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Ismênia de Lima Martins

Dom João – Príncipe Regente


e Rei – um soberano e muitas
controvérsias

Ismênia de Lima Martins


Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense e Coordenadora
do Repertório Joanino da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

RESUMO ABSTRACT

Pode-se dizer que Dom João enfrentou uma You could say that D. João faced a number of
série de dificuldades na vida familiar e suces- difficulties in family life and subsequent turmoil
sivas turbulências na esfera política. Se exis- in the political sphere. If there is agreement
te a concordância de todos os autores, que by all authors, who relied on the testimony of
se basearam no depoimento daqueles que o those who knew him closely, as to its goodness
conheceram de perto, quanto à sua bonda- and kindness, all the rest is controversial. While
de e afabilidade, todo o resto é controvérsia. some pointed to his vision of a statesman, oth-
Enquanto uns apontavam sua visão de esta- ers considered him a coward and wholly un-
dista, outros consideravam-no inteiramente prepared to govern. Anyway, D. João VI left its
covarde e despreparado para governar. De indelible mark Luso-Brazilian history, a fact that
qualquer maneira, Dom João VI marcou de resonates to the present, through a historiogra-
forma indelével a história luso-brasileira, fato phy that insists on judging the King, ignoring
que repercute até o presente, através de uma the continuous transformations, which experi-
historiografia, que insiste em julgar o Rei, enced over the course of the twentieth century.
desprezando as transformações contínuas,
que a disciplina experimentou ao longo do KEYWORDS: 1808, D. João VI, Historiography
século XX.

PALAVRAS-CHAVE: 1808, Dom João VI, His-


toriografia

Pode-se dizer que Dom João enfrentou uma série de dificuldades na vida familiar e suces-
sivas turbulências na esfera política. Tornou-se príncipe herdeiro, após a morte de seu irmão,
e regente, após a loucura de sua mãe. Vivenciou um casamento cheio de consequências no
plano pessoal e político, tendo sido alvo de uma série de conspirações que envolviam sua mu-
lher. Durante o seu governo, ocorreu a invasão de Portugal pela França, a vinda da Corte para
o Brasil, a necessidade de prover a administração do Reino, a exigência de equilibrar seus
interesses no forte jogo diplomático e conviver com a instauração de uma nova ordem política.
A trajetória pessoal do monarca, acrescida de inúmeras histórias relativas à sua vida fami-
liar, serve a muitas interpretações.

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Navigator 11 Dom João – Príncipe Regente e Rei – um soberano e muitas controvérsias

Se existe a concordância de todos os auto- UMA IDEIA MUITO ANTIGA


res, que se basearam no depoimento daque-
les que o conheceram de perto, quanto à sua Remontam ao século XVIII as primeiras
bondade e afabilidade, todo o resto é contro- propostas sistematizadas sobre a transferên-
vérsia. Enquanto uns apontavam sua visão cia da Corte para o Brasil.
de estadista, outros consideravam-no inteira- O Padre Antônio Vieira, no século anterior,
mente covarde e despreparado para governar. foi o primeiro a vislumbrá-la, ainda que sem a
De tal forma, são contraditórias as inter- fundamentação e a justificativa política, que,
pretações sobre Dom João e o seu governo mais tarde, lhe confeririam o poder e a rique-
que, por ocasião das grandes comemora- za do Brasil.
ções dos 500 anos do Achamento do Brasil, Já Dom Luís da Cunha (1662-1749), nas
enquanto o Comissário-Geral para as Come- suas Instruções Políticas – dirigidas a um
morações dos Descobrimentos Portugueses, discípulo e a um sobrinho2 –, que começou
Joaquim Romero Magalhães, justificava a a escrever em 1736, logo, uma obra de sua
escolha do real personagem como figura em- maturidade, além de justificar sua proposta,
blemática dos festejos, na apresentação do elencou medidas e aconselhamentos neces-
luxuoso livro-catálogo, o ensaio biográfico, de sários à sua viabilização3.
autoria de renomado historiador português, O projeto estruturante, que propunha
constante do mesmo volume, concluía: (...) para o Reino, tinha o Brasil na posição cen-
não o condenemos, nem o reabilitemos. Las- tral de suas reflexões e argumentos, dos
timemo-lo, somente1. quais o mais expressivo era o de que
O grande destaque para Dom João na his-
tória luso-brasileira reside no fato de ter sido (...) na América faltam muitas
o agente fundamental de uma audaciosa ma- coisas que crescem na Europa, e
nobra política, que enfrentou a hegemonia é constante que também na Eu-
ropa faltam muitas e mais precio-
napoleônica e resguardou a coroa portugue-
sas das que crescem na América,
sa das humilhações sofridas por outras mo- com esta grande diferença, que as
narquias europeias. Também garantiu a inte- que não há no Brasil, se podem vir
gridade do território ultramarino português, a ter com a indústria e aplicação;
mantendo-se na plenitude de seus direitos, porém não há aplicação nem in-
com a transmigração da Corte. dústria bastante para produzir em
Instalando no Brasil a primeira monar- Portugal o que há no Brasil (...)4.
quia do Novo Mundo, livrou a colônia dos an-
tigos grilhões que a sufocavam, propiciando No último quartel do século XVIII, tais
uma série de transformações políticas e eco- ideias circularam nas academias e nos deba-
nômicas, que culminaram com sua elevação tes políticos, principalmente entre os ilustra-
a Reino Unido. dos que se preocupavam com o progresso do
O mesmo episódio, porém, serve aos crí- Brasil e do Império português.
ticos para qualificá-lo como timorato, apoian- Dom Rodrigo de Souza Coutinho, cuja
do-se na sua resistência para tomar uma de- família tinha antigas ligações com o Brasil,
cisão quanto à transferência da Corte. Outro vai ser o principal formulador do projeto re-
grupo de seus críticos considera-o covarde lativo à transferência da Corte para o Brasil,
por ter abandonado Portugal. na conjuntura imediatamente anterior à sua
Não se pode deixar, porém, de dar desta- concretização, em 1808.
que à complexidade de sua importante deci- Em 1796, diante da gravidade da situa-
são, geralmente, não considerada pelos que ção de Portugal na Europa, o Príncipe Dom
classificam o rei de covarde. João reativou o Conselho de Estado e Dom

1
MARQUES, A. H. de Oliveira. “Dom João VI”, in Dom João VI e o seu tempo. Comissão Nacional para as Comemo-
rações dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa, 1999..
2
COUTINHO, Marco Antonio de Azevedo e MANUEL, D. Luís da Cunha, respectivamente.
3
Sobre as Instruções Políticas, ver o ensaio de SILVA, Abílio Diniz, op.cit., p. 18-170.
4
Ibidem, p. 367.

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Rodrigo foi convidado para ocupar o Minis- que se justificaria plenamente a decisão da
tério da Marinha e Domínios Ultramarinos. transferência da Corte.
O novo ministro, ultrapassando a esfera de Pensar a vinda da Corte para o Brasil sim-
suas competências, elaborou um programa plesmente como uma fuga é uma questão
de reformas para o Reino, com grande realce inteiramente superada para os historiadores.
para o Brasil. A cogitação, anterior a 1808, do Brasil como
No entanto, seria no Conselho de Estado sede da Monarquia, mas, sobretudo, o proje-
que Dom Rodrigo exortaria Dom João para to de Dom Rodrigo, os pronunciamentos de
que preparasse a defesa de Portugal contra a vários membros do Conselho de Estado na
pressão francesa, desafiando-o, desde 1797, mesma direção, as sugestões objetivas enca-
a fundar o mais vasto Império no Brasil5. Em 9 minhadas e as evidências de gestões admi-
novembro de 1798, foi mais incisivo em suas nistrativas no sentido de viabilizá-las, além da
análises, relativas à defesa de Portugal: documentação diplomática, constituem-se
em dados inquestionáveis quanto ao plane-
(...) defender com as armas na jamento da viagem.
mão a sua Independência, a sua Apenas os registros relativos ao tumulto
Soberania, os seus Domínios, tudo da partida poderiam, ainda, sustentar aquela
o que há de mais essencial... E interpretação. No entanto, todos os outros ar-
concluía que: (...) e se forçado por gumentos, relacionados acima, apontam no
uma adversa Sorte (...) de ceder
sentido de uma saída estratégica.
por algum momento as suas pos-
sessões européias aos inimigos da Outras análises designam a vinda da
Religião e dos Governos, que deve ir Corte para o Brasil como transmigração ou
fundar no Brasil um Império muito transferência, constituindo-se estas propo-
superior em grandeza e força a to- sições como as preferidas pelos autores
dos os que hoje existem na Europa brasileiros. Considerando-se o sentido de
(grifos meus)6. transmigrar como mudar de uma região
para outra dentro de um mesmo país,
Desde então, de forma recorrente, a pro- compreende-se tal preferência, pois coloca
posição ressurgia no Conselho de Estado o Brasil no mesmo nível de Portugal, liber-
e, já no final do verão de 1807, Dom João tando-o da inferioridade gerada pela situ-
de Almeida de Mello e Castro, consideran- ação colonial e alçando-o à condição de
do o agravamento da situação de Portugal, sede da Corte. O sentido de transferência
pronunciava-se sobre a necessidade de agi- como o simples ato ou efeito de transferir
lizar os preparativos da viagem, chegando a de um lugar para o outro apenas reforça
propor que se embalasse o Real Tesouro e esta interpretação.
também alguns dos arquivos de organismos
da administração pública7. ORFANDADE E ABANDONO

A TRANSFERÊNCIA DA CORTE PARA O Não pode, também, ser esquecido, nesta


BRASIL análise, o sentimento que a saída do rei pro-
duziu na população.
Apesar das eloquentes evidências docu- A concepção da realeza sagrada e mara-
mentais, pensando o Brasil como possível vilhosa, vigente na Idade Média, fundamen-
sede do Reino português, já relatadas, é na tava-se em uma série de crenças, lendas e
conjuntura específica que antecede a vinda ritos, que tenderiam a desaparecer, ao me-
da Família Real, particularmente o ano de nos teoricamente, com o desenvolvimento
1807, marcada pelo agravamento da pres- das bases racionais da ordem política no
são externa e da ameaça de invasão militar, Ocidente. Porém, mesmo após Descartes,

5
Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Negócios de Portugal, caixa 714, n. 9.
6
Idem, caixa 713, n. XI.
7
MARTINS, Ana Canas Delgado. Governação e Arquivos. Ministério da Cultura. Lisboa: Instituto dos Arquivos Na-
cionais, 2007, p. 19.

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Galileu, Locke, Newton e a revolução cien-


tífica que promoveram, manteve-se, por
exemplo, a crença na existência de um elo
direto entre a divindade e a monarquia, o
que representava uma forma de sobrevivên-
cia daquele pensamento no campo político8.
No absolutismo, os reis ainda tomavam o
lugar de Deus, eram as suas imagens vivas
e considerados verdadeiros representantes
da majestade divina.
No quadro europeu do último quartel do
século XVIII, o absolutismo apresentava-se
como uma ordem política francamente con-
testada, mas Dom João VI sobreviveu como Fig.1 – BARTOLOZZI, Francesco. Departure of his R.H.
monarca absoluto até 1821. the Prince Regent of Portugal for the Brazils. The 27
Assim, a figura do rei, como pai e protetor, th. nov. 1807 engraved by F. Bartolozzi; drawn by Henry
L’Eveque. 1 gravura : água-forte, p&b ; imagem 32,5 x
era introjetada em boa parte da população e 51cm em f. 38,5 x 53,5cm. Momento do embarque do
a vinda do rei para o Brasil, a par da ameaça Príncipe Regente para o Brasil. E:b:II . BN.
da invasão francesa, provocava uma profun-
da sensação de orfandade e abandono.

AS REPRESENTAÇÕES DO EMBARQUE
REAL

Para Maquiavel, governar era fazer crer.


É verdade que a propaganda, como se com-
preende hoje, é um conceito muito moder-
no. No entanto, o poder real mantinha uma
forma de atuação perfeitamente adequada
a tal termo9.
Assim, as representações do rei eram
encomendadas para aumentar a sua glória,
para transmitir segurança e estabilidade.
Entre as mais importantes representações
Fig.2 – Despedida do Príncipe Regente. Xavier, Luiz
inanimadas do rei, estavam os retratos e
António 1807. Gravura. 49X60cm. Lisboa, MC. Publica-
outras formas iconográficas, sobretudo, dos in D. João VI e seu tempo/ Comissão Nacional para
porque revelavam as diversas intenções de a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, Lis-
seus autores10. boa. Gráfica Maia Douro, 1999. (p.284).
É interessantíssimo comparar os registros
do episódio do embarque de Dom João por au- de Luiz Antonio Xavier, chamada Despedida do
tores diferentes, como, por exemplo, a gravura Príncipe Regente12. (ver Fig.2)
de Francesco Bartolozzi, intitulada A Partida Os elementos de comparação que se
do Príncipe Regente11, (ver Fig.1) baseada em impõem são eloquentes, confirmando que
um desenho de Henry L’Evéque, e a gravura os autores imprimiram às suas obras sen-

8
SORIA, José Manuel Nieto. Fundamentos Ideológicos del Poder Real en Castilla. Madrid: Ediciones de la Universi-
dad Complutense, S.A., 1988, p. 41.
9
SORIA, José Nieto, op. cit., p. 41, e BURKE, Peter, op. cit., pp. 15 e 16.
10
BURKE, op. cit., pp. 16 e 20 e SORIA, José Nieto, op.cit., pp. 44 e 45.
11
BARTOLOZZI, Francesco. Departure of his R. H. the Prince Regent of Portugal for the Brazil. The 27th. nov. 1807,
engraved by F. Bartolozzi; drawn by Henry L’Eveque. Uma gravura. E: b: II, BN.
12
Despedida do Príncipe Regente. Xavier, Luiz António 1807. Gravura. 49x60cm. Lisboa, MC. Publicada in D. João
VI e seu tempo. Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Gráfica Maia
Douro, 1999, p. 284.

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tidos muito distintos13. O próprio título das vivida por Portugal, o busto do príncipe sob
duas gravuras já enseja uma comparação, um pedestal imponente, ladeado pela Provi-
uma vez que A Despedida tem um sentido dência e pela Justiça, tendo à sua frente, de
de sociabilidade prevista, enquanto A Partida joelhos, a representação da guerra. Os ou-
transmite a ideia de ruptura. tros elementos metafóricos de destaque são
Quanto à concepção geral, ainda que os a Deusa e o Livro da Sabedoria, que irrompem
elementos constitutivos da cena sejam, prati- com grande luminosidade do interior de cú-
camente, os mesmos em ambas, a registrada mulos muito escuros, de onde partem, tam-
na primeira gravura reveste-se de dramatici- bém, dois grandes fachos de luz, um deles
dade e a segunda é dominada pela organiza- incidindo sobre o príncipe e o outro, sobre
ção de seus elementos, despida de qualquer as embarcações principais, assinaladas ao
conotação de tumulto, rebuliço, que domina fundo da cena. No entanto, o registro mais
o quadro anterior. importante relaciona-se à fisionomia do prín-
No que diz respeito ao personagem real, a cipe, representado, de maneira geral, com o
imagem de Bartolozzi representa o soberano rosto sem expressividade marcante. Neste
como uma figura roliça e de estatura normal; caso, é digno de nota o olhar de esguelha e
na do autor português, Dom João aparece o sorriso esboçado, ligeiramente maroto, que
com o corpo mais proporcionado e elegante, emprestam à face do príncipe um ar sagaz e
destacando-se por ser o personagem mais irônico. (Ver Fig. 3) Ainda que a alegoria cons-
alto da cena. Além disso, enquanto na pri- titua-se, de forma metafórica, para expressar
meira imagem a figura mais próxima de Dom um pensamento sob a forma figurada, neste
João esboça uma meia reverência e veem-se caso, reforçando esta intenção, e explicitan-
ao longe duas embarcações pequeninas, na do seu objetivo específico, abaixo do dese-
segunda, o súdito está de joelhos e aparece,
ao fundo, com destaque, uma grande frota.
Pode-se concluir que a segunda imagem
examinada, organizando e dispondo harmo-
nicamente todos os elementos em torno do
rei, revela a intenção de registrar a despedida
de uma viagem planejada.
A iconografia do período apresenta vários
registros em relação ao episódio da vinda da
Corte para o Brasil. Destaca-se uma série de
alegorias produzidas por artistas de prestí-
gio, que, de forma metafórica, louvavam o rei
ou justificavam sua partida, trazendo à cena
musas para o elogio de suas virtudes, ou,
particularmente, a Providência, na forma de
uma linda mulher, apontando-lhe o Atlântico
numa referência ao Brasil14.
Fig. 3 – MARQUES, I.A. Dom João Príncipe Regente
Dentre elas, merece citação especial a de Portugal. [S.I., 18-?]. 1 desenho: nanquim e aguada,
que apresenta15, no centro de um dramático 49x60cm. Título atribuído na ficha catalográfica: Alego-
desenho representativo da crítica situação ria à vinda de Dom João. Ret. E:i:III/arc.30. BN.

13
BARTOLOZZI, Francesco, artista italiano, que viveu na Inglaterra quase 40 anos e, em 1802, tornou-se o diretor
da Academia Nacional de Lisboa. XAVIER, Luiz Antonio, artista português não referenciado, que reproduz os ideais
da pintura cortesã.
14
Alegoria às virtudes de Dom João VI. Domingos António de Sequeira (a. d., 1810). Óleo sobre tela. 151x200cm. Que-
luz, PNQ, inv. 1434. Publicado in D. João VI e seu tempo. Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobri-
mentos Portugueses. Lisboa, 1999, p. 179, e QUEIRÓS, Gregório Francisco de. Exegit monumentum aere perenius.
Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. E: 1: II.
15
Ver imagem n. 3. João Príncipe Regente de Portugal. Marques, I. A. D. (S. I., 18). Um desenho: nanquim e aguada,
49x60cm. Título atribuído na ficha catalográfica: Alegoria à vinda de Dom João. Ret. E: i: III, arc. 30. Biblioteca Na-
cional. Rio de Janeiro.

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destacava-se a geometria, por sua importân-


cia na organização do raciocínio, e nomeava-
-se, ainda, o estudo das leis, da geografia da
Europa e os de língua francesa, assim como
o latim e o italiano17.
Dom João teve, inclusive, como profes-
sor o matemático Miguel Franzine, de quem
seu irmão, Dom José, também foi discípulo.
Vários outros mestres destacados dedicaram-
se à educação do jovem príncipe, dentre eles,
o professor de Letras e Ciências, o afamado
franciscano Dom Frei Manuel do Cenáculo; os
professores de Música foram o organista João
Cordeiro da Silva e o compositor João de Sou-
sa Carvalho, e seu mestre de equitação, o Sar-
gento-Mor Carlos Antônio Ferreira Montes18.
É notório que Dom João usufruiu bastan-
te das lições de picaria e de música, pois to-
Fig. 4 – Detalhe do busto de Dom João da imagem anterior das as fontes indicam que gostava muito de
nho, escreveu-se a fortuna de Napoleão tem cavalgar, sobretudo na sua juventude, e que
o limite marcado no momento, em que um era grande seu apreço pela música, particu-
Príncipe, se decide a atravessar o Oceano16. larmente a sacra.
Difícil, porém, é mensurar o aproveita-
mento das lições pelo Príncipe Dom João
SEGUNDOGÊNITO DESPREPARADO
nas outras disciplinas, mas pode-se afirmar
PARA GOVERNAR?!
que conhecia o idioma francês, a língua da
diplomacia.
Auguste Saint-Hilaire, botânico francês
De qualquer forma, não se pode imputar
que esteve no Brasil entre 1816 e 1822, con-
à condição de segundogênito as possíveis li-
siderava Dom João VI despreparado para
mitações de Dom João como governante.
governar. De acordo com este observador, ao
Alguns outros autores buscam justificar
contrário do seu irmão, que recebera educa-
as dificuldades do rei no exercício do poder,
ção excelente, ele não parecia destinado ao
considerando-o tímido, pusilânime, indife-
trono e era profundamente ignorante.
rente, ou seja, invocando traços de sua per-
A aludida condição de segundogênito
sonalidade.
foi apreendida por vários historiadores com
No entanto, vários testemunhos, inclusive
a mesma intenção de desqualificá-lo como
contemporâneos ao de Saint Hilaire, encami-
governante. No entanto, é um exagero supor-
nharam, noutro sentido, seu parecer sobre a
se que a educação do príncipe tivesse sido
capacidade do rei.
deficiente, uma vez que, na educação dos
John Luccock, comerciante inglês, radi-
segundos filhos, reproduzia-se o mesmo mo-
cado no Brasil entre os anos de 1808 a 1819,
delo previsto para o do futuro rei.
e considerado um dos melhores observado-
Seu tempo era organizado para a práti-
res do período joanino afirmou:
ca de rituais diários, devotos e de cortesia e
pela instrução religiosa, que ficava a cargo (...) o Príncipe Regente tem sido
de seu confessor. Segundo o regimento, os várias vezes acusado de apatia; a
príncipes deveriam conhecer a história dos mim, pareceu-me ele possuir maior
reis antecessores e, no plano dos estudos, sensibilidade e energia de caráter

16
Ibidem.
17
PEDREIRA, Jorge e COSTA, Fernando Dores. D. João VI. Círculo de Leitores e Centro de Estudo dos Povos e Culturas de
Expressão Portuguesa, 2006, p. 37 e 38.
18
MARQUES, A. H. de Oliveira. “D. João VI”, in D. João VI e seu Tempo. Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses. Lisboa, 1999, p. 29 e 30.

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do que em geral tanto amigos como Aprofundando a crítica dos depoimen-


adversários costumam atribuir-lhe. tos e reforçando sua interpretação, Oliveira
Achava-se colocado dentro de cir- Lima compara os depoimentos de Maler
cunstâncias novas e próprias para com o do Duque de Luxemburgo. O primei-
pô-lo à prova, curvando-se ante elas
ro era muito afeiçoado ao rei, dele tendo
com paciência; se incitado, agia com
vigor e presteza19. recebido inúmeras provas de atenção e de
benevolência, e não se furtaria, portanto, a
Reforçando o seu argumento, lembrava exaltá-lo. Já o segundo refere-se também
que a firmeza com que ele recusou ficar na ao rei com o mesmo respeito e elogio23, em-
Baía, contrariamente aos desejos de alguns bora não tivesse qualquer razão para fazê-
dos seus cortesãos, não deve ser esquecida20. lo, pois censurara o governo pela falta de
Além disso, Oliveira Lima, que reuniu, em planos concretos depois da administração
sua obra, muitos depoimentos de diplomatas de Linhares.
referentes às competências de Dom João, O autor afirma, ainda, que Dom João
concluiu pela ausência de opiniões negativas apresentava uma curiosidade legítima de
sobre o rei. Afirma que nunca encontrou nos governante e conseguia manter-se bem
despachos, mesmo nos reservados ou confi- informado sobre o que ia suceder nos lu-
denciais, de embaixadores, ministros ou en- gares onde a coroa tinha interesses. Não
carregados de negócios de estrangeiros para se descuidava das suas responsabilida-
o seu governo, referências menos elogiosas a des, nem nas situações mais extremas e
Dom João VI. Acrescenta que nenhum tentou absurdas, e no tratar das coisas públicas
de qualquer forma ridicularizá-lo, enquanto animava-se e tomava um calor que não se
os portugueses tentaram transformá-lo em compadece com a sua reputação corrente
um tipo burlesco21. de indiferença24.
O mesmo autor discute se a imagem Outro aspecto considerável foi a manei-
positiva de Dom João não seria o resulta- ra com que fez prevalecer sua autoridade
do da deferência diplomática para com a sobre seus colaboradores diretos: Cada um
realeza. Responde à sua própria questão dos ministros governava por si e o rei gover-
com o material que reuniu e as compa- nava a todos25, o que bem condizia com seu
rações que estabeleceu, concluindo em perfil de monarca absoluto. No entanto, im-
outra direção, reafirmando que traços de punha sua vontade com um jeito muito seu
sua finura eram abundantes nas corres- de levar adiante seus projetos, sem hostili-
pondências inéditas de várias legações. zar seus conselheiros, quase sempre enciu-
Exemplo eloquente é a resposta de Dom mados e divididos, permitindo-lhe governar
João ao questionamento do Encarregado mais facilmente.
de Negócios da França, Maler, sobre a ex- Assim, conclui-se que a ação governativa
pedição ao Rio da Prata, visando à ocupa- de Dom João no Brasil, que pode, sem dúvida
ção da Banda Oriental, irônica e malicio- alguma, ser considerada positiva no seu con-
samente, teria comentado: Os franceses junto, deve- se, em boa parte, ao seu poder e
falaram e escrevinharam muito em tempo à sua adesão pessoal aos projetos inovado-
sobre fronteiras ou limites naturais: trata- res de ministros destacáveis, como o Conde
se sempre de um lado, do Reno e do outro, de Linhares, o Conde da Barca e o Conde dos
dos Alpes; ora, o que é o Reno comparado Arcos. Quanto ao seu absolutismo, soube do-
com o Rio da Prata22? sá-lo com afabilidade e temperança, ficando

19
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 1975. p. 64.
20
Ibidem.
21
LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996, p.73.
22
Ibidem, p.73.
23
Ibidem.
24
Ibidem, p.74.
25
Ibidem p. 125.

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gravado na memória brasileira como o bom A nova sede da Corte tornou-se a praça
príncipe que governa os corações26. principal do comércio português com a Índia,
a China e as colônias africanas, de onde se
AÇÃO GOVERNATIVA DE DOM JOÃO faziam as reexportações para Lisboa e outros
Aspectos socioeconômicos e político- portos europeus.
-administrativos Considerando as dificuldades políticas na
região do Prata, o próprio comércio para Bue-
Dom João não pode ser considerado ape- nos Aires e Montevidéu também se operou,
nas um monarca bem-intencionado, levan- por algum tempo, através do Rio de Janeiro.
do-se em conta o impacto de sua obra refor- A administração joanina dos primeiros
madora sobre as antigas estruturas coloniais anos foi abundante. Praticamente todas as
vigentes no Brasil. instituições judiciárias, militares e escolares
Sua repercussão na Europa pode ser ilus- do Reino foram recriadas no Brasil, com as
trada, por exemplo, pelas instruções ao Du- mesmas falhas e vícios. Neste caso, porém,
que de Luxemburgo, ao ser despachado para seus efeitos foram benéficos, considerando
o Brasil, como embaixador do Rei Luís XVIII. a situação de limites e carências vivenciados
No documento, mencionava-se a importân- na colônia. Já, no ano de 1808, foi criado no
cia da política granjeada pela antiga colônia, Rio de Janeiro um Arquivo Central com o in-
atribuindo-se ao Governo do Rio de Janeiro tuito de reunir e conservar todos os mapas e
desígnios manifestos de levar a seção ultra- as cartas, tanto das costas como do interior
marina da monarquia a ocupar, na América do Brasil, e, também, de todos os domínios
Meridional, o lugar que os Estados Unidos ultramarinos portugueses.
ocupavam na do Norte. Além de tratar da administração pública,
O ato inaugural de Dom João VI no Brasil o Príncipe Regente teve que se ocupar com a
constituiu-se na abertura dos portos às Na- reorganização militar, uma vez que as forças
ções Amigas. Desde o final do século XVIII, instaladas na Colônia, como tudo mais, não
as autoridades coloniais produziram nume- satisfaziam às necessidades do Reino.
rosos registros denunciando o contrabando, Assim, ainda em maio de 1808, criou o
envolvendo ingleses, franceses, entre outros, Primeiro Regimento de Cavalaria, valendo-
de tal forma que o Ministro da Marinha, Marti- se dos antigos Esquadrões da Guarda dos
nho de Melo e Castro, em 1785, recomendou Vice-Reis. Reproduziu a organização exis-
a redução dos direitos alfandegários com vis- tente em Portugal, com oito companhias em
tas a diminuir aquele comércio ilegal27. cada regimento.
Além disso, os portos portugueses en- Ao mesmo tempo, criou a Guarda Real do
contravam-se fechados devido à invasão Príncipe e os Arqueiros da Guarda Real, para
francesa. Assim, muito mais que uma me- seu serviço pessoal e do Paço.
dida liberal, traduzia uma urgência inadiável O Corpo da Brigada Real da Marinha
e necessária. foi transformado em Regimento de Arti-
O fato provocou grande transformação nas lharia da Marinha, com três batalhões e
condições mercantis da colônia, tornando-se oito companhias cada um. A Brigada Real
o Rio de Janeiro o grande entreposto brasileiro de Cavalaria de Milícias foi também trans-
e do Atlântico. As mais variadas mercadorias formada em regimento, assim como o Ba-
circulavam entre Bahia e Montevidéu, para o talhão de Caçadores Henriques. É impor-
consumo local e mesmo no norte e nos ser- tante ressaltar que as preocupações do
tões mais remotos, e houve um grande desen- governante real não se limitavam à Corte:
volvimento do comércio, o que, anteriormente, em Pernambuco, o número de voluntários
só existia a par de muito contrabando. reais contava com efetivo de mil homens e

26
Ver SOUZA, Iara Lis Carvalho, “D. João VI no Rio de Janeiro”, in Anais do Seminário Internacional- D. João VI- Um
Rei Aclamado na América, Rio De Janeiro, Museo Histórico Nacional, 2002, p.51-63.
27
ARRUDA, José Jobson de Andrade. Uma colônia entre dois Impérios. A abertura dos portos brasileiros 1800-1808.
Bauru, SP: EDUSC, 2008, p. 112.

31
Ismênia de Lima Martins

a legião, fundada em São Paulo, em 1775, Pouco antes de embarcar, o rei ordenou que
e que, desde então, sempre combatera ao os desembolsos do Banco, nas suas transa-
sul, contra os espanhóis, teve seus efe- ções com os cofres públicos, fossem consi-
tivos consideravelmente aumentados e derados como dívidas nacionais, declaran-
várias unidades organizadas por especifi- do responsáveis para com essas dívidas a
cidades táticas: infantaria, cavalaria, arti- renda do Reino do Brasil.
lharia a cavalo e caçadores. No plano das atividades comerciais,
Em várias outras províncias, fizeram-se após a abertura dos portos, o ato mais im-
sentir, também, os efeitos dos esforços joa- portante e pleno de consequências do Go-
ninos: em Minas Gerais, procedeu-se à or- verno de Dom João no Brasil foi o Tratado
ganização das divisões e, na Bahia, no Rio de 1810. Apesar de pretender-se um acordo
Grande do Sul, no Ceará, em Goiás, Maria- propondo reciprocidade e mútua conveni-
na e Ouro Preto, registrou-se a criação de ência, o resultado final marcou, no plano
tropas de pedestres, dragões, pretos, par- internacional, a dependência portuguesa
dos, polícias e milícias, além da fundação em relação à Inglaterra de forma inequí-
do Regimento dos Guaranis, integrado por voca. Além disso, prejudicou os interesses
índios das missões. Destaque especial foi a mercantis portugueses de tal forma que foi
vinda, para o Brasil, de uma divisão portu- necessária uma revisão para que os direi-
guesa, conhecida como a Divisão Auxilia- tos sobre as mercadorias portuguesas, ini-
dora, composta de um efetivo de mais de cialmente de 16%, pudessem ser equipara-
4.800 homens. dos às inglesas, taxadas em 15%!
Finalmente, é importante acentuar que o Pensando apenas no Brasil, os efeitos
príncipe regente não se preocupou, apenas, foram, de certa forma, benéficos, porque
com a reorganização das tropas, mas procu- concorreram para a diminuição do custo
rou, também, criar escolas militares e arse- de vida, ampliaram o comércio local, ata-
nais. Assim, datam deste período a instituição cadista e varejista. Além disso, no que diz
da Real Academia Militar e a inauguração de respeito à cláusula X do Tratado de Paz e
novas oficinas de armas, na Fortaleza de San- Amizade, de 1810, pelo qual o Governo
ta Cruz, e a instalação de várias fábricas de es- português se comprometia a abolir gradu-
pingardas, na província de Minas Gerais. almente o trabalho escravo, limitando, de
Os processos judiciários adquiriram imediato, o tráfico para as colônias portu-
maior presteza, o correio estendeu-se a to- guesas, que sempre foi uma questão con-
das as capitanias; estabeleceu-se o telégra- tornada por Dom João.
fo aéreo na costa; iniciaram-se os seguros Para o Governo português, a escravidão
contra o fogo e contra naufrágios. Além dis- representava uma instituição imprescindível
so, alargou-se a alfândega e facilitaram-se e, no conjunto de seus aspectos econômicos,
os movimentos das embarcações e o paga- destacava-se o financeiro, uma vez que o ne-
mento dos direitos aduaneiros. gro constituía-se em matéria a tributar, sen-
Também é, no tempo de Dom João, que do responsável por ingressos consideráveis
aparece o principal estabelecimento de cré- para a coroa.
dito brasileiro: o Banco do Brasil. O governo A questão abolicionista era sempre dis-
dispensou-lhe todo gênero de favores, ga- cutida por Dom João VI de forma acalorada
rantindo os Depósitos dos Órfãos, das Or- e são expressivos os pronunciamentos de
dens Terceiras e das Irmandades. A Fazenda época, inclusive de diplomatas, que repro-
Real, a partir de 1812, favorecia-o com im- duzem a irritação do rei em relação às pres-
postos criados sob seges, lojas, armazéns, sões inglesas. O Cônsul Maler, representan-
oficinas e navios, pelo período de dez anos. te da França, por exemplo, manifestou, mais
Apesar das dificuldades, o banco chegou a de uma vez, a impressão que o príncipe re-
inspirar grande confiança, inclusive a es- gente lhe causava: desenvolvendo com for-
trangeiros radicados no Brasil. ça e abundância todas as razões e motivos
Quando a Família Real regressou a Por- que o prendiam a tal comércio, o qual repre-
tugal, o Banco havia sido posto a saque. sentava e considerava como indispensável à

32
Navigator 11 Dom João – Príncipe Regente e Rei – um soberano e muitas controvérsias

prosperidade das suas colônias e mormente Um dos esforços mais tenazes de Dom João
a deste vasto continente28. VI no sentido de desbravar a terra brasileira
A diplomacia portuguesa foi particular- ia justamente localizar-se nesta região, bus-
mente competente e logrou adiar a questão cando, com empenho, abrir comunicações
por mais de dez anos, a despeito das pres- do mar para Minas Gerais.
sões inglesas, e, quando Dom João VI, re- Da mesma forma, empenhou-se na cria-
gressou a Portugal, a disputa não estava re- ção de um sistema de comunicações pelo in-
solvida, o que era um sinal de vitória. terior do Brasil, para o melhor aproveitamen-
O argumento recorrente para justificar to da rede fluvial, beneficiando as capitanias
a permanência do tráfico era a falta de mão mais interiorizadas de Mato Grosso e Goiás.
de obra para atender às necessidades da la- Sob o Governo do Conde dos Arcos, du-
voura. Assim, o governo iniciou os primeiros rante o reinado de Dom João VI, a Bahia se
esforços para uma imigração europeia sub- desenvolveu muito, tendo os recursos da pró-
sidiada, registrando-se a instalação de uma pria capitania propiciado obras de utilidade e
colônia suíça na região serrana do Rio de benefício públicos.
Janeiro e a regulamentação da catequese e Pernambuco usufruía de grande prestígio
do trabalho indígena. econômico, sendo, por excelência, a terra
Merece destaque especial a nova dinâ- do açúcar e do algodão. Recife era um porto
mica interna, que se estabelece entre o Rio privilegiado de comércios triangulares, en-
de Janeiro e as diferentes regiões, depois da volvendo a Índia e a África portuguesas e os
instalação da Corte naquela cidade. As rela- Estados Unidos.
ções comerciais e as comunicações amplia- No Maranhão, a expansão da agricultura
ram-se consideravelmente. Em outro plano, consolidara-se através do sucesso do comér-
representantes de todas as capitanias com- cio do algodão e do arroz.
pareciam às grandes efemérides da Corte e Se a transmigração da Corte e a abertura
prestavam suas homenagens ao rei, partici- dos portos às nações amigas e ao comércio
pando das cerimônias do beija-mão ou en- possibilitaram um aumento considerável da
viando presentes. população, também foram responsáveis pelo
Considerando o progresso das capitanias crescimento da participação dos estrangei-
de São Paulo e Minas, as estradas que as li- ros neste conjunto.
gavam à Corte eram bastante frequentadas, Ultrapassado o exclusivo colonial, que
e nelas cruzavam-se, a miúdo, as caravanas restringia as relações comerciais da colônia
e o Correio do Rei. Encontravam-se desbrava- unicamente com a metrópole e delimitava o
das e tinham suas zonas marginais conside- fluxo migratório aos portugueses, uma série
ravelmente habitadas. de medidas é posta em prática, permitindo,
No Rio de Janeiro, foi criada a Polícia da inclusive, a concessão de terras a estrangei-
Corte, garantindo não apenas a ordem pú- ros29. Além de viajantes, estudiosos e explora-
blica, mas, sobretudo, as modificações e as dores, são numerosos os casos de estrangei-
posturas que se faziam necessárias à ade- ros que possuíam terras e que as cultivaram.
quação daquele espaço para sediar a Corte. Quanto à elevação do Brasil à condição
A cidade do Rio Grande era o mercado e a de Reino, registra-se a tendência, sobretudo
praça de guerra do Brasil meridional, sendo de autores brasileiros, de encará-la como um
sua condição militar superior à da capital, e uma consequência natural, esvaziando pos-
a imigração portuguesa, naquela região, au- síveis conteúdos e estratégias políticas. Oli-
mentava espontânea e gradualmente. veira Lima afirma que:
A capitania de Minas Gerais, por causa
da crescente improdutividade das minas de (...) a elevação do Brasil a reino,
ouro, estava em transição para uma fase agrí- além de ser uma afirmação solene
cola, pastoril e embrionariamente industrial. da sua integridade territorial, foi a

28
LIMA, Oliveira, op. cit., p. 271.
29
Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. Manuscritos. I – 9, 11, 15.

33
Ismênia de Lima Martins

derivação lógica e a conseqüência piciando uma vingança pela invasão das tro-
necessária de um estado de coisas pas napoleônicas a Portugal.
criado por circunstâncias fortuitas, Com o tempo, a invasão da colônia fran-
mas não menos imperiosas. Em
cesa definiu-se mais pelas estratégias diplo-
primeiro lugar era impossível es-
máticas e defensivas do que por uma políti-
quecer que o Brasil foi a tábua de
salvação da dinastia portuguesa, a ca expansionista, pois se anulava a ameaça
âncora da monarquia batida pelas de um núcleo francês no continente, que,
tempestades (...)30. fortalecido, poderia facilmente atacar os
despreparados estabelecimentos portugue-
Outros motivos, porém, podem ser arro- ses na América do Sul. Além disso, o que
lados, particularmente o desejo do próprio o Governo português queria era ter o que
rei e de seus conselheiros mais diretos de se restituir na paz geral, que se sucederia após
livrarem do incômodo de ter a Corte sediada as guerras napoleônicas e poder, em troca,
numa colônia. obter o reconhecimento dos limites tradicio-
No que diz respeito à política externa, a nais ao Norte do Brasil.
diplomacia e a neutralidade foram instru- O Governo português teve seu relativo
mentos poderosos utilizados por Portugal em êxito, já que a corte do Rio obteve um ponto
alguns conflitos, vividos pela coroa portugue- importantíssimo como concessão, que foi a
sa no que diz respeito às questões interna- estipulação da entrega, apenas, até o Oia-
cionais. No entanto, no Brasil, na anexação poque, considerado o limite setentrional dos
da Banda Oriental e na invasão de Caiena, o domínios portugueses na América.
Governo português valeu-se de uma política
aparentemente imperialista. AÇÃO GOVERNATIVA DE DOM JOÃO
Portugal, ao intervir no Prata, alegava Promoção Cultural e Científica
uma questão meramente de defesa e preser-
vação das fronteiras do Brasil, exercendo um Vários autores portugueses acentuam
papel de mediador na zona conflituosa. De- que Dom João, com exceção da música, não
clarava, abertamente, a sua intenção de que manifestou grande interesse pelas artes e
terminassem os movimentos anárquicos na que sua Corte, quando ele era regente rei, ja-
fronteira, que envolviam os rebeldes argenti- mais se mostrou um centro de cultura como
nos e uruguaios, e de que a capitania do Rio tantos outros do seu tempo31.
Grande não fosse contagiada pela revolução. Na verdade, tais afirmações não levam em
Além destas intenções, pretendia-se restabe- conta a complexa conjuntura em que Dom
lecer as fronteiras naturais ao sul, garantir a João assumiu a regência, em 1792. Além dis-
integridade do Império e enfraquecer o domí- so, nos anos imediatamente anteriores, so-
nio espanhol na região. frera, no plano pessoal, muitos problemas e
O episódio da Cisplatina tornou-se uma perdas, que atingiram fortemente seu espírito
eloquente demonstração da resistência de sensível: a morte de seu pai em 1787, seguida
Dom João às ambições individuais de sua pela de seu irmão em 1788, tendo ele próprio
mulher, a Princesa espanhola Carlota Joa- adoecido gravemente no ano de 1789. Sobre-
quina. Na realidade, havia um certo temor viria depois à demência da rainha, seguida
quanto ao perigo de uma reação liberal da da constatação pública de sua incapacidade
América espanhola contra o absolutismo da para conduzir os negócios do Reino e a neces-
América portuguesa. sidade de substituí-la no governo.
Num primeiro momento, a tomada de No plano internacional, a Campanha do
Caiena satisfazia o orgulho português, pro- Rossilhão32, que marcou o início das pres-

30
LIMA, Oliveira. op. cit., p. 341.
31
Ver, por exemplo, PEDREIRA, Jorge e COSTA, Fernando Dores. D. João VI. Círculo de Leitores e Centro de Estudo
dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, 2006, p. 29 e 30.
32
Expressão pela qual é conhecida a participação de Portugal no conflito em que se aliou à Espanha contra a
França, entre 1793 e 1795.

34
Navigator 11 Dom João – Príncipe Regente e Rei – um soberano e muitas controvérsias

sões criadas pela situação europeia junto ao da economia e da política e autor de várias
Governo português, praticamente coincide memórias, ocupou, também, vários cargos
com o início da atuação de Dom João como na administração joanina no Brasil.
regente. Em 1799, o príncipe, que respon- Assim, pode-se concluir que, se o conví-
dera pela regência até então, em nome de vio íntimo do rei não era partilhado com os
sua mãe, passou a exercê-la em seu próprio sábios e os eruditos, o Governo de Dom João,
nome e conviveria com o difícil jogo diplo- porém, contou com colaboradores, por ele
mático para manter a neutralidade. Esgota- escolhidos, que se destacavam por sua quali-
das todas as manobras, sofreria as pressões ficação intelectual.
diretas da França, objetivando o rompimen- Neste contexto, foram criadas sucessiva-
to da aliança anglo-lusitana e, finalmente, a mente várias instituições e as primeiras esco-
complexa decisão da vinda da Corte para o las de ensino superior. Tal iniciativa reveste-se
Brasil. Enfim, uma situação que não favore- de grande importância, pois equipamentos
cia a promoção das artes. sociais deste tipo inexistiam na América por-
Já no Brasil, encontrando a nova sede da tuguesa, ao contrário da América espanhola,
Corte absolutamente carente de equipamen- onde já havia universidades desde o século
tos culturais, iria promovê-los e animá-los du- XVII. Em 1808, foram criadas a Academia
rante sua estada, envolvendo-se diretamente Médico-Cirúrgica da Bahia, a Escola Anatô-
em muitas dessas iniciativas. mica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro
Ainda que alguns autores afirmem que e a Academia Militar, tal como a Biblioteca
as anotações pessoais de Dom João não pa- Nacional, em 1810.
reçam indiciar uma relação fácil e frequente De igual relevância, foi a instalação da
com a escrita, ou que se furtava ao convívio Imprensa Régia, uma vez que qualquer ini-
dos homens intelectualmente mais destaca- ciativa neste sentido tinha sido até então im-
dos do seu tempo33, no Brasil, o seu governo pedida pela metrópole. Criada em 1808, além
foi marcado por incentivo ao desenvolvi- de imprimir a legislação produzida, fabricar
mento do ensino e à promoção das ciências livros em branco para escrituração, encader-
e das artes. nar impressos e prover todas as obras perten-
Aí conviveram, inclusive na condição de centes ao ofício de livreiro34, também editava
colaboradores diretos, o Conde de Linhares e livros. Assim, foi responsável pelo pioneiris-
o Conde da Barca, intelectuais que iriam, nas mo nas edições brasileiras e particularmente
suas gestões ministeriais, contemplar um pela publicação de obras a serem utilizadas
plano de ensino científico, literário e artístico, nas escolas recém-criadas.
compatível com as exigências decorrentes da Entre os inúmeros exemplos, destaca-
instalação da sede da Monarquia no Rio de se a publicação, em 1810, de um tratado
Janeiro. Era imperioso o aparelhamento da de inflamação, feridas e úlceras, dedicado
cidade, a fim de dotá-la, entre outras coisas, ao príncipe regente35, e, seguidamente, nos
de instituições para a defesa sanitária e mili- anos de 1814 e 1815, foram impressos ma-
tar, assim como de equipamentos culturais nuais de matérias médicas, consideravel-
necessários à capital do Império português. mente volumosos para a época, 243 e 293
José da Silva Lisboa, ex-professor de Di- páginas, respectivamente36, feitos por ordem
reito da Universidade de Coimbra, estudioso de Sua Alteza Real37.

33
PEDREIRA, Jorge e COSTA, Fernando Dores, op. cit., p. 38.
34
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A Gazeta do Rio de Janeiro 1808-1822. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, 2007, p. 177.
35
MAZAREM, Joaquim da Rocha. Tratado de inflammação, feridas e úlceras extrahido da Nosographia cirúrgica de
Anthelmo Richerand (...) offerecido ao príncipe regente nosso senhor. Rio de Janeiro: Impressão Regia, 1810. Bib-
lioteca Nacional. Rio de Janeiro. Obras Raras – 37, 0, 12.
36
BONTEMPO, José Maria. Compêndios de matéria médica feitos por ordem de Sua Alteza Real. Rio de Janeiro: Régia
Off. Typographica, 1814. Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. Obras Raras - 76, 2, 33, e BONTEMPO, José Maria.
Compêndios de matéria médica feitos por ordem de Sua Alteza Real. Rio de Janeiro: Régia Off. Typographica, 1815.
Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. Obras Raras - 38, 0, 12.
37
A expressão Por Ordem de Sua Alteza Real ou Por Ordem de Sua Majestade significava não apenas a chancela da
coroa à obra que se editava, mas também que sua publicação não implicou gastos para o seu autor.

35
Ismênia de Lima Martins

No caso do ensino médico, a importância Belas-Artes do Instituto de França, Joachim


das aulas práticas mereceu, também, a aten- Lebreton, quando Antônio de Araújo de Aze-
ção do príncipe, mesmo nos seus dias de vedo, Conde da Barca, Ministro de Estado,
repouso, na Fazenda de Santa Cruz. Daí foi defendeu o projeto da criação de uma Aca-
expedido o aviso, de 24 de novembro de 1814, demia, nos moldes da instituição francesa40.
enviado ao Conde de Funchal, pelo Marquês O grupo era integrado por pintores, des-
de Aguiar, que afirmava a determinação do tacando-se J.B. Debret, pintor de história e
príncipe regente para que se remetesse à autor do mais expressivo conjunto iconográ-
Corte os gêneros que se fazem necessários fico do período, escultor, arquiteto e gravador,
para o ensino das aulas médico-cirúrgicas além de professor de mecânica, e artesãos
desta mesma Corte38. E enumerava, entre os especializados, ferreiros, serralheiros, cur-
itens solicitados, peças de gesso reproduzin- tidores e carpinteiros, com o objetivo de de-
do ossos e uma boneca de camurça. senvolverem as indústrias.
A Academia Real Militar, que tinha tam- Esse último item era particularmente
bém o objetivo de ensinar engenharia civil importante, uma vez que o projeto do Con-
e mineração, mereceria atenções especiais. de da Barca não era o de criar apenas uma
Publicou-se, por ordem real, em 1811, um escola de artes, mas também de ofícios. No
compêndio de álgebra, traduzido do fran- entanto, sua morte, deixando vago o lugar
cês, e, no ano seguinte, outro de geometria de promotor e mecenas, e a conjuntura pou-
descritiva, adaptado às artes, além de um de co favorável criada pela Revolução Pernam-
mecânica, que tratava de estática, dinâmica, bucana de 1817 e pela Revolução Liberal do
hidrostática e hidrodinâmica, todos destina- Porto, em 1820, além do alto custo dos fes-
dos aos alunos daquela instituição39. tejos do casamento do príncipe herdeiro e
O Real Horto, igualmente, tem sua origem da coroação do rei, adiaram a inauguração
mais remota em 1808, através do decreto que da Academia, o que só se concretizaria no
determinava a posse, pela coroa, do engenho reinado de Pedro I.
e das terras denominadas da Lagoa Rodrigo A questão do grupo francês serve para
de Freitas. No mesmo ano, o príncipe regente demonstrar o empenho de Dom João em
criava um cargo de feitor para a Fazenda da manter, na sede de sua Corte brasileira, pro-
Lagoa e, no ano seguinte, plantou a primeira fissionais que permitissem a elevação do ní-
palmeira conhecida como imperial ou “pal- vel cultural e artístico do Rio de Janeiro.
ma mater”. Através de um alvará, Dom João Para um monarca que, segundo alguns
criou, em 1810, o cargo de Diretor das Cultu- autores, não apresentava relação fácil e fre-
ras das Plantas Exóticas dos Jardins e Quin- quente com a escrita41, a atuação de Dom
tas Reais e estabeleceu um Jardim Botânico João relativamente à sua Biblioteca e a seu
com a mesma finalidade. Gabinete é surpreendente.
No cenário das artes plásticas, destaca-se O terremoto de Lisboa e o incêndio, que
a expressividade do legado dos artistas fran- se seguiu, destruíram a parte mais impor-
ceses à cultura brasileira. Dom João só teria tante da Real Biblioteca, que se encontrava
dado o aceite oficial depois da chegada do no Paço da Ribeira, centro da capital do Rei-
grupo liderado pelo ex-secretário da classe de no. A coroa portuguesa empreendeu grande

38
Aviso 225, de 24 de novembro de 1814. Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. Manuscritos 29, 17, 14, n. 9.
39
LACROIX, Silvestre François. Elementos d’Algebra por Mr. La Croix, traduzidos em portuguez, por ordem de sua
Alteza Real o Príncipe Regente (...) para uso dos alunos da Real Academia Militar desta Corte. Rio de Janeiro:
Impressão Regia, 1811. Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. Obras Raras – 42, 1 bis, 7; SOUSA, José Vitorino dos
Santos e. Elementos de geometria descriptiva; com applicações às artes: extrahidos das obras de Monge, de ordem de
sua alteza real o Principe Regente N. S. para uzo dos alumnos da Real Academia Militar. Rio de Janeiro: Impressão
Regia, 1812. Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. Obras Raras – 00069 (1) e o Tratado Elementar de Mecânica, de
FRANCOEUR – para uso dos alunos da Real Academia Militar – e traduzido por PEREIRA, José Saturnino da Costa,
citado em A Gazeta do Rio de Janeiro. SILVA, Maria Beatriz Nizza da.
40
SCHWARCZ, Lília Moritz, O sol do Brasil: Nicolas- Antoine Taunay e as Desventuras dos Artistas franceses na Corte
de D. João, São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p.13-17.
41
PEDREIRA, Jorge e COSTA, Fernando Dores, op. cit., p. 38.

36
Navigator 11 Dom João – Príncipe Regente e Rei – um soberano e muitas controvérsias

esforço para suprir tal perda, procedendo a Exemplo expressivo é o cuidado que transpa-
várias aquisições, feitas em diversos centros rece com os arranjos da documentação do
europeus e em Portugal, acolhendo, tam- seu Real Gabinete, hoje em parte no Arquivo
bém, muitas doações. Este processo teria Nacional, exibindo muitas peças anotadas
continuidade com Dom João. pessoalmente pelo Rei.
No Brasil, desde 1810, uma autorização Ana Canas Delgado Martins, em seu
real permitia que os livros fossem postos à dis- exaustivo estudo sobre o arranjo e as con-
posição dos leitores, mediante certas determi- turbadas idas e vindas da documentação
nações de caráter administrativo e, a partir de portuguesa no período joanino, referindo-se
1814, a consulta foi aberta ao público. aos documentos do gabinete de Dom João,
No entanto, a mais expressiva atuação de afirma que muitos documentos
Dom João foi a aquisição de coleções para
ampliar o acervo da Real Biblioteca, enquan- (...) tem uma espécie de sumá-
rios acrescentados pelo punho de
to permaneceu no Brasil. Em 1811, após a
D. João VI e usados para recuperar
morte do grande botânico Frei José Mariano informação desses documentos.
da Conceição Vellozo, sua coleção de livros Referem o assunto cruzando-o com
manuscritos, estampas, desenhos e chapa o destinatário e ou o remetente, por
de cobre foram incorporados à Real Bibliote- vezes datas e tipos de documen-
ca, por ordem régia de 1814. tos: ‘trata dos negócios de Lisboa
em 26 de janeiro de 1821’.’Papel do
O Conde da Barca, falecido em 1817, Barão do Rio Seco sobre os bilhetes
teve sua coleção leiloada por seu herdei- da alfândega (...)43.
ro. Conhecedor de tal fato, o rei ordenou e
propôs os meios para que fosse adquirida UM REI COM MEDO DE TEMPESTADES!
a livraria de seu antigo ministro, integran-
do mais de seis mil volumes ao acervo da Autores contemporâneos ressaltam em
Biblioteca Real e no ano de 1818, Dom suas análises sobre a personalidade de Dom
João autorizou a aquisição do acervo de João, príncipe e rei, o seu caráter timorato, re-
José da Costa e Silva, para ser incorpora- ceoso, tímido, sendo recorrente a referência
da à Real Biblioteca.
ao seu medo de tempestades44.
O Gabinete Real contava com a presença
Deveria ser uma questão de pouco inte-
assídua do soberano e, segundo um depoen-
resse histórico discutir se Dom João tinha,
te de época, Dona Maria Teresa, filha mais
ou não, medo de tempestade, mas, visto que
velha e dileta de Dom João, passava mais
esse tema se tornou um ponto de conside-
tempo com o pai, a quem ajudava nos traba-
lhos de gabinete42. rável repercussão, muito explorado pela mí-
Estima-se que as referências e os depoi- dia, pode ser particularmente interessante o
mentos do bibliotecário real devam merecer exame de registros sobre os fenômenos da
um exame crítico. Sua insistência em real- natureza em textos do período joanino.
çar os contatos praticamente diários que Na sua crônica dos acontecimentos da
mantinha com Dom João podem ocultar Bahia, o Irmão José da Silva Barros narra
uma intenção de se mostrar bem-sucedido e que, em 24 de janeiro de 1812, por ocasião
prestigiado junto aos familiares que perma- de um pomposo Te Deum em ação de graças
neceram em Portugal. pela chegada do príncipe àquela cidade, hou-
No entanto, existe uma série de outras ve estrondosa trovoada seguida por raios que
evidências que comprova muitas de suas destruíram boa parte da igreja e mataram
afirmações, particularmente no que diz res- pessoas na freguesia (...) enfim castigo nunca
peito ao interesse do rei pelo seu gabinete. visto nesta Cidade (...)45.
42
Citado por GARCIA, Rodolfo, in MARROCOS, op. cit., p. 19.
43
Governação e Arquivos: D João VI no Brasil. Lisboa: Instituto dos Arquivos Nacionais, 2007, p. 228.
44
Ver GOMES, Laurentino. 1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram
Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta, 2007.
45
Chronica dos acontecimentos da Bahia – 1809-1828 – por BARROS, Irmão José da Silva, in Anaes do Arquivo
Publico da Bahia, vol. XXVI, p. 55.

37
Ismênia de Lima Martins

O relato é emblemático, pois atribui uma horrendamente, trovões retumbavam em es-


origem divina ao fenômeno natural, consi- trondos ininterruptos sobre nossas cabeças.
derando-o um castigo de Deus. Além disso, Relâmpagos e mais relâmpagos iluminavam o
assinala seu caráter extensivo uma vez que a temível e belo espetáculo48.
Igreja foi atingida, assim como as casas dos O comerciante inglês John Luccock nar-
habitantes da freguesia, pessoas simples e ra a mesma impressão contraditória que lhe
poderosos dignitários. causou a tempestade, que o atingiu quando
Marrocos, o bibliotecário real, que escre- viajava em direção aos portos do recôncavo
via para o pai “cronicando” sobre a vida na da Guanabara: (...) raras vezes assisti, mesmo
Corte, comentou várias vezes sobre fenôme- na zona tórrida, a espetáculo ao mesmo tempo
nos da natureza e, particularmente, sobre as tão belo e tão medonho49.
tempestades que afirmava serem m.to fre- Essas descrições, destacadas entre mui-
quentes e fáceis em cahir na terra...46. tas, sem dúvida, sinalizam o quanto a natu-
No ano de 1818, em uma de suas cartas, reza tropical causava simultaneamente fas-
descreveu os efeitos de uma trovoada terrível. cínio e pavor nos europeus recém-chegados.
Um raio atingira o Palácio do Visconde de Villa- Frente a tal cenário, por que exigir de S.A.R.
nova da Rainha, provocando grandes estragos comportamento diferente?
na sua farta e prenhe copa, assim como, no Quanto a Dom João, é importante ressal-
Oratório. Na oportunidade, comemorava-se o tar que ainda não se resgataram, da biografia
aniversário da Viscondessa de Magé e o ocor- do rei, várias circunstâncias que explicariam
rido molestou muita gente, perturbando a o medo que demonstrava pelas tempesta-
alegria do ambiente47. des. Dentre elas, a primeira seria o impacto
É importante observar que, depois de causado pelas lembranças do terremoto de
muitos anos no Brasil, onde, segundo o mis- Lisboa, ocorrido em 1o de novembro de 1755,
sivista, no mês de abril, eram comuns as 12 anos antes do seu nascimento.
tempestades, era grande a impressão que as Após o terremoto, a cidade viu-se envolvi-
mesmas ainda lhe causavam, ou seja, é algo da por um incêndio que durou sete dias. Ru-
com que o bibliotecário não se acostumava. íram em torno de dez mil casas e inúmeros
Além disso, considerando que Marrocos não palácios. Igrejas, edifícios públicos, como o
compareceu à festa, os detalhes que fornece Teatro da Ópera, arderam nas chamas. Da
demonstram que o assunto era recorrente mesma forma, várias bibliotecas desaparece-
nas conversas e revelam os temores que a ram, inclusive a Livraria Real, que Dom João
natureza indomável provocava em boa parte V aumentara consideravelmente com livros
da população. vindos de toda a Europa, e onde havia grande
São numerosas e expressivas as descri- número de manuscritos originais e cópias.
ções, as anotações ou os simples registros Apesar do número de mortos ser calcula-
sobre tempestades nos relatos de viajantes, do em cinco mil, Lisboa perdeu 12% de sua
comerciantes e, sobretudo, dos naturalistas, população, pois, além dos óbitos, muitos
que estiveram no país à época de Dom João. abandonaram a cidade, que levou 25 anos
L. F. de Tollenare, francês natural de Nan- para recuperar a quantidade de habitantes
tes, viajou para Pernambuco, em 1816, a fim que apresentava à época do terremoto e o
de negociar com algodão, permanecendo no mesmo tempo para sua reconstrução50.
país para viajar e escrever suas notas domini- Foi neste cenário de edificação de uma
cais. Em suas andanças, muitas vezes o mau Lisboa moderna, sobre os escombros das trá-
tempo o surpreendia e, do susto, persistia a gicas memórias, que o Infante João foi criado
forte adjetivação no relato: (...) O mar rugia e se desenvolveu, ouvindo histórias dramáti-

46
MARROCOS, op. cit., p. 110.
47
Ibidem, p. 323.
48
TOLLENARE, L. F. de. Notas dominicais tomadas durante uma viagem em Portugal e no Brasil em 1816, 1817 e 1818.
Salvador-Bahia: Livraria Progresso Editora, 1956, p. 65.
49
LUCCOCK. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975, p. 223.
50
MATTOSO, José. História de Portugal. Lisboa: Editora Estampa, 1994, vol. 4, p. 63.

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Navigator 11 Dom João – Príncipe Regente e Rei – um soberano e muitas controvérsias

cas de um passado tão próximo e tão inscrito frutavam de um clima mais suave durante o
no seu entorno. verão e dedicavam-se à caça, esporte muito
Acrescente-se a isso, o peso da formação estimado pelo príncipe e por seus filhos, sen-
religiosa que lhe foi imposta sob a autoridade do a Coutada Real53 de Santa Cruz vedada
de uma mãe e rainha, insanamente devota, para estranhos.
e teremos um quadro que naturaliza o medo Da fazenda, Dom João costumava ir para
de Dom João em relação às manifestações a Ilha do Governador, onde também havia um
inclementes da natureza, consideradas à campo de caça. Nesta ilha, não consta que
época como castigo divino. houvesse palácio particular e o príncipe hos-
pedava-se na casa do Visconde do Rio Sec-
co, a mais nobre residência da localidade, e
A VIDA ANIMADA NO RIO DE JANEIRO
contados anos ele se entretinha na caça ou
armava-se barraca para pousar algumas horas
Em Portugal, após a descoberta da cons-
entretido ou assentado abaixo de alguma árvo-
piração envolvendo nobres e a princesa do re, a espera que pousasse para ali alguma caça
Brasil, Dom João abandonou Queluz insta- para ele atirar nela54.
lando-se em Mafra, no início do ano de 1806, Além desta ilha, o rei também usufruía de
transformando o palácio-convento, pratica- uma residência de verão em Paquetá e circu-
mente, em sua residência oficial, até o mo- lava por outras ilhas da Baía de Guanabara,
mento da sua partida para o Brasil. por ocasião das festividades religiosas.
No Rio de Janeiro, Dom João não leva- Praia Grande também foi um local visi-
ria uma vida isolada da Corte, conforme se tado mais de uma vez por Dom João, sendo
impusera em Lisboa. A natureza, o clima e a muito referida sua estada em São Domingos,
curiosidade pela nova terra deram-lhe o entu- após o falecimento de Dona Maria.
siasmo necessário para circular regularmen- As temporadas frequentes do rei em dife-
te entre o Paço da cidade e o Palácio de São rentes localidades da cidade e seus arredores
Cristóvão. Além disso, passava pequenas justificavam-se pela constância das epide-
temporadas na Real Fazenda de Santa Cruz, mias, que assolavam a cidade a cada verão.
nas Ilhas de Paquetá e do Governador e em
São Domingos, na Praia Grande, como era O RETORNO DE DOM JOÃO
conhecida a atual cidade de Niterói.
A Real Fazenda de Santa Cruz, antiga Dom João despediu-se da vida movimen-
propriedade dos jesuítas, distante aproxima- tada que levava no Novo Mundo no ano de
damente 11 a 12 léguas51 da Corte, tornou-se 1821, quando regressou a Portugal. As pres-
ponto de visita e parada de todos os viajantes sões para seu retorno se sucederam desde a
que passaram pela região e registro obrigató- expulsão dos franceses de Portugal.
rio para os que escreveram suas memórias. Em carta datada de 3 de abril de 1812, o
O prédio principal, antiga propriedade do bibliotecário real, Luiz Joaquim dos Santos
colégio dos jesuítas do Rio de Janeiro, tor- Marrocos, afirmava a seu pai que A respeito
nou-se residência campestre da Família Real. de se transportar a Real Família para Lisboa
Segundo vários depoimentos, uma parte do nada há aqui que faça desconfiar disso; antes
mobiliário, como, por exemplo, a cama do rei, pelo geito, q. vendo em tudo, parece-me q. se
era transportada da Corte e retornava com o firma mais o Estabellecimento da Corte e Es-
fim da temporada. Enquanto os príncipes lá tado neste lindo Paiz55.
permaneciam, uma nau guardava a costa As pressões se acentuam após a pacifi-
ancorada na proximidade52. As altezas des- cação da Europa e, no ano do Congresso de

51
Cada légua equivale a 6,600m.
52
POHL, Emanuel J., op. cit., p. 56, e MARROCOS, Luiz Joaquim dos Santos. Cartas de Luiz Joaquim dos Santos
Marrocos. Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 1939, p. 63.
53
A Coutada Real era o equivalente a um campo de caça.
54
MORAIS, Alexandre José de Melo. “Notas sobre Ângelo Rondon, vida de Dom João VI na Fazenda de Santa Cruz
e Ilha do Governador (...) e assuntos diversos”. Manuscrito, Biblioteca Nacional, Coleção Casa Real Portuguesa,
II-30, 24, 100.
55
MARROCOS, op. cit., p. 73.

39
Ismênia de Lima Martins

Viena, outra missiva do bibliotecário revela o apenas Lord Strangford e o Vice-Almirante


desencontro das expectativas sobre o retorno Beresford.
do regente: A Alegoria do Regresso de D. João, datada
de 1816, é emblemática da expectativa que
Dizes que ahi se está preparan- girava em torno do regresso do rei a Portugal.
do o Palacio da Ajuda, p.a a Familia Trata-se de um quadro a óleo de proporções
Real, quando p.a ahi for. Também
te digo que aqui se está preparando monumentais, de 3,40m x 4,24m, belíssimo
o Palacio de S. Christovão, e aug- exemplar da arte cortesã, repleto de elemen-
mentando-se com mais de metade, tos metafóricos58. (Ver Fig. 5)
p.a nelle vir assistir p.a o futuro em No primeiro plano, à esquerda, destaca-
tempo de verão toda a Familia Real; e se Netuno, o deus dos mares, de braços
acabado elle, vai a fazer-se o mesmo
trabalho de augmento no Palacio de
estendidos na direção de Dom João, pron-
Sta Cruz, distante daqui 14 legoas, to para tomá-lo, em uma representação da
p. toda a Familia Real vir a acommo- travessia do oceano que faria o rei para che-
dar-se alli nas suas jornadas annua- gar a Lisboa. A Torre de Belém, ao fundo,
es de Fevereiro, Julho e Novembro56. símbolo da antiga sede da Corte, aparece
pousada sobre as águas calmas, incrusta-
A ampliação do Palácio de São Cristóvão da em um horizonte brilhante, que se des-
foi captada em fase avançada, por artistas prende, afastando as nuvens mais escuras.
estrangeiros57, evidenciando a construção Ainda à esquerda, no plano posterior ao
de um novo módulo anexo ao corpo princi- Netuno, está o navio que levaria Dom João
pal. Investimento de porte que permite uma de retorno e, no mesmo lado, acima, tremu-
leitura indicativa do desejo de permanência la a bandeira com os emblemas do Reino
no Brasil. português. Do lado direito, aparecem vá-
Em 1815, a nau inglesa que deveria levar rias figuras mitológicas alusivas às virtudes
Dom João de volta a Lisboa, parte levando do príncipe e um conselheiro e uma dama
apontando na mesma direção. O real per-
sonagem aparece no lado direito, ao alto,
representado em um busto sobre um pe-
destal, cercado pelas virtudes. Da mesma
forma, no centro da tela, retrata-se Dom
João personificado como um alto e esbelto
cavaleiro, em armadura de ferro, coberta
por insígnias e condecorações. A riqueza,
o colorido e os detalhes dos elementos,
que compõem o quadro, realçam a figura
de Dom João, eloquentemente relacionada
ao mito do regresso sebastianista.
Após 13 anos sediando a Corte, os flumi-
nenses viram no retorno de Dom João a Por-
Fig. 5 – Alegoria do regresso de Dom João VI do Bras- tugal uma ameaça à prosperidade, ao prestí-
il. Máximo Paulino dos Reis. 1816. Óleo sobre tela. gio político que alcançaram, sobretudo, após
340x424cm. Mafra, PNM, inv° 1540. Publicados in a elevação do Brasil à condição de Reino Uni-
Dom João VI e seu tempo/ Comissão Nacional para a
Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, Lis- do a Portugal e Algarves. O regresso ao Reino
boa. Gráfica Maia Douro, 1999. p.29. mobilizou os interesses e a opinião pública.

56
Ibidem, p. 222.
57
Ver, por exemplo, o desenho de REDMAN, Henderson, in SHOOSMITH, C. Palace of St. Christovão. C. Shoosmith
from a sketch by Jas. Henderson. Redman (1818). Uma grav.: litograv., aquarelada; 18x21,5 cm. Em passe-partout
24x28,7cm. Compra de Connoisseur. Parte da obra de HENDERSON, James. A history of the Brazil..., p. 62 (ARM.
20.3.13). E: g: I.
58
Alegoria do regresso de Dom João VI do Brasil. Máximo Paulino dos Reis,.1816. Óleo sobre tela. 340x424 cm.
Mafra, PNM, inv° 1540. Publicados in D. João VI e seu tempo. Comissão Nacional para a Comemoração dos Desco-
brimentos Portugueses, Lisboa: Gráfica Maia Douro, 1999, p. 29.

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Navigator 11 Dom João – Príncipe Regente e Rei – um soberano e muitas controvérsias

Além do intenso debate político, revela- aparece tantas vezes quanto a palavra amor!62
do em folhetos impressos desde 1820, que A resposta de Dom João veio através do
defendem a permanência do rei no Rio de decreto em que o rei comunica aos súditos
Janeiro, cartas anônimas lhe são enviadas, seu retorno a Portugal, documento em que
assim como uma série de representações, revela todo o seu pesar:
mostrando-lhe os inconvenientes do seu re-
gresso ao Reino59. Neste sentido, é exemplar (...) exige a escrupulosa reli-
a Representação da Corporação dos Ourives giosidade com que Me cumpre
e Mercadorias de Metais e Pedras Preciosas preencher ainda os mais árduos
e a do Corpo do Comércio da Corte, que re- deveres, que Me impõe o pres-
produziam o mesmo tom. tado Juramento, que Eu faça ao
Bem Geral de todos os Meus Po-
Os comerciantes eram incisivos na decla-
vos hum dos mais custosos sa-
ração de que Portugal pouco valia e pouco crifícios de que he capaz o Meu
podia por si só, e, para reforçar a permanên- Paternal e Régio Coração, Sepa-
cia da sede da Monarquia no Rio de Janei- rando- Me pela segunda vez de
ro, advertiam que a partida do rei provocaria Vassallos, cuja memória ame será
guerras e a independência60. sempre saudoza, e cuja prospe-
Na Representação dos Habitantes do Rio ridade jamais cessará de ser em
de Janeiro a D. João VI pedindo sua perma- qualquer parte hum dos mais as-
necia no Brasil61, datada de 1821, aparecem síduos Cuidados do Meu Paternal
Governo.
como signatários figuras proeminentes que
Cumpria pois que cedendo
se destacavam por sua erudição dentre um ao dever, que Me impôz a PROVI-
grande número de sacerdotes, professores DENCIA, de tudo sacrificar pela
régios, advogados, militares, comerciantes e felicidade da Nação, Eu resolves-
cirurgiões. Nela defendiam a ideia do Brasil se, como Tenho Resolvido, trans-
como sede do Império português e compa- ferir de Novo a Minha Corte para
ravam as obras realizadas na Corte do Brasil a Cidade de Lisboa, antiga Sede e
com a fundação, na Rússia, da nova capital berço original da Monarquia (...)
Petersburg, que substituíra a velha Moscou. (grifos meus)63.
Argumentavam, sobretudo, que, para a ma-
nutenção dos três reinos, o trono não preci- Na despedida aos brasileiros, o rei relem-
sava estar na Europa. bra a dor de ter deixado seus vassalos em
Nesta representação, a palavra amor apa- Portugal. Neste caso, porém, a permanên-
rece três vezes. Na abertura do documento, cia do príncipe herdeiro, Dom Pedro, impe-
os signatários se declaram cheios de amor. de o sentimento de orfandade e abandono.
Adiante, afirmam que suas representações De qualquer maneira, Dom João VI mar-
são filhas do mesmo amor. No final, reforçam cou de forma indelével a história luso-brasi-
sua demanda, dizendo ser um pedido com leira, fato que repercute até o presente, atra-
amor. Ainda que a retórica utilizada fosse vés de uma historiografia, que insiste em
aquela de súplica, nos moldes do antigo re- julgar o rei, desprezando as transformações
gime, nenhum termo familiar ao vocabulário contínuas, que a disciplina experimentou
deste estilo – louvor, respeito, submissão, etc., ao longo do século XX. Sem vitimizar, nem

59
Carta anônima dirigida a Dom João VI, mostrando-lhe os inconvenientes do seu regresso ao Reino. S. l. s.d.
Original, Carta anônima e sem data, Col. Aug. de Lima I - 33, 29, 19; Proposta autografada sobre o regresso da corte
para Portugal e providências convenientes para prevenir a Revolução e tomar a iniciativa na reforma política. Pelo
Conselheiro Silvestre Pinheiro Ferreira. Biblioteca Nacional, I - 31, 21, 13.
60
Representações dirigidas a Dom João VI, pedindo a sua permanência no Brasil, pela Câmara Municipal da Corte,
Negociantes Proprietários, Corporação dos Ourives e Habitantes do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, março/1821,
Manuscritos II - 34, 30, 61. Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro.
61
Ibidem.
62
Ver SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. “A fundação de uma Europa possível”. Anais do Seminário Internac-
ional D. João VI. Um Rei aclamado na América. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2000, pp. 9-17.
63
Código: I, 29, 19, 66. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

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Ismênia de Lima Martins

heroicizar, a biografia como gênero contem- Nesse ato final, reencontramos o ponto
porâneo reconhece o homem no seu tempo de partida: não cabe ao historiador conde-
à luz do contexto histórico-social e procura nar ou reabilitar, mas decidida e particu-
compreender a trajetória individual nas teias larmente no caso de Dom João VI, muito
das relações em que ela se realiza. menos lastimar!

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