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O recolhimento do ISS nos serviços de agenciamento de seguros

Mauro Hidalgo
Representante da Confederação Nacional dos Municípios na Secretaria
Executiva do Comitê Gestor do Simples Nacional; Agente Fiscal da Receita
Municipal de Porto Alegre; Especialista em Direito Tributário, Financeiro e
Econômico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Uma nova prática
de agenciamento de seguro de vida, residencial, veículos, agrícola, e outros,
vêm ganhando espaço no concorrido mercado de intermediação desses
produtos.

Os maiores bancos comerciais brasileiros passaram a angariar e agenciar


segurados no âmbito de suas dependências por intermédio de seus
atendentes, ampliando as operações oferecidas e, por conseqüência, suas
receitas pela prestação do serviço.

Dispõe a Lei n.º 4.594/64, regulamentadora da profissão de corretor de


seguros, em seu artigo 1.º, que o corretor de seguros, seja pessoa física ou
jurídica, é o intermediário legalmente autorizado a angariar e a promover
contratos de seguros.

O diploma regulamentador, em seu artigo 18, impõe que as seguradoras, por


suas matrizes, filiais, sucursais, agências ou representantes, só poderão
receber proposta de contrato de seguros:

a) por intermédio de corretor de seguros devidamente habilitado; ou

b) diretamente dos proponentes ou seus legítimos representantes.

Diante desses dispositivos legais as representações sindicais dos corretores de


seguros têm alertado para o fato de que os principais bancos brasileiros
praticarem concorrência desigual ao agenciar seguros realizando a
intermediação por meio de pessoas não habilitadas, geralmente funcionários
ou gerentes da instituição financeira, no âmbito dessas.

As grandes instituições financeiras justificam sua forma de atuar,


argumentando que as intermediações são realizadas por prepostos nomeados
para o agenciamento de seus produtos, utilizando as estruturas físicas, os
recursos humanos e materiais do Banco, mediante o ressarcimento dos custos
apurados.

Importante para as municipalidades será analisar o Decreto-Lei N.º 73, de 21


de novembro de 1966, dispondo sobre o Sistema Nacional de Seguros
Privados, e regulando as operações de seguros e resseguros.
Isso porque surge uma questão muito similar as operações de leasing em
relação às operações de seguros, e por conseqüência dificuldades em tributar
as receitas provenientes de agenciamento, comissionamento e intermediação.

As Administrações Tributárias municipais detectaram que as instituições


financeiras, ao realizarem operações de seguros em suas agências distribuídas
por todo o território nacional terminam por registrar as comissões auferidas
pelo agenciamento de seguros em outra instituição do grupo, uma Sociedade
Corretora, sediada em outro município diferente de onde ocorreu o fato
gerador, a intermediação.

É preciso observar, além dos artigos 3º e 4º da Lei Complementar n.º 116/2003


(1), o disposto no parágrafo § 1.º do artigo 30 da Lei n.º 4.594, de 29 de
dezembro de 1964 (2), o qual diz que as comissões devidas pela mediação de
contratos de seguro de pessoa física ou jurídica, domiciliada nos Municípios
onde não houver corretor legalmente habilitado e neles agenciados e
assinados, continuarão também a ser pagas ao intermediário da proposta, seja
corretor habilitado ou não.

O que se extrai desse dispositivo é que mesmo onde não houver corretora
habilitada as comissões deverão ser pagas à pessoa que encaminhou as
propostas de contratos de seguro relativos a bens e interesses de pessoas
físicas ou jurídicas.

A partir dessa constatação poderá incidir o ISS sobre o agenciamento realizado


naquela localidade, mesmo por pessoa não-habilitada. O usual nas agências
bancárias é um gerente intermediar a contratação do seguro, devendo ser
contabilizada a comissão como receita da agência.

O ISS é devido sobre os valores auferidos a título de agenciamento, comissão


ou intermediação dos contratos de seguro formalmente constituídos. Sobre a
operação de seguro propriamente dita incidirá imposto federal.

Os Sindicatos dos Corretores de Seguros e de Capitalização, que congregam


corretores de seguro, de capitalização e de previdência privada, alegam que as
instituições financeiras praticam abuso de poder econômico e concorrência
desigual, tais como:

a) uso da logomarca e agências dos grandes conglomerados financeiros para


vender produtos como títulos de previdência privada e seguros, possibilitando,
inclusive, a concessão de descontos, enquanto as demais empresas do ramo
têm que arcar com todas as despesas de funcionamento para exercerem suas
atividades;
b) transgressão de leis, portarias, resoluções e circulares dos órgãos que
normatizam o mercado de seguros;
c) prática nas agências de venda casada de produtos do banco.

A partir de representação proposta pelo Sindicato dos Corretores de Seguros e


de Capitalização do Estado de Minas Gerais - SINCOR-MG, a matéria foi
analisada no âmbito do órgão federal de defesa econômica, conforme se
depreende de Acórdão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica -
CADE, vinculado ao Ministério da Justiça, no Ato de Concentração nº
08000.000076/1996-71, publicado no Diário Oficial da União, em 23 de junho
de 2005, onde a instituição financeira representada, descreve a forma como
atua nas diversas localidades, afirmando que as operações de corretagem de
seguros são praticadas por uma empresa corretora de seguros, subsidiária
integral dessa instituição, constituída segundo as leis vigentes.

A sociedade corretora, por meio de convênio firmado com a instituição


financeira, utiliza a estrutura física, os recursos humanos e materiais da
instituição, mediante o ressarcimento dos custos apurados, atuando por meio
de seus prepostos nomeados nestas localidades através de prepostos, aos
quais incumbem angariar os seguros.

Diante disso, prestado o serviço nas dependências da instituição financeira no


território do município, será ali devido o ISS, pois estabelecimento prestador
não é aquele formalmente apontado pelo contribuinte como sede da pessoa
jurídica, mas nesse caso o local onde são agenciados os segurados.

Nesse caso, há uma coincidência entre local da prestação e os atos que


qualitativamente constituem o fato gerador do agenciamento, corretagem ou
intermediação de seguros.

Esses atos são considerados como qualificados porque principais na


caracterização do agenciamento, da intermediação e da corretagem. São os
atos praticados no âmbito das dependências das instituições financeiras: - a
angariação de clientes-correntistas-segurados; - a oferta de produtos principais
e "agregados"; - a publicidade; - a assinatura da proposta ou a inclusão em
apólices de grupo pré-existentes; a declaração das condições de saúde das
pessoas seguradas e da situação dos bens protegidos; a definição dos
beneficiários.

Os atos praticados na sede matriz das corretoras são atos secundários, como
por exemplo, o arquivamento da proposta.

Frise-se, que a preparação para o pagamento de sinistros ou a inclusão,


exclusão ou alteração, não se constituem em atos-fatos que se concretizem
como agenciamento.

Nesse contexto, o que se extrai de todo o exposto é que, mesmo onde não
houver corretora habilitada, as comissões deverão ser pagas à pessoa que
encaminhou a proposta de seguro. A partir dessa constatação, deverá incidir o
ISS sobre a receita decorrente do agenciamento realizado naquela localidade.
Isso porque o agenciamento é uma mediação, pela qual uma pessoa física ou
jurídica (agente) encaminha negócios para outrem mediante remuneração.

A base legal para essa incidência se encontra na Lista de Serviços, anexa à Lei
Complementar 116/2003, item 10.01, que traz como fato gerador do ISS, o
agenciamento, corretagem ou intermediação de seguros.

Nesse sentido o agenciamento, intermediação ou corretagem de seguros se


caracterizam como obrigações de fazer, perfeitamente acondicionadas no
conceito de serviços tributários.

Diante disso, prestado o serviço nas dependências da instituição financeira no


território do município, será ali devido o ISS, pois que, estabelecimento
prestador não é aquele formalmente apontado pelo contribuinte como sede da
pessoa jurídica, mas nesse caso o local onde são agenciados os segurados.

A matéria se encontra em debate na Câmara dos Deputados, onde tramita o


Projeto de Lei Complementar nº 144 de 27 de novembro de 2007, alterando a
Lei Complementar nº 116 de 2003, de modo a definir o local onde será devido
o ISS nas prestações de serviços de agenciamento, corretagem e
intermediação de seguros.

O PLP 144/2007 considera o local da prestação, para fins de recolhimento do


ISS, o local onde ocorrem os atos que qualitativamente constituem o fato
gerador do agenciamento, corretagem ou intermediação de seguros.

Esses argumentos precisam ser invocados em razão da prática geradora de


desigualdades que assola as finanças municipais. Aqui se incluem as
corretoras de seguros vinculadas as instituições financeiras, com matriz nas
grandes cidades do país, onde é centralizado o recolhimento de suas
obrigações tributárias, em detrimento do local da realização dos atos-fatos
tributáveis pelo ISS.

Notas

(1) Lei complementar n.º 116/2003. (...) Art. 3.º O serviço considera-se prestado
e o imposto devido no local do estabelecimento prestador ou, na falta do
estabelecimento, no local do domicílio do prestador, exceto nas hipóteses
previstas nos incisos I a XXII, quando o imposto será devido no local: (...) Art.
4.º Considera-se estabelecimento prestador o local onde o contribuinte
desenvolva a atividade de prestar serviços, de modo permanente ou
temporário, e que configure unidade econômica ou profissional, sendo
irrelevantes para caracterizá-lo as denominações de sede, filial, agência, posto
de atendimento, sucursal, escritório de representação ou contato ou quaisquer
outras que venham a ser utilizadas.

(2) Lei N.º 4.594, de 29 de dezembro de 1964. Regula a profissão de corretor


de seguros. (...) Art. 30. Nos Municípios onde não houver corretor legalmente
habilitado, as propostas de contratos de seguro relativos a bens e interesses de
pessoas físicas ou jurídicas nele domiciliadas continuarão a ser encaminhadas
às empresas seguradoras por corretor de seguros ou por qualquer cidadão,
indiferentemente, mantido o regime de livre concorrência na mediação do
contrato de seguro em vigor na data da publicação desta lei. § 1º As
comissões, devidas pela mediação de contratos de seguro de pessoa física ou
jurídica, domiciliada nos Municípios a que se refere este artigo e neles
agenciados e assinados, continuarão também a ser pagas ao intermediário da
proposta, seja corretor habilitado ou não. § 2.º As companhias seguradoras
deverão encaminhar instruções, nos termos da presente lei, a fim de, os
referidos corretores possam se habilitar e se registrar, dando ciência dessa
providência ao sindicato de classe mais próximo.