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RESENHA • É POSSÍVEL FALAR DE GESTÃO DE CARREIRA NO BRASIL?

É POSSÍVEL FALAR DE GESTÃO


DE CARREIRA NO BRASIL?
Por Maria José Tonelli
Professora da FGV-EAESP
E-mail: maria.jose.tonelli@fgv.br

GESTÃO DE CARREIRAS: DILEMAS E PERSPECTIVAS


De Moisés Balassiano e Isabel de Sá Affonso da Costa (Orgs.)
Editora Atlas, São Paulo, 2006, 221p.

Moisés Balassiano e Isabel de Sá Afon- Maria Tereza Gomes, redatora-chefe tro, as empresas estão mais próximas
so da Costa são os organizadores desta da revista Você S/A, mostra que esta- da comunidade. Para que o indivíduo
apropriada coletânea sobre o tema de mos em uma encruzilhada, pois, se o possa conduzir sua própria carreira, é
carreiras em nosso país. O livro reúne individualismo extremo prevalecer, necessário desenvolver competências
artigos teóricos e pesquisas empíri- não haverá mais o sentido de coletivo, e empregabilidade. Contudo, o autor
cas de vários pesquisadores brasilei- fundamental para o crescimento e de- mostra a existência de contradições
ros e apresenta também um texto de senvolvimento das corporações. nesse processo, pois ao mesmo tempo
pesquisadores estrangeiros ligados Apesar de se tratar de uma coletâ- em que a individualidade é encoraja-
a instituições francesas de ensino e nea, o livro apresenta uma unidade. da, há também pressões no sentido da
pesquisa, Christophe Falcoz e Jean- Após a Introdução, em que os orga- conformidade e da obediência para a
François Chanlat. nizadores apresentam o projeto co- obtenção de recompensas ou bônus
Em boa hora, o livro de Balassiano letivo do livro, são apresentados 11 financeiros.
e Costa propõe a discussão do tema artigos, que destacaremos brevemente Em seu artigo, Thiry-Cherques
da carreira sem fugir às contradições a seguir. discute, a partir de evidências de um
inevitáveis que a questão traz no mo- O artigo de Paulo Roberto Motta, estudo empírico, o sentido de indivi-
mento atual. O tema é tratado por di- que abre a coletânea, apresenta uma dualismo nas empresas brasileiras. Seu
ferentes prismas, que problematizam visão geral do contexto que, há mais estudo foi realizado com 85 executivos
os dilemas de uma individualidade de 50 anos, incentivou a carreira ge- das regiões norte e sudeste do país. O
mutante em face das profundas trans- rencial, mostrando que hoje esses va- autor observa que o tipo de individu-
formações das sociedades contem- lores mudaram: de um lado, o indivi- alismo definido por ele de “possessi-
porâneas. Na apresentação do livro, dualismo está mais presente; de ou- vo” está fortemente presente no gru-

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MARIA JOSÉ TONELLI

po pesquisado. Para Thiry-Cherques, fronteiras, em contraposição ao senti- sentados nesse artigo, com compara-
esse individualismo implica compor- do tradicional de carreira. De acordo ções interessantes com os sistemas de
tamentos de autonomia, mas também com a autora, a carreira sem fronteira outros países.
de sujeição aos esquemas regulatórios é o modelo paradigmático dos novos Os dois últimos artigos discutem
das empresas. tempos. a carreira após os 40 anos. Joaquim
O próximo artigo, de Ana Heloisa Extremamente pertinente para os Rubens Fontes Filho mostra que, no
da Costa Lemos, analisa o conceito que estão no mundo do ensino da Ad- processo de renovação das empre-
controverso de empregabilidade. A ministração, o artigo de Beatriz Maria sas, tanto no exterior como em nosso
autora recorre a pesquisadores con- Braga Lacome e Rebeca Chu trata da país, os executivos com mais de 40
temporâneos importantes, como Za- carreira do professor universitário. As foram substituídos por jovens com
rifian e Hirata, para defender que o autoras realizaram entrevistas com 19 salários mais baixos. O autor ques-
conceito de empregabilidade revela o professores e, a partir delas, observam tiona a aplicabilidade do conceito de
deslocamento do conceito de compe- que, entre eles, há uma forte vincula- carreira sem fronteiras no mercado de
tência em decorrência de mudanças ção com o trabalho, autonomia para trabalho brasileiro. O autor apresenta
mais profundas no sistema econômi- o desenvolvimento de competências, dados da força de trabalho no Brasil e
co. Buscando referências também em a existência de uma rede de relacio- problematiza o impacto do amadure-
autores nacionais, Lemos faz uma crí- namentos e mobilidade profissional – cimento da força de trabalho para as
tica contundente das implicações que todas características do conceito de organizações.
a palavra produz, e mostra a crescente carreira sem fronteiras, “que sugere Nessa mesma direção, Falcoz e
individualização do emprego e do de- a independência e autonomia de car- Chanlat mostram que a possibilidade
semprego no Brasil. reira em relação a uma única organi- de a carreira ficar estagnada está asso-
O artigo escrito por Isabel de Sá zação” (p. 109). ciada a diversos fatores. Em geral, de
Affonso da Costa e Anna Maria de Denise Medeiros Ribeiro Salles e acordo com os autores, quanto mais
Souza Monteiro Campos discute que Miriam Garcia Nogueira discutem a avançada a idade, maior a chance de
a carreira teve um papel central no questão da carreira no setor público. estagnação. O estudo empírico con-
contrato psicológico que se estabelecia De acordo com elas, esse setor está duzido com 58 profissionais mostra
entre as pessoas e a organização. Se, hoje defasado dos benefícios permiti- que fatores organizacionais e indivi-
de um lado, a identidade das pessoas dos pelas novas tecnologias, e, desde duais também interferem nas pers-
foi construída em torno do projeto de o princípio, os planos de carreira ba- pectivas de continuidade de trabalho,
trabalho, que teve – e continua a ter – seiam-se na noção de cargos. A Consti- como, por exemplo, o tempo de per-
centralidade na construção de si, por tuição de 1988 impede que ocupantes manência nos cargos, a concorrência
outro, os frágeis e efêmeros víncu- de cargos efetivos possam ascender no setor, as políticas de aposentado-
los contemporâneos levam ao que as funcionalmente, já que o processo de ria e os sentimentos envolvidos na
autoras chamaram de “abertura ao admissão nesses cargos está vincu- aposentadoria.
acaso”. lado exclusivamente aos concursos É possível falar de gestão de car-
A carreira proteana é discutida no públicos. Além da discussão sobre a reiras no Brasil? Os autores mostram
artigo de Helio Tadeu Martins. Nele,o inflexibilidade presente nesse tipo de que sim, apesar das dificuldades ine-
autor apresenta os principais tipos de carreira, o artigo traz um belo resga- vitáveis que o tema enfrenta por aqui.
carreira e relaciona o conceito com te histórico dos diferentes momentos Em síntese, o livro apresenta uma vi-
práticas de gestão de pessoas, a partir da administração das pessoas nesse são abrangente sobre a questão de car-
da análise de sete universidades cor- setor. reiras no Brasil. Desse modo, a leitura
porativas brasileiras. As conclusões Também sobre o setor público, o ar- dessa coletânea é extremamente rele-
do autor mostram que muitas práticas tigo de Enrique Saravia traz relevante vante para pesquisadores, professores
gerencias corporativas baseiam o ge- contribuição sobre o tema dentro da de Administração e profissionais da
renciamento da carreira nas ações da reforma do Estado e da Administra- área de Gestão de Pessoas. Mas con-
área de Recursos Humanos, e não no ção Pública, com críticas ao tipo ideal sideramos que se trata de uma leitura
seu auto-gerenciamento. weberiano que tornou o sistema mais adequada também para o público exe-
Joyce Ajuz Coelho mostra em seu rígido. A noção de função publica, o cutivo, que muito tem a se beneficiar,
artigo os caminhos que levaram à conceito de funcionário público e os pessoal e profissionalmente, de todos
emergência do modelo de carreira sem sistemas de emprego público são apre- os aspectos aqui tratados.

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