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DOI: 10.18468/estcien.2016v6n1.

p09-18 Artigo de revisão de literatura

A democracia representativa no Brasil: problemas e questionamentos

Audálio José Pontes Machado1


1 Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Graduado em Ciência Política com ênfase em
Relações Internacionais pela UFPE, Brasil. E-mail: audaliomachado@gmail.com

RESUMO: O objetivo deste trabalho é trazer à pauta uma discussão abar-


cando a literatura recente sobre representação política e todas as suas ver-
tentes, focando especificamente no caso brasileiro. Em termos metodoló-
gicos, o artigo é majoritariamente teórico, buscando coadunar pensamen-
tos diversos acerca do mesmo tema: representação. As conclusões apon-
tam que a democracia representativa brasileira tem uma série de proble-
mas, mas que muito já foi alcançado desde a redemocratização nos anos
oitenta, sendo necessária, portanto, mais atenção para a relação entre re-
presentantes e representados no Brasil.
Palavras-chave: representação, partidos políticos, responsividade, accoun-
tability

The representative democracy in Brazil: problems and questions


ABSTRACT: The objective of this work is to bring to the agenda a discussion
covering the recent literature on political representation and all its aspects,
specifically focusing on the Brazilian case. In terms of methodology, the ar-
ticle is mostly qualitative, seeking to gather many thoughts about the same
theme: representation. The findings show that the Brazilian representative
democracy has a number of problems, but that much has been achieved
since the return to democracy in the eighties, requiring therefore more at-
tention to the relationship between representatives and represented in
Brazil.
Keywords: representation, political parties, responsiveness, accountability

1 INTRODUÇÃO É notória a relevância das instituições re-


presentativas e elas permeiam a vida de
A escolha de representantes é utilizada qualquer cidadão, mesmo que não saibam.
desde o século XVIII em maior escala pelas Desde as eleições para o Governo Federal
sociedades que durante os anos seguintes até a escolha de um síndico, a necessidade
se estabeleceram como democracias e se de haver representantes é imanente.
complexificaram econômica, social e politi- Com as constantes mudanças sofridas
camente. Por meio da representação, os pela humanidade pós-segunda guerra, o
cidadãos escolhem pessoas que levarão governo representativo também foi atingi-
suas demandas para um outro nível, onde do por essa torrente de transformações.
essas preferências são discutidas e podem Mas será que a representação acompanhou
ser tornadas agenda governamental ou não. a evolução da sociedade contemporânea?

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Recentemente tem se falado em crise da zer uma definição instrumental da mesma.


representatividade, na necessidade de no- A Doutrina Clássica da Democracia - fusão
vos meios de democracia, de participação do pensamento de vários teóricos anterio-
dos indivíduos na política. A discussão é res - estaria equivocada pelo fato de termos
extensa e tem diferentes vertentes e abor- recorrentes da Teoria Democrática do sécu-
dagens. lo XVIII, como Bem Comum e Vontade Ge-
Este trabalho visa apontar alguns dos tó- ral, não existirem na realidade. Além disto,
picos do debate levando em consideração o a natureza humana na política seria marca-
caso brasileiro. O Brasil passa por uma re- da por apatia e desinteresse do cidadão
democratização – processo iniciado nos a- médio. O termo cidadão médio ou mediano
nos oitenta após o fim de uma ditadura que é utilizado neste artigo como a maior parte
durou mais de duas décadas –, que ainda do eleitorado, que não se sente atraído por
passa por algumas dificuldades. A questão nenhum extremo da esfera ideológica e não
da representação parece problemática no tem um interesse elevado em política. En-
caso brasileiro, e consequentemente, digna tão, no final das contas: “o método demo-
de debate. crático é aquele acordo institucional para se
A primeira parte deste estudo contém chegar a decisões políticas em que os indi-
uma pequena revisão literária acerca do víduos adquirem o poder de decisão através
sistema democrático e da democracia re- de uma luta competitiva pelos votos da po-
presentativa em si. A segunda trata princi- pulação" (SCHUMPETER, 1984, p. 336). Con-
palmente dos problemas da representação forme o referido autor, em síntese, caberia
no Brasil relacionados com trabalhos rele- aos cidadãos escolherem seus representan-
vantes sobre o tema. Por fim, algumas con- tes por meio de eleições e este seria o único
siderações finais sobre o que foi apresenta- papel da população na política, excetuando
do nas duas seções supracitadas. os políticos, obviamente.
Przeworski (1999) defende a concepção
2 PROBLEMATIZANDO A DEMOCRACIA RE- introduzida por Schumpeter de uma forma
PRESENTATIVA CONTEMPORÂNEA mais complexa e elaborada. Para ele, uma
definição minimalista de democracia é o
Antes de iniciar a conceituação do que é suficiente, mesmo que a racionalidade, a
uma democracia representativa propria- representação e a igualdade não sejam ple-
mente dita, se faz necessário entender que namente alcançadas. O fato de haver elei-
os regimes democráticos são considerados ções regulares e alternância de poder sem
em termos procedimentais, ao contrário de derramamento de sangue já deve ser lou-
alguns autores que defendem a indispensa- vado. Claro que aspectos econômicos e ins-
bilidade de meios mais participativos de titucionais impactam. Por exemplo, o autor
tomadas de decisões para a população e, explica que países mais ricos e sistemas par-
portanto, de uma concepção mais substan- lamentaristas tendem a aumentar a durabi-
tiva de democracia (PATEMAN, 1976; lidade de uma democracia. Mas, as bases
ROUSSEAU, 1987). de um regime democrático são as eleições e
Schumpeter (1984) modificou o enten- a possibilidade de troca de governantes.
dimento do conceito de democracia ao tra-
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Existem autores procedimentalistas que das acima tentam provar que a escolha de
vão além de uma definição mínima, argu- representantes por meio de eleições é cau-
mentando não ser suficiente para abarcar sa necessária e, às vezes, suficiente para
todas as características de uma democracia. uma democracia. Para Manin (1997), o go-
Mainwaring, Brinks e Liñán (2001) expla- verno representativo é regido por quatro
nam que as concepções de Schumpeter e princípios, formulados no século XVIII e que
Przeworski não chegam nem a ser mínimas, se institucionalizaram desde então. O pri-
mas submínimas. Uma democracia deveria meiro deles exprime que os representantes
ter quatro particularidades básicas: (a) são escolhidos pelos representados. Mesmo
promoção de eleições competitivas livres e que a população pouco participe da política,
limpas para o Legislativo e o Executivo; (b) o afora as eleições e sempre esteja elegendo
direito de voto deve ser extensivo à grande elites ao poder, o fato de poder substituir
maioria da população adulta; (c) proteção os políticos que não a agradou é, em si, im-
dos direitos e liberdades civis e políticas dos portante. Em segundo lugar, os represen-
cidadãos e (d) os governos eleitos de fato tantes devem conservar uma independên-
governem e não sofram forte influência de cia parcial diante das preferências dos elei-
militares e outros grupos externos. tores. Um terceiro princípio dos governos
Já Dahl (1989) alega que democracias representativos é que a opinião pública po-
não existem de fato, no máximo existem de se manifestar independentemente do
poliarquias. Num continuum entre regimes controle do governo. Para isso ocorrer, as
autocráticos e democráticos, as poliarquias decisões públicas devem ser repassadas
se encontrariam próximas dos últimos, de- com transparência para os cidadãos e os
vendo ter oito características básicas: (1) indivíduos necessitam de ter liberdade de
todos os indivíduos expressam suas prefe- expressar suas opiniões políticas. Por fim, a
rências votando; (2) o peso do voto é idên- quarta característica manifesta a impres-
tico para todo cidadão; (3) a alternativa cindibilidade das decisões políticas serem
com maior número de votos vence; (4) cada tomadas após debate. Sem a deliberação
indivíduo pode escolher a sua alternativa nos Parlamentos e Assembleias, seria bem
preferida e pode votar na mesma; (5) todos mais complicado o processo de tomada de
os indivíduos possuem informações iguais decisões.
acerca de todas as alternativas; (6) os políti- Manin (1997) identifica dois momentos
cos com maior número de votos vencem em que a democracia representativa parece
todos os demais; (7) as ordens dos gover- ter entrado em crise: surgimento dos parti-
nantes eleitos são executadas e (8) As deci- dos de massa e o crescente "abismo" entre
sões respeitam as sete condições anteriores governantes e governados. Porém, ao anali-
e/ou as decisões tomadas são subordinadas sar os dois tipos tradicionais de governo
àquelas tomadas no período eleitoral. representativo - parlamentar e democracia
Principalmente desde o século XVIII, os de partido - e um novo modelo que parece
filósofos e teóricos políticos expressam a surgir, a democracia de público, o autor
necessidade de haver uma representação parece negar a crise da representatividade.
da população em instâncias governamen- Isto se dá pela readequação dos quatro
tais. Todas essas conceituações apresenta- princípios a este novo tipo de governo re-
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presentativo, no qual os eleitores não se Urbinati e Warren (2008) demonstram a


ligam mais aos partidos, os políticos buscam metamorfose do conceito de representação
se comunicar mais diretamente com a po- na contemporaneidade. Pode-se começar
pulação e o parlamento tenta se manter um pela diversidade de instituições transnacio-
fórum de debate embora os meios de co- nais ou até mesmo não-territoriais que a-
municação em massa ocuparam bastante barcam os indivíduos e os fazem se senti-
deste espaço. rem representados por essas organizações.
Para Castiglione e Warren (2006), a de- Os autores também expõem a incapacidade
mocracia representativa tem três caracte- dos partidos políticos de continuarem como
rísticas principais: (a) a representação traz agregadores e portadores das preferências
consigo uma relação principal-agent 1, na da população. Portanto, a representação
qual os representantes tem a exigência de puramente eleitoral passa por limitações e
serem responsivos aos representados; (b) a por isso foi notada uma evolução dos repre-
representação tem que ser feita de um mo- sentantes dos cidadãos, principalmente a-
do cujo poder político deve ser exercido de pós a inclusão de minorias e das mulheres
forma responsável e os representantes se- no jogo político, assim como de pautas pós-
rem accountables 2 à população; (c) o direi- materialistas na arena decisória.
to de votar em representantes fornece um Urbinati (2013) continua a discussão so-
meio simples de medir a igualdade política. bre democracias de audiência (de público),
No entanto, a contribuição principal dos termo introduzido por Manin (1997), refor-
autores é refletir acerca de oito problemas çando a ideia de declínio dos atores políti-
teóricos visando repensar o governo repre- cos e ressaltando o valor dos meios de co-
sentativo. Nesta reflexão há uma preocupa- municação neste modelo de regime demo-
ção com a representação como um proces- crático. A autora aponta que os líderes se
so, como uma prática e até mesmo como tornam mais observáveis pela população,
um relacionamento. Ao passar por estes dada a vasta exposição que sofrem, mas,
oito pontos os autores concluíram que o em contramão, o sistema tende a ser mais
crescimento da representação informal, corrupto e a estética fica mais em voga na
fenômeno inevitável, pode erodir a igual- opinião pública do que a real compreensão
dade trazida pela representação eleitoral, das propostas e participação da população.
ocasionando também déficit de accountabi- Na realidade, as eleições acontecem basi-
lity. camente focadas na imagem dos candidatos
e as plataformas são praticamente esqueci-
das.
1
Uma relação principal-agent ou principal-agente, é
tratada na Ciência Política e na Economia como uma 3 (OS PROBLEMAS) DA DEMOCRACIA RE-
relação hierárquica entre o principal (o eleitor no caso PRESENTATIVA NO BRASIL
da representação) e o agente (representantes), na qual
o primeiro pode observar apenas parcialmente o com-
portamento e as ações do último, dada a falta de in- Principalmente desde as manifestações
formação completa e a vontade de ambos em maximi- ocorridas em 2013 alguns setores da mídia
zarem seus ganhos.
2 e da academia vêm levantando a ideia de
A noção de accountability será demonstrada mais à
frente no texto, de forma pormenorizada. uma crise de representatividade em solo
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brasileiro. Apesar de ser uma democracia Pelos números é possível inferir que os
jovem, tendo sido estabelecida no final dos órgãos representativos têm estima baixa
anos 80, o Brasil já parece sofrer com um junto aos cidadãos, principalmente o Con-
grande desgaste das instituições represen- gresso Nacional e os partidos políticos.
tativas e dos representantes perante a soci- Também se faz pertinente constatar que
edade civil. Provavelmente, se as eleições houve uma queda relevante da aprovação
não fossem obrigatórias, uma parcela con- da Presidência da República e do Governo
siderável do eleitorado não compareceria federal. Todavia, o que faz essas instituições
às urnas. Como esse fenômeno (déficit de estarem com tão pouco apreço da socieda-
representação) ocorre no Brasil? O cenário de civil?
é tão pessimista assim? Uma tentativa de Para Manin, Przeworski e Stokes (1999),
apontar esses problemas e fazer reflexões a representação se dá em duas formas: pelo
acerca dessas questões será apresentada mandato e pela accountability. No geral, a
no restante do trabalho. primeira relação, a de representação por
Por exemplo, se a confiança nas institui- mandato, concebe a eleição como a emula-
ções for levada em consideração, pode-se ção de uma assembleia na qual os eleitores
constatar que instituições políticas sempre escolhem os partidos ou candidatos cujas
são mal avaliadas, ocupando as últimas po- propostas mais os agradam. Já na perspec-
sições na avaliação dos cidadãos. O Índice tiva da accountability, as eleições funcio-
de Confiança Social medido pelo Instituto nam como mecanismos para responsabili-
Brasileiro de Opinião Pública e Estatística zar os governantes a respeito de suas ações.
(IBOPE) avalia 18 instituições desde 2009, No entanto, essas duas perspectivas podem
entrevistando uma amostra considerável da ser problemáticas, pois os políticos podem
população brasileira em todo o território possuir objetivos e informações diferentes
nacional. Pode-se observar a acentuada dos demais cidadãos. Dessa forma, os go-
queda das instituições em 2013, período vernantes ao serem eleitos podem tomar
em que ocorreram as grandes manifesta- decisões voltadas para interesses próprios.
ções de rua, na Figura 1. O estudo de Mair (2009) pode ajudar a
solucionar o que ocorre com os partidos
Figura 1 – Índice de Confiança Social (2009-2014) nesta metamorfose da democracia repre-
sentativa. Desde o final do século XX os par-
tidos políticos são ineficazes em seu papel
intermediário entre representantes e repre-
sentados, esta função articuladora mais a
atribuição de organizar o jogo político e as
preferências e programas eram o que tor-
nava esses grupos políticos tão importantes
para o governo representativo. Mas parece
perceptível que os partidos perderam uma
parcela considerável da representatividade,
fazendo com que a população escolhesse
Fonte: IBOPE (2013)
Organizações Não-Governamentais (ONGs)
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e grupos de interesse para representá-la. Mas o que é accountability afinal? Pinho


Então, essas organizações buscaram se mo- e Sacramento (2009) fazem o esforço de
dificar, dando mais ênfase aos líderes e tentar compreender o significado desta pa-
perdendo bastante da ideologia e rigidez lavra, traduzida e interpretada de várias
programática. formas pelos cientistas sociais brasileiros.
No Brasil pós-ditadura, os recém-criados No final das contas, os autores constatam
partidos precisaram se adaptar ao grande que o significado do conceito engloba:
montante de eleitores presentes no centro “responsabilidade (objetiva e subjetiva),
do espectro ideológico, por isso, um alto controle, transparência, obrigação de pres-
número de legendas se tornou ou assumiu tação de contas, justificativas para as ações
o papel de partidos catch-all (KIRCHHEI- que foram ou deixaram de ser empreendi-
MER, 1966), que visam apenas às vitórias das, premiação e/ou castigo” (PINHO; SA-
nas eleições atraindo a maior quantidade CRAMENTO, 2009, p. 22).
de eleitores possíveis, além de perderem Contudo, ainda é um termo em constru-
muito do conteúdo programático, modifi- ção no Brasil. Vinte anos ainda não foram
cando os programas e diretrizes partidárias suficientes para a institucionalização do
a cada pleito. Mair (2009) defende que a termo. Para este trabalho, accountability
capacidade dos partidos em governar de- será entendida como a responsabilização
pende da competência em acatar as de- dos governantes e agentes públicos pelos
mandas da população. A necessidade de ser seus atos na administração.
responsivo é imanente às democracias re- O'Donnell (1998) propõe que diferenci-
presentativas e se os partidos não conse- emos a accountability em duas vertentes:
guem ser bem-sucedidos nessa atribuição, vertical e horizontal. A primeira concerne
por conseguinte perdem a legitimidade re- ao poder que os eleitores têm através do
presentativa. voto em premiar ou punir os políticos nos
Essa perda de legitimidade também pode pleitos, de forma retrospectiva ou prospec-
estar intimamente ligada aos recorrentes tiva. O âmbito horizontal é tipificado pela
casos de corrupção no cenário brasileiro. Já existência de instituições de controle que
que a mídia é tão importante nas democra- supervisionam, emitem pareceres ou até
cias de audiência, os partidos e represen- mesmo punem outras agências. Alguns au-
tantes se tornam mais responsáveis junto à tores indicam haver uma accountability so-
sociedade, pelo menos neste sentido espe- cietal (ou social) (PERUZZOTTI; SMULOVITZ,
cífico. Os governantes devem ser responsa- 2002; O'DONNELL, 2002), que é considera-
bilizados por suas ações, contribuindo para da uma expansão da vertical no sentido de
o controle por parte dos cidadãos. Um re- ser concebida por meio de associações,
presentante accountable tem bem mais movimentos sociais e a mídia, objetivando
chances de fazer um bom governo. Mair pressionar o governo, expor seus erros e
(2009) aponta que o que não pode ocorrer consequentemente pedir melhorias em su-
é um distanciamento da capacidade em as ações.
atender as preferências dos eleitores e a Assim como Mair (2009), Arato (2002)
accountability (responsabilidade). também salienta a importância da accoun-
tability para a democracia representativa.
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Para o autor a responsabilização dos repre- que isso tire a relevância do acontecido,
sentantes pelo eleitorado é fator primordial visto a dificuldade em reunir tantas pessoas
de um regime democrático, pelo fato de um apenas por redes sociais para as manifesta-
controle dos governantes por parte da po- ções. Outro ponto que merece ser tocado é
pulação restringir o comportamento e tam- o fato da maioria dos manifestantes serem
bém punir ou recompensá-los de acordo jovens, universitários ou recém-formados,
com suas ações. Refletindo sobre a avalia- de classe média. Entretanto, será que a par-
ção retrospectiva de representantes em cela da população em maior vulnerabilidade
solo brasileiro, não é possível dizer que ela socioeconômica teve suas propostas exter-
aconteça com muita frequência. Primeira- nadas?
mente, a maioria dos eleitores, após um O que esses protestos igualmente de-
curto período de tempo, esquecem em monstraram foi o cansaço da população
quem votaram nas eleições anteriores. Em com os representantes e instituições políti-
segundo lugar, os representantes utilizam cas do país. A proposta de uma reforma
de práticas clientelistas, legais (pork barrel 3 política ficou mais perto de sair do papel e
e patronagem 4) e ilegais (compra de votos), os governantes pareceram se assustar com
para manter o apelo eleitoral. Desse modo, a grande mobilização. Todavia, alguns me-
a população reclama constantemente dos ses após as manifestações, o cenário havia
políticos e de suas ações, mas o próprio de- se normalizado e nas eleições do ano se-
sinteresse ou desconhecimento da mesma guinte houve pouca renovação nas assem-
criam um ciclo vicioso nos períodos eleito- bleias estaduais e no Congresso Nacional. A
rais, no qual os mesmos maus candidatos se fagulha acesa por essas mobilizações não
reelegem e continuam atuando de forma foi aproveitada, tanto por desinteresse dos
que não são responsivos (não atendem as representantes, satisfeitos com o status
demandas) à população. quo, quanto por igual desentusiasmo da
As manifestações de 2013 que se esten- população, que não conseguiu se organizar
deram a uma amostra considerável de cida- e fazer pressão efetiva.
des brasileiras foram importantes para a-
vultar diversas reivindicações, inclusive pós- 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
materialistas, e pela grande mobilização de
pessoas. Mas, na realidade, o grande núme- Durante este trabalho os problemas da
ro de solicitações, fez com que os protestos democracia representativa no Brasil foram
parecessem difusos e desorganizados - não apontados, como deve ser possível apreen-
der no decorrer do texto. Este ensaio foi
3
Pork Barrel é a prática na qual os políticos priorizam feito deste modo justamente para salientar
ostensivamente o envio de verbas, recursos e políticas as vicissitudes que afligem a representação
públicas para suas bases ou distritos eleitorais, ou seja, em território brasileiro e solapam a quali-
focando sua atuação política para os locais que sabe
onde têm votos e apoio, desse modo, facilitando sua
dade democrática no país. Nenhuma solu-
busca por reeleição. ção foi proposta anteriormente visando
4
Patronagem é definida como uma relação clientelista relacionar a literatura apresentada com as
que ocorre quando um político, correligionário ou
dificuldades vividas pelo governo represen-
membro de um partido oferece cargos e/ou favores em
troca de apoio político de um terceiro. tativo no Brasil. A corrupção endêmica, a
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falta de responsiveness 5, a deficiência dos maioria dos políticos não é responsivo, dei-
mecanismos de accountability vertical e a xando as propostas de campanha para trás,
incapacidade dos partidos de serem os in- e, por conseguinte, não atendem as de-
termediários entre representados e repre- mandas da população. Destarte, em algu-
sentantes evidenciam as razões da baixa mas situações, os representantes não são
aprovação das instituições representativas nem responsivos, nem responsáveis.
e dos governantes. Com todos esses problemas postos em
Manin, Przeworski e Stokes (1999) expli- discussão, pode-se concluir que existe uma
cam que os cidadãos talvez possam ser ca- crise de representatividade no Brasil, assim
pazes de controlar os representantes se os como existem em vários outros países. Se
últimos souberem que terão de prestar existissem mais meios deliberativos e parti-
contas de seus atos. Governos accountable cipativos a população talvez conseguiria
são aqueles em que os cidadãos podem dis- criar uma cultura política mais robusta e o
cernir se os agentes públicos estão ou não interesse pela política aumentaria. No en-
fazendo seu papel de forma correta. Assim, tanto, apenas suposições podem ser feitas.
os que agem de acordo com o interesse Muitos autores tratam das metamorfoses e
público são reeleitos, os que não possuem crises da representação com propriedade,
uma boa conduta, não o são. Deste modo, a porém, como Manin (1997) argumentou, os
representação por accountability acontece regimes democráticos atuais se tornaram
quando os eleitores votam na manutenção democracias de público e os governos re-
dos representantes que agiram a favor do presentativos passam por certas dificulda-
bem público. Os instrumentos de accounta- des, mas estão se readaptando a este novo
bility melhoraram no Brasil nos últimos a- modelo e respeitam os quatro princípios
nos, principalmente por meio de agências necessários à representação propostos pelo
fiscalizatórias (Controladoria Geral da União autor.
e Tribunal de Contas da União, por exem- Para exemplificar a importância da re-
plo), mas a responsabilização por intermé- presentação pode-se pensar num cenário
dio das eleições ainda carece de evolução. em que as manifestações de 2013 seriam
Como dito anteriormente, a população bra- mais organizadas e com demandas bem
sileira é conivente com políticos pouco res- definidas. Neste panorama se faz justo su-
ponsivos em períodos eleitorais, não utili- por que surgiriam líderes e porta-vozes
zando a avaliação retrospectiva e mantendo dentro da mobilização. Então, se o movi-
o desinteresse por política em níveis altís- mento quisesse transformar suas preferên-
simos. cias em agenda política poderia apoiar uma
Os partidos e representantes também fa- ou mais dessas lideranças nas eleições. O
lham ao estarem acomodados com o status mesmo ocorre com as minorias, principal-
quo e práticas clientelistas. Além disto, a mente o movimento LGBT que se encontra
sub-representado em todas as instâncias
5
Responsiveness ou responsividade é a capacidade dos federais, impossibilitado de exercer uma
governantes ou qualquer outro agente público em a- pressão relevante nos meios de tomada de
tender as demandas da população. Se um governo é
decisão. Estes exemplos demonstram que a
responsivo, então ele cumpre com as atribuições pelas
quais foi eleito representação, ainda que se adaptando a
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contemporaneidade e sendo constante- KIRCHHEIMER, Otto. The transformation of
mente criticada e posta à prova, ainda é a the Western European Party System. In:
forma mais eficaz de participar do jogo polí- LAPALOMBARA; WINER, M. Political Parties
tico e de se "fazer" democracia. and Political Development. Princeton:
Por fim, para estudos futuros, parece im- Princenton University Press, 1966.
portante estudar o efeito que os partidos MAINWARING, S.; BRINKS, D.; LIÑÁN, A. P.
políticos têm na democracia representativa Classificando regimes políticos na América
brasileira. O foco deste artigo foi a repre- Latina, 1945-1999. Dados, v. 44, n. 4, p.
sentatividade em si, mencionando apenas 645-687, 2001.
marginalmente o papel dos partidos. Traba- MAIR, P. Representative versus responsible
lhos sobre o tema já foram feitos (MAIR, government. Max Planck Institute for the
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Artigo recebido em 09 de outubro de 2015.


Avaliado em 24 de fevereiro de 2016.
Aceito em 23 de março de 2016.
Publicado em 25 de maio de 2016.

Como citar este artigo (ABNT):


MACHADO, Audálio José Pontes. A Demo-
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ISSN 2179-1902 Macapá, v. 6, n. 1, p. 09-18, jan./abr. 2016