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Comentário sobre a “Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos”,

de Jacques Lacan
Maria Lúcia Petraglia[1]

Logo no início do texto Lacan nos adverte que a tentativa de dar o sentido do sentido (the meaning of the
meaning) seria comparável a um passe de mágica universitário, pois o sentido do sentido (Begrif) na psicanálise só
“se capta por escapar”, a ser entendido como um tonel e não como uma escapada. Só assim um discurso poderia
adquirir seu sentido; o cúmulo do sentido seria da ordem do enigma.
Em seguida, Lacan se interroga sobre a questão do signo: como se reconhece um signo como signo? O signo do
signo se obtém pela substituição de um signo por outro qualquer. O signo só é alcançado pela decifração, e por ela
a seqüência dos signos ganha sentido. Mas ao se alcançar o sentido não impede que o furo apareça e a mensagem
decifrada possa ser ainda da ordem do enigma.
O analista se define a partir da experiência analítica, pois “as formações do inconsciente demonstram sua estrutura
por serem decifráveis”.
Freud se detém ao descobrir o sentido sexual da estrutura, pois vemos em sua obra o sexo relacionado ao sentido,
pois não se encontra em parte alguma e sob nenhum signo o sexo inscrever-se como uma relação. O inconsciente
em seu trabalho de ciframento nos possibilita inscrever a relação sexual. É da estrutura do inconsciente o cifrar, com
sua ambigüidade. Cifrar, mas é o que funda a ordem do signo
. Mas afirma também que os números são da ordem do real e têm um sentido que vem denunciar algo do gozo
sexual. Esse sentido, apesar de não ser da ordem do real, aponta para a entrada do real no real do mundo do ser
falante - pois ele obtém seu ser da fala, através de sua diz-menção, pois suspeitemos que a fala comporta o único
real que não pode se inscrever, a relação sexual.
Lacan afirma que isso é da ordem da suspeição, por não ser da ordem do jurídico e do saber da ciência, que se
institui a partir de um real acessível, sem resto. Nesse momento ele alude a Heidegger que dá sentido a tudo... toda
a sorte de conceitos fúteis. Faz também alusão à ciência que, em sua futilidade, só progride por tapar buracos, o
que pode lhe conferir segurança, mas não sentido algum.
Curiosamente a ciência produz de modo idêntico o objeto a, aquilo que sai pela escapada na hiância da não relação
sexual. A partir daí critica Heidegger que, através da metafísica, nada mais faz do que tentar tapar o furo da política.
Essa pode atingir o auge da inutilidade, dependendo do bom senso daqueles que fazem a lei. O discurso universal
especula sobre o insensato e sua saída seria através da produção do chiste que, no entanto, o amedronta. Medo
legítimo, pois ao ignorarem os analistas e seu discurso, acreditam-se embrutecidos pela idéia de um mundo a
partir do animal que não fala.
Impossíveis de se enquadrar em qualquer discurso precedente, ex-sitem a eles. Mas apóiam o sentido desses
discursos, no que lhes escapa e o acentua.
Encontram então apoio na solidez do que faz signo, não fosse pelo sintoma, que faz do signo um grande nó, que até
Marx o percebeu e o “discurso freudo-marxista é um imbróglio sem saída”. Jacques Lacan lembra que seria o único
seguidor do discurso analítico se ninguém o acompanhasse, afirmando que esse discurso também embaraça aos
analistas, pois seu recurso é o inconsciente, “um saber que se trata apenas de decifrar, já que não consiste num
ciframento”.
Qual a finalidade desse ciframento, se pergunta Lacan. Seria mais a “mania do útil” - não nega o útil? Existe sem
dúvida o gozar e o gozo sexual está nesse ciframento e na impossibilidade de se escrever a relação sexual; pois a
linguagem é da ordem da “chicana infinita”. No entanto, a felicidade só existe do acaso, nos bons encontros para
os seres falantes que são felizes por natureza. E Lacan se pergunta, sem dar a resposta, se o discurso analítico não
poderia contribuir um pouco para aumentar essa felicidade.
A experiência analítica revela ao analisante o sentido de seus sintomas, isto é, permite “que o tonel seja reaberto”.
Existe uma clínica formada pelos tipos de sintoma e essa clínica é anterior ao discurso analítico. Tal discurso serviu
para trazer alguma luz à essa clínica? Tal resposta não viria da ciência, pois a história foi formulada antes desta.
Mas a clínica certamente é transmissível, por se demonstrar, apesar de não se constituir ciência.
Platão deixou escritos em forma de diálogos feitos para o leitor comum de sua época. Ao que parece a obra chegou
completa, ou quase, até nós. Isso se deve ao fato de ser muito conhecido na sua época, por ter fundado em Atenas
sua Academia, assim chamada por estar no jardim do herói grego Academos onde se ensinava Matemática, Ginástica
e Filosofia. Ele valorizava muito a matemática, por ela nos dar a capacidade de raciocínio abstrato. Na entrada de
sua academia havia a seguinte afirmação: "Que aqui não adentre quem não souber geometria". Também disse
acerca de Deus: "Ele eternamente geometriza". Seriam trinta diálogos, dentre os quais os mais conhecidos:
Apologia de Sócrates onde torna público o discurso que Sócrates fez em seu julgamento; Hippias Maior, o que é
o belo; Eutifron, o que é a piedade? e Mênon, o que é a virtude? Pode ser ensinada?
Através do discurso da histeria podemos afirmar que os tipos clínicos decorrem da estrutura, ao incluir
um real - não uma natureza, próximo do discurso científico. Uma mesma estrutura, no entanto, não tem o mesmo
sentido; é por isso que só existe análise do particular. As histéricas se identificam pela mesma estrutura, mas não
pelo sentido, pois a estrutura incide sobre o desejo, isto é, sobre a falta tomada como objeto, não a causa da falta.
Os sujeitos têm um tipo que não servem para os outros do mesmo tipo, seus discursos não têm o mesmo sentido,
porém no caso dos obsessivos, que muitas vezes acolhem o mesmo discurso religioso, podemos ter uma classe,
ainda que insuficiente.
A comunicação se dá na análise em um para além do sentido, na suposição do sujeito saber inconsciente, no
ciframento. A transferência é amor, amor dirigido ao saber - um ‘tipo’ diferente de amor onde se tem a chance de se
obter uma resposta. A transferência é amor, não desejo, porque não a encontramos na Wisstrieb de Freud como a
pulsão de saber - Die Wissentrieb. (Freud, 1905)
Lacan aí afirma que “a grande paixão do ser falante é a ignorância, não o amor e o ódio”. O que marca o discurso
analítico não é o sentido, mas aquilo que faz signo, comparável ao oráculo que faz signo ao não revelar e nem
ocultar.
A interpretação pode ter efeitos, aliás, incalculáveis, mas não atesta saber algum, pois “o saber se verifica por uma
possível previsão”. Há um saber que não é da ordem do cálculo e que está em prol do gozo.
O trabalho do inconsciente, por sua estrutura de linguagem, tem como função permitir o ciframento. O significante,
o objeto fundado pela lingüística, seria o único elo entre a ciência e o discurso analítico, mas o real do inconsciente
não tem a ver com o real da ciência.
A necessidade, o que não cessa de se escrever, é sustentada pela alíngua, própria do sujeito. Através da
contingência, o que cessa de não se escrever, atingimos a impossibilidade, ao atestarmos um real seja transmissível
pela escapadela própria de todo discurso. Esse texto aponta para a questão do sentido, do signo, da interpretação,
da transferência.

[1] Este texto faz parte da pesquisa realizada pela equipe da CLAC para o Relatório enviado ao 3º Encontro
Americano do Campo Freudiano que se realizará em Belo Horizonte em agosto de 2007.