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“Tia, quando ​a gente ​vai comer? Eu ​tô ​morrendo de fome.

Essas foram as palavras que permaneceram na minha mente após visitar a escola
em que minha mãe ensina. Ela é professora de jardim de infância em uma escola localizada
em Costa Barros, o segundo bairro com o menor IDH no estado do Rio de Janeiro, no
Brasil. Com frequência, nós conversamos sobre seu trabalho diurno; ela chega em casa
cansada, eu pergunto como foi o expediente e ela me conta o que as crianças aprontaram.
Há dias, porém, nos quais se emociona com algo que aconteceu em sala e acaba
compartilhando comigo maiores detalhes sobre o dia a dia dos alunos. A negligência vai de
uniformes sujos até casas com o teto despencando e infestação de ratos. “Se não fosse
pela escola provendo três refeições por dia”, ela me conta, “algumas crianças simplesmente
não conseguiriam comer”.

Eram sete da manhã. Eu ponderava como passar meu tempo livre, já que não teria
aulas no dia. De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo som familiar do
alarme da minha mãe. Eu já havia manifestado o interesse de conhecer seu ambiente de
trabalho, só faltava a oportunidade, já que nossos horários são tão conflitantes. Mas lá
estava. Perguntei se poderia acompanhá-la e a resposta foi sim. Ainda era cedo quando
entramos em seu carro e ela deu a partida. Olhei pela janela e assisti à paisagem que
conheço bem. A rota que minha mãe faz até o trabalho intersecta com as ruas que eu
costumava percorrer quando criança, a caminho da minha própria pré-escola. Eis o que eu
vi: gente correndo entre carros, aparência cansada, tentando pegar o ônibus. Muros e
prédios tomados por pichação. Pessoas sem-teto revirando lixo, procurando comida. Um rio
antigo que atravessa a cidade, agora consumido por poluição. Eis o que eu não vi: qualquer
investimento em políticas públicas nos arredores.

Quando chegamos, as crianças nos esperavam à frente do portão com seus


responsáveis. Após as despedidas e um café da manhã rápido, entramos e sentamos em
círculo no centro da sala. Era segunda-feira, e a primeira coisa que eles fazem na escola
depois do fim de semana é contar as novidades uns aos outros. Senti arrepios quando uma
garotinha, Eduarda, contou ao grupo que ela estava com muita fome, mas era o fim do mês
e sua mãe já não tinha mais dinheiro para comprar comida. De novo, quando dois outros se
identificaram com a situação. Pude perceber que alguns lidavam com dificuldades de fala;
uma aluna tinha ceceio e outro consistentemente trocava sílabas. Já era hora da aula
quando caí em mim, então sentei e assisti à minha mãe ensiná-los sobre formas
geométricas por um tempo. O sinal tocou, anunciando o horário do almoço. As crianças que
mais cedo disseram que não tinham comida em casa comeram dois pratos de uma refeição
balanceada na escola. O resto do dia voou e, quando percebi, os pais já buscavam seus
filhos.
Essa é a escola com a qual eu entrei em contato; entretanto, é uma só dentre um
total de aproximadamente cento e cinquenta mil escolas públicas no território do meu país.
Com toda honestidade, há muitos problemas no Brasil que eu gostaria de consertar. Altas
taxas de criminalidade, complicações em nosso sistema de saúde pública, pobreza
extrema, fome, desemprego e os esquemas escancarados de corrupção de nossos
governantes são alguns exemplos. Mas o ponto é: todos remetem à falta de educação
pública de qualidade.
Com isso em mente, eu começaria investindo no treinamento e capacitação de
profissionais da educação — não só professores, mas também pedagogos, psicólogos,
nutricionistas, fonoaudiólogos e toda a equipe que constitui uma escola bem estruturada.
Isso é especialmente importante no contexto social do Brasil, em que não é encorajado
perseguir conhecimento pelo conhecimento em si, mas sim com um objetivo prático em
mente, tal qual admissão em vestibulares. A escola não deveria ser um fardo e precisa estar
preparada para atender às necessidades do aluno mesmo quando elas extrapolam o
currículo. Também investiria em infraestrutura: há muitas escolas no Brasil literalmente
caindo aos pedaços. Uma vez que o problema físico fosse remediado, as estruturas
estivessem seguras e acessíveis a pessoas com necessidades específicas, eu financiaria
materiais tais como livros didáticos, quadras poliesportivas, bibliotecas, laboratórios de
ciência e computação, conexão à internet e projetores multimídia, para citar alguns. Por fim,
para me ater ao orçamento, financiaria projetos de iniciação científica e artística e garantiria
aos participantes bolsas mensais, não só fomentando uma cultura em que a pesquisa é
considerada importante, mas também ajudando estudantes com necessidades financeiras.
Por fim, quero que essas crianças que conheci — e todas as Eduardas ao redor do Brasil —
tenham melhores condições do que atualmente têm.

Quando trancamos o prédio e entramos no carro, já eram cinco da tarde. Olhei pela
janela novamente e dessa vez vi um aglomerado de crianças de diferentes escolas, todas
usando nosso uniforme de educação pública, rindo alto debaixo do brilho morno do sol;
todas andando na mesma direção, voltando para casa. Isso é o que eu mais amo no Brasil:
apesar de todos os obstáculos, nós ainda achamos tempo para rir e ter esperança. De certa
forma, vi meu país refletido no otimismo claro e desinibido das crianças. E, naquele
momento, eu pude claramente vê-las andando na direção de um futuro melhor, com
oportunidades iguais e potenciais alcançados.