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21/12/2018 BERENICE BENTO: “Pinkwashing à brasileira”: do racismo cordial à LGBTTTfobia cordial


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“Pinkwashing à brasileira”: do racismo cordial à


LGBTTTfobia cordial
Berenice Bento (ARQUIVO) 
16 de dezembro de 2015

Em uma conversa com um colega, professor de uma prestigiosa universidade de Nova


Iorque, percebi que o Estado brasileiro também faz pinkwashing. Este é o nome (um
jogo de palavras com whitewash, produto utilizado para pintar paredes, conhecido
entre nós como cal) que se utiliza para denunciar o engodo do Estado de Israel como
país democrático. Por meio de várias campanhas midiáticas, este Estado tenta limpar,
lavar sua imagem de país conhecido e condenado por organismos internacionais de
direitos humanos por sua sistemática política de violação dos Direitos Humanos do
povo palestino. Quando são discutidas as campanhas que o estado racista de Israel
realiza para promover a imagem de que, ali, a democracia impera, é comum
escutarmos: “Isso é puro pinkwashing”, ou seja, não passa de uma farsa.

O pinkwashing brasileiro é feito com as letras da lei, um tipo de cultura política


hegemônica bem conhecida pela população negra e que, nos últimos tempos, estende
seus tentáculos para a população LGBTTTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis,
transexuais e transgêneros). No Brasil, desconhecemos a experiência da segregação
legal. Esta exclusão, no Brasil, é escamoteada por uma suposta democracia de fachada,
o que, de certa forma, reatualiza os mesmos desafios enfrentados pela população
negra para alcançar o pleno reconhecimento de sua condição humana.

Um dos exercícios que gosto de fazer quando estou fora do Brasil é perguntar a
colegas estrangeiros o que eles sabem do Brasil. As respostas não variam muito. Entre
a curiosidade e a falta total de conhecimento, é comum escutar: o Brasil é a terra do

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samba, do futebol e da liberdade sexual. Mesmo entre meus colegas professores


universitários são os estereótipos, os mapas que lhes possibilitam dissertar dois ou
três minutos sobre o país do carnaval.

Na conversa com este meu colega, a ideia de que vivemos em um país que tem o dom
de conviver com as diferenças de forma harmoniosa descolou-se da questão racial
para a questão LGBTTT.  Uma suposta cordialidade parece caracterizar as
representações hegemônicas em torno das relações sociais brasileiras e, com foco
mais fechado, nas relações entre as diversas expressões de sexualidade e de gênero.

Com olhos de profunda surpresa, ele acompanhava meus comentários sobre o perigo
de ser LGBTTT no Brasil. Sabemos da situação trágica dessa população em alguns
países do mundo. Temos conhecimento de que o Estado apresenta-se como o
principal algoz na produção da LGBTTTfobia institucionalizada e que a noção de
soberano, apontada por Giorgio Agamben (homo sacer) anuncia-se com toda
dramaticidade em muitos países. O Estado atua como ente que sacrifica vidas
legalmente. No Brasil, no entanto, há um paradoxo entre os níveis legal e o real. No
mundo das leis, todos somos iguais. Caberia ao Estado assegurar a materialização
desta igualdade formal mediante a implementação de políticas públicas universais. No
mundo real esta aparente igualdade dissolve-se no ar.

O contexto brasileiro para os LGBTTTs não está desconectado de uma cultura política
nacional que se caracteriza por fazer o excluído “limpar” suas marcas de diferença
para ser aceito. E, mais uma vez, gostaria de fazer uma aproximação com a situação
da população negra. Ainda é comum escutarmos pessoas negras afirmando que não
sofrem nenhum tipo de preconceito porque sabem o seu lugar. As máscaras brancas
nas peles negras (Franz Fanon) ainda têm considerável eficácia no controle das
relações sociais. Qual é este lugar? Qual é o comportamento aceitável? Na tentativa de
negar o racismo, o que esta afirmação revela é a dramaticidade de uma subjetividade
forjada na vergonha: ser uma pessoa negra é ter um lugar diferente no Brasil. É um
tipo de segregação subjetiva que torna difícil o combate político, pois o excluído
interiorizou esta diferenciação hierarquizada como natural.

Outro efeito deste dispositivo do medo e da vergonha seria a própria vítima, quando
consegue sobreviver aos atos de violência, não denunciar o agressor seja porque
naturaliza a violência contra si (como se ela merecesse a punição por não agir de
acordo com seu lugar natural) ou seja porque sabe que não adianta acionar o Estado
demandando justiça via ação criminal.

No âmbito das vidas LGBTTTs é recorrente encontrarmos narrativas de pessoas que se


sentem blindadas da violência por se comportarem conforme as expectativas
sociais: sou gay, sou homem e me comporto como homem. Ou: sou lésbica e não abro mão do
meu lugar de mulher.  O “reconhecimento”, tanto na questão racial quanto na
dimensão das homossexualidades e dos gêneros dissidentes, se dá por mecanismos de
apagamento das diferenças e não pelo reconhecimento da diferença. Ou seja, acontece
via assimilação. O sujeito transviado, no Brasil, não se restringe exclusivamente aos
LGBTTTs. São os que não conseguem inserir-se completamente na categoria
humanidade, tampouco usufruem da condição de cidadania plena estabelecida na e
pela Lei.

Nos marcos das contradições que marcam o Brasil, diria que sofremos de um “racismo
cordial” e de uma “LGBTTfobia cordial”, na medida em que não há uma segregação
legal e o “outro”, os seres transviados que constituem a nossa Nação  (a população
negra e os LGBTTTs) tem o mesmo estatuto legal que os não transviados. Este é o
nosso pinkwashing.  Ou, pirateando Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), diria

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que a noção de democracia real entre nós nunca passou de uma fina camada de verniz
no belo e ostentoso edifício da República. Qualquer esbarro retira essa fina camada e
revela o simulacro de democracia que nos atravessa, tal qual
o pinkwhashing israelense.

Certamente, é impossível unir dois termos que não poderiam ser postos juntos:
cordialidade & racismo e cordialidade & LGBTTTfobia. Na realidade brasileira, no
entanto, esta impossibilidade se efetiva e, talvez, seja uma singularidade nacional.
Como se configura a noção de cordialidade, nos termos que estou propondo aqui? Se
há igualdade legal, a responsabilidade pelo fracasso recai exclusivamente nas costas
do fracassado. Se há condições legais que garantem a igualdade e se todos são livres, o
único responsável por não conseguir se inserir, por exemplo, no mercado de trabalho
ou ingressar na universidade é o negro. Se o gay é agredido, o único responsável pela
agressão é ele próprio, que deve ter feito alguma coisa errada para desencadear a fúria
do agressor. E, no caso dos gays e lésbicas, é comum escutarmos pessoas
heterossexuais afirmando que não têm nada contra “essas pessoas”, desde que elas se
comportem devidamente. O que significa que elas/eles não podem ultrapassar os
limites performáticos dos gêneros e que, tampouco, lhes são permitidas quaisquer
demonstrações de carinho no âmbito do espaço público.

Os efeitos de um suposto país democrático é a produção de apagamentos das


condições econômicas, sociais e históricas que produziram determinada realidade,
encontrando no indivíduo o início e o fim de todas as explicações para determinadas
exclusões.

Talvez seja um pouco complicado para um estrangeiro entender como um país que
tem legislações tão avançadas, ao mesmo tempo, convive com níveis tão elevados de
exclusão, preconceito e violência cruenta. No Brasil, é comum escutarmos: “Esta lei é
para inglês ver”. O que significa dizer que a lei não será efetivamente cumprida e
existe apenas para dar uma satisfação para o mundo moderno. Ou então: “Aos amigos
tudo, aos inimigos a lei”. Este ditado popular opera com grande eficácia na
distribuição de bens materiais e políticos entre os donos do poder no Brasil.

O “racismo cordial” e a “LGBTTTfobia cordial” se caracterizam pela possibilidade de


convivência pacífica, na medida em que a/o excluída/o não ouse cruzar determinadas
linhas e se contente com a ficção da igualdade legal. Mas, quando há a “invasão de
fronteiras”, e quando a luta se dá nos marcos do reconhecimento, os conflitos se
instauram.

D E I X E O S E U CO M E N TÁ R I O

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