeuroses funcionais manipulando termos de ana-
um ideal para o qual devemos tender, mas que supera de longe os Iimi~ tomopatologia, fisiologia, física e química. Aparentemente os nossos
tes atuais do nosso saber, ao ponto de pouco mais se poder esperar, cientistas consideram que a doeta ignorantia é mais fácil de suportar

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de .momento,' al~m de extrair dele um benej(eio prático. Pois do que que a indoeta ignorantia, ou seja, que a ignorância vestida de termos'
adianta nos Jludlrmos? Tal como as coisas se apresentam atualmente, eruditos é menos humilhante do que franca confissão de ignorância.
cenos fenômenos naturais são analisáveis unicamente numa base físi- Mas ?uponhamos que a evolução da biologia e da técnica permi-
ca, e outros, unicamente psíquica. tam um dIa ao homem perceber em si mesmo o funcionamento das cé-
Sem d~vida, o paralelismo psicofisiológico incita a pensar que to- lulas cerebrais que acompanham suas próprias sensações; a psicologia
das as manifestações da vida orgânica, incluindo, portanto a fisiolo- introspectiva, "dirigida para dentro", nem por isso perderia todo o
gia. d~s célula,s ó~seas, musculares, conjuntivas/ têm sua 'psicologia seu valor.
propna. Mas e eVidente que esse capítulo da psicologia fisiológica ain- Em últi.ma análise, a percepção só pode determinar as leis que re-
da se encontra hoje na fase de uma sedutora hipótese.
~as não é menos errôneo tentar explicar os"fenômenos psíquicos
.
gem os movimentos das partículas de matéria: moléculas ' átomos , elé-
trons; mas os movimentos dos elétrons, átomos e moléculas jamais
a partIr de noções de anatomia e de fisiologia, como está em moda ho- poder.ão suscitar em nós a mesma percepção que um som ou uma cor.
je em d!a; pois, na verdade, ignoramos tudo sobre o aspecto fisiológi- Jamais poderemos compreender, numa base exclusivamente mecâni-
co da VIda mental. Nossos conhecimentos reduzem-se exclusivamente c~, os sentimentos de um ser transtornado por emoções e as modifica-
às localizações cerebrais dos órgãos sensoriais e dos centros da coorde- çoes produzidas no psiquismo por uma doença mental.
n.ação motora. É verdade que Paul Flechsig tentou criar uma frenolo- Para be?1 entender a vida mental normal ou patológica, jamais
gla ~oderna apoiando-se principalmente na cronologia do desen- p~deremos dispensar a observação direta das variações afetivas que em
volVImento embrionário do cérebro, mas todo:o seu sistema com- ~os se pro?uzem; po~e-se mesmo afirmar que a ciência da psicologia
plexo, a~ três o~ quatro dúzias de centros psíquiÇ'os cuja existência ele rntr?~peetlva tem mais chances de sobrevivência do que a ciência me-
pressupoe e as fibras de projeção e de associação"que neles se inserem camclsta. Algumas descobertas imprevistas destas últimas décadas sub-
apresenta um caráter tão artificial que é inútil alongarmo-nos mais ~ verteram os fundamentos da física, enquanto a filosofia se mantém so-
seu respeito. i:;,
lidamente alicerçada nas bases que lhe foram legadas por Descartes
, .As pesquisas que visavam desvendar as modificações cerebrais ana- Hume, Kant e Schopenhauer. '
~omlcas correspondentes às diferentes doenças mentais também foram Não podia poupar-Ihes esta digressão filosófica. A tal propósito,
Infrutíferas; tais pesquisas tinham por objetivo encontrar um vínculo
acode-me ao espírito uma outra observação do mesmo Lichtenberg já
sar, a psicologia científica desviou-se inteiramente ,d?s Peq~eno: e
citado; quando lhe apresentaram apergunta: "fazer filosofia é uma
grandes problemas da vida cotidiana. Com uma pro?l~lOSa. aphcaça.o,
boa coisa?", respondeu que podiam muito bem',ter-lhe perguntado:
reuniu-se um volume considerável de dados sobre a fiSiologia sensonal
"Fazer a barba é bom?" Pois ele acha que a filospfia se maneja como
em particular e sobre as relações temporais das manifestações elemen-
o barbeador: convém não se ferir com ela. Para>não me expor a esse
tares do funcionamento mental. Mas faltava uma idéia orientadora para
perigo, contento-me em repetir que, no estado a:t4~1 dos noss.os c,o~he-
essa massa de material científico e os dados psicológicos acumulavam-
cimentos, só a classificação dualista das neurose,s pode se Justificar.
se sem que aparecesse e se impusesse alguma nova concepção funda-
Incluímos no grupo das neuroses orgânicas pu, como tenho o cos-
mental, depois de Fechner e Wundt. Por isso considero que a. ativi~a-
tume de chamá-Ias, jisioneuroses, a coréia, o rrtiXedema, ,a doença de
de científica de Freud representa um ponto de mutação na pSicologia,
Basedow, a neurastenia verdadeira, a neurose de angústia, tal como
pois ele soube renovar o laço entre a ciência e a psicologia da vida,
Freud a define, etc.1 Todas essas doenças têm por origem certa ou
e tirar partido dos tesouros da psicologia que não tinham sido aprovei-
muito provável uma modificação do met~bolism~do sis:em,a ner~o,so.
tados e explorados.
Mas não posso abordar esse grupo no âmbito destaconferencla; sohclto-
Já tive ocasião de expor perante os meus respeitáveis colegas a gê~
lhes que dediquem hoje toda a atenção ao outro grande grupo de doen-
nese das teorias de Freud e o método de análise psicológica que lhe
ças nervosas cuja causa patogênica, o princípio e a maior parte dos
permitiu estabelecê-Ias, Gostaria de limitar-me hoje aos progressos que
sintomas são de ordem mental, psíquica,
o estudo das psiconeuroses deve à psicanálise.
Há duas psiconeuroses especialmente importantes na prática. l!ma
De modo geral, a nova psicologia baseia-se no "princípio de des-
é a histeria, a outra a neurose obsessiva ou doença dos atos obsessIvos
prazer" que rege os processos mentais e que eu poderia descrever co-
e das idéias obsessivas. '
mo a tendência egoísta para evitar, tanto quanto possível, as emoções
Cumpre notar desde já que a transição entre as 'psiconeurose~ e

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desagradáveis e o desejo de obter com um mínimo de esforço um má-
a chamada vida mental normal, por uma parte, as pSicoses na estnta
ximo de satisfações.
acepçào do termo, por outra, não comporta um lin:ite nítido, de, mo-
Entretanto, o homem não está só no mundo; ele deve integrar-se
do que distinguir psicoses e psiconeuroses como nos o f~ze~os e UI~
numa rede de laços sociais complexos que o obriga, desde a mais tenra
eufemismo. No que se refere às idéias obsessivas, já expnml ess~_OP,l-
infância, a renunciar a uma grande parte de seus desejos naturais, A
nião neste mesmo lugar há alguns anos; entretanto, a expenenCla
própria educação o levará também a considerar que o sacrifício de si
convenceu-me de que o mesmo ocorre com todas as neuroses de or-
mesmo pelo bem da comunidade é uma bela coisa, boa e digna de suas
dem psíquica. É certo que as psicoses e as psiconeuroses podem
mais elevadas ambições.
diferençar-se segundo a sua gravidade, o seu prognóst!co, ou seja, de
É no domínio dos desejos sexuais que a sociedade atual exige um
um ponto de vista prático. Mas nào existe qualqller diferença funda-
maior número de sacrifícios. Todos os esforços da educação contri-
mental entre o desencadeamento emocional do homem "normal", as
buem para sufocar esses desejos e, de fato, a maioria dos homens
crises afetivas do histérico e a fúria do doente mental.
adapta-se, aparentemente sem grandes danos, a essa ordem social.
Essa interpretação psicológica das psicoses é: das psiconeu:o~es é
O método de análise psicológica mostrou que essa adaptação faz-
muito antiga; entretanto, sob o império das concepções maten~hstas
se graças a um mecanismo mental que consiste em imergir no incons-
e meranicistas os psicólogos quiseram também recorrer aos metodos
ciente os desejos irrealizáveis, com todas as lembranças e pensamentos
de experiment~çào e de observação que tão bem:serviram às ciências
a eles associados. Numa linguagem mais simples: esses desejos, e tudo
naturais exatas, evitando cuidadosamente qualquer confusão com os
o que a eles se liga, são "esquecidos". Esse esquecimento não significa,
psicólogos "leigos" que observam. os fe,nômenos;.p1e,ntais sim~les~en-
porém, a supressão total dessas tendências e grupos de representações;
te em si mesmos e nos outros. ASSim fOI que oSIJ;lédlcos e os cientistas
naturalistas renunciaram por completo a essa fó~te - a mais rica - os complexos recalcados subsistem abaixo do limiar da consciência e po-
da ciência psicológica, abandonando sem hesital1'iesse apaixonante ma- dem mesmo, em certas condições, ressurgir ulteriormente. Mas o homem
"normal" defende-se com êxito contra a reprodução desses desejos e lem-
terial aos literatos. Como se a ciência não tives~~: o direito de interes-
,,,
n~ branças, construindo muralhas protetoras em torno dos complexos; o
.1',:'
pudor, a vergonha, a repugnância dissimulam-lhe até o fim os desejos
1. o lugar da epilepsia verdadeira ainda não está" determinado,
que ele vivencia como vergonhosos, desprezíveis e repugnantes.
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