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Cristianismo como Teurgia – Frater Michael

Sebastian Lùx

Em um post,meu colega Rufus Opusdiscutiu recentemente sobre suas


experiências como um cristão e um magista. Quanto a mim, eu tenho
frequentemente me deparado com a questão essencial, "Como alguém pode ser um
cristão e um mago?". Embora possa parecer estranho conciliar as duas "práticas"
aparentemente díspares, do meu ponto de vista o cristianismo, esotérico e não-
esotérico, é fundamentalmente uma religião teúrgica organizada como uma tradição
de mistérios — um ponto de origem compartilhado com muitas outras tradições que
ajudaram a criar a tradição esotérica ocidental, uma raiz pela qual sinto-me
pessoalmente atraído, e representante das verdadeiras raízes do cristianismo às quais
temos de voltar.

O movimento cristão primitivo ergueu-se ao lado das escolas de mistérios do mundo


helênico, eventualmente competindo com estas no início do século IV. Como tal, o
cristianismo pegou emprestado muito da terminologia inicial destas escolas
prevalentes na época, e por extensão, também adotou muito da linguagem do
neoplatonismo. Em seu cerne, o cristianismo é uma religião de mistérios — uma
religião com particulares marcas semióticas, sinais, símbolos e experiências
separando iniciados de não-iniciados. Atualmente, nas igrejas ortodoxas e
heterodoxas, os sacramentos são muitas vezes referidos como mistérios ou realidades
que transcendem o intelecto criador.

A partir daqui, é muito fácil entender onde os mistérios cristãos e a prática do


ocultismo tornam-se necessariamente interligados. O atual processo de iniciação é
experimentado separadamente do ritual em si, o ritual cria um suporte simbólico que o
iniciado estaria apto para usar na integração da semiótica contida em sua
aprendizagem individual e o processo de desenvolvimento que conduz a uma maior
compreensão da sua relação com o divino através da união com a incriada natureza
logoica por meio da contemplação, orações ou visões místicas do kosmos e das
esferas celestes. Oração aplicada no contexto cristão é nada menos do que teurgia
viva; milagres atribuídos a santos e pessoas santas são uma forma de aplicação
taumatúrgica praticada por aqueles que, em virtude de suas iniciações e contemplação
da Divindade, estão aptos a diretamente impactar o mundo material sutil.

Na época do fim da Idade Média e do surgimento do Renascimento, o cristianismo


mais uma vez foi hábil ao reconectar a natureza esotérica com a interpretação da
Hermética e houve a ascensão de filósofos naturais, tais como Giovanni Pico della
Mirandola, Marsilio Ficino, a Escola de Florença Ficino, Abbot Johannes Trithemius,
Johann Reuchlin e muitos outros. Em seu De hominis dignitate oratio (Discurso sobre
a Dignidade do Homem), Mirandola Explica:

"Assim como o agricultor combina seus olmos com as videiras, o mago une a Terra ao
Céu. Nada por conseguinte certamente nos impele a adoração a Deus tanto quanto a
contemplação assídua de seus milagres e quando, por meio da magia natural,
procuramos examinar essas maravilhas mais a fundo, mais ardentemente somos
motivados a amá-lo e adorá-lo em suas obras, até que, finalmente, somos impelidos a
explodir na canção: 'Os céus, todos da Terra, estão preenchidos com a majestade de
sua glória'."

O renascentista, aqui, representa um retorno aos mistérios do cristianismo primitivo e


das antigas escolas da Grécia através da teurgia e a prática da chamada magia
natural. O cristão e mago moderno é um herdeiro dessa grande corrente de união
entre o passado e o presente e, como tal, apoia-se nesse grande poder que se
estende desde os tempos sem princípio até o Ponto Omega no qual a Divindade
absorve todas as coisas completando o processo de reintegração. Magia, aqui, é uma
ferramenta essencial para facilitar o processo, melhor delineada por Louis Claude de
Saint-Martin em sua obra, Homem: Sua Verdadeira Natureza e Ministério:

"As virtudes poderosas dos homens de Deus de todas as épocas nos são oferecidas
para nos fortalecer e apoiar, afim de que nossa própria virtude espiritual possa tomar
coragem e confiança na luta, assim como nos instruir nas maravilhas e grandezas que
enchem o reino de Deus, que começam a conhecer, mesmo enquanto estão em seus
corpos terrestres. O virtual apoio sagrado do Redentor nos é garantido e revive em
nós todas as regiões e poderes anteriores, sobre a qual Ele está sentado e aos quais
Ele comunica Sua vida universal."

Enquanto o mais convencional cristão ou crítico do cristianismo e misticismo pode


considerar ritual e evocação, na melhor das hipóteses, bizarro e, na pior das
hipóteses, perigoso ou inútil — o mago cristão recorda as palavras que o Cristo vivo
deixou aos seus discípulos como a mais potente das invocações na Oração do
Senhor, invocando o Divino Gracioso a ser radicalmente presente para estabelecer o
reino de Deus no, muito real, aqui e agora. Na Oração do Senhor, o cristão não só
ascende à união divina, mas também torna-se o próprio Deus como co-criador e
participante na própria criação. Portanto, como um iniciado nos mistérios de Cristo, o
cristão não opta mas radicalmente compromete-se e exerce sua aretêcomo um ser
feito à imagem e semelhança de Deus.