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A China pretende liderar a corrida tecnológica com o plano “Made in China 2025”

José Eustáquio Diniz Alves


Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População,
Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE;
Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

O plano “Made in China 2025” faz parte de uma nova estratégia de desenvolvimento e de
posicionamento afirmativo da China no processo de liderança científica e tecnológica global. A
China pretende encabeçar a 4ª Revolução Industrial em todas as frentes mais promissoras e
lucrativas das novas fronteiras produtivas.

Desde a Guerra do Ópio, em meados do século XIX, até o final da década de 1970 a China se
atrasou em relação aos países ocidentais e deixou de ser uma grande civilização para se tornar
um país pobre e atrasado em termos de produtividade e competitividade. A China tinha um
volume de exportações menor do que o Brasil até meados da década de 1980 e que
representava 1% do comércio mundial (hoje exporta 10 vezes mais do que o Brasil e é
responsável por cerca de 13% das exportações globais).

Após as reformas promovidas por Deng Xiaoping, em dezembro de 1978, a China iniciou um
processo de vencer o atraso e buscar alcançar o Ocidente em termos de desenvolvimento
econômico. A estratégia deu certo e a China cresceu cerca de 9% ao ano entre 1978 e 2018, se
tornando a 2ª maior economia do mundo, em termos de dólares correntes, ou a 1ª do mundo,
quando medida em poder de paridade de compra. A China se tornou a fábrica do mundo e, em
4 décadas, implantou, simultaneamente, as três Revoluções Industriais que o Ocidente
promoveu em 250 anos. Tornou-se líder na indústria têxtil e de confecções, na indústria do
cimento e aço, da mecânica e dos motores a combustão, além de se tornar a maior produtora e
exportadora de produtos eletroeletrônicos e de telecomunicações, assim como do comércio
digital e das tecnologias de informação (TI).

O que a China conseguiu em 40 anos sobre a liderança do partido comunista chinês (PCC) já
assusta os EUA e aumenta os conflitos comerciais, pois o saldo comercial chinês, a despeito de
todas as medidas protecionistas de Donald Trump, ultrapassou os US$ 400 bilhões em 2018.
Mas Pequim não quer mais ser conhecida por seus produtos simples e baratos, sua produção

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em massa, com base em uma ampla oferta de mão-de-obra de baixo custo. A China quer subir
na cadeia de valor, saindo da industrialização com base na quantidade, para a fabricação de alta
qualidade e de alto valor agregado. O que vem pela frente envolve a disputa pela hegemonia
econômica global.

Desta forma, a China se prepara para se tornar uma potência mundial na tecnologia do futuro.
Em 2015, a China anunciou o plano de 10 anos para transformar seu vasto setor manufatureiro,
fazendo um “upgrade” e avançando para indústrias de alta tecnologia, em 10 setores-chave, que
incluem o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos e microchips, máquinas agrícolas,
novos materiais, energias renováveis e carros elétricos, ferramentas de controle numérico e
robótica, tecnologia de informação, tecnologia aeroespacial, equipamentos ferroviários,
equipamentos de engenharia oceânica e navios de última geração e dispositivos médicos
avançados, tudo isto, para reduzir a dependência da tecnologia estrangeira e para consolidar a
presença chinesa no topo da liderança internacional

A prisão da executiva Meng Wanzhou, CFO da companhia Huawei, 2ª maior produtora de


celulares do mundo e grande produtora de equipamentos de telecomunicações (com ligações
estreitas com as forças armadas), é não só mais um capítulo da guerra comercial entre China e
os EUA, mas representa uma disputa pela liderança da implantação da infraestrutura para a rede
de internet móvel 5G, a Internet das coisas (IoT), Inteligência Artificial, computação quântica,
etc. Wanzhou é filha do fundador da companhia e também vice-presidente do conselho
consultivo da empresa.

Mas, a despeito das tarifas e de prisões, com certeza Pequim não irá desistir de seus planos de
se tornar uma potência industrial e tecnológica dominante simplesmente para agradar
Washington. O Partido Comunista Chinês (que vai comemorar o centenário em 2021) vê a
estratégia como essencial para garantir que a China continue se desenvolvendo e volte a ocupar
o lugar de destaque que teve no passado. Todavia, as metas agressivas do plano de dominar as
cadeias de suprimento para setores inteiros alimentaram preocupações entre empresas
estrangeiras, que temem perder em favor de empresas chinesas e governos, que veem uma
potencial ameaça à segurança nacional.

De fato, diversas empresas chinesas de tecnologia chegaram à lista das maiores companhias
globais em valor de mercado, como as três grandes, Baidu, Alibaba e Tencent, conhecidas como
BAT, que são a versão asiática do trio Google, Amazon e Facebook. Há também as gigantes
eletrônicas Xiaomi e Didi Chuxing, que em pouco tempo conquistaram o mundo e ajudaram a
marcar a presença chinesa global.

Em 2015, pela primeira vez, a China investiu mais no exterior do que empresas estrangeiras
aplicaram no país. A china consegue manter seu enorme mercado interno sob controle ao
mesmo tempo que apresenta um apetite insaciável de conquistar espaço ao redor do mundo,
enquanto o governo reforça sua projeção internacional e mantém forte controle interno sobre
as ideias e qualquer proposta contrária às diretivas do PCC.

Como mostrou Dani Rodrik, a China tem feitos conquistas impressionantes sem recorrer à
democracia liberal: “A sabedoria convencional entre os cientistas sociais é que as demandas das
economias avançadas e das classes médias em crescimento só podem ser satisfeitas através de
maiores liberdades políticas e competição. A elite política chinesa é cética e não sem razão.
Quando olham para o Ocidente hoje em dia, veem o populismo, a demagogia e as divisões
profundas, em vez de sociedades inclusivas e harmoniosas. Sua tentativa de combinar uma

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economia de alto crescimento e tecnologicamente sofisticada com um autoritarismo reforçado
talvez seja a experiência mais ambiciosa deles até hoje” (Rodrik, 2018).

Desde que o plano "Made in China 2025" se tornou um ponto focal na guerra comercial e
tecnológica, o governo chinês começou a amainar o discurso. Nas comemorações dos 40 anos
das reformas que transformaram a China, no dia 18/12/2018, o presidente Xi Jinping moderou
o discurso. Mas diversos analistas consideram que os objetivos de liderança chinesa colocados
desde à ascensão do atual líder ao poder, que pode se manter indefinidamente no cargo
máximo, não irão mudar, embora possa haver mudanças cosméticas.

Na política e na economia o gigante oriental desafia o gigante ocidental. A China poderia se


contentar com o sucesso alcançado nos últimos 40 anos, mas a ambição é muito maior e o
governo de Pequim se prepara para tornar o “Império do Meio” a maior potência econômica do
planeta e a potência global líder em ciência e tecnologia.

O professor Graham Allison, autor do livro, “Destined for War: Can America and China Escape
Thucydides’s Trap?” (2017), considera que é alta a probabilidade de uma guerra entre as duas
maiores potências mundiais. Infelizmente, os conflitos comerciais e a forma como se dá a
implementação do plano “Made in China 2025” parecem dar razão ao pessimismo da Armadilha
de Tucídides, com uma transição conflituosa e não harmoniosa.

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Referências:
Dani Rodrik. China’s Boldest Experiment, PS, Dec 11, 2018
https://www.project-syndicate.org/commentary/china-experiment-high-growth-renewed-
repression-by-dani-rodrik-2018-12
Graham Allison. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?, 2017
https://www.amazon.com/Destined-War-America-Escape-Thucydidess/dp/0544935276
https://www.youtube.com/watch?v=XewnyUJgyA4
Peter Pham. What Will China's Future Look Like? Forbes, 07/03/2018
https://www.forbes.com/sites/peterpham/2018/03/07/what-will-chinas-future-look-
like/#513a40c57488