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"Introdução aos Estudos Históricos",

publicado em dez partes por

José van den Besselaar


durante os anos de 1954 e 1958
na Revista de História

SUMÁRIO

PAGINAÇÃO  
PARTE   EDIÇÃO   ANO   ORIGINAL   NESTE  ARQUIVO  

Parte  I   nº20   1954   407-­‐493   002-­‐086  


Parte  II   nº21-­‐22   1955   439-­‐535   087-­‐181  
Parte  III   nº23   1955   185-­‐239   182-­‐236  
Parte  IV   nº24   1955   499-­‐533   237-­‐271  
Parte  V   nº26   1956   491-­‐527   272-­‐308  
Parte  VI   nº27   1956   183-­‐228   309-­‐354  
Parte  VII   nº28   1956   413-­‐509   355-­‐451  
Parte  VIII   nº29   1957   121-­‐219   452-­‐550  
Parte  IX   nº31   1957   133-­‐227   551-­‐643  
Parte  X   nº35   1958   149-­‐237   644-­‐732  
 
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (I)", In:
Revista de História, São Paulo, nº 20, pp 407-493, out./dez. 1954. Disponível
em: http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/020/A009N020.pdf

QUESTÕES PEDAGÓGICAS

INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS (*).

PRIMEIRA PARTE

Noções Gerais
* *
CAPITULO PRIMEIRO
DA MITOLOGIA À CIÊNCIA HISTÓRICA.

§ 1. A palavra História.

Y■I/XH NIKA
Foi na Grécia que nasceu aquêle desêjo desinteressado de sa-
ber que ainda hoje em dia constitui um dos elementos mais carac-
terísticos da nossa civilização. Os primeiros sábios, — é difícil de-,
cidir se eram filósofos ou cientistas, — davam vários nomes a essa
,

curiosidade intelectual, um dos quais era a palavra "história" (1),


têrmo originàriamente bastante genérico, que podia designar tôda e
qualquer investigação científica. Aos jônios, raça inteligente e arro-
jada, tudo interessava, porque tudo lhes causava profunda admira-
ção: as leis que regem o universo, a matéria primitiva de todos os
.séres, os costumes e as instituições de povos estrangeiros, os aconte-
cimentos do passado, a origem da sua cidade. Tudo o que era cog-
noscível valia a pena de uma investigação racional, de uma "histó-
ria". Assim nasceu a ciência, uma das conquistas mais duradouras do
gênio grego. A jovem nação, confiante no dom divino da inteli-
gência (: "lógos"), que tanto venerava, foi-se servindo aos poucos
de métodos racionais para desvendar os mistérios do mundo, eman-
cipando-se das tradições mitológicas e entusiasmando-se com as
novas descobertas, cada vez mais ricas e profundas.

(*). — Com o presente número da Revista iniciamos a publicação do interessante tra-


balho do Prof. Dr. José van den Besselaar que, por representar uma necessidade
para os nossos alunos desprovidos de bons manuais, não tivemos dúvidas em
estampar, apesar do seu tamanho. Nos números seguintes publicaremos as
outras três partes e, finalmente, depois de todo publicado será reunido em
livro e aparecerá na coleção de Cadernos da Revista de História (E. Simões
de Paula) .
<1) — A raiz da palavra grega "história" é weid- ou wid-, que se encontra também
no vocábulo latino videre (=ver), no vocábulo inglês wit (=espírito) e no
vocábulo alemão wissen (=saber). Cognatas são também as palavras idéia
e druida. Cf. Eudoro de Sousa, Filosofia e Filologia, in Revista da Universi-
dade Católica de São Paulo, vol. V, fasc. 10 (1954), pág. 47.
— 408 —

Nesse ambiente sequioso de saber, nasceu e viveu o historiador -


Heródoto, o primeiro autor grego a nos transmitir diretamente (2>
a palavra "história", empregada por êle em dois sentidos diferentes:
no de "pesquisa científica" (por exemplo, no Prefácio da sua obra),..
e no de "resultado de tal pesquisa", digamos: "informação, relató-
rio, exposição" (por exemplo, VII, 96) . Continuamos a usar o têr-
mo nesta última acepção ao falarmos em "história natural", que é
a descrição científica dos sêres aniifiados.
Bem cêdo, porém, já na Antigüidade, o têrmo começou a ser -
aplicado preferencialmente à narração de fatos e acontecimentos do
passado, verificados como autênticos e dignos de memória . A pa-
lavra grega "história" acabou por entrar em todos os idiomas da
cultura ocidental, e indica atualmente não só a narração dos fatos-
como também os próprios fatos do passado. Neste último sentido
podemos dizer, por exemplo, que a França tem uma história rica e -
interessante.

§ 2. Os primórdios da historiografia.

O homem é animal histórico, em tôdas as acepções da palavra-.


A tese é ilustrada pelo fato de ser apreciado, onde quer que haja
homens, um conto interessante, uma "boa história"; a tese implica era"
que o homem vive no tempo com as suas três dimensões: passado,
presente e futuro. Sem o tempo, nada de "histórias", nada de "his-
tória".
A criança escuta maravilhada um conto de fadas, o homem
primitivo ouve com espanto os contos do seu bardo, o adulto de'
uma civilização adiantada lê absorto o seu romance . O desêjo es-
sencialmente humano de ouvir uma "boa história" é a primeira ten-
tativa de entender as coisas e o primeiro alimento de uma inteli-
gência que desabrocha. Daí o papel importante de contos de fadas.
na educação de crianças, e o de mitos na infância dos povos: além
de lhes despertarem a curiosidade intelectual, ativam-lhes também
as faculdades da vida afetiva e a imaginação. Na vida dos indiví-
duos bem como na dos povos, geralmente chega um momento ern-,
que não se pretendem eliminar os produtos da imaginação, mas se ,
procura distinguir, metõdicamente e criticamente, entre o mundo
real e o imaginário, entre fatos autênticos e fictícios. O homem
não perde o seu caráter de "animal histórico", e sim se esforça por -
separar as "histórias" da "História".
Foi o que se verificou na Jônia, no alvor do século VI a. C.
Até então se haviam contentado os gregos com os ensinamentos dos

(2) . — Os chamados filósofos pré-socráticos devem ter empregado o têrmo "história" "
nas suas publicações, mas não possuímos fragmento algum que tenha conser-
vado a palavra.
•■•

— 409 —

seus. poetas-educadores: Homero e Hesíodo, êste a expor-lhes a teo- -


gonia e a cosmogonia (3), aquêle a contar-lhes as gloriosas faça-
nhas dos heróis nacionais. Nasceu a prosa, uma linguagem mais.
apropriada para comunicar os resultados das investigações científi-
cas do que a poesia, filha da imaginação. Os primeiros prosadores
gregos chamavam-se "logógrafos", quer dizer: "escritores de prosa".
Era processo lento e doloroso o separar-se do mito a "história":
tanto pesava a tradição. Segundo Estrabão (4), os logógrafos Cad-
mo, Ferecides e Hecateu em nada se distinguiriam dos poetas senão
pela falta de uma linguagem métrica. Não sejamos demasiadamen-
te severos para com os iniciadores da nossa ciência: as constru-
ções do espírito levam certo tempo. A iniciativa foi decerto no-
tável e merece a nossa gratidão. Pode ser que os logógrafos tenham
sido crédulos, inclinados a apontar o maravilhoso, e apressados em
dar soluções, ora pouco refletidas, ora ingênuamente racionalistas:
eram pioneiros atrevidos, conscientes de lançar os alicerces de uma
nova ciência. Um dêles, Hecateu de Mileto (± 500 a. C.), decla-
rava com orgulho mal rebuçado: "Assim fala Hecateu de Mileto.
Escrevo estas coisas consoante me parecem verdadeiras. Pois, a
meu ver, são discordantes e ridículas as opiniões dos gregos" (5) .
Eram homens viajados, que faziam questão de conhecer pessoalmen-
te os diversos povos,, observar-lhes os hábitos, conversar com êles
e tirar as suas conseqüências. A história e a geografia são gêmeas,
ambas nascidas da mesma mãe: a curiosidade intelectual dos jô-
nios. Infelizmente não possuímos obra alguma completa dêsses
precursores: pelos fragmentos pouco numerosos que chegaram até
nós, podemos verificar que alguns tinham muito bom senso, notá-
vel dom de observação e independência de juízo.
Além dêsse tipo de historiografia, em estado embrionário, exis- -
tiam, em vários centros políticos e religiosos do país, tabelas crono-
lógicas, compostas por magistrados e sacerdotes: anotações sucin-
tas sôbre os principais acontecimentos do ano corrente, tais como
guerras, alianças, pactos, festas religiosas,, fenômenos meteorológi-
cos, etc. As listas mais importantes eram as dos arcontes em Ate-
nas, as dos éforos em Esperta, e as dos sacerdotes em Olímpia. De
tôdas essas anotações possuímos apenas conhecimentos indiretos e -
muito escassos.

(3): — Hesíodo, poeta grego (século VIII a. C.) escreveu dois poemas didáticos: a.,
Teogonia e Obras e Dias (uma espécie de calendário para uso dos lavradores,
rico em sentenças moralistas e preceitos práticos) .
. — Strabo, Geographica, I 2, 6. — Strabo (Estrabão) era geógrafo e historiador
grego (63 a. C. — 19 d. C.). Perderam-se, infelizmente, as obras históricas
désse sábio sensato e equilibrado.
. — Hecataeus Milesius, Fragmentum 332, in Fragmenta Historicorum Graecorum, -
edd. C. et Th. Müller, Bibliotheca Didotiana, vol. I, pág. 25 .
— 410 —

§ 3. A historiografia grega.

Nos seguintes parágrafos dêste capítulo pretendemos esboçar


ràpidamente a evolução da historiografia desde Heródoto (século
V a. C.) até Niebuhr ( ±- 1800 d. C.) . Nosso resumo não tem a
pretensão de ser uma "história da historiografia": limita-se a indi-
car alguns grandes vultos que nesse período de quase 2500 anos
contribuiram para o progresso da nossa ciência e a caracterizar
as obras que constituem a valiosa herança histórica da nossa civi-
lização. Para todo e qualquer estudioso do passado são indispen-
sáveis algumas noções elementares da historiagrafia anterior ao
século XIX, — época em que nasceu o conceito moderno — e nesta
obra, que se dirige especialmente aos futuros historiadores da Anti-
güidade e da Idade Média, recorremos repetidamente aos nomes e
aos livros, mencionados neste capítulo.
I. Heródoto de Halicarnasso 485-±425 a. C.) passa tra-
dicionalmente pelo "pai da história" (6) . Descreveu as guerras
persas (490-479 a. C.), nas quais entrevia, com uma rara perspi-
cácia, um conflito ainda hoje atual: o conflito entre o Oriente, des-
pótico e coletivista, e o Ocidente, livre e humanista. Com muito
bom senso rejeita as tradições lendárias existentes a êsse respeito,
e como verdadeiro historiador esforça-se por descobrir as causas
remotas da inimizade, consagrando-lhes a metade da sua obra.
Como Hecateu, era homem viajado: conhecia pessoalmente o Egi-
to, a Síria, a Babilônia, talvez a Pérsia; além disso, a Ásia Menor, a
Trácia, a Macedônia, o continente grego e várias ilhas, a Líbia e a
Magna-Grécia. Era bom observador, e sua sensatez inata levava-o
muitas vêzes a desconfiar de tradições pouco seguras: suas informa-
ções são freqüentemente confirmadas pelos resultados das pesqui-
sas modernas. Outrossim, empenhava-se em ser imparcial: embo-
ra admirador sincero das grandes realizações dos seus patrícios,
principalmente dos atenienses, fala sem rebuço nos lados fracos dos
gregos: a leviandade, a falta de honestidade, etc., e aprecia positi-
vamente as virtudes e as grandes obras dos "bárbaros". Sem dú-
vida, não podemos medir sua crítica pelas normas modernas: He-
ródoto não tinha nem os métodos, nem a paciência, nem o rigor, nem
os instrumentos de um pesquisador hodierno. Muitas vêzes é víti-
ma de uma informação pouco exata, mas piamente acreditada, ou
de uma superstição que nos parece pueril. Também se perde em
pormenores, escapando-lhe, às vêzes, o tema principal. Tampouco
se esforça por penetrar na mentalidade e na psicologia dos seus ato-
res e comparsas: seus personagens são figuras de uma epopéia, mas

(6) . — Foi apelidado assim por Cícero, De Legibus, 1 1, 15.


— 411 —

de uma epopéia bem humana. Além disso, é autor admirável, um


dos mais cativantes da literatura grega. Entende perfeitamente
da arte de dramatizar, e possui inegàvelmente certo senso de hu-
mor; pertence aos melhores contadores da literatura mundial, e com
muito direito o século XX lhe daria a alcunha de father of the
short story. São maravilhas as numerosas novelas que intercala na
obra em guisa de digressões, -por exemplo o encôntro de Creso e
Sólon (I, 29-32), a infância de Ciro (I, 108-122), o anel de Poli-
crates (III, 39-43) . A época alexandrina dividiu as "Histórias" de
Heródoto em nove livros, cada um dos quais ficou dedicado a uma
das nove musas.
II. Tucídides de Atenas (±470-±400 a. C.) é, com Políbio,
maior historiador da Antigüidade. Consagrou uma monografia
às guerras do Peloponeso (7), em oito livros esmeradamente com-
postos. Impediu-o a morte de revisar o último livro da obra. Ao con-
trário de Heródoto, Tucídides lida quase exclusivamente com a polí-
tica, permitindo-se pouquíssimas digressões. E' pesquisador escru-
puloso: faz estudos metódicos' dos documentos disponíveis, tam-
bém das inscrições (8), compara-os entre si, e procura informações
por tôda a parte, também no campo dos inimigos. Denuncia a pre-
guiça mental dos logógrafos em examinar as fontes, contrapondo-lhes
seu relatório, exato, objetivo, científico, dizendo: "O fato de ser
destituída de elementos míticos a minha obra, talvez a torne menos
atraente para uma declamação pública; entretanto, os que aprecia-
rem uma informação exata sôbre o passado, e por isso mesmo sôbre
futuro (o qual, em virtude da condição humana, será igual ou
semelhante), êsses a julgarão muito útil, e basta-me saber isso. E'
uma aquisição para sempre e não uma ostentação efêmera" (9).
Tucídides escreve para uso dos estadistas que, ajudados pela expo-
sição objetiva dos fatos do passado, lhes poderão tirar uma lição
importante para o futuro: a história é o ensinamento político por
excelência . E' o primeiro historiador a distinguir explicitamente en-
tre causas remotas e ocasionais, e a aplicar a ilação histórica (cf. §
64 II b) a fatos pouco ou mal documentados. No exótdio da sua
obra (I, 1-21) submete a um exame crítico a pré-história grega,
desfigurada por tantos elementos míticos; em. I, 24-88 estuda as
causas ocasionais da guerra; em I, 88-118 descreve com muita pe-
netração o apogeu da democracia •ateniense. Outros episódios cé-

— A Guerra do Peloponeso travou-se, de 431 a 404 (com alguns intervalos),


entre Atenas e Esparta, e os aliados das duas cidades, terminando na derrota
da democracia ateniense.
— Encontramos por exemplo em Thucidides, Historiae, V 47, o texto integral de
um pacto entre os atenienses e outras cidades gregas, o qual nos é conhecido
também por uma inscrição (Inscriptiones Graecae, 1, Supplementum, pág. 14,
46b) .
(9) . — Thucydides, Historiae, I 22,4. — A tradução é um tanto livre.
— 412 —

lebres são: o elogio fúnebre de Péricles em homenagem aos caídos:


no primeiro ano da guerra, com o credo da democracia clássica (W
35-46); a peste que assolou a cidade de Atenas (II, 47-53); a ex-
pedição para a Sicília (VI-VII); e o diálogo interessante entre os
embaixadores de Atenas e os da ilha de Melos (V, 84-116). Tucí-
dides é autor dificílimo, devido à sua concisão: densus et brevis et -
semper sibi instam (10).
A obra de Tucídides foi continuada, até o ano 362, por
Xenofonte de Atenas (430354), na obra Helênica, em 7 livros.
Apesar de ser estilista elegante, Xenofonte marca retrocesso consi-
derável da historiografia grega: não é pesquisador metódico, tem
vistas curtas, sua exposição dos fatos é superficial e sua interpreta-
ção parcial. Saiu-lhe melhor um memorial: a Anábase (em 7 li-
vros), relatório interessante da expedição de Ciro o Moço contra
seu irmão, Artaxerxes, e da retirada dos Dez Mil gregos do inte-
rior da Pérsia (401-399). Com Teopompo de Quios (376-320)
e Éforo de Cima (408-330), ambos alunos do célebre professor de-
retórica, Isócrates, a historiografia grega veio a ser influenciada, e
até deturpada, pela beletrística. Aquêle continuou a obra de Xe-
nofonte (até 336), êste escreveu a primeira História Universal,
desde os tempos da invasão dórica até 340. Das duas obras possuí-
mos apenas fragmentos.
A história helenista de Políbio de Megalópolis (201-
120) é um protesto veemente contra a sujeição da verdade histó-
rica a efeitos literários. Políbio era um dos mil reféns que a Con-
federação acaia devia entregar a Roma (168 a. C.), onde se fêz:
amigo dos grandes líderes políticos e militares, principalmente de
Cipião, a quem acompanhou em várias das suas campanhas. Pro-
fundamente impressionado pelas conquistas vertiginosas do Impé-
rio Romano no período de 221 a 168 a. C. (11), pôs-se a descrever-
lhes a história e a procurar-lhes as causas. Foi êle que introduziu
o têrmo "historiografia pragmática" (12), no sentido de "história
dos fatos (políticos e estratégicos)", a dirigir-se aos "homens prá-
ticos", quer dizer: a políticos e militares. Como Tucídides, acre-
dita no poder educativo da história, que é, no dizer do autor, "a
mais verdadeira educação e a melhor propedêutica para as ativi-
dades políticas" (I, 1, 2) . Formulou a diferença entre causas de-
terminantes e causas passageiras, e explica a expansão romana não ,

. — Quintilianus, Institutio Oratoria, X 1, 73.


. — Em 221 rebentou a segunda guerra púnica, e em 168 deu-se a batalha de--
Pidna, onde os gregos, ou melhor, os macedônios, foram derrotados. Neste
período de 53 anos, Roma conseguiu apoderar-se definitivamente, se não do,
domínio, ao menos, da hegemonia sôbre o Mediterrâneo.
. — Por exemplo Polybius, Historiae, I 2, 8; IX 2, 4; XII 25e.
— 413 —

só por fatôres físicos (situação da cidade, tamanho da população,


.etc.), mas também por fatôres morais (a disciplina militar, o he-
roísmo dos cidadãos, a prudência do Senado, e a excelente consti-
tuição) . Elimina por completo o fator sobrenatural da história, só
reconhecendo as "causas determinantes" (cf. Montesquieu) e um
poder incalculável: o acaso. Esforça-se por procurar leis históri-
cas. Estas três qualidades são absolutamente necessárias ao histo-
riador: um exame crítico dos documentos, conhecimentos pessoais
dos lugares descritos, e a prática da vida militar e política (XII,
25e) . Por isso' censura severamente os literatos que sacrificam a
verdade dos documentos ao prazer estético, e os professôres que
possuem apenas conhecimentos teóricos — e imperfeitos! —
da política e da estratégia. Salienta também a necessidade de ser
universal a história: há uma concatenação dos fatos históricos, e
quem a ignorar, não se poderá elevar a uma vista panorâmica (III,
32; VIII, 2) . Como se vê, Políbio repete muitas das idéias de Tu-
cídides, mas profere-as com maior ênfase, estendendo os métodos
científicos a outros campos de investigação. Como estilista, é-lhe
-muito inferior: Políbio é autor medíocre, que renuncia aos enfeites
de um belo estilo. E' um dos poucos historiadores antigos que não
inseriu discursos na sua obra (13) .
V. A obra de Políbio já nos colocou na história romana. Os
outros historiadores gregos, não possuindo pátria independente e
-sentindo-se cosmopolitas ou cidadãos romanos, escreveram histórias
universais, a culminarem no Império Romano, ou então histórias ro-
manas. Suas obras são, em geral, muito inferiores às dos três cori-
feus da historiografia grega: Heródoto, Tucídides e Políbio. Muitos
dêles não passavam de compiladores pouco escrupulosos, literatos
declamadores, aduladores do poder, ou patriotas exaltados. Mencio-
namos aqui alguns nomes que têm certa importância:
Diodoro de Sicília (século I a. C.), autor de uma Biblio-
teca Histórica, em 40 livros (14), modelada sôbre a História Uni-
versal de Éforo, e abrangendo o período dos tempos míticos até o
ano 59 a. C.
Dionísio de Halicarnasso (século I a. C.) escreveu uma Ar-
queologia Romana em 20 livros (15), em que pretendia completar
a obra de Políbio, dando a história romana desde as origens até o

,(13) . — A obra de Políbio contava 40 livros, dos quais possuimos I-V completos, e o
resto em fragmentos, por vêzes bastante extensos. — Nos livros MI trata
da pré-história de Roma e Cartago; nos livros III-XXIX dos acontecimentos
entre 221 e 168; nos livros XXX-XL narra as conquistas romanas até o ano
144. — O livro XXXIV é inteiramente consagrado a questões geográficas.
.(14). — Chegaram até nós os livros I-V (tempos míticos, anteriores à guerra troiana)
e XI-XII (480-302 a. C.), e numerosos fragmentos.
415) . — Possuimos ainda os livros I-X completos, XI incompleto, e o resto em frag-
mentos extensos.
— 414 —

ano 264 a. C. E' o protótipo da historiografia retórica e pouco ,


crítica.
O judeu Flávio Josefo (37-97 d. C.) descreveu a Guerra
Judaica, em 7 livros, e as Antigüidades Judaicas, em 20 livros. As
duas obras são tendenciosas.
Apiano de Alexandria (século II d. C.) tratou de expor
a história romana aos seus patrícios em episódios bélicos, em 24
livros (16).
Dião Cássio (-±- 155-235), alcunhado o "Tito-Lívio gre-
go", publicou uma história completa do povo romano, que abran-
gia um período de quase mil anos (753 a. C. -229 d. C.), em 80
livros (16a.). Sem ser pesquisador meticuloso, era homem muito
lido e consciencioso. Gozava de enorme popularidade até na época
bizantina: os monges Xifilino (século XI) e Zonaras (século XII)
compilaram-no em excertos que ainda hoje em dia têm certa impor-
tância histórica.
De Plutarco falaremos no § 24 I.
Luciano de Samósata (125-195), autor espirituoso e.
mordaz, (é muitas vêzes chamado o "Voltaire grego"), ridiculariza
a mania dos historiadores contemporâneos de imitar os grandes clás-
sicos, exprobrando-lhes falta de sinceridade, de verdadeiro entu-
siasmo, e de experiência da vida prática . Insiste, no seu livrinho
interessante Como se deve escrever a história em que o historiador
possua senso político e empregue um estilo apropriado ao assunto..
Finalizando, mencionamos Procópio de Cesaréia (sé-
culo VI), que já pertence à época bizantina. Era companheiro de-
Belisário, o general do Imperador Justiniano (527-565), cujas ex-
pedições contra os persas, vândalos e gôdos descreveu, em 8 livros_
Imitador de Tucídides, pode ser considerado como o último re-
presentante da historiografia grega, e até como representante de
destaque. Num panfleto, chamado Anécdota ou História Arcana,,
denuncia os crimes do Imperador e da sua espôsa Teodora.

§ 4. A historiografia latina.

Ao contrário da Grécia, não conhecia cantos heróicos a Ro-


ma primitiva; tôdas as opiniões a êsse respeito não passam de
hipóteses. A origem da historiografia romana tinha as suas raízes
em instituições práticas de ordem religiosa e civil. Aos sacerdotes-
cabia a tarefa de publicar cada ano o calendário, indicando as

(16) . — Perderam-se os livros I-V, e XVII-XXIV; além disso, o livro X. — Os ,


livros XIII-XVI, que tratam das guerras civis, desde os Gracos (133 a. C.).
até os tempos de Augusto, são muitíssimo importantes.
(16a) . — Chegaram até nós os livros XXXVI-LX (68 a. C. — 47 d. C.).
— 415 —

festas religiosas, os dies fasti et nefasti, os dies atri (17) e os dies


intercalares. Dessa organização que, conforme a tradição, remon-
tava ao rei Numa Pompílio, nasceu a historiografia romana: os
sacerdotes começaram a anotar também os magistrados do ano
corrente (fasti consulares) e, depois, os principais acontecimentos
verificados (annales). Cícero diz: erat enim historia nihil aliud
nisi annalium confectio (18). Entre os anais destacavam-se os
annales maximi, chamados assim por serem confiados ao cuidado
do pontifex maximus. Sabemos que o célebre jurisconsulto, Públio
Múcio Scaevola, quando pontifex maximus (133 a. C.), rompeu
com essa praxe, e que os annales maximi, logo depois, foram edi-
tados em 80 livros (18a.) Possuímos dêles apenas conhecimentos
indiretos. Além disso, havia também os "anais" dos magistrados
(libri magistratuum) e os arquivos particulares das famílias no-
bres. Êsses anais, já existentes antes de nascer a historiografia
pràpriamente dita, exerceram grande influência sôbre a documen-
tação e o método dos historiadores latinos: quase todos êles são
"analistas", narrando os acontecimentos ano a ano (por exemplo,.
Tito Lívio, Tácito, como também o grego Dião Cássio) .
I. A historiografia romana deve, desde o início, as idéias, as.
formas literárias e os métodos a sua irmã grega, e mesmo na fase
do seu apogeu não consegue contribuir essencialmente para o adian-
tamento da ciência. De acôrdo com o gênio prático do povo roma-
no, o interêsse dos historiadores latinos é preponderantemente po-
lítico e revela tendências patrióticas e moralistas . Falta-lhes, quase
por completo, uma autônoma reflexão filosófica acêrca dos proble
mas históricos.
Os primeiros analistas romanos, Quinto Fábio Pictor e
Lúcio Cíncio Alimento (século III), escreveram as suas obras em
grego, fato ilustrativo do grande impulso que a historiografia grega
dava à romana . Com exceção de alguns fragmentos insignificantes,
perderam-se estas obras.
Mais lastimável é a perda da obra do austero conserva-
dor Marco Pórcio Catão (234-149), o pai da prosa latina (19). Num.
estilo conciso e lapidar escreveu, em 7 livros, uma história do seu.

. — Os dies fasti são mais ou menos comparáveis aos nossos "dias úteis"; neles o
pretor podia pronunciar uma sentença judiciária, e o povo podia cuidar dos
seus negócios políticos e privados, coisas essas que eram proibidas nos dies.
nefasti. Os dies nefasti não eram "dias' nefastos ou negros", na acepção mo-
derna da palavra. Ristes eram chamados dies atri ou religiosi: aí eram come--
moradas as catástrofes públicas, por exemplo 18 de julho que era dies ater por
três motivos: 447 a. C., derrota do exército romano nas margens do rio Crê-
mera (os 300 Fábiosl ); 387 a. C., batalha do Alia (vitória dos gauleses sôbre-
os romanos; 64 d. C., o Imperador Nero incendiou grande parte da cidade.
. — Cícero, De Oratore, II 12, 52.
(18a). — Cf. Servius, ad Aeneidem, I, 373.
. — Encontram-se os fragmentos de Catão em Historicorum Romanorum Fragmenta,.
ed. H. Peter, Lipsiae, 1883.
416 —

-povo, da fundação da cidade até a guerra lusitana (154-151), as


,chamadas Origines. O autor não prestava atenção aos fatos mete-
-reológicos e às banalidades econômicas que se repetiam invariàvel-
mente nos annales maximi (20); o que lhe interessava era a política,
a vida militar e a exaltação patriótica das façanhas nacionais.
'Omitia sistemàticamente os nomes dos heróis (21), tributando ape-
nas elogios impessoais aos soldados e estadistas como representantes
de Roma. Assim descreve detalhadamente o comportamento he-
róico de um oficial, Q. Caedicius, durante a primeira guerra pú-
nica, sem lhe mencionar o nome! Em compensação, dá o nome
de um dos elefantes do exército do rei Antíoco, e insere dois dis-
cursos que êle próprio proferira no Senado. (22) . Incoerência es-
tranha: desaparece o anonimato onde o próprio autor entra na
cena!
Dos analistas latinos, cujas obras se perderam igual-
-mente, mencionamos apenas: Lúcio Célio Antípater (século II),
Cláudio Quadrigário (século I) e Valério Ântias (século I) . Ao
passo que os dois primeiros escreveram certos episódios da histó-
ria romana, abrangeu o terceiro o período de 753 a 78 a. C. (morte
de Sila), em 75 livros. Os analistas tendiam, em geral, a exage-
rar as realizações dos seus patrícios: principalmente Valério tinha
péssima reputação (23) .
II. Na época de Cícero, havia em Roma quatro historia-
dores, que merecem a nossa atenção.
Gaio Júlio César (100-44) deu, nos seus Commentarii
De Beijo Gallico, o memorial das suas conquistas na Gália (58-
52); o livro oitavo foi depois acrescentado por seu lugar-tenente
Aulo Hírcio. A obra é preciosa fonte de informação, mas por ser
uma apologia da política do autor, oculta ou desfigura os verda-
•deiros motivos. Em todo o caso, é muito superior aos Commen-
tarii de Beijo Civili (em 3 livros), que dão uma versão muito ten-
denciosa da guerra civil entre Pompeu e César (5049).
Gaio Salústio Crispo (87-35) escreveu, além das suas
_Historiae, obra quase completamente perdida, duas monografias:
_De Conjuratione Catilinae, e De Bello Jugurthino. Imitador de
Tucídides, quanto ao estilo, é-lhe muito inferior no que diz res-
peito às idéias, ao método, à imparcialidade. A grande preo-

420). — Cato, Fragmentum 77: Non lubet scribere, quod in tabula apud pontificam
maximum est, quotiens anona cara, quotiens lunae aut solis lumine caligo aut
quid obstiterit.
( 21) . — Não sabemos ao certo se Catão conseguia omitir também os nomes dos heróis
pré-históricos, venerados como divinos em Roma, por exemplo Rômulo. A
nosso ver, é pouco provável.
(22) . — Cf. Cato, Fragmenta, 83; 88; 95, etc.
423) . — Cf. Titus Livius, Ab Urbe Condita, XXVI 49, 3: adeo (ei) nulius mentiench
modus est.
— 417 —

ocupação do autor é a de demonstrar, nas suas obras, a depravação


4:lo regime aristocrático de Roma, tendência essa que prejudica
-visivelmente a objetividade.
Cornélio Nepos (94-24) deu, nos 16 livros da sua obra
De Viris Illustribus, uma galeria dos homens ilustres da Grécia e
de Roma. Só 23 biografias chegaram até nós. São folhetins de
pouco valor histórico.
Marco Terêncio Varrão (116-27), o maior erudito de
Roma, escreveu várias obras enciclopédicas, destituídas de valor
literário, mas preciosas fontes de informação, por exemplo Ariti-
.quitates Rerum Humanar= et Divinarum em 41 livros. Perdeu-
se esta obra bem como quase tôdas as demais obras dêste polí-
grafo romano (24).
III. Tito-Lívio é um dos maiores historiadores romanos (59
a. C.-17 d. C.). Nos tempos do Imperador Augusto escreveu a sua
obra monumental: Ab Urbe Condita, em 142 livros, que trata da
história romana desde o início até o ano 9 a .C. (25) . Não era pes-
•quisador meticuloso, nem se demorava muito em examinar rigoro-
samente os documentos. Assim mesmo tinha idéias elevadas da
verdade histórica, e esforçava-se sinceramente por ser imparcial. O
.,opus magnum de Tito-Lívio, como o do poeta Virgílio, deve sua
origem e sua inspiração a um patriotismo autêntico: quer propor
_aos seus concidadãos o glorioso passado da cidade para fazê-lo amar
-e admirar. Ao mesmo tempo visa a soerguer a moralidade dos seus
contemporâneos, mediante as lições do passado: inde tibi tuaeque
_reipublicae quod imitere capias, inde foedum inceptu, foedum exitu,
quod vites (Prefácio do Livro I, 9). Tito-Lívio é grande artista,
romântico e imaginativo, que entende perfeitamente da arte de re-
vivificar os tempos idos. Essas qualidades, porém, chegam a pre-
judicar, às vêzes, a objetividade serena, tão necessária a um histo-
riador: descreve um passado, cheio de vida e cenas dramáticas, mas
cheio também de elementos lendários. A sua grandiosa síntese, que
, ›é mais uma concepção artística do que uma obra científica, deu
forma clássica à história primitiva do povo romano, tal como se
transmitiu até o início do século XIX .
IV . O segundo grande historiador romano é Públio Corné-
"lio Tácito (±55-±- 120 d. C.), autor das Historiae, em 14 livros (26),
{24) . — Varrão escreveu 74 obras em mais ou menos 620 livros. — Cf. S. Augustinus,
De Civitate Dei, VI 2: qui tem multa legit, ut aliquid scribere vacuisse mi-
remur; tem multa scripsit, quem multa vis quemquam legere potuisse credamus.
a(25). — Chegaram até nós 35 livros: I-X (753-293 a. C.), e XXI-XLV (221-167
a. C.) . A extensão enorme da obra liviana (cf. Martialis, Epigrammaton,
XIV 190: Pellibus eaiguis artatur Livius ingens, Quem mea non totum bi-
bliotheca capit), tomava necessárias sinopses mais manejáveis (as chamadas
Peridchae), que ainda possuimos.
426) . — As Historiae tratavam da história romana de 68 (morte de Nero) a 96 (morte
de Donaiciano) Possuimos apenas os livros I-IV, e V incompleto.
— 418 —

dos ~ales ab Excessu Divi Augusti, em 16 livros (27). Além ,


disso, consagrou uma monografia interessantíssima à Germânia:.
De Situ ac Populis Germaniae. Tácito é o psicólogo inigualado-
entre os historiadores antigos, mas obscurece-lhe os horizontes o seu,
temperamento negro e apaixonado. Partidário do antigo sistema.:
republicano, irrevogàvelmente perdido no seu tempo, propendia
para uma interpretação pessimista dos acontecimentos do século ,-
I, que descrevia com tanta maestria. Conformava-se, afinal, com _
a liberdade relativa que lhe garantia o reinado de Trajano (98-
117): rara temporum felicitate, ubi sentire quae velis et quae
sentias dicere licet (Hist., 1, 1). A êle.remonta a bela expressão,..
tantas vêzes citada: sine ira et studio (Ann., 1 1). Com efeito,
Tácito considera com seriedade a tarefa do historiador, não pou-
pando esforços para colecionar os diversos documentos relativos
à época por êle estudada. Pela correspondência de Plínio-o-Moço
sabemos que o autor consultou seu amigo, pedindo-lhe informa-
ções a respeito da morte de seu tio, Plínio-o-Velho, que tinha pe-
recido quando da erupção do Vesúvio (79 d. C.): possuímos ainda .
a resposta que lhe deu o amável epistológrafo (28), mas perdeu--
se, infelizmente, a passagem correspondente na obra do historia-
dor. Além disso, Tácito é grande autor, um dos prosadores mais ,-
aprimorados da literatura latina. Seu estilo é compacto e lapidar,..
cheio de insinuações e de sentenças.
V. Com a morte de Tácito acabou-se a grande época da-.,
historiografia latina: os epígonos, com pouquíssimas exceções, não--
passam de compiladores, ou então são escrivães industriosos sem
poder de "re-viver" o passado que teve um Tito-Lívio, e sem a
penetração psicológica de um Tácito. Mencionamos aqui ràpida--
mente:
a) Gaio Suetônio Tranquilo ( -±75-±160), secretário da- ,
Imperador Adriano (117-138) e, como tal, possuindo muitos co-
nhecimentos dos arquivos públicos, escreveu as Vitae Duodecirrr
Caesarum, de Júlio César a Domiciano (t96 d. C.). São opús--
culos de uma documentação valiosa, mas escritos num estilo árido,
compostos de maneira muito esquemática. Não penetra na psi-
cologia das pessoas estudadas nem se esforça por procurar as cau-
sas remotas dos fatos. As biografias exerceram grande influência_

(27) . — Os Annales descreviam a época desde a morte de Augusto (14 d. C.) até a --
morte de Nero (68) . Possuimos completos os livros I-IV, incompletos V e -
VI (reinado de Tibério); completos XI-XV (os fins do reinado de Cláudio
e os primeiros anos de Nero), e incompleto XVI.
(28). — Plinius, Epistulae, VI 16. — O mesmo Plínio escreve, outra vez, a seu amigo ,
(VII, 33,3): Augurar, nec me fallit, ougariam, histoiras tuas immortales futuras.
— 419

e foram, inferiormente, imitadas pelos seis autores da chamada


.Historia Augusta (29).
b) Amiano Marcelino, natural de Antioquia e grego roma-
nizado, é o maior historiador do Baixo Império (século IV) . Pre-
tendeu continuar a obra de Tácito nos 31 livros Rerum Gestarum
(30), que abrangiam o período de 96 a 378 (Valens). Compa-
nheiro do Imperador Juliano-o-Apóstata (361-363), conhecia pes-
soalmente a diplomacia, a vida militar e a política dos seus tem-
pos, bem como muitas das regiões por êle descritas. Era histo-
riador perito e honesto, mas escrevia, como estrangeiro, um péssi
mo latim.
VI. No limiar da Idade Média ia-se aumentando o inte-
rêsse pela história dos povos bárbaros, os quais invadiram o ter-
ritório do Império Romano. O fato é característico dos tempos
por dois motivos: as tribos germânicas iam sendo integrados na
Romanitas Christiana (31), a sucessora do Império, e a interpre-
tação imperialista da história ia cedendo a um interêsse pela his
tória provincial e regional. Os mais importantes representantes
dêsse tipo de historiografia são:
Magno Aurélio Cassiodoro Senador (±485-±- 580), ori-
ginàriamente ministro de Teodorico o Grande (492-526) e de ou-
tros reis ostrogodos, depois monge, escreveu uma Historia Gothica,,
em 12 livros, que chegou até nós num excerto miserável do monge
Jordanes ou Jornandes.
Gregório de Tours (±540-594) escreveu a Historia Fran-
corum, em 10 livros, que, além de nos dar os acontecimentos de uma
época turbulenta e pouco conhecida, é também uma fonte rica
do latim vulgar.
Isidoro de Sevilha (±560-636) escreveu os anais das,
várias tribos que ocuparam a península ibérica, intitulados: Go-
thorum, Vandalorum et Suevorum in Hispania Chronicon. Aí en-
contramos uni elogio entusiasta à pátria do autor: Omnium ter-
rarum, quae sunt ab occiduo usque ad Indos, pulcherrima es, o.
sacra semperque felix mater, Spania! Jure tu nunc omnium regina
provinciarum; a qua non occasus tardam, sed etiam oriens lumina
mutuat (32) .
Paulo Diácono (±720-797) escreveu a Historia gentis .

Langobardorum, que abrange o período de 568 a 744.

— A obra data de 330 d. C., e dá as biografias dos Imperadores Romanos a partir


de Adriano (117) até CarMo (284). — O biógrafo de Carlos Magno, Eginhar-
dus ou Einhardus, tomou por modélo a Suetônio, na sua Vita Caroli Magni Im-
peratoris.
— Possuimos os livros XIV-XXXI (355-378); os tempos anteriores ao ano 355.
devem ter sido tratados muito ligeiramente.
— A palavra Romania ocorre, pela primeira vez, na obra do historiador Orósio,
Historiae, VII 43,4.
— .Isidorus Hispalensis, Chronicon, in Praefatione.

Revista de História n.• 20


— 420 —

e) O monge anglo-saxão Beda (673-735) escreveu uma obra


muito estimada, chamada: Historia Ecclesiastica gentis Anglorum,
que descreve os principais acontecimentos desde César até 731 na
Inglaterra.
VII. Com êstes dois últimos autores já nos achamos em ple-
na Idade Média. À época da Grande Migração dos Povos perten-
cem ainda a História Universal do sacerdote bracarense Paulo Oró-
sio, de que pretendemos falar no § 77, e o opúsculo De Aetatibus
Mundi et Hominis, escrito por Fulgêncio (século VI), retor afri-
cano, muitas vêzes apelidado de "mitógrafo". Êste homem preten-
dia escrever uma sinopse da história universal em 23 capítulos, uru
verdadeiro tour de force, já que no Capítulo I evitava sistemati-
camente a letra a, no Capítulo II o b, no Capítulo III, o c, e assim
por diante. Parece que o autor, chegado ao Capítulo XV (em que
devia evitar o p), ficou desanimado: em todo caso possuímos ape-
nas 14 capítulos desta obra extravagante, sinal da decadência e da
insipidez dos tempos.

§ 5. As crônicas.
L
Nos fins da Antigüidade abaixou o nível cultural e científico:
os intelectuais, em vez de fazerem pesquisas pessoais, contentavam-
se em compilar as obras clássicas, que se iam revestindo de um
prestígio quase dogmático. A ciência, renunciando ao ideal de pro-
gredir, sofria de esclerose, e era baseada em livros de segunda mão:
manuais e enciclopédias. Repetiam-se as palavras dos grandes mes-
tres, amiúde mal entendidas e quase sempre conhecidas indireta-
mente. A historiografia partilhava a triste sorte das outras ciências
e artes: era a época das sinopses, dos resumos, dos manuais, aos
quais, em geral, faltava todo o senso histórico. A decadência não
estava no fato de haver manuais, — enciclopédias e manuais são
os companheiros indispensáveis de uma velha cultura, — mas na
sua péssima qualidade, prova da diminuição do espírito crítico, e
no fato de não existirem, ao seu lado, obras históricas e pes-
quisas originais. A historiografia era reduzida a tabelas cronoló-
gicas, regressando assim ao seu ponto inicial. Os cristãos, pouco in-
teressados em investigar o passado pagão, contribuiarn muito para
o desenvolvimento do novo gênero: as crônicas. Interessava-lhes
saber de que maneira se enquadrava a história do povo eleito na
história profana dos gentios. Devemos reconhecer que esta tentativa
de alargar o horizonte histórico constituia uma novidade e podia
ter sido um progresso considerável. Mas os cristãos, filhos de uma
cultura moribunda,, harmonizavam a história sagrada e a história
profana bastante desleixadamente, introduzindo muitos erros na
historiografia. Não eram pesquisadores mais críticos do que seus
— 421 —

colegas pagãos: compilavam muito superficialmente a Bíblia e al


guris autores clássicos.
Obra de certo valor era a Crônica de Flegonte de Tra-
les (século II), liberto do Imperador Adriano: As Olimpíadas, em
16 livros (33). Era uma espécie de história universal, que abrangia
o período de 776 a. C. a 140 d. C. Escrita numa linguagem negli-
gente, sacrificava a síntese histórica ao estudo de fatos concretos,
muitas vêzes insignificantes, e tinha apenas valor como fonte de
informação.
Mais conhecida é a Crônica do bispo Eusébio de Cesaréia
(260-340), amigo do Imperador Constantino Magno (306-337) .
Esta obra compunha-se originàriamente de 2 livros (34), e dava
as linhas gerais da história universal, em tabelas sincrônicas, desde
Abraão (2016 a. C.) até o ano 325 d. C. O livro II, que continha
os chamados cânones, foi traduzido por São Jerônimo para o latim
(±345-420), e prosseguido até o ano 378 (35) . A Crônica de
Eusébio-Jerônimo, de imensa importância para a historiografia me-
dieval, começa por quatro tabelas: a primeira se refere à história
dos assírios, a segunda à dos siciônios (os habitantes de uma cidade
grega), a terceira à dos hebreus, e a quarta à dos egípcios (36) . Aos
poucos entram na Crônica notícias acêrca dos atenienses, persas,
macedônios, etc., para tôdas elas, finalmente, convergirem na his-
tória do Império Romano.
A obra de Jerônimo foi continuada por Próspero Tiro
(até 455), pelo espanhol Hidácio (até 468), pelo cortesão bizan-
tino Marcelino Comes (até 566) . Além disso, o bispo Mário de
Avenches (na Suiça) continuou a obra de Próspero até 581, e Cas
siodoro elaborou nova Crônica com Fasti Consulares, que vai até-
519. Dois exemplos podem, ilustrar a falta de crítica e de método
nos cronistas do século VI. Em 452 se deu a batalha nos Campos;
Cataláunios entre os exércitos romanos e as hordas de Atila: Mar--
calino Comes não menciona esta batalha, tão decisiva para a sobre-
vivência da civilização, mas anota na sua Crônica ad annum 452:
Hoc anno tres lapides magni de caelo ceciderunt in Thraciam.
Cassiodoro, ad annum 189, fala em dois cônsules romanos, aos quais
. — Encontram-se os fragmentos das Olimpíadas de Flegonte nos Fragmenta Ris--
toricorum Graecorum (edd. C. et Th. Milller, Bibliotheca Didotiana, vol. III,
págs. 603, sqq. ) .
. — Perdeu-se o original, conservando-se só uma tradução armênia da obra inteira..
(35). — São Jerônimo enriqueceu o original de várias notícias importantes para a his-
tória da literatura latina.
(36) . — A Crônica de Jerônimo começa assim: Primus omni Asiae exceptis Indis .
Ninus Beli lifius regnavit anais LII in Graecia vero secundus Sicyo-
Mis imperavit Europs anais XLV . . . in hujus Nini imparia apud lie-
brecas nascitur Abraharn Porro apud Aegyptios XVI potestas erat -
quem vocant Dynastiam: quo tampara regnabant Thebaei, qui praeluerunt.
Aegyptiis.
¢1á os nomes de Duo e Silanus, , copiando com muito descuido- a.
,

jerônimo, que escrevera: Duobus Silanis: ("sob o consulado dos


dois irmãos Silanos").
rV.As crônicas dominaram a Idade Média: os mosteiros im-
portantes, as chancelarias dos papas, bispos e reis, faziam questão
de ter as suas crônicas, ligando-as, ou não, a trabalhos já existen-
tes. Era uma historiografia muito elementar, a que devemos, po-
rém, notícias importantes sôbre a vida política, religiosa, social, eco-
nômica e cultural da Idade Média. Comparados com o alto nível,
alcançado na Antigüidade por Tucídides, Políbio e Tácito, os es-
tudos históricos medievos significam um retrocesso inegável, mas
em geral são superiores às Crônicas do Baixo Império. Não poucos
cronistas medievais tinham bastante bom senso, notável dom de
observação, eram ótimos contadores que se esforçavam por ser im-
parciais. Faltavam-lhes, porém, os métodos aprimorados da Crí-
tica moderna e o "senso histórico", no sentido que nós costumamos
ligar a essa palavra; além disso, não procuravam as causas remo-
tas. Muitas crônicas medievas dão narrativas extensas e contí-
nuas, tendo em comum com as crônicas dos séculos IV-VII só o
nome: no sentido técnico da palavra, não são crônicas, mas anais.
Levar-nos-ia muito longe se acompanhássemos a história das
crônicas medievais. Mencionamos aqui apenas alguns nomes ilus-
tres. Na Alemanha destacou-se Otão de Freysing (cf. § 79, nota
36), que escreveu suas obras em latim. Na França Geoffrey de
'Villehardouin (1164-1213), autor do livro: Sur Ia Conquête de
,Constantinople, e Froissart (1337-1405), cronista da Guerra de Cem
Anos. Em Portugal Fernão Lopes (±1380-1459), que vivia nos
fins da Idade Média, e tinha a atitude de um autêntico inveskiga-
dor. Leia-se por exemplo êste trecho: "Nós, certamente, posta de
parte tôda a afeição que por azo das ditas razões podíamos ter, nos-
so desêjo foi nesta obra escrever verdade, sem outra mistura, dei-
xando nos bons sucessos todo o fingido louvor, e nuamente mostrar
.ao povo quaisquer coisas em contrário, da maneira que sucederam",
e êste: "Nem entendais que certificamos coisa salvo de muitos apro-
vada e por escrituras vestidas de fé; de outro modo, antes nos ca-
laríamos do que escreveríamos coisas falsas" (37).

§ 6. A Renascença e o Humanismo.

Tampouco criaram a historiografia moderna a Renascença e o


Humanismo. Os historiadores desta época, tomando por modêlo
, os autores clássicos (principalmente
. os latinos), imitavam-lhes so-

Ferrão Lopes, (seleção editada) por A. J. Saraiva (Coleção SABER), Lis-


boa, págs. 25-26.
— 423 —

lciretúdo o estilo e à coMposição literária. O nacionalismo nascente


dava uma nota patriótica às suas obras, e o absolutismo sujeitava-
.-as, muitas vêzes, aos interêsses dinásticos. Não se originou o es-
pírito crítico nem o "senso histórico" no sentido moderno dessas
palavras: o dogmatismo medieval era simplesmente substituído
por outro, dogmatismo: a admiração cega pelas obras da Anti-
güidade clássica. A historiografia renascentista e humanista é,
portanto, a continuação da dos fins da Idade Média, com esta di-
--ferença de que é moldada pelos exemplos clássicos. Representan-
tes ilustres são, na Itália: Nicolò Machiavelli (1469-1527), au-
tor das Istorie fiorentine (1532), em 8 livros (cf. § 81 II), e em
Portugal: João de Barros (1496-1590), o exaltador caloroso da
colonização portuguêsa, na sua obra Décadas de Ásia, e afinal:
Frei Luís de Sousa (1555-1632), no mundo, Manuel de Sousa
Coutinho, autor de uma obra muitíssimo estimada: Anais de D.
João III.
Duas circunstâncias, porém, deram grande impulso aos es-
- tudos propedêuticos da história: a filologia clássica e a Reforma.
Os humanistas faziam questão de possuir o melhor texto
possível dos seus autores adorados. Sua devisa Ite ad Fontes não
tinha valor prático a não ser que as' fontes estivessem limpas.
Editar um' texto, expurgá-lo dos erros de uma tradição desfigura-
, dora, e colecionar códices dignos de confiança, era uma das in-
cumbências mais imperiosas dos humanistas. A filologia clássica
é a mãe da historiografia moderna. Reservamos para outros pa-
-rágrafos (§ 42, I e § 47, I) a exposição do trabalho intenso, feito
pelos humanistas europeus durante os séculos XVI-XVIII. Basta
dizermos aqui que as edições críticas possibilitaram o nascimen-
to da nova ciência que se deu por volta de 1800. Também a pai-
xão humanista de colecionar moedas, inscrições, vasos e objetos
de arte da Antigüidade, inicialmente apenas uma mania, ia des-
pertando, aos poucos, um certo senso histórico: não tardou que
-..se procurassem enquadrar as descobertas arqueológicas nos mol-
- des da historiografia clássica. Também nasceu o espírito crítico:
Jacob Perizonius (1651-1715), professor em Leida, foi o primeiro
, a abalar a autoridade dogmática de que gozavam vários autores
latinos, principalmente Tito-Lívio, na sua obra Animadversiones
Historic,ae (1685), que já anuncia os trabalhos de um Niebuhr e
4outros.
As disputas teológicas entre o Protestantismo e o Ca-
tolicismo estimulavam também os eruditos das duas confissões a
--fazerem pesquisas históricas. O historiador dálmata, Flaccius Illy-
Ticus (1520-1575), apresentou, nos anos 1559-1574, ao público
culto da Alemanha, uma interpretação luterana da história, nos
— 424 --

'oito volumes da sua Historia Ecclesiastica. A obra, organizad a


conforme os séculos (latim: centuriae) tratava a história dos pri-
meiros 13 séculos da éra cristã, tornando-se conhecida sob o no-
me de Centúrias de Magdeburgo, cidade alemã, onde era editada.. .
A resposta católica veio do erudito cardeal italiano, César Barônicr=
(1538-1607), que nos 12 volumes dos seus Annales Ecclesiastici•
seguia o método analista até o ano 1198. A obra saiu de 1588 a
1607, e foi várias vêzes reeditada, como aliás também a história
protestante de Magdeburgo.
§ 7 . A historiografia moderna.
E' bastante difícil dizer com precisão quando nasceu a histo-
riografia moderna. A nova ciência, já anunciada pelos trabalhos.
filológicos dos séculos XVII e XVIII, obedecia à lei de tôdas as.
grandes realizações do espírito humano: nasceu despercebida, cres-
ceu aos poucos e manifestou-se suscetível de vida só no início do-
século passado.
Muitas vêzes passam Voltaire e Montesquieu pelos pais:-.
da historiografia moderna . E' mais do que um exagêro, é um en-
gano. Sem dúvida, Voltaire foi um dos primeiros a chamar a aten-
ção para a história da civilização (cf. § 29, I), mas em outros pon-
tos era um espírito tipicamente "a-histórico", como havemos de ver -
no § 86, III, apesar de sua crítica penetrante à historiografia con-
vencional do seu tempo. Quanto a Montesquieu, sua obra Considé-
rations do ano 1734 (cf. § 87, I), não é trabalho de investigação ,
pessoal, fundada em novos princípios (o autor era demasiadamen-
te negligente em citar, o que lhe valeu as censuras de um Voltaire,
e fundamentava-se sôbre obras já existentes), mas um tratado políti-
co ou "filosófico", na terminologia da época. Ao escrever as Considé--
rations e L'Esprit des Lois, o autor francês não pretendia recons-
truir minuciosamente o passado para depois revivificá-lo, mas, en-
veredando pelos caminhos, já indicados por Políbio, Bodin e Ma-
quiavel (38), pretendia buscar "leis históricas" com o fim de utili-
zá-las para a organização política da sociedade moderna. Mais ilus-
trativo da nova mentalidade é o livro de Giambattista Vico: Lae
Scienza Nuova (cf. § 83), mas também esta obra dá mais a meto-
dologia do que uma historiografia propriamente dita; aliás, exerceu -
pouca influência sôbre o pensamento do século XVIII.
Uma das primeiras obras históricas, baseadas em pro-
fundos conhecimentos dos documentos, é o livro magistral do in-
glês Edward Gibbon (1737-1797): History of The Decline and Fali"
of The Roman Empire, publicado em 6 volumes (39), que trata dos:.

(38). — N. Machiavelli, Discorsi sopre la prima decade de Tito Livio (1531).


(39) . A obra foi publicada de 1776 a 1788.
425 ---

destinos do Império Romano desde 180 d. C. (morte do Impera-


dor Marco Aurélio) até a Queda de Constantinopla (1453) .
autor tem tôdas as qualidades de um grande historiador: o espírito
crítico, conhecimentos profundos e avaliação metódica das fontes
(40), largas vistas, poder imaginativo, intuição e um estilo magní-
fico; combina a procura das causas remotas com um interêsse bem
raro pela unicidade dos fenômenos históricos. Naturalmente, mui-
tos capítulos do livro de Gibbon estão hoje em dia superados, — é
o fado de todos os livros científicos, — e os pressupostos raciona-
listas do autor são atualmente idéias antiqüadas. No entanto, a con-
cepção e a elaboração de seu tema vastíssimo são geniais, e con-
tinuam a atrair muitos leitores, leigos e entendidos. O autor,
quando em Roma (1764), ouviu o canto de frades capuchinhos nas
ruínas do Capitólio, e ficou melancèlicamente impressionado pela
reflexão sôbre a instabilidade das coisas humanas: foi assim que
lhe surgiu a idéia de escrever um livro sôbre a decadência da Ci-
dade Eterna: /t was among the ruins of the Capito' that 1 first
conceived the idea of a work which has amused and exercisecl pear
twenty years my life, and which, however inadequate to my
own wishes, 1 finally deliver to the curiosity and candour of the
public: com estas palavras termina a obra de Gibbon.
III. O dinamarquês Bartoldo Jorge Niebuhr (1776-1831),
duas vêzes diplomata a serviço da Prússia, publicou em 1811-1812
os dois primeiros volumes da sua História Romana, completados
em 1832 pelo terceiro volume que saíu depois da morte do autor
(todos escritos em alemão) . Foi êle o primeiro a aplicar uma crí-
tica rigorosa aos documentos históricos, chegando a destruir a tra-
dição secular de Tito-Lívio no que diz respeito à história primitiva
de Roma; foi êle o primeiro, nos tempos modernos, a valer-se siste-
màticamente de todos os vestígios do passado para a reconstrução
científica de tempos idos, método êsse que depois seria aperfeiçoado
pelos grandes mestres da historiografia do século passado; foi êle•
que se serviu, — às vêzes com arrôjo excessivo — da ilação histó-
rica, fazendo hipóteses e esforçando-se por descobrir o núcleo his-
tórico nos dados contraditórios da tradição. Daí por diante a nova
ciência, ràpidamente crescendo e chegando à maturidade, prosse-
guiu triunfantemente o seu caminho: foi principalmente na Alema-
nha que foram elaborados os novos métodos, mas não tardaram
êles em conquistar todos os países civilizados da Europa e da
América.
W. A nova concepção da história, nascida entre 1750 e 1820,
não invalida a historiografia anterior ao século XIX; tampouco é
(40) . Gibbon utilizou as obras do jansenista francês Lenain de Tillemont (1637-
1698), autor de Histoire des Empereurs e Mémoires pour servir à PHistoire-
Ecclésiestique des ais premiers Siècles.
-426—

, completamente uniforme. Sua originalidade reside em três fatô-


Tes característicos, que outrora não eram inteiramente desconheci-
dos, mas freqüentemente sacrificados a finalidades literárias, mo-
ralistas ou até políticas:
uma crítica rigorosa das fontes históricas, — externa e
interna, — para a qual se elaborou um sistema científico. Neste
:ponto continua e aperfeiçoa a tradição gloriosa dos humanistas, e
.aprofunda a crítica dos racionalistas do século XVIII, que amiúde
era superficial e destrutiva.
o aproveitamento metódico de documentos não-li'terá-
rios: moedas, inscrições, monumentos arqueológicos, dados lingüís-
ticos, etc. Também êste fator remonta, nos seus primórdios, aos
humanistas.
um novo "senso histórico" (cf. § 65) que consiste em uti-
lizar certos conceitos históricos, antigamente pouco ou não conhe-
, cidos, tais como: a tipologia, a evolução, o organismo, a unicidade
dos fenômenos estudados, etc. Nasceu no século XIX, principal-
mente sob a influência do Romantismo, e do Cientismo. Estuda-
- remos os dois primeiros dêsses fatôres na segunda parte dêste li-
vro; o terceiro, que é muitas vêzes negligenciado, na terceira parte
, como também na primeira, em que pretendemos dar algumas no-
, -ções gerais da ciência histórica.
IV. E. Bernheim, exagerando as diferenças que existem en-
Ire a historiografia antiga e a moderna, fala em três tipos de his-
tória (41): a história narrativa, inaugurada por Heródoto e prati-
cada pelos cronistas e analistas; a história "pragmática" (42) ou
"didática", inaugurada por Tucídides e Políbio; e a história genéti-
ca, que procura, antes de mais nada, a evolução orgânica dos fenô-
menos históricos, filha dos tempoS modernos. A tripartição tem
certo valor, contanto que não tornemos absolutas as oposições que
-são mais gradativas que essenciais, pelo menos entre os grandes his-
toriadores de todos os tempos. Também a historiografia moderna
•descreve, e deve descrever (cf. § 13, I); também ela contém lições
(cf. § 32, IV-V); e, afinal, também os antigos e os medievos tinham
-certas idéias a respeito do caráter genético e do progresso histórico
-das artes e das ciências. Não podemos entrar aqui neste assunto:
.será uma das finalidades principais dêste livro esclarecer o con-
ceito hodierno da história e aplicá-lo aos diversos assuntos que ha-
vemos de encontrar no nosso caminho.
(41) . — E.Bernheim, Introducción al Estudio de ia Historia (Colección Labor), Bar-
celona, etc., 1937, págs. 9-15.
-(42). — O têrmo "história pragmática" significa originàriamente "história dos fatos
(políticos e militares)", cf. § 3, IV, mas -por se dirigir esta espécie de his,
tória a estadistas- e políticos, com o fim de lhes ensinar a "vida prática", veio
a significar "didática".
CAPÍTULO SEGUNDO

O CONCEITO DA HISTÓRIA

§ 8. A definição.

Existem numerosas definições da história. A nosso ver ela po-


deria ser definida desta maneira:
A história é a ciência dos atos humanos do passado e dos
vários fatôres que neles influíram, vistos na sua sucessão temporal.
Os diversos elementos desta definição podem fàcilmente ser
:mal entendidos, de modo que cumpre examiná-los de mais perto.
A história é ciência. A discussão desta questão disputada fica
-reservada para outro capítulo (IV), onde procuraremos estabele-
cer em que sentido se pode chamar ciência à história. Basta di-
zermos aqui que o historiador dispõe de certos meios científicos
para alcançar conhecimentos e, além disso, se serve de certa sis-
tematização, quer dizer: que põe em ordem os resultados obtidos
pela pesquisa.

A. O OBJETO MATERIAL.

§ 9. Os atos humanos.

Atos humanos são atos próprios do homem enquanto homem,


por exemplo: amar, odiar, escrever; guerrear, etc. Por serem delibe-
rados e voluntários, distinguem-se dos chamados atos do homem,
por exemplo: respirar, crescer, digerir, etc., atividades independen-
tes da inteligência e da vontade humanas. Ora,, o objeto próprio
da história são os atos humanos. Por que?
Atos humanos, como tais, são manifestações da pessoa huma-
na, revelando sempre certo grau de espiritualidade e, por conse-
guinte, de originalidade. Por isso possuem valor intrínseco e mere-
cem a nossa atenção por motivos muito especiais. A física, a quí-
mica e até a biologia estudam os seus objetos, podendo fazer abs-
tração da matéria individual: pouco lhes importa o caso concreto
e individual. No Reino do Espírito, que é o terreno das livres de-
cisões, a situação é muito diferente: aqui se nos apresentam sempre
•casos concretos e únicos, aqui encontramos sempre algo de novo,
de imprevisto, de original, digamos melhor: de pessoal. Nunca se-
— 428 —

remos capazes de compreendê-los ou explicá-los completament -e,


mas podemos e devemos "entendê-los" em virtude de uma "co-
experiência" nossa. Mais adiante pretendemos esboçar em que
consiste um tal "entendimento".
Os atos humanos interessam-nos também por outro motivo .
O homem é ser histórico por excelência, visto que é, até certo ponto,.
senhor dos seus atos. Dotado de inteligência e de livre arbítrio,
duas faculdades inexistentes no reino animal, é capaz de propor-
se, deliberadamente, um fim e de escolher, livremente, os meios
apropriados para alcança-lu. Neste ponto vem ajudá-lo, sobrema-
neria, a experiência, da qual êle participa mais do que os animais,.
como já Aristóteles• observou (1) . Têm êstes memória, sim, sus-
cetível até de alto grau de aperfeiçoamento, mas sempre depen-
dente de uma impressão material, que se assemelhe a outra, rece-
bida anteriormente . Falta-lhes, porém, a recordação, pela qual o
homem é capacitado a fazer voltar à lembrança coisas antes experi-
mentadas, independentemente de tôda e qualquer impressão ma-
terial. Por outra, o homem vive no tempo, o bruto no momento .
Ademais, o homem pode refletir nas suas experiências, tirando-lhes
conhecimentos gerais a fim de aproveitá-los para um caso seme-
lhante no futuro. A experiência refletida torna-se assim instru-
mento poderoso a serviço do homem, possibilitando-lhe o melhora-
mento constante das condições materiais e de tôdas as manifesta-
ções superiores da vida humana . Não se limita à existência de um
só indivíduo: pode-se transmitir de uma pessoa a outra, de uma
geração a outra, de modo que, morrendo estas, aquela morre ape-
nas parcialmente. Toute la suite des hommes, pendant le cours de
tant de siècles, doit être considérée comme un même homme qui
subsiste toujours et qui apprend continuellement (2) .

§ 10. O' progresso' na História.

O homem, então, é animal progressista, e por isso é ser histó-


rico num sentido muito especial. Em última análise, não o são nem
os minerais, nem as plantas, nem os brutos, senão em sentido de-
rivado: êstes evolvem, aquêle progride. O tico-tico constrói o seu
ninho da mesma forma que há mil anos, e daqui a mil anos não
será diferente. Com a graça que lhe é peculiar, Chesterton observa:
The very fact that a bird can get as far as building a nest, and
,

cannot get any farther, proves that he has not a mind as man has

(1) . — Aristóteles, Metaphysica, I 1, 4.


(2). — Blaise Pascal, Fragment d'un Traité du Vide (éd. L. Brunschvicg), pág. 80.
— Encontra-se o mesmo pensamento nas obras de Santo Agostinho, por exem-
plo De Vera Religione, XXVII 50: universum gentis hum anus, cujus tem-
quem unius hominis vita est ab Adem usque ad finem hujus saeculi.. •; cf. .
De Civitate Dei, X 14.
-429 —

a mind: it proves it more completely than if he built nothing st


all. If the built nothing st all, he might possibly be a philoso-
pher of the Quietist ar Buddhistic school, indifferent tb all but the
mind within (3). Nos períodos seculares, em que o homem tem ha-
bitado a terra, construiu cabanas, mas também o Pártenon de Ate-
nas e a catedral de Chartres, e agora está construindo os arranha-
céus nas grandes metrópoles. A tendência progressista não se limi-
ta a descobertas técnicas, estende-se igualmente às conquistas inte-
lectuais e espirituais, ou antes, são estas que tornam possíveis aque-
las. Aristóteles, falando dos primeiros filósofos, compara-os a crian-
ças balbuciantes, a soldados pouco exercitados, a pessoas que não
sabem o que dizem (4) . E São Tomás formula a lei do progresso
humano desta maneira: Humanae rationi naturale esse videtur ut
gradatim ab imperfecto ad perfectum perveniat. Unde videmus
in scientiis speculativis, quod qui primo philosophati sunt, quae-
dam imperfecta tradiderunt, quae postmodum per posteriores sunt
tradita magis perfecta. Ita etiam et in operabilibus (5). O ho-
mem tem a possibilidade de progredir em virtude da sua natu-
reza perfectível: o progresso não é processo mecânico, que o en-
volva passivamente, mas tarefa que lhe é confiada, a conferir-lhe
certa responsabilidade. Tampouco é infinita a perfectibilidade hu-
mana: o homem será sempre um ser limitado, animal racional,
mas tendo a obrigação de vir a ser o que é, e de conquistar as-
sim, muitas vêzes, penosamente a sua liberdade e a sua perso-
nalidade .
O instrumento do progresso é a tradição: a transmissão dos
conhecimentos, métodos, formas, valores e experiências que o pas-
sado a custo elaborou para pô-los a serviço da posteridade . Tam-
bém a tradição não é processo mecânico, mas exige uma partici-
pação livre, um esfôrço pessoal de cada indivíduo humano para
integrar na própria existência as experiências dos antepassados.
E' uma assimilação espiritual, que consiste em vetera novis au-
gere. Daí nascem dois perigos para uma civilização. As expe-
riências transmitidas podem impor-se como fôrças tirânicas, a im-
pedirem o desenvolvimento original e viçoso da nova geração. Mas
ser fiel ao passado quer dizer também reencetar e continuar a obra
criadora dos antepassados. A tal petrificação da cultura, como se
verificou por exemplo em Bizâncio, opõe-se o culto aos filhos e
aos netos: as experiências do passado são desprezadas como ne-
cessàriamente inferiores às experiências hodiernas. E' o sonho in-
gênuo do Racionalismo, o qual, pretendendo livrar o homem dos

— G. X. Chesterton, The Everlasting Man, London, 1947, pág. 41.


— Aristóteles, Metaphysica, I 4, 3-4.
— S. Thomas, Summa Theologica, I-II, q. 97, a. 1 (in corpore).
-430 —

fantasmas de tempos idos, o transforma num idólatra das realiza- ,-


ções e opiniões, freqüentemente efêmeras, de hoje. O homem per-
de os seus laços vitais com a história .
A tendência progressista é eternamente humana, apesar de
ser mais perceptível em uma época do que noutra, e não obstante.
,

as numerosas falhas quanto ao fim proposto e aos meios escolhi-


dos. E' uma conseqüência trágica da nossa natureza imperfeita
que nem todo o progresso é um progresso para melhor. Os tem-
pos modernos estão verificando com certa preocupação o "pro-
gresso" assustador da técnica e das ciências, que ameaça sufocar
próprio homem mediante as invenções do espírito humano. To-
do o progresso histórico, por ser um bem particular, não possui
valor nenhum a não ser que seja subordinado ao Bem Universal
que é Deus. Tôdas as conquistas materiais e intelectuais se tor-
nam valiosas para o homem apenas na medida de serem integra-
das numa hierarquia objetiva dos valores: quem elimina a Deus,
Supremo Bem, acaba por eliminar ao homem .
vista da tendência progressista, tão evidente no processo
histórico, muitos historiadores e filósofos, desde o século XVIII,.
chegaram a limitar o objeto material da história àquêles aconte-
cimentos do passado que contribuiram para o progresso da hu-
manidade. E' um exagêro . Os atos humanos têm valor intrín-
seco, visto que se revestem de uma originalidade, que é prova da sua ,
espiritualidade. Destarte se explica o interêsse, despertado por
um trabalho bem feito, pela vida de uma pessoa sem grande re-
percussão nos tempos posteriores, ou pelas instituições de um po-
vo já há muito desaparecido, que pouco ou nada concorreu para
progresso do gênero humano.

§ 11. Os fatôres externos.

Há vários fatôres que influem no destino dos indivíduos e '

dos povos. Poderíamos dividí-los em duas categorias: uma abran-


ge os acontecimentos, independentes da atividade humana, que
aos nossos olhos se apresentam quase sempre como caprichos do
destino; a outra compõe-se de fatôres, igualmente externos, mas-.
de caráter mais ou menos permanente.
I. O tropeçar do cavalo,, que montava Guilherme III, o
rei da Inglaterra, causando-lhe a morte (1702); o terremoto de-
Lisboa no dia 1.° de novembro de 1755, destruindo grande parte-
da cidade; a chuva torrencial em Paris na noite de 9-10 de Ter-
midor no ano II da Revolução (=27-28 de julho de 1794), fa-
cilitando a liqüidação do Terror, — eis alguns acontecimentos.
fora do contrôle humano e de maior ou menor importância pema
--431—

a vida de certos povos. Decerto merecem a atenção do historia--


dor, mas sõmente na medida em que repercutiram no comporta-
mento dos atores no palco histórico . Ao historiador, como tal,
pouco importa o terremoto, enquanto fenômeno geológico, impor-
ta-lhe muitíssimo, porém, como fato histórico co-determinante da
política de Pombal (6) . Ésses fatôres imprevistos, o grande es--
cândalo para os que estão em busca de "leis históricas", trazem
muitas vêzes consigo um desfêcho, a pôr têrmo fatal ao mêdo ou
às esperanças de milhares de pessoas, e a deixar inacabados os -
planos dos atores principais.
II. Outros fatôres não são, acontecimentos no sentido pró-
prio da palavra, mas dados igualmente "objetivos", de caráter me-
nos fortuito e de duração muito maior do que por exemplo o ter-
remoto de Lisboa. Dêles há grande diversidade. Mencionamos
aqui apenas as condições geográficas e climáticas, e, por outro la-
do, as raças.
E' quase desnecessário dizer-se o quanto influi o, clima no
temperamento, nos costumes, nas instituições e nas artes de um _
povo . E' em grande parte devido ao clima que, na Europa, o ho-
mem do sul é o homem do ar livre, e o homem do norte o da_
intimidade da casa. Noi abbiamo il sole, diz o italiano, podendo
permitir-se certa despreocupação, que aos nórdicos, obrigados a
proteger-se contra a inclemência do inverno, parece ou invejável,
ou então desprezível. Não se compreende bem a formação do an-
tigo Egito sem as inundações periódicas do Nilo (7), nem o ca-
ráter reservado e teimoso do povo holandês sem as lutas contí-
nuas contra o mar, nem a política isolacionista da Inglaterra nos .
últimos séculos sem a posição insular da Grã-Bretanha: the splen-
did isolation (8) . O fator biológico, por mais importante que pa-
reça, presta-se menos do que os outros a um exame puro e isola-
do: não é apenas menos verificável mas também menos estável.
Sem dúvida, podemos acompanhar, através da história das várias
civilizações, o desenvolvimento de certas qualidades, geralmente.
chamadas "raciais", por exemplo a aptidão excepcional dos gregos
para a especulação e as artes, o gênio militar e jurídico do povo
romano, o caráter pragmático dos anglo-saxões, etc. Mas essas
qualidades supostamente raciais não são exclusivamente de ordem

. — O autor americano Ellsworth Huntington imputa a decadência do Império •


Romano a uma escassez de chuvas durante o período de 200 a 400 d. C., cf.
Quarterly Journal 01 Economics, XXXI, 1917, págs. 173 etc.
— Já Heródoto (Historiae, II 5, 1) chama o país "um presente do rio", expres-
são essa que deve a Hecateu (fragmentum 273) .
(8). — A expressão foi usada, pela primeira vez, por Sir Wilfrid Laurier, Presidente
do Canadá, em 1896, mas veio a ser aplicada à política isolacionista da In-
glaterra durante o século XIX, e à dos Estados Unidos antes da segunda ,
guerra mundial.
— 432 —

biológica, — raças "puras", com exceção talvez de alguns povos


primitivos, são fábulas, — porque para elas concorreram também
outros fatôres, mais decisivos ainda: o clima, as circunstâncias
geográficas e, principalmente, a tradição histórica. "A raça histó-
rica (possui) uma unidade menos física do que moral. Na sua
constituição não entra só a identidade de sangue, muitas vêzes
problemática, mas de modo preponderante - uma comunhão de
idéias e sentimentos, de modos de agir e reagir, transmitida pela
vida, pela educação, e pela convivência social" (9) . Por êsses
motivos, a biologia, pelo menos no estado atual, deve ser mane-
jada com muito cuidado pelo historiador.
III. Não poucos entre os modernos combatem o têrmo "in-
fluência", tratando-se de atos humanos: segundo êles, seria dema-
siadamente mecânico. O homem não reage cega ou determina-
damente nem à tradição, nem aos acontecimentos passageiros, nem
aos fatôres permanentes. E' um ser espiritual e livre, a tomar
decisões pessoais em virtude da sua posição individual ante os va-
lores que julga realizados no passado e que deseja realizar para
o futuro. O têrmo "encôntro", experiência sumamente pessoal, se-
ria preferível à palavra "influência". A prática, porém, consagrou
a segunda expressão, e parece mais prudente não lhe fazer oposi-
ção, desde que saibamos os limites da metáfora. O perigo não está
nos têrmos, e sim na interpretação dos mesmos.

B. O OBJETO FORMAL.

§ 12 . O tempo.

O objeto formal da história, segundo a nossa definição, é a


sucessão temporal, quer dizer: a história estuda os atos humanos
sob o ponto de vista do tempo.
Que é tempo?
Embora nos seja um têrmo familiar, é dificílimo explicar a
noção do tempo. Já o sabia Santo Agostinho, dizendo: Si nervo
ex me quaerat, scio: si quaerenti explicare velim, nescio (10) .
Não queremos entrar aqui nutria discussão filosófica, limitando-.
nos apenas a algumas distinções relativas ao nosso assunto.
O tempo é um fluir constante, uma sucessão ininterrupta:

— Pe. Leonel Franca, A Crise do Mundo Moderno, Rio de Janeiro, 1951, pág. 21.
— S. Augustinus, Confessiones, XI 14, 2. — Cf. J. Balmes, Filosofia Fundamen-
tal (Obras Completas, Barcelona, Biblioteca Perenne, 1948, vol. I, pág. 788):
El tiempo es una cosa muy difícil de explicar; quien nega sernejante dificulted,
manifieste beber meditado muy p000 sobre el fundo de le cuestión. — Cf.
Pascal (ed. citada), pág. 170. S6bre o "tempo histórico", cf. L'Hornme et
l'Histoire (=Artes du VIe Congrès des SoCiétés de Philosophie de langue fran-
çaise), Presses Universitaires de France, 1952, págs. 51-81.
— 433 —

mão se imagina o tempo sem o movimento (11) . E' impossível êle


-parar, retardar ou acelerar; além disso, é algo de fatalmente
irreversível e irrevogável. O espírito humano abrange as três par-
tes do tempo: o passado, o presente e o futuro. Pelo dom da re-
cordação recompõe, como já vimos, os restos do passado naufra-
:gado; mediante os seus planos, desejos, esperanças e temores an-
tecipa até o porvir remoto. Prova esplêndida da espiritualidade
.humana! Du fait même qu'il se souvient, I'homme rachète donc
,partiellement le monde du devenir qui Pertirdine et s'en rachète
„avec lui. En pensant Punivers et en nous pensant rtous-mêmes,
MOUS engendrons un ordre de Pêtre intermédiaire entre Pinstan-
.1anéité de I'être des corps et la permanence de Dieu (12).
A física lida com um conceito bastante abstrato do tempo: o
"tempo físico" é homogêneo, quer dizer: compõe-se de fragmen-
tos completamente iguais, é semelhante a uma linha infinita e re-
,dutível a uma fórmula matemática, por exemplo t x v = d. Na
,existência humana, topamos num conceito mais concreto e rico
do tempo: o "tempo psicológico" não é a sucessão monótona de
:momentos perfeitamente iguais, registrados mecânicamente por um
relógio, mas compõe-se de "situações" únicas e irrepetíveis. O
-tempo, medido e vivido pela alma humana, constitui-lhe uma situa-
ção concreta e individual: a mesma "hora física" é interminável
-para quem sofre, teme ou anseia, mas um momento fugitivo para
,quem goza ou se deleita. Há mais: uma "situação" pode ser uma
fase decisiva na existência de uma pessoa, sendo a prismatização
--

xlo passado através do espírito humano: êste, reconhecendo o pas-


sado e dando-lhe certo valor, pode-o prolongar ou renegar, confor-
-xne uma livre decisão. Ora, o "tempo histórico" é a sucessão de tais
'situações" únicas, em que vivem as unidades históricas (indivíduos
.e coletividades). Os seus elementos constitutivos, as "situações"
:não são iguais entre si, nem completamente independentes tuna das
iputras: conservam os restos do passado e contêm os germes do fu-
turo. Na "situação" atual, a pessoa humana julga-se responsável
pelo que foi e pelo que será.

§ 13. Duas conseqüências.

Daí se seguem duas conseqüências práticas para a história:


I. A história estuda os atos humanos sob o seu aspecto tem-
poral, como acontecimentos sucessivos de um processo genético,
— por outra — estuda-os sob o aspecto do fieri, do "devir" ou
•(11) . — Daí a célebre definição de Aristóteles (Physica, IV 11, 5): "O tempo é o
movimento, enquanto numeráver, ou: "O tempo é a contagem do movi-
mento, em relação a uma fase anterior e posterior (do movimento)".
412) . — E. Gilson: L'Esprit de Ia Philosophie Médiévele, Paris, 1932, II, pág. 184.
434

vir a ser. Tem por objeto casos concretos, únicos, irrevogáveis c-


irreversíveis . A sociologia _pode estudar os mesmos objetos, masç
estuda-os sob aspecto diferente, eliminando tôdas as circunstâncias
históricas própriamente ditas para ficar só com um aspecto abstra-
to e geral, perguntando por exemplo: "Quais as condições necessá-
rias para se realizar uma revolução? Quais as características que'
lhe são inerentes?", etc. Se a história fizesse assim, escapar-lhe-ia,
o objeto que lhe é próprio: ela, encarando o seu objeto de modo ,
mais concreto ou singular pergunta, por exemplo: "Quais os acon-
tecimentos particulares da Revolução francesa? Qual a "situação"'
histórica que nô-la torna compreensível?", etc. Não se interessa
por fenômenos genéricos, por exemplo, a Revolução como tal, mas;
visa os acontecimentos singulares na sua sucessão temporal. Não
é ciência normativa ou dogmática, mas eminentemente descritiva:-
os fatos singulares, que descreve, podiam ter-se realizado de outra:
maneira ou com outros caracteres singulares, ou então, podiam não• ,
se ter realizado. Ao entrar em contacto com certos fenômenos cul-
turais do passado, por exemplo a religião, o direito, as artes, a eco-
nomia, etc., sistematiza, sim, mas sempre a título precário .

II. As "situações" históricas são únicas. Contudo, o nosso-


espírito está sempre em busca da unidade, não da unicidade, esca-
pando-lhe o caso concreto e individual. E' nossa constante preo-
cupação criar certa ordem nos fenômenos múltiplos e variados, ou
seja sistematizar. O sistema torna-nos compreensível o que antes:-
parecia desordenado e confuso: ordo est untas multitudinis. Tam-
bém a história não pode esquivar-se a essa exigência do espírito , .
humano: também ela vê-se obrigada a valer-se de abstrações. Uma
delas é a chamada "tipologia histórica". Os historiadores moder-
nos falam muitas vêzes no "homem antigo", no "homem medieval",„
no "liberalismo", na "democracia", etc. Logo se percebe que o ho-
mem medieval é uma abstração: assim mesmo tem fundamento na:
realidade. As pessoas que viviam na Idade Média, achavam-se nu-
ma "situação" histórica,, que sem dúvida não era idêntica para cada
uma delas, mas inegàvelmente representava certas feições comuns._
Isso explica certas semelhanças no seu modo de agir e reagir,• nas
suas convicções e nas suas decisões. Por essas características, que-
lhes são particulares, diferenciam-se de outros tipos históricos, pres- -
cindindo-se de diferenças individuais. O tempo, que dêles nos se-
para, faz-nos melhor ver essas semelhanças e . diferenças. A tipo--
logia histórica mostra-nos, por assim dizer, um panorama, a faci--
litar-nos a visão global do conjunto, e a fazer recuar para o segun-
do plano os elementos individuais. Mas assim como o panorama
de uma paisagem selvagern não exclui a possibilidade de aí haver -
uma construção qualquer, devida à intervenção do hornegi,_ assim e
— 435 —

o tipo do "homem medieval" não é rigorosamente uniforme. O


Imperador Frederico II (1212-1250), "o primeiro homem moder-
no no trono" (13), era contemporâneo de tipos bem medievais, o
papa Inocêncio III (1198-1216) e o papa Gregório IX (1227-
1241) . O "homem medieval" não é uma abstração pràpriamente
dita no sentido de ser predicável o conceito superior a todos os
seus inferiores, tal como o conceito "homem", que cabe a todos os
indivíduos humanos: é uma aproximação sintética, uma tentativa
de abranger num único têrmo a riqueza inexaurível da vida con-
creta, uma regra geral que admite sempre exceções. Outrossim,
é bastante difícil dar uma definição exata dos tipos históricos.
Mais adiante lhes aprofundaremos o conteúdo.

(13) . — A característica é de J. Burckhardt no Capítulo I do seu livro: A Cultura


da Renascença na Itália (1a. edição, 1867) .
CAPITULO TERCEIRO

O VALOR DO CONHECIMENTO HISTÓRICO

§ 14. As diversas espécies de certeza.

Antes de abordarmos a questão se a história pode ser consi-


derada como ciência, devemos examinar um problema prelimi-
nar: a história é capaz de atingir a verdade? Da resposta, dada a .

esta pergunta, dependerá, em parte, o caráter científico da história.


Qual o critério da verdade? No pensamento realista, é a evi-
dência objetiva. Evidentes são as verdades que se me apresentam
de forma tão clara e manifesta que me obrigam a um firme assen-
timento, o qual exclui todo e qualquer mêdo de errar. Podemos
dizer que a evidência é o aspecto objetivo da verdade, ao passo
que a certeza lhe constitui o aspecto subjetivo. Pois na medida:
em que me é evidente uma verdade, tenho dela certeza. Ora, exis-
tem várias espécies de certeza, das quais mencionamos:
I. Quanto à base em que se origina a certeza, distinguimos=
entre:
a certeza metafísica, baseada na relação absolutamente-
necessária entre o sujeito e o predicado, por exemplo: "O círculo•
é redondo". Deixando de ser redondo, o círculo deixa de ser cír-
culo. O contrário desta proposição é absolutamente impossível.
a certeza física, baseada na necessidade hipotética das:
leis físicas, por exemplo: "O fogo queima a madeira". O contrá-
rio desta proposição é evidentemente falso, mas não impossível
em si, pois pode intervir outra lei física ou um milagre.
a certeza moral, baseada na necessidade igualmente hi-
potética das leis psicológicas e morais, por exemplo: "Os pais que-
rem bem aos filhos". O contrário desta proposição é bem possí-
vel, devido a um desvio moral de certo pai individual. Mesmo as-
sim, o asserto dá uma regra geral, corroborada por numerosíssi-
mos casos.
II. Quanto ao modo de que se origina a certeza, distin-
guimos entre:
a) a certeza direta, adquirida pela própria experiência (por
exemplo: "amanhece").
— 438 —

b) a certeza indireta, adquirida pela experiência de outras


pessoas (por exemplo: "São Paulo foi fundada pelo Padre Nó-
brega") .

§ 15. A certeza histórica.

Já se vê que a história pode atingir, entre as certezas da pri-


meira categoria, só a moral, entre as da segunda, só a indireta .
Na vida cotidiana a situação é muitas vêzes a mesma.
I. Ao ler no jornal: "Inundações catastróficas na Europa
Ocidental", tenho do fato só certeza indireta. Pode ser que o jor-
nal minta por certo sensacionalismo, ou que se engane por certo
mal-entendido, ou que tenha sido enganado, de propósito, por ou-
tros, etc. Encontrando a notícia num jornal pouco sério ou ge-
ralmente mal informado, aceito-a com a devida reserva,, a qual
vai-se esvaecendo na medida em que outras e melhores fontes
vêm confirmando o mesmo fato. Em alguns casos, tal reserva se
reduz a um mínimo ou, pràticamente, não existe, ao encontrar-se
a notícia num jornal que já deu provas abundantes e convincentes
de ser honesto e bem informado. Tratando-se de um aconteci-
mento vultoso, tal como em nosso caso, muito provàvelmente te-
rei a oportunidade, nos dias seguintes, de ver confirmada a pri-
meira notícia por outros indícios: descrições minuciosas no mes-
mo ou noutro jornal, fotografias, reportagens cinematográficas e
radiofônicas, cartas de amigos da Europa,, etc . Como duvidar, en-
tão, da verdade do fato? Seria igual a admitir as conseqüências
sem admitir a causa, o que é um absurdo: nullus effectus sine causa.
Além dessa reductio ad absurdum, tenho outro argumento
mais decisivo ainda, que no fundo é uma certeza moral: o homem
é capaz de conhecer a verdade e testemunhar dela, faculdades es-
sas que o não premunem contra o êrro e o lôgro, dois desvios bem
possíveis na vida intelectual e moral, mas que não se podem ad-
mitir sem prova suficiente. Na vida cotidiana geralmente não
me custa muito estabelecer a verdade de uma notícia . A conver-
gência de vários testemunhos, independentes uns dos outros, já é
prova suficiente . Amiúde basta-me saber a competência e a sin-
ceridade de um único testemunho . Em outros casos é a combina-
ção dêsses vários fatôres que me leva à certeza moral. Pode fal-
tar, porém, a prova suficiente: tenho motivos objetivos para pôr
em dúvida a competência ou a sinceridade de uma ou mais teste-
munhas. Nesta hipótese, abstenho-me de dar meu assentimento,
limitando-me a considerar o fato como provável ou possível, ou até
como improvável ou impossível, conforme o valor objetivo dos meus
argumentos pró ou contra. Na vida cotidiana .quase nunca me sirvo de
439

- !uma argumentação completa ou científica para verificar a realidade


..ide um fato concreto: meu raciocínio é espontâneo, implícito, abrevia-
do. Daily life is an act of faith, dizia o Cardeal Newman. Com.
*efeito, tornar-se-ia impossível tôda e qualquer sociedade sem a cer-
teza moral e sem a certeza indireta.
A certeza moral não se restringe apenas à verificação dos fa-
tos, por assim dizer, "materiais", tais como a existência de uma cri-
se ministerial ou de um terremoto na Turquia; aplica-se também. à
_interpretação dos mesmos. Constantemente comentamos e "inter-
pretamos" os atos e as palavras do próximo. Em virtude de quê?
__Meus argumentos, quase nunca formulados explicitamente,. mas por
isso não menos certos, são os seguintes: todos os homens são es-
sencialmente iguais apesar das numerosas e importantes diferen-
ças acidentais. Pois bem, eu me conheço a mim mesmo, pelo me-
nos até certo ponto. Logo, na medida em que me conheço, posso
ter conhecimentos também de outras pessoas, por mais fragmentá-
rios que sejam. E' verdade, bem sei, que os atos humanos são com-
:plexos, não podendo ser explicados ou compreendidos completa-
mente. Tenho de contentar-me com uma explicação parcial. Mas
uma explicação parcial e fragmentária não é igual a uma explica-
ção errônea: embora deficiente, é certa maneira de compreender,
_sobretudo quando se sabe que nem tudo foi explicado. Ora,. essa
-explicação tem de basear-se em evidências demonstráveis e verifi-
-caveis, digamos: em argumentos objetivos. Na vida cotidiana ge-
ralmente não argumento por meio de um raciocínio silogístico, mas
_por projetar espontaneamente a minha própria experiência na exis-
tência alheia. E' o judicium prudentis viri, comparável à "prudên-
cia" no setor moral e ao bom gôsto em assuntos estéticos. Nem to-
dos o possuem no mesmo grau, nem sequer é garantido por uma
vasta erudição. O homem "experimentado", quer dizer, o que pos-
sui "experiência refletida" da vida, pertence mais à categoria dos
sábios (1) do que à dos eruditos.
II. Ésses pressupostos, de tanta importância para a vida prá-
tica, constituem também a base do conhecimento histórico. Para
alcançá-lo disponho de meios essencialmente iguais aos que empre-
go na vida cotidiana: ali, porém, o meu processo é mais metódico
e o raciocínio mais explícito. O conhecimento histórico baseia-se >
_necessariamente, em testemunhos ou documentos: pas de documents,
pas d'histoire. Ora, para dar-lhes crédito, preciso provar três coisas:
a) que os documentos me comunicam deveras certo aconte-
-cimento: é o exame da realidade.

(1) . — "Sábios" = sapientes (latim) = sagas ( francês) .


— 440 —

que a testemunha podia conhecer a verdade do fato co-


municado: é a questão da competência.
que a testemunha não mentiu: é a pesquisa pela since-
ridade.
III. Ora, em muitos casos a história é capaz de fornecer es-
sas três provas. Logo, atinge a verdade. A Crítica Histórica, cujos'«
princípios e métodos havemos de expor na segunda parte dêste-
livro, tem por objeto estabelecer as normas científicas para a rea-
lidade, a credibilidade e a veracidade dos documentos históricos..
Negar a verdade no terreno da história é igual a negá-la na vida._
prática, e tal atitude cética é absurda e até impossível. Assim co-
mo não posso duvidar, razoàvelmente, da existência dos Estados-
Unidos da América do Norte sem dêles ter uma experiência pes-
soal, assim não posso pôr em dúvida a verdade de alguns fatos his--
tóricos, por exemplo a existência de Napoleão, Júlio César, Ale-
xandre Magno, etc. Foram testemunhados por uma multidão de'
documentos, cujo número vai-se aumentando constantemente gra-
ças a novas descobertas, muitas vêzes fortuitas, as quais não podem
ter sido forjadas com o fim de me enganar. Que se experimente se-
riamente um ceticismo radical a respeito das linhas gerais da his-
tória pátria ou universal: logo se verá que é um ridículo absurdo
E' claro que em muitos casos particulares devo suspender meu as -
sentimento, devido à falta de evidências objetivas: e mesma situa-
ção existe também na vida cotidiana. Mas milhares de casos par-
ticulares, que me constrangem a observar certa reserva, ainda não'
justificam um ceticismo total. As normas da Crítica Histórica são ,
muito rigorosas, sem, contudo, admitirem o processo matemático da'
geometria: ao passo que esta se ocupa com abstrações, o historia-
dor lida com fatos concretos. Neste campo é imprescindível certo,
"tino", um hábito no sentido escolástico da palavra, requerendo, é°
verdade, a presença do "dom natural", mas exigindo também conhe-
cimentos teóricos da Crítica Histórica e exercícios práticos na apli-
cação das regras, estabelecidas por ela . Muitas vêzes,• o pesquisador -
chegará à certeza sàmente em virtude de uma acumulação de pro-
babilidades, independentes umas das outras: probabilities too fine-
to avail separately, too subtle and circuitous to be convertible into
syllogisms, too numerous and various for such Conversion, even we-
re they convertible (2) . A convergência de vários indícios prová-
veis, não bastando cada um de per si para apontar: com certeza.
num fato, é freqüentemente um argumento de valor para o histo-
riador. A certeza não se origina da simples adição de probabili--
dades, — pois, procedendo assim, nunca ultrapassaríamos os limi-

(2) . — John Henry Cardinal Newroan, A Grelou-nor. of Asserir,. Longmans, Green ar..
Co, New York, London, Toronto, 1947, pág.• 219.
— 441 —

tes do provável, — mas baseia-se na concordância das probabilida-


des. Os vários indícios, considerados juntos, têm só suficiente razão,
de ser, quando convergem num fato determinado.

§ 16. Algumas objeções práticas.

Um ceticismo radical é, como já vimos, uma atitude injustifi-


cável. Outrossim, tal dúvida extrema se defende pouquíssimas vê-
zes. Muitos, porém, aderem a um ceticismo moderado, valendo-se
de um ou mais dêstes argumentos:
E' impossível verificarmos a veracidade de uma testemu-
nha. Todo homem pode mentir. Logo, nunca teremos certeza de
que esta ou aquela testemunha não tenha mentido.
E' verdade que todo homem pode mentir: omnis homo men-
dax, diz a Bíblia (3) . Mas não menos verdade é que ninguém
mente sem motivo subjetivamente suficiente. A ganância, o ódio, .
a simpatia, a vaidade, o mêdo, e até o prazer de enganar são al-
guns dêsses motivos, capazes de levarem o homem à mentira. Ora, ,
em muitos casos podemos chegar à certeza de que esta ou aquela
testemunha não tinha motivo algum para mentir: a circunstância ,
de ser universalmente conhecido o fato testemunhado, a banalida-
de do fato, o risco que se corria em esconder a verdade, etc. E'
dificílimo verificar isso, tratando-se de um caso meio anormal ou
doentio, em que um sujeito mente por prazer de enganar . Mas
muitas vêzes temos a oportunidade de confrontar o depoimento
dêle com o de outra(s) testemunha(s) . E não é legítimo admitir
êsses casos doentios como normais. Logo, podemos atingir a ver-
dade histórica, se nem sempre, ao menos em muitos casos.
Muitas pessoas não possuem bastante instrução nem isen-
ção de espírito para testemunhar objetivamente um fato. Sem o
propósito de mentir, deturpam a verdade histórica por atribuirem
muitos acontecimentos a uma intervenção direta do sobrenatural.
Assim fêz Heródoto, assim fizeram as lendas medievais e muitís-
simos outros documentos históricos.
Mas testemunhar um fato e interpretá-lo são duas coisas bem
diferentes: assurons-nous bien du fait avant que de nous inquiéter -
de la cause. Para dar uma interpretação requer-se geralmente
muito mais competência do que para depor sôbre fatos. Aqui bastam,,,
no mais das vêzes, o bom senso e o reto emprêgo dos sentidos, qua-
lidades humanas que não são privilégios de um homem culto.
Estabelecidos os fatos, o historiador tem a tarefa de criticar tam---
-----
.(3). — Salmo,, CXV (CXIV )• 11. — A nova versão latina de 1945 dá: omnis honro
(aliar,
— 442 ---

bém a interpretação, dada pela testemunha, servindo-se de cri-


térios internos e, sendo possível, externos. Pode ser que, neste
ponto, chegue a uma conclusão diferente da do seu documento .
Em uma palavra, pode ficar com o fato sem aceitar a interpre-
tação do documento.
Quanto mais se aplica a crítica a fatos chamados his-
tóricos, tanto menos se tornam certos. A história da Roma pri-
mitiva,•tal como foi narrada por Tito-Lívio e Dionísio de Halicar-
nasso, é o exemplo clássico da desvalorização de fatos "históri-
cos". E' prova suficiente de não existir a certeza histórica.
Com efeito, muitos fatos históricos, outrora admitidos como
autênticos, tornaram-se duvidosos ou até falsos ao serem exami-
nados à luz de uma crítica rigorosa . Mas nem todos foram re-
provados ou eliminados. Bem ao contrário: alguns foram verifi-
cados e novamente corroborados, e outros, antigamente desconhe-
cidos, foram admitidos em virtude de novas descobertas, outras
combinações e ilações. E nas duas categorias encontram-se fatos
históricos de tamanha evidência, que ninguém os pode pôr razoà-
velmente em dúvida, mesmo que se lhes apliquem as normas mais
severas da crítica .
A abundância de indícios relativos a um fato históri-
co, ao invés de ajudar ao historiador, lhe é quase sempre um
grave empecilho, visto que as várias fontes geralmente se con-
tradizem. E' sabido que Sir Walter Raleigh (4), quando prêso
na Tower de Londres, escreveu uma história universal. Certo dia
viu no pátio da prisão grande motim, e observou-o com muita
atenção. Pouco tempo após, o carcereiro entrou na cela, comuni-
cando-lhe o que acontecera no pátio. Raleigh, vendo a discre-
pância entre a própria observação e a relação do carcereiro, atirou
desanimado seu manuscrito ao fogo.
.A anedota prova como é difícil atingir a verdade na histó-
ria, mas não prova que seja impossível. Recentes experiências
psicológicas demonstraram duas coisas. Primeiro, a maior parte
das pessoas que assistem a um motim, antes minuciosamente or-
ganizado e fixado por escrito, não sabem descrevê-lo de acôrdo
com a verdade, e fazem dêle relatórios deficientes e contraditó-
rios. Segundo, um juiz perito consegue, geralmente, reconstruir a
sucessão dos fatos verificados mesmo por meio dêsses testemu-
nhos deficientes e contraditórios. Muito depende, pois, da pe-

(4). — Sir Walter Raleigh (1552-1618), um dos grandes heróis marítimos da Ingla-
terra, era favorito da rainha Elisabeth I (The Virgin Queen), em cuja honra
apelidou a nova colônia norte-americana de Virgínia (1585). Sob o reinado
de Jaime I foi acusado de haver conspirado contra o trono, condenado à morte
(1603) e perdoado, mas ficou prêso na Tower até o ano 1616. Em 1618
foi morto por causa de unia expedição malograda.
443

iícia do juiz; in casu, do historiador. E assim como a criminolo-


gia moderna dispõe de muitos meios para descobrir o culpado,
assim o historiador de nossos dias possui instrumentos aprimora-
dos para verificar em numerosos casos os fatos históricos. Ou-
trossim, muitos acontecimentos, registrados nos documentos, não
tinham o caráter de um motim, não exigindo, portanto, uma ex-
-

traordinária presença de espírito da parte das testemunhas. E,


afinal, a historiografia moderna aproveita-se, muito mais que a
do século XVI, de documentos que não foram compostos com o
fim de transmitirem conhecimentos históricos à posteridade, mas
de todos e quaisquer vestígios do passado em que se encontram
referências ocasionais. Nesta categoria de fontes há muito me-
nos perigo de penetrarem desfigurações da verdade histórica.
V. Mas a interpretação dos fatos? Não nos achamos aí no
campo de um subjetivismo ilimitado? Admite-se, geralmente, que
o historiador consegue estabelecer com precisão muitos fatos "ma-
teriais" da história, por exemplo que Napoleão foi coroado Impe-
rador no dia 2 de dezembro de 1804, que Lutero publicou as 95
teses no dia 31 de outubro de 1517, e que Júlio César foi assas-
sinado no dia 15 de março de 44 a. C. Mas êsseS fatos não pas-
sam do esqueleto da história: falta-lhes a vida. Se o historiador
se desse por contente em registrá-los, sem lhes procurar a ínti-
ma conexão, sem lhes dar uma interpretação e um sentido, seria
simplesmente um escrivão, por mais inteligente que fôsse, não
chegando a ser um sábio, título êsse a que aspira. Ora, no setor
da interpretação lavra uma confusão indescritível: quot capita, tot
sententiae . Cada historiador nos traz o seu Napoleão, o seu Lu-
tero, o seu César, de acôrdo com as suas convicções políticas, na-
cionais ou religiosas.
A divergência entre as diversas interpretações é muitas vê-
zes mais aparente do que real: amiúde se trata apenas de mal-
entendidos, de discussões sôbre palavras, de "acentuações" dife-
rentes. Contudo devemos conceder que a objeção é séria e merece
tôda a nossa atenção. Na interpretação dos fatos poderíamos, —
muito globalmente, — distinguir entre três fatôres: o "entendi-
mento" dos atos humanos, a procura das causas, e a apreciação
dos fatos.
a) O "entendimento" dos atos humanos, tanto na história
como na vida cotidiana, é baseado na experiência pessoal de quem
"entende". Aqui, como acolá, será capaz de "entender" só quem
possuir uma experiência refletida da vida humana, quer dizer:
só quem, observando atentamente a perpétua corrente da vida
dentro e fora de si, lhe souber tirar algo de permanente e essen-
cial. Vários caminhos levam a êsse conhecimento: a indução, a
444

dedução, a comparação, a oposição, e, finalmente, a faculdade de-


transportar-se mentalmente em experiências alheias. Com efeito,.
o grande historiador é um homem "experimentado" e profundo co-
nhecedor do coração humano, porque sabe "entrar na pele" de ou-
tras pessoas, podendo dizer com o poeta latino: Homo sum, hu-
mani rül a me alienum puto (5) . Ao recuperar os restos do pas-
sado, precisa "re-viver" as experiências de outrora, processo êsse.
que se lhe torna possível por encontrar-se em todos os terrenos
da história o Eterno Homem, até nos tempos mais remotos e nas.
culturas mais longínquas. E' sempre do filho de Adão e Eva que
nos conta a história, essencialmente igual através de todos os sé-
culos, apesar das numerosas diferenças acidentais. Em virtude-
dêsse princípio podemos "re-viver" e "entender" os atos humanos
de pessoas aparentemente tão estranhas e até esquisitas. Sem dú--
vida, êsse conhecimento tem as suas imperfeições, devidas à com-
plexidade do objeto bem como à estrutura do nosso espírito. E'-
um conhecimento imperfeito, mas que reconhece as suas deficiên-
cias; é fragmentário, mas sincero e fiel dentro das suas limita-
ções. Assim se explica o fato de haver tantas divergências entre•
os diversos historiadores: cada um dêles encara outro aspecto de-
um objeto muitíssimo complexo. O melhor e mais profundo in-
térprete dos atos humanos será aquêle que souber examiná-los sob
o maior número possível dos aspectos, não numa justaposição ma-
terial, mas numa ordenação hierárquica, sabendo-lhes descobrir o-
núcleo central. O resultado jamais poderá ser perfeito, sendo que
sempre nos escapará algo do mistério que é o homem; nem poderá_
ser obtido more geometrico, dada a natureza do homem que, por
possuir uma alma espiritual, se subtrai às determinações da ma-
téria. Mas mesmo assim o "entendimento" histórico não é uma
construção arbitrária: funda-se em argumentos objetivos. Faltan-
do êsses, termina a interpretação científica e começa a hipótese,.
da qual a história se pode servir como tôdas as outras ciências.
E muitas vêzes acontece que uma hipótese histórica depois é con-
firmada por uma argumentação sólida, baseada em evidências ob-
jetivas. Do valor das evidências, depende, pois, o valor do "enten--
dimento". A argumentação histórica muitas vêzes não é explí-
cita, mas entrelaça-se, quase imperceptivelmente, à exposição dos fa-
tos, a qual, no fundo, já é certa maneira de interpretar.
b) Quanto à procura das causas, devemos distinguir entre
causas ocasionais e remotas, causas passageiras e determinantes,.
etc. (6) . Em geral, basta o bom senso para indicar as causas.
ocasionais e passageiras, que se nos apresentam com tamanha evi-

(5) . — Terentius, Heauton Timoroumenos, 77. — Cf. o epíteto inglês, aplicado se,,
Shakespeare: the myriad minded man.
(6). — Cf. § 66, I.
445
(dência que é quase impossível ignorá-las e muitas vêzes nos ofus-
cam a vista para descobrirmos as causas remotas. Ninguém dú-
vida, por exemplo, de que as indulgência, pregadas por Tetzel na
Alemanha, foram uma das causas ocasionais da revolta de Lute-
ro . Mas as causas remotas levam-nos muito mais longe, e aí
surgem geralmente as dificuldades. O nosso conhecimento das
causas históricas é muito pobre, como havemos de expor mais
adiante (7) . Mas vale a mesma regra que já formulamos aci-
ma: a procura das causas históricas não é um ato subjetivo e ar-
bitrário, e sim obedece às boas regras da lógica e da filosofia, ve-
rificáveis para outros.
c) A apreciação dos fatos históricos é outra questão, que
pretendemos expor na terceira parte dêste livro (8) . Basta dizer-
mos aqui que os próprios fatos não se explicam a si mesmos, mas
que é o historiador, — o espírito humano, — que lhes dá certo
aprêço. Em virtude de quê? Em virtude de certa filosofia, "mun-
dividência" ou credo religioso, cujos princípios, se não podem ser
julgados pela história, podem e devem ser examinados por uma
,ciência superior: a filosofia ou a teologia. E quais as normas que
são aplicadas por essas ciências? São, mais uma vez, argumentos ob-
jetivos ou evidências.
VI. Restam dificuldades quanto à objetividade da histó-
ria: bem o compreendemos. As páginas anteriores pretenderam
.apenas introduzir o leitor no problema mais árduo da nossa ciên-
cia: em outros parágrafos dêste livro tornaremos a discutí-lo (9).
Por enquanto basta sabermos que o valor da interpretação histó-
rica depende de argumentos objetivos, mas que a argumentação
_histórica difere foto caelo de uma demonstração matemática . A
história não lida com abstrações, mas com fatos concretos: aí está
„a maior dificuldade. E o objeto próprio das ciências "puras" é o
universal e o necessário; não o particular e o contingente, que é o ob-
jeto da história. Resumindo, podemos dizer: o conhecimento his-
tórico tem valor objetivo e universal neste sentido: para ser uni-
versal basta que possa ser admitido e aceito por todos os que
se ocupam da mesma matéria, e para ser objetivo basta que o
adiantamento da ciência não o aniquile por completo, mas o apro-
funde e integre numa nova síntese. Um exemplo prático: Tucídi-
des formulou há 2500 anos com grande perspicácia as causas da
:guerra peloponésia . A historiografia moderna não modificou es-
sencialmente a interpretação do grande ateniense, pôsto que lhe
enriquecesse e aprofundasse o sentido (10).

(7). — Cf.' § 66, II.


(8). — Cf. § 70.
,
40). — Cf. § 33, IV e & 72, IV.
446

VII. Ao terminar êste capítulo, uma' observação prática..


Já vimos bastante que a interpretação dos atos humanos se funda ,
na experiência refletida de quem interpreta. Daí se segue êste-
corolário.
Entende-se uma síntese histórica na medida em que se pos-
sui experiência pessoal da vida . A compreensão do teorema de:.
Pitágoras exige que os alunos acompanhem inteligentemente a ex-
Plicação, dada pelo professor, e que tenham certos conhecimen-
tos prévios da -matemática; não supõe, porém, experiência da vida..
A viva interpretação histórica, dada pelo professor e enriquecida
de tantos exemplos ilustrativos, é pelo aluno quase sempre redu-
zida ou a uma repetição enfadonha ou então a uma fórmula sim-
plificadora . O que estava vivo, parece morto agora, Não é falta
de inteligência, e sim falta de experiência pessoal da vida e da
cultura, a que, geralmente, acresce, a incapacidade de "re-viver"
experiências alheias. Além disso, conceitos históricos, como por .

exemplo "o homem medieval", são muitas vêzes tratados por prin-
cipiantes como verdadeiras abstrações. O mestre,, porém, mane- ,

já-os como "conceitos coletivos", esforçando-se constantemente por


concretizá-los. Ao pronunciar a palavra "Idade Média", surgem--
lhe espontâneamente ao espírito numerosas associações: o feuda-
lismo, o conflito entre o Império e o Sacerdócio, as catedrais, a
poesia dos trovadores, a Summa Theologica, as corporações, as:
Cruzadas, etc . Éle possui conhecimentos pessoais de tôdas essas
coisas concretas, ao passo que para os meninos são nomes sem.,
vida própria e decorados com dificuldade.

( 10) . — Cf. G. Isaye, apud L'Homme et l'Histoire, pág. 21: La justification critique-
des principes immuables peut progresser, en utilisant la rétorsion comine
tère. Et de plus, il est poosible de feire des progrès en précision. Un juge-
ment peut se présenter á juste titre comme tzniversellement vrai à tuz mo-
ment oìr l'on ignore encore une certame distinction . Y a-t-il alors "ré--
vision" de ce jugement? Une précision nouvelle, oui . Une correction, non;
car le jugement n'avait pas pris position à l'égard d'une distinction qu'il
ignorait, dont il faisait abstraction . Cette bois, il ypassage de l' ignorence-
r
à la connaissance, non de l'erreur à la vérité. L'histoire de la pensée
donc la temporalité avec la certitude , • ,
CAPÍTULO QUARTO

A HISTÓRIA E' UMA CIÊNCIA MORAL

§ 17. O conceito escolástico da ciência.

Hoje em dia, a história passa geralmente por uma ciência, e-


como tal,• é filha dos trabalhos filológicos dos humanistas, das.
teorias esclarecidas do século XVIII, e do Romantismo. Até en-
tão fazia parte da literatura ou da moral. Logo se vê, porém, que
a história não pode ser considerada como ciência no sentido das
matemáticas ou da física, e muito menos ainda no da filosofia.
Qual é, então, o caráter científico da história?
A definição escolástica de ciência reza: c,ognitio rerum per-
causas. Vale a pena examinarmos os elementos desta sentença
lapidar .
A ciência é conhecimento. Não se pode falar em conhe-
cimento sem lhe ligar a idéia de certeza. Conhecimentos incertos,.
se é que se pode falar assim, são opiniões, conjeturas ou suposi-
ções. Claro que uma ciência não pode ser aglomeração de opi-,
niões subjetivas, mas tem de ser sistema lógico de conhecimentos;
certos e objetivos, pelo menos nos seus princípios. Ora, já sabe-
mos que a história atinge conhecimentos certos em numerosos ca-
sos e que procede metódicamente para atingí-los. Logo, a histó-
ria satisfaz à primeira condição.
A palavra rerum é bastante vaga. A história, por aca-
so, se ocupa de tôdas as coisas? Não, é o privilégio da filosofia
ter um objeto material tão amplo. Já conhecemos o objeto pró-.
prio da história: os atos humanos. Tôdas as ciências têm um
objeto próprio e determinado, que, além disso, encaram sob certo,
aspecto: êste, o objeto formal, era para a história a sucessão tem-
poral. Aqui se nos deparam certas dificuldades.
A inteligência humana tem, por objeto próprio o universal,,
escapando-lhe o concreto, o individual, o qual pode ser ,atingido
apenas mediante uma intuição sensitiva ou intelectual. Ora, o
objeto material da história são os atos humanos,• coisas essencia1 ,,
mente individuais, concretas e únicas. A física: lida com "casos"'
gerais sem se 'preocupar do caráter individual dos fenômenos. A
medida, porém, que penetrai-Mos mais` 'à fundo no;,Reinó do Ser,„
— 448 —

.far-se-á mais mister procurarmos a fisionomia individual dos ob-


jetos estudados, tornando-se menos satisfatório um método gene
ralizador. Precisamos indagar-lhes os valores insubstituíveis e o
.sentido autônomo. Por outro lado, não nos é dada uma intuição
imediata das realidades espirituais. O espírito humano tem de
fazer abstrações de qualquer maneira. Já vimos que a história,
por não poder escapar a essa lei, se serve de "tipologias". Mas
'elas não são abstrações no sentido próprio da palavra. São esfor-
ços por se aproximar o mais perto possível da natureza concreta,
a abrangerem, dentro da unidade metafísica, as realizações gra-
dualmente variadas dos indivíduos concretos que constituem certa
"coletividade". Tendem a tornar-se cada vez mais ricas em asso-
'ciações concretas, ao passo que os conceitos físicos tendem a ser
reduzidos a uma fórmula matemática, unívoca e abstrata. O gran-
de livro da natureza inanimada está escrito em linguagem mate-
mática; na biologia, o terreno limítrofe das ciências naturais e
'morais", já se nos apresenta certa individualidade; nas discipli-
nas, que tratam dos atos humanos, encontramos a unicidade. O
homem, por participar do espírito, quer ser entendido como um
ser autônomo.
III. Atos humanos são contingentes e livres, não necessá-
rios. Ora, não pode haver ciência pràpriamente dita senão do
:necessário. Logo, a história não é ciência propriamente dita.
Nenhuma ciência, porém, pode ser justaposição material de
conhecimentos isolados, por mais certos que sejam, mas tem de
,dar o porquê. Investigar as causas, procurar por que as coisas
são assim e não de outra forma, é uma tendência inata do espí-
rito humano: a admiração pelas coisas que nos rodeiam, já bem
-visível numa criança, é a origem da filosofia (1) e das ciências
_particulares. Conhecimentos isolados não satisfazem ao espírito
humano por lhes faltar o laço espiritual. Também• a história não
_pode dispensar a causalidade. O importante, porém, é sabermos
o que devemos entender por "causas históricas". Pretendemos es-
tudar o mesmo assunto na terceira parte dêste livro (2); por
'enquanto basta que assinalemos algumas diferenças entre as causas
físicas e as causas históricas.
a) As causas que se nos apresentam na história são sempre
-muito complexas e heterogêneas: influências do clima, da raça,
da tradição, além disso: o "acaso" e as livres decisões da pessoa
humana. Para compreendermos' um fenômeno histórico na sua
totalidade não podemos decompor êsses diversos fatôres nos seus
elementos constitutivos e, depois, estudá-los isoladamente. Se fi-
,

.zéssemos assim, estropiaríamos a realidade histórica, que é preci-


(1). — Cf. Aristóteles, Metaphysica I 2, 8 e 11.
, (2). — Cf. § 66.
— 449 —

:amamente o conjunto de todos êsses fatôres. Além disso, não se


-prestam a experiências como os fenômenos físicos: o tempo his-
tórico é irreversível e irrepetível. As causas físicas têm caráter
-prospectivo, quer dizer: podemos predizer que fenômeno A (por
exemplo a temperatura de 100° C.) terá por resultado fenômeno B
<por exemplo o ferver da água). A causalidade histórica possui
apenas valor retrospectivo, quer dizer: o conjunto das circunstân-
cias A (por exemplo a opressão política e social do Ancien Régime,
..as idéias esclarecidas do século XVIII, etc.) torna-nos compreen-
.sível o aparecimento do acontecimento B (por exemplo a Revo-
lução francesa, que, por sua vez, é um fenômeno extremamente
,complexo), mas sempre devemos admitir que o fenômeno B po-
dia ter sido bem diferente do que foi na realidade. Sendo assim,
seria mais prudente não dizermos: a história é a ciência dos atos
humanos pelas causas, mas: é a ciência das causas que influiram
nos atos humanos.
b) O homem, enquanto pessoa,• está fora do determinismo
cego que rege o mundo físico: a pessoa, naturae rationalis indivi-
4ua substantia (3), é livre. Mas já vimos (§ 10) que o homem
-deve conquistar laboriosamente a sua personalidade e, por con-
seguinte, a sua liberdade, para vir a ser verdadeiramente o que
Quanto mais se espiritualiza, tanto mais se torna livre, mas ge-
ralmente pesam sôbre êle as condições da matéria. A liberdade,
.que lhe foi outorgada, é uma dádiva precária, nunca aproveitada
inteiramente: o homem entrega-se largamente aos acontecimen-
tos como um animal, não sendo capaz de transformar por com-
pleto a sua vida num ato livre e espiritual. Tem a vida vegetati-
va das plantas, e a vida sensitiva dos brutos: nestas qualidades
está invariàvelmente sujeito a leis físicas e biológicas, das quais
esfôrço nenhum o poderá fazer sair. Para o historiador êste deter-
minismo é, porém, de somenos importância, visto que se interessa
só ocasionalmente por êsses aspectos da natureza humana. Mas
há no homem um "determinismo" superior (se é que se pode
empregar o têrmo assim), arraigado na estrutura do homem que
4 animal racional. Como tal, está sujeito a certa regularidade no
seu compartamento, ditada, em última análise, pela Verdade, pelo
Bom e pelo Belo. À luz dêsses fins, mesmo livremente propostos,
ser-nos-á possível descobrir certas "leis morais",•também nos atos
humanos: nelas se funda a certeza moral. Elas têm só valor apro-
ximativo e não estorvam a liberdade de um ato singular. Eis por-
que se nos dificulta uma pesquisa "científica" e se nos faz mister
tim método especial. As chamadas leis históricas são, no fundo,
_aquelas leis morais, ilustradas e confirmadas por numerosos exem-
(3). — Esta célebre definição é do filósofo Boécio (século VI d. C.), e encontra-se -
no seu opúsculo De Persona et ~ara (Cap. LII )
— 450 —

plos da história . Não possuem o rigor das leis físicas, cujo fun-
cionamento podemos repetir à vontade. L'histoire ne se répète
jamais. A verdade expressa pelas "leis históricas", aproxima-se
muito perto da sabedoria popular, contida num provérbio . Não
desprezamos nem a sabedoria dos provérbios nem a da história,
mas cumpre que lhe conheçamos a natureza e não a equipare--
mos a uma fórmula matemática ou a uma lei física. As leis his-
tóricas não nos permitem nenhum cálculo exato sôbre o futuro
processo da humanidade.
Para um esprit géométrique pode ser decepcionante tal con- -
ceito da causalidade histórica: ao examinar de perto o objeto pró-
prio da história, deverá reconhecer que cada uma das disciplinas-.-
exige o seu método e necessita de um conjunto de conceitos es-
peciais.
Terminando, podemos dizer que a causalidade histórica, em----
bora longe de esgotar a realidade histórica, não é uma constru-
ção arbitrária do espírito humano, mas um conhecimento frag-
mentário da realidade e possui valor objetivo . Por sabermos as -
causas de um fenômeno histórico compreendemos não só a cone--
xão lógica entre dois fenômenos, mas reconstruimos também algo
da realidade objetiva, ainda que a reconstrução seja forçosamen-
te deficiente.

§ 18. As ciências morais.

O resultado das discussões anteriores é que a história não - .


corresponde às exigências da definição escolástica: cognitio rerum -
per causas, visto lhe servirem de objeto material os atos humanos,..
os quais são contingentes, não necessários, e concretos, não uni-
versais. Logo, a história não é ciência no sentido próprio da pa-
lavra, podendo sê-lo apenas em sentido derivado (secundum quid)
A definição data de uma época em que a filosofia dominava dire-
tamente tôdas as outras ciências, que ainda não se emanciparam .
Nem Aristóteles nem. São Tomás conheciam muitas das ciências-
modernas senão em estado embrionário, incapazes de levarem uma
vida autônoma . Os fenômenos físicos e os atos humanos eram qua-
se sempre estudados sub specie philosophiae. Ora, depois da Re-
nascença, e principalmente depois do século das Luzes, os mesmos----
objetos começaram a ser estudados de maneira cada vez mais em-
pírica. Por motivos evidentes tornou-se necessária uma nova con-
cepção da ciência, a qual poderíamos formular •assim: um conjunto -
racional e sistemático de conhecimentos certos, relativos a um ob-
jeto próprio e determinado . Não precisamos démorar-nos a mos- -
trar que esta definição cabe perfeitamente ao nosso assunto, que é- >
a história.
— 451 —

No século passado, as ciências relativas aos atos huma-


nos parecia que se tinham emancipado da filosofia para se torna
rem escravas das ciências naturais. Os psicólogos, os lingüistas,.
os historiadores estavam buScando por tôda a parte leis análogas às
da física, as quais eram muitas vêzes consideradas como absoluta-
mente necessárias. Dos métodos científicos (4) eram julgados le-
gítimos apenas os que se aplicavam com tão bom êxito à matéria
inanimada. Era a negação da pessoa humana, autônoma e livre,.
nas próprias ciências que tinham a pretensão de estudá-la. Não
podia tardar uma reação. Em todos os países do mundo, mas prin-
cipalmente na Alemanha e na França, surgiram protestos contra
tal degradação do homem e mutilação da verdade. Foram sendo-
procurados métodos apropriados ao objeto específico das ciências,
que se ocupavam das atividades humanas. Entre os numerosos
propugnadores das novas idéias cumpre destacarmos aqui dois no-
mes ilustres: Wilhelm Dilthey (1833-1912) e Henry Bergson
(1859-1942),• aquêle professor em Berlim, êste em Paris.
As ciências relativas aos atos humanos ficaram, em ale-
mão, com o nome de Geisteswissenschaften, quer dizer: ciências do
espírito (5), muitas vêzes designadas, nos idiomas românicos, co-
mo ciências morais. Como é que devemos entender êste têrmo?
Ciências morais são as disciplinas que, opondo-se às ciências
físicas, se ocupam da consciência (6), cultura e sociedade huma-
nas. Servindo-se de métodos, apropriados aos seus objetos únicos,
e concretos, procuram-lhes dar um valor científico e objetivo, não
por explicá-los como casos individuais de uma lei geral, mas por
dar-lhes um sentido que os relacione com o conjunto do qual fazem
parte. Preferem o têrmo "entendimento" às palavras "compreen-
der" e "explicar", porque estas envolvem a procura de relações cons-
tantes entre os fenômenos. "Entender" é um processo psicológico,.
que consiste numa íntima "co-experiência" da parte do sujeito com.
a manifestação concreta da vida psíquica de outrém.
Esta descrição prolixa, aliás não universalmente aceita por to-
dos os que cultivam uma das ciências morais, esclarece alguns pon-
tos de suma importância. Os atos humanos constituem um campo'
avulso de pesquisas científicas, a que se podem aplicar os métodos
das ciências naturais, e em que se torna imprescindível um qual-

( 4 ) . — Nas línguas românicas bem como em inglês, a palavra "ciência" ou science•


é muitas vêzes reservada para indicar as matemáticas, a física e a química;
não raro se prende ao têrmo também certo valor e prestígio, superiores aos.
das outras "disciplinas", que até são depreciadas como matérias da memória.
Nada mais errado do que tal interpretação unilateral da palavra "ciência".
As ciências morais são filhos legítimos de um saber genuinamente humano,
e — sob certos pontos de vista, — até superiores às matemáticas, e às.
ciências naturais. Mas disse alguém que, desde os dias de Descartes, a nossa,
civilização se tornou pitagórica: o culto aos números e à quantidade...
(5). — Em espanhol, o têrmo ciência del espírita é muito usado.
<6) . — Consciência deve ser entendida aqui no seu sentido psicológico.

Revista de História 10
— 452 —

quer "entendimento", conceito êsse que a física e a química desco-


nhecem. Não me posso transportar mentalmente num pedaço de
ferro que se dilata sob a influência do calor, e sim na mentalidade
de Júlio César, quando atravessava o Rubicão, ou na de Lutero,
quando promulgava as suas teses contra a Igreja de Roma. O en-
tendimento, sendo uma "re-vivência", pressupõe a unidade meta-
física do gênero humano: sem esta não seria possível aquêle. Além
disso, os atos humanos são únicos e livres: eis porque não podem
ser reduzidos a casos individuais de uma lei geral. Até agora con-
cordamos plenamente com a concepção moderna; não podemos, po-
rém, dar a nossa adesão àquêles que separam totalmente o enten-
dimento da razão e os atos humanos da metafísica. Eis dois peri-
gos que devemos evitar: a reação contra o Racionalismo exagerado
do século passado não justifica um movimento anti-intelectualista
tal como os tempos atuais estão presenciando. Não podemos entrar
aqui numa exposição filosófica destas questões, que nos afastaria
muito longe do nosso assunto. Muito sumàriamente damos apenas
duas teses da filosofia perene: nada escapa à metafísica, que é a
ciência do ser como tal, porque tudo o que é, é um ser, também os
atos humanos. E o objeto formal da razão, que quodammodo fit
omnia, é o ser como tal. Basta aqui têrmos pôsto,•embora um tanto
dogmàticamente, êsses dois princípios salutares: quem se interes-
sar por essas questões, poderá orientar-se por trabalhos especiali-
zados de caráter filosófico.
III. Concluindo esta exposição, achamos conveniente citar
algumas palavras do grande Pascal, o qual, muito tempo antes do
nascimento oficial das ciências morais, formulou com grande pers-
picácia a diferença entre os métodos a serem empregados nas ma-
temáticas e os que são usados pelas ciências morais: En l'un (a
geometria), les principes sont palpables, mais éloignés de rusage
commun; de sorte qu'on a peine à tourner la tête de ce côté-la, man-
que d'habitude: mais pour peu qu'on ry tourne, on voit les prín-
cipes à plein, et il faudrait avoir tout à fait resprit faux pour mal
raisonner sur des principes si gros qu'il est presque impossible qu'ils
échappent . Mais dans resprit de finesse, les principes sont dans
l'usage commun et devant les yeux de tout le monde. On n'a que
faire de tourner la tête, ni de se faire violence; il n'est question que
d'avoir bonne vue, mais il faut ravoir •bonne; car les principes sont
si déliés et en si grand nombre, qu'il est presque impossible qu'il
n'en échappe. Or, romissiorz d'un principe mène à rerreur; ainsi,
il faut avoir la vue bien nette pour voir toas les principes, et en-
suite resprit juste pour ne pas raisonner faussement sur des prin-
cipes connus (7).
(7) . — Blaise Pascal, Pensées, pág. 317 da edição citada. — Importa ler-se também
a seqüência da passagem transcrita.
CAPÍTULO QUINTO

AS DIVISÕES DA MATÉRIA HISTÓRICA.

§ 19. Dificuldades da divisão.

São muito numerosos os acontecimentos do passado, dos quais


temos conhecimento. E' vastíssima a matéria histórica. Sendo as-
sim, já por motivos práticos torna-se necessário dividi-la em cam-
pos nitidamente distintos. Ora, existem muitas maneiras de divi-
dir a matéria extensa, e nenhuma delas é completamente satisfa-
tória. Podemos fazer à vontade distinções lógicas, mas a realidade
histórica nega-se obstinadamente a obedecer a um esquema abs- .

trato. E' impossível traçar com precisão as linhas de demarcação


entre os diversos campos, já que cada um dêles se liga estreita-
mente a outro e coincide parcialmente com outro. Por mais pre-
cária que seja uma divisão exata", devemos frisar a necessidade
prática de dividir a matéria imensa: o espírito humano, se jamais
consegue conhecer o todo em tôdas as suas partes constitutivas,
pode escolher, ao menos, alguns aspectos gerais sob os quais tôdas
elas podem ser estudadas. Um exame crítico dêsses aspectos pode-
nos ensinar também algumas categorias históricas, cujo conheci-
mento é indispensável para um estudioso da história.
Adotamos, neste capítulo, cinco princípios de divisão, a saber:
o homem como ente social; o homem como indivíduo; o homem
no tempo; o homem como criador de cultura; o homem e o mundo
material. Já se vê que os princípios são heterogêneos e não se
excluem um a outro. Pois o indivíduo é inevitàvelmente membro
de uma sociedade, e vive necessàriamente no tempo, etc. Os prin-
cípios dados acima têm sobretudo valor prático, e não se pode in-
sistir demais na sua justificação teórica.

A. O ASPECTO SOCIAL.

§ 20. Os diversos grupos sociais.


O homem é animal social, segundo a célebre definição de ,
Aristóteles (1) . Com efeito, nasce mais fraco e pobre do que o

( 1) . — Aristóteles, Politica I 1,9 e III 4,2 . — Cf. Ethica Nicomaches I 7, 6 e-


IX 9, 3.
— 454 —

bruto, e durante tôda a sua vida continua a viver necessitando da


proteção e do amparo dos seus semelhantes: só assim pode satis-
fazer às exigências da sua natureza e desenvolver harmônicamente
,as suas faculdades. Sociais são também algumas espécies de ani-
mais, por exemplo as formigas e as abelhas. O homem é social de
modo muito especial. A sociabilidade humana não é apenas prova
da sua indigência, mas também da sua riqueza: a pessoa humana,
como ser espiritual, exige naturalmente as livres comunicações da
inteligência e do amor.
Ora, são muitas as sociedades que reivindicam o homem: des-
de a família, o protótipo de qualquer corpo social, até o Estado,
a mais perfeita sociedade, — na ordem natural, — que tem por
fim o bem comum de todos os seus membros. Entre essas duas so-
ciedades encontramos uma multidão de outras mais ou menos am-
plas: a escola, o laboratório, a fábrica, as diversas organizações so-
ciais com fins políticos, científicos, artísticos, econômicos, esporti-
vos, recreativos, etc. Examinemos agora algumas entidades sociais
que são importantes para a historiografia.
A família é uma unidade originada pelas interrelações exis-
tentes entre o homem e a mulher, os pais e os filhos. Apesar de
ter as suas raízes na vida biológica, não é exclusivamente determi-
nada pelos instintos sexuais, mas é integrada na vida espiritual
do homem. A história prova que o homem regulou os seus ins-
tintos pela inteligência, sujeitando-os a certas leis de ordem moral.
Onde aparece o homem, aparecem formas variadas e originais de
organização, inexistentes no reino animal, onde cada espécie, obe-
decendo cegamente aos seus instintos, apresenta uma uniformi-
dade.
Um grupo pequeno de famílias, geralmente ligadas en-
tre si por uma descendência comum, chama-se clã (2); achando-se
ainda em estado de nomadismo, chama-se muitas vêzes horda (3) .
A tribo (4) já é um conjunto maior: a unidade entre os seus
:membros não se funda geralmente na descendência comum, —
apesar de poderem existir especulações genealógicas a êsse res-
peito, — mas na língua, nos costumes e nas instituições comuns..
Um povo é o resultado de uma evolução histórica mais adiantada,
distinguindo-se de uma tribo principalmente por apresentar maior
grau de diferenciação: conhece geralmente classes sociais, parti-

(2) • — A palavra dá, cognata do vocábulo latino planta, é de origem escocesa


(gaélica) .
.(3) . — A palavra tem origem turca, e designa originàrirunente um grupo de nômades
tártaros.
,(4) • — Tribo é palavra latina (tribos) . Em Roma indicava originãriamente os três
bairros da cidade; com o crescimento do Império Romano, criaram-se 35 tri-
bos, que abrangiam também a população rural. Etimologia discutida.
— 455 —

,,dos políticos, e seitas religiosas; apesar dessas diferenças sente-se


, ima unidade por possuir em comum certas tradições, costumes e
:instituições, e por falar a mesma língua. E, afinal, uma nação (5)
o conjunto de habitantes de um território, ligados por tradições
e lembranças, interêsses e aspirações comuns, e subordinados a
-a.un poder central, que é o Estado (6) .
Não devemos superestimar o valor dessas distinções, pois a
terminologia, seguida pelos vários autores, é bastante divergente
às vêzes, até arbitrária . Outrossim, seria um engano acreditar-
mos que os povos e as nações de que nos fala a história, tenham
atravessado as mesmas fases da evolução: família, clã, tribo. A
formação de povos e nações é, na realidade, um fenômeno muito
.complexo, que não se compadece com um esquema simplificador, e
a ordem dos diversos grupos sociais, dada acima, é mais lógica
,que histórica . Também é perigoso identificar povo ou nação com
: ,raça, que é conceito biológico: um conjunto de indivíduos que
conservam, por disposições hereditárias, caracteres semelhantes psi-
cofísicos, provenientes de um tronco comum. Quanto à raça pode-
rmos fazer duas observações: a ciência não conseguiu estabelecer
relações constantes entre certos característicos somáticos e certas
qualidades psíquicas e morais; a existência de raças "puras" é mui-
-to problemática. Os grandes povos históricos não são raças "puras":
antes se pode dizer que os gregos, os romanos, os inglêses, os italia-
- nos e os franceses são o resultado feliz de vários cruzamentos.
III. O historiador, ao descrever as várias formas sociais do
passado, não deve partir de um esquema apriorístico, violentador
dos fenômenos históricos que sempre são originais e únicos. Sua
primeira obrigação é um respeito absoluto aos fatos concretos, e
sua principal tarefa consiste em descobrí-los. Muito mais ainda se
-precaverá contra certas associações, de ordem afetiva e até ética,
que algumas palavras hoje em dia trazem consigo. Damos um só
-exemplo: o têrmo nacionalismo. O patriotismo é de todos os po-
,

vos com residências fixas, o nacionalismo moderno é um conceito re-


lativamente recente. Na Idade Média não existia nem a palavra nem
-a idéia . E' um produto de vários fatôres históricos, que começa-
- ram a atuar na Renascença para se apoderar da mentalidade mo-
-derna desde os fins do século XVIII, sob a influência da Revolu-
-ção francesa e de certas idéias românticas. Submetidos à antiga mo-

(5) . — A palavra latina natio significa: "nascimento, descendência, linhagem". De-


pois também: "nação, povo, tribo, etc.". — Os outros latinos não raro lhe
dão um sentido depreciativo: "súcia", por exemplo famelica natio hominum
(Plautus) e natio Epicureorum (Cícero) .
6) . — O têrmo Estado, no sentido moderno, foi forjado na Itália (século XV) :
Stato; os obras de Maquiavel contribuiram muito para a difusão e a inter-
nacionalização da palavra. Só no século XVIII tornou-se comum na França,
Alemanha e Inglaterra. Os medievos, como também os romanos, usavam as
palavras respublica (cf. inglês Commonwealth) e civitas.
--- 456 —

`narquia habsburguesa viviam vários povos de descendência, lín--


guas e tradições muito diferentes. Na Suiça moram ainda agora
três (ou quatro) povos: alemães, franceses e italianos, e nenhum:
dos três quer fazer parte nem da Alemanha, nem da França, nerm.
da Itália. Na Bélgica a convivência dos flamengos e dos valões tenr
criado algumas dificuldades: aí existem movimentos separatistas.
A política do presidente Wilson pode ser considerada como o apo-
geu do princípio nacionalista: cada povo tem direito ao seu Estado..
Era a aplicação dos direitos humanos a coletividades, que muitas
vêzes não tinham a possibilidade nem os recursos para se organi-
zarem num Estado. A geração atual começa a avistar as conseqüên-
cias desastrosas do nacionalismo extremo, que dominou a política.
de 1795 a 1919. Ora, o historiador terá muito cuidado em evitar
as associações modernas ao aplicar os têrmos "nação" e "naciona-
lismo" aos fenômenos do passado. Deve formar uma idéia exata:
do valor que essas palavras tinham nos tempos estudados e não-
lhes pode atribuir os nossos conceitos e os nossos preconceitos.
Qualificar a um Temístocles, Augusto ou Carlos Magno de "na-
cionalistas", sem especificar onde está o seu "nacionalismo", é-
um êrro muito grave. E muitos livros históricos, até alguns de cunha
científico, sofrem de um "confusionismo" lastimável que nos im
pede de vermos a realidade.

IV. Hoje em dia se fala muito no problema das massas:


discutem-no sociólogos, políticos e filósofos (7), e também o his-
toriador moderno não pode deixar de encará-lo. Ora, massa é-
têrmo equívoco. Massa pode ser uma multidão de indivíduos_
reunidos por certos interêsses coletivos, e guiados mais pelos ins-
tintos do .que por uma deliberação racional, com o fim de dar
uma solução prática, — e sendo possível, imediata, — aos seus
problemas concretos. Por reagir sob o impulso dos instintos, pre-
cisa de um complemento que lhe dê certa orientação determinada
aos vagos desejos e esperanças: o complemento necessário da mas-
sa é o chefe, o líder, o demagogo. O papel histórico das massas:
é muito grande: pensemos na tomada da Bastilha (14 de julho
de 1789) e nos iconoclastas nos Países-Baixos durante a Reforma.
Massa pode ser também a maioria de um povo que não che-
ga a impor a sua vontade aos outros membros da coletividade nem.
a criar novos valores culturais. Nesta acepção, a palavra signifi-
ca os que ficaram atrasados em relação à elite ou à minoria.
(criadora e governadora) de um país. A massa é o conjunto dos-
que não dirigem, mas são dirigidos; dos que não criam, mas se : :

aproveitam, à sua maneira, das realizações de outros.

(7). — Cf. o célebre livro de José Ortega y Gasset: La Rebelión de las Mesas (1930.—
— 457 —

Massa pode indicar também um fenômeno próprio de épo-


cas decadentes e designar certa decomposição social. E' um povo
degenerado, já não capaz nem desejoso de seguir os seus antigos
líderes (culturais, sociais, políticos, e religiosos), porque perdeu
a consciência de formar uma unidade orgânica com êles, e já não
crê nos valores que representam. Procuram outros líderes dos
quais exige a execução de um programa principalmente utilitário,
acomodado aos seus desejos de confôrto, bem-estar material e
prazeres. A massa esforça os seus líderes a abaixar-se ao nível
das suas aspirações, e êles, dirigindo-se a ela, já não podem apelar
para motivos idealistas. A massificação é, portanto, um processo
de mútuo nivelamento. A massa não acredita nos valores tradi-
cionais do passado nem está disposta a conquistar um futuro me-
lhor para a comunidade mediante sacrifícios e atos da abnegação:
é uma aglomeração amorfa de átomos humanos, apenas ligados
por interêsses egoistas. E o líder, aproveitando-se dos instintos
populares, vê nas massas um meio apropriado para alcançar os
seus fins: o poder, o prestígio, o dinheiro.
Poderíamos continuar à vontade ,essa descrição demorincla,
tão em voga em certas publicações que tratam do assunto com
uma predileção bem visível e retratam a massa com as côres mais
negras. Assinalam na história o grito Panem et circenses (8) do
povo romano decadente, as facções turbulentas dos "Azuis" e dos
"Verdes" (9) em Bizâncio, para depois desmascarar as massas mo-
dernas que estão dispostas a sacrificar tudo, inclusive a sua li-
berdade, ao seu confôrto, e que têm trocado as suas convicções
religiosas e morais por slogans. Com efeito, a técnica moderna,
muitas vêzes abusada para fins desumanos, facilita a massificação.
La Rebelión de las Masas é uma ameaça séria à sobrevivência da
nossa civilização. Mas não nos entreguemos a um pessimismo sem
saída. Pois também as massas compõem-se de pessoas humanas,.
portanto, de sêres potencialmente livres. Ao que parece, a máqui-
na veio a destruir a personalidade tal como era concebida desde
o Renascimento, mas não destruirá necessàriamente a pessoa. Do
esfôrço pessoal de cada um de nós dependerá em boa parte que o
fim do período histórico, iniciado no século XV e freqüentemente
caracterizado como o da auto-afirmação do indivíduo, não seja
a morte da pessoa humana ou da cultura humana. Ainsi done,
au lieu de protestei contre l'avènement de la masse au nom'

— O grito encontra-se em Juvenalis, Safira X 80-81:...atque duas tantum res an-


xius optai, Panem et Circenses.
— Os "Azuis" e os "Verdes" eram duas facções de "fãs" esportivos, das quais cadw
uma tinha os seus favoritos no circo. Por vêzes intervinham na política, por
exemplo em 532, quando os dois partidos, momentãnearnente reconciliados, se
voltaram contra o Imperador Justiniano (527-565). A sedição foi sufocada,
pela presença de espírito da Imperatriz Teodora.
458 --

d'urte culture représentée par des personnalités, mieux vaudrait


se demander ofr se situent les problèmes humains de cette mas-
se... Si étrange que cela paraisse: cette même masse qui porte
,en elle le danger d'être complètement dominée et exploitée, a aus-
si la possibilité de conduire la personne à sa complète majorité
(10) . Escusa acrescentarmos que essas massas, produzidas pelos
tempos modernos como um novo "tipo" histórico, se distinguem
•consideràvelmente das massas de que falamos mal há pouco .
V. Além de pertencer a muitas sociedades naturais, o cris-
tão é membro também da Igreja, a qual, como o Corpo Místico de
"Cristo, continua entre os homens a obra da divina redenção. E'
uma sociedade sobrenatural, mas muito real. Invariável e incor-
ruptível quanto à sua essência, está sujeita, nas suas formas his-
tóricas, a tôdas as leis da condição humana: cresce, desenvolve-
se, luta e até pode morrer parcialmente, em alguns de seus membros.
Enquanto vive inter mundanas varietates, é um fenômeno histórico
-

e, ao mesmo tempo, transcende o processo histórico. Destarte se pos-


sibilita a História Eclesiástica, a descrever o desenvolvimento in-
terno e externo da Igreja através dos séculos. Abrange atualmen-
te um período de quase dois milênios, um terreno imenso e varia-
díssimo . O historiador inglês Macaulay escreveu há um século:
"-There is not and there never was on this earth an institution so
-well deserving of examination as the Roman Catholic Church.
The history of that Church joins together the two great ages of
human civilization... She saw the comrnencement of all the oo-
-yernments and of all the ecclesiastical establishments that now-
,exist in the world, and we feel no assurance that she is not des-
tined to see the end of them all (11) .
A História Eclesiástica foi inaugurada no século IV pelo bis-
po Eusébio de Cesaréia, que já conhecemos como autor de uma
`Crônica (cf. § 5, II) . No tronco da história geral da Igreja cres-
ceram, no decurso dos tempos, vários ramos, por exemplo a his-
tória do dogma, da hierarquia, dos sacramentos, das ordens reli-
:giosas, das instituições eclesiásticas„ etc . Além disso, os dois gran-
des desmembramentos da Cristandade, que se verificaram no sé-
culo XI (12) e no século XVI (13), deram origem a duas outras

— Romano Guardini, La Fin des Temps Modernes, (Éditions du Séuil, Paris,


1952), pág. 76.
— Thomas Babington Macaulay, Essay on Carlyle.
, (12). — As tensões entre a Igreja latina e grega remontam ao século V: o primeiro

Cisma foi de 483 a 519 (o chamado Cisma de Acácio). Nos séculos VIII-IX
houve a questão das imagens e do Filioque; em 968 o Cisma de Fócio; em
1054 a separação definitiva (o Grande Cisma de Miguel Cerulário).
;(13). — A Reforma protestante de Lutero (1483-1546), Calvino (1509-1564) e Zwínglio
(1484-1531).
459 -7,

espécies de historiografia eclesiástica: à da Igreja Oriental e à


,do Protestantismo, ambas com as suas subdivisões.

§ 21. A história política .

E' esta a forma mais antiga da historiografia, quase a única


a ser praticada, junto com a biografia, até o século XVIII. Du-
rante muitos séculos os historiadores costumavam subordinar to-
dos os seus assuntos ao aspecto político, ou, — pior ainda, — aos
interêses das dinastias reinantes. Descreviam minuciosamente as
manobras diplomáticas, as guerras e as batalhas, as vitórias e as
derrotas, as instituições e as reformas políticas, mas prestavam re-
lativamente pouca atenção às outras atividades humanas de cará-
ter social. De que maneira os homens pensavam, trabalhavam, ga-
nhavam dinheiro, se vestiam, se casavam, se divertiam, de que
modo eram educados e alimentados, e muitas outras coisas que
nos interessam hoje em dia, eram assuntos geralmente considera-
dos de somenos importância, e quase sempre tratados só de pas-
sagem. Com muita razão vieram a ser focalizados pela historio-
grafia moderna. Entretanto, seria uma reação exagerada, se qui-
séssemos eliminar por completo o fator político da história, —
aliás, seria impossível, — ou diminuir-lhe a importância a ponto
de considerá-lo apenas como um esqueleto, indispensável mas in-
cômodo. A política externa e interna determinou, em grande par-
-te, direta ou indiretamente, o destino dos povos e o dos indivíduos:
só uma concepção errada da política, no mais das vêzes originada
por um liberalismo excessivo ou por um totalitarismo desumano,
tem afastado o homem moderno do Estado. Os antigos e os me-
dievos pensavam de modo bem diferente. Outrossim, enquanto
continuarem a existir as diversas nações, continuar-se-á a escrever
a história nacional, e não só por motivos estreitamente naciona-
listas. A história não é ciência "pura", como por exemplo a ma-
temática, mas é-lhe superior sob o ponto de vista existencial: re-
laciona-se intimamente com a vida dos homens, revelando-lhes
algo da situação concreta em que se acham. Por isso o brasileiro
terá sempre um interêsse especial pela história do seu país, e o
francês pela da França.
I. As formas políticas variam conforme os povos e as épo-
,cas. Nas sombras dos grandes reinos orientais viviam os gregos
clássicos, politicamente organizados em "póleis", quer dizer, em
Estados minúsculos, cujos territórios não excediam muito os limi-
tes da cidade e das terras circunjacentes. Conforme a índole e a
-tradição de cada uma delas, eram monarquias, aristocracias ou de-
mocracias de todos os matizes. Zelosas da sua autonomia, não
— 460 —

chegaram a estabelecer a unidade política do país: juntavam-se


apenas quando as ameaçava um perigo comum. Mas cada "pólis""
procurava estender a esfera de sua influência a outras "póleis", por
meio de alianças que muitas vêzes o forte impunha ao fraco. Des-
tarte se criavam impérios disfarçados, que, com o tempo, deviam
destruir a autonomia de numerosas cidades. Disputaram entre si
a hegemonia principalmente duas cidades, as mais poderosas da .

Hélade: Atenas, poder marítimo, e Esparta, poder terrestre. Aque-


la era uma democracia progressista, esta um aristocracia conser-
vadora. A guerra terminou pela derrota de Atenas (404 a. C.),
mas o fim da guerra não foi o fim do separatismo político. Filipe
II, o rei da Macedônia, soube hàbilmente aproveitar-se das ten-
sões que existiam entre as diversas "póleis", liqüidando-lhes aos ,

poucos a independência a reunindo-as sob o seu poder . Seu filho,


Alexandre Magno (336-323), destruiu os grandes reinos orien-
tais: o Egito e a Pérsia, incorporando-os no seu Império helenís-
tico, que, logo depois da sua morte, se dissolveu em três monar-
quias: a Síria, o Egito e a Macedônia. Delas foram herdeiros os
romanos, os quais, depois de atravessarem vários regimes políti-
cos (realeza, república e império), se tornaram senhores de todo ,
o mundo mediterrâneo. A Pax Romana reinou durante uns três
ou quatro séculos em quase tôdas as províncias nesse Império enor-
me, organizado e disciplinado pelo gênio jurídico dos romanos .
No século IV, porém, começaram a invadir o território romano di-
versas tribos germânicas, que em alguns decênios conseguiram as-
senhorear-se de tôdas as províncias ocidentais; no Oriente mante-
ve-se apenas Bizâncio ou Nova Roma, abrangendo a Grécia e a
Ásia-Menor, ao passo que as outras províncias orientais (Egito, Sí--
ria) se tornaram a presa dos árabes maometanos (século VII),
que até penetraram na África (Tunísia e Argel) e na península
ibérica. As duas partes do Império, desde então definitivamente ,
separadas (14), tinham destinos muito diferentes: escorçamos aqui
apenas os do mundo ocidental, que nos é mais próximo. A Idade
Média (latina) conservava, se não a realidade do Império, ao me-
nos as saudades, batizando-o e dando-lhe as feições de uma teocra-
cia cristã sob a supremacia do Papa de Roma: Carlos Magno foi
coroado Imperador na noite de Natal do ano 800 pelo Papa Leão
III. Como nos tempos •do apogeu do Império Romano, salienta-
va-se pouco durante a Idade Média o nacionalismo: os cives Ro- -

mani de outrora passaram a constituir a grande família cristã: a .

Christianitas, acolhendo aos poucos os bárbaros. Reconhecia-se,.

(14) . — Em 395 d. C. Teodósio o Grande dividiu, ao morrer, o Império Romano era


duas metades, legando o Oriente (capital: Constantinopla ou Bizâncio) a seu
filho Arcádio, e o Ocidente (capital: Roma) a seu filho Honório. O Império.
Ocidental sucumbiu em 476, o Ori e ntal em 1453.
— 461 —

sim, a missão especial das várias nações; havia um ditado medie-


val: Italiae sacerdotium, Germaniae Imperium, Franciae studium.
Já não era uma civilização mediterrânea,• mas a Europa ocidental
começava a desempenhar papel preponderante. As diversas re-
giões européias eram divididas em reinos, ducados, condados, ba-
ronias, etc., como também em bispados e cidades, todos êles, pelo
menos tebricamente sob o domínio do Império. Nos fins da Idade
Média os senhores feudais tornaram-se cada vez mais independentes
do Império e do Papado, e desde o século XV consolidaram-se os Es-
tados nacionais: França, Espanha, Portugal, Áustria, etc., desen-
volvendo-se-lhes o regime em sentido absolutista . Foi a época das
grandes dinastias (Habsburgos, Bourbons, etc.) e das grandes des-
cobertas, espalhando-se a civilização ocidental por outros conti-
nentes, principalmente pela América. A Revolução francesa deu
origem às monarquias constitucionais e à representação popular:
iniciou-se o período do liberalismo e da democracia moderna, e
nasceu o socialismo. Os tempos modernos assistem à criação de
Estados totalitários (fascismo, nacional-socialismo e comunismo),
e a tentativas hesitantes, mas promissoras, de federalismo inter-
nacional.
Essa sinopse rápida, por mais incompleta que seja, re-
vela as diversas fases políticas pelas quais passou a cultura oci-
dental durante 25 séculos, e as diversas conquistas territoriais da
mesma . O historiador tem a tarefa de descrever-lhes o nascimen-
to, a evolução e a decadência, alargando ou delimitando o terreno
de suas pesquisas conforme as exigências do assunto escolhido.
Pode escolher a história de um povo ou de um Estado, pode es-
colher também a história de um continente, de um país, de uma
região, de uma província, de uma cidade, de uma aldeia, de um
bairro, de uma família,• de uma diocese ou abadia, etc. Tôdas as
entidades políticas e administrativas, todos os corpos sociais, por
mais minúsculos que sejam, possuem o seu valor, sempre que se-
jam bem estudados, principalmente quando o historiador se es-
força por relacioná-los com as linhas gerais da •história universal.
O historiador, ao descrever as diversas formas sociais do
passado, não se contentará em relatar, à maneira de um cronista,
as fases sucessivas, mas se esforçará por descobrir-lhes as causas
e as interdependências. E' quase desnecessário insistirmos nesse
ponto. Chamamos a atenção do leitor para outra questão. Duo
si idem dicunt, non idem sentiunt, diz o adágio latino com muita
razão. Quando isto se verifica freqüentemente entre contemporâ-
neos, que têm tantas possibilidades de se conhecerem a fundo, quan-
to mais mal-entendidos hão de existir entre pessoas de épocas di-
ferentes! Com efeito, podem-se servir do mesmo vocabulário, dan-
462

do-lhes um sentido bem diferente. Ao que parece, é um caracte-


rístico próprio da nossa civilização, ir buscar num passado ideali-
zado os princípios de uma nova orientação: os humanistas pre-
tenderam revivificar a Antigüidade, ceratos românticos a Idade
Média. Nem o movimento renascentista nem a corrente românti-
ca conseguiram estabelecer a época de sua predileção: o tempo é
um fator irreversível. Os humanistas possuíam, bom ou mau gra-
do seu, a herança de dez séculos de medievalismo, e os românti-
cos eram impregnados de três séculos de humanismo antropocên-'
trico. O resultado de um tal entusiasmo pelo passado não pode-
ser uma cópia ou uma simples repetição, mas deve ser uma reno-
vação: nela se integram, mais acentuadamente do que num perío-
do anterior, as fôrças dinâmicas de um passado idealizado, inter-
pretado à luz de novas exigências e acomodado às novas circuns-
tâncias.
Para o historiador essas regras têm conseqüências graves.
Deve fazer tôda a diligência em descobrir a originalidade e a uni-
cidade dos fenômenos estudados. A palavra "democracia" nos tem-
pos de Péricles (século V a. C.) trazia consigo outras associações,,
outros valores morais, outros ideais políticos do que a mesma pa-
lavra, empregada por um Presidente Truman ou por um jorna-
lista moderno. Os precursores intelectuais da Revolução francesa
tinham uma concepção meio ingênua dos "bons republicanos" ro-
manos, cujos ideais identificavam, sem reflexão crítica, com as suas.
aspirações e os seus desejos: se tivessem tido um senso histórico
mais profundo, teriam ficado horrorizados com a conservadora e
aristocrática república romana, que idolatravam sem conhecê-la.
bem. A palavra "Império" é das mais equívocas: falamos no Im-
pério ateniense, no Império Romano, no Sacro Império medieval,.
no Império brasileiro, etc.; a palavra Império (alemão "Reich")
foi o pesadelo de três ou quatro gerações de alemães. Ora, os slo-
gans podem ser repetidos, jamais, porém, as realidades históricas
nem a mentalidade que originàriamente as criou. Uma das obri-
gações mais imperiosas do historiador, — não cansamos de repeti-
lo, — consiste em descobrir o caráter peculiar a esta democracia,.
a esta republica, e a êste Império. Nisso não se restringirá ao
exame das realidades visíveis e palpáveis, mas prestará também
muita atenção aos ideais que lhes deram a vida, e à estrutura
mental que as originou. Procedendo assim, conseguirá integrar
as formas políticas num conjunto superior, num "organismo", do..
qual fazem parte. Le bon historien prend son bien otst il le trouve:
na literatura, nas artes, nos costumes, na filosofia, na religião. E.
assim a história política vem a ser história da civilização.
463

§ 22. A hístbria universal.

A expressão "história universal", têrmo bastante pretensioso,,


merece por alguns instantes a nossa atenção. Será que é possível
escrever-se a história da humanidade? O resumo das várias formas'
políticas, dado no § 21 I, não esboçou os contornos da história uni-
versal, mas apenas os da civilização ocidental. A maior parte das
chamadas histórias universais não faz diferentemente: limita-se a
uma exposição mais ou menos extensa da cultura européia e ame-
ricana, tratando muito superficialmente os outros continentes em
guisa de apêndices.
I. A civilização grega era uma cultura essencialmente me-
diterrânea . Os povos, no dizer de Platão (15), pareciam-se com
rãs em volta de um tanque, ou com formigas em tôrno de um for-
migueiro, agrupados que estavam em ¡redor do Mediterrâneo.
Sem dúvida, era sabido que o mundo habitável era muito maior,,
mas pouco lhes importava, e se lhes importava, não tinham os
meios técnicos de atravessar o Oceano, superar as montanhas e
penetrar nos desertos. Quem não era grego, passava por "bárba-
ro" (16) . As conquistas romanas não alteraram essencialmente o
caráter mediterrâneo da cultura antiga, deslocando apenas, por
certo tempo, o centro da gravidade para a parte ocidental do mes- -
mo mar. A história universal daqueles tempos era a história da
"oikouméne" (17), quer dizer, da terra habitada enquanto era
conhecida, que pràticamente coincidia com o território do Império
Romano. Escreveu-lhe a história Diodoro de Sicília (18), na épo-
ca do Imperador Augusto, demonstrando que tôdas as civilizações
mediterrâneas convergiam na história do povo romano, a qual pare-
cia absorvê-la a tôdas (19) . Não sabemos bem a estrutura dos
livros perdidos dessa obra, mas podemos afirmar que Diodoro
conhecia mal os pormenores da história oriental e lhe presta- -
va pouca atenção comparada com o interêsse que tinha pelo de-
senvolvimento da. Grécia e de Roma . O Cristianismo revolucio-
nou o conceito da história universal: em primeiro lugar devia
integrar, no quadro histórico dos povos clássicos, os destinos do

. — Plato, Phaedo 109 A-B.


. — A palavra "bárbaro" indicava originàriamente o estrangeiro que falava uma ,
língua incompreensível para um grego (cf. em latim: balbutire = port. "bal-
buciar") . Neste sentido, Homero, Ilíada B 867, onde o poeta fala nos cá-
ricos "de linguagem bárbara". — Bem cêdo, porém, a palavra foi-se ligando
com sentido depreciativo. Os romanos, que originàriamente também eram con-
siderados como "bárbaros" pelos gregos, uma vez incorporados na cultura hele-
nística, aplicavam o têrmo aos povos não-civilizados do Oriente e do Ocidente.
. — A palavra deu origem ao adjetivo moderno "ecumênico", que ainda encontra-
mos nas combinações "concílio ecumênico" e "movimento ecumênico".
— Cf. § 3, Va.
— Já o historiador Éforo (cf. § 3, M) escrevera uma História Universal, chama-
da "Philippica", por fazer convergir os destinos de todos os povos na história,
dos macedônios, cujo rei era Filipe (359-336), o pai de Alexandre Magno..
— 464 —

povo eleito e os de outros povos orientais; mais importante ainda


era que ensinava com ênfase a unidade do gênero humano. Des-
tarte se possibilitou, pelo menos em tese, o nascimento de uma
verdadeira história universal. Entremostrou a nova concepção
Santo Agostinho no De Civitate Dei, mas não tinha preocupa-
ções históricas prÓpriamente ditas ao escrever êsse livro magis-
tral (20), nem dispunha dos conhecimentos necessários para a re-
construção científica do passado. Êsses fatôres faltaram igualmente
à Idade Média. Quando o mundo real fôra descoberto, nos séculos
XV e XVI pelos portuguêses e espanhóis, nos séculos seguintes pelos
holandeses e inglêses, a situação tornou-se apenas materialmente
mais favorável à realização de uma história universal. No mais das
vêzes, os conquistadores interessavam-se pouquíssimo pelo passado e
pela cultura dos povos dominados, visando só lucros imediatos: até
destruiram muitas relíquias preciosas, como por exemplo Francisco
Pizarro (1475-1541), que acabou dràsticamente com a civilização
dos Incas. Só no século XIX os europeus e os americanos come-
çaram a tomar interêsse pela vida e pelas instituições de culturas
exóticas, mas, por motivos evidentes, sempre em grau muito menor
do que pela sua própria história. Voltaire, utilizando os relatórios
um tanto otimistas dos missionários jesuítas (21), consagrava o
primeiro Capítulo do seu Essai à China: qui avait une histoire
suivie dans une langue'déjà fixée, lorsque nous n'avions pas encore
l'usage de I'écriture (22) . Hoje em dia existem numerosas mono-
grafias sôbre a história dos povos civilizados, fora da cultura oci-
dental, como também sôbre as instituições dos povos primitivos.
II. Contudo, estamos só no comêço, estando por fazer qua-
se tudo nesse terreno da historiografia . Que se pense nas enormes
dificuldades a serem vencidas pelo historiador ao reconstruir e ao
interpretar cientificamente os grandes acontecimentos da cultura
ocidental, e logo se compreenderá quão longe estamos ainda de
uma verdadeira história universal. Os obstáculos são inú-
meros: falta de documentos, falta de estudos preparatórios, falta
de interêsse, e por outro lado: abundância de dados heterogêneos,
muito vastos para serem dominados por um indivíduo ou até por
um grupo de pesquisadores, uma multidão de teorias apressadas e
soluções duvidosas. Além dessa dificuldade de ordem material, exis-
te outra mais grave ainda: a história torna-se apenas mais geral
por abranger mais civilizações, para ser universal, no verdadeiro

. — Santo Agostinho convidou Orósio a escrever tal história universal, cf. § 77.
• — Os jesuítas editavam, desde 1703, as Lettres édifiantes, relatórios anuais das
suas atividades missionárias, em que exaltavam principalmente a aptidão natu-
ral do povo chinês para o Cristianismo. — Um dos primeiros a tomar conhe-
cida a China na Europa foi Joseph-Marie Amyot, S. J. (1718-1793) .
. — Voltaire, Essai sor les Moeurs et l'Esprit des Nations, Avant-Propos, no fim.
— 465 —

.,sentido da palavra, precisamos lhe conhecer o inicio comum e o têr-


:mo comum. Ora, muitas pessoas pensam que podemos conhecer
têrmo comum da humanidade: uma cultura universal a reinar
pelo planeta inteiro. Assim como a história de todos os povos medi-
terrâneos convergia na do povo romano, assim tôdas as culturas
,existentes convergiriam na civilização ocidental, destinada a domi-
nar o mundo para sempre com as suas ciências, a sua técnica, os
seus ideais de democracia e liberdade. A cena final da história se-
ia uma cultura planetária, essencialmente concebida e realizada
pelos ocidentais apesar das eventuais contribuições valiosas de ou-
tros povos. O exemplo alegado do Império Romano obriga-nos a
<certa prudência e moderação nas esperanças: as culturas orientais
nunca assimilaram por completo a civilização greco-latina. Bem ao
-contrário: Roma dominou-as politicamente alguns séculos, deu-lhes
certos impulsos, mas recebeu delas muito mais ideologias, e a partir
,do século III d. C., despertou o Oriente novamente, desintegrando-
13 da unidade política, que lhe fôra imposta pela fôrç,a das armas, e
separando-o de uma unidade ideológica que era mais uma fiCção do
<que uma realidade. E' legítima a pergunta: será que a unificação
,do mundo atual é mais aparente do que real? Continuàrá a mar-
,cha conquistadora da nossa civilização? Será que a difusão mundial
:da nossa técnica, das nossas ciências, e das nossas ideologias nos
ofusca a vista para vermos as oposições intranponívei que existem
por exemplo entre o Ocidente e o Oriente? Não poderá ser que os
,empréstimos técnicos e econômicos sejam• utilizados pelos orien-
tais numa mentalidade bem diferente da nossa, e que cheguem a
-ser manejados contra nós próprios e nossas esperanças otimistas?
-.E' verdade o que o poeta britânico (23) cantou: East is East, and
West is West: and never the twain shall meet? Eis alguns proble-
mas que a história, ciência do passado como é, não sabe resolver:
ela solução prática que se lhes der, dependerá em grande parte a
realização de uma historiografia universal.

B. O ASPECTO INDIVIDUAL.
§ 23. O indivíduo na história.

Já a epopéia dos povos primitivos reconhece o valor do indi-


-víduo: exalta as façanhas de um Aquiles e de um Siegfried, expli-
-

cando-as muitas vêzes como devidas a uma proteção especial da


-parte dos deuses. Com efeito, o indivíduo é o grande motor da his-
tória, a fôrça dinâmica de todo e qualquer progresso humano. A
-teoria de um povo-filósofo ou de um povo-poeta, proclamada com
tanto afinco no século passado, evidenciou-se numa ilusão româati-
423) . — Rudyard Kipling, The Ballad of East and West.
— 466 —

ca. O povo como tal não faz versos nem elabora um sistema filo-
sófico. A pessoa humana não é simplesmente o expoente da socie-
dade, mas incorpora-se nela de maneira espiritual . O fim da socie-
dade não coincide, se não em parte, com o da pessoa, que tem os
seus direitos invioláveis. O homem, é verdade, necessita da socie-
dade, mas esta precisa mais ainda do homem, da personalidade,
que nela se integra e a transcende ao mesmo tempo . Há sempre-
certa tensão entre a sociedade e a pessoa, por vêzes até conflitos
trágicos. O homem medíocre, que possui pouca "personalidade",
escolhe geralmente o caminho do menor esfôrço, acomodando-se de-
boa vontade às exigências justas ou injustas da coletividade. Se a
"personalidade" se lhe adapta, fá-lo por motivos bem diferentes: -
consciente do seu lugar no conjunto social toma uma livre decisão-
em virtude de certos valores objetivos que a sociedade representa.
Mas acontece também que se revolta contra ela, com seus protes-
tos, seus atos, suas palavras, sua atitude. Insurge-se contra as ten-
dências necessàriamente niveladoras de tôda a convivência huma-
na, ora por ressentimento ou orgulho, ora por obedecer a um impe-
rativo da sua consciência.
Por dois motivos, então, a pessoa merece a atenção dos histo-
riadores: por seu valor intrínseco e por causa da influência que exer-
ce sôbre o processo histórico, para o bem e para o mal. Assim se
explica a popularidade que goza uma biografia bem escrita, em tô-
das as camadas da sociedade. O homem interessa-se sempre pela
homem, e tem a tendência de admirá-lo e amá-lo, ou então, de- '

detestá-lo e odiá-lo. E' difícil, ou até impossível, que o homem to-


me uma posição completamente neutra ou "objetiva" ante o seu -
próximo. Aí já assinalamos um grande perigo para o biógrafo: por
mais admiração ou antipatia que tenha para com o seu "herói", não-
se pode deixar guiar pelos seus sentimentos a ponto de se des -

viar da verdade histórica tal como a encontrou nas fontes. E deve-


dar a verdade completa: não pode encobrir os defeitos do seu ído-
lo, — a palavra cabe mal a um historiador sério, nem os méri-
tos do seu adversário. Isenção de espírito e sinceridade são duas -
qualidades imprescindíveis a um bom historiador, as quais não ex-
cluem simpatia e admiração, nem crítica e censura. Tampouco
pode especular sôbre as paixões partidárias de seus leitores, ou
embelezar teatralmente a matéria. Deve-o orientar, a cada passo,.
a verdade, e não a intensão de brilhar ou de influenciar seus leito-;
res num sentido que não seja compatível com o seu assunto. Uma
biografia não é propaganda por um programa político ou social! E.",
afinal, não pode jamais prescindir do elemento social, sempre ob-
servável até no homem mais individualista do mundo: tem de re-
velar-nos as feições próprias do ambiente histórico em que foi edu-
,

cado e viveu o herói da biografia, a fim de lhe descobrirmos a o•i--


467

ginalidade e a personalidade. Escrever uma boa biografia é em-


preendimento muito mais custoso do que se pensa em geral.

§ 24. Formas de biografia.

A biografia (23a) é um gênero da historiografia que remonta.


à Antigüidade. Não pretendemos esborçar-lhe a evolução histó-
rica, mas mencionamos apenas alguns grandes vultos entre os bió-
grafos e algumas espécies de biografias que são importantes para a
tradição histórica da cultura ocidental.

I. Plutarco de Queronéia (±46-±- 120) é o maior biógrafo,


da Antigüidade. O autor não tinha a pretensão de ser historia-
dor, mas tinha sobretudo interêsses psicológicos e éticos ao estudar
a vida dos grandes homens do passado (24). Sua obra Vitae Paral-
lelae compõe-se de 23 pares de biografias: em cada um dêles fi-
gura, ao lado de um herói grego, um herói romano, por exemplo
Demóstenes e Cícero, Alexandre Magno e Júlio César, etc. (25).
Plutarco é autor simpático e ótimo contador: se lhe faltam o senso,
histórico e uma crítica rigorosa, essas falhas são compensadas por
uma probidade e uma objetividade que ainda hoje em dia são ra-
ras num biógrafo. Sua finalidade é, antes de mais nada, moralista:
a vida dos grandes homens é um espêlho (26) para a posteridade,
e apresenta-nos exemplos que devemos imitar ou evitar. Não lhe
interessam• as grandes ações nem a conexão histórica: muitas vê-
zes acontece que uma anedota ou uma palavra espirituosa revela
melhor o caráter do herói do que as grandes façanhas. E' difícil
superestimar a repercussão multisecular da obra de Plutarco. Em Bi-
zâncio passou a ser manual predileto, e desde o Renascimento con-
quistou um lugar de destaque na Europa ocidental. O francês Jac-
ques Amyot (1513-1593) traduziu-a, e essa tradução francesa, que•
logo se tornou clássica, foi uma fonte riquíssima para os drama-
turgos Corneille e Shakespeare, para pensadores políticos como
Montesquieu e Rousseau, para estadistas como Frederico o Gran-
de e Napoleão. Ainda em nossos dias foi traduzida do francês•
para o português e reeditada no Brasil (27).

(23a). — A palavra "biografia" encontra-se urna única vez na literatura grega, num optas- ,
culo do último neoplatônico Damáscio (século VI): Vita Isidori VIII. Até os
fins do século XVII preferia-se: "Vita", ou "Vida", etc. — Na Inglaterra
foi introduzida "biography" pelo poeta Joha Dryden (1683), na Alemanha "I3io-
graphie" em 1709, expressão sancionada pela Académia française só em 1762.
(24) . — Cf. Plutarchus, Vitae Aemilii et Timoieontis 1; Vitae Alexandri et Caesaris
1; Vitae Cimonis et Lueulli 2; Vitae Dernetrii et Antonii 1.
— Possuimos ainda 23 pares de biografias, além de duas isoladas, consagradas.
aos Imperadores romanos Galba e Otão. Perderam-se pelo menos 4 Vitae..
— Cf. Plutarchus, Vitae Aemilii. et Tirnoleontis 1, e Moralia pág. 85B.
— Pela Editôra das Américas (São Paulo). A tradução é de. -vários autores.-
468

Também os cristãos, interessavam-se pelos seus heróis,


ns santos. A hagiografia já era praticada na Antigüidade, e ti-
nha por fim glorificar a Deus mediante os seus santos e propor
aos homens modelos de virtude e santidade. Célebres hagiogra-
fias latinas são por exemplo Vita Sancti Martini de Sulpício Se-
vero (±363-420), que contém muitos elementos românticos; Vita
Sancti Augustini de Possídio (século V), que é muito sóbria; Vita
Sancti Severini de Eugípio (século VI), que nos fornece preciosas
informações históricas sôbre a época da Migração dos Povos; Vita
Sancti Benedicti do Papa Gregório Magno (590-604) . Esta últi-
ma obra já marca a fasé de transição para as lendas medievais,
cheia que está de fatos milagrosos. A hagiografia, que por muitos
séculos tinha apenas fins edificantes, ficou com bases científicas
graças às pesquisas dos Bolandistas (28), nos séculos XVII-XVIII.
Ao lado dêsses trabalhos, pouco acessíveis ao grande público, têm
continuado a sair muitíssimas publicações de valor duvidoso . Só
nos tempos contemporâneos os católicos começaram a ver a impor-
tância de hagiografias bem escritas e bem informadas. Literatos,
teólogos e historiadores sentem-se atraídos pelo assunto. Assinala-
mos aqui apenas uma coleção interessante de opúsculos que mere-
cem, em geral, tôda •a confiança do historiador: Les Saints, editada
pela Libraitie Lecoffre em Paris (29).
Chama-se autobiografia a vida de um indivíduo, escrita
por êle próprio. Não precisamos demorar-nos em demonstrar que
seu valor objetivo é muitas vêzes exíguo: freqüentemente são ins-
piradas pela vaidade, pelo rancor ou por uma tendência muito sub-
jetiva. São, porém, muito valiosas como documentação psicológi-
Ca, e como tais devem ser aproveitadas pelo historiador. Asseme-
lham-se bastante aos Memoriais e aos Diários de pessoas históri-
cas, gênero meio literário, meio histórico, que tomou grande surto
•desde o século. XVII, principalmente na França, o país clássico das
mémoires: estas, porém, prestam mais atenção aos acontecimentos
exteriores, ao passo que a autobiografia é a história de uma alma.
Duas autobiografias afamadas da literatura mundial são: as Contes-
.siones de Santo Agostinho (354-430) e Poesia e Verdade do poeta
Goethe (1749-1832) . Os dois livros tiveram muitíssima repercus-
são, mas interessam mais à mística, à literatura e à psicologia do que
.à biografia prÓpriamente dita. As Confessiones, em 13 livros, são
"uma longa epístola a Deus, a carta grandiosa do escravo para o
seu senhor, do homem redimido a seu salvador, do ignorante ao onis-

— Cf. § 42, I (nota 60).


— Sairam por exemplo Saint. Justin pelo P. Legrange; Saint Paul por F. Prat,
S. J.; Saint Grégoire le Grand por Mgr. P. Batiffol: e Saints Chlothilde por G.
Kurth.
— 469 ---

ciente, do beneficiado ao autor do benefício" (30). Têm exercido ,


profunda influência nos numerosos livros escritos por convertidos
com o fim de testemunharem da verdade descoberta. Nos livros de.
Poesia e Verdade, Goethe retrata sua infância e seu desenvolvi-
mento poético, misturando a verdade histórica com elementos fic-
tícios e descrevendo as diversas correntes literárias da Alemanha na
sua juventude.
IV. Finalizando, mencionamos aqui um gênero recente (31):
la vie romancée ou a vida romanceada. E' representado, na In-
glaterra, por Lytton Strachey (32); na França, por André Mau-
rois (33); na Alemanha, por Emil Ludwig (34); no Brasil, por
Paulo Setúbal (35) . A vida romanceada é uma espécie de bele--
trística com pretensões históricas, que, sem dúvida, satisfaz a cer-
tas necessidades existentes em muitos meios, os quais não têm
acesso às grandes biografias científicas. Mantêm vivo o interêsse
do grande público por assuntos históricos, evocam os episódios pi
torescos do passado, e acodem à tendência eternamente humana
de admirar as grandes figuras da história. Mas muitas vêzes não ,
passam de histórias perfumadas: o emprêgo excessivo de meios es-
tritamente literários prejudica quase sempre a verdade histórica.
Amiúde fazem pouca questão de um estudo profundo e paciente.
das diversas fontes e dão uma interpretação sensacional ou par-
tidária, ou então, modernizam e atualizam indevidamente os per-
sonagens históricos, sem penetrar a fundo na mentalidade de tem-
pos idos. Basta compararmos as biografias, consagradas por Hui-
zinga (36) e Ludwig a Erasmo, para vermos a enorme distância
que separa a biografia científica da vida romanceada. A litera-
tura tem todo direito de criar romances históricos (37), e não
de ultrapassar as suas fronteiras, simplificando e falsificando o
passado. A história, como tal, não é literatura, embora lhe fique-

. — Giovanni Papini, A Vide de Santo Agostinho (trad. port. de Godofredo-


Rangel), São Paulo, 1946, pág. 208. — Santo Agostinho emprega as pala-
vras confiteri e confessio, conscientemente, em dois sentidos: no de "confes-
sar" os pecados, e no dé "exaltar" a misericórdia e a majestade de Deus.
. — Recente? Os defensores da vida romanceada apelam para a autoridade de-
um Xenofonte, que escreveu a Ciropédia, em 8 livros, uma biografia idealiza-
da da vida de Ciro-o-Velho (559-529 a. C.); cf. Cícero, Ep. ad Qtrintum. 1 .
1, 23.
. — Escreveu por exemplo Eminent Victorians (1918) e Queen Victorie (1921) .
. — Escreveu por exemplo Ariel ou la Vie de Shelley (1923), Vie de Disraeli.
(1927), e Byron (1930) . — Como Taine, no século passado, Maurois é
atualmente o grande conhecedor da literatura inglêsa na França, mas menos,
profundo.
. — Escreveu por exemplo Goethe (1920), Napoleon (1925) e Bisrnerck (1926) .
— As primeiras obras dêste autor são muito superiores às posteriores.
. — Escreveu por exemplo O Príncipe de Nassau e A Marquesa de Santos.
. — J. Huizinga, Life of Erasmus, New York-London, 1924.
. — Os romances históricos são um produto do Romantismo, que sentia a neces-
sidadede "reviver", em imagens pitorescas, as grandes páginas da história.
Mencionamos aqui Walter Scott, Ivanhoe; Victor Hugo, Notre-Dame de Paris;
A. Manzoni, Promessi Sposi; A. Herculano, O Monge de Cister e Eurico,.
o Presbítero. Péssimo representante dêste gênero é o polígrafo francês A.
Dumas (por exemplo Les Trois Mousquetaires).
— 470 —

bem o ornato de um bom estilo. A biografia não é um romance,


ainda que dificilmente possa renunciar por completo à imaginação.
Mas não é imaginação livre, e sim imaginação disciplinada.

C. O ASPECTO CRONOLÓGICO.

§ 25. História e pré-história .

A primeira distinção que cumpre fazermos aqui, é a entre os


períodos pré-históricos e os históricos prepriamente ditos. Aquê-
les são os períodos a cujo respeito não chegaram documentos es-
critos até nós (38), ao passo que a êstes conhecemos mais ou
menos mediante uma documentação escrita. Os tempos pré-histó-
ricos deixaram-nos, porém, alguns vestígios, escassos é verdade,
mas muito objetivos,, tais como fósseis, armas, restos de constru-
ções, desenhos, instrumentos e utensílios, ou então, subjetivos, co-
mo a tradição oral. Todos êsses dados precisam ser interpretados
por disciplinas especiais: a geologia, a paleontologia, a arqueolo-
gia, a etnologia, etc. A história utiliza os resultados obtidos para
reconstruir as linhas gerais da época pré-histórica, de modo que
esta não nos escapa por completo.
A extensão dos chamados tempos históricos é muitíssimo exí-
gua, comparada com a dos tempos históricos. A ciência moderna
ainda não conseguiu averiguar com certeza quando apareceu o pri-
meiro homem no mundo. Segundo alguns especialistas, teria apa-
recido há 60.000 anos, segundo outros, ± 150.000, ou muito mais
ainda. Já não são períodos históricos, mas épocas geológicas, cujos
conhecimentos para nós se reduzem a um mínimo. Para termos uma
idéia das proporções existentes entre as duas épocas, poderíamos
fazer a seguinte comparação. Equiparando o momento da criação
do primeiro homem (digamos, há 144.000 anos) ao momento
em que começa o dia (meia-noite), temos conhecimentos histó-
ricos dêsse dia só a partir da vigésima e quarta hora, e mesmo êste
acontecimento é muito fragmentário. E' só desde o quarto milê-
nio a. C. que se nos tornam melhor conhecidos certos períodos his-
tóricos, os quais, inicialmente, se limitam a áreas geográficas de
pouca extensão. Estas vão-se multiplicando aos poucos para gra-
dativamente se tornarem unidas em um todo. Circunscrevendo-
nos sempre nos limites do berço da nossa civilização, o mundo
mediterrâneo, podemos dizer que a história egípcia para nós co-
meça ±4.000 a. C.: as pirâmides já tinham uma existência de
quase três mil anos, quando as viu com profunda admiração He-

(38). — Ou então, chegaram textos escritos até nós, mas ainda não somos capazes de
decifrá-los (por exemplo a escrita minóica de Creta), ou de entendê-los (por
exemplo a língua etrusca) . Cf. § 41, II.
-- 471 —

:ródoto de Halicarnasso (39). No terceiro milênio vai-se-nos re-


velando a civilização mesopotâmica, no segundo a de Ásia-Menor
-

e das ilhas adjacentes. A história grega não vai além de ±800 a.


C., a de Roma fica com bases mais seguras só a partir de ±400 a.
C., a da Europa ocidental é mais ou menos eqüeva da éra cristã.
Se fazemos abstração de algumas regiões da África e da Asia, an-
tigamente incorporados no Império Romano, e de alguns povos
-"históricos" entre os descobertos nos tempos modernos (por exem-
plo os chineses, os indús na Ásia, e os aztecas no México), foi
só a partir de 1500 que o mundo fora da Europa saiu da fase pré-
histórica. Ainda hoje em dia existem tribos, que pràticamente con-
tinuam a viver no período pré-histórico, embora se lhes diminua
o número num ritmo acelerado.
O período pré-histórico varia, pois, de um povo para outro.
Quando Aníbal atravessava os Alpes (218 a. C.), o mundo civili-
zado ainda não tinha a mínima idéia da existência dos germanos
(40), e os Imperadores romanos, soberanos orgulhosos da oikou-
méne, não sabiam nada dos ameríndios.

§ 26. Períodos históricos.

A praxe de dividir a matéria histórica em certos períodos já


remonta a tempos remotos. E' pouco satisfatória uma indicação
-

meramente cronológica, a operar apenas com datas, porque vio-


lenta as unidades naturais da história. São numerosíssimos os
princípios de periodizar os tempos históricos.
I. Ao descrever a história de um único povo, adota-se mui-
tas vêzes uma divisão de acôrdo com as diversas fases políticas,
.atravessadas por êle. Assim podemos dividir a história do Brasil
em quatro épocas: a pré-cabralina ou pré-histórica (antes de 1500),
_a colonial (até 1822), o Império (até 1889) e a República. Igual-
mente divide-se a história da antiga Roma em quatro períodos: a
Realeza (753?-510? a. C.), a República (até 31 a. C.), o Principa-
.do (41) (até 284 d. C.), e o Dominado (42) (até 476, resp. 1453).

— Herodotus, Historiae II 124-128. — O Egito era, durante o Império Ro-


mano, um país de turismo; chegaram até nós muitíssimas inscrições gravadas,
pelos visitantes estupefatos, nos monumentos.
— Os romanos entraram, pela primeira vez, em contacto com os germanos (os
cimbros e teutões) em 113 a. C. (batalha de Noréia) .
<41). — O Principatus, fundado por Augusto, respeitava as aparências republicanas:
O Imperador era o primeiro cidadão (princeps civium).
<42) . — O Dominatas foi fundado por Diocleciano (284-305) : o Imperador passou a ser
chamado Dominas em relação aos seus súditos (servi).
— 472 —

Outro princípio de periodização, que se segue geralmente


na história do antigo Egito (43) e da China imperial, são as di-
nastias.
Em alguns autores latinos (44) encontra-se um' sis-
tema antropomorfo, que consiste em comparar as diversas fases
históricas de um povo com as idades sucessivas de um indivíduo:
infância, adolescência, maturidade e velhice. A metáfora teve-
repercussão nos tempos modernos (Lessing e Hegel), como have-
mos de ver na quarta parte dêste livro.
Os esquemas I e II podem ser úteis para os que se ocupam:
com os destinos de um único povo, tornam-se insuficientes, porém,
desde que são ultrapassados êsses limites. A quem estuda a história
universal, embora no sentido forçosamente limitado da palavra,,
impõe-se uma periodização de maior envergadura, que não se res-
trinja à consideração das formas estritamente nacionais, mas abran-
ja um número bem maior de fatôres e um ponto de vista mais- .

geral. O momento histórico, em que se efetuou a Independência


do Brasil, é inseparável daquele período histórico que viu nascer -
os vários Estados independentes no continente americano e pre-
senciou a difusão das idéias liberais. Para podermos bem locali-
zar os fatos da história pátria precisamos de uma periodização-
mais geral. Com efeito, desde a Antigüidade o mundo tende a',
unificar-se, embora em grandes intervalos e com interrupções se-
culares. Os anais de um único povo não são destinos isolados, mas'
precisam ser entendidos nas suas relações com um conjunto mais,-
amplo .
A, Antigüidade não chegou a uma divisão unânimemen-
te aceita. Sem dúvida, filósofos e poetas falavam em éras mun-
diais, a que consagraremos algumas palavras na quarta parte dês--
te livro. Mas essas divisões eram mais especulações mitológicas-
do que realidades históricas (45). Os antigos autores de histó--
rias universais, como Diodoro de Sicília, descreviam os destinos
dos vários povos orientais e mediterrâneos, misturando-os )rom
muitos elementos míticos, sem que se esforçassem por estabelecer -
períodos históricos prÓpriamente ditos.

(43). — A divisão da história egípcia por 31, dinastias remonta à obra histórica dcr-
sacerdote Maneton (século III a. C.), que escrevia em grego. Encontram-se.
os fragmentos da sua história em Fragmenta Historicoram Graecorum II, págs_
511-615.
. — Florus, Epítome I, Freei'. 4; Amtniattlis Marcellinus, Return Gestartun XIV
6, 3-4; S. Augustinus, De Vera Religione, XXVI, 48.
• — O romano Varrão dividia a história em três períodos: a época duvidosa (da -
início ao dilúvio), a época mítica (do dilúvio à primeira 'Olimpíada,' em- 776
a. C.), e a época histórica. Cf. Censorinus, De Die Natali 21, 1.
— 473

A profecia bíblica de Daniel (46) contribuiu mutíssimo-•


para que a historiografia cristã adotasse quatro Impérios, cada
um dos quais exerceria sucessivamente o domínio mundial, a sa-
ber: o assírio, o pérsico, o macedônico e o romano (47). No pen-
samento dos cristãos primitivos, inclinadoS que estavam a esperar
a próxima vinda do Senhor, o último dêsses quatro Impérios não
teria sucessor. A dita divisão foi adotada nas crônicas de Eusébio
e Jerônimo, e vigorou durante a Idade Média: só nos séculos
XVI-XVII foi sendo abandonada, devido às críticas que lhe faziam
os humanistas.
Santo Agostinho, interpretando alegèricamente os se-
te dias da Criação, dividiu a história do gênero humano em sete
períodos, seis no tempo, e um na Eternidade, um sábado sem fim:
de Adão ao dilúvio, do dilúvio a Abraão (cada um dos dois com
10 gerações), de Abraão a Davi, de Davi ao cativeiro babilônico,
do cativerio à Encarnação, (cada um dos três com 14 gerações),
da Encarnação ao fim do mundo (48). Também esta periodiza-
ção era seguida pelos cronistas medievos, os quais conheciam tam-
bém uma bipartição: urna antes da Encarnação, a outra depois
dela, por analogia com os dois Testamentos.

§ 27. A tripartição moderna,

A tríade: Antigüidade, Idade Média e Renascença (ou Épo- -


ca Moderna) é uma herança dos humanistas, e tem uma história
interessante. Os têrmos são de origem filológica, não histórica. Os
humanistas, atribuindo valor excessivo ao latim "clássico" de Cí-
cero e Virgílio, desprezavam o latim supostamente "bárbaro" da
Idade Média, chegando a distinguir entre três latinitates: latinitas -
superior (até Constantino Magno), media (até Carlos Magno),
e infima (até a Renascença). A expressão latinitas (ou, tempes-
tas) media, desde o início eivada de desdém pelo latim medieval, ,
foi sendo estendida ao latim que abrange o período entre os sé-
culos VI e XIV (49) . Havia apenas um latim legítimo: o de Cí-
cero, imitado com tanto zêlo pelos humanistas (50).

— Daniel, II, 36-45: a cabeça de ouro, a de prata, a de cobre, e a de ferro; cf. _


VII, 2-27 (as bêstas: o leão, o urso, o leopardo, e o animal espantoso). —
Veja-se Pedro Moacyr Campos, in Revista de História, II, 7 (1951), págs. 15-22._
— O Império assírio foi destruído pelo persa Ciro em 538 a. C.; o persa pelo
trared6n, o Alexandre Magno em 331 a. C.; o macedênio pelos romanos em
168 a. C.
— S. Augustinus, De Civitate Dei XXII 30. — Cf. por exemplo Pernão Lopes .
(ed. citada), pág. 112).
— Neste sentido o têrmo já se encontra nas obras do cardeal humanista Nico-
lau Cusano e do seu amigo Andrea de Bossi (século XV).
— Erasmo (1467-1536) ridicularizava, no seu diálogo Ciceronianus, a mania dos
puristas, que chegavam a evitar formas como laudaberis, laudaharis, etc. (em
vez de laudabere, laudabare, etc.), por aquelas não serem abonadas no texto •
de Cícero.
— 474 —

Não parou aí o desprêzo dos humanistas: acabaram por


menoscabar também a arte e a filosofia medievais, que ficaram
com os nomes depreciativos de "gótica" e "escolástica". Daí a possi-
,

bilidade de passar a ser um conceito cultural e histórico, embora


em sentido negativo, a palavra Idade Média. Não se sabe ao certo
quem foi o primeiro a empregá-la nesta acepção (51), mas desde
,

1688, quando o historiador Christian Keller ou Cellarius publi•


cou a sua Historia Tripertita, foi-se tornando comum o esquema.
entrando finalmente em todos os livros didáticos e em numerosos
trabalhos científicos, acabando por ser uma terminologia de uso
corrente na historiografia moderna. A palavra "Idade Média" é
bastante depreciativa: indicava originàriamente uma interrupção
quase milenária da cultura humana, uma época obscura e caóti•
tica, ignorante e supersticiosa, com uma arte extravagante e uma
filosofia caviladora, ou: "um período milenário durante o qual a
humanidade não tomou banho" (52) . Escreveu Voltaire: Mais
quiconque pense, et ce qui est encore plus rare, quiconque a du
ne compte que quatre siècles dans I'histoire du monde (53),
a saber: a época do apogeu ateniense, a do Imperador Augusto,
a dos Medici em Florença, e a de Luís XIV. Já se vêem as sim-
patias e as antipatias do Século das Luzes: admiração pela Anti-
güidade e pelos tempos modernos, mas desdém altivo pela Idade
Média. Acresce-lhes uma fé inabalável no Progresso do gênero
humano, possibilitado pela reforma da religião, pela emancipação
das artes e das ciências, pela difusão da cultura ocidental em ter-
ras recém-descobertas. Foi só um século depois que o Romantis-
mo conseguiu dar aprêço positivo à Idade Média e à arte gótica.
E o século XIX, o século histórico por excelência, empenhou-se
-

em descobrir os característicos de cada uma das épocas, que her-


dara das teorias esclarecidas.
Logo, porém, se mostrou que a tripartição era muito
deficiente. Damos aqui algumas razões:
O esquema tem apenas valor para a história da civili-
zação ocidental, como se esta fôsse a única existente: uma ilusão
ingênua do Racionalismo! Agora sabemos que fora da nossa es-
fera existem outras culturas veneráveis e autônomas. Ora, delas
prescinde completamente o esquema tradicional.
Mesmo que se aplique a tripartição exclusivamente à
cultura ocidental, pergunta-se com direito se não somos vítimas de

. — O professor C. Horn, em Leida (1620-1670), já introduzira o têrmo Mediam


Aevum na sua obra Orbis Politicus (1667) . Na obra Arca Noae (1666) pro-
vocara grande escândalo por fazer terminar a história da Antigüidade em 400
d. C., em vez de adotar o esquema tradicional dos quatro Impérios de Daniel.
— Cf. Jean. Bodin, § 81, III.
. — A expressão é do historiador francês Jules Michelet (1798-1874) •
. — Voltaire, Le Siècle de Louis XIV, logo no início da obra.
475

'uma ilusão "ótica" ao dividirmos a história em três períodos de


extensão tão desigual. A Antigüidade abrange três ou quatro mi-
Iênios, a Idade Média quase mil anos, e os Tempos Modernos ape-
nas uns quatro ou cinco séculos. E a mesma ilusão verdadeira-
mente egocêntrica fêz com que subdividamos a terceira época,
ou melhor, lhe acrescentemos um quarto período, chamado "con-
temporâneo", a começar em 1789. E' que enxergamos muito bem
as diferenças a pouca distância, mas se tornam confusos os porme-
nores de séculos remotos.
Ora, a historiografia moderna conseguiu revelar a fisio-
nomia própria de épocas mais distantes, chegando a descobrir ne-
las divergências que tornam precária a tripartição. Mostrou, por
exemplo na história greco-romana, a existência de pelo menos três
ou quatro períodos bem diferenciados; igualmente assinalou, na
Idade Média, três épocas de estrutura bastante variada. Destar-
te se desvalorizou o esquema convencional, vindo a ser aplicado,
dentro da tripartição original, a menores unidades cronológicas,
ou até a períodos fora da civilização ocidental. Agora falamos na
Idade Média dos gregos, egípcios e chineses, e na Renascença ca-
rolíngia e otônida. Qual é, então, o sentido desta terminologia?
Outra dificuldade, de natureza mais prática, consiste em
demarcar com precisão os limites de cada uma das três épocas.
Evidentemente, qualquer que seja a data convencionalmente acei-
ta para indicar o início e o fim do certo período histórico, não
pode ter senão valor simbólico e aproximativo: historia non dacit
saltum . Feitas essas ressalvas, cumpre-nos confessar que os espe-
cialistas estão longe de concordar quanto à demarcação dos limi-
tes entre os três períodos. E' principalmente a Idade Média que
apresenta dificuldades, porque quase todos os historiadores a ca-
racterizam de maneira diferente. Quando começou? Em 476, em
312, em 529, em 800, ou até em 31 a. C.? (54). E foi simultânea
a transição da Antigüidade para a Idade Média, ou varia de um
povo para outro e de um país para outro? O reinado de Teodo-
rico o Grande na Itália (492-526) parece-nos, em seus traços es-
senciais, bem "antigo", e o govêrno coevo de Clóvis na Gália
(483-511) já é "medieval". O filósofo Boécio (±485-524), "o úl-
timo romano", pertence à Antigüidade, seu patrício São Bento
(±480-546) já é figura medieval. E nos tempos chamados mo-
dernos: Lutero era homem medievo•ou moderno?

<54). — Em 476 foi deposto o último Imperador romano (Rômulo Augústulo) pelo
capitão germânico Odoacro; em 313 Constantino Magno concedeu a liber-
dade aos cristãos (Édito de Milão); em 529 São Bento fundou o mosteiro
de Monte Cassino, e foram fechadas, por ordem do Imperador Justiniano, as
antigas escolas filosóficas em Atenas; em 800 Carlos Magno foi coroado Im-
perador em Roma pelo papa Leão III; em 31 a. C. o helenismo "oriental",
representado por Antônio e Cleópatra, foi derrotado por Augusto, símbolo do
Ocidente latino.
— 476 =

III. E' dificílimo aplicar um sistema às realidades concre-


tas da história. Ao aplicarmo-lo, temos que nos dar contas do va-
lor muito relativo da periodização escolhida. E' indispensável, --
principalmente em livros didáticos, — certa divisão em períodos,,
mas precisamos saber-lhes bem as limitações, esclarecer-lhes o al-
cance e ilustrar-lhes o conteúdo. Só esta condição pode-nos prestar
serviços úteis, e podemos continuar a empregar a tripartição conven-
cional, que ainda vive à falta de outro esquema mais apropriado.
Fazer-lhe oposição seria um absurdo, visto que a tríade tem sido ,
consagrada pela tradição, e outros esquemas, apesar das suas van-
tagens aparentes, no fundo têm os mesmos defeitos. — Para êste ,
problema, cf. A. C. van Peursen, apud L'Homme et l'Histoire, págs..
77-80.

§ 28. Os estilos.

Das numerosas tentativas modernas, geralmente de cunho,


filosófico,• econômico ou sociológico, para periodizar a história
universal, pretendemos falar na quarta parte dêste livro . Aqui se-
guem algumas palavras sôbre a periodização histórica, derivada de
estilos artísticos ou literários.
I. Os principais têrmos usados na historiografia moderna
são: os estilos românico, gótico, renascentista, barroco e rococó,
como, por outro lado: classicismo e romantismo.
O têrmo "românico" foi forjado pelo arqueólogo francês:
Arcisse de Caumont (1802-1873) com o fim de indicar o estilo
da arquitetura européia entre ±500 d. C. e ± - 1200 d. C.: o estilo
seria a continuação do estilo romano (do Baixo Império) pelos
povos românicos.
A palavra "gótica" remonta, ao que parece, ao arqueó-
logo italiano Vasari (1511-1574), que responsibilizava os gôdos•
pela destruição dos monumentos antigos na Itália e ligava à arte
gótica um conceito depreciativo: Questa maniera fu trovata da i Go-
ti, che per avara ruinate le fabbriche antiche e morti gli architetti
per le guerre, fecero dopo coloro che rimasero le fabbriche di
questa maniera, le quali girarono le volte con quarti acuti e riem-
pierono tutta l'Italia di questa maledizione di fabbriche. . . (55) .
A origem da palavra "barrcco" é questão disputada .
Segundo alguns, seria palavra árabe, adotada pelo português e es-
panhol, significando uma pérola de superfície irregular; segundo=
outros, — mais provàvelmente, — seria palavra medieval, usada
na escolástica, para indicar certo modo de uma figura de silogis-
mo. A expressão nasceu no século XVIII, trazendo consigo, desde,

(55) . — G. Vasari, Vite de' pià eccellenti pintori, etc., Introduzione, c. III.
--- 477 —

o comêço, certa depreciação ao estilo "extravagante", usado na ar-


quitetura dos séculos XVI-XVII e conhecido no Brasil como "es-
-tilo colonial".
Vasari empregou também o têrmo rinascita para desig-
signar o novo estilo usado nas artes, depois de abandonado o es-
tilo grosseiro e desmazelado dos bizantinos: começaria por Giotto
(1266-1336) e culminaria em Miguel-Ângelo (1475-1564) .
A palavra rococó é própria do estilo europeu desde a
-época de Luís XV (1715-1774): é derivada do vocábulo fran-
cês rocaille (ornamentos em forma de conchas) .
O têrmo "classicismo" é bastante equívoco. Originaria-
mente era empregado nas escolas dos jesuítas para indicar os au-
tores da Antigüidade apropriados para serem lidos na "classe".
Como eram os autores mais importantes, a palavra chegou a ser
sinônimo de "modelar, exemplar, valioso para tôdas as épocas".
E devido à veneração que gozavam os produtos literários da Gré-
cia e Roma, "os clássicos de todos os tempos", a expressão foi es-
tendida à Antigüidade inteira e acabou por abranger também as ar-
tes, a filosofia ,e a cultura em geral da Grécia (56) e Roma. Sob a
influência do Romantismo, o têrmo foi sendo empregado para indicar
um estilo literário e artístico de caráter objetivo, formal, quase
formalista, em que a razão prevalece sôbre o sentimento. E afinal,
chegaram a ser chamados períodos clássicos das diversas culturas
nacionais as grandes épocas do passado: por exemplo a Inglater-
ra da Rainha Elisabeth I, a época de D. Manuel I em Portugal
(1495-1521), le siècle de Louis XIV, na França e o apogeu da li-
teratura alemã de 1780-1830, etc. Por extensão todos os auto-
res nacionais de importância primária ficaram com o distintivo
honroso de "clássicos", por exemplo Machado de Assis na literatu-
ra brasileira.
A palavra "Romantismo" era usada pelos inglêses do
século XVII para indicar um conto pitoresco e sentimental, remi-
niscência dos romances medievos, escritos na língua "românica"
ou francesa, e cheios de aventuras galantes e sentimentos eleva-
dos. No século XVIII, o têrmo foi sendo usado na França, já por
Rousseau, no sentido de "melancólico, triste, sentimental". E no
século XIX foi empregado para indicar o novo movimento literá-
rio em oposição ao "classicismo" frio e regulamentado.
II., Os diversos têrmos, cuja origem esboçamos ràpidamente,
:não tardaram a ser estendidos a outros fenômenos históricos. "Ro-
mânico" seria o Império de Carlos Magno; "gótica" a Summa Theo-

<56) . — Atualmente divide-se a história grega muitas vêzes nestes períodos: a época
micênica (até 1200 a. C.), a Idade Média (±1200-650), a época clássica
(±650-338), a época belenística (338-146), a época romana (146 a. C. —
330 ou 395 d. C.), e a época bizantina (330 ou 395-1453).
— 478 --

logica de Tomás de Aquino; "renascentista" a doutrina política de-


Maquiavel; "barroco" viria a ser o têrmo para indicar o absolutismo'
de Filipe II e Luís XIV, a arquitetura de Bramante, a escultura de
Miguel-Angelo, a pintura de Rubens e Rembrandt, a música de Bach
e Hãndel, a poesia de Calderón e Shakespeare, e a espiritualidade=
dos jesuítas e da Contra-Reforma; "rococó" indicaria não apenas a'
arquitetura de Versailles do século XVIII e a porcelana de Sèvres,.
mas também a música de Mozart; "romântica" seria a poesia de
Lord Byron, Shelley, de Musset, a música de Wagner, e a filosofia
de Nietzsche. E' melhor guardar o silêncio sôbre o uso e o abuso'
da palavra "clássico".
Sem querermos negar a êsses conceitos todo o valor, devemos
repetir as palavras já ditas anteriormente . São sistematizações
que não podem ser aplicadas irrefletidamente às realidades his-
tóricas, principalmente por serem transferências um tanto arbi-
trárias de um campo' cultural a outro. Não se generaliza impune-
mente. A música do século XVIII continuava por muito tempo
"barroco", enquanto as artes plásticas já se achavam em pleno "ro-
cocó"; Nietzsche, o grande romântico, compôs as suas obras depois
da morte dos grandes poetas românticos. E depois de 1850? Quan--
tos estilos houve a revezarem-se num período de dois decênios, ou
menos ainda: naturalismo, impressionismo, expressionismo, futuris-
mo, cubismo, tradicionalismo, etc.! Não sejamos vítimas de outra
"ilusão ótica". Mais um inconveniente de uma periodização histórica
por meio de estilos é o fato de trazerem consigo êsses têrmos qua-
se sempre certas associações afetivas, dependentes do gôsto da épo-
ca e prejudiciais à objetividade histórica. A evolução das palavras-
"gótica" (57) e "classicismo" é significativa. Podemos, porém, ser-
vir-nos das expressões estilísticas, sempre que lhes estabeleçamos o
alcance e o conteúdo .

D. O ASPECTO CULTURAL.

§ 29. A história da civilização.

Como já vimos,, os historiadores, até o século XVIII, presta-


vam uma atenção que nos parece demasiada, ao aspecto político, di-
nástico, diplomático, bélico e constitucional da história. Houve en-

(57) . — Lembramos umas linhas de Molière (Théâtre Complet, Paris, 1883, vol. VIII,.
págs. 305-306):
Et non du fade gout des ornements gothiques,
Ces monstres odieux des siècles ignorants,
Que de la barbarie ont produits les torrents,
Quand leur cours, inondant presque toute la ferre,
Fit à la politesse une mortelle guerre,
Et, de la grande Rome abattant les rarnparts,
Vint avec son empire étouffer les bem= arta.
Cf. N. Boileau, L'Art Poétique II 22.
479

tão uma forte reação, a exigir que se estudassem também outros fe-
nômenos culturais na sua evolução e mútua conexão. Inaugurou-se
a história da civilização, que poderíamos dividir em duas partes: a
história geral e as histórias particulares.
A história geral da civilização abrange, em tese, tôda a
matéria histórica, sem excluir a política e os dados biográficos. Mas
a focaliza de maneira bem diferente. Interessam-lhe nada menos:
que os acontecimentos políticos própriamente ditos, as várias reali-
zações artísticas e científicas, a estrutura social e os costumes do
povo, a vida econômica e religiosa,• etc. Ou antes, para a história
da civilização a política não passa de um dos numerosos fenômenos•
importantes do passado. Voltaire foi um dos primeiros a cultivar
êsse gênero de historiografia, escolhendo por tema o século áureo
de França: Le Siècle de Louis XIV . A obra, que presta bastante
atenção às invenções úteis e ao progresso das artes mecânicas e das
ciências, interessa-nos hoje mais por ser uma tentativa nova do que
por sua profundidade, e o mesmo se pode dizer do seu Essai (58)
A partir do século passado a história da civilização chegara a ser
gênero tão comum que acabou por ocupar também um lugar nos
livros didáticos. Destacamos aqui dois trabalhos modelares entre•
os muitos que poderíamos mencionar: A Cultura da Renascença na
Itália, do historiador suiço J. Burckhardt (1a. edição de 1867), e
O Outono da Idade Média, do historiador holandês J. Huizinga (1a.
edição de 1924) . As duas obras foram várias vêzes reeditadas nas
línguas originais, e traduzidas para muitos outros idiomas. As obras ,

de Will Durant e Hendrik van Loon e de tantos outros autores em_


voga, que pretendem abranger a história da civilização ocidental na
sua totalidade, prometem mais do que são capazes de dar: em geral,
decepcionam por não serem isentos de certa superficialidade e até
de certo sensacionalismo. Raras vêzes se baseiam em pesquisas pes--
soais.
As diversas espécies particulares da história da civili-
zaçãó acompanham a evolução de certo ramo da cultura humana
através dos séculos. A ciência das antiquitates publicae et privatae,„
praticada com tanta aplicação pelos humanistas, poderia ser con-
siderada como a precursora dêste tipo de historiografia. Não pre-
tendemos dar aqui uma lista completa das diversas matérias que se-
prestam a uma pesquisa histórica: basta dizermos que tôdas as ati-
vidades humanas, tôdas as realizações culturais, tôdas as institui-
ções sociais, tôdas as ideologias e doutrinas podem ser, — e, desde
o século passado, de fato são — objetos de estudos históricos. Men--
cionamos apenas:

(58) . — Essai sur les Moeurs et l'Esprit des Nations (1756) .


— 480 —‹

A História das Artes. A título de curiosidade, damos aqui


-,Os nomes de duas obras magistrais, que tiveram grande repercussão
nas idéias dos coevos e da posteridade: uma de Giorgio Vasari
(1511-1574), discípulo de Miguel-Angelo: Vite de' pià eccellenti
pintori, acultori ed archiltetti, do ano 1550; a outra do arqueólogo
alemão João Joaquim Winckelmann: (1717-1768): A História da
_Arte na Antigüidade, do ano 1764. Aquela exaltava a arte contem-
porânea da Itália, desprezando a gótica; esta acabou com o Bar-
roco, exaltando a simplicidade sublime da arte grega (59) e pre-
parando o caminho para o chamado "Neo-Humanismo" de cunho
estético-ético, que teve grande repercussão na Alemanha (Lessing,
Goethe, Schiller, Humboldt, etc.). A história das artes já era tra-
tada na Antigüidade, mas de maneira menos sistemática, por exem-
plo por Pausânias (60) . — Atualmente conhecemos também a his-
tória da Dança, da Fotografia, do Cinema, etc.
A História da Literatura e da Música. Os primórdios
, dêsse ramo já se encontram na Antigüidade (Aristóteles, Quintilia-
no, etc.) .
A História da Filosofia, igualmente inaugurada por Aris-
tóteles. Desde o século passado estuda-se também a história das
outras ciências e da técnica.
A História do Direito e das Instituições Públicas, já pra-
ticada pelos humanistas, os quais reencetaram uma tradição que re-
monta a Aristóteles e Plínio-o-Velho.
A História das Instituições Privadas, que trata da evolu-
, ção das coisas da vida cotidiana: a escola, a educação, a família, o
casamento, a moda, os trajes, os costumes populares, o comércio, as
indústl ias, etc.
A História das Religiões, que data do século XIX.
A História das Línguas, que data igualmente do século
XIX.
Nesses diversos ramos de histórias particulares empre-
-ga-se geralmente o método comparativo, que consiste em confrontar
.as realizações artísticas e científicas, as doutrinas e as praxes reli-
giosas, etc. de uma época com as de outros períodos com o fim de
lhes estabelecer os feitios originais. Assim procedem principalmen-
te a lingüística, a história das artes e da literatura, procurando, além
.disso, as várias interinfluências.
Por mais estranho que possa parecer, as palavras "cul-
tura" e "civilização" são relativamente recentes na sua acepção

(59). — A Renascença italiana fôra inspirada principalmente pela arte romana.


, (60). — Pausânias (século II d. C.) descreveu na sua "Viagem pela Hélade" muitas obras
de arte.
— 481 —

Dante usava o têrmo civiltà, reminiscência do baixo latim


<61), para indicar o estado de uma sociedade bem ordenada e obe-
,diente às leis. Em latim clássico empregava-se cultura (no sentido
subjetivo da palavra), mas nunca sem um genitivo complementar:
„cultura animi, cultura philosophiae, etc. A palavra entrou, por um
,empréstimo erudito, nas línguas modernas, principalmente no fran-
cês, mas ainda no século XVII era sempre combinada com um geni-
tivo, por exemplo culture de l'esprit. Desde o sécuto XVIII começou
a ser usado isoladamente para se tornar comum no século XIX,
-também como a palavra civilização, que originàriamente indicava
"disciplina interna" e "boas maneiras" (62).
Atualmente as duas palavras "cultura" e "civilização" são mui-
tas vêzes tratadas como sinônimas, principalmente na França e na
Inglaterra. Os alemães e os russos preferem fazer uma distinção
•entre elas: "civilização" é, nesta terminologia, o conjunto das reali-
zações técnicas e utilitárias, uma coisa mais ou menos exterior, ao
- passo que "cultura" indica as esferas mais elevadas da vida huma-
-ná: as artes, a religião, a filosofia, e as ciências.

E. O ASPECTO MATERIAL.

§ 30. O homem e o mundo material.

Incluimos no objeto material da história também os "vários


-fatôres que influiram nos atos humanos", distinguindo entre fatôres
permanentes e pessageiros. Qualquer um dêsses fatôres presta-se a
um exame histórico, contanto que seja relacionado com os atos hu-
manos. Destarte pode-se escrever um estudo sôbre a influência do
clima, das três (depois da imigração japonesa, das quatro) raças,
-da situação geográfica na formação política e social do Brasil, e do,
povo brasileiro. Além disso, há numerosas outras possibilidades.
Escreveram-se estudos históricos, por exemplo sôbre o "Gato na An-
tigüidade" e "O Petróleo nos Tempos Modernos". Tornam-se tra-
balhos históricos por relacionarem-se o seu objeto com a vida hu-
mana: não fôsse assim, seriam estudos biológicos ou mineralógicos.

Q61) . — Cassiodorus, Varie IX 14,8: Gothorum laus est civilitas eustodita. — A


palavra francesa civilisation, que depois seria adotada pelos outros idiomas
europeus, data do século XVIII.
62) . — A palavra francesa "civilisation" foi sancionada pelo Dictioruudre de l'Acadómie
trançaise só em 1835.
CAPITULO SEXTO

A MESTRA DA VIDA

§ 31. O prestígio da história.

Quase tôdas as civilizações de que temos conhecimento, bus-


caram nas lições do passado normas de agir, e exemplos inspirado-
res, ou então, motivos de consôlo nos seus pesares. Com efeito, o
prestígio da história foi sempre muito grande, apesar de não lhe-
faltarem, de vez em quando, adversários.
I. Os gregos, em geral, estimavam bastante a história, con-
fiando-a à proteção especial de uma das nove musas: Clio (1).
Apreciavam-na também vários filósofos. E' verdade, para Platão ,
o mundo histórico, sujeito que está à lei da eterna mudança, não,
podia ser o objeto de um conhecimento genuíno, e até o realista .

Aristóteles julgava a história menos filosófica e séria do que a poe-


sia, porque esta é mais universal e aquela tem por objeto o singular
(2). Não obstante, aproveitava-se muitas vêzes dos resultados da
história, e não desdenhava fazer êle próprio pesquisas histó-
ricas (3). Entre os seus discípulos achavam-se historiadores ilus-
tres (4). Cícero elogiou a história com estas palavras: testis tem- -

porum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetus-


tatis (5). Tornou-se célebre a sentença do príncipe da eloqüência.
romana, principalmente a expressão feliz: magistra vitae. Os cris-
tãos avaliavam bem o caráter histórico da Encarnação, já indica-
do por São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, é pois vã a nossa pre-

. — Clio seecla retro memorat sermone soluto, e Clio gesta canens transactas tem--
pora reddit, assim começam dois poemetos, consagrados aos ofícios das nove
Musas e muito populares na Idade Média: êste de um poeta anônimo, aquêle-
de Florus (século II d. C.) . — Cf. E. Baehrens, Poetae Latini Minores,
(Lipsiae 1871 e 1882), vol. III pág. 242, e vol. IV 279. — Os nomes das.
nove Musas são enumeradas, pela primeira vez, por Hesiodus, Theogonia, 77-79..
. — Aristóteles, Poetica, 9. — O moralista Sêneca observa (Quaestiones Naturales
III Praef. 5): Consempsere se quidam, dum acta regula extemorum compo.
nunt quaeque pess., invicem ausique sunt populi. Quanto satius est sua mala,
erstinguere quem aliena posteris tradere?
. — Por exemplo na sua obra histórica: De Republica Atheniensitnn.
(4)• — Por exemplo Dicearco (±300 a. C.) que escreveu a primeira história da civili-
zação grega ( :"Vida da Hélade"), e Aristóxeno de Tarento (século III) que
passa pelo pai da biografia literária.
(5). — Cícero, De Oratore, II 9, 36. — Cf. as palavras de Políbio (Historiae I 1,.
1): "Os homens não possuem corretivo melhor do que o conhecimento dos.
fatos do passado".

Revista de História a.• 20


— 484 —

gação, é também vã a nossa fé" (6), e serviam-se, desde os tempos


primitivos da Igreja, de dados históricos para confirmar os aconte-
cimentos da Bíblia e para refutar as objeções dos adversários (7) .
Foi só na época do Racionalismo nascente, nos fins do
século XVII, que se manifestou uma desconfiança mais ou menos
sistemática acêrca do valor do conhecimento histórico . Nem é de
estranhar: o conhecimento histórico está longe das idées claires et
distinctes, apregoadas por Descartes como as únicas legítimas. Des-
de que se considera o espírito humano como tabula rasa, e se nega
a unidade substancial da alma com o corpo, o homem tende a ser
um animal "a-histórico". •Malebranche diz que os historiadores nos
comunicam os pensamentos de outros sem êles próprios pensarem:
Adão, no Paraíso Terrestre, possuía a ciência perfeita sem saber na-
da da história . Os racionalistas perseguiam os historiadores com
os seus sarcasmos, dizendo que o maior especialista sabia menos
da história romana do que a empregada de Cícero, e assinalando,
com um deleite mal rebuçado, as numerosas incoerências da tradi-
dição, os contrasensos, os absurdos. Só especulações metafísicas,
aliás bem cêdo abandonadas pelo Racionalismo, só demonstrações
geométricas e experiências físicas são capazes de nos darem a ver-
dadeira, sabedoria.
Evolução paradoxal! O próprio Racionalismo, que come-
çara por negar o valor ou até a possibilidade da história, acabou
por consolidar-lhe as bases científicas. Nas suas lutas contra a
tradição, que julgava arbitrária e tirânica, via-se obrigado a indagar
e a examinar a mesma tradição. E,, passados os primeiros comba-
tes, evidenciou-se que nela nem tudo era falso. Selecionando, cri-
ticando e ponderando, abriram caminho para uma tradição escla-
recida e baseada em alicerces científicos. Desde os meados do sé-
culo XVIII, a história começou novamente a exercer uma grande
influência no pensamento das pessoas cultas, e o século passado foi
a época áurea da historiografia. O "senso histórico" foi-se apoderan-
do de tôdas as ciências, e resultou em certo relativismo histórico,
conhecido sob o nome de "historicismo".
W. Em nome das fôrças vitais protestou Frederico Niet-
zsche contra a tirania da história, voltada que estava para o pas-
sado em vez de se dirigir para o futuro: "tudo o que possui vida,
deixa de viver, logo que é submetido a uma operação histórica, sen-
do cortado em pedaços; um exame justiceiro de coisas vivas acaba

. — São Paulo, Epístola aos Coríntios, 1 15, 14 .


. — Mencionamos apenas S. Augustinus, De Doctrina. Christiana, II 28, 42-44.
— 485

por diluí-las em conhecimentos puros e abstratos" (8). Mas sua


voz foi a de um solitário: a história seguiu confiantemente o seu
caminho, embora sèriamente ameçada de ficar absorvida pela so-
ciologia. No século atual insurgiu-se Paul Valéry contra a ciência
histórica, dizendo: "L'histoire est le procruit le plus dangereux que
la chimie de I' intellect ait élaboré... .11 fait rêver, il enivre les peu-
ples, leur engendre de faux souvenirs, exagère leurs réflexes, entre-
tient leurs vieilles plaies, les tourmente dans leur repos, les con,
duit au délire des grandeurs ou à celui de la persécution, et rend
les nations amères, superbes, insupportables et vaines. L'histoire
justifie ce que fon veut. Elle n'enseigne rigoureusement rien, car
elle contient tout, et donne exemples de tout (9) .
Neste capítulo pretendemos examinar algumas das questões
suscitadas por aquêles que elogiaram e censuraram a nossa ciência,
procurando estabelecer a importância da história, e descrever os
perigos que a põem em perigo. Na terceira parte dêste livro torna-
remos a falar em problemas semelhantes, encarando-os debaixo de
outro ponto de vista.

§ 32. A importância da história.

O estudo dos acontecimentos do passado parece-nos impor-


tante, porque:
I. A história faz-nos conhecer a nossa própria origem, reve-
lando-nos assim uma parte considerável da nossa existência no tem-
po. O homem quer compreender-se a si mesmo: é o esfôrço cons-
tante do espírito humano. Quer saber, quem é, de onde vem, e para
onde vai. Ninguém pode escapar por completo a perguntas dessa
natureza. Mas o homem culto tem a obrigação de aprofundar-lhes
o conteúdo e de estudá-las metõdicamente. Ora, a filosofia, guiada
ou não pela teologia, dá a êsse respeito a última resposta ao alcan-
ce do homem. A história, porém, encara o homem na sua situação
concreta no tempo. Sem dúvida, é incapaz de nos dar informações
sôbre a nossa proveniência metafísica ou sôbre a nossa destinação
transcendente. Mas, num plano inferior, ainda que muito real, mos-
tra nos as numerosas raízes resistentes que nos prendem ao passa-
-

do, deixando-nos entrever o caráter próprio da situação atual. Com


efeito, o mundo em que vivemos, é o resultado de vários fatôres.

. — Paráfrase de um texto .de Nietzsche: Reflexões contrárias ao Tempo, II 7


(em alemão: "Unzeitgemãsse Betrachtungen"), de 1873-1876. — Para a.
tomada de posição de Nietzsche ante a história, cf. M.-A. Bloch, apud L'Horn-
me et i'Histoire, págs. 165-169.
. — P. Valéry, Regards sur le Monde actuei (Paris, Gallimard), 1945, pág. 44.
Cf. do mesmo autor, Variété IV (Paris, Gallimard), 1939, págs. 129-142-
As palavras de Valéry provocaram protestos violentos de vários lados, cf.
La Via Intellectuelle LXIV (1936) e Revue des deux Mondes CIII (1933),
— 486 —

históricos. Pois não morreu o passado junto com os momentos fu-


gitivos que o constituiam, mas continua a viver em nós, quer o acei-
temos e veneremos, quer o combatamos e rejeitemos. E' uma fôr-
'ça que não se deixa eliminar da nossa existência. Compreendeu-o
muito bem a escola de todos os tempos: para formar cidadãos, pa-
ra iniciar as crescentes gerações na tradição pátria, para integrá-
las no conjunto social, político e religioso, tem-se valido, não só da
literatura nacional, como também da história. Le passé, le passé
vivant, le passé tradition, le passé , expérience, le passé qui engen-
dre le présent, le passé patrimoine d'une nation, le passé racine du
patriotisme et de l'unité, qui donc le transmet, sinon Penseignement
historique? (10). Evidentemente, são bem diferentes as preocupa-
ções das crianças e dos adultos, dos leigos e dos especialistas, ao
se dirigirem à história: mas todos procuram nela melhor compreen-
são do presente, cada um de acôrdo com o seu grau de desenvol-
vimento. Talvez não haja outra ciência tão apropriada a popula-
rizar, no sentido bom da palavra, os seus resultados.
II. Não estudamos a história com o fim exclusivo de melhor
compreendermos o presente: dedicamo-nos ao passado também por
causa do próprio passado. Interessa-nos aí, principalmente a nós, os
adultos, não só o factum, mas igualmente o fieri. Os conhecimen-
tos históricos possuem valor intrínseco, podendo-nos livrar, até
certo ponto, de uma mentalidade egocêntrica. O homem "a-históri-
co", encarcerado que está na atualidade, tende a tornar absolutas as
normas que encontra no seu ambiente. E' homem pouco "experi-
mentado". Os melhores entre nós tentam, porém, escapar às limi-
tações que lhes são impostas pelo espaço e pelo tempo. Já o sabia
Homero: elogiava a Ulisses, porque êste visitara muitas gentes,
chegando a conhecer-lhes a mentalidade (11) . A "esperteza" do
herói homérico baseia-se na sua "experiência". Uma viagem por
terras desconhecidas faz-nos perder certas prevenções e alarga-nos
o horizonte intelectual, contanto que sejamos abertos e sinceros.
Poderíamos qualificar o estudo da história de uma viagem verti-
cal: o espírito humano, viajando através dos séculos,, pode ter as
mesmas conseqüências salutares. O próprio Descartes, de modo
algum apreciador da história, observava: c'est quasi le même de
conversar avec les livres das autres siècles que de voyager (12).
Com efeito, por nos descortinar a vida humana em tempos remotos,
a história nos pode curar de certas tendências egocêntricas, ineren-
tes à nossa natureza: mostra-nos outras possibilidades, outras so-
luções, outras mentalidades, outras instituições. E quem as obser-

,( 10 ) . — F. Charmot, S. J., La Teste bien faicte, Paris, 1945, pág. 177.


Á 11) . — Homerus, Odyssea, I 3. — O texto já foi citado por Diodorus Siculus,

( 12 ) . — 122.1;7sac'artIes,1, D2isco
. urs de ta Méthode (Paris, Finam:clarim), 1935, pág. 6.
- 487 -

-var com isenção de espírito e com bastante atenção, deverá reco-


nhecer que a comparação dos tempos idos e atuais nem sempre é
--vantajosa para nós. Destarte se vai criando em nós certo relati-
'-vismo, que nos pode livrar de alguns preconceitos contemporâneos e
.•supostos títulos de orgulho, os quais, infelizmente, muitas vêzes de-
turpam o técnico sem formação histórica.
III. A história esclarece, pois, as raízes do presente no pas-
sado. Mas, conhecendo-se bem o presente, que contém os germes
:-do futuro, não será possível predizer-se o futuro, pelo menos nas
linhas gerais? Assim a história, por abranger as três partes do tem-
-po, ganharia importância superior a tôdas as outras ciências. Mas
exortam-nos à modéstia as palavras do Padre Vieira, apesar de ser
êle autor de um livro que traz o título paradoxal: "História do
"Futuro", em que diz: "O homem, filho do tempo, reparte com o
mesmo a sua ciência ou a sua ignorância: do presente sabe pouco,
-do passado menos, e do futuro nada" (13) . E' uma verdade óbvia,
-entretanto, muitas vêzes esquecida por aquêles historiadores e fi-
lósofos que sobrecarregam Clio com um ônus que lhe ultrapassa
.as fôrças. O político Bismarck, homem pragmático, motejava com
as locubrações dos historiadores-adivinhos, dizendo: "Querendo
saber com certeza o que não acontecerá, faço-me informar pelo sr.
- Momm sen do que deve acontecer". O historiador não pode predi-
zer o que há de acontecer daqui a cinco minutos: não é profeta.
Quando muito, é mais capacitado do que outros, — ceteris paribus,
— para fazer um prognóstico, não categórico, mas hipotético. Co-
. nhece bem, suponhamos, as tendências vivas do tempo atual em
busca de efetividade; conhece muito bem numerosas analogias his-
-tóricas que lhe mostram soluções possíveis de problemas seme-
lhantes; em suma, entende bem o rumo geral do tempo. Mas aí pá-
.ra irrevogàvelmente a sua ciência do futuro. Pois das tendências
atuais conhece forçosamente só uma parte mínima, sempre exposto
,a enganar-se na avaliação do seu valor existencial. Outrossim, o
acaso e as livres decisões humanas, imprevistas e incalculáveis, po-
,dem sempre frustrar as tendências mais promissoras e fazer ven-
cedoras as que neste momento se subtraem aos nossos olhos. A his-
--tória é contrária a cálculos exatos sôbre o futuro, porque não ad-
mite repetições mecânicas de casos idênticos, mas apenas conhece
situações análogas, sempre suscetíveis de desfechos diferentes.
IV. Os laços, que prendem o historiador à moral, já datam
-da Antigüidade: lembremo-nos das palavras ciceronianas: magistra
-vitae. A historiografia "pragmática" (14), inaugurada por Tucídi-

,413). — Pe. Antônio Vieira, História do Futuro, Ed. e Publ. Brasil, São Paulo, 1937,
pág. 32.
.414) . — Cf. § 3, IV.
488 —

des e'prosseguida até aos tempos modernos,, pretendia extrair doe:-


fatos históricos exemplos inspiradores ou horrendos, para uso dos-
príncipes, estadistas, governadores e militares. Tal ponto de vista
está hoje em dia abandonado. Pois a história, por relatar aconte-
cimentos únicos do passado, é incapaz de nos ministrar regras de'
conduta, diretamente aplicáveis às circunstâncias atuais. Ela faz
muito melhor. Não nos torna prudentes para certa ocasião deter-
minada, ensinando-nos a repetir um ato prudente do passado: nos
torna sábios para sempre . A história é a experiência coletiva da.
humanidade: alarga-nos o terreno forçosamente limitado das expe-
riências pessoais da vida e do homem. E' uma escola de humanis-
mo: nada mais interessante para o homem do que o homem. E a
história, no fundo, não fala senão das formas variadas de que se tem
revestido o Homem Eterno através dos tempos. Faz-nos assistir
às peripécias dramáticas do homem que luta, sofre e conquista, que-
vence e sucumbe, que peca, se obstina e se levanta, que anseia ar-
dentemente pela felicidade sem jamais alcançá-la por completo.
Na história desenrola-se o drama do eterno Lutador e eterno So-
fredor, ao qual não podemos assistir sem experimentar em nós sen-
timentos e emoções semelhantes àquêles que Aristóteles designou ,
com a palavra" catarse", isto é, "purificação" (15) . O júbilo e a
miséria de outrora, as esperanças e os temores dos antepassados, as
vitórias e as derrotas de gerações há muito falecidas, transformam-
se para nós, os observadores das vicissitudes humanas, em conhe-
cimentos e reflexão. Reflexão sôbre o quê? Sôbre a riqueza e a ,
pobreza da condição humana . Concluamos com uma palavra des
Paul' Hazard: faime la belle rigueur d'un esprit mathématiq-ue;
mais un esprit tourné vers l'hisloire me para:ff, je I'avoue, plus hu-
main (16).

V. Se já não podemos aceitar a história como a moralista


meio pedante dos séculos anteriores, podemos continuar a venerá-
la como orientadora da vida num sentido mais modesto e, talvez,
mais sublime e simpático. Ainda hoje ela nos propõe ensinamen-
tos valiosos, tirados do passado, e previne-nos contra certos peri-
gos contemporâneos que, embora latentes à grande maioria, podem_
se tornar catastróficos para o bem-estar e até para a sobrevivência
da sociedade; também patenteia as tendências positivas que de-
vem ser aproveitadas para criarmos um futuro melhor. E confirma
os seus ensinamentos com analogias do passado: exemplos glorio-
sos, não para os repetirmos, mas para neles buscarmos a nossa ins-
piração; exemplos horrorosos, não como ameaça de um Destino ine-

(15) . — Aristóteles, Poetica, 6. — Lembremos a palavra sublime de Virgílio: Sung::


lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt (Aen. 1 462).
(16). — P. Hazard (Revue des deus Mondes, CIII, 1933, 15 sept., pág. 189) .
— 489 —

lutável ou de uma Lei rigorosa, mas para evitarmos as loucuras e


os desvios do passado. Suas lições são impressionantes por serem
concretas. Contràriamente ao que muitos modernos pensam, jul-
gamos nós que os grandes historiadores têm algo de um moralista: c>
estudo dos acontecimentos humanos leva-nos espontâneamente a
uma reflexão "filosófica" (17) e a uma apreciação "axiológica".-
Neste ponto Burckhardt e Toynbee não são diferentes de Tácito
ou Políbio. Em uma palavra, a história continua a ser magistra
vitae, mas, infelizmente, nem sempre tem alunos dóceis.

§ 33. Desvios da história.

Vários desvios podem desacreditar a historiografia: pretende-


mos examinar os mais sérios neste parágrafo. A história não é li-
teratura nem ciência natural: é ilegítima tôda e qualquer invasão ,
das duas no terreno da história. A história é o estudo de fenôme-
nos relativos, mas a relatividade do seu objeto não a obriga a ade-
rir a certo "historicismo". E afinal, a história não atinge a objetivi-
dade das ciências naturais e matemáticas, mas isso não a deixa en
tregue a um subjetivismo.
I. Tôda a Crítica Histórica, nos séculos anteriores à Êra
das Luzes, resumia-se, por assim dizer, nestas palavras de Cícero
(18): Nam quis nescit primam esse historiae legem ne quid falsi
dicere audeat? deinde ne quid veri non audeat? ne qua suspicio
gratiae sit in scribendo? ne qua simultatis? Todos os autores da An-
tigüidade, da Idade Média e da Renascença concordam nestes pon-
tos: o historiador não deve mentir, mas precisa ter a coragem de di-
zer a verdade, por mais desagradável que seja, e precisa ser impar-
cial na exposição dos fatos. São sempre os mesmos lugares comuns-
que encontramos desde Cícero até Fénelon (19) . Mas, logo de-
pois de terem proclamado essas verdades à la Palisse, entram, com
um afinco muito maior, em questões literárias, dando regras mais-
ou menos pormenorizadas relativas à composição "oratória" da obra
histórica. Corri() já vimos, a história ainda não se emancipara, fa-
zendo parte da literatura ou da moral, ou então, das duas.
Com efeito, quase todos os grandes historiadores foram gran-
des literatos: Heródoto, Tuc{dides, Tito-Lívio, Tácito, Voltaire, .

. — O têrmo "filosofia" não deve ser entendido aqui no seu sentido técnico.
. — Cícero, De Oratore, II 15, 62.
(19). — Fénelon escreveu em 1714 Lettre sur les Occupations de l'Académie française-
(publicada em 1716), cujo capítulo VIII é intitulado: Projet d'un Traité sur
O autor adere, como é muito natural . no seu tempo, à história
l'Histoire.
"pragmática", cf. logo no início: L'Histoire est né4 trunoins três importante:
c est elle qui nous montre les grands exemples, qui fait servir les vices mê-
mes des méchants à l'instruction des bons, qui débrouille les origines et qui
explique par quel chemin les peuples ont passés d'une forme de gouverne-
ment à une autre.
— 490 —

Montesquieu, — e também no século XIX, depois de nascer a no-


,

'va concepção, os grandes mestres se mostraram grandes estilistas:


Macaulay, Carlyle, Guizot, Renan, Ranke, Burckhardt, e Alexan-
dre Herculano. Ao grande público êsses nomes muitas vêzes são•
conhecidos não por causa dos seus méritos históricos, mas como au-
tores clássicos da literatura nacional. As obras técnicas da histo-
riografia moderna, que existem ao lado das obras sintéticas, não
são lidas senão pelo grupo relativamente pequeno de especialistas.
A exposição artística da matéria histórica continua a desem-
penhar um papel de suma importância, mas isso não quer dizer
que a historiografia seja literatura. Na literatura o autor tem a
liberdade de seguir o caminho de uma imaginação livre, limitada
apenas pelas exigências intrínsecas da realidade artística que quer
mostrar aos leitores; na historiografia a imaginação é disciplinada
por uma obediência incondicional aos fatos cientificamente verifi-
cados. Na literatura o autor pode defender qualquer tese que seja
compatível com o seu assunto; na historiografia a tese é condiciona-
da por fatos autênticos. Na literatura as belas formas do estilo
,e a magia das palavras são fatôres essenciais; na historiografia são
fatôres não sem importância, mas sempre acessórios.
O historiador é obrigado, como cada um que se serve da pa-
lavra, a escrever bem,, mas o estilo de uma obra histórica não pode
emular o dos poetas nem o dos oradores . Deve ser simples e claro,
sem se perder em metáforas rebuscadas; deve evitar as hipérboles
e o emprêgo de adjetivos desnecessários; deve fugir, antes de mais
nada, à retórica vã. A retórica fútil que tenta encobrir a pobreza
das idéias mediante palavreado oco, é, no dizer dos inglêses, the
harlot of the arts, mas desfigura muitíssimas obras pretensamente
históricas. A simplicidade e a sobriedade não excluem uma con-
cepção artística nem um entusiasmo apropriado ao assunto, e sim
uma declamação ostentativa de belas frases sem substância e sem
pensamento. Concluamos estas observações com as palavras do
'grande prosador Newman, que se formou pelo estilo do historiador
'Gibbon: The mere dealer in words caces little or nothing for the
subject which he is embellishing, but can paint and guild anything
whatever to order; whereas the artist, whom I am acknowledging,
out what he thinks of what he feels in a way adequate to the thing
, ‘out what he trinks of what he feels in a way adequa» to the thing
spoken of, and appropriate to the speaker (20) . Em hipótese al-
guma, o historiador pode ser dealer in words; sua obra ganhará em
esplendor, se fôr verdadeiro artista . Mas escrever bem é uma das
-suas ,graves obrigações, e cada um pode adquirir um bom estilo

, -(20) . — John Henry Cardinal Newman, Literatura, in The Ideei of a University, Lon-
don-New York, etc., 1939, pág. 285.
— 491 —

`histórico", mesmo que não seja "artista", pela leitura constante dos
grandes historiadores e por contínuos exercícios práticos.
Quanto ao segundo ponto: a história não é ciência natu-
ral, podemos ser breves, visto que já falamos repetidamente nesse
assunto. Sob a influência do Positivismo e Evolucionismo parecia
que a história ia sendo absorvida pela sociologia ou pela biologia.
"Era a época das chamadas leis históricas, interpretadas no sentido
da física: relações constantes (e, às vêzes, consideradas como abso-
lutamente necessárias) entre dois fenômenos: só a esta condição
a história mereceria o título soberbo de "ciência". Assim pensavam,
na França, Taine (21); na Inglaterra, Henry Thomas Buckle (22);
na Alemanha, Karl Lamprecht (23). Os três foram grandes his-
toriadores, e seria uma injustiça dizer que não tenham contribuído
para o progresso da nossa ciência. Não podemos, porém, concor-
dar com os seus pressupostos filosóficos. A história é uma ciência
eminentemente descritiva, tendo por objeto os atos humanos, que
são concretos e singulares. Na terceira parte dêste livro pretende-
mos aprofundar essa noção.
O historiador examina sem preconceito as várias dou-
trinas, os vários ideais e as várias formas de vida nos tempos pas-
sados, esforçando-se por "reviver" as experiências alheias. Conse-
gue colocar-se mentalmente no lugar das pessoas históricas, ou me-
lhor: com certo sentimento doloroso percebe que jamais o conse-
guirá por completo, visto que é sempre da sua própria "situação"
"histórica que procura aproximar-se de outras culturas. Assim vai
avaliando cada vez mais o valor relativo da sua própria concepção
da vida e do mundo. Aí ameaça o perigo do relativismo histórico ou
do "historicismo", que consiste em eliminar tôdas as normas abso-
lutas do processo histórico. Conseqüentemente, cada período teria
direito à sua moral, à sua verdade, a seu Deus, e a seus ídolos.
Não existiriam normas objetivas, sendo que elas seriam apenas fa-
ses de uma evolução mecânica ou biológica, ou então seriam deter-
minadas por sua "fôrça existencial". Em Spengler encontramos a
expressão clássica do historicismo moderno: "Não há verdades eter-
nas. Tôda e qualquer filosofia é apenas expressão da sua época, e
só a ela pertence" (24), e: "Nenhuma frase de Heráclito, Demó-
crito ou Platão é verdadeira para nós, a não ser que a tornemos
verdadeira" (25).

(21). — Cf. § 101.


(22) . — Henry Thomas Buckle (1821-1862) escreveu History of Civilization in En-
gland I-11 (1857-1861), obra inacabada.
— Karl Lamprecht (1856-1915) escreveu, entre outros livros: História da Ale-
manha (al.: "Deutsche Geschichte") em 19 volumes (1891-1909) .
— Oswald Spengler, A Decadência do Ocidente (ed. alemã, ed. 76-81), I pág. 155.
— Ibidem, II pág. 66.
— 492 —

O relativista histórico é, no fundo, um cético. E' impossívet


discutir-se com êle, pois, como Aristóteles observou, não se discute-
com uma planta (26) . O cético afirma o que nega, e vice-versa.
Assim faz o relativista histórico. Por considerar tudo como relativo
e não admitir nada como absoluto, chega a contradizer-se: sustenta
como uma verdade absoluta o seu relativismo. Outrossim, tal ati-
tude é também pràticamente impossível: daí as inúmeras incoe-
rências nos livros de Spengler e outros relativistas, que não se can-
sam de nos apresentar novas verdades e de refutar velhos erros.
Sem dúvida, neste mundo não encontramos o Absoluto, só coisas e-
fenômenos relativos, mas o mundo relativo existe apenas graças,
à existência do Absoluto, a que podemos subir mentalmente me-
diante a contemplação das coisas relativas e contingentes.
IV. A natureza da matéria histórica compadece-se dificil-
mente com uma atitude absolutamente objetiva da parte do his-
toriador. Em face dos fatos do passado que tiveram influxo na
nossa existência, estão em jôgo os nossos interêsses, ao passo que
as verdades abstratas da matemática nela não interferem. Si la
géométrie s'opposait autant à nos passions et à nos intérêtes pré-
sents que la morale, nous ne la contesterions et nous ne la viole-
rions guère moins, malgré imites les démonstrations d'Euclide et -
d'Archimede, qu'on traiterait de rêveries et croirait pleines de pa-
ralogismes (27) .
E' um fato inegável: tem-se mentido muitíssimo na história .
As paixões partidárias, o fanatismo religioso, os preconceitos ra-
ciais e nacionais, o mêdo de ofender os prepotentes, o orgulho in-
dividual ou coletivo, a esperança de prêmios, têm prejudicado amiú-
de o prestígio de Clio. Em nossos dias ameaça-lhe um perigo mais•
sério ainda: não o da mentira ocasional, imputável a uma fraqueza
inextirpável da condição humana, mas o da mentira sistemática,
elevada à categoria de uma pseudo-filosofia. Em alguns meios vê-
se abandonar deliberadamente a evidência objetiva, o único critério
da verdade, para recorrer a slogans dêste tipo: "Verdade é o que-
é proveitoso para o povo" (nazismo), ou: "Verdade é o que con-
tribui para a vitória do proletariado" (comunismo) . Daí uma sé-
rie de mutilações e torceduras, daí uma série de golpes mortais
contra a dignidade do espírito humano, que pode viver apenas da.
verdade. E' tão imperiosa essa necessidade que os próprios falsifi-
cadores são forçados a respeitar as boas aparências: valem-se de ar-
gumentos aparentemente evidentes para defenderem as suas men-
tiras

— Aristóteles, Metaphysica III 4, 24.


— Leibniz, Nouyeaus Essais, etc., I, chap. 2.
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (I)", In:
Revista de História, São Paulo, nº 20, pp 407-493, out./dez. 1954. Disponível
em: http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/020/A009N020.pdf

— 493

Deixando de lado êsses desvios lastimáveis, podemos pergun-


tar se o historiador pode atingir uma objetividade absoluta. Os
racionalistas do século passado mantinham a ilusão de uma ciência
"sem pressuposições" (28) . A teoria é, em última análise, também
-

um pressuposto, não exigido pela natureza da ciência . Todo o ra-


ciocínio humano e tôdas as ciências têm de partir de certos axio-
mas e postulados, sem os quais são impossíveis; tôdas as ciências
particulares tomam emprestados certos princípios de uma ciência
superior, e servem-se dos resultados de outras ciências. Aliás, a ciên-
cia "sem pressuposições" mostrou-se inexistente na realidade: os
que dela se gabavam, não eram isentos de certos pressupostos,
nem sequer de certos preconceitos nacionais e religiosos . Nega-
vam, por exemplo, de antemão, sem reflexão madura, as verda-
des reveladas, admitindo tôdas as soluções menos as do Cristia-
nismo .
Já não acreditamos na ciência "sem pressuposições", saben-
do que o historiador é filho do seu tempo, tem a suas convicções
pré-científicas e não pode ser absolutamente neutro ante os valo-
res realizados ou traídos no passados. Mas isso não lhe dá di-
reito a nutrir "preconceitos": dêles deve-se livrar o mais possível.
Preconceitos são convicções a que se adere sem madura reflexão
e sem exame crítico e ponderado: são tão nocivos a um espírito cien-
tífico como superstições ao desenvolvimento da vida religiosa. O
historiador tem a obrigação de ser "despreconcebido" na medida
do possível, devendo-o guiar a cada passo a verdade. Luciano es-
creveu esta bela frase: "O historiador deve sacrificar a uma única
deusa: a Verdade" (29) . Se não lhe foi dada a verdade íntegra e
perfeita, jamais pode deixar de aceitá-la e venerá-la como norma
ideal, tornando-se fatal o mínimo desvio consciente neste ponto.
Simpatias e interêsses pessoais não o podem fazer perder de
vista a verdade tal como a encontrou nos documentos. Em uma pala-
vra, a impossibilidade de uma atitude inteiramente objetiva não
o dispensa da gravíssima obrigação de ser absolutamente sincero.

(Continua no próximo número) .

JOSÉ VAN DEN BESSELAAR


Da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

<28). — Em alemão: "voraussetzungslose Wissenschaft", têrmo introduzido pelo his-


toriador H. voa Treitschke (1834-1896) e tornado universalmente conhecido
por uma carta pública de Theodor Mommsen em 1901, a propósito da no-
meação de um professor católico na Universidade de Estrasburgo.
(29). — Lucianus, Quomodo historia conscribenda, 39.
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (II)", In: Revista
de História, São Paulo, nº 21-22, pp 439-535, jan./jun. 1955. Disponível em:
http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/021-022/A016N021E022op.pdf

QUESTÕES PEDAGÓGICAS

INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS (II).

SEGUNDA PARTE •

A Investigação Histórica.
....ubi plus utilitatis invenies quam decoris....
Cassiodorus, De Orthographia.

CAPITULO PRIMEIRO

OBSERVAÇÕES PRELIMINARES.

§ 34. Os documentos históricos.

Onde não há documentos, não há história. O estudo crítico


e metódico dos documentos históricos será o principal assunto des-
ta parte do nosso livro.
Chama-se documento ou fonte todo e qualquer vestígio
do passado, capaz de nos dar informações acêrca de um fato ou
acontecimento histórico. Por motivos evidentes não podemos pos-
suir conhecimentos diretos dos fatos do passado; até a grande
maioria dos acontecimentos contemporâneos é-nos conhecida ape-
nas indiretamente. Aqui como alhures somos obrigados a valer-
nos de testemunhos alheios. Ora, o que nos dá tal testemunho na
historiografia é o documento. E' um instrumento imperfeito e pór
vêzes deformador da verdade, mas o único à disposição do pes-
quisador para recuperar o passado.
Antes de poder estudar os documentos, o historiador pre-
cisa saber quais são, e onde deve procurá-los: é essa a primeira
parte da pesquisa histórica, muitas vêzes chamada: "Heurística"
(1). Uma vez descoberto o documento, precisa ser estudado com
método e precisão: é a tarefa da "Crítica Histórica", a qual se di-
vide em duas atividades diferentes. A Crítica Externa julga a au-
tencidade das fontes, ao passo que a Crítica Interna lhes examina
a veracidade. Mas os documentos são muitíssirno variados: podem
ser textos escritos, objetos de arte, costumes populares, tradições
orais, etc. Para lhes tirar informações certas e exatas, o historia-

(1). Do verbo grego: "heurískein" = "procurar, achar".


— 440 —

dor deve ter conhecimentos, se não especializados, ao menos bá-


sicos e sólidos, de várias disciplinas subsidiárias.
Daí se segue a divisão desta parte em três capítulos:

A) A Heurística: Capítulo II (§§ 35-42).


E) A Crítica Histórica: Capítulo III (§§ 43-50) .
C) As Ciências Subsidiárias: Capítulo IV (§§ 51-61) .

Na nossa exposição da matéria pretendemos seguir a


ordem lógica, quer dizer, esboçaremos ràpidamente os principais
problemas que o pesquisador pode encontrar no seu caminho des-
de o descobrimento do documento até a sua utilização, como tam-
bém os métodos apropriados para resolvê-los. Na realidade, po-
rém, a ordem é quase sempre diferente, devido a circunstâncias
particulares que um livro didático como êste não pode levar em
conta. Ao estudarmos um texto histórico, pode acontecer que o
exame de um problema, apresentado pela Crítica Interna, nos leve'
a um problema logicamente anterior, por exemplo, à questão da
autenticidade. Nesta exposição faremos abstração dêsses casos par-
ticulares, aliás inúmeros e impossíveis de reduzirem a uma regra
geral.
Foi só no século passado que vieram a ser formulados
explicitamente os princípios científicos da investigação histórica.
Um dos primeiros a expor a metodologia da história foi o pro-
fessor alemão J. G. Droysen (2) . A êsse trabalho seguiram-se
muitos outros em quase todos os países, dos quais mencionamos
apenas os de E. Bernheim (3), Ch. Langlois e Ch. Seignobos (4), .

L. Halphen (5), M. Bloch (6), W. Bauer (7), P. Harsin (8), e


José Honório Rodrigues (9).

— J. G. Droysen (1808-1884) escreveu em 1868: Grundriss der Historik• A obra


foi várias vêzes reeditada (em 1937 por R. Hübner), e traduzida para o francês
sob o título de: Préois de la Science de l'Histoire (188). — Foi Droysen que,
descobriu, na sua célebre biografia de Alexandre Magno (1836), o verdadeiro
significado das conquistas macedônicas: deram elas início a uma nova época
histórica em que a cultura grega se ia misturando com muitos elementos orien-
tais (o chamado "helenismo '; a palavra foi-lhe inspirado pelos Atos dos Após-
tolos, VI 1, e IX 29).
— E. Bernheim escreveu, além de um Manual (Lehrbuch der historischen Metho--
de, 18891 ; 19085-°), uma Introdução menor, traduzida para o espanhol:
Introducción al Estudio de la Historia (Barcelona-Madrid, 1937, in "Colección
Labor").
— L. Halphen, Introduction á l'Histoire, Paris , 19482 .
— Ch.-V. Langlois et Cb.. Seignobos, IntrOdulction aux Études Historiques,
Paris (1898'; 19255 ), traduzida para o português: Introdução aos Estudos
Históricos, trad. de Laerte de Almeida Morais, São Paulo, 1946.
•6). — M. Bloch, Apologie pour l'Histoire ou Métier de l'Historien, Paris, 1949„
traduzida para o espanhol sob o título de: Introducción a la Historia, México-
Buenos Aires, 1952 (in "Breviarios").
— W. Bauer, Einführung in das Stulitan der Geschicte, Wien, 1912 3. traduzida
para o espanhol sob o título cse: Introducción al Estudio de la Historia, Bar-
celona, 1952 2 .
— P. Harsin, Comment on écrit l'Histoire, Liège, 19444 .
— José Honório Rodrigues, Teoria da História do Brasil, São Paulo, 1949.
— 441 —

V. Esta parte do nosso livro tem caráter mais ou menos


enciclopédico, e embora tenhamos a esperança de que possa ser
útil para todos os que se queiram dedicar aos estudos históricos,
dirige-se especialmente aos estudiosos da história antiga e medie-
val. Não temos a pretensão de substituir os grandes manuais es-
pecializados nem queremos dar um magro resumo de livros já exis-
tentes. Por mais convencional que seja o esquema adotado, se-
guimos, em muitos pontos, um caminho individual: evitamos, de
propósito, discussões eruditas, geralmente de pouco interêsse para
principiantes, e frisamos o aspecto cultural da historiografia. Na-
da nos é mais estranho do que o desêjo de ser completo: não que-
remos esgotar o assunto, mas traçamos as linhas mestras e da-
mos apenas exemplos ilustrativos. Escrevemos para alunos das_
Faculdadesde Filosofia, não para especialistas. Estes encontrarão
em nosso trabalho poucas novidades e muitas omissões, e até po-
derão ficar escandalizados por algumas simplificações, — aliás,
voluntárias, — e pelo tom "dogmático" da nossa exposição. A úni-
ca finalidade dêste livro é orientar os principiantes, incentivá-los_
a consultar as grandes obras, e facilitar-lhes o caminho laborioso
de pesquisas pessoais. Nosso compêndio é, por assim dizer, uma
primeira visita ao laboratório do historiador. Sem dúvida, o que-
vale mais do que uns conhecimentos teóricos, é a aprendizagem
prática, o estágio prolongado, sob a orientação segura de um mes-
tre experimentado. Fabricando fabri fimus, diz o adágio latino
com muita razão. Não dizemos que a formação de um futuro his-
toriador se possa limitar a algumas noções teóricas e enciclopédi-
cas: tem êle de fazer experiências práticas. Mas uma iniciação teó-
rica pode ser proveitosa porque completa e ordena as experiências
necessàriamente limitadas do aluno. Aliás, a metodologia histórica
é essencialmente prática: resume e sistematiza os métodos, utiliza-
dos pelos grandes mestres, que a praxe provou serem valiosos. Dá
muitas informações úteis a respeito dos vários conceitos e têrmos,.
como também acêrca das diversas técnicas e operações que um fu-
turo historiador não pode ignorar impunemente. Além dessas in-
formações práticas, dá também certa "formação", prevenindo o-
principiante contra alguns erros e desvios, e indicando-lhe algumas
maneiras práticas de resolver certos problemas da historiografia.
O exemplo dos grandes historiadores que escreveram obras exce-
lentes sem estudos prévios da metodologia, não prova nada: um
livro didático não tem, — nem pode ter, — a pretensão de formar
gênios do tamanho de um Mommsen, Taine ou Herculano, mas
trabalhadores meticulosos e pesquisadores esclarecidos, capazes de
aproveitarem os frutos do trabalho dos corifeus. A metodologia
histórica é um modesto instrumento para consolidar e divulgar o,
progresso da historiografia. O matemático e o químico não neces-
— 442 —

sitam de tal introdução: o historiador, por estudar um objeto sui


generis, concreto e complexo, pode ser altamente beneficiado por
um estudo introdutório, e neste ponto assemelha-se bastante ao
filósofo, que igualmente se serve de "Introduções".

VI. O Professor Eduardo d'Oliveira França há pouco im-


pugnou, em várias publicações (10), a "higiene das fontes", que se-
ria um processo friamente racional e mecânico, a escravizar o his-
toriador ao documento e a condená-lo à impotência intelectual.
Seria a morte da inteligência espontânea. Combatendo a historio-
grafia "científica", — tipo século XIX, — defende a inteligência
quixotesca dos nossos tempos, que se atreve a acometer moinhos .
O polemista realça, com muita razão, o ponto importantíssimo, tan-
tãs vêzes esquecido pela hiStoriografia racionalista, de que também
o historiador, ao estudar os documentos do passado, não é máquina re-
gistradora, e não pode fazer abstração de sua própria "situação" no
tempo, ao interpretar os fatos históricos; é ativa e espontânea a
sua compreensão (insight). Contudo, quer-nos parecer que a
sua reação é um tanto exagerada. Além de se aproximar
muito perto de um novo historicismo, não menos duvidoso do que
o superado, — aqui, porém, pouco nos interessa esta questão, —
não faz a devida distinção entre o processo lógico e o processo psi-
cológico no exame das fontes. E' verdade, nenhum historiador, ao
estudar um documento ou grupo de documentos, começa "pelas clas-
sificações da Heurística para, depois, atravessar metódicamente tô-
das as fases da Crítica Externa e da Crítica Interna.. Procedesse
assim, quase nunca chegaria à sua tarefa própriamente dita . Ge-
ralmente se aproveita largamente de estudos alheios, aos quais dá
crédito por motivos razoáveis, embora êsse ato de fé não se baseie
num exame escrupulosamente analítico dos trabalhos já existentes.
Seu "tino" psicológico e sua experiência prática dão-lhe muitas vê-
zes uma visão direta, espontânea e intuitiva da verdade histórica:
é o illative sense, muito diferente de um raciocínio rigorosamente
discursivo. Até acontece que o pesquisador já de antemão sabe, de
maneira mais ou menos vaga, o que está procurando. Mas outro
é o processo lógico. O resultado das investigações pode, e deve, a
posteriori, ser verificado à luz de uma metodologia científica, não
só por êle próprio como também por outros. O que era intuição
ou pressentimento tem de transformar-se num conhecimento obje-
tivo: sem uma prova, não passa de uma hipótese. A prova não é
de natureza geométrica, — ninguém a exigiria em nossa matéria,
-- e admite vários graus de certeza . Mas quem excluir as provas,

(10) . Cf. Revista de História, Ano II, n.o 7 (págs. 111-141), e n.0 8 (págs. 253-
269; págs. 345-364; págs. 433-442) .
— 443 —

acaba por reduzir a história a um jeu d'esprit subjetivo, por mais


engenhoso que seja.
As regras da Crítica Histórica não são invenções arbitrárias,
mas derivam lógicamente do bom senso, ao qual também a inteli-
gência do historiador deve obedecer. Escravizam o espírito huma-
no tão-pouco como as regras da lógica: as duas disciplinas são ex-
celentes estudos introdutórios ,instrumentos ou órgana, como diziam
os gregos. Com efeito, são verdadeiras "disciplinas": disciplinam
o espírito, acostumando-o a respeitar as suas próprias normas. E'
a morte da inteligência criadora aplicar mecânicamente as regras
da metodologia histórica. Mas o homem é livre por poder seguir
livremente as normas da sua estrutura mental e por poder aceitar
livremente a verdade do mundo objetivo. E a metodologia da his-
tória, longe de sufocar a espontaneidade e o poder criador do in-
telecto, tem por finalidade principal educar o espírito para uma
liberdade que obedeça inteligentemente às leis.
CAPITULO SEGUNDO

A HEURISTICA.

§ 35. A classificação dos documentos.

Há várias maneiras de classificar os documentos históricos, e


nenhuma é completamente satisfatória.
Alguns historiadores distinguem entre fontes diretas (as que
remontam aos tempos dos fatos históricos que estamos estudando)
e fontes indiretas (as que datam de uma época posterior ao assunto
estudado). Outros preferem uma divisão entre "tradições" (do-
cumentos feitos com o fim de comunicar certos fatos históricos aos
contemporâneos e/ou à posteridade) e "restos" (tôdas as outras
fontes de conhecimentos históricos). Outros ainda seguem outros
critérios. Ao classificarmos os vários documentos encontramos di-
ficuldades bastante semelhantes às que se nos apresentaram quan-
do procurávamos dividir a matéria histórica (cf. § 19): as diversas
categorias entrelaçam-se tão estreitamente que uma coincide par-
cialmente com a outra.
,

A divisão, adotada nos parágrafos seguintes, parte de um prin-


cípio prático sem pretensões a uma justificação teórica, sempre pre-
cária em assuntos desta natureza. Dividimos os documentos se-
gundo a forma exterior em que chegaram aos nossos dias, distin-
guindo entre: os Textos Escritos (§ 36), a Tradição Oral (§ 37),
a Tradição Pictórica (§ 38), e afinal, os Restos (§ 39). Cada um ,

dêsses gêneros se subdivide em várias espécies.


§ 36. Textos Escritos.
De todos os documentos históricos os textos escritos são os
_mais importantes: o fato de estarem à disposição do historiador tex-
tos escritos é o critério da distinção entre períodos históricos e pré-
históricos (cf. § 25). Dividem-se os textos escritos em diversos
grupos, dos quais mencionamos:
I. Todos os documentos escritos que deviam regular a vi-
da social, econômica ou política no passado: leis (1), contas, in-
(1) . — A edição monumental das leis romanas, de suma importância para a evolução
política e jurídica da Europa desde ±1200, é o Corpus _Ioda Civilis, publi-
cado em 534 d. C. por ordem do Imperador Justiniano. A obra compõe-se
de 4 partes (originàriarnente, &e 3 partes): Institutiones (=Introdução aos
estudos jurídicos), Pandectae ou Digesta (=Antologia da jurisprudência roma-
na, tirada das obras de 37 juristas), Codez Justinianus (em 12 livros, con-
tendo as leis e os decretos desde Adriano até Justiniano), e Novellae (as
leis promulgadas por Justiniano entre 535 e 565) . A obra foi escrita em
latim, menos as Novellae, que foram redigidas em grego.
— 446 —

ventários, registros civis e eclesiásticos, registros de tabelionato,.


diplomas (2), cartas diplomáticas e administrativas (3), bulas pa-
pais, decretos, etc. Éstes textos, urna vez provada a sua autenti-
cidade, possuem grande valor pára a historiografia, porque são coe-
tâneos dos fatos que estamos estudando. Tornam-se sobremaneira
importantes quando há falta ou escassês de documentos narrati-
vos, por exemplo na Idade Média. Varia-lhes o valor objetivo,
o qual deve ser examinado em cada caso particular. Os "consi-
derandos", que abrem uma lei, um decreto ou uma nota diplomá-
tica, nem sempre reproduzem fielmente a verdade histórica, mas
a própria desfiguração pode tornar-se um objeto de estudo inte
rèssante para o historiador, desde que êste não se restrinja a in-
vestigar os fatos materiais, màs preste também atenção às idéias
e à mentalidade das classes goVernantes em certas épocas. O que
torna tão interessante esta classe 'dé documentos é o fato de êles
rião pertencerem à historiografiá prôpriamente dita, a qual sem-
pre reflete os fatos por meio de uni autor: são, por assim dizer,.
instantâneos, tirados de um acontecimento do passado, muitas vê-
zes com certo capricho, más perinitindo-nos geralmente uma visão
imediata dos fatos e, se não dos verdadeiros mótivos, ao menos
das "mentiras oficiais". Mas a circunstância de não pertencerem
à historiografia, traz consigo também certas desvantagens: quase'
nunca nos dão informações coerentes sôbre a seriação dos fatos,'
visto que lhes falta o caráter narrativo. Precisamos combiná-los
com outras fontes para termos uina idéia da conexão entre os di.'
versos fatos isolados. Apesar disso, a historiografia moderna apro- -
veita cada vez mais esta' classe de documentos.
II. Outros documentos foram feitos com o fim de perpetuar
a 'lembrança de um acontecimento mais ou menos importante da
vida pública ou privada, ou entãó pára homenagear um 'indivíduo'
ou um grupo de indivíduos. A esta categoria pertencem inscrições,
(de moedas, medalhas, campas, sinos, objetos de arte, arcos de
triunfo, estátuas, placas comemorativas, etc.) e também atas de
reuniões, assembléias (4), congressos (5), etc., e relatórios oficiais e-

(2 ) . — Diploma é documento público assistido por pessoa pública.


. — Uma coleção interessante de cartas diplomáticas e administrativas são as ,
Variae de Cassiodoro (12 livros), dando-nos uma impressão da política e da.
administração da Itália • durante a ocupação gótica ( abrangem. o período de
506 a 537) . Coleção única na história da literatura antiga.
. — São muito importantes as atas dos vários concílios ecumênicos, nacionais e re--
gionais. — O arcebispo de Luca, Giovanni Domenico Mansi (1692-1769 ), edi-
tou as atas dos concílios até 1439 em 31 volumes; nova edição, ampliada. e
atualizada até 1870, saiu em Paris ('1901-1927, em 53 volumes) — Para a ,
história do domínio holandês no Brasil são importantes as atas do Alto Con-
selho, conservadas no Recife.
. — Para o historiador moderno são interessantes dois relatórios contemporâneos:
II Problema della Storia (mAtti ..dell'VIII Convegno di Studi Filosofici Cris-
tiani tra Professori Universitari, Gallarate, 1952), e L'Homme et l'Histoire
(=A ctes du VIe. Congrès• des' Sociétés de Philosophie de Langue . Française,.
1952).
— 447 —

particulares. São valiosos por serem documentos contemporâneos,


mas em geral estão muito mais expostos a "mentiras oficiais" do
que os do primeiro grupo. Quem não conhece a falta de objetivi-
dade quase proverbial dos necrológios? E quem não sabe que as
inscrições das antigas moedas romanas faziam mais alarde das vi-
tórias, na medida que estas se tornavam mais duvidosas? E quem
não experimentou que as atas de uma reunião nem sempre podem
contar com uma aprovação unânime? Mas, pôsto que as inscrições,
as placas e as atas não nos obriguem a uma obediência incondicio-
nal, no mais das vêzes nos dão informações preciosas, cujo valor
histórico não precisa coincidir com a importância que os seus auto-
res davam a certo acontecimento ou a certa pessoa. Ao estudo
metódico das inscrições devemos abundantes e valiosas notícias
acêrca dos costumes, nomenclatura, legislação, fronteiras políticas
e lingüísticas de épocas pouco documentadas.
III. Tôdas as produções literárias, científicas, filosóficas e
religiosas do passado que chegaram até nós. Merecem não só o in-
terêsse do especialista que acompanha por exemplo a evolução de
certas formas literárias ou doutrinas filosóficas, mas podem ser fon-
tes de valor para a historiografia em geral. Pois muitas vêzes nos
informam incidentalmente sôbre um acontecimento do passado;
além disso, possibilitam-nos um contacto quase direto com as idéias,
problemas, esperanças e preconceitos de uma época, um terreno
muito grato para o historiador . As comédias de Aristófanes (6)
apresentam-nos as caricaturas de Sócrates e Eurípides. Seria um
êrro muito grave se acreditássemos piamente as palavras do co-
mediógrafo ateniense que conscientemente exagerava e ridiculari-
zava; não obstante,: as duas peças rematam o retrato de Sócrates
e Eurípides das outras fontes, mostrando-nos a repercussão que ês-
ses dois "inovadores" tiveram na imaginação popular. A Ars Ama-
toria de Ovídio (7) deixa-nos ver certos aspectos da vida galante
em Roma sob Augusto. As brigas teológicas entre os jesuítas e os
jansenistas nenhum documento as ilustra melhor do que Les Pro-
vinciales de Pascal (8) . E os abusos existentes nas casas dos po-
bres (Workhouses) e nos internatos da Inglaterra vitoriana são vi-
vamente salientados em alguns romances de Charles Dickens (9) .
Sem dúvida, ao utilizarmos essas fontes, devemos tomar em conside-
ração a tendência do autor, que, por estar envolvido pessoalmente
. — Aristófanes (±445-±-385 a. C.) atacava Sócrates nas Nuvens (423), e Eu-
rípides nas Rãs (405).
Públio Ovídio Naso (43 a. C. —4 18 d. C.), autor das bem conhecidas Me-
tamorphoses.
. — Em 1656-1657, Pascal publicou 18 cartas, das quais a maior parte atacava
os jesuítas. Diz-se , que nem a supressão da Companhia prejudicou tanto a
reputação dos jesuítas como essas cartas de Pascal, espirituosas, mordazes e
freqüentemente injustas para com os seus adversários.
(9). — Charles Dickens (1812-1870), célebre romancista inglês, autor entre outras.
obras de David Copperfield, Oliver Twist; e Pickwick Pepers, etc.
— 448 —

nas questões do dia, amiúde se afasta, — consciente ou inconscien-


temente, — da verdade objetiva: assim mesmo são documentações
psicológicas de primeira ordem.
IV. Outros documentos ainda foram feitos coín o fim explí-
cito de comunicar fatos históricos aos contemporâneos e/ou à pos-
teridade: já pertencem à historiografia. A êsse fim não raro acres-
ce a intenção de influenciar outras pessoas ante certas questões ou
situações, dando uma interpretação, muitas vêzes bem subjetiva.
Mas a interpretação, por mais parcial que seja, pode ser importante
para o historiador, encaminhando-o para uma interpretação ponde-
rada e possibilitando-lhe uma visão direta das simpatias e antipatias
que existiam em dado ambiente histórico. Além disso, o caráter
narrativo e mais ou menos sintético dêsse gênero de documentos
contribui muito para o historiador ter uma idéia da seriação dos
acontecimentos. Mas para poderem prestar serviços úteis ao pes-
quisador precisam ser submetidos a um exame rigoroso. Mencio-
namos aqui:
Cartas de pessoas públicas e particulares. O exemplo clás-
sico de uma correspondência importante para a historiografia são
as cartas de acero (10), que nos permitem acompanharmos as pe-
ripécias dos últimos anos da república romana, às vêzes de um dia
para outro. Muito importante é também a correspondência do hu-
manista Erasmo (11), de Voltaire (12), e de Napoleão (13).
Diários e Memórias. Gênero literário, muitas vêzes, ten-
dencioso, praticado desde o século XVII, principalmente na Fran-
ça, ,e depois em outros países (14). Tornaram-se célebres, em nos-
sos dias, as. Memórias de Winston Churchill.
Jornais (15), revistas, brochuras, panfletos (16), etc.

(10) . — Possuímos dêle e dos seus amigos 931 cartas (818 do próprio Cícero), re-
partidas entre várias coleções: Ad Atacam, ad Familiares, ad Quintum Fre-
trem, ad Brutum, etc.
— Possuímos dêle centenas de cartas, dirigidas a quase todos os contemporâneos
importantes (por exemplo Lutero, Tomas More, papas, etc.), e editadas em
9 volumes por P. W. Allen (Oxford, 1906-1938).
— Possuímos dêle mais ce 12.000 cartas (por exemplo a Frederico II da Prús-
sia, a Catarina II da Rússia, etc.).
— Correspondance de Napoléon I (32 volumes. Pc,ris, 1858-1870).
— Dois exemplos de Memórias, consagraôas a grandes personagens são: Le Mémo-
rial de Sainte-Hélène, editado em 8 volumes pelo Conde de Las Casas (1822-
1825), e Gespriiche mit Eckermann (=Conversações Ge Goethe com seu se-
cretário Eckermann), editado cio 3 volumes (1836-1848).
<15). — Júlio César, quando cônsul (59 a. C.), fêz publicar diàriamente os chamados
Acta Diurna, os quais traziam comunicados oficiais, mas também outras no-
tícias, e até um setor da "vida social": precursor na Antigüidade dos jornais
modernos (cf. Suetonius, Divus Julius, 20). Ao que parece, subsistiram até
o início co século IV. Em Pequim (China) havia certa espécie de jornais
já no século X. — Na Europa os jornais datam da época da Renascença
(principalmente na Itália e na Alemanha): tinham sua origem em publicações
ocasionais e avulsas, que só depois (a partir de 1600) começaram a sair com
maior regularidade( por exemplo, mensalmente ou semanalmente) e a ser
numeradas. Nos meados do século XVI vendiam-se em Veneza as Notizie scritte,
trazendo notícias da Bôlsa, ao preço de uma gazzetta (=2 soldi; daí a palavra
"gazeta"). Na Alemanha saíram, no mesmo século, nada menos de 877 "re-
— 449 —

Anuários e outras publicações, periódicas ou não, edita-


das por diversas associações, emprêsas económicas, etc.
Crônicas e Anais (cf. §§ 4 e 5) .
Livros históricos no sentido próprio da palavra, quer se-
jam monografias, quer tratem de assuntos gerais. Convém distin-
guirmos aqui entre livros, escritos por contemporâneos, e livros cujos
autores são posteriores aos fatos narrados, Por motivos evidentes
êstes possuem menor valor documentário do que aqueles. Mas
também a segunda categoria pode ser valiosa, quando é baseada
em documentos sólidos; outrossim, presta-nos muitas vêzes serviços
indispensáveis por nos faltarem fontes contemporâneas. Nesta hi-
pótese, a crítica externa tem de verificar, na medida do possível, a
origem dos documentos, utilizados pelo autor, — tarefa difícil e
laboriosa, mas imprescindível e não raro compensada com resulta-
dos fidedignos. Os livros históricos são principalmente importantes
para o estudo da Antigüidade e da Idade Média, a cujo respeito
dispomos de relativamente poucos documentos. Não tivessem che-
gado até nós os livros de Tucídides, Tito-Lívio e Tácito, pouco sa-
beríamos das lutas entre os atenienses e os espartanos, das guerras
púnicas e da Roma imperial no século I d. C.
Biografias, hagiografias, etc.
§ 37. A tradição oral.
A forma mais elementar da tradição oral é o boato, nertícia
anônima que corre de um lugar para outro, viresque adquirit eundo
(17), como diz o poeta. Avaliam-lhe bem o valor extraordinário
os ministros de propaganda dos atuais Estados totalitários, procuran-
do espalhar rumores favoráveis e fazendo tudo para cortar os no-
civos. Quando o boato desempenha papel tão relevante ainda na
sociedade moderna que dispõe de tantos meios de comunicação,
não é de estranhar que tenha sido mais importante em tempos pri-
mitivos, quando a maior parte da população era analfabeta, e o
jornal, o rádio e o cinema eram coisas inexistentes. Os grandes
acontecimentos na história de um povo inspiram-lhe horror ou
entusiasmo, e as grandes personalidades provocam-lhe sentimen-
tos de admiração ou de ódio: dessas paixões se apodera a imagi-

lações" (Relationen ou Relationes Historicae), com o fim de c.ivulgarem acoute-


mentos atuais (por exemplo em 1500: o descobrimento do Brasil) .
. — A origem desta palavra é discutida: segundo alguns, seria derivada de um li-
vrinho muito popular na Inglaterra medieval: Pamphilus seu de Amora (sé-
culo XII), segundo outros, da palavra francesa palme-feuillet, que teria evo-
luíc.n, igualmente na Inglaterra, para "pamphlet" (literalmente: "folheto que
cabe na palma da mão") . Panfletos já eram .conhecidos na Antigüidade, co-
mo o De Republica Atheniensium, brochura erradamente atribuída a Xenofonte,
e Apocolocyntosis, panfleto satírico, escrito pelo filósofo Sêneca por ocasião
da "apoteose" do seu inimigo, o Imperador Cláudio. — A pátria dos panfletos
modernos é a Inglaterra (desde o século XVII) .
. — Vergilius, Aeneie IV, 175.

Revista de História ns.° 21-22.


— 450 ---

nação popular, • a exaltar os feitos dos heróis, a aumentar a cruel--


dade dose inimigos, e a exprimir as saudades dos tempos idos. As-
sim se originam sagas, lendas, mitos e outros contos populares
(17a).
I. Confundem-se muitas vêzes os têrmos:. saga, mito e len-
da. O que lhes é comum, é o elemento imaginativo que nas três
espécies viceja à custa da verdade histórica. Contudo parece pru-
dente demarcar-lhes os limites. "Saga", palavra escandinava, cog-
nata com o verbo inglês to say, é um conto popular que trata dos
heróis do passado e contém elementos fantásticos. "Mito", pala-
vra grega, significando igualmente "narração", é um conto relativo
aos deuses e semi-deuses (18); "lenda", da palavra latina "legen-
da" (= "o que deve ser lido"), é a biografia milagrosa de um san-
to (19). Muitos dêsses contos populares foram posteriormente fi-
a
xados por escrito, mas essa circunstância não lhes modifica o ca-
ráter originário de tradição oral. E' desnecessário dizer o quanto
custa ao historiador tirar conhecimentos certos e seguros dêsses
produtos populares que se foram depositando em cantos, baladas,.
e epopéias (20) e romances (21). O núcleo histórico, embora
quase sempre presente, apresenta-se-nos de tal maneira encoberta
e desfigurada que, salvo raríssimas exceções, não conseguimos des-
cobrí-lo, devendo-nos contentar, no mais das vêzes, com uma hi-
pótese mais ou menos plausível. Hoje em dia ninguém duvida
da historicidade de Tróia, cidade imortalizada pela Ilíada: as des-
cobertas arqueológicas demonstraram terminantemente que mui-
tas descrições homéricas de casas, objetos e costumes são históri-
cos. Mas nem por isso se justifica a conclusão de que tenham sido ,
pessoas históricas Aquiles, Ulisses, Príamo e Heitor, nem a dedu-
ção de que tenha havido uma expedição pan-helênica contra a ci-
dade asiática . Pois a análise de outras epopéias populares prova
que a imaginação do povo torna muitas vêzes irreconhecíveis os.
fatos históricos que lhes deram origem: a fantasia exuberante, além
(17i). Até em tempos relativamente recentes formaram-se êstes contos populares. Um:
exemplo típico é o "sebastianismo" entre os portuguêses depois da derrota de•
Alcácer-Quibir (1578): não queriam acreditar que lhes tivesse morrido El-Rei
D. Sebastião. Poderíamos citar ainda "la légende napoléenne", explorada com
tanta mestria por Béranger (1780-1857), e o "mito nazista" na Alemanha que
não morreu com a morte de Hitler.
( 18) • E' dficílimo demarcar os limites entre sagas e mitos, uma vez que muitos-
mortais depois da morte chegavam a ser venerados como deuses ou semi-
deuses; por outro lado, êstes eram amiúde degradados à categoria de heróis.
— E' célebre a Legenda Aurea, coleção ce lendas medievais, feita pelo frade do-
minicano Jacobus de Voragine (1288), que proporcionou abundante matéria
a numerosos artistas da Idade Média e da Renascença.
— Falamos aqui apenas em epopéias "populares" ou "primitivas", tais como a
fiada, a Odisséia, e a Nibelungenlied; não em epopéias "eruditas", como a,
Enéida de Virgílio, cujo argumento se funda em reconstruções pretensamente cien-
tíficas. — A expressão epopéia "popular" não envolve que tal poema tenha
sido composto pelo povo, como queriam os românticos.
, (21). — Por exemplo os romances medievais que tratavam das aventuras de Alexandre,
Magno, de Artur ou Artus, et.z.
—•451 —

de recorrer amiúde a explicações sobrenaturais, gosta de concen-


trar acontecimentos e heróis do passado, por mais heterogêneos ,
que sejam, em redor de um tema central, que, embora histórico,
pode ter sido muito insignificante, mas por qualquer motivo im-
pressionou profundamente a mentalidade primitiva. Assim o Ro-
lando da Chanson de Roland (século XI-XII) é pessoa histórica;
mas as fontes autênticas o mencionam só uma vez de passagem,
(22), e o episódio da sua morte em Roncesvales no ano 778 foi
um acontecimento de somenos importância histórica na longa série
de lutas entre os francos e os mouros. A imaginação do povo, ,
porém, viçosa e romântica, transformou o insignificante Rolando
na figura central de um ciclo de sagas. A epopéia dos germanas, •

a Nibelungenlied, (± 1200), tem por núcleo histórico a destrui-


ção do Reino dos burgúndios pelos hunos em 437 d. C.; o conto,
além de conter numerosos elementos fabulosos (23), considera in-'
gênuamente como contemporâneos Teodorico o Grande (século
VI) e Átila (século V) . Na Odisséia encontram-se reminiscências
das viagens marítimas feitas pelos fenícios (ou pelos gregos da
cidade de Cálcis?), mas as aventuras, enfeitadas com elementos de
contos de fadas, incorporaram-se no ciclo épico de Tróia e mistu-
raram-se com diversos outros temas heterogêneos. Os exemplos
dados provam bastante como é difícil tirar argumentos históricos
de um conto popular, depositado em baladas e epopéias: os resul-
tados são quase sempre duvidosos, e interessam mais à história da
literatura e da civilização do que à história política.
II. Os contos de fadas são destituídos de um núcleo histó-
rico: aliás não têm a pretensão de relatar fatos autênticos. Pro- .

dutos de uma livre imaginação continuam eternamente atuais por


não narrarem "atualidades". Interessam ao historiador só indire-
tamente: como elementos de cantos populares que contêm núcleos
históricos. Também seus temas e motivos podem ser estudados pela
historiador: temas idênticos ou semelhantes eram, no século pas-
sado, muitas vêzes reduzidos a uma origem comum, preferencial-
mente à Babilônia ou à índia. Entretanto é pouco legítima tal
dedução, pois, ao que parece estabelecido pelas pesquisas moder-
nas que se servem também de métodos psicanalistas, os mesmos
motivos nascem espontâneamente no seio de povos bem diferen-
tes que, em tempos históricos, muito dificilmente podem ter en-
tretido contactos entre si.

. — Eginhardus, Vita Caroli Magni, IX: firuotlandus (=Rolandus) Britannici


mitis praefectus.
. — O herói principal Siegfried tem muitos traços de um príncipe de um conto
r2e fadas.
— 452 —

III. Chama-se "etiologia" ou "fábula" (24) o conto popular


que pretende dar uma explicação histórica de coisas ou nomes,
provenientes do passado e já não compreendidos pelo povo. A
"etiologia" é freqüentemente uma "etimologia" (25) popular„ sem,
pré caprichosa e destituída de todo o valor histórico. O nome do
"Monte Pilatos" na Suíça (26) deu, na Idade Média, origem, à
crença de que aí Pôncio Pilatos teria sido enterrado. Nos tempos
anteriores ao século XIX, quando ainda não existia a lingüística, tafti..
bém as pessoas cultas forjavam etimologias, geralmente errôneas
absurdas, que deviam servir de base a especulações teológicas,
filosóficas ou históricas. Há derivações fantásticas, tais como canis
a non cariendo, lucus a non lucendo, é barbarus sio vocatut guia
barbam habet et rus habitat. Os torriatiOs da época de Augusto
faziam queStão de serem descendentes dos troianos mediante Enéias
seu filho Ascânio ou //o, nome êsse que era relacionado com o
de Tróia (= /hum). Até derivavam o nõme da família de Cé-
sar (Julius), de Ilus e Ilium, E a cidade de Lisboa (Iatitn:
sipone) devia ter sido fundada por Ulisses.
IV, A tradição oral abrange também anedotas e palavras
aladas, igualmente difíceis de verificarem, mesmo que se refiram
a acontecimentos relativamente recentes. Na Prússia circulavam
muitas anedotas a respeito de Frederico II, na França acêrca de
Napoleão, e nos Estados Unidos sôbre Jorge Washington. O fato
material, comunicado pela anedota, pode ser fictício, mas a ficção
é quase sempre significativa. A anedota não é um retrato bem ma-
tizado de uma pessoa histórica, mas um delineamento primitivo,
ilustrando vivamente a repercussão que ela teve nos meios po-
pulares, e por isso mesmo constitui uma valiosa documentação psi-
cológica para o historiador. O mesmo se pode dizer, mutatis mu-
tándis, das palavras aladas. Se nem sempre são autênticas, são
geralmente muito características de certa pessoa ou situação histó-
rica tal como sobreviveu na tradição de um povo. Numerosas pa-
lavras célebres, atribuídas a determinadas pessoas, são mal ou não
abonadas por documentos fidedignos. Damos alguns exemplos: o
grito de alegria, atribuída a Arquirnedes: Heureka! (27); a res-
posta que teria sido dada pelo general francês Cambronne à ordem

(24). — A palavra "etiolôgia" é composta de "aitía" (=causa) e "lógos" (=conto). —


A "fábula", no sentido literário do têrrno, é um conto, cujas figuras principais
são animais e que contém lição moral. Segundo a tradição, remontaria à figura
lendária de asopo (século VI a. C.).
(25) • — O nome Pilatus deriva de Pileatus (=vestido de pilecas ou chapéu).
— "Etimologia" quer Cisar: "explicação racional (Meus) do sentido verdadeiro,
ou da realidade expressa por uma palavra" (étymos).
— Cf. Vitruvius (arquiteto romano, século I d. C.), De Architecture, IX, Praef.
10; Plutarchus, Moralia, 1094 B-C. -- As circunstâncias em que Arquimedes te-
ria descoberto a célebre lei hidrostática, são narradas de Maneiras diferentes pe-
los autores antigos, e o grito Heureka!, embora possivelmente palavra autênti-
ca, tem algo de anedótico.
— 453 -

de se render na batalha de Waterloo: La garde meurt, mais ne se


rend pas! (28); a afirmação teimosa de Galileu: E pur, si muove!
(29); e a declaração soberba, atribuída a Luís XIV: L'Etat, c'est
moi! (30) .

§ 38. A tradição pictórica.

A tradição pictórica, que se compõe de várias categorias, é


a •representação figurada de cenas ou pessoas históricas, como tam-
bém de cidades, paisagens e vários objetos do passado. Varia-
lhe o valor objetivo, conforme a tradição é contemporânea ou pos-
terior. Também de propósito podem entrar neste gênero de fontes
elementos subjetivos. Para lhes tirar conhecimentos históricos,
pesquisador precisa muitas vêzes do subsídio de disciplinas
terpretativas: a interpretação metódica chama-se "hermenêutica",
(31). A esta classe de documentos não raro acresce um texto es,
crito em forma de uma inscrição, etc. Distinguimos aqui entre;,
1. Telas e obras de escultura que representam cenas histó-,
ricas; retratos de pessoas históricas, etc. Alguns exemplos céle-:
bres são: o mosaico de Pompéia, representando uma batalha de
Alexandre Magno (32); as colunas dos Imperadores Trajano (33)
Marco-Aurélio (34); os gobelinos franceses do século XV (35)
Além do seu mérito artístico, essas obras podem ser importantes do-
cumentos por nos darem uma ilustração dos trajes, das modas, do
tipo das casas, etc. Mas a tendência de estilizar ou idealizar pode
prejudicar a verdade histórica. Em obras de arte posteriores às ce-
nas representadas há perigo de entrarem anacronismos: é univer.,
salmente sabido que os primitivos pintores flamengos da Idade Mé-,
dia, ao representarem cenas bíblicas, acomodavam-nas à paisagem
aos trajes do seu país.
II. Como documentação psicológica são muito importantes
as gravuras (desde o século XV) e as caricaturas (desde a Renas=
cença) . As duas são ilustrações de acontecimentos contemporâneos,
freqüentemente com o fim de fazer propaganda ou de tornar ridí-

— Cf. P. Harsin, Comment on écrit l'Histoire, Liège, 1944, pp. 167-170.


— Galileu viveu c:e 1564 a 1642. O grito que lhe é atribuído data de 1761.
— Segundo uma tradição suspeita, Luís XIV teria dito esta palavra ao Parla-
mento de Paris no dia 13 de abril de 1655.
— Do verbo grego "hermenêuein" =interpretar.
— Foi descoberto em 1831 na Casa del Fauno, e acha-se atualmente no Museo
Nazionale em Nápoles. Representa o encôntro do rei persa Dario III e Ale-
xandre Magno na batalha de Isso (330 a. C.), sendo cópia de uma obra feita
pelo artista helenístico Filóxeno (século IV-III).
— Em volta desta coluna está enrolado, em forma de uma espiral, um friso de
esculturas em baixo-relêvo, com quase 200 metros de comprimento, representandO
cenas da guerra dácica (primeiro decênio do século II c:. C.).
— Representa cenas de guerras contra os germanos (século II d. C.). — Essas
colunas romanas foram imitadas pela Colonne Vendôrne em Paris, em home-
nagem a Napoleão.
— O nome é derivado da primeira família que os fabricou: Gobelin.
— 454 --

culo o adversário. A caricatura tornou-se uma verdadeira arte no


Século XIX, principalmente na França (36) e na Inglaterra, onde
desde 1841 tem saído Punch, The London Charivari, um comentá-
rio satírico de alta categoria, dos acontecimentos da semana (37).
Fotografias e reportagens cinematográficas.
Panoramas e vistas gerais de cidades, maquetes, etc.
Plantas e mapas. Perderam-se completamente as cartas
geográficas, feitas pelos geógrafos gregos, dos quais mencionamos
Anaximandro de Mileto (38), Eratóstenes (39) e Ptolomeu (40).
Possuimos ainda a chamada Tabula Peutingeriana (41), um itine-
rário romano, cujo original remonta ao século IV d. C., e que re-
presenta tôdas as estradas e estações importantes do mundo roma-
no, desde o Mar do Norte até o Mar das Índias. A cópia, chegada
até nós, data do século XIII, e mede 34 cm por 680 cm. Apesar de
mostrar alguns absurdos, a Tabula dá-nos numerosas informações
úteis. A cartografia medieval significa um regresso considerável
comparada com a da Antigüidade: só os árabes faziam mapas cien-
tíficos (42). Desde os inícios do século XIV começaram' a sair na
Itália as "cartas de bússola", de tanta influência para o descobri-
mento do Novo Mundo. Nos séculos XVI-XVII a cartografia foi
aperfeiçoada na Alemanha e na Holanda (43). A época moderna
foi introduzida pela família dos Cassinis, na França (século XVII-
XVIII) (44), e desde o século passado a composição de mapas,
favorecida pelo surto das ciências matemáticas e naturais e pela
técnica, entrou em nova fase (aerofotogrametria!).
Brasões ou insígnias de pessoas ou famílias nobres e ilus-
tres, de municípios, províncias e Estados, de dignitários eclesiásti-
cos e magistrados, etc. E' o terreno da heráldica.

— Culminou em Honoré Daumier (1810-1879).


— Desenhistas célebres, colaboradoers do Punch, foram, por exemplo, Cruikshank,
Leech e Du Maurier. Também colaboraram literatos notáveis, como W. M. Tha-
ckeray.
— Anaximandro, um dos filósofos pré-socráticos, foi o primeiro cartógrafo grego
(século VI a. C.).
Eratóstenes de Cirene (±275-195) foi o pai da geografia científica da Anti-
güidade. Calculou o equador terrestre em 46.600 km (na realidade -1-40.000 km).
— Ptolomeo ( -1- 100-178) dá na sua obra a situação de ±8.000 cidades e aldeias
com a latitude e a longitude; devido à sua influência, neste ponto desastrosa,
foi abandonado o sistema heliocêntrico, já exposto por Aristarco de Samos (sé-
culo III a. C.) e venceu o sistema geocêntrico até os tempos de Copérnico
1473-1543).
— A Tabula ficou com êsse nome por causa do antiquário C. Peutinger (1465-
1547), que a adquiriu para a sua coleção. Atualmente se acha na Biblioteca
Nacional em Viena.
Por exemplo Abn Abdallah El-Edrisi (1099-1166), que ofereceu em 1154 ao
rei Roger II de Sicília um mapa do mundo.
Por exemplo o holandês G. Kremer (=Mercator), um dos fundadores da vo-
grafia matemática moderna; no seu sistema as longitudes estão representadas por
linhas retas equidistantes, e igualmente os graus de latitude (1512-1594).
— A família é de origem italiana, mas tornou-se célebre na França. Mencionamos
C.-Fr. Cassini de Thury (1714-1784), que compôs a Carta topographique de la
Franca em 180 fôlhas (escala 1:86.400).
— 455 —

VII. Moedas e medalhas, etc., que são estudadas pela nu-


mismática. A sigilografia tem por objeto os selos.

§ 39. Os Restos.
Os Restos são todos os outros vestígios do passado, capazes
de nos darem informações históricas. Não foram feitos com o fim
de transmitirem conhecimentos históricos à posteridade, e essa cir-
cunstância lhes dá um grande valor objetivo. Uma vez provada a
autenticidade dos "restos", merecem nossa plena confiança, visto
que não mentem. Mas não mentem porque não falam; a tarefa do
,

historiador, por vêzes bastante difícil, consiste em forçá-los a falar.


A "hermenêutica" dos Restos exige grande habilidade e muita em-
dição. A historiografia anterior ao século XIX quase não aprovei-
tava esta classe de doctimentos. Mencionamos aqui:
Restos humanos, restos de armas, instrumentos e dese-
nhos, que datam de tempos pré-históricos. E' o terreno da paleon-
tologia, antropologia e ciências afins.
Restos de cidades, templos, edifícios, templos, igrejas, se-
pulcros, casas, etc., e de todos os objetos aí descobertos. E' o cam-
-

po da arqueologia que estuda os tempos históricos e pré-históricos.


As línguas em tôdas as suas manifestações: línguas vivas
e mortas, dialetos e falas; além disso, a difusão de certos idiomas e
vocábulos, as interinfluências entre os idiomas, etc. E' o setor da
lingüística.
Os costumes, os trajes, as instituições e• as festas popu-
lares que datam de tempos antigos. Duas disciplinas estudam essa
matéria: a etnologia (45), tratando-se de povos primitivos, e o fol-
clore (46), tratando-se de povos civilizados.
Tôdas as produções das artes, ciências e indústrias,
tôdas as realizações técnicas do passado.

§ 40. A procura de documentos.


Não basta sabermos quais são as diversas fontes: precisamos
saber também onde devemos procurá-las. E' esta talvez a parte
mais difícil da heurística. Nos dois parágrafos seguintes pretende-
mos dar alguns esclarecimentos sôbre a procura de documentos es-
critos, sendo que esta classe continua a ser a mais importante para
o historiador, e uma discussão concernente à procura das outras
fontes nos levaria muito longe.
(45). — A palavra etnologia (grego: "éthnos"=povo, e "lógos"=disciplina) foi forjada
pelo inglês W. F. Edwards (1776-1842) na Lettre à Améd ée Thierry (1829),
o qual na sua Histoire des Gaulois (1828) prestara muita atenção ao caráter
hereditário de certas qualidades biológicas e psíquicas.
(46) . — A palavra folclore é de origem inglêsa, e equivalente de etnologia (fo/k=povo, e
lore=disciplina, ciência) . Foi criada em 1846 pelo inglês W. J. Thorns.
--- 456 —

Uma condição imprescindível para podermos estudar um do-


cumento histórico é o fato dêste se ter conservado. E' escusável
fazer comentário a êsse respeito. Podemos perguntar, porém, como
é que se perdem e se descobrem documentos (§ 41) . Depois con-
vém examinarmos as circunstâncias que facilitam a procura dos
documentos (§ 42) .

§ 41. Ganhos e perdas.

Como se perdem documentos, e como se redescobrem documen-


tos perdidos?

I. Perderam-se numerosos documentos no decurso dos sé-


culos, devido a várias causas: o material empregado era freqüen-
temente pouco duradouro; eram destruídos pelas chamas ou pe-
los ratos e outros bichos; eram arruinados por fanatismo, negli-
gência ou ignorância; eram aniquilados por poderem comprometer
as classes governantes; faziam o resto catástrofes metereológicas,
guerras e revoluções.
O descuido e a ignorância são fatôres importantes na destrui-
ção de documentos privados e, infelizmente, também de documen-
tos públicos e oficiais nos países onde ainda não existe uma forte
tradição histórica. Tôda pessoa de certa idade sabe que de vez
em quando se torna necessária uma limpeza geral no nosso arqui-
vo pessoal, da qual pode ser vítima também uma carta ou uma
anotação eventualmente importante para um futuro historiador.
Os documentos públicos, nos países civilizados, são geralmente
bem guardados, mas também êles não estão ao abrigo da ação do ,
tempo, de incêndios, de guerras e revoluções. Foram lastimáveis,
as perdas de fontes históricas nas épocas de grandes perturbações
políticas e sociais: a invasão dos bárbaros no Império Romano;
a Queda de Constantinopla; as lutas religiosas nos tempos da Re-
forma; as guerras civis e externas da Revolução francesa e da
época napoleônica; as duas guerras mundiais. Na primeira guerra
mundial foi destruída, por exemplo, grande parte da biblioteca da
Universidade de Louvaina, na segunda foi uma das vítimas a cé-
lebre biblioteca do Monte Cassino .
A atos de vandalisMo intencional, como costumam acontecer
em tempos de guerras e revoluções, acrescem os chamados "atos
herostráticos% atos de destruição proposital feitos por pessoas com
o fim de se tornarem célebres. Heróstrato incendiou em 356 a..
C., na noite do nascimento de Alexandre. Magno, o templo de Dia-
— 457 —

na em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo (47): cupidi-


tate incensus suum nomen aliquo insigni facinore propagandi, cum
virtute non posset, scelere voti compos factus est (48). Nos tem-
pos modernos verificaram-se casos semelhantes, por exemplo em
Florença com o vaso de François, e em Londres com o vaso de
Portland (49), mas, ao contrário de Heróstrato que atingiu o seu
alvo, os criminosos contemporâneos não chegaram a perpetuar o
seu nome com êsses atos anormais. Houve também outros casos de
destruição deliberada, originados por desespêro ou por ressentimen-
to contra a sociedade, por exemplo no Louvre em Paris.
II. Em compensação tornam-se-nos acessíveis cada vez mais
documentos históricos, principalmente devido a três fatôres: as es-
cavações arqueológicas, a decifração de escritas antigamente des-
conhecidas e o descobrimento de novos textos (50) .
Os babIlônios, os assírios, os hititas e os persas (51) em-
pregavam um sistema de caracteres cuneiformes, cujas origens re-
montam ao terceiro milênio a. C. e cujo desenvolvimento nos mos-
tra um processo de constante simplificação no sentido de uma es-
crita fonográfica (52). Os primeiros passos para a decifração dos
cuneiformes (persas) foram dados em 1802 pelo alemão G. F.
Grotefend, que identificou os nomes de Dario, Histaspes e Xerxes,
e 9 dos 39 sinais. Daí em diante a escrita continuou a ser estudada
intensamente por vários orientalistas, entre os quais se destacou o
inglês Edward Hincks (1792-1866).
A egiptologia moderna foi fundada pelo sábio francês J.
F. Champollion (1790-1832), que em 1822 conseguiu decifrar a

(47) . — As sete maravilhas do mundo na Antigüidade eram: a estátua de Zeus, feita


por Fídias (século V a. C.), em Olímpia; os jardins suspensos em Babilôni a ,
que teriam sido feitos por ordem da rainha lendária Semíramis; o Mausoleu
(túmulo do rei Mausolo), em Halicarnasso, erguido no século IV a. C.; o co-
lôsso de Rodes, representando Apolo; o templo de Diana em Éfeso; as pirâmi-
des no Egito; o Farol de Alexandria (século III a. C.). Cf. Antipatros, Antho-
logia Palatina, IX 58. — Ós autores antigos não concordam, porém, na identi-
ficação das sete maravilhas.
— C. Julius Solinus (século III d. C.), Collectanea Rerum Memorabilium, XL.
— O vaso de François é uma obra-prima d'a cerymica ética (século VI a. C.), fa-
(49) . O vaso de François é uma obra-prima da cerâmica ética (século VI a. C.), fa-
bricada por Ergotimo e pintada por Clítias; o vaso de Portland é de vidro es-
curo, enfeitado de relêvo em branco (século IV-III a. C.) e foi descoberto
em 1590 em Sidon.
— Há pouco foi decifrada também a escrita minóica (pelo jovem inglês M. Ven-
tris), descoberta essa que promete revolucionar os nossos conhecimentos da
história primitiva da Grécia. O autor dêste livro ainda não dispõe, neste mo-
mento, dos dados necessários para poder resumir os resultados da nova desco-
berta.
— Até os egípcios empregavam os cuneiformes durante o reinado de alguns faraós
(século XIV a. C.); em 1886-1887 foi descoberto, em Tell-Amaina, o arquivo
dos reis egípcios Amenofis III e IV, contendo 350 textos, na maioria notas di-
plomáticas, mandadas a reis independentes e vassalos da Asia-Menor. As cartas
ilustram bem as relações intensas entre os diversos povos do Próximo Oriente.
(52) — Cf. $ 57 IV e.
— 458 —

•chamada pedra de Roseta, descoberta em 1799 por ocasião de uma


expedição militar de Napoleão no Egito (53) . A pedra trazia o
mesmo texto em, três caracteres diferentes e três idiomas corres-
pondentes: um em hieróglifos (egípcio arcaico), outro em carac-
teres demóticos (egípcio falado do século VII a. C.-século II d. C.),
e o terceiro em letras gregas (texto grego) .
A investigação minuciosa das bibliotecas vê-se, de vez
em quando, recompensada com descobertas surpreendentes. No sé-
culo passado foi um dos mais felizes descobridores de manuscritos
o cardeal Ângelo Mai (54), no século atual o beneditino D. Ger-
main Morin (55) . Quanto à história do Brasil, mencionamos aqui
as descobertas do jesuíta Serafim Leite no Arquivo Vaticano, e a
Carta de Pero Vaz de Caminha, achada, nos fins do século XVIII,
pelo pesquisador Juan Batista Mufioz (56).
O que mais veio a enriquecer os nossos conhecimentos his-
tóricos da Antiguidade, foi o descobrimento de milhares de "papi-
ros", principalmente no Egito. O tamanho dos papiros descobertos
varia muito: na maioria são apenas exíguos pedaços de material
escrito; encontram-se também fragmentos de livros e até obras qua-
se completas, "volumes" no sentido antigo da palavra (57), um
dos quais tem 40 m de comprimento (58) . Só um acaso feliz re-
velou a subsistência dos papiros antigos. No século passado viam
os inglêses que os felás egípcios estavam em busca de "papel" an-
tigo para fins de adubação. Quando verificaram que êsse material
guardava textos da Antigüidade, começaram a comprá-lo, e não tar-
dou que êles próprios tratassem de escavá-lo no deserto, princi-
palmente perto da antiga aldeia grega Oxyrhynchos no Faium, on,
de a areia extremamente sêca do solo conservara os textos muitas
vêzes perfeitamente legíveis. Também foram sendo utilizados pela
ciência os papiros escritos, que em várias camadas, umas grudadas
em cima de outras, eram empregados pelos pobres como envoltó-
rios das múmias, à guisa de sarcófagos. Assim foram achados cestos
cheioS de textos interessantes: notas, cartas particulares, atas, con-
tratos, registros, decretos, contas, anotações, rascunhos, etc., que
abrangem um período de quatro milênios e dão textos em todos os
idiomas falados no Egito desde os tempos dos faraós até a invasão

(53). —, A pec.ra, que data do ano 196 a. C., quando um dos Ptolomeus reinava no
Egito, acha-se atualmente no British Museum em Londres.
. Angelo Mai (1782-1854) descobriu, por exemplo, grande parte do tratado de
Cícero De Republica, e as cartas de Frontão, o mestre e amigo do Imperador
Marco Aurélio (século II) .
. — D. Germain Morim O. S. B. (1861-1947) descobriu muitos sermões de San-
to Agostinho e de outros Padres da Igreja (Cesário de Arles) .
. — A "certidão Cie batismo do Brasil" foi publicada, pela primeira vez, em 1817,
pelo Pe. Manuel Aires de Casal na sua Corografia Brasílica.
. — Cf. 57 III a.
. — São as contas do faraó Ramsés III (1200 a. C.), bote no British Museum.
— 459 —

•zlos árabes no século VII d. C. Os papiros ilustram sobretudo a épo-


ca helenística e romana do Egito antigamente pouco conhecida, e
refletem fielmente não só a administração e a vida econômica do
país, mas nos permitem também uma, vista direta da vida cotidia-
na. Além disso, foram descobertas algumas obras literárias e his-
tóricas da literatura grega (59) . Fora do Egito as descobertas fo-
ram menos importantes (60) .
Nasceu assim a papirologia, nova ciência auxiliar da história,
na qual se destacaram principalmente os inglêses Flinders Petrie,
'Grenfell, Hunt e Kenyon, e o alemão Ulrich Wilcken. As coleções
mais importantes de papiros antigos acham-se atualmente em Vie-
na, Londres, Berlim e Cairo.

§ 42. A procura organizada.

São quatro as circunstâncias que facilitam a procura dos vá-


rios documentos escritos: a publicação, a centralização, a catalo-
gação, e a livre consulta.
I. Na Antigüidade já havia editôres de livros, nos grandes
centros culturais: Atenas, Alexandria e Roma, mas as tiragens eram
relativamente pequenas porque a multiplicação dos textos se fa-
zia à mão. Na Idade Média eram os monges que copiavam os
não, porém, para fins comerciais, mas para uso próprio. Logo
depois da invenção da tipografia, nos meados do século XV, come-
çaram a ser publicados os textos históricos pela imprensa (61) . Ini-
cialmente foram editados textos avulsos, mas desde o século XVII
sairam também edições seriadas. Não podemos dar aqui nem se-
quer um resumo das mais importantes publicações históricas: são
numerosíssimas e todos os anos cresce-lhes consideravelmente o nú-
mero. Para nossos fins basta mencionar algumas obras seriadas que
fizeram época no tempo da sua publicação e ainda hoje continuam
a ser fontes indispensáveis para o historiador (62).

. Para a história são importantes "A Constituição de Atenas" (De Republica


Atheniensitrm) Ge Aristóteles, e um fragmento extenso de certo historiador
ateniense (século IV a. C. ), a chamada Helênica Oxyrhynchia.
. Já em 1753 haviam sido descobertos em Herculanum (cidade na Itália, des-
truída em 79 d. C., junto com Pompéia, por uma erupção do Vesúvio) mais
de 1800 "volumes" e fragmentos de "volumes" papíreos, em grande parte
carbonizados, que continham as obras no filósofo epicurista Filodemo (século
I a. C.), publicadas (duas vêzes) em 11 tomos (1763-1855, e 1862-1877) •
-(61). — Tipógrafos notáveis da primeira época eram (além do pioneiro J. G. Guten-
berg em Mogúncia, 1397-1468): Laurens Janszoon Koster em Haarlem (Ho-
landa), no século XV; Manutius Aldus em Veneza, Frobenius em Basiléia
e Plantino em Antuérpia, no século XVI; Elzevier em Amsterdão, no século
XVII.
--(62) — E. Bernheim (pp. 184-297, da edição espanhola) dá uma bibliografia abun-
dante, embora seja apenas uma parte exígua do total nas publicações. Pode-
se consultar também, com muito proveito, o livro de W. Bauer (cf. S 34
IV, nota 7).
460

Ocupam um lugar de destaque os Acta Sanctorum, uma co-


leção imponente das vidas de todos os santos, que segue a ordem
do calendário. Foi começada no século XVII pelos jesuítas belgas
e ainda não está acabada (63). Os beneditinos franceses de St.-
Maur editaram no século XVIII, por exemplo, a importante coleção
Gallia Christiana em 13 volumes (1715-1783). Uma das maiores
coleções existentes é a Patrologiae Cursus Completus, editado pelo
abade francês J.-P. Migne (1800-1875) em 382 volumes, que abran-
ge tôdas as obras então conhecidas dos Padres da Igreja (64).
Modelar para todos os outros países foi a edição, feita pelos
alemães, dos Monumenta Germaniae Historica: essa série, verda-
deiramente monumental, divide-se em cinco seções, e dá um do-
cumentação inigualada da história dos povos germânicos de 500 a
1500 d. C. (65) . Inspirou aos portuguêses a publicação dos Portu-
galiae Monumenta Historica que, quando acabados, devem abran-
ger os séculos VIII a XV (66). No século passado começaram to-
dos os países europeus e americanos a editar as fontes referentes à
história nacional: os interessados encontrarão essas publicações em
obras especializadas. Além disso foram editados corpora de textos
gregos, latinos (67), bizantinos (68), semíticos, orientais, etc.

. Os Acta Sanctorum inauguraram, junto com as publicações filológicas dos.


maurinos (cf. 47 I), a época da filologia metódica e crítica nos tempos
modernos. A coleção foi planejada pelo jesuíta flamengo Heriberto Rosweyde
(1569-1629), e ficou com bases mais amplas sob a direção de Jen van Hol-
land, S. J. (1596-1665) . Célebres bolandistas foram, no século XVII: G.
Henschen (1601-1681) e Daniel van Papenbroek ou Papenbrochius ( 1628--
1714 ) ; nos séculos XIX-XX : C. Oe Smedt (1833-1911) e H. Delehaye
1851-1941) . A crítica arrojada dos bolandistas a lendas e tradições até en-
tão aceitas sem ressalvas pelos católicos, pô-los em conflito com várias or-
dens religiosas (por exemplo com os beneditinos e os carmelitas) e até com
a Inquisição. Em 1770 saiu Volume III de outubro; três anos depois, o Papa.
Clemente XIV suprimiu a Companhia. A publicação dos Acta . S anctorum
continuou até 1794, e foi reencetada só em 1847 (Volume VII de outubro) .
Até agora foram publicados, ao total, 65 fólios (1932: Volume III c:e no-
vembro) . A sede atual é em Bruxelas. Desde 1882 os bolandistas editam
uma revista: Analecta Bollandiana, e outras publicações periódicas de suma
importância para a historiografia.
. — Migne editou textos já anteriormente editados, alguns bons (por exemplo o
de Santo Agostinho), outros regulares, outros ainda maus ou péssimos. Os.
Paures latinos abrangem 221 volumes, os gregos 161. — Além disso, editou
81 volumes dos Padres gregos só em tradução latina. — Uma nova edição
modelar dos Padres latinos está sendo feita em Viena: Corpos Scriptorurn.
Ecclesiasticorum Latinorum (abreviado: CSEL)
. — A série foi projetada por C. Von Stein em 1819. — Redatores foram e. o.
G. H. Pertz (até 1875), G. Waitz (1875-1886), W. Wattenbach (1886-1888)
e O. Holder-Egger (1902-1905), todos excelentes filólogos.
. — Publicaoos, desde 1867, pela Academia Real das Ciências de Lisboa. A obra ,
divide-se em quatro seções: Leges et Consuetudines, Scriptores, Diplomatia
et Chartae, e Inquisitiones.
. — As coleções mais importantes dos autores clássicos foram editadas pela Bi-
bliotheca Teubneriana em Lípsia (a mais completa, mas destruída na última
guerra), pela Bibliotheca Oxoniensis em Oxford, pela Association Guillatime
Budé (:"Les Belles Lettres") em Paris, geralmente com a tradução francesa,
e pela Loeb Classico] Library, sempre com tradução inglêsa, em Londres-Carn-
brioge, Mass .
— Já no século XVII foram publicados em Paris, sob a orientação do grande
filólogo Ducange, os Scriptores Historiae Byzantinae (1648-1711); no século
XIX, devido a urna iniciativa de B. G. Niebuhr, Corpus Scriptorum Historiae.
Byzantinae em 50 volumes (1828-1897) .
— 461 —

II. A centralização é outro fator importante pãra a' utiliza-


ão dos documentos históricos. Em geral, pode-se dizer que do-
cumentos dispersos devem ser considerados muitas vêzes como pra-
ticamente perdidos. São chamadas bibliotecas as coleções de livros
impressos e manuscritos antigos; o têrmo arquivo é geralmente re-
servado para designar o lugar onde se guardam outros documentos
escritos.

Os municípios, as províncias, os Estados, os depattamen-


tos, as dioceses, as paróquias, os institutos culturais e científicos, as
emprêsas econômicas, etc. fazem geralmente questão de manter
um arquivo. Muitas vêzes conservam não só documentos públicos,
mas também particulares de alguma importância histórica. Outros=
sim há vários arquivos particulares, os quais, com o tempo, tendem
a tornar-se públicos, oferecendo êsse método melhores garantias
para a conservação e a livre consulta: O arquivo mais antigo e rico
do mundo inteiro é o do Vaticano, que permite acompanharmos a
história do papado desde o pontificado do papa Inocêncio III (1198-
1216), o reorganizador da chancelaria papal. O documento mais an-
tigo da coleção é a chamada Donatio Othonis do ano 962 (69) O
arquivo sofreu perdas lastimáveis por ocasião da mudança para
Avinhão em 1339 (70), e quando Napoleão o fêz transportar para
Paris em 1810. Em 1879 o Papa Leãò XIII franqueou a sua en-
trada a pesquisadores, o que deu origem â fundação de vários Ins--
titutos Históricos em Roma, mantidos por diversas nações. O ar-
quivo conta 5.600 volumes de bulaS e breves medievais, 8.000 vo-
lumes de requerimentos, e 1.000 livros de contas. Para os tempos
modernos são muito importantes as numerosas notícias das nuncia-
turas apostólicas, A medida, tomada por Leão XIII, possibilitou o
estudo documentário de várias questões históricas que antigamente
eram tratadas muito por cima, devido aos conhecimentos falhos
das fontes; possibilitou também a composição da obra magistral de
L. Von Pastor (1854-1928) sôbre a história dos papas (71).

Se fazemos abstração da biblioteca do faraó Ramses II,


que conhecemos só indiretamente (72), a primeira biblioteca, de
que temos conhecimentos seguros, é a do rei assírio Assurbanipal

( 69). Nesta Donatio o Imperador Otão II confirmava as doações, feitas pelos caro-
I íngios aos papas. A primeira é de Pepino-o-Breve ( 756 ), em que cedia
ao papa 21 cidaC.es na Itália.
('O) — Só em 1784 concluiu-se a remessa dos documentos de Avinhão para Roma.
( 71 ) . — A História dos Papas de L. Von Pastor, abrange o período dos fins da Ida-
de Média ( Martinho V, 1417-1431) aos inícios da história contemporânea
(Pio VI, 17754799 ) . A Obra inteira tompõese ,4e 26 volumes ( 18864933 ) •
( 72 ) . — Cf. Diodorus Siculus, Bibliotheca, I 49, 53. Esta biblioteca continha apenas
livros teológicos e místicos.
- 46 2'.

(668-626 a. C.) em Nínive. Consiste de mais de 20.000 "livros"


em forma de tijolos de barro cosido com escrita cuneiforme. Foi
descoberta em 1849 pelo inglês Sir Austen Henry Layard, e acha-
se atualmente no British Museum em Londres. Na antiga Grécia
foi Pisístrato, o tirano de Atenas (559-529) o primeiro a fundar
uma biblioteca pública. Na época clássica do povo grego eram ra-
ros os donos de uma biblioteca particular: a tradição diz que o
dramaturgo Eurípides (480-405), o filósofo Aristóteles e seu alu-
no Teofrasto (372-287) possuiam coleções importantes. Só o He-
lenismo criou bibliotecas públicas com fins científicos, comparáveis
aos institutos modernos. As mais notáveis eram a de Alexandria
no Egito (73) e a de Pérgamo na Ásia-Menor (74) . Em Roma
havia, desde o século I a. C., grandes bibliotecas particulares, por
exemplo a de Catão de titica e a de Luculo, muitas vêzes providas
de livros pelas bibliotecas despojadas da Grécia. A primeira biblio-
teca pública em Roma data da época do Imperador Augusto, e lo-
go depois foram aumentando, não só na capital como também nas
cidades das províncias. Perdeu-se quase tôda essa riqueza na época
da invasão dos bárbaros, não só por causa de numerosas destrui-
ções propositadas mas também por certo descuido e retrocesso da
cultura. Aos monges, principalmente aos beneditinos, cabe a gló-
ria de terem salvo muitos manuscritos: colecionavam-nos e copia-
vam-nos. O monge Cassiodoro foi um dos primeiros a fundar no
seu mosteiro Vivário, na Calábria, uma biblioteca de textos sagra-
dos e profanos, cujo conteúdo ainda hoje podemos reconstruir: além
disso, promoveu a transcrição de textos no trabalho monacal por
excelência. Dizia um adágio medieval: Claustrum sine armentario
est sicut castrum sine armamentario. As bibliotecas mais impor-
tantes da Idade Média eram as dos mosteiros Bobbio e Monte Cas-
sino (na Itália), Jarrow e Canterbury (na Inglaterra), São Gall
(na Suíça), Fulda (na Alemanha), Corbie e Cluny (na França),

. Em Alexandria havia duas grandes bibliotecas, uma das quais estava incor-
porada no "Museu" (cf. 47 I) . O total dos livros teria sido de 700.000
"volumes". Quando urna das duas foi destruída, por ocasião das guerras de
César no Egito (47 a. C.), teria sido abastecida novamente pela biblioteca
de Pérgamo. Segundo outros autores, esta biblioteca teria mudado para Ro-
ma. — Não sabemos ao certo qual foi o fim definitivo das bibliotecas ale-
xandrinas. Uns julgam que foi em 273 4. C. (revolta dos egípcios contra o
Imperador Aureliano), outros acreditam numa decadência demorada e gra-
dativa, outros ainda dão crédito à lenda de que teriam si(, usados os livros
para aquecer o banho (.e Ornar II, quando êste calif aem 643 tomara a ci-
dade, dizendo: "Se êstes livros divergem do Alcorão, são nocivos; se com
êle concordam, são supérfluos".
. — A biblioteca de Pérgamo, fundada pelos atélidas, uma dinastia helenística,
contava ±200.000 volumes. — Outra biblioteca importante era a de Antio-
quia na Síria.
-- 463 ---

Alcobaça (em Portugal); no Oriente as do monte Atos (75) e do ,


monte Sinai (76).
No início do absolutismo foram os príncipes que criaram as
grandes bibliotecas, cujo desenvolvimento era favorecido pela in-
venção da tipografia. O Papa Nicolau V (1447-1455) foi o fun-
dador da Biblioteca Vaticana . A Bibliothèque Nationale de Paris,
que deve a sua origem a uma iniciativa do rei Luís XII (1498-
1515), tornou-se a primeira biblioteca pública dos tempos moder-
nos com o ministro Mazarino (1639-1662). Igualmente fundaram
bibliotecas os príncipes da Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Ho-
landa, e Inglaterra: ao lado dessas coleções surgiram as bibliotecas
universitárias de Paris, Oxford, Bolonha, Louvaina, Leida, Coimbra,.
Salamanca, etc.
Desde a Revolução francesa manifestou-se cada vez mais a
tendência de centralizar as coleções de livros e manuscritos: além
de doações voluntárias, houve numerosas confiscações. Napoleão
cogitou em reunir em Paris todos os documentos importantes e tô-
das as obras-primas de arte, e lançou mão do conteúdo precioso do
Vaticano. Depois da batalha de Waterloo (1815), as diversas na-
ções européias e americanas fundaram as suas bibliotecas: a da ca-
pital di Brasil já existia em 1810.
Algumas bibliotecas importantes dos tempos modernos são:
a Bibliothèque Nationale de Paris, que possui :L- 5.000.000 de li-
vros impressos, fora mapas, revistas, periódicos, etc., e 130.000
manuscritos, 4.000.000 gravuras e 400.000 medalhas (77). A bi-
blioteca do British Museum em Londres, que possui ± - 5.000.000
livros impressos e 75.000 manuscritos, além de uma riquíssima co-
leção de documentos variados relativos à história do Oriente. A
Biblioteca Vaticana, que possui 700.000 livros, 6.000 incunábulos
e 53.000 manuscritos. A Biblioteca Nacional de Viena, que possui
1.350.000 livros, inclusive 9.000 incunábulos, e 35.000 manuscritos
e uma coleção de 100.000 papiros. A Library of CongreSs em Wa-
shington, que possui ±9.000.000 livros. A Biblioteca Pública de
Leningrado, que possui 10.000.000 livros e 46.000 manuscritos. A
Biblioteca Ambrosiana em Milão, que possui 500.000 livros, 3.000

• — O Monte Atos, a "república dos monges", já desde os séculos IV-V habitado


por eremitas, era desGe o século X um dos grandes centros religiosos da Igreja
Oriental. Devido à retirada dos monges russos, desde o regime bolchevista,
tem baixado considerávelmente o número Ge habitantes (atualmente, 2.000 a
2.500) . Os diversos mosteiros do Monte Atos possuem uns 10.000 manus-
critos e milhares de do-...umentos, dos quais foram vendidos ou cedidos nume-
rosos exemplares importantes a bibliotecas estrangeiras.
— No mosteiro "Santa Catarina" do Monte Sinai achava-se, até 1859, um có-
dice grego Ga Bíblia (século IV): a obra foi-lhe comprada pelo filólogo C.
Von Tischendorff, depois adquirida pela Biblioteca Nacional de Leningrado,
e afinal vendida, em 1933, ao British Museum em Londres.
. — Devemos êstes e os outros dados à Encyclopaedia Britannica, Vol. XIV (1953)
— 464 —

incunábulos e 10.000 manuscritos. As bibliotecas da Alemanha são


menos centralizadas, e várias delas sofreram perdas consideráveis
na última guerra mundial. A Biblioteca Pública de Berlim, uma
das muitas existentes na antiga capital da Alemanha, tinha 2.850.000
livros, 68.500 manuscritos, 300.000 mapas e 6.500 incunábulos.
Finalizando mencionamos a Biblioteca Estadual de Munique, que
possuía 2.000.000 de livros, 50.000 manuscritos e 16.000 incuná-
bulos.
Para podermos utilizar os livros de uma biblioteca sem
perda de tempo, torna-se necessário um catálogo. Há diversas
maneiras de catalogar livros: conforme os autores (é o catálogo
alfabético), ou conforme os assuntos (é o sistemático), ou confor-
me o lugar que os livros ocupam na estante da biblioteca. Os três
métodos admitem várias aplicações na prática, e não raro são
combinados. Vai-se abandonando cada vez mais o sistema de pu-
blicar os catálogos em forma de livros, preferindo-se fichas, que
facilitam a catalogação de novas aquisições. A classificação deci-
mal, inventada pelo americano Melvil Dewey (1851-1931) e ado-
tada, com ligeiras modificações, pelo Institut International de Bi-
bliographie em Bruxelas, está ganhando terreno em tôdas os gran-
des bibliotecas do mundo, apesar da oposição que lhe fazem prin-
cipalmente os alemães. No sistema de Dewey dividem-se as dis-
ciplinas em dez grupos, cada um dos quais é indicado por um
algarismo especial: 0=Enciclopédias, Bibliografia, Catálogos, etc.;
1=Filosofia; 2=Teologia; 3=Ciências Sociais e Direito; 4=Filo-
logia; 5=Ciências Matemáticas e Físicas; 6=Ciências Aplicadas;
7=Belas Artes; 8=Literatura; 9=História e Geografia. Cada um
dêsses grupos pode ser subdividido, acrescentando-se-lhe uma deci-
mal, por exemplo 6=Ciências Aplicadas; 66=Tecnologia química;
669=Metalurgia, etc. O sistema de Dewey pode ser acomodado
às exigências de uma biblioteca especializada: mas não podemos
entrar na exposição dêsses problemas técnicos.
E' geralmente livre e franca a consulta dos livros nas
grandes bibliotecas. Quanto à consulta de documentos preciosos,
exigem-se certas garantias. Muitas bibliotecas remetem livros e ma-
nuscritos a outras cidades e até a outros países. Hoje em dia fa-
zem-se fotocópias dos importantes documentos históricos (micro-
filmes): assim se evitam as despesas de longas viagens e o risco de
se perder ou de se estragar o manuscrito. Nos Estados Unidos, as
grandes bibliotecas fazem questão de possuir microfilmes dos gran-
des documentos básicos do passado.
CAPÍTULO TERCEIRO

Á CRITICA HISTÓRICA.
§ 43. Crítica externa e crítica interna.

Até agora o historiador era "investigador", à procura de 'do-


cumentos históricos; daqui em diante precisa ser juiz para lhés
,

estabelecer o valor objetivo. Pois os documentos são como teste-


munhas 'que devem ser interrogadas criteriosamente. 'Assim como
uin juiz exige de uma testemunha a carteira dé identidade antes
de ouVí4a, assim ó histdriador pede ao documento a prova de au-
tenticidade para ver se podè servir de testemunha. E' a Crítica
Externa. No segundo ato do exame passa a julgar a veracidade da
testemunha: é a Crítica Interna. Assim como um juiz aceita com
a devida reserva o depoimento de uiva tésternunha pessoalmente
interessada neste ou naquele êxito do litígio, ou a declaração de
uma pessoa que possui apenas conhecimentos indiretos 'do caso, as-
sim procede o historiador: examina a competência e a sincerida-
de do documento.
Por outras palavras, a Crítica Histórica é o exame judiciosõ das
fontes, visto nem tudo o 'que nelas se encontra ser verdadeiro. E'
o 'método científico para separar nos documentos a verdade do
êrro e da mentira, a certeza do que é provável ou apenas possível.
I. Nos ckico parágrafos seguintes falaremos da Crítica Ex-
terna. Ela suscita numerosos problemas que podem ser reduzidos
a estas três perguntas:
O documento chegou até nós no estado original?
Quem• foi o autor? Onde viveu? Quando escreveu? Em
que circunstâncias se ãéhava quando escrevia o documento?
O autor tinha conhecimentos diretos dos fatos que Co-
munica, 'ou os devia 'a outras fóntes? Nesta hipótese: quais são?
II. Nos §§ 49-50 'pretendemos expor as linhas gerais da
'Crítica Interna.
A. A CRÍTICA EXTERNA.

§ 44. A crítica 'de restauração.


A primeira pergunta a fazer diante de um texto escrito é:
.êste texto é o original ou uma cópia? Por enquanto fiada nos im-
— 466 —

porta saber se o documento é uma falsificação. Pois também os,


-

textos apócrifos podem ter interêsse para o historiador e, chegando


a ser examinados, são submetidos às mesmas regras da Crítica de
Restauração que os documentos autênticos.
O Texto é o Original.
O texto que temos em mãos é original (1), fato êsse que é
provado pela letra ou pela assinatura do documento, ou então.
pelo depoimento de outras testemunhas, independentes de nosso
texto.
Neste caso não precisamos, — nem sequer podemos, — apli-
car a Crítica de Restauração; basta copiarmos fielmente o texto
do documento, tarefa mais difícil do que se pensa em geral, so-
bretudo quando tem certa extensão. Podemos permitir-nos algu-
mas modificações, devidamente explicadas e justificadas no Pre-
fácio, no que diz respeito à ortografia e à pontuação (2) . Em
alguns casos pode ser útil e até instrutivo copiar exatamente os
erros ortográficos e outras incorreções para salientar a ignorância
do autor (3) . Podemos grifar as palavras que julgamos terem im-
portância essencial, mas não sem o aviso especial: grifo do editor.
Quanto ao resto, devemos seguir as regras gerais, que havemos de
expor no § 47.
O Texto é uma Cópia.
Muitos textos medievais e quase todos os textos da Antigüi-
dade (4) chegaram até nós por intermédio de cópias. Ora, todo
mundo sabe que numa cópia podem entrar numerosos erros: para
quem já revisou provas tipográficas ou conferiu os ditados feitos
por diversos alunos da mesma turma, não é preciso insistirmos só-
bre êsse ponto. A reprodução mecânica dos textos, possibilitada
pela fotografia, é o único processo de excluir tais erros; a tipografia,
a não ser que se faça uma revisão escrupulosa, pode multiplicá-los.
Nem a fotografia nem a tipografia existiam na Antigüidade ou na
Idade Média: os textos tinham de ser transcritos à mão, processo
(1). — Pode ser autógrafo, quando foi escrito pelo próprio punho do autor, ou um
texto, escrito por outrem, mas autenticado pela assinatura do autor.
. — Por exemplo, as abreviaturas do documento podem ser escritas por extenso na
cópia; a ortografia pode ser normalizada ou atualizada o emprêgo Lp
maiúsculas, vírgulas, pontos, sinais de exclamação, etc., pode ser harmonizado
com a praxe atual.
. — Neste caso costuma-se pôr na edição a palavra latina sic (="assim"), entre
parênteses, e muitas vêzes com sinal de exclamação. Ao encontrar-se no ori-
ginal a ortografia bizarra "hyppodromo", pode-se usar êste sic, como também
ao topar-se numa palavra ou expressão incompreensível para o autor. Assim
fêz A. Herculano (História de Portugal, 8a. ed., II p. 269) ao transcrever
as palavras latinas sem c:úvida deturpadas: undelafricentur.
. — Feita abstração dos textos, geralmente não literários, que nos foram transmi-
tidos por inscrições e papiros, os mais antigos documentos literários datam
dos séculos III e IV d. C. (livros bíblicos, Homero, Virgílio); aliás, são muito
escassos. A tradição manuscrita toma-se mais abundante a partir do século
IX d. C.
— 467 —

vagaroso e pouco seguro. Muitas vêzes os copistas eram pessoas


de relativamente pouca cultura ou trabalhavam em circunstâncias
pouco favoráveis (5); amiúde dispunham de um modêlo mau: a
cópia de uma cópia inferior, e assim por diante. Vamos examinar
e exemplificar alguns erros que podem entrar numa cópia.
Erros Materiais.
Ao transcrever um texto, o copista pode, por distração ou
por cansaço, trocar duas letras parecidas, por exemplo admonentur
e admoventur, cavo e caro. Pode omitir uma letra, por exemplo
ne e nec, ou um acento, por exemplo saía e saia. Pode pular uma
linha inteira por terminarem duas linhas em palavra igual ou se-
melhante (6). Pode separar erradamente duas palavras (7) . Po-
de omitir vírgulas, pontos, etc., ou pontuar erradamente (8) . Po-
de, por descuido, incorporar no texto uma nota marginal ou glosa
(9). Enfim, pode cometer todos os erros involuntários e quase
inevitáveis, dos quais alguns trazem consigo conseqüências bas-
tante graves. Na Antigüidade era muito comum ditar um texto
a vários escribas juntos, sobretudo para edições baratas: nesta hi-
pótese podiam entrar outros tipos de erros, devidos a uma falta
de atenção ou de compreensão, por exemplo hominibus por omini-
bus, expiar por espiar, etc.
Erros de Raciocínio.
Acontece muitas vêzes que um copista, não compreendendo
bem certa expressão ou palavra, chega a corrigi-la ou modificá-la,
interpretando-a errôneamente. Ora, nem tudo o que é incompre-
. — Os bibliófilos da Antigüidade tinham geralmente escravos especializados ert)
copiar manuscritos para uso particular; os livreiros, porém, eram menos es-
crupulosos e faziam copiar os textos por turmas de escravos, pouco instruídos,
que deviam trabalhar o mais econômicamente possível. Não havia direitos de
autoria. E' principalmente o poeta Marcial (43-104), autor famélico e
deixado entregue às manobras dos livreiros, que nos informa sabre as livra-
rias na Antigüidade (por exemplo Epigrammata I 117, 13; I 113, 5; IV
72, 2; XIII 3, 4) .
. — Por exemplo nesta frase, livre invenção do autor:
"Devemos imitar [os bons exemplos
e evitar os maus]; os bons exemplos
servem para edificar, dando-nos mais..."
— Um exemplo clássico encontra-se numa das cartas de Sêneca (Epistula ad
Lucilium 89, 4), onde o Codex Parisinut 8658 (século IX-X) lê: Philoso-
phia. . . ipso enim nomine fatetur. Quidam et sapientiam quidem ita defini-
erunt. . . O trecho deve ser lido assim: Philosophia. . . ipso enim nomine
profitetur quid amet. Sapientiam quidem ita definierunt. — A tradição
quer que devamos um dos versos mais felizes do poeta F. de Malherbe (1555-
1628) a um êrro do seu tipógrafo, que teria lido nas Stances à du Perrier:
"Et rose, elle a vécu ce que vivent les roses, L'espace d'un matin", em vez
de: "Et Rosette (era o nome da filha falecida) a vécu..."
. — A pontuação é um problema árduo para os editares das Sátiras de Horácio,
das comédias de Aristófanes, e até dos dramas de Shakespeare. Os antigos
códices e os primeiros livros impressos faziam pouco uso, ou então um uso
pouco coerente, da pontuação.
. Os antigos e os medievos punham freqüentemente "glosas" (notas explica-
tivas) na margem de uma falha, muitas vêzes introduzidas pelas palavras
id, est, scilicet, etc. — Também a divisão em capítulos, parágrafos e versí-
culos é quase sempre acréscimo posterior.
— 468 —

'ériSíVel para trin copista, é - iricompreensívél em 'si. Quando alguém


'eiiontra 'a :palavra "ecumênico" sem saber o que significa, pode
Ser tentado 'a 'tranáformá4a em "econômico". Essas álterações 'são
'freqüentes nos textos antigos: o copista substitui uma palavrá ''gre-
ga ou latina que não entende 'por uma palavra conhecida; "cortigé"
anacolutos; "completa" frases (10); interpreta mal certa abrevia-
tura (11); relaciona erradamente uma palavra com outra (12),
etc., etc.
c) Modificaçõeá VOluntárias.
Além dessas duas categorias de alterações, existe outra, mais
grave ainda e não menos difícil de verificar: o copista altera cons-
cientemente o texto do original de boa ou má fé. Pode suprimir
uma palavra ou um passo que não concorda com as suas convicções;
pode mitigar uma expressão ou torná-la mais forte; pode dar até um
excerto ou extrato do documento original sem avisar devidamente •o
leitor (13) . Por outro lado, muitos textos são interpolados, quer di-
-zer, foram-lhes acrescentados elementos alheioS <ao originàl. As
interpolações podem 'ser insignificantes, tratando-se de palavras in-
tercaladas para 'esclarecer (bem ou mal) o pensamento, mas chegaM
a deturpar o tekto original, acrescendo-lhe novos episódios (14) ou
idéias (15) . Afinal, muitos textos, principrilmente crônicas, foram
continuados por outras pessoas sem que estas tivessem o cuidado
de marcar as fronteiras entre o texto original e a continuação (16) .
1-1á méis Cópias.
De muitos 'textos antigos e medievais possuimos mais de uma
cópia, e as diversas reproduções apresentam sempre diferençá •mais
'ou 'menos numerosas •e consideráveis. A circunstância de 'dispormos
de vários manuscritos "é lima vantagem, visto qué'muitas vêzes o

— O Evangelho de São Lucas (11, 2) omite as palavras do 'Padre;Nosso que se


encontram em São Mateus (6, 10): "Seja "feita a Vossa vontade assim 'na
terra como no céu". -Vários copistas intercalaratil essa frase, nos códices gregos
e latinos.
— Por exemplo a abreviatura latina B. M. pode Significar: Beata Maria, ou
Bonaé Memóriae, ou Beatos Martyr.
— Por 'exemplo o versículo muito discutido no Gênesis . (3, .15): Ipse (ou,
Ipsa) 'coriterêt "c-aput tutint — A lição certa, conforme o original em he-
,braiéo, é ipse; tainbéM a versão grega dá -a forma masculina ("autós"). O
tracutor latino (já anterior a 'São Jérônimo), ou então um copista, não sa-
bendo "a que 'palavra se referia a fornia "masculina ipse (a palavra semen é
neutra em latiM), substituiu-a por 'ipso. Existem, aliás, também outras opi-
niões a respeito desta passagem.
— Um exemplo 'bem conhecido de nim tal abreviai:lar -é CassiOdoro, 'que nos dei-
xou vários resumos de obras. graniatiéais e de tratados sôbre as artes libe-
rais (por 'exemplo no livro 'II das Inatitidienei), muitas vêzes sem mencio-
nar as suas fontes. O 'próprio autor foi Vítima dessa praxe, cf. & 4 IV a.
— E' êste o caso c:e vários episódios e -entlinetações -nas 'obras de Homero e
- Hesíodo.
— Por exemplo o chamado "domina Jóliantiétim, um versículo da Vulgata latina
(João, -Epísitila, 5, 7), guie talsre-z Seja de origem 'espanhola (século III).
— Por exemplo as crônicas medievais, ef.
— 469. —

texto de um códice corrige ou, completa o de outro; mas, sendo mui- ,

to divergentes as, cópias, dificulta-se a restauração do texto e exi-


gem-se métodos especiais para a restituição do original, a, qual mui- ,
tas vêzes terá apenas valor aproximativo. Antes de iniciar a Crítica
de Restauração, o pesquisador estudará a origem e a história de
cada um dos manuscritos, procurando estabelecer entre êles as in-
terrelações. Possibilitam-lhe êsse exame as anotações eventualmen-
te encontradas nos códices, notícias bibliográficas fora dos códices,
e afinal, indícios paleográficos (17). Não basta estabelecer qual ,
dos diversos manuscritos é o mais antigo: pois um códice do século
X pode ser muito inferior a um do século XII por ter êste utilizado
um exemplar melhor do que aquêle (recentiorps nora sunt deterio-
res). Ora, a filologia procura indagar os graus de parentesco entre
os diversos códices (18), partindo dêste argumento: "Tôdas as có-
pias que contêm, nos mesmos lugares, os mesmos erros ou foram ti-
radas umas das outras, ou tôdas de uma só, que continha tais erros.
Não é crível, realmente, que vários copistas hajam perpetrado, ao
reproduzir cada um por sua vez o arquétipo isento de defeitos, exa-
tamente os mesmos erros : a identidade de erros atesta uma origem
.

comum" (19) . A' êsse critério devemos acrescentar a identidade de


lacunas, quer dizer, de omissões, muitas vêzes originadas pelo esta-
do ilegível de certo passo ou pela falta de urna ou mais fôlhas no
exemplar que o copista tinha à sua disposição. O pesquisador pro-
cura a fonte original• dêsses erros .e dessas lacunas comuns, e se
conseguir descobri-la, poderá eliminar sossegadamente todos os
exemplares derivados dela. Não conseguindo descobri-la, esforçar-se-
á por agrupar os manuscritos que apresentem o maior número de
particularidades em comum. Depois classifica-os em "famílias", cada
uma das quais representa a mesma tradição com maior ou menor
fidelidade. Para a restauração do texto possuem importância ape-
nas aquelas cópias que deram origem a certa categoria de particula-
ridades, vindo a- ser consultadas- as- derivadas só em casos duvidosos.
Procedendo assim, o filólogo é geralmente capaz de dar a árvore
genealógica dos códices, o chamado stemma codicum (20), a mos-
trar-nos as interrelações que existem entre as diversas "famílias" dos
códices, e. a respectiva importância de cada uma delas.

(17,).. — Cf, S 57, IV-V.


(18). — Foi, o filólogo alemão Ç. Lachmann (1793-1851), conhecifo editor de textos
clássicos (Lucrécio!) e bíblicos, o primeiro a formular essas regras` e a apli-
cá-las severamente (talvez um pouco mecânicamente) à restauração_ dos do-
cumentos. Distinguia entre recensio (a descrição, crítica da história Oos menus,.
critos) e a emendado (a, revisão metódica do texto) .
(»), — Langlois-Seignobos, Introdução, p. 57 (trad. portuguêse) .
(20),., — Stemma, palavra , grega, quer cizer: "fita, tira_ . Os romanos, empregavam a
palavra, para indicar as 'fites" que ligavam entre si as imagens dos seus an-
tepassados (no atrium), deixando ver assim a linhagem de uma fainília.
-470—

O exemplo que damos aqui, refere-se aos manuscritos existen-


tes no Livro Idas Institutiones (21) de Cassiodoro, cujo original, o
"arquétipo", se perdeu (22) .
Archetypus

B 1 recentiores
H

CX G
U FV K recentiores
B é um códice, escrito na segunda metade do século VIII na
Itália do Sul, que depois passou para a Alemanha (atualmente em
Bambergo) e deu origem ao códice U (século XII), atualmente no
Vaticano. O códice M (século X, atualmente em Paris) deve ter
sido composto igualmente na Itália do Sul, e apesar de se aproxi-
mar em alguns pontos do texto BU, representa uma tradição não
diretamente dependente dêle. Duas fontes, O e E, hoje perdidas,
podem ser reconstruídas mediante a confrontação de três manuscri-
tos delas derivados: F (século IX, escrito em França, atualmente em
Florença), V(século IX, escrito em França, atualmente em Valen-
ciennes), e K (séculos IX-X, escrito no mosteiro de S. Gall) le-
vam-nos ao conhecimento de fonte O; Q (século XI, escrito na Ba-
viera, atualmente no Vaticano), C (século IX, escrito em Fulda,
atualmente em Cassel), X (século X, escrito na Baviera atualmen-
te em Wurzburgo), e G (século X, escrito na Alemanha, atualmen-
te em Wolfenbüttel) levam-nos ao conhecimento de E. Por causa
de certos indícios, que não podemos expor aqui, é muito provável
que as duas fontes, e e remontem a uma fonte comum, igualmen-
te perdida e acima indicada pela letra grega A. Afinal, possuimos
vários manuscritos de data mais recente (codices recentiores), que
devem sua origem a duas fontes diferentes: 4) (perdida) e H (sé-
culo IX, atualmente em Hereford, Inglaterra, e muito provavel-
mente uma cópia de um exemplar irlandês) . Essas duas tradições
nasceram na França meridional e nas Ilhas Britânicas.
IV. A Restauração do Texto.
Uma vez feita a árvore genealógica dos vários manuscritos
sobreviventes (a recensio), torna-se mais fácil a restauração, se não
. — Neste livro Cassiodoro dá uma introdução metódica aos estudos bíblicos e pa-
trísticos, e trata das ciências auxiliares (as sete artes liberales).
. O sterrima foi feito por R. A. B. Mynors (Oxford, 1937, p. LVI t.'a ed. de
Cassiodori In s titutiones), e é reproduzido aqui com algumas ligeiras morá-
ficações. Por exemplo marcamos todos os códices "hipotéticos" com caracte-
res gregos, e os sobreviventes com maiúsculas latinas.
471 —

,do texto original, ao menos de um texto muito parecido com o ar-


'quétipo. Em nosso caso, serão importantes os códices: B e M (U
•é uma cópia de B); a seguir: F. V e K (visto que se perdeu e); de-
pois: Q. C, X e G (visto que se perdeu E); e, afinal: H. O valor
dessas cópias não é igual, e o filólogo tem a tarefa de estabelecer-
lhes os diversos graus de importância (23). Eliminadas as cópias
secundárias, às quais recorre apenas em casos excepcionais, pode
agora reconstruir o texto (a emendaria).
Neste trabalho deixa de lado os erros ortográficos, os enganas
'evidentes de somenos importância, as arbitrariedades da pontuação
(24), que não influam na interpretação do texto. Depois vai "co-
lacionar" ou conferir minuciosamente os textos das diversas cópias,
que representam uma tradição indepedente. Quando concordam en-
tre si as várias "lições", geralmente não há dificuldade. Quando,
porém, os textos variam em pontos de alguma importância, tem que
tomar uma decisão, adotando esta ou aquela variante. Ora, ao to-
mar uma decisão, serve-se de critérios externos e internos. Crité-
rios externos são, por exemplo, o fato de estar relativamente perto
do arquétipo (no tempo e no espaço) certa cópia; o esmêro ou a
negligência com que se fêz uma cópia; o fato de se encontrarem ci-
tações do nosso texto em outros autores, cuja tradição manuscrita
foi diferente; "lições" de antigos livros impressos, que utilizaram có-
dices já não existentes (25), etc. Critérios internos são, por exemplo,
a linguagem e o estilo em relação com os característicos da época
e do autor; a tendência geral do pensamento, confrontada com as
idéias do autor e da época em que viveu; a descrição de costumes,
instituições e lugares, que podemos verificar freqüentemente me-
diante outras fontes, etc. Tudo isso pressupõe profundos conheci-
mentos da paleografia, da língua, da cultura, da cronologia, etc. E,
apesar de todos os esforços feitos para resolver certos problemas, o
resultado da crítica textual é de vez em quando muito pobre e até
precário em alguns casos.
Quando todos os textos estão de acôrdo em apresentar-nos
um passo evidentemente corrupto ou uma palavra òbviamente er-
rada (as chamadas "corruptelas"), o filólogo recorre ao último
remédio, que é a emenda pessoal por meio de uma "conjetura"

. — Em nosso caso, a ordem de importância é B-M-0-

. — No Prefácio, o editor geralmente dá uma exposição do critério que segue


quanto à ortografia, pontuação, etc.
. — Os humanistas dos séculos XV e XVI (por exemplo Erasmo) destruíam mui-
tas vêzes os códices depois de os ter utilizado para as suas edições. Para
a restauração do texto de Horácio é muito importante a edição do humanista
flamengo Van Cruycke (Cruquius), que utilizava os célebres codices Blandinii,
destruír.os quando das lutas religiosas em Flandres (1566) .
— 472 —

. Os editôres de textos antigos e patrísticos, no século passa-


do, atribuíam geralmente valor demasiado à crítica conjetural, che-
gando a considerá-la como uma das tarefas principais do filólogo
. Desprezando muitas vêzes a autoridade dos manuscritos e
examinando-os quase exclusivamente pelas regras um tanto artifi-
ciais de uma gramática "oficial", desconhecida dos autores clássicos,
ou, — pior ainda, — pelas regras de uma estética pretensamente
clássica, "expurgavam" os textos, normalizando as "lições" difíceis
ou pouco usadas, e tirando-lhes elementos autênticos quando mal se
harmonizavam com as suas idéias. Vários fatôres contribuiram pa-
ra que se abandonasse êsse método subjetivo e se atribuisse mais
valor à tradição manuscrita . Os papiros, recentemente descobertos,
mostram que os textos antigos foram melhor transmitidos do que
se pensava nos meados do século XIX; a gramática "histórica", a
estudar as línguas em tôdas as fases da sua evolução e nas suas
formas dialetais, destronou a gramática "oficial", invenção dos hu-
manistas e dos seus epígonos; e afinal, evidenciou-se a verdade da
,

palavra horaciana: Quandoque bonus dormitat Homerus (28):


também os melhores entre os artistas antigos cometeram lapsos, ou
então, aderiam a princípios estéticos algo diferentes dos modernos. .

Esses e muitos outros fatores reabilitaram os manuscritos medievais.


V. Problemas da Crítica de Restauração.
A hipercrítica, aplicada pela escola filológica do século passa-
do à tradição manuscrita, "expurgava" os textos clássicos muitas
vêzes a tal ponto que condenava como interpolações numerosos tre-
chos, transmitidos pelos códices (29) . Examinemos agora dois
exemplos de "interpolações", a cujo respeito os entendidos ainda
,

não estão de acôrdo, embora se possa verificar uma tendência cada


vez mais forte para lhes admitir a autenticidade.
a) No drama de Sófocles (495-404 a. C.), intitulado "Antí-
gona", encontra-se uma passagem de 10 ou 16 versos (30), onde a
— Um só exemplo: Sêneca (Quaestiones Naturales IV A, Praef. 12) diz (se-
gundo alguns códices): semper enim falsis a vero petitur ventas, ou (segun-
do outro): ...a vero petitura veri ricas. O editor P. Oltramare (Paris, 1929)
rejeita essas e outras lições impossíveis dos manuscritos, e propõe à conjectura-
muito provável: Semper enim falsis a vero petitur auctoritas. — As vêzes uma
conjectura é confirmada pela "lição" de um códice depois descoberto. Assim
o humanista português Achilles Statius (fim do século XVI) emendou a
"lição" errônea do Codex Thuaneus: tono quiuore (do poema Pérvigilium
Veneris, v. 9), propondo: tunc cruore, lição essa que depois foi , confirmada.
pela descoberta do Codex Salmasianus.
— Alguns exemplos são: o alemão Lehrs, o dinamarquês Madvig, e o holandês .
Cobet, todos influenciados pelo grande filólogo inglês Richard Bentley (1662-
1742), que costumava dizer que para êle um texto compreensível tinha mais
autoridade do que uma centena de manuscritos. Eram filólogos muitíssimo.
inteligentes e eruditos, mas suas edições, por mais importantes que sejam para
a história da filologia, gozam hoje de uma reputação duvidosa.
. — Horatius, Ars Poetica, 359.
. — Por exemplo Lehrs que, como se diz, afugentava Horácio do próprio Ho-
rácio, tirando quase a terça parte dos versos transmitidos pelos códices (1834).
. — Sophocles, Antigone 904-920, ou 904-914. — O sentido dêste trecho é: "Se
ultrajado fôsse meu marido, não teria feito por êle o que fiz; mas agora.
que é meu irmão, tive que fazê-lo".
— 473 —

heroina, antes de ir para a morte, justifica o seu ato generoso de uma


maneira que nos parece um pouco prosaica . Goethe (31), por mo-
tivos estéticos, desejava que "um bom filólogo provasse não ser au-
têntica a. passagem", e com efeito, não faltaram filólogos que, va-
lendo-se de critérios internos, riscaram as palavras discutidas de
Antígoná, Their, wish was father to that. thought (32), e sendo
assim, era-lhes bastante fácil apontar incorreções gramaticais, falta
de lógida e outras deficiências no trecho. Mas, por outro lado, os
manuscritos nô-lo transmitem; ademais, já Aristóteles, que vivia
um século depois do dramaturgo, conhecia e citou algumas linhas
da passagem (33); encontramos idéias semelhantes em Heródoto,
que era amigo de Sófocles (34 . ); e finalmente, o estudo dos, epitá-
fios atenienses nos, ensina que o raciocino de Antígona, por mais
estranho que nos pareça a nós, os modernos, era encontradiço no
século V a. C. For êsses motivos aceita-se, hoje em dia, geralmente
a autenticidade da passagem.
b) Melhor conhecido é o caso do chamado Testimonium Fla-
vianum, um trecho referente à vida e à personalidade de Jesús, na
obra de Flávio Josefo (35) . O, passo reza assim:
"Naquele tempo vivia Jesús, um homem' sábio, se é
que é lícito chamá-lo homem. Pois fazia muitas coisas
milagrosas, sendo mestre de todos os que aceitam com
Loa vontade a verdade. E atraía muitas pessoas entre
os judeus e os gregos. Era o Cristo. E.quando o crucifi-
cara. Pilatos à instigação dos chefes do nosso povo, não
deixaram de amá-lo os que o haviam amado desde o co-
mêço. Pois apareceu-lhes no terceiro dia, revivificado
(ressuscitado), de acôrdo com as profecias que os divi-
nos profetas sôbre êle proferiram', juntatamente com nu-
merosíssimas outras coisas maravilhosas. E ainda hoje
em dia existe certa seita de pessoas, que se chamam cris-
tãos, apelido êsse que dêle lhes vem".
Os argumentos em favor da, autenticidade são muito fortes:
todos os manuscritos dão o trecho inteiro; além disso, já o cita
Eusébio no século IV (36) . Os, que lhe contestam a, autencida-
de, baseiam-se geralmente em três argumentos: os apologistas dos
séculos II. e, III; que teriam todo o, intprêsse em citar êsse texto
importante (37), não o mencionam; o pensamento e a terminolo-
(31 ) — Goethe, Gesprãche mit Eckermann (Conversação do dia 28-111-1827) .
(32). W. Shakespeare, II Henry IV, Act . II,' Scene V.
( 33) . — Aristóteles, Rhetorica, III 16.
(34 ) . — Herodotus, Historiae, III 119.
. — O trecho encontra-se nas Antiquitates Judeicae XVIII 63-64. Em outra pas-
sageni o mesmo autor fala das atividades e da morte de João Batista em têr-
mos respeitosos (XVIII 116-119 ) , e em outra ainda de São Tiago: "irmão
de Jesús que é chamado o Cristo" (XX . 200) . A respeito dêsses dois últimos
passos não existem dúvidas fundamentadas. — Cf. , 3 V c.
. — Eusebius, Historia Ecclesiastica I 11, 7-8; cf. Demonstratio Evangelica, III 3,
105-106 .
. — Por exemplo Orígenes, Tertuliano e Minúcio Félix. — Mas um "argumentum
ex silentio" precisa ser manejado com muito cuidado, cf. 64 I.
— 474 —

gia (talvez inspirada pelo Símbolo dos Apóstolos?) são alheios


aos de um judeu convicto como era Josefo; o contexto dificilmen-
te concorda com o trecho. Os que atribuem muito valor a um ou
mais dêsses argumentos, consideram a passagem inteira como uma
interpolação; segundo outros, Flávio, por ter mencionado inciden-
talmente a Jesús, teria dado ensejo a um copista cristão de inter-
polar algumas palavras relativas à divindade, à ressurreição e aos
milagres de Cristo; outros ainda julgam que o passo inteiro, tal
como o lemos, é autêntico (38) . Não convém acompanhar aqui
em todos os pormenores a argumentação dos defensores e dos ad-
versários do Testimonium: demos o exemplo a fim de mostrar co-
mo é difícil, de vez em quando, chegar com certeza a uma solução
definitiva. Tais casos são freqüentes na edição de textos antigos,
mas poucas vêzes se trata de questões tão importantes.

§ 45. A crítica de autoria.

Uma vez restaurado o texto, se não com perfeição, ao menos


de modo satisfatório, devemos continuar as investigações.
I. A primeira pergunta é: quem foi o autor do nosso texto?
Muitas vêzes acontece que a tradição manuscrita a êsse respeito
é deficiente, contraditória ou falsa, por várias causas: êrro, engano,
ou fraude. Um copista pode ter atribuído o texto a certo autor,
com cujas obras se achava reunido no mesmo códice, ou pode ter
confundido dois autores homônimos (39); pode ter entendido mal
o título da obra (40) . Pode ser também que o nosso documento,
desde o início, seja uma falsificação, coisa bastante comum na An-
tigüidade e na Idade Média, quando ainda não havia direitos de
autoria, nem existia a tipografia, e tais atos não eram tão severa-
mente censurados como nos tempos modernos (41) . Os motivos
para falsificar eram muito variados: podiam ser relativamente ino-
centes, compondo-se versos ou discursos no estilo de um poeta ou
orador bem conhecido, ou desenvolvendo-se um tema à maneira de
um filósofo afamado. Antes da invenção da tipografia era facílimo
apresentar um documento falso ou adulterado, e fazer acreditar
na sua autenticidade. Havia também motivos menos desculpáveis;
. — As opiniões a "esse respeito não coincidem com as confissões: o célebre histo-
riador liberal A. Harnack (1851-1930) defenGeu a autenticidade; combateu-a
o dominicano francês Pe. Lagrange.
. — Mencionamos aqui o exemplo do retor e mitógrafo africano Fulgêncio (cf.
4 VII), muitas vêzes confundido com seu contemporâneo e patrício S.
Fulgêncio de Ruspe (século VI) .
. Por exemplo o título do gracioso poema latino Pervigilium Veneris (=Vi-
gília em honra de Vênus), que data muito provavelmente do século II d. C.,
originou o engano de atribuí-lo ao poeta Virgílio (=Per Virgilium Veneris).
. — Quem não sabe que Cervantes, depois de ter publicado em 1605 a primeira
parte do seu Don Quijote, teve a surprêsa desagradável de ver a publknção
da segunda parte, escrita por certo inGivíduo misterioso que se chamava Avel-
laneda? (1614) •
— 475 —

a intenção de legitimar as próprias idéias ou pretensões com a auto-


ridade de um grande nome do passado; o interêsse individual ou
coletivo em obter ou conservar certos privilégios; a vaidade, a ga-
nância, o fanatismo religioso, etc. Finalmente, há falsificações fei-
tas com o único fim de despistar os pesquisadores.
As diversas falsificações, feita abstração da última categoria,
podem ser um objeto interessante de estudos históricos, pois reve-
lam-nos as aspirações e a mentalidade do indivíduo ou do grupo
social em que nasceram. Outrossim, algumas falsificações exerce-
ram profunda influência no decurso dos séculos, até uma influên-
cia superior à de muitos documentos autênticos. Por êsses moti-
vos consagraremos um parágrafo especial aos textos apócrifos
(§ 48).
Ao estabelecer a autoria, o historiador torna a valer-se de cri-
térios externos e internos, analogamente aos princípios que já vi-
mos no parágrafo anterior. Em geral, possuem mais valor os ex-
ternos, já que os internos estão mais expostos a uma interpretação
subjetiva. Em muitos casos é impossível uma solução definitiva.
Quem escreveu por exemplo o Juramento de Hipócrates? (42). E
quem foi o autor das obras místicas, que a Idade Média atribuía a
Dionísio do Areópago? (43). Nestes casos, tão numerosos na filo-
logia clássica e medievalista, os editôres falam em "Pseudo-Hipócra-
tes" e "Pseudo-Dionísio", e qualificam as obras de "incertas" e "es-
púrias". Freqüentemente acontece que a tradição manuscrita nem
sequer nos transmite o nome do autor: aí se fala em "obras anô-
nimas".
À questão da autoria prende-se estreitamente êste grupo
de problemas: quando viveu o autor (do original) do nosso do-
cumento? Onde? Em que circunstâncias se achava ao escrevê-lo?
A que partido político, a que confissão religiosa, a que classe social
pertencia? As respostas, dadas a essas perguntas, podem ser impor-
tantes para o historiador, ao utilizar-se dos depoimentos da teste-
munha. São outra vez critérios externos e internos que o guiam,
e, em geral, preponderam os externos.
Le vrai peut quelquefois n'être pas vraisemblable (44):
dois exemplos podem ilustrar como critérios, baseados exclusiva-
. — Hipócrates, o pai Oa medicina racional, viveu em ±-460-±373 a. C. Chegaram
aos nossos 72 opúsculos, que lhe são atribuidos, dos quais só 6 são au-
tênticos. O Juramento, que em forma modificada ainda hoje está em vigor,
era prestado pelos médicos ca ilha de Cos, aos quais pertencia Hipócrates.
Mas a data e a autoria são ainda muito problemáticas.
• — Dionísio Areopagita foi convertido por São Paulo (cf. Atos dos Ap. XIV 34),
e teria sido o primeiro bispo de Atenas. Por volta de 500, certo indivíduo,
pouco identificável, talvez um sírio, escreveu 4 obras e 10 cartas, que de-
clarava serem óe Dionísio. Esses livros foram traduzidos para o latim (século
IX), e só os humanistas (Erasmo, Valia, etc.) começaram a pôr-lhes em dú-
vida a autenticidade, em que hoje ninguém acredita.
. — N. Boileau, Art Poétique III 48.
476 ; —

mente em argumentos de probabilidade, "interna", despistaram os


pesquisadores. Segundo a tradição medieval; que já começa, no ) sé=,

culo VIII, Boécio (±485-524), o último filósofo dos romanos, te-


ria. esc rito quatro ou cinco tratados teológicos. Possuímo-los ainda,
e os manuscritos são unânimes em atribuí-los a Boécio. Mas os filó :
logos do século passado julgavam pouco provável tal, preocupação
teológica, de parte do autor da Consolatio .ehilosophie (45), em
que_nem sequer é mencionado o nome de Cristo. Em 1871, H. Use-
ner, publicou umas anotações, descobertas num manuscrito, do sé-
culo X (46), que vieram a provar incontestàvelmente a, autenti-
cidade dos tratados. Destarte foi confirmada uma longa tradição,
que tinha sempre venerado Boécio corno sábio cristão, e até como,
mártir da fé. Critérios igualmente internos levaram, no século, pas-
sado, alguns. filólogos . (47) a emitir a bizarra teoria, contrária a to- ,

dos os critérios externos, de que humilde ator de teatro, William


Shakespeare (1564-1616) não pode ter sido o autor dos dramas que
lhe são atribuídos. Seria possível admitir-se que uma pessoa sabida-
mente pouco culta (48) fôsse capaz de compor dramas tão "erudi-
tos"? Onde teria arranjado conhecimentos,tão vastos da literatura, da,
história, da geografia, da filosofia? Na época de Elisabeth I apenas
um homem era capaz de escrever o Hamlet, Macbeth, King,Le4r,
etc,:, o filósofo Francis Bacon (1561-1626). Hoje em dia ninguém, já
acredita na "Baconian Theory,". Reconhece-se que, um gênio não
precisa, freqüentar, a escola, para se formar; por possuir um poder
excepcional. de assimilação, e um interêsse muito vivo por todos, os
aspectos da vida, aproveita-se de tudo o que encontra no seu cami-
nho: a própria experiência, as conversas com amigos, leituras inci-
,

dentais, etc. Atribuir os dramas shakespeareanos ao frio raciona-


lista Bacon, que nada tinha de poeta inspirado, é o mesmo que .
explicar obscur um per obscurius.
Esses problemas, muitas vêzes mal postos, contudo não são
inúteis para o progresso da ciência: obrigam os filólogos a ponde-
rar os argumentos dos adversários e a examinar antigas questões à,
luz de novos métodos. Se muitas,.vêzes não levam a uma, solução
definitiva, podem concorrer para enriquecer nossos conhecimentos
históricos; se muitas vêzes não resultain em confirmar a hipótese
originàriamente emitida, abrem novos campos de pesquisa, quase

(45). Boécio escreveu áste livro nos fins da, sua vida, quanc prêso em Pavia. A
Consolatio foi urna das, obras mais' populares da Idade Média, traC.uzida vá-
rias vêzes para tôdas as, línguas européias.
. — Codex Augiensis 106 (atualmente em Carlsruhe), que remonta a, fontes do sé-
culo VI.
. — Por exemplo W. H. Smith, Bacon and Shakespeare (1857) e Delia Bacon
(1856) .
(48). — Ben Jonson, no necrológio_ consagrado ao poeta, dizia dêle: he, had srnall
Latin and less Greek .
= 477—

-Sempre proveitosos. Um 'exemplo clássico é a chamada queStão


homérica, 'suscitada 'em 1795 por Fr. A. Wolf (49), que deu
'gani a muitas pesquisas filológicas e históricas, 'não só no campo d'a
'epopéia grega, mas também no de, outros cantos populares e da
'Bíblia. A questão homérica ainda não está resolvida, 'e talvez seja
'insolúvel, mas, graças aos nunterosós'trabalhós leitôs 'neste sentido,
coriheeemos'hoje, muito melhõr do que os filólogos do século XVIII,
o rmurido 'honnérito, a natureza de uma epôpéia "popular", e a 'eStrü-
tura da Ilíada e . da Odisséia.

§ 46. A crítica de procedência.

Depois de examinados os problemas relativos à autoria, che-


gamos à última questão da Crítica externa: o autor (do original)
do nosso documento tinha conhecimentos pessoais dos fatos comu-
nicados, ou os devia a outras fontes?
I . Vários indícios nos podem encaminhar à solução 'dêsse
problema: a cronologia, 'indicações feitas pelo 'próprio autor (neste
documento ou noutro) ou por outros autores. Tratando-se de au-
tores posteriores aos fatos narrados, tais como Plutarco e Tito-Lívio,
devemos indagar, na medida do -possível, as fontes por êles utili-
zadas. Em alguns casos ainda as possuimos, em outros dispomos
apenas de fragmentos, mas acontece• também que desconhecemos
completamente os textos originais. O filólogo confere meticulosa-
mente o texto do seu documento 'com o das fontes disponíveis para
verificar de que maneira as utilizou o autor do documento estuda-
do. Foi fiel 'ao servir-se delas, ou embelezou os dados do original,
por motivos literários? Modificou-os por certa preocupação ética,
(patriótica 'ou religiosa? Deturpou-os por 'partidarismo político? Ou
não entendia direito o que o outro dissera? -Não dominava suficien-
temente a língua da 'sua fonte? (50) .
A fim de resolver êsses e numerosos outros problemas seme-
lhantes, o historiador precisa possuir conhecimentos profundos da
língua, da historiografia e da literatura comparada. Uma ligeira
alusão, que poderia fàcilmente passar despercebida a um leigo, bas-
ta muitas vêzes para que um entendido descubra contactos, influên-
cias, filiações, etc. Mesmo que 'se 'tenham 'perdido 'as fontes origi-
nais, os filólogos são, de vez em quando,' capazes 'de reconstruir nas
(49). — F. A. Wolf, Prolegomena ad Homerum. •
(50) — 'Neste ponto tem-sé pecado milito. 'Os 'grarri'ACOs latinos traduziram ó 'íõrtrio
grego "aitiatiké" (="causal" e "acusativo") pela 'expressão (neste caso er-
rônea): accusativus. — Os tradutores gregosdôs livros sagrados tinham tanto
respeito péla letra do 'texto original . que sua'versáo 'se ressentia de numerosos
idiomatismos da língua hebraica; 'estes foram-se 'perpetuando (e piorando)
na tradução latina. — Alexandre Pope (1688-1744) "traduziu" Homero pa-
ra o inglês, conhecendo 'a epopéia grega 'apenas mediante 'traduções latinas
e francesas! E hoje em dia, quántos 'livros russos e escandinavos publicados,
que são traduções de traduções!
478 —

linhas mestras, e estrutura, a tendência e o conteúdo das obras per-


didas, servindo-se de informações de documentos intermediários.
Foram principalmente os filólogos clássicos que adiantaram êste
ramo da metodologia histórica. Colecionaram textos que se acha-
vam dispersos por tôda a literatura antiga, submeteram-nos a um
exame microscópico e delinearam os contornos de obras há muito ,
perdidas. E não poucos dêsses resultados já não são hipotéticos,
mas vieram a ser conhecimentos quase certos, que em alguns casos.
foram corroborados por descobertas posteriores (51) .
II. Quando um autor toma emprestada literalmente certa
expressão ou passagem de outro autor, fala-se em "citação". Hoje
em dia, tomamos geralmente muito cuidado, pelo menos em publi-
cações de caráter científico, em conferir o texto citado com o origi-
nal. Não era assim na Antigüidade, na Idade Média, e até nos .

Tempos Modernos: citava-se quase sempre de cór, o que explica


grande número de inexatidões. Em longos períodos históricos cer-
tos livros exerciam influência tamanha que quase tôdas as pessoas.
cultas estavam familiarizadas com êles e até os sabiam de cór: Ho-
mero na Grécia (52), Vegílio em Roma, e a Bíblia na éra cristã (53 ).
Documentos literários de uma época em que havia tal livro cen-
tral, mostram freqüentemente certas semelhanças e concordâncias
na argumentação, que se explicam, não por uma influência direta,
mas por sua origem comum num livro central (54) .

§ 47. A edição de um texto.

O resultado da Crítica externa é a edição filológica de um


texto.
I. A filologia, tanto o nome quanto a realidade (55), nasceu
na época hélenística em Alexandria, onde os primeiros Ptolomeus :

(56) fundaram um Instituto para Pesquisas Científicas (57), mu-


nido de uma biblioteca esplêndida: aí trabalhavam médicos, botâ-

. — Mencionamos aqui um trabalho modelar do filólogo alemão H. Diels, Die-


Fragmente der Vorsokratiker ("Os Fragmentos dos Pré-socráticos"), 19547 .
. — Homero era o educador do povo grego, e muitos conheciam a epopéia de cór,
cf. Xenophon, Symposium, 3, 5, e Plato, /o (passim) .
. — Um exemplo: Santo Agostinho cita 13.276 vêzes o Antigo Testamento, e
29.540 vêzes o Novo Testamento! E' um fato conhecido quanta influência
exerceram, na Alemanha, a versão da Bíblia, feita por Lutero e, na Ingla-
terra, a chamada Authorized Version (1604, tendo por base a tradução de
W. Tyndale, 1535) .
— Felipe-o-Belo da França (1285-1315) valeu-se, nas suas lutas contra o papar:o,
de argumentos muito semelhantes aos que já empregara o Imperador Frederico ,
II (1215-1250). Ao examiná-los de perto, podemos verificar que são alusões
a passagens bíblicas, fato desapercebido a alguns historiadores.
— Cf. Suetonius, De Grammaticis, 10: .. .Eratosthenes. . . primus hoc nomen-
sibi vindicavit.
(56) — Chamam-se Ptolomeus os reis helenísticos do Egito, c.esde Alexandre Magno ,
até o domínio romano (31 a. C.) .
(57). — Chamava-se "Mousaion", cf. a nossa palavra "museu".
— 479 —

nicos, astrônomos, historiadores, poetas e filólogos. Estes últimos


tinham a tarefa de colecionar os melhores manuscritos existentes,
compará-los e editá-los. Zenódoto, o primeiro bibliotecário, deu em
±275 a. C. a primeira edição crítica de Homero; outros filólogos
de nomeada foram Eratóstenes, um sábio universal que já encon-
tramos como geógrafo (58), Aristófanes de Bizâncio (±257-±180)
e Aristarco de Samotrácia (217-145) . Infelizmente, perderam-se
as edições e os comentários da escola alexandrina: só os "escó-
lios" (59), conservados em alguns códices medievais, nos permitem
uma reconstrução muito parcial da imensa atividade filológica dês-
ses eruditos. Também em Pérgamo, cidade litoral da Asia-Menor,
existia uma afamada escola, a qual era influenciada pela Estoa e
se dedicava preferencialmente aos estudos gramaticais e retóricos
(60) . Desde o século I a. C. a filologia era cultivada igualmente em
Roma, mas os romanos eram geralmente apenas discípulos dos gre-
gos sem contribuirem muito para o progresso da ciência. Além
de Varrão (61), mencionamos aqui os grammatici Donatus (século
IV) e Servius (século V), aquêle autor 'de duas gramáticas latinas
muito populares na Idade Média, êste autor de um comentário sô-
bre Vergílio que ainda hoje é muito apreciado. Os aristocratas ro-
manos da época da decadência (séculos IV-VI) consideravam a
tarefa de restaurar os textos antigos como parte integrante dos seus
deveres patrióticos: visto que a carreira política lhes oferecia ape-
nas honras imaginárias e poucas vantagens efetivas, buscavam mo-
tivos de consôlo nos livros do passado. Entre os Padres da Igreja
Ocidental eram principalmente São Jerônimo e Cassiodoro estu-
diosos da filologia. Na Idade Média eram desconhecidos os méto-
dos científicos da escola alexandrina para restaurar um texto, mas
os monges irlandeses e depois os beneditinos faziam o possível para
procurar bons manuscritos e copiá-los. E' de bom tom, querendo-se
demonstrar o obscurantismo medieval, citar alguns textos que de-
vem provar o desprêzo dos monges pela cultura (62): seria mais
justo reconhecermos com gratidão o quanto devemos ao trabalho
modesto dos copistas anônimos da Idade Média.

(58). Cf. 5 38 V.
— "Escólios" são anotações gramaticais, literárias e históricas, tiradas das obras
dos antigos filólogos. A maior parte dêles se refere a Homero, aos líricos e
aos dramaturgos.
. — Aí era seguica, também sob a influência dos Estóicos, a interpretação ale-
górica dos textos antigos. — Nos tempos cristãos trocaram-se os papéis: Ale-
xandria tomou-se o centro da "alegorese" bíblica, e Antioquia preferia a in-
terpretação literal.
(61). — Cf. 4 II d.
(62) . — Por exemplo as palavras do Papa Gregário I (Epistula V 53a): ...quis in-
dignum vehementer existimo, ut verba caelestis oraculi restringem sub re-
gulis Donati. Negue enim haec ab ullis interpretibus in Scripturae Sacrae
auctoritate serviste sunt.
— 480 —

A arte de imprimir (63) 'possibilitou a multiplicação e a di-


fusão de livros em proporções antes inimagináveis, diminuindo o
perigo de entrarem novos erros na tradição. Mas os primeiros hu-
manistas, procedendo com uma precipitação quase febril, pouco se
incomodavam com a comparação demorada e minuciosa dós có-
dices. Passados os primeiros tempos de um entusiasmo compreensí-
vel, mas um tanto exaltado pela nova invenção, começaram a apa-
recer os textos críticos, principalmente na França e na Holanda .
Mencionamos aqui os nomes ilustres de Joseph Justus Scaliger
(1540-1609) e Isaac Casaubonus (1559-1614); Justus Lipsius
(1547-1606) e Gerardus Vossius (1577-1649) . No século XVII des-
tacam-se as edições dos Bolandistas, de que já falamos (64), e as
dos maurinos na França (65) . Merece também nossa atenção a
erudita obra de compilação histórica, feita pelo jansenista Lenain
de Tillemont (1637-1698) nas suas Mémoires pour servir à I'histoi-
re ecclésiastique des six premiers siècles (66) . Filólogos de relêvo
no século XVIII eram o inglês R. Bentley (67), o italiano L. A.
Muratori (68), e o holandês C. Valckenaer (69) . Desde os fins
dêsse século foram os alemães que abriram novos caminhos: a filo-
logia alemã dominaria o século XIX, e ainda hoje em dia ocupa um
lugar dos mais importantes. Inegàvelmente foi a filologia clássica o
modêlo para todos os outros ramos dessa ciência, mas atualmente
já não possui o monopólio: os romanistas, os germanistas, os angu:-
cistas e os orientalistas dispõem agora igualmente de coleções impo-
nentes de documentos históricos, criticamente editados.
II. Por mais indispensáveis que sejam as edições críticas, não
constituem o têrmo da atividade do historiador. A crítica externa,
no fundo mais filologia do que história, "ensina a não nos utilizar-
mos dos maus documentos, mas não nos ensina a tirarmos partido
dos bons" -(70) . Muitas pessoas, enfastiadas pelo caráter extrema-
mente analítico da Crítica externa chegam a desqualificá-la como
perda de tempo e desperdício de energia, inteiramente despropor-
— A primeira edição impressa de um texto chama-se Editio Princeps. Antes
de 1500 estavam impressos os importantes autores latinos, antes de 1520
os gregos. Antes de 1521 sairam quase 100 edições c'..a Vulgata . Os livros
impressos antes de 1500 chamam-se "incunábulos".
. — Cf. 42 I, n. 60.
( 65) . — Os maurinos, congregação beneditina, cuja matriz era em St. Gerrnain-des-
Pres, perto de Paris, editaram por exemplo as obras de Santo Agostinho, de
maneira ainda hoje não superada. Os mais célebres entre êles eram D. Ma-
billon (1631-1707), autor da obra De Re Diplomatica e D. Sabatier, que
editou os restos c.a Itala (antiga versão latina da Bíblia) . — Cf. 42 I.
. — Esta obra, riquíssima em documentação, serviu de base à obra de E. Gibbon,
cf. .$ 7 II.
. — R. Bentley fundou a história científica da literatura grega, e fêz muitas des-
cobertas importantes. — Cf. 44 IV, n. 27.
. — L. A. Mutatori (1672-1750) editou a coleção importante Rerum Ifalicarum
Scriptores (em 28 volumes, 1723-1751; desde 1900 reeditada), e descobriu
a lista mais antiga ecos livros do Novo Testamento.
. — C. Valckenaer descobriu muitas falsificações em trechos atribuídos a Eurí-
pides, Calímaco, etc . ti715-1785) .
. — Langlois-Seignobos, Introdução p. 71.
-481—

cionados ao valor histórico dos documentos editados e nada ou pou-


co contribuindo para a vida cultural. Com , efeito, não é imaginá-
rio o perigo de ficar absorvido o historiador pelo pesquisador, ou
a síntese pela análise. Mas cumpre frisarmos que uma síntese cien-
tífica é impossível sem prévios estudos analíticos. Aliás, os grandes
historiadores dos séculos XIX-XX souberam combinar os traba-
lhos de pesquisa minuciosa com uma exposição sintética dos resul-
tados: um bom exemplo é o grande historiador Th. Mommsen (71).
E, afinal, dada a complexidade da matéria histórica, é impossível
demarcar com precisão os limites entre o que é muito importante e
o que tem apenas importância secundária. Quase tudo depende,
tanto na edição das fontes como no estudo de um assunto muito es-
pecializado, da maneira de focalizar o objeto. Um detalhe aparen-
temente insignificante pode-se tornar muito importante quando é
situado pelo espírito humano como elemento constitutivo e signifi-
cativo de um conjunto superior.
III. Uma edição filológica consiste geralmente de três partes
essenciais: o Prefácio, o Texto e o índice.
No Prefácio o editor dá a história do(s) manuscrito(s),
descreve-lhe(s) o valor e as interrelações, traça o stemma codicum,
e indica as "siglas" ou abreviaturas que emprega para indicar os di-
versos códices utilizados (o chamado Canspectus Siglorum). Não
raro fala também da vida do autor, da época e das circunstâncias
em que escreveu, das fontes que utilizou, e da sobrevivência do tex-
to em autores posteriores. Em uma palavra, aí resume os resulta-
dos certos ou duvidosos da Crítica externa.
O corpo da edição é o texto. O editor pode eliminar, co-
mo já vimos (72), erros e enganos óbvios, sem importância para a
interpretação, normalizar a ortografia e a pontuação, escrever por
extenso as abreviaturas, etc. Serve-se de vários "sinais" ou "símbo-
los", cujo valor precisa ser esclarecido adotando-se um• sistema pes-
soal; em textos clássicos segue-se geralmente um sistema internacio-
nal e uniforme. Damos aqui os mais importantes:

< > indica palavras, não transmitidas pelos manuscritos,


mas acrescentadas pelo editor;
[ ] indica palavras, transmitidas pelos manuscritos, mas
"delidas" pelo editor,

(71) . — Th. Mommsen (1817-1903), o autor da História Romana (4 volumes, obra


não acabada), escreveu também estudos "técnicos" sôbre a numismática, a
cronologia, a administração, etc. da antiga Roma; além disso editou vários
textos dos Monumento Germaniae Historica e o Corpus Juris Civilis.
(72). — Cf. li 44 I.

Revista de História ns, 21-22.


— 482 —

* indica lacunas nos manuscritos;


±-1--1- indica passos corruptos que o editor não sabe emen-
dar bem.

Exemplos
ut crederes <hoc> esse conscriptum o editor acrescentou hoc (73) ;
ut crederes [hoc] esse conscriptum o editor "deliu" hoc, lição,
transmitida pelos manuscritos;
ut crederes * * esse conscriptum sumiram-se uma ou mais pa-
lavras entre crederes e cons-
criptum;
ut crederes +++ esse conscriptum é essa a "lição" dos manus-
critos, mas o editor conside-
ra-a errada sem saber como-
deve emendá-la.

Uma edição crítica não poderia ser completa sem o chamado


aparato crítico (Apparatus criticus), quer dizer, notas abaixo do,
texto, a trazerem as diversas "variantes", com breve indicação do(s)
códice(s) em que são encontradas. O editor pode seguir dois mé-
todos: o método negativo consiste em registrar as "lições" diferen-
tes do texto adotado no corpo; o método positivo e mais minucioso
registra também o(s) códice(s) da lição adotada.
Abaixo do "aparato crítico", ou então à margem do texto, são
indicados os textos que o autor do documento editado citou ou uti-
lizou, e muitas vêzes também os autores posteriores que, por sua
vez, utilizaram o nosso autor. Por vêzes é-lhes acrescentado um
comentário gramatical ou histórico: quando êste exige muito es-
paço é geralmente colocado no fim do livro ou no fim do Prefácio.
c) O Índice é a terceira parte: registra, em ordem alfabética,.
os nomes dos autores, as palavras e expressões interessantes, os no-
mes de lugares geográficos e de pessoas históricas, etc. Muitas vê-
zes há vários Índices, organizados conforme os diversos assuntos.
IV. Uma edição de suma importância, acompanhada por
todos os filólogos com intenso interêsse, está sendo realizada em.
Roma pelos beneditinos do mosteiro de San Girolamo: trata-se da
edição crítica da Vulgata, da qual existem ±30.000 manuscritos
(completos ou incompletos) . A Vulgata é o texto latino oficialmen-
te adotado pela Igreja Católica no Concílio de Trento, e as várias
edições do século XVI, geralmente conhecidas sob o título de Edi- -

tio Sixto-Clementina (74), já não satisfazem às exigências rigoro-


(73) . — O editor pote-se servir, neste caso, também de grilos.
( 74 ) . — A edição "definitiva" data do ano 1598; devido à pressa que os papas Sixto
V (1585-1590) e Clemente VIII (1592-1605) mostravam, os filólogos, en-
carregados da nova edição, não podiam trabalhar com o sossêgo necessário.
— 483 —

sas da crítica moderna. Os trabalhos preparatórios começaram em


1907, e depois de vencidas numerosas dificuldades externas e in-
ternas, sairam uns dez volumes até agora, cada um de ±500 pági-
nas, e abrangendo mais ou menos a quarta parte da Bíblia. Os ma-
nuscritos foram divididos em três famílias principais, cujas fontes
principais: o codex Gatianus, o codex Ottobonianus e o codex Amia-
tinus possuem autoridade decisiva para os editores.

§ 48. Falsificações.

Já vimos que algumas falsificações possuem grande importân-


cia para a história. Neste parágrafo damos exemplos célebres e tra-
tamos dos problemas a êsse respeito.
I. Falsificações Célebres.
a) Os Cantos Sibilinos (74a).
Na antiga Grécia havia mulheres vaticinadoras, chamadas "Si-
bilas", que, sem domicílio fixo, iam de lugar em lugar, profetizan-
do o que viam no espírito, não a pedido de outros, como as sacer-
dotizas nos oráculos, mas empolgadas pela divindade que se apode-
rava de seu coração. Atribuía-lhes o povo uma quantidade de profe-
cias sinistras, que perturbavam a imaginação da época: de tudo isso
quase nada chegou aos nossos dias. Mas na Alexandria helenísti-
ca, onde muitos judeus moravam na "diáspora" (75), haviam de
renascer as Sibilas. Apoderaram-se da literatura sibilina os judeus
alexandrinos para nela darem expressão aos seus sentimentos de in-
dignação contra os gentios, no meio dos quais estavam condenados
a viver. De acôrdo com o papel tradicional da Sibila, faziam-na
predizer todos os horrores da devastação que deviam cair sôbre o
mundo pagão, e faziam-na anunciar a próxima vinda do Messias.
Dêsses produtos de pia fraus se assenhorearam mais tarde os cris-
tãos, para se queixarem das injustas perseguições que sofriam da
parte dos pagãos. Ainda hoje possuimos uns doze livros de profe-
cias "sibilinas", cujos elementos mais antigos remontam aos judeus
' e os mais recentes aos cristãos. Muitos Padres da Igreja deixaram-
se enganar por êsses documentos apócrifos (76), e a Sibila tornou-
se uma figura popular na literatura e nas artes da Idade Média.
Até Miguel-Angelo sentia-se atraído pelo assunto, e pintou na Ca-
(74a) . Cf. J. J. van den Besselaar, Virgílio e a Sibila na Idade Média, in Revista da
Univ. Cat. de São Paulo, IV f (1953), pgs. 23-39.
(76). — Foi neste ambiente que nasceu também o Septuaginta, a tradução grega do
Velho Testamento, segundo a tradição, feita sob o reinado de Ptolomeu Fi-
ladelfo (285-246 a. C.) por 70 judeus, os quais independentemente uns dos
outros, teriam chegado ao mesmo resultado. Na verdade foi a obra de três
ou quatro gerações (séculos III-II a. C.) .
(76). — Por exemplo Justinus, Cohortatio ad Graecos, 38; Tertullianus, Adversos Nationes,
II 14; Augustinus, De Civitete Dei, XVIII 23; até São Tomás, Suntrna Theo-
logica, II-II, q. 2, a. 7, ad 3.
-

pela Sixtina cinco maravilhosas figuras de Sibilas. Só na época do


Racionalismo foi-se destruindo a lenda, incapaz de resistir às nor-
mas de um rigoroso exame crítico (77).
b) Donatio Constantini.
Outra falsificação célebre teve grande repercussão na vida po-
lítica e.diplomática da Idade Média. E' a chamada Donatio Cons-
tantini, documento falsamente atribuído a Constantino Magno
(306-337), o primeiro Imperador cristão dos romanos. Conforme
texto da Donatio, Constantino, depois de curado de lepra pelo
papa Silvestre I (314-335), teria concedido à Igreja de Roma a
primazia sôbre tôdas as outras Igrejas do Império; além disso, te-
ria dado ao papa maior poder do que êle próprio pretendia exer-
cer, também em questões mundanas: deu-lhe a cidade de Roma e
tôdas as províncias do Ocidente. Para simbolizar êsse ato solene,
Imperador mudou-se para Constantinopla (330), cedendo ao pa-
pa o mundo latino.
- Por mais incrível que pareça, a Doação exerceu grande influên-
cia, apesar dos numerosos contrasensos nela contidos (por exemplo,
papa recebe o 'primado espiritual do poder terrestre!). E' cita-
da, desde o século IX, na França, e a partir do pontificado de Leão
IX (1049-1054) até pela chancelaria papal. Dante tinha fé na
autenticidade da Donatio, se bem que lastimasse o fato e lhe im-
pugnasse o valor jurídico (78). Sua origem continua obscura. Po-
de ser que um franco, ou então um romano tenha fabricado o do-
cumento, possivelmente quando da coroação do Imperador Luís-o-
Bondoso pelo papa Estêvão IV em Reims (816). A fraude foi só
descoberta no século XV por três eruditos, uns independentemente
dos outros (79).
c ) Ossian.
, Em 1760, o poeta escocês James Macpherson (1736-1796),
editou seus Fragments of Ancient Poetry, uma coleção de 15 ba-
ladas e canções pretensamente traduzidas da língua gaélica (80).
De 1762 a 1765 sairam outras coleções, apresentadas ao público
inglês como traduções do cantor gaélico, Ossian (81). O tom sen-
timental e o caráter nebuloso dessa poesia ossiânica, "traduzida",
. — B. de Fontenelle, Histore des Oradas (1687) . Cf. $ 85 I.
• — Dante, Inferno, XIX 115-117; Purgatorio, XXXII 129; Paradiso, XX 55-60;
De Monarchia, III 10-11.
. — Puseram em dúvida a autencidade Nicolau de Cusa (1432: Concordantia
Catholica) e Lourenço Valia (1440: De falso credita et ementita Constantini
Declamatio). O caráter apócrifo foi provado terminantemente em 1450 pelo
bispo inglês Reinald Peacock.
• — O gaélico é um dos dialetos celtas, muito afim com o irlandês, que os mon-
tanheses da Escócia ainda falavam no século XVIII.
. — Ossian, bardo cego, meio lendário, o último descendente de uma linhagem
de reis (século III) . Seu pai Fingal teria vencido os exércitos romanos sob
o comando do Imperador Caracala (211-217) .
— 485
por Macpherson, causaram grande impressão na mentalidade prél
romântica da época, não só na Inglaterra, mas também na França
e na Alemanha, onde logo apareceram versões no vernáculo. Só
algumas pessoas críticas, como por exemplo o Dr. Samuel Johnson,
tinham a coragem de combater a autenticidade das descobertas do
poeta escocês: quase todos, também os grandes literatos, acredita-
vam piamente na poesia ossiânica, apesar de aí haver muitas remi-
niscências de Homero, Milton e dos Salmos, e não obstante o "tra-
dutor" recusar-se a mostrar o texto original durante a sua vida.
Não é exagerado dizer-se que três fatôres foram decisivos para o nas-
cimento do Romantismo na segunda metade do século XVIII: as
obras de Rousseau, o descobrimento de Homero e Shakespeare, e a
poesia de Macpherson. Embora não estejam resolvidos todos os pro-
blemas relativos à origem de "Ossian", pode-se dizer que as obras
do poeta escocês não passam de mistificações.
d) Malaquias.
. Em 1595, o beneditino A. Wion publicou no seu Lignum Vitae
(em Veneza) os característicos de 111 papas, desde. Celestino II
(1143-1144) até o fim do mundo, atribuindo-os ao santo bispo Ma-
laquias de Armagh, da Irlanda (1094-1148), amigo de São Ber-
nardo . Os característicos, com que figuram os Sumos Pontífices de
Celestino II a Urbano VIII (1590), não permitem a mínima dúvi-
da: todos êles se referem aos nomes das famílias a que pertenciam
os papas, ou então aos brasões papais. A partir de 1590, porém, as
"profecias" mudam completamente de caráter: tornam-se vagas e
enigmáticas; algumas são aplicáveis a quase todo e qualquer papa
dos últimos séculos, por exemplo o apelido Vir Religiosas, que cabe
a Pio VIII (1829-1831) . A profecia de Malaquias tem sido objeto
de discussão desde o século XVÁ: o exegeta Cornelius a Lapide
(1567-1637) propendia para •ceitá-la, seu confrade, o bolandista
D. van Papenbroek rejeitava-a, e nos tempos modernos o grande
historiador A. Harnack proferiu igualmente contra ela uma senten-
ça condenatória. Cada vez que se elege um novo papa, o documen-
to torna a atrair o interêsse do grande público, e por causa de umas
coincidências felizes (82), surgem sempre defensores da autenti-
cidade. Os principais argumentos contra a autenticidade são: a
profecia é desconhecida de São Bernardo, que escreveu a vida de seu
amigo e mencionou o dom profético dêle; o documento emprega al-
gumas expressões tipicamente renascentistas; a diferença já indi-

(82) . — A título de curiosidade damos aqui alguns característicos dos últimos papas:
Crus de Craca (Pio IX), Lumen in Caelo (Leão XIII), lgnis Ardens (Pio
X), Rangi° Depopuiata (Benedito XV), Fides Intrepida (Pio XI), Pastor
Angelicus (Pio XII) . Depois da morte de Pio XII há de haver ainda 6
papas, dos quais o último, Pedro de Roma, .governará a Igreja durante uma
grande perseguição: et tunc erit finis.
— 486 —

cada entre a primeira e a segunda metade da lista; o falsificador


empregou a "História dos Papas" de Onófrio Panvínio, publicada
em 1557, da qual copia vários erros. A despeito da popularidade de
que goza esta profecia em certos meios, devemos acatar a sentença
da história: a "profecia" de Malaquias é uma mistificação, ainda que
não saibamos quem a fabricou, nem quando foi feita ou com que
intenções.
II. Houve outros falsários de documentos históricos, e perten-
ceram a várias categorias. Um caso interessante foi um padre ora-
toriano francês, Jérôme Vignier (1606-1661), que forjou nove
documentos, relativos aos tempos merovíngios; a fraude foi des-
mascarada só em 1885 pelo historiador Jules Havet (83), mas os
textos apócrifos já tinham entrado em diversas grandes coleções.
Vrain Lucas apresentou à Bibliothèque Nationale de Paris os "au-
tógrafos" de Vercingétorix, Cleópatra, e Maria Madalena (84).
Louvre pagou 100.000 francos, pela pretensa tiara do rei cita
Sataifernes (século II a. C.), fabricada por uni judeu em Odessa.
mesmo museu pagou 17.000 francos pelo busto "contemporâneo"
do poeta renascentista Benevieni. Ao surgirem dúvidas acêrca
da autenticidade, foi proposto um prêmio de 15.000 francos para
quem resolvesse o problema. Ganhou-o o falsário, chamado Bas-
taniani (85).
III. Um detalhe aparentemente insignificante pode condu-
zir os pesquisadores a descobrirem o lôgro: anacronismos, citações
bíblicas de uma tradução ainda inexistente no tempo do "original",
contradições manifestas com outras fontes, questões gramaticais e
estilísticas, a natureza do material usado, verificável por processos
químicos, a forma da letra, as circunstâncias misteriosas da sua ori-
gem, etc. Uma vez surgindo dúvidas a êsse respeito, é difícil que
documento adulterado escape à sagacidade dos investigadores.
IV. Pergunta-se, porém, se diante dessa multidão de do-
cumentos apócrifos não é prudente duvidar da autenticidade de
numerosíssimas outras fontes, que continuamos a considerar, tal-
vez sem razão, como autênticas. Com efeito, é bem possível que
uma parte dos documentos, hoje aceitos, sejam falsificações, mas
essa parte é muito exígua comparada com a grande maioria, que
são documentos autênticos.
O padre jesuíta J. Hardouin (1646-1729) sustentou a teo-
ria exorbitante de serem falsificações, forjadas por monges medie-
— J. Havet, Les Découvertes de J. Vignier, Paris, 1885. — Engraçadas são as
palavras de um confrade a respeito de Vignier: II y a céans un certain père,
qui autrefois a été huguenot, nonuné le père Vignier, qui est un grand, ex-
cellent et hardi menteur... D'o,) on dit par ironia: les vérités da père
Vignier/
Cf. Seignobos-Langlois, Introdução, pp. 62-63.
— Devemos êstes dados Ei P. Kira, Einführung in die Geschichtswissenschaft, Ber-
lim, 1952, p. 16.
— 487 —

vais, quase tôdas as obras clássicas da Antigüidade, com exceção


de Homero, Heródoto, Cícero, as Bucólicas de Virgílio, as Sátiras
de Horácio, e as obras de Plínio-o-Velho; segundo o mesmo, todos
-os concílios eucumênicos, anteriores ao de Trento (1545-1563),
seriam fictícios. Nos tempos modernos, um alemão, chamado W.
Kammeier, escreveu várias brochuras com o fim de demonstrar
-que quase tôdas as fontes relativas à história da Germânia medie-
val teriam sido fabricadas por eclesiásticos interesseiros do século
XV.
Tal atitude hipercrítica é, no fundo, não menos ridícula do
que a crença cega na autenticidade das fontes, e leva a um absur-
do evidente. Aquêles falsários teriam forjado documentos históri-
cos, revelando não só conhecimentos extraordinários dos tempos
passados, mas também da paleografia. Teriam sido os melhores
paleógrafos de todos os tempos, escrevendo manuscritos cada um
dos quais representasse certa fase de evolução paleográfica, corres-
pondente à tradição manuscrita da Bíblia e dos códices jurídicos
que ninguém pode considerar como invenção dos fins da Idade
Média. Além disso, teriam tomado o cuidado de interpolar certas
palavras e passagens, de omitir e alterar outras, etc.
Essas tentativas de eliminar a maior parte dos documentos
:geralmente não são originados pelo desêjo de servir à verdade his-
tórica, mas pela pretensão a uma originalidade, mal entendida.
São estéreis e absurdas, e não 'merecem o nome de teorias, e sim
de especulações fantásticas.
A. A CRITICA INTERNA.
§ 49. A. hermenêutica.
A Crítica interna ocupa-se do valor objetivo do depoimento,
dado pelo documento, ao qual a Crítica externa deu a melhor forma
possível. Neste parágrafo examinamos dois aspectos da Crítica in-
terna, geralmente reunidos sob o nome de Hermenêutica ou a Arte
de Interpretar.
I. O que disse o Autor?
Nesta parte da Crítica, o pesquisador pergunta: qual o senti-
do (literal) da comunicação, feita pelo documento? Precisa de
profundos conhecimentos lingüísticos (86) para poder dar uma res-
posta satisfatória a essa resposta. Não se trata apenas de um conhe-
cimento geral de certo idioma, mas de tôdas as suas aplicações pos-
síveis em documentos históricos. Quem conhece apenas o latim
clássico de Cícero, está pouco preparado para ler o latim escolásti-
(86) . — Falamos aqui apenas em documentos escritos: a "hermenêutica" de documen-
tos não escritos exige outras disciplinas subsidárias.
— 488 —

co de São Tomás, e vice-versa. O latim diplomático da Idade Mé-


día apresenta outras dificuldades ao filólogo (87) .
A descoberta dos papiros gregos, na maior parte escritos na
chamada "Koiné" (88), revolucionou a exegese bíblica, chegando a .
modificar a interpretação de muitas palavras e expressões, encon-
tradiças no Novo Testamento, que antigamente não eram entendi-
das em todo o seu alcance por falta de conhecimentos da "Koiné".
A lingüística moderna descobriu também as feições próprias do la-
tirn cristão, usado pelos Padres da Igreja Ocidental, obrigando os
historiadores a modificarem certas interpretações tradicionais.
II. O que quis dizer o Autor?
Afim com a pergunta anterior, mas muito mais sutil é esta
questão: o que quis dizer o autor do documento? Ao procurarmos
dar-lhe um_ a resposta bem fundamentada, devemos tomar em con-
sideração vários fatôres. O autor escreveu para o povo, simplifi-
cando os fatos, ou para entendidos? Serviu-se de certo simbolismo,
alegorias ou ironia, ou quis ser entendido ao pé da letra? Qual o •
gênero literário a que pertence o nosso documento? Qual o contex-
to da passagem que queremos utilizar? Êsses e tantos outros proble-
mas pertencem ao domínio da história da literatura, no sentido
mais amplo da palavra; estuda ela os diversos produtos literários,.
enquadrando-os na sua época e estabelecendo-lhes os caracteres pe-
culiares, os quais geralmente são condicionados pela tradição, e pe-
las convenções e predileções das épocas históricas.
a) Citações avulsas, desligadas do corpo do texto a que per-
tencem, deturpam muitas vêzes o sentido das palavras originais:
todo e qualquer herege encontra fàcilmente um texto que lhe sirva,,
fato êsse que é provado abundantemente pela história das lutas
dogmáticas. Muitas palavras aladas, repetidas irrefletidamente sem
que se lhes procure o sentido original, ficaram com um significado
bem diferente do que tinham na fonte, por exemplo Mens sana in
corpore sano (89), e Non scholae, sed vitae discimus (90). Dedu-
. — Neste ponto são muito importantes, além de gramáticas, dicionários especia-
lizados. Mencionamos aqui uma obra do século XVII, ainda hoje indispen-
sável para o estudioso da Idade Média; Glossariurn ad Scriptores Mediae et
Infimae Latinitatis, feito por Ch. Du Cange (1610-1688), reeditado (em 10
volumes) por L. Favre (1883-1888) .
. — A "Koiné" constitui a fase de evolução do antigo grego na época helenística
e romana. Em oposição aos "dialetos" clássicos (ático, jônico, dórico e eóli-
co), que pertencem ao período das "póleis", era uma linguagem universalmen-
te falada e entendida em tôdas as terras de fala grega. Devido a prevenções
estilísticas, perdeu-se grande parte da literatura grega, escrita em Koiné,
que, antes das descobertas dos papiros, dificultava consideràvelmente o estudo
filológico do Novo Testamento.
(89). — Juvenalis, Safira, X 356: Orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
O poeta diz que um homem de bom juízo pede ao céu a saúde da alma com
a saúde do corpo, e não que a saúde do corpo seja condição essencial da'
saúde da alma.
(90) . Sêneca, Epistola ad Lucilium, CVI, 2 (cf. LXXXVIII passirn), queixando-se
da tirania exercida pela escola do seu tempo, diz: Quemadmodum omnium
rerum, sic litterarurn quoque internperantia laboramos. Non vitae, sed scholae
discirna.
— 489 —

zir delas argumentos , históricos, corno se faz muitas vêzes em livros


populares, sem se preocupar do contexto, é processo indigno de um
historiador sério.
Um exemplo engraçado é a interpretação meio ignorante, meio
maliciosa, dada por certos anticlericais, a- um passo da Historia
Francorum (VII 20) de Gregário de Tours. Um dos bispos fran-
cos, que assistia ao Concilio nacional de Mâcon em 585, fêz, quando
.

se tratava de garantir certos direitos da mulher, esta observação:


mulierem hominem non posse vocitari. A observação do bispo ti-
nha apenas a finalidade de chamar a atenção dos seus colegas para
o fato de significar, em latim vulgar, a palavra homo (91) só "ho-
mem" (do sexo masculino), nunca "mulher": por isso o emprêgo
do têrmo homo era pouco apropriado num caso como êste, onde se
tratava evidentemente de mulheres. Calou-se, depois de ouvir a
explicação de um dos outros bispos, que lhe esclareceu que também
a Bíblia fala em Filiu,s Hominis. Conforme uma interpretação erra-
da, que não liga para o contexto, o Concílio teria negado a alma
da mulher!
b) Numa obra histórica própriamente dita há pouco perigo
de encontrarmos alegorias que não sejam imediatamente reconhe-
cíveis: os historiadores fazem em geral questão de ser entendidos
,sem dificuldade. Mas em certas obras literárias, não menos impor-
tantes para os estudiosos da história, a situação é muito diferente.
Cometeria êrro fatal quem quisesse interpretar ao pé da letra a
Divina Comrnedia de Dante, ou não levasse em conta o elemento
de ironia ao estudar a Utopia de Thomas More.
A interpretação alegórica era muito comum na Antigüidade e
na Idade Média . Já no século VI a. C., certo Teágenes deu uma
interpretação alegórica de certas passagens homéricas. A Estoa
adotou êsse método, elevando-o à categoria de um verdadeiro siste-
ma: já vimos que a escola filológica de Pérgamo fazia tudo para
descobrir o sentido oculto dos mitos e da epopéia (92). A "alego-
rese" tornou-se uma mania de alguns Padres da Igreja, ao esclarece-
rem a Bíblia. Sem jamais negarem o sentido literal ou "histórico",
exercitavam-se em procurar o maior número possível de sentidos
figurados, apropriados para ensinar ou edificar os fiéis (93). Reza-
va o adágio medieval:
Littera gesta docet, quid credas allegoria;
Moralis quid agas, quo tendas anagogia.

(91). — Em latim clássico, homo servia, embora excepcionalmente, também para in-
dicar uma mulher, cf. Cícero, Ad Familiares, IV 5, 4.
. — Cf. 47 I, n. 59. — No século VI d. C., Fulgêncio (cf. 4 VII), escreveu
um comentário alegórico sôbre a Eneida: Expositio Vereilianae Continentiae
sectmdum Philosophos Moralis, que chegou aos nossos dias.
. — Por exemplo Santo Agostinho e Gregório I, dois exemplos bem conhecidos.
-- 490 —

Admitiam, pois, quatro sentidos, dos quais um era literal (94)


•e três figurados. Quando Dante procurava argumentos históricos pa-
ra justificar a universalidade do Império Romano, apelou para os
três casamentos de Enéias, que teriam significação simbólica: o ca-
sarnento com Creúsa simbolizaria a submissão da Ásia, o com Dido
a da Africa, e o com Lavínia a da Europa (95).
E' muitíssimo importante estabelecer o gênero literário
a que pertence um texto escrito. A comparação com outros textos
coevos pode ilustrar de que maneira devemos interpretar certos pro-
cessos de expor e ordenar a matéria histórica: acostumados que es-
tamos aos métodos da historiografia moderna, poderíamos estar in-
clinados a interpretar mal o significado e a finalidade de certos auto-
res antigos. Num historiador do Velho Testamento não podemos
esperar uma ordem lógica e quase científica na exposição dos fa-
tos: o estudo aprofundado da literatura oriental explica muitas pe-
culiaridades que encontramos a cada passo nos livros sagrados. E'
um dos grandes méritos do dominicano francês Pe. M.-J. Lagrange
(1855-1939) ter enriquecido a eio'3gese bíblica com o estudo fe-
cundo de "gêneros literários", quer dizer: o emprêgo de um certo
modo de apresentar o pensamento sob um revestimento literário,
que compromete, ao mesmo tempo, a forma e o fundo.
Nos historiadores clássicos encontramos muitos discursos, que
quase nunca são autênticos no sentido rigoroso da palavra. Na pior
das hipóteses, não passam de ornamentos retóricos, tais como mui-
tos discursos em Tito-Lívio ou em Dionísio de Halicarnasso. Os
discursos, inseridos na obra de Tucídides, não reproduzem textual-
mente as palavras autênticas dos oradores, mas mostram-nos, de
maneira muito concreta, os motivos, as aspirações e a mentalidade
daqueles que com seus discursos tiveram influxo decisivo na mar-
cha dos acontecimentos. Um autor moderno procederia de maneira
diferente: dar-nos-ia descrições extensas, estatísticas, análises psico-
lógicas, etc.
O caráter polêmico de certas obras pode despistar igual-
mente os historiadores: Santo Agostinho, nas suas lutas teológicas
com os Pelagianos, frisou a necessidade da graça divina para a sal-
vação eterna, e Pascal, nas suas lutas contra os libertins, salientou
a insuficiência da natureza, humana. Será que podemos considerar
Santo Agostinho como contraditor do livre arbítrio, ou Pascal como
anti-humanista?
Afinal, assinalamos aqui "mentiras oficiais ou convencio-
nais", encontradiças em notas diplomáticas; eufemismos, hipérbo-
les, frases de cortesia, etc. Uma geração posterior pode ser fácil-
(94). — Cf. S. Thomas, Summa Theologica, I, q. 1, a. 10. — São Tomás, como tam-
bém Santo Agostinho admitiam até o sensus litteralis multiplex. Cf. Dante, Con
vivia, II 1.
(93). — Dante, De Monarchia, II 3.
— 491 --

mente enganada pela fraseologia de tempos idos; os contemporâ-


neos compreendiam-na bem. As dedicatórias, empregadas na An-
tigüidade e na Renascença (até no século XVIII, por exemplo a
dedicatória de Bach ao príncipe de Brandenburgo!), que nos podem
parecer exemplos de bizantinismo desprezível, devem ser interpre-
tadas à luz da mentalidade de outrora.

§ 50. A crítica de objetividade.

A Crítica de Objetividade é a fase final da Crítica Histórica.


Divide-se em três partes: a Crítica da Competência, a Crítica de
Sinceridade, e a Crítica de Contrôle.
I. A Crítica de Competência.
A Crítica de Competência procura estabelecer se a testemu-
nha podia conhecer a verdade. São-lhe preliminares algumas per-
guntas que fazem parte da Crítica externa, por exemplo a teste-
munha assistiu pessoalmente aos acontecimentos narrados, ou co-
nhecia-os por intermédio de outros? Nesta hipótese: quem lhe deu
as informações? Eram coisas públicas ou segredos? Era uma tradi-
ção oral, ou um documento escrito? Entendia bem a língua do texto
original? Estava muito afastado, no tempo e no espaço, da fonte?
(Cf. § 46) .
Cabe à Crítica interna prôpriamente dita um exame mais pro-
fundo ainda: a testemunha original a que remonta nosso documen-
to, tinha o dom de observação? Era exata e minuciosa? Entendia
bem do assunto? Tinha experiência pessoal da vida militar, da di-
plomacia, da política?
Já falamos em algumas questões relativas à Crítica de Compe-
tência (§§ 15-16); basta lembrarmos aqui que a testemunha, para
ser competente, precisa ter bom senso e um dom regular de obser-
vação; que o depoimento do fato material deve ser distinguido de
interpretação do mesmo; que as descrições de acontecimentos tu-
multuosos, como batalhas, requerem certo sangue-frio ou presença
de espírito; que a inexatidão no que diz respeito a algarismos é mui-
tas vêzes originada, não por falta de sinceridade, mas pela enorme
impressão que certos acontecimentos tiveram na imaginação dos con-
temporâneos (96) . O resultado desta parte da Crítica tem geral-
mente só valor aproximativo, a não ser que seja confirmado por ou-
tras fontes independentes.

(96) . —'O número 4as vítimas de um bombardeio é geralmente exagerado pelos sobre-
viventes, logo depois da catástrofe: a segunda guerra mundial o provou. —
Quando Heródoto (Historiae, VII 60) avalia o número de peões persas a in-
vadirem a Grécia em 480 a. C., em 1.700.000 (cf. VII 56), comete um
grave êrro de inexatidão, porque tamanho exército não podia ser abastecido
naquele tempo.
— 492

A Crítica de Sinceridade.

São numerosos os motivos para mentir: o orgulho, o ódio, o


amor, os preconceitos de raça ou de casta social, o fanatismo reli-
gioso, os interêsses financeiros, etc. Também neles já falamos (por
exemplo §§ 15-16) . Meios objetivos para estabelecer a sincerida-
de de uma testemunha são: a natureza dos fatos testemunhados (por
exemplo coisas públicas ou banais, em que não podia haver interês-
se ou proveito de mentir); as circunstâncias em que se achava a.
testemunha ao dar seu depoimento (por exemplo perante um juiz;
'o depoimento foi prejudicial ou perigoso para a própria testemu-
nha, etc.); o caráter da testemunha tal como nos é conhecido por
meio de outras fontes; e afinal, confirmações diretas ou indiretas,
feitas por autores independentes.

A Crítica de Contrôle
Tendo à nossa disposição apenas uma testemunha a res-
peito de certo acontecimento histórico, não podemos aplicar a Crí-
tica de Contrôle. Devemos contentar-nos em submetê-la a tô'das
as fases da Crítica Histórica, descritas acima, e não encontrando
motivos sérios para lhe pôr em dúvida a veracidade, podemos nela
acreditar. Ao se apresentarem, porém, dúvidas numa dessas fases,
não podemos chegar a um assentimento firme ou à certeza, mas jul-
gamos o fato provável ou possível, conforme a natureza da nossa
dúvida, ou até como improvável ou impossível.
Dispondo de mais testemunhas, devemos confrontá-las umas
com as outras. Distinguimos aqui entre o contrôle direto e o indi-
reto .
O contrôle direto torna-se possível apenas quando uma
testemunha, — explicitamente, — confirma, corrige ou contradiz
o depoimento de outra . Pressupõe, portanto, que as testemunhas
se conheciam. Excluimos de antemão, como meio de contrôle, aque-
las testemunhas, que plagiaram mais ou menos literalmente um do-
cumento anterior, falando aqui apenas em testemunhas, que, inde-
pendentemente uma de outra, podiam conhecer a verdade de um
fato histórico. Quando um acontecimento é confirmado por uma
ou mais testemunhas, podemos ter dêle certeza; quando é corrigi-
do, pode ser que uma das duas tenha prestado mais atenção a cer-
tos aspectos ou pormenores do fato testemunhado; quando é im-
pugnado, merecendo as duas testemunhas igualmente nossa fé, te-
mos que escolher: geralmente adianta pouco o meio-têrmo entre os
dois depoimentos. Qual dos dois é mais provável e mais conforme
a mentalidade da época? Muitas vêzes não poderemos chegar a
uma conclusão definitiva, devendo-nos contentar em registrar as
contradições com um non liquet. Um dos maiores pecados contra
-- 493 --

a história é pretender saber mais do que se pode saber. Em todos


os casos onde há alguma divergência entre as diversas testemunhas
é importante verificarmos se não se trata de certo verbalismo, e se
as testemunhas falam exatamente (do mesmo aspecto) do mesmo
acontecimento: muitos mal-entendidos, tanto na historiografia co-
mo na vida cotidiana, são devidas a uma falta de precisão.
c) O contrôle indireto pressupõe também a independência
mútua das várias testemunhas, mas difere do contrôle direto por
elas não se conhecerem uma a outra. Pràticamente impossível é
que o historiador encontre entre elas uma concordância literal ou
um acôrdo perfeitamente unânime: os mesmos fatos são focaliza-
dos de maneiras diferentes; o que é importante para um pode pa-
recer insignificante para outro; o método de narrar e expor os fatos
apresenta diferenças; divergem a composição e a interpretação, etc.
Acompanhar essas divergências inevitáveis e discutir de que manei-
ra podem ser reconciliadas, ou em que circunstâncias são compatí-
veis, seria um trabalho descomedido e pouco frutuoso. As regras
dadas acima podem dar alguma orientação. O bom senso e o "tino"
psicológico do historiador optarão pelo que lhe parecer mais pro-
vável. Em numerosos casos não será possível uma solução definitiva.
CAPITULO QUARTO

AS CIÊNCIAS AUXILIARES.

§ 51. A erudição do historiador.

A história é, em certo sentido, a mais pobre de tôdas as ciên-


cias, necessitando mais do que qualquer outra, do auxílio de disci-
plinas subsidiárias. De maneira geral, pode-se dizer que todo e qual-
quer ramo do saber humano pode prestar serviços úteis ao histo-
riador.
Em alguns casos são necessários conhecimentos especiais
exigidos pelo assunto escolhido. Quem escreve a história dos pri-
mórdios do Protestantismo, precisa possuir conhecimentos sólidos
do dogma cristão e da filosofia nos fins da Idade Média. Só quem
tiver uma boa formação jurídica, estará capacitado para acompa-
nhar a evolução do Direito Romano. E a história da matemática na
antiga Grécia poderá ser escrita apenas por quem estiver bem a
par da geometria .
Se fazemos abstração dêsses conhecimentos especiais, po-
demos dizer que há algumas ciências tão freqüentemente utilizadas
pelo historiador que devem ser consideradas como as ciências auxi-
liares por excelência da historiografia. Nos parágrafos anteriores já
vimos a importância relevante da filologia para o aproveitamento,
dos documentos escritos (1) . Nos parágrafos seguintes havemos de
expor os princípios de algumas outras disciplinas subsidiárias: a Cro-
nologia (§§ 52-56), a Paleografia (§ 57), a Epigrafia (§ 58), a
Lingüística (§ 59), a Arqueologia (§ 60), e a Geografia (§ 61) .
Neste parágrafo consagramos umas palavras a quatro
outros ramos do saber humano que podem ser úteis para o histo-
riador: o estudo das línguas, a psicologia, a filosofia, e a bibliografia.
a) Dada a importância eminente dos documentos escritos pa-
ra o pesquisador, é desnecessário frisarmos o grande valor de co-
nhecimentos lingüísticos. Quais os idiomas que um historiador pre-
cisa dominar? A resposta a essa pergunta depende evidentemente

(1) . — A palavra "filologia" tem muitos sentidos: muitas vêzes é empregac:.'a como•
sinônima de lingüística ou glotologia; aqui é usada numa acepção mais larga:
o conjunto das disciplinas que contribuem para a restauração, o exame crítico
e a interpretação metódica de um texto ou de um grupo de textos.
— 496 —

do terreno das suas investigações. Quem quer estudar a fundo, a


época de Péricles ou a do Imperador Augusto, precisa estar fami-
liarizado com o grego ou o latim clássico; é impossível ser medie-
valista sem saber o latim; estudar a história de Bismarck sem conhe-
cimentos do alemão é o mesmo que procurar não entrar em con-
tacto direto com as fontes. A matéria escolhida pode exigir que se
estude até uma língua de relativamente pouca importância: para
um especialista no episódio do domínio holandês no Brasil o estudo
de documentos holandeses é imprescindível.
Quot linguas quis callet, tot hominee valet, dizia Carlos V, e
essa sentença de um grande estadista tem importância especial pa-
ra o historiador. Quantas portas não se abrem aos poliglotas, não
só no terreno da pesquisa dos documentos como também na parte
dá bibliografia! E' uma vantagem incalculável não estar dependen-
te de uma tradução, amiúde deficiente e nunca capaz de exprimir a
riqueza do texto original. Cada idioma tem as suas palavras e ex-
pressões intraduzíveis: traduttore, traditore (2) . Para um futuro
historiador, que tenha aspirações de inteirar-se da historiografia mo-
derna, são indispensáveis sérios estudos lingüísticos: além da língua
vernácula• e dos idiomas afins, precisa saber, — pelo menos ler, —
o latim e o inglês, sendo possível também o alemão.
b) Na primeira parte dêste livro salientamos diversas vêzes
que o historiador deve ser um homem experimentado no sentido
de conhecedor dos homens. asse fator é também de suma impor-
tância no terreno do exame crítico dos documentos, quando se lhes
procura estabelecer o valor objetivo e o significado. Quem não pos-
suir certo "tino" psicológico, nunca será historiador, nem sequer bom
pesquisador. Para os que se dedicam especialmente a estudos bio-
gráficos, são, além disso, necessários conhecimentos teóricos da psi-
cologia. Vale muito a "intuição" ou o "bom senso"; estudos mera-
mente teóricos da psicologia nunca formarão um conhecedor dos
homens. Mas estudos teóricos, sempre que sejam feitos com méto-
do, podem completar e aperfeiçoar extraordinàriamente as qualida-
des inatas do bom senso e da intuição.
• c) Uma formação filosófica é muito útil tanto para o histo-
riador como para todos os outros intelectuais. O estudo da lógica
pode-lhe prestar serviços importantes ao discernir o falso da ver-
dade e o sofisma do raciocínio correto. Para quem entra em assun-
tos de maior envergadura, são necessários conhecimentos das gran-
des teses filosóficas: a história das idéias reflete-se na vida política

(2)• — A imperfeição inerente a unia tradução foi assinalada, pela primeira vez, pelo
tradutor grego do livro Eclesiástico, no ano 132 a. C.: " . . porque as pala-
vras hebraicas perdem muito da sua fôrça quando transladadas para outra lín-
gua" (Prólogo) .
497 —

e social dos povos. Há mais: a história, nas suas sínteses superiores,


confina com a filosofia; a reflexão filosófica sôbre a matéria histó-
rica repercute, de alguma maneira, na historiografia . Na terceira e
na quarta parte dêste livro, pretendemos dar alguns esclarecimen-
tos a êsse respeito.
d) O historiador deve saber por quem e com que resultado
já foram utilizadas as fontes que está estudando. No mais das vê-
zes, não examina documentos inteiramente novos ou nunca estu-
dados, mas já conhecidos e, de algum modo, interpretados. Para
não perder tempo, precisa informar-se do status quaestionis, isto é,
das várias tentativas, feitas por outrem, de interpretar certo do-
cumento ou grupo de documentos históricos. Descuidar dos traba-
lhos históricos já existentes a respeito de certo assunto, é grave êrro
metódico, que inevitàvelmente conduz a um diletantismo superfi-
cial. O pesquisador deve, pois, tomar conhecimento das soluções
propostas por outros pesquisadores, conferí-las e descrever-lhes a
história e as inter-influências; depois vai-lhes examinando o mérito
a cada uma delas, rejeitando algumas, aprovando outras, — por
completo ou em parte, — ou então propõe uma nova solução. Acon-
tece também que suspende prudentemente o seu juízo.
A bibliografia constitui um setor especial da heurística: não
nos dá as fontes primárias, mas as secundárias, e também estas têm
o seu interêsse. Só a prática pode-nos tornar versados na biblio-
grafia: leituras assíduas, visitas freqüentes a bibliotecas, consultas
a peritos, etc. Mencionamos aqui algumas espécies de referências
bibliográficas:
a) As grandes enciclopédias gerais, por exemplo a Enciclo-
pedia Italiana e a Encyclopaedia Britannica (3) .
8) Hoje existem também' numerosas enciclopédias especia-
lizadas, das quais algumas interessam ao historiador, por exemplo a
monumental Real-Encyclopaedie der classischen Altertumswissen-
schaft (4), Dictionnaire des Antiquités grecques et romaines (5),
e Dictionnaire d'Archéologie chrétienne (6) .
y) As obras fundamentais, consagradas ao estudo de certas
épocas históricas e das grandes personalidades. Muitas vêzes são

. As Enciclopédias remontam aos léxicos e dicionários do Baixo Império: às


explicações gramaticais e estilísticas iam-se acrescentando, aos poucos, cada
vez mais anotações históricas, científicas e culturais. Ainda possuimos as
Etymo/ogs,ie ou Origines do bispo Isidoro de Sevilha (século VI) e o Léxico
do monge bizantino Suídas (século X) . Vincêncio de Beauvais (século XIII)
foi um dos enciclopecistas mais notáveis da Idade Média latina (o educador
de Luís IX da França) . • — Para a Enciclopédia 'nos Tempos Modernos,
cf. 88 I.
. — Obra monumental, iniciada em 1893 por A. von Pauly, G. Wissowa; W.
Kroll, e outros. 'Ainda não acabada.
— Editada por Ch. Daremberg e E. Saglio, em 5 volumes, Paris; 1873-1919.
, (6) — Editado por H. Leclerq, desce 1907, e ainda não acabado.
— 498 —

obras seriadas, como por exemplo a Bibliothéque de Synthése His-


torique (=L'Evolution de l'Humanité), dirigida por Henri Berr, .
e The Cambridge History, editada por uma equipe de especialistas
britânicos. Em todos os países do mundo há uma ou mais dessas
séries, das quais umas se dirigem a especialistas, outras a um pú-
blico maior, geralmente providas de uma ampla bibliografia.
8) Os Repertórios, quer dizer, os livros especiais que dão a
bibliografia mais ou menos completa relativa à história de certos •
países, períodos ou personagens históricos, por exemplo o Manuel
de Bibliographie Historique, de Ch. V. Langlois (7), e A Guide to
Historical Literatura (8). Para filólogos clássicos: L'Année Philo-
logique de J. Marouzeau (Paris, desde 1914, reap. 1927).
E) As diversas revistas históricas, que geralmente trazem os
títulos das novas publicações, freqüentemente com uma apreciação
ou crítica ("resenhas"). O estudioso da história deve acompanhar
com regularidade as notícias bibliográficas destas revistas, quer se-
jam de caráter geral, por exemplo a Revista de Hisltória (São Paulo)
e a Revue Historique (Paris, Alcan), quer sejam de caráter especia-
lizado, como o Journal of Hellenic Studies (Londres) .

A. CRONOLOGIA.

§ 52. A éra.
No sentido próprio da palavra, a "éra" (9) é a contagem con-
tínua de anos a partir de certo fato (autêntico ou supostamente)
histórico; num sentido mais amplo, é todo e qualquer sistema de
indicar os anos para distinguí-los de outros anos. E' escusável dizer
como é importante o conhecimento das diversas éras, empregadas
nos documentos: ignorando-as, estamos sujeitos a cometer muitos er-
ros ao datar um fato do passado. Agora que se segue universal-
mente a éra cristã, é-nos quase impossível imaginar quanta confusão
lavrava outrora na cronologia: autores antigos precisavam de uma
descrição prolixa para indicar com precisão um ano aos seus leito-
res. Lembramos uma passagem do Evangelho de São Lucas (III, 1-
2): "Ora, no ano décimo quinto do império de Tibério César, sendo
Pôncio Pilatos governador da Judéia, e Herodes tetrarca de Gali- -
léia' e Felipe, seu irmão, tetrarca da Ituréia e da província de Tra-
conites, e Lisânias tetrarca da Abilina; sendo príncipes dos sacer--

(7)• — Paris, 1901-1904, dois volumes.


(8) • — Editôres: W. H. Alison, S. B. Fay, A. H. Shearer, e H. R. Shipman, Nova.
Iorque, 1931. — Cf. E. Bernheim, Introducción, págs. 277-293.
(9). — A palavra "éra" deriva de cera (plural de ae bronze, ou moeda de bronze)
e significe: "uma importância de dinheiro lançara num registro". Daí: "con-
tagem", tornando-se palavra singular do gênero feminino (baixo latim).
— 499 —

dotes Anás e Caifás,..." (10) . Neste parágrafo damos as éras mais


importantes para a historiografia.
I. Anos Magistráticos.
Em Argos, uma cidade da antiga Grécia, indicavam-se os
anos pelo número dos anos de serviço da sacerdotisa no templo de
Hera, costume êsse que foi adotado também por alguns escritores
de outras cidades. Na época clássica do povo ateniense havia nove
arcontes, um dos quais era "epônimo", isto é, emprestava seu nome
ao ano; em Esparta um dos cinco éforos era epônimo . Tucídides
(11) indica a primavera do ano 431 desta maneira: "No ano 48 da
sacerdotisa Chrysis em Argos, quando Ainésias era éforo em Espar-
ta, e Pythódoros seria arconte em Atenas por ainda dois meses...".
Em Roma, indicavam-se os anos pelos cônsules, dos quais
havia, desde 509 a. C. (12), normalmente dois. O primeiro ano
509 era indicado: "sob o consulado de Horácio e Valério" (12a), o se-
gundo, que era 508; "sob o segundo consulado de Valério e o primei.
ro de Lucrécio", e assim por diante. Durante o período republicano
de Roma, os cônsules, efetivamente os dois supremos magistrados
do Estado, eram eleitos pelo povo. A partir dos tempos de Augus-
to (31 a. C.) o cargo ia perdendo muito da sua importância, visto
que os cônsules eram nomeados pelo Imperador ou pelo Senado,
conforme uma indicação imperial; o consulado, originàriamente o
símbolo e a garantia da liberdade política dos eives romani, pas-
sou a ser, durante a monarquia, um título meramente honorífico,
concedido desde 284 d. C., a bel-prazer do "Dominus" soberano.
Quando, desde 395, o Império estava dividido em duas metades, tor-
nou-se costume que cada um dos dois Imperadores nomeasse um côn-
sul, devendo comunicar a nomeação ao seu colega antes do fim do
ano: os dois nomes eram publicados juntos. Em 534 foi nomeado
o último cônsul, Paulino, no Ocidente; em 541 o último no Oriente,
Basílio. Oficialmente foram abolidos os anos consulares em 537
por um Decreto do Imperador Justiniano (13) , mas o século VI
continuou a seguir a longa tradição: o ano 565 é, em vários do-
cumentos, indicado: "o ano XXIV depois do consulado de Basílio".
São salientes as desvantagens dêsse método: um romano em
150 d. C., a escrever a história do seu povo, precisava de uma lista
(os chamados fasti consulares), que contivesse todos os cônsules
(10) . — Plutarchus, Agis, 3, precisa de um capítulo inteiro para esclarecer aos lei-
tores que está falando do período 245-241 a. C.
— Thucydides, Historiae, II 2, 1.
Em 510 a. C., o último rei dos romanos, Tarqüínio o Sobêrbo, teria sido ex-
pulso da cidade. A data tem, porém, apenas valor convencional, e baseia-se
provavelmente numa tentativa dos romanos de harmonizar a sua história com
a dos atenienses: em 510 a. C. foi expulso o último tirano da cidade de Atenas.
(12a). -- Horário era sucessor de Bruto (que caíra numa batalha contra o filho do rei
expulso) e Valério o de Tarquínio (que fôra obrigado a abdicar do consulado).
— Novella, 47.
500

durante um período de 660 anos! Impossível saber de cór tal lista,


nada mais comum do que cometer um êrro que podia ser fatal. Ade-
mais, havia anos sem cônsules (por exemplo 324 a. C.), havia anos
com outros magistrados supremos (por exemplo 451-450 a. C.), ha-
via anos de um único cônsul (por exemplo 510 d. C.), e afinal, a
dignidade consular era quase hereditária em certas famílias aristo-
cráticas, de modo que são quase sempre os mesmos nomes, — e re-
lativamente poucos, — que constam nos fasti consulares.
c) Desde o império de Diocleciano (284 d. C,), tornava-se
cada vez mais comum indicar o ano pelo número dos anos do rei-
nado do Imperador . Os papas, no início da Idade Média, começa-
ram a adotar essa praxe, que ainda encontramos nas Encíclicas mo-
dernas, etc.; adotaram-na também os monarcas. No fim da Encícli-
ca Quadragesimo Anno lemos por exemplo: Datum Romae apud
S. Petrum, die 15 mensis Maii anno 1931, Pontificatus Nostri armo
decimo. Hoje em dia, tal indicação é uma fórmula tradicional e so-
lene, logo tornada clara pela data ineqüívoca: 15 de maio de 1931;
na Idade Média, porém, estava sõzinha, ou então, era acompanhada
de outras fórmulas, não menos vagas.
II. A Indicção.
O Estado romano, adotando um antigo sistema egípcio, fixava,
á partir dos impérios de Diocleciano e Constantino, de 15 em 15
anos os impostos a serem pagos pelos súditos; decorridos êstes, bai-
xava nova Indictio (=Decreto), indicando as taxas por novo prazo
de 15 anos. Daí vir a ser chamada de Indictio tal ciclo de 15 anos,
e mais tarde, — pôr um processo lingüístico, não sem paralelo, —
cada um dêsses 15 anos ficar com o nome de Indictio, numerado
:respectivamente 1, 2, 3, 4, etc. Ao cabo de 15 anos, começava-se a
numerar novamente: Indictio 1, 2, 3, 4, etc. Pelo início da primeira
Indicção passa o dia 1.° de setembro de 297 ou 312 d. C., de modo
que:
Indictio 1=- 297/98, 312/313, 327/328, 342/343, etc.
Indictio 2 298/99, 313/314, 328/329, 343/344, etc'.
Indictio 15= 311/12, 326/327, 341/342, 356/357, etc.
Depois de uma existência de mais de dois séculos, essa maneira
de designar os anos foi oficializada em 537 pela mesma lei que
áboliu os anos consulares. Na Idade Média o sistema era univer-
sal, e o Supremo Tribunal do Sacro Império Romano, em Wetzlar,
manteve-o em vigor até 1806. Empregado sem outros indícios, o
Método de contar os anos por meio de Indicções é extraordinária-
Mente obscuro. Além disso, o início da Indicção não coincide corte
O do ano civil. E aumenta a confusão o fato de haver três Indic-
501:

ções diferentes: a Indictio Constantinopolitana, de praxe no Im-


pério Oriental, que começa no dia 1.° de setembro e finda no dia
31 de agôsto; a Indictio Caesariana, no Império Ocidental, de 24
de setembro a 23 de setembro; e a Indictio Romana, usada na
chancelaria papal, de 25 de dezembro a 24 de dezembro.
Para acharmos a Indicção que compete a certa data histórica
(por exemplo 28 de janeiro de 814, a data da morte de Carlos
Magno), devemos acrescentar o número 3 a essa data (814--3=
817), e dividir êste último número por 15. O resto, se houver, dá
a Indicção procurada, no nosso caso: T; se não houver resto, a
Indicção será 15. Mas o ano 814, a partir de 1-IX, ou 24-IX, ou
então 25-XII, terá por Indicção o número 8.
III. As Éras prôpriamente ditas.
a) As Olimpíadas.
Já nos fins do segundo milênio a. C., Olímpia, no Peloponeso,
era um recinto consagrado ao culto de Zeus (latim: "Júpiter").
Não se sabe ao certo quando aí foram celebrados, pela primeira
vez, os jogos pan-helênicos, mas desde o ano 776 a. C. eram regis-
trados os vencedores dos certames, de modo que êste ano em mui-
tos livros figura, da maneira menos exata, como o ponto inicial
dos afamados jogos olímpicos. A festividade, que se repetia de 4
em 4 anos, era um grande acontecimento na vida esportiva e cul-
tural da Hélade, principalmente na época clássica (14). Foram
motivos religiosos que levaram o Imperador Teodósio, em 394 d.
C., a acabar com essas reuniões festivas de natureza pagã, as quais,
aliás, então se achavam em plena decadência (15) . O período
intermediário entre duas festividades em Olímpia chamava-se "olim-
píada", cujo início não era um dia fixo, mas geralmente caía em
julho, no verão europeu. O historiador grego Timeu de Tauromênio
(16) foi o primeiro a valer-se das olimpíadas na historiografia, e seu
exemplo foi seguido por numerosos autores de anais e crônicas, em-
bora as olimpíadas nunca chegassem a se tornar na Antigüidade uma
éra universalmente seguida.
Os persas foram derrotados perto de Salamina no verão do
ano 480 a. C. Qual a olimpíada correspondente? 776-480=296 (o

— Na época clássica havia em Olímpia também preleções, declamações e confe-


rências; depois do século IV a. C., as reuniões esportivas foram degenerando
por causa do profissionalismo e da mania de estabelecer recordes.
— Os jogos olímpicos foram celebrados na Antigüidade (desde 776 a. C.) 293.
vêzes. Segundo o escoliasta de Luciano (p. 221, ed. Jacobitz), foi com o
Imperador Teodósio II (408-450) que terminaram os jogos olímpicos. — Os
jogos modernos, restaurados por uma iniciativa do francês barão de Coubertin,
datam do ano 1896 (Atenas). Atualmente vivemos (1955) na Olimpíada
(moderna) 15,3 (antes de julho) ou 15,4 (depois de julho).
— Timeu de Tauromênio (±346-±250 a. C.) escreveu uma História r::a Sicília
em 38 livros, que, afora alguns fragmentos, não chegou até nós. Sua alcunha
era "Epitimeu", isto é: "Vituperador, Cavilador" devido às suas críticas ásperas.
--- 502 --

número dos anos decorridos desde 776). Oi•a, neste período de


296 anos os jogos olímpicos foram celebrados 74 vêzes: 296+4=74.
Visto que a batalha de Salamina se verificou no verão, logo depois
de realizados os jogos olímpicos que deviam ter lugar neste ano
(17), caíu no primeiro ano da Olimpíada 75 (=Olimpíada 75, 1);
a primavera do mesmo ano era ainda Olimpíada 74, 4.
Ab Urbe Condita.
Segundo uma tradição antiga (18), a cidade de Roma teria
sido fundada no ano 753 a. C., no dia 21 de abril. Apesar de pos-
suir essa data só valor convencional, tornou-se costume, entre os ro-
manos do século I a. C., partir dela para indicar os anos. E, desde
o século XIX, muitos historiadores reencetaram a praxe romana.
Júlio César foi assassinado no dia 15 de março de 44 a. C.,
quer dizer, nos fins do ano 708 depois da fundação da Cidade, em
latim: ab Urbe condita (abreviatura: a. U. c.). A partir de 21 de
abril, o mesmo ano era 709 a. U. c. Geralmente, porém, fazia-se
coincidir o início dos anos a. U. c. com o do ano civil (=1.° de ja-
neiro), de modo que 44 a. C. =709 a. U., 43 a. C. =710 a. U. c.,
etc.
Éra de Augusto.
A Éra de Augusto tem por ponto inicial o dia 1.° de janeiro
de 38 a. C. No ano anterior, Augusto, o então Otaviano, tinha apa-
ziguado a península ibérica, e embora êsse fato não tivesse caráter
definitivo (19), começou-se aí a falar numa nova época, que seria
indicada por uma nova éra: a éra de Augusto ou a éra espanhola.
Manteve-se em Espanha até o século. XIV, e em Portugal até o
ano 1422.
Éras Mundiais.
Cálculos de natureza especulativa, pretensamente baseados
em dados bíblicos, fixaram a data da Criação do mundo no ano
5509 a. C. (é a éra bizantina), ou no ano 3761 a. C. (é a éra judia).
Éras Orientais.
Entre os povos do Próximo Oriente (Síria, etc.) usa-se ainda
hoje em dia, embora ameaçada cada vez mais pela éra cristã, a
chamada Éra dos Selêucidas, que tem por ponto de partida o dia
1.° de outubro de 312 a. C., quando o rei helenístico Seleuco Nica-
(17). — Aliás sabemos pelo testemunho de Heródoto (Historiae, VIII 26) que os gre-
gos neste ano, pouco tempo antes da invasão persa, celebraram os seus jogos
para grande admiração do general do exército bárbaro.
(18) . — E' a chamada Acra Varroniana (de Varrão, cf. 4 II d), embora êste erudito
calculasse a fundação em 754 a. C. Outras datas são 751, 729 e 814 (Ti-
meu), mas geralmente se segue a éra pretensamente varroniana.
(19). Só em 20-19 a. C., Agripa, o general do Imperador Augusto e seu suposto
sucessor, conseguiu pacificar definitivamente as Espanhas.
— 503—

tor (20) ocupou definitivamente Babilônia. A originalidade do fa-


to consiste em ser esta Éra dos Selêucidas não uma contagem por
meio dos anos de império dos monarcas individuais, mas das di-
nastias. Depois de haver expirado a dinastia, em 64 a. C., manteve-
se a Éra dos Selêucidas em muitas províncias orientais.
Outras tentativas de marcar o início de uma nova dinastia com
uma nova éra foram feitas pelos arsácidas, os reis dos partas (21),
em 247 a. C., e por: Diocleciano, no dia 24 de agôsto de 284 d. C.:
esta última chama-se muitas vêzes a "Éra dos Mártires" (22).
Mais importante é a éra maometana, a chamada "Hégira" (=
Fuga), que parte do ano 622 d. C., quando o profeta se. viu obri-
gado a fugir de Meca para Medina. Realizou-se êsse fato no dia
20 de setembro de 622, mas quando em 637 o segundo califa dos
muçulmanos, Ornar, introduziu a nova éra, tomou por ponto inicial
o dia 15 de julho de 622 (=dia 1.° do mês "Moharrem") com o fim
de fazer coincidir o princípio da éra com o do ano maometano.
f) A Éra cristã.
Em 527 d. C., Dionísio Exíguo, monge cita, que vivia em Ro-
ma e era amigo de Cassiodoro, escreveu uma obra para esclarecer a
então disputada data da Páscoa (Cornputus Paschalis), introdu-
zindo aí um novo ciclo, que partia do acontecimento central da his-
tória, quer dizer, da Encarnação de Nosso Senhor. Introduziu-o
para evitar no cômputo a menção do ímpio perseguidor da Igreja,
Diocleciano (23). Dionísio considerava o dia 25 de março (= festa
da Anunciação) do ano 753 ab Urbe Condita (= Olimpíada 194,
4) como a data dá Encarnação: o dia de Natal do mesmo ano era
considerado como o primeiro dia do ano 1 d. C. Mais tarde, porém,
quando se celebrava o Ano Bom no dia 1.° de janeiro, acostumava-
se considerar o primeiro dia do ano 754 a. U. c. como o princípio
do ano 1 d. C. E' esta a éra cristã ou dionisiana, adotada logo pela
Igreja e depois pelos carolíngios (24), e embora muito usada desde
a Idade Média, foi aplicada conseqüentemente só a partir do sé-
culo XVII.
A éra cristã tem dois defeitos pouco conhecidos. Em primeiro
lugar, falta-lhe o ano zero (= o ano do nascimento de Jesús Cris-
to), de modo que o ano 753 a. U. c. = 1 a. C., e 754 a. U. c. = 1 d.
C. Não constitui, portanto, uma série algébrica. As festas do mile-

— A éra foi introduzida por seu filho, Antíoco I, em 280 a. C.


— Os partas,.uma tribo da Irânia, eram os sucessores dos persas, os quais ti-
nham sido derrotados por Alexandre Magno. Em 247 a. C. conseguiram liber-
tar-se dos selêucic.as, e mantiveram a sua independência contra a Síria e Roma
(55 a. C.: expedição malograda de Crasso!) até o século III d. C.
— O nome é meio esquisito: o famoso Edito de Diocleciano contra os cristãos
data do ano 303.
Cf. Migne, Patres Latini, LXXVII 487A. — A "Éra de Diocleciano", cf. III e
Já foi usada no túmulo ce Carlos Magno (814, em Aix-la-Chapelle).
-- 504 —

vário da fundação de Roma, celebradas no, reinado do Imperador


,

Felipe-o-Árabe, não cairam em 247, mas em 248 d. C. Em segundo


lugar: nasceu Nosso Senhor, não em 753 á. U. c., mas em 748, ou
mais cêdo ainda . Apesar dêsses dois defeitos, dos quais o segundo
é de somenos importância para uma éra, o ciclo dionisiano con-
quistou quase o mundo inteiro, e • à obra modesta de um monge cita
devemos a bela expressão: no ano tal da Encarnação.
g) Algumas revoluções dos tempos modernos, geralmente com
o fim de destruir as reminiscências cristãs, inerentes à éra dionisia-
na (25), procuraram substituir esta por urna nova.
Assim fêz a Convenção francesa (1792-1795), instituindo, no
dia 6 de outubro de 1793, uma éra republicana, que partia do dia
22 de setembro do ano anterior (26) . Perdurou até 1.° de janeiro
de 1806, quando foi abolida por Napoleão (decreto do dia 9 de
setembro de 1805). Os anos republicanos são geralmente indicados
por algarismos romanos, por exemplo IV = 22 de setembro de
1795 a 21 de setembro de 1796. Houve dêles só 13 anos, e poucos
meses; o ano I não pode figurar em nenhum documento autêntico.
Mussolini fêz outra tentativa, introduzindo no_ s atos públicos
a "Éra Fascista", que parte do ano 1922 (= ano I) e viveu uns 20
anos.
A Revolução bolchevista, que se verificou no dia 17 de setem-
bro de 1917, emprega outra Éra revolucionária (1917 = ano I) .
IV. Os Séculos.
A palavra latina saeculum (27) não indicava, entre os roma-
nos, uma unidade fixa, mas significava "geração", um período de
30 anos (28), ou outro espaço variável de tempo, como nós ainda
costumamos falar no "Século de Ouro", "Século de Luís XIV", etc.
Em Roma eram celebrados, desde tempos imemoriais, os chamados.
ludi Tarentini ou saeculares; o Imperador Augusto, fazendo ques-
tão de revivificar os antigos costumes, queria reconstituir também
os ludi ,saeculares, mas era uma questão duvidosa de quanto em
quanto tempo deviam ser celebrados. O colégio dos quinze sacer-
dotes, encarregados de consultar e interpretar os livros sibilinos

• — Foi êsse o propósito principal do Calendário Republicano da Revolução fran-


cesa, confessado francamente pelos "hébertistes" . O calendário foi elabo-
rado pelo matemático Ch.-G. Romme e pelo poeta Fabre d'Egíantine.
. No dia 22 de setembro de 1792, o início do outono na França, fôra pro-
. clamada a República.
. — A palavra saeculum relaciona-se com semen (=semente), e quer dizer: "ge-.
ração". Segundo Isidoro de Sevilha, Etymologiae V 38,1: Saecula generatio-
nibus constant; et inde seecula, quod se sequantur: abeuntibus enfim aliis
succedunt.
(28).- — Cf. Servius, ad Aeneidem, VIII 508; ad Eclogam, IV 5; Plinius, Naturafis.
Historia, XVI 250.
-- 505 —

(29), declarou ser de 110 anos o prazo de um saeculum, (30).


Foram celebrados em 17 a. C., e o poeta Horácio compôs para tal
fim o célebre Carmen Saeculare. Apesar de muitos autores roma-
nos equipararem o saeculum a 100 anos, essa contagem tornou-se
normal só nos tempos modernos. O século começou em 1901, e não
em 1900, como se admite muitas ,vêzes: pois, devido ao 'erro da
éra dionisiana, que não possui o ano zero, começou o século I no
ano 1 d. C.

§ 53. O princípio do ano.

Na Antigüidade e na Idade Média não existia uniformidade


quanto ao primeiro dia do ano. Deixamos de lado aqui os "estilos"'
da Antigüidade, que são variados e complicados, e possuem pouca
importância para o historiador que não seja especialista: falamos
apenas nos diversos "estilos" medievais (31)
Stilus Annuntiationis.'
Já vimos que Dionísio Exíguo fixava a Encarnação no dia 25
de março, data em que a Igreja •comemora a Anunciação. Esta da-
ta fica bastante perto do equinócio primaveril (no hemisfério se-
tentrional), quando, segundo especulações mitológicas da época he-
lenística, teria nascido o primeiro mundo, o chamado Natale Mundi
(32) . São Martinho de Braga, o primeiro bispo de Portugal (±515-
580), defendia, num dos seus sermões, a tese de ser 25 de março o
primeiro dia do ano, baseando-se em dados bíblicos (33) . O Stilus
Annuntiationia existiu na França medieval, ao lado de outros esti-
los, até o século XV. Na Inglaterra era de 1155 a 1752 o estilo le-
gal, apesar de considerar o povo britânico o dia 1.° de janeiro co--
mo New Year's Day.
Stilus Paschalis.
Mais incômodo era o Estilo de Páscoa, no qual o princípio
do ano dependia da festa de Páscoa, que é móvel. Na França me-
dieval êste estilo era muito usado, até que foi abolido em 1563,

— Trata-se aqui dos livros sibilinos que, segundo a tradição, teriam sido vendi-
dos por uma profetisa a um dos reis romanos; foram destruídos, em 83 a .C.,
por um incêndio do Capitólio. Então o Senado enviou deputados ao Oriente
para recolherem novos oráculos sibilinos. Quinze sacerdotes ficaram encarregados
de guardar os livros e de consultá-los, surgindo circunstâncias difíceis para o
Estado Romano.
— Cf. Censorinus, De Die Natali, XVII 9.
— "Estilo" é o têrmo técnico para indicar a data que passa pelo primeiro dia
do ano.
— Filo de ,Alexandria diz que o equinó -io da primavera é o símbolo e a ima-
gem daquele Início Absoluto, em que Deus organizou o mundo (De Septenario,
19). -- Cf. Julianus Imperator, Oratio, V p. 168 C-D.
<33). — Martinus Bracarensis, De Correctione Rusticorum 10. — Para pormenores,
cf. J. van den Bessela
ar, Quaestiunculae Chronologicae (Anuário da Faculdade-
de Filosofia "Sedes Sapientiae" da PUCSP, 1953, pp. 163-178).
— 506 —

durante o reinado de Carlos IX. O ano 1347 tinha, conforme o


Stilus Paschalis, quase 13 meses, visto que começou no dia 1.° de
abril de 1347 e terminou no dia 20 de abril do ano seguinte.
Stilus Nativitatis.
Em Espanha, Portugal, Alemanha e em muitas províncias da
Itália começava o Ano Novo no dia 25 de dezembro. Só no século
XV aboliram êste estilo a Alemanha e Portugal; a Espanha já no
século anterior.
Stilus ,Circumeisionis.
Júlio César ordenou que, a partir do ano 45 a. C., o dia 1.°
de janeiro fôsse o início do ano, em cuja data, desde 153 a. C., os
cônsules romanos tomavam posse de seu cargo (34). Êste estilo,
na Idade Média batizado com o nome: Stilus Circumcisionis, era
largamente usado no Império Romano, depois sofreu a concorrên-
cia dos outros estilos de origem mais cristã, e chegou a revigo-
rar-se nos fins da Idade Média. Foi adotado oficialmente pela
reforma do calendário que se verificou em 1582 sob o Pontificado
de Gregário XIII (1572-1585). Hoje é seguido por tôdas as na-
ções civilizadas.

§ 54 Os meses.

Quanto aos meses (35), limitâmo-nos aqui a falar dos romanos


e dos republicanos; outros sistemas, seguidos por exemplo no Egi-
to, na Grécia •e entre os muçulmanos, interessam só a especialistas.
I. Os Meses Romanos.
Os nomes dos 12 meses romanos, precursores imediatos dos
atuais, eram: Januarius, Februarius, Martius, Aprilis, Majus, Ju-
nius, Quintilis (=Julius), Sextilis (=Augustus), September, Oc-
tober, November, e December. Antes da reforma do calendário
romano, efetuada pelo ditador Júlio César em 46 a. C., o ano ro-
mano começava no dia 1.° de março, e a etimologia das palavras
Quintilis, Sextilis, September, etc. ainda atesta o fato. O nome
Quintilis foi substituído por Julius em 44 a. C., em honra do di-
tador assassinado, por proposta do triúnviro M. Antônio; o nome
Sextilis pelo título honorífico Augustus, que recebera Otaviano de-
pois do seu triunfo sôbre os seus rivais (36). Malograram as ten-

— Anteriormente era no dia 15 de março (de 222 a 153 a. C.); nos tempos
iniciais da República, no dia 1.. de maio.
— A palavra "mês" (latim: mensis) é cognata com moon em inglês (:"lua").
— Angustas (grego: "Sebastós", cf. Sebastópolis") quer dizer: "veneranc.'o, ma-
jestoso".
- 507—

Cativas de Imperadores mais recentes para dar seu nome a um


dos meses (37).
Os romanos não conheciam a contagem contínua dos dias de
um mês, como nós costumamos fazer, mas tinham em cada um
dêles três pontos fixos, que chamavam: Kalendae (o dia 1.° do
mês), Nonae (o dia 7 de março, maio, julho e outubro; o dia 5
dos outros meses), e Idus (o dia 15 dos quatro meses menciona-
dos; o dia 13 dos outros meses). Mediante êsses três nomes indi-
cavam todos os dias do mês, seguindo um método complicado e
esquisito (38) . Falando por exemplo no dia 2 de janeiro, usavam
a expressão: ante diem IV Nonas Januarias, ou simplesmente: IV
ante Nonas Januarias (39), contando para diante como um me-
nino escolar que numera os dias que o separam das férias, e in-
cluindo nos seus cálculos o ponto de partida (terminus a quo),
e o ponto terminal (terminus ad quem), o que explica a diferen-
ça de um dia com a contagem atual. O dia imediatamente ante-
rior a um dos três pontos fixos chamava-se pridie, por exemplo 4
de janeiro: pridie Nonas Januarias. Alguns exemplos podem ilus-
trar a praxe dos romanos:

1.° de janeiro Kalendis Januoriis


3 de janeiro (5+1-3) a. d. III Nonas Januarias
3 de março (7+1-3) a. • d.. V Nonas Martias
4 de janeiro pridie Kalendas Februarias.
5 de janeiro Nonis Januariis
6 de março pridie Nonas Martias
7 de março Nonis Martiis
8 de janeiro (13+1-8) a. d. VI Idas Januarias
8 de março (15+1-8) a. d. VIII Idas Martias
12 de janeiro pridie Idas Januarias
12 de março (15+1-12) a. d. IV Idas Martias
13 de janeiro Idibus fanuariis
15 de março Idibus Martiis
16 de janeiro (32+1-16) a. d. XVII Kalendas Februarias
16 de março (32+1-16) o. d. XVII Kalendas Apriles
31 de janeiro pridie Nonas Martias

De 4 em 4 anos, os romanos acrescentavam um dia ao mês de


fevereiro. Diferentemente do costume atual, não era o dia 29 de
fevereiro que era considerado como o dia extra, mas êste era in-
tercalado entre o dia 23 (festa dos Terminalia) e o dia 24 (festa

. — Tentaram uma modificação Calígula (37-41) e Domiciano (81-96). — Cf.


Suetonius, Caligula 15 e Domitianus 13; Macrobius, Saturnalia 1 12, 36.
. — A exposição seguinte tem apenas valor para . o período posterior à reforma do
calendário romano por Júlio César em 46 a. C.
. Originàriamente, as meses romanos eram adjetivos: daí. Nonas Januarias, etc.
Mais tarde, porém, eram considerados também como substantivos; daí: Nonas
Januarii, etc.
do Regiiugium) do mesmo mês. O dia 24 era contado duas vêzes
(bis) desta maneira (40):

23 de fevereiro (29+1-23) a. d. VII Kalendas Martias


o dia intercalar a. d. VI Kalendas Martias
24 de fevereiro a. d. bis VI Kalendas Martias
25 de fevereiro a. d. V Kalendas Martias.

Daí os têrmos modernos: "ano bissexto", em português; an


bissextil, em francês.
II. Os Meses Republicanos.
A Revolução francesa, filha das doutrinas esclarecidas do século
XVIII, 'queria acabar com um calendário caprichoso, e deu origem a
12 novos meses, cada um de 30 dias e provido de um belo nome.

Outono : Vendémiaire (setembro-outubro)


Brumaire (outubro-novembro)
Frimaire (novembro-dezembro)
Inverno: Niuôse (dezembro-janeiro)
Pluviôse (janeiro-fevereiro)
Ventôse (fevereiro-março)
Primavera: Germinal (março-abril)
Floréal (abril-maio)
Prairial (maio-junho)
Verão: Messidor (junho-julho)
Thermidor (julho-agôsto)
Fructidor (agôsto-setembro) .

§ 55. A semana.

A semana (41) é uma unidade cronológica mais ou menos na-


tural, relacionando-se evidentemente com as fases da lua, e encontra-
se em várias culturas de quase todos os continentes. Isso não quer
dizer; porém, que todos os povos conheçam uma semana de sete
dias: existem numerosos outros sistemas de subdividir os meses.
I. A Semana de Sete Dias.
Os gregos clássicos e os romanos dos tempos republicanos não
conheciam a semana de sete dias. Esta entrou em nossa civiliza-
ção por dois caminhos diferentes: via a semana planetária e via a
semana judia-cristã,
a) Em última análise, a semana atual remonta aos babilônios
ou "caldeus", os grandes astrônomos e astrólogos da Antigüidade.
Também os hebreus lhes deviam a sua semana. O número sete
' (40) • — Seguimos aqui a autoridade ne Censorinus (De Die Natali, X 10) e de Ma-
crobius (Saturnalia, 1 14,6) . Muitas vêzes pensa-se erradamente que o dia
extra tenha sido intercalado entre o dia 24 e o dia 25 de fevereiro.
(41) . — "Semana" deriva da palavra latina "septimana" (grego: "hebdomás").
X 09 —
ocupa em várias culturas um lugar especial (42): os povos orien-
tais consideravam-no como nefasto (babilônios) ou como sagrado
<judeus). E' bem conhecido o papel de destaque que o número
setenário desempenhava na vida religiosa dos israelitas: os sete
dias da Criação, as sete semanas entre Páscoa e Pentecostes, o can-
dieiro de sete braços, e afinal, o sétimo dia da semana: o sábado.
O judeu Filo de Alexandria (20 a. C. — 50 d. C.) consagrou um
tratado especial ao sagrado número sete.
b) Foi só por volta de 100 a. C. que vieram a ser combina-
dos os nomes dos sete planetas (43) com os sete dias da semana.
Ao contrário do que se pensa muitas vêzes, a semana planetária
tlãO é invenção dos caldeus, mas tem suas raízes históricas em es-
peculações astrológicas da época helenística (44), cujo sincretismo
teria tão grande repercussão na religiosidade e na filosofia do Im-
pério Romano (45). Sem que nos seja possível apontar certa es-
cola ou certo filósofo como autor da nova instituição, podemos as-
segurar com muita probabilidade que nasceu em Alexandria, onde
o pensamento grego se ia casando com as especulações místicas do
Oriente.
A ciência helenística considerava sete astros como planetas, to-
dos êles a girarem em volta da terra: Saturnus, Jupiter, Marra, Sol,
Venus, Mercurius e Luna (46). Na ordem das distâncias da Ter-
ra, centro do Universo, Saturno ocupava o último lugar e a Lua
o primeiro. A primeira hora do primeiro dia da semana era consa-
grada ao primeiro planeta, isto é, a Saturno; a segunda hora do mes-
mo dia, a Júpiter; a terceira, a Marte, e,assim por diante. Chamava-
sé "regente" ou "senhor" do dia o planeta ao qual era consagrada a
primeira hora do dia, de modo que Saturno era "regente" do pri-
meiro dia.
De acôrdo com êste cálculo, cabiam a Saturno também a oi-
tava, a décima quinta e a vigésima segunda hora do primeiro • dia,
do qual Júpiter e Marte ocupavam as duas últimas horas. Destarte
era regente do segundo dia o Sol, a quem era dedicado êste dia de
maneira especial. Continuando o processo, podemos verificar que
.a ordem dos diversos regentes deve ser; Saturno, Sol, Lua, Marte,

(42) . — Na AntigüidaGe clássica por exemplo: as sete cidades que disputavam entre
si a honra de serem o lugar de nascimento de Homero; as sete colinas de Ro-
ma; os sete sábios; as sete maravilhas do mundo; os sete reis de Roma, etc.
— Os nomes dos sete dias da semana não se ligam aos nomes mitológicos G'e Zeus,
Marte, etc., mas aos nomes astrológicos dos planetas.
— Nessa época renasceu a astrologia, principalmente sob a influência do filósofo
estóico Posidônio, o qual era influenciado por especulações neopitagóricas.
— São visíveis as influências dessas antigas teorias na obra de Dante.
— O sistema helenístico era bem diferente dos sistemas "clássicos", desenvolvidos
por Filolau (pitagórico, século V a. C.), Platão e Aristóteles. — Em ,1781
foi descoberto o planeta Urano, em 1846 Neptuno, e em 1930 Plutão. Alétn
disso conhecemos hoje uns 1.300 planetas pequenos, dos quais o primeiro foi
destóberto em 1801. '
--- 510 —

Mercúrio, Júpiter e Venus. E' essa a ordem dos dias da semana


planetária, cujos nomes em latim são: Dies Saturni, Dies Solis,
Dies Lunae, Dies Martis, Dies Mercurü, Dies Jovis, Dies Veneris
. Esta terminologia é encontrada, desde o século I a. C., em
autores gregos e latinos, e principalmente em inscrições.
c) Com esta semana planetária devia entrar em competição
a semana dos judeus, e depois a dos cristãos. Aliás, os autores pa-
gãos confundem de vez em quando as duas. Os judeus numeravam
os dias da semana, tendo só o sábado um nome próprio. A Igreja,
adotando a semana judia, modificou-lhe o caráter: promoveu o
segundo dia da semana à categoria do sábado hebreu. Concorreu •

para essa mudança não só o desêjo de se diferenciar dos judeus


mas, principalmente, o fato de ser o dia seguinte a sábado a data
comemorativa dos grandes acontecimentos do Cristianismo: a Res-
surreição e a Descida do Espírito Santo. A semana eclesiástica in-
dicava dois dias com um nome especial: dominicUs (ou, dominica)
e sabbatum. Os outros dias eram contados: feria II, feria
III, feria IV, feria V, e feria VI. Além das línguas eslavas e do gre-
go moderno (49), o português é o único idioma europeu a conser-
var a nomenclatura eclesiástica (50) . As línguas românicas se-
guem esta apenas para designar o domingo e o sábado, mas conti-
nuam a indicar os outros dias com os nomes pagãos. Nos idiomas
germânicos êste sistema é ainda de praxe para todos os dias da .

semana.
Português: Espanhol: Francês: Latim:
Domingo Domingo Dimanche Dominicus (-ca),
2a. feira lunes lundi feria II
dies Iunae
3a. feira martes mardi feria III
dies martis
4a. feira miércoles mercredi feria IV
dies mercurii
5a. feira jueves jeudi feria V
dies jovis
$a. feira viernes vendredi feria VI
dies veneris
sábado sábado samedi sabbatum
dies saturni

. — Cf. Dio Cassius, Historia Romana, XXXVII 18-19.


. — Em grego: "kyriaké", de "kyrios" (=Senhor) .
• — O grego moderno numera os dias da semana com exceção de "sábbato",_
"kyriaké", e "paraskeué" (="preparo"-6a. feira) .
— O motivo dessa singularidade é pouco sabido. Será que a influência de São
Martinho de Braga (cf. nota 33) contribuiu para o povo português adotar a ,
nomenclatura eclesiástica? (Cf. de Correctione Rusticorum, 8) .
— 511—

Mas o inglês e o alemão têm:



Latim: Inglês: Alemão: Tradução:

dies solis Sunday Sonntag sun=Sonne=Sol


dies lunae Monday Montag moon=Mond=Lua
dies martis Tuesday Dienstag Tiu ou Ziu=Mar-
te (51)
dies mereurii Wednesday Mittwoch (52) Wodan=Mercúrio
dies jovis Thursday Donnerstag Dônar=Júpiter
dies veneris Friday Freitag Freya=Vênus
dies saturni Saturday
(sabbatum) Samstag (53)

II. Outros Sistemas.

Os antigos egípcios e gregos não conheciam semanas de


sete dias, mas "décadas", períodos de dez dias.
Os republicanos franceses adotaram, no seu calendário, as
décadas, dando êstes nomes aos dias: primidi, duodi, tridi, quartidi,
quintidi, sextidi, sextidi, octidi, nonidi, e décadi .
A União Soviética introduziu em 1929 uma semana de
5 dias.
Os romanos primitivos tinham internundinia, isto é, pe-
ríodos de oito dias que decorriam entre duas nundinae ou feiras ur-
banas, realizadas nono quoque die, nas quais os camponeses iam ven-
der na cidade os seus produtos, fazer as suas compras e tratar das
coisas públicas. O trinum nundinum ou trinundinum era um pe-
ríodo de 17 dias, que abrangia três dessas feiras: era o prazo legal
que devia decorrer entre a convocação e a realização de uma assem-
bléia popular (54).
§ 56. O ano.
A origem da palavra latina annus não se relaciona, como se
lê em muitos livros, com os vocábulos anulus (anel) e anus (argo-
la, ânus), mas remonta a uma raiz indo-européia que significa:
"andar". O ano é, pois, "o que anda".
I. O Ano egípcio.
Os egípcios, ao contrário dos outros povos orientais que tinham
um ano lunar, conheciam, já desde tempos imemoriais, um ano so-
— As equiparações das divindades romanas (gregas) e germânicas são, muitas
vêzes, bastante precárias.
— Inovação alemã: "meia semana".
— Samstag é adaptação 4c, francês: sarnedi; além disso, o alemão tem a palavra
Sonnabend (="véspera do dia do Sol").
— Cf. Varro, Rerum Rusticarum, II 1; Macrobius, Saturnalia, I 16, 28-36; Plinius,
Naturalis Historia, XVIII 13.
512—

lar . Muito provàvelmente chegaram a essa inovação devido ao fa-


to de começarem as inundações anuais do Nilo, o grande aconteci-
mento para a lavoura, nos meados do nosso mês de junho: uma sim-
ples observação os pode ter levado a calcular o ano em 365 dias.
Com efeito, o ano civil do Egito, que se manteve até os fins da An-
tigüidade, era de 365 dias. Êste ano, chamado "o ano Thouth" por
Thouth ser o primeiro mês do ano, era vago, porque, decorridos qua-
tro dêstes anos, o adiantamento em relação com o sol (o ano tró-
pico= -.±365, 25 dias) era de mais ou menos um dia.
Observações astronômicas vieram a aperfeiçoar o ano egípcio,
muito embora se tivesse em honra o ano vago por motivos religio-
sos. Os sacerdotes haviam observado que o levantar helíaco do as-
tro Sírio (=Sóthis) anunciava a chegada das inundações do Nilo:
no V milênio a. C., êsse fenômeno se verificava no dia 15 de junho
(estilo gregoriano). Ora, bem cêdo devem ter reparado que êsse
fato não se repetia de 365 em 365 dias, mas, — quase perfeita-
mente de acôrdo com a duração do ano trópico, — de 365,25 em
365,25 dias, e assim chegaram à conclusão quase acertada (55) de
que o ano solar tinha 365,25 dias: era o chamado ano "sotíaco".
No antigo Egito, o ano "Thouth" e o ano "sotíaco" coexistiram
mais de quatro milênios: o primeiro dia do ano "sotíaco" coincidia
com o do ano "Thouth" de 14.60, em 1460 anos (56): era o início
de um novo período "sotíaco" que era celebrado com grandes festi-
vidades pela população. Ora, sabemos que êsse fato se verificou
no ano 139 d. C. (57). Logo, deve ter-se verificado também em
1322, 2782 e 4242 a. C. Segundo muitos entendidos, o ano 4242
a. C. (58) seria a primeira data apontável na história da humanida-
de; segundo outros, o primeiro período "sotíaco" teria começado só
em 2782. Essas datas são, porém, contestadas em razão de argu-
mentos astronômicos: não levam em conta o fato de se acelerar aos
poucos o levantar helíaco de Sírio. Destarte deve ter-se tornado,
aos poucos, mais breve o ano "sotíaco" em relação com o ano trópi-
co. Segundo cálculos prováveis, só o primeiro período contava 1460
anos, o segundo apenas 1458, e o terceiro 1456, de modo que• a
primeira data da história seria 4236 ou 2776 a. C.

IY . O Ano grego .

Os gregos tinham originàriamente 12 meses de alternadamen-


te 30 e 29 dias: êste ano, baseado nas lunações, tinha, portanto,

— O ano trópico é de 365,2422 dias.


Pois: 365x1461= 433.265, e 365,25x1460. - -- 433.265.
— Censorinus, De Die ~ali XXI, 10.
(53). A data, indicada por, E. Meyer e adotada por quase todos os livros, é 4241
a. C.; êste cálculo, porém, não leva em consideração a. falta do ano zero
em nossa éra (cf. 12 52 III f).
— 513 —

354 dias. Para corrigir o adiantamento do ano em relação com o


sol, serviam-se, no decurso dos séculos, de vários meies, dos quais
a maior parte tem só interêsse para os especialistas. Basta mencio-
narmos aqui dois ciclos de maior relevância e bem documentados.
O primeiro (59) era a chamada octaéride, que abrangia
um período de oito anos regulares aumentados com 3 meses de 30
dias. Este ciclo tinha 2.922 dias, ou a média de 365,25 dias por ano.
O segundo era um ciclo de 19 anos, atribuído a Metão
(século V a. C.): 5 anos eram regulares (=1.775 dias), 7 tinham
354 dias (=2.478 dias), 6 tinham 384 dias (=2.304 dias), e 1 ti-
nha 383 dias. O total era, pois, de 6.940 dias, ao passo que 19 anos
julianos dão a soma de 6.939,75 dias (60) . Este ciclo foi introdu-
zido porque os atenienses faziam questão de começar o primeiro
dia do mês num dia em que era lua nova ("neomenia"), coincidên-
cia essa que era impossibilitada pela octaéride (61) . No ciclo de
Metão havia 235 lunações, o que dava uma média de ±29,5319 dias
para cada lunação, a qual, na realidade, é de 29,5306 dias (a cha-
mada lunação "sinódica") . Assim se tornava mínima a diferença.
Ao cabo de 19 anos, a diferença entre as duas lunações era ±- 0,3055
dias; ao cabo de 190 anos, só ±3 dias.
Cratipo (século IV a. C.) teria corrigido o ciclo de Melão,
introduzindo um ciclo de 72 anos (=4x19 anos), e tirando a um
dêsses 4 ciclos de 19 anos um dia. Assim o ciclo de Cratipo estava
completamente de acôrdo com o ano juliano de 365,25 dias.
Admite-se, geralmente, que os gregos, ao elaborarem o seu ca-
lendário, se aproveitaram bastante das observações astronômicas
dos povos orientais. O seu grande mérito consiste em terem apli-
cado métodos matemáticos à astronomia.
III. O Ano romano.
Segundo uma tradição pouco fidedigna, Rômulo, o primeiro
rei de Roma, teria dado um calendário de 10 meses ao seu povo, o
primeiro dos quais era março (62) . Quatro meses "longos" de 31
dias (março, maio, julho e outubro), e seis meses "breves" de 30 dias
faziam um total de 304 dias por ano. A notícia, embora comunicada

(59) . — Segundo alguns, teria sido inventada a octaéride pelo astrônomo grego Eu-
doxo (século IV); é muito mais provável, porém, que remonte aos babilô-
nios e tenha sido introduzida na Grécia já no século VII a. C.
— Segundo outras fontes, a estrutura do ciclo de Metão seria um pouco dife-
rente, e teria o total de 6.935 dias.
— A octaéride tinha 2.922 dias (8x354+3x30 dias) . Neste ciclo havia 99 luna-
ções, conforme o calendário, de modo que o prazo decorrido entre duas
luas novas, sempre segundo o calendário, era de 29, 5151 dias, enquanto que,
na realidade, é de 29,5306 dias. A diferença monta, cada lunação, 0,0155
dias; nas 99 lunações da octaéride, 1,5345 dias. Ao cabo de ±10 octaérides
(=80 anos), a lua cheia caía no primeiro dia do mês, que devia ser neo-
menía (=lua nova) .
— Cf. 54 I.

Revista de História ns.. 21-22.


— 514

por diversos autores, não merece a nossa confiança (63): um ano ,


vago de 304 dias devia ser um grande inconveniente para um po-
vo de lavradores como o eram os romanos. Parece mais prudente . '
pensarmos não em lunações, mas em certas divisões do ano, muito"
provavelmente relacionadas com a lavoura e cujo caráter podemos
mal determinar nos seus pormenores.
Melhor documentado é o calendário, que a tradição atribui ao .
rei Numa Pompílio ou a Tarqüínio Prisco: o novo ano romano fi--•
ciou com 355 dias por se lhe acrescentarem dois meses. Os 4 meses
longos (plani) conservavam os seus 31 dias, os seis breves (cavi)
contavam 29 dias, janeiro tinha igualmente 29 dias e fevereiro 28:
(64) .
Para harmonizar êsse ano lunar com a posição do sol, interca-
lava-se, de dois em dois anos, um mês de 22 dias (66) entre o dia
23 e o dia 24 de fevereiro (66) . Este mês, chamado mentis merca, > ,
donius, não era intercalado automàticamente, mas a sua intercala-
ção ficava a critério dos pontífices, que tinham a tarefa difícil de , .
harmonizar o-calendário não só com a posição do sol, como também
com as exigências imperiosas da religião. Apesar de haver regras
oficiais e objetivas concernentes aos menses mercedonii, muito proa
vávelmente já desde o ano 304 a. C., eram estas pouco respeitadas na
prática: os sacerdotes prolongavam ou diminuiam muitas vêzes o
ano conforme as suas simpatias ou antipatias políticas. Em geral,:,
lavrava muita confusão no calendário romano, principalmente nos
século da República .
IV. O Ano Juliano.
Júlio César acabou com essa situação insuportável. O dita-:
dor, pessoalmente interessado em assuntos astronômicos e orienta-
do pelo sábio Sosígenes de Alexandria, ordenou em 46 a. C. (67)
que, a partir de 45 a .C., o ano tivesse uma média de 365,25 dias (68);
que o equinócio da primavera fôsse fixado no dia 25 de março; que
o ano civil começasse no dia 1.° de janeiro; que de quatro em qua r
tro anos se intercalasse um bissexto entre 23 e 24 de fevereiro. Jú-
lio César foi assassinado no primeiro ano do novo calendário. Os
sacerdotes, que tomavam conta da execução das medidas, comete-.;
ram um êrro, propositado ou involuntário, intercalando de três em

— Cf. Censorinus, De Die Natali, XX 2, e Macrobius, Saturnalia, I 12,3.


— Por , motivos de superstição os romanos evitavam o número par, cf. Vergilius,
Numero deus impere estude! (Bucolica VIII 75). — Fevereiro era o más'
de "azar".
— Cf. Plutarchus, Vita Numae 18. — Segundo outros num período - de quatro-
anos haveria dois mentes mercedonii diferentes, um de 22, o outro de 23 dias.
— Dois anos tinham, pois, 732 dias, o que dá a média de 366 aias por ano.
— E' o chamado ennus com' usionis, que tinha 445 dias: um mensis mercedonius
de 23 dias foi intercalado em fevereiro, e ainda dois meses em novembro e
dezembro, êstes com o total de 67 dias.
— Vê-se sem dificuldade a influência egípcia: é o ano "sotíaso".
515

três anos um bissexto (69): em 8 a., C., descoberta a irregularida-


de, o Imperador Augusto tomou uma série de medidas para desfazer
as conseqüências da interpretação errônea e para prevenir que se re-
petisse tal êrro. Só no ano 5 d. C., o .calendário romano estava real-
mente de acôrdo com os decretos de César.
Mas havia duas inexatidões no cálculo de Sosígenes: o ano
trópico não tem 365,25 dias, mas, como já vimos, 365,2422 dias.
Esta diferença de 0.0078 dias por and faz em 400 anos um total
de 3,12 dias, de modo que o equinócio primaveril no calendário ju-
liano recuava cada vez mais para o princípio do ano: quase um dia
por século. Ademais, o equinócio, que se pretendia fixar no dia 25
de março, foi fixado erradamente no dia 23 ou 24 do mesmo mês.
Quando, em 325, os Padres da Igreja estavam reunidos em Nicêia
pára tratar, além de muitos outros assuntos, também da data da
Páscoa, era fato conhecido que nesse ano o equinócio não se veri:.
ficara aos 25, mas aos 21 dias do mesmo mês. Os bispos, imputando
o desvio simplesmente a um êrro de cálculo cometido por Sosígeries;
determinaram que, desde aí, se partisse do dia 21 para computar a
data da Páscoa, pensando que dessa maneira o êrro ficasse elimi-
nado para sempre. Não conheciam a primeira inexatidão do ano
juliano, que era mais fundamental.
• V . O Ano Gregóriano.
Em 1582 o equinócio caiu no dia 11 de março: o Papa Gregdp-
rio XIII, acedendo a uma solicitação, já externada pelo Concílio
de Trento, tomou duas medidas importantes. Reconduziu o equi-
nócio para o dia 21 de março, e decretou, para evitar que se Perl)e, -
tuasse o êrro do ano juliano, que daí em diante não fôssem anos
bissextos os anos centenários não divisíveis por 400. Destarte 1600,
2000 e 2400 seriam anos bissextos, e não os anos 1700, 1800, 1900,
2100, etc. Além disso, fêz pular um período de 10 dias, harmoni-
zando assim o novo calendário com as estações do ano: ao dia 4
de outubro de 1582 seguiu-se imediatamente o dia 15.
O ano gregoriano foi adotado logo pelos países católicos: Itá-
lia, França, Espanha, Portugal, Bélgica, Áustria, Baviera, Hungria
Polônia, Os países protestantes hesitaram muito tempo em intro-
duzir a inovação papista. A Prússia admitiu o novo calendário em
1.610; os outros países protestantes da Alemanha, a Escandinávia
a Holanda só em 1700; a conservadora Inglaterra em 1752. , Se-
guiram, em 1873, o Japão; em 1918, a Rússia; em 1923, a Grécia;
afinal, em 1928, a Turquia (70) . Um exemplo pode ilustrar ':a

— Os pontífices interpretaram o têrmo do decreto: quarto quoque armo não como


devia ser: perfecto, mas: incipiente.
— A Inglaterra pulou 11 dias em 1752; a Rússia até 13 dias em 1918 para ficar
de acôrdo com o ano gregorisum.
— 516 —

diferença entre os calendários da França e da Inglaterra no início


do século XVII. A rainha Elisabeth faleceu no dia 24 de março
de 1602, segundo o calendário inglês, mas no dia 3 de abril de
1603, segundo o estilo gregoriano, que era seguido nos países ca-
tólicos (71) .
A diferença do ano gregoriano, que tem a média de 365,2425
dias, com o ano trópico (=365,2422 dias), é mínima: só de 0,0003
dias por ano, quer dizer: 3 dias em 10.000 anos.

O Calendário Republicano.

Já vimos que a Convenção francesa, em 1793, adotou uma no-


va éra e um novo calendário. O ano tinha 12 meses, cada um de
30 dias, e terminava por 5 dias complementares (sansculottides),
consagrados às virtudes cívicas. De 4 em 4 anos havia mais um dia
complementar (année sextile), mas os anos bissextos não coinci-
diam com os do calendário gregoriano (111=1795; VII=1799; XI=
1803).

O Ano Muçulmano.

O Ano muçulmano é completamente lunar: num período de


30 anos há 19 anos de 354 dias, e 11 de 355 dias, cada um dos
quais é dividido em 12 meses. A média do ano é, portanto, de
±- 354 1/3 dias, o que dá uma diferença com, a média do ano juba-
-

no de -2:10 11/12 dias, ou quase de um ano inteiro (±360 dias)


num período de 33 anos. O ano muçulmano é, pois, vago, mas, ape-
sar de seus inconvenientes, continua a ser observado pelos maome-
tanos por motivos religiosos.

O Ano Eclesiástico.
O Ano Eclesiástico da Igreja Ocidental começa no primeiro do-
mingo do Advento, isto é, no quarto domingo que precede à festa
de Natal. A data depende, pois, do dia da semana em que cai Na-
tal, e varia de 27 de novembro para 3 de dezembro, os dois limites.
A data da Páscoa, que é festa móvel, depende da data da pri-
meira lua cheia que se segue ao equinócio primaveril. Visto que
êste se pode verificar no período de 21 de março a 18 de abril,
a Páscoa pode ser celebrada em 36 datas diferentes: de 22 de mar-
ço a 25 de abril. Seria interessante acompanharmos a história do
cômputo pascal através dos séculos, mas tal exposição, mesmo que
se limitasse às linhas gerais, ocuparia muito espaço, incompatível
com os fins dêste trabalho.

( 71) . -- Devido ao atilas Annuntiationis, cf. 53 I.


— 517 —

Da data da Páscoa dependem, por sua vez, muitas outras fes-


tas: Ascenção e Pentecostes (40, resp. 50 dias depois da Páscoa),
Corpus Christi (11 dias depois de Pentecostes), etc. Esse ciclo de
festas móveis, cujas datas dependem de dois fatôres: o dia da se-
mana em que cai Natal, e a primeira lua cheia da primavera, cons-
tituem o chamado Proprium Temporis.
Além disso, há o Proprium Sanctorum, que se compõe das fes-
tas litúrgicas ligadas a certo dia de certo mês (72). Em documen-
tos medievais, e até em documentos contemporâneos, encontramos,
de vez em quando, datas emprestadas do calendário eclesiástico.
Chamamos aqui a atenção para as seguintes expressões:
"Na festa de São João Batista" (=24 de junho), "na festa
de São Lourenço" (=10 de agôsto), etc. Igualmente: "Na vigília de
São João Batista" (=23 de junho), e "na vigília de São Lourenço"
(=9 de agôsto), etc. Naturalmente encontramos também: "Na fes-
ta de Natal, da Páscoa, de Pentecostes", etc.
"No domingo Lactara" (=3 domingos antes da Páscoa),
"no domingo Quasi modo" (=Pascoela), etc. Essas expressões são
as palavras iniciais dos Intróitos dos respectivos domingos.
Para acharmos as datas correspondentes precisamos consultar
um calendário eclesiástico. O calendário latino já estava elaborado,
nas suas linhas essenciais, no século VII; o calendário grego é algo di-
ferente: o início do ano grego (e russo) é no dia 1.° de setembro;
também difere a data da Páscoa.
IX. O Calendário Perpétuo.
A título de curiosidade, consagramos aqui algumas palavras ao
calendário universal ou perpétuo que atualmente é proposto e de-
fendido por muitas pessoas e algumas associações internacionais.
Ainda não é calendário histórico, e ninguém sabe se conseguirá sê-
lo: em questões de cronologia a humanidade é conservadora e des-
pede-se, dolorosamente ao que parece, de antigas instituições, con-
sagradas pela tradição da vida religiosa e por numerosas reminis-
cências de ordem irracional.
O ano novo contaria 364 dias, repartidos entre 12 meses e 52
semanas. A cada ano se acrescentaria, no fim de dezembro, um dia
extra (não numerado, e feriado); de 4 em 4 anos se acrescentaria
mais um dia extra (não numerado, e feriado) ao mês de junho.
Quatro meses teriam 31 dias: janeiro, abril, julho, e outubro; os
outros teriam 30 dias. Cada trimestre teria, pois, 31+30+30=91

(72) —. Muitas das festas cristãs são adaptações de festas pagãs, cristianizadas e pro-
vidas de outro significado, por exemplo Natal era o dia de Mitras (Sol In-
victus), e Purificação (2 de fevereiro) era a festa da lustração da Cidade
(Amburbalia), etc.
-518—

dias, ou 13 semanas, e cada trimestre começaria sempre no mesmo


dia da semana: janeiro, abril, julho e outubro num domingo; feve-
reiro, maio, agôsto e novembro numa quarta feira; março, junho,
setembro e dezembro numa sexta feira. Desta maneira Natal cai-
ria sempre numa segunda feira. O sistema poderia ser aperfeiçoa-
do, — se é que um calendário não se pode permitir o luxo de ser ca-
prichoso, mas tem de ser racional, — pela fixação da data dá Pás-
coa: cairia no dia 8 de abril que, segundo o calendário perpétuo, é
sempre domingo. A Santa Sé, consultada a êsse respeito, em 1924,
pela Liga das Nações, respondeu não existirem obstáculos dogmá-
ticos à fixação da data da Páscoa, mas ser necessária, para romper
com uma tradição secular, uma discussão ampla num Concílio eumê-
nico
A ONU, sucessora da Liga das Nações, ainda não teve a opor-
tunidade de prestar a devida atenção ao calendário perpétuo. Mui-
tos outros problemas de caráter incomparàvelmente mais grave ab-
sorvem-lhe tôda a atividade. Mas é bem possível que a atual gera-
ção fique, um dia, com um novo calendário. A racionalização da vi-
da moderna continua irresistível, apesar dos protestos e das lágri-
mas dos românticos.

B. A PALEOGRAFIA.

§ 57. Livros, escritas e materiais.

A Paleografia (73) é o estudo metódico de textos antigos,


quanto à sua forma exterior. Abrange não só a história da escrita
e a evolução das letras, mas também os materiais e os instrumen-
tos para escrever.
I. Os Materiais.
a) Nas margens do Nilo crescia, na Antigüidade (74), uma
planta palustre, o papiro (75), que às vêzes atinge a altura de
três metros. Seu caule mais ou menos triangular contém uma me-
dula, que dá excelente material para escrever. Os egípcios corta-
vam-na em tiras muito finas, que depois eram enxutas ao sol. Vá-
rios dêsses pedaços eram colados uns ao lado de outros, e a fôlha,
obtida assim, era posta em cima de outra fôlha, cujos nervos cor-
riam perpendiculares aos da primeira . O produto era muito apre-
ciado e exportado para todos os países civilizados do mundo an-

(73•. — Das palavras gregas: "palaiós" (=velho, antigo), e "graphía" (=escrita) .


(74). — Hoje só nas proximidades das fontes.
(75) . — O Cyperus Papyrus, da família das Cyperaceae. — O nome grego é "pá-
pyros" ou "byblos".
— 519 —

tigo. Já se vendia em Atenas nos meados do século . V a. C. (76) .


lUm dos •reis helenísticos, talvez Ptolomeu II (século III a. C.), que-
rendo prejudicar o desenvolvimento da biblioteca rival em Pérgamo,
proibiu a exportação do papiro (77), medida essa que depois, ao
que parece, foi revogada. Até o século VII d. C., quando os árabes
invadiram o Egito, havia uma indústria florescente de papiro no
Delta do Nilo. No início da Idade Média a cana foi plantada nas
margens do rio Anapo na Sicília. A chancelaria papal continuou
a usar o papiro até o •século XII (78).
Pergaminho é fabricado da pele de carneiro, ovelha ou
vitelo, e dá material quase indestrutível. Já o conheciam os per-
sas e os jônios da Ásia Menor (79). Deve o seu nome a Pérgamo,
não porque esta cidade tenha inventado o pergaminho como se pen-
sa geralmente, mas por ter melhorado e aumentado a sua fabricação
o rei Éumenes II de Pérgamo (197-158 a. C.), quando os Ptolomeus
-estavam dificultando a exportação do papiro.
Os hindús escreviam em fôlhas de palmeiras; os babilônios
,e os assírios usavam tijolos de barro cozido (80). Os romanos pri-
mitivos utilizavam a parte interior do córtice da faia (81) . Os
atenienses votavam, nas assembléias do povo, em cacos de vasos
(óstraka) .
Nos tempos clássicos, os gregos e os romanos usavam tam-
bém codicilli ou tabulae (82), quer dizer, tábuas de madeira, 7e-
cobertas de cêra, em que se gravavam letras que depois podiam
fãcilmente ser apagadas. Havia tábuas simples, duplas (dípticos),
tríplices (trípticos), etc. Serviam para fazer rascunhos, testamen-
tos, exercícios escolares, e para escrever cartas.
O papel, feito de trapos, é uma invenção do chinês T'sai
Lun (± 100 d. C.). O segrêdo da sua fabricação chegou, via Sa-
marcanda, a Bagdá, durante o califado de Harum-al-Raschid (786-
809) e, em seguida, conquistou o mundo ocidental, principalmente
-nos tempos das Cruzadas. Desde o século XIII havia fábricas de
-papel na Europa, que se foram desenvolvendo sobremaneira de-

— Já é mencionado por Aeschylus, Supplices, _947 . — O papiro egípcio deve


ter-se tornado conhecido na Grécia desde a fundação da primeira colônia grega
no Egito: Náucratia (±650 a. C.), suplantando, aos poucos, o pergaminho, cf.
Herodotu•:, Historiae, V 58,3. Também os romanos falam freqüentemente
no papiro, por exemplo Catullus, Carmen 35,2: Poetae tenero, meo sodali
velim Caecilio, papyre, dicas Veronam veniat.
Cf. Plinius, Naturalis Historia, XIII 70.
— O último texto, escrito sôbre papiro, que saibamos, é um documento do Papa
Vitor II do ano 1057.
— Cf. Herodotus, Historiae, V 58,3. — O nome latino era membrana.
• (80). — Cf. Ç 42 II b.
— Em grego "pínax" ou "déltos".
<82). — A palavra latina liber, que deu o vocábulo português livro, significava origina-
riamente: (a parte interior do) córtice. — Talvez se relacione a palavra
inglêsa "book" (=livro) com "beech" (=faia).
— 520 —

pois da invenção da tipografia. Hoje é feito também de outras subs-


tâncias: palha, alfa, fibras de madeira, etc.
Os Instrumentos.
Os instrumentos para escrever sôbre papiro ou pergaminho
eram: o cálamo ou a cana (latim: calamus), e desde o século VI d. .

C. a pena de ganso (latim: pinna). Para os codicilli eram usados es-


tiletes de ferro (latim: stili). O lápis moderno é invenção do francês
N.-J. Conté (1795) . A tinta, usada na Antigüidade e na Idade
Média, era geralmente preta ou vermelha . Os títulos dos capítulos
do direito canônico e civil, como também as indicações das ceri-
mônias litúrgicas nos missais eram originàriamente escritos em le-
tras vermelhas (em latim: litterae rubricae): daí a expressão: "ru-
bricas".
Os Livros.
Do papiro faziam-se, se não exclusivamente, ao menos
preferencialmente, volumina (83), isto é, manuscritos feitos de.
apenas uma fôlha, enrolados em volta de um pau cilíndrico, o cha-
mado umbilicus, fabricado de madeira, marfim, chifre, etc. Suas
duas extremidades eram enfeitadas de botões (comua), e a uma
delas se prendia uma tira de papiro, indicando o título. Geral-
mente, os volumina eram conservados em estojos cilíndricos. Tam-
pouco como em nossos dias havia na Antigüidade• um formato uni-
forme do livro: segundo alguns, a biblioteca de Alexandria teria nor-
malizado o tamanho •(84), de modo que a palavra volumen se tor-
nava sinônima de livro. Até o século IV d. C., o volumen permane-
ceu a forma predileta de editar os autores clássicos; daí em diante-
foi sendo suplantado pelo códice, forma mais barata e prática.
O codex (85), a forma do livro atual, representa uma
fase de evolução dos codicilli (cf. I d) . Já era conhecido antes da
éra cristã, mas os cristãos contribuiram não pouco para a vitória
definitiva do codex sôbre o volumen (86) . Na Idade Média mui-
tos códices antigos, feitos de pergaminho (87), eram utilizados mais,
uma vez: raspava-se o texto original, geralmente de um autor clás-
sico, para escrever nas fôlhas recuperadas um texto novo . São os

(83). — De volvera: "enrolar". — Em grego "bíblion" (cf. "Bíblia") e "chértes"


(cf. "carta") .
. — Comprimento normal: 7 a 10 metros; largura normal: 15 a 25 cm.
. — Em latim codex ou caudas (:"tronco de árvore") . — Em grego "têuchos",
cf. a expressão moderna: "Pentateuco" (os 5 primeiros livros do Velho Tes-
tamento) .
. — O codex era mais manejável e prático' geralmente era c:e pergaminho, (ao,
passo que o volumen era quase sempre 'de papiro), e as suas páginas podiam
ser aproveitadas dos dois lados (o papiro dos volumina era escrito de um
lado só) .
(87). — São bastante raros, desde o século V d. C., manuscritos Cie papiro.
— 521 --

chamados "palimpsestos" (88), cujo texto original hoje se conse-


gue decifrar por meio de uma técnica especial.
IV. A Escrita.
Não pretendemos expor aqui a evolução e a origem da escrita;
já existem muitos livros que versam sôbre êste assunto. Só trata-
mos, em resumo; dos diversos sistemas que a humanidade adotou
para exprimir os seus pensamentos mediante uma representação fi-
gurada . O esquema, dado nestas linhas, não quer dizer que tôdas
as escritas tenham atravessado sucessivamente as mesmas fases de
evolução. Seguimos uma ordem lógica, nem sempre histórica, e não
devemos perder de vista que muitas escritas contêm elementos he-
terogêneos (por exemplo a escrita egípcia).
A Pictograf ia é uma fase anterior ao nascimento da es-
crita própriamente dita. Representa um complexo de aconteci-
mentos ou idéias (por exemplo uma guerra, uma caça, a tomada
de uma cidade) por meio de desenhos (realistas ou simbólicos),
cujo sentido não se lê, mas se interpreta ou adivinha. Encontra-se
entre povos primitivos, por exemplo: tribos siberianas, africanas e
americanas (88a).
Um importante passo para frente foi a invenção da Ideo-
grafia, em que cada uma das palavras, ou pelo menos tôdas as pa-
lavras essenciais de uma frase, ficam com o seu símbolo individual.
O exemplo clássico é a escrita chinesa, que dispõe de ±49.000 sím-
bolos diferentes (89), dos quais alguns tem 5 ou 8 significações.
Palavras homônimas são representadas por símbolos diferentes.
Além disso, os vários símbolos podem ser combinados uns com ou-
tros de maneiras diferentes. Os antigos hieróglifos do Egito e os
cuneiformes da Mesopotâmia devem ter partido também da ideo-
grafia, mas usaram já desde cêdo símbolos especiais para indicar sí-
labas e consoantes.
Em tôdas as línguas há homônimos, isto é, palavras pro-
nunciadas da mesma maneira, embora lhes seja diferente a etimo-
logia e o sentido. Essa circunstância possibilita a escrita por meio
de Rébus, vinhetas ilustrativas que ainda encontramos em revistas
e jornais, como passa-tempo. Por exemplo em português, cêsto e
sexto são homônimos, e a palavra canto tem dois significados: o de
"esquina" e o de "canção". A representação figurada de um cêsto
e de um canto (=esquina) pode dar o sentido: "(a) sexta canção".
Nesse princípio, que aqui foi reduzido aos seus elementos mais ru-
dimentares e que, na realidade, admite várias aplicações, baseia-
,

se a escrita dos aztecas no México.


Assim foi redescoberto o texto de Frontão, cf. 8 41 II c, nota 51.
(88a). —Cf. também Vergilius, Aeneis, I 453-493 e VI 14-33.
— Para o uso cotidiano bastam mais ou menos 4.000 símbolos.
--- 522 --

Em tôdas as línguas é relativamente exíguo o número de


sílabas; além disso, certas combinações silábicas são características
de certos idiomas. Ora, alguns símbolos, que originariamente indi-
cavam certos objetos ou fatos vinham a indicar tais sílabas muito
usadas, ou então grupos de sílabas, independentemente da significa-
ção da palavra em que ocorriam. Eis o sistema silabográfico, usa-
do no Japão, que deriva a sua escrita da chinesa (90) . A escrita
dos antigos cíprios (91), e os hieróglifos egípcios contêm os mes-
mos elementos (92) .
O aperfeiçoamento da silabografia tem por resultado a
Fonografia, quer dizer, cada um dos sons, — ou quase cada um dê-
les, — é representado por um símbolo diferente ' . A fase inicial dês-
se sistema é a representação simbólica de apenas consoantes, fase
essa que os antigos egípcios, persas, hebreus e fenícios jamais che-
garam a ultrapassar. A fonografia é a escrita moderna que em úl-
tima análise remonta aos fenícios (século XV ou XVI a. C.?), dis-
cípulos, por sua vez, dos egípcios. A palavra aleph significava "tou-
ro", e possuía, como as outras palavras no sistema ideográfico, um
símbolo individual; assim beth era "casa", gime/: "camelo" e daleth:
"porta, tôrre". A originalidade dos fenícios consiste em terem em-
pregado o símbolo aleph para representar certo som gutural, o beth
para o b, o gime/ para o g, e o daleth para o d, e assim por diante
(92a). Os gregos 'adotaram o alfabeto fenício (no século XI a. C.? ),
aproveitando-se dos vários símbolos indicativos de aspirações semí-
ticas, para representarem as vogais. Também as formas das letras so-
freram modificações consideráveis. Os romanos receberam o alfabeto
grego (por intermédio dos etruscos) de uma tribo grega na Itália,
que não acompanhara as evoluções do alfabeto grego na metrópole,
o que explica certas diferenças entre o alfabeto grego e o romano
(93) . O alfabeto russo, ainda hoje em uso, remonta, em boa parte,
ao grego, e foi introduzido em 855 pelo apóstolo dos eslavos, São
Cirilo (826-869); alguns caracteres russos assemelham-se bastante
aos hebraicos, e outros ainda foram inventados. Em 1708, o Czar
Pedro simplificou êsse alfabeto "búlgaro", e em 1918 o número dos
símbolos foi reduzido a 38.

V. A Escrita Latina .

. — Desde 1933 segue-se cada vez mais o alfabeto latino.


. — Um exemplo do cíprio: -ZO VE SE O TI MO VA NA KO TO SA KA I
VO SE= (grego): Zôwes o Timowanak [o] tos Ak (h) aios= (port.): Zoves,
filho de Timônax, Aqueu. — Cf. A. Meillet, Aparou d'une Histoire de la
Langue Grecque, Paris, 19480, p. 89.
. — A escrita egípcia teve três fases: os hieróglifos, o hierático e o demótico.
(92a) . —(E' o chamado sistema acrofônico.
. — Por exemplo o X grego (="khi") tinha valor c'e "csi"; ainda existia, nesse
alfabeto grego, o "digamma": F(=w, em grego), como também o H.- — O
vocábulo "alfabeto" ainda lembra a origem grega-fenícia da nossa escrita
(alpha=aleph; beta=beth, etc.) .
— 523 —

O alfabeto latino atravessou, no decurso dos séculos, várias


fases de evolução e alteração. Cophecer-lhe as diversas formas his-
tóricas é o mesmo que saber aproximadamente em que tempo,
— e em que país, — foi feito certo manuscrito, o que é importan-
tíssimo para o filólogo e o historiador na recensio dos códices.
Na Antigüidade romana distingue-se entre capitales, cur-
sivae e semicursivae. As capitales, empregadas em inscrições e ma-
nuscritos preciosos, admitiam três variações: capitales quadratae,
capitales rusticae (as letras são mais altas que largas, e um tanto
arredondadas), e capitales unciales (formas redondas). As unciais
•éram usadas em manuscritos caros nos tempos de São Jerônimo. As
cursivas eram mais miúdas e ligadas entre si, e às vêzes difíceis de
decifrar: usavam-se em cartas, contas, notas, etc. O meio-têrmo
entre as duas espécies é a semi-cursiva, empregada na maior parte
dos manuscritos antigos chegados até nós: admite diversas variações.
Chamam-se escritas nacionais as diversas formas do al-
fabeto latino desde a Migração dos Povos até os tempos de Car-
los Magno. Na Itália havia a curialis, empregada na Cúria papal,
e a lombárdica, no Norte e na Toscana; além disso a beneventana,
no Sul. Na Gália havia a letra merovíngia, geralmente rude e mal
feita, cheia de ligaturas. Na Espanha, haVia a letra visigótica.
Muito importante é a letra insular, forma evolvida da semi-oncial,
.e empregada pelos monges anglo-saxônicos e irlandeses .
Na época carolíngia tornou-se mais regular e bela a letra:
o resultado foi a chamada minúscula carolíngia, que toma por em-
préstimo elementos das várias escritas nacionais. Essa perdurou
uns 4 ou 5 séculos, e teve o seu apogeu de artisticidade no século
XII. As letras minúsculas, que empregamos atualmente, remon-
tam às carolíngias.
Nos séculos XII-XIII nasceu a letra gótica, tipo angu-
loso e enfeitado, que se manteve até o século XVI. Na Alemanha
é, ainda hoje em dia, usada uma letra gótica, principalmente em
-publicações populares (a chamada fratura) .
Desde a invenção da tipografia têm sido empregadas co-
mo maiúsculas a capitalis romana, em muitas variações, como mi-
núscula a carolíngia, e como cursiva uma letra que remonta à pra-
xe dos humanistas. Foi então que se começou a fazer distinção en-
tre I e J, e UeV. A letra W já data do século XI.

VI. A Estenografia.

Discute-se a respeito da origem da estenografia ou taquigra-


fia: foram os gregos ou os romanos que a inventaram? E' prová-
vel que os romanos tenham sido os primeiros estenógrafos e que
'os gregos tenham aperfeiçoado o sistema. Tiro, o liberto culto de
-- 524 —

Cícero (século I a. C.), passa pelo inventor da estenografia (notae


tironianae); partia de abreviaturas, no mais das vêzes, das letras
iniciais para indicar certas palavras; e essas letras iniciais tomava-
as emprestadas de vários alfabetos e escritas, a fim de poder dispor
de uma grande quantidade de símbolos; além disso, acrescentava-
lhes pontos colocados em vários lugares, cuja posição tinha valor sim-
bólico; e afinal, indicava as terminações das palavras variáveis por
meio de sinaizinhos. O primeiro discurso estenografado, de que te-
mos conhecimento, foi a Oratio in Catilinam I, proferida por Cícero
no dia 8 de novembro de 63 a. C. Depois tornou-se uma coisa bas-
tante comum no Império Romano: o filósofo Sêneca (4 a. C. — 66
d. C.) não se desdenhou de aperfeiçoar a taquigrafia; Plínio-o-Velho
nunca ia viajar sem levar consigo um notarius; no Baixo Império a
estenografia era muito popular (94) e subsistiu até os tempos caro-
língios . Desconhecida na Idade Média, foi redescoberta pelo be-
neditino alemão Johannes Trithemius (1462-1516) em antigos có-
dices. Em 1588, o inglês T. Bright apresentou o primeiro sistema
moderno, profundamente influenciado pelo antigo. Hoje em dia
existem vários sistemas, adaptados à índole das diversas línguas.
VII. Abreviaturas.
Já os romanos usavam muitas abreviaturas, que tinham mui-
ta importância para os primórdios da estenografia. Escrevia-se,
principalmente em certas fórmulas fixas, apenas a letra inicial de
um vocábulo, por exemplo M(arcus); T (itus); D (is) M (anibus);
D(at) D(icat) D(edicat); S(enatus) P (opulus) Q (ue) R(oma-
nus); I (ovi) O (ptimo) M (aximo); etc. Frases inteiras eram abre-
viadas, por exemplo S. V. B. E. E. Q. V. (95) .
Relativamente raras nos manuscritos medievais, anteriores ao ,
século XI, as abreviaturas tornam-se mais freqüentes a partir dês-
se século. Distinguimos entre:
siglas, ou letras iniciais, por exemplo B. M. V.=Beata
Maria Virgo; P. M.=Pontifex Maximus; A. U. C.=Ab Urbe Condita,
etc
contrações, ou elementos do início e do fim de um vocá-
bulo, por exemplo Drius=Dominus; tm=tantum; tn=tamen, etc .
sinaizinhos especiais por exemplo: regib;=regibus; 85=et;
±=est, etc.
ligaturas (principalmente em manuscritos gregos) são
combinações de uma ou mais letras consecutivas, representadas por
(94) . — Quase todos os sermões de Santo Agostinho, que chegaram até nós, foram es-
tenografados.
(95). — A abreviatura quer dizer: Si vales, bene est; ego quidem valeo ( :"Se tu pas-
sas bem, está em ordem; eu por mim, vou bem") . — Frase de cortesia,
muito usada no início de uma, carta.
— 525 —

um símbolo composto, geralmente no fim da palavra, por exemplo


aufé=autem; GRAECOR=graecorum, etc. Muitos textos impres-
sos nos primeiros séculos da tipografia continuavam a escrever tais
ligaturas.
VIII. Diversas Maneiras de Escrever.
Os fenícios e os hebreus escreviam da direita para a esquerda;
os gregos seguiam originàriamente êsse costume, mas desde os tem,
pos de Sólon (início do século VI a. C.) iam escrevendo "bustro-
phedón", quer dizer: alternadamente da direita para a esquerda
e- da esquerda para a direita, como um boi a sulcar a terra. Desde
século V a. C., os atenienses escreviam, de acôrdo com a praxe
moderna do mundo ocidental, da esquerda para a direita.
Inicialmente não se separavam as palavras (scriptio continua);
a escola alexandrina inventou acentos gráficos para marcar os li-
mites entre as palavras. A mesma escola começou também a se-
parar os vocábulos, e a servir-se de uma pontuação, aliás bem es-
cassa. Só a partir do século XV d. C. data o sistema moderno de
pontuação.

C. A EPIGRAFIA.

§ 58. Inscrições.

A Epigráfia (96) é a ciência das inscrições escritas sôbre ma-


teriais duráveis: pedra, mármore, bronze, etc., e é de suma impor-
tância para a história da Antigüidade (em alguns casos tambérn
ra a 'dos tempos modernos), darido-nos numerosas informações que
os textos escritos sôbre papiro e pergaminho não conservaram. Já
sabiam Heródoto e Tucídides: para a docúmentação das suas
obras valiam-se muitas vêzes de inscrições: tratados de paz, alian-
ças, epitáfios, leis, placas comemorativas, etc.
I. Copiar uma Inscrição.
Ao encontrarmos em viagem uma inscrição que julgamos iné-
dita, não convém copiá-la ou transcrevê-la: o perigo de entrarem
na nossa cópia erros materiais ou de raciocínio (cf. § 44 II a-b)
é muito grande. E' preferível fazer dela uma reprodução mecâni-
ca que; quando de volta em casa, podemos estudar sossegadamente.
Podemos fotografá-la. Muitas vêzes, porém, se faz o seguinte: co-
loca-se em cima da inscrição uma fôlha molhada que depois é ro-

(96) . — Cf. Francisco Isoldi, A Epigrafia, in Revista de História, III 9 (1952 ), págs.
89-105.
— 526 ---

çada com uma escôva para o papel entrar nas cavidades das letras.
Ou então, não havendo água, cobre-se a fôlha com plumbagina, es-
fregando-a depois com uma escôva: as letras ocas aparecem em
branco, destacando-se dos fundos escuros.
II. A Interpretação das Inscrições.
A Interpretação das Inscrições exige muita erudição. Precisa-
mos dominar a língua (ou o dialeto) em que foi redigida a nossa
inscrição; conhecer a ortografia da época e do local, e — o que é
mais difícil ainda, — adivinhar a verdade sob todos os possíveis
erros ortográficos; completar as abreviaturas que são muito fre-
qüentes, etc. A cronologia e a história das instituições de certo po-
vo podem-nos ajudar muitíssimo para relacionarmos a inscrição com
determinados acontecimentos ou personagens já conhecidos. As
abreviaturas, e as fórmulas fixas, encontradiças em inscrições, pre-
cisam ser minuciosamente estudadas, o que pode ser de suma im-
portância para a restauração de um texto mutilado.
III. Algumas Inscrições importantes para a historiografia são:
O Código Penal do rei Hamurabi, soberano da Babilônia
(97). E' uma pedra de 225 cm de altura, cujo texto cuneiforme es-
tabelece severas penalidades contra os infratores das leis que pro-
tegem a propriedade, segundo o princípio da retaliação: ôlho por
ôlho, dente por dente. Foi descoberto, em 1901, pelos franceses
em Susa, e acha-se atualmente no Louvre, em Paris.
Num rochedo de Behistum (Pérsia), o rei Mario I (522.-
486 a. C.) fêz gravar uma inscrição gigantesca em três línguas, con-
tendo um relatório dos seus atos reais. Essa inscrição, descoberta:
em 1835 por Sir Henry Rawlinson, foi de suma importância para
a decifração dos cuneiformes.
A Pedra de Roseta, cf. § 41 II b.
Na Itália foram descobertas algumas inscrições em dia-
letos itálicos, cognatos com o latim. Mencionamos aqui as Tabulae
Eugubinae, descobertas em 1444, trazendo um texto úmbrico, que
chegou a ser decifrado e interpretado completamente só no início
do século passado. Para os nossos conhecimentos do antigo osco
— outro dialeto itálico, bastante parecido com o latim — foi im-
portante o descobrimento da Tabula Bardina, em 1793, e do Cip-
pus Abellanus, em 1745. Essas inscrições vieram a nos ensinar
qual é o lugar ocupado pelo latim entre as antigas falas itálicas

(97) . — O rei Hamurabi não reinou de 1955 a 1912 a. C., como se admitia antiga-
mente, mas uns 250 anos depois: fato provado por recentes escavações na
Mesopotâmia.
-- 527,--

O Monumentum Ancyranum, muitas vêzes chamado "a_


Rainha das Inscrições", foi descoberto em 1555 por uma embaixa-
da do Imperador alemãó Fernando I em Ancira, hoje Angorá, ca-
pital da Turquia moderna. E' uma cópia da relação bilíngüe (em
grego e em latim) que o Imperador Augusto fizera gravar no seu
Mausoleu em Roma (Campus Martiva). Como se perdeu o origi-
nal romano, as cópias possuem grande valor: a mais extensa e exa-
ta cópia é a de Angorá. A inscrição, que tinha por título Index Re-
rum Gestarum Divi Augusti, é um relatório sóbrio e imponente
da vida política de Augusto.
O Edictum de Pretiis Rerum Venalium, promulgado pe-
lo Imperador Diocleciano em 301 d. C., estabelece os preços-tetos
de várias mercadorias. O Prefácio dêste Edito, tão importante pa-
ra a historia econômica do Baixo Império nos é conservado apenas
por meio de inscrições; as disposições da própria lei nos são conhe-
cidas também por meio de códices.
O Marrnor Parium foi provàvelmente feito para uso de
uma escola na ilha de Paros (Grécia) em 264 a. C., fazendo as vê-
zes de um quadro-negro atual. Foi comprado, em 1627, pelo in-
glês Thomas Howard Arundel ao govêrno turco, e em 1667, quando
já estava mutilado, doado à Universidade de Oxford por seu filho.
O Marmor Parium é muito importante para a restauração da anti-
tiga cronologia: contém tábulas cronológicas de 1582 a 264 a. C.,
registrando também numerosos fatos da história da civilização.
IV. Coleções Epigráficas.
Um dos primeiros a colecionar antigas inscrições com uma
verdadeira paixão foi a figura romântica de Cola di Rienzo, "o ul-
timo tribuno do povo" (1313-1354). Seguiram-lhe o exemplo os.
humanistas, e já em 1588 saiu em Leida uma coleção importante,
organizada pelo humanista M. Smetius: Inscriptionum Antiquarum
quae passim per Europam Libar. Accessit Auctarium a Justo Lipsio.
A obra dá reproduções muito exatas e formula alguns dos princí-
pios que seriam redescobertos só no século XIX. Desde o século
passado, as inscrições são editadas em grandes corpora. Mencio- -
namos aqui: Inscriptiones Graecae (IG), publicadas desde 1873
sob os auspícios da Academia de Berlim, cujos redatores mais im-
portantes foram: Ulrich Von Wilamowitz-Moellendorf (98), U.
Wilcken e F. Hiller von Gaertringen. A obra, que ainda não está
acabada, deve substituir e ampliar uma coleção anterior em 4 vc›-

(98). — U. voo Wilamowitz-Moellendorf (r848-1931), genro do historiador Th. Momm-


sen, foi um dos maiores helenistas dos tempos modernos; escreveu trabalhos
sôbre os líricos gregos (1900), sôbre os dramaturgos (1921 3 ), sôbre Platão
(1929 3 ), sôbre a religião dos helenos (1931-193 2 ), sôbre á Ilíada (1920 2 ), etc.
— 528 --

lumes: Corpus Inscriptionum Graecarum (CIG), editado por Au- .

gusto Boeckh (1825-1856) . A Academia de Berlim editou, desde


1863, o Corpus Inscriptionum. Latinorum (CIL); um dos redatores
foi Th. Mommsen. As inscrições cristãs foram colecionadas pelo
arqueólogo italiano Giovanni. Battista de Rossi (1822-1894) em
Inscriptiones Latinae Christianae Urbis Romae VII Saeculo An
teriores (99) e pelo alemão E. Diehl em Inscriptiones Latinae Chris-
tianae Veteres.

D. A LINGÜÍSTICA.

§ 59. Os idiomas indo-europeus.

A lingüística é o estudo histórico e comparativo das línguas.


Também ela pode prestar serviços importantes ao historiador.
I. Todo mundo sabe que o português, o espanhol, o ita-
liano, o francês e algumas outras falas são idiomas aparentados,
fáto êsse que, histõricamente falando, se explica pelas conquistas
romanas nas penínsulas ibérica e apenina, e na Gália . Sua língua-
mãe é o latim, não o latim "clássico", mas o latim "vulgar" ou "po-
riular", tal como o falavam os habitantes romanizados das provín-
cias ocidentais do Império Romano nos primeiros séculos da éra
cristã (100). A origem "vulgar" das línguas românicas, outrora
apenas adivinhada, foi provada no século XIX por vários glotó-
logos, entre os quais se destacava F. Diez (1794-1876) . Igual-
mente pode ser estabelecido um parentesco entre o alemão, o
sueco, o dinamarquês, o holandês, etc.: são idiomas germânicos; e
entre o russo, o polonês, o checo, o croato, etc.: são idiomas eslavos.
Assim, como as línguas neolatinas pressupõem uma fase histó-
dCa de unidade lingüística, a qual, devido a várias circunstâncias,
ramificou-se em alguns dialetos, que, por sua vez, se tornaram idio-
mas independentes, assim a afinidade entre o grego, o latim, o an-
tigo germânico (101), o antigo eslavo (102), etc. leva-nos à con-
clusão de que todos êsses idiomas devem ter uma origem comum.
O estudo comparativo das línguas neolatinas ilustra, de maneira im-
pressionante, a evolução histórica dos vários povos românicos e as

(99). — De Rossi foi o grande mestre da arqueologia cristã. Escreveu por exemplo
Roma Sotterranea, em 3 volumes (1864-1877) .
. Por exemplo o povo usava a palavra bucca (=os, lat. cl. ), cf. "a bôca"
(port.) e "la bouche" (fr.); cf. também caballus (=equus, lat. cl. , cf. "o
cavalo" (port.) e "le cheval" (fr.) . A essas diferenças lexicológicas acrescen-
tavam-se divergências sintáticas, fonéticas e morfológicas.
. — O antigo germânico nos é conhecido pela versão "gótica" da Bíblia, feita pelo
bispo Úlfilas (século IV d. C.), da qual nos chegaram completos os Evange-
lhos e as Cartas de- Paulo.
. O antigo eslavo (=eslavo eclesiástico, ainda usado na liturgia ortodoxa c.a Rús-
sia e da Bulgária) remonta ao século IX (versão da Bíblia por S. Cirilo,
o qual com S. Metódio" foi o apóstolo dos eslavos) .
— 529 —

inter-relações que êles tiveram no decurso dos séculos, vindo a con-


firmar, muitas vêzes, os dados de outros documentos históricos.
Até mesmo nos revela, em alguns casos, fatos do passado que não
foram atestados por outras fontes. Nestas hipóteses, a glotologia é
ciência auxiliar da história.
A lingüística fornece-nos, muitas vêzes, argumentos no-
vos, quando se trata de tempos muito remotos e pouco documenta-
dos. Em 1815 o professor alemão Franz Bopp (1791-1867) publi-
cou um livro fundamental, que inaugurou a glotologia moderna
(103): aí comparava o sistema verbal do sânscrito (104), do gre-
go, latim, do persa e do germânico. Sua exposição dos fatos de-
monstrava que tôdas essas línguas, — e ainda algumas outras, —
remontam a uma fonte comum, o chamado indo-europeu ou indo-
germânico, que é a língua-mãe de quase tôdas as línguas européias
(105) e de muitos idiomas que ainda hoje se falam na índia e na
Pérsia (106) . Não conhecemos o indo-europeu diretamente, mas
podemos restaurá-lo, em muitos casos com bastante certãza, com-
parando entre si as formas das várias línguas dêle derivadas (107).
Esses estudos lingüísticos têm-nos fornecido alguns co-
nhecimentos históricos acêrca dos tempos muito remotos, em que
-o indo-europeu era o idioma comum, embora diferenciado em diale-
tos, de um povo (não de uma raça) . . Os indo-europeus viviam no
terceiro milênio a. C., talvez nas estepes da Rússia ou então nos
países bálticos, e foram-se espalhando, a partir de -±2500 a. C.,
pelos diversos países da Europa e da Ásia (108) . Era um. povo
de lavradores e pastores, que tinha uma cultura patriarcal, baseada
,

na monogamia, e venerava como deus supremo uma divindade de

Bopp não foi o primeiro a ver o parentesco do sânscrito com o grego e o la-
tim. Já no século XV/, o italiano F. Sassetti, e no século XVIII, o jesuíta
francês Coeurdoux e o inglês W. Jones, tinham chamado a atenção dos erudi-
tos para êsse fato. Mas Bopp foi o primeiro a fazer pesquisas sistemáticas e
a descobrir leis fonéticas e morfológicas.
( 104) . — O sânscrito clássico data de ±400 a. C. (Panini); o védico, uma fase anterior
da mestria língua, é riquíssimo em flexões, seus elementos mais antigos re-
montam aos séculos XIII ou XIV a. C.
(105) . — As línguas românicas, germânicas, eslavas, celtas (por exemplo o irlandês, o
bretão, o gaélico, etc.), bálticas( por exemplo o lituânio; esta língua é muiti›
arcai-a, e possui grande valor para a reconstrução do indo-europen) . Algumas
línguas européias tem origem diferente, por exemplo o basco na Espanha, o
finlandês e o húngaro.
-(106) . — Os antepassados dos iranianos e hindús chamam-se geralmente árias ou arianos;
constituem o ramo oriental da família indo-européia. — O têrrno "ária" ou
"ariano" (literalmente: "o melhor", cf. ar-istocrata)) emprega-se, de vez em
quanc:o, também para indicar o conjunto dos indo-europeus.
,( 107) . Por exemplo a palavra "cinco": pánça, em sânscrito; pénte, em grego; penque =
qtrinqüe, em latim; &rd, em gótico; assim também a palavra "pai": pirá, em
sânscrito; patér, em grego; páter, em latim; fádar, em gótico. Essas duas sé-
ries já mostram que o p inicial do indo-européu passou pata f em gótico.
•108) . — O berço dos indo-europeus é uma questão discutida: além das duas hipóteses,
dadas acima, são indicadas também as tetras da- Asia Central ou o Cáucaào,
ao que parece, com menos probabilidade.
— 530 --

luz, (109), além de numerosos outros demônios, estreitamente li- -

gados a fenômenos celestes: trovão, chuva, temporal, etc. Outros-


sim, sua religião continha elementos animistas. Já conheciam o
bronze, mas tinham pouca experiência do mar. Como nos idiomas
derivados, os numerais, pelo menos nos pontos principais, até o nú-
mero 100 remontam às mesmas raízes, é muito provável que te-
nham sabido contar até êsse número (110). Elementos sociológi-
cos dessa convivência indo-européia eram: os direitos sagrados do
hóspede, a "vendetta", o poder paterno, o culto da família aos ante-
passados, etc. (111). Os dados de que se vale a chamada "paleon-
tologia lingüística" para reconstruir as linhas gerais de um passado
tão longínquo, são os têrmos idênticos empregados por dois ou mais
povos que em tempos históricos já não tiveram contacto entre si:
a unidade lingüística aponta para uma unidade histórico-cultural.
Os resultados são escassos e, por vêzes, muito precários, mas em al-
guns casos pode-se chegar a conclusões quase certas.
O estudo do indo-europeu é apenas um exemplo de como a .

lingüística pode ministrar argumentos ao historiador: ela presta


também serviços muito úteis ao pesquisador dos povos latinos, ger-
mânicos, africanos, etc.

E. A ARQUEOLOGIA.

§ 60. Escavações célebres.

A palavra "arqueologia" (112) tem várias acepções. Pode


designar o estudo das antigüidades ou antiquitates (cf. § 29 II),
mas atualmente já não é muito usada neste sentido. Indica geral-
mente o estudo metódico dos monumentos e objetos que nos vie-
ram do passado (cf. § 39 II). Podemos estudá-los sob dois aspec-
tos diferentes: como objetos de arte, ou como documentos histó-
ricos. A arqueologia estética é ciência auxiliar da história da arte;
a arqueologia histórica encara os mesmos objetos não como expres-
sões do espírito artístico do homem, mas apenas como documentos
capazes de nos darem informações sôbre o passado. Na realidade-

. — E' o deus bem conhecido dos romanos: Juppiter= Diespiter (—"Pai da Luz").
Cf. em sânscrito: Dyéuspitar, em grego: Zeus (=Dyéus), e em germânico:
Ziu ou Tiu (cf. inglês: Tues-day), mas êste último cedeu o seu lugar a ou-
tras divindaces.
— Por exemplo catem (scr.), hekatón (gr.), centum (lat.) e hund (gót.); tôdas
essas palavras, que significam 100, têm a mesma raiz. — Mas 1.000 apre-
senta-se-nos sob formas diferentes: chiliot (gr., cf. quilo-grama), mine (lat.)
e thousand (inglês), três palavras de origem diferente.
. — O francês Fustel de Coulanges escreveu, em 1864, um interessante livro sôbre
as raízes indo-européias de alguns costumes entre os gregos hindús, e romanos:
La Cité Antique. A obra foi traduzida para o português (Lisboa, 1950 7 ), e
embora superada em muitos pontos por pesquisas modernas, continua a ser.
importante.
. Das palavras gregas: "archaiós" (=antigo) e "lógos" (=disciplina) .
— 531 —

os dois aspectos não podem ser separados rigorosamente, mas um


completa o outro.
A invasão dos bárbaros na Grécia (113) e na Itália (114),
o emprobrecimento geral que se lhe seguiu (115), a despovoação
dos antigos centros culturais (116), o desinterêsse pelas coisas do
passado, a falta de compreensão, o fanatismo religioso (117), a
ação do tempo voraz, — eis alguns fatôres que destruiram, de uma
vez ou aos poucos, os monumentos da Antigüidade.
A Renascença e o Humanismo não conseguiram inaugu-
rar a nova arqueologia. A maior parte dos humanistas tinha inte-
rêsses exclusivamente literários ou filológicos: colecionavam, sim, as
relíquias da arte clássica, que admiravam e proclamavam serem mo-
delos inigualáveis para todos os tempos, mas a arqueologia dos hu-
manistas era, no fundo, uma escola de estética, não de história .
Até nos' séculos XVII-XVIII continuavam a ser utilizados os anti-
gos monumentos para novas construções (118): etiam periere rui-
nae (119) .
Em 1748 um feliz acaso fêz descobrir a cidade de Pom- •
péia, e logo se iniciaram as escavações, que eram pouco sistemáti-
cas: os primeiros desentulhadores procuravam objetos preciosos e
curiosos e pouco se preocupavam em restaurar metèdicamente os
vestígios do passado (120) . A nova arqueologia nasceu só no sé-

— Além das invasões que sofreu na Antigüidade (nos tempos de Sula e, depois,
durante a Migração dos Povos), Atenas foi tomada pelas franceses e venezia-
nos na época das Cruzadas, pelos turcos (1456), etc.: êstes transformaram o
Pártenon numa mesquita. Em 1687, êsse templo magnífico foi bombardeado
pelos venezianos. Em 1801-1802, Lord Elgin despojou-o dos relêvos e troas-
portou-os para o British Museum (Lord Elgin Marbles).
— Rosna foi tomada, em 410 d. C., pelos gôdos, que saquearam a cidade du-
rante quatro dias; em 455 pelos vândalos (daí: "vandalismo"). Nos meados
do século VI, mudou várias vêzes de dono (bizantinos e ostrogodos), e ficou
algum tempo sem habitantes.
— Em 801 houve um terremoto em Roma, que prostrou as colunas do Foro de
Trajano: não havia dinheiro para a restauração.
— Durante o Cativeiro dos Papas em Avinhão, Roma tinha ±20.000 habitantes;
na sua época áurea, ±1.000.000. — Mas cf. F. Lot, La Fin du Monde Anti-
que, etc., Paris, 1951, pp. 79-80, que reduz o número dos habitantes de Roma
para 300.000.
— Esses três fatôres tiveram conseqüências lastimáveis principalmente nos países
ocupados pelos muçulmanos: África do Norte, Grécia. Asia Menor, Constanti-
nopla, etc.
— Em 1632, o Papa Urbano VIII, da família dos Barberini, tirou as traves de
bronze do pórtico do Panteão para a fundição de 80 canhões! — Daí o ditado:
Quod non fecerunt barbari, fecerunt Barberini. — O Amphitheatrum Flavium
(acabado em 80 d. C.) ficou com o nome "Colosseum" por causa do colôsso
de Nero (altura de 36 metros), erguido na frente do enorme prédio (obra do
escultor Zenodoro). Na Idade Média havia um ditado: Quamdiu stabit Coliseus,
stabit et Roma; quamdiu cadet Coliseus, cadet et Roma; quamdiu cadet Roma,
cadet et mundus. Até 1750, quando o Papa Benedito XIV consagrou o Co-
liseu à memória dos mártires cristãos que aí teriam sido massacrados, as ruí-
nas, dêste edifício, do qual subsiste ainda a terça parte, forneciam material
abundante para novas construções.
(119). — Lucanus, Pharsalia, IX 969.
(120) • — Já em 1719 tinha sido descoberta uma parte de Herculâneo. — As escava-
ções metódicas das duas cidades começaram só em 1861 (Fiorelli, e depois,
Spinazzola e Maiuri); em 1906 estava desentulhada a metade de Pompéia.
— 532 —

culto XIX: parte dõ princípio de que o valõr histórico de um ob-


jeto achado não depende tanto do seu valor intrínseco como do lu-
gar e da situação em que foi encontrado. A arqueologia deixa a
apreciação estética à história da arte, limitando-se a uma tarefa mais
racional e fria: restaurar as linhas gerais de uma civilização morta
estabelecer as relações que a ligam a outras Culturas. As ruínas
os objetos silenciosoS são forçados a darem um testemunho sôbre
passado, graças a métodos científicos que se vão aperfeiçoando
cada vez mais. A arqueologia, concebida assim, data dos meados do
século passado. Aqui damos apenas alguns acontecimentos que
muito concorreram para sua evolução no sentido de uma verdadeira
disciplina histórica.
IV. O alemão Henrique Schliemann (1822-1890) ganhou
como comerciante uma fortuna considerável e, em 1863, retirou-se
dó comércio para se dedicar aos estudos de seu deleite. Jâ quando
menino sonhara com os heróis da epopéia homérica, e como milio-
nário ainda não se podia convencer de que a guerra troiana não
passasse de uma bela ficção literária, como se pensava geralmente
nesse tempo. Seu entusiasmo descobriu o que era interditado aos
especialistas. Foi •à Turquia, comprou alguns morros no local onde
supunha ter existido a antiga cidade de Tróia, e depois de muitas
decepções e sacrifícios, achou, não uma cidade só, mas nove, tuna
em cima de outra (121) . Não tardou em identificar a segunda ci-
dade de baixo com a cidade homérica (122) . Além de restos de
muralhas e edifícios, descobriu também numerosos e preciosos ob-
jetos de arte, e tôdas essas descobertas combinou-as, sem hesitar,
com certas passagens da epopéia é com certas figuras imortaliza-
das por Homero. Schliemann era precipitado e romântico ao inter-
‘pretar .as 6:lisas que achava: aléin disso, não era arqueólogo forma-
do, de modo que para êle o valor estético e sentimental dos obje-
tos achados era mais importante do que a reconstrução minuciosa
do passado. Màs os brilhantes teSultados dessas escavações (123)
atraíram logo outros arqueólogos especializados ao lugarejo Hissar-
lik, onde Schliemann completava as descobertas com os produtos
da sua riquíssima imaginação. Doí em diante, o trabalho foi exe-

— Tróia I é urna aldeia neolítica (3.000 a. C.); Tróia II tinha muralhas enor-
mes (±2400-±- 1900); Tróia III-V são insignificantes; Tróia VI é a cidade
homérica (destruíaa no século XIII ou XII a. C.); Tróia. VII á fundação dos
eimérioa (século VIII a. C.); Tróia VIII é cidadezinha grega, e Tróia IX
(//ium) é colônia romana. — São êsses os resultados das novas escavações,
realizadas pela Universidade de Cincinnati (Estados Unidos) em 1931.
— Só depois W. Dõrpfeld verificou que era Tróia VI.
— Por que os arqueólogos se vêem obriga d - oa a cavar? Porque outrora se cons-
truía um novo edifício em cima dás ruínas de um antigo, e uma nova cidade
em cima de uma antiga (por exemplo Tróia!). Outrossim, também á náltf-
reza faz com que, derrubada tuba construção, aí sé sobreponham camadas 'de
poeira e areia, solo fértil .para á Vegetação. Daí a diferença do nível. A Londres
Moderna fica á 8 bú 10' Metros acima da Londinius romana.
— 533 --

cutado de maneira mais sistemática. Em 1876, Schliemann, secun-


dado pelo arqueólogo W. Dórpfeld, desentulhou também as forta-
lezas de Micenas e Tirinto no Peloponeso: o resultado foi outra
vez uma surprêsa. Descobriram-se as ruínas de um enorme portão
(o portão dos leões), de um sepúlcro em forma de uma cúpula, e
de um palácio, além de máscaras de ouro, etc. Evidenciou-se cada
vez mais: não só Tróia, mas também Micenas, a pátria do herói
homérico Agamenão, eram cidades históricas! Encorajados pelo
bom êxito das escavações, outros arqueólogos de quase tôdas as
grandes nações foram desentulhar os restos do passado nas terras
mediterrâneas: os alemães em Olímpia (1874-1881), os franceses
em Delfos (desde 1861), os inglêses e os italianos em Creta (por
volta de 1900), os americanos em Corinto (século XX), os fran-
ceses na Síria e Tunisia, outros na Palestina, na Mesopotâmia, no
Egito (124), na Ásia-Menor (125); igualmente houve desentulhos
nas antigas províncias ocidentais •do Império Romano, na Alema-
nha, França, Inglaterra, Espanha, etc.
V. As descobertas arqueológicas enriqueceram de maneira
extraordinária os nossos conhecimentos de certos períodos históri-
cos e pré-históricos. Quase tudo o que sabemos a respeito do domí-
nio romano na Inglaterra e na Alemanha devemo-lo, não a livros,
mas ao estudo metódico dos antigos monumentos aí subsistentes, e
à epigrafia. Ademais, revelou-nos a arqueologia a existência de cul-
turas das quais os nossos avós e até os gregos e os romanos não ti-
nham conhecimentos, senão tradições meio lendárias. Chamamos a
atenção dos leitores só para duas culturas ressuscitadas: a minóica
e .a micênica (126).
A cultura minóica, descoberta pelo inglês Sir Arthur Evans e
depois pelos italianos, tinha por centro a ilha de Creta (127) e dei-
xou-nos vestígios de que os mais antigos remontam aos fins do
quarto milênio a. C. Teve o seu apogeu de 21004550 a. C., como
nos ensinam os palácios aí descobertos. Os cretenses minóicos não
eram indo-europeus, mas pertenciam a um povo pré-helênico (128),

. — Em 1922 foi descoberto o célebre sepúlcro de Tuth-Ank-Amon, o faraó do


Egito (1358-1352 a. C.), pelos inglêses Lord Carnavon e Carter.
. — Por exemplo em Boghazkbi (Turquia), onde, no início déste século, foi de-
sentulhado g antigo capital pos hititas.
. — O resumo seguinte é susceptível de modificações consideráveis, por causa das
novas cescobertas (cf. 8 41 II, nota 50) .
. — Os gregos clássicos possuiam só reminiscências vagas da "talassocracia" cretense
dos tempos pré-históricos, como também do lendário rei Minos, que no labi-
rinto encerrara o terrível monstro Minotauro, vencido pel9 herói ateniense
Teseu, ajudado pela princesa Ariadne. — Minos deu o seu nome à "'cultura
minóica".
— Os gregos clássicos chamavam-nos "pelasgos". — Hoje prefere-se o nome
"mediterrâneos", ou "cários" ou "asiáticos". E' possível que os bascos na Es-
panha, os etruscos na Itália, os minóicos na Creta, e os lídios na Asia-Menor
tenham a mesma origem. — A cultura de Tróia VI contém, além de ele-
mentos "asiáticos", também outros c.a origem "nórdica" (trácica), parecidos
com a civilização que os gregos leyermn consigo para a península dos Balcãs.
— 534 —

cuja cultura entretinha estreitas relações com o Egito. Tinham pa-


lácios sem tetos, sabiam ler e escrever, veneravam por exemplo o
touro e deuses da vegetação, e eram excelentes pintores.
Dsde o início do II milênio a. C., algumas tribos gregas (os
jônios e os aqueus) começaram a invadir a península dos Balcãs,
acabando por entrar em contacto com os minóicos no Peloponeso,
dos quais tomaram emprestados vários elementos religiosos como
também realizações técnicas e artísticas, mas sempre conservando
algumas particularidades indo-européias. Os primeiros gregos fo-
ram "civilizados" pela irradiação da cultura minóica, assim corno os
primitivos celtibéricos pelo seu contacto com a civilização romana.
O resultado foi a chamada "cultura micênica", da qual os restos
arqueológicos em Micenas, Argos e Tirinto nos dão uma idéia co-
mo também as epopéias homéricas. Esses "micênicos", que se es-
palharam também por algumas ilhas, destruiram a esplêndida cul-
tura minóica (século XV a. C.), e alguns séculos depois, por volta
de 1200 a. C., a própria civilização micênica foi liqüidada pela m-
vasãO dos dórios, uma tribo grega atrasada que se tinha demorado
em invadir a península. Só ao cabo de uns 4 a 5 séculos conseguiu
reflorescer a nova civilização grega em cima das ruínas da micênica,
da qual os novos senhores só possuiam reminiscências vagas e len-
dárias, como é provado pela poesia de Homero.

F. A GEOGRAFIA.

§ 61. O segundo ôlho da história.

A Geografia é irmã gêmea da história: os primeiros historia-


dores, como Hecateu e Heródoto, eram também homens viajados,
e tinham muito interêsse pelos fatôres geográficos. Tudo o que se
verifica no tempo, verifica-se também no espaço," de modo que a
cronologia e a geografia, na expressão célebre de Lord Bacon, são
os dois olhos da história (129) .
I. As relações da geografia com a história são múltiplas e
variadas. A geografia física descreve o habitat do homem, esclare-
cendo a origem e a evolução de várias instituições históricas. As
inundações anuais do Nilo tornavam necessárias medidas coletivas,
— senão, podiam transformar-se num desastre para o país, — que
favoreciam •a criação de um Estado centralizado e poderoso. O
mesmo fenômeno favorecia também o desenvolvimento da geome-
tria e de várias outras disciplinas e técnicas. As paisagens monta-
nhosas da antiga Grécia eram propícias ao nascimento de certo par-

(129). — Para urna discussão crítica dos fatôres geográficos na história humana, cf.
Henri Berr, En Marga de l'Histoire Universelle, Paris, 1934 (pp. 64-83).
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (II)", In: Revista
de História, São Paulo, nº 21-22, pp 439-535, jan./jun. 1955. Disponível em:
http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/021-022/A016N021E022op.pdf

— 535 —

ticularismo político e as numerosas ilhas do arquipélago egeu de-


viam seduzir os habitantes a fazer viagens marítimas. A situação
geográfica de Portugal contribuiu muitíssimo para que descobrisse
vastas regiões na África, América e Ásia. A extensão de certos paí-
ses, como a dos Estados Unidos da América do Norte e do Brasil,
proporciona possibilidades inexistentes em quase todos os países
do Velho Mundo, e cria também certos problemas peculiares. O
clima, as riquezas naturais, os produtos do solo, a hidrografia, a
orografia, a meteorologia e tantas outras disciplinas geográficas aju-
dam-nos a compreender vários acontecimentos históricos e numero-
sas realizações do passado. Tôdas elas culminam, para o historia-
dor, na chamada antropogeografia, ou "geografia humana", a qual
procura estabelecer as várias interrelações entre o homem e o seu
meio. Não é apenas o meio geográfico, no sentido mais amplo da
palavra, que exerce a sua influência sobre o homem, mas também
êste influi naquele, para o bem e para o mal. O desflorestamento,
tal como se verificou na Espanha, pode até alterar o clima. A Me-
sopotâmia, que na Antigüidade era um país fertilíssimo, graças aos
seus exemplares canais de irrigação, tornou-se um deserto sob o do-
mínio dos turcos.
II. Desde o século passado têm-se editado muitos atlas his-
tóricos, quer dizer, cartas geográficas que ilustram a história de
certos povos e civilizações. Hoje são instrumentos quase indispen-
sáveis ao estudioso da história.

JOSÉ VAN DEN BESSELAR


da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (III)", In:
Revista de História, São Paulo, nº 23, pp 185-239, jul./set. 1955. Disponível
em: http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/023/A009N023.pdf

QUESTÕES PEDAGÓGICAS

INTRODUÇÃO AO ESTUDOS
HISTÓRICOS (III).

TERCEIRA PARTE

A Síntese Histórica
Nature is whole in her least things exprest,
Nor know we with what scope God builds the worm.
Our towns are copied fragments from our breast;
And all man's Babylons strive but to impart
The grandeurs of his Babylonian heart.

Francis Thompson, "The Ileart".

CAPITULO PRIMEIRO

OPERAÇÕES SINTÉTICAS ELEMENTARES

§ 62. O Fato Histórico.

Estabelecidos os "fatos materiais" do passado, ainda não termi-


nou a (tarefa do historiador. Para êles se tornarem compreensíveis
e significativos, o espírito humano precisa apoderar-se da matéria
bruta, esforçando-se por concatenar lógicamente os fatos verifica-
dos. Sapientis est ordinare. O estudo meramente analítico dos di-
versos documentos, por mais importante que seja (1), não é fim
em si, mas apenas um instrumento: não satisfaz às exigências do
nosso espírito, que sempre está em busca das íntimas conexões en-
tre fatos aparentemente isolados. A essa tendência inata -elegíti-
ma acode o verdadeiro historiador: longe de se sujeitar a um pa-
pel passivo de registrar mecânicamente os fenômenos históricos,
tem a alta aspiração de "entender" o passado, embora tenha a cons-
ciência de ser muito fragmentário e deficiente o seu "entendimen-
to". Ora, para chegar a uma interpretação satisfatória dos fatos his-
tóricos, vale-se de várias operações sintéticas, aue serão estudadas

(1) . — A importância de estudos analíticos é muitas vêzes subestimada em publica-


ções modernas; compreende-se essa atitude como reação ao culto excessivo das-
fontes na época positivista. Entretanto, prova a experiência que as mais va-
liosas sínteses históricas (não falamos em sínteses de cunho "filosófico" ou "teo-
lógico") foram feitas por aquêles historiadores que não desdenhavam o trabalho.
meticuloso de estudos analíticos.
— 186 ---

nesta parte. Primeiro devemos examinar uma questão preliminar:


a natureza do "fato histórico".
O historiador não tem livre acesso ao "fato histórico" do
passado: na melhor das hipóteses, consegue atingir, mediante a in-
vestigação metódica dos documentos, certos fenômenos exteriores
e observáveis, que poderíamos chamar "fatos materiais". São êstes
gestos e palavras de certos indivíduos do passado, observados e tes-
temunhados por pessoas competentes e fidedignas, os quais podem
ser datados e localizados com grau maior ou menor de exatidão;
às vêzes somos até capazes de descrevê-los bastante minuciosamen-
te com algumas circunstâncias que os acompanharam. Assim te-
mos por exemplo a certeza moral do fato de que, no dia 7 de de-
zembro do ano 43 a. C., certo indivíduo, cidadão romano e chamado
Cícero, foi degolado, na cadeirinha em que era transportado pelos
seus escravos, perto da sua chácara em Gaeta, por certo Herênio,
satélite do triúnviro Antônio (2) . Mas se o historiador prestasse
apenas atenção aos "fartos materiais", sempre exteriores e incoeren•
tes, não chegaria a ver entre êles a continuidade e a unidade, e
muito menos ainda a conexão entre as causas e os efeitos. Tais fa-
tos constituem apenas o esqueleto sem vida, da história, sem carne,
sem sangue. O espírito do historiador deve refletir naquilo que lhe
apresentam, — in casu, indiretamente, — os sentidos e insuflar a
vida a fenômenos exteriores por considerá-los como símbolos de
uma realidade humana: o que lhe importa, é o significado dêsses
símbolos. O gesto material, feito por Herênio, ao degolar Cícero,
— o braço de um indivíduo humano, armado de uma espada, diri-
ge-se contra o pescoço de outro indivíduo humano, — êsse gesto,
-como tal, pouco interessa ao historiador; interessa-lhe sim o gesto
como a expressão visível do ódio tremendo entre dois cidadãos ro-
manos, divididos por motivos pessoais e representantes de duas cor-
rentes políticas diferentes. A morte de Cícero, como "fato históri-
co", não se reduz ao vibrar de uma espada nem ao cessarem as fun-
ções vitãis de um indivíduo: para o historiador é o desfêcho bru-
tal de um drama humano, e um episódio signifiativo das guerras
civis que assolaram a Itália nos últimos anos da República Romana.
O que interessa ao historiador nos "fatos materiais" do
passado, é portanto seu valor simbólico de uma realidade humana,
a qual se subtrai aos sentidos, mas se patenteia ao espírito. Ela,
como tôda a realidade, é uma fonte inesgotável para a inteligên-
cia humana, que nele se vai submergindo cada vez mais a fundo e
lhe descobre constantemente novos aspectos. Conquistas na profun-
didade e conquistas na extensão possibilitam incessantemente no-
(2) . — O fato é testemunhado por Titus Livius (in Ab Urbe Condita, CXX, passo
conservado por Sêneca Rhetor, Suasoria, VI) e por Plutarchus, Vita Ciceronis,
LXXIII-LXXIV.
--- 187 —

vas sínteses . A plenitude ontológica da realidade constitui um mis-


tério, a colocar o espírito humano sempre diante de novos proble-
mas, que nunca serão resolvidos perfeita ou adeqüadamente. Custa
muito ao homem atingir a verdade e, enquanto viver neste mundo,
jamais a possuirá na sua totalidade. Mas pode —, e deve, — apro-
fundar e alargar constantemente seus conhecimentos. L'être des
choses est une aptitude secrète et comrne endormie à être saisies
par l'esprit, et en se faisant mesurer par elles c'est par l'intelligence
elle-même qu'en définitive notre intelligence se fait mesurer, par
l'intelligence en acte pur, par laquelle les choses sont mesurées, et
-de qui elles tiennent leur être et leur intelligibilité (3). Ao inter-
pretar a realidade humana do passado, o historiador não impõe
de maneira subjetiva e autônoma suas idéias, suas normas e sua
interpretação aos fatos históricos, mas antes tem de esforçar-se por
descobrir-lhes a concatenação e o significado na objetividade extra-
mental. O homem não "cria" sua interpretação histórica, — senão
numa acepção derivada e figurada da palavra, — mas, como cria-
tura, tem de tirá-la custosamente da realidade, que existe indepen-
dentemente do seu espírito. Bem sabemos que em tôda e qualquer
interpretação há_ um elemento subjetivo, e um dos principais as-
suntos dos seguintes parágrafos será apontá-lo nas diversas opera-
ções sintéticas. Entretanto, a verdade objetiva é a única norma
ideal de tôdas as reconstruções históricas, e o único critério do seu
valor científico.
III. Ao lidarmos com "fatos históricos", deparamos com cer-
tas dificuldades especiais, desconhecidas do matemático e do físico.
O homem vive no tempo, e o tempo é fator irreversível. A água,
ao ficar exposta por certo tempo a uma temperatura abaixo do
grau zero, transforma-se em gêlo: o fato físico é um conjunto de
fenômenos bem discerníveis e unívocos, tão estreitamente ligados
entre si, que se presta a uma repetição pràticamente idêntica em
qualquer momento. Ora, tais fatos não existem na história: os atos
humanos do passado, que ela estuda, são únicos. Comme il n'y a
pas de matière proprement historique, que l'histoire n'est pas, dé-
finie par un contenu propre mais que tout le passé de l'humanité
appartient à l'histoire, l'histoire doit renoncer à attribuer au fait
historique d'autre spécificité que sa singularité temporelle (4). No
fato físico o tempo é um conceito abstrato e quantitativo; o tempo
histórico, porém, é concreto e qualitativo; o tempo físico compõe-se
de momentos homogêneos, o tempo histórico de situações heterogê-
neas (cf. § 12). Por isso, atos históricos são irrepetíveis. Há mais:„
também o historiador vive no tempo; ao interpretar um conjunto
(3) . — J. Maritain, Distin‘uer pour Unir, ou Les Degrés du Savoir, Paris, Desclée
De Brouwer & Cie, 1935, pág. 211.
(4). — Palavras de R. Mehl, citadas por J. Hours, Valeur de l'Histoire, Paris, Presses
Universitaires, 1954, pág. 54.
— 188 —

de fatos históricos, que se verificou em dada situação do passado,


tem de partir forçosamente de sua própria situação concreta em
dado momento da história. E'-lhe inacessível o fato "puro", desti-
tuído do seu caráter temporal, visto ser o tempo o aspecto sob o
qual estuda seu objeto; e mesmo que o pudesse atingir, jamais se
poderia subtrair a si próprio ao tempo. O teorema de Pitágoras,
por ser urna construção ideal, impõe-se como uma verdade unívoca
a todos os raciocinadores de todos os tempos; a interpretação his-
tórica é sempre condicionada pela situação concreta do historiador.
Eis algumas observações fundamentais, em parte já conheci-
das, que nos parecem úteis como ponto de partida para o estudo
dos assuntos, de que agora nos havemos de ocupar.

§ 63. A Seleção dos Dados e o Questionário do Historiador.


Um pesquisador escolheu certo assunto histórico, digamos, a
abolição da escravatura no Brasil. Consultou, na medida do pos-
sível, os abundantes documentos, examinando-os segundo as normas
da Crítica Histórica; informou-se também da extensa bibliografia
que versa sôbre o assunto. Agora precisa expor os resultados da sua
odisséia através de livros, revistas, jornais, brochuras, cartas, pan-
fletos, etc. Deverá comunicar a seus leitores tudo o que leu, fichou
e elaborou? E' impossível fazê-lo, principalmente quando se trata
de um tema vasto. Aliás, a tal prolixidade opõe-se com muita ra-
zão o bom gôsto: le secret d'ennuyer est celui de tout dire. Mesmo
assim, muitos principiantes acham necessário dizer tudo o que sa-
bem. Como se não fôsse mais importante saber-se tudo o que se
diz!
.1. A Seleção dos Dados.
Ao juízo do historiador maduro impõe-se uma escôlha. Qual
o critério que deve seguir? Não raro o despistam as fontes coevas,
por atribuirem valor demasiado a acontecimentos de somenos im-
portância, e vice-versa. Falta-lhes necessariamente a visão panorâ-
mica dos acontecimentos que presenciam: quase sempre são vítimas
da atualidade. Até as grandes figuras da história se enganaram
muitas vêzes em avaliar seus méritos em relação à posteridade: nas
obras de grandes autores encontramos a êsse respeito alguns equí-
vocos itragicômicos (5). E pior ainda: aos contemporâneos falta
(5) . — Mencionamos aqui alguns casos interessantes. Erasmo, o editor de tantos textos
clássicos e sagrados, não tinha a mínima idéia de que a sua nomeada, em
nossos dias, se basearia principalmente na Laus Sfultitiae, opúsculo êsse que
considerava apenas um lusus ingenii, feito às pressas durante uma viagem
(1509) . — Charles Perrault, autor de obras eruditas e prolixas, hoje só conhe-
cidas de alguns especialistas (cf. § 82 n), vive ainda como pai dos despre-
tenciosos Contes de Ma Mère /'Oye (1691) . E Goethe, o príncipe dos poe-
tas alemães, julgava os seus poemas, entre os quais o drama imortal Faust,
de somenos importância, comparados com o valor que atribuia erradamente à
sua Farbenlehre (—"Tratado sôbre as Côres", terminado em 1810) .
— 189 --

amiúde um quízo sereno, ofuscando-lhes a vista fàcilmente as pai-


xões partidárias e os interêsses pessoais. Além disso, também êles
já fizeram uma escôlha, optando por certos dados que registraram,
e silenciando outros, que julgaram banais ou comprometedores (6).
Qual, então, o critério do historiador? Diz Paul Valéry, numa
das suas invectivas contra a história: Tout le monde consent que
Louis XIV soit mort en 1715. Mais il s'est passé en 1715 une infi-
nité d'autres choses observables, qu'il faudrait une infinité de mota,
de livres, et même de bibliothèques pour conserver à l'état écrit.
II faut dons choisir, c'est-à-dire convenir non seulement de l'exis-
tence, mais encore de l'importance du fait; et cette convention est
capitale (7). Com efeito, no ano 1715 nasceram e morreram mi-
lhares de franceses, que a historiografia deixa em profundo silên-
cio, bem como inúmeros atos heróicos, tolos e criminosos que, no
mesmo ano, foram cometidos por outros milhares de franceses no
seu caminho entre o berço e o sepulcro. Contudo, o historiador, ao
descrever os acontecimentos do ano 1715 na França, tem seus bons
motivos de prestar atenção à morte de Luís XIV, e de preterir a
morte de tantos outros franceses, Mesmo que esteja bem documen-
tada. Pois o falecimento do monarca teve uma repercussão bem
observável em numerosos outros acontecimentos, igualmente veri-
ficáveis, alguns dos quais chegaram a influenciar, direta ou indi-
retamente, a vida de milhões de pessoas; ao passo que a morte de
um cidadão obscuro, — digamos, M. Jourdain, — exerceu pouca
influência observável Eôbre o destino de uma grande coletividade.
Nosso M. Jourdain será ressuscitado pelos historiadores apenas se
um dos seus descendentes se revelar um dia um grande estadista,
fil&ofo, poeta ou artista: mas mesmo assim, he will be reduced to
a footnote, como dizem os inglêses. O tamanho da repercussão que
teve certo fato histórico em acontecimentos posteriores, é um cri-
tério saliente. Mas será sempre também um critério seguro? Um
espírito crítico sabe que as aparências enganam, podendo ter as
suas dúvidas acêrca de normas quantitativas, quando se trata de
atos humanos. Quem me garante que as fontes contemporâneas e
uma historiografia rotineira não tenham exagerado a importância
da morte de Luís XIV? No ano 1715 podem ter acontecido fatos
muito menos espetaculares, mas muito mais decisivos para os des-
tinos do povo francês. A importância da morte do Roi-Soleil deve
ser reconduzida a suas justas proporções.
Mas as justas proporções onde é que as posso encontrar? Não
mas revela o estudo meramente fenomenológico dos fatos históri-

(6) . — Dos hindus, pouco interessados nos fenômenos passageiros e enganadores dêste
mundo visível, conhecemos melhor a história da filosofia do que a história
política. Como é diferente o interêsse do mundo clássico!
(7). — P. Valéry, Variété IV, Paris, Gallimard, 1947, pág. 132.
— 190 —

cos, pois os fatos "materiais" em si não me fazem desvendar a sua


importância. "Fatos materiais" são símbolos de uma realidade hu-
mana, e esta se esquiva a uma observação direta. E'-me possível
fazer uma escôlha entre os fatos somente em virtude de uma re-
flexão, que transcenda a simples observação dos sentidos. Ora, es-
sa reflexão, apesar de conter elementos subjetivas e ainda que seja
condicionada pela situação histórica do historiador, não é inteira-
mente subjetiva ou arbitrária, mas deriva, em última análise, de
uma filosofia dos valores. Em virtude de uma filosofia dos valores,.
o historiador opta, — às vêzes, inconscientemente, — por certos
dados, e condena outros ao esquecimento. No Capítulo Terceiro
tornaremos a falar nos valores.
Sem dúvida, existem algumas normas práticas e convencionais
de selecionar os fatos históricos. Em primeiro lugar, há um certo
consensus peritorum, — o resultado de intensos estudos históricos,,
— a respeito da conveniência, ou inconveniência, de se mencionar
certa espécie de fatos em certo tipo de trabalho; para dêle se afas-
tar, o principiante precisa ter motivos muito sérios. Em segundo
lugar, a escôlha dos dados depende evidentemente do caráter do tra-
balho que se pretende publicar: destina-se a um pequeno grupo de.
especialistas, ou se dirige a um público maior? E' uma monografia,
ou uma obra geral? E, sendo uma monografia, possui caráter sintético
e literário, ou técnico e documentário? Das respostas, dadas a es-
sas e semelhantes perguntas, depende, em boa parte, a solução prá-
tica do problema.
Mas mesmo dentro dêsses limites continua a existir a livre op-
ção do historiador. Pouco adianta dizermos que deve escolher os
fatos notáveis e importantes, pois, na fundo, é êle próprio que de-
cide da questão se êste ou aquêle fato merece ser mencionado ou
não. Muito dificilmente poderá renunciar às suas predileções pes-
soais ou às preocupações do seu tempo. De modo geral podemos
dizer que não há fato nenhum que, de antemão, deva ser excluído
de um trabalho histórico. Todo e qualquer detalhe, por mais in-
significante que pareça, pode-se tornar importante, desde que o his-
toriador lhe dê um sentido na sua síntese, isto é, o trate como um
elemento significativo de um conjunto compreensível. No dizer de
Burckhardt (8), é bem possível que uma futura geração descubra
uma frase de valor em Tucídides, a qual até agora passou desper-
cebida aos historiadores.
Há mais: a seleção dos fatos traz muitas vêzes consigo uma
decisão de ordem moral. Nada mais sedutor do que deixar de lado
os fatos incómodos e embaraçados do passado. A arte de omitir é-
uma escola de famosas mentiras. Os protestantes escreveram, no
(8) . — J. Burckhardt, Weltgeschichtliche Betrachtungen, Alfred Kriiner Verlag, Stutt--
gart, 1949, págs. 21-22.
-191—

passado, com preferência bem visível Ia chronique scandaleusé do


Vaticano; os católicos, embaraçados pelos crimes da Inquisição,
guardaram freqüentemente um silêncio culpável sôbre os indignos
atos, praticados por seus correligionários. Tal atitude convém pouco
ao historiador: o que lhe importa, é a verdade, seja agradável, seja
desagradável. Uma das suas virtudes principais é a isenção de âni-
mo, que consiste em querer tomar conhecimento de todos os do-
cumentos relativos a um determinado assunto, e das diversas opi-
niões que a êsse respeito foram emitidas. Omnia probate, quod
bonum est tenete, diz o Apóstolo (9) . Nem sempre tem má fé
nosso adversário; nem sempre é honesto nosso amigo. Talvez haja
fatos históricos, contrários a nossos desejos: por isso não são menos
reais ou verdadeiros. O historiador deve testemunhar da verdade
sem que a identifique com seus interêsses pessoais ou seus desejos
tardios. Um espírito aberto, ao contrário do que se pensa muitas
vêzes, não é fruto de relaxamento ou indiferentismo, mas o resul-
tado de um intenso esfôrço intelectual e de uma grande probidade
moral. Custa sacrifícios e, por vêzes, atos de abnegação heróica.
II. O Questionário do Historiador.
Já vimos (cf. § 16 VII) que a interpretação dos atos humanos
deve seu valor à experiência refletida de quem interpreta. Ora, a
experiência coletiva de uma geração não pouco influi na posição
do historiador ante os fatos do passado.
A experiência coletiva de uma geração, a qual, anàlogamente
à experiência individual de uma pessoa, tem sempre algo de par-
ticular (cf. § 13 II), faz com que cada época se dirija a Clio com
suas próprias perguntas e preocupações. O pensamento teocêntrico
da Idade Média considerava a história como a ilustração concreta
da onipresente Divina Providência, que seria apontável em todos
os acontecimentos particulares. Períodos chamados otimistas, co-
mo o século XIX, interessavam-se sobremaneira pelos fatôres his-
tóricos que concorreram visivelmente para o progresso social e cul-
tural da humanidade. Os tempos modernos, ameaçados que se
vêem por tantos perigos iminentes, estudam com certa predileção
o fenômeno da decadência, querendo-nos mostrar a fatalidade de
um cataclismo universal, ou então, procurando-nos ensinar de que
modo podemos evitá-lo. A história é filha de seu tempo, e todos
os seus esforços de dissimular tal dependência são vãos. Obrigada
a servir-se de testemunhos alheios, torna-se ela própria um teste-
munho das aspirações e das preocupações do episódio histórico a
que pertence. E' instrutivo o exemplo de como Demóstenes era
apreciado nos tempos modernos: celebravam-no os alemães, quando
das invasões napoleônicas, como o herói corajoso da liberdade na-

(9) . — São Paulo, Primeira Epístola aos Tesselonicenses, V, 21.


— 192 ---

cional; na mesma Alemanha, depois de 1871, o mesmo Demóstenes


era denunciado como um politiqueiro vulgar e mesquinho e como
um rábula desprezível e subornável, grande obstáculo à unidade
nacional do povo grego, à qual o clarividente Isócrates não se can-
sava de apregoar; o orador ateniense tornou a ser representado co-
mo le bon soldat de sa patrie, le combattant de la plus belle cause
por Clérnenceau. Eis Demóstenes, — e êle não é o único exemplo
que poderíamos alegar! — transformado num peão no xadrez das
ideologias modernas.
Por mais lastimável que seja a degradação de um persona-
gem histórico a um joguete nas batalhas ideológicas de hoje, o
certo é que não se deixa eliminar por completo a situação do his-
toriador no tempo, tratando-se de apreciar os fatos do passado. E
isso não só ao apreciá-los, mas também ao examiná-los e ao elabo-
rá-los. Tôda e qualquer conquista do espírito humano no campo
político, social, econômcio, artístico ou científico, seja em profundi-
dade, seja em extensão, traz inevitàvelmente consigo sua repercus-
são na maneira de escolher, elaborar e interpretar os dados histó-
ricos. Ao que parece, envelhece logo a historiografia de gerações
anteriores diante de novas realizações e experiências, e precisa re-
juvenescer-se constantemente. Assim revolucionaram a interpre-
tação histórica certas ciências relativamente recentes: a economia,
a sociologia, e a psicologia experimental. Propuseram-lhe novos
problemas, mostraram-lhe outros aspectos de fatos já conhecidos,
proporcionaram-lhe métodos diferentes; infelizmente, ameaçaram-
lhe, às vêzes, também tirar a vida, tentando absorvê-la por comple-
to (10) . Cada época tem de reescrever a história, sendo impossí-
vel um resultado definitivo ou uma síntese final, a ilusão da escola
nacionalista. Já dizia Goethe: "Ninguém pode duvidar, em nossos
dias, de que a história deve ser reescrita de vez em quando: não
só descobrimos documentos novos, mas como filhos do tempo que
nunca pára, precisamos em cada período de um novo ponto de vis-
ta, partindo do qual possamos contemplar e julgar o passado"
(11). Com efeito, cada geração precisa dar contas da sua situação
histórica, reencetando continuamente o diálogo com o passado. A
história segue o caminho do homem individual: aprende a cada
passo.
+(10) . — Por exemplo, o materialismo histórico reduz a história ao estudo dos fatôres
econômicos do passado; o freucUsmo procura a ultima ratio dos atos humanos
nos instintos e na libido; certa escola sociológica chega a negar a unicidade
dos fatos históricos.
(11) . — Tradução um tanto livre das palavras de Goethe, na sua obra: Materialien zur
Geschichte der Farbenlehre (in Werke, XL, pág. 200), onde lemos: "Dass die
Weltgeschichte von Zeit zu Zeit umgeschr:eben werden müsse, darüber ist in
unseren Tagen wohl kein Zweifel übrig geblieben. Eine solche Notwendigkeit
entsteht aber nicht etwa daher, weil viel Geschehenes nachentdeckt worden,
sondem weil neue Ansichten gegeben werden, weil der Genosse einer fortschrei-
tenden Zeit auf Standpunkte geführt wird , vc,n welchen sich das Vergangene auf
eine neue Weise überschauen und beurteilen lãsst".
--- 193 —

A historiografia anterior ao século passado não considerava a,


vida econômica como fator sui generis, mas simplesmente como
um aspecto da política ou da moral. Hoje é impossível estudar
por exemplo as causas do declínio do Império Romano sem levar
em consideração os dados fornecidos pela economia: nem sempre
,

chegam êstes a aniquilar as teorias de outrora, mas muitas vazes


enriquecem ou completam as explicações antigas. Do mesmo modo
a biografia moderna tem-se aproveitado largamente das descober-
tas da psicanálise: um autor de hoje faz muitas perguntas ao seu
"herói" que seriam inconcebíveis no século passado. E o questioná-
rio de um historiador do século XXV será certamente muito di-
ferente do atual.
A circunstância de ser condicionado o questionário do histo-
riador pela situação histórica, induziu alguns a dizer que não com-
preendemos o presente pelo passado, mas, ao contrário, o passado
pelo presente. Entendamos bem essas palavras. Nossa interpreta-
ção dos fatos históricos não é única ou completamente determinada
por nossa situação no tempo: seria um historicismo sem saída. A
frase deve significar que nosso espírito, — criado, limitado e viven-
do no tempo, — não consegue possuir a verdade na sua plenitude,
mas dela só participa de maneira imperfeita visto que a verdade se
lhe mostra no tempo. E' impossível cumprir-se a ordem de Féne-
lon: Le bon historiem n'est d'aucun tempo ni d'aucun pays" (12) .
Tal atitude "meta-histórica" não existe neste mundo.
-

§ 64. Completando a Documentação.

Não raro acontece que o historiador, sobretudo ao estudar os


fatos de um passado remoto, onde são escassas as fontes de infor-
mação, se vê obrigado a formular hipóteses. A hipótese na histó-
ria é uma exposição, ou explicação, provisória de fatos insuficiente-
mente abonados pelos documentos ainda existentes. Jamais pode
contrariar os fatos seguramente documentados: antes tem de arde-
ná-los e harmonizá-los a fim de que se nos tornem compreensíveis
na sua sucessão e conexão. Graças a hipóteses históricas, conhece-
mos agora alguns aspectos de certos acontecimentos do passado (por
exemplo, a fundação da Cidade de Roma) que tiveram uma do-
•cumentação errônea ou contraditória nas fontes. Se não podemos
dizer com certeza em que ano, por que povo e em que circunstân-
cias particulares Roma foi fundada, sabemos, ao menos, melhor do
que Tito-Lívio, a situação histórica em que se achava Lácio quando
ia nascendo a povoação tiberina: mediante ilações, comparações e
combinações podemos chegar a uma reconstrução não pormenori-

- Fénelon, Lettre à l'Acedémie, Chapitre VIII.


— 194 —

nada, mas muito provável nas linhas gerais, de certos fatos histó-
ricos mal documentados, — reconstrução essa que, em alguns casos,
confina com a certeza. Tampouco é pura fantasia a hipótese na
história como o é em outras disciplinas: apesar dos seus elementos
subjetivos pode ser considerada como o prolongamento das regras
e dos métodos da Crítica Histórica, a basear-se no bom senso e a
lidar com argumentos que se prestam a uma apreciação objetiva.
No mais das vêzes, não deve sua existência a um raciocínio discur-
sivo, ainda que êste a siga geralmente, mas é produto quase espon-
tâneo de certa intuição, — um pressentimento vago, — que só de-
pois vai procurando uma justificação metódica. Não raro acontece
que uma hipótese é confirmada por descobertas posteriores. E' o
privilégio dos grandes historiadores formular grandes hipóteses:
abrem elas novos horizontes, estimulam outros a investigarem a mes-
ma matéria, provocam protestos de adesão ou de reprovação. Em
uma palavra, são elas que fazem progredir a ciência histórica. Dis-
se um poeta alemão: "As construções dos reis dão muito trabalho
aos operários" (13) . Com efeito, os reis entre os historiadores: um
Mommsen, um Taine, um Alexandre Herculano, fecundaram a his-
tória não apenas com suas análises penetrantes ou com sua erudi-
ção extraordinária, nem sequer com seus métodos aprimorados, mas
também com suas hipóteses, algumas das quais se tornaram o ob-
jeto de muitos anos de discussões e estudos. Longe de serem in-
falíveis, mas sempre luminosas, constituem uma nova tentativa, ade-
qüada às exigências da época, de compreender uma certa série de
acontecimentos históricos. Amiúde precisam ser modificadas ou cor-
rigidas, às vêzes até são abandonadas, mas quase nunca sem adian-
tarem a ciência . Uma grande hipótese, ainda que superada por no-
vas descobertas ou novas pesquisas, deixa seus vestígios em sínteses.
posteriores, sendo que a ciência nunca regressa por completo a uma
fase anterior: neste ponto a história não é diferente das outras dis-
ciplinas.
Distinguimos aqui entre duas espécies de raciocínio: o negativo
e o positivo, para depois falarmos da imaginação .

I. O Raciocínio Negativo.

O raciocínio negativo é o chamado argumentum ex silentio, ,

quer dizer: deduz-se do silêncio dos documentos a inexistência de '

certo fato ou instituição. E' um argumento delicado, que deve ser


manejado com muitíssima prudência. Pois perdeu-se a grande maio-
ria dos documentos, principalmente os relativos a tempos muito
longínquos: à medida que se tornarem mais abundantes as fontes,,
<13) . — F. Von Schiller: "Wena die Kiiaige bramo, bebeu die Kãrrner zu tun",
Kant und reine Ausleáer.
— 195 —

poderemos servir-nos dêste argumento com mais segurança, e vice-


versa. Outrossim, muitos fatos do passado eram julgados tão ba-
nais, tão corriqueiros ou tão evidentes pelos contemporâneos que
não lhes pareciam merecer a honra de uma menção especial: não
percamos de vista que a maior parte dos documentos históricos não
foi feita com o fim de satisfazer à curiosidade de um historiador do
século XX. Os antigos quase nunca falam da vida infantil, da mo-
da feminina, da opressão econômica dos pobres: deduzir dêsse si-
lêncio a ausência de brinquedos, de costureiras e de injustiças so-
ciais seria àbviamente uma conclusão errônea. Mas, quando a lite-
ratura de uma época copiosamente documentada, por exemplo a da
época vitoriana na Inglaterra, é geralmente livre de passagens es-
cabrosas e libertinas, em oposição á literatura coeva da França, o
silêncio é significativo: explica-se certamente, não pelo fato de não
haver existido a libertinagem na Inglaterra durante a segunda me-
tade do século XIX, mas pela circunstância de aí não ter sido tole-
rada públicamente. A literatura oficializada do século corrente veio
a patentear a latente do século passado. Concluimos estas obser-
vações com as palavras de Langlois e Seignobos: "O raciocínio ne-
gativo acha-se assim limitado a casos nitidamente definidos: 1) O
autor do documento em que o fato não está mencionado pretendia
sistemàticamente notar todos os fatos desta espécie e devia conhe-
cer a totalidade de (tais fatos. 2) O fato, na hipótese de existir, se
impunha à imaginação do autor de modo a entrar forçosamente em
suas concepções" (14) .

II. O Raciocínio Positivo.

O raciocínio positivo é geralmente uma ilação por analogia,


quer dizer: da existência de uma fato documentado inferimos a
existência de outro fato não documentado por existir uma relação,
se não constante, ao menos comum, entre duas espécies de fatos.
Aqui se torna necessária mais uma distinção: empregamos o racio-
cínio no terreno dos motivos humanos, e no terreno dos fatos ex-
teriores.

a) Os Motivos Humanos.

O raciocínio por analogia permite-nos entrar, embora de modo


deficiente, nos motivos das figuras históricas, os quais muitas vêzes
são calados, dissimulados ou desfigurados pelos documentos. Seu
valor reside, em última análise, no fato de possuirem todos os atos
humanos um centro comum: o homem, que é essencialmente igual a

(14) . — Langlois-Seignobos, Introdução, etc . (trad. port.), pág. 180.


— 196 —

despeito das numerosas diferenças acidentais que tem manifestado


através dos séculos. Mas visto serem livres os atos humanos, as re-
lações entre êles não são constantes nem necessárias. Antes, são
certas regras de comportamento que a existência refletida nos faz
observar em nós próprios e em outros: sempre admitem exceções.
Mas, cumpridas certas condições, essa experiência refletida nos po-
de levar à certeza moral (15).
Não procuremos eliminar o mistério. Os grandes conhecedores
do coração humano sabem que nada há de mais complexo do que a
"motivação", e a psicologia moderna vem confirmando essa intuição
pré-científica. Instintos, afetos, paixões, hábitos, fatôres educacio-
nais e sociais, a inteligência e ,a vontade concorrem, cada qual à
sua maneira, para se efetuar um motivo humano. Quem pretende
reduzir a "motivação" a um esquema simplificador, dá provas de
não entender nada da realidade humana.
There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your "psychology" (16) .

Não convém entrarmos aqui em discussões psicológicas e filo-


sóficas; basta dizermos que o conhecimento intuitivo e pré-cientí-
fico, do homem, por mais indispensável que seja, pode, — e deve,
— ser aprofundado e alargado por estudos metódicos de psicolo-
gia, importantes para todo e qualquer historiador, mas principalmen-
te para um futuro biógrafo.

b) Os Fatos Exteriores.

Tucídides foi o primeiro a servir-se da ilação para estabelecer


alguns fatos mal ou não documentados da pré-história grega (I 2-
20): neste ponto lhe igualaram poucos historiadores até o século
XIX. Foi só nos tempos modernos que a historiografia reencetou
o método, aperfeiçoando-o e aplicando-o em escala maior. Hoje em
dia é operação bastante comum, a contribuir consideràvelmente pa-
ra o enriquecimento dos nossos conhecimentos históricos. Tem sido
abusada também: uma vez destruída a fé na tradição escrita, des-
figurada por tantos elementos lendários, é muito natural os histo-
riadores irem experimentar sem necessidade as suas próprias fôrças,
chegando a emitir hipóteses com certa leviandade.
Damos aqui alguns exemplos ilustrativos da ilação histórica.
A língua, para a qual aponta o nome de uma cidade, é geral-
mente a mesma que a do povo que fundou a cidade. No Brasil por
exemplo é fácil distinguir entre as povoações originàriamente indí-

— Cf. & 15 I; 16 V a.
— W. Shakespeare, Hamlet, Act I, Scene 5. — O poeta diz: "philosophy", e não
"psychology".
— 197 —

cenas (Piracicaba, Mogi Guaçú, etc.), e as fundações portuguêsas


(Rio de Janeiro, Baía de Todos os Santos, etc.) . Aplicando esta
regra a períodos pouco documentados, chegamos à conclusão, — em
alguns casos, confirmada por descobertas arqueológicas, — de que
as cidades gregas, cujos nomes terminam em -nthos (por exemplo,
Kórinthos) e em -ssos (por exemplo, Halikarnassós), devem ter si-
do fundadas por um povo pré-helênico (17), visto que êsses sufixos
são pré-helênicos. Mediante a "toponímia" procura-se estabelecer
também até que ponto os francos conseguiram colonizar e germani-
zar a Gália romana no limiar da Idade Média: muitas cidades da
França setentrional e central (até o Loire) têm nome de origem
germânica, por exemplo: Cambrai (=Kamerrijk), Dunkerque (=
Duinkerken), e Boulogne (=Boonen). Mas os nomes afrancesa-
dos dessas povoações francas provam que a população romanizada
da Gália conseguiu reconquistar — culturalmente falando — quase
todo o território perdido. A relação que existe entre o nome de
uma cidade e o povo que a fundou, não é, porém, constante ou ne-
cessária. Quantos nomes gregos de cidades americanas, que nunca
foram fundadas pelos gregos, por exemplo Philadelphia, Phoenix,
Alexandria, Ithaca, etc.! Brooklyn, atualmente um subúrbio de No-
va Iorque, foi fundada, em 1638, por emigrantes holandeses, pro-
venientes da aldeia de Breukelen, perto de Utrecht: Brooklin
Paulista é nome importado, talvez por sentir-se São Paulo a Nova
Iorque da América Latina. Citamos mais uma vez Langlcis e
Seignobos: "Não basta um sintoma para fazer um diagnóstico, mas
muitos dêles são necessários. A precaução deve consistir em evitar
o estudo de um fato isolado, ou de um fato abstrato. Os homens
devem ser considerados em relação às principais condições de suas
vidas" (18) .
Outro método de inferir fatos não documentados é •aplicado às
chamadas instituições cristalizadas ou petrificadas. Ao encontrar-
mos antigas formas históricas, transmitidas de geração a geração,
as quais, na época em que se nos apresentam documentadas, já não
possuem significado, podemos fazer esta pergunta: qual deve ter
sido a situação anterior à situação documentada e bem conhecida,
se para esta pôde evolver aquela? Êste raciocínio, usadíssimo na et-
nologia e em outras disciplinas auxiliares, parte da consideração
de ser inadmissível que tais instituições não tenham sido signifi-
cativas numa época anterior à documentação disponível. Sabemos
com certeza que o regime político de Atenas foi originàriamente a
monarquia, a qual, através de um govêrno aristocrático (séculos
VIII-VI), passou para a democracia (séculos VI-IV) . Nos tempos
primitivos, o reu era sacerdote, juiz e general. Ora, na época da

. — Os chamados "pelasgos", cf. § 60 V, nota 128.


. — Langlois-Seignobos, Introdução, etc. (trad. port.), pág. 183.
— 198 —

democracia radical encontramos entre os nove arcontes (19) três


com um nome especial bastante significativo: o basiléus (=rei; fa-
zia êle os sacrifícios públicos), o epónymos (=que emprestava seu
nome ao ano; era êle o juiz), e o polémarchos (=general). No sé-
culo V só os apelidos lembravam os cargos antigos, os quais no sé-
culo anterior ainda eram efetivos. Essa observação torna muito pro-
vável a hipótese de ter sido desmembrada, aos poucos, a dignida-
de do rei ateniense em três magistraturas aristocráticas, sem que
houvesse uma ruptura abrupta ou radical com o passado (talvez
no século VIII). Para êsse fato apontam, aliás, também outros .
indícios, e de tal desmembramento pacífico da realeza conhecemos
alguns paralelos na história antiga.

III. A Imaginação.

E a imaginação do historiador, até que ponto pode entrar na


exposição ordenada dos fatos? Evidentemente não a imaginação li-
vre, ou a fantasia: um autor não tem a liberdade de fazer morrer
Cícero no seu palacete em Roma, ou de prolongar-lhe a vida até o
Principado de Augusto. Os fatos são irrevogáveis, e devem ser res-
peitados incondicionalmente. Mas o historiador pode, sempre com
a devida moderação, acrescentar-lhes certos pormenores, preteridos
pelos documentos, baseando-se num raciocínio por analogia. Co-
munica-nos um cronista (20) que, no ano 500, Teoderico, o rei dos
ostrogodos, visitou a cidade de Roma. Ao narrar e comentar êsse
fato, o historiador não precisa evitar descrever os sentimentos con-
traditórios que o rei "bárbaro" pode ter tido, quando via os esplen-
dores da Cidade Eterna: sentimentos de orgulho, e sentimentos de
inferioridade. O historiador pode dar também uma descrição mais
ou menos pormenorizada dos palácios, templos e aquedutos de Ro-
ma, evocando certas imagens do passado, e pode tentar esclarecer-
nos a impressão que a vista dessas coisas teve no espírito de Teo-
derico. Não se escrevem certas páginas da história sem a ajuda da
imaginação. Mas é grande o perigo de se usarem excessivamente
meios literários em discrições históricas. Os grandes historiadores
sabem moderar sua imaginação, e fazendo uso dela, não deixam des-
prevenidos seus leitores. A imaginação na historiografia é limita-
da por uma obediência absoluta aos fatos, disciplinada por um mé-
todo científico, e alimentada por uma grande erudição. Caso con-
trário, a exposição histórica faria concorrência ilegítima às obras li-
terárias de livre ficção.

— Na época da democracia radical, os nove arcontes já não eram eleitos ou no-


meados, mas sorteados entre os cidadãos das três classes superiores( desde 457
a. C.). O cargo perdera tôda a sua importância efetiva.
(20). — Anonymus Valesianus, 65-67; cf. Cassiodorus, Chronicon, ad annum 500, e
Ferrandus, Vita Fulgentii, IX.
CAPÍTULO SEGUNDO

CONCEITOS HISTÓRICOS

§ 65. O novo senso histórico.

Tôda e qualquer disciplina possui certos conceitos próprios, cuja


existência e função decorrem da natureza dos objetos por ela estuda-
dos e dos métodos por ela empregados. Corresponde-lhes, em ge-
ral, só imperfeitamente uma terminologia própria. Por exemplo,
o têrmo "analogia" terá significado diferente, conforme fôr usado
por um biólogo, lingüísta ou filósofo; uma "causa" histórica difere
bastante de uma causa física ou metafísica, e assim por diante .
As palavras podem ser as mesmas; os conceitos, isto é, as reali-
dades indicadas pelas palavras, são raras vêzes idênticos. Assim
como é ilegal transferir os métodos de uma ciência para outra, as-.
sim é ilícita a transferência irrefletida de um conceito, peculiar a
certa disciplina, para outro campo de investigação científica. Quais
são os principais conceitos de que se serve o historiador? Ao tra-
tarmos desta questão, poderemos referir-nos, de vez em quando, a
assuntos já estudados na primeira parte dêste livro.

I. A Tipologia Histórica (1) .

Os atos humanos são concretos e individuais: de fato, são sem-


pre os indivíduos que sentem, pensam, agem e sofrem, não as cole-
tividades. Contudo, o historiador pode reunir certos grupos de pes-
soas, instituições, tendências políticas e culturais, etc. sob um deno-
minador comum, por exemplo: o feudalismo medieval, a Prússia mi-
litarista, o liberalismo, a democracia, etc. Como já explicamos, não
são abstrações no sentido próprio da palavra, mas conceitos "cole-
tivos", a ocuparem uma posição intermediária entre conceitos abstra-
tos e singulares: nunca perdem seu caráter concreto e individual.
Visto ser inexprimível o indivíduo como tal, tais conceitos não se
prestam a uma definição exata e exaustiva. São aproximações sin-
téticas, tentativas necessárias mas sempre um tanto precárias, do
espírito humano para abranger, numa única fórmula, a riqueza cor,-

(1) . -- Cf. $ 13 II; $ 16 VII; $ 17 II. — Veja também Dr. René Voggensperger,
Der Begriff der Geschichte ale Wissenscheft im Lichte aristotelisch-thomistischer
Prinzipien, Paulusverlag, Freiburg in der Schweiz, 1948, págs. 41-49.
— 200 —

creta da realidade histórica. As tipologias desempenham papel de


suma importância na historiografia moderna. Mediante elas pro-
curamos "entender" os fenômenos do passado na sua unicidade: pois
o individual é-nos apenas conhecido intelectualmente pelo cami-
nho de conceitos gerais (universais e coletivos). Constituem por
exemplo a base das diversas periodizações e das várias divisões da,
matéria histórica, que já estudamos nos §§ 20-30.

II. Culturas ou Civilizações (2) .

O historiador, ao criar tipologias, pode abranger grupos cada


vez mais compreensivos: uma das últimas fases da síntese histórica
é a noção de "culturas" ou "civilizações". Assim falamos na civi-
lização chinesa ou egípcia, na cultura grega ou medieval, etc. Toyn-
bee chama-as: intelligible fields of study ou indivisible wholes (3) .
E' impossível estudarmos a fundo a história do Brasil sem conhe-
cermos as múltiplas relações, que, no tempo e no espaço, ligam a
unidade histórica "Brasil" a outras unidades históricas, por exemplo
Portugal e os Estados Unidos da América do Norte. Mas também
estas não são indivisible wholes, mas parcelas sincrônicas de um
conjunto muito maior: "a cultura ocidental", a qual, por sua vez,
deve muitas das suas características à "cultura clássica" dos gregos
e dos romanos. Ao que parece, não há motivo imperioso para que
paremos aqui e não ultrapassemos as fronteiras da "cultura grega",,
pois todo o• mundo sabe que ela, em muitos pontos, é tributária de
várias "culturas ocidentais". Contudo diz Toynbee: While the con
tinuity between the histories of one society (=cultura) and ano-
ther is very much slighter than the continuity,between different chap-.
ters in the history of any single society (indeed, so much slighter
as virtually to differ in kind), yet in the Time-relation between
two particular societies of different age — namely the Western•
and the Hellenic — we have observed features which we may des-
cribe metaphorically as "apparentation" and "affiliation" (4) .
Apresenta-se-nos aqui uma dificuldade inerente a tôdas as tipo-
logias históricas: não podemos demarcar as diversas unidades com
exatidão, porque há coincidências, interdependências e interpene-
trações (cf. § 19) . Assim mesmo, o conceito de "culturas" ou "civi-
lizações" pode-nos prestar serviços valiosos por nos dar uma visão ,
panorâmica de unidades históricas de maior extensão do que as que
são formadas por tribos, povos, nações e Estados. São estas partes
de um conjunto maior, ligadas entre si por certas formas coletivas
de vida, nas quais se integram a aparelhagem técnica, os costumes

(2) . — Empregamos aqui os dois fel-mos indistintamente, cf. § 29 V.


— Amold Toynbee, A Study of History, I págs. 17-50.
— Ibidem, págs. 45-46.
— 201 —

e as instituições sociais, como também os valores culturais e espiri-


tuais. Os Racionalistas tinham a ilusão de uma só cultura mun-
dial, a qual geralmente identificavam com a cultura ocidental: os
tempos modernos descobriram as feições peculiares a certas cultu-
ras mais ou menos autônomas. De um lado existe o perigo de não
se dar a devida importância à existência de profundas diferenças
mentais e irracionais entre as culturas particulares; por outro lado,
percebemos a tendência exagerada de se considerarem as grandes
civilizações como unidades hermeticamente fechadas (por exemplo,
Spengler!). Nas duas hipóteses é impossível uma interpenetração
mútua como também um estudo comparativo. Mas, na realidade,
tôdas as culturas são expressões do homem, — espírito encarnado,
— essencialmente igual através de todos os séculos e em tôdas as
regiões. Tôda e qualquer civilização é, em última análise, uma
tentativa de dar uma resposta concreta ao eterno problema huma-
no: "Que é o homem? De onde vem, e para onde vai?"

III. Organismos.

A questão anterior leva-nos espontâneamente a outro proble-


ma: as grandes unidades históricas podem ser consideradas como--
organismos? e, sendo afirmativa a resposta, em que sentido?
O organismo, estudado pelo biólogo, é um conjunto de órgãos
que constituem um ser vivo. Logo se vê que o têrmo, aplicado a
unidades históricas (5), não passa de uma metáfora. Uma "cultu-
ra" e outras coletividades históricas não possuem a perseidade, isto-
é: não existem de per si, como os organismos naturais. Os mem-
bros ou órgãos dêstes não são livres em fazer parte, ou não, de um
conjunto: mas a pessoa humana é muito mais do que simples parte
de um organismo. Ao ser incorporada numa sociedade, pode dizer
livremente "sim" ou "não". A palavra "organismo", aplicada às.
grandes entidades coletivas da história, deve significar o conjunto
das numerosíssimas e variadíssimas interrelações que existem entre
as diversas atividades dos seus membros constitutivos, a manifes-
tar-se no setor técnico e econômicci, na vida política e social, nas
ciências, artes e religião. As "culturas", de que nos fala a história,.
não são aglomerações de átomos humanos, arbitràriamente compos-
tas em virtude de um pacto puramente racional e arbitràriamente,
dissolúvel; tampouco são construções mecânicas, realizadas por f a-
tôres exteriores. São expressões do homem inteiro, que é animal_
racional. Anima forma corporis, dizem os escolásticos: a alma e o
corpo constituem uma unidade substancial. E o mundo histórico,.

(5) . — A idéia remonta ao filósofo alemão Herder, como havemos de ver no 92;
mas a aplicação conseqüente do princípio foi feita, pela primeira vez, pelo his-
toriador dinamarquês Nils Treschkow (1751-1833) no livro: "Princípios da:
Filosofia da História" (1811), obra que nos é inacessível.
— 202 —

ao qual pertencem as "culturas", reflete fielmente a natureza com-


plexa do seu criador. Quem elimina um dos dois elementos, enca-
rando só o aspecto espiritual, ou então só o aspecto material, mutila
a realidade, privando-se de um conhecimento real do homem e da
história. Nossa inteligência limitada não abrange os diversos ele-
mentos na sua totalidade, mas tem de fazer distinções: não os pode
separar, porém, na realidade. Feitas essas ressalvas, podemos dizer
com Christopher Dawson a respeito de uma "cultura" histórica: It
,

is a living whole, from its roots in the soil and in the simple instinc-
tive life of the shepherd, the fisherman, and the husbandman, up
to its fllowering irr the highest achievaments of the artist and the
philosopher; just as the individual combines in the substantial unity
of his personality the animal life of nutrition and reproductieo with
the higher activities of reason and intellect (6) .

IV. Evolução.

Desde a época do Romantismo a palavra "organismo" veio a


ser combinada com outra palavra, igualmente de origem biológica:
`evolução". Sob a influência das teorias de Spencer e Darwin o
conceito ficou, também na historiografia, com um cunho "científi-
,

co", e hoje em dia "evolução" é um têrmo corriqueiro e encontra-


diço em quase tôdas as publicações históricas. Entretanto, pode ser
útil examinarmos de mais perto o significado e o alcance desta pa-
lavra mágica na historiografia.
O biólogo conhece as tendências, — digamos com os tomistas,
'"a potência", — de certa muda para se desenvolver no sentido de
um determinado organismo. Influências externas podem estorvar
43 processo de desenvolvimento normal: isso nada interessa ao bió-
logo, que sempre conta com o "caso normal", bem conhecido e veri-
ficável. Mas qual é o "caso normal" para o historiador? Que a de-
mocracia resulta em anarquia, ditadura ou monarquia? Que a mo-
.narquia resulta em aristocracia ou tirania? (7). A história dá exem-
plos abundantes de todos êsses casos. O "caso normal", estudado
pela biologia, é o produto de certas tendências internas da planta,
e de certas influências externas, supostamente constantes: por isso
mesmo é uma abstração. Mas o têrmo "caso" tem pouco cabimen-
to na historiografia. O que interessa ao historiador, é o caráter con-
creto e singular das influências externas sôbre os fenômenos histó-
ricos, a saber as livres decisões do homem e o "acaso". Não nos é
possível prever o desenvolvimento futuro de dada situação histó-
rica; só a posteriori podemos verificar se esta ou aquela tendêndia
(6) . — Christopher Dawson, Progress and Religion, London, Sheed & Ward, 1938,
pág. 48.
<7) . — Já Aristóteles (in Política, VII 12) combatia Platão (República, VIII 546
B-C), que admitia ciclos determinados de regimes políticos.
4
— 203 —

foi realizada ou frustrada, e de que maneira. A palavra "evolução"


tem portanto um sentido bem diferente, conforme é empregada por
um biólogo ou por um historiador.
Certos dados, fornecidos pela geologia, biologia e antropologia,
induziram cientistas modernos a aderirem ao chamado Evolucionis-
mo ou Transformismo, têrmos êsses que são usados em várias acep-
ções, uma das quais poderia ser: todos os sêres materiais são os pro-
<lutos de um lento processo evolutivo, que tem a sua origem num
único princípio ou em relativamente poucos princípios. Não nos
convém entrar nos méritos desta teoria. O certo é que o Evolucio-
nismo, aliando-se a uma concepção atéia do mundo, tenta explicar
o ente superior (por exemplo, a alma humana) pelo ente inferior
(a matéria e causas mecânicas), chegando • a negar a transcendên-
cia do espírito e declarando o processo de evolução a ultima fatio
do mundo, que assim ficaria independente do ato criador de um
Deus pessoal e transcendente. Tal opinião é contrária ao bom senso,
que afirma: Nihil est in effectu, quod non fuerit in causa. Além
disso, confunde absurdamente o "como" com o "porquê". Transfor-
mismo implica mudança ou movimento e contingência: e a mtidan-
ça exige o Primeiro Motor, do mesmo modo que a contingência pres-
supõe o Ser Necessário (8) . Quando não se admite a existência
de uma Causa Suprema, única fonte de ser de tôdas as coisas cria-
das, como explicar que um ser contingente produza outro ser con-
tingente? como explicar que haja transformação?
O conceito de evolução, viciado por sua aliança histórica com
o materialismo, é fonte de muitos equívocos e é freqüentemente abu-
sado para dar explicações fáceis e superficiais. Entretanto, despo-
jado dos seus acessórios falsos e errôneos, tem prestado serviços
importantes às ciências modernas, também à historiografia. Admi-
tir certa evolução histórica não equivale a eliminar a Deus ou a li-
berdade e a transcendência do espírito humano. Deus é a última
causa não só da transformação, mas também da essência e da exis-
tência do ser evoluído; e o espírito humano está envolvido num pro-
cesso de evolução "criadora", que admite e até pressupõe a liberda-
de humana e divina. Os historiadores, anteriores ao século XIX,
simplificavam e deformavam muitas vêzes a história por admitirem
mudanças bruscas e pouco preparadas, e por falarem demais em
realizações de uma vez feitas e desde o início acabadas. A historio-
grafia moderna frisa com muita razão o caráter vagoroso e grada-
tivo do processo histórico. O livre arbítrio do homem, por mais
livre que seja, não opera num vácuo intemporal, mas tem de levar
em consideração as tendências ou as possibilidades que encontra
em dada situação histórica. Aos modernos a história não se apre-

(8) . — Cf. Leonardo Vau Acker, Essência e Evolução, in Revista da Universidade


Católica de São Paulo, Vol. V, Fasc. 10, págs. 5-15.
— 204 —

Senta como a sucessão meramente cronológica de diversas fases,.


independentes entre si, mas como um processo ininterrupto em que
podemos verificar uma íntima conexão entre o terminus a quo e o
terminus ad quem. As sucessivas fases históricas trazem em si cer-
tas potências que tendem a ser atualizadas. E a atualização depen-
de de fatôres acima indicados como "influências externas", a saber
as livres decisões da pessoa humana e uma fôrça que, por falta de
melhores conhecimentos, poderíamos designar com o nome pouco
adeqüado de "acaso".
A evolução histórica não é portanto um processo determinista.
O historiador pode descrever minuciosamente de que maneira o es-
tilo românico evoluiu para o gótico; nesse processo de transição,
tôdas as fases intermediárias têm o seu significado, não se podendo
omitir nenhuma delas. Conhecendo-as, "entendemos" melhor o mi-
lagre da catedral de Chartres ou de Reims; até mesmo podemos di-
zer: se o estilo gótico teve de aparecer, pôde aparecer apenas desta
maneira. Mas passar de um silogismo hipotético a uma afirmação
categórica, é um procedimento ilegítimo. Nenhuma descrição das
fases sucessivas, por mais completa que seja, é capaz de me provar
a necessidade da vinda do estilo gótico. Ou, para repetirmos uma
frase há pouco usada: a circunstância de sabermos o "como" da evo-
lução, não nos revela o "porquê".
Outros Conceitos.
Outros conceitos históricos ou não precisam de um comentário.
especial, ou então já foram esclarecidos, por exemplo: "influência"
(cf. § 11 II), "tradição" (cf. § 10), "situação" (cf. § 12), "entender"
e "reviver" (cf. § 18 II). Merece ainda a nossa atenção o conceito
da causalidade na história, mas' êste assunto será abordado no pará-
grafo seguinte.

O Senso Histórico dos Tempos Modernos (8a).
Todos os séculos sentiram-se atraídos pelo espetáculo sempre
variado e sempre cativante dos acontecimentos humanos; tôdas as,
gerações interessaram-se pelos destinos dos seus antepassados,
sar de os terem focalizado e selecionado de maneiras muito diferen-
tes. O homem moderno, porém, possui o senso histórico num sen-
tido muito especial e particular. Alguns exemplos, que o leitor po-
de multiplicar à vontade, seguem aqui para ilustrar esta tese.
Os antigos, os medievos e até os humanistas não se preocupa-
vam em descobrir a fisionomia própria das épocas históricas, o que
parece aos modernos uma das primeiras exigências, até em coisas;
exteriores e insignificantes. As Marias dos pintores flamengos eram
(5a) . — Cf. H.-J. Marrou, De la Connaissance Historique, Paris, Édition du SeuU
(Collection: "Esprit"), 1954.
— 205 —

:moças dos Países-Baixos, que andavam vestidas como tôdas as mo-


ças da época burgunda, e viviam numa paisagem típica do Nonte;
suas cidades bíblicas tinham as tôrres góticas e as casas caracterís-
ticas de Bruges e Gand. A arte renascentista, proveniente da Itália,
modificou, — também fora do país de sua origem, — a paisagem,
os vestidos, os edifícios, o mobiliário, dando-lhes feições convencio-
nalmente clássicas", sem, contudo, chegar a uma representação "his-
tórica". No século XVII, Racine exibia no teatro francês persona-
gens históricos, por exemplo Britânio e Nero que, quanto às suas
palavras, maneiras e sentimentos podiam ser príncipes e cortesãos
da época de Luís XIV.
Objetar-se-á que a literatura e as belas artes têm a liberdade
de metamorfosear a realidade história. Com efeito, têm-na, e seria
pedantismo inepto negar-lha. O Britannicus de Racine deve só ma-
terialmente a sua existência a um episódio da história romana, trans-
mitido com tanta maestria por Tácito, le plus grand peintre de I'an-
tiquité (9) . Os dados históricos, aliás relativamente escassos, esco-
lheu-os o dramaturgo francês para transformá-los num drama psi-
cológico que nos comovesse por sua lógica intrínseca e pelo encanto
de versos harmoniosos e esmeradamente buriladõs. O Nero e o
Britânico de Racine, embora originados por pessoas históricas, des-
pertar-nos-iam o interêsse humano, mesmo que nunca tivessem exis-
tido. Seu Nero não tem a pretensão de ser a reprodução fiel do
Imperador romano, mas é uma representação artística de um mons-
tre naissant, e êsse monstro é concebido conforme as normas e as
opiniões de um poeta cristão e francês do século XVII, — admiti-
das, mais ou menos ingênuamente, como sendo de todos os tempos.
A época do Romantismo deu origem a um gênero literário que é
sumamente significativo do moderno "senso histórico": o romance
histórico (Walter Scott, Victor Hugo, Manzoni, etc.) . Também es-
tas obras não pretendem reproduzir a realidade de tempos passa-
dos, mas são produtos de uma ficção literária com certo fundamen-
to em acontecimentos históricos. As diferenças, porém, são consi-
deráveis. Já não é o tipo universalmente humano que chame a aten-
ção do leitor, mas o indivíduo histórico, retratado na sua unicidade.
Daí o interêsse pelo "pitoresco", daí as descrições evocativas, daí o
esfôrço do autor de se transportar mentalmente nas idéias de outras
épocas e de conhecer o ambiente concreto, em que viviam os per-
nagens.
Outrossim, a diferença não se limita aos artistas, mas verifica-
se também nos historiadores pràpriamente ditos. Em geral, não
tinham o "senso histórico" que nós, os modernos, costumamos ligar
a essa palavra. As realizações artísticas e culturais eram pouco es-

(g). __. Jean Rapine, no Préface do ano 1676; a peça data de 1669.
— 206 —

tudadas sub specie temporis, mas principalmente apreciadas con-


forme normas qualitativas. Por isso davam tanto valor aos auto-
res "clássicos" e ao princípio de imitação, como se Homero, Vergílio,
Demóstenes, Cícero, Platão e Aristóteles não pertencessem a certa
situação histórica, impossível de repetir . Não viam a singularidade
das diversas épocas, ou pelo menos, não se esforçavam por desven-
dá-la. Interessava-lhes o Eterno Homem, — esquecido às vêzes pe-
la historiografia moderna, — mas não "o homem grego", "o homem
medieval", etc. Embora soubessem que o homem vive no tempo,
não tiravam as conseqüências práticas dêsse conhecimento: não
consideravam os fenômenos do passado condicionados por situações
únicas.
Para nós, Platão é o expoente e, ao mesmo tempo, o apóstata
da "cultura" grega; Santo Agostinho o tipo de um literato do Baixo
Império; e Bossuet o de um eclesiástico da época histórica que
qualificamos de Barroco. Outrora não existiam nem os conceitos
nem as palavras. Nós vemos uma íntima conexão "orgânica" entre
um drama de Sófocles e o Pártenon na Acrópole, entre a Summa
Theologica e uma catedral gótica. Esses conceitos coletivos não
diminuem nem a originalidade nem a genialidade de Sófocles, Santo
Agostinho, São Tomás ou Bossuet, mas os colocam num conjunto
maior, e a relação, assim estabelecida, permite-nos melhor compre-
endê-los ou "entendê-los". E quanto à evolução, já assinalamos em
que medida êsse conceito chegou a revolucionar a historiografia
moderna. Os antigos atribuiam geralmente a constituição esparta-
na e romana a uma creatio quasi ex nihilo de dois grandes legisla-
dores: Licurgo e Sérvio Túlio. Seguiram-se, neste ponto, os histo-
riadores europeus, "explicando" crenças religiosas, instituições so-
ciais e doutrinas filosóficas como invenções mais ou menos arbitrá-
rias de certas figuras históricas, ou supostamente históricas. Hoje
sabemos melhor que nem os espartanos, nem os romanos, nem os
seus legisladores eram tabulae rasae, mas viviam em dada situação
histórica, a proporcionar-lhes certas possibilidades. Licurgo e Sér-
vio Túlio, — se é que foram êsses que organizaram Esparta e Roma,
— foram grandes legisladores por terem entendido perfeitamente a
situação concreta e por terem aproveitado largamente as possibili-
dades nela existentes. Por outras palavras: nós nos esforçamos por
"entender" o processo histórico no seu desenvolvimento lento e gra-
dativo a partir de um certo terminus a quo, constantemente variável,
a que o espírito das grandes personalidades soube impor uma de-
terminada orientação conforme uma concepção original.

§ 66 . A causalidade na História.
Os que, impressionados pelo prestígio das ciências "exatas",
admitem delas uma única espécie, — as matemáticas e as físicas,
— 207 —

— estão geralmente inclinados a promover também a história à cate-


goria de uma "verdadeira" ciência, atribuindo-lhe o conceito físico de
causa e efeito, isto é, a relação constante e necessária entre dois fe-
nômenos, — ou então, consideram a história, com. Renan, como une
de ces pauvres petites sciences conjecturales. A concepção natu-
ralística violenta a natureza da história, a qual tem por objeto os
atos humanos, que são livres e contingentes. A opinião remonta
ao século XVIII, e embora esteja sendo abandonada, tem ainda
hoje em dia os seus adeptos (10) . Com muita razão frisa-se atual-
mente o caráter particular e individual da causa histórica, o que
exclui certas generalizações precipitadas que estavam na voga no
século passado. A causalidade na história envolve vários proble-
mas de ordem filosófica, que não podemos expor neste trabalho;
limitar-nos-emos a assinalar alguns pontos práticos, que nos pare-
cem importantes para um futuro historiador.

I. Várias Espécies de Causas Históricas.

As distinções entre as várias espécies de causas que atuam


no processo histórico já eram conhecidas de alguns grandes histo-
riadores gregos. Redescobriram-nos os tempos modernos, fazendo•
delas uso mais largo e sistemático.

a) Causas Remotas e Causas Ocasionais.

Esta distinção foi formulada já por Tucídides (1 23) . Paul.


Harsin descreve as duas causas da maneira seguinte: La première
est l'ensemble assez complexe des conditions d'ordre general qui,
durant un certain temps, rend un certain événement possible, pro-
bable et même parfois inévitable. La seconde est l'événement ou
l'acte particulier qui, se produisant à un moment précis, produit
un effet décisif (11) . A invasão dos exércitos alemães no territó-
rio polonês, no dia 1.° de setembro de 1939, foi sem dúvida alguma
a causa imediata ou ocasional da segunda guerra mundial, provo-
cando a declaração de &erra da parte da Inglaterra e da França .
Mas todo o mundo vê fàcilmente que êsse fato particular não basta
para explicar o terrível conflito na sua totalidade ou na sua inten-
sidade . A derrota de 1918, o Tratado de Versalhes, a oposição
entre as ideologias, a competição econômica, o militarismo prus-
siano, etc . são fatôres gerais que o historiador deve levar em con-
sideração, ao tentar esclarecer a conflagração mundial. Sendo pos-

. — Por exemplo Alfredo Ell's Júnior, na Revista de História, III 10 (1952), pág.
349.
. — Paul Harsin, Cotrunent on écrit Liège, 1944, pág. 127. — Subs-
tituímos, nas palavras citadas, o têrmo déterraine por produit.
-2G3 —

-sível, não se contentará em juxtapô-los num catálogo meramente


descritivo, mas se esforçará por descobrir entre êles uma certa
hierarquia.
Sem a causa ocasional não se compreende como pôde reben-
tal, nesse momento e dêsse modo concreto, a segunda guerra mun-
dial; sem a(s) causa(s) remota(s) ou profunda(s) não se com-
preende como essa ocasião pôde produzir tal •e tamanho efeito.
As duas noções se completam.

Causas Permanentes e Causas Passageiras.

Esta distinção devemo-la ao historiador helenista Políbio de


Megalópolis (cf. § 3 IV): foi reencetada e desenvolvida, nos tem-
pos modernos, por um Montesquieu e um Taine. Causas perma-
nentes, — muitas vêzes chamadas de "deteiminantes", — são fa-
tôres que influem, de maneira mais ou menos estável e constante,
no comportamento humano, por exemplo: o clima, a raça, as con-
dições geográficas, as instituições sociais e políticas, a tradição,
etc. Causas passageiras são as livres decisões dos personagens ,his-
tóricos e o "acaso". Muitos historiadores, por •exemplo positivistas,
marxistas e nazistas, superestimam a importância das causas per-
manentes ou "determinantes", — as quais, no fundo, são meras
, condições, ou então, causas materiais (12), — e chegam a uma
concepção inteiramente determinista da história, como havemos
de ver na quarta parte dêste livro.

Causas Universais e Causas Particulares.

As causas universais e necessárias não constituem o objeto


da ciência histórica, mas da filosofia; o historiador, como tal,
ocupa-se apenas de causas particulares e contingentes. Mais adian-
te falaremos na "Filosofia da História" (§ 71).

II. Causas e Leis.

Ao conceito da causalidade histórica está estreitamente ligado


o problema das chamadas "leis" históricas. Referindo-nos ao que
já observamos a êsse respeito (§ 17 III), resumimos e particula-
rizamos:

a) Atos humanos não são necessários, mas livres e contin-


gentes. A liberdade do homem funda-se na sua racionalidade. O
(12) . — "Causa" é o princípio que influi em outro ser de modo positivo; "condição"
o princípio que nele influi de modo negativo, removendo os obstáculos. Por
exemplo: Se não houver certa prosperidade material, não haverá muita re-
flexão filosófica; mas a prosperidade material não causará a reflexão filosófica
— Cf. § 101 tf, nota 232.
--- 209 —

intelecto humano, princípio espiritual, é capaz de conceber o Bem


Absoluto, e por isso mesmo vê a relatividade de todos os bens
particulares que se lhe apresentam: nenhum dêles se lhe impõe
de maneira tão imperiosa que o force a desejar só êste bem par-
ticular com exclusão de um outro. Se o homem não pode renun-
ciar a desejar o seu bem universal, a felicidade, é livre em escolher
os meios concretos que devem levar para êsse fim (13). O com-
portamento humano não é, portanto, ligado a um determinismo
rigoroso do mundo físico, e leis históricas não possuem a fôrça in-
flexível das leis físicas. São antes regularidades no comportamen-
to das unidades históricas (indivíduos e coletividades), que de-
vem ser consideradas como reações razoáveis a uma dada situação
histórica, em última análise determinadas por valores transcen-
dentes.
Essas reações se revestem de feições próprias e peculia-
res, originadas não só pela situação histórica, que é sempre única
e irrepetível, mas também pela posição individual que certa con-
creta unidade histórica toma deliberadamente perante a dada si-
tuação. Ora, tal atitude individual escapa forçosamente a tôda e
qualquer tentativa de concebê-la como um caso particular de uma
regra geral: quando muito, podemos "entendê-la" a posteriori, ja-
mais predizê-la com certeza.
As causas históricas são extremamente complexas e in-
terpenetradas (14) . Não podemos isolar os seus diversos elemen-
tos constitutivos para encará-los depois cada um de per si, — as-
sim procedendo, mutilaríamos a realidade concreta, o objeto da
história, — ou para fazer experiências, porque o tempo é fator
irrepetível. -
A conclusão talvez decepcionante é obvia: nossos conhecimen-
tos da causalidade histórica são muito pobres e fragmentários.
Foge-nos o todo, e atingimos penosamente apenas parcelas.

. — Cf. Sanctus Thomas, Summa Theologica, I-II, q. 13, a. 6 (in corpore):


Quidquid enim ratio potest apprehendere ut bonum, in hoc voluntas tendere
potest. Potest autem ratio apprehendere ut bonum, non solam hoc quod est
vele aut agere, sed etiam hoc quod est non vele et non agere. Et rursum
in omnibus particularibus bonis potest considerare rationem boni alicujus, et
defecturn alicujus boni quod habet rationem mal; et secundum hoc potest
unumquodque hujusmodi bonorum apprehendere ut eliãibile, vel fugi bile.
Solum autem perfectum bonum, quod est beatitudo, non potest ratio appre-
hendere sub ratione mali aut alicujus defectus; et ideo ez necessitate beatitu-
dinem homo vult, nec potest vele non esse beatus, aut esse miser. Electio
autem, cum non sie de fine, sed de bis quae sunt ad finem..., non est perfect/
boni, quod est beatitudo, sed aliorum particularium bonorum.
. — Cf. Eduardo d'Olive'ra França, in Revista de História, II 7 (1951), onde o
autor diz (pág. 119): "E' a combinação eventual das várias condições que
passa a ser causa. Uma espécie de causa plural. Na impossibilidade de se
inventariarem completamente essas condições para se ver o jôgo das combi-
nações acidentais de cada momento, chama-se causa do mais próximo por
parecer mais eficaz. Tudo isso só é válido admitindo-se uma hipótese artifi-
cial: a de que é possível isolar um fato histórico para apreensão das condições
de sua ocorrência. Fato histórico, irmão dos prótons".
— 210 —

§ 67. A Personalidade e o Acaso.

Devemos considerar o indivíduo humano, ou então a coleti-


vidade como a verdadeira causa histórica? o acaso, ou uma ordem
preconcebida?

I. A Personalidade.

Napoleão foi o simples produto de seu século, ou foi ês1:e a •

criação do gênio de Napoleão? O problema, pôsto nestes têrmos,


não admite uma solução apodíctica (15) .
Em primeiro lugar, é nossa relativa ignorância das causas
históricas que nos impossibilita dar uma resposta decisiva. Aca-
bamos de ver que elas são muito complexas, que não se prestam
a uma explicação determinista, que o espírito humano nunca as
abrange na sua totalidade nem as sonda na sua profundidade, mas
sempre topa no mysterium individuationis. Além disso, a história
não nos dá a contraprova da sua tese: nenhum historiador é capaz
de nos contar o que teria acontecido se Napoleão não tivesse to-
mado a decisão de invadir a Rússia, ou se Mussolini não tivesse
optado pelos alemães, e assim por diante.
Outrossim, o indivíduo como fenômeno histórico é inconcebí-
vel sem a comunidade, na qual está enraizado com tôdas as suas
faculdades. Por mais genial que seja, necessita do apôio de seu
ambiente para poder realizar seus planos, ou, pelo menos, requer
que ela lhe forneça as condições materiais e culturais para suas
atividades criadoras. Por outro lado, a sociedade é um conjunto
"orgânico" de indivíduos, entre os quais as grandes personalidades
decidem da marcha e do ritmo dos destinos coletivos. Se Napoleão
houvesse aparecido no palco histórico do século XVII, talvez não
teria passado de um dos numerosos condottieri da época . A situa-
ção histórica que existia na França em fins do século XVIII, cha-
mava por um braço forte, e certo indivíduo, chamado Napoleão,
entendeu perfeitamente as ânsias, as esperanças e as possibilidades
do seu tempo. Mas a história é incapaz de descrever a vida de
Napoleão no século XVII, ou de demonstrar que os caos revolu-
cionário teve de resultar necessàriamente na aparição dêste con-
creto Napoleão.
As interrelações entre o indivíduo e a coletividade são múlti-
plas, complexas, delicadas e misteriosas. E' um absurdo querer

(15) . — Lembramos aqui uma anedota comunicada por Cícero (in De Senectute, III
8): Themistocles fertur Seriphio cuidam in jurgio respondisse, cum ille disis-
set non eum sua, sed patriae gloria splendorem assecutum: Non hercule, inquit,
si ego Seriphius essem, nec tu, si Atheniensis, clarus umquam fuisses. Cf..
Herodotus, Historiae, VIII 125 (lição um tanto diferente) e Plutarchus, Vita,
Themistoclis, XVIII.
— 211 --

demarcar com exatidão o campo do indivíduo e o campo da cole-


tividade: um não existe sem o outro. O historiador, ao apreciar
as causas históricas, fará o possível para fazer justiça à natureza
social do indivíduo humano, mas também ao caráter individual e
singular dos componentes das diversas coletividades. Não tenha-
mos a pretensão de saber mais do que podemos saber. L'historien
qui veut m'apprendre ce que je vois ne peut pas savoir, me
fait douter sur les faits mêmes qu'il sait (16).

II. O Acaso.

Disse Pascal: Si le nez de Cléopâtre eât été plus court, toute


la face de la terre aurait changé (17). Uma circunstância insigni-
ficante, quase ridícula, podia ter mudado a face da terra. O exem-
plo concreto leva-nos à questão: qual o papel do "acaso" nos des-
tinos da humanidade? Será que pode ser considerado como uma
causa histórica? Já vimos alguns exemplos da fôrça do Destino
(§ 11 I): ninguém a pode contestar. As divergências surgem ape-
nas quando se trata de identificar o "acaso". E muitas vêzes o
problema se põe desta maneira: o que teria acontecido se Napoleão
tivesse caído em Arcole, ou se Hitler tivesse morrido no berço? E'
claro que nem o historiador nem homem algum pode dar uma
resposta satisfatória a essas perguntas: pode dar semente opiniões
subjetivas, conjeturas, destituídas de todo e qualquer valor obje-
tivo. A história é a. ciência do que aconteceu, não do que podia
ter acontecido: os futuribilia só Deus que os sabe. Tôdas as espe-
culações humanas a êsse respeito são vãs e fúteis. Assim mesmo,
é importante saber o que devemos entender por "acaso". Não
pretendemos eliminar os enigmas, mas apenas acabar com alguns
mal-entendidos (18).
a) Segundo a metafísica realista, o acaso é a coincidência
não intencionada de dois ou mais efeitos. Como tal, não possui
nem causa eficiente nem causa final pelo simples motivo de que
não é ser. Pois a coincidência não intencionada como tal é uma
pluralidade, a que não cabe o ser, enquanto é pluralidade. Fora
dos dois efeitos, que num único têrmo convergem, o acaso é nada.
Cada um dos dois efeitos, que são unos e sêres, tem uma causa,
mas o acaso não acrescenta um terceiro ser àqueles dois sêres.
No sentido metafísico da palavra, o acaso não existe; é um ens
per accidens, ao qual devemos atribuir apenas uma causalidade

. — Fénelon, Lettre à l'Acadérnie, chapitre VIII (no fim) .


. — Blaise Pascal, Pensées, pág. 450 (éd. Brunschvicg)
. — Sôbre o "acaso" na história, cf. W. Von den Steinen (historiador sulco),
Gliick und Unglück in der Weltgeschichte, Zürich, 1943.
— 212 —

acidental (19). Nós, porém, falamos em acaso, quando uma causa


livre não conhece o funcionamento de outras causas livres ou de-
terminadas, o que acontece muitas vêzes. O que atribuímos ao
cego acaso, deveríamos atribuir à nossa ignorância.
Entretanto, alguns filósofos, já desde a Antigüidade, pre-
tendem explicar os mistérios do Universo pela fôrça do acaso, por
exemplo os epicuristas na Grécia, e vários cientistas nos tempos
modernos. Citamos aqui uma palavra célebre de Huxley: six
monkeys, set to strum unintelligently on typewriters for millions
of millions tof years, would be bound in time to write all ;the books
in the British Museum (20). A "explicação" não explica, porém,
a origem ou a existência dos seis macacos nem a da máquina de
escrever, que são evidentemente sêres contingentes, não necessá-
rios. Além disso, o resultado "fortuito" do trabalho puramente me-
cânico é inconcebível senão em função de certa ordenação racio-
nal. O que aconteceria, se a máquina não tivesse a possibilidade
de produzir letras, e se essas letras não tivessem a possibilidade
de se coordenar numa frase inteligível, — cujo significado é inde-
pendente do trabalho dos seis macacos? Se a máquina produzisse
ora peras, ora maçãs, ora macacos, em vão tocariam o teclado por
tantos milhares de séculos os nossos seis macacos; se as letras não
fossem símbolos objetivos, fixados pelo espírito humano, ninguém
as poderia decifrar. O acaso é uma causa acidental, que pressupõe
a existência de uma ordem ou finalidade pré-estabelecida; sem esta
não poderia existir aquêle.
A metafísica infere da existência de causas contingentes,
relativas e acidentais a existência de uma Causa absoluta e subs-
tancial, absolutamente necessária: Deus. Diante da Divina Provi-
dência, a coincidência de vários efeitos não é uma pluralidade, mas
uma unidade, prevista e ordenada. Logo, para Deus não existe o
acaso; existe sim para o espírito criaçlo. Escrevia Frederico II a
Voltaire: Plus on vieillit, plus on se persuade que sa sacrée Ma-
jesté le Hazard fait les trois quarts de la besogne de ce misérable
Univers (21) . Seria mais exato dizer: ...plus on se voit obrigé
de reconnaitre sa profonde ignorance. Aliás, na medida em que
nos distanciamos de certo episódio da nossa vida, conseguimos

— Sanctus Thomas, Summa Theologica, I, q. 115, a. 6 (in corpore): Omne


quod est per se, habet causam; quod Rufem est per accidens, non habet cau-
sam; guia non est vete ens, cum non sit vens anum... Manifestum est aca-
tem, quod causa impediens actionem alicujus causae ordinatae ad suum effecttmi
ut in pluribus, concurrit ei interchmi per accidens; urde talis concursus non habet
causam, in quantum est per accidens.
— Citada por Sir William Jeans, no livrinho: The Mysterious Universe, London,
1937, Pelican Books, pág. 14.
— Conhecemos estas palavras só mediante O. Spengler, Der Unterjang deis
Abendiandes, I pág. 184, nota 1.
— 213 —

muitas vêzes descobrir certa ordem em fatos que outrora nos pa-
reciam caprichosos, disparatados, incoerentes, "fortuitos". E' que
a proximidade nímia nos ofusca a vista. O que dantes se nos afi-
gurava como uma pluralidade caótica, acaba muitas vêzes por
se mostrar uma unidade a certa distância . Destarte chegamos a -
entrever uma ordem íntima, a qual atribuímos — conforme a nos-
sa religião, ou filosofia, ou mundividência, — a uma disposição ' •

da Divina Providência, ou ao Destino impessoal, ou então, à atua-


ção de uma lei imanente . Por um motivo semelhante, gerações
posteriores acham-se geralmente numa posição mais favorável pa-
ra avaliar o alcance do acaso na história. Os acontecimentos con-
temporâneos-são, por_assim dizer, letras muito _grandes para serem
lidas com facilidade; é só a certa distância que se vão coordenando
numa frase inteligível (22). Na medida em que um historiador pe-
netrar mais a fundo nos pormenores de certos acontecimentos histó-
ricos, mais os verá com indeterminados, indecisos, complexos, cuja
realização, depende da cooperação de inúmeros fatôres. Os mesmos
acontecimentos se lhe apresentam, a certa distância, como uma uni-
dade, a possuir uma qualquer "lógica". Mas essa lógica não tem o ri-
gor de uma demonstração geométrica, nem a evidência de uma expe-
riência física. Os gregos podiam ter sido derrotados na batalha de
Salamina, e os francos em Poitiers (23) .
Destarte nos leva o estudo dos fenômenos do passado quase
espontâneamente a certas reflexões sôbre a origem e o destino do
homem histórico. A historiografia como tal não poderia resolver os
problemas suscitados pela observação metódica dos fatos; de qual-
quer maneira tem de recorrer a uma ciência superior. De que modo
e até que ponto ela se serve, — ou tem o direito de servir-se — de
princípios superiores, será o assunto do capítulo seguinte.

— Cf. Augustinus, De Ordine, 1 2: Sed hoc pacto si quis tem minutum cerneret,
ut in vermiculato pavimento nihil ultra unius tessellae modulam acies ejus
valeret ambire, vituperaret artif icem velut ordinationis et compositionis igna-
rum eo quod varietatem lapillorum perturbatam putaret, a quo illa em-
blemata in unius pulchritudinis fatiem congruentia simul cerni collustrarique
non possent..
— Cf. P. Vendryès, De la Probabilité en Histoire, L'Exemple de PExpédition
d'Égypte, Paris, Alb:n Michel, 1952.
CAPITULO TERCEIRO

FINS E VALORES

§ 68. O Sentido da História.

Os atos hüillatii5ã têtal urn fim .(1):- °nine 'agans-- agit propter
finem. Na medida de nos ser conhecido o fim, ficamos capaci-
tados para descobrir o "sentido" de certo ato ou de certa série
de atos que deve levar para êsse fim. Ao acompanharmos os di-
versos atos sucessivos de um indivíduo na vida cotidiana: correr
ao ponto de ônibus, ficar esperando numa fila comprida, viajar
num veículo superlotado, passar muitas horas consecutivas no mes-
mo local, etc., não lhes compreendemos o sentido a não ser que lhes
saibamos o fim, por exemplo, sustentar-se a si próprio e a sua fa-
mília. Desde que conheçamos o fim, tornam-se "significativos" os
atos singulares: sem êsse conhecimento, todos êles nos poderiam
parecer absurdos, incoerentes e caóticos. O fato de estarem subor-
dinados os atos a um fim, não exclui a possibilidade de haver fins
secundários (por exemplo, chegar ao escritório a tempo) nem a
subordinação do fim principal a um fim universal (por exemplo,
motivos religiosos eu éticos): há uma hierarquia de fins.

I. O Sentido da Vida Humana.

O sentido da vida humana depende evidentemente do seu fim,


o qual deve ser universal para poder dar sentido, não a certos atos
particulares, feitos em vista de um determinado fim particular,
mas a todos os atos da vida humana, vistos na sua totalidade. Se-
rá que a vida possui tal fim universal? Ou devemos admitir com
o poeta:

Life's but a walking shadow; a poor PlaYer,


That struts and frets' his hour upon the stage,
And then is heard no more; it is a tale
Told by an idiot, fali of sound and fury,
Signifying nothing? (2) .
— Em grego: "télos"; daí o têrmo moderno: "teleologia". --- A palavra "fim"
pode significar o "têrmo final" de uma operação, e como tal não é causa, mas
efeito realizado (tinis in re); a mesma palavra indica também "finalidade, in-
tenção" (finis in intentione), que é a primeira das causas porque é ela que
dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma.
— W. Shakespeare, Maebeth, Act V, Scene V.
215 —

A simples observação dos atos particulares em si não nos re-


vela um fim universal, a não ser a morte, o têrmo inevitável de
tudo o que é humano. Du fait brut on ne peut rien tirer que sa
constatation. L'interpréter, c'est-à-dire lui assigner sa placa dans
une représentation du monde, lui attribuer une importance et une
valeur en bien ou en mal, cela ne peut se faire qu'à l'aide de prin-
cipes fondamentaux, lasqueis ne peuvent provenir des faits étudiés
qu'ils servent à les ordonner et leur sont par conséquent antérieurs
(3) . A história, como tal, longe de poder decifrar o espantoso enig-
ma da existência humana, tem de recorrer a uma ciência superior:
à filosofia, guiada ou não pela teologia.

II. A Resposta da Filosofia Cristã .

Os gregos, apesar "de tôdas as suas especulações metafísicas,


não conheciam um fim universal do processo histórico, principal-
mente devido ao fato de não conhecerem a Deus como "Aquêle
que é". A Criação e a Divina Providência, embora sejam verdades
acessíveis à luz da inteligência natural, são, de farto, noções que se
encontram desfiguradas no pensamento grego, ou então, lhe faltam
por completo, como havemos de ver na quarta parte dêste livro.
O Cristianismo, além de trazer ao mundo uma mensagem sobre-
natural, •a que o homem por si nunca poderia elevar-se, contribuiu
muitíssimo para a plena elaboração de alguns princípios metafísi-
cos, cujo verdadeiro alcance era desconhecido dos pensadores gre-
gos. Nestas páginas pretendemos dar umas noções básicas que do-
minam •a visão cristã da história . Para evitar mal-entendidos, de-
vemos frisar que a seguinte exposição se baseia na doutrina da
Igreja Católica, tal como foi desenvolvida principalmente por São
Tomás.

a) A Criação.

Mesmo que a razão do homem não seja iluminada pelos dados


da Revelação, é capaz de atingir a Deus como a Causa Suprema de
tôdas as coisas criadas, as quais, na sua relatividade e na sua cpn-
tingência, pressupõem um Princípio Absoluto e Necessário (4).
A ação, exercida pela Causa Suprema sôbre tôdas as coisas extra-
divinas, chama-se "criação", e geralmente define-se criar como
"tirar do nada". A expressão é ambígua, porque poderia insinuar
que o "nada" seja a causa material do ato criador, à qual Deus

. — J. Hours, Valevr de l'Histoire, Paris, Presses Universtaires, 1954, pág. 81.


. — A cognoscibilidade da existência de Deus para o "intelecto natural", mediante
as coisas criadas, foi ensinada pela Bíblia (Livro da Sabedoria, XIII e São
Paulo, Epístola aos Romanos, 1 18-23) e chegou a ser proclamada dogma pele
Concílio do Vaticano em 1870 (apud Denzinger, 1785).
— 216 —

comunique certa forma, anàlogamente a um escultor que comuni-


ca uma determinada forma a uma matéria pré-existente, por exem-
plo a um bloco de mármore. Melhor é a definição: criatio est
productio rei secundum totam suam substantiam, nullo praesuppo-
sito. Deus dá a totalidade do ser, — a essência e a existência,
a tôdas as coisas que não sejam Deus, sem que haja uma causa
material independente dêsse ato criador. Também a matéria é
criada por Deus. Vista da parte das "criaturas", a criação é a re-
lação da sua dependência total de Deus. O mesmo Deus que cria
o mundo, também o governa: tôdas as coisas criadas recairiam
na não-existência, se Éle se retirasse da sua obra.
A criação é livre ato de Deus: não é processo necessário de
emanações divinas. Há uma emanação necessária no seio da pró-
pria Divindade, chamada productio ad intra pelos teólogos: a San-
tíssima Trindade. Mas a productio ad extra, quer dizer, a cria-
ção de tôdas as coisas extra-divinas não é necessária, mas contin-
gente (5). O mundo poderia não existir, não havendo em Deus
uma relação real às suas criaturas. Além disso, Deus é absoluta-
mente distinto do mundo, embora êste esteja realmente e necessà-
riamente relacionado com Deus. Deus é o Outro, o absolutamente
Separado do universo, o Transcendente (6); mas em tôdas as coi-
sas há uma íntima presença de Deus, sem a qual não poderiam
subsistir (7). Assim se reconcilia a transcendência divina com
certa imanência. Création de Dieu, le monde est essentiellement

— Strrnma Theologica, I q. 28, a. 1, ad. 3-um: Cum creatura procedit a Deo


divers:tate naturae, Deus est extra ordinem totius creaturae, nec ex ejus
natura est ejus habitado ad creaturas. Non enfim producit creaturas ex neces-
sitate naturae, sed per intellectum et per voluntatem. Et ideo in Deo non
est realis relatio ad creaturas, sed in creaturis est realis relatio ad Deum; guia
creaturae continentur sub ordine divino, et in earum natura est quod depen-
deant a Deo. Sed processiones divina° sunt in eadem natura; onde non est
similis relatio. — Sôbre o caráter contingente do mundo veja-se o capítulo •
magistral "The Ethics of Elfland" no livro Orthodoxy de G. K. Chesterton,
onde lemos: I had always vaguely felt facts to be mirados in the sense that
they are wonderful: now I bege to think them miracles in the stricter senso-
that they were wif til. I mear that they were, or might be, re neated exerdses
of will (London, The Week-end Library, 1934, pág. 108).
— A palavra "transcendente", às vêzes, menos corretamente, considerada como si-
nônima de "transcendental", é empregada em muitas acepções diversas. Aqui,
ao falarmos da "transcendência divina", queremos dizer que Deus é uma rea-
lidade existente absolutamente distinta do mundo, outra realidade existente; entre-
as duas realidades não há nenhuma transição contínua, mas os limites são abso-
lutos. — Os panteístas confundem, de uma ou de outra maneira os limites
absolutos, chegando a identificar o mundo com Deus, e a Deus com o mundo.
— A imanência de Deus, professada pelos cristãos (cf. as palavras de São Paulo
perante o Areópago: "porque nele vivemos, e nos movemos e existimos", Atos
dos Apóstolos, XVIII 28) indica a presença divina em tôdas as coisas criadas,
como a Causa fundamental, cf. Summa Theologica, I q. 8, a. 1, (in corpore):
Deus est in omnibus rebus, non quidem sicut pare essentiae, vel sicut accidens,,
sed sicut agens adest ei quod agit.. Motum et movens oportet esse simul.
Cum autem Deus sit ipsum esse per suam essentiam, oportet quod esse creatum-
sit proprius effectus ejus..,. Hunc autem effectum causat Deus in rebus, non
solva: quando primo esse incipiunt, sed quarndiu in esse conservantur. Oportet
quod Deus sit in omnibus rebus et intime. — Cf. a exclamação de Santo Agos--
tinho: Tu autem eras interior intimo meo et superior summo meo (in Cordessiones,
III 6, 11).
— 217 —

divin. Mais s'il est divin, il n'est pas Dieu. L'erreur mythologi-
que (e dos panteístas) porte exactement sur l'être du monde. Si
une source est divine, elle n'est par une déesse. Elle est divine en
tant qu'elle est; mais en tant qu'elle est source, elle n'est que na-
ture (8). Se Deus é a causa essendi de tôdas as criaturas, é-lhes
também a causa agendi: participam elas, em escalas diferentes, do
ser divino como também da ação divina. A Criação não acres-
centa mais ser ou mais ação a Deus, mas faz apenas com que haja
mais entes e mais agentes, todos êles substancialmente dependen-
tes do Ser Divino e da Ação Divina. A Providência não é uma
"intervenção" (9) da parte de Deus nos negócios mundanos: as
coisas criadas possuem sua própria perfeição, sua própria causalida-
de, — que correspondem ao seu grau de ser, — mas essa perfeição
e essa causalidade elas as devem exclusivamente ao ato criador de
Deus. Tanto a ação determinada das coisas irracionais como a livre
atividade da pessoa humana são "criaturas", mas por isso não deixa
de ser livre a atividade humana como também não deixa de ser de-
terminada a ação determinada das coisas irracionais (10). Tôda
a ação de criaturas deriva de Deus (Causa primeira e transcen-
dente) e, ao mesmo tempo, da sua própria natureza (causa secun-
dária e imanente).
Reza a primeira linha da Bíblia: "No princípio criou Deus o
céu e a terra"; o Cristianismo, prosseguindo uma tradição judaica,
introduziu a noção de um Início Abosluto (11) como também a de
. — Paul Rostenne, La Foi das Athées, Paris, Plon, 1953, pág. 81.
. — A expressão "intervenção divina" é muito antropomorfa: nada se efetua que
não seja, na sua essência e na sua existência, totalmente dependente de
Deus: uma "intervenção divina" não tira Deus do seu repouso, obrigando-o a
fazer um novo esfôrço; não afeta a imutabilidade divina nem lhe custa maior
energia ou nova iniciativa, sendo a realização de um decreto eterno. Nous
parlons d'intervention -spéciale de Dieu parca que Peffet à obtenir dépasse
manifestement ia puissance productrice des causes secondaires laissées à leur
jeu normal (J. Renié, Les Origines de Pliumanité, Lyon-Paris, Vitte, 1950,
pág. 83) .
. — Summa Theologica, I q. 22 a. 4, ad 1-um: . . . effectus divinae providentiae
non solum est aliquid evenire quocumque modo, sed aliquid evenire vel con-
tingenter, vel necessario. Et ideo even:t infallibiliter et necessario, quod divina
pravidentia disponit evenire infallibiliter et necessario; et evenit contingenter,
quod divinae providentiae ratio habet ut contingenter eveniat. — Cf. De
Veritate, XI 1, Resp.: Prima causa ex eminentia bonitatis suae rebus aluis
confert non solum quod sint, sed etiarn quod causae sint.
(11). — Que o mundo teve um início (a chamada creatio in tempore), é um dado
da fé; filosèficamente falando, um mundo "perpétuo" é possível, o que não
lhe tira a necessidade absoluta de ser criado por Deus. A questão foi muitas
vêzes discutida por São Tomás, por exemplo na Summa Theolog!ca, I q. 46,
onde diz (art. 1): Non est necessarium rnundum semper fuisse, cum ex vo-
luntate divina processerit; quamvis possibile fuerit, si Deus voluisset; nec
demonstrativa hoc probari ab aliquo umquam potuit, e (art. 2): Mundum
incepisse sola lide tenetur; nec demonstratve hoc sciri potest; sed id credere
maxime expedit. — Mesmo que o mundo fôsse "perpétuo", não seria coeterno
com Deus, pois, como diz Boécio (De Consolatione Philosophirte, V Prosa
VI 2): Aeternitas... est interminabilis vitae teta simul et perfecta possessio,
e êste nunc stans só cabe a Deus; mas o mundo é o nunc fluens em que
há constante sucessão de momentos fugidios: Aliud est enfim per intermi-
nebilem duci vitam, quod mundo Plato tribuit, aliud interminabilis vitae
totem pariter complexum esse pressentiam, quod divinae mentis proprium esse
manifestum est (ibidem, VI 7).
— 218 —

um Têrmo Absoluto, a consummatio mundi. O mundo é ser con-


tingente, criado por um livre ato de um Deus-Pessoa: nem sempre
existiu e nem sempre existirá. No tempo, igualmente criado por
Deus, juntamente com o mundo, desenrola-se o Drama da história
humana, cujo Prólogo e Desfêcho pertencem à Eternidade. Deus
é auto-suficiente por definição: diferentemente de um artista hu-
mano, não pode ter motivos de se aperfeiçoar a si próprio na sua
obra. Nenhuma coisa criada é capaz de lhe acrescentar a menor
perfeição. O fim deradeiro da Criação não pode residir nas cria-
turas, mas deve sei' transcedente: a manifestação da bondade di-
vina, muitas vêzes chamada a gloria externa Dei. A êsse fim uni-
versal e meta-histórico (isto é, situado além dos limites da história)
devem-se subordinar todos os fins "imanentes" como fins secundá-
rios (a perfeição e a felicidade das criaturas). A perfeição relativa
das coisas criadas é a imagem da Perfeição Absoluta, que é Deus.
Deus é o Poeta e o Ensaiador do pulcherrimum carmen da his-
tória (12), quer dizer: assim como é Criador e rim transcendente
da história, assim a governa soberanamente como o Senhor Eter-
no do Tempo, "atingindo fortemente desde uma extremidade à
outra tôdas as coisas, e dispondo-as com suavidade" (Sabedoria,
VIII) . Serve-se das causas secundárias, principalmente do livre
arbítrio da pessoa humana, para conduzir tôdas as criaturas ao
seu fim universal: a glorificação de Deus. As criaturas irracionais
move-as determinadamente: "Os céus manifestam a glória de Deus,
e o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (Salmo, XVIII
2). O homem, porém, dotado de inteligência e de liberdade, tem
o privilégio e a obrigação de colaborar consciente e livremente
com o ato criador e governador de Deus, devendo concretizar neste
mundo os valores transcendentes da Verdade, do Bem e do Belo,
os quais são nomina divina. Pelo serviço a valores que o trans-
cendem, aperfeiçoa-se a si próprio; pelo amor ordenado a tôdas as
coisas em Deus, descobre-se a si próprio, e descobre o mundo, va-
lores relativos, é verdade, mas muito reais e criados por Deus.
Pois o mundo criado é bom, enquanto é, e merece nosso amor do
mesmo modo que mereceu a aprovação divina: "E viu que isto
•era bom" (13). Daí um certo otimismo cristão, que poderia pa-
recer paradoxal para quem não lhe conhecesse a origem ou pres-
tasse apenas atenção aos atos exteriores de mortificação, pratica-
. — A expressão é de Santo Agostinho, De Civitate Dei, XI 18; cf. Epistolae,
CXXXVIII 5 e CLXVI 13.
. — Gênesis, I 10, etc. — Cf. Augustinus, De Vera Religione, XVIII 36; Ita
omne quod est, in quentura est, et omne quod nondum est, in quentura esse
potest, ez Deo habet, e São Tomás, Contra Gentiles, IR 69: Sic igitur Deus
retais creatis suam bcmitatem communicevit, ut una res, quod accepit, possit
in alias transfundere. Detrahere ergo actiones proprias rebus est divinae bani-
tati derogare. — Sôbre o "otimismo cristão", veja-se E. Gilson, L'Esprit de la
Philosophie Médiévale, Paris, Vrin, 1932, págs. 111-172; cf. 75 IV. —
Para o católico, o estado metafísico do homem é imutável e independente de
todos os acidentes, mesmo do pecado original.
- 219—

dos por tantos santos. São êstes não uma maldição às obras cria-
das, e muito menos ainda uma tentativa de aniquilar a existência,
mas antes um esfôrço heróico de recuperar o equilíbrio humano,
perturbado pelo pecado original. Todo o ser deriva de Deus; tôdas
as coisas criadas participam, em escalas diferentes, do ser divino,
conforme seu grau de ser; tôdas as coisas, por mais íntimas que se-
jam, possuem o seu valor; por isso tôdas elas merecem nosso amor,
mas um amor ordenado. Amaldiçoar a matéria com certos platô-
nicos, ou pior ainda, amaldiçoar a existência com algumas seitas
oiientai3, e urna ati ■tuat que não se compadece com o Cristianismo
genuíno.

b) A Queda do Homem e a Redenção.

Magna enfim quaedam res est honro, factus ad imaginem et


similitudinem Dei (14), diz Santo Agostinho, desenvolvendo uma
idéia básica do livro Gênesis. O homem, dotado de inteligência e
de liberdade, é capaz de conhecer o seu fim transcendente, e de di-
zer "sim" ou "não" à Chamada Divina, sem que esta recusa consiga
destruir o plano de Deus, que é verdadeiramente universal. Para
homem o mundo histórico, essencialmente relativo e contingente,
não poderia ser o derradeiro fim das suas mais íntimas aspirações:
possuir o Bem Absoluto e Eterno, que é Deus. Nenhum bem terres-
tre é capaz de lhe saciar a sêde de um fim transcendente. Fecisti
nos ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te
(15) . O processo histórico terá, para o homem, o seu fim e o seu
significado em Deus, ou não terá sentido nenhum. Todos os fins
humanos e históricos derivam, em última análise, dêsse fim uni-
versal e transcendente.
Mas Adão pecou, e nele todos os homens pecaram. O homem
caído é um rei destronado. Continua a dominar os peixes, as aves
todos os animais da terra, continua a sujeitar as fôrças tremen-
das da natureza inanimada, mas perdeu o domínio sôbre si próprio
a orientação espontânea de todos os seus atos para Deus. Mas
Deus, não só justo como também misericordioso, apiedou-se da mi-
serável condição humana, e prometeu um Redentor ao gênero hu-
mano mediante os Patriarcas e os Profetas, o qual é Cristo, verda-
deiro Deus e verdadeiro Homem, nascido na "plenitude dos tempos"
(16). A Redenção não visa restaurar exatamente o homem no seu
estado original, mas promove-o, num mistério de graça divina, à
'condição de filho de Deus. O felix culpa (Adae), quae talem ac
lanturn meruit habere Redemptorem, canta extasiada a Igreja na
noite de Páscoa. Deus se fêz homem, tornando-se nosso irmão,
(14) . — Augustinus, De Doctrina Christiane, 1 20.
(15). — Augustinus, Contessiones, I 1.
<16). — São Paulo, Epístola aos Gaiatas, I 4; Epístóla aos Efésios, 1 10.
— 220 --

para que os homens pudessem tornar-se filhos de Deus. A Encar-


nação é o acontecimento central e decisivo da história: a irrupção
do Absoluto no mundo relativo, o encôntro de Deus e do homem.
Na visão cristã da história, todos os acontecimentos devem seu va-
lor e o seu significado a êsse fato central. Na quarta parte dêste
livro tornaremos a falar sôbre a interpretação cristã da história
(17).

III. Problemas.

O fato de conhecermos algo da origem, da estrutura e do de-


senlace do Drama histórico, capacita-nos para descobrir o plano
divino ou o sentido da história, pelo menos nas linhas gerais. Não
obstante, falta-nos um conhecimento minudente de cada um dos
acontecimentos particulares em relação ao seu último fim. Escapa-
nos quase por completo, — menos em alguns casos, diretamente
garantidos pela Revelação, — de que meios concretos Deus se quer
servir para realizar seus planos. Somos incapazes de apontar o
"dedo de Deus" em cada um dos fenômenos particulares da histó-
ria: por isso nossa decifração do "belo poema" é muito parcial e
deficiente. O pensador cristão, ao refletir sôbre a história, arrisca-
se, justamente por possuir alguns dados absolutos que lhe foram re-
velados por Deus, a usurpar um conhecimento pormenorizado dos
segredos divinos: prova-o o exemplo de tantos "providencialistas"
cristãos que, a despeito de suas boas intenções, às vêzes chegaram
a identificar sua sabedoria humana com o mistério insondável de
Deus. Reconheçamos humildemente com o sublime provérbio por-
tuguês: "Deus escreve direito por linhas tortas".
Admitida a legalidade das pretensões da Igreja Católica de
ser a única autêntica Igreja fundada por Cristo, como explicar a
revolta de Lutero e Calvir.o? a derrota da invencível Armada de
Felipe II, que parecia defender a causa católica, e portanto a causa
de Deus? como explicar que o sal da terra perdeu tantas vêzes sua
fôrça no decurso dos séculos? Sem dúvida, Deus não quer o mal, e
muito menos ainda é causa do mal (18), mas o permite ou o to-
lera, sabendo dêle aproveitar-se para realizar um bem. Muitas vê-
zes acontece, porém, que o homem não consegue perceber as con-
seqüências boas de um ato mau, ou apenas vê uma grande despro-
porção: E sobretudo tortura-o êste problema por demais humano:
por que Deus não se valeu de um método mais "racional" e "efi-
caz" para acabar com certos abusos históricos e para efetuar certo

. — Principalmente nos S 74-76.


— O mal não é para negação, mas a privação de um bem, ou a falta de uma
qualidade que uma cosa deveria possuir. Na medida em que um pecado é
ato, é real e bom e causado por Deus; na medida em que é urna privação de
um bem, é mau e tem sua origem na má vontade do homem.
— 221 --

progresso espiritual? Mais uma vez: são vãs e fúteis nossas espe-
culações, confrontadas com os eternos decretos de Deus: "Quanto
os céus estão elevados acima da terra, assim se acham elevados os
meus caminhos acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos
acima dos vossos pensamentos" (Isaías, LV 9).
Outrossim, os dados da Revelação cristã, por mais importantes
que sejam, relacionam-se diretamente com a história da eterna
Salvação do gênero humano (19) e afetam só indiretamente e de
longe a interpretação da história profana, que possui sua realidade
e sua autonomia no seu próprio terreno. Foi-nos revelado o sen-
tido de alguns atos do drama histórico, são-nos garantidos divina-
mente alguns fatos fundamentais (por exemplo, a unidade do gê-
nero humano, a Queda do primeiro homem, a educação divina do
povo eleito, a Redenção, a continuação da obra redentora pela
Igreja), mas êsses dados não nos permitem uma visão pormenori-
zadà da história humana, que continua misteriosa em numerosos,
ou melhor: em quase todos os pontos. Como explicar que "cultu-
ras" parecem nascer, florescer, murchar e morrer? como explicar
as grandes catástrofes históricas? como harmonizar, — Zn concreto,
— os fins secundários e imanentes do mundo criado com seu fim
universal e transcedente? O homem, ser histórico, não se pode ar-
rogar uma posição "meta-histórica" perante os fatos singulares do
processo histórico.
Para o fiel o dogma cristão não é um passe-partout, capaz de
resolver diretamente todos os problemas científicos que, no decur-
so dos séculos, se podem apresentar ao espírito humano. Não nos
dispensa de empregarmos nosso intelecto nem nos desanima a fa-
zermos investigações metódicas e racionais. A fé cristã não destrói
a natureza humana nem a despreza, mas a pressupõe e a levanta:
é, no dizer do Papa Leão XIII, um sidus amicum, a orientar os pes-
quisadores para certas verdades divinamente garantidas e a pre-
veni-los contra certas conclusões errôneas ou precipitadas. A scien-
tia cum fide, ideal empolgante do intelectual cristão, é autônoma
nos seus princípios e métodos, mas autonomia não é idêntica a li-
berdade absoluta ou independência completa: o pesquisador cristão
tem a obrigação de controlar os seus resultados, — possivelmente
errados, quem o contestará? — à luz da verdade revelada, que é
infalível (20). Destarte se possibilita ao cristão uma investiga-
— Em grego "soteriologia" (:soteríosalvação"); daí o objetivo: "soteriológico".
— Cf. Leo PP. XIII, na Encíclica Aeterni Patris, 21-22: In iis autem doctrinarum
capitibus, quae percipere humana intelligentia naturaliter potest, aequum plane
est, sua methodo, suisque principüs et argumentis uti philosophiam: non ita
tamen, ut auctoritati divinae sese audacter subtrahere videatur. Imo, cum corta-
tet, ea, quas revelatione innotescunt, certa veritate po/lere et quae adver-
santur pariter cum recta ratione pugnare, noverit philosophuscathoiicus se lidei
aimul et rationis jura violaturum, si conclu
sionem afiquem amplectatur, quem
revelatae doctrinae repugnam intellexerit. (Cf. também Denzinger, 1635; 1649;
1797; etc.).
— 222 —

ção científica e filosófica da matéria histórica, autônoma e subor-


dinada ao mesmo tempo.
No fundo, não pode haver contradição real entre os dados da
fé e as afirmações bem averiguadas da ciência. Car Dieu est Dieu •
partout, dans l'Eglise et dans la nature, dans le Verbe révélateur
et dans I'esprit humain... Pourquoi redouter les libres allures de
la raison, si la foi est divine? Et que craint-on de la foi en philoso-
phie, si cette même condition d'une origine commune nous certifie
d'avance le raccord? A-t-on peur que Dieu ne contredise Dieu?
Ou Dieu serait-il jaloux de I'essor de la pensée chez sa créature?
(21) . Os conflitos entre •a fé e a ciência são apenas aparentes: não
há uma "historiografia católica" e outra "não católica". O único
ideal do historiador cristão é conhecer a verdade do assunto por
êle estudado. Originam-se conflitos aparentes, às vêzes até trági-
cos, entre os dados certos da fé e algumas teorias científicas, as quais
não podem ter a pretensão de ser verdades inabalàvelmente esta-
belecidas; originam-se outros conflitos aparentes entre verdades his-
tóricas, rigorosamente verificadas, e certas opiniões tradicionais e
até rotineiras de certo grupo de cristãos em certa época histórica .
Desta última espécie de conflitos é exemplo típico a condenação
de Galileu (22) .

§ 69. O Mito do Progresso.

Desde o século XVIII tem-se manifestado uma forte tendên-


cia no pensamento'ocidental para substituir o fim transcendente e
"meta-histórico" da história por um fim imanente no próprio pro-
cesso histórico: o Progresso . Na quanta parte dêste livro preten-
demos esboçar as diversas fases históricas dessa teoria (cf. §§ 84-
104); aqui apresentamos ao leitor algumas observações fundamen-
tais.

I. O Fato do Progresso .

Há inegàvelmente certo progresso na história, e já lhe consa-


gramos umas palavras (cf. § 10). Acumulam-se cada vez mais
conhecimentos, que se vão aprofundando e difundindo; aumenta-se.
incessantemente o número de meios técnicos para dominarmos a
natureza, principalmente nos dois últimos séculos. E até no setor
moral observa-se certo progresso. Diz Maritain (23): Et même
lei niveau a monté, dis pas vie .12-10 yriale ni de rideol moral,.

. — A.-D. Sertillanges, Saint nomes d'Aquin, Paris, Flarnmarion, 1931, pág. 56.
. — Para êsses conflitos veja-se R. Aubert, The Freedom of The Catholic Historiar„
in Truth and Freedom, Duquesne University, Pittsburgh & Nauwelaerts, Lou-
vain, 1954, págs. 79-89.
(23). — J. Maritais,, Religion et Culture, Paris, Desclée De Brouwer, 1930, pág. 30..
— 223 —

mais des notions et deis sentiments qui forment comme le condi-


tionnement statique de la vie morale: structure je le sais,-
mais enfin I'idée de l'esclavage ou de la torture.. et un certain
nombre d'idées semblables, répugnent aujourd'hui spontanément,
semble-t-il, à plus d'individus qu'aufrefois. Considerado assim, a
Progresso é um fato sólido, difícil de negar e já conhecido de Aris-
tóteles, alguns pré-socráticos, Sêneca e muitos medievos, por exem-
plo São Tomás. Até podemos dizer que a certas interrupções do
progresso, que parecem periódicas, se seguem geralmente épocas
em que a marcha recomeça num ritmo acelerado.

II. Origem e Caráter do Mito.

Não é dêsse Progresso, bem visível e evidente, que pretende-


mos falar neste parágrafo: é o Mito do Progresso que nos chama ,

a atenção. E' uma herança da Éra das Luzes, que pretendia ter des-
coberto o derradeiro sentido da história por meio de uma obser-
vação racional e "científica" dos fenômenos históricos, investigan-
do-lhes as leis imanentes. Ratio liberata facit omnia nova: a Razão,
libertada dos preconceitos dogmáticos de uma fé superada e da ti-
rania de uma tradição ignorante, mudaria a face da terra . No fun-
do, o Mito do Progresso é mais uma crença pseudo-religiosa do que '

uma sólida teoria científica. Além disso, — e aí está sua grande


fôrça existencial, — é uma idéia que se tem revestido de numero-
sos elementos irracionais e emocionais, chegando a apoderar-se da
imaginação dos homens modernos pelo caminho do menor esfôrço
(24) . A teoria do Progresso falta quase por completo aos pensa-
dores da Antigüidade, sendo uma secularização de uma idéia cristã:
it is as Christian by derivation as it is anti-Christian by implica-
tion and definitely foreign to the thought ancients (25) . Embo-
ra haja, hoje em dia, poucos autores a defenderem o mito antiqüado
na sua forma radical (26), ainda continua a subsistir como um
axioma na mentalidade de muitos contemporâneos que, impressio-
nados pelas conquistas triunfantes da ciência e da técnica, delas
esperam uma melhoria integral do destino humano. As tristes ex-
periências de duas guerras mundiais e os graves sintomas da ho-
dierna decomposição moral e social não conseguiram destruí-lo.

(24). — Cf. J. Maritain, Théonas, Paris, Nouvelle Libra'rie Nationale, 1925, págs. 116-
142. — O autor brasileiro, Tristão de Athayde (..---Alceu Amoroso Lima), pu-
blicou um artigo interessante sabre o Progresso na revista francesa La Vie
lntellectuelle, XVI (1932, fasc. 1-2), págs. 54-82. — Cf. também E. Mounier,
La Petite Peur du XXe Siècle, Neuchatel — Paris, 1948, págs. 97-152; e Paul^
Ricoeur, Histoire et Vérité, Paris, Éditions du Seuil (Collection: "Esprit"), 1955,
págs. 80-102.
. — K. Ldwith, Meaning in History, The University of Chicago Press, 1950, pág. 61..
. — Assinalamos aqui apenas um artigo meio otimista de Robert C. rollock, pu-
blicado na revista americana Thought (XXVII, 1952, págs. 400-420): Freedom-
and History.
— 224 —

O Mito do Progresso consiste em pensar que haja uma evolu-


ção necessária para um fim glorioso da história, situado no tempo,
trazendo consigo o aperfeiçoamento indefinido do gênero humano
(27). Traduzido para a linguagem grosseira do povo, acaba por
significar: more cinemas, motor-cars for ali, wire1ess installations,
more elabora te methods of killing peop/e, purchase on the hire sys-
tem, preserved foods and picture papers. (28), coisas essas tão ar-
dentemente desejadas que vieram a suplantar a antiga esperança
na eterna Salvação.

III. Exame Crítico.

a) Atribuir ao processo histórico um fim imanente que tenha


significado universal e absoluto, é um contrasenso. Os fenômenos
da história são contingentes e relativos. O Mito do Progesso quer-
nos fazer acreditar numa evolução progressiva de fenômenos rela-
tivos, chegando a conceber a própria relatividade como um prin-
cípio absoluto. Se é que a história possui fim e sentido absolutos,
têm êles de situar-se além do tempo, além da história. Une réussite
historique ne saurait en effet servir de critère pour assurer la sig-
nification réelle d'aucune réalisation; des succés ainsi obtenus n'ont
auc-une en sei (29). Se a vida do homem se limitar ao
mundo histórico, todos os seus esforços para atingir o Absoluto,
serão iguais ao trabalho de Sísifo, de quem nos fala a mitologia
grega: um constante recomeçar (30), e sua existência será "vai-
dade de vaidades" (Eclesiastes, 11) ou até um absurdo, como di-
zem alguns existencialistas modernos.
•b) Porventura não somos vítimas de uma ilusão egocên-
trica, ao reduzirmos a razão de ser do passado a um instrumento
para a construção do futuro, — o que pràticamente muitas vêzes
equivale a dizer: para a construção dos tempos atuais? Já Goethe
ridicularizava, na figura do fâmulo Wagner, o pedantismo dos adep-
tos do Progresso, fazendo-o dizer: "Sinto uma delícia inexprimí-
vel ao colocar-me no espírito dos tempos pretéritos e ao contem-
plar os pensamentos de um sábio de outrora, para depois verifi-

• — Segundo os progressistas, o fim pode estar indefinidamente afastado, ou então


relativamente próximo, mas, em qualquer hipótese, é imanente, quer dizer:
está situado no próprio processo histórico, no tempo.
. — Christopher Dawson, Progress and Religinn, London, Sheed & Ward, 1938,
pág. 8.
(29). — N. Berdiaiev, Le Sens de l'Histoire, Paris, Aubier, 1948, pág. 182.
x(30). — Sísifo era filho de tolo e rei de Corinto, famoso por sua astúcia pouco escru-
pulosa. Foi condenado pelos deuses, a quem ultrajara, a rolar nos infernos
uma pedra até o alto de uma montanha; cada vez que seu trabalho laborioso
chegava ao fim, a pedra caía, e Sísifo tinha de recomeçar.
— 225 --

car com grande satisfação como estamos adiantados!" (31). Será


que os gregos só criaram e pensaram com o fim de nos deixar al-
guns elementos de que a posteridade se pudesse aproveitar, adap-
tando-os às suas necessidades? E, no plano prático: será que Des-
cartes e Newton fizeram as suas descobertas com o fim de nos
enriquecer de uma geladeira? Ficar satisfeito com a idéia de es-
tar adiantado em comparação com o nível de gerações anteriores,
não será igual a se conformar com urna triste mediocridade? Com
efeito, parece-nos mais prudente admitir com Ranke (32) que
tõdas as épocas históricas se acham à mesma distância de Deus.
Tôdas as gerações humanas tiveram, — histèricamente falando,
— um fim em, si, e não viveram por nós. Nemo alii nascitur, sibi
moriturus. O valor da pessoa humana é incompatível com a fun-
ção de ser simplesmente um elo num processo evolutivo.
Nada nos prova que o processo seja necessário, nem se-
quer nos terrenos acima demarcados. Antes, implica a livre coope-
ração do homem, que o pode efetuar e acelerar, mas também re-
tardar ou até aniquilar. Os tempos modernos vão descobrindo
cada vez mais que o homem não é um ser determinado, mas mui-
to mais um ser determinante: está sendo reconquistada a liberda-
de, embora muitos não consigam dar-lhe o devido significado; não
dizem certos existencialistas que o homem está "condenado" a. ser
livre? O progresso histórico é inconcebível sem que o espírito hu-
mano o determine e lhe dê um sentido, uma orientação para um
determinado fim. Maxitain, descrevendo o appetitus materiae,
diz: L'homme est uri. être matériel autant que spirituel et. .. dans
la mesure oà la vie des sens predomine en lui sur celle de la rai-
son, le mouvement de I'humanité est soumis aux conditions de la
matière: dans cette même mesure, lel mouvement de rhurnanité
ira vers l'autre c,omme tel, vers le nouveau, et non pas vers le
meilleur (33).
O vertiginoso progresso científico e técnico dos últimos
séculos, o qual em grande parte é responsável pelo nascimento do
Mirto, pertence, no fundo, apenas a certa sociedade histórica em
certa fase do seu desenvolvimento. Nada nos garante que seja
necessàriamente mais permanente do que as realizações de outras

. — Goethe, Faust, I 57C-573:


"Verzeiht! es ist ein gross Ergetzen,
S'ch in den Geist der Zeiten zu versetzen;
Zu schaun, wie vor uns eM weiser Mann gedacht,
Und wie wir's dann zuletzt so herrlich weit gebracht".
. — L. Von Ranke, historiador alemão (1795-1886): "Eine solche gleichsam me-
diatisierte Generation wiirde and und fiir sich eine Bedeutung nicht haben; sie
würde nur insofem etwas bedenten, als sie die Stufe der nachfolgenden Gene-
ration wãre, und würde nicht in unmittelbarem Bezug zum Güttlichen stehen.
Ich aber behaupte: jede Epoche ist unmittelbar zu Gott, und ihr Wert
beruht gar nicht auf dem, was aus ihr hervorgeht, sondem in ihrer Existenz
selbst, in ihrem eignen Selbst" (in Weltiseschichte, IX 2, Einleitung).
. — J. Maritain, Théonas (cf. nota 24), pág. 125.
— 226 —

culturas, agora desaparecidas . As fôrças mágicas da natureza, evo-


cadas pelo homem moderno, podem-no destruir a êle e a sua ci-
vilização: as potências destruidoras da bomba atômica incutem,
na humanidade moderna, não só sentimentos de satisfação e de
segurança, mas também, de grande preocupação.
e) Tampouco é universal o progresso, no sentido de não
abranger o homem inteiro, ou a sociedade inteira. Somos mais
inteligentes, mais sábios ou artísticos do que os atenienses dos
tempos de Péricles? A vida é melhor e mais humana nas grandes
metrópoles do século XX do que o era na Florença medieval de
Dante? Não somos possuidores de numerosos instrumentos compli-
cados, mas quase ignorantes quanto ao fim para o qual os deve-
mos aplicar? (34) . A unidade espiritual dos fins humanos não
está sendo suplantada por uma unidade material de meios técni-
cos? Não há certo puerilismo, ora irrisório, ora perigoso (35), em
nossa ostentação das realizações modernas? A ciência foi capaz
de nos preservar de duas terríveis guerras mundiais, dos horrores
de um campo de concentração, ou da impiedosa exploração econô-
mica? Não se verifica um processo de desumanização do próprio
homem? A sociedade hodierna não mostra graves sintomas de de-
sintegração social e religiosa? E a arte moderna não se nos apre-
senta, em muitos casos, como um grito de desespêro?
Sem dúvida alguma, seria injusto encararmos os tempos mo-
dernos só por êsses lados negativos. Mas o fato do questionário
acima preocupar muitos dos melhores espíritos da civilização atual,
prova abundantemente que nem tudo está pelo melhor em nosso
mundo super-civilizado e mecanizado. Ou, em linguagem cristã: pro-
va que continuamos fracos filhos de Adão e Eva, prevenindo-nos de
que não tenhamos ilusões futuristas a respeito de uma perfectibi-
lidade ilimitada do gênero humano. O homem nunca será deus:
por mais que progridam as artes, as ciências, as técnicas, um abis-
mo intransponível separará o mundo relativo da história, do Valor
Absoluto que é Deus. Para o cristão o único progresso importante, ou

. Transcrevemos aqui as palavras de L. Tolstoi, citadas por Leiwith, pág. 89


(cf. nota 25): Machines, — to produce what? The telegraph, — to despatch
what? Books, papers, — to spread what kind of news? Railways, — to go to
whom and to what placa? Millions of people herded together and subject to a
supreme power, — to accomplish what? Hospitais, physicians, dispensarias in
order to prolong life, — for what? — Cf. as palavras do autor brasileiro G.
Corção, in A Descoberta do Outro (Rio de Janeiro, Agir, 1952, pág. 14): "Um
aparelho extremamente bem calculado servia para f , ns exóticos e sem senti-
do... A telefonia internacional, por exemplo, em qualquer discurso é um pro-
dígio do século: na hora de funcionar não passa de uma idiotia entre outras
idiotas... Nada poderá, ainda hoje, me convencer de que uma tolice transa-
tlântica deixa de ser urna tolice"..
. — Na falta de seriedade e responsabilidade, no enfraquecimento das nossas facul-
dades críticas, no emprêgo excessivo de slogans e de propaganda política e re-
clame econômico, na superestimação dos esportes, cf. Johan Huizinga, Nas
Sombras do Amanhã, São Paulo, Saraiva, 1946 (trad. port. de um livro holan-
dês: "In de Schaduwen van Morgen") . -- Cf. § 107.
— 227 —

melhor: a única norma de um progresso autêntico, será o progresso


moral: o aumento do amor a Deus e ao próximo. Pois a moral,
— bem diferente de um moralismo mesquinho, — tem por objeto
o fim universal e transcendente de todos os atos humanos: compe-
te-lhe, portanto, um juízo sôbre cada um dos atos particulares em
relação ao seu fim universal. Mas qual é o homem, a viver neste
mundo de aparências, capaz de emitir um julgamento sôbre a mo-
ralidade de uma época histórica?
Quer se aceite, quer se rejeite esta solução, o certo é que a
história, como ciência dos fenômenos, não é capaz de dar uma res-
posta autônoma às questões suscitadas pelo questionário; tem de
buscar as normas de sua avaliação em outras regiões.

§ 70. Só Entender ou também Julgar?

Destarte passamos a outro problema: o historiador pode julgar


os acontecimentos do passado? Ou deve contentar-se em registrá-
los e, quando muito, em "entendê-los"?
O historiador como tal não é capaz de julgar. Um jul-
gamento implica necessàriamente uma escala de normas, e elas
transcendem os fenômenos. O historiador pode e deve descrever
a origem, a evolução, a difusão e a morte de centos fenômenos do
passado, por exemplo do totalitarismo ou da democracia, acom-
panhando-lhes a fôrça existencial e a repercussão que tiveram no
tempo e no espaço. Mas êsse estudo puramente fenomenológico
não nos revela nada do valor ou do desvalor dos objetos estuda-
dos. Pode ser que o totalitarismo, em certa época histórica, tenha
sido ubíquo e onipotenté: essa circunstância não lhe modifica nem
lhe diminui o caráter nefasto. Se é que o historiador tem direito
a uma apreciação normativa dos fenômenos estudados, tem de
procurar as normas em outra disciplina: é esta a filosofia ou uma
certa "mundividência", orientada ou não por uma convicção reli-
giosa. Raras vêzes acontece, porém, que um historiador apela ex-
plicitamente para os princípios da "axiologia" (36) . Em geral,
basta uma referência ligeira às opinionee communes que o autor
supõe existirem entre êle e seus leitores. Elas, em última análise,
baseiam-se num credo religioso, em certa mundividência, ou nu-
ma axiologia filosófica, sem que seja necessário dar-lhes uma ex-
pressão formal.
Outra questão é saber se é lícito que o historiador pro-
fira uma sentença, e se não deixa ilegitimamente o seu terreno ao
(36) . — Das palavras gregas "áxios" (=digno, valioso) e "lógos". — A axiologia é
portanto a disciplina filosófica que trata dos valores. A respeito dos valores
existem numerosas teorias, que não podemos expor aqui. Basta dizermos que,
no pensamento realista, o valor é uma qualidade objetiva dos sêres, o qual se
impõe por si próprio, mesmo que não seja reconhecido e apreciado como tal.

— 228 —

fazê-lo. As respostas, dadas a essas perguntas, são divergentes.


Alguns afirmam com Leopoldo Von Ranke (37) que o historia-
dor se deve limitar a descrever com exatidão como se sucederam
os fatos, naturalmente na sua concatenação causal. E Max Bloch,
inclinado a considerar os conceitos do bem e do mal como noções
de um antropomorfismo superado, diz: Qué me importa la tar-
dia decisión de un historiador? (38) Outros dizem que a história,
por ser a ciência dos atos humanos, os quais são necessàriamente
feitos em vista de certos valores, seria muito incompleta e acaba-
ria por perder o seu interêsse para a vida, se não levasse em con-
sideração os valores realizados no passado e não os julgasse. Nós
acedemos a êste parecer. Examinemos agora até que ponto o his-
toriador pode julgar.
Mais uma vez: os atos humanos têm um fim. A histó-
ria, que é a ciência dos atos humanos, é, no dizer de J. Huizinga,
a ciência finalista por excelência (39). Fala-nos de fins conscien-
temente perseguidos, e descreve-nos os bons êxitos e os fracassos.
Este rei travou uma batalha, que perdeu ou ganhou, e aquêle go-
vêrno tomou certas medidas para combater a inflação, que se ma-
lograram ou deram bom resultado. E' em vista do fim que julga-
mos os meios escolhidos e os atos sucessivos de uma série de fatos
históricos, naturalmente sempre levando em conta as possibilida-
des materiais e a mentalidade da época. A êsse respeito não exis-
te a menor controvérsia entre os historiadores: todos êles, também
os que são contrários a um julgamento, admitem, pelo menos na
prática, a legitimidade dêsses juízos.
Mas a questão muda completamente de natureza se
fizermos esta pergunta: o historiador pode julgar também os fins
livremente propostos nos séculos passados? Eis o núcleo da ques-
tão, pois aí o historiador deve emitir um juízo axiológico. Se é
verdade que a missão do homem histórico consiste em colaborar
livremente com Deus, devendo concretizar neste mundo a Verda-
de, o Bem e o Belo, o historiador, como homem, não se pode de-
sinteressar pelos valores, que constituem o alvo de todos os atos

. — L. Von Ranke: "Man hat der Historie das Amt, die Vergangenheit zu richten,
die Mitwelt zum Nutzen zukünftiger Jahre zu belehren, beigemessen: so hoher
Arater unterwindet sich gegenwãrtiger Versuch nicht: er will bloss seigen, wie
es eigentlich gewesen (na Einleitung da sua obra: Geschichte der romanischen
und germanischen Villker) — As palavras grifadas já se encontram em Lu-
cianus, Quomodo Historia Conscribenda, 41.
. — Max Bloch, Introducción a la Historia (tra. esp.), México-Buenos Aires, 1952,
pág. 110. — Ao que parece, a aversão de muitos a julgamentos históricos (por
exemplo, de Valéry e Bloch) é originada por uma pedante historiografia didá-
tica, que julga poder dar, a cada passo, prêmios e castigos e que tem a pre-
tensão ingênua de tirar ensinamentos "cientificamente provados" dos fatos his-
tóricos.
. J. Huizinga, Sobre el Estado Actual de la Ciencia Histórica, (trad. esp., de
Maria de Meyere), Tucuman, s.d., pág. 56.
— 229 —

humanos. O químico e o físico podem fazer abstração da causa


final e, por isso mesmo, dos valores dos processos estudados: são
têrmos alheios à nomenclatura das ciências naturais. O químico
não diz que o sódio faça bem em combinar-se com o cloro a fim
de fazer sal. O historiador, porém, não pode prescindir dos valo-
res, ligados inseparavelmente ao objeto do seu estudo: os atos hu-
manos. Julgá-los é um processo muito natural e quase inevitá-
vel. E' uma questão secundária e dependente de numerosos fa-
tôres (por exemplo, do seu temperamento individual, da natureza
do trabalho, do bom gôsto, etc.), quantas vêzes deve, ou pode,
proferir uma sentença. O ponto essencial é que tem o direito de
fazê-lo, achando-o necessário ou conveniente. Não negamos que
se tem abusado de julgamentos históricos: abtzsus non tollit usam.
Nem queremos defender que seja recomendável um historiador
perder o seu tempo em questões estéreis, por exemplo no proble-
ma insolúvel da felicidade humana. Um Gibbon teve a coragem
de afirmar categõricamente: /i a man were called to fix the pe.
riod in the history of the world, during which the condition of the
human race was most happy and prosperous, he would, without
hesitation, narre that which elapsed from the death of Domitian
to the accession of Commodus (40), e no mesmo sentido se ex-
ternaram um Mommsen e um Renan. Tal avaliação apodíctica
de coisas muito íntimas, que escapam quase por completo a todos
os nossos meios de contrôle, prova que julgar é uma atitude muito
humana, inextirpável até nos historiadores "despreconcebidos". Tra-
tando-se de valores políticos, artísticos e culturais, que até certo pon-
to são verificáveis e observáveis, o historiador possui o direito de
dar um testemunho pessoal, que lhe é ditado pela religião, pela
mundividência, ou pela filosofia. Pode mostrar a sua admiração
pelo nascimento quase milagroso da cultura grega, e a sua alegria
pela vitória da jovem civilização helênica sôbre as hordas invaso-
ras dos persas, em Salamina; pode elogiar as medidas administra-
tivas do Imperador Trajano, e censurar as de Diocleciano e de
Constantino. Aqui, porém, cabem umas observações.
a) O bom gôsto e o bom senso prescrevem certa moderação.
Disse Horácio com muita razão:
Est modos in rebus, sunt certi denique fines,
Quos ultra citraque nequit consistere rectum (41) . .

E' impossível indicar com precisão matemática onde está o


reto meio. De um lado ameaça o perigo de uma historiografia pou-
co discreta, barulhenta, quase sempre tendenciosa ou propagandista;
por outro lado, é pouco satisfatória uma relação árida e sêca, prin-
(40) . — E. Gibbon, The Decline and Fall ol The Roman Empire, London-New York,
1914, in: "Everyman's Library", I, pág. 78.
(41). Horatius, Satirae, I 1, 105-106.
— 230 —

cipalmente em certos tipos de trabalhos, por exemplo em biogra-


fias e em histórias da civilização. Já dissemos (§ 63 II) que o his-
toriador, ao elaborar uma síntese, se torna testemunha; agora deve-
mos frisar que deve ser testemunha sincera, ponderada, criteriosa
e equilibrada. Seu julgamento deve ser inspirado pelos fatos his-
tóricos, tais como os entende em boa consciência, e deve dimanar
lègicamente dos mesmos. Nada de elementos artificiais ou postiços.

Não dizemos ser necessário que o historiador profira jul-


gamentos explícitos sôbre os fatos do passado; afirmamos apenas
que tal procedimento, desde que seja praticado com prudência e
moderação, é perfeitamente justificável, tornando-se quase inevi-
tável em certos tipos de trabalhos históricos e, no fundo, é mais
sincero e honesto do que uma historiografia pretensamente "cientí-
fica" ou "despreconcebida". Pois esta não é uma ilusão, ou antes,
um lôgro que precisa ser desmascarado? A nenhuma obra de sín-
tese histórica pode faltar um julgamento implícito: todo e qual-
quer historiador tem de optar na seleção dos dados e na exposição
dos fatos, dando realce a uns, relegando outros para o segundo pla-
no, e silenciando outros ainda. Ora, tal seleção é impossível sem
certo padrão de valores. A historiografia moderna confessa sem
rebuço sua dependência de uma qualquer axiologia, e aí está uma
grande promessa. O importante é agora nos acertamos sôbre a na-
tureza dos "valores". Mas êsse problema é de natureza filosófica,
não histórica.

Os exemplos dados acima provam como é fácil entrarem


em nossos julgamentos certos afetos, por exemplo, alegria, admira-
ção, desprêzo, decepção, etc. O homem é espírito encarnado: é-lhe
impossível unia atitude completamente desapaixonada. Logo que
um historiador deixa o terreno seguro, mas um tanto árido, dos
"fatos materiais", fica confrontado com valores concretos, que julga
realizados ou traídos; e pode acontecer que aí perca o sangue-frio.
Ora, não estamos defendendo uma historiografia emocional ou apai-
xonada, a degenerar geralmente em declamações tendenciosas. Se
nos é impossível, — e também desnecessário, — eliminar por com-
pleto todos os nossos afetos e paixões, devemos, ao menos, esfor-
çar-nos sinceramente por controlá-los e dominá-los; para lhes con-
trabalançar os atritos eventuais, precisamos de uma constante auto-
disciplina, de um espírito crítico, e afinal, de uma grande isenção
de ânimo. Neste sentido pode-se dizer que a história vale tanto
quanto o historiador.
O julgamento não é uma sentença "meta-histórica", quer
dizer: ao proferir um julgamento, o historiador deve ter a cons-
ciência de viver em dada situação histórica, donde tem de partir
— 231 —

para apreciar os fatos do passado, que se realizaram em outra si-


tuação histórica. Portanto não pode tornar absolutas as normas
contemporâneas, ou descurar das possibilidades e da mentalidade
de outrora. E' em vista das circunstâncias concretas, e não ape-
nas à luz de princípios abstratos que os acontecimentos e as reali-
zações do passado devem ser julgados. Para tal, o historiador ne-
cessita não só de normas axiológicas, mas também de uma extra-
ordinária erudição, que lhe permita conhecer a fundo as possibili-
dades de certa época histórica, além de uma íntima "co-experiên-
cia" mental, que lhe possibilite penetrar na mentalidade dos tem-
pos idos. Caso contrário, corre o risco de se perder em especula-
ções abstratas, talvez interessantes para o político, o economista ou
sociólogo, mas completamente estranhas à historiografia, que é
essencialmente concreta.

V. Acaso poderá o historiador julgar também a moralidade


dos atos humanos do passado? Poderá relacioná-los, não só com um
bem particular (por exemplo, com as artes, as ciências, a política,
etc.), mas também com o bem universal? Aqui se torna mais de-
licado o problema. De um lado devemos reconhecer que é quase
impossível descrever os crimes de um Nero ou as barbaridades de
um moderno campo de concentração sem proferirmos espontânea-
mente uma sentença, não só contra o crime, mas também contra as
pessoas que o cometeram. Por outro lado, não compete ao homem
julgar o seu próximo. Lembremo-nos da palavra do Apóstolo:
"Quem és tu para julgar o servo alheio?" (42). Mesmo o cristão,
,que em virtude de uma garantia divina pode considerar-se em pos-
se de certas normas absolutas, deve reconhecer com Father Rank,
padre de um romance de Graham Greene: The Church knows
' all the rules. But it doesn't know what goes on in a single human
heart (43) . Podemos descobrir, em alguns casos e até certo ponto,
papel histórico que desempenharam um Lutero e um Filipe II;
da pessoa vemos geralmente apenas a máscara (44). Os segredos
do coração humano são inacessíveis mesmo para a mais indiscreta
minuciosa investigação. A regra é absoluta: jamais podemos con-
denar a pessoa do pecador . Isso não quer dizer que tenhamos a obri-
gação de silenciar ou atenuar os pecados do passado. Mas também
neste ponto nos cabe a maior cautela e reserva. O que sabemos,
afinal, dos motivos íntimos de outras pessoas que vivem conosco?
Se é verdade que o "éthos", — isto é, o gama dos ideais morais, —

. — São Paulo, Epístola aos Romanos, XIV 4.


. Graham Greene, The Heart of The Mater, Star Editions, 1948, pág. 297.
(44).. — Cf. J. Maritain, Religion et Culture, págs. 101-106.
— 232 —

varia mais ou menos no espaço de um povo para outro (45), quanto


mais é suscetível de certas modificações através dos séculos! Vir-
tudes "modernas", tais como a sinceridade na documentação (46)
ou a tolerância civil (47), ocupavam em outros períodos históricos
um lugar bem diferente na escala dos valores morais. Mais reco-
mendáveis e fecundo é que o historiador tente transporta-se men-
talmente no espírito da época estudada, procurando "um entendi-
mento", que consiste em enquadrar orgânicamente as virtudes e os
vícios no ambiente histórico e na estrutura psicológica dos indiví-
duos e dos grupos sociais. E' bem possível que dessa maneira os
grandes heróis, supostamente impecáveis, percam a sua auréola, e
que os grandes criminosos se tornem mais humanos. Pouco impor-
ta: a história não é disciplina panegírica, nem condenatória. Um
dos seus efeitos salutares é fazer-nos compreender que todo o hu-
mano é relativo, — o que não exclui a existência de normas abso-
lutas, sendo que o relativismo absoluto é uma contradictio in ad-
jecto. Mas o relativismo legítimo torna-nos conscientes do fato de
que, neste mundo, não existe o sublime sem a fraqueza, nem o
crime sem certa grandeza. Dostoïevski, o grande conhecedor da al-
ma humana, não tinha nada de um relativista: contudo, seus cri-
minosos têm algo de simpático, e seus heróis têm momentos de mê-
do, de hesitação e de fraqueza. O santo cura de Ars dizia: Je porte
en moi le principe de tous les péchés. E já o poeta latino, na éra
pré-cristã, formulou numa sentença lapidar a sabedoria humana a
respeito dos pecados de outros: Aequum est vos cognoscere et ig-
noscere (48) .

§ 71. Filosofia e Mundividência.

Os fenômenos históricos, uma vez verificados e apurados, clas-


sificados e interpretados, admitem uma síntese superior, dando ori-
gem a uma reflexão aprofundada sôbre a natureza e as causas do

. — Por exemplo, a apreciação da vida militar na Alemanha, e o desprêzo por


ela num país mercantil, como na Holanda. — Diz o Pe. Teixeira-Leite Penido:
"Países há, em que a mentira é considerada pecadilho de somenos importân-
cia. Na Inglaterra, — mormente na Inglaterra vitoriana, -- alcunhar alguém
de mentiroso era injúria grave".
. — Escreve J. Hours (in opere citato, cf. nota 3): Ne jugeons pas à /a mesure,
d'aujourd'hui les faussaires de ces temps. Pour les esprits peu formés à l'ob-
servation, attribuant à ce qui est une importante bien moindre qu' à ce qui
doit être, introduire dans les archives le document qui y manque rnalheureu-
sement, n'est pas mentir, c'est au contraire r4tablir une vérité supérieure. —
A interpretação é meio benévola, não sendo aplicável a tôdas as falsificações
da Idade Média, — alguns documentos foram forjados com grosseiras intenções
egoístas, mas revela bem a origem de numerosos espécimes de pia fraus.
. — A tolerância civil, bem diferente da tolerância dogmática, — é esta incom-
patível com o caráter absoluto da Revelação divina, — baseia-se no amor ao
próximo e no respeito pela dignidade humana; a distinção, pelo menos, na prá-
tica, é uma conquista que a Cristandade histórica fêz à custa de muitas ex-
periências dolorosas.
(48). — Terentius, Eunuchus, 42.
— 233 —

processo histórico. Essa síntese superior é muitas vêzes chamada:.-


"Filosofia da História".

I. A Filosofia da História.

O têrmo é relativamente recente: foi empregado, pela primei-


ra vez, por Voltaire, que, em 1765, deu o título de Philosophie de
l'Histoire a um Prefácio, destinado a introduzir o seu Essai sur les
Moeurs et l'Esprit des Nations, obra essa que já data do ano 1756.
Uns vinte anos depois, a mesma palavra foi usada pelo filósofo ale-
mão Herdar no seu livro: Idéias para a Filosofia da História da
Humanidade (1784) . Daí em diante tornou-se comum a expres-
são, chegando a ser adoptada por vários idiomas (49).
Para quem imagina o inteiro processo histórico determinado
por causas universais e necessárias (por exemplo, Hegel e Marx),
o têrmo "Filosofia da História" é muito natural e lógico. Para os
tomistas a situação é evidentemente diferente (50) . Entre êles, al-
guns dizem que a palavra é ilegítima, sendo que não há ciência pa-
ra o homem senão do abstrato, do universal, do necessário; ora, o
objeto da história é de natureza empírica: o particular, o contingen-
te, o concreto. No pensamento de outros, justifica-se o emprêgo
do têrmo, numa acepção larga e derivada, sendo que um conjunto
de princípios e conclusões da metafísica, da ética e da antropologia
filosófica nos pode ajudar a chegarmos a um conhecimento, embora
muito imperfeito, das profundas causas que atuam no processo his-
tórico, as quais, na sua totalidade, são apenas conhecidas a Deus.
Aceitando-se o têrmo assim, poder-se-á falar também numa filoso-
fia cristã da história. Esta, servindo-se de algumas afirmações da
Revelação além dos dados mencionados acima, será capaz de emi-
tir um certo juízo de valor sobre a história do homem em concreto,
onde se deverá distinguir o que deriva só da filosofia e o que pro-
vém da teologia. Dizia Pitágoras: "Só Deus é sábio (sophós); o
homem pode apenas aspirar ( philéin) à sabedoria" (51), e por
isso inventou o belo nome de philo-sophía.
Não queremos tomar partido nesta questão espinhosa, que dei-
xamos aos filósofos. Nossos fins são mais práticos. A quarta parte
dêste livro será consagrada à exposição de algumas sínteses supe-
riores da história, elaboradas por vários pensadores no decurso dos
séculos. E' escusável dizermos que nos devemos limitar a um es-
— Em alemão, o têrmo Geschichtsphilosophie (=Filosofia da História) é usado
também para indicar a disciplina filosófica que trata do valor do conhecimento
histórico e da metodologia histórica em geral.
— De 6 a 8 de setembro de 1952 a questão foi tema da VIM. Reunião de Es-
tudos Filosóficos Cristãos, em Gallarate (Itália). — Foram publicadas as dis-
cussões num livro R Problema della Siaria (Brescia, Morcelliana, 1953). —
Cf. o resumo na Revista Portuguêsa de Filosofia, Vol. IX, Fasc. 3, 1953, págs.
251-277.
(51)• — Diogenes Laertius, Vitae, etc. I, 12.
— 234 —

bôço rápido: seguiremos apenas as linhas mestras, devendo prete-


rir muitos pormenores interessantes. Preferimos uma exposição cla-
ra e mais ou menos documentada de alguns sistemas, a registrar e
catalogar nomes de obras e autores. Nosso intuito é incentivar os
futures historiadores a lerem pessoalmente as grandes obras, e fa-
cilitar-lhes êsse trabalho. Tal exposição pode-lhes ser útil, pois as
grandes sínteses têm exercido profunda influência sôbre a historio-
grafia; além disso, o estudo dos diversos sistemas faz-nos acompa-
nhar as peripécias da cultura ocidental, introduzindo-nos nas men-
talidades, esperanças e preocupações das épocas sucessivas. Res-
tringimo-nos deliberadamente às sínteses históricas da cultura oci-
dental: o autor não se julga competente para falar sôbre a visão da
história entre os chineses, hindus, japoneses, etc. Dos sistemas mo-
dernos, tão numerosos e tão dif'ceis de avaliar, damos sõmente qua-
tro ou cinco, que nos parecem representativos. Falando da visão cris-
tã da história, temos em mente a visão católica: também esta, ape-
sar da sua unidade dogmática, não nos apresenta uma uniformida-
de completa, mas mostra muitas divergências mais ou menos con-
sideráveis na elaboração prática dos princípios fundamentais. Não
as pretendemos discutir, tampouco como as diversas interpretações
protestantes da história, devendo remeter o leitor a outras publica-
ções (52). Diferentemente do costume adotado por muitos livros
dêste tipo, deixaremos de lado, na medida do possível, os proble-
mas filosóficos relativos à metodologia da história: já encontramos
alguns dêles na primeira e na terceira parte dêste livro. Mas pre-
tendemos focalizar principalmente estas questões: Quais são os fa-
tôres decisivos da história? a Providência, o Destino, a atividade
humana, o "Acaso"? Qual o sentido do processo histórico? ou será
que a história não tem, significado nenhum? Qual a marcha da hu-
manidade, e principalmente a da nossa 'civilização ocidental?
O terreno, mesmo que fique delimitado dessa maneira, é vas-
tíssimo e abrange elementos heterogêneos. Alguns sistemas são ins-
pirados pela teologia cristã (por exemplo, Santo Agostinho e Bos-
suet), outros têm cunho "científico" (por exemplo, Políbio e Tai-
rie), outros possuem caráter nitidamente filosófico (por exemplo,
Regei), outros se baseiam em certa mundividência (por exemplo,
Berdiaïev e Toynbee), e outros afinal partem de um mito (por
exemplo, Rosenberg). Mas lembrados da palavra de Aristóteles:
"O philó-mythos é, em certo sentido, philó-sophos" (53), tratare-

.(52). — Citamos aqui apenas alguns livros modernos: K. Ldwith (cf. nota 22); Reinold
Niehuhr (Faith and History, 1949); Karl Barth (Kircbliche Dogmatik); O.
Cullmann (Christ et le Temps, 1947). — Cf. a série de seis conferências, pro-
feridas pelo professor Otto A. Piper na Universidade de São Paulo, que agora
estão sendo publicadas na Revista de História, V 19 e seguintes, sob o título
de: A Interpretação Cristã da História.
(53). — Aristóteles Metaphysica, I 2, 8. — Cf. Strabo, Geographica, I 8.
— 235 —

mos de mitos como também de doutrinas filosóficas e de dogmas


teológicos.
Disse Alexandre Herculano: "(A historiografia) será mais útil,
embora mais difícil, do que certas generalizações e filosofias da
história, hoje de moda, em que se generaliza o errôneo ou o incerto,
e se tiram conclusões absolutas de fatos que se reputam conformes
entre si, e que, provàvelmente, mais de uma vez os estudos sérios
virão mostrar serem diversos, quando não contrários. A poesia on-
de não cabe; a poesia na ciência é absurda" (54) . E' bem compre-
ensível essa attiude cética de um historiador "prático" perante as
especulações teóricas, muitas vêzes fantásticas, de numerosos filó-
sofos, ou pseudo-filósofos, sem a mínima formação histórica. A "Fi-
losofia da História", filha do Século das Luzes e do Romantismo,
acabou por perder o seu crédito nos meados do século passado, de-
vido a freqüentes abusos e a certa corrente de "cientismo", o qual,
em última análise, é também uma espécie de filosofia. Mas a in-
vectiva de Herculano, como a de Sainte-Beuve e tantos outros, é
uma tremenda generalização, cheia de mal-entendidos. O espírito
humano não para antes de saber o último porquê das coisas, que
esteja ao seu alcance; uma vez entrado um problema na consciên-
cia humana, é impossível eliminá-lo ou negá-lo; a questão, suscitada
pela "Filosofia da História", é, no fundo, a de saber o destino ter-
restre e transcendente da humanidade; e esta questão é de suma
importância.
Na preocupação moderna pelo descobrimento do sentido da
história vemos um sinal da inquietude do homem do século XX.
Como havemos de ver, foi o Cristianismo que atribuiu um fim trans-
cendente e um valor decisivo ao processo histórico; nos séculos
XVIII-XIX, a idéia foi sendo secularizada; os tempos modernos
presenciam uma tentativa concreta de realizar um Paraíso Terres-
tre (no marxismo e, mutatis mutandis, também no capitalismo); a
experiência de duas guerras mundiais e a ameaça de uma terceira
obrigam-nos a dar contas das possibilidades e do valor da nossa
civilização ocidental; a unificação do mundo, possibilitada pela téc-
nica moderna, vai-nos confrontando cada vez mais com outras cul-
turas. Eis alguns motivos porque a "Filosofia da História" hoje é
muito atual, tornando-se um tema predileto de teólogos, filósofos,
ensaístas e até de jornalistas.

II. A Mundividência.

Já encontramos várias vêzes a expressão "mundividência",


tradução de uma palavra bem alemã: Weltanschauung. Em certos
meios usa-se também o têrmo híbrido: "cosmovisão", ou então, pre-
(54). — A. Herculano, História de Portugal, Lisboa, 8a. edição I, pág. 6.
— 236 —

fere-se uma paráfrase: "visão, ou concepção do mundo". Perg-un-


tamos agora: que é mundividência? em que pontos difere da filo-
sofia?
Mundividência ou Cosmovisão é urna visão sintética de tôdas
as coisas: o mundo, o homem, e Deus. Seu objeto material é, por-
tanto, tão universal como o da Filosofia. Entretanto, há diferen-
ças consideráveis. A filosofia é ciência teórica e especulativa; a .

cosmovisão é de natureza prática e dinâmica. A filosofia é um sis-


tema rigorosamente metódico e crítico do pensamento humano; a
cosmovisão é mais um produto de reflexão espontânea. Aquela,
mais disciplinada, é puramente intelectual; esta, menos técnica,
aquela para tôdas as faculdades humanas: a imaginação, a vontade,
os fatôres irracionais, as tendências místicas, etc. A filosofia, pelo
menos em tese, é de todos os tempos e de todos os povos: existe
uma philosophia perennis; a mundividência é, até certo ponto, con-
dicionada pela situação histórica de quem lhe adere. Logo, ela é
mais concreta do que a sua irmã, por se revestir de feições indivi-
duais que caracterizam certa pessoa ou coletividade histórica. A .
mundividência resulta muitas vêzes numa filosofia, preservando-se
assim dos perigos inerentes a um subjetivismo caprichoso. Mas não
é preciso ser filósofo para ter urna mundividência: pode ela ser ad-
quirida por qualquer um, seja culto ou não, sendo o resultado de
uma reflexão espontânea e pessoal sôbre os grandes problemas da
vida, e não o resultado necessário de uma vasta erudição. Por ou-
tro lado, a filosofia, para não perder uma influência salutar sôbre
a vida concreta, precisa ser completada por uma certa mundividên-
cia: sem ela, o filósofo perderia fàcilmente o contacto com a rea-
lidade. Segundo Max Scheler (55), uma mundividência amadu-
recida e uma filosofia vivida convergiriam no antigo ideal de vir
sapiens.
Nosso esbôço histórico demonstrará abundantemente, o quan-
to vale a mundividência nas construções da "Filosofia da História".

§ 72. A Riqueza e a Pobreza da Hisíória.

Chegados ao fim dêste capítulo, julgamos conveniente acres-


centar algumas palavras sôbre a natureza e a importância da his-
tória, completando assim as reflexões finais da primeira parte dêste
livro.

I. A Autonomia da História.

A história é ciência pouco autônoma. Já na investigação dos


fatos materiais vê-se forçada a fazer largo uso de numerosos dis-
(55) . — Max Scheler, filósofo alemão (1874-1929).
— 237 —

ciplinas subsidiares: a filosofia, a arqueologia, a paleografia, a cro-


nologia, a geografia, etc. Na síntese histórica a situação não é di-
ferente: à medida que o espírito do historiador penetrar mais a
fundo no núcleo das questões, originadas pela sua matéria, mais
obrigado se verá a recorrer a princípios superiores aos da sua pró-
pria ciência. Poder-se-ia perguntar: Que ciência é essa? Parece
que a história não passa de um conjunto mais ou menos artificial
de elementos muito heterogêneos, sem vida própria. A objeção
parece mais grave do que é na realidade. Pois:
A história estuda os atos humanos. Ora, o homem é um
microcosmo, urna unidade substancial de alma e corpo, participan-
do da vida espiritual e sujeita às leis biológicas e físicas do mundo
material. As duas esferas nele não são completamente separadas,
como queria um Descartes, mas as interrelações são tão íntimas
que, ao estudarmos as condições materiais, não podemos prescindir
da livre atividade do espírito, e ao estudarmos a vida espiritual,
:não podemos deixar de lado as condições materiais. (cf. § 65 III).
L'homme n'est ni ande ni bête, et le nialheur veut que qui veut
feire l'ange fait la bête (56). O caráter extremamente complexo
do homem concreto, de quem nos fala a história, é o que torna ex-
tremamente cómplexa a nossa disciplina, impelindo-a incessante-
mente a recorrer aos dados de outros ramos do saber humano.
Os atos têm um fim, consciente e deliberadamente pro-
posto em vista de um valor concreto que se quer realizar. Na na-
tureza inanimada os efeitos são determinados, e no reino animal
fim das atividades instintivas não é conhecido como fim. Por
isso mesmo podemos fazer abstração da causa final e dos valores
na física e na química, e até certo ponto também na biologia. Mas
historiador não pode prescindir dos fins e dos valores. Ora, os
problemas que surgem neste problema, não podem ser resolvidos
por uma observação "científica" dos fenômenos, mas precisam ser
examinados à luz da filosofia, que trata dos fins e dos valores.
c) Apesar de ser inconcebível a história sem a ajuda de mui-
as outras disciplinas, seria uma conclusão precipitada dizer-se que
ela não possua autonomia alguma. A autonomia da história con-
siste no seu método genético de estudar os atos humanos do pas-
sado. Por estudar o seu objeto material sob o aspecto da sua su-
cessão no tempo, nossa ciência distingue-se de tôdas as outras dis-
ciplinas. Eis a vida própria da história (cf. §§ 12-13).

II. A Objetividade (cf. § 33 IV).

Percoridos os principais problemas da síntese histórica, impõe-


se mais uma vez a questão da objetividade. Já vimos que o his-
<56) . — Blaise Pascal, Pensées, éd. Brunschvicg, pág. 493.
— 238 —

toriador, ao elaborar a sua síntese, é condicionado pela situação his-


tórica em que êle próprio se acha, e que, nas suas sínteses superio-
res, item de apelar, implícita ou explicitamente, para os princípios
da filosofia. Sem falarmos em fatôres inteiramente subjetivos, —
tais como o temperamento individual do historiador, suas antipa-
tias e simpatias e seu partidarismo, — podemos perguntar se a sín-
tese histórica não é apenas uma construção arbitrária e precária,
ou até quimérica. Acreditamos que não.
A filosofia é a rectrix scientiarum, cabendo-lhe apreciar os prin-
cípios e os métodos empregados pelas ciências particulares; ne-
nhuma delas se pode esquivar ao contrôle da filosofia, o qual é
mais negativo do que positivo e não afeta a autonomia das ciências
particulares no seu próprio terreno. Por motivos já freqüentemen-
te indicados, a síntese histórica precisa mais do suporte imediato e
incessante da filosofia do que, por exemplo, as ciências "exatas".
Ora, os princípios e as conclusões da metafísica não são construções
arbitrárias. If we deemly feel, as many of us do feel (though we
may think otherwise) that theology and metaphysics are not scien-
tific, this is simply because our education has induced a mood that
regards reasoning about intangibles as mere word-spinning (57). .

O objeto próprio da ciência é o universal, o necessário; os princí-


pios da metafísica são os mais universais e necessários de todos; lo-
go, os princípios metafísicos são os mais "científicos".
Também a síntese histórica possui certo grau de objetividade
e de universalidade. Podemos dizer que ela poderá ser universal-
mente aceita, enquanto não se descobrirem documentos, até agora
desconhecidos, ou não se verificarem acontecimentos que venham
aumentar as nossas experiências. Nas duas hipóteses há passagem
da ignorância ao conhecimento, não do êrro à verdade (cf. § 16
VII).
Mas logo se vê que a objetividade na história é tato ceei°
diferente da objetividade nas matemáticas ou nas ciências naturais, •

que lidam cora objetos abstratos. Quando um princípio abstrato


desce, por assim dizer, dos céus para se aplicar à realidade concre-
ta, parece que se torna um tanto confuso o nosso espírito sob a in-
fluência das nossas paixões, interêsses e instintos. Para entrarmos
dignamente no santuário de Clio, precisamos ter o coração purifi-
cado, e cumprir três ordens de categoria moral: devemos ser sin-
ceros, serenos e corajosos. Ninguém insistirá em que o matemático
encare serenamente o teorema de Pitágoras; ninguém exigirá que
o físico seja sincero ou corajoso ao estudar a eletrodinâmica. E'
que os seus resultados são universais, abstratos, exatos e unívocos,
ao passo que a história estuda os atos humanos, que são concre-
(57) . — W . R . Thompson, Science and Comrnon Sena°, London-New York-Toronto,
1947, pág. 17.
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (III)", In:
Revista de História, São Paulo, nº 23, pp 185-239, jul./set. 1955. Disponível
em: http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/023/A009N023.pdf

— 239 —

tos, únicos e finalistas. Está em jôgo a nossa concepção do mundo,


ao interpretarmos os fins livremente propostos durante os séculos
passados.
Sinceridade: jamais nos podemos desviar dos fatos bem veri-
ficados. Serenidade: jamais nos podemos deixar influenciar, cons-
cientemente, por nossas simpatias ou antipatias, por nossos afetos
ou paixões. Coragem: sempre devemos proferir a verdade, por
mais embaraçosa ou incômoda que seja a nós próprios ou ao grupo
social a que pertencemos. Ser historiador "objetivo" quer dizer:
ter a vontade de se submeter incondicionalmente à verdade dos fa-
tos; querer tomar conhecimento de tôdas as fontes disponíveis e
das várias opiniões sôbre elas formadas, sem excluir as dos nossos
adversários; aderir a nenhuma conclusão sem reflexão madura; e
afinal, testemunhar da verdade descoberta, sem temor a sem pre-
venção. Concluamos com urna palavra do Papa Leão XIII: Je-
junae narrationi opponatur investigationis labor et mora; temerí-
tati sententiarum prudentia judicii; opininnum levitati seita rerum
selectio. Enitendum magnopere, ut omnia ementita et falsa, adeun-
dis rerum fontibus, rafutentur (58).

III. Conclusão.

Destarte se nos afigura pobre e rica a história, tal como o pró-


prio homem que a criou e a investiga. Pobre, porque o homem con-
segue, com maior facilidade, conhecer o mundo quantitativo do que
o mundo complexo do espírito encarnado. "Conhece-te a ti mes-
mo" não é adágio trivial, mas uma ordem sublime, cujo profundo
significado se nos vai mais revelando na medida de nos achegarmos
do homem concreto, alcunhado por um médico francês de rhomme,
cet inconnu.
Mas, ao mesmo tempo, é riquíssima a história, e profundamen-
te humana. Torna o homem consciente da sua situação no tempo,
obrigando-o a fazer, a cada passo, perguntas do maior alcance para
a sua existência. Através dos fenômenos relativos ao passado apon-
ta para o Reino Eterno dos valores absolutos e transcendentais.

(Continua no próximo número).

JOSÉ VAN DEN BESSELAAR


Da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

(S8). — Leo PP. XIII, Seepenumero Considemntes, 17 (carta pontifical do ano 1883,
quando os arquivos do Vaticano iam ser franqueados) .
BESSELAAR, José van den. "Introdução aos estudos históricos (IV)", In:
Revista de História, São Paulo, nº 24, pp 499-533, out./dez. 1955. Disponível
em: http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/024/A011N024.pdf

QUESTÕES PEDAGÓGICAS

INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS (IV).

QUARTA PARTE

As Interpretações da História átravés dos Séculos.


Fundamentem enim aliud nemo potest ponere praeter id quod
posittun est, quod est Chtistus Jesus.
I Cor. 3, 11.

CAPITULO PRIMEIRO
, GREGOS, JUDEUS E CRISTÃOS

§ 73. A Antigüidade Clássica.

Se avaliarmos bem a duração secular da Antigüidade clássica


ou greco-romana, — é só dela que pretendemos falar nestas pági-
nas, — não nos custará compreender que a visão da história num
período de 1.300 anos (1) não pode ter sido completamente uni-
forme, mas deve ter evolvido junto com o pensamento geral, va-
riando conforme as mentalidades das diversas épocas e adaptan-
do-se às doutrinas das várias escolas filosóficas. Entretanto é le-
gítimo falarmos na visão "clássica" da história, visto que a mundi-
vidência dos povos clássicos constitui certa unidade "orgânica".
No fundo de quase tôdas as especulações dos antigos sôbre a po-
siçao do homem no mundo histórico encontramos umas convicções
fundamentais, que são características do paganismo pré-cristão, ou
talvez melhor: podemos verificar a ausência de certas noções que,
com o triunfo do Cristianismo, se foram integrando na consciência
da civilização ocidental (cf. § 75). O assunto é vasto e complexo,
e neste parágrafo podemos estudar-lhe apenas alguns aspectos (2).
Ao reconstruirmos a visão da História na Antigüidade, temos de
recorrera observações dispersas, encontradas não só nas obras de
historiadores e filósofos, mas também nas produções de poetas e
dramaturgos. Justifica-se êsse método pela circunstância de não
haver existido entre os gregos e os romanos uma disciplina filosó-
— A documentação escrita relativa à Antigüidade clássica vai de Homero (800
d. C.?) até os últ . mos representantes da filosofia pagã (expulsos de Atenas
em 529 d. C. pelo Imperador Justiniano).
— Não podemos dar aqui uma documentação copiosa: remetemos o leitor in-
teressado a um trabalho publicado pelo autor dêste livro: A Visão da História
na Antigüidade (in "Paideia", Revista da Faculdade de Filosofia, etc. do
Sorocaba, I 2 (1954), págs. 5-34). •
500

fica que tivesse por objeto particular os acontecimentos históricos.


Os antigos não conceberam uma "filosofia da história", nem sequer
a puderam conceber: a teologia cristã é a mãe da moderna filoso-
fia da história.
I. Os Fatôres que atuam no Processo Histórico.
O homem não é senhor absoluto do seu destino: tem de re-
conhecer que além de, ou antes: acima de seus intentos pessoais,
existe um Poder Superior, a favorecê-los ou a c•:ntrariá-los. Se
fazemos abstração de numerosos matizes individuais, às vêzes
consideráveis, que existem entre as diversas maneiras de interpre-
tar a atuação dêsse Poder Superior, podemós dizer globalmente
que o homem a concebe como uma livre disposição de uma única
Divindade, considerada como Pessoa, ou como uma intervenção
de muitos entes divinos (politeísmo), ou então, como uma opera-
ção necessária de um Todo Divino (panteísmo), o qual pode ser
racional e cognoscível, ou não (3). A primeira atitude é a do
Cristianismo; a segunda e a terceira, — que admitem várias for-
mas e interpenetrações, — são típicas do "paganismo", na acepção
mais ampla desta palavra. No politeísmo poderíamos ver um
pálido reflexo da transcendência divina; no panteísmo o da ima-
,

nência divina. A sabedoria pagã não conseguiu harmonizar êsses


dois atributos: jamais eliminou por completo as eivas do politeís-
mo ou do panteísmo.
a) A Mundividência de Homero.
Em Homero encontramos, não uma teoria metôdicamente ela-
borada, — seria incompatível com a concepção artística da epopéia
e com a mentalidade primitiva da época pré-filosófica, — e sim in-
tuições geniais que anunciam de longe temas centrais dos gran,
des historiadores, dramaturgos e filósofos. O poeta já vê, de modo
mais ou menos confuso, a coexistência de três fatôres que atuam
no processo histórico: a livre atividade humana, a intervenção ar-
bitrária de deuses antropomorfos, e o Destino impessoal e impla-
cável. A atividade humana tem certa autonomia: as figuras épi-
cas não são marionetes mecânicas nas mãos dos deuses. São ver-
dadeiros homens e verdadeiras mulheres; engrandeceu-os o poeta,
mas jamais os desfigurou, tirando-lhes a vida ou torcendo a verda-
de humana por causa de uma teologia. Contudo, não compreende-
mos bem nem o têrmo nem o sentido da atividade humana, a não
ser que conheçamos o mundo olímpico, onde são tomadas medidas
decisivas para o destino dos mortais. E êstes veneram piedosa-
mente os deuses, imploram-nos nas suas necessidades e oferecem-

(3) . — Há outra possibilidade: explicar o processo histórico pelo Acaso, cf. § 67 II.
— 501 —

lhes sacrifícios sem suspeitarem que os objetos da sua veneração


não merecem tais atos de confiança e piedade. Pois os deuses da
"religião homérica", concebidos de maneira grosseiramente antro-
pomorfa, são moralmente inferiores aos mortais, — pedra de es-
cândalo para muitos pagãos sérios (4). Corresponde-lhes uma Pro-
vidência antropomorfa: rancorosa e malévola, ou complacente e be-
nigna, mas sempre caprichosa, mais capaz de causar um mêdo su-
persticioso do que uma piedade religiosa. O partidarismo de Hera,
Afrodite, Marte e Atenas é completamente amoral, manhoso e pue-
ril, e custa muitíssimo a Zeus criar certa ordem nas reuniões baru-
lhentas e burlescas que, de vez em quando, se realizam nos palácios
celestes. Já (ou ainda?) percebemos certo henoteísmo (5) no
Zeus homérico, o mais alto e poderoso de todos os deuses. Quando
êle fala, treme o Olimpo e os demais deuses guardam um silêncio
respeitoso. Contudo, deveMos reconhecer que nem o próprio "pai
dos deuses e dos homens" é todo-poderoso: está sujeito à Fôrça
inflexível do Destino (Moira ou Ananke), e se o decreto da Moira,
às vêzes, coincide com a vontade de Zeus, outras vêzes é-lhe imposto
contra a vontade. Podemos verificar a divergência no canto da
morte de Heitor (Mias, XXII 209,etc.): o Tonante põe na balan-
ça o destino de Aquiles e o de Heitor, e vê com tristeza que a
Moira quer a morte do príncipe dos troianos.
b) Os Grandes Historiadores.
a) Heródoto é homem "religioso" com fortes preocupações
morais, diferenciando-se, nestes pontos, de Homero. O deus 'do
"pai da história" é um ente enigmático: to théion ou to daimánion
é transcendente ou imanente? Seja como fôr, Heródoto julga o
Universo cheio de entes divinos, isto é, na acepção antiga da pa-
lavra: sêres que merecem uma veneração religiosa da parte dos
homens. Segundo êle, não se compreende a história humana sem
a intervenção ,misteriosa dos deuses, ou então, sem a Lei imanente .
do Universo. Por mais problemática que seja a natureza da di-
vindade herodotiana, percebemos-lhe bem êste traço: é ciumenta
e vingativa (5a). Quando alguém (6) se atreve a ultrapassar os
. — Já dizia Xenófanes (século VI a. C.): "Homero e Hesíodo imputaram aos
deuses tudo quanto entre os homens é indecoroso e censurável: roubos, adul-
térios e enganos recíprocos" (frogm. 11; cf. 15) . — Veja também Heraclito,
Iram. 42, e Plato, Respublica III 377A-392B, e X 595A-608B.
. — O henoteismo é uma espécie de ' politeísmo, segundo o qual um deus entre
muitos deuses é concebido como o mais forte e poderoso.
(5a). — Não são raros, na obra herodotiana, traços de certo ceticismo e agnosticismo;
mas a Inveja dos deuses (grego Phthónos tôn theón) lhe parece fato indis-
cutível. Semelhante agnosticismo, mas de tendência diferente, seria professado
pelo historiador bizantino Procópio (in Buliam Gothicum, I 3, 6-8): "Con-
sidero eu como uma aberração louca têda e qualquer tentativa humana de
indagar a natureza divina. O homem nem sequer. atinge a verdade exata em
relação às coisas humanas. Quanto mais lhe são inacessíveis as coisas divinas!
Eu por mim nada quereria afirmar a respeito do Divino a não ser sua per-
feita bondade e sua onipotência absoluta".
. — Por exemplo, Creso, o rei. da Lídia (I 26-91), Polícrates, o tirano de Samos
(III 39-47), e Xerxes, o rei dos persas ( VIII 13, etc.).
— 502 --

limites humanos, — ou, por outras palavras, comete o grave pe-


cado de "descomedimento" (hfrbris), — cai sôbre êle a terrível
vingança divina, conseqüência inevitável da Inveja, forçando-o a
reconhecer que não passa de um miserável mortal. Daí residi-
rem a suprema sabedoria e a suma piedade, características da mun-
dividência de Heródoto (e de quase todos os autores gregos da
época "clássica"), em não querer abandonar presumidamente o in-
divíduo humano o lugar que deve ocupar no Kósmos (7), no Uni-
verso. Tal ato de insolência origina um desequilíbrio entre os ele-
mentos constitutivos do Todo misterioso, e cabe a ArêMesis (8) re-
conduzir o homem, descomedido para o seu lugar. Heródoto não
exclui o papel relevante da atividade humana (por exemplo, de Ci-
ro e Temístocles!), mas sua visão do mundo é essencialmente de-
terminada por um temor religioso, ou antes: supersticioso, ao "Di-
vino" que o homem tem a obrigação de respeitar.
/3) Tucídides acentua muito mais a livre atuação do homem

no processo histórico. E' o homem que determina, em boa parte, a


marcha da história, impondo-lhe seus fins e seus intentos. O ho-
mem é essencialmente animal ambicioso e interesseiro. Será gran-
de estadista quem souber tirar proveito dessas tendências profun-
damente humanas. Um conhecimento racional (ánóme) pode aju-
dar-nos a compreender o homem nas suas aspirações e nos seus
intentos. Aí está a grande utilidade de estudos históricos: por nos
darem informações exatas sôbre o passado, contêm ensinamentos
valiosos sôbre o futuro, o qual, em virtude da condição humana,
será igual ou semelhante ao que se passou (cf. § 3 II). A esfera
das atividades humanas vem ,a ser cortada freqüentemente por
uma fôrça irracional: o "acaso" (tyche), o qual contraria e ani-
quila as esperanças dos mortais. Um exemplo célebre de tal in-
tervenção imprevista e incalculável é a peste que assolou Atenas
nos primeiros anos da guerra do Peloponeso. O racionalista Tu-
cídides, apesar de reconhecer o alcance dessa fôrça misteriosa, não
entra em especulações filosóficas para lhe demarcar o terreno; mui-
to menos ainda lhe escapa uma palavra de censura, mesmo ao des-
crever os crimes mais hediondos da guerra. Limita-se a observar,
documentar e relatar com a objetividade imperturbável de quem
observa e expõe uma reação química. Neste ponto é muito instru-
tivo o diálogo entre os embaixadores de Atenas e os da ilha de Melos
(V 89-105): aí ouvimos expor cinicamente a lei fundamental da
História (a qual, para Tucídides, é essencialmente política e mi-

(7) . — A palavra Kdsmos significa "ordem" (com uma noção inerente de "beleza")
e "mundo", portanto: "o mundo ordenado e organizado". ,
(8). — Nêmesis quer dizer: "aquela que mede, distribui, proporciona" (as coisas a
cada um conforme lhe convém) . — Cf. Heródoto, I 43, 1: "Depois da saída
de Sólon, apoderou-se de Creso a terrível Nêmesis divina, a meu ver, porque
se julgava o mais feliz de todos os homens".
-503—

litar): a vida política é exclusivamente baseada no poder, e o


fraco, bom ou mau grado seu, tem de submeter-se ao forte; ques-
tões de direito discutem-se apenas entre partidos igualmente po-
derosos. Essa lei férrea e inalterável não foi inventada pelos ate-
nienses: procedem êles como também os melenses procederiam se
fôssem capazes de impor sua vontade a outros.
y) Políbio toma uma posição mais "científica" perante os
acontecimentos históricos, procurando "causas determinantes" e "leis
históricas". A formação do Império Romano é um processo natural,
digamos: racional, e, dadas certas causas determinantes (de ordem
física e moral), necessário. Tal como se sucedem, na história de
um povo, os vários regimes políticos num ritmo determinado (cf.
§ 65 IV, nota 7), assim se sucedem, num plano superior, os vários
Impérios. Roma liqüidou, graças à sua excelente legislação e pru-
dente organização política, o poder êmulo de Cartago e conquistou
o mundo mediterrâneo, mas, como tôdas as coisas terrestres, está
sujeita à lei da corrupção. Políbio julga-se até capaz de predizer
as catástrofes internas que ameaçam a Cidade (VI 57 e VI 9, 11) .
Torna-o melancólico a consideração das vicissitudes humanas: tam-
bém Roma ouvirá, muito provàvelmente, um dia uma sentença de
maldição, proferida contra ela por um soberbo vencedor (XXXIX
3, 6-7) . A T3'7che polibiana, que decide da sorte humana, difere
bastante da 7Whe irracional e incalculável de Tucídides: é a Hei-
marméne (9) da Estoa, a lei imanente do Universo, em última aná-
lise, racional e, portanto, cognoscível à inteligência humana, pelo
menos, até certo ponto. O historiador não ignora o que há, muitas
vêzes, de misterioso no Destino para o homem, nem subestima a im-
portância dos grandes personagens, por exemplo, a dos Cipiões (10),
mas, apesar dessas concessões, é sobretudo determinista . Nenhum
historiador da Antigüidade achegou-se tão perto dos conceitos mo-
dernos de evolução e de leis históricas como Políbio. Parece-lhe
mera superstição a religião, a qual, porém, pode prestar serviços
úteis para dominar as massas: se o Estado se compusesse exclusi-
vamente de sábios, não teria cabimentd (VI 56) .
Entre os historiadores romanos cumpre destacarmos Salústio,
que costumava introduzir suas monografias por um breve Prefá-
cio de cunho 'filosófico. O autor é moralista, mas, ao contrário de
Heródoto, não baseia sua moral explicitamente numa concepção
teológica do mundo. A moral salustiana é• cívica, austera e prag-
matista, típica de um povo de ação como era o romano. E' a
virtus que funda e cimenta os Impérios, a manifestar-se em labor,
(0) — A palavra Heimarméne é derivada da mesma raiz que Moira, a saber i•
a-mer-(= "porção"), a qual encontramos também nas palavras latinas mora
e memor.
(10) . — Polybius, Historial), X 21, 3; d. X 2-5 (Cipião-o-Velho) e XXXII 11-14
(Cipião-o-Moço) .

— 504 —

oontinentia e aequitas. Mas a posse segura dos benefícios mate-


riais, acarretados por um longo período de paz, acaba por entor-
pecer e desmoralizar os cidadãos, fazendo com que percam a he-
gemonia. Roma, por se entregar à desidia, à libido e à superbia,
vai seguindo o caminho fatal dos demais Impérios (11) . A inter-
pretação moralista da história, aliás bastante comum em tôdas as
épocas e não desconhecida dos gregos, é corriqueira na literatura
latina, e encontra-se por exemplo também em Tito-Lívio (12).
c) Os Poetas Gregos da Época Clássica.
Os progressos dos gregos no setor religioso e no campo da es-
peculação filosófica deviam resultar numa atitude mais crítica
ante os mitos imorais de Homero, e num esfôrço de reconciliar a
Necessidade( grego: Anánke) com a Justiça. Já em Hesíodo ve-
mos uma primeira tentativa de relacionar a cega Moira de Home-
ro com uma disposição justa: as três Moiras do poeta beócio são
filhas de Zeus e Têmis, a deusa das leis eternas, a prudente e justa
conselheira do Tonante. Dike é igualmente filha de Zeus, sendo a
omnipotentia supplex junto ao trono de seu pai, quando ofendida
pelos mortais (13). Se é lícito transportarmos essas figuras mito-
lógicas para o terreno de conceitos abstratos, podemos dizer que
Dike (latim: jus) é, entre os homens, a manifestação da divina
Têmis (latim: Fas): personificou-as a viva imaginação dos gre-
gos, ao passo que os romanos as concebiam como abstrações im-
pessoais.
Não podemos acompanhar nos pormenores a evolução do
pensamento religioso dos gregos: basta- delinearmos a atitude dos
grandes dramaturgos, que lutam constantemente com o problema
do mal.
a) Segundo Ésquilo (±- 525-±- 455), — poeta influenciado
P elo orfismo (14), — . existe uma Ordem divina e justa, a lei ima-
. Transcrevemos aqui o passo mais importante (Sallustius, Catilinae Conjuratio,
II 3-6): Quod si regum at que imperatorum animi virtus in paca ita ut in
bailo valeret, aequabilius atque conStantius sese res humanae haberent, negue
aliud alio ferri negue mutari ac misceri omnia comeres. Nem imper:tem lucile
iis artibus retinetur quibus • initio partum est. Verum ubi pro labore desidia,
pro continentia et aeqdtate lubido atque superbia invasora, fortuna simul
cum moribus immutatur , Ita impariam semper ad optirrrum quetnque a minus
bono transfertur .
. Titus Livius, Ab Urbe Condita, Praefatio, I 9 e 12.
. — Hesiodus, Theogonia, 901-906; cf. Opera et Dias, 256-260. — Mas em
Theogonia, 218 as três Moiras (Klothó, Láchesis e Atropos) são filhas de
Nys (= Noite), e em Plato (Respublica, X 617 C-D) elas são filhas da'
Anánke (= Necessidade), e dominam o passado, o presente e o futuro.
. O Orfismo, cujas origens remontam à época pré-homérica, era uma seita
religiosa, que começou a tomar grande surto a partir do século VI a. C.
(Empédocles, Pitégoras, Platão, etc.) . Sendo um dos chamados "mistérios"
antigos, foi-se aliando ao culto de Dioniso, ganhando assim em elementos or-
gíacos. Era uma espécie de "religião revelada", que tinha seus livros sagra-
dos. — A seita tinha uma teogonia e cosmogonia; praticava unia austera as-
cese (abstenção de certos alimentos que contêm os germes de nova vida);
acreditava na renovação periódica do mundo e na metempsicose. Contribuir*
muitíssimo para a crença na imortalidade da alma humana, da qual só os
"iniciados nos mistérios" podam gozar. Muitos pontos da sua doutrina e
da sua evolução histórica continuam obscuros.
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nente do Universo, em que o homem vem a ser integrado orgâ-


nicamente: é a Dike. Destarte o dramaturgo consegue dar fei-
ções morais e religiosas ao Destino implacável de Homero, sem
inteligência e sem amor. Mas seu esfôrço, por mais grandioso que
seja, tem algo de desesperado: como harmonizar os caprichos do
Fado com as exigências da lei moral? Como explicar e justificar
o terrível enigma do sofrimento humano? O poeta curva religio-
samente a cabeça diante dêsses mistérios, mas julga saber que-nem
sempre o pecador é punido imediatamente: o pecado de um indi-
víduo transmite-se de geração à geração, e muitas vêzes acontece
que os netos sofrem pelos crimes de seus avós (15) . Além disso,
o sofrimento possui poder purificador: as tristes experiências cons-
tituem ensinamentos valiosos para o homem (16) .
fl) Em Sófocles (496-406) percebemos a tendência de fa-
zer coincidir a Moira com o caráter do herói trágico; seus dramas,
mais "humanos" e mais psicológicos do que as tragédias "divinas"
de Ésquilo, comprovam a verdade dá profunda palavra de He-
raclito: "Para cada homem, a própria índole é seu destino" (17) .
Nenhum dos três grandes dramaturgos frisa com tanta ênfase a
harmonia universal, a que deve corresponder, por nossa parte, uma
resignação absoluta: "Os dados de Zeus caem sempre acertada-
mente" (Sophocles, fragmentum, 809) .
y) Assim como Ésquilo, Sófocles e Píndaro (18), — cada
um à sua maneira, — mostram uma posição religiosa perante os
problemas da vida, assim Eurípides (480-405) é filho do Raciona-
lismo da época dos sofistas (cf. Tucídides) . Existem, contudo,
diferenças consideráveis. O dramaturgo é um revoltado, um eter-
no inquieto, que anda torturado pelos enigmas da existência hu-
mana: é o filósofo do palco ateniense, que nunca cessa de venti-
lar seus pensamentos apreensivos. O historiador, porém, em nenhu-
ma ocasião perde o sangue-frio, e abstém-se metõdicamente de es-
peculações que ultrapassem a capacidade do intelecto humano. Pa-
ra ambos existem fôrças misteriosas, e nenhum dos dois cogita em
identificar a Moira com a Dike. Mas Tucídides, cético esclarecido,
não nos revela seu pensamento sôbre o Divino r ao passo que Eurí-
pides incrimina os deuses de crueldade, põe-lhes em dúvida a exis-
tência, impugna os mitos imorais, e se empenha em atingir uma

. — Aeschylus, Agamemnon, 7.50-781. — Cf. a pergunta dos discípulos a Jesus:


"Mestre, quem pecou, êste (o homem cego de nascença) ou seus pais?" (Ev.
João, IX 4) .
. — Aeschylus, Agamemnon, 146: páthei máthos, palavra freqüentemente citada
por A. Toynbee.
. — Heraclitus, fregm., 119.
. O poeta tebano Píndaro (518-422) acredita, como Heródoto e Ésquilo, na
vingança celeste, conseqüência inevitável da hybris humana e do phthónos
divino.
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idéia mais elevada da Divindade. Ao que parece, acredita numa


"moral laica".
d) Os Filósofos:
Os chamados pré-socráticos tinham integrado o homem nas
leis universais do Kósmos; com os sofistas (18a), o homem torna-
va-se o centro das especulações filosóficas; Sócrates (18b) e Pla-
tão, muito embora inimigos figadais do ceticismo e do relativismo
dos inovadores, consagravam um interêsse especial ao estudo do
homem, e essa atitude "humanista" seria adotada por quase todos
os pensadorès da Antigüidade. Eram intensas as especulações dos
gregos sôbre o homem: provocava-lhes a curiosidade não só o
problema do homem moral, — quer do indivíduo, quer da coleti-
vidade, — mas também a questão do homem religioso. Apesar
de todos êsses esforços, continua a existir um abismo entre os
resultados da "teologia" grega e os dados da Revelação cristã.
Platão e Aristóteles chegaram ao conceito de um Deus trans-
cendente. Mas não conseguiram eliminar por completo o politeís-
mo, questão secundária, ao que parece, para os pensadores gre-
gos, mas que os impedia, de ficarem com uma noção aprofundada
da Divina Providência. (Plato) is not troubled further, any mo-
re than another Greek would be, by the question of polytheism or
manotheism (18c). Ademais, desconheciam o conceito da Cria-
ção: um mundo que recebe a totalidade do Ser da Vontade sobe-
rana de um Deus-Pessoa, sem que nele haja uma necessidade in-
trínseca de criar e sem que haja uma matéria préexistente, —
eis uma noção fecunda em conseqüências graves, que se procura
em vão fora da tradição bíblica . A Criação é exclusivamente cris-
tã. Tous les systèmes anciens, même les plus profonds et les plus
élevés laissaient subsistes un dualisme métaphysique jamais réduit,
un élément de réalité demeurant étranger à la causalité première,
Dieu n'étant cause que de mouvements, d'arrangements, de formes,
et non pas d'être (19). Além disso, as especulações filosóficas pou-
— Os sofistas eram os expoentes do racionalismo e do ceticismo grego (segunda
metade do século V a. C.); ensinavam a "sabedoria e a virtude humanas",
indo de cidade à cidade (seu terreno principal era Atenas), e faziam pagar
suas aulas. Suas doutrinas ousadas impressionavam muito os moços, e eram
combatidas pelos conservadores. Sua atuação constituía a fase crítica do 'pen-
samento grego (superada por Platão e Aristóteles). Os principais sofistas
eram Protágoras de Abdera: ("O homem é a medida de todas as coisas"),
Górgias de Leontini: ("Nada existe; mesmo que existisse uma coisa, seria
incognoscível; mesmo que fôsse cognoscível uma coisa, seria incomunicável"),
e o enciclopedista Hípias de Tida. — As figuras de Cálicles e de Trasímaco
(cf. § 81 II e 8 109 II) talvez sejam ficções literárias de Platão. — Cf.
também § 87 III.
— Segundo Xenophon (Memorebilia, I 1, 9 e 19), Sócrates acreditava na Pro-
vidência divina; cf. também Plato, Apologia Socratis, 40-41 (com certa nota
de agnosticismo).
— W. K. C. Guthrie, The Greeks and Their Gods, London, Methuen & Co,
1954,, pág. 351.
(19) . — A. D. Sertillanges, Le Christiart:sme et Les Philosophies, Paris, Aubier,
1939, I pág. 50.
— 507 —

co repercutiram na vida religiosa da maior parte dos antigos: nao


possuiam os. sábios da Grécia o zêlo dos profetas de Israel em tes.!
temunhar solenemente o Deus uno e vivo, que nos chama imperio-
samente e a cuja chamada devemos nós obedecer incondicionalmen-
te. As massas eram deixadas entregues a um antropomorfismo gros-
seiro, a um fatalismo obsessor, ou então, a uma teurgia desesperada.
Havia um divórcio entre a religião particular dos sábios, o culto
oficial e formalista da cidade, e as crenças e praxes supersticiosas
do povo.

a) Quanto a Platão, tout est dieu ou divin chez ce trop divin


Platon: les Idées ou Formes intelligibles, l'Idée du Bien, l'Idée
du Beau, l'Intellect, l'Âme, .le Monde, les Astres, noite intellect et
notre âme à nous, sans parler (deis) dieux de la mythologie. . .
(20). O Divino Demiurgo ordena e organiza a matéria, tomando
por modêlo a Idéia inteligível, que vive em si e contém em si tô-
das as idéias inteligíveis; o mundo visível é a cópia imperfeita,
embora bela e divina, do mundo inteligível; seu movimento per-
pétuo e circular imita de qualquer maneira a eterna imobilidade
da Idéia Suprema. Levou-o o Amor a organizar o Kósmos, ao
qual procura comunicar, na medida do possível, a sua própria per-
feição. E' o Pastor dos homens, que guarda, cheio de bondade, o
mundo e tudo o que há no mundo. O Amor rege o Universo, e
a essa harmonia universal do Kósmos deve corresponder uma con-
córdia universal entre os homens (20a) . Entretanto, algo escapa
fatalmer.t4 ao contrôle divino: num processo cíclico de constante
repetição, o mundo é movido ora por uma causa externa e divina,
ora por uma fôrça cega, inerente à matéria: a Heimarméne, prin-
cípio de cobiça e desagregação. Deixado entregue às suas próprias
fôrças, estaria prestes a recair no caos informe, se o Demiurgo
não retomasse o leme, infundindo-lhe novamente a ordem e a
imortalidade. Apesar de tantas belas páginas que Platão consa-
grou ao govêrno divino, sua Providência é uma instância precá-
ria, muito diferente da Providência cristã: comove-nos a piedade
platônica, mas decepciona-nos 2 irredutível oposição entre sua
Providência e o Fado, entre a Forma e a Matéria.
/3) O neoplatônico Plotino (204-270 d. C.), distinguindo
entre a Providência e o Fado, e fazendo depender da Divindade,
tanto êste como aquela, granjeou os louvores de Santo Agostinho

(20) . A. Diès, Autour de Pluton, Paris, Beauchesne, 1927, II pág. 555.


(20a). — Plato, Leges, 711 D-E. — No Symposium, 202 D-E, Eros é um dáimon
intermediário entre os deuses e os homens, um vago pressent'mento da ne-
cessidade da Redenção. Cf. Simone Weil, Intuitions Pré-Chrétiennes, Paris,
La Colombe, 1951, e Alfred Noyes, The Unknawn God, London, Sheed 8s
Ward, 1945.
— 508 —

(21). Mas também êle não chegou à idéia cristã da Criação nem
ao Providencialismo cristão: como todos os antigos, é politeísta
(ou panteísta dinâmico?), visto que o yno (a Divindade Supre-
ma), a Mente e a Alma do Mundo são entes divinos: assim como
Deus está além do Ser, assim a matéria, privação absoluta e prin-
cípio do mal, está aquém do Ser; outrossim, a Criação não é livre
ato de Deus, mas um processo necessário de emanações divinas,
em que o Espírito,, atingindo forçosamente o limite final, se trans-
forma em matéria, o Bem no mal, e a Luz nas trevas; e afinal,
Plotino, separando a Providêncià do Uno, coloca-a na Mente Di-
vina, primeira emanação do Uno.
y) Para Aristóteles, Deus é a causa final, não a causa efi-
ciente do mundo. E' o pensamento do pensamento, inteiramente
separado do mundo (22). Se existe um movimento ascendente
do mundo para Deus, não há descida alguma de Deus para o mun-
do, o qual, no pensamento cristão, existe apenas por participar do
ser divino. Pois, se Deus é o absolutamente Separado do mun-
do, o mundo não é separado de Deus (cf. § 68 IIa), e Deus, ao
pensar-se a si próprio, conhece tudo, porque nada possui inteli-
gibilidade a não ser por participar da essência divina. Para o Es-
tagirita, porém, a matéria impensável, princípio do contingente,
do particular, do concreto, — coisas rebeldes a todo e qualquer
conceito abstrato, — não deve sua existência ao Ato Puro que é
Deus, mas é eternamente independente dêle. No seu sistema, o
Kósmos sem. Deus não é menos inconcebível do que Deus sem o
inundo. Le philosophe ne distingue pas entre le nécessaire absolu,
qui est Dieu même, et le nécessaire dérivé, qui est l'ensemble de
la création avec ses grands rouages (23). Por ser a matéria irre-
conciliável com a ordem inteligível que deriva de Deus, o mundo
histórico, que é o terreno do contingente (cf. também § 31 I, nota
2), subtrai-se à Divina Providência . Deus sublunaria rzon curat,
sendo-lhe indiferente a sorte humana. O nosso globo está sujeito
ao Acaso, ou então, a certas leis imanentes.
8) O Providencialismo fica eliminado por completo no sis-
tema de Epicuro, que "explica" o mundo pelo Acaso. Existem
deuses, sim, mas moram lá• nos imensos intermúndios sem se preo-
cuparem do destino humano. As religiões fizeram muito mal à

. — Augustinus, De Civitate Dei, X 14. — Cf. a distinção clássica de Boécio in


De Consolatione Philosophirte, IV, Prosa VI 7: Nam Providencia est ipsa
divina ratio, in summo omnium principe constituta, quae cuncta disponit;
faturn vero inhaerens rebus mobilibus dispositio per quem Providenda suis
quaeque nectit ordinibus.
. — Aristóteles Metaphysica, xo 7. — Cf. A.-J. Festugière, L'Idéal Relidieux
des Grecs et l'Évanãile, Paris, Lecoffre, 1932, págs. 54-58. — Em nossa
rápida exposição devemos simplificar um pouco os problemas; o leitor inte-
ressado poderá encontrar ampla bibliografia e exposição mais sistemática nos
livros citados nas notas dêste capítulo.
. — A.-D. Sertillange, in opere citado, pág. 154.
--- 509 --

humanidade, escravizando-a e tornando-a supersticiosa, cruel e re-


ceosa: tantum religio potuit suadere malorum! (24). O mundo
histórico, resultado do jôgo fortuito dos átomos, é uma burla si-
nistra.
E) Os Estóicos (25), renunciando ao ,Deus transcedente da
Academia (26) e da Escola peripatética (27), identificavam-no
com o mundo e interpretavam os deuses tradicionais de modo ale-
górico (28). O homem é parcela do Todo Divino, e por partici-
par de uma substância divina, tem a possibilidade e até a obriga-
ção de se integrar ná Ordem universal: naturae convenienter vive-
re. A Providência do Pórtico, ora chamada Prónoia, ora Heimar-
méne, ora T3'7che, é, em última análise, o desenvolvimento filosó-
fico, científico e sobretudo ético da Anan.ke e Moira dos tempos
primitivos, e tem só o nome em comum com a Providência cris-
tã. Diz Cícero: Nec vero universo generi hominum solum, seer
etiam singulis a dia immortalibus consuli et provideri solet (29).
Daí um' certo otimismo, embora um tanto artificial e forçado: pois
não se alicerçava numa esperança escatológica nem numa confian-
ça no govêrno justo de um Deus-Pessoa (29a), mas numa concep-
ção monista do mundo, numa moral autônoma e orgulhosa, numa
ascese austera, tornada um fim em si, e numa heróica fôrça J de
vontade que se recusava obstinadamente a reconhecer a realidade
do mal. Distinguia a Estoa entre o "interêsse do Todo" e o "in-
terêsse individual", aceitando com uma resignação admirável a
discrepância entre os dois. Diz Epicteto (30): "Que és tu? Um
homem. Se te consideras como membro separado, é conveniente
à tua natureza viveres até idade avançada, sêres rico e sadio; se
te consideras, porém, como homem e como membro de um Todo,
convém que tu, por causa dêsse Todo, ora adoeças, ora fiques ex-

<24) . — Lucretius, De Rerum Natura, I 110. — Cf. A.-J. Festugière, Épicure et ses
Dieux, Paris, Presses Universitaires, 1946.
. — Os Estóicos contituiam uma escola filosófica, fundada por Zenão e Crisipo
(séculos IV-III a. C.), que professava um materialismo panteísta e tinha
sobretudo preocupações éticas. Por reunir-se no "Pórtico" de Atenas (grego:
stoé), ficou com o nome de "Estoa".
— A Academia é a Escola de Platão: nome de uma chácara, perto de Atenas
e consagrada ao semi-deus Akádemos, comprada pelo filósofo por volta de
387, onde lecionou até o ano da sua morte (347) •
<27) . — A escola peripatética é a de Aristóteles, visto que o mestre costumava dar
aula passeando (grego: peripetéin = "passear") .
— Cf. Cícero, De Natura Deorum, 11 -24, 64. — Daí as etimologias ineptas dos
estóicos que "racionalizavam" os nomes dos deuses tradicionais, por exemplo:
Krónos (= Saturnus) = Chrónos (=- "tempo"); Juppiter = Juvans Peter.
— Cícero, De Natura Deorum, II 65, 164.
(29a). — Cf. Seneca, De Providentia, V 8: Quid est boni viri? Praebere se fato.
Grande solatium est cum universo rapi. Quitiquid est quod nos sic vivere, sic
mori jussit, eadem necessitate et deos alIigat. Irrevocabilis humana pariter
ac divina cursos vehit.
— Epictetus, Dissertationes, II 5, .25. — Epicteto 60-±140 d. \ C. ) era
um liberto, que se converteu ao Pórtico e vivia divulgando e popularizando
a doutrina da escola. Não deixou livro algum, mas seu discípulo Arriano
(também conliecido como historiador das campanhas de Alexandre Magno)
publicou os ensinamentos do mestre, servindo-se de anotações estenográficas.
— 510 —

posto aos perigos de uma navegação, ora suportes a pobreza, e


até morras antes do teu tempo". Mas os Estóicos, nas suas fre-
qüentes discussões com os que negavam a Providência, viam-se
amiúde forçados a fazer esta concessão: Magna di curant, parva
negligunt (31). Estamos longe da palavra do Evangelho: "Até os
próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados" (Mt:, X
30) .
e) O Fatalismo antigo.
A exposição anterior não deixa 'a menor dúvida: na Antigüi-
dade clássica predominava a crença no Destino, no Faturo, ao qual
nem os platônicos conseguiram esquivar-se por completo. Eis uma
das fontes do "pessimismo grego". Les grecs avaient un sentiment
si áccablant de la méchanceté des dieux, de la fatalité qui pousse
non seulement au malheur mais au crime, qu'ils ont voulu, devant
cet océan d'horreur, devant ce monde divin inexplicable, sauver au
moins quelque chose, la seule valeur qui restait à l'homme, sa li-
berte, son sens de l'honneur, sa valeur d'homme enfin (32). O
homem não é mau: maus são os deuses e o Destino, que aguardam
maliciosamente uma oportunidade de arruinar o homem, apro-
veitando-se de um êrro ou mau passo humano, ou então, fazendo-o
perder a juízo (33): nas duas hipóteses, o homem não é compfeta-
mente responsável por seus atos. Para os antigos, — globalmente
falando (34), — o pecado não está radicado na possibilidade trá-
gica de o homem dizer: Non serviam; não consiste em apartar-se
a vontade criada, consciente e livremente, da Vontade Soberana
do Criador; não afeta o núcleo mais íntimo da pessoa humana.
O mal é, por assim dizer, algo de exterior; reside fora do homem,
fora daquilo que lhe constitui o âmago da alma: na matéria caótica
e desagregadora, fatalmente sujeita ao Destino e eternamente re-
belde à influência salutar de Deus; ou .então, reside na vontade
caprichosa e depravada de deuses antropomorfos. Um só momen-
to de irreflexão, um só mau passo basta para perder irremediável-
mente o homem, sujeito que está às condições da matéria.

(31). — Cícero, De Natura Deorum, II 66, 167. — Cf. o adágio jurídico dos romanos:
Mínima non curat praetor.
(32) • — Ch. Moeller, Sagesse grecque et Paradoxo chrétien, Tourna:-Paris, Casterman,
1948, pág. 95.
(33). — E' a cegueira (grego: ate). — Cf. o provérbio latino: Deus quem perdere
vult, prius dementat (cf. Scholia in Sophoclis Antigonen, 620).
<34). — Cf. Ch. Moeller (in opere citato, pág. 93, nota 1): Seul Euripide a entreva
le "video meliora proboque, deteriora sequor" (Ovidius, Meternorphoses, VII
20-21; cf. Rom., VII 21)... Aristote a vu la même chose dans se critique
de la vertu-scIence (de Sócrates, cf. § 75 II). Mais c'est là une vue apore-
dique, restée sans écho. Elle ne va pas au delé, du reste, d'une constatation
de fait, sur la difficulté de suivre "le juste" quand on i'a vu. Il n'y a pas
sentiment de l'impuissance totale à feire le bien. Jamais un grec n'aurait
ima,giné pareille "détréliction" de I'homme... — Cf. também L. Rougier,
Celsa, ou Le Conflit 4e la Civilisation Antique et du Christiardsrne
Paris, Editions du Siècle, 1925, págs. 67-75.
— 511 —

O milagre do humanismo greco-romano está no fato de se


afirmar com ênfase, a despeito dessa mundividência sombria, a
dignidade humana. Os antigos, confiantes no "valor humano" (gre-
go: areté, latim: virtus), não se deixavam possuir de um desespêro
enervante, mas, moderando suas esperanças e circunscrevendo-se
nos limites intransponíveis da existência humana, sustentavam um
ideal francamente humanista, que os habilitava a enfrentar cora-
josamente os contratempos da vida e até a morte. Pôsto que sejam
cruéis os deuses e implacável o Destino, o homem é um raio de
luz. na vasta escuridão do Universo. O homem é superior a essas
fôrças misteriosas sem amor e sem piedade, o homem pode ser "belo
e bom" (kalokagathós, cf. § 92 III a, nota 93). E tudo nos leva a
crer que êsse ideal não era construção especulativa de filósofos e
artistas, mas tinha as suas raízes nos instintos do povo (35). En-
tretanto, o homem é mortal, e ao mortal cabem pensamentos de um
mortal: .é ato de 173',bris ter aspirações sobre-humanas ou absolutas.
Por isso, o "ethos" grego, por mais heróico que seja, é inseparável
de certa moderação (sophrosfrne) e resignação; traz em si uma no-
bre melancolia, não inativa ou inerte, mas varonil e realista; o ho-.
mem grego renuncia deliberadamente à esperança de jamais po-
der atingir o Absoluto; seu equilíbrio não é devido à falta de tensões
psíquicas, mas é o resultado feliz de um intenso esfôrço para criar
um mundo verdadeiramente humano e uma vida que valha a pe-
na de ser vivida (grego: bíos biotós) . E' incompleto o ideal gre-
go, bem o sabemos: faltam-lhe a contrição, a inquietude, a humil-
dade e a esperança, potências humanas que foram despertadas pe-
lo Cristianismo. A Hélade é uma promessa, um preâmbulo, uma
ânsia sincera por um humanismo autêntico e integral; não é o apo-
geu absoluto da história humana, e seu politeísmo não merece as
lágrimas de poetas românticos (35a). A Grécia moldou a cultura
humanista do mundo ocidental, uma cultura que depois seria inspi-
rada e batizada pelo Cristianismo: por isso não podemos evocá-la
sem sentimentos de gratidão e ternura. E o homem técnico e meca-
nizado do século XX pode encontrar, na pátria do humanismo oci-
dental, um poderoso corretivo à uma barbárie civilizada (35b).

(35). — Revela-se a nota de equilíbrio, de moderação e de resignação em quase tôdas


as realizações do gênio grego: na literatura, na arquitetura, na filosofia, nas
artes, nos provérbios, etc. "Nada demasiadamente" e "Conhece-te a ti mesmo"
são as divisas da civilização helênica, principalmente na época clássica.
— Cf. A. de Musset, Prologue de Rolla, o poeta alemão Fr. Von Schiller, Die
Giitter Griechenlends (= "Os Deuses da Grécia"), e muitos outros, que so-
nhavam com "o belo mundo pagão, alegre e inocente". — Cf. também Nietzsche,
§ 109 III.
Cf. os livros interessantes de Sir R. W. Livingstone, Greek Ideais and Mo-
dem Life, London, Oxford University Press, 1944 3 e The Greek Genius and
Ita Meaning to Us, London, Oxford University Press, 19333.
— 512 —

II. O Sentido da História. -


Os antigos não conheciam um fim transcedente da história
(35c). Mesmo para os que acreditavam na imortalidade da alma
(35d), o além-túmulo era concebido de maneira bem diferente
do céu cristão: ou desconheciam a imortalidade da alma indivi-
dual, ou então concebiam o além-túmulo, não como o fim absoluto
e definitivo .da vida terrestre, mas apenas como uma das fases de
um processo cósmico de eterna repetição (35e). E para a grande
maioria, enquanto não duvidasse da sobrevivência ou não a negas-
se (36), a alma de um falecido não passava de uma "sombra" a
levar uma existência obscura e triste no Inferno, e a nutrir sau-
dades impotentes da vida "real" neste mundo (37) . A crença na
imortalidade da alma exercia pouca influência sôbre a moralidade
das massas: estas procuravam garantir a felicidade futura em
iniciações mecânicas, ou numa teurgia ocultista. Por outro lado,
cs antigos não imaginavam um fim' imanente da história: um He-
gel, Marx e Comte são figuras desconhecidas da sabedoria greco-
romana, o que vem confirmar a tese de que êsses filósofos, mau
grado seu, devem muitíssimo ao seu ambiente judeo-cristão.
a) O Progresso.
Os gregos e os romanos nunca sonharam com a perfectibili-
dade progressiva e ilimitada do gênero humano, nem tinham ilusões
a respeito de um futuro paradisíaco que desse sentido universal ao
processo histórico. Sem dúvida, conheciam o progresso das artes
e das ciências, — aliás, um fato bem observável e saliente. Já o
pré-socrático Xenófanes observava: "Ao princípio, nem tôdas as
coisas os deuses ensinaram aos homens; mas pouco a pouco vão
êles descobrindo o melhor" (38). E Sêneca afirma: Veniét tem-
pus quo posteri nostri tam aperta nos nescisse mirentur (39).
— Devemos fazer uma exceção para os persas, que desde os tempos de Zoroastro
(século VI a. C.?) ader'am a um dualismo radical, admitindo a existência de
dois Princípios coeternos e não criados: Ormuzd ou Ahura Mazda (o Bem) e
Ahriman (o Mal). Os dois repartem entre si, não sem tremendas lutas, tôdas
as coisas do Universo, e cada homem tem de optar por um dêles. A história
humana não é nada mais senão a luta sem trégua entre êsses dois Princípios, mas
no fim, o Mal será vencido definitivamente, e será criado um novo Universo
de Luz e Verdade. — Este dualismo absoluto (segundo alguns, uma evolução
posterior da doutrina de Zoroastro) seria adotado, na éra cristã, por várias
seitas gnósticas, principalmente pelos maniqueus (cf. § 76 I a, nota 15).
— Alegamos aqui um só/epitáfio (CIL, VI 11252, 3-5):
Sed mea divina non est itura sub timbras
Ceelestis anima. Afundas me sumpsit et astra.
Corpus habet tellus et sazum nomen inane.
<35e). — Cf. Pinto, Respublica, X 614B-621D; Vergilius, Aeneis, VI 724-751; etc.
— Cf. CIL, VI 26003 (outro epitáfio):
Nihil sumus et fuimus mortales. Respiee factor.
In nihil ab nichilo quem cito recidirnus.
— Diz Aquiles a Ulisses no inferno: "Eu preferiria ser humilde empregado de uma
pessoa sem muitos bens na terra a ter o domínio sôbre todos os mortos no
Hades" (Odyssea, XI 489-491).
— Xenophanes, fragor, 18. — Quanto à evolução biológica, veja Anazimander,
(In Diais, A 30).
— Seneca, Quaestiones Naturales, VII 25, 5.
-513—

Contudo, o Progressismo moderno, que atribui valor absoluto aos


acontecimentos relativos da história, é alheio ao pensamento an-
tigo, o qual era mais fatalista, menos otimista, e frisava, antes de
mais nada, a necessidade
, de ser o homem moderado nas suas as-
pirações. Sófocles canta o poder do homem: "Há muitas maravi-
lhas; nada, porém, é mais maravilhoso do que o • homem" (40).
O homem atravessa os mares, cultiva os campos, domina as feras,
constrói cidades e organiza-se em sociedades. Mas as conquistas
não são ilimitadas: o homem tem de morrer, não podendo escapar
ao Hades inevitável. Outrossim, vai tanto para o mal como para
o bem: o domínio sôbre a natureza não o premune contra a lij',bris,
o pior de todos os pecados.
b) O Mito de Prometeu.
Em Hesíodo (41) lemos o mito de Prometeu, elaborado de-
pois por vários autores, entre os quais pelo dramaturgo Ésquilo
(42) numa das suas trilogias. O mito é significativo, não só da
mentalidade grega, como também de muitos outros tipos de "paga-
nismo". Prometeu, filho de um titã e primo de Zeus, é o amigo
ardiloso e hábil dos homens, ajudando-os na sua luta contínua
contra o regime tirânico do Tonante. Por isso aconselha-lhes que,
ao sacrificarem um boi ao pai celeste, reservem para si as melho-
res partes da vítima e ofereçam a Zeus apenas os ossos, envoltos
em camadas de banha; quando Zeus percebe o lôgro, retira o fogo
aos mortais, mas Prometeu consegue roubá-lo do céu, benefician-
do outra vez a humanidade. O titã possui também o dom divinató-
rio: sabendo que Zeus pretende enviar ao mundo uma mulher,
Pandora, para punição do gênero humano, adverte seu irmão, Epi-
meteu (43), da catástrofe iminente, avisando-o contra todo e qual-
quer presente de Zeus. Mais tarde, sabendo que o Olímpico quer
destruir a humanidade por meio de um dilúvio, exorta seu filho,
Deucalião, a construir uma arca para ficar salvo das águas. Eis
alguns benefícios que a astúcia de Prometeu trouxe aos homens:
alguns dêles são permanentes, e outros frustram, em parte, os si-
nistros planos de Zeus. A interpretação "clássica" do mito não é
uniforme, mas varia, ao que parece, conforme os autores e as épo-
cas; visto que se perderam muitas fontes relativas ao nosso assun-
to, é um tanto precária a reconstrução do seu significado no

— Sophocles, Antigone, 332-375.


— Hesiodus, Theogortie, 508-616; Opera et Dies, 50-105.
(42) . — Alguns filólogos põem em dúvida a autenticidade do drama (por critérios in-
ternos), atribuindo-o a outro dramaturgo mais recente (por volta de 450 a.
C.). — Para o mito de Prometeu na elaboração platônica, cf. Plato, Protegeras,
320C-323D.
(43). — Epimeteu, porém, não obedeceu, mas casou-se com Pandora e gerou Pirra, a
futura espôsa de seu primo Deucalião, filho de Prometeu e da ninfa Clímene
ou Celeno. — O nome "Prometeu" significa: "o que pensa antes", e "Epime-
teu" quer dizer: "o que pensa depois".
— 514 —

mundo grego. Mas podemos dizer com bastante verossimilhança


que o Prometeu "clássico" é muito diferente do Prometeu "român-
tico" (44): não é o eterno revoltado nem o definitivamente eman-
cipado do jugo dos deuses, mas reconcilia-se com o pai celeste,
garantidor da •Ordem Universal, e submete-se às leis razoáveis do
Kósmos. Jamais o homem será deus. Não mostravam os gregos
uma admiração incondicional, — embora muita simpatia, — pela
figura do rebelde Prometeu, nem aprovavam uma concepção "pro-
metéica" da cultura humana. Atrever-se a desafiar a Deus era ato
de 113',bris, e falta de sophrosyne.
Contudo, o mito é significativo por nos revelar certo dualis-
mo no seio da própria divindade, idéia essa que, por mais errônea
que seja, sobrevive nos tempos modernos, e é típica de certo "pa-
ganismo". O pagão de uma cultura primitiva esforça-se por pro-
curar meios para conjurar o Destino ou os caprichos dos deuses,
mediante a magia, e para saber o futuro, mediante oráculos e ho-
róscopos. O pagão de uma civilização adiantada tem a esperança
de poder eliminar o Grande Mistério e de se tornar senhor absoluto
do seu destino, mediante o estudo metódico das leis imanentes do
mundo. Segundo muitas mitologias, o homem estaria envolvido
numa luta desesperada e sem trégua contra Deus, furtando-lhe
ardilosamente os segredos e forçando-o imperiosamente a obedecer
aos esquemas humanos. Luta desigual e, na realidade, inexistente!
O homem não é parceiro de Deus, sendo absurda uma competição
entre o Criador e a criatura. Tôdas as conquistas do homem são
"humanas", isto é, devem sua existência a Uma investigação autô-
noma da natureza (não idêntica à divindade!) pelo homem, e são
igualmente "criaturas", isto é, não poderiam realizar-se sem o ato
criador de Deus, do qual dependem tôdas as coisas extra-divinas,
— também a cultura humana, — na sua essência e na sua exis-
tência. E tôdas as conquistas humanas têm por fim derradeiro a
glorificação de Deus mediante a perfeição das suas criaturas. A
majestade divina não admite nenhum deus competidor, e não
se avilta a ponto de ter ciumes das obras realizadas por suas cria-
turas: o plano divino é incomensurável com os planos humanos.
Separar em Deus o Amor do Poder, é um conceito inaceitável pa-
ra o cristão: o Deus único é o Transcendente, o Todo-Poderoso, o
livre Criador do mundo e, ao mesmo tempo, o Onipresente, o Amor
que rege intimamente tôdas as coisas. O cristão não vê um tirano
em Deus, mas o adora como o tremendo Onipotente e o venera co-
mo o inefável mistério de Amor. Por afirmar com igual ênfase o
amor poderoso e o poder amoroso em Deus, — muito embora a

(44) . — Prometeu tornou-se figura predileta da época do Romantismo: Goethe (balada),


Shelley (Prometheus Unbound, 1820), e Beethoven (Die Geschdpfe des Pro-
rnetheus, 1801) .
— 515 --

realidade divina seja incompreensível para nossa inteligência, —


o Cristianismo rejeita resolutamente urna dialética "prometéica"
entre Deus e o mundo. O sublime paradoxo cristão é a combina-
ção de temor piedoso e de amor confiante. Não obstante, a cren-
ça mitológica subsiste ainda em alguns meios modernos gire têm
a ilusão de se poder emancipar da "tirania" de Deus pelas ciên-
cias e pela técnica. L'erreur de Pesprit mythologique est de croire
que, sous les coups de la science, dast Pimage de Dieu qui s'écroule,
alors que ce sont uniquement ses caricatures (45).
A Teoria da Degeneração.
Os antigos não tinham ilusões futuristas, mas sonhavam com
um Paraíso Terrestre, no comêço da história. Um lugar comum
da poesia clássica, principalmente da latina, era a crença na cons-
tante deterioração da humanidade (46). Cantava Horácio:
Damnosa quid non imminuit dies?
Aetas parentum, pejor avis, tulit
Nos nequiores, mox daturos
Progeniem vitiosiorem (47).
A idéia remonta, em última ánálise, a Hesíodo que distingui-
ra entre cinco gerações de homens ou idades do mundo, a mostra-
rem um processo quase ininterrupto de corrupção progressiva (48).
Na idade de ouro, ou de Saturno (= grego: "Krónos"), os ho-
mens, justos e piedosos, não precisavam trabalhar, visto que a ter-
ra tud9 produzia espontâneamente: reinava a paz universal. Na
idade de prata, os mortais se revoltavam contra os deuses. A épo-
ca de bronze era um período de guerras contínuas entre os homens.
Na idade "heróica", um breve intervalo de recuperação relativa,
os Aquiles e os Adrastos marchavam contra Tebas e Tróia. A
quinta, a de ferro, é a pior de tôdas: o poeta lamenta estar con-
denado a viver neste período, em que não há respeito pelos direi-
tos humanos nem piedade para com os deuses. A essa visão pessi-
mista da história o poeta acrescenta o mito de Pandora, a Eva da
mitologia grega: tôdas as boas dádivas, com que enriqueceram os
deuses a primeira mulher, foram-se esvaecendo, ao abrir-se a cai-
xa, exceto a Esperança, a qual, no pensamento de• Hesíodo, é mais
um mal do que um bem: a Ilusão (49).
Os Ciclos históricos.
Entretanto, a lei da constante corrupção de per si não dava a
derradeira explicação do processo histórico: fazia parte de uma
— P. Rostenne, La Foi des Athées, Paris, Plon, 1953, pág. 83; Cf. Paul Ricoeur,
Histoire et Verité, Paris, Éditions du Seuil, págs. 86-87.
— Por exemplo, Ovidius, Metemorphoses, I 89-150 (4 períodos); Aratus, Pheeno-
mena, (3 períodos); Tibuilus, Elegiae, I 3, 35-50 (2 períodos).
— Horatius, Carmina, In 6, 33-36.
— Hesiodus, Opera et Dies, 109-196.
— Ibidem, 50-105.
— 516 --

lei mais ampla, a lei do movimento circular de geração e corrup-


ção. Ao cabo de certo número de anos perecerá êste mundo, mas
nascerá outro, que será uma cópia mais ou menos exata dêste; ter-
minado o segundo, iniciar-se-á o terceiro, e assim por diante, usque
in infinitum. Repete-se a história a todo o transe. Esta teoria,
que nos parece tão estranha, tão esquisita, -não se limita ao perío-
do do declínio da cultura antiga, mas se nos apresenta também
no apogeu do seu poder criador, e manteve-se em vida até o fim
da Antigüidade. Aliás encontrâmo-la também em numerosas ou-
tras civilizações (50). Já Hesíodo (51) se refere a ela, e muitos, qua-
se todos os filósofos da Antigüidade clássica, lhe deram sua adesão,
adaptando-a, de uma ou de outra maneira, ao seu sistema: os pré-
socráticos, Platão, Aristóteles, os pitagóricos, os estóicos, os epi-
curistas, os neoplatônicos, etc. A teoria, que admitia vários mati-
zes individuais, impossíveis de expor aqui, encontrâmo-la, na sua
forma mais radical, entre os pitagóricos e os estóicos . Segundo
aquêles, diz Eudemo: "Eu vos narrarei a mesma história com o
mesmo bastão na mão, e vós estareis sentados, como estais agora,
e tôdas as coisas se verificarão do mesmo modo" (52). E os Es-
tóicds: "Haverá outra vez um Sócrates e um Platão como também
cada um dos homens que com êles viveram, e os mesmos amigos
e concidadãos. Todos êles terão as mesmas experiências..., e
isso acontecerá não só uma vez, mas muitas vêzes, ou melhor: ês-
se processo de repetição não terá fim" (53) .
Chamava-se Magnus Annus (grego: "téleos eniautós")"o pe-
ríodo multimilenário da duração de um mundo, em cujo inverno
devia ocorrer uni dilúvio e em cujo verão devia realizar-se uma
conflagração mundial. Ao nascer um' novo mundo, todos os as-
tros deviam ocupar a mesma posição que ocuparam ao iniciar-se o
primeiro mundo, ou então, — na hipótese de ser eterno o mundo,
— ao iniciarem todos os mundos anteriores. Por meio de obser-
vações astronômicas, alguns se julgavam capazes de calcular a. du-
ração de tal Magnus Annus, mas os resultados dêsses cálculos eram
muito divergentes: uns acreditavam em períodos de 10.000 anos
solares, outros em períodos de 12.000, 15.000, 18.000, ou muito mais
anos ainda.
A lei do Eterno Retôrno pressupõe a existência de um mundo
eterno, — ou, pelo menos, de uma matéria eterna, — mas visto
que êste mundo não é inalterável, torna a ocupar, peribdicamente, a
mesma posição. Para o pensamento grego, o mundo, — ou uma

(50) • — Por exemplo, na China, na Mesopotêmia, na índia, etc. — Cf. Paul Duhem,
Le Sysferne do Monde, Paris, 1913, Vols. I-II.
— Hesiodus, Opera et Dies, 174-175: "Oxalá, não pertencesse eu a esta geração,
mas tivesse morrido antes ou nascido depois!"
— Eudemus, fragm. 51 (in Fragm. Philasophorom Graecorum, ed. Mullachius,
III pág. 250; cf. C. J. de Vogel, Greek Philosophy, Leiden, 1950, I pág. 11).
— Nemesius, De Nature Honainis, 38.
— 517 —

matéria, cuja existência é independente de Deus, — é tão neces-


sário como o próprio Deus: os antigos não tinham uma idéia acer-
tada da contingência por não possuírem uma noção aprofundada
da Criação; destarte não viam que só em Deus, o Ipsum. Esse, a
existência coincide absolutamente com a essência. Não precisa-
mos insistir em que a crença em ciclos históricos de natureza cós-
mica não podia resultar numa "filosofia da história": para os an-
tigos, a própria sucessão no tempo torna-se um conceito relativo,
e até enganador, visto que seu movimento progressivo é simultâ-
neamente um movimento retrógrado, quer dizer, ao ponto de par-
tida. Diz Aristóteles que a questão de saber se somos posteriores
ou anteriores à guerra troiana tem pouco cabimento, já que todos
os acontecimentos se efetuam num eterno ciclo de repetição (54).
A Missão de Roma.
Segundo alguns, a missão civilizadora de Roma, tema predileto
de 'tantos poetas, retores e historiadores (55), teria sido um dos
elementos que contribuiram para os antigos irem procurar o "sentido
da história". A Pax Romana, — como hoje em dia, a Pax Americana,
ou a Pax Russica, — teria sido concebida como a gloriosa época
final da história, que pudesse dar sentido ao processo histórico.
Acreditamos nós que tal opinião é um anacronismo, não abonado
pelos textos. Apesár de tôda a veneração que os romanos tinham
pela Urbs Aeterna (56), não tinham visões apocalípticas, compará-
veis às de alguns profetas modernos. No fundo, os panegiristas de
Roma esperavam a volta periódica da idade do Saturno (nos fins
da República e nos tempos de Augusto, por exemplo Vergílio e
Horácio), ou idealizavam os benefícios do Império Romano o qual
viam ameaçado pelas ondas invasoras de bárbáros (durante a Gran-
de Migração dos Povos, por exemplo Rutílio Namaciano e Clau-
diano), ou então, eram cristãos e acreditavam que a missão histó-
rica de Roma consistia em preparar o caminho para a chegada do
Reino Universal de Cristo (por exemplo, Ambrósio e Prudêncio) .
Só neste último caso, poderíamos falar num significado definitivo
do processo histórico.
A Visão Cósmica da Histórica.
Os antigos viam no processo histórico um fenômeno cósmico.
Assim como o Kásmos apresenta lei de um eterno nascimento,
crescimento e morte, assim dévia também a história estar sujeita
à lei do Eterno Retôrno. Tal como outra Fênix (56a), o mundo
— Aristoteles, Problemeta, XVII 3.
— Lembramos aqui apenas as célebres palavras de Vergílio: Excudent alii spi-
rezaria mollius aere. etc. (Aeneis, VI 847-853).
— A expressão encontra-se, pela primeira vez, em Tibullus, Elegiae, 5, 23-24.
(56a). — Para a lendária Fênix, veja Herodotus, Histories, II 73; Ovidius, 1;feramorphoses,
XV 392-407; Tacitus, Aluirdes, VI 28; etc. Os astrólogos relacionavam o re-
nascimento periódico dessa ave com o Magnas Annus.
— 518 —

morto devia renascer das suas próprias cinzas. Numerosós mitos,


de origem diferente, mas de tendência semelhante, exprimem essa
atitude do homem antigo ante seu destino, — outra fonte de pes-
simismo! A religiosidade greco-romana conhecia vários "salvado-
res": Dioniso, Orfeu, Osíris, Mitra, etc., mas todos êles são figu-
ras vinculadas, presas que estão ao próprio processo cíclico da
natureza. Daí lhes ser comum a todos êles uma nota de profunda
, melancolia. Desconheciam os antigos a alegria dos filhos de Deus,
porque nada sabiam de uma salvação fora dos ciclos cósmicos.
Assim compreendemos a amarga sentença do poeta Teógnis: "O
melhor para o homem é não ter' nascido e não enxergar os raios
do sol; depois disso, atravessar quanto antes o limiar do Hades e
jazer no túmulo" (57); assim podemos situar o tom pessimista de
inúmeros autores clássicos desde Homero até o fim da Antigüida-
de. O maior grau de piedade, acessível a um pagão, era dissolver-
se resignadamente no Pan, no Tudo incompreensível, constituído
pela Natureza, da qual o Bem e o Mal faziam parte integrante, do
mesmo modo que o dia é inconcebível sem a noite, e a vida sem
a morte. Vivendo sem esperança num fim escatológico definitivo,
mas não como desesperados; lutando heròicamente contra o Des-
tino, mas não como revoltados, quiseram salvar a dignidade ', hu-
mana, isentando o homem do mal ubíquo no Universo. Inegável-
mente tem algo de grandeza impressionante o ideal antigo, mas a
atitude um tanto forçada devia resultar amiúde num taedium
vitae, confessado francamente por Sêneca: Omnia sic transeunt
ut revertantur. Nihil novi Meio, nihil novi video: fit aliquando et
hujus rei nausea. Multi sunt qui non acerbum judicent vivere, sed
supervacaneum (58).
Concluamos êste parágrafo com a interpretação simbólica, não
filológica, de uma fábula transmitida por Plutarco (59) . Diz o
autor que, sob o reinado do Imperador Tibério, certo Tamus, ca-
pitão de um navio egípcio, navegava ao longo da costa da Grécia.
De repente ouviu, em presença de muitos navegantes, o grito mis-
terioso: "O' Tamus, ó Tamus, morreu o Grande Pan!" e recebeu
a ordem categórica de comunicar a infausta notícia a certo pro-
montório. Obedecendo à voz sobrenatural, Tamus levou a infor-
mação ao lugar indicado, e aí pôde ouvir, como todos os seus com-
panheiros, as lamentações dolorosas de muitas pessoas que, no con-
tinente, choravam a morte do grande Pan. Tornou-se tão conhe-
cido o fato que o próprio Imperador o soube e fêz questão de rece-
ber pessoalmente o capitão a fim de investigar quem era Pan
de quem falara a voz. Os cristãos interpretaram o conto como

(57) . Theognis, Elegiee, 425-428. — Cf. Sophocles, Oedipus Coloneus, 1225-1227.


(58). — Seneca, Epistolas ad Lucilium, XXIV 26.
(59) . — Plutarchus, De Detecte Oreculoruzn, XVII.
— 519 —

uma referência à morte de Jesus, como uma espécie de revelação


sobrenatural do Drama do Calvário aos pagãos. Tal opinião está
hoje abandonada. Entretanto, a lenda Possui grande valor simbó-
lico. Com a morte de Jesus, morreu, de fato, "Pan", o Universo
etérno e divino do paganismo, e ficou salvo o homem dos vínculos
do Kósmos. Cristo quebrou o encanto dos ciclos históricos, natu-
ralizando a natureza, humanizando o homem, e divinizando a
Deus. Poderíamos acrescentar: dando sentido e importância aos
acontecimentos particulares da história". "Morreu o Grande Pan!"
Sua morte é o ponto de partida de um novo humanismo e de uma
gloriosa liberdade (59a) .

§ 74. A visão da Bíblia.

O lugar, ocupado pelos judeus entre os povos antigos, era


insignificante: medíocres nos parecem suas realizações culturais,
comparadas com as de Hélade, e pouco extensas e duradouras suas
conquistas territoriais, confrontadas com as de Roma. Entretanto,
possuíam um privilégio de sumo valor no setor religioso: a noção
de um único Deus transcendente, livre Criador do mundo e Se-
nhor absolutO da história.
I. O Velho Testamento.
a) O Deus de Israel.
Quando Deus apareceu a Moisés numa sarça que ardia, dis-
se-lhe: "Eu sou o que sou... Assim dirás aos filhos de Israel:
Aquêle que é, enviou-me a vós" (60) . Estas palavras contêm 'os
germes de uma nova metafísica (61): "ser" é o nome próprio de
Deus, isto é, Deus é o único Ser a existir necessàriamente e por si;
tôdas as coisas extradivinas poderiam não existir, e devem sua
existência exclusivamente ao ato criador de Deus. Tal conceito
de um Deus transcendente: "excelso sôbre tôdas as nações e cuja
glória está acima dos céus" (Salmo, CXII 4), exclui forçosamen-

(59a). — O conto de Plutarco foi recentemente tratado também por Ernesto Grassi tTn
"Diálogo" I 1, págs. 9-12) e interpretado como a "morte do mito". Mas, para
êste "phil ó-mythos", a morte de Pan não é uma libertação gloriosa, e sim um
acontec'mento desa stroso.
(60) . — Êxodo, III 14. — A palavra hebraica é "Jahvé", menos corretamente "Je-
hová". Aos judeus era proibido pronunciar êsse nome sagrado de Deus; por
isso usavam o têrmo "Adonai" (= meu Senhor"). — Os filósofos gregos fa-
lam repetidamente em "to on" (= "aquilo que é"), e não em "ho ôn" (=
"aquêle que é"), não chegando a atribuir a Deus a personalidade, ou, pelo
menos, muito raras vêzes, e sem repercussão observável na sua atitude re-
ligiosa.
(61). — A conclusão metafísica foi tirada por numerosos Padres da Igreja, dos quais
citamos aqui S. Augustinus (Enarratio in Psalmum CXXXIV 4): Sublatis
de medio omnibus quibus appeilari possit et dici Deus,. Ipsum Esse se vacar!
respondit; et tamquam hoc esset ei nomen: "Hoc dices eis", inquit: "Qui est,
misit me". /ta enim ille est, ut in ejus comparatione ea, quae lacta sunt, non
sint. Illo non comparai°, sunt, quoniam ab illo sunt; llli comperata, non sunt,
quis verem esse incommutabile est, quod ate solus est.
--- 520 —

te uma interpretação panteísta ou politeísta (62): "Ouve, ó Israel,


o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Deut., VI 4). Jahvé
não é deus nacional, mas o Deus universal de todos os povos e de
todos os reis, quer o reconheçam ou não. Serve-se dêles para rea-
lizar os seus planos inabaláveis: a uns eleva e ergue, a outros que-
bra e destrói, que todos estão "na mão do oleiro" (Jeremias, XVIII
5).'este mundo teve seu início absoluto e terá seu têrmo absoluto:
"No princípio criou Deus o céu e a terra" (63), e: "No princípio,
Senhòr, fundaste a terra, e os céus são obras das tuas mãos. Êles
perecerão, mas tu permanecerás... Tu, porém, és sempre o mes-
mo" (Salmo, CI 26-28).
b) O Homem.
Diz a Bíblia: "E criou Deus o homem à sua imagem; criou-o
à imagem de Deus, e criou-os varão e fêmea. E Deus os aben-
çoou, e disse: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra,. e sujei-
tai-a" (Gên., I 27-28). O Deus Todo-Poderoso da Bíblia não tem
os ciúmes mesquinhos do Zeus da mitologia grega: concede, de
livre e soberana vontade; ao homem o domínio sôbre a terra, in-
cumbindo-o, desde o início, de uma Missão cultural. Ao exercer
essas atividades, o homem faz uma obra aprazível a Deus. Se
Jahvé pode ser chamado um Deus zeloso, é que não tolera outros
deuses diante de si: nem as obras das mãos divinas, nem os pro-
dutos das diversas atividades humanas (Êx., XX 3-5). Neste
ponto, é intransigente.
Considerando a grandeza do homem, o Salmista exclama:
"Que é o homem para te lembrares dêle? Ou que é o filho do ho-
mem para o visitares? Tu o fizeste pouco inferior aos anjos; de
glória e de honra o coroaste, e lhe deste o mando sôbre as obras
das tuas mãos" (Salmo, VIII 5-7). O homem é o rei da criação,
encarregado por Deus de dominar a terra, a qual perdeu seu falso
encanto de ente divino, ficando reduzida à sua verdadeira posi-
ção: à de ser obra de Deus. Se o conceito do "trágico" envolve
grandeza e culpa da parte do herói, a Queda do primeiro homem
é a maior de tôdas as tragédias, prima malorum causa; despojou
o homem dos seus privilégios, afastou-o de Deus, e acarretou-lhe
conflitos internos e externos. Disse Deus a Adão: "A terra será
maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos pe-
nosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abro-
lhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o pão com o suor dc
teu rosto, até que voltes à terra de que fôste tomado; porque tu
és pó, e em pó te hás de tornar" (Gên., III 17-19). O homem
— Na prática, porém, o monoteísmo dos hebreus era sempre ameaçado pelo
politeísmo dos povos vizinhos. Também é problemático até que ponto o povo
era monoteísta convicto e não aderia a uma espécie de henoteísmo.
— Gênesis, I 1 (cf. § 68 II, nota 10) . — Cf. também Salmo, CM e Jó,
— 521 —

caído, spoliatus gratuitis, vulneratus in naturalibus (64), é um rei:


destronado, e o mundo histórico torna-se trágico.
c) A Aliança de Deus com o seu Povo.
Mas Deus, apiedando-se da lastimável condição do homem
caído, fêz uma aliança com o patriarca Abraão (65), à qual Israel,.
o povo eleito, devia seu lugar excepcional entre todos' os povos da
Antigüidade, aliança essa tão estreita que Jahvé pôde dizer a Moi-.
sés: "O Senhor Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus
de Isac, e o Deus de Jacó: êste é o meu . nome por tôda a eterni-
dade, e com êste nome serei recordado de geração em geração
(Êx., III 15; cf. Atos, III 32) . E Abraão, o pai do povo eleito, re-
cebeu esta promessa de Deus: "Eu te abençoarei, e multiplicarei
a tua estirpe como as estrêlas do céu, e como a areia que há sô-
bre a praia do mar; a tua descendência possuirá as portas de seus.
inimigos, e na tua descendência serão benditas tôdas as nações da
terra" (Gên., XXII 17-18) . A aliança foi várias vêzes renovada,
por exemplo nos tempos de Moisés: "Por isso dize aos filhos de.
Israel: Eu sou o Senhor, que vos tirarei de sob o jugo dos egípcios,
e vos livrarei da escravidão... e vos tomarei por meu povo, e se-
rei o vosso Deus, e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus"
(Éx., VI 6-7) .
Em virtude dessa aliança, ratificada a uma voz pelo povo de
Israel (Êx., XXIV 3), a história dos judeus tornou-se uma escola
de pedagogia divina. Da fidelidade dos israelitas à palavra dada
dependia a sorte não só dos indivíduos, mas também a da coletivi-
dade (Êx., XX 5-6) . Sendo fiel, o povo podia contar com a pro-
teção divina, a manifestar-se em prosperidade, vitórias e paz; apos-
tatando de Jahvé, era castigado e humilhado perante os seus ini-
migos. E' êsse o leitmotiv dos historiadores bíblicos. Dos nume-
rosos exemplos que poderíamos alegar, citamos apenas um episó-
dio do reinado de Roboão, filho de Salomão: a êle se dirige o pro-
feta Semeias com estas palavras: "Eis o que diz o Senhor: Vós
desamparastes-me, e eu vos desampararei também nas mãos de
Sesac. E, consternados, os príncipes de Israel e o rei disseram:
O Senhor é justo. E vendo o Senhor que se tinham humilhado, fa-
lou a Semeias, dizendo: Visto que êles se humilharam, não os
perderei, mas dar-lhes-ei algum auxílio, e não farei cair o meu fu-
ror sôbre Jerusalém por mão de Sesac" (Paralip., II 12, 5-7).

— O pecado original consiste, formaliter, na privação culpável dos nossos bens


sobrenaturais e preternaturais; materialiter, na desordem das nossas faculda-
des (= concupiscência). Mas, diz o adágio escolástico: naturalia manserunt
integra; o hipotético homem "natural" difere do homem caído sicut nudus a-
spoliato. — Os protestantes e os jansenistas dão uma interpretação muito
mais pessimista do pecado original, identificando-o com a concupiscência; visto
que ela subsiste no homem batizado, o pecado não nos é perdoado pelo batismo.
— A essa aliança já precedera uma aliança "cósmica", feita com Noé e simboli-
zada pelo arco-íris (Gênesis, IX 8-17).
— 522 —

Mas além dessa lei de retribuição, aplicada pelos historiado-


res aos acontecimentos contemporâneos bem como aos do passado,
percebemos outras vozes. O autor anônimo do maravilhoso livro
de Jó reconhece que a criatura não pode arrogar-se o direito de
entrar nos segredos insondáveis de Deus: "Por isso confesso que
falei nèsciamente, e sôbre coisas que ultrapassam sobremaneira a
minha ciência" (Jó, XLII 3). O autor é pensador arrojado, e não
pode conformar-se com a explicação simplista, dada por seus coe=
tâneos à distribuição do mal e do bem neste mundo. Apesar de
ainda andar no vislumbre do Velho Testamento, anela pela pleni-
tude da Revelação: "O', se Deus me revivificasse d'epois da mi-
nha morte, ficaria esperando todos os dias da minha vida que che-
gasse a minha mudança!" (J6, XIV 14). Mas o autor não avista
os horizontes resplandecentes de um além-túmulo, onde os sofre-
dores justos dêste mundo serão recompensados: acredita num som-
brio inferno, Xeól, igual para todos, sejam justos, sejam injustos .

(66), e a verdadeira vida humana limita-se à terra. Mas como ex-


plicar, então, o sofrirpento do justo? Jó ensina-nos a aceitar o so-
frimento como um mistério inescrutável, como o procedimento so-
berano de um Deus transcendente (67), o qual devemos aceitar
com respeito religioso, assim como devemos aceitar a felicidade .com
sentimentos de gratidão. Por mais incompleta que seja essa respos-
ta, constitui um grande progresso sôbre a idéia primitiva e antro-
pomorfa da retribuição. O problema do mal, insolúvel para a inte-
ligência humana, era mais obscuro ainda para os pensadores do Ve-
lho Testamento, que ignoravam o destino transcendente do homem.
E o Eclesiastes, "o primeiro existencialista da literatura mundial".
é torturado pelo mesmo enigma, vendo com espanto que "o bom é
tratado com o pecador, o perjuro como aquêle que jura a verdade"
(Ecl., IX 2) .
Os profetas salientam o caráter pedagógico das provações a
que está sujeito o povo eleito, frisando, ao mesmo 'tempo, que Deus
é misericordioso e paciente. A obediência à lei divina não consiste
em oferecer holocaustos, mas em ter o coração compungido (Sal-
mos, XLIX .e L; cf. Amós, V 22-24; Oséias, VI 6; etc.): é mais do
que um culto escrupuloso e formalista a Jahvé, é o cumprimento
fiel da sua lei moral. A moralidade interior (cf. Deut., VI 5), em-
bora sempre ameaçada por um formalismo exterior, é inseparável
da religião que o Deus de Israel ensinou ao seu povo.

. — Ao lado dessas idéias pessimistas sôbre o Xeól, onde redire quemquarn neéant,
percebemos, no decurso dos séculos também vozes mais esperançosas, por
exemplo nos Salmos, XLIX e LXXIII .
. — Cf. Jó, XXXVIII-XXXIX, e São Paulo, Rom, IX 20: "O' homem, quem
és tu, para replicares a Deus? Porventura o vaso de barro diz a quem o fêz:
Por que me fizeste assim?"
— 523 —

d) O Messianismo.
Jahvé protegia visivelmente seu povo eleito, quando o liberta
va do jugo egípcio e o apossava na terra de Canaã. Nesses fatos
históricos, que demonstram bem o poder do Deus de Israel, basea-
va-se a esperança dos judeus. Deus é fiel à palavra dada e, apesar
de todos os pecados de chefes e populares, há de realizar seus pla-
nos mediante o povo eleito. Haverá uma constante redução de
fiéis, mas sempre subsistirá um resto, do qual Deus se servirá, ao ,
manifestar-se ao mundo para o bem da humanidade inteira . "O
resto que ainda subsiste" (cf. IV Reis, XIX 4) há de ver nascer
no seu meio o Messias, que um dia proferirá sua terrível sentença
contra os gentios, fazendo plenamente justiça a seu povo. Então
se iniciará a gloriosa época de Israel, o reino messiânico, a última
fase da história humana: "O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o
leão e o boi comerão palha; e o pó será para a serpente o seu ali-
mento. Não haverá quem faça mal, nem cause mortes em todo o
meu santo nome, diz o Senhor" (Isaías, LV 25). Então Jahvé
esmagará os maus, e glorificará os bons, pois a salvação não se li-
mitará ao sangue de Abraão: "E acontecerá que todo o que invo-
car o nome do Senhor será salvo; porque a salvação se achará, como
o Senhor disse, sôbre o monte Sião e em Jerusalém, e entre os res-
tos que o Senhor tiver chamado" (Joel, II 32). O reino messiâni-
co, — não uma repetição de um movimento circular, imanente ao
Kósmos, mas uma inovação completamente original, devida à von-
tade soberana de um Deus transcendente, fiel à sua palavra, —
eis o sentido da história. Daí a esperança firme dos judeus na vinda
do Messias, a crescer continuamente, apesar de êles viverem num
período de decadência política e de humilhação perante os seus ini-
migos. "Oxalá romperas tu os céus e desceras de lá! (Isaías,
LXIV 1).
O messianismo dos judeus tem uma longa história, durante
a qual se vai precisando a promessa divina: aqui podemos assina-
lar apenas alguns dos seus pontos culminantes. Vê-se a primeira
alusão ao Messias nas palavras do chamado "Proto-Evangelho"
(Gên., III 15): "Porei inimizades entre ti (a serpente) e a mu-
lher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela (68) te
pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar". Anun-
cia-se aqui, embora em têrmos vagos, a vitória definitiva do bem
sôbre o mal, e a salvação prometida tem Caráter universal. Quan-
do Abraão não hesita em sacrificar seu filho Isac a Jahvé, êste
lhe renova as promessas, já feitas anteriormente, dizendo: "Por
mim jurei, diz o Senhor: porque fizeste tal coisa, e não perdoaste
a teu filho único por amor de mim, eu te abençoarei e multipli--

(68). — Cf. § 44 II, c, nota 12.


— 524 —

carei a tua estirpe... e na tua descendência serão benditas tôdas


as nações da terra, porque obedeceste à minha voz" (Gên., XXII
16-18). A salvação prometida continua a ser universal, mas ao
povo eleito, e particularmente à tribo de Judá (Gên., XLIX 10),
caberá um papel de destaque na execução dos planos divinos. Es-
ta eleição envolve graves obrigações para o povo, como diz Deus,
nos tempos de Moisés: "Eis que eu ponho hoje diante dos vossos
olhos a bênção e a maldição; a bênção, se obedecerdes aos manda-
mentos do Senhor vosso Deus, que eu hoje vos prescrevo; a mal-
dição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus,
mas vos apartardes do caminho que eu hoje vos mostro, e fordes
após os deuses estranhos, que não conheceis" (Deut., XI 26-28).
Com a consolidação do povo israelita, as esperanças messiânicas
vão-se revestindo de caracteres particularistas e até materialistas:
o povo eleito será o grande beneficiado pela salvação, e tôdas as
outras nações servirão Israel. A divisão das doze tribos, a deca-
dência política, as guerras externas, o cativeiro de Babilônia e as
perseguições religiosas não conseguem destruir . o messianismo do
povo humilhado: pelo contrário, continua êste a esperar a salva-
ção contra tôdas as aparências, num porvir cada vez mais próxi-
mo, e as esperanças vão-se casando com rancores contra os "gen-
tios", dos quais se vingará um dia o glorioso Rei de Israel. Em vão
protestam os profetas contra a profanação do messianismo, salien-
tando o caráter espiritual e universal da salvação, e exortando o
povo a converter-se a Deus. O novo Rei de Israel será um Prín-
cipe de paz e justiça, seu reino abrangerá o mundo inteiro, e seu
povo será humilde e piedoso; nem todos os que são da descendên-
cia de Abraão serão salvos: "Então eu darei aos povos lábios pu-
ros, para que todos invoquem o nome do Senhor, e se submetam
ao seu jugo num mesmo' espírito... Naquele dia, ó Jerusalém...,
exterminarei do meio de ti aquêles que, com as suas palavras faus-
tosas, excitavam a tua soberba, e tu, para o futuro, não te orgulha-
rás mais por possuires o meu santo monte de Sião. E deixarei no
meio de ti um povo pobre e humilde; e êles esperarão no nome
do Senhor"' (Sof., III 9-12) . O nacionalismo inveterado e o ma-
terialismo enraigado eram grandes obstáculos para os judeus acei-
tarem tais advertências, e ainda nos tempos de Jesus subsistia o
messianismo terrestre. Perguntaram-lhe, no dia da sua Ascenção,
os discípulos: "Senhor, porventura chegou o tempo em que resta-
belecereis o reino de Israel?" (Atos, 1 6). E, uns quarenta anos
depois, Flávio Josefo chegou a tal ponto de adulação que conside-
rou o Imperador Vespasiano como o Messias do povo judeu (69).

(69) Flavius Josephus, Bellum Judeicum, VI 5,4.


— 525 —

O messianismo é o traço mais saliente da visão da história


no Velho Testamento: ao passo que os outros povos tinham sau-
dades de uma idade de ouro, a renovar-se periõdicamente, os ju-
deus tinham os olhares esperançosamente dirigidos para o futuro.
Ou, para usarmos um têrmo moderno, tinham uma visão escato-
lógica do procesSo histórico.
e) O Livro da Sabedoria.
No limiar do Novo Testamento acha-se o Livro da Sabedo-
ria, escrito em grego na Alexandria dos Ptolomeus, o último livro
do cânon do Velho Testamento (século I). Segundo o autor anô-
nimo, a Sabedoria "é uma exalação do poder de Deus, e uma co-
mo emanação da claridade de Deus onipotente, e por isso não se
pode encontrar nela a menor impureza, porque ela é o clarão da
luz eterna, e o espêlho sem mácula da majestade de Deus, e a
imagem da sua bondade. E, sendo uma só, pode tudo; e, perma-
necendo em si mesma, renova tôdas as coisas, e, através das gera-
ções, transfunde-se nas almas santas, e forma os amigos de Deus
os profetas" (Sab., VII 25-27). Foi ela que criou o mundo, foi
ela que guiou o povo eleito; foi ela que "formou o homem... a
fim de que tivesse o domínio sôbre as criaturas... e governasse
mundo cofn equidade e justiça" (Ibidem, IX 2-3); ela é a con-
selheira de Deus e a diretriz das suas obras; nos capítulos IX-XIX
encontramos o primeiro esbôço de uma teologia da história, a en-
sinar-nos que a Sabedoria salva a humanidade, assim como salvou
povo de Israel, e que os homens se perdem por abandoná-la.
Por essas exposições ficamos preparados ao ensinamento do Novo
Testamento de que a Sabedoria é a segunda Pessoa da Santíssima
Trindade, o Verbo Divino (70), "pelo qual tôdas as coisas foram
feitas, e nada do que foi feito, foi feito sem êle" (Ev. João, I 3) .
Ainda por outro motivo é interessante êste livro: o autor,
diferentemente de Jó e do Eclesiastes, já abre perspectivas ao des-
tino transcedente do homem, e consegue destarte penetrar mais a
fundo no mistério do mal. "Porque Deus criou o homem imortal,
o fêz à sua imagem e semelhança. Mas por inveja do demônio,
entrou no mundo a morte, e imitam-no aquêles que são do seu
partido. Mas as almas dos justos estão nas mãos de Deus, e não
os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos
que morriam..., mas êles estão em paz. E, se êles sofreram tor-
mentos diante dos homens, a sua esperança está cheia de imorta-
lidade... Eles julgarão as nações, e dominarão os povos, e o seu
Senhor reinará para sempre" (Sab., II 23-111 8). A esperança
num glorioso futuro messiânico para o povo judeu neste mundo vem

(70) . — Já no Livro dos Provérbios, VII 22-31, encontramos a personificação da


Sabedoria, em que muitos exegetas vêem a Sabedoria não criada.
-526—

a ser substituída por uma esperança num fim meta-histórico (71).


Neste ponto, o autor supera todos os livros do Velho Testamento.
Ainda não é cristão. Pois,- embora saiba que há um céu em que
os sofrimentos serão recompensados, ainda ignora que a chave do
céu é a morte voluntária de Cristo no Calvário. Mas sua obra
anuncia a aurora da Redenção.
O Novo Testamento.
Os autores do Novo Testamento vivem na certeza de ter
vindo o Messias na pessoa de Jesús Cristo. A Igreja, por Éle fun-
dada, é o reino messiânico, tão ansiosamente esperado pelos ju-
deus, mas ela, em oposição às crenças judaicas, tem de sofrer mui-
tas perseguições neste mundo. Diz São João: "Caríssimos, agora
somos filhos de Deus; mas não se manifestou ainda o que seremos
um dia. Sabemos que, quando êle se manifestar, seremos seme-
lhantes a êle na glória, porque o veremos como êle é" (I Ep., III
2). Ainda não se iniciou a época vitoriosa: revelou-se Deus, to-
mando a forma de servo. O Verbo Encarnado "veio para o que era
seu, e os seus não o receberam" (Ev. João, I 11) . Mas todos os
que o receberam tinham firme esperança "na glória vindoura que
se manifestará em nós. Pelo que êste mundo espera ansiosamen-
te a manifestação dos filhos de Deus... Porque sabemos que tô-
das as criaturas gemem e estão como que com dores de parto até
agora" (Rom., VIII 18-22). E os primeiros cristãos estavam in-
clinados a esperar na segunda vinda do Senhor (grego: parousía)
como num acontecimento muito próximo, desejando entrar com
Cristo na eterna glória do Pai e suspirando com São João: "Vem,
Senhor Jesus!" (Apoc., XXII 20).
Jesus Cristo é o Alfa e o Ômega (Ibidem, I 8), o princípio
o fim, o Senhor da história: através de tôdas as peripécias do
drama histórico, incoerentes e caóticas para o intelecto criado,
atinge êle com certeza infalível o seu fim. Éle, o Cordeiro imolado
o Deus ressuscitado, é o único capaz de abrir o, livro da história
os sete selos, que simbolizam as diversas fases da história hu-
mana (Ibidem, V-VIII) . E' um drama cheio de flagelos e cala-
midades. Mas a fase final é esplêndida: será criado um novo céu
uma nova terra, onde Deus habitará com os seus eleitos: "E.
Deus lhes enxugará tôdas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá
mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor, porque as pri-
meiras coisas passaram" (Ibidem, XXI 4). E' a derrota definitiva
de todos os seus adversários. "Assim serão restauradas em Cristo
tôdas as coisas, assim as que há no céu, como as que há na terra"
(Ef., I 10). A história da humanidade, por ter seu têrmo final
no Kfrios Jesus, possui sublime significado: não obstante serem

(71) . — Cf. também Daniel, XII 1-'3; Macab., II 7 e II 12, 42-46.


— 527 —

pavorosos os seus atos terrestres, o drama resulta numa apoteose


eterna e meta-histórica de todos os que adoraram o Cordeiro. A
essa visão magnífica de Apocalipse a arte européia deve algumas
inspirações grandiosas: o painel. dos irmãos Van Eyck na catedral
de Gand, e o côro final do oratório "Messias" de Hãndel: "Digno
é o Cordeiro, que foi morto, de receber a virtude, e a divindade,
e a sabedoria, e a fortaleza, e a honra, e a glória, e a bênção' .
(Apoc., V 12) .
§ 75. O originalidade da concepção cristã .
Durante a longa história da' humanidade, o Cristianismo foi
a única revolução séria, mas, infelizmente, não foi levada a efeito
com seriedade a não ser por' alguns santós. Neste parágrafo pre-
tendemos examinar umas inovações originais que o Cristianismo
trouxe ao mundo, opondo-as às teorias gregas: o mundo pós-cris-
- tão podia renegá-las ou impugná-las; era-lhe, porém, impossível ig-
norá-las. Muitas teorias modernas, mesmo de tendência anti-cristã,
são produtos derivados de uma civilização que por muitos séculos
viveu da Boa Nova, e seriam inconcebíveis ou até absurdas na An-
tigüidade clássica. Por isso mesmo um confrônto entre as duas
mundividências pode ser útil, também para quem não acredita no
caráter sobrenatural e absoluto da Revelação. Muitas vêzes po-
deremos referir-nos a observações já feitas nos parágrafos anteriores.
I. Transcendência e Imanência de Deus.
Já vimos várias vêzes que o\ Deus dos cristãos (72) é trans-
cendente e imanente: oportet quod Deus sit in omnibus rebus et
intime, diz São Tomás, num artigo já citado (73). Ora, o Cristia-
nismo, afirmando a transcendência divina com os judeus, deu um
significado mais profundo e sublime à imanência divina, conhecida
dos gregos, pelo mistério da Encarnação (74). Na Pessoa de Jesus
Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, reconcilia-se a opo-
sição, irredutível a uma fórmula abstrata: é a solução concreta e
viva de um mistério que ultrapassa as faculdades do intelecto hu-
mano.
A êsse conceito de Deus corresponde a noção cristã da Divina
Providência, que é transcendente e imanente ao mesmo tempo. E'

. — Cristo não veio destruir a lei ou os profetas, mas sim para os cumprir (cf .
Mt., V (17) . Os dois Testamentos são do mesmo Deus, cf. Augustinus (Contra
Adimantum, XVII 2): Haec est brevissima et apertissima difterentia duorum
testamentorum: timor et amor: illud ad vetarem, hoc ad novum hom:nem per-
tinet; utrumque temer: unias bei misericordissima dispensatione prolatum atque
conjunctum.
. — Cf. $ 68 II a; â 73 II b; etc. — Cf. também A. Grégoire, S. J., brema-
nence et Transcendance, Bruxelles-Paris, 1939.
. — As duas verdades simétricas: a transcendência e a imanência divinas, não se
acham no mesmo plano; no Deus transcendente não há relação real com o
Universo, e sua imanência não é uma emanação necessária.
— 528 —

-Verdade, Deus atua no mundo histórico normalmente mediante as


causas secundárias, que são suas criaturas, mas a Providência não
se limita a ser apenas a base fundamental dessas causas: Deus se
revelou ao homem, irrompendo no processo histórico, mediante os
patriarcas e os profetas, e culminantemente mediante seu Filho, o
Deus-Homem (cf. Hebr., I 1). Pour I'esprit enfermé dans sa "phi-
losophie", c'est scandale et folie de devoir s'incliner devant cette
liaison, apparemment arbitraire, de I'absolu à une contingence his-
torique (75), mas para o cristão, Deus é muito mais do que o Pri-
mus Motor Immotus ou o "Pensamento do Pensamento", simples
conclusões metafísicas que a nada obrigam. Deus é uma tremenda
realidade, que "habita numa luz inacessível" (I Tim., VI 16) e se
manifesta ao povo de Israel por meio de relâmpagos e trovões (cf.
✓x., XIX 16). Deus é o Soberano que chama seus servos e exige
que lhe respondam, como Moisés: "Aqui estou" (Êx., III 4) . Deus
é Pessoa, com quem podemos comunicar por livres atos de inteli-
gência e de amor. Deus é sobretudo um mistério de amor, que
ama suas criaturas e quer que elas lhe correspondam o amor: "Deus
é caridade" (I Ep. João, IV 8). A suprema dialética do processo his-
tórico consiste num diálogo amoroso entre Deus e as criaturas
racionais. Não basta reconhecermos a Deus como a Primeira Cau-
sa de maneira formalista: devemos "amá-lo de todo o nosso co-
ração, e de tôda a nossa alma, e de todo o nosso espírito" (Mi.,
XXII 36). Compreende-se agora o grito extático de Pascal: Dieu
d'Abraham, Dieu d'Isaac, Dieu de Jacob, non des philosophes et
des savants. Certitude. Certitude. Sentiment. Joie. Paix (76) .
II. A Contingência da Criação.
Também vimos que Deus criou, de livre e soberana vontade,
o mundo, o qual poderia não existir, ou ser diferente do atual
Au lieu d'être suspendu à la nécessité d'une pensée qui se
pense; l'univers est suspendu à la liberté d'une volonté qui le veut
Os antigos não possuiam uma noção aprofundada da con-
tingência por não fazerem a devida distinção entre o necessário
absoluto, que é Deus, e o necessário derivado, que é o mundo. Por
isso era-lhes impossível penetrar no fundamento metafísico da li-
berdade humana, que é a liberdade divina . Concebiam, sim, a
liberdade política e social, — principalmente os jônios, os atenien-
ses e, depois, os romanos, — e seus filósofos se esforçavam por
precisar a noção da liberdade, sobretudo Aristóteles e a Eston.
Mas essas tentativas, por mais generosas que fôssem, pouco se

— R. Guardini, Pesca!, ou Le Drerrte de la Conscienee Chrétienne, Paris, Édition


du Seuil, 1953, pág. 38.
— Mémorial de Pascal in Pensées et Opuscules, éd. Brunschvig, pág. 142.
— Cf. $ 68 II a; $ 73 I d.
— É. Gilson, L'Esprit de la Philosophie Médiévale, Paris, Vrin, 1932, ‘ I pág. 74.
— 529 —

compadeciam com outras teses fundamentais dos seus sistemas.


Não conheciam "a liberdade gloriosa dos filhos de Deus" (Rom.,
VIII 21).
E' significativo o fato de faltar aos antigos o conceito do peca-
do: em geral, imputavam seus maus passos a um juízo de juízo,
não raro originado pelo cego Destino ou pela malevolência dos
deuses. Os espíritos esclarecidos tinham geralmente uma idéia
intelectualista da moral, resumida no adágio socrático: "Ninguém
peca voluntàriamente" (78a). Ao que o Salmista opõe: Delicta
quis intellegit? (78b) . O Cristianismo, descobrindo novas dimen-
sões no coração humano,- mostrou os abismos vertiginosos do rnys-
terium iniquitatis: o pecado é um ato rebelde, por parte da criatu-
ra, de negação, de destruição, de niilismo; o pecador, enquanto de-
pende dêle, nega, destrói e aniquila a existência, a verdade e a so-
berania de Deus; é ineficaz, objetivamente falando, êsse ato, mas
esta circunstância não lhe diminui a horrível intenção. Sem exa-
gêro, podemos dizer que o Cristianismo despertou no homem le
sentiment du gouffre (Baudelaire) bem como a ânsia de uma per-
feição completa.
A liberdade soberana e criadora de' Deus corresponde, no ho-
mem, a• uma liberdade relativa e criada, responsável por seus atos.
Histèricamente falando, podemos verificar que o Cristianismo - deu
ao homem sua verdadeira dignidade: a de ser pessoa (79) . E' só
a esta condição que êle se pode tornar filho de Deus.
III. O Tempo.
O Cristianismo substituiu o conceito de um movimento cir-
cular, bastante comum entre os povos de Antigüidade, pela idéia
do tempo retilíneo, o qual tem por limites a Criação e o Juízo Final
(80). Logo se percebe que a Lei do Eterno Retôrno é incompatível
com os dogmas fundamentais da fé cristã. Se admitirmos ciclos his-
tóricos, no sentido "cósmico da palavra", haverá outro Adão, a pe-
car por comer do fruto poibido, e outro Redentor, a expirar os pe-
cados do gênero humano. Diz São Paulo: "Jesus não entrou para
se oferecer muitas vêzes a si mesmo..., mas apareceu uma só vez
no fim dos séculos, para destruir o pecado com o sacrifício de si

— Cf. os textos colecionados por C. J. de Vogel (cf. nota 52), págs. 134-139.
— Aristóteles (ia Ethica Nicomacheia, In 5; cf. VII 3) distancia-se da dou-
trina de Sócrates, e admite a responsabilidade humana por seus atos.
— Salmo, XVIII 13. — O significado dêsse passo deve ser: "Quem conhece
tôdas as suas falhas"7, :nas a interpretação dada acima é tradicional nos Padres.
— E' significativo o' fato de ter sido formulada e definição de "pessoa" a pro-
pósito das disputas cristológicas. Cf. § 17 III b, nota 3.
—, Cf. A. Toynbee; Greek Civiliration and Character, ("A Mentor flook",
New York, 1953, pág. VI): For them (os cronistas medievos) the history
et menlcind appeared, through the christian lens, as EM interlude played, in
Time, and upon the backéround ol Eternity. It begon at e definite moment
with the Creation ol the World; it wes to end, equally abruptly, with the
Last Judgment.
— 530 —

mesmo. E assim como está decretado que os homens morram uma


só vez, e que depois disso se siga o juízo, assim também Cristo se
ofereceu uma só vez, em sacrifício para apagar os pecados de mui-
tos; e a segunda vez aparecerá, não por causa do pecado, Mas para
salvação daqueles que o esperam" (Hebr., IX 25-28).
O movimento eternamente repetido dos ciclos históricos ex-
clui não só a liberdade humana, mas também a possibilidade de
haver coisas novas e originais. O Cristianismo dá valor positivo
aos acontecimentos singulares, que são únicos e irrevogáveis, e por
isso mesmo possuem importância e sentido. A fé na Revelação
baseia-se em fatos históricos, sendo tampouco fundada num mito
como numa especulação filosófica. A Encarnação é um fato his-
tórico, a realizar-se sob o Império de Augusto (Lc., II 1-2; cf. III
1-2), não é um conto mitológico, a começar pelas palavras este-
reotipadas: "Era uma vez...", aplicáveis a todos os mitos, que se
perdem num passado nebuloso. Destarte se reveste de uma im-
portância relevante a história para a consciência cristã: Hujus re-
ligionis sectandae caput est historia et prophetia dispensationis tem-
poralis divinae providentiae, pro salute generis humani in aeternam
vitam reformandi atque reparandi (81).
O processo histórico, relativo , por definição, não pode possuir
sentido absoluto: o fim da história é transcedente,- "meta-históri-
co", situado além dos lirres do tempo. "Eu tenho por certo que
os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a gló-
ria vindoura que se manifestará em nós" (Rom., VIII 18). Cristo
nasceu "na plenitude dos tempos" (E f., I 10; Gál., I 4): debaixo
do ponto de vista da história sagrada, não virá outra época mais
perfeita, pois a salvação que fôra prometida nas épocas anteriores,
nos foi dada definitivamente pelo Sacrifício divino de Jesus Cris-
to. E' uma aquisição para sempre, porque nada poderá anular os
eternos decretos divinos. Rien jamais ne pourra plus séparer la
nature humaine de la nature divine. Aucune rechute n'est plus
possible. L'humanité est substantiellement sauvée. Reste la ques-
tion de I'extension aux individus de ce qui est acquis à la nature
entière (82). Com a Encarnação, a história entrou na sua fase
final. As seis épocas, em que Santo Agostinho e outros Padres di-
videm a história (cf. § 26 VII), constituem seis fases sucessivas
de uma educação progressiva por Deus, devida à qual o homem,
finalmente, atinge sua plena maturidade na Pessoa do Deus-Ho-
mem. A idéia do Progresso, ausente do pensamente grego e pre-
paraão pelo messianismo dos judeus, tem seu ponto de partida na
visão cristã da história.

. — Augustinus, De Vera Religione, VII 13.


. — J. Daniélou, Essai sur le Mystère de l'Histoire, Paris, P..ditions du Seuil,
1953, pág. 10.
— 531 —

afinal, o tempo histórico é o quadro em que o homem, —


livre e responsável por seus atos, —