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M anual do agricultor brasileiro

foi impressa sob os auspícios da SAIN a segu nda edição do


M anual do agricultor brasileiro, idêntica à prim eira edição,
com exceção de uma dedicatória — - aliás bem previsível —
ao ministro do Império.
O livro de Taunay foi um dos prim eiros m anuais agrí­
colas publicados no Brasil. Q cam po d a literatura agronô­
mica, em que pesem os tratados greco-rom an os clássicos
sobre o assunto (Xenofonte, C atão, Varrão, C olum ela) e as
publicações renascentistas qu e neles se inspiraram , era de
constituição recente na E uropa O cidental. Escorando-se na
grade conceituai retirada do discurso d a econom ia política,
em especial nas categorias an alíticas “trab alh o” e “p rodu ­
ção” , os autores europeus do sécu lo XVIII qu e escreveram
sobre as atividades agrícolas se preocuparam fundam ental­
mente em propor técnicas inovadoras, capazes de elevar a
produtividade das unidades rurais.6 E m fins dos setecentos,
o mesm o m ovim ento de form ação de u m cam p o agronô­
mico autônom o se fez presente nas A m éricas, de início nas
Antilhas inglesas e francesas. O s autores antilhanos, no en­
tanto, buscaram adaptar às realidades locais os propósitos
de seus pares metropolitanos. O principal p on to dessa ade­
quação, sem dúvida, reportou-se às relações sociais de pro­
dução: nos m anuais agrícolas p u b licad os p ara as A ntilhas

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In t r o d u ç ã o

em fins do século XVIII e começos do XIX, a questão centrai


enfrentada por seus autores foi a administração do traba­
lho escravo.7
Atitude análoga pode ser observada no M anual do agri­
cultor brasileiro. Tal como os autores antilhanos, a todo mo­
mento Taunay frisou que o principal problema a ser enca­
rado pelos proprietários rurais brasileiros era a gestão dos
escravos. É m uito provável que ele conhecesse alguns dos
escritos das Antilhas. A volumosa coleção O fazendeiro do
Brasil, editada em Lisboa por frei José Mariano da Concei­
ção Velloso entre 1798 e 1806, veiculou traduções de al­
guns dos mais importantes textos agronômicos antilhanos.
A SAIN tinha em sua biblioteca alguns desses livros, e seu
órgão de divulgação — O A uxiliador da Indústria Nacional
— também publicou traduções de textos sobre a agricultu­
ra colonial inglesa e francesa.8
A administração dos escravos foi, de fato, o assunto cen­
tral do M an ual do agricultor brasileiro. Tanto é assim que,
dos capítulos iniciais do livro, dois foram dedicados exclu­
sivamente à questão. O primeiro deles (capítulo 2) apre­
sentou a visão geral do autor sobre o problema da escravi­
dão. Taunay, é certo, não encampou o que os historiadores
norte-americanos denominam a “tese do bem positivo” {po-

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M anual oo ' agricultor brasileiro

pudesse dispensar o uso exclusivo da força bruta, a instru­


ção religiosa dos escravos nos preceitos do cristianismo, a
criação de relações familiares estáveis entre eles. Paternalis­
mo e disciplina estrita, portanto, foram os dois pilares do
ideal de gestão escravista apresentado por Taunay. N ão por
acaso, ele lembrou a todo momento que o exemplo a ser se­
guido pelos senhores brasileiros deveria ser buscado na prá­
tica dos jesuítas e das forças militares.
As prescrições veiculadas por Taunay sobre a adminis­
tração dos escravos, na verdade, procuraram apontar solu­
ções para os problemas mais agudos vivenciados pela escra­
vidão no Império do Brasil nas décadas de 1820 e 1830. A
natureza de sua resposta a esses problemas é bem evidente,
por exemplo, na proposta para “territorializar” a reprodu­
ção da força de trabalho escrava no Brasil,10por meio do es­
tabelecimento de famílias e dos estímulos ao crescimento
natural da população cativa. Tal recomendação explica-se
não só pela ameaça concreta do fim do tráfico negreiro tran­
satlântico — nas letras da lei, proibido desde 1831 — , mas
sobretudo pela consolidação da ordem nacional. Taunay
(assim como outros autores coevos) acreditava que os es­
cravos e as escravas nascidos no Brasil seriam bem mais dis­
ciplinados que os cativos africanos. Casos concretos de re-

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In tr o d u ç ã o

volta africana no Brasil, como a Revolta dos Malês, em Sal­


vador (1835), ou a fuga coletiva liderada por Manuel Con­
go, em Vassouras (1838), demonstravam aos olhos das eli­
tes imperiais os riscos da importação maciça de africanos.11
A “territorialização” da força de trabalho cativa, assim, além
de silenciar as pressões inglesas pelo fim do tráfico, que co­
locavam em risco a soberania nacional, diminuiría sensivel­
mente as tensões sociais internas em torno da escravidão.
O paternalismo contido nas prescrições de Taunay so­
bre a gestão escravista, ademais, articulou-se a uma concep­
ção mais ampla de poder político no Império do Brasil. Co­
mo demonstrou o historiador limar Rohloff de Mattos, o
processo de formação da classe senhorial escravista do Cen-
tro-Sul foi indissociável da própria construção do Estado
nacional. A visão oligárquica da vida política corrente no
Brasil oitocentista postulava que o atributo do governo —
tanto do Estado como da Casa — cabia apenas à “boa so­
ciedade”, isto é, ao mundo dos brancos proprietários e ci­
dadãos. A missão civilizadora do poder monárquico, que
previa o exercício de uma tutela paternal do imperador e
de seus burocratas sobre todos os súditos brasileiros, des­
dobrava-se necessariamente no paternalismo dos proprietá­
rios sobre seus dependentes — mulher, filhos, parentes,

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M anual do agricultor brasileiro

clientes, agregados e, naturalm ente, escravos.12 O ideal pa­


ternalista de governo dos escravos, desse m odo, conectava-
se diretamente com a m anutenção d a ordem nacional: Car­
los A ugusto Taunay acreditava que suas m edidas para a
gestão escravista seriam o único m eio capaz de civilizar os
escravos, garantindo desse m odo a segurança pública e pri­
vada do Império.
O capítulo a respeito dos “cursos agronôm icos em fa-
zendas-m odelos” op erou no m esm o sentido. O programa
de educação agrícola voltado para os futuros senhores e ad­
ministradores pretendia uniform izar o com portam ento ad­
ministrativo d a classe senhorial e de seus prepostos. O con­
traste com a pedagogia voltada para os escravos não podería
ser m ais nítido: afinal, o propósito central da instrução dos
brancos era exatam ente o de educá-los n a arte de bem co­
m andar os cativos.
A fora o tem a da escravidão, o M an u al do agricultor bra­
sileiro teve outros dois grandes assuntos: a m elhoria e a di­
versificação d a produção dos gêneros de grande lavoura pa­
ra exportação e o au m en to d a p ro d u ção do s gêneros de
primeira necessidade. A visão de Taunay sobre as potencia­
lidades naturais brasileiras unificou esses dois temas. Para o
autor, o território brasileiro era adequado a toda e qualquer

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In t r o d u ç ã o

atividade agrícola. Essa visão foi tributária de uma certa


sensibilidade pré-romântica, muito presente na obra poéti­
ca de seu irmão Teodoro Maria, mas também de concep­
ções caras à Ilustração luso-brasileira, que apontavam para
a vocação agrícola do Brasil.13
Cabem alguns esclarecimentos sobre o tratamento da­
do por Carlos Augusto Taunay a esses dois assuntos. A de­
fesa do melhoramento técnico da agricultura de exportação
derivou da necessidade premente de elevar a produtividade
da econom ia escravista brasileira, em face da competição
dos demais produtores que operavam no mercado mundial.
Entretanto, o nível técnico prescrito por Taunay, excetuan­
do-se a cafeicultura, se não era defasado, foi rapidamente
superado nas décadas seguintes à publicação de seu M a­
nual. E preciso ter em conta que o livro, depois de finaliza­
do, dem orou dez anos para ser publicado. Tome-se o caso
da produção açucareira: a assertiva de que “a parte fabril
dos engenhos não é tão defeituosa como a parte agrícola”
(p. 107) seria desmentida pouco tempo após o aparecimen­
to do M an ual do agricultor brasileiro> com o surgimento das
caldeiras de processamento a vácuo do caldo da cana fabri­
cadas pela firma francesa Derosne & Cail» que elevavam em
m uito o rendim ento açucareiro e a produtividade do tra-

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M anual do agricultor b r a s i l e i r o

balho escravo. A lgo sem elhante ocorreu co m as observações


a respeito da econom ia algodoeira. T au n ay tratou quase ex­
clusivamente do algod ão arbóreo, d e fibra lon ga, cultivado
nas províncias do N o rte d o Im p ério. A pesar de indicar que
as províncias ao sul de M in a s G erais eram plenam ente ap­
tas ao cultivo do alg o d ão h erb áceo , d e fibra curta, Taunay
não deu n otícia d o d e scaro çad o r a u to m ático de Eli W hit-
ney, voltado especificam en te p ara os algodões de fibra cur­
ta, e que havia criad o as co n d içõ es técn icas p a ra a revolu­
ção algodoeira d o S u l d o s E sta d o s U n id o s. E m relação à
cafeicultura, no entanto, T au n ay d em o n strou grande atua­
lização técnica, com preensível em vista de ele próprio diri­
gir um a plantação d e café. D eve-se n o tar q u e ele foi o pri­
meiro autor de que se tem n otícia q u e procu rou difundir a
técnica de plantio do cafeeiro em curva de nível.
N o que se refere às co n sid eraçõ es so b re as lavouras de
m antim entos e de gên eros d e p rim e ira n ecessid ad e, T au ­
nay ressaltou a im portân cia de as prop riedades rurais escra­
vistas terem p rodu ção variad a d e alim en to s p a ra abastecer
seus cativos. A preo cu pação co m a d iv ersificação agrícola
também norteou os capítulos sobre “culturas q u e devem ser
naturalizadas, reproduzidas ou am p lificad as” (capítu lo 11),
horticultura (12) e pom ares (1 3 ), N esses capítu lo s, o plan o
Introdução

de diversificar a economia imperial, garantindo a ocupação


equilibrada do território nacional, fazia parte do projeto
mais amplo de colocar o Império no diapasão dos países da
Europa Ocidental. No capítulo sobre pomares, que trouxe
propostas para o melhoramento das espécies de frutas nati­
vas do Brasil, percebe-se que Taunay tomou partido na “dis­
puta do Novo Mundo”, isto é, a polêmica que polarizou
naturalistas e homens de letras dos dois lados do Adântico
acerca da superioridade ou inferioridade do mundo natu­
ral das Américas em relação ao do Velho Mundo.14Para o
autor, a natureza do Brasil nada devia a outras regiões do
globo. As descrições laudatórias do território nacional, pre­
sentes em toda a segunda metade do livro, não eram meros
ornamentos discursivos. A fertilidade e a abundância a to­
da a prova do Brasil, eis a mensagem de Taunay, só espera­
vam a indústria do homem para serem exploradas a con­
tento.
Osjxes temas gerais do Manual do agricultor brasileiro I
T, (escravidão, agricultura.de exportação* gêneros de primeira <
! necessidade) convergem para um ponto claro: o livro foi
1 concebido por seu autor como uma peça na construção da
j nova ordem nacional que estava sendo erigida nas décadas
I de 1820 e 1830. É esse caráter do livro que explica seu apa-

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M anual do agricultor bhasilci RO

drinhamento por Bernardo Pereira de Vasconcelos, no mo­


mento exato do Regresso Conservador (1 8 3 7 *4 1 ), movi­
mento que moldaria decisivamente a feição institucional,
política, social e econômica do Segundo Reinado. O livro,
em resumo, pretendia levar para dentro das fazendas e dos
engenhos brasileiros a ordem que os agentes do Regresso
queriam construir.
A memória familiar dos Taunay tentou, na passagem
do século XIX para o XX, transform ar C arlos Augusto em
abolicionista avant la lettre. O escritor romântico visconde
de Taunay, por exemplo, afirmou que seus tios Carlos Au­
gusto e Teodoro Maria “foram os prim eiros abolicionistas
na Sociedade Auxiliadora da Indústria N acional”. A mes­
ma avaliação foi reiterada pelo filho do visconde, o histo­
riador Aífonso d’Escragnolle-Taunay.15 C om o se poderá no­
tar pela leitura deste livro, essas assertivas não têm o menor
fundamento. Carlos Augusto Taunay foi, na verdade, um
dos mais sistemáticos defensores da escravidão negra no
Brasil oitocentista.
Construído pelo olhar do estrangeiro que se naturaliza
brasileiro, o M anual do agricultor de C arlos A ugusto Tau­
nay é um retrato altamente expressivo do Brasil — e para
nós, hoje, terrificante. Trata-se de um docum ento funda-

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N T R O D U Ç A O

mental para a compreensão da sociedade escravista brasi­


leira do século XIX e, por conseqüência, da mentalidade es­
cravista das elites locais, das relações de poder escoradas na
escravidão, basilares na formação histórica brasileira.

A edição original do M an ual do agricultor brasileiro con­


tém um enorme Apêndice, que ocupa cerca de dois terços
do volume total da obra. Q uase todos os textos que com ­
põem esse Apêndice foram retirados do periódico O Auxi-
liador da Indústria N acional, sendo que apenas um desses
textos foi escrito por Carlos Augusto Taunay. H á ainda no
Apêndice um compêndio sobre princípios básicos de botâ­
nica, redigido pelo renom ado naturalista alemão Ludwig
Riedel,16 que tam bém elaborou a taxionom ia contida no
texto principal do M an ual e redigiu algumas de suas notas.
Para uma coleção com os propósitos da Retratos do Brasil,
o interesse reside no corpo do texto escrito por Carlos Au­
gusto Taunay. Assim, foram suprimidas desta edição o Apên­
dice e as referências a ele contidas no texto do M anual (in­
dicadas por [...]).
As notas de Taunay e Riedel vão no rodapé e estão in­
dicadas com asteriscos; as demais, do organizador, estão nu-

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M a n u a l , do
AGRJCUITOR BRASILEIRO

Capítulo 2
D a e scra v id ã o . — D o s e scrav o s p retos.

A
escravidão, con trato entre a violên cia e a não-resistên-
cia,* que tira ao trabalho a su a recom pensa, e às ações
o arbítrio m oral, ataca ig u alm en te as leis d a hum anidade e
d a religião, e os povos que o têm ad m itid o na sua organiza­
ção têm pago bem caro esta violação d o direito natural.
Porém a geração que ach a o m al estabelecido não fica
solidária d a culpabilidade daquilo que, pela razão que exis­
te, possui um a força m uitas vezes irresistível, e certos abu­
sos radicais têm um a conexão tão estreita com o princípio
vital de um a nação, que seria mais fácil acabar com a exis­
tência nacional, do que com estes mesmos abusos; v. g. em

Os gregos diziam que os persas eram escravos unicamente por não


saberem pronunciar o monossílabo não.

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C apitulo 2

S. Dom ingos, a libertação simultânea dos escravos deu ca­


bo do sistem a político que coordenava aquela ilha com a
M etrópole; a França perdeu um apêndice interessante de
seu corpo social, e um povo preto se improvisou inespera­
damente em um lugar que jamais a ordem natural das coi­
sas destinaria para sede de um a potência africana.1
N o caso particular da escravidão dos pretos comprados
na costa da África, podem os considerar o seu resgate das
mãos dos prim itivos donos, e a inferioridade da sua raça,
como circunstâncias atenuantes que devem tirar qualquer
escrúpulo de consciência ao senhor hum ano, que põe em
prática com os seus escravos a m áxim a admirável do Evan­
gelho, e que só de p er se vale um código de moral, de não
fazer aos outros aquilo que não quereriamos que se nos fi­
zesse a nós.

Todos os vol]umes e declam açoes dos antagonistas do


tráfico dos pretos fazem pouca impressão nos homens verí­
dicos que têm estudado de perto, com cuidado e imparcia­
lidade, a questão. A organização física e intelectual da raça
negra, que determina o grau de civilização a que pode che­
gar; os costum es das tribos, o m odo por que elas se tratam
um as às outras, e por que os indivíduos da mesma tribo se
tratam entre si, não perm item que se nutram as ilusões de

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M a NUA í CO AGRICULTOR BR^SSLEfg©

que, cessando o tráfico, as guerras, e outros usos bárbaros


que a flagelam, haviam de descontinuar: bem ao contrário,
se admitirmos duas exceções, um a na Á frica, para os guer­
reiros que gozavam de todas as vantagens da sua semicivili-
zação e oprimiam seus patrícios, e outra na Am érica, para
os que caem nas mãos de senhores ferozes, m onstros de fa­
ce humana, devemos reconhecer que, geralm ente falando,
a sorte dos negros melhora quando escapam ao cruel cho­
que do transporte. Aliás, sem nos darm os p or apologistas
dos traficantes de escravos, gente quase sem pre sem moral
nem entranhas, observaremos que as idéias européias sobre
o bem-estar não servem ao caso desse transporte. A vida an­
terior e privações que os pretos podem aturar determinam
o método do embarque. O interesse dos donos é que os es­
cravos escapem com a vida e sãos. M edem -lhes o ar, o es­
paço e o alimento, de forma que haja de tudo isto bastante
para que o mor número não m orra: nada dao a côm odo:
conta nenhuma fazem das ânsias e dos sofrimentos. Porém,
desejaríamos saber se a filantropia dos governos da Europa,
e dos especuladores, no embarque dos prisioneiros, ou mes­
mo dos soldados e colonos, na maioria dos casos, tem obra­
do diferentemente.
A inferioridade física e intelectual da raça negra, classi-

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Capitulo 2

ficada por todos os fisiologistas como a última das raças hu­


m anas, a reduz naturalmente, um a vez que tenha contatos
e relações com outras raças, e especialm ente a branca, ao
lugar ín fim o, e ofícios elementares da sociedade. D ebalde
procuram -se exemplos de negros cuja inteligência e produ­
ções adm iram . O geral deles não nos parece suscetível se­
não do grau de desenvolvim ento m ental a que chegam os
brancos na idade de quinze a dezesseis anos. A curiosidade,
a im previsão, as efervescências m otivadas por paixões, a im ­
paciência de todo o ju go e inabilidade para se regrarem a si
m esm os; a vaidade, o furor de se divertir, o ódio ao traba­
lho, que assinalam geralmente a adolescência dos europeus,

m arcam to d o s os perío dos da vid a dos pretos, que se p o ­

dem cham ar hom ens-crianças e que carecem viver sob uma

perpétua tutela: é pois indispensável conservá-los, um a vez

que o m al da sua introdução existe, em um estado de escra­

vid ão , o u p róxim o à escravidão; porém , esta funesta obri­

gação d á os seus péssim os frutos, e o primeiro golpe de vis-

ta n os co stu m es, m o ralid ad e e educação desengana o

observad or e o convence de que a escravidão não é um mai

p ara eles, e sim para os seus senhores.

O Brasil sente mais violentamente do que qualquer ou­


tra nação, ou colônia, este mal, e menos do que qualquer

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M A N« A i 0 © A G U i € ts

outra acha-se em estado de se subtrair tao cedo à sua in­


fluência. Nossa agricultura, já tão decaída, não aturaria no
momento atual nem a libertação dos pretos, nem mesmo a
real cessação do tráfico; portanto, em vez de querermos sa­
nar o mal, cuja extirpação levaria con sigo a existência, o
nosso trabalho deve limitar-se a m itigar os seus piores efei­
tos, e preparar os m eios às gerações futuras para se pode­
rem livrar sem perigo da praga social com que nossos gera­
dores nos dotaram.
As considerações supra, resultados de um a observação
desinteressada, fixam a opinião que devemos ter da escravi­
dão dos pretos, peculiarm ente no nosso Brasil; agora resta
examinar o modo de tirar o m elhor partido possível de uma
situação obrigatória.
A escravidão priva o hom em livre da m etade de sua vir­
tude. Este rifão não foi feito para pretos, sim para brancos,
oriundos da primeira das raças hum anas, da caucásica, e até
para republicanos, gregos e rom anos. Q ue diremos dos pre­
tos de raça ínfim a e sujeita aos apetites brutos do homem
selvagem? Q ual será a m ola que os poderá obrigar a preen­
cher os seus deveres? O medo, e som ente o m edo, aliás em­
pregado com muito sistema e arte, porque o excesso obra­
ria contra o fim que se tem em vista.

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C a p rjò~i/.o 2

Sempre que os homens são aplicados a um trabalho su­


perior ao prêmio que dele recebem, ou mesmo repugnante
à sua natureza, é preciso sujeitá-los a uma rigorosa discipli­
na, e mostrar-lhes o castigo inevitável. Sem este meio não
haveria exército de mar ou terra. Um branco, um europeu,
abandonado à sua livre vontade, nunca seguiria o regime
militar. D a mesma forma, um preto se não sujeitaria nun­
ca à regularidade de trabalhos que a cultura da terra requer.
Vejam-no na sua pátria, e entre nós quando liberto. Ele ape­
nas emprega algumas horas cada semana para procurar o
sustento, e não raras vezes prefere o jejum ao trabalho. Se
pois se não pode determinar a trabalhar quando o fruto do
trabalho é todo dele, qual seria o motivo que teria poder de
o obrigar quando é para o senhor o fruto de seu suor? Fica
pois claro que somente a mais rigorosa disciplina valerá pa­
ra aplicar os negros a um trabalho real e regular, e que com
eles o contrato da gleba, que hoje substitui a escravidão em
toda a Europa, não poderia ter lugar.

Eis-nos pois obrigatoriamente com uma rigorosa disci­

plina nos campos] e mormente nas grandes fabricas, aonde

uma perpétua vigilância e regra intransgressível devem pre­

sidir àos trabalhos, ao descanso, às comidas, e a qualquer

movim ento dos escravos, com o castigo sempre à vista, A

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mãmmm eeam §«8©

maior ou menor perfeição desta disciplina o mai(}


ou menor grau de prosperidade dos estabdednimiti» ^ri­
do este ponto de in te re sse tã o transcendente, q u e c©aáde«
ram os como o re m é d io m a is e fic a z da decadência da nossa

agricultu ra u m a lei q u e fix a sse a so rte d o s p reto s, e regula­

rizasse em to d a a s u p e rfíc ie d o I m p é r io o m o d o de os tra­

tar, e a p orção d e tr a b a lh o d iá r io q u e se p o d e exigir deles,

pois que a ig n o râ n cia , a av areza, e o d esleixo , d e mãos da­


das, cegam os d o n o s a p o n to q u e a vo z d o seu interesse bem
entendido n ão p o d e ser o u v id a p a ra o s resguardar de que
apliquem m al, e x a u ra m [sic ], o u d e ix em inúteis as forças
da sua escravatura.
Porém , talvez q u e certa gen te se persuada que o gover­
no, se se in trom etesse a leg islar so b re escravos, atacaria o
direito de propriedade, e a p rerrogativa d o senhorio: para
reconhecer o quanto esta o p in ião é errada, basta observar
que a escravidão, com o esta gente a entende com os anti­
gos, e os asiáticos, não pode, nem deve existir hoje em um
país cristão. O s governos europeus antes fecharam os olhos
sobre este tráfico do que o perm itiram explicitamente, e as
considerações em que fundaram a concessão ao interesse
foram tiradas da religião e do anterior estado de escravidão
dos pretos na sua terra, cujo traspasse, em mãos de brancos

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e cristãos, devia ser favorável ao escravo, reservando-se o di­
reito de intervir no contrato de traspasse, e estipulando ta-
citamente a favor do escravo as precisoes do sustento, ins­
trução cristã, c segurança da vida e membros.
Os negros pois nas colônias européias, e no Império do
Brasil, não são verdadeiramente escravos, sim proletários,
cujo trabalho vitalício se acha pago, em parte pela quantia
que se deu na ocasião da compra, em parte pelo forneci­
mento das precisoes dos escravos e sua educação religiosa.
O legislador tem, portanto, direito de se intrometer pa­
ra que esta parte do contrato, de que é fiador, seja fielmen­
te executada; tanto mais que o interesse dos donos, como
já observamos, requer a mesma-ingerência.
Aliás as leis existentes sobre a prisão e castigo, ou exe­
cução dos escravos pela parte pública, quando criminosos;
a venda, ou libertação deles, por certa quantia, quando as­
sim o requisitam, e a manumissão das crianças na ocasião
do batismo, havendo o depósito de estilo, assaz compro­
vam que o governo nunca deixou de seguir a mesma dou­
trina e de considerar os pretos como menores debaixo da
tutela dos senhores em virtude de um contrato obrigatório

para ambas as partes; a regra de jurisprudência, que consi­

dera os escravos como coisas, não tendo aplicação senão no

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MANUAL 00 AGRICULTOR BRASILEIRO

que toca à totalidade do trabalho que podem fazer na sua


vida, logo que eles gozam no resto dos direitos passivos com­
patíveis com a livre disposição, para os donos, do mesmo
trabalho, sendo uma blasfêmia contra o legislador e a na­
ção o supor que jamais pudessem abandonar a sorte e vida
de um ente humano ao ludibrio de outro: e a ineficácia ou
inexecução das leis a este respeito não podem autorizar outra
conclusão senão a necessidade de as executar à risca, ou re­
formar convenientemente.

r r>
M anual do agricultor brasileiro

C apítulo 3
D a disciplina da escravatura. — Alimento. — Vestimenta
e habitação. — Tarefa diária. — Castigos. — D ireção
moral e religiosa. — Relações dos sexos.

E
sta disciplina, cuja indispensabilidade provamos no
capítulo supra, não pode ser invariável, pois que as cir­
cunstâncias do clima, lugar e gênero de cultura por força a
hão de modificar; porém, é possível reduzi-la a certas regras
gerais, com a latitude que as peculiaridades requerem. Es­
tas regras abrangem: 15, o alimento; 2a, vestimenta e habi­
tação; 3Q, a tarefa diária^ 4a, os castigos-, 5a, a direção religio­
sa e morak 6a, as relações dos sexos.
Alimento. Os negros são por natureza sóbrios, e nos seus
desertos aturam jejuns extraordinários; o seu gênero de vi­
da e gênio assim o requerem. A mor parte do tempo, ou
dormem ou andam à caça das feras e dos homens; mas, sen­
do tirados daquele estado selvagem para serem aplicados à

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