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Centro de Educação a Distância do Ceará – Rua Iolanda Barreto, s/n Derby Clube - Sobral/CE

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MÓDULO II
O Ensino da Geografia
Escolar
Unidade II
Autor:

Francisco Gerson
O Ensino de Geografia e o
Lima Muniz Dualismo (Física x
Humana)

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O ENSINO DE GEOGRAFIA E O DUALISMO (FÍSICA x
HUMANA)
...............................................................................................................................

A ciência Geográfica tem por característica histórica estar em constantes


transformações, desde a sua sistematização que ocorreu no século XVIII, e
muitas dessas transformações decorrem do método de análise de cada época,
(Determinismo, Possibilismo, Positvismo e Materialismo Histórico Dialético),
além dos objetivos que se pretende alcançar e da escala de análise em
consideração. Fato que pode ser aferida inclusive para Geografia como matéria
escolar. Puntel (2006, p. 25) nos esclarece sobre o assunto:

[...] o surgimento dessa matéria escolar está ligada à necessidade de


construir uma legitimidade da identidade nacional que estavam em
formação nos Estados-Nações europeus. Isso justifica que primeiro
surgiu a disciplina no ensino escolar e como matéria nas universidades,
para bem mais tarde ser legitimada como curso superior. [...]

Não nos cabe um levantamento sobre a evolução/transformação da


ciência Geografia, assim não nos prenderemos sobre esses aspectos históricos,
ou muito menos entraremos nos embates gerados sobre as contraposições de
alguns autores ou movimento que privilegiam determinados métodos. Contudo,
faz-se necessário uma breve retomada sobre as discussões acerca da Geografia
escolar no Brasil a partir da década de 1970, com o movimento de renovação da
Geografia, ou a chamada Geografia Nova. Através dessa nova proposta de
análise adota-se para a compreensão do espaço geográfico as relações sociais,
assim como a categoria relacional sociedade-natureza num contexto crítico.
O movimento de renovação alavancou uma série de discussões e
análises acerca dos aspectos teórico-metodológico da ciência geográfica, e
como a ser trabalhada enquanto disciplina escolar, que na verdade ficou
caracterizada pela tentativa de superação da chamada Geografia tradicional
(GT) para a Geografia Crítica (GC). Resumidamente vamos tentar identificar
característica de ambas.
Primeiramente a GT, privilegia a memorização, literalmente conteudista,
o aluno é visto como ser passivo e lhe cabendo a memorização de símbolos de

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diversas culturas; conforme Straforini (2004, p.57) “assim o conhecimento é
concebido como uma informação que é apreendida unicamente pela
memorização”. Desta forma o mundo acaba sendo externo ao aluno na qual não
é analisado o processo histórico, ou seja, um estudo estático e fragmentado do
espaço geográfico.
Já na GC a supervalorização do conteúdo é deixada de lado, havendo a
necessidade de análise dos conceitos que integram o mundo, a totalidade, em
sua concepção, Straforini conceitua:

O centro de preocupação da Geografia Crítica passa a ser as relações


entre a sociedade, o trabalho e a natureza na produção do espaço,
exigindo, dessa forma, a negação dos velhos pressupostos da
Geografia Tradicional (...) O aluno torna-se ser ativo, participativo no
processo de construção do conhecimento. (STRAFORINI, 2004, p. 67)

No final da década de 1980 o processo de superação da Geografia


Tradicional se expande principalmente nas escolas, bastante motivado pelo
intenso e rápido processo de globalização, que abrange todo “sistema-mundo”
de forma que influencia todas as escalas, seja pela economia ou, até mesmo,
pela interferência cultural. Contudo, as teorias da Geografia Crítica acabam não
atingindo de imediato o ensino escolar, havendo como dois motivos principais: A
má formação profissional durante as atividades acadêmicas seria a primeira. E a
segunda dificuldade seria a ausência de uma formação/qualificação continuada.
Na verdade, os que encontramos nas escolas da época e que se estende
em algumas escolas atuais são meras tentativas de uma GC, em alguns casos
tentativas frustradas onde há o ensino de uma Geografia Crítica com práticas
Tradicionais, o que remete a necessidade de metodologia que consiga transpor
os objetivos da Geografia como disciplina escolar, e concordamos com Straforini
(2004) que para um real sucesso da G.C as escolas e professores precisam
romper com a estaticidade, a fragmentação e a neutralidade, características
tradicionais.
Diante das explanações surgem as perguntas, o que ensinar e como
ensinar Geografia, obviamente questões complexas que muitos autores
trabalham, mas que não conseguem chegar a um denominador comum, e com

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certeza não entraremos nessa discussão, mas é preciso que tracemos alguns
pontos para nossas análises.
Percebe-se no ensino da Geografia escolar, uma grande deficiência nos
conteúdos quando se refere às categorias/conceitos geográficos e sobre as
reflexões da dinâmica da formação do espaço, muito influenciada pelo excesso
de carga teórica, aonde o aluno absorve os conteúdos somente na abstração.
Desta forma, como conceber os conceitos somente nesta abstração, ainda com
exemplos totalmente externos aos alunos.
Sobre os objetivos da Geografia escolar Callai apub Cavalcanti, expõe:

A Geografia é a Ciência que estuda, analisa e tenta explicar (conhecer)


o espaço produzido pelo homem e, enquanto matéria de ensino, ela
permite que o aluno “se perceba como participante do espaço que
estuda, onde os fenômenos que ali ocorrem são resultados da vida e
do trabalho dos homens e estão inseridos num processo de
desenvolvimento.” (CALLAI apub CAVALCANTI, 2002, p, 13).

Ainda sobre a Geografia escolar é importante que tragamos os objetivos


propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), afinal é o documento
que orienta os currículos dos conteúdos escolares.

O ensino de Geografia pode levar os alunos a compreenderem de


forma mais ampla a realidade, possibilitando que nela interfiram de
maneira mais consciente e propositiva. Para tanto, porém, é preciso
que eles adquiram conhecimentos, dominem categorias conceitos e
procedimentos básicos com os quais este campo do conhecimento
opera e constitui suas teorias e explicações, de modo a poder não
apenas compreender as relações socioculturais e o funcionamento da
natureza e ás quais historicamente pertence. [...] (BRASIL, P. 108).

Outro aspecto que dificulta o alcance dos objetivos da Geografia como


disciplina escolar surge justamente com o advento da Geografia Nova, a
superação da “Geografia tradicional” implicou rápida eliminação de elementos
essenciais para compreensão do espaço, a denominação da Geografia como
ciência exclusivamente humana, a super valorização das relações sociais e suas
especificidades, deixaram a margem categorias e análises que eram trabalhadas
pela Geografia Física.
A compreensão e interpretação dos elementos e fenômenos naturais
podem e devem ser inseridos com ênfase na formação do espaço, e não apenas

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como mais um elemento dessa composição do espaço. Segundo Barros (2000,
p.1) o objetivo da Geografia Crítica:

dar aos alunos conhecimentos sobre a Geografia, sobre os


componentes fundamentais do complexo natural e as relações mútuas
entre os distintos componentes. Isso permite ricas possibilidades de
formação nos alunos da concepção dialética do mundo, já que eles se
familiarizam com o meio circundante em que os fenômenos da
realidade estão relacionados entre si e se encontram em constante
movimento e transformação. Como estas relações não se manifestam
claramente na própria natureza faz-se necessário estabelecer seus
contrários, ou seja, enfatizar que a ausência de qualquer dos
componentes do complexo natural dado faz variar seu caráter [...].
(BARROS 2001 p.1)

Na sala de aula o ensino da Geografia Física ainda é visto com ensino


tradicional, tendo em vista as práticas utilizadas pelos docentes, um ensino
obsoleto, estudo fragmentado dos elementos naturais, sem conexão entre os
próprios elementos e entre a sociedade. Para exemplificação, basta tomamos o
estudo de uma bacia hidrográfica, e diferentemente do que encontramos em sala
de aula, somente a memorização dos rios e seus afluentes, e apenas como um
recurso para o homem. Ao interrelacionarmos com a formação das cidades,
historicamente vamos perceber que estas, em sua maioria, surgiram próximas
aos rios, os quais favoreceram a manutenção de tal sociedade, influenciando
cultural e economicamente.
Na perspectiva atual, tal estudo pode trazer muitos outros elementos,
como podemos perceber nas grandes cidades, as construções próximas aos rios
junto com elementos sociais, casas, impermeabilização do solo, esgotos e
muitos outros, auxiliam no aumento de problemas como enchentes, doenças,
enxurradas, ou seja, problemas atribuídos a forças naturais, onde muitos não
vêem conexão com os elementos sociais ditos anteriormente.
Como podemos perceber há uma grande deficiência nos estudos de
Geografia Física no contexto escolar, além da “marginalização” pelos “geógrafos
críticos mais radicais”, os próprios docentes não são capazes de transmitirem os
conhecimentos da disciplina geográfica, sem a dicotomia: Humana e Física.

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Figura 1

No ensino escolar é interessante notar que os Parâmetros Curriculares


Nacionais para os cursos de Geografia ressaltam a necessidade da abordagem
integrada dos problemas ambientais pela Geografia, como fica explícito na
passagem citada a seguir:

A compreensão das questões ambientais pressupõe um trabalho


interdisciplinar. A análise de problemas ambientais envolve questões
políticas, históricas, econômicas, ecológicas, geográficas, enfim,
envolve processos variados, portanto, não seria possível compreendê-
los e explicá-los pelo olhar de uma única ciência. Como o objeto de
estudo da Geografia, no entanto, refere-se às interações entre a
sociedade e a natureza, um grande leque de temáticas de meio
ambiente está necessariamente dentro do seu estudo (BRASIL, 1998).

O professor, entretanto, pode encontrar dificuldades para colocar em


prática esta abordagem integrada, uma vez que tanto os livros didáticos como a
transmissão do conhecimento da universidade para escola ainda estão muito
atrelados à visão dicotômica da Geografia Física e Geografia Humana.
Uma das mais importantes questões a ser desconstruir no debate sobre o
ensino da Geografia Física é a separação da ciência geográfica em área física e
humana. Há necessidade de adoção de uma perspectiva sistêmica da
paisagem, devendo os elementos ser abordados de maneira conjunta,

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interrelacionados, pensando em uma totalidade dinâmica. Essa questão é um
grande problema observado nas escolas. A própria formatação dos livros
didáticos nos leva a agir desta forma. Os livros separam os conteúdos
curriculares em temas específicos sem muitas vezes fazer a correlação entre as
unidades e capítulos.
O docente acaba seguindo este material, por vezes “esquecendo” da
Geografia Física e/ou Humana, isto é, discutindo um ou outro capítulo do livro
adotado, em função da prioridade e/ou do que julga mais importante,
dependendo da sua formação inicial (também fragmentada). Os conteúdos
programáticos devem ter planejamento anual e ser trazidos para a aula de forma
integrada, ou pelo menos tentando fazer esta integração. Para isso, não é
preciso ter a preocupação de dar conta de todas as
● ● ● indicações do currículo escolar, nem de priorizar o
“Os conteúdos conteúdo tradicional e sim o conhecimento do
programáticos devem cotidiano do aluno, conciliando a reflexão do seu
ter planejamento anual
espaço vivenciado com todos os temas da
e ser trazidos para a
aula de forma Geografia.
integrada, ou pelo Na educação básica a Geografia Física pode
menos tentando fazer
ser amplamente explorada, pois pela característica
esta integração.”
de curiosidade dos alunos nesta idade, a mesma
● ● ●
torna-se bem mais interessante em sala de aula,
daí a grande responsabilidade dos docentes na
construção desse conhecimento, transpor os elementos naturais e sociais,
interligando-os, além de está sempre trabalhando com o cotidiano, do aluno, que
possa utilizar os conhecimentos apreendido no seu dia-a-dia.

DICA DE LEITURA:
https://geoamb-
ufcg.blogspot.com.br/2016/09/geografia-fisica-ciencia-
humana.html
Geografia Física: Ciência Humana?

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REFERÊNCIAS
BARROS Maêlda de Lacerda. O método dialético aplicado ao ensino de
Geografia física. In: Apresentada ao curso de especialização em ensino de
Geografia física. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2001. p. 12.

BERTRAND. G. Paisagem e Geografia Física Global: Esboço Metodológico.


Tradução de Olga Cruz. Curitiba: Editora UFPR. n. 8, p. 141-152, 2004.
Tradução de: Paysage et geographie physique globale.

BRASIL. Secretaria da educação. Parâmetros Curriculares Nacionais:


Geografia. Brasília, 1998. 166 p.

CASTROGIOVANNI. A. C.; CALLAI H. C.; KAERCHER N. A. Ensino de


Geografia: Práticas e textualizações no cotidiano. Porto Alegre: Mediação,
2000. 132p.

CAVALCANTI, L. de Souza. Geografia, escola e construção de


conhecimento. Campinas: Papirus, 1998.

CAVALCANTI, L. de Souza. Geografia e Práticas de ensino. Goiânia:


alternativa, 2002.

FURLAN, S. A. A geografia na sala de aula: a importância dos materiais


didático. TV Escola Brasil. Disponível em: < http://www.tvebrasil.com.br/salto. >
Acesso em: 15 mar.2009.

MENDONÇA, F. ; DANNI-OLIVEIRA, I. M. Climatologia: Noções básicas e


climas do Brasil. São Paulo: Oficina de textos, 2007. 200 p.

PUNTEL, Geovane Aparecida. Paisagem: Uma análise no ensino da


Geografia. 2006. 136 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Instituto de
Geociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2006.
Disponível em: < http:// www.colégioweb.com.br/geografia > Acesso em: 5 fev.
2010.

STRAFORINI, Rafael. Ensinar Geografia: o desafio da totalidade-mundo nas


séries iniciais / Rafael Straforine – São Paulo : Annablume, 2004. 190 p.

VESENTINI, J. William. A questão da Natureza na geografia e no ensino.


(1995) Disponível em: < http://www.geocritica.com.br/texto05.htm. > Acesso em:
20 ago. 2009.

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Fontes das Imagens

Figura 1: http://obshistoricogeo.blogspot.com.br/2014/11/geografia-fisica-ou-
humana-ou-sera.html

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