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FRONTEIRA ENTRE GUIANA E VENEZUELA

República Cooperativa da Guiana República Bolivariana da Venezuela

ALCÂNTARA, Luiza Macedo de

COSTA, Isabela Quirino

NAVES, Mônica Martins

Apresentação

O território é a área na qual um Estado exerce sua soberania, e que é


delimitada através das fronteiras; elas demarcam até onde um Estado pode exercer
seu poder, fortalecendo, portanto, a estrutura estatal. O objetivo de um Estado forte,
principalmente até o século XX, é o da expansão de território e assim aumentar sua
área de influência. Os Estados definem juridicamente os limites fronteiriços através
de Tratados, entretanto, este não deixa de ser um espaço onde permanecem as
disputas e influências políticas, econômicas e sociais.
A fronteira oficial entre a República Cooperativa da Guiana e a República
Bolivariana da Venezuela está situada no norte da América do Sul, e tem uma
extensão de 743 km. Entretanto, os limites territoriais dos dois países passaram por
muitas modificações ao longo do tempo, influenciadas pela ocupação europeia, e
ainda hoje esta é uma área de constantes tensões relacionadas à demarcação do
território.
A Guiana é um Estado unitário e está subdividida em 10 regiões
administrativas. Faz fronteira com a Venezuela, a oeste, Suriname, a leste, o Brasil
no sul e no Oceano Atlântico no norte. Como pode ser visto no Mapa 1:
Mapa 1: Mapa político da Guiana

Fonte: DigiAtlas. Disponível em: http://www.digiatlas.com/cgi-


php/mapas_vectoriales.php?idpais=82&kind=PAIS

O território venezuelano está dividido em 23 estados, um Distrito capital, além


de 311 dependências e territórios federais (ilhas e ilhotas) localizadas no mar do
Caribe. Ao norte a Venezuela faz fronteira com o mar do Caribe, ao sul com o Brasil,
a oeste com a Colômbia e a leste com a Guiana; como mostra o mapa 2. Devido às
reclamações venezuelanas em relação ao território guianense de Essequibo, muitos
mapas apresentam essa região como pertencente à Venezuela, mas para a
composição deste trabalho utilizaremos somente os mapas cujas delimitações
seguem o que foi estabelecido no último Tratado oficial de limites.
Mapa 2: Mapa político da Venezuela

Fonte: Mapa da América. Disponível em: http://www.mapadaamerica.com/Mapa-de-

venezuela.html

Histórico

A Guiana foi originalmente ocupada pelos holandeses em 1581, porém ainda


dividida em três colônias (Berbice, Demerara e Essequibo), os quais fundaram
Georgetown (capital do país). Logo após sua ocupação, foi fundada na região a
Companhia das Índias Ocidentais, responsáveis pela introdução da plantação cana
de açúcar e a comercialização da mesma na região, sendo, portanto, o principal
produto de exportação e base da economia local. A partir do século XVIII, os
holandeses estimularam a povoação da área por colonos britânicos e dos Países
Baixos, com o objetivo de ampliação da produção da cana e da obtenção de uma
maior dinamização do comércio local. Em função das guerras na Europa, o controle
da região passou pelas mãos da Grã-Bretanha, depois da França, retornou à
Holanda e, ao final, os britânicos ocuparam o território novamente em 1796 (SILVA,
2006, p. 11).
Em 1814, foi firmado o Tratado de Londres entre Holanda (Países Baixos) e
Inglaterra, em que Berbice, Demerara e Essequibo passariam definitivamente para o
domínio da Grã-Bretanha, com o pagamento de dois milhões de libras esterlinas
além de outras obrigações estabelecidas em um protocolo complementar em 1841.
Pouco depois as três colônias foram unificadas, e denominadas Guiana Inglesa em
1831, era necessário então, a delimitação das fronteiras, e essa foi iniciada com a
definição da Linha Schomburgk, definindo que o território da colônia inglesa
começava no rio Courantyne (que faz fronteira com o Suriname) e continuava em
direção oeste até a desembocadura do rio Orinoco.
Essa definição acabou gerando um conflito com o Brasil, a Questão do Pirara,
e com a Venezuela em que a mesma contestou que a ocupação da região foi
primeiramente realizada por missões espanholas, portanto, a delimitação da área
deveria ser feita bilateralmente. Devido á tais contestações, os Estados Unidos
interferiu no conflito, e utilizando-se de princípios da Doutrina Monroe, elaborou o
Tratado de Washington em 1897, em que seriam decididas as configurações dos
territórios da Guiana Inglesa e da Venezuela. Em 1899 foi publicado o Laudo de
Paris, que determinava a linha de fronteira entre os dois países, e a configuração da
mesma tem vigência até a atualidade. A área entre os rios Cuyuni e Essequibo foi
destinada á Grã-Bretanha, já o território situado a oeste da região em que o rio
Cuyuni delimita a fronteira foi apontado como de domínio venezuelano.
A formação dos limites do território venezuelano está relacionada ao período
de exploração espanhol da região, desde a conquista até a sua Independência.
Quando o território da Venezuela foi conquistado, e posteriormente colonizado, ele
ainda era constituído por alguma entidade político-social, já que a população nativa
era predominantemente indígena, esta dividida entre várias tribos heterogêneas. A
expansão dos conquistadores foi dada ao longo da costa até o interior, com a
formação de algumas cidades e povoados ao longo do território acabando por
interferir geograficamente na delimitação da fronteira.
O território atual da Venezuela é herdeiro das províncias criadas pelos reis
espanhóis, e unificadas por meio de uma entidade política em setembro de 1777,
com a criação da Capitania Geral da Venezuela. Em processos sucessivos
discussões territoriais entre os países fronteiriços, e muitas vezes desfavoráveis
para a Venezuela, como a demarcação dos limites com o Brasil, com a Colômbia e
Guiana.
Após a Independência da Venezuelana em , a região sofreu uma divisão, com
a formação da República da Gran Colombia, constituída por Colômbia, Venezuela e
Equador. E enquanto Símon Bolivar, considerado o presidente das Repúblicas
estava no Peru, a Venezuela começou uma revolta contra a Gran Colombia. E em
1830, quando a Gran Colombia foi separada, iniciaram-se as discussões entre
Venezuela e Nova Granada para a fixação de seus limites, utilizando-se do princípio
do “utis possidetis”. A primeira tentativa foi dada com o Tratado Santos Michelena-
Lino de Pombo em dezembro de 1833, foi rejeitado pelo governo venezuelano que
afirmava que seus interesses nacionais foram lesionados em vários setores da
fronteira, como em Guajira, em São Faustino e à oeste do Rio Orinoco.
Em 1881 foram retomadas as discussões a respeito da definição dos limites
territoriais, e pela primeira vez ocorre a interferência de um árbitro internacional, este
requisitado pela Venezuela, o rei da Espanha, Alfonso XII, cabia a ele definir
pautado no princípio de “utis possidetis” a respeito dos limites entre os determinados
países. Porém durante tal processo o rei morreu, e em 1891 á rainha regente (Maria
Cristina) foi destinado o papel de intermediadora. De acordo com o Laudo Espanhol,
a Venezuela perderia uma grande extensão territorial, desde Guajira até o
Amazonas, à Colômbia foi destinado o território de San Faustino. Dado a
inefetividade e rejeição do Laudo Espanhol, em 1916 foi firmado um novo
compromisso com o mesmo objetivo em Bogotá.

Problemas

As relações bilaterais entre Guiana e Venezuela foram afetadas devido a um


conflito que teve início na década de 1960, e que ainda existe nos dias atuais; tal
conflito está relacionado à região de Essequibo, pertencente à Guiana, e reclamada
pela Venezuela. Este território corresponde a praticamente dois terços do atual
território guianense (em torno de 160 mil km²), como pode ser visto no mapa 3:
Mapa 3: Reivindicações Venezuelanas

Fonte: Atlas Caribbean. Disponível em: http://atlas-caraibe.certic.unicaen.fr/en/page-122.html

Em 1966, pouco antes da independência da Guiana, com o Acordo de


Genebra assinado pela Venezuela e Grã-Bretanha, foram reconhecidas as
reivindicações venezuelanas com a tentativa de solucionar o caso pacificamente,
neste acordo a Venezuela desconsidera as delimitações que foram estabelecidas no
Laudo de Paris e fica estabelecida a criação de uma comissão demarcadora de
limites para solucionar o caso em até quatro anos.
Em 1968, Venezuela expandiu seu mar territorial em 12 milhas marítimas,
alegando que o limite do mesmo iria até a desembocadura do rio Essequibo. Mais
tarde em 1970 (governo de Rafael Caldera) foi assinado o protocolo de Port of
Spain, que teria regência de doze anos. Esse prazo expirou em 1982 (governo
Jaime Lusinchi), sem ter até agora nenhuma solução. Atualmente, a questão da
Guiana Essequibo cabe ao Secretário-Geral das Nações Unidas.
O interesse por essa região se dá pelo potencial agrícola, já que o território de
Essequibo é banhado por vários rios, principalmente o Kukenán, Boruca e Pomerún,
possibilitando a cultura de arroz e cana de açúcar, além da criação de gado já que é
caracterizada por ser uma região de savana tropical, propícia à pastagem. Também
é considerável a riqueza em recursos minerais, dentre eles a bauxita, urânio e o
ouro, o mar territorial é rico em petróleo, principalmente o extremo ocidental, próximo
ao delta do rio Orinoco na Venezuela. Além disso, há uma justificativa histórica, por
parte da Venezuela, que se baseia no fato de que o país nasceu às margens do rio
Essequibo e, portanto, essa região pertenceria ao seu território.
Outro problema existente na região da fronteira entre a Guiana e Venezuela é
o intenso tráfico de drogas, contrabando e imigração ilegal. Devido à extensão da
área fronteiriça, o trabalho de monitoramento torna-se mais difícil.

Possibilidades

Apesar do atrito entre os dois países, referente ao território de Essequibo, há


a tendência de estreitamento dos laços entre Guiana e Venezuela, pois ambos têm
se concentrado em fortalecer a cooperação, participando juntamente de
organizações como Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA),
União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), Comunidade dos Estados Latino
Americanos e Caribenhos (CELAC) e do Petrocaribe (Aliança entre alguns países
sul americanos e caribenhos com o intuito de facilitar a venda de petróleo), e assim
promovendo a cooperação fronteiriça. Em janeiro de 2007, representantes da
Venezuela e da Guiana, firmaram um acordo para o fornecimento de petróleo e de
seus derivados para a Guiana, segundo dados do Ministério das Relações
Exteriores da Guiana, esta, a partir do mês de maio de 2009 comprou 5200 barris de
petróleo diários da Venezuela; e no mesmo ano, Guiana e Venezuela aproveitando
deste último acordo, firmaram outro acordo em que a Guiana passaria a fornecer
arroz para a Venezuela, e este seria pago através de deduções do comércio de
petróleo entre eles.
O setor de infra-estrutura também é beneficiado, já que é esperado a
construção do Gasoduto da Venezuela ao Suriname, passando pela Guiana, além
da construção da estrada ligando Venezuela á Guiana, dinamizando assim, o
comércio entre os dois países.
Se tratando dos problemas de tráfico e contrabando, com o intuito de
solucioná-los, os governos da Guiana e Venezuela começaram a rever um acordo
de cooperação no combate ao narcotráfico através da fronteira, tal acordo visa
aumentar a coordenação e controle da fronteira em tempo real, além da
possibilidade do confisco de bens de condenados por tráfico de drogas e lavagem
de dinheiro.
Um importante projeto social em parceria entre Venezuela e Guiana,
desenvolvido em 2013 e financiado principalmente pelo fundo ALBA-CARIBE,
Centro Hugo Chávez para Reabilitação e Reintegração, foi implantado na Guiana, e
seu objetivo é abrigar moradores de rua. A assistência financeira da Venezuela foi
da ordem de 2 milhões de dólares, contribuindo para a construção do projeto e para
a consolidação da reabilitação de viciados em drogas. Em consequência, tal
iniciativa deve contribuir para o desenvolvimento social da Guiana.
Há, portanto, a criação de possibilidades entre os países na área energética,
de alimentação e agricultura além do desenvolvimento social e cultural. Tal
cooperação também é importante para demonstrar a mudança nas relações entre os
dois países tendo um impacto positivo nas comunidades fronteiriças.

Análise

As fronteiras, no fundo, são reajustes diários que envolvem política, poder, e


projetos que nem sempre se apresentam de forma clara; e parecem estar cada vez
mais, dissipadas no mundo globalizado contemporâneo.
Mesmo sendo considerado como um continente pacífico, a América do Sul
apresenta problemas relacionados às suas fronteiras e que podem ser vistos como
pontos de tensão que podem contribuir para a desestabilização da ordem vigente.
A participação da Guiana e Venezuela no processo de integração regional da
União de Nações Sul-Americanas, talvez seja o momento mais propício para que a
antiga disputa territorial, que atravessou séculos e ainda permanece presente, seja
definitivamente encerrado em harmonia com os demais vizinhos do continente, pois
mesmo com as instabilidades existentes na região é possível se pensar em uma
integração que contribuirá de forma significativa para o desenvolvimento de ambos
os países.
A retórica política em torno da unidade continental, do sonho de Simon
Bolívar, presente nos discursos venezuelanos devem ser consideradas e analisadas
como fundamentais nesse processo; pois suas reivindicações territoriais, de certa
forma, interferem na soberania estatal da Guiana. Portanto, a via diplomática se
apresenta como a melhor forma de solucionar este impasse.

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