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21 ediçáo

MITOS DA CR I AÇÃO • DEUSES


ERÓIS • l'vtONSTROS • LOCA I S M Í T I COS
"ENQUANTO PAN GU DORMIA,
SEU CORPO SE TRANSFORMOU EM
MONTANHAS E SEU SANGUE, EM RIOS."
Mito chinês: a crlaç.1o de PonGu e Nü Wo
"ELES RE:MARA1l DE VOLTA
AO OCEANO PROFU01DO E
KUNCA MAIS FORAM VISTO S."
Mito irlandês: a viagem de Brdn
Um livro Dorling Kindersley
www.dk.com
EorrORA- EXECUTIVII: Dehra Wolter • EDITOI!A-EXfCUlWA
DEARTil: K.aren Sei f • GtrnliNTii or, PrtODUÇÃO: lndcljit
Bhullar • co~11'0$1Ç.~O Elll'l RÔNLCA: John Goldí.mid •
))uu;ToR Ob Anre: Bryn Walls • DtRETOR EorTORJAL:
Jonathau Mctc:úf

Produzido par:t DK por


cobaltid
EorfOIIJ,;S: Marck Walisiewicz, Kati Dye, Louise Abbott,
Jarnie Dicbon, Sarab Tomley • Emroru;s o a AnTE:
Paul Rcid, Lloyd Tilbury, Pia lngham,
Claire O ldman, Annika Skoog
Título original:
Eyewillll'.<> Cmntlar~ious: Mythology
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Copyright do texto© 2007, Philip Wilkinson c Neil Philip
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_ _ _ _:s
_'mdicoto Nacion•l do< Edirore< de Livros. R.J
WJikiuson, Philip, 1955-
W67 6g Gnm tlusrrado Z~lur: mitologi;/ Phtlip Wilkin!'t:ln &
Nr1l Ph.ilip; tr<1du.ção Aurca Akt·mj; revisão técuic~t Miriau1
Sutrcr. - :!' ed - R.io de Janeiro:)Oil,'é Zahar Ed.. 20 I11.
il. ('t')lt,r.
Tradução dt•: Eycwttnt'l'< CQmp:mions: ntyth0 Jogy
ISiiN 978-!15-378-0 135-2
I. Mttologt2.l.l'hilip, Netl. ll.1'itulo, li I. Título:
Mitoltljl;'•'·
(l?-0827. CDD: 292
cnu:2ss
SUMÁRIO
Prffiício /0 32 26 1
O MU DO QCEM I~ QU I:l\ 1
l :l CLÁSSICO NA M ITOLOG IA
l NTROOUÇÃO
À 1\•JITOLOGlA 96 c;,;adun:s c
alta~ di,;nclark~ 'Hill
EUROPA

O qu<' i: o mito? I I Dcusa~-mà<'' <'


divindades da T1·rra :!86
~ litos em ('Oillcxto I 6
De~s do mar. do n:·u
Xo p rindpio 18
e do co~mo 292
o rthlll() 20
Ü~ prime iros SI' I'CS 22 Divi11dades dos animai~
l' da caça 300
Herói' I' trapal't' irns 24
Divindades da lhtilidn dl'
O grandt• dilúvio 26
e da a~ricultura :J()(i
A morte c o ,llém 28
DiYindade~ do .tmor.
O hm
l 3h do na,Óillt'II IO
do mundo 30
ASI.\ e do lar 31:!

Divindade\ elo de,lino


190 r da sorte 3 18
MIÉRIC:AS
Divindades trapaceiras .'12 1
222
D eus~·~ da guerra .'130
AFRICA
DiYindadt·, do
l\lundo Subtcmint•o 3.'Jfl
214
OCEA. I A Índia T/'1/IÜÚI'O J //
Agradrcmzcn/oJ 35 1
10 PREFÁCIO

TODAS AS SOCIEDADES TÊM A SUA MITOLOGIA,


UM CONJUNTO DE HISTÓRIAS SAGRADAS SOBRE
OS DEUSES QUE VERSAM SOBRE O SIGNiflCADO
CÓSMICO, DESDE A CRIAÇÃO ATÉ O Q UE OCORRE
APÓS A MORTE. AS PESSOAS R EPETEM ESSAS
HISTÓRIAS HÁ IvllLHARES DE ANOS PARA MELHOR
COMPREENDER O MUNDO E SUAS PRÓPRIAS VIDAS.
as cuiLUras do mundo aos mitos clássicos greco-
parece haver incontáveis romanos. Complemen-
mitos e inúme ros tand o esre Qyem é
deuses. Dizem que quem na milologia, há
apenas os mitos uma série de breves
hindus da Índia biogra lias de
envolvem milhares deuses e de usas,
de divindades. Essa detalhando suas
variedade é fascinan- origens, personali-
te, e deu origem a dades e fe itos.
histórias que entretêm
diversas gerações c Objetos preciosos, como o disco de
ORIGEM DAS
inspiram artistas e Hefesto da Era do Bronze em ereta. HiSTÓRIAS
permitem um vislumbre de civiliza-
escritores há séculos, ções antigas. O relato dos m itos
sendo relevantes até neste livro or-igina-se
hoje. Muitas pessoas lêem os mitos de duas [omes distintas. Em a lguns
pela luz que eles lançam sobre a vida, casos, os escri to res a ntigos legaram
os relacionamentos e a forma como o narrativas sobre os mitos de seus
mundo evolui. Acima de tudo, eles povos, e esses textos forn ecem
fornece m uma visão singular sobre inlilrmações sobre c ulturas com o a
idéias, rdibriões, valores e a cultura da Grécia clássica c a da Índia.
dos povos que inicialmente os Qua ndo não há textos antigos,
criaram. Compreender sua mitologia confiamos no trabalho de folcloris-
é compreender o seu mundo. tas e a ntropólogos cp.te visitaram as
locaJidades c registraram e estuda-
ABORDAGEM BINÁRIA
ram as histórias de sua tradição
Este é um guia para vá rios dos mais oral. A maioria dos mitos da África,
interessantes c influentes mitos do América do Norte c O ccania nos foi
tnundo. O corpo principal do livro passada dessa fo rma .
explora os mitos geografica mente,
com capítulos sobre a mitologia da
Europa à Occania, a lém de um As mitologias emergem no santuário de tumbas do
rei Antíoco I na Turquia, onde enormes figuras de
capítulo dedicado especialmente pedra representam divindades gregas e persas.
PREFÁC IO 11
- __ ____,...,.L

'
.
+ti•
INTRODUÇÃO
'
A MITOLOGIA
14 INTRO DUÇÃO À M ITOLOGlA

fr\iJ S MITOS SÃO HISTÓRIAS SAGRADAS.Falam da criação do


~ mundo, do surgimento dos deuses e dos primeiros homens,
das aventmas de heróis e da audácia dos trapaceiros, da nalureza
do céu e do mundo subterrâneo e também do que acontecerá no
final dos tempos. Todas as cultw·as têm seus próprios mitos, que
são passados de geração a geração.

A qualidade sagrada do cst1.1dos sobre 'fikopia,


mito é a sua caracteiis- uma da5 ilha'> Salomão
tica mais ímponante. mimetiza o método
Ge ralmente, sua versão ciemifico, preferindo
completa c seu ajustar teori as que se
signífk.ado interior só encaixem aos fatos e
podem ser conhecidos ignorar aq ueles q ue não
pelos sacerdotes, xamãs se enquadrem na teoria.
ou iniciados de um Um exemplo dcss.-1
culto em particular. A.s flexibilidade pode ser
vezes o rrúto é contado visto na m itologia dos
apenas em alguma achumawis da
época espetial do ano, Califórnia, conforme o
numa cerimônia As primeiras histórias registradas por mi- relato de 1928 de Istet
particular ou para um tos parecem ter sido instiga das pelo mun- Woiche a C. Hru1.
do natural que cerca os povos primitivos.
grupo de escolhidos. Meniam. Grande
Dentre os abmígines da Austrál ia, os admirador de fstel Woichc, esse velho
mitos podem ser o conhecimento secreto narrador de mitos, o Transmissor e
de homens, mulheres, parte da tribo ou Mamenedor das Leis do gntpo madesiwi,
de um grupo de pessoas. Um mito pode Merriam registrou: "Conforme nos..'\11
até ser propriedade privada de uma farrúliaridade cre.~ceu ... cheguei a encará-
fàmília ou de um indivíduo em especial. lo como um homem de not..:\vel saber."
Q;Jando Islet Woiche descobriu que a
MITO E RELIG IÃO Terra gira em seu eixo ao redor
O mito é o elemento essencial de todas do Sol o q ue não fazia
as religiões. Surge na forma de histórias parte das tradições dos
que abrangem crenças sobre a natureza achumawis - , rdletiu
humana, a do divino e a aliança en tre cuidadosrunente c decidiu
as duas. Se numa conversa informal q ue devia ser verdade,
"mito" significa algo fictício, em sua argumemando que "se o
essência a palavra indica uma forma mundo não andasse, não
haveria vento". Ele incorpo- ~~~~~,
de explorar a realidade fundame ntal.
M itos são histórias que dizem a verdade rou este novo conhetimcnto à
sobre nós mesmos. sua mitologia, auibuindo a
tarcla de fa7-tr girar o planeta
VERDADES FLEXÍVEI S a Coração do Mundo, uma
Mitos são ambíguos e sutis, contêm vários das duas divindades preexis-
significados. Não são fixos. mas llexíveis: tentes dentre os madesiwi.
adaptam-se a m udanças e a novos
conhecimentos. Essa nexibilidade inata A narração de histórias e a manulençã'p
de mitos e rituais eram de responsabili·
do mito - inicialmente observada pelo dade dos mais velhos e dos homens ~
antmpólogo Raymond Firih nos seus mulheres sábios.
O Q.UE É O MITO? 15

A arte pré-histórica geralmente


sugere que os artistas registra·
vam histórias e acontecimentos
lendários.

Mitos são a fusão de im-


pulsos criativos, espirituais
e sociais da humanidade.
As histórias têm várias
funções: religiosas, estéticas
e práticas. Esscncialnwmc,
os mitos de cada sociedade
agem como um registro-
padrão de todos os
aspectos de sua cultura.

MITO E METÁFORA
Os mitos, como os poemas, operam por iniciação da mulher no seu poder
meio de metáfora. Dobram o mundo fem inino. Os pimas do sudoeste
até que pontos distantes e distin tos se ameiicano têm um mito no qual o deus
wcam c convergem. Essas equivalênôas Gavião •·eproduz nosso mundo num
nos mosrram quem somos rcahnente. cosmo em miniatura. Cada mito í: como
Por exemplo, a dcsrida de lnana, deusa este cosmo em miniatura, apresentando
da Suméria, ao mundo subtctTânco um m undo de signifi<.:ados. as palavras
pode ser interpretada por um leitor da antropóloga Maya Deren: "Os mitos
moderno como uma descrição psicologi- sào os fatos da mente manifestos em
camente exata c poeticamente viva da
16 INTROD UÇÃO À MITOLOGIA

MITOS EM CONTEXTO
O s mitos são histórias sagradas sobre as grandes questões da vida e da
morte, m as também estão presos à esLrutura social e aos valores de uma
sociedade, suas idéias sobre a família, o relacionamento entre os sexos,
a lei c a ordem, e abordam ainda a culinária, a caça e a agricultura.

O CAM INHO do povo warao na região do ddta elo


PARA O SAGRADO Orenoco, Venezuela , todos os aspectos
Os mitos fornecem ta nto um cam inho da vida, por mais mundanos, estão
para o mundo sac ro quanto um guia imersos no senso elo sag-rado.
sobre como viver no mundo da realidade
emidi ana, pois para uma sociedade que ENTRADA NA SOCIEDADE
se identifica com pletamente com a sua A verdade da mitologia dos waraos
mitologia todas as ações neste mundo repousa na rorma como ela liga ao povo
rcoam no dos deuses. Numa cultura que o complexo nicho ecológico no qual
é- totalmente imersa no mito - como a vivem. Ao nascer~ um warao inicia um
vínculo perpétuo de r('sponsabilidade c
respeito mútuos rom os deuses waraos.
O primeiro choro da criança percorri' o
mundo mé a montanha-lar de Ariawara,
o deus ela origem. e o gli to ele boa.s-vimias
elo próprio deus retoma como eco. Trê~
dias após o nasci mento. Hahuba, a
serpente do se 1~ que repousa encolhida
nas <íguas elo mundo<: r'!'s pira de acordo
com as marés, emia uma b1isa perfuma-
da pêlra abraçar a nova vida. A criança já
faz parte do equilíbrio cnll1' o natural r o
sobrenatura l, que é o cotidiano de urdidu-
ra c trama dos waraos.

O MUNDO EM MICROCOSMO
Povos como os waraos eslâo perfeitamen-
te &intonizados com o meio ambiente.
Encenações das histórias sagradas e rituais unem
as sociedades, tornando os objetos ritualísticos Em um nível seus mitos são histórias
posses valiosas. imbuídas de mâgica. emocionantes sobre os seres sagrados na
MITOS 1·.1\1 CONTEXTO

étxx:a da rriac;:io c em outro são um gtúa A rivalidade tribal na sociedade da fndla renete-se
dcta!Jtado para o delicado equilíbrio em mitos que falam de heróis de famnias lend~rlas
que superam uns aos outros em atos de corasem.
natural do mundo em que vivem.
Ao IX'l!Qlli'ar a mitologia do fXM> ca.sal; Domiduco tonduzia a noi\'a para
ilugao na ilha dr Luzem, Filipinas. Ro) o no\ o lar; Domício aí a instalava;
Fr.mklin Banon desistiu de tentar contar ~l anturna a mantinha lá; Virginienst'
o:, deuses ifugao~ deiX)iS que chegou a lhl' desatava a cimura de virgem; Súbi-
1.500. E.~L~ divindacics - os 70 deuses da go a ;ubnwtia ao desejo do marido;
!'('produção, c•s cinco que aliviam a Prema a mantinha sob o corpo do
artrite, c assim !Xlr diante são seres marido; r Pc' nunda permitia a pt·nrtra-
poum imptntanles para quaisquer outra\ ção. Santo 1\goslinho irottÍGtmtnlc
tx·s.~oas que não os ifugaos. Por sua argumc·ntou: " Deixe alguma coisa para
natu t"<':t.a mui to l'('strit.a, os miros iftJgaos o matido fazer também."
não são útci~ para generalizações sobre o
mundo, mas, t'lll ~~~ comexto especítlco, PADRÃO PARAO COTIDLANO
codificam e explicam todos os aspectos 1\'Litos, portanto, não são meras hi~tórias.
da vida ifugao. Ofrn' c·em •·oesào social, atuam como
gui~ para o comportamento mesmo no
Q1JEST0ES HUMANAS !rito nurxial, mantêm o delicado
Como os ifu!);aos, os romanos tinhmn e;-quilíbrio, os valores, as estrutum.\ dt•
um deus ou uma dt•usa para tOdos os cada '>Oeirdadc, bem como sua relação
objetivo~. Um m arido romano p recisava cont o mrio ambiente, c criam um
da ;~juda cic oito deu. cs apenas para \Uporh' cspiti tual plll-a os costumt·s, os
consu111ar o c:t~amrmo: Jugalin o unia o rituais r as CTcnças.

"VIVEMOS PELO MITO E O INCORPORAMOS,


E ELE NOS INCORPORA. O QUE É ESTRANHO
É COMO O RECON TRUÍMOS."
Michael Ayrton, The Midas Consequence
18 INTRODUÇÃO À MITOLOGL\

NO PRINCÍPIO
Quase LOdas as sociedades relatam como o mundo, as pessoas e os
animais for-am criados. Em geral, os mitos sobre a criação (}liam de um
mundo primitivo de espaço vazio ou de água e gelo, que é moldado por
um criador, ou ainda de uma batalha cíclica entre a ordem c o caos.

O "EU sou· PRIMOR.DlAl


() l<'ma mais recorrente nos mitos de
cdação é o desejo de um drus criador que
separa a T erra dos céus, molda as
paisagens c cria pessoas a partir de barro,
galhos, suor ou até mesmo de suas
próprias pulgas. o mi10 dos antigos
egípcio~. esse deus era Rà, ou Amo n-Rá
taml-i-m chamado N ciX'rtchc r, o Senhor
sem !.imites - , que se IC.' z simplesmente
dizendo "Eu sou!", IUltt•s de m locar as
fo rças da criação em movimento
ma.>turbando-sc. A noção de trazer o R!, o deus-Sol criador da mitologia egipcia. com fre·
mundo à existência es~í presente no mito qO~Ia é representado sob forma humana. usando a mi·
tra de faraó e navegando sua barca sagrada pelos céus.
dos kcrt'S. povo amcric;mo do ~udocste.
nüa Mulher Pcns.'ldora tl'('('ll o uni'-= partir d.l união de águas don·s (' salga-
por meio de seus próprios pensamentos. da.~. Em muitas c ulturas, um agí'nlC de
tran~formação deve laze r o solo emergir
CRIAÇÃO DA ÁGUA das pro!imdezas primeiras. O s ai nos,
O ~urgimento da existf·nria a partir de povo nativo doj apào, contam qu<> o
um abismo de água tt uma cam<:tc:rislica c riador Kotan-kor·-kamuy fr/ descer do
do núto egípcio, no qual um monte de rru uma alvéloa de água para que essa
terra emerge do oceano de t'\un, enquan- aw trouxesse a lcrra do fundo do dilú~io
to o mito da criação da Babilônia fala primitivo e lorrnass<' o solo. D t·mrc: os
sohrc o na<>cimemo de todas as coi~as a nativos americanos, es.st• "c~ravador da
terra" toma a forma de um Ctl~lOr, marta,
rmo almisca rado, mohelha, tana ru&ra ou
pato. À~ vezes, essa figur-.t {:oro-criador~
qut· l<'nta t'Stragar o mundo, como no
mito ~iberiano de Ulgan c Erlik. Quando
Crlik emerge de seu mergulho ao fundo
do oH·ano, dci.xa um pouw de lama na
boca, csp('rando criar seu próprio
mundo, pois vir-a com o est(' mundo fora
c riado. Ulgan ordena que a lama se
expanda (' F.rlik quase se engasf.(a; a lama
qui' di· cospe se Uttmforma na$ panes
pamanosas da 1crra.

Amaterisu, a deusa do Sol, e Susano. o deus da


tempestade. s3o filhos dos deuses criadores japo·
neses lzanami e lzanagui. Com rreqOêncla a criação é
seguida pela procriação de divindades elementares
para controlar os vários aspectos do novo cosmo.
:--:0 I'RI N(;ÍPJO 19

FORÇAS DA NATUREZA cnquamo Vazio se c-levou o m,tis alto


Em muitas mitologia~. '" forças da que pôdr e se tornou o Céu. A panir
naturrza ~e combimtm para tr:uer o do:. dois, irmã. c irmão, ~urgiu todo o
muudo ;, vid<L O mito dt· rriaçiio do; resto do mundo. Um mito polinésio
singphw,, H imalaia. no~ d i ~: que no sobre a rri;1ção (: tão detalhado que até
princípio niio ha\·ia terra, nem d·u. celebra o na<;('irnento da p~ira no ar,
apl'll:t'> nuvens e né\·oa. Ui,,o na.,ceu ,·indo da união de "Coisa pequena"
uma mullwr-nuvem. Por '>Ua \C/., ria com ··C:oi;.a imperceptível".
deu à luz duas crianç~·IU"H', qur
tiveram uma menina-l,tnu e tJm CICLOS DA CRJAÇÃO
nwn ino-nuvem. Este> t:tlllbl1m ~c Na t:n·n~·a hindu, o deus Brahma é a
casanun, c o rtlho deles lui o w mo. Seu lontc dt· wdo rcmpo-cspaço c dos
sopro L'ra tã o poderoso C(Ul' ele atirou traball ws de n iação rm um t•ido
seu pai-nuvem para cima, para bem con tinuo. Quando Brahma acorda, o
longt'. t' 'ecou sua mãe-lama, t' eles mundo M' torna um ser durante o
acabaram se tornando o (;(·u t' a Terra. "dia'', qut• d ura mais de qual ro bilhões
·1~11 mito dr criação pmk rapida- dc ano'>; quando Brahma dorme, a
mente \Cr relacionado ao' li•ncimenos ilusão LOtai do mundo se dissolve- rm
nalurai~, ma; ou tros sfto lwm mais abs- nada. Este co nceito de uma s1'ric d e
trato:. I' llllrlec tuais. Ue <:~rorclo com o~ novas criaç(ws pode ser cm·ontrado
índio>juanríios e luí;âJOs da Calilor- em muitns outras mito l ogia~. co mo a5
nia. no princípio nào havia nada, da 1\ mt:rira Central. ~l esrno u fim de
apen•h o e'paço ,·a.rio, ondt· '~' toda, ,., l oisa-;, como a batalha nór-
form.tram dua, nuvtth. L' ma foi di<a dt· Ra~narok, o crcpúo,rulo dos
chamada \'ago e a outr.t, \ ',tóo. \ 'ai{O dcu'>t''>, pode ser simplc<;nwnte um
\l' L''Lirou c se tornou "Tt:rra. novo nlllwço.

"os MITOS SÃO SONHOS PÚBLiCOS;


OS SONHOS SÃO MlTOS PRlVADOS."
Joseph campbell antropólogo

Devido à proximidade com o céu.


as montanhas, do Himalaia às
Rochosas, figuram em varios mitos
de criação.
20 1:--J' I RODUÇ,\0 i\ }.IITOLOGIA

O COSMO
!\ criação do Sol, da Lua e das estrelas faz parte de quase todas as
mitologias. É obse rvando a dança das estrelas e as rotas dos planetas
que medimos o tempo. A f~tce inconstante do céu noturno levou a
rnito~ sobre a idade do mundo e sobre batalhas de poder nm céus.

O ETERNO RETORNO O MOINHO DO CÉU


t lnHt das caractciÍsric<l ~ principais de Um dos conce itos rr ntrai~ ela mitolot,ria
muitas mitologias é o ron traslc entre a am iga i: o rnoinhn do cf u, CJLil' hrira o
lirw,rridadc do tempo qtrl' vivenciamm pilar có:.mico ou árvore do mundo. O
r o ritmo cíclico do wmpo mitológico, moinho do equador crk~Lial produz as
que inc-orpora o que um hio;toriador de eras do mundo. l'm dos nonre;, dados à
t"<'ligiocs, l\fircea l~liadt', chamou de "'o gr,mdt• divindade inca, \ 'iratodla, t:
rniw do eterno retorno". Os mitos e os tradu1.ido como "o dono do moinho ...
riluai~ ~ào uma llm11a de t'nlmr no pre- 0 :. inrrL~. percebendo o fi ·nôrnrno
~c-n tc rlt-rno desse rrmpo mitológico r aslronômico da preccssiio (a oscilação
arc~~ar seu poder criativo. na rt)l:tção da Terra , q ue fa1. o equi -
nót'io se movimentar pela> corrstela-
A ÁRVORE DO MUNDO ç(ks), temiam que as rstrelas e o Sol
:\ lnitas rosmolo.~a\ imahrinam um uni- cstin·ssem em guerra, e lenta\'iUll
\l'r~o <'m \-árias camadas, unidas por amarr.í-lo:. para evitar um dt's;<Stre.
umt•ixo central ou ''árvore do mundo". fa:tendo rituais na pedra lntihuatana -
n. vi kings colocav;lm o liflheim, o "o ponro mais alto do Sol" , em
murrdo dos mortos, n:1 pari<' infe rior do Mar hu l'icrhu. Lá eles suplicavam a
cmrn o, o mundo dos mortais, ~1idgard, Virac-odm: "Que o mundo não vire de
no meio, c A~gard, o mundo dos deuses, cabeça para baixo."
t•nr 1 i ma. Ligando-os aos r\'Ínos dos
Uma pose clássica do deus hindu Vis/lnu mostra a di·
elfo\, gigantes e an&·., havia a árvore vindade repousando sob<e a serpente cósmica Shesha,
do nurndo. Yggdrasil. que mantêm lodo o universo dentro de seu capuz.
"NOSSO POVO FOI F
PELAS ESTRELAS."
Jovem Touro. um pawnei! pitahawirata

A CRIAÇÃO DO COSMO vi'w como uma pessoa vi\õ\. É constn•í-


Ü ;, p.mnc:c:' d.l'> Grandes Planícies da do de none a sul, com uma folja na
Am(·rit·a do \lorte acreditam que rabcça t• um templo nos pés. porqtu·
foram f~iws pelas estrelas e quc: no fim Amma. o criador, fez o mundo de ha rro,
•c
do mundo tornarão estrelas. Essa no formato de uma mulher deitada nesta
mitologia cÓ>Jn iea se reOete na posiçiin. A cabana do Hugon, o dwfr, í·
arquiH·tura dt· s uas cabana~ de barro, um modelo do cosmo, e os movimenws
que, como as trndas de suor do~ dele estão aj ustados ao ritmo do
lakota~. são uma miniatura do universo. Sua bolsa é a "bolsa
universo. A, tendas são do mw1do", seus auxiliarl"i
ron\1 ruídas com pilares no sào o ·'eixo do mundo".
nordt•stc, noroesu:, sudo-
e;,tc c -,ucl<•su·, n·prc:- O SOL É DEUS
sentando os quatro deu- ,\s famosas últimas pal.t-
St's q uc: ,t•gu •~•m os céus. vras do pintor britàniro
A entrada fica do lado V\"tlliam Tun1er, "o oi r
leste para ckixar a cons- Deus". estão reOelida~ t•m
trução "respirnr", I' o todas as mitolohoi:.l$. O dis-
altar com u rrii nio de co do céu feito ck lmmt.c
búfalo dc: Tirawa, o Para os gregos, em Delfos. a pedra proveniente de Ntbra, 11111
criador, fita no ot'>lt'. Ompha/ós ("umbigo") marcava o anefato astronônúto
centro do mundo.
datado de r. 1600 a.C.:.,
UM LUGAREJO VI VO <k-c•vvt• o paraíso visto de uma moma-
O povo dugon, de 1\ [ali, oeste da. Vrica. nha d1• :\linelberg, Alemmili<L Prov:wd-
tem um dos ,i,u·ma., mitológicos m.ús m<·nu· usado como um calendário.
mmplt•,os já rehri~uõldos. C.:ada <L~I:>et:to mo~tra o Sol, a Lua, a~ e:.trela.'l, O'> sobtí-
da vida dogon exi~tc por meio do mito. tio~ de invt:rno e de verão e um barro
Cada vil:m.:jo dogon, por exemplo. f- dourado, no qual o Sol cnJZ.M\ o réu.
22 INTRODUÇÃO A MITOLOGIA

OS PRIMEIROS SERES
Todas as mitologias narram como os prime iros homens foram le i los.
Mas muitas vezes a humanidade parece em ergir como um úpo de
renexão post.criol~ apenas depois que o processo principa l da c riação
está concluído, seja pelos deuses, ou por uma raça de seres a ncestrais.

ANCESTRAIS M ÍST ICOS O FLUXO CRIATIVO


Na Austrália, Africa c Américas, muitos Esses seres primitivo.~, com seus toscos
mitos não se preocupam com os con- poderes de Lransformaçào e criação, são
temporâneos, mas sim com os seres muito impOTiames para a mitologia e pa-
an cestrais, parcial mente humanos, ra a visào de mundo de várias cul tmas. A
p;ucia lmcme animais, da época d a comprl'cnsão trazida por mitologias como
çriação. A atividade dele - o Son ho, a dos achuwamis é a de que o mundo está
para os aborigines australianos - estru- em estado de nuxo t:ti ai:Í\"0 desde o início
turou o mundo c cstab(')ercu as dos tempos, de que tudo e.stá interligado
leis. Por t?xempl o , ~ m irn lógir:ol e clt' () UI' os homens foram uma adi-
.;história elo uni verso" dos ção posle tior a esse amálgama
ac-huwamis da Califór-
nia, registrada a partir OS M ITOS DA
do relato ora l de lstet IDADE DO GELO
VVoiche, tem 160 Essa mesma visão de
páginas e apenas na mLu tdo provavelmente
penúltima os seres j á roi dominante na
humanos entram na Europa, como se pode
história . Todo o livro ver pelas pimuras de
é ded icado aos feitos ele cave rnas da Idade do Gelo,
uma raça conhecida como que retratam animais, homens c
o Primeiro Povo, e é só homens-an imais e panxem se rela-
depois de um di)ú,,io cata~­ cionar a rituais xamanísúcos de
trófico em que quase todo caça. Estão espelhados na arte em
esse povo se transforma em
O guerreiro-águia da América Central honra
an imais qu e surge a raça huma- um membro da raça prévia de seres animais- um
na conforme a conh<'cemos. tema comum a vArias culturas.

"VAMOS FAZER O HOMEM


C011 IMAGINAÇÃO."
Gênesis, 1:26, numa tradução alternativa do rabino Nachrnan de Bratislava
OS PRIMEIROS SERES 23

com orações e sacrificios. Tanto na mjto-


logia clássica grega quanto na maia, três
versões humanas são criadas antes que os
deuses estejam satisfeitos com o resultado,
embora ainda hesitantes. Os protótipos
rejeitados podem srr destnúdos, e..xilados
pelos seus criadores furiosos ou ainda
transformados em arumais. Às Ve'"I.:CS, OS
h omens surgem quase que por acidente,
como no mito esloveno no qual Deus
estava tão exausto depois de c1iar o uni-
verso que uma gota de suor· caiu de sua
testa. Essa got.a se tornou o primeiro
homem, destinado à labu ta c ao suo•:

DEYOLTAAO ESTADO
PRJMJTIVO
Na nútologia dos nmml.ks (Be.Ua Coola)
da Colúmbia Britânica, o deus supremo
Alquntam criou os primeiros humanos.
Cada um deles escolheu um "manto" de
Os cristãos Adão e Eva têm paralelos em várias pássaro ou animal que ficava na Casa
mitologias: se as primeiras pessoas enfurecem os dos M itos c desceu à Terra sob aquela
deuses, são banidas ou transformadas.
forma. Para os nu.xal.ks, o corpo &sim-
rocha dos sans (boxímancs) do sul da plesmente wna "manta de carne". O
África, cujos mitos vivos tratam dos feitos espírito é imortt-tl. Quando wna pessoa
da Raça Primitiva de pessoas-a.•úmais. O morre, seu espírito refaz o caminho dos
deus criador dos sans mantém a capaci- ancestrais até d1egar ao lugar onde o
dade de se transformar em várias fom • ~"IS primeiro deles desceu à Terra. Então ele
animais diferentes. pega o manto do ~\J1cesLr.:u e ascende
para vive r na Ca~a dos Mitos.
TENTATIVA E ERRO
As costas da Terra do Fogo, onde os ancestrais animais·
Às ve-.~;cs, a criação dos homens pelos homens do povo yamana se estabeleceram. As mulheres
deuses é a última de uma série de mandavam nos homens, até que estes se rebelaram.
tentativas pa.ra se lazer uma raça
preparada para alimen tar esses deuses
24 INTRODUÇÃO À l\1ITOLOGIA

HEROIS E TRAPACEIROS
Na mitologia há dois tipos de heróis. Uns são celebrados pelos grandes
feitos, como Hcraclés (ou H ércules). Outros deram aos homens os dons
da cultura, como a agricultura, a cerâmica ou a tecelagem. Os ambiva-
lcntcs trapaceiros podem ser heróis da cultura ou mesmo co-criadores.

PALHAÇOS velho ou em qualquer


I NCONVENIENTES outra coisa para pregar
A imponância dos trapa- peça~ nos homens.
ceiros na mitologia repou-
sa no reconhecimento cul- ARANHA E LEBRE
tural de qur a vida, no "Iktomí" significa aranha,
fundo, í: um paradoxo c c diz-se que o deus tem
uma btincadrira. Isso fica um corpo redondo e
evidente. p.ex., no pernas de aranha, mas pés
eompo1·tamento dos e mãos humanas. Outros
palhaços heyokas dos trapaceiros dos nativos
lakotas, uma nação do americanos são a Lebre,
~feio-Oeste americano. Big Rabbit, o Corvo, o
Os hcyokas são pessoa~ Coiote e a Marta. Na
que, tendo sonhado com Em oferendas a Legba, deus Aftica, os trapaceiros
um ser mitológico trapaceiro do vodu, leite e ovos geralmente são a Aranha
chamado Pá<;.o;aro-Trovão, são derramados sobre ele. ou a Lebre: os lTapaceiros
passam a fazer tudo ao contrário. Usam Anansi (o homem-amnha dos ashantis) e
as roupas do avesso, caminham para trás a Lebre foram levados prlos esc ravos da
e falam usando antônimos. O modelo Áf,ica ao Ca•ibc e aos Estados Un idos,
para todos os heyoka~ é lktomi, o onde ficaram mais conhecjdos, nos
trapaceiro lakota que conversa eom o estados do sul, como Aunt Nanc:y, figura
Pássaro-· rrovão. [ktomi, originaJmrn tc que aparece em histótias populares dos
Sk.4 deus da sabedoria, está condenado guUahs, e Brer Rabbit, o esperto mas às
a caminhar pda Terra, dotado apenas ve:1.es prncnsioso he rói da~ história~
d1> sua esprncza que sempre o encurrala foldóric~'\s de Unclc Remo.
em suas próptias ciladas. Ele pode
conversar com todos os seres vivos, TRAPACEIROS GREGOS
tornar-se invisível e transformar-se num Vá,ios deuses gregos, indusín' Hermes t
Dioniso, têm caracte-
risticas de trapaceiros.
Mesmo o grande herói
Heraelés às vezes í:
retratado como um
trapaceiro: na versão
romana, em que é
chamado de Hfreulcs,
ele c a amante Ônfalc
vestem-se um com as

O Corvo trapaceiro é comum a


mitos de tribos tanto da
América do Norte quanto do
norte da Sibéria.
HERÓIS E TRAPACEIROS 25

roupas do outro pam enganar o lascivo ca~. O mito dos Gt~meos-Hcróis, entre os
Fauno !,p.92). Na pimura de um vaso, maias c entre os nativos americ.anos do
que retrata a tentaljva de Heraclés de sudoeste, mescla coragem e trapaça em
rouba r o altar de DeJibs, ele tema ~uas bau.Uha~ contnt os monstros que
persuadir Apolo a descer do te lhado enfcstam o mundo. É a cspenC7.a de
de um templo com uma bandeja de Odisscu que ckcide a Guerra de Tróia a
apetitosa~ frutas, mas na outra mão làvor dos gregos, c é a coragem quf' leva o
porta uma clava, promo para atacar. astutO Maw-dos-Mil-Truqucs do mito
polint~sio a tentar conquistar a morte - c
"A DESORDEM morrn nessa tentativa
PERTENCE À
INTEGRALIDADE DA
VIDA, E O ESPÍRITO
DESSA DESORDEM É O
TRAPACEIRO."
Karl Kerényi. ""The Trickster in Relation to Greek
Mythology•, em The Trickster, de Paul Radin

TRUQ!)ES DE LOK.l
O deus nórdico Loki é um rrapacciro.
Embora seja wn dos deuses de Asgard
Odin, o pai de todos, é seu irmão ado-
tivo - ,é também lUll dos gigantes inimi-
gos dos detL~es. Seus truques custam
mu ito raro aos deuses, ma~ também os
fazem ganhar seus maior<'.s tesouros, c de
é tolerado all~ que provoca a morte de
Balder o Belo, o amado lill1o de Odin.
Depois que Loki e_<;carncce dos deuses,
revelando seus segredos mais vergonhosos
(p.ex., que as falhas do gigdflle Ymir
usavam a boca do deus do mar Njord
como penico), eles o pefSCb>uem e, usando
as entranhas de seu nlho Narvi,
amarram-no a wna rod1a,
fazendo ainda com que o
veneno de uma cobra
pingasse sobre seu rosto.

NATUREZA DÚBIA

Hérades possuía a força físi


de um herói, mas seu caráter era
maculado por amblção,lascTvla e
um temperamento violento.
26 lNTROD UÇAO AMITOLOGIA

O GRANDE DILÚVIO
A histórja bíblica da arca de Noé é o mais conhecido dos mitos
universais em que um deus enraivecido destrói e limpa o mundo com
át,>Lta ou chamas. Os paralelos entre a história de Noé e os antigos mitos
da Mesopotâmia registrados no i'-pica de Gilgamesh são surpreendentes.

UM RECOMEÇO história da Bíblia que é dificil separar as


Em mui Las mitolog-ias o mundo era influências. No oeste da AustTália, por
apenas um oceano em seu estado exemplo, a histótÍa de 1 oé foi super-
primitivo. Assim, a ação dos deuses, posta à paisagem local. Construin-
ao inundá-lo, o devolve à do-a sobre suas próptias
primeva condição, tradições acerca do dilúvio,
permiLindo Llm reco me- os aborígines acreditam
ço. Na miwlogia dos que a arca de Nof parou
chcwongs da Malásia, o ao sul do rio Fitzroy c que
Ct;ador Tohan transforma seus restos ainda
o mundo de tempos podem ser vistos ali.
em tempos, quando No Peru, o criador
submerge todas as inca Viracocha,
pessoas, exceto aquelas insatisfeito com a
que p revenira, e cria uma primeira Lentativa de
nova Terra no fundo das f01jar humanos - uma
águas. Os mitos de No mito hindu, o deus Vis hnu toma a raça de gigantes ,
dilúvio são encontrados forma de um peixe, Matsia, para salvar o destruiu-os com um
mortal Manu do dilúvio.
no mundo inteiro, dilúvio q ue os transfor-
mesmo (em bora csparsamente) na mou em pedra. Os incas apontam
África subsaariana e na Europa antigas estátuas, como as de T iabuanaco
continental. O miLO hindu de Manu e o (um local sagrado na at ual Bolívia), como
dilúvio é o mais conhecido dentre as evidêncitl dessa raça primitiva.
diversas vari an1cs asiáticas.
O DILÚYLO COMO PUN IÇÃO
INFLUÊNCIAS BÍ BLICAS O conceiLo de d ilúvio como punição
Alguns miios de di lúvio indígenas ocorre na história dássica de Adântida
fundiram-se tão completamente com a (ver p.27). No mito da Grécia Antiga,

"ATLÂNTIDA DESAPARECEU NAS


PROFUNDEZAS DO MAR. "
Platão, nmeu
O G RANDE DILÚVIO 27

Ze us enviou um d ilúvio pa ra punir a No mito grego, Deucalião e Pirra jogaram pedras


a rrogância dos primeiros homens. O sobre os ombros para recriar a humanidade. Dizem
que as pedras eram os ossos da Mãe·Terra.
Litã Prometeu adve rtiu DniCalião, se u
filho, da catástrofe que sobrc\·Í ria. mulh er no fogo e ela chorou até que ele
Deucalião construiu uma arca e nela se a banhasse em água de nixtamat (grãos de
refugiou com a esposa, Pirra. Por nove milho embebidos em uma solução
dias e noites eles ficar;m1 à mercê das alcalina), com o que ela se tornou uma
águas. até pararem no m o nte Parnaso. mulher de verdade. Eles se casa ram e
Quando as chuvas cessaram, D eucalião são os ancestrais da hum anidade.
ofereceu um sacrilicio a Zeus, que e m
troca lhe concedeu um desejo.
Deucalião e mão pediu outros homens Para agradar sua amada, a mortal Clito,
sobre a "I erra. Seguindo as instruções Posidon transformou a mítica ilha de
de Zeus, o casal j ogou pedras sobre os Atlântida num lugar de maravilhas. Seus
ombros. As que Deucalião atirou vi1·a- filhos regeram o Mediterrâneo sabia-
mente, mas com o tempo o sangue divino
ram homens e as de Pin·a, mulheres.
arrefeceu e o povo atlante sucumbiu às
paixões mortais, ambicionando o poder.
ÚN ICOS SOB REV IVE NTES Posídon, triste e zangado, agitou o mar
O repovoamento da 1c n·a após uma até que uma onda enorme engolfasse
inunda<;ào com lh:qliência req ue1· Atliintida e a ilha afundou sob as águas.
soluções engenhosas quando, como nos
mitos eslavo e mesopotâmico, apenas um
indivíduo, um homem, sobrevive. Num
caso semelhante. os hwchols, gmpo
indíge na do Méxko cenln u, nanam um
di lúvio no qual apenas um homrm
sua fiel cadela esrapan1m.
Espionando-a, ele viu que ela
podia se transformar em
mulher. O homem atimu
a pele de radela da
28 INTRODUÇÃO À MITOLOGIA

A MORTE E O ALEM
Por que morremos e o que acontece quando partimos são perguntas
feitas em diversos mitos. Personagens heróicos desceram ao Mundo
Sublerrâneo buscando resposlas junto aos deuses da morle - que
também podem ser, como o deus vodu Gedé, os senhores da vida.

SEGREDOS DO Al ÉM teceu na escm·idão antes ou depois?


Os mitos dos antigos sumérios estavam O cristianismo oferecia w11a resposta.
intimamente ligados a questões de Edwin concordou, assim como Cow,
mortalidade e imortalidade. Após a o sumo sacerdote dos antigos deuses, e
morte do amigo Enkidu, o herói ele mesmo comandou a dcstnuçào dos
G ilgamesh busca a vida eterna I' qua.~e vdhos templos pag-Jos.
a consegue. A deusa l nana des\c ao
Mundo Subterrâneo r. é obrigada a se O JULGAMENTO flN AL
livrar ele tudo que apreriava antes de Os egípcios con\rbcram o além como
subir novamente como a Grande um vale estreito cortado por um rio,
Deusa do Céu c da Terra. separado deste mundo por uma cadeia
de montanhas. O mágico SNnr visita
A BU SCA DA CERTEZA os sete salões do Além. À porta do
Tanta é a motivação de descobriJ· o que quinto salão estavam os acusados de
está além da morte, que isso pode crimes, suplicando por misericórdia. O
mudar o curso da história. Em 627, o séümo era o Salão das Duas Verdades,
rei inglês Edwin de Nonúmbtia reuniu onde os pt:cados do morto eram pesa-
um consdho para decidir se devrria ou dos em relação à pena de Ma'at.
não se converter ao cristianismo. Um A idéia de uma jornada dilkil após a
de seus seguidores comparou a vida de morte até um lugar de julgamento linal
um homem ao vôo de um pardal em um não é prerrogativa das "grandes"
salão de festas. Qut:m sabe o que acon- civilizações. Os guarayús, da Bolívia,
narram como a alma do mono
escolhe entre um caminho largo e fácil
c um outro, csu·cito c perigoso. Ao
escolher o eslTcito, a alma enfrenta
vários perigos ;mtes de se reunir a
Tamoi, o Avô, em seu paraíso. Um dos
testes é caminhar pela árvore mágica,
que conhece todos os srgn-dos da vida
pregressa da alma, sem ouvir suas vozes.

ALUA
A Lua é um símbolo poderoso da mone
e do renascimento em muitas mitolo-
!,rias. Os diguenos da Califórnia
dizem que a Rã estava zangada
com o criador, Tu-chai-pai,
e cuspiu veneno no lago de
onde ele bebia. O criador
não bebeu o veneno, mas
Muitos mundos subtetrâneos têm um "guardião do
portal", como o grego Caronle e o egípcio Aken. A gigan· ficou tão amargurado que
te Modgud guarda a ponte para o nórdico Hei (acima). decidiu morrer: Disse às
A MORTE E O ALÉ.t\1 29

Mundos subterrâneos como o


Hades grego podem ser visitados
por heróis para resgatar um
campanheiro ou um amante-
um tema comum nos mitos.

pessoas: "Morrerei com a


Lua." Quando ela se en-
colheu no n-escemc, o
criador faleceu e transfor-
mou-se em seis estrelas.
Desde entào. todas as cria-
tura~ devem morrer.

A MA LD IÇÃO DA
JMORTAUDADE conseguisse segurat: Apolo atendeu ao
O mito grego da Sibila de Cu mas pedido, mas, ao ser rejeitado por ela,
adverte sobre o desejo de imortalidade. negou-lhe o dom da eterna juventude.
Apolo se apaixonou pela jovem Ela definhou, até fiem· presa num jarro
sacerdotisa c ofereceu a ela wdo o que corno urn inseto. Quando lhe pergunta-
desejasse. Sib'ila pediu viver tantos anos vam o que ela queria, ela respondia:
quamo os grãos de areia q ue ela "Quero morr(•r.'·
O Campo de Juncos dos egípcios é comparável
aos Campos Elíseos dos romanos - uma morada
final para os bons e heróicos que oferece uma
imortalidade de êxtase celestial.
30 IYfRODUÇA O A :M ITOLOGIA

O FIM DO MUNDO
Assim como a maioria das mitologias descreve o princípio do mundo
no momento da criação, muitas predizem o fim do mundo em algum
tipo de catacl ismo definitivo, no qual as escoras que o suportam
cederão e o mundo será consumido pelo fogo ou wmado pelo dilúvio.

PREVENINDO O FIM mitologia da nação 1vinnebago - foi


Os povos naúvos americanos da iniciado nos dtos medicinais sagrados
Caüfórnia celebram complexos rituais da tribo, disseram-lhe: " Mantenha ll!clO
anuais cujo objelivo é "a renovação do em segredo absolu10. S(' O r'('Velar, O
mundo". O festival do Ano Novo dos mundo chegará ao fim. Todos morrere-
antigos babi lônio~ tinha o mesmo fim, o mos." De forma semelhame, quando
de manter as forças do caos a d istância Edward S. Curtis fotografou os
c pc:rmi tir ao clc: us Mardu k estabelecer tambores sagrados de tarta ruga dos
a o rdem universal para o ano seg·uin te. mand ans. seu guardião, Packs \Noll;
Implícita nesses rituais está a idéia de Lhe disse: ' ·Não os vire j am ais; se isso
qu e se m um esforço conce ntrado o acontecer, todas as pessoas morrer<"lO.' '
mundo escorregará para o caos
primitivo. que poderá se1· "clescriado" CATÁSTROFES FUTURAS
com a mesma faciüdade com que foi Em todo o mundo, dos hmongs do Laos
criado. Por exem plo, q uando Jasper aos toba~ de Gran Chaco, Amé ri ca elo
Blowsnake - uma fonte esse ncial para Sul, há m itos sobrt~ catástrofes mun -
os etnógra(os que registraram a diais passadas c aviso de outras futuras.
Como o poeta Robert Frost escreve u:
" O mLmdo acabará em logo, djzem
alguns./Pa ra outros, findará em gelo.
PeJo que sei do clestejo/Me j unto
àque les a favor do fogo."'

O SIG NIFICADO DO T EMPO


O LWro de Chilam Bainm, dos maias, diz
que "todas as luas, wdos os anos, todos os
dias, todos os vemos, cheg-am à plenitude
c fenecem". Os maias acreditavam que o
O Fll\·1 DO MUNDO 31

Ragnarok, a última batalha cata-


clísmica da mitologia nórdica.
marcarão fim deste mundo.

tempo mantinh a os deuses


presos dentro das estrelas.
Essa noção se refiete na
mitologia do zoroastrismo,
na qual o tempo era
imaginado como um meio
de se prender o espirito elo
mal A111iman dentro da
criação, (' levá-lo à sua
queda final.

UM DEUS EXAUSTO
Uma velha canção de simpósios <>gipcia si mesmo e reto rnará Apureza da
fala de "milhõ<'s c milhões de anos fut.u- incx~~tência primeira.
ros" na terra elos mortos. No entanto, os
egípcios não pensavam que a eternidade UMA NOVA C RJAÇÃO
duraria par'd sem pre. Chegaria um dia O conceito hindu de que cada cido de
em que o deus-Sol Rá se cansmi a e daria criação representa apenas w11 dia e uma
um fim ao mundo. Então ele se reun.Ui a noite para Brahma aproxima-se do mo-
com Osíris nas águas primevas de Nun. delo do Egito Antigo. Mesmo mundos
Tudo isso Rá prometera a O shis quando que terminarão em batalha e confronto,
o incumbira de cuidar do Mundo Subter- como o dos deuses nórdicos, que será ex-
râneo. Rá ctissc: " De.struirei wda a cria- tinto na batalha de Ragnarok, discreta-
ção. A terra ficará ocu li.a em águas mente se recriam longe do desastre. Os
infinitas, como foi no p tincípio. Eu per- vi kings di:.r.iam que: somente duas pessoas,
manecerei lá com Osúis, depois de me Li f e Lillhra~ir, sobrrviveriam para repo-
transformar em wna voar esse mundo
serpente que os homens totalmente novo.
não conseguirão distin-
guir e que os deuses não O QJ}JNTO
poderão ~r.'' MUNDO
Na mitologia dos
A SERPENTE hopis, cujo vilarejo
CÓSMICA Oraibi é a colonização
Essa serpente é a forma mais antiga da Amé-
odg:ú1al e verdadeira de rica do None, esse
R á, que contém as mundo, o quarto de
forças elementares uma série de sete, está
tanto da cliação quanto entrando agora no seu
do caos. Ela repousará "termo final". i\s pro-
no oceano cósmico, a O deus zoroastra Ahura Mazda tem pa- fecias hopis predizem
cabeça na cauda, até ralelos com o Shiva híndu, pois ambos qut', qu~U1do aparecer
que acordará mais uma podem criar e destruir o mundo. uma estrela azul c o
vez do sono para criar um mundo novo. espírito dela, Saquasohuh, descer à
Par-a o criador, cada ciclo da histód a Terra para dança•· na praça públka.
humana não pa~sa de um dia, e todas as esse quarto mundo chegará ao fim. O
esperanç.as e os son hos de vida eterna qui nto mundo que o substituirá j á está
dos homens dttram apenas até o surgir emergindo: os sina is, dizem, pocl<'m ser
da noite, quando o universo mirá sobre lidos na própria Terra.
O MUNDO
,
CLASSICO
34 O ~1 L'l'\DO CLASS ICO

ri\il U'\DO cu-..-.1(:0 é o termo geral que usamos para a


~ sofisticada rivili~:ação nascida na Grécia Antiga c absorvida
c des<·nvolvicla pelos romanos. Os escritores gregos c romanos
rq~'islraram vários mitos relatando histórias de seus deuses em
rdação a todos o~ aspectos cotidianos. do tempo e da colheita
à fundação das principais cidades.

A mitologia dos gregos nntigos é uma mu ito~ dts(•mpr nhavam mais de um


d as mais ricas e compreeude inúmeros papel, tal como Atcná, a deusa da
deuses. As obra~ q ue na rra m essas !,rtrn ra, da sabedoria r das artes.
histórias. afirmadoras da vida, cobrem
mai~ de um milênio: dos primeiros OS HOMENS E OS DEUSES
poetas. Homero c Jk,íodo, que A Gr(•cia Antiga não era um país uno,
' 'i\(·ram no séc.VHT ou \ 11 a.C. ma~ uma ~érie de cidadt·,·Fo.\t<tdo
apm:-.., aos dramatu rgm r poetas qul' independentes, e cada um a delas tinha
llon·M'cram durante o apogeu de s<'us dt'uses tu telares próprio>. (jJ..'i2-3).
Att·nas no séc.V a.C Âll' ll~t, por t'xemplo, (' ra a dt•usa de
Quando, pouco' s<~ru los depois, os Atenas, enquanto Zcu~ reinava
rom,Ulos conquistaram a maior pane da supn.•rno em O límpia. Cada cidade
J:umpa, adotaram vários mitos gregos, t onstruia templos p.tra '<.'U' dnr~s c,
;uh quais acrescentaram o~ seus próprio~ em geral, organizava fc.,ti\ais em sua
deu\l'S e diYindadcs dt• uutm~ povos honra, que abrangiam t,\nto as art<.·s,
conquistados. A ma ioria dos deuses com co ncursos para po<' t.l~ t' clramatur-
clássicos tinha forma l~ aprx·sentava gos, quanto os esponr~, com r ompeti-
traços humanos: amor, ciúme, raiva e, çõcs dt• la nçamento de d is<·o a lutas.
a''im. também a guerra rra um tema O s gn•go> não bu~ca\'am nos deuses
n.'corremc. ,\ l as eram dru~s poderosos, lidrrança moral ou orientação de vida,
t' ,.,'l'l.'gos c romanos acredilil\'am que pois t•stes eram dema~iado \Oiúvei:. e
ewrdam enorme inOul-nci.1 sobre a au\ amorais. :\las acreditavam que, por
•ida. i\ maioria do, cleuw~ t' deusas mdu de oferendas e sacrilkio~ a uma
governava asp<'ctos do co~mo ou da diviudaclc em particular, conq uistavam
e"rsLencia Ares regia a guerra, a simpatia do deus c gozavam de sua
t\ f'md il<' era a deusa do amor , mas prott•ção no dia-a-dia.

Poucos pot'tas podem ser citados como


fontes para a mitologia clássica. Os mais
antigos são Homero, cujos poemas épicos
l/fada e Odisséia narram episódios da Guerra
de Tróia e as aventuras de Odisseu,
respectivamenté, e Heslodo, cuja Teogonia
cobre as origens do mundo e a genealogia
dos deuses. A Biblioteca de mitologia (ou
apenas Biblioteca), de Apolodoro, escritor
mais recente. abrange muitos mitos gregos.
O escritor romano mais rmportante é Virgt1io.
Sua epopéia, Eneida, reconta a lenda do
herói Enéias e a fundação de Roma.
Virgflio, que escreveu no ~éc.l a.C., baseou sua
obra na 1/íada e na Odisséia de Homero.
35

l~·olhiam a di,indade rom Após o declínio c((• lwma,


ruid,tdo <t-..~im, por e'tm- nu séc.V d.C., a popularidade
plo, antes de rmprcr ndcr dos mitos dás..,ico:-. diminuiu.
uma viagem pelo mar. um Seu intt:resse foi n•:wivado na
grego da Amigüidade falia Europa durante a Rrnas-
uma oferrnda ao deu~ do ceuça, a partir do iuiC'io do
mar, Po~ídon. ~-c .X\: Os ar!btas voltaram
.\ ~uiedade conferida ath a pintar temas mitolúgic~ e
poderrs do\ deuses é o> poetas cláo;.'iim:-. foram
e' idem e na J/iad11., de traduzidos em idioma'>
I lonwro, em que a modernos eumpl'us. A
muda11ça de sorte dos 1l~lli~·.Jii~j~ mitologia d!tssica tem sido
antagon i\tas na gurrra clr .,. popular dt'Mic l'ntão,
Trúi.1 quase sempre é tanto na.s arte> t·omo em
As mitologias, com Ire· ouum campo... Sigrnund
atribuída ao> deuses. que
qüência. fundiam-se no
wdo ob,ervavam de sua mundo clássico. como frrud, pioneim da 1"-iranáli-
morada no monte Olimpo. demonstra este motivo ..e, cw1hou a c~m:ssào
egípcio num pingente da
·'complexo de Ed ipo" com
Grécia Antiga.
INFLUENCLA base na lendária tramgrrssão
DURADOURA sexual de Édipo, rl'i de Tcbas.
Tamanha era a import<1nt·i.t dos De lortna semelhante, a mitologia
deu~<'> na Grécia e em Roma. qur dá.-...,ica dll'gou até mesmo ao mundo dos
muito do que sobrrviV(' da na clássica negóciO'>: alguns consultores econômicos,
('M!i ligado à mitologia: h'mplos, se uma empresa tem um líder dominan-
trat ros rm que se encenavam prça~ te, dl~rcvcm-na como perpassada
em honra a deuse>, te~ouros que por uma "cultura de Zcus".
cumulavam oferendas e obj\'los Os mitos gl'l:~co-romanos
decorados rom ce uas mitológicas. estão vivos.

O s.1ntu,rlo de Atenã, guardiã da sabedoria e da


consclênda espirotual, faz parte do complexo de
templos em Delfos. Grécia.
O 1\IL::>mo CL\ SSICO

O OVO PRIMORD IAL


lll Criação 6 Plínio, HiJ16rÚI mrl!lml; Aptllônio
J:ll Cn'cia Antiga de Rode,, . l'l:otrdu/i(a
m O co<mo

Nu princípio não lm..ia nada além de


um vazio em turbilhão denominado
Cao~. Nfas desse nada rmt>rgiu
um a rorça criadora, q ur alguns
di/.cm ser Gaia, a Miir-Terra,
outros, uma deusa chamada
Eurínome, que tomou a forma de
uma pomba. Gaia ou Eurínome
botou um ovo enorme, elo qual
~uq.,ri ran1 Úrano, o céu, Ouréa, as
montan has, Pontos, o ma r, c: mui tas A deusa Eurlnome, fecundada pela serpente do
outras partes do cosmo. vento. tomou a forma de uma pomba para botar o
Ovo do Universo, origem de todo o mundo material.
Gai.t c Úrano fizrram amor c assim
na~çcram as primeiras criaturas a
habitarem a Terra. Pri meiro vieram os M ais tarde, Gaia e l:rano geraram seis
Cidopes, criaturas gigantes que se pare- podrrosos e enom1cs filhos, os Titàs 11:
ciam com os humano,, mas dotados de abaixo), que cresceram e vieram a
um só olho no meio da testa. Úrano governar a Terra. Os descendentes dos
niio gostou dos C iclopes c achou que eles Titãs st tornariam os deuses mais
podl'riam usurpar-lhe o poder, c assim importan tes c duradouros da cultura
baniu-os para o Mundo Subterrâneo. clássica: os deuses do monte Olimpo.

O NASCIMENTO DOS TITÃS


lll Üi primeiros sc n•s; m o C0$1110; a Tem•
origem dos deus<·~ 6 I lesíodo, ?roJ~omo
J:ll C tecia Antiga

Gaia c Úrano deram origem a deus do Sol, eram filhos de


uma raça chamada T itãs. H ipérion. Com Rria, Crono
Dentre eles estava Crono, que se teve vários filhos, que se
tornou seu líde r. tornaram os deuses do monte
o~ Titãs eram gigant(•s de Olimpo (p.40) c uma raça tão
força incrível, que se uniram poderosa quan to os próprios
com a> Ti tân idas c Titãs.
govnnaram a Terra.
Logo os Titãs começaram
" gerar filho~. Entre S<'Us
fi lhos estavam aque les
dt•stinados a se r os mais
O tltii Atlas, descendente de úrano (Céu) e
pockrosos dos deust>. J::os, de Gaia (Terra}, era tao forte que conseguia
drusa da aurora, e Hélio, sustentar o mundo nos ombros.
O :\1CNDO CLÁSS ICO 37

OS PRIMEIROS HOMENS
CO O rigem da humanidade 6 Hesíoclo. Os h·abalhos e os dias: 1êogonia;
lU Grécia. Antiga ÉsCJuilo, Promell(ll acorrmtado
!D Terra

Os deuses fize ram duas ten tali vas frustradas de PERSONAGENS-CHAVE


criar seres para habitar a Terra, ames que a raça ZEUS • rei dos deuses, filho
humana como a conhecemos losse criada pelo Litã de Crono e Réia
Prometeu, a pedido de Zeus. P rom eteu incum b iu- PROMETEU • um titã do
se de' proteger e ajudar os humanos sempre que se segunda geração, filho de
)ápeto e Clímene
desenLendiam com os d euses. l sso atiçou a ira dos
deuses, e o litâ sofreu por vários anos uma terrivcl
punição, após ter irritado Zcus.

ENREDO
As dua~ primeiras tcnLacivas de criar seres a carne saborosa, mas coberta com o
humanos geraram a pacífica Raça de couro do au ima I; a outr,\ com os ossos,
Ouro, que fe neceu sem procriar. e a mas cobe rtos de apclitosa gorrlura. Zcus
Raça de Prata, que Zeus bani u para o escolheu a segunda, c ficou t.ào zangado
Mundo Subterr.lneo por ser má. Então, ao cleswbrir o truque que recusou o fogo
a partir elo barro Promete u criou a Raça aos homens. Prometeu, enl<'io, roubou-o
de Bronze, que se mu ltiplicou. de Zeus e o LrotL\:e à Terra, mostrando a
todos como usá-lo. Furioso, Zcus o
UMA PEÇA PREGADA EM ZEUS puniu. Prendeu-o a un1 mchedo, onde
Certa vez, quando os homens íam uma enorme águ ia bicava seu ligado, CJUC
sacrificar um touro a Zeus, não che~m<lffl Zeus renovava todos os dias, em infinita
a um acordo sobre quais panes caberiam tortura, au~ que por fim Prometeu foi
aos deuses e quais aos homens. libertado pr:lo h<'rói Hérades.
Prometeu <i:iudou-os dividindo a
carne em duas porções: uma com MITOS RELACIONADOS • Os primeiros homens
(p.JJ.)) • A criação de Pan Gu ü Wa (p.q2-3)
O mito de Prometeu continua a fascinar os artíStáS
modernos: esta é a estátua de Prometeu de Paut
Maship, na Plala, Nova York.
38 O MUNDO CLÁSS ICO

A GUERRA DOS DEUSES E DOS TITÃS


ro Gurrr:~ do~ deuses 6 llcsíodo, 'Trownia: Apo!odoro, Bihliotml
lll Grécia Antiga demitowgio
m Gréda; Cn•ta; fi co~m()

Os p•in1eiros governantes do universo fomm os Titãs, PERSONAGENS-CHAVE


os ftlhos c demais descendentes de Úrano e Caia. CRONO • rei dos Títãs
Raça de brigantes imortais, detinham um poder RtiA • rainha dos Titãs
imenso, mas não reinavam em harmonia. A principal AMALTt iA • uma ninfa-cabra
desavença começou quando Cremo, rei dos titãs, teve ZEUS • rei dos deuses
filhos com a esposa, Réia. Seus filhos (deuses c deusas) POSIDON • deus do mar
HAOES • deus do Mundo
travaram uma longa e amarga guerra contra os Titãs
Subterrâneo
mais velhos antes de finalmente conseguirem a TIFÃO • um monstro
vitória sob a liderança de Zeus.

ENUDO
OS FILHOS DE RÉIA Lá chegando,
Cremo, rei dos T itãs, encontrou Mrtis, uma
casou-se com a titânida titânida esperta, que lhe
Ré ia. Logo o casal gerou disse não ser tarde
IHhos, mas havia um demais para libertar os
problema: Crono ouvira irmãos. MéLis forneceu a
de- um oráculo que um de Zeus uma droga, sob
seus filhos o mataria. cujo efeiLO, Crono, que a
Para evitar a predição, bebera, acabou por
cada vez que nascia um vomitar seus outros
filho, Crono pegava a cinco filhos: os dc1.tscs
criança e a eugolia.. Isso Posídon c: Hadcs c as
~c:- repetiu cinco vezes, deusas HéLia, Dcméter c
mas na sexta Réia deci- Cronos, rei dos Titãs, devorou Hera. Depois Zeus
diu enganar o marido. cinco de seus filhos, mas no fim libnlou os Ciclopes,
foi destronado pelo filho, Zeus.
Escondeu o recém- uma raça de gigantes de
nascido Zcus c envolveu nas mantas da um olho só. que tinham sido enviados
criança uma pedra. Crono pe-gou a ao Mundo Subterrâneo por Úrano e
pedm e a engoliu, e Réia secretamente lá mantidos por Crono. Também eles
em1ou Zeus a Greta, onde ele recebeu desejavam se vi ngar dos Titãs.
os cu icl<~dos de uma fiel ninfa-cabra
r hamarla Amaltéia, que o nutri u corn A GRANDE BATALHA
mel fornecido pelas a belhas cretenses. Sob a liderança de Zeus, os deuses e
deusas, com os Ciclopes, declararam
ZEUS RESGATA OS IRMÃOS gue rra contra Crono e os Titãs. A
Amaltéia morreu quando Zrus batalha se estendeu por dez anos, e os
era q uase adulto; com a pele dela, poderosos T itãs pareciam invencíveis.
de fez um escudo mágico exLrcma- Entretanto, os Ciclop<'S eram hábeis
menLe forte. Zeus sabia de sua origem artesãos c produziram algumas
r do que o pai fizera aos irmãos, e potentes ar mas para os deuses.
decidiu rntào retornar à Grécia F01;jaram o raio para Zeus, para
para se vingar. Posidon, um enorme tridente,
capa1 de criar tcrrcmmo<, r tt·mpesta- Deuses. deusas e os rltãs paniciparam da guerra
dt•, m.trinhas. c para Hadt•,, um (tam~m chamada de Titanomaquia) retratada no
Grande Aitu r de Zeus. Pérgamo.
eapan'll' mágico, que o tomava
invisív<·l rtua ndo sobre sua cabeça. GIGANTES E MONSTROS
Usando t•ssas armas, osjoven' Caia, a mãe dos Titãs. ficou furiosa
dcusr~ tonseguiram, por lim, quando <>S filhos fornm pre'm no
derrotar o~ Titãs. Tártaro, e iniciou t' ntiio uma
nova ~u~ rra. Reuniu
DIVISÃO DO ESPÓLIO outro grupo dr filho, \(' Us,
Quando ,1 luta terminou, os Gigantrs. r o frz u·avar
o~ dcu~e~ pa~saram a batalhas comra os deuses
reger o ros mo c do Olimpo, que mai~ uma
decidimm dividir o podn vrz venceram. Zeus fili
cn t rc t• les. incapazes dt• obrigado a lutar contra
pcn~ar em qualquer meio o monstro Tifão .t últ.ima
de deH·rminar quem batalha, que terminou
governaria que pane do quando Zeus o rnn1rmlou
universo, escolheram por na Sicilia e arremr-;.;,ou o
sortt·io. Zcus tomou-se o Deuses e homens Unham mont~· Etna sobrr sua cabeça.
regente do céu, Posídon f<li o privilégio de tomar (Dizem que o fogo que é
friw deus do mar, e Iladc~. emprestado o capacete
m~gico de Hades.
lançado do Etna vt:nl dos
rei do 1\lundo Subterrfmt' O. raios que Zeus usou tw~sa
Os derrotados Titã' foram pn•,os no última batalha.) A luta dr Zrus pelo
Tárt.lro, uma região profunda do pockr acabara e ele reinou supremo em
t'o>mo, ma.b profunda ainda que o todo o unin•rso.
rvlundo Subterrâneo, t' habitada por
mon~tros ttr ríveis. m dos Titãs,
Atlas, foi puuido com :1 tarefa de MITOS RELACIONADOS • A guerra entre os
suster o céu em seus ombros. deuses (p.u6)
40 O MUNDO CLÁSSICO

OS DEUSES DO OLIMPO
A mitologia grega Lem inúmeras personagens, desde a raça primitiva
conhecida como Titãs até os heróis mortais, ct~as aventuras são
recon tadas por escritores como H omero c Apolônio. Porém, o grupo
mais importante e.ra o dos deuses q ue habitava m o monte Olimpo.
Os gregos acreditavam que essas divi11dades supremas innuenciavam
quase tudo o que acontecia na Terra.

Oeusa·virgem Deus da mone


da lareira, rege e da5 forças do
a vida Mundo
doméstica Subterrâneo

Acredltava·se que os
deuses gregos (abaixo)
hab~avam o monte Olimpo.
a montanha mais alta da
Gréda, com "3.ooom de
altura. Com neves eternas e
o elevado pico escondido
entre as nuvens, a mon·
tanha deu origem ao mito
de que os deus('s gozam do
conforto dos generosos
aposentos do céu.
O ~lUl'\00 CLASSI<.:O 41
42 O t.l l':\100 CLÁSSICO

OS AMORES DE ZEUS
!D . \mort's do~ d('th('' 16 I k síod<l. 1ri.!J!onio: Apolodom,
~ ( ;rt-ci.t .\nti!;il JM.fiut" 11 dr mtln/ogio
m ~fonte Olimpo; Gn·l'ia

Zcus, filho de Crono~ t' Réia, tornou-S<' o r<'i dos PERSONAGENS·CHAVE


deuM's após lide rá-los, destronando os Titã~. ZEUS • rei dos deuses
" Zc us" significa "c{·u" t', como o deus do cru, de HERA • deusa. esposo e
l·nntrola\'a o tempo <' usava os raios como ar ma. irmàdeleus
H era, a deusa do casamento c do nascin• t·nw, era AMANTES DE ZEUS • v6rios
deusas, ninfas e mulheres
ao nwsmo tempo ~ua e\JX>~ e irmã. ="'o entanto,
Zcus tt•ve muit~ outras conquista.~ amoro,,h t'. por
<'sst• moti\O, deixava I h·ra muito eneiumada. O
deu~ tn·e amames huma nas e divinas.

ZEUS E M~TIS CONQUISTAS E CASAMENTO


A primeira paixão de Zeus foi Além de l\ fé ti~. í'.('U\ tt'\'t' muit.."'S
pda ninfa do mar ~léü~ <unames dcu-.a., que lht· dertllll
"J>I'nsanlcnto'') c, embora a filho;. Témis, uma Üt<inid<~. deu
e~pt·rta ninfa tenha mxado de à luz as H o ras c a~ P.m·;~.:>; Curíno-
lhrma válias vezes tentando mc, uma ninfa do mar, gt•ruu a~
esnlpar dt"lt', Zew, comcguiu Graças; e Nlnemósina, outra titâ-
fat,('r 1unor com ela. Q!•ando Mélis nida, foi a mãe d[L~ now :\1usas.
engrmidou, Caia, a dcu-m da Terra, ZEUS Essas uniões passa~dras foram
profetirou que ela inicialmentr da1ia à edip ....tdas pelo longo rdacionamt'lllo de
lu1 uma menina c dcpoi~ um menino, Zcus e llern, com qurm te\(' ui-~ filhos:
que Sl' tornaria o regente do âu. Ares, o deus da guerra; H ebc, que St'nia
li·nwndo isso, Zcus engoliu 11.1(-Lis ainda o> copo!> de nt-cLar ao~ deuses; t· llitia,
gdtvida, adquÍiindo ponan to a sua sabe- (kw,a do nascim ento. Um q uarto fLlho,
doria. A criança, a dcu~a A ttmí . nasceu H r fesw, o " ferreiro coxo do~ fkuscs", é
da calxça de Zeus. ntribuido a H era ape nas, embora ;tlguns
digam que Zcus o concelx·u ,-.•rret.amen-
te, tomando a forma de um nK<>.

BRIGAS CONJUGAIS
Como t; .tpropriado a um dt•us com
li1•qüêuria denominado '1unt:ldor de
nuvens", o casamento de Zrus era tem-
JX'~Luoso. Hera chegou a abandoná-lo
n·rt.l Wt. mas ZRus a tl'Conquistou com
umt ruqut•: encomendou a estátua de
uma mulher t' a cobriu com o véu nup-
cial, para que parete'!>st' n•al, (' apresen-
tou-a como sua nova r'posa. Hera ficou
O templo de Hera em Pesto, lt311a, era destino da
peregrinação de casais sem R! hos e local de ritos
de sacrlficio celebrando o casamenl o.
liuiosa r con'Cu até o local para atacar a Zeus engravldou a princesa grega Oilnae sob a
rival, ma~. ao descobrir o tngoclo, ~ua forma de uma chuva de ouro. Dessa união nasceu
o herói grego Perseu.
raiva '>t' transformou rm ri..ada.,. Em ou-
tra oc:;L\iào, quando Hrra o d<"><lfrou. Zeus
a amamm com correntes,.•1 '"'IX'ndeu LEOA E O CISNE
com bigormL~ penduradas nO'> pt-... Leda era a lx-la esposa de Tíndam, rei
de E~parta. Um dia, enquanto da rM.:wa
ESPOSA CIUMENTA deitada na hr ira dr um rio, Zl·us aparc-
O apetite sex ual de Zeus provocava ceu-Lht sob a fo rma de um indcfi:so
ciúme dr~romunal em 1 lera. r da pcr- eisut. que tentava escapar dr uma àhrtlia
!>t'hrtria suas amantes in<:<~maH·hnrnu·. (avr-~ímbolo de Zeus). Leda apil•dou--.e
Quando a deusa Lcto rngravidou de do rl\111\ ahr.u;ou-o. e Zeus então a to-
Apolo c .\rtemis, H cra proihiutcxlas as mou de \Uf"J>rr~a. Assim, Leda tornou -~c
lt-rn~ d<· abrigarem-na, I' ela te\ e de a t'mica mulher a pôr um ovo, do qual
pertorrer o mundo inteiro atí· achar a nasce r"<Llll a bela H elena (mab tardC' acu-
ilha ll ut u:mtc de D elos. H (•ra transfor- sada de ser rrsponsán•l pel<l q uc>cla cl<'
mou C:tlisto c lo, tam lwm arnamcs de Trúiai <" os irmãos gêmeos Castor r
Zt'U>, <"In ur'o e vaca, re~pl'ctivanwmc. Pólux rp.89r. No fim, as vidas tr<'t1,ricas de
seu~ lilhu' levaram Leda ao ;uiddio.
UM MESTRE DO DISFARCE
Zcu~ muda\'<1 de forma para st·dtl/.ir a
mullwr que desejava. Com Akmcna
dormiu sob a forma ck seu marido,
Anritri1io, gerando o herói
H érad(">. Com Europa,
translormou-~c num touro.
Quando Dânac foi morte; as Graças inspiravam
trantada numa câmara a alegria da vida; e as Musas
d<· hron7e, Zeus aparec<'U- comandavam a arte e a
IIw romo urna chuva de criatividade humanas.
oum. Mas para sedu:lir
As três Graças personificavam a
Sêmrlr ele simplcsmtntc beleza. a graça e a generosidade.
st' di' l~lf(;ou de mortal.
44 O ~IC:'\00 CLÁ. SICO

OS CASOS DE AFROD ITE


CIJ Amores clo' drusc·s 6 Homc·ro, Odh•na: Apnlodoro.
lU (; n.~da AntÍ!(a Bihlwt«a d' mito/t,J.:ia
m .\ lontc Olimpo; (,r<"ia: u .\ lundo Suhte-rr.üwo
Cronos, re i dos Titã~, atacou seu pai, Úrano, cuj o PERSONAGENS-CHAVE
sangue pingou no mar, misturou-se à c~purn a das
AFRODITE • deusa do amor
ondas e de u origem n Afrodite, deusa do amor. HEFESTO • deus do fogo
Uma cinta má),{ica a 10ruava irresistível ta nto a ARES • deus do guerra
d<·uses quanto a monais. Zeus a fe:t. d esposar ADONIS • um belo jovem
I lt·fc~to, mas ele era roxo c feio. c assim da teve
vúrios amantes. Algum; dc~se~ casos têm graça.
mas outros le\'aram a desastres como o da
Guerra de Tróia.

ENREDO
AFRODI TE E ARES atara r l' matar Adônis, que ronsc-
Um dm amante' dt• t\fmdi tt' e ra Ares. quentl'lll<'IHC che~ou ,w .\ lundo
dt·u~ da ~uerra. Quando '><'U marido Sub11•rrâneo para a ,atislit~ão de
I 1<-festo descobriu n <,,.,o, ele decidiu Prrsí- lonc. No entanto, ,\l rodite não
dar uma lição no C<hal. Como era um que r ia perder Adôni~. t' ,apdou então
h;'abil ft:rrciro. preparou a Zt•us para qur o deixa%<' retornctr à
unaa rc·d e de fios dt• T er ra. Zcus considerou os dois lados c
bronzt• e a pendurou no dc·cidiu o seguinte: todos o' a nos
teto acima da cama d<· Adônis permanen·ria '>ei~
.\ frodite. Quando o ca.,al mt'ses no r.. Jundu Suhtl'rrâneo
mais uma vez fc1i para ,, com Perséfonc, ma' teria a
rama, H efcsto soltou a pnmissào de voltar para
rede, pegando-o., d1· Afrnditl' pdo n·sto
;,urprc•sa. D epois, do ano.
convidou LOdos
O'> outros deuses OUTROS
,, vin·m rir dos AMANTE S
.unantes, que St' Afmditt tinha
dt·baliam como inúnwro-, outros
peix1•s na rede. amant<·~, inclusive
o deu~ l lt·nut•,, com
AFRODITE E AD ÕNIS quem teve um lilho
Adô nis era um br io chamad o ll ennafrodita,
jovem, amado por A deusa Afrodite emergiu das ondas que tinha atribulas
Afrodi tc c pela dema numa concha, supostamente em físicos dc ambos os
Pafos (Chipre). que se tornou o
1\·r~(·lone, espo'>a dt· sexo-,. Tambí·nr teve um
centro de seu culto.
lladt·s. rei do .\ lundo caso com o prinópt•
Subtnrânco (p.51). Quando Adôni'> troi;rno i\nquist•s, pai ck Enl-i<L~ p.BO!.
C'srolhcu Afroditt·, Pcrsí·fonc ficou Di:t.-M' q ue , a lém disso, I<'Vt' casos com
furi osa e contou n raso a Ares, que o~ dl'uses Zcus, Pà e Oi on i~o, a quem
a inda amava Ali·oditc. Enriumado, se atribui a patcrniclad<' dl' Priapo,
Arc·s enviou um javali selvagem para deus da fi-rlilidadc.
O .\H.;NDO C LÁSS ICO 45

OS CIÚMES DE ANFlTRITE
lil Amores dos deuses 16 Apolônio, A~goná!ltica~
~ Grécia Ar\úga Tzetz~, Sobre Ucl!fron
m Omar
Como Zeus, Posídon tinha um apetite sexual voraz. PERSONAGENS·CHAVE
Era casado com a ninfa mruinha Anfitrite, com
POSIDON • deus do mar
qu em teve um filho, Tritào, que tinha a aparência ANFITRITE • ninfa marínha,
de w11a sereia, metade humano, metade peixe. casado com Posídon
Posídon também teve mtÚtos casos, ge ra ndo outros CILA • ninfa morínha
trons{armodo em monstro
filhos que se tornaralll monstros marinhos ou deuses
marinho
menores do mar. Anfitrite, cansad a da infidelidade
do mruido, armou uma vingança cerrivel contra
uma de suas amantes, a bela ninü1 Cita.

ENREDO
Cila começou a vida como se esperar, a paixão pela
ttma bela ninfa marinha amante arrefeceu J'api-
que atraiu o olhar de damente e Posídon
Posídon. No entanto, retornou para a esposa.
seu destino foi selado C ilajuntuu-se ao
qua.ndo AnfitTite terrível monsLro marinho
descob1iu a paixão do Caribdes (outro filho de
marido pela ninfa r quis Posídon, mas com Caia)
pôr fim ao caso. no e-streito de i\tfcssina,
Ela jogou algumas e o casal se tornou um
e1vas na água onde CiJa dos pedgos mais temidos
se banhava, e assim trans- A ninfa Anfllrite foi puxada por pelos navegantes. A
fo•·mou a rival em golfinhos em seu casamento com Odi.sJéia de H omem relata
o deus do mar Posídon.
monstro, de cuj o corpo como seis dos companhei-
brotaram ~e is cabeças de cão, latindo e ros de Odisseu foram mon os ao passar
agarrando tudo por peno. Como era de pelo perigoso estreito.

Sunión fiGa na ponta de um ca bo que se


projeta no mar Egeu (sudeste da Ática,
Grécia). sendo cercado pelo mar em três
lados. Embora dedicado a Posidon, Zeus e
Atená também eram venerados no local.
Os gregos faziam oferendas a Posídon
para se proteger de tempestades.
Destruído durante as Guerras Persas no
séc.V a.C., o templo foi logo reconstruido.
e suas ruínas podem ser vistas ainda hoje.
O templo de Posidon em Suniôn, perto de
Atenas. Grécia, é o primeiro mencionado no
poema épico Odisséia, de Homero.
48 O MUNDO CLASSICO

APOLO E OS ORÁCULOS
CD Vingançil 16 Apoloooro, Biblioleca dr mitologia;
fl:l GréciaAntiga Hino l111mérico a Apolo
ID: Ddfos, Grrcia

Apolo, o deus do Sol e das anes, de Delfos por m uitos anos e, emão,
era ftJho de Zeus e da titânida Leto. em agradecimento a Apolo, o povo
A esposa de Zeus, Hera, ficou com construiu-lhe um tem plo, em celebra-
ciúme quando descobriu o caso do ção da vitó ria contra a serpente.
marido com Lcto, e assim enviou a Por sua vez, Apolo concedeu às
serpente-mo nstro, PítOn, atrás da sacerdolisas do templo, con hecidas
litânida. Q ua ndo cresceu, Apolo se como piton isas, o dom da profecia.
vingou de Píton por ela ter perseguido M uitos gregos iam ao templo de
a mãe. Ele perseguiu a criatura até Apolo em D elfos para consultar o
alcançá-la, em Delfos, e a matou. orácu lo e descobrir o que o fururo
Píton devastara as terras e os vilarejos lhes reservava.

O DESTINO DE DAFNE
CD Rivalidade entre o::. deuses; m Grécia
transfo rmação 16 Apolodoro, Biblioteca de mitologia;
flJ Grécia Antiga O vidio, Afeta11wrfoses

Certa vez, Apolo, hábil arqueiro,


decidiu fazer troça do deus do amor,
E ros, zombando de sua habilidade com
o arco. Zangado, Eros planejou a
vingança. Sua aljava continha dois tipos
de flechas: as com ponta de ouro, q ue
faziam o alvo se ap;üxonar
perd idamente, c as com ponta de
chumbo, que faziam a vitima odiar
qualquer tipo ele romantismo.

A VINGANÇA DE EROS
Eros lançou a flecha com ponta de o u;-o
em Apolo, fazendo-o se apaixonar pela
ninfa Dafne, a quem fe rira com a seta
ele ponta de chumbo. evitando que
c:! a se apaixonasse.
Assim, teve início um desenconu-o
sem salvação. Apolo perseguia a
apaYorada Dafne pelas mo ntan has,
enquanto ela, em fuga, orava a Zeus
po1· uma transformação que a livrasse
Apolo declarou o loureiro uma árvore sagrada.
de Apolo. Suas preces foram atendidas devido ao seu amor por Dafne. e desde então
c ela li)i transformada num loureiro. sempre usou uma coroa de louros nos cabelos.
O ~lll ·oo C:L\SSICO 49

A LIRA DE APOLO
ID C:rimt: t' T<'H>Il< ili.t\.1" 6 Apolodoru. /Miwtc<a dr miln{"Kfll.:
lU Gu.:cia Antil~;a l/iuulwmhico a I In mr•
m Arcádi.l, G ri•t i.t

Apolo possuía um rebanho de gado <' A antiga lira srega figura


~:clava bem por t'lt•. lima vez, por(·m, em vários mitos, Inclusive
no de Orfeu no Mundo
se distraiu. pois estava apaixonado Subterrâneo <P-57).
pdo jovem Himcneu. Ao percebt'r
<lUC' o gado não estava sendo vígiado,
o jovrrn deus H ermes, fil ho de Zc us t' de an imais
irmão de Apolo, dt•cidiu roubá-lo t' num c-ast:o
levar os animais até Pilos, onde o' dl' tartantga.
esconde-u dentro de uma caverna. Quando
i nfelizmente para ele. Apolo tinha o Hermes tonHt o
dom da p rofecia c t:o nseguiu ver ondt• ins trumento, Apolo fico u
o gado estava t:srondido. indo tão embevec-ido com a mús ica que
rapidamente atrás do ladrão. Quaudo concordou em deixar o outro ficar
encontrou H ermt''• o jovem dt'us com o gado t'm troca do instrumento.
mostrou a Apolo um inMrumento dt• que depois 'e tornou conhecido como
cordas que fizera t·~tic-ando as tripas a lira.

A COMPETIÇÃO M U SICAL
ID C ompeli.;ào t t.Nigo 6 Apolo<lom, HtUwt~Ca tk mJJll/(>g~a;
lU Grécia Antil{a Diodoro da Sidlia, Biblil!lera tút lli ! IÓIW
m Ftígia ltM T urqui.tmoderna)

O s<ítiro (meio-bo<k, Quando Apolo esfolou Mársias


(sentodo}, dizem que tanto
meio-homem) ~l ársias
sangue foi vertido que se
era um músico famoso. tomou um rio de verdade.
Ele invr ntara :1 flmua
dupla e l'ncantava a beleza e nt•n hum dos
todos que o ouviam espectadores conseguia
tocar: Tinha tanta apontar um vencedor.
confiança em sua Apolo, então, l.mçou
habilidade que dcc:idiu mais um desafio: a
provar sua cxcdênria dupla devc ria tocar o
de uma vez por toda$ instrun•ento de cabeça
drsafiando Apolo para para baixo. Foi um
uma compeúção desafio i1~u.~to, pois a
musical. Apolo lira era muito mais
roncordou. sob uma fácil de ~t·r tocada
condição: o vencedor podc1ia pun ir o dessa posição do que a !lauta, c· Apolo
perdedor da forma que quisesse. venceu faci lmente. Como punição. ele
Múr)ias aceitou, c a competição decidiu amarrar ~1 ár:.ias num pinheiro
começou. ::\o início, tocaram com igual f' e~folá-lo -,ivo.
50

POSÍDON E O DILÚVIO
m Rivalidade entre Ch dt'\lst'S 6 I kt~\doLO, HisMria; J>ausâuias,
Ih Grécia Antiga l:Hrrr1fl1a do Grkio.
m .Monte Q Jjmpo: ,, Am}polc

Posídon, o deus do mar, Zcus e Hades, o deus do PERSO NAGENS -CHAVE


Mu ndo Subterrâneo, eram as três m aiores
POSIDON • deus do mor, do
d ivi ndad es da Grécia 1\nLiga. O poder de Posídon primeira geração dos deuses
era enor me, e sua habilidad e em produzir do Olimpo, filho de Crono e
Réia
terremotos e tempestades no mar làzia os mortais
ATENÁ • deuS<J da gue"o e
tremerem diamc de sua força. Se contrariado ou da S<Jbedorio, filho de Zeus
derrotado. ele desencadeava um terrível dilúvio e Métis, nascido da cabeça
como aconteceu quando se envolveu em dbputas deleus
pdo poder sobre Arenas.

ENREDO
RIVAIS POR ATENAS ouvir seus u·stt'munhos, c
Os deuses dispumvam o podrr ainda o dr Cecrops. rei
pela Ática, região formada por da Áuca, que confirmou
Atenas e seus arredores, l'm ser a árvon· de Atená a
c>pecial Atená e Posídon. primeira olivcim vista na
Ambos queriam ser nouwa- Aerópolr. Ela venceu o
dos patronos da cidade, c desafio c, desde emào, tem
para decidir o útulo declara- sido a deusa de Atenas.
ram aberta a competição:
aquele que oferece~<' ao povo o O GRANDE DILÚVIO
mdhor presente seria o patrono Po~ídon ficou furio;o com a
ela cidade. decisão dos outros dl·u.,cs c
fincou seu uidcntc no mar Egeu
PRESENTES DOS DEUSES com tanta violência, que uma onda
Po~ídon foi à colina da /\rr6pole, enorme ergueu-se e inu ndou a
bati.'u no chão com o tridente e planície de Elêusis c, rom ela,
fr..: fluir uma corremr de água Atenas. Embora inundada por um
salgada. Atená deu um prt">Cnte POsfooN lon~o período, a cidade finalmen-
muito mais úril: plantou a te se recuperou, r o~ atenienses
primeira oüveira na Acrópole. X o puderam mais uma vez ~aborcar os
rntanto, para a decisão final st'r jusra, fn1tOs, o azeite e usar a madeira das
Zcus conclamou todm os deuses para oliv<·ira; dr 1\tená.
O ~1 U 'DO C: LÁ~SICO 51

A I RA DE ATENÁ
m 1\mon.., mal rom·,pondido>; m Grécia
dons dos dcu'c~ 6 Calímato, O bonhQ tk Pahu
lU Grécia t\nu~a

Atená era Lind:t, mas, difercntt·nwnte Atená, que estava triste pela dor
da maioria do~ deuses da Grécia infringida ao admirador, dru
Antiga, era virgem e muito a T irésias o dom da proferia.
rtcatada. Um dia, um homem
chamado Tirésia;, encantado com UMA VERSÃO ALTERNATI VA
sua beleza, seguiu a deusa até a Em algumas versões do mito, Atcná
fonte onde ela >c banhava. Ele a está se banhando com a mãr de
ob\crvou e viu seu rorpo nu quando Tirésias, Cárido, pela qual está
t'la entrou na água. Atená, ao apaixonada. Tirésias, que está caçando
descobri-lo, ficou tão furiosa qut', com cães por perto, observa as
batt·ndo palmas sobre os olhos de mulh eres quando vai até o rio para
Tin'stas, o cegou. Uma das ninfas beber {tgua. Atcná fica furiosa ao ser
auxi liares de Aten{Lficou com pena de descoberta t o cega, mas lhe dá o dom
Tirésias e pediu à dt'usa algo que o da profcl'ia para contrabalançar a
compensas~e da regueira. :'-Jo fim, perd~ por causa de sua mãe.

A COMPETIÇÃO DE TEAR
m Competição r punição; m Udia, Gré(ia
trausform.u;ào 6 Ovídio, Mrtnrnorfous
lU GréciaAnli~a

Aracnc era famo;a por imagem dos dcu>CS do


~rr a mais talentosa Olimpo e suas vitórias
tecelã c liandcira viva. sobre os mortais; Aracnc
O povo dizia que ela só teceu os amores dos
poderia ter aprendido de uses. At(·n{t viu q ue a
sua arte com Atenií, obra da moça era tão
a deusa das tecelãs c boa quanto a sua c,
liandciras, mas a jovem furiosa, acertou Aracne
in~i~óa em ter apn·ndido com a lançadeira do tear
a tecer sozin ha. Quando l' rasgou-lhe o trabalho.

Atcn:í soube disso, Desesperada rlepois do


disfarçou-se de velha c tratamento abu~i vo da
sugeriu a Aranw mais deusa, Aracne decidiu se
modéstia. A jowm Segundo o mito, Aracne (em enforcar, mas no último
retrucou com insulto,, c grego orochnes) é a ancestral da momento a dcu'la
aranha·flandeira.
então Atená se revelou apiedo u-se e a tra nsfor-
e desafiou Aracm: para uma compe- mou numa aranha, que pode fiar e
tição de tecelagem. Atcná teceu a tecer com dc>treza para sempre.
O ~1 l:"DO CLASS!CO

OS MITOS E AS CIDADES-ESTADO GREGAS


'o período clássico grego havia várias cidades-Estado inckpcndcntcs.
Cidades mais dcstamdas como Atenas t' Esparta aumentavam sru
podn conquistando cidadrs vizinhas e fundando colônia-; rrn ilhas
próximas. na costa da Asia :\f enor (Turquia moderna) e no sul da
Itália. Em todos os lugares aonde iam, os gn'gos consrruíarn templos
para seus deuses, que definiam suas vida~.

CENTROS DE CULTO do a t'SI.Úlua de Ártcmis. O consc-


Alguns lugares tinham >ÍI-,rnificado qtkntt· rr~ultado foi a fundação de
especial para o' dcuS<'S t' tornaram-se um tt·mplo e do culto a Artemis t'm
famosos em 1.oda a Gr(·ria. Cm Brauron.
exemplo n01.ãvd foi <l samuário de
Ot·méter e de sua filha Perséfonc DEUSES E DEUSAS LOCAI S
em Elt'usis, perto de 1\u•nas. A M ui 1.a~ ouLras t'idades
hi>tória conta como Dt•m(·ter veio es tão assoriadas a um
a El~w.is à procur":\ da filha deus cspcdlico:
<baparecida e ali imtituiu Epidauro era o princi-
uma \érie de ritos \l'CH'IOs. pal lar de A,dépio. deus
Outro exemplo de even- da medicina; Atenas iden-
10 mitológico que leva à tilicava-se com a deusa A1.ená;
çriação de urn templo Olírnpia, com Zl·us; Argos,
foi rm Brauron, a l c~te <·om Hera. e Delfos, ('()m
dt• Atenas. Agamêmnon esta- Apolo. Posídon, deu~ do mar.
,~.~ prcsrcs a sacrificar a filha c·ra especialmente \e1wrado
Higênia a Áncmis quando a <'m Corinto, m:" po~\uÍa
deusa apiedou-se c a dt·ixou '·ários templo, no li1.0ral
fugir para Brauron, para pr·cvençào de tem-
Aten' presidia a irmandade
aonde chegou com o Athenai, em Atenas. mas tam·
pestades traiçot•iras c
irm ão O restes carreg-an- bl!m era adorada em Esparta. naufrágios
O ~I U \JDO CLÁSSICO 53

"As três cldadu que eu mais


amo sao Argos (dir.), Esparta e
Micenas. de amplas vias•, de·
clara Hera na l/fada de Homero.

SANTUÁRIOS
Dl'uses importantes
como A poln t' Zcus
atraíam rlrvmo~ de todas
a-. parW'>, l' seus princi-
pais tt•mplo.,, ('01110 o de
Apolo. t•m Dclfo,., c o altar de Zeus, em Olímpia, em honra a Zeus,
no monte Olimpo. mmsformar..tm-se foram os precursores dos jogo~
t•m ~olist icadth ccmms de culto. Olímpicos modernos.
Havia tl'<llros t' c~tádios n~es centros
sagrado~. além dos wsouros, constru- OS FESTIVAIS DE ATENAS
çôes t•rn qu<' valiosas oferendas Cr<Lm 1\ cidade de Ate nas l;('diava vúrios ft·s-
deixadas por povos de d iferentes cida- tiv<lis. As Panau~néia.~. que indttítun
des-Estado. O grande santuário de corridas de cavalo c compctiçüe~ d1•
Ddfos tiuha cerra de 12 tesouros, anc, acomeciam em honra a Att•ná.
constnaídos por cidadãos de cid;\dcs J lavia mmhfm d iversos festivais
como Atcn.ls, :\legara e • irncu.sa. d<·dicado., a Dioniso, deu.> do tt·atm,
wm romJWÜÇões de peças teatrais.
JOGOS ,\.!, obras dos maioae escriton·~ grt·-
Os prim·ipais cemros de culto, inclu- gos (dr f:.,quilo a Aristófanes) qui'
sive D elfos c Olímpia, tornaram-se no> chegaram foram ori~,rinalmentt'
locais dt· n·quimados fesüvais em est-ritas para o g rande
hon ra ao' deuses. Ess<:s eventos con- fl'stival a nu al co nhecido como As
seguiam atrair pessoas de toda a C randes Oionísias.
Grécia t' t•ram marcos no calendário
O Partenon em Atenas deve seu nome a um dos
gre!.(o. Em geral sob a forma de jogos epltetos de Atená: Athena Parthenos. Atená a
{OillJ>t'titivo-.; o-. mais famosos dele:., Virgem. to seu templo mais famoso.
54 O ~1l':\OO CLÁSSICO

DEMÉTER E PERSÉFONE
ID Fertilidade ~ /li no hnmhiro u JJemitn; Pau,:mi,t'•
tu Gri·cia Amiga DtlflljflOda (lrit:üJ
m Elêusis. Grécia: o ~ tundo ~ubtcrr.inco

Dcméter era a deusa da 'lerra. das plantas t' da PERSONAGENS·CHAVE


agricultura. Ela leve apenas uma filha, Pcr~éfbnc,
OEMÉTER • deusa do Terra,
que d iziam ter n ascido a pós um caso ele D r mt•ter filho de Cronos e Réia
com Z t>us. A bela Pcs-sélrme não pe nsava ('lll a mor PERSt FONE • filho de
ou casamento, por estar ocupada demais ;~udandu Deméter e Zeus
HADES • deus do Mundo
<~mãe a amadurecer a safra de todos os ano~. l\las
Subterrâneo
qu.mdo Hades. deu' do ~lundo Subterrâneo, e
apaixonou por ela, toda a o rdem natural pareceu
sair de seu curso.

ENREDO
O RAPTO Oiz·se que Perúfone comeu
lladl's, irmão ele Zcw., sementes de rom3 no Mundo
Subterrâneo, selando seu deslino.
apaixonou-se por Per,r-
lcme t quis lc\·á-la para u A TRISTEZA DE DEMÉTER
1\l undo Subterrâneo. O Quando pc.• rcdx•u que a
dt·u~ .,abia que nfw filha dc&11XIJ'('C'<'ra, Deméter
oh teria a permissão dl' ricou incon~olávcl. Buscou-a
Dt•mc' tc•r para tal, por- pelo mundo inteiru, mé
q ue a deusa da Terra chegar a Eli·u~i,, onde se
pn·c·i,a\'a da filha para sentou exau"a -obre uma
ajudá-la na fertilidadf' laje de pcdr.t conhecida a
d.1s plantas. partir daí como a "Pt•dra
lladcs esperou att~ um da Tristc/~1".
dia ('m que Perséllmc
c' sLava sozi nh a, colhendo A NOVA ORDEM
norc·~ para surgir da l('J'ra Com a atcnç;io de D cmétcr
dianl<' dela. Saindo do .,olo, Hade'\ d ewiada pam outros Iins, as plantações
agar mu a surpre'a Pt•r ,(·fone· c a não ving,sram c toda a -..cgctaçào da
arra,tou ao ~·f undo Subtnrâneo. 1ê.•rr" romcçou a definhar c· morn·r.
Zeus \Íu que se essa situaç;io <·onlinuassc
O TEMPLO DE EL(USIS a Tf'rra e seu po,·o logo cl(·~npan'ceriam,
A deusa Deméter fundou um templo para mas l l adl'~ não abria mão de Per-séfb ne.
a filha Perséfone em Elêusis, perto de Entfio, Zcu~ sugeriu um at"u rdo:
Atenas, que se tornou o centro de um Pt•rsc~f{me ficaria metade do ano na
culto religioso dedicado a ~unir toda a Tf'rra, :\iudando a mãe no crt•scimento e
raça humana•. Qualquer pessoa de fala
amaduR'timcnto das plantas, t' metade
grega, homem ou mulher, livre ou
escravo, podia ser iniciado nos mistérios do ano no f\1 undo Subtcrráneo com
de Elêusis. Esses ritos aconteciam a cada liadc,, fi1rçando a Ten-a a wfrtr o
outono e celebravam o nascimento no invf'rno uma morte 1emporúria.
Mundo Subterrâneo do milagroso filho
de Perséfone chamado Brimos o Forte.
MITOS RELACIONADOS • O deus desDpvreddo (p.151)
• Tempestade versus Sol (p.r82) • Filha do Sol (p.t!}SJ
O MU NDO CLÁSSICO 55

A LOUCURA DE DIONISO
al Vmgança dO!) deuses m O Medirerrãneo; Ásia;
lb Grécia Antiga no rl t> da Áftiç a; Tt>bas, na Beóda, Grfda
rZ:l Apolodoro, Bihliolwl de mitologio

Dioniso, deus do vinho c do teatro, e ra filho PERSONAGENS-CHAVE


de Zeus e da princesa mortal Sêmele. Q uando ZEUS • rei dos deuses
ad ul to, ele correu o mundo, conqu ista ndo terras HERA • rainha dos deuses
como a Índia e reunindo um grupo exótico de sEMELE • princesa de
seguidores. Ao nde quer que fossem, D ioniso c Tebas
DIONISO • deus do vinho e
seus amigos ensinavam os hom ens a faze r
do teatro
vinho - e a apreciá-lo em o rgias c dan ças nas PENTEU • rei de Tebas
quais os participa ntes era m to mados de uma AGAVE • mãe de Penteu
lo ucura frenélica.

:UIItEDO
CRIANÇA RESGATADA
H era, com ciúme do caso de Zcus
com SêmeJe, ordenou que os Titãs
levassem o filho de Sêmele, Dioniso, e
o despedaçasse m. Foi o que fizeram,
mas uma das Titâ t1idas, avó da
criança, compadeceu-se dele
e o reconsiituiu.

AS VIAGENS DE DIONISO
Quando cresceu, Dioniso viajou com
Sileno, um sátiro sábio. porém bêbado.
Enquanto viaj avam, atraíam lodo lipo
de seguidores, incl usive um temível
grupo de mulheres chamadas Mêna- As Dioníslas (p.sJ) eram um festival de três dias de
des, famosas por seus ritmüs compostos liberalidades e bebedeiras. Apolodoro descreve
Dioniso como o "descobridor da videira".
de da n~·as insanas e agitadas, até
mesmo violentas.
A MORTE DE PENTEU
De volta ao Mediterráneo, Dioniso e
sru g rupo causaram sérios problemas
com seus ri ruaís orgiá~riros. Em Trbas,
a rainha-mãe. Agave,juntou-se às
Mênadcs nos seus ri tuais secrdos.
Seu lilho, o rei Pentcu, reclamo u com
Dioniso sobre o comportamento dessas
mul heres. Em resposla, o deus o
aco nselhou a ir espia r as Mênades.
Pentc u assim o rrz, mas das o descobri-
ram, como Dioniso previ ra. Num
Um fauno bebe vinho de um odre durante uma
orgia dionisíaca. nesta imagem de um vaso grego de transe louco, la nçara m-s<" sobn:~ o
terracota do período clãssico. rei e despedaçara m-no.
56 DO CLÁSSICO

O RESGATE DE ALCESTE
llJ Fidelidade na morte 6 Estntbào. Grogmfio;
Jll Grécia Antigíl Sét·vio Sobrr lU Édog/U de Virgílio
mTtssália, Gré<.:ia; o Mundo Subtrrránco
Apolo concedru um lavor especial a amava Admeto o bastante para morrer
AdnwLO, rei ele Frras, na Tcssália: em seu lugar era a esposa Alceste. Ma~
convenceu as Queres dr que Admeto quando a fiel Alceste morreu de fato,
não deveria morrer na hora marcada Admeto ficou incunsolável. Sentia
se alguém se volumariasse pa ra morrer enorme falta da brla c corajosa esposa
em seu lugar. A única pessoa que r ficou com muito remorso por t[·-la
condenado à morte. A
situaç.âo foi salva por
H éracles, que se ofereceu
para viaj ar ao Mundo
Subterrâneo, luta r
con u·a Tãnaws, a morte.
e traze r Alcestt' de volta.
Quando ela reiornou,
estava ma is jovem e atf
mais bonita que antes.

Em Alceste, do dramaturgo grego


Eurípides. no leito de morte a
protagonista faz Admeto jurar que
ele não se casará novamente.

HADES E AS NINFAS
llJ Ammvs do~ clcu>Ps 6 Estrabão, Grogrqfia;
Jll Grécia AJ,liga St;rvir, .'>Qbrt a.' Éclol!,as <lt: VirgUio
m O Mundo Subtcrruuco: a Terra

O deus Hades era irmão de Zeus e e q ue era o lugar comumente usado


Pusídon e senhor do ~1undo Suhtcrrâ- pelos dew;es para se desfazerem de
nco, qut os gn-go~ chamavam d e reino seus inimigos.
d e H ades. ou simplesmente H adcs. Quando H ades deixava seu reino
O s gregos acreditavam que o su bterrâneo pa ra visitar a superfície da
J\lhmdo Subtcrrânro ficava no centro Terra, ele, fu; vezes, tra tomado de
d a Terra ou além do Oceano o lascívia por ninfas infe lizes. Por sorte,
g t·a ndc rio que fluía ao redor d aTerra. sua esposa Prrsélone ge ralmente
O reino ele Hades era famoso por conseguia evitar que ele desse vazão a
conduzir a duas regiiks csc ur::ts, seus d esej os. Quando Hades perseguiu
Tártaro c Ércbo. para onde eram a ninfa Minta, Per<;éfone a transfor-
t:"nviadas as almas a serem punidas. mou num ramo de honclã; j á Le uce,
Dizia-se que o Tártaro distava da outra ninfa por quem ele se apaixo-
Trrra tanto q ua nto a Terra do Céu, nou, viro u um álamo.
O MUNDO C LÂSS ICO 57

ORFEU NO MUNDO SUBTERRÂNEO


!ll R<·sgare t'raca~sado lb Higino, Fáhulao;
lU Grécia Anríg<l PausãrÜ;ts, Drscli(ão da Grécia
m Trácia, Gr<-c·ia

O herói Orleu, príncipe da Trácia, era o ma ior PERSONAGENS -CHAVE


m úsico d o mundo antigo. Diziam que sua voz
ORfEU • filho do rei tagro,
canora c a música de sua lira eram tão harmônicas da Trdcia
que mesmo os rochedos c as árvores se comoviam. EURIDICE • esposa de Or{eu
Quando sua esposa Eurídice morreu, Orfeu HADES • deus do Mundo
Subterrâneo, irmão de
decidiu usar seu ralemo para trazê-la de volta à
Zeus e Posfdon
vida, num plano heróico e ousado que acabou em
tragédia. Sua história inspirou muitos artistas
especialmente compositores d<'sde então.

O PODER DA MÚSICA Placa funerária do séc.IV, que mostra Orfeu


Qu;mdo a amada esposa de Orfeu amansando animais selvagens com a
beleza e o poder de sua música.
mon-eu por uma picada de cobra,
o herói decidiu empreender uma Eurídice foi forçada a parar.
petigosa jornada ao Mundo Sub- Hadcs a levou de volta ao
terrâneo para trazf:-la de volta. "*-=---......:;,~ Mundo Subterrâneo, e Orfeu
Lá chegando, cantou e tocou pa- foi obrigado a regressar
ra R ades e Persélone, que fica- sozinho.
ram comovidos com sua música. J~ut111di1Uit,;
A MÚSICA CONTINUA
NÃO OLHE PARA TRÁS Orfcu nunca mais se casou.
H ades deixou Orfeu levar a esposa de Teve wna morte honível: seu corpo foi
volta à terra dos vivos, mas sob uma despedaçado pelas 1\'lênades, li.triosas pela
condição: não deveria voltar-se para sua làlra de in teresse pelo sexo feminino.
olhá-la enquanto a guiasse através elo Mi lagrosamente, sua cabeça Hmuou,
Mundo Subterràneo. O casal iniciou a cantando, até a ilha de Lesbos.
jorn<tda, mas, 110 fm1. Orfeu não
conseguiu rcsisrir c olhou rapidamente MITOS RELACIONADOS .. Filha do Sol (p.198·9) •
para a amada esposa. Imediatamente lzanami e lzanagl (p.18o·1)

Os gregos acreditavam que a jornada ao


Mundo Subterrâneo envolvia o cruzamen·
to do rio Estige. As almas o atravessavam
numa barca instável conduzida por
Caronte, em troca de um ou dois óbolos
(moedas de cobre que os parentes colo-
cavam sob a língua ou sobre os olhos do
morto). Geralmente Caronte se recusava a
embarcar os vivos, alegando que a barca
não era segura, mas alguns heróis, como
Héracles e Orfeu, conseguiram convencê·
lo, por meio de suborno ou estratagemas.
O l'v!UNDO CLÁSSJCO

'~ .. este
homem poderoso) um herói de peito largo)
supremo dentre todas as criaturas., subirá por
entre as estrelas até um trono no céu... ))
TeócritQ,IdJ1io XXIV
O i\IIUl'\DO CLÁSSICO 59

OS TRABALHOS
....
DE HERACLES
m leitos heróicos rb A polodoro, Biblioteca
lU C~éeia Autiga de mitologia.; Pausãuias,
m O Mcdücrrãnéo; o Dtscriçàó da Grkia
Mundo Subterrâneo

POR TRAS DO MITO


Héracles, talvez o maior herói da Grécia Antiga, era
filho de Zeus e Alcmcna, a filha do rei de Argos. A
esposa de Zeus, Hera, não gostava do menino, pois Héractes possuía uma força
ele lhe lembrava a infidelidade do marido c, como miraculosa desde o nascimento.
Quando bebê. p.eJL, ele
compensação, Zcus concordou em chamá-lo de estrangulou duas serpentes
Héracles ("glória de Hera"). enormes que foram colocadas em
seu berço. Ele também era muito
Meio-homem c meio-deus, Héraclcs tinha uma alto e carregava sua lendária
força descomunal e amava a ave ntura. Contudo, clava. que ele próprio fizera,
segundo dizem.
sua existência conti nuava a ofender H era, especial-
mente quando ele se casou c teve filhos. üm dia,
então, ela se vingou: levou Héracles a ml acesso de
loucura que, acreditando ve r inimigos, ele matou a
esposa Mégara e os próprios fi lhos.
Os deuses decidiram que Euristcu, rei de Micenas,
defini1ia a punição por esses atos. O rei estipulou
uma sé1ie de 12 tarefas quase impossíveis - que, para
espanto de todos, Héracles conseguiu cumprit:

HISTÓRIAS INSPIRADORAS
Os 12 trabalhos de Héracles figu ram em vários
poemas e peças do período clássico. Eurípides PERSONAGENS-CHAVE
narra a trajetória do herói na peça Os Heraclidas.
HWCLES • filho de Zeus
Também os romanos, que o chamavam de MfGARA • esposa de
Hércules, adoravam a sua história; Sêneca escreveu Hérocles
duas peças sobre ele. Muito mais tarde. Shakespeare HERA • irmã e esposa de
Zeus
o mencionaria em mais de 30 pe<;as. Héracles
EURISTEU • rei de Mícenas
também tem um papel relevante em diversos outros DIOMEDES • rei da Trácia
mitos, inclusive nas histórias da morte de Alces te HIPÓLITA • rainha das
(p.5ôJ e do Velocino de Ouro (p.76). Mas, diferente- amazonas
men te de outros heróis clássicos como Odisseu e ATLAS • um Titã gigante
AS HESPÉRIDES • filhas de
Enéias, ele não tem nenhum poema épico dedicado Atlas
a seus feitos.
6o O MUNDO CLÁSSICO

OS MONSTROS DA GRtCIA que o herói prendeu durante uma


Em seus plimeiros trabalhos, Hérades nevasca.
recebeu a incumbência de capturar di-
versos a1úmais !imtásticos que viviam em LIMPEZA TOTAL
várias regiões do norte do Peloponeso. Dois outrus rrabalhos envolviam eslorço
Plimeim, ele foi até Neméia para ma- braçal c engenhosidade. Primeiro,
tar um tenebroso leão de pele tão dura Euriswu ordenou que lléntcles limpasse
que nenhuma arma a penetrava. Héra- os gig.mlescos montes ele estrume que
dt>s estrangulou-o e tirou-lhe a pele, q ue empest:eiMun os enormes estábulos de
depois ele viria a usar corno capa. Augias, rei da Élida, tarefa que executou
Seu segundo trabalho (oi matar a desviando o curso de dois rios para os
H idra que vivia em Lcrna, um monstro estábulos e, assim, lavar toda a stticira.
de vári a~ ral1eç.as c q ue fàzia nascer E.m seu sc.-.:to trabalho, livrou o lago
outras cada vez qut> únha uma delas Estínlàlo, a nordeste de Miccna~, dos
decepada. Ele derrotou a cliatura cor- pá'>S<1.ros monstruosos que lá habitavam,
tando-Lhe as cabeças e cauterizando os usando um arco, uma funda c casmnhola~
felimcntos ames que nascessem outras. especiais dadas a ele pela deusa Atcná.
A terceira tarefa foi a de capturar a
corça de Cerínia, um animal sagrado HÉRACLES VAI PARA A ÁSIA
da deusa Ánemis. Ele a perseguiu até A SC!,•uil; Héracles rumou para sudt>ste
ela ficar t'xau~ta, capturou -a e a levou até Cret<t, para caplurar wn enorme
até Euristcu. louro q ue diziam ser pai do l\1inotautu.
O quarto animal que H trades teve De lá, vi ~ou para norde$tC até a T rácia,
d<' enfrr.ntar foi o javali de Erimanto, onde sua tarefa loi da•· conta de um
grupo de temíveis é-guas al1lropóli1gas.
Enquanto Hérades cortava as cabeças da Hidra
de Lerna, seu companheiro e sobrinho lolau que pertenciam ao rei local, Diomedc.~.
rapidamente cauterizava os ferimentos. Para ter act>sso aos animais, Héracles teve
"ELE COMPLETARÁ 12 TRABALHOS, DEPOIS
ASSUMIRÁ SEU LUGAR NAS ALT URAS."
Teócrilo.idl7/o XXIV

de matar D iomcdc's t' o jogú-lo às C:·g1,1 a.~ para recuperar os pomos dourados das
para saciar-lhes a fome. Esl<~~. cn11io, I Icsprrides, a$ filhas do titã Atlas, que
ficaram dóceis e de as cnndu,o;iu facil- sustentava o mundo nos ombros. Atlas
mente a bordo de tun 11<1\~0, levandu-:t~ ofereceu-se para buscar os pomos se
até Euristeu conforme fora-llw ordenado. lléracles segurasse o mundo nos
O rei de i\'l ict'na.~ JWdiu, a '-Cguir, qut• de ombros por um momento. Quando
lhe ouuxc,.~c a cima ck Hipólita, rainha Atlas retornou com os pomos. foi preciso
das quase invt·ncívt·i., Am.uonas e en~aná-lo para que aceitasse sustcntar
Hérades triunfou mah uma Wl.. de novo o mundo em ~cu~ ombro~.

NO FIM DO MUN DO NO MUNDO SUBTERRÂNEO


Desesperado por não comcguir cdar O úiLimo trabalho bem- ucedido de
wna tarellt impo~:.í,·el para Hhadcs, o H érades foi a capnu-a do homvd cão
rei enviou-o até o fim do mundo para de llis cabeça~ Cérbero. Com as tarefa'
roubar uma manada de gado que completadas, Hrracles foi finalmente
pertencia ao brigante Ceriào. Qyando liberado da culpa teriÍ\·el de ter matado
ele voltou, mais uma ve;~, bem-succ:dido, a mulher e os filhos e recebeu a
Euristeu o enviou atÍ' o monte Ad.1s imortalidade.

Com força semelhante aos deuses. mas um


corpo humano, Heraclés deparou com a morte
após ferir o centauro Nesso, quando este ten·
tava violentar·lhe a esposa.Já à morte, Nesso
deu à esposa de Héracles uma poção que,
segundo ele, se aplicada ao manto do herói, o
tornaria fiel para sempre. Mas era uma cilada: a
poção queimou a carne de Héracles, que pediu
então para ser deitado sobre uma pira funerâ·
ria. Quando a fumaça chegou até Zeus, este
apagou o fogo com um raio e levou Héracles
para o OUmpo, onde ele se tomou um deus.
Hérades, enpn•do pelo cent.uro, usa
uma veste mortal e é finalmente vencido.
62 O MUNDO CLÁSSICO

TESEU E O MINOTAURO
1JJ Herói contra monstro t6 Plutarco, Ttm1;
IV Grécia Antiga Pausân ias, Descrição da 01'écia
m Atenas, Grécia; Greta

A história do Minotauro é o mito mais famoso do PERSONAGENS-CHAVE


6rrande herói de Ate nas, Teseu. O rei de Crera, Mi- EGEU • rei de Atenas
nos, mantinha o l\llino tauro, um monstro devorador TESEU • filho de Egeu
de homens, com cabeça de touro c corpo humano, MINOS • rei deCreta
no centro de um labirinto impenetrável peno de seu ARI.AONE • filho de Minas
palácio em Cnossos. A cada nove anos, Minos !orça- O MINOTAURO • uma
criatura criado por Posídon
va o povo de Atenas a e nviar 14 rapazes e moça~
como alimento para a besta, e um navio de vdas
pretas zarpava para a ilha com essa carga humana.

ENREDO
PARTEM OS ATEN IENSES Naxos. Logo foi punido pela crueldade,
Teseu se ofereceu para ser um dos pois seus ma rinheiros não se lembraram
jowns enviados a Creta como alimento de içar as velas brancas, e Egeu, ao
para o i'vfinotauro, pois planej ava matar avistar da praia velas pretas, conclttiu
o animal. O rei Egeu, preocupado com o que o filho estava morto e lançou-se de
filho, pediu que velas brancas fossem tun penhasco ao mar, que desde então
içadas na volta, para ele saber imediata- passou a se chamar Egeu.
mente que seu amado filho estava vivo.

A DERROTA DO MINOTAURO
Quando os menienses chegaram a
Creta, a fi lha do t•ci Minas, Ariadne,
apaixonou-se por Tcseu. Ofcrccru-lhe
<\j uda em troca ela promessa de
casamemo, dando a ele um novelo
de cordel. Tcscu amarrou uma das
pontas na entrada do labirinto
c entrou, liberando a corda
conlà rme caminhava. No
meio do labirinto, lutou
comra o ~tinorauro c o matou.

RETORNO A ATENAS
Seguindo o cordel, Teseu salvou os
jovens atenienses e parou para
casa, levando Ariadne com
ele. Esquecendo, contudo,
que devia seu êxito a ela,
abandonou-a na ilha de
Teseu mata o Minotauro no labirinto
que Minos encomendara a Dédalo para
conter o monstro.
O MUNDO C LÁSSIC O 63

A MALDIÇÃO DE HIPÓLITO
lll Tragédia de paixão tb Apolodoro, EpíiDmo; P lutarco, Teseu;
ill G réci..1. An tiga Pausâ1úas, DescriJ:ào da Grúia
mAtenas, Grécia
Fedra, filha do rei Minas, de C reta, e horrendos. Quando Teseu leu o
segunda esposa d e Tescu, nutria uma bilhe te, voltou-se contra o filho c pediu
paixão secreta por Hipólito, filho de que o deus do ma r, Posidon, o punisse.
Teseu com Hipólita , rainha das Ama- Assim. um dia, q uando Hipólito estava
zonas. Fedra enviou um bilhct(' a em sua carruagem, Posídon envi ou
Hipólito confessando seu amor, mas uma onda e norm e q ue afogou os
ele, em troca , visitou-a apenas para cavalos e lançou o j ovem à morte.
censurar-lhe a paixão
incestuosa. Ao ente n-
der que estava sendo
rej eitad a, Fedra
zangou-se e aos gri tos
acusou Hipólito de tê-
la atacado. Em deses-
pero, ela se enfo rcou,
deixando um bilhete
em que acusava
Hipólito de crimes
Posldon mata Hlp6Uto, em
torno do qual cresce um culto
grego de veneração à castidade.

EM DEF ESA DE ATENAS


lll Fundação do Estado tb Apolodoro, bpítomo; Plutarco, Teseu;
ill Grécia Antiga Pausãnias, .DtscriçlW da Grlcia
m Atenas, Grécia

Após a morte de Egeu, rei de a enviarem delegados pa ra um


Atenas, seu filh o Teseu assumiu conselho comum em Atenas;
o trono. Ele teve de llllar contra estabeleceu urna Constituiç.ão
vários rivais e até executar adequada, cunhou as pr·imeiras
muitos deles, pelo que foi moedas e negociou as fro mcif"d.S com
acusado de assassinato nos os vizinhos. Também reorganizou os
tribunais (e, in()centado, foi Jogos ÍsU11icos de Corinto e instituiu
também o p rimr iro réu a pk itear o lestival Panatenéias, em honra ele
homicídio j ustificado). Em Atená. Por cs'c moti vo, Teseu é
seguida, Teseu dedi cou-se a considerado o ve rdadeiro fundador
expandir o poder de Atenas: elo Estado ateniense.
unificou vários t<'rritórios
O rei Teseu de Atenas está representado
adjacentes sob o comando da nesta estatueta de bronze que era parte da
cidade c convidou essas regiões alça de um antigo caldeirão.
64 O rvll'NDO CU\SSICO

PERSEU MATA A MEDUSA


[lJ H.:rói COlHI".\ monstro 6 Apolodom, Biblio/e(.a dé mitolw.,tio
fU Grccià Andga
m Illm de S~rilo

A princesa Dânae, fil ha do rei Acrísio, teve um PERSONAGENS-CHAVE


(iJho com Zeus chamado Perseu. Acrísio, preocu- PERSEU • filho de Zeus e
pado com uma predição de que seria mo rto pelo D{}noe
neto, colocou Dânac c o filho num colre de POLIDECTES • rei de Séri{o
madeira e jogou-os no mar. O cofre !lutuou até a MEDUSA • o górgono
ATENÁ • deusa da guerra
ilha de Sérifo, onde por sorte eles fo ram resgata-
HERMES • mensageiro dos
dos pelo rei Polidectes. Mais tarde, este rei ins tigou deuses
a m<úor avemura de Pcrscu: a luta para matar a
górgona Medusa.

Convidados a jantar pelo rei Polidcctes,


Perseu e seus amigos discutiam qual prc-
seme deveriam dar ao anfitrião. A maio- As três górgonas, Euríate, Esteno e Medusa.
eram criaturas monstruosas com mãos.de
ria decidiu dar um cavalo, mas Perseu.
bronze. asas de ouro, corpo de escamas
q ue não 1inha nenhum cavalo, disse que, presas de javali, e o cabelo era um emara·
em vez disso, levaria a cabeça da nhado de cobras. As górgo·
Medusa, uma górgona horrorosa (dir.). nas tinham um olhar tão
poderoso que qualquer
PRESENTES DOS DEUSES um que as olhasse
Perseu pediu o auxílio dos deuses, que seria transformado
o atenderam. As ninf~ deram-lhe
sandâlias aladas e o capacete de
Hades, que tornava invisível quem o
usasse. Hermes deu a Perseu uma foice
feita de magneúta e
Atená deu-lhe um
escudo de bronze
polido. Pcrseu perseguiu a
Medusa e esperou até
que ela adormecesse.
Suspenso sobre ela
com as sandálias
aladas, levantou o
escudo de Atená e
mirou a górgona pelo
reflexo no metal, evitando
olhá-la diretamC'nte. Então,
baixo u a foice r a drcapiwu.
Guardou a cabeça num saco e saiu
correndo, perseguido pelas irmãs da
Medusa. Conseguiu escapar nova-
mente graças ao capacete de Hades.
O Mlil'\DO CLASSICO 65

O RISGATE DE ANDRÔMEDA
CD Façanha~ de heróis t6 Hcr6doto, lfütltri!z; Apolodoro,
lU G récia Antiga Bibúol«o tk mitologia
m Eú6pia

Em sua viagem de volta a érifo, ficando Andrômeda a um monstro


depois de matar a Górgona !p. 64), marinho. Quando Perscu pediu a
Perseu vi<l:jou pelas terras da Etiópia, mão dela em casamento, o pai Cefeu
onde viu a bela p rin cesa Andrômeda concordou - desde q ue Pc rscu matasse
e se apaixonou. M as, como ele logo o monstro primeiro. Ele assim fez, e
dc~cobriu, havia problemas na Etiópia. tomou Andrômeda como noiva.
c Andrômeda estava no
centro deles. Os pais dela
haviam se vangloriado,
afirmando que a beleza
da filha era maior qu e a
de qualq uer ninfa do
mar (nrreidas) e, num
acesso dr fúria. Posídon
inundara a terra. O povo
da Etiópia decidira então
apaziguar Posídon sacri-

Perseu voe em socorro de


Andrômeda usando as sandálias
aladas de Hermes. cedidas a ele
pelas ninfas.

A MORTE DE ACRÍSIO
CD F'açanhas de heróis; trágico m Laris~a, Tessâlia , G récia
C\llllprimento da predição t6 Apolodoro, Bihliote&a de mitologia.
lU G réc ia Anriga

Após retornar a Sérifo e matar a recentemente. Ao arremessar um disco,


Górgona (p. 64), Perseu encontrou este foi desviado por um fone vento
o rei Polidectes tentando violentar fone c matou um velho. Esse homem
sua mãe, D ânae. Usando a cabeça era o avô de Perseu, Acrisio, que o
da M edusa, Perseu transfor- herói mmca chegara a conhe-
mou o rei em pedra. cer. Assim, cumprira-se o
Indicou, então, o velho oráculo que previra o
irmão do rei, Díctis, assassinato de Acrísio
como sucessor, e partiu pelo neto.
para a terra natal, Argos.
No caminho, parou para
participar dos j ogos fúne- Perseu era um grande atleta e
eximio arremessador de discos. o
bres em homenagem ao que, no fim, levou ao cumprimento
rei de L..'lrissa, que morTcra da profecia.
66 O ~1U:-.IDO C LÁSSI CO

A TRAGÉDIA DE ÉD IPO
IIl Tragédia do dc·,tino 6 t\ polodoro, Biblioteca dt mtliJ!tlf:in;
lll Gr('Cia Anli!f.~ Súff><lc•,, i'At~ m
m'I't•b&. na Bt·úda, Grt'·ó.L

Quando nasceu, Édipo foi abandonado à morte PERSONAGENS·CHAVE


pelo pai, Laio, rei de Tcbas, depois de um
LAJO • rei de Tebas
oráculo p redizrr que o ftlho mataria o p a i e JOCASTA • rainha de Tebas
d\·sposaria a mãe. A criança foi salva c criada Ú>IPO • {ilha de Laia e
pelos reis de C01into. Quando cresceu, l~d ipo }acosta
ESANGE • ser hfbrido com
consultou o oráculo em Delfos e a predição se
cabeça dt! mulher e corpo
repetiu. Como acreditava que o rei c a rainha de de/eõa
C:orinto eram seus pais, ele fugiu da cor1c
iniciando a trágica jornada.

ENREDO
CUM PRIM ENTO DA PROFECIA sobn· quatro pernas de manhã, rom
Cm sua viagem, Édipo c-hegou a dua., ao meio-dia e três à uuitl·?" Édipo
um ponto e~treito da t·~trada onde foi o primeiro a acertar: '"0 homem,
encontrou uma carruag('m que vinha qur rngminha quando IX'bt\ caminha
em ~enlido C'Oil(rário. t•nhurn dos em pé quando adulto c u~a uma
'?•~jantes quis dar passagt•m e na luta bengala na velhice."
Edipo matou o outro humem - que era
Laio. Sem o saber, Édipo matara o pai. ~ DI PO REI
Às portas de Teba,, l~lipo l·ncontrou O povo de Tebas fi<'ou tiio impressiona-
a E.\fing<', monstro qut' matava todos os do <JUl' aclamou &tipo n'Í, e a rainha
que· não conseguiam rt•,p<md<'r ao vÍÚ\".t J oc.tsta tornou-S<" ~ua rsposa. Sem
t'nigma '·Qual é o ~cr que caminha saber, ele desposara a própria mãe.
Mai ~ tarde, ao descobrir a v('fdadc,>, o
Numa tena do filme ldipo rei (1967) . tdipo
(Christopher Plummer) beija a mãe, Jocasta horr~w de :.ua vergonha levou-o aS<'
(UII Palmer). cegar e j urasta, a se enforcar:
O r-fU:'\00 CLÁSSICO 67

BELEROFONTE E PÉGASO
IIl Mon .. trâl(ica de hc1t'li' 6 1\polodom, !Mlwkc(l <k miltlloxia:
I" Gn·l ia Amiga Homerv, /lEnda
m i.~d.,, Grécia

Qu.u1do jovem, Bclcrolont<· loi matá-la. As\im. l obates c Bt•kforonte


injustamente acusado de I<' r sed uzido a tornaram-se amjgos. Tudo ia bem até
esposa ele Proleu, rei d<• Argos, que u qut' o hcrbi, tomado pela a mbição,
baniu da ddade, enviando-o a lobmes, tcnlOu voa r com Pégaso a té o monte
n·i da Lícin, com uma cana que pedia Olimpo, morada dos deuses. Zangado
a mor!C· de Belerofonte. l\[ru. lohau:, com o atrc.., irncnto de Belerofi)ntC,
n·cusou-~r n ordenar .t mortt' de um Zeu'> ft'/ o cavalo derrubar o t·avalciro,
hó\pcde. Por i~so, designou Bt•lcrofonte que morreu.
para maLa r a Quimera. um monstro
tcnebro~o que atcrrori:..:ava ~t·u povo,
pois Jm'>Umiu que e le
morreria durante a luta.
1\1.\s i\tt•ná ;~ udou o
hl'l"ói d.1ndo-lhe o cavalo
alado Péga~o. para que
de pudt•..,c l'fb'ller-se
acima da Qujmera e

Pégaso nasceu quando Medusa


rol morta (p.64). Uns dizem que
ele brotou do pescoço da Medusa
e outros. da terra ao redor dela.

AS 49 ASSASSINAS
IIl l'ragt'día de intlÍl{ll> 6 1\polotloro, Bihliottca dt IIIIIOÚ!gia;
I" (; réci,, Antiga Pausân ías, !Je>ttição da Grrcin
m 1\rgm, Grécia

O rei egípcio Dânao, pai de 50 cada uma das filhas, a~ Oanaid es,
filhru., bligou com o irmão Egito, uma adaga e a ordem de matar os
que tinha 50 filhos. Temendo prla maridos na no ite de núpcias.
segura nça das fi lhas, D ànao Quando se recolhe ram ao quarto,
dt ixo u o reino e cstabclt·n·u-sc 49 mu lheres mataram os
com da~ e m Argos. de ondr maridos, cortando-lhes a
convido u os sobrinhos para garganta. Apenas uma delas,
uma visita. Estes disseram que llipcrmncstra, teve pena do
vinham em paz e pediram marido, Linccu, que l>t' compor-
permissão para casar com <h tara de forma nobn· c gcnLil. As
filh a> de D â nao. D esconfiado, 49 irmãs que obedeceram ao pai
pois lhe parecia que os fi lhos de 1Cmm1 mais tarde p(·rdoadas c
E~ i w ainda e ram se us in im igo~, o purificadas pelos dcust'S Alt•ná
rt·i aceitou o pedido. mas dt· u a e Ht•rmes.
68 O ~I C.:'\0 0 CL.\ SSIC:O

AS PEÇAS GREGAS E OS MITÓGRAFOS


Tantos rrútos gregos subsistiram porq ue os escritores amigos
contaram c rccontaram as histórias dos deuses c heróis em poesia,
prosa c peças de teatro. Algumas versões, especialmente os dois
poemas épicos de llomrro a Odis.1na e a /Uaáa - e as peças trágicas
dos dramaturgos gn:gos, tornaram-se clássicos da literatura mundial.

OS POEMAS ÉPICOS DE HOMERO OS DRAMATURGOS


Homero foi wn dos primriros e Os u-ês grande> dramaturgos
melhores poeta:. amigos. A data da Grécia Antiga foram Ésquilo
de seu nascimento r incerta, c.525-!56 a.C. , Sófoclc~
t•mbora os estudio~s <·oncor- (c.490-406 a.C. r Euripides
dcm em datá-lo por volta dos {480-406 a.C.), l' todos
srcs.Vlll ou Vll a.C. E.lc é usaram os mitos em seus
llunoso por dois poemas {·picos: emedos. A imponente trilogia
a /lindo, que fala dos ewmos de Ésquilo, a Orislía, aborda o
da guerra de Tróia, e a assassinara do hl'rói
Odisslia. que narra a!> a'l-clllu- Agamênmon e a vingança de
ras de Odisscu em sua jor- seu filho Orestes. Também é 5ua
nada de rcgrcs.~ à Gréóa uma peça sobre Prometeu.
vindo de Tróia. Essas Os temas de Sófocles
duas épicas vieram à hn Os atores gregos usavam
incluíam Édipo, o ciclo de
inicialmente na forma de máscaras para indicar Tróia, Anógona c I Jéracles.
diferentes personagens
narrativas orais que ou emoções.
Euripides também escreveu
Homero organizou e re<'íi· 'árias peça..~ sobre o ciclo
tnmrrou, tomando-a..~ famosas na troiano. além de Hkadrs t' , Jlwte.
GrC:cia Antiga. Ainda hctic são elogia-
das por sua forma direra, pela caracte-
rizaç.ão e pela rica linguagem poéúca.

AS OBRAS DE HESfODO
ll e~íodo foi outro pocta anúgo a
tratar os mitos com abrangência. Sua
Ttogonia, provavelmente escrita nos
sécs.Vlll ou VII a.C., conta a
história da criaç;i.<> do cosmo, o
nascimento dos deuses e a ascr-nsão
de Z<'us ao poder. &:u outro poema,
TrahaJJws e os dias, f.'\Ja de PrometaJ
das cinco idades do mundo.
A figura sombria de Orreu conduzindo a esposa no
Mundo Subterrâneo é uma Imagem que continua a
deslumbrar público e escritores contemporâneos.
O ~1l'N DO CLASSICO

O teatro grego em Epidauro,


perto de Atenas, é um dos
mais bem preservados

Essas peças, miginaJ-


mente exibidas como
pane dos grandes
festivais dramáticos de
Atenas, então em seu
auge no ~éc.V a.C,
mais tarde foram vistas
por wdo o mundo
grego c até mesmo
fora dek. Arg01uíutica, que narra a história de
J asào e o Velocino de Ouro. Mais
ESCRITORES POSTERIORES tarde, o poeta Ovídio (43 a.C.-17
Durante o st•c.JV a.C., o mundo d.C.) rccontou uma >érie de miws de
grego e s1.1a cultura expandiram-se transformações nas Mrtamorfoses, e nos
drasüc;wwnte quaudo Alexandre o sécs.l ou Il d.C. o escritor grego
Grandr conqui~tuu considerável Apnlodoro escreveu a Biblioteca de
parte da Ásia e do M edilcrrâueo. Isto milologit1, que caminha muitos dos
inspirou muitoo escritores. iuclusive mitos gregos que vitiam a ser uma
Apolôtüo de Rodes tséc.Ul a.C.), grande fonte de impiração para
autor de u1n poenta épico ch<mtado r•scritore~ dos sfrs.XVI c XVII.
70 O MUNDO CLÁSSICO

O JULGAMENTO DE PÁRIS
m Rivalidadt• entre os deuses 16 O vldio, H~~roukJ~
"' Grécia Auciga Ludano, Diálogos dos rkusu
m
Monte lt.la, Tróia (m Qll,t fi· 71)

Era antiga a rivalidad e e ntre G récia e Tr óia, LUna PERSONAGENS-CHAVE


ó d ade do o ulro lado d o mar Egeu, a noroeste da PÁRIS • príncipe de Tróia
a tual Turquia. O conflito ma is séri o, porém, HERA • rainha das deuses
acon teceu quando o p ríncipe lroiano Pári.s, fil ho do ATENÁ • deusa do guerra e
rei Príamo c da rainha H écuba, !()i chamado a ser da sabedoria
AFRODITE • deusa do amor
juiz de u m com:urso ele beleza entre lrês deusas elo
MENELAU • rei da Grécia
Olimpo. Quando Páris se deci diu por Afroclile,
HELENA • rainha do Grécia
deusa do amor, ele desencadeou uma série de
eventos que levou à CueJTa de T róia.

ENREDO
AS TR~S DEUSAS O RAPTO DE HELENA
Éris, a deusa da discórdia, foi ao !'vl ais tarde, Páris foi enviado à Grécia
casamento de Peleu e Télis sem ser com instruções de assegu rar a liberação
convidada, levando um pomo dou rado da princesa troiana Hesíone ou de
com a inscrição " Para a mais bela". ~eqücstra.r uma princesa grega, caso as
Zeus pediu ao príncipe Páris para julgar negociações falllassem. Lá chegando,
quem o receberia: Hera (que prometeu apaixonou-se por Helena, consi-
a Páris poder c riqueza), Atcná (que derada a mulher mais bela do mundo -
ofereceu sabedoria e sucesso na guerra) mas que era esposa do rei grego Nlcnelau.
ou Afrodite (que ll1e garantiu a mulller Ela também se apaixonou por Páris, c o~
mais Li nda do mundo). Páris cscoll1eu dois partiram em direção a Tróia, aban-
Afrodite. donando Heslonc. Furioso, Menclau
orga11izou um exército liderado pelo
irmão, o grande guerreiro Agamêmnon,
Antecipando-se ao enredo da Bela Adorm~ida, ( ris.
que não fora convidada às bO<ias de Peleu e Tétis,lraz c por Odisscu para recuperar Helena.
um "presente" que ameaça perturbar a ordem natural. Começava a Guen·a de Tróia (p. 7 /}.
O ~UNDO C LÁSSICO 71

A GUERRA DE TRÓIA
ED Guerra 6 H omero. fllad11
lU Grécia Antiga
m Tróia (z,lr box abaixo)

A guerra entre Grécia r Tróia, que começou PERSONAGENS-CHAVE


qua ndo o príncipe troiano Páris e a rainha grega PÁR lS • príncipe de Tróia
Hdena fugiram juntos, durou dez a nos. Houve HELENA • rainha de Tróia
muitas perdas, incluindo vários heróis de destaque AGAMEMNON • comandante·
de ambos os lados. O s g regos conseguiram vencer chefe do exército grego
AQUI LES • herói grego
depois de usarem um cavalo de madeira para
AJAX • comandante do
contrabandear os guerreiros para o interior da exército grego
cidade sitiada de T ró ia. H elena, de novo unida ao ODISSEU • herói grego
marido, rei Mcnclau, foi levada de volta à Grécia.

o
A guerra se prolongava há anos. Nwn portões de Tróia. Conforme planejado,
episódio famoso, a rno11c do herói grego assim que o cavalo foi puxado para
Aquiles !oi provocada por Páris, que dentro da cidade os soldados saíram e
idcmjfirou corretamente seu pomo li·aco abri ram os portões para o resto do
e o matou, flechando-lhe o calcanhar. exército. Os gregos saquearam a cidade
Um segundo herói grego, Ajax, suicidou· c, em seguida, navegaram de volta para
se por vergonha quando Agamêmnon, o casa, vitoriosos c com a rai nha Helena.
líder militar, decretou que o esperto
estrategista Orusscu era o mais rugno de Brad Pitt no papel de
Aquiles, assassinado
herdar a armadura de Aquiles.
por Páris durante a
Guerra de Tróia, no
O CAVALO DE TRÓIA filme Tróia (2004).
Odisseu foi o menlor da estratégia da
vitória. Recomendou aos gregos
an unciar urna pretensa derrota e deixar,
como wna o lerenda a Atená, um
enorme cavalo ck madeira - que
esconrua inúmeros guerreiros nos

A antiga cidade de Tróia situava-se na


atual Hissarlik, no oeste da Turquia. O
local, hoje bastante escavado, mostra as
ruínas de uma cidade que foi construida
e reconstruída muitas vezes. Mesmo em
ruínas, nota-se uma semelhança óbvia
com a Trôia da 1/íada. As muralhas
enormes lembram a descrição da cidade
feita por Homero, assim como a região
varrida pelo ven to. A ampla planicie
onde a cidade se ergue pode ser o
local das implacáveis batalhas entre
e troianos.
O MUNCOO CLÁSS ICO

": .. as sereias encantam a todos que se aproximam.


Não há volta ao lar para o homem que
inadvertidamente se aproxima delas... "
Orce, na Odisséia, de Homero
O MUNDO C LÁSS ICO 73

....

A ODISSEIA
C1J Viagem épica
lb Grécia Antiga
m o :\1editcrrà neo
6 Homero, OdiJstio

A Odisséin, g rande poema épico de H omero, nan'a


eventos que aconteceram imed iatamente após a
G uerra de Tróia. O pcn;onagcm central é Odissc u, Na maioria dos relatos. Odisseu
um grego, que Leve papel re levante na guerra ao era Alho de Laerte e Anticléia, rei
e rainha de ftaca. Alguns escrito-
lutar por dez anos e ao ter a decisiva e brilhante idéia res. porém, para justi ficar sua
de fo1jar um cavalo oco de madeira para ajudar os astúcia e manha, dizem-no filho
de Sísifo, um trapaceiro.
gregos a entrarem em Tróia. A Odisshrr conta sua
longa viagem de retorno ao lar. Ao longo cto poema.
Oclisscu conquista nossa cumplicidade. Ele r s:Jbio,
cor"joso c sempre tem saudade ele casa, da esposa
Penélope e do amado rilho Telêmaco.

JORNADA REPLETA DE AVENTURAS


Finda a guerra, Odisseu iça \'elas e parte de Tróia
para seu lar em Ítaca, uma d as ilhas jônica~ a O('SLC
da Grécia eonl.inemal. A jornada deveria ser direta,
passando pelo mar Egeu, contornando o Stll do
Peloponeso, c depois na direção norte até Ítaca.
Mas a viagem de Odi~seu, radada a problemas, é
pontuada por aventuras f:tntásücas: enconu·os com
deuse>, leil.iceiras, monstros, canibais c até mesrnu PERSONAGE NS-CHAVE
t1ma j omada ao Mundo Subterrânro. Essa combi-
ODISSEU • rei de Ítoca
nação de eventos Ütz da Odil.rfía uma das maion:s PENÉLOPE • esposo de
h istória~ de avrmura de todos os tempos. Odisseu
Os infonúnios ao longo da viagem cnvnh-em a perda TEL~MACO • filho de Odisseu
e Penélope
da frota de 12 navios c, no fim, a de todos os homens
POLIFEMO • um dos Ciclopes
q ue navegavam com Odisstn. Ele enfim chega a Ítaca, ÉOLO • deus dos ventos
mas lá descobre que v'alios pn'tendcntes assccliavam CJRCE • semideuso e
sua esposa Penélope e clilapidavam seus bens. A1cnft, (eíticeira
CALIPSO • semideuso
q ul' o '\iudara duramc a viagem, dá-U1e um di~fa.rce
NAUSICAA • princesa dos
pru'a que ele \T rinque o que esút acontecendo, livn:-se {eácios
dos prNenclemcs f' se 1\~e ncontrc com Penélope.
74 O MUNDO CLASS ICO

Depois de Oclisseu ter deixado T róia, sua remanescente levatia todos os seus
frOLa foi arrastada peJos vemos para o sul, navios diretamente pa ra Ítaca.
até a terra dos Lotófagos. Ao ingerirem o Contudo, achando qu~: o saco conri nh a
rxótico fruto do lótus, os tripulan tes tesouros, seus hornt:ns abri ram-no,
esqueceran1-se do passado e quiseram lá li bera ndo os ventos, que d esviaram os
ficar para sempre, o que ob1igou Odisseu navios da rota - e acabaram po r cair
a arrastá-los até os navios. nas mãos de OUlra raça de canibais
A seguir, aportaram na terra dos gigantes, os Lest rigões, que des tn úran1
Ciclopes, gigan tes temíve is de um só todos os navios de Odisseu, e..xceto um.
olho. U m deles, chamado Polifcmo,
prendeu O disseu e seus homens numa A MÁGICA DE CIRCE
cavem a e começou a devorá-los. O clisseu prosseguiu viagem f' chego u à
O disseu, que a firmara se chama r Ou tis ilha da li::iticeira C ircc, q ue transfo rmou
(palavra grega para " ninguém"), cegou os homen s de Odisseu em porcos.
o gigante, enfiando-l he uma estaca no O d.isscu só escapou por ter comido a
ol ho. Quando Polifemo pediu socorro erva protetora mágica, recebida ele
g-ritando "Outis [N inguém) está me Hermes. Percebendo ter encon trado
fcr·indo" , os outros ciclopes ignoraram-
no, e os gregos puderam escapar.
"EU SOU ODISSEU,
VENTOS CAPRICHOSOS
A seguir, os g_:egos chegaram à ilha
FILHO DE LAERTE.
flu tuan te de Eolo. deus dos f]Ual.ro O MUNDO TODO
ventos. Para ajudar Odis~eu, Éolo deu-
lhe u·ês ventos adve rsos amarrados FALADEMEUS
clentTO de um saco. O úni co ve nto
ESTRATAGENIAS,
Odisseu cegou Polifemo e, em seguida. ele e seus
homens escaparam atados sob a barriga das ovelhas E A MINHA FAMA
do gigante e fora de seu alcance.
CHEGOU AOS CÉUS."
Homero, Odisséia
O ~I U~DO CLÁSSICO 75

ANTIGA
A Grécia era um país montanhoso, onde viajar
por terra era difícil. Muitas cidades gregas
antigas ficavam na costa e seus habitantes
chegavam de um lugar a outro de barco. Para
viagens longas e guerras, os gregos usavam
navios grandes que ostentavam enormes
velas quadradas e fileiras de remos, com o
objetivo de se movimentarem rapidamente
com ou sem bons ventos. Mesmo em alta
velocidade, navios desse tipo podiam
abalroar embarcações inimigas.
fiiUtira, cedro e pinho eram os materiais
escolhidos para os navios de combate gregos.
As quilhas podoam ser reforçadas com metal.

um rival à a lt ura, Circe devolveu a r~úo qur fr1. o na\iO em pedaços c afügou
forma hum;:~na à 1ripulaçào e di.sse todo;. m homem. Odisscu fc)i o único
a Odi s~eu pan1 visitar o .Vtundo sobn'vivcnle, pois sr agarrou ao~
Subterrilneo :1 fim de dcsrobrir mais dcs1roços do navio c foi levado at(· a ilha
sobrl' seu fu turo. roi o que ele íez. c da dcma Calipso. Ela SC' intncssou por
5oubt• pdm (·spíritos que quando Odis<;c.·u, mas d e resistiu às suas invt~ti ­
voltasst' a Ítaca hawria homens dtntro dw., montou uma jangada r partiu maÍ\
de sua t\t~a brigando por ~uas posses. uma \'<.:'/.. C mais uma vez tamocm
naufragou, o;enclo encontrado p<'la linda
PER IGOS NO MAR prinec"><t Nausícaa. que se parecia muito
De volta a bordo, o próximo desafio <;('ria c·om .. ua amada esposa Penélope. O&...<.<'u
o de naw~ar tx·lo território das sereias, <.<'ntiu-M' l<'ntado a permanecer, m.JS
Cf.!jos lindos cantos 't'duziarn os marinhei- dcddiu \'Ohar para Ítaca.
ros. Ele tapou o' ouvidos dos homens
com cera l' ord<'nou-lhrs que o ata.•..sem RETORNO AO LAR
ao ma~Lm do nnvio pam qur o uvisse a Odisscu enrommu a casa cheia de
música das ~c n• ias sem ser encantado. pt'Cic' ndentes à mão de sua esposa. Ela,
Dr pois, trvr dr atravessar um cana.l {'\f>t'rtamente, tin ha renr~clo l'Sl'olhcr
eSU"t"ito enu'l' o rnon,Lm algum l'nquanw não
Cila e o n•ckmoinho terminasse a vc'l!tc' qur
Caribde-.. O navio pa'isou. tecia mas a dC'!fivia
ma~ Ocli'--.t'U n.tvegou todas as noites. Por fim,
perto dl'nJai' d<' Cila, anunciou que cle.,po,a-
que matou ,tlguns de ria o homem que ron~r­
M'US hom<·n,. guísse retesar a corda
do grande arco do
APENAS OOISSEU marido. Apenas
O navic1, enttlc 1, aportou na Odisseu, disfarçado,
ilha Trinácia, pe rtencente conseguiu. Penr lnpc' o
ao d<:'us-Sol llt'·liu, que lá reconheceu e de matou
mantinha M'U gado. todos os pr<:'lt'ndentc's
Odi>.,eu fora ;:l\i-,.1.do para com a ajuda do ltlho
não tocar nc,., :mimai... Telêmaco.
Seus horm 11'>, IXIrÍ'm,
de,olx-dc·n·rarn e mataram
P~nélope foi reverenciada por sua MITOS RELACIONADOS • A
algun~. Qpando 1.arp:1ram fidelidade e devoçao: P~perou anos viagem de Brãn (p.1o2) • Kayak.
de novo, Zc•us c•rwiou um pela volta de Ulisses. o falcão·peregrino (p.2o6)
O ~lUI'\IJO CLÁSSICO

O VELOCINO DE OURO
IIl Busca, ,;agem épica m Vários locais no M cd itcrràneo c ua costa dt) mar
lU Grécia ,\ntig-a :-.'cgm
i!f::> Apolônio dç Rodes, Argorulutiça

.Jasào seria o rri de l olco (nordeste da Grécia) por PERSONAGENS -CHAVE


direito, mas seu do P élias wmara ll trono quando JASÃO • herdeiro do reino
Jasâo era criança. Ao a ungir a maioridade e exigiJ· de lo/co
seu direito, Pélias d ecretou que t:le só se wrnaria PÉ LIAS • tio de /OSÕO
rei se roubasse o precioso Velocino ele Ouro da HÉRACLES • herói grego
FINEU • um profeta
Cólquida, uma terra distante, além da costa oeste
EETES • rei do C6/quido
do mar Negro. A viagem dcjasão à Cólquida e
MEDÉIA • filha de Eetes
seu retorno ao lar é uma das mais famosas
histórias dássicas.

ENREDO
OS ARGONAUTAS Cartaz de /osão e os Argonautas
l ' m cxcrlrmc nmio foi (1963), mostra o momento
em que o gigante de bronze Talos
cons1ruído para a \~agem se eleva do mar
dr.Jasão à Cólquida.
Balizado de Argu, seu A VIAGEM
casco era mágico, leito A viagem lui repkra ele
com o carvalho sagrado avemuras. Os Argonama~
do oráculo de Zeus em permaneceram por alg-um
Doclona. A~~illl que o tempo na ilha ele Lemnos.
navio licuu pronw,Ja~ão no Egeu, ondr foram
recrutou uma tripulação vítimas do~ cncamo' ela
os Argonautas, que população. cxclu~ivamente
induía alguns elos leminina. Perderam
maiores heróis ela r-J('r(lclf'S na ilha cios mí.~ios.
Grécia homl'nS como I-léraclcs, o,·fcu quando uma ninfa marinha seduziu seu
Pcku - e pardram rumo ao
I' amigo Hila~. levando Iléracle' a sair à
Helcsponto. sua procura. Depois encontramrn o
O Mt.:N DO C LÁSSJCO 77

profe ta cego Fineu, q ue se ofereceu para


ajudá-los se eles desrruissem as H arpias
- pássaros com cabeça de m ulher que
bicavam os olhos de Fineu e defecavam
um lodo malcheiroso. Dois dos Argo-
nautas, Calais e Zetc:'S, as espantaram.
O p róxi mo desafio dos Argonautas
foi navegar através das Rochas
F lutuantes, na entrada do mar Negro,
que se entrechocavam e esmagavam
qualquer coisa que passasse entre elas.
M as Fineu ensino uj asão a resolver o
problema: enviou um pássaro para
passar en tre as rochas, as p edras
fecharam-se e abli ram-se, e os
Argonautas então atravessaram a w da
velocidade ames que elas colictissem O Argo foi construrdo em Pagasae (hoje Volos). na
de novo. costa leste da Grécia, por um homem chamado
Argos. com a ajuda de Atená (esq., sentada) .

TOUROS QUE LANÇAM FOGO ceder o Velocino. M edéia então sugeriu


Eetes, rei da Cólquida , não queria abrir q ue j asão enganasse o dragão, que
mão do Velocino de O uro e. assi m, guardava o Velocino, pedindo a Orfeu
q uando J asào chegou, impôs ao herói q ue adormecesse com o som de sua lira.
um desafio: an-ear dois to uros que O plano funcionou, J asão ro ubou o
soltavam fogo, usá-los para arar um Velocino e navegou de volta a Tolco,
campo c semeá-lo com dent es de levando M cd éia com ele.
dragão, dos quais imediatamente
brotariam guerreiros armados. Parec ia DE VOLTA PARA CASA
não haver ch ance de sucesso. Masj asào A caminho de casa, encontro u muitos
teve a ajuda da filha de Eetes, M edéia, monstros q ue O disseu também
que unha o dom da feiriçaria . Ela se enfremara em sua longa jom ada !.p. 72-
apaixonou por J asào c lhe deu os 5), como as sereias e Caribdes. Encarou
poderes necessários para completar a aind a novos desafios, como o gigante de
tarefa. l'vlesmo assim, Eetes se recusou a bronze Talos, que a ürou enormes rochas
contra A1go, até M edéia matá-lo com
Os Argonautas foram recebidos de braços abertos
pelas mulheres da ilha de Lemnos, e muitos deles as um olhar. A~sim,Jasào retornou com o
engravidaram. Jasão teve gêmeos com a rainha. Velocino de Ouro e exigiu seu trono.
O MUNDO C LÁSSLCO

OS DEUSES GREGOS E ROMANOS


Segundo a lenda, a cidade de Roma foi fundada em 753 a.C. c em
500 anos já controlava toda a Itália. Roma então voltou-se para além
de suas fronteiras, e no séc.ll a.C. os romanos Linham conquistado
a mruor parte da Europa, o leste do Mediterrâneo e o none da
África. Conforme anexavam os estados, assimilavam parte das novas
culturas, inclusive histórias de várias mitologias.

DEUSES COMPOSTOS especial, no caso


Ao conquistar novos tcr- da Grécia.
riLóJios, era do inrercssc
de Roma permitir que os JÚPITER, O DEUS
povos subjugados comi- DO CÉU
nuassem a adorar seus Antes de Roma se wroar
própiios deuses, mas poderosa, os etruscos
criava uma versão roma- eram um dos mais
na para eles - para enfil- importantes povos itáli-
rizar que a raça conquis- cos. Quando Roma os
tada agora la:-:ia parte do conquistou, assimilou
Império Romano. Se al!,,'Uns deuses (p. 90-1),
A Fontana de Trevi, em Roma,
uma divindade local atribuindo-lhes, por
Inspirada no mítico palácio de
tinha algo em comum Netuno, deus romano do mar vezes, qualidades dos
com um deus romano ou (o grego Posidon) . deuses gregos. Um bom
itálico, os dois poderiam ser amalga- exemplo é o deus etrusco Tinia, o
mados sob o nome do deus romano. deus do céu ou "do trovão", renomea-
Assim, as divindades romanas não só do como Diospiter, ou Júpiter úJai do
tinham ca.racLerísLicas dos primitivos céu), pelos romanos e adorado como
deuses itálicos, ma.~ também podiam o deus dos trovões. Após conquisLar a
adquirir· atiibutos dos deuses de Grécia, os romanos deram-lhe atribu-
povos conquistados, como o loi, em tos do deus grego do céu.
O ~l t:NOO C:LASSICO 79

OS COIIEIO•OEWTES IOMAIOS EGHGOS


NOME ROMANO ATRIBUTO EQUIVALENTE GREGO
Esculápio deus da cura Asclépio
Apolo deus do Sol e das artes Apolo
Baco deus do vinho Dioniso
Ceres deusa da colheita Deméter
Cupido deus do amor Éros
Diana deusa da caça Ártemis
]uno esposa de Júpiter Hera
Júpiter deus do céu; deus supremo Zeus
Marte deus da guerra Ares
deus das finanças; mensageiro Hermes
deusa da sabedoria Atená
Netuno deus do mar Posídon
Vênus deusa do amor Afrodite
Vesta deusa da lareira Héstia
Vutcano deus do fogo Hefesto

O TRIUNVIRATO GOVERNANTE ~lim·na, ori~nalmeule a dru~a


Por muitos anos, Roma fc>i go..X'rna- ctru&ea da~ artes, foi assimilada à
da por um triunvirato (Lrrs mandaJ1- deusa grega Atcná, torn ando-'><' a
tes}, c os romanos viam os deuses da deusa da sabedoria, além de patrona
mesma forma. Depois de júpitt·r, dos arti~tas e artesãos
havia duas deusas na hierarquia divi-
lhl,juno c ~ l inerva.Juno, irmã e OUTRAS ASSIMILAÇÕES
c'posa de J úpiter, era a equivalente Os roma.J1o' assimilaram ourms
romana da grega H era. Ela cra a divinda<ks itálicas e grega'>. :\ lrrcúrio,
protc•tora das mulhere~. a deusa do um velho deus itálico, a divindade do
rasanwntu e do nascinwnlo. romércio c das finança~ (~cu nome
rclaciona-Sl' :\ palavra rnerca/Qr,
mercador), fcJi idcntitic.ado com o
gn·go Hc•rme~. Diana, a deusa itálica
da caça, foi ao;similada à grega
Ártemi.,, tornando-:>e uma da~
· ndadt•, mais popularrs do
Alguns deuses romanos vi'·m
dos gregos, como Apolo,
não tinha nenhum equivalcntc
mas conquistou inúmcros
o,t·~idorcs entre os romano~.
l:.~l('"• porém, scmpn·
l'nfaliza'v-am a surx·lioridad!'
moral de seus próprios dcw.es
relação aos pan~s grqo~us.
8o O MUNDO CLÁSSICO

ENÉIAS FUNDA UM IMPÉRIO


til Viagem e fundação m Vários locais no Mediterrâneo;
Jll Roma Antiga Itália
tb Vtrgilio, Eneida

A ftU1daçào de Roma como LUna forç.a política e PERSONAGENS -C HAVE


geogyáfica iniciou-se quando o jovem Enéias, ENÉIAS • filho de Anquises
príncipe de Tróia, deixou o cenário da Guerra de e da deusa V€nus
T n)ia e começou uma longa viagem. Após muitas A SIBILA DE CUMAS •
avemuras, ele chegou à Itália, assumiu a região do uma profetisa
LATINO • rei do L6cio
Lácio, no rio Tibre, fUndou uma nova ódade e
LAVINIA • filha de Latino
iniciou a extensa linhagem de reis e imperadores de
Roma . Sua vida teve como pano de fundo uma série
de contendas entre Vênus, sua mãe, e a deusajuno.

BNUDO
ENÉIAS DEIXA TRÓIA perceber que seu deslino
Havia duas profecias era outra teJTa.
reveladas a Enéias:
fundaria uma nova A SIBILA E O MUNDO
cidade e destruiria SUBTERRÂNEO
Cartago, no norte da Navegando perto de
África. Assim, depois da C umas, na costa oeste
clesu-uiçào de Tróia (p. 71), da Iráüa, Enéias
ele partiu da cidade com encontra Sibila, LUna
um grupo de seguidores e profetisa (p.Bff), que lhe
navegou em busca do dá uma visão do futuro:
novo território, conforme a cidade de Roma e
predito. Cruzando os muitas gerações de
mares Egeu e J ônico, heróis romanos ainda
chegaram à Sicília, lar por nascer.
dos Ciclopes, uma raça o her61 errante Enéias partiu de
de gigantes de lUI1 só Tróia para se tornar o predecessor ENÉIAS NO LÁCIO
olho. Os marinheiros dos poderosos romanos. Quando aportou no
tiveram sorte de escapar da ilha com Lácio, Enéias fez um acordo com
vida. Navegaram para o sul, mas as Latino, o rei local, que incluía o
embarcações foram afLU1dadas na costa casamento com sua filha Lavínia. lsso
non e da África por Juno, que tentava enfureceu Turno, rei dos rútulos, a
proteger sua cidade, Cartago. quem Lavínia era prometida, e ele
declarou guerra. Os troianos, com o
AMOR EM CARTAGO povo do Lácio, enfrentaram os rútulos
Enéias naufragou perto da cidade de por vários meses, até que Enéias matou
Cartago, onde encontrou a rainha Turno. Unificou então os povos e
Dido. Vênus fez o casal se apaixonar, fundou a cidade de Lavínio, que, sob
pa ra Dido esquecer a fideüdade devida sua liderança, consolidou o poder da
a juno, mas Enéias a deL-xou (p.BJ) ao futura Roma.
O MUNDO CLASSICO 81

DIDO E ENÉIAS
ro rr.lf.:l'dÍ:l dt• amor
lU Rum,\ Amiga
m C.lrt.lgo, llOrll' ela Africa

Dido, uma das primeiras prol(·tisas dt• Ti ro, lb i a PERSONAGENS·CHAVE


fundadora e rainha da cidade de Cartago, na <'osca
ENf iAS • filho de Anquises
norw da Afri('a. Logo após a construção da cidade, e do deuso Vênus
Enéiru. chegou jumamenle com omros herói~ da DIDO • rainha de Cartago,
Guerra de Tróia. Foi amor à primt·ira vi~ca, e filho de Muto, rei de Tiro
pareciam st•r um casal perfeito: Dido era uma
nobn· minha e líder e Enéia.~ um herói de\temido
no comando dr suas tropas. Nlas esse amor di~traiu
Enéias do seu destino com conseqiJ{·ncías trágicas.

o
A MALDIÇÃO DE DIDO
A ENEIDA DE VIRGILIO
Dido c t-:n(·i:t\ viviam juntos marital-
mrntt• quando um mensageiro dos
rO poema épico Eneida, que narra a
história de Enéias, é a obra·prima do
deust·s wio rel.. rnbmr Enéias de seu
grande poeta romano Virgflio (70·19 a.C.).
dt>wr dt• st• t•Mabrlecer em outra terra. O patrono de Virgílio era o imperador
Ele decidiu dt•ixar Dido, implorando Augusto, e assim o poeta contou uma
que ela <"omprt•t•ndt·sse que seu destino história centrada na cultura romana. Ao
era fundar uma nova cidade. e não se descrever a viagem e as ações de Enéias e
tornar rei dr Cartago. seus companheiros, ele os confirmou
Mas Dido optou pdo suicídio. como ancestrais dos romanos. Também
Mandou construi r uma p i r.:~ runerária e, justificou a guerra de Roma contra
Cartago, no séc.lll a.C.. como o cumpri-
ao ver os navios troianos desaparecendo
mento da maldição de Dido de que as
no mar, amaldiçoou Enfia~. jurando duas cidades seriam eternas inimigas.
que Cartago <' Roma seriam inimiga~
para scmprt•. Subiu até a pira c úrou a
prúpria vida com uma espada.
AD narrar suas aventuras. Enêias
n~o s6 impressionou a rainha
Dido. mas também conquistou
82 O M UN DO C LASS ICO

RÔMULO E REMO
1IJ Rivalidade enrr<' irmào!L m Itália: norte\' ccnn-al
funda<;ão d<: cidade 6 Lh·io, História de Róma; o,iclio, Pasto.
rt1 Roma Antig-..t

A lenda de Rômulo c Remo narra como os dois PERSONAGENS -CHAVE


gêmeos, abandonados pelo avô, foram l evado~ p or NÚMITOR E AMÚLIO • co-
um rio e resgatados por uma loba. Após terem suas regentes de Albo Longa
identidades reveladas p elos deuses, eles recupera- RtiASfLVIA • uma virgem
ram o verdadeiro status e, no fim, fundaram a vestal
RÕMULO E REMO • filhos de
cidade de Rom a. Com esse terna de crianças-lobas. Réía 517via e do deus Marte
a lenda parece remontar a uma antiga tractiçào, A LOBA
que encontra paralel o~ em histótias européias mais FÁUSTULO • um pastor
rect·ntes de crianças abandonad;L~.

ENREDO
OS G~MEOS ABANDONADOS Remo reuniram Lodos os camponeses
Dois irmãos o legislador Núm ito r e o da região e iniciaram uma revolta.
soldado Amúliu gowrnavam a cidade matando Amúl io r rcinstalando
de Alba Longa, no centro el a Itália. Os Númitor no poder.
dois brigaram, e Amúl io assumiu a Após ce rto tempo, Alba Longa
cidade, prendeu Númiwr c obrigou LOmou-se superpovoada, e Rômu lo e
a sobrinha, Réia Sílvia, a se tornar uma Remo decidiram fundar uma nova
virgem \'t'Stal (n~tando assim qualquer cidade às margens do T ibre. M as logo
ameaça à d inastia). Ma~ o deus Marte os im1ios brigaram, Remo foi mono e
violentou Réia Sílvia e esta deu à luz a nova cidade foi nomead a Roma, em
dois gt~mcos, Rômulo e Remo. Como homenagem a seu rei, Rómulo.
punição por violar os
votos, Réia Sílvia foi
enterrada viva e as
crianç<~s, co ndenadas
a serem afogadas no
ri o Tihrc.

RESGATE E REVOLTA
Por sone, o deus do rio \n u os
e providenciou que fossem encontrado~
c amamentados por uma loba, qul'
cuidou deles até serem cncontn1dos 11or
Fáustu lo, um pastor, que os '
acolheu com a esposa,
Aca Larência.já adulLOs,
Mane revelou aos gê meos
a idenúdadc de seus pais
ve rdadeiros. Rômulu e
A loba era consagrada a Marte, o ver·
dadeiro pai de Rômulo e Remo, e diz-se que
o deus a enviou para socorrê-los.
O MlJN UO CLÁSS IC O

O RAPTO DAS SAB INAS


IJl Rapto t· vingan\a 116 Lívio, flt~llmt! iÚ Roma; O vidio, I-ILt/.tJI
1-'1 Roma 1\nti~a
m Roma
o, únim, habitanu.·s da nm·a ridade de RAPTO EM MASSA
Ro ma t'ram os seguidor<"• d t· No inído do festival, qu ando os
Rô mu lc>, todo; ho m em•. jngos deve riam conwça r, os
Um dia, Rômu lo rom anos sacara m suas armas
anunriou q ue organizar·i,t t•sw nclid as. Ameaçando o~
um gra ndr lcstival em s:tbinos de m orte, raptaram
honra a :'IJt•tuno. l n\i~tiu todas as jovens m ulhrrr'
q ut· o' 'abino\ homens e sab inas presentes. Em
mulhert'> das cidades r<' ta liação, os ;abinos
vizinh as los,cm drcla ra ra rn g uerra a Ro ma, r
convidados. O anos dr luta se segui ram. !\
ll';lival e ra, na g-ue rra só te rm ino u qu ando as
wrdadt•, uma sabinas, agora ca~aclas cum
armadilha para ro m a nos, intt.'f'('Cd cram .
raptar ,,, -;;tbinas e t\ tirando-sr (com os proprios
as:,im dat· inkio à raça filho~ • .,egundo alguns ent re os
romana. doi~ lad os em I{IWrra , <h
mulhe res pedira m o fim
da luta.
A um dado sinal, os jovens romanos
dominaram os pais e irmãos das
jovens sablnas.

A VIRTUDE DE LU CRÉC IA
IIJ Luxúri.o trágica 6 l.ivio, 1/isMrio dt R 1111111:
J:U Rrm t.l /\ ntig-a O vid io. FasioJ
m Rom.o

Lon~e da cidade, numa l{unra. o,., "l".trquiniu, lbi tomado de de!>ejo pela
gcnenti, de Roma, num momemo de mullwr. [,igiu fàzer sexo wm da,
ódo durante um lo ngo cerco, começa- di1.rndo que, ~ ela não cedes~, ele não
ram <1 convt•r,a r sobre as espm;l'., <· ~obre só a m ataria, mas também a envergonha-
qual seria a ma is vinuo.~a. Dcddi ra m ria, m ata ndo um escravo e colorando-o
voltar para Ro ma a cavalo l ' descobri r o na ran oa junto a ela para humilh{t-la.
qut' as e~posas faziam. ficaram Lucr(·cia -,e ~ubmetcu au e~lupro, mas
chocado' ao wrificar que da., bd>iarn e emi ou uma mensagem ao marido
dt•itavam--,e com os hornc:n' remarw,. Col,túno nmtando o que acontet era.
l 'l'llll'" na cidade - todas. exn:w uma: Elt- c·orr\'u p.1ra casa, m as, por mai-, q ue
Lur rrcia, esposa de Colatino. tentasse con\'encê-la d r que ela nada
l.uc'J-éria permanecia em r:-.sa, fizr ra d r mau, ela não con.c·g ui:t mais
bnrdando e tc·cendo calmaJl lC 'lllC'. Vl'ndo viver. Pc•gando uma faca or ulta sob seu
i5to, urn \oldado romano. S<·,to vestido, Lucrrcia ~uitidou-se.
86 O MUNDO C LÁSS ICO

VESTA E SEU PROTETOR


CO Vimtde pm~ervada t/6 Ovíclio, }nsto>
fl1 Roma Antis-a
ffi Montr Ida, pcrLo de Tróia (ocstt• da Tu rquia)

Uma d as divindades rom a11as m a is populares era PERSONAGENS -CHAVE


Ve,~ ta,
a deusa do fogo e da lareira, co rrespondente
CIBELE • mãe dos deuses
à grega H és tia. A lm·cira era o centro da vida VESTA • deusa da lareira
romana e, porta nto, VesLa era uma elas divindades PRIAPO • deus da
mais importantes. Dife rentemente das d eusas fertilidade
SILENO • um sátira
clássicas, e la era virgem e resguardava a virtude
com afinco. Uma hisLória narra com o sua famosa
cas6dade quase foi com prometid a pelo deus
Pria po .

ENREDO
FESTA DE CIBELE A VOLÚPIA DE PRIAPO
A grande dew;a Cibele (p.94) convidou Caminhando pela multidão, o deus
todos os imon ais pa ra uma fesLa. Havia ela lcrti liclade Priapo avisLOu Vesta
comida em abundânc ia e lodos se d ivcr- ador mecida. Tomado pelo dest:jo,
tjam. :Muitos convidados se cmbcbeda- aproximou-se corn a intenção de tirar-
ram, inclusive o velho sátiro Sileno, que lhe a castidade. J;í prestes a tocá-la. o
apan·cera sem St' r comidado. Com o burro de Sileno, que estava p róximo.
passar da noite, a celebração foi ficando zurrou bem pen o do ouvido ele Vesla.
mais silenciosa, c vários convid ados, Ela acordou, o~ outrO$ deuses
exaustos elas festividades, caíram no acorrera m c Priapo fugiu cm·ergonha-
sono. Vcsta foi uma delas. clo. A vinudr de Vesta hm·ia sido salva.

Os romanos ador(lv<tm Vesta em seus lares,


mas havia também um templo do Estado para
ela - uma (Onstrução circular no coração de
Roma, para lembrar o povo das primeiras
cabanas dos primórdios da cidade. No
templo, tanto a deusa como o poder eterno
de Roma eram representados pela chama
man tida sempre acesa por jovens e castas
sacerdotisas conhecidas como Vestais. Essas
mulheres viviam em casas perto do templo e
serviam-no por 30 anos. Depois podiam
retomar uma vida normal. Eram vistas como
pessoas sagradas e, se falhassem na
castidade, eram confinadas numa câmara
subterrânea, onde morriam de inanição.

As virgens vestais eram supervisionadas por um


sumo s~eerdote. o Pontifex Maximus. Tinham
direitos c.ivis não concedidos a outras mulheres
romanas, como voto e propriedade privada.
O MUt\00 CLrÍ.SSICO

LARE S E SEUS CÃES


m ProtClOfC> da humanidade' s6 Ovídio, F"a.JUJs;
llJ Roma r\nti~t i\ lacróbio, $(1/Umd/ia
!D: Roma

Os romanos ac reditavam que todas as


casa~ eram protegidas pelos Lares,
deuses gi'meos que guardavam
também as encruzilhadas.
Os L.c'lres eram filhos de
Mrrcútio, mensageiro dos
deuses. e Nfania. de LL~a da
loucura. Com li·eqliência,
tomavam emprestados os cães de
Diana, a deusa da caça, c com
eles cspamav<Ull ladrões e ou tros
malfeitores. A maimia dos
romanos adorava os Lares,
montando um a ltar para eles em
suas rasa~ e esperando assegurar
a sua prolt'çào.

Um oratório domésti co dedicado aos


dois lares. deuses guardiães sempre
represen tados com chifres e copos
nas mãos.

A VINDA DE PENATES
m Proteção da hurnáuidadc 6 Virgílio, Eneida;
llJ R oma Antig-<~ Cícero, Sobu a nohue::.a dos dcustJ
!!! Roma

Q uando o herói Enéias, fundador ck Tnldic:iom, lmcme. os Pcnatcs nam


Roma, ch('gou à lt;üia após a Gurrra dr represrmados nos templos t'
Tróia i,p.BOL trouxe consigo dois deuses santuários sob a forma de dois jowns
conhecidos como Penales. Estes deuses sentados. Associados a Vcsta, deusa
haviam se estabelecido inicialmente na da lareira (jJ.86). também eram
cidade dt Alba Longa, onde Euéia<> considerados prote tores das la1'eiras e
prinwim se lixou depois da g1.1 rrra. e de das casas.
lá vi~jaram com ele até Roma. Eram Pelo nome relacionado à palavra
vistos como protetores da cidade desde latina pt:nus (que significa '·comida" ou
épocas n:mota.-;. "provisões"), os l'enates tornanun-se
Trmpos depois, os romanos deuses da nl('sa, e alimentos rmm-lhcs
construíram um trmplo nacional para oferecidos ao início de cada releição
os Penates no Fórum. Cultuavrun-nos para assegurar uma despensa ~cmpre
também em altares uos p róprios lalTS. I )('tn suprida.

-------- ------------~-------------------
88 O MUNDO CLASSICO

A SIBILA DE CUMAS
lll Dc;~jo e vingança i:> Pctrônio, Saliriam;
!:ti Grécia c Roma Anti):(as Vir),rilio, EneiJ/.11
ar Cuma.~, Itália

N; sibilas eram profetisas co m vários a ltares no PERSONAGENS·CHAVE


mundo grego e romano. Em estado de 1.ranse, elas
A SIBILA DECUMAS •
enút.iam sons inarticuJados, "traduzidos" a seguir uma profetisa
pelos sacerdotes em profecias. Para os romanos, a TARQU[NIO • último rei de
mais famosa dentre as profetisas foi a S ibila de Roma
APOLO • deus do Sol e das
Cumas, que habitava uma caverna perto de artes
Nápoles. Famosa por sua astúcia, ela no en tanto
falhou ao solicitar vida longa ao deus Apolo, sem
pedir-lhe também a juventude eterna.

ENREDO
A ESPERTA SIBILA O DESEJO OE APOLO
A Sibila de Cumas registrara as suas pro- Apolo ofereceu à bda Sibila qualquer
Jecia~ em nove livros, que quis vender ao presenLc em mxa de uma noi1e de amor.
rei Tarquínio de Roma. Quando ele relu- Ela pediu ramos anos de vida quanw os
tou o pn:ço, ela queimou três e ofereceu- grãos de areia que conseguisse segurar.
lhe os últimos seis livros pelo pn'ço Apolo concedeu-l he o dcs<;jo, ma~, em
original. Ele recusou novamente c ela seguida, ela o rejeitou. Então, de a fez
queimou mais u·ês, ma~ ainda manteve o envel hecer rapidamente. Em poucos anos
mesmo prcço. Tarquínio acabou ela encolheu até ficar tão seca quanto uma
comprando os últimos o·ês volumes pdo cjgarra, c logo estava tão peq uena que foi
preço original de todos os nove livros. Eles colocada num jarro ou, de acordo com
foram destruídos quando o Capitólio ele algumas versões do mito, mmm gaiola
Roma foi incendiado, em 83 a.C. na parede da caverna em qut' vivia.
A caverna da Sibila ncava perto
do lago Averno. e crla·se ser a
entrada do Mundo Subterrân~o
O ~IUNDO CLASSICO

CASTOR E PÓLUX
[I) Feitos heróico:; lb Apolônio de Roclt>s,
lU Grrda c Roma Amigas A~~11áutica
ID Mt;;sênia, Roma

Castor e Pólux eram os do is filhos de Zcus, rei dos PERSONAGENS -CHAVE


deuses, com a mortal Lcda (p.43). Eles eram
CASTOR E PÓLUX • filhos de
conhecidos como os Dióscuros (do grego dios kouroi, Zeus e da mortal Leda
filhos de Zcus) e venerados pelos romanos. Essa (p.43)
dupla de heróis vive u suas mais famosas aventuras IDAS E LINCEU • Argonautas
gêmeos, filhos de A{areu e
quando embarcou comJ asão na viagem dos Arene
Argonautas. No culto romano, po rém , foi a morte
que lhes conferiu um poder maior.

OS GÊMEOS BRIGUENTOS concedeu imortalidade a Pólux para


Os gêmeos Castor c Pólux eram que ele pudesse viver no Olimpo com os
lamosos por se meterem em encrenca. deuses, mas Póhu' recusou, prefelindo
Quando paniram com J asão na viagem morrer pard estar com o amado irmão.
pa ra encontrar o Velocino de Ouro Os deuses chegaram a um acordo: a
(jJ.76'-7), já 1jnham um longo histó•;co dupla pa.o;saria días alternados no ct:u e
de rivalidade com ou1 m par de gêmeos no Mundo Subterrâneo.
dentre os Argonauta~. Idas e Linccu.
Por causa da •·i validade, eles
raptaram duas jovens que estavam
prometidas a Idas e Linccu, filhas de
Leucipo, governador de i\ll essênia,
conhecida~ como as Leucipides. Devido
ao rapto, as duas d uplas de gêmeos
brigaram e Castor Joi mono. Zeus
As ruínas do templ o de Caslor e Pólux. construídas
por volla de 484 a.C., ainda podem ser vistas no Vale
dos Templos. na Sicnia .

O FOGO-DE·SANTELMO
Os romanos criam que uma das obrigações
dos Diõscuros era cuidar dos que estavam
perdidos no mar. Dizia-se que eles envia·
vam luzes para orientar os marinheiros,
o que levava o povo a pensar que a centelha
do fogo·de·santelmo (na verdade, resultado
de atividade elétrica na atmosfera) era
obra dos gêmeos. Mas as luzes nem sempre
eram inteiramente confiáveis- em parte
porque, diziam, a irmã de Castor e Pólux,
Helena, enviava luzes rivais para confundir
e desorientar os marinheiros.
90 O ~!L'NDO CLÁSSICO

OS ETRUSCOS E SEUS MITOS


Os etruscos eram os habitantes aborígines do centro da Itália, e sua
cultura {()i o berço da civilização romana. Com freqüência isto é
menosprezado, pois os romanos enfatizavam sua herança latina, sua
origem troiana e raízes helênicas. D epois q ue os romanos saquear am
a cidade etrusca de Veios em 396 a.C., os etruscos roram incorpora-
dos à república de Roma e ~ua culLura tornou-se quase invisível.

UMA TRfADE REGENTE c.omcçou a cntmtr douuinas


Os etn1scos acrcdila,·am sagradas. Seu nome era
em \'á1ios dcusc·s. Sua Tarques ou Targes.
triadc rcgcmc COI~Sis­ Assim q ur st-us ensi-
ria em Ti1úa, o rei namf'ntos foram
dos céus: Uni. sua ap rendidos pelos
esposa. deusa do rcis-saccrdolcs,
cosmo; e i\1incrva, Tarques morreu.
deusa da sabedoria e Reunidos na Disciplina
da guerra, que nascera etnlSca, css<'s cnsinamcn-
da cabeça de Tinia. Deuses alados etruscos combatem los inst•uíam 0 povo
Em Roma, essa triade uma harpia nesta vasilha das tumbas sobre o desejo dos
se tTans!ormou nos de Cere (hoje a cidade de Cerveterl). deuses, sobre como
deuses do Capitólio:JúpiLet; j uno e p•-ediz<'r o futuro a partir das entra-
.Mincrva. n has de um anima l sac1ilicado. o sig-
Um dos poucos mitos etruscos nilicado de raios e trovões c flS regras
sobrcvivt'mes menciona uma. crian- ao se fu ndar cidades. Os roma nos
ça com cobras no lugar de pernas adotara m-nos qwmdo se ap ropri<t-
CJIH:' ~urt,riu do sulco de um arado e ram da cultura l'trusca.
O l\ ICN DO C: LASS JCO 91

TUMBAS PINTADAS
1\.s tumbas \truscas \ram suntuosa-
Um deus de suprema importância
mente mobiliadas c de\oradas rom
para os etruscos era Voltum na, o deus
um a iconografia mist\riosa. Pcx., a da terra. Ele era pa trono da raça
Tumba dos Touros em Tarquí- etrusca e, po rtanto, também deus da
nios mostra três nÍv\is: o guerra e da proteção. Seu tem plo era
a sede da Federação Etrusca,
mundo dos dr uscs, o mundo
composta de 12 cidades, local das
dos humanos c o assembléias políticas anuais. Em
mundo dos monos - Roma, Voltumna se tornou
com uma á rvore Ve rtumno, deus das
mudanças de estações.
da vida c urna árvore da
O centro do culto a Voltumna era
mo1tc. Com freqüência,
a antiga cidade etrusca de Votsíníos,
as tumbas mostravam que ficava perto ou em Orvieto. na Itália.
uma porta pela qual a
a lma do mon o deve1·ia mostravam os monos
passar ao mundo seguinte, restabelecidos ao vigor da vida e
g uiada por Turms, o mensa- da saúde. No cmanto, nas
geiro dos deuses. pinturas há també m dt>mônios
horrl\'eis ronurando as almas dos
VIDA APÓS A MORTE mortos. Um deles, Tuchu lca,
Os etruscos acredita\'am na alado, com o rosro d e ave de
vida eterna no outro mundo rapina e o re lha.~ de hurro, segura
e I'Speravam desfrutá-la por meio de uma scrpcm r nas mãos. Os
oferendas e sacrificios aos deuses. so bera nos do i\1tmdo Subterrâneo
Repn•s(•ntações nas tumbas etrusco eram i\ita e Pcrsipnei
\emp restados do grego Hadcs c
Uma pintura da Tumba do Barão, em Tarquínios,
Itália, evoca um casal que caminha rumo a uma Pcrséfonel. r os gtlarcliõt"s çram
figura feminina, possivelmente uma sacerdotisa. l\fanms f" }.lan ia.
92 O MUNDO C LÁSS ICO

O RAPTO DE FLORA
CD Amores dos deuses 16 Ovídio, f11si1Js
fU Roma Antiga
m Campos c campinas

Flora, a deusa romana das Aores e


da frrtilidade {que os gregos
chamavam de Chloris), era
uma demre as várias
divindades agrícolas rom<u1as.
Originalmente, ela era uma
linda n in f~a das campinas de
um lugar edênico, onde todos
viviam em plena felicidade. Um dia,
Favônio (o g rego Zéfiro), o
impetuoso deus do vento oeste, a Casaram-se e
viu. O deus apaixonou-se c, viveram muito
acos tumado a saúsfazcr todas as suas frlizes. Ela reinava
vontades, perseguiu F lora c a raptou. sobre as Aores, ajudando-as a
O inriclcnte, todavia, acabou bem, desabrochar e depois a se transformar
pois a ninfa encantou-se com o deus. em li·utos.

O PAR ERRADO
CD Anlores elos deul\\'S 6 Ovídio, fàrlos
fU Roma A.Jujg;~
m t.:ma caverna no ca111po

Fauno, o deus romano da LOGRADO


ferúlidade, e ra um rei, qu e foi Fauno esgurirou-sc at~ o
imortalizado depo is d(' morrer. casal e deitou na cama ao
Era c-onsiderado o protetor de lado do vulto com os trnjes
pastores e rebanhos. de Ónfale. Teve então uma
Um dia, Fauno estava surpresa desagradável ao descobrir
nos campos quando viu sob as rou pas de Ónfale um peito
Hércules - ou H éraclcs, peludo: o casal trocara de roupa.
em sua encarnação grega Humilhado e constrangido, Fauno
(p.58-61) com a amante saiu silenciosamente. Mas a panjr
Ónfale. Ele se apaixonou pela de então a boliu o uso de roupas -
bela Ónfalc e decidiu segui-los c preferiu, dizia-se, que os devotos
até uma cavC'rna , onde o casal se o adorassem nus.
deitou numa cama e
adormeceu.

O deus romano Fauno tinha


muitos atributos de Pà. o deus
grego dos campos. inclusive os
chifres e os cascos.
O MUNDO CLÁSSICO 93

POMONA E VERTUMNO
m Amllrcs dos déuscs
lll Roma Antiga
m None da h.\lia

Pomona era uma ninlà do Lác io com


grande habilidade no cultivo de á rvores
frutíferas, e assim tornou-se a ckusa
responsável pelas colheitas de fru tas.
Com freqüência, era vista poriando
uma tesoura de poda entre as árvores,
que estavam sempre bem-cuidadas c
repletas ele maçãs e peras. Muitos
deuses a perseguiam , mas nenhum
mais que Verwmno, o deus da
muda nça de estações.
Vert umno adotou muitos dislarces
para cortejá-la. Apareceu-lhe corno
ceifàdor, dono de vin hedo, pescador c
soldado, mas ela o rcjeimu. Sequer o
ouviu CJuando d e ve io disf~11·çado de
uma velha senh ora a descrever as
atTações do amor conjugal. Finalmente,
Vertumno apareceu sem disfarces c,
Pomona, deusa das frutas, com o deus Vertumno.
quando Pomona viu como era belo, feliz por ser enfim aceito como seu amante, ele
apaixonou-se por ele. trança seus cabelos.

A MORTE DE BONA DEA


CD Transgressão c punição 16 Plutarcu. A uida de César
lll Roma Antiga
m Roma

Havia uma deusa romana Cltio nome nenhum homem era aceito. No tempo
era ignorado, srndo conhec-ida apenas de Jú lio CéSélr, um hom em chamado
como Bona Dea, que significa a "Boa Cláudio parliripou dos ritu ais
Deusa". Uns dizem que ela se chan1ava disfarçado de mulhrr para se cncomrar
Fauna e era lilha de Fauno, outros com a esposa de César, Pompéia. Foi
asseguram qu(' ela era ~~sposa de Fauno. descoberto, e houve um enorme
Um dia, ela bebeu tanto vinho que escândalo quando se sou be que o
Fauno lhe bateu sem piedade com segredo dos ritos de Bona Oea havia
galhos de murta, matando-a por fim. sido revelado.
Depois de sua morte, ela foi Diz-se que o herói H ércules brbru
reverenciada como uma de usa do povo do rio junto ao templo de Bona Dea e
romano, I' um templo foi construído <]llt o seco u, tendo então prometido
em sua honra em Ro ma. Seus ritos construir seu próprio templo, a se r
eram celebrados apenas por mulheres visitado apenas por homens.
94 O NIU:\DO CLASSICO

OS MITOS DA GRANDE-MÃE
!Il Fcrtiliclaclc; vingm\(,-a: Ílllt'J'\'Cllçà(• divina 1!6 Ovídio, 10sto.r e Meitmun:foses; R..Turcau,
lll Anatólia: Roma .\ nti.~a 71tt CufJs qf lhe Ruman Empircr, TC.\ \'orsf<Jkt,
!Ir Anatólia; Be6cia; Grécia; Roma Ilistory qf l/te Vestal Virgiru q/ R11111"

Cibele era a deusa da ferLi.lidade e mãe d e todos os PERSONAGE NS-CH AVE


seres vivos da Anatólia, c~jo culto se espalhou da
CIBELE • a Grande-mãe
Grécia até Ro ma . Os romanos a chamavam de ÁTIS • o esposo de Cíbele
~lagna M a te•; a Grande-Mãe. Virgílio e Ovídio a SAGARÍTIS • uma dríado
chamaram d<' .\llãe dos D euses. Em 204 a.C., a ATALANTA • uma corredora
campeã e famosa caçadora
pedra preta sagrada que representava a deusa foi
HIPÕMENES • marido de
levada para Roma, de acordo com a profecia elos Ata/anta
livros da Sibila (p.88), e um tem plo para Cibele foi
erigido no mont<: Pa la úno .

ENREDO
UMA D EUSA TRAI DA
Um bdo jovem li·ígio da~ florestas
chamado Ads tinha um coração
tão puro que conquistou o amor
de Cibele. Ela o quclia para
guardião de seu tt·m plo e pediu·
lhe que permanecesse:· virgem. Ele
concordou, mas quebrou ~~
promessa ao seduzir a dríada
(ninfa dos bosques) Sagmítis.
Furiosa, Cibele con ou a árYorc da
d.IÍad;s, matan do-a,(' eulouqurrcu
Átis. ~um acesso de culpa, ele
conou as própiÍas genitais por Depois de se castrar, Átis voltou a servir Cibele. ~
isso, os sacerdotrs de Cibele tam hrm sr comum objetos antigos que o mostram conduzindo-a
castravam. Após morTcr: Átis rt'nasceu na em sua carruagem, segurando um cajado de pastor.
forma ele um pinheiro. Tibre para saudar a deusa. Ao t ntra r
na pan e rasa do ri o, o barco ('ncalhou.
INSULTO AO S DEUSES C ma das Vrstais, chamada Claudia
A caçadora Atalanta e o mar·ido Quinta, acusada de ter quebrado seus
Hipômcnes buscaram refú&rio numa votos, adiantou-se e suplicou a Cibele
çaverna sagrada junto a um tem plo de UJ11 a prova de sua inocência.
Cibele e li se amanull , desonrando o Claudia QuinLa dcsarou a del icada
santuário. As imagens dos deuses desvia- faixa de sua cintura, prendeu-a à corda
ram o olhar c a cnraivecida Cibde trans- ele reboque e puxou-a le-vemente. Para
formou os amantes em leões, que emito surpresa de todos, o barco se soltou da
amansou e an-dou à sua carn1agem. lama, e Claudia arTa~tou a dru~a até a
cidade sem auxílio. elim inando
REDEN ÇÃO DA V IRGEM qualq uer dú,·ida sobn · a sua inocência.
Quando a pedra sagrada ele Cibele foi
lrvacla a Roma, toda a cidade, inclusive
as Vestais. foram até a nascente elo MITOS RELACIONAOOS • A súplica de lnana (p.148)
O ~ I U"' DO C:L.\SSI CO 95

O MATADOR DE TOUROS
ID Frnilidadc· !6 Robc.'rl 'furr.m, fh, Otlh '!/ thr Rrmum Emprrr..
IV Pí•n.a<t, Rnm~ .\ n1iga rr.uat. Cuancual. I ltt .11>>1mt> <>( ,\filkriJ.J: Da,1d L l.tahl '),
m o co,mo 1l!e Or(I;Ín• oftlu MitJ1111it ·' b •li7ÍC.•

t. litra era o deu~ da luz, do Sol e da gtwrm du~ PERSONAGENS-CHAVE


pcr~a~ anlÍ~os. J;c>i adotado pelos romanos com o
MITRAS • o deus romano
1\ fitr..a>. l' tornou->e loco d e um culto exdu~i' .amentc conhecido como o Sol
masculino ele 1\ J i,u~rio:-., com promess.'\ ck ,·ida ap{h Invicto
a m011l'. cuío:o. p1incipais adepws ermn o' ~oldados UM TOURO

romano~. El<· t'ra adorado em templos subtcrr.ineth,


os ;\ lithr.ae,\. Como os iniciados juravam st•~trrdo.
sabemos ap<·ml\ que J\ li tras matou um l0Ut1> num
ato l>imbólicu de· mor1e e renova<;ão.

UMA HISTÓRIA INSCRITA EM PEDRA


O mito a H'guir í: um a leitura de
desenhos eslttlpidus t'm Mi thraea. A Elagabal (deus da montanha) era um deus
slrio. O sumo sacerdote de seu templo era
criaç:i.o t'\l.t\'<l ameaçada por uma ~eca
um adolescente chamado Bassiano, que
provocada pela, fi.•rç<ts do mal. Um foi declarado imperador de Roma em 218
no\ o dt•us, ~l itr<l~. su~u das rochas d.C. Ele se recusou a deixar de servir seu
para <L»,umi r o nmtrole do cosmo. Lle deus e. assim, seus ajudantes trouxeram
disparou uma lled\a e li.-z ;urgir uma a pedra negra de Bagabal para Roma, e
font<' para mitigar a ;ede do mundo. Bassiano decretou que o deus, agora
Então. JWgou um LOuro, que absorwra rebatizado como Deus Sollnvictus (deus-
toda a umidadr dn l .mt, e o sacrificou. Sol lnvencíveO, deveria ser evocado antes
de qualquer outro. Também instituiu uma
Vá rios a ni ma is r plantas f(,.a m
nova tl'lade, que consistia em Elagabal e
reavivadm p01 sru ,;:anguc. duas involuntárias esposas.
Atená e Tanit, a deusa-Lua
SACRIFICIO ASTRAL de cartago. Os roma ·
:'\a astrologi.t, M itras era o nos, horrorizados com
regente do ('O,mo.• \ consaelaçào essa tentativa de usur·
de Pel'>t·u/:O. Iitras brande a pação de seus outros
deuses, vingaram-se
e;pada 'obre a dr Touro, c a
apelidando o impera-
matança do 10uro recncena o dor rejeitado de "vilão
m o menlO em q ue To uro se põe do Sol".
no Ü l'Stl' pd a íaltima vez antes do O imperador romano Basslano,
equinócio de primawríl mover-se do soklll, era mais conhecido
de Touro p<cra .\rics, rcvrtando a como Heliogábalo ou Elagáb,llo.
exist~nria de um deu~ tão podero-
so, c.tpa/ dt• mudar o cosmo de seu
próprio dxo t' iniciar uma ftOII!8
EUROPA

rAl MITOLOClA PRIM1TlVA da Europa está quase totalmente perdida


l.ru para nós; não sabemos os nomes dos deuses e tampouco suas
histórias. No entanto, há evidências arqueológicas que nos permitem
explorá-la: símbolos esculpidos nas rochas, tesouros enterrados em
tumbas ou oferecidos aos deuses em locais sagrados e pinturas nas
paredes de profundas cavernas subterrâneas.

A I DADE DO GElO Gelo, de cuj os ritos mágicos dependiam


A~ pinturas em cavernas do povo o sucesso na caça. Disfarçado de animais
paleolítico da Idade do Gelo, c.38.000 a como um bisão ou um a cabra, o xamã
8.000 a.C., mostram tipicam ente cenas usava a dança e a música para estabele-
de caça com animais como bisões, cer uma conexão mágica com os animais
cervos e cavalos. As imagens de figuras a serem caçados, que geralm ente são
humanas, como a do famoso " feiticei- representados sendo atingidos po r
ro", esculpida nas paredes de Trois- flechas ou lanças mágicas.
Freres, no sul da França, ge ralmeme Os entalhes na pedra de mulJ1eres
mostram características animais como com curvas exageradas estão relaciona-
chifres c caudas. Essas figuras meio- dos à mágica da fertilidade e podem
humanas, meio-animais quase com represe ntar ta nto grávidas quanto
certeza representam xamãs da Idade do deusas da fertilidade ou da abundância.
U ma dessas figurc1s, datada aprox. de
25.000 a .C., foi entalhada em pedra em
A imagem da carruagem do Sol data do Lausse~ na Dordognc francesa (jJ. 99,
séc.XIV a.C. Foi encontrada num charco dre- topo). Ela é denominada "Vênus com o
nado em Trundholm, Dinamarca, e acredita- chifre", porque está representada
se que represente o deus-sol cruzando o segurando um chifre de bisão, que
céu numa carruagem com rodas puxada por
talve?: seja uma cornucópia primiúva ou
um cavalo de bronze. Objetos de culto como
esse parecem mostrar uma nova veneração
"corno da abundância".
pelo Sol, talvez porque represente o fogo,
necessário para o trabalho com o metal. A IDADE DA PEDRA
Um lado do disco do Sol está coberto por A partir de 7.000 a.C., depois do fim da
uma lâmina de ouro, provavelmente repre- Idade do Gelo, os europeus ncolíúcos
sentando-o durante o dia; o outro lado é de acrescentaram novos elementos aos seu!>
bronze e seria o Sol à l)oite. O deus·sol
mitos e riLUais para refletir a crescente
Hélio cruzava o céu numa carruagem
exatamente como essa, puxada
importância da agricultura ao lado da
por quatro cavalos. caça e da coll1eita. Eles esculpiam
imagens de deuses em pedra, ma~
começaram também a moldá-
las em argila. Suas figuras
geralmente têm caractetisri-
cas de animais ou pássaros
além das humai)a~, e às
vczc-~ usam máscaras. Uma
estátua ele barro encomrada
em Szegvár, H ungria,
datada de c.5.000 a.C.,
mostra um hornem
scntadó usando uma
máscara achatada çom
99

uma (oice na mão direita. A IDADE DO BRONZE


Este deus pode ser um a nces- Na Idade do Bronze houve
tral do deus grego Cronos. um grande desenvolvimen-
Mu ita~ ou tras figuras to da civilização humana,
moslram urna divindade a partir de c.2.500 a.C.
feminina, às vezes com Foram inventadas armas e
características de pássaro ferramenta~ de bronze e
ou de cobra. Essa deusa, houve um enorme avanço
geralmente enfeitada por na cultura, com a invenç.ão
desenhos de espirais que da escrita e da roda. E,.__,e
sugerem chuva, pode ser é o período das grandes
a deusa da água c do ar. culturas pré-helênic:.as das
Também pode ter sido Cidades c da Creta de
ado rada como a Grand<'- Minos. A deusa-pá'\Sat'Q da
Mãc, pois há llguras em A Vênus de Laussel porta um Idade da Pedra c os rituais
terracota dela segurando chifre com 13 listras, representao· de caça da Idade do Ge.lo
do os 13 meses lunares do ano.
uma criança. Uma outra ainda têm lugru; mas a
forma de deusa neolítica é a da abelha, adoração a um poderoso deus masculino
em geral associada a wn touro. Os celeste crescia em importância. Esse
gregos a ntigos acreditavam que as novo deus dominaria as mitologias
abelhas nasciam do corpo de um Louro emergentes dos gregos, romanos,
morto, e pode ser que os europeus da escandinavos e celtaS.
Idade da Pedra tivessem a mesma idéia.
Cerlamente a imagem da deusa-abelha Pintura prê-hist6rlca de touro e cavalo na caverna
de Lascau)(, França, encontrada por quatro adotes·
parece estar associada a idéias de centes em 1940. Esta é uma das 6oo pinturas e 1.500
renascimento c regeneração. gravações feitas em cavernas há mais de 16 mil anos.
100 EUROPA

O PODEROSO DAGHDA
!II Herói mágico 6 Elizabeth 1\.Gray, CatJ1 Maigt 7í1Ír(d, 71u Serond Balllt
~ 1!'!anda antiga qf Afag Tuimi; R.A.S. Ma<'Aliste r e Eoin NfarNeill,
m I rlanda /.Lahhar Gal;hal<e The Book qf Conquestr qflreland

Os m itos irlandeses fa.lam d e uma série de invasões PERSONAGENS-CHAVE


ao p aís, todas resulta ndo em novos gover nantes. A
TUATHA Ot OANAAN •
quinta dessas invasões IJ"Ouxe à I rlan<i.1. os tuatha dé povo hábil em mágico e nos
danaans, um povo semelha n te aos deuses, eximio artes ocultas
nas artes mágicas. Seu re i foi D aghda, ctúo nom e DAGHDA • o bom deus, líder
dos tuotho dé danaans
significa "o bom deus". D izia-se que ele er--.1. muito
MORRIGAN • o deusa da
sábio, mas também uma figura cômica, cuja guerra e do fertilidade
lúnica mal cobria o traseiro c c ~jas aventu ras
trouxeram sorrisos e sucesso a seu povo.

O CALDEIRÃO E A CLAVA os tuatl1a dé dan.amJS na próxima batalha c


Daghda era famoso por seus dois bens dar-U1es sua proteção eterna .
mais preciosos: um caldeirão e uma
clava enormes. O c.:"llcleirão A REFEIÇÃO PODEROSA
era tão imenso que Os tuatha dé danaans foram
parecia não ter lundo forç.ados a lutar wntra
- dizia-se que ninguém os ti v-ais, os fomorianos,
saía faminto quando a pelo poder da Irlanda.
refeição era servida Concordaram com a
nele. A clava era data para a bataU1a, mas
igualmente mágica. Uma os p1imciros perceberam
extremidade matava que não estatiam prontos, e
qualquer um atingido por por isso enviaram Daghda
O caldeirão Gundestrupp,
ela, e no campo de batalha do sêc.ll a.c.. representa até o c.-1.mpo fornoriano para
os ossos dos inimigos caíam vã rias divindades celtas. combinar uma trég1.1a. Os
inclusive Oaghda.
como pedras de granizo fomorianos aceitaram e para
quando Daghda a man~j aV"dj o outro comemora r prepararam uma refeição
extremo tinha o efeito conrrário, para D aghda. Eles sabiam que D aghda
podendo até ressuscitar mortos. adorava mingau c, para zombar dele,
fizeram o suficiente para alimenta r um
O ENCONTRO DE DAGHDA COM e.xército - enchendo tml buraco enorme
MORRIGAN no chão - e o ameaçaram de morte caso
Na festa de Samha.in (Halloween), ele não conseguisse dar conta de tudo.
Oaghda caminhava à m.argcm do 1io Daghda tomou a sua concha (que era
Unius em Connaught quando enconiTou "grande o suficiente para um homem e
uma muU1er banhando-se. Era Mortigan, uma mulher se deitarem nela") e
a deusa da guerra, que podia se transfor- começou a comer o mingau. Quando
mar em corvo c tinha o hábiw de assom- termi nou, raspou o fw1do da tigela antes
brar os campos de batallia, mudando o de cair no sono, com os fomorianos
resultado do combate com sua presença rindo ao redor dele.
assustadora. Daghda e Morrigan fizeram
amor perto do rio c da prometeu apoiar MITOS RELACIONADOS • rei Artur (p.uo)
EUROPA 101

ANGUS, FILHO DE DAGHDA


llJ Amores dos deuses 6 Anôn.imo, O lwro mnarelo tk ú can, Lwro dt Leinslfr
ltl I ri anda amiga
m Irlanda

O d eus do a m o r An gus e ra filho de D aghda c PERSONAGENS-CH AV E


Boann (esp írito do rio .Boyne). Como .Boann já
ANGUS • deus do amor,
e ra casad a, os amantes qui seram esconder a filho de Daghda
gravide:t, c assim D agh da le z o Sol parar, e a MIDHIR • um deus
c riança nasce u n o mesmo d ia em que fo i concebi- ETAI • amado de Midhir
da. Talvez seja por isso qu e ele é conhecido como DIARMUIO • tenente do
líder militar Finn
Angus mac ó,,'·o jove m 111ho". Qua ndo cresce u, GRÁINNE • noivo de Finn
ficou famoso por •\iudar quem e nfrentava CAER • amada de Angus
ohstárulos na vida a morosa.

ENREDO

ANGUS E AS AMANTES
O deus Midhir linha uma esposa .....lfC~#à::::::::=;~:_::.,..
chamada Fuamnarh, mas apa ixo-
nou-se por uma mulher chamada Etai.
Quando Fuanmarh sou br disso,
transformou a rival em borboleta.
Depois de muitos anos Etai renasceu
como urna menina, mas esq ueceu-se de
Midhir e não qu is vol tar para ele. AngtL~ ANGUS APAIXONADO
concordo u etn persuadi-la em nome de AngtL~ viu sua amada pda primeira vez
Midhir c o casal se rcc:onciliou. num sonho, soube que o nome dela era
Ele também ajl1dou a reunir Cae r Ibormeith c q ue era capaz de
Dia rmuid, tenente do grande líde r tornar a forma de um cisne. D escobriu
Finn, c CráLnne, prometida de Finn. q ue a única maneira ele se aproximar
Gráinne lez um fei tiço rara que de Caer era quando da estava sob essa
Diamlllid se apaixonasse por ela e os forma . Ang1.1s aguardou até a festa ele
do is fu~:,rinun juntos. Tomando a forma Samhain, no dia I " de nove mbro, e
de Diarmuid, Angus, seu pai de criação. também se transformou em cisne. Cacr
aj udou os amantes a escapa r ameaçan- o ace ito u. voou com ele três vezes ao
do seus perseguidores. redor do lago e canto u uma música
mãgica que fi:-/. todos adormecer<•m.
Brug na Bôlnne é o nome gaêlico de Newgrange,
na Irlanda. Diz-se que este complexo neolítico era D epois os amantes voaram até o
a casa de Angus. de Angus. Brug na Bóinnesong.
102

A VIAGEM DE BRÂN
IIJ Viag~m aó Outro Jvhmdo m Irland~t; a ilha da Alegria; a ilha
Jt1 lrhmda das Mulheres
b Anónirno, LWro de /.tit~rtn

Brân era um irlandês que partiu para visitar o Feliz PERSONAGENS -CHAVE
Outro M undo (a morada dos imortais, chamados BRÂN • o her6í
de Sídhe), que consistia em duas regiões: a ilha da NECHTAN • c.un dos
Alegria, onde todos eram tão felizes que riam o seguidores de Brân
tempo todo, e a ilha das Mulheres, onde todos MANANNÁN MAC LIR •
um deus do mar
desfrutavam uma vida de prazeres. M as, quando
SIDHES • deusas ou seres
tentaram retornar à Irlanda, Brân c seus ho mens sobrenaturais
perceberam que a viagem fo ra feita a um custo
terrível: era impossível voltar para casa.

ENREDO
A FESTA DE BRÂN subitamente. Roupas
Brân organizou uma estranhas a diferenciavam
grande festa em seu salão. das mulheres do povo de
Depois de um tempo, Brân, e este concluiu que
decidiu que precisava de ela deveria ser tll11a das
um pouco de ar fresco e Sídhes. Então ela come-
sentou-se do lado de fora. çou a canta r, e a letra da
Ao sair, começou a prestar música descrevia como
atenç.ão numa bela música um grupo de estrangeiros
que estavam tocando, e a vi~aria para uma te rra
canção suave o embalou o nde a macieira crescia;
num sono. Quando acor- dizia que, se fizessem essa
dou, encontrou um galho jornada, eles não conhe-
de macieira coberto de A pedra Ogham está esculpida com ce,; am doenças nem
botões perto dele, no d1ão. uma escrita ir1andesa do séc.Vusa· a morte.
da para transcrever mitos celtas.
CANÇÃO DAS SÍDHE VIAGEM À ILHA DA ALEGRIA
Brân pegou o galho c o kvou para Brân decidiu fazer a viagem, reuniu 30
moslrar aos companheiros. Enquanto o homens e partiu ele barco. Após dois dias
admiravam, uma mulher apareceu e dua~ noites, eles encontraram
EUROPA 103

Manannán mac Lir, um


deus do ma.J; que anda-
va sobre as onda~ em Uma deusa irtandesa iludiu
uma carruagem puxada Brãn para levâ·lo ao Outro
Mundo, prometendo uma
por cavalos, disse-lhes que terra de abundância onde
logo chegariam à ilha das o Sol sempre brilhava .
Mulheres. Contudo, eles alcança-
ram primeiro a ilha da Alegria, em
que um grupo de pessoas 1isonhas
olhava para o barco, da costa. Quando
os homens g •itaram, làzendo perguntas
ao povo, eles riram ainda mais. Um dos
homens de Brán pediu permissão para no mar e
ficar com eles. Assim que pisou em ltrra, atingiram a
começou a rir com os outros c não costa da Irlanda. Logo as pessoas
parecia disposto a voltar ao barco. Assim, sairam para olhar o navio de Brân.
Brân e os outros seguiram viagem. Ele lhes gritou seu nome e que
estivera viajando por um ano. As
A ILHA DAS MULHERES pessoas se Slu-precndcram, pois ouviam
Depois de mais um dia e uma noite no história~ de um homem chamado Brâ n
mar, chegaram a mna outra ilha, a das que partira da Irlanda centenas de anos
MuU1eres, onde foram saudados pelos antes. Os vi.Yantcs pensavam que
habitantes. Lá encontraram paz e felici- tinham ficado longe de casa por um
dade e parecia que jamais a deixariam. ano, mas na verdade centenas de <mos
Entretanto, depois de permanecerem um haviam se passado...
ano, um dos companheiros de Brân,
um homem chamado Ncdltan, começou A VIAGEM PROSSEGUE
a sentir saudades de casa e convenceu os Logo que estava ao alcance da praia,
outros a levá-lo de volta à Irlanda. Nechtan saJtou do navio e começou a
Qpando disseran1 às mulheres que correr em direção a seus conterrâneos.
partiriam, elas o aconselharam a pegar o o entanto, enquanto corria pela praia,
amigo da ilha da Alq,>ria, mas depois a seu corpo se tornou pó. Brân e os
ficar sempre a bordo do navio sem pisar outros assistiran1 horrorizados e
novamente em solo irlandês. compreenderam o que as mulheres
quiseram dizer quando os aconselha-
O RETORNO DE BRÂN ram a não colocar o pé em solo pátrio.
Os homens içanun velas e logo chega- Eles remaram de volta ao mar c nunca
ram à ilha da Alegria, onde o velho mais foram vistos.
companheiro estava pronto para St'
juntar a eles nCIYallleDte. Mais dois dias
104 .EUROPA

O CÃO DE ULSTER
CD Façanhas de herói ib J oseph Dunn, 17ll'Ailck"'fll bü.h f-pie: TáiJ1B6
~ Irla nda CuaiiRgt ( The ('allk & id lJ[ Cooley)
m lJI$tcr, Irlanda

Cúch ulain, o rigina lmente c ha mado Seta n ta , e ra PERSONAGENS-CHAVE


filho d a rainha D eichtine, d e C onna ugh t. D izia-se CÚCHULAIN • herói de Ulster
que seu pai era ou o deus-sol, Lug, ou seu próprio CONCHOBAR • rei de Ulster
tio, n rei C onchobru: D esd e ga roto, Cúchulain MEDB • uma rainha de
tinha poderes m ágicos: luz irradiava de sua cabeça, Connaught
CHULAIN • um ferreiro
os a nimais submetiam-se a ele, sua força e ra
FERDIAD • irmào adotivo de
lendária . Quando lutava, licava Lran slo rn ado: os Cúchulain
músculos inchavam, o cabelo se eriçava e sua voz
LLÍvante gd ava os adversários.

ENREDO
A CHEGADA DO HERÓI mort as. Sclanta concm·-
Quru1do ainda era wn dou r m guardru· seus
menino, Setan ta viajou campos por um ano até
até a corte do rei que um novo cão fosse
Conchobar, d<' Ulstc1; trei nado. A partir daí, ele
para se jun tar ao grupo de foi chamado de C úchu-
150 j ovens guerreiros do lain, "o cão de Chulain".
rei. Mas, ao chegar lá, eles
o desafiaram, e Set<mta O CAMPEÃO DA IRLANDA
acabou lut<Lndo contra os U ma história fam osa
outros usando apena~ narra como Cúdm lain
un1a das mãos. Quando cnronu·ou um gigante que
comrçou a derrotá-los, o desafiou, e a dois com-
um ap6s o outro, eles se panheiros. Laoghaire c
renderam c concordaram Conal, para uma hizarra
com sua liderança. prova. Cada um teria a
COchulaln matou o rival Ferdlad oportuDidade de decapitar
UM NOME NOVO mas depois o carpiu, cantando um o gigante, desde que
Logo depois de Se tanta lamento sobre seu corpo inerte. depois deixasse o gigru1lc
ter se j untado ao rei Conchohru; o rei e o decapitar também. Laoghaire Lomou a
seus seguidores visitarrun Chu lain, o espada e decepou a cabeça do gigante,
ferreiro. Ele tinha um cão terrívt'l, qut· n1as depois saiu correndo. O gigant.e
guardava seu rebanho c matava simplesmente pegou a raocça r a pôs no
qualquer um que se aproximasse dos lugar novamente. Canal se ad iantou e a
a nimais. Infelizmente, Setanta não sabia siLuação se rt:peti.u. Chegdndo a ve-.~: de
do cach orro c aproxim ou-se demais do Cúchulain, o herói cortou a cabeça do
rebanho. Na mesma hora o cachorro o gigante como seus dois amigos, mas não
atacou, mas Setan ta o arJ'Cml'ssou contra fugi u, ofcJ'Ccendo o p róprio pescoço
um rochedo e o matou. Q uru1do conforme prometera. Impressionado, o
ChulaiJl viu o que acontecera, ficou gigante se recusou a decapitar C úchu-
desesperado: sem w11 cão para guardar o lain, e em vez disso proclamou-o o
reba nho, as ovelhas sr.tirull roubadas ou homem mais corajoso de toda a Irlanda.
105

O ATAQUE AO GADO DE COOLEY ficaram doentes. Mas, como Cúchulain


Sob uma das últimas rainhas, Medb, o não era de Ulstet; não adoeceu, e sozinho
povo de Connaught enouu numa disputa derrotou <:em homens de ConnaughL A
muito séria com Ulster; a respeito de um rainha Mcdb então concordou em deixá-
LOuro. A rainha Medb possuía um lo lutar <:ontra seu exército numa
enorme touro de chifres .......!1111!1111 série de combates individuais.
brancos, que se desgarmu Novamente Cúrhulain
para o outro lado da venceu, até que Medb
fronteira e se jumou aos Esse cotar era o sim boto do lhe enviou seu melhor
rebanhos de Concha- guerreiro celta. Dos quase combatente, Ferdiad,
cem colares descobertos nas
bar. Alguns cüziam que Ilhas Britânicas, 31 vieram da que era irmão de
o animal, que dera ãrea de Connaught. Ciiação de Cúchulain.
origem a mLúto~ A dupla lutou por
rebanhos de excelente quatro cüas, até que
qualidade, não gostava Cúchulain derrotou
de ser propriedade de uma Fercüad. Depois de mais
mulher. Medb procurou outro batalha~, ()S homens de
touro para substiwí-lo. O melhor Mcdb foram dtrmtados, mas
de todos era urn oulro an imal de Ulstcr; o Cúchulain, que não atacatia uma
touro castanho de Coolcy. Os homem de mu lher, deixou-a fugir para Connaught.
Mcdb ofrrercram um bom preço pelo
animal c gabaram-se dP qu<' o ]('variam à A MORTE DE CÚCHULAIN
força se os donos não <:oncordasscm com Cúchulain estava exausto após a longa
a~ concüções da rainha. Os homens de batalha. Vendo que a morte se aproxima-
Ulster não gostaram, c a guerra foi va, amarrou-se a uma pedra c se prcp:t-
declarada rou p<U'a chegar ao fim sem armas.
Mesmo assim ninguém se atreveu a
A GUERRA ENTRE ULSTER E CONNAUGHT atacá-lo. Mas, quando a deusa da guerra,
A comenda começou mal para Ulster Morrigan, chegou, sob a forma de um
quando, por Cai)Sa de uma wlha co1vo, c pousou em sru ombro, ficou
maldição, qua~ todos os guerreiros claro que o grandç: herói estava morto.
106 EU ROPA

DEIRDRE DOS PESARES


IIl Tr.~gédia de dc:;rino 6 Anônimo, Livro de Lcinste; O livro
lU Irlanda amartlq de [,ecwz
1D Ulsler, Irlanda

D eirdr e era filha de Fecllimid , o con tad or de PERSONAGENS -CHAVE


históri as do rei Con chobar d e U lster. A n tes
CONCHOBAR • rei d e Ulster
de nasce i; seu choro foi ou vido dentro do úte ro da FEDLIMID • contador de
mãe, c um d r uida chamad o Cathbad h previ u q ue histórias do rei
D eirdre se ria m uito bela, mas traria desastre ao DEIRDRE • a filha de
Fed/imid
povo d e U lster. Apesar d a ten tativa do rei para
NAOISE • um guerreiro
salvá-la, e d epois para a controlar, sua trágica EóGHAN • um guerreiro
históri a cum p riu a triste pro fecia.

ENREDO
DEIRDRE E NAOISE de wn novilho na neve e disse ao seu
Quando o druida Calhbadh profetizou preceptor Leabharcham que amalia um
que a menina Deirdre traria a ruína para homem Cl!ja pele fosse tão brd.nca quanto
Ulster, seus seguidores quiserd.m matá-la. a neve, com as bochechas tão vermelhas
Mas o rei Conchobar a enviou para ser quamo o sangue do be-lCrro e o cabelo
criada por pais adotivos: encantado com tão negro quan to as asas do corvo que
sua bcleJ\ll, ele pretendia se casar com a descera para beber o sangue derramado.
garota quando ela crescesse. No entanto, O preceptor lhe disse que havia um
Oeirdre rjnha outros planos. Um homem chamado Naoisc, um
dia ela estava sentada vendo dos cavaleiros do rei, que
correspondia à descrição.
O casal se encontrou, os
dois se apaixonaram e
fugi ram para a Escócia
parte do Ciclo de Ulster-
uma compilação de cerca TRAGÉDIAS EM SÉRIE
de cem contos sobre o Q wtn do Conchobar sou-
reino de Ulster, que
be o q ue acontecera, convo-
governou o norte da Irlanda
do séc.ll ao IV d.C. O Ciclo de cou os amantes de volta para
Ulster foi escrito no séc.VII e inclui um a Irlanda, oferecendo segurança t>
dos mais importantes mitos irlandeses: o perdão. M as não passava de um estrata-
livro conhecido como Táin Bó Cuailnge gema e, q uando eles retornaram, o rei
(O ataque ao gado de Coo/ey, p.10s). A ordenou a um dos SClL~ homen$, Eóghan,
história de Deirdre, também conhecida que matasse aoise. Após a morte de
como O exmo dos filhos de Usnach, é
Naoise, Conchobar peq,rtmtou a D eirdre
uma das que in troduz o Tãin , cujo
quem ela mais odiava no mundo, ao que
cenário são as guerras entre Ulster e
t
Connaught. uma das histórias mais ela respondeu: "Conchobar e Eóghan."
famosas e apreciadas do Ciclo. E ntão, como pun iç.ão final, ele ordenou
que ela morasse seis mcS<..'S com ele c os
O roubo de um magnffico touro, representado nessa outros seis meses com Eóghan. D eirdrc
b~ de um caldeirão de Gundestrup, inspirou um~
das histórias mais famosas do Ciclo de Ulster. se recusou a se submeter a isso, c suici-
dou-sejogando-se de uma cam1agcm.
EUROPA 10 7

A TERRA DOS JOVENS


IIl Viagem ao Outro Mundo b M ichael Comrn, Lay rif Oi.rih in tire
IV Irlanda úmdqfr(lulh
m hlanda; a Tt"rra dos j ovens

No séc.ll, a Irlanda foi d efendida por um grupo de PERSONAGENS-CHAVE


guerreiros chama dos Fiannas, que eram liderados
OISIN • filho de Finn
pelo grande combate nte Finn MacCumhaiJ. O MacCumhail
filho de Finn, Oisin, apaixonou-se por uma mulher NIAMH DOS CABELOS
chamada Niamh dos Cabelos D o urados, filha do DOURADOS • princesa de
nrnan'Og
rei d e Tir na n'Og (ferra dos .Jovens). Oisin e
Niamh se casaram e viajaram para a 1 erra dos
Jovens, onde teriam vivido para sempre, se Oisin
tivesse seguido o conselho da esposa.

ENREDO
A VIAGEM A TIR NA N' OG pedra e escorregou do cavaJo. Assim que
Oisin desped iu-se com tristeza do pai, seu corpo tocou o chão, ele começou a
Finn, c partiu com a esposa Niamh para envelhecer: o corpo encolheu, as pernas
levá-la de volta ao reino do pai. Viaja- enrugaram c ele perdeu a visão. A Terra
ram muito além do mar até alcançarem dosJ ovens estava perdida para ele.
o mais bdo lugar que Oisin já tinha
visto: Tir na n'Og, Terra dos.Jovens. Lá MITOS RELAOONADOS • A viagem de Brân (p.102) •
viveram felizes durante anos e tiveram A Odisséia (p.72) • Kayak, o falcão·peregrino (p.:zo6)
três filhos. Tudo parecia perfeito.

A VOLTA DE OISIN
Entretanto, Oisin sentiu saudades de
casa e disse à esposa que queria voltar à
Irlanda pa ra visitar seu povo. Ela lhe
disse que fosse, mas que em hipótese
alguma apeasse do cavalo - ou jamais
retornaria. Oisin então viajou para a
Irlanda e percebeu que estivera fora por
cente nas de anos. Finn já estava morto
havia muito tempo e seu palácio estava
em ruinas. Enquanto Oisin explorava a
área, alguns homens lhe pediram que
ajudasse a levantar uma laje de már-
more. Ele se indinou para levantar a

Nlamh cavalgava um cavalo branco entre


ondas quando Oísln a viu pela
o casal se apaixonou.
108 Etm.OPA

UMA JOVEM FEITA DAS FLORES


aJ Triângulo amoroso é A11ôn imo, O quarto raTTW de ~fabinogi
lU País de Gal<·s
m Cwynedd, nonc do País dc Gales

A h i.~téni a de Blodeuwedd conta co mo uma j ovem PERSONAGENS-CHAVE


foi c1iada por d ois mágicos, Math c Gwyruon, pa ra
MATH • senhor de Gwynedd
ser a esp osa de Lleu Llaw Gyllcs, q ue ti nh a sido GWYDtON • sobrinho de Malh
conde nado pela mãe a não ter uma esposa ARIANRHOD • irmã de
huma na. M as Blode uwed d é infiel ao marido, q ue Gwydion
LLEU LLAW GYFFES • {ilho de
m a la o rival. A jovem aca ba sendo tra nsforma da
Arianrhod
num a con ua, ra dada a voa r apenas à nuile c a BLODEUWEOO • a esposo
viver isolad a de todos os ou rros pássaros. feito poro L/eu L/ow Gyffes

E N RE nO
OS FILHOS DE ARIANRHOD
C wyd ion aprrscmou a irmã Arianrhod a
:VlatJ1, S<'nhor d<' Gwynedcl. Math ft>z
a jovem passar sobre uma vara mágica
para testar sua virgi ndade, mas, ao hábil"}. A segu nda
fazê-lo. tombaram de seu ventre duas Lnterdiçào era a de que
crianças. O primeiro menino ch<Lmou- ele não teria armas até
se D ylan , mas Arianrh od insisliu q ue o qu e ela estivesse pronta para ar má-lo,
segundo só deve ria ser nomeado mas, de novo, Gwydion a enganou c deu
q uando ela estivesse pro nta a lhe dar a rmas ao sobrinho. Por fim , ela declarou
um nome. A seguir, ela estabelece u que seu ftlho nunca teria uma esposa
outras duas ime rdiçõcs para o fLI ho. humana. Gwydion então buscou a <yuda
de Math, c os dois usa ram de pod1· r
OS TRUQUES DE GWYDION mágico para fazer uma linda esposa
G wydion contornou a primeira para l .leu, a parti r das nores de {,rlCSl<l,
proibição - não dar nome ao gamlo - ulm ária c carvalho. A mulher que eles
enganando a irmã e chamando-o de criaram foi chamada de Blodcuwcdcl.
Lleu U aw Gylfes ("o blilhan te da rnão
A TRAIÇÃO DE BLODEUWEDD
O MABINOG/ON Blodcuwedd mostrou-se infiel. Com o
A obra mais famosa da literatura medieval amante Gronw Pebyr, p lanejou matar
galesa é uma coletânea de contos, registra· U eu. Blodeuwedd enganou U eu para
dos pela pri·meíra vez no séc.XII. Compreen· q ue ele próprio lhe revelasse a úni ca
de quatro partes distintas conhecidas como
rnanc·ira de matá-lo. Ela, e ntão, o sur~
os Quatro Ramos de Mablnogi. Elas narram,
p rcc ndeu na posição perfeita , deixan
respectivamente, sobre Pwyll, governante
de Dyfed, que visita o Outro Mundo; as para Gronw o golpe final. No cntant ,
crianças do deus mari-nho Llyr, entre elas q uand o a lança o penetrou, U<•u se
Brân (p.109) ; Manawydan, filho de Llyr; transfo rmo u numa águia. t r\IIIVI:Ill"'n ~'
e Math, senhor de Gwynedd. A última parte restituiu-Ih<: a rorma humana , l'
contém várias histórias diferentes. incluindo entiio encontrou G ronw e o
o conto de Blodeuwedd. Como punição, G\\y d ion
Blodcuwedd numa coruja.
EUROPA

A CABEÇA DE BRÂN
lil Fa\,utha' dt• h~ rói 6 Anônuno. O çrf:!mdo romb tk Mabinogi
~ P.aí< dt• G<~ks
m Irlanda c Grà-Bn·ranha

Brân, o abençoado, também conhecido co mo PERSONAGENS-CHAVE


Bcncligcidfran, loi um g rande herói britânico. Por
BRÁN, O ABENÇOADO •
sua estatura gigamcsca e força d escomu nal, era um um gigante
ad,·crsário tt•mível em batalhas, e ,·enccu o rl·i da BRANWEN • o irmã de 8r6n
Irlanda. apc,ar das circunstâncias ad,·er<as. Foi MATHOLWCH • rei do
Irlanda e marido de
ferido mortalmt•ntc nesse combate, m as seu poder
Bronwen
mágico sobre\.iveu, pois seus compa nllC:'i ros
levaram sua cabeça fe rida para Londres, ond e da
protegeu a Grã-Bretanha contra invasort·s.

ENREDO
GRÃ-BRETANHA EM GUERRA A cabeça de Brãn foi enterrada em
Brân permi tiu que Gwynfryn (o Monte Branco) em Londres.
onde agora fica a Torre de Londres.
M athoh,ch, fl'i da Irlanda.
de<>pos.lS.'<' sua irmã Branwen. homens sobre\ivcmm. O
Emrctan1o, l\.latholwch p róprio Brân fora ferido
abu~ava da esposa mortalmente. Sabendo qur
<'a maltratava. Ao seu tempo era curto. ordenou
sabe• dis~o. Brân aos compa nheiros que lhe
partiu para vingá-la. O combate cort assem a cabeça e a levassem
entre o.s bri tânicos c os irlandeses foi dc volta a Londres, onde deviam
terrível, t' os \Jh imos tinham uma enterrá-la para proteger a Inglaterra
gra nde vantagem: um caldeirão q ut contra inva~õcs futuras. Assim fo i le ito,
conseguia re~;,usci tar os homens morro~. e t• nquanto empreendiam a longa
r'\ o fim , os brit<lniços venceram a viagem ck volta para casa, os homens
gut•rra, mas apt•nas Brim e sete de seus ficaram surpresos ao ouvir a cabeça
convrrs.'lndo com eles até chegarem a
ÚIStell Dinas Bran, em Llangollen. Pais de Gales.
agora em ruinas. era lido como o lar do gigante Londrrs r a enterrarem conforme as
seml·humano BrAn. ordens de Brân.
110 EUROPA

REI ARTUR
IIl Mis.<>ào; triânglllo m Grã-Bretanha
amoroso 6 Gconrey de M on mouth, Hi.rtori~ J?tgwn Britmmiae;
~ Grã-Bretanha Thomas Malory, A mor/e dt Arthur

Alguns dos miros europeus mais duradouros PERSONAGENS-CHAVE


abordam o rei Artur e os Cavaleiros da Távola UTHER PENORAGON • rei da
Redonda. Artur foi um rei nútico, mas seu caráter Grã-Bretanha
pode ter sido baseado num líder militar da Idade ARTUR • filho de Pendragan e
Média. As históiias falam de seu reinado numa último rei da Grã-Bretanha
GUINEVERE • rainha de Artur
lendáiia corte d e cavalaria em seu castelo em
MOROREO • filho de Artur
Camclot, da busca do Santo Graal por se us MERLIN • um feiticeiro
cavaleiros e de como a corte por fim se dissolveu SIR LANCELOT • um cavaleiro
devido à traição do filho de Artur, Mordred.

ENREDO
ARTUR TORNA-SE REI O rei Artur com lancelot, que o
Artur era o filho traiu, provocando a queda da
lendâria Camelot.
ilegítimo de Uther
Pendragon, rei espada na pedra, até
b ritânico, e da rainha que Artur a tirou com
Ygc rne, da Cornuália, facilidade, tornando-se
e, por isso, foi ciiado 1-ei. Mais tarde, ele
em segredo. Antes de quebrou a espada num
morrer, Uther fincou duelo com um !,TÍgante,
uma espada num bloco c o mago Merlín o
de pedra em Londres e levou ao lar aquático
disse que aquele que conseguisse retirá- da Dama do Lago, do qual surgiu uma
la se!Ía o 1-ci dos bretões. Nenhum mão po rl,ando outra espada, chamada
cavaleiro conse!,TU.ÍU sequer mover a Excalibur, que Anw· pegou.
f.U ROPA 111

A lenda de Camelot continua a


causar fasdnio, com seu tema de
amor. guerra e traição, conforme
se viu no filme Rei Artur (2004) .

A TÁVOLA REDONDA
Artur unificou a Grã-Bre-
tanha, cao;ou-se com a bela
princt'Sa Guincvere e reu-
niu os famosos Cavaleiros
da Távola Redonda sob
sua JjcJcrança: homens
como o uobrc Sir Percival
c o vaJentc Sir Lancclot.
Porém, um as_<;Cnto - o
Sitgt Pmlous (ou o Assento
do Perigo) ficou vago, pois em voz ARTUR TRAfDO
corrcnll' que qualquer cavaltiro que lá Sir u uwelo1 era o melh or amigo dc
scnla.<,~l' morreria e os dias ela T ávola Artur; mas amava Guinevcre, c comc-
R<:donda teriam wn fim. Após muitos tcram adu ltério. Ao saber disso. Art ur
ano.~, um cavaleiro chamado Galahad ficou d(·sulado e baniu o cava leiro.
exigiu o assento para si. Ele deve ria partir cs.<;C momento de fraqueza na hiMória
à procum do Santo Gmal, o cálice que de Canl<'IOt, o p róprio filho do rci,
J esus usara na Última Ceia. M ordn-d, encontrou a oportu nidade de
O s outros cavaleiro~ decidiram <;e lutar comra o pai pelo controle do trono.
juntar a Calahad nessa missão. Depois H ouve uma ba tallta, e um por um os
de muita~ aventu ras, Galahad cnrorllrou cavaleiros foram mon os, até que I'('Sta-
o Craal c o levou até j erusa)(•m ou, ele rarn aprna.~ Artur e Mordred. Os dois
acordo com outros, morreu. Muitos lu umun bravamente, e Artur rmuou o
outros t·avaleiros também 1:t1ercram. traidor. Mas ficou tão seriamente ferido
Emoora alguns tenham n·tornado a que sabia que a morte se aproximava.
Camdot, a paz e a harmonia da con e Então, viajou até as terras de AvaJon
d<" Artur estavam perdida~. para morrer. 1kalon ('"ilha da Maçã'')
era o lugar onde cresciam as maçãs
o portal de Glastonbury, no oeste da Inglaterra, da imortalidade, e acredita-se que
pode ser o lugar a que a lenda se refere, quando dil Já a alma elo rei vive para s('mprr .
que Artur e seus cavaleiros descansam ao sopé de
uma montanha, prontos para serem acordados
quando os bretões necessitarem deles.
O Historio Regum Britonniae (A
história dos reis britânicos) foi
escrita provavelmente pelo monge
beneditino Geoffrey de Monmouth
por volta de 1136. O livro traça
uma linhagem de regentes
bri tânicos desde figuras lendárias
como Brut us (bisneto do herói
t roiano Enéias) até os reis do
séc.VII, dando ênfase especial
a Artur. O relato de Geoffrey
mistura mito e história, mas é
bem escrito e era muit o popular
durante a Idade Média. Ajudou
a fazer de Artur um dos mais
ca rismáticos heróis bri tânicos.
112 EUROPA

OS DEUSES NÓRDICOS
Assim como os Titãs deram o•·igem aos deuses do Olimpo, os d<:uses
nórdicos surgiram de uma raça de gigantes (p.J 14). Ao lado de Lokj, o
trttpaceiro, há seres do mal, como Hei, rainha do Mundo ubtcrrâneo,
e }enrir, o lobo: de Bor e Bestla nasceram os . \se , principal clã
dos deu~es nórdicos, liderado por Odin que, assim como o
grego Zeus, Linha muitas esposas c incontáveis filhos.

FRIGGA __......_.
Líder das três Deus supremo,
consortes de um dosuês
Odio. deusa
da~ esposas e
m~es _-.-~
I
THOR --~t­
deuses criadores
do rnundo dos
mortais
Deus do trovão.
d~cabelose
barba verme- Ta~ria viklng (dfr.) mostra três
lhos, filho de deuses nórdicos: Odin, com a~nas
~ciganle um olho, porta um machado (esq.);
Thor com o martelo simbó-lico
Mjollnir na mao direita (centro);
freir, o deus da abundância, com
uma espiga de milho (dir.) .

....---
l
Deus da justiça, Deus da chuva,

l
da paz e da ver· do Sole dos
dade, o mais produtos do
eloqüente dos
Ases
campo _j
113

Uma Hrpente vene veneno


sobre o rosto de lokl, amar·
rado, por ele ter provocado
a mone de Balder.

HEL

diãodo
llidromelda
inspiraçjo
114 EUROPA

A CRIAÇÃO DO MUNDO
m Cri:tção lt:. Snorri Sturluson. Tlll ·Youngrr &Ida
fl1 lslâ(lc\ia
!!! O cosmo

A história da ctiação nórdica começa no lililite PERSO NAGE NS-CHAVE


entre as duas regiões cósmicas: o congelado mundo YMIR • o primeiro gigante
de Nifihcim e n reino quente de Muspell, um lugar AUDHUMLA • a vaco
que lembra o terreno acidentado e gelado com primitiva
gêiscrcs borbulhantes da Islândia, onde a história ODIN • deus da guerra
VIU • irmão de Odin
se origina. Da interação dessas duas regiões nasce
vt • irmão de Odin
um ser primitivo, o gigante do gelo Ymir. Elt: acaba
sendo morto, c de se u corpo é criado o mundo, por
um trio de deuses: Odin, Vili c Vê.

ENREDO
GIGANTES E DEUSES Nesta primitiva representação viklng de Odin.
o olho direito é retratado como uma linha: Odin
Quando o calor de Mmpell
abriu rnão de um olho em troca de conhecimento.
começou a derreter o gelo de
Niflheim, surgiu o gigante mau Bor, o liU1o de Buri, desposou
Ymir. Então uma vaca chamada Bestla, a filha do gigante Bõlthom,
Audhum la se formou do gelo e tiveram u·ês fiU10s, os deuses Od:in,
derretido e produziu leite para Vili e Vê. Ymir era cruel com todos
alimemar Ymir. Conforme ele o ao seu redor. e os filhos de Boro
bebia, c ia também sendo aquecido odiavam. Lutaram \Oillra o gigame
pelo ar de Muspell, ele começou a e o mataram, usando seu corpo
suar, c mais dois gigames se forma- como matéria para criar o mundo.
ram no suor sob seu braço esquerdo, Do crânio fizeram o céu e do
enquanto outrO nasceu de suas cérebro, as nuvens. Os deuses
pernas. Quando Audhumla lambeu fizeram rochas de seus ossos, r rios e
o gelo, ela libe rtou mais um gigante, mares do sangue, que era lamo que
Btu'i, que eslava congelado. &sscs afogou lodos os ouu'Os gigantes do gelo,
gigantes do gelo governaram o cosmo. exceto dois: .Bcrgclmir e a esposa.
EUROPA 115

OS PRIME IROS HUMANOS


IIl Cri,1\:lu 6 Snorri Sturluson, Tht 1õun~:tr Edt/Q
111 l•lândi.t
m o c<hlllll

Os dru~t·s nó rdicos da criação Odin , Vili c Vt~ PERSONAG ENS -CHAVE


linham o podrr de insuflar vida nos objetos <' de ODIN • o deus do guerra
dar unM l(mna nova às coisas viva'i. Assim, dt·s VIU • irmão de Odin
colbt't,ruiam C"riar raças novas no co>mo. P.cx .. vt • irmão de Odin
transformaram os anões, que tinham '<ido rriaturas ASK •o primeiro homem
pequt'll<L'i como \Crmcs, nascidas da t·anw de EMBLA • o primeiro mulher
Ymir, o prim('iro gigante, em humanúidcs inteli-
gentes. ;\!ais nmávcl ainda foi a criação do
primeiro homem c da primeira mulher.

ENRED O

UTGAR D E ASGARD
Assim qm• o\ dnN·~ Odin. Vili c \'i-
criaram o rosmo r a Terr.t. desünar.tm
a região le~h', chamada L:tgard, aos
único' 1-,ri~ame-. que sobrr,iveram 0'
filho-, e a t•sposa de Bergelmir , nms-
truíram ~~·u próprio lar rm Asgard r.
paraM' p1 ott·~rr dos gigantes, rl'j:('Ucram
robusta~ r.,nilkaçõt•s feitas com as
sobr:llH't'lhas de Ymir.

O PR IMEIRO HOME M E A
PRIMEIRA MUL HER
Odin, \'ili 1· Vi· decidiram explorar seu
reino. Enquanto ca.minha,-am pela
co~ ta. enront rara.m dois tronco:. de
{tl"\nre tr.vido, ;i praia pela água. O
uio dt•t idiu 11 illtT as ál"\ures morta-; à Na mit ologia n6rdica, o primeiro homem e a primeira
vida novanwnu·, ma;, ~ob outra forma. mulher foram criados de troncos de 31Vores mortas e
se chamaram Ask ("freixo") e Embla ("olmo").
Renmdehu.un os tronco~ como huma-
nóides e lhes deram vida. Vil i dotou -os ("Terra do Mrio"), que ficava a me io
de inttligênda e emoção. \'ê forneceu- raminho c·nlrc Asgard, onck os deus•·~
lhe'> a visfto ~·a a udit;ão (algumas versões habit avam, e o reino grlado de
do mito di7.1'1lr que t•le lhes deu feições ' iflhcim. Asgard e Midgard estavam
expressivas r o poder da la.Ja). ligados por uma pome chttmada Bili-o-,1,
que tin ha a forma de um arw-íris. Os
MIDGARD dt•ust•s disseram a !\sk e Embla que cr.t
O r.&u, qu<' feri t harnado de Ask e dt· r(''JXmsabilidade deles cuidar da.,
Embla. foi <> prinwim homem c mulher. plantas c das criatura.'> de seu ITino, t·
Elt's pn·ri~:wam de um lugar para a~im eles se cstabclrceram para nutrir
morar, e os dcuse-, con-,truíram um o 'eu reino c iniciar a va~t.a família qu<·
reino próprio chamado ~fidgard 'l' tornou a raça humana.
116

A GUERRA ENTRE OS DEUSES


CIJ Guerra no céu mAsgard, la r dos Ases, e Vanahcim, lar dos Vanes
lU Islândia 6 Snorri Stu rluson, The rmmgu li:dda

N a mi tologia nórdica, no princípio havia duas raças PERSONAGENS -CHAVE


de d euses. O primeiro grupo era o dos Ases, os NJORD • deus do mar
deuses do céu, que i11cluíam os deuses criadores, FREYJA • filha de Njord
Odin, Vili e Vê. O segundo grupo era o dos Vanes, FREYR • filho de NjlJrd
os d euses d a fertilidade, que governavam o mar e a ODIN • deus da guerra
Terra. Seu líder er a o deus do mar Njord, junto com HONIR • companheiro
de Odin
os filhos Freyr e FreY.ia. U m dos episódios essenciais MIM IR • deus da sabedoria
dos contos nórdicos sobre os deuses refere-se a uma
lo nga guerra entre os A~es c os Vanes.

ENREDO
QUEIMADA E RESSUSCITADA combate acirrou-se, cada
Uma visitante Vane, que era ou FreY.ia lado destruindo a ten·a
ou alguém disfarçado como ela, chegou natal do outro, até que
a Asgard. Começou a conversar finalmente uma trégua fo i
obsessivamente sobre ouro, e isso irritou esta belecida, e garamida po r
tanto os Ases que eles a j ogaram no um a tToca de relens: dois dos
fogo três vezes, mas todas as vezes ela Ases, H onir e M im ir, ficariam
ressuscitou. Esse tTatamento enfu receu parte do ano com os Vancs,
os Van es, e eles declararam guerra . O enqu anto Freyr c Njõrd
morariam com os Ases.

O TRIUNFO DOS ASES


O s dois lados viveram pacifica-
mente, mas perm aneciam des-
confiados, pensando que os reféns
agiam como espiões. O s Van es
tentaram fazer Mirnir contar os
segredos de sua sabedoria, mas ele
se recusou, então corta ram -lhe a
cabeça e a enviaram para os Ases.
Contudo, a cabeç.a continha toda a
sabedoria dos deuses, então Odin a
recebeu, tornou-a imortal e a
mamcve em Asgard. O s Ases agora
tinham toda a sabedoria do mundo.
Os Vanes sobreviveram , mas tivera m
pouco podet~ Com o tempo, esses
deuses da saúde, riq ueza e sorte foram
assimilados à lri bo dos rivais, os Ases~
Esse desenho pré-histórico esculpido numa rocha em
Vitlycke, Suécia, mostra guerreiros gigantes - possivel·
mente Vanes e Ases- combatendo com machadinhas.
EU ROPA 117

A CONSTRUÇÃO DE ASGARD
ID & tr.uagemas 6 Snorri Smrlu~on, 77u lówwr FAda
lU lslándi,l
m Asgard, lar dos Ases

Asgard , o lar d os Ases, ficava na pan e superior d o PERSONAGENS -CHAVE


cosmo, acima d e l\1idgard, o mundo huma no, c de
os ASES • uma roça de
Nillhcim, o gHido lar d os mortos. Era enorme, com deuses nórdicos
palácios, Aorcstas densas, pastagens ricas c cam pos UMGtGA.NTE
que forneciam alimento aos deuses. Era cercad o por SVAOilfARI • o cavalo
do gigante
um muro tão fone que apenas os imo rtais poderiam
LOKt • o deus trapaceiro
rompê-lo. Ent retan to, quando os Vanes e A~cs cnu-a- da fogo
ram e m gue rra (p. 116), o muro fo i destruído. A paz
subseqü ente era um a oportunidade de rcr onsrruí-lo.

ENREDO
A EXIGtNCIA DO GIGANTE trabal ho. A'>Sim, teriam o muro construí-
A reconstntçào do enorme muro de do, mas poderiam reduzir o pagamento
Asgard era uma tarefa dificílima. Quando do gigante, que extrapolaria o pr&.o.
um gig<mtc di.~ que conseguiria recons-
truir as fortificaç&>s de Asgard em apt"nas SVADI LFARI, O CAVALO MÁGICO
três t:l>taçõcs, os deuses exultaram com a Mas o gigante tinha um cavalo mágico
oportunidade. l\ fas o gigante cobrou um chamado Svadil fari, que sempre
alto preço: o Sol, a Lua e Frcyja, que era trabalhava com ele, c parecia que os
duplamente desejável, pois, além de ser a muros se riam terminados a tempo. Loki
bela deusa da fertilidade, tinha o poder de decidiu distrair Svad ilfari. TranBfor-
outorgar a imortalidade. mou-sc numa égua c o sedu ziu,
resultando no na~cimcnto do cavalo de
O DEUS TRAPACEIRO NEGOCIA oito pernas Sleipnir, que se torn ou a
Para evita r cs.~ pagamento exorbitante, montaria de Odin. Trabalhando
o deus trapan•iro Loki urdiu um plano: os so:tinho, o gigante não conseguiu
deuses concordaram com as e.x igências do cumpri r a tar efa e enfureceu-se de tal
gjgame, mas rcdu:idram o tempo para forma q ue só um golpe de maneio de
apcna..~ uma estaç-ão, que seria curto Thor o controlou, matando-Q. O s
demai.~ para ck conSC&'llir temünar o dcuS<>s consegui.ram os muros dr graça.
O assentamento vlklnr em TreUe~. Dinamarca ,
foi construido em formato clrcular, talvez em
referfncla ao grande muro que circundava Asgard.
120 .EUROPA

ODlN E AS RUNAS
[JJOrigem da linguagem m Yggdra~il, a Árvore do MwldO no coração do cosn1o
lU lslândía b An6rúrno, " Hávámal", poema de Etida maior

Os povos escandinavos p rirrútivos usavam uma PERSONAGENS-CHAVE


escrita constituída por caracteres chamados runas, ODIN • deus do guerra e do
fiJrmados principalmente por marcas verticais e dia- sabedoria
gonais. Eles atribuíam grande poder de comunicação HUGINN E MUNNIN • caNOS,
e mágica às runas; achavam que o alfabeto rúnico, ajudantes de Odin

chamado dejitlharkpor causa dos fonemas iniciais,


devia ter sido inventado pelos d euses. O mito mais
popular que explica essa origem narra como o deus
Odin o bteve o conhecimento das ruoas.

ENREDO
O SACRJF{CJO DE ODI N
Odin queria deter todo o conhecimento
existente. Ele decidiu que, para isso,
precisava abrir mão de algo que já
possuJa. lniciahnente, trocou um de
seus olhos por wn gole da (onte da
sabedoria, mas isso não foi suficiente.
Então, Odin pendurou-se no tronco de Nessa pedra rúnlca estão gravadas algumas letras do
Yggdrasil, a Arvore do Mundo, com o alfabeto pré-viking de 24 caracteres. Elas foram sepa·
radas em três grupos (oetti,, de oito letras cadas.
corpo perfurado por uma flecha,
oferecendo-o em troca do saber. Por segurando nas mãos as runas com o
nove dias e noites ele ficou suspenso, segredo do conhecimento.
sem alimento ou água, até
que caiu da áJv orc, CONHECIMENTO SUPREMO
D e posse das runas, Odin se tornou o
mais sábio de todos os deuses. Elas lhe
a capacidade de faze r encanta-
que ele colocou em prática de
formas. No campo de batalha,
"""''"h,,.nn dos dois lobos, Ge1i c
o combatente mais agressivo
o poder de se transformar, de
ou ensm·decer os inimigos, bem
tirar o fio de suas armas. a
era auxiliado tanto pelo domínio
ru nas quanto por wn par de corvos
chamados Huginn ("pensamento") e
M unnin ("memória"). Todos os dias,
eles sobrevoavam o mundo inteiro,
vendo tudo, depois voltavam c
caçhichavam para Odin lUdo o que
tinham visto c ouvido.
EUROPA 121

A ÁRVORE DO MUNDO
ID A natureza do cosmo 16 i\nô•úmo, " Voluspa" c "Grimnisrnál", p oemas
~ Islândia de Eddn moior
m O cosmo

No centro do cosmo nórdico ficava um enorme PE RSONAGE NS- CH AVE


freixo chamado Yggdrasil. Era tão grande que todos
AS NORNAS • tr€s mulheres
os diversos reinos do mundo escandinavo, de Asgard, ou destinos
a morada dos deuses, a Midgard, o mundo lmmano, HRAESVELG • uma dguia
recebiam a sombra de seus galhos ou ficav<un entre NIOHOGG • a serpente do
mundo
as suas raízes. Seu nome significa "o cavalo de Y gg"
RATATOSK • um esquilo
(sendo Ygg um outro nome de Odin) e se refere ao
tempo em que o deus ficou suspenso na árvore por
nove dias c noites em busca do conhecimento.

BNREDO
AS RAfZES DE YGGDRASIL
Yggdrasil sustentava-se sobre três imen-
sas núzes. Uma delas se propagava para
Asgard, a morada dos deuses. Três
mulheres, chamadas as orna~, que con-
trolavam o destino dos humanos, mora-
vam bem perto dessa raiz. Ela~ nut1Ían1
a árvore, regando-a com a água do seu
poço do destino. A segunda raiz se esten-
dia até j otunheim, o lar dos gigantes de
gelo. Sob essa raiz ficavam a cabeça
fc•ida imortal do sábio Mimir (p.I/6) e o
poço de Mjmir, ct~as águas continham
conhecimento e sabcdolia. A terceira
raiz de Yggdrasil cl1egava até a região
gelada de NiA heim e à lome fervente,
H vcrgelmir. Aqui a serpente Nidhogg
atormentava Yggdrasil, roendo
continuamente sua raiz.

AS CRIATURAS DE YGGDRASIL
Os galhos de Yggdrasil eram longos,
espalhando-se pelo céu e cobrindo o
mundo inteiro. Neles morava a águia
H raesvclg ("comedora de cadáv(;r"), que
come~:,ru.ia ver longe e em mwto sábia.
Os galhos também sustentavam quatro
cervos que se alimentavam da folhagem.
A criacura mais ativa de todos os seres da
árvore era o esquilo Ratatosk, cujo objeti-
Os quatro cervos, que corriam por Yggdrasil e mor·
vo plincipal era transrrutir os insultos da discavam suas folhas. representam os quatro ventos
á1,ru.ia Hraesvelg para a serpente Niclliogg. que sopram entre os mundos do cosmo nórdico.
122 EUROPA

OS TESOUROS DOS DEUSES


IIl Ar· mas dos dcus~s 6 i\n6nimo 1 ''Thrymskvida", poema
lll Islândia do Edda maior
1Il O cosmo

Os mitos nórdicos mencionam objetos preciosos PERSONAGENS-CHAVE


com poderes sobrenat11rais pertencentes aos deuses:
THRYM • um gigante
anéis mágicos; lanças que levavam à vitória em THOR • deus do céu
batalhas: maçãs que perpetuavam ajuventudr d e LOKI • deus trapaceiro
quem as consumia e um navio cuj as velas sempre do fogo
FREYJA • a deusa do amor
atraíam ventos ravoráveis. Um dos grandes tesouros
era o martelo manuseado pelo deus do céu, Thor,
uma arma tem ível c um sím bolo religioso poderoso
mado para abençoar a~ noivas.

E NREDO
O MARTELO DE THOR O martelo de Thor era
Thor ("trovão") circulava pdo céu numa freqüentemente usa·
do como tema de Ira·
carntagem. Dr le era o poderoso mar- balhos de ourive-
telo, Mjõlln ir; que lhe fora forjado por saria, ~dras rúnicas
e entalhes em tumbas.
a11Ões e que usava para esmagar os
inim igos c' abençoar a quem queria bem. Com a ajuda do trapaceiro Loki,
Muitas pessoa~ próximas a Thor Thor sr disfarçou de Frc)ja c foi -
queriam manusear essa arma tão coberto com véus - à festa de casamcn-
poderosa. O gigante Thryrn, encituna- Lo que Thrym o rganizara.
du, roubou o martelo de Thor e o No início Thor quase se cmregou pelo
emerrou, para que o deus não pudesse tanto que comeu c bebeu; mas então
mais cncontr[l-lo. Disse q ue devolveria trouxeram o martelo para abençoar a
a arma apenas se tivesse a permissão no iva, conforme a n-::tdiçào. Nesse
de desposar a bela deusa H·cyj a. momen to, Thor rapidamemc
Frc)j a recusou-se a sequer cogita r o m<lrtt>lo, matou o gig-.mte
o assumo e. assim. Tho1· teve de c todos os seus convidados,
pensru· nu'l cstratagema paTa
re<·uperaT o martrlo.
123

O HIDROMEL DA INSPIRAÇÃO
CD Transformação; as m.Joumhcinl (o reino dos gigantC's);
origens da poesia Asgard (a morada dos deu~es)
!" L~là ndia t1f:l Snorri Sturluson, The Younger Edtla

A poesia era pane integrante da cultura escancli- PE RSONA GE NS-C HAVE


nava, e um miro explica a inspiração poética como
ODIN • deus da guerra
provetÚellle de um licor mágico, "o hidromel da KVASIR • um gigante
inspiração". Produzido pelos anões depois da FjALAR E GALAR •
guerra entre os Ases e os Vanes (p.//6), o hidromel doisonoes
foi roubado pelos gigantes c depois reivindicado SUTIUNG • um gigante
BAUGI • irmão de Suttung
por Ocfu1 para o uso dos deuses. Para obtê-lo, Odin
GUNNLOD • {ilha de Suttung
teve ele usar seu dom ele transformação, assunúndo
as formas de cobra, de águia e de homem.

ENREDO
PREPARO DO HIDROMEl
Após a guerra entre os A~es c os Van~-s,
os deuses se reuniram ao redor de um
caldeirão, no qual c-uspiram para selar
a paz. Do cuspe smgiu w11 gigante
chamado Kvasit; um poeta sábio, que
julgou ser sua tarefa ensinar os que
estav;m1 ao seu redm; mas dois anões
maus, ~jalar e Galar, cansaran1-se clisso e
o mataram. Colheram o sangue de Kvasir
t' o destilaram num caldeirão mágico.
Misturaram-no cu111 rnel e criaram o
poderoso hidromrl que dava sabedor;a e
inspiração poética para quem o lxbessc.

ODIN ROUBA O HIDROMEl Essa pintura viking em pedra mostra Odin com um
Pouco depois, os anões mataram outro cálice de hidromel, em seu cavalo mágico de oito
pernas. Sleipnir ~construção de Asgard, p.117).
gigante e sua esposa, sendo então perse-
gu idos pelo lilhu deles, Suttung, que ele pediu a Suuung que desse um pouco
buscava vingança. Eles o acalmaram de hidromel ao novo servo. esrc recusou.
oferecendo o hidromel como compensa- Odin-Bõlverk então convenceu Baugi a
ção. SuttWlg passou o hi dromel à sua ajudú-lo a roubar o hidrome l da caverna
lllha, Gunnlocl, para que ela o cscnnclcs- de Gunnlõd. Haugi escavou a encosta da
sc em sua caverna. Enctuanto isso, Odin montanha com uma verruma, c Odin-
maquinava como poderia conseguir o Bõlvcrk. u·ansformado em cobra,
hldromel para os deuses. Tomou a Jorma esgueirou-se para o interior da monta-
de um homern, Bê.ilverk, e matou os nnw nh a. I ~-1. seduziu Gunnlõd, que ainda
servos de Baugi. irmão dt' Suttung. guardava o hidromel, c convenceu-a a
Então se ofl'rr·c<'u como servo substituto, deix:í-lo beber só um pouco. Q.•ando da
dizf'ndo que furia o trabaU1o de nove concordou, ele rapidamente bebeu tudo,
homens em troca de um gole de translor·mou-se em águja e relornou ·
hidromel. Bau1.,ri concordou, ma~ ftttandn \'Oanclo até- A~gard.
124 EU ROPA

AS TRAPAÇAS DE LOKI
IIl Estratagemas 6 Snorri Sturluson, Tk :rõunger Eddiz
ll1 Islândia
m Asgard

O deus trapaceiro Loki podia mudar de forma . Ele PERSONAGENS-CHAVE


era um gigante d o gelo, criado como irmão adotivo LOKI • o deus trapaceiro
d e Odin. C om freqüência, semeava a discórdia en tre THOR • o deus do céu
os de uses, e provocou a mo rte do filho-herói de SIF • a deusa da colheita,
Odin, Balclcr. Loki era sexualmente voraz, cop ulava esposa de Thor
com todos e com tudo, de gigantes a árvores. A espo- OVALIN • um anão
BALDE R • o deus do luz
sa de Loki, Angrb oda, gerou três filhos m onstros:
FRIGGA • a rainha-deusa,
Fenrir, o lob o;Jonnungand, a serpente d e Midgard esposo de Odin
(o rein o dos mortais); e H ei, a rainha dos m ortos.

ENREDO
PRESENTES PARA OS DEUSES Esse entalhe viking de um barco
Uma vez Loki cortou todo o mostra Loki, o peiVerso. Suas
aventuras podem ter divertido
cabelo da deusa da colheita, Sif. os deuses. mas também lhes
As plantações pararam de cres- causavam constrangimento
cei~ e T hor, ameaçou matar .Loki
se sua esposa não recuperasse o
cab elo. 'Loki cmão convenceu
o a não Ovalin a forjar um cabelo
novo e ainda algu ns presentes m á-
gicos para os deuses, como uma
lança que sempre acettava o alvo e
um navio tão grande q ue acomodas-
se todos os deuses, mas tão pequeno
que pudesse ser dobrado e carregado.
Loki disse a outros anões que, se
fizessem m dhor, podeJiam lhe cortar a
cabeça. Eles conseguiram, mas Loki
sobreviveu afirmando q ue lhes prome-
tera só a cabeça, não o pescoço.

O PESAD ELO DE BALDER


Balder, filho de Odin e Frigga, sem-
p re sonhava com a próptia morte,
então sua mãe fez todas as coisas c
os seres vivos jurarem q ue não o
mach ucariam. Mas se esqueceu do
broto do visco. Um dia, os deuses,
para testar o juramen to feito, arre-
messavam coisas. Loki pegou um broto
afiado de visco e fez o deus cego H õd
atirá-lo. O broto atingiu em cheio o
coração de Baldcr e o m atou.
EU ROPA 125

O CREPÚSCULO DOS DEUSES


ID Apoco.~lit>'<' 16 "V õlusp;\", poema de Edda maior;
~ Ist.lndi.t Snorri Sturluoon, Tlv Ywngn- Eddn
m O cosmo

D epois de Lo ki provocar a morte de Baldcr (p. / 21), PERSONAGENS -CHAVE


os deuses c) p uniram, acorrentando-o numa cavern a.
LOKI • o deus trapaceiro
Uma serpente vertia veneno em seu rosto, voltado FENRIR • um lobo, filho de Loki
para cima, mas sua esposa, com dó, recolhia o JORMUNGAIID • filho de Loki,
veneno num prato. Mesmo assim, Loki sofria a serpente do mundo
muito, e quando se comorcia d e dor, a terra HEL • filha de Loki, rainha do
Mundo Subterrâneo
tremia. D e acordo com os mitos, Loki permane- LJF • um homem
cerá na caverna até o Ragnarok, a grande batalha UFTHRASIR • uma mulher
na qual quase todos os seres vivos serão destruídos.

ENREDO
A PROFECIA os do bem quanto os do mal,
Depois de mu ito tempo acor- serão aniquilados. Perto do rim
rcntaclo, finalmente Loki da batalha, o gigante Surt
encontrará a força para se ("fuligem'1 ateará fogo sob!"('
livrar das COfl"('ntes c desa- tudo e todos, matando a
fiar os deuses. Simultanea- maioria dos que ainda sobl"('-
mentc, um grande grupo de viverem. Apenas poucos
seres malignos começar-á a seres vivos permanecrrâo:
combater os deuses. Os Yggdrasil, a 1\nrorc do
filhos-monstros de Loki Fenrir foi amarrado com uma Mundo, e, escondidos den u-o
cstar.io pl"('sc ntcs: o lobo corrente mâglca feita de respira· dela, um homem duunado
Fenrir rompcr:i suas pró- ção, passos e elementos ocultos. Lif ("vida") e uma mulhe 1;
prias correntes c dcrrorará o Sol e a Lua; Lifthrasir ("ansiedade pela vida'} Qyando
a serpente do mundo,J ormungand, os fogos da destruição tiverem fmalmentc
superará a Terra; Hei rrará guerreiros amainado, Lif c L fthrasir emergirão para
fantasmas do Mundo Subterrâneo. Todos criar uma nova raça humana num mun-
lutarão e quase todos os seres vivos. tanto do idílico de bondade e felicidade.

"Võluspâ" ("a profecia da Sibila") é um dos


poemas mais Impressionantes dentre os
vários que compõem Edda maior (ou
Poética). Trata -se de uma coletânea de
versos anônimos de aoo·uoo d.C., preser-
vada principalmente num manuscrito
chamado Codex reglus. "Võluspã" estâ
escrito sob a forma de profecia passada ao
deus Odin por uma profetisa e narra uma
guerra final antes do renascimento da Terra.

A Olnurca devolveu Alsllndla o Pfetioso Codex


regius em 1971, depois de 300 anos de pos~. para
~r guardado na Universidade da Islândia.
126

SIGURD, O MATADOR DO D RAGÃO


llJ Façanhas dt herói 6 Anônimo. li!lsrmg Saga
!li Islâr1dia
m Asgard, I<~ r dos Ases

Logo d epois que Sigurd nasceu , seu pai m orreu , e o PERSONAGENS ·CHAVE
m enino foi criado por um fr n-eiro chama do R egi n. SIGURO • filho de Sigmund,
Este f01:jou u ma espada poderosa para Sigu rd, com descendente de Odin
a qual o jovem he ró i m atou o d ragão Fa lllir. Porém , REG IN • um ferreiro
as aven turas p osteri o res de Sigurd fora m tr ágicas. FAFNIR • o irmão-dragão
de Regin
Ele se a paixonotl por Brunilda, m as d ep ois, d evido
BRUNILDA • uma guerreira
a um a poção mágica, esqu eceu-se d a promessa de au escudeiro
desposá-la . Como vingança, Brunilda causou sua
morte, mas depois suicidou-se d e remorso.

ENRE D O
DONS MÁGICOS Sigurd matou Fafnlr com a
poderosa espada Gram, forjada
Após matar o dragão
dos fragmentos da espada de seu
Fafnir, Sigurd não só pai verdadeiro.
mu hou-lhr o ouro, mas
também adq uiriu dois pegou o ouro e pa rtiu rm
valiosos dons: ao comer·- viage m.
lhc o cor-ação, aprende u a
ling-uagem das aves; ao AMOR DE PERDIÇÃO
banhar-se no seu sangue, O herói cruzou a ponte
tornou-se invLli nerável - BifrosLe visitou a~ Valqtú-
exceto por um prqueno ria~, um grupo de mulheres
lugar nu ombro. Sigurd que u-abal hava para Odin,
soube pelo; pfu>saros q uc se u pai selecionando os guerreiros clignos ele um
adoti vo Rcgin pla nejava m alá -lo e lugar no ValhaUa, a corte elos guerreiros
wmar seu ouro. Ele mawu Rrgi n, mortos. Ele se apaixonou por uma j ovem
guerreira ch amada Bru niJd a e, para selar
compromisso, deu-lhe um anel mágico.
O mito alemão de Siegfried, conforme Nenh um deles percebeu qtle o a nel conLi-
narrado na Nibelungenlied, do séc.XIII, nha uma maldição contra Lodos que o
segue essencialmente a mesma história usavam. Mais tarde, durante as suas via-
de Sigurd . Na versão alemã, porém, geus, na con e do rei Gj ulci, SiJI:lu·d bebeu
o herói é Siegfried e a moça,
u ma poçã o q ue o fez esquecer-se da
Brü nhilde. Além di sso, o herói é
promessa feita a Brunilcla, e apaixo-
morto por ou tro fi lho de Gjuki.
O com positor do séc.XIX nou-se pela filha de Gju ki, G udrun.
Ríchard Wa gner leu os Ql.ranclo Brunilda descobriu tudo,
dois mitos ao escrever o convenceu os filhos de Gjulci a
ciclo de quatro ópe ras matar Sigurd, o que um deles,
o anel dos nibelungos. GuLtorm, (êz, atingi ndo Sigurd
no seu único ponto G-aco. Mas
"O elmo de Sigurd" do Brunilda an -ependcu-sc c,
barco-túmulo de Vendei
no séc.VIl . Suécia. tomada pela culpa, lançou-se na
pira fu nerária de Sig urd .
EUROPA 127

BEOWULF
OJ Façanhas de herói t6 Al1ônimo, &owu{/
lU lnglmtrra
m Suét:ia. Dinamarca

O poema épico "Beowulf", escrito em inglês arcaico, PERSO NAGENS -CHAVE


co ma a histó ria do herói de mesmo nome, um
HROTHGAR • rei dos
guerreiro do povo geal, que habitava o sul ela Suécia. dinamarqueses
Be01vulf vi~ja à terra dos dinamarqueses para livrar BEOWULF • rei dos geats
o pais de um monstro chamado Grendel, antes de GREND EL • um monstro
voltar para seu próprio país e de se tornar rei. Depois A MÃE DE GRENDEL
WJGLAF • amigo de Beowu/f
de um longo t' bem-sucedido reinado, a vida ele
Beowulf chega ao fim quando ele mata outrO
monstro, um rh-agâo que arerrorizava seu país.

F.NRF.no

MORTE DO MONSTRO onde foi feito rei. Governou por 50 anos,


O paláóo Heor01, do rei dimurtarquês mas, quando envelheceu, e1úrentou
Hrothgat; e seu povo estavam sob o ata- problemas com seu povo, os geals.
que do monstro Grcndel há vários anos.
quando o jovem sueco Bcowulf se orere- UM GUERREIRO ANCIÀO
ceu para combatê-lo c o mawu. O, din a- Um dragão, guardião de um tesouro,
marqueses se alegraram e Beowulf foi ficou furioso qua ndo lhe roubaram uma
amplameme recompensado com presen- peça, e, como vingança, voltou-se
tes. Mas a tenúvel màe de Grcndd apa- contra o povo de Beowulf. Este, ago ra
receu para vingar sua morte. Beowulf loi bem idoso, <~tacou o dJ·agão, mas não
encontrá-la no lago onde da vivia e eles conseguiu penetrar a pele escamosa do
lutaram. A espada de Beowuir não per- animal. Todos os seus homens fugiram
fuJ'()u o corpo da inimiga mas ele a matou aterrorizados, exceto o corajoso e fiel
com uma arma do arsenal dela mesma. vViglaf. .Jumos, atacaram e mataram o
Beowulf então rewruou a seu país. dragão, mas não antes de este ter
envenenado Beowulf com o seu bafo
A lenda de Beowulf narra o enterro do rei dinamar·
quês Scyld Sceflng e seu tesouro sob um monte meiitico. Em seus instantes finais,
parecido com este em Sutton Hoo. na Inglaterra. Bcowu.lf lego u seus bens para Wiglaf
(~ .. Se
você conseguirforjar o Sampo, iluminar o que já
está bem iluminado, receberá a donzela por pagamento
- pelo seu esforço, a adoráveljovem... "
EUas Lonnrot, Kaleva/o
129

O KALEVALA
Cil Épico nacional
IIJ Finlâ.ndia
m Fi nlândia
116 Elias Lõnnrot. Kakvala

POR TRÁS DO MITO


O estudioso e folclorist..-'1 Elias LõnnroL(1802-84)
dedicou grande parte da vida a reunir poesia,
canções e provérbios dos finla ndeses, lapÕe$ c
estonianos. Lõ nnro t viaj ava pelo país, ouvia as
pessoas can tarem e recita rem e rebristrava tudo.
Além de escrever vários livros com canções,
provérbios e enigmas tradicionais, ele reuniu g ra nde
parte da poesia em um grande poema o épico Vãinãmõinen, o her61 e músico,
nacional da Finlândia - que denominou Kalevala. tocava um instrumento parecido
com a harpa. chamado cítara
finla ndesa, que criou a partir do
UM ÉPICO HERÓICO ma ~il a r de um lúcio gigante. Essa
cítara tomou-se o instrumento
O KalevaÚI é um poema de mais de 22 mil versos, nacional da Finlândia.
que narra vá rias histórias. Começa com a descrição
da criação do mundo e segue com relatos das lutas
entre dois países: Kalevala, a terra dos fin la ndeses, e
Pohjola, na Terra do Norte. O poema conta como a
Donzela do No rte foi cortejada por três heróis
finlandeses: o adivinho Vainamõincn, o fe rreiro
Ilma ri ncn, que fo rjou o céu, e o aventureiro
Lemminkainen. O pon to central da narra tiva é um
objeto misterioso cha mado san1po, que é descr·ito
como um moin ho capaz de fazer là rinha, sal e ouro.
O Kalevaw e seu personagem central, o sábio
Vainamüinen, são de grande impo rtância na PERSONAGENS· CHAVE

Finlândia. Lõnnrot publicou o poema em 1835, VÃINÃMÕI NEN • um s6bio


quando seu país construía sua identidade cultural ILMARINEN • um ferreiro,
irmão de Vãinãmoinen
como nação. Como as gregas Ilíada e Odisséia e a
LEMMINKAINEN • um
nórdica Eddas, a épica Kalevala deu aos fi11Jandeses avenwreiro
uma história mítica e he róica. Torno u-se o foco de LOUHI • o rainha de Pohjola
orgulho nacional e de inspiração pa ra os a rtistas A DONZELA DO NORTE • filha
deLouhl
finla ndeses, ajudando a estabelecer o finland ês como
língua nacional.
130

ENREDO
No princípio não havia a terra, apenas pari ir de uma lançadeira, ele foi
o céu e a água. Uma pata, não d istraído por espíritos enviados por
cnconLrando ouLrO lugar para ficar, fez Louhi e não conseguiu cumprir o
seu ninho no joelho de Luonnotar, ou drsafio. Sem se intimidar, Vliinamõinen
llnatar, donzela do ar e mãe-água. Dos continuou a jornada para rasa, onde
ovos dela ll natar criou a terra. llnatar pediu ao irmão llmarinrn, um grande
ficou grávida por 700 anos sem ferreiro, para fazer o ~ampo para Louhi.
pe•1·ebc r, até que o filho, Vainamõinen,
saiu de seu corpo já um velho. Ele
dt-rrotou o gigante do gcloj oukahainen
num concurso musical c recebeu como " LONGE
prêmio Aino, a irmã do gigante.
Contudo, ela preferiu ~c afogar a se
E DISTANTE,
t <l!iar com ele, e as,im Vainamõinen
\'Íajou para Pohjola, na '11-rra do Norte,
OUVEM-S E
para encontrar uma noiva. AS NOTÍC lAS
VÃINÃMOINEN NO NORTE
1\ canúnho de Pohjola, Vainamõinen
DO CANTO DE
tt•ve de nadar vário> dia.\ e t•stava à VAINAMOINENG."
beira de um colapso por rxalli>tào
quando uma águia o Lirou da água e o Ellas lOilnrot. Kolevola
lrvou para a praia. Logo depois ele
encontrou Louhi, a rainha de Pohjola,
que lhe ofereceu a fi lha r m casamento llmali nrn conseguiu forjar o sampo c
!.e ele lhe arrumasse um sampo, um o levou a Pohjola.Va"inümôintn
moinho mágico que poderia produzir <''>qU<Tt'ra-se de que a pc~soa que fizesse
ouro, farin ha c sal. Ele aceitou o desafio o -;ampo desposaria a Donzela do
t' partiu para casa, onde pretendia orte, e assim foi o irmão quem se
làbricar o sampo. ca..,ou com a moça. lnfeli~:mrnte não
A caminho de cm>a t·k t·nconLrOu a permaneceram juntos por muito tempo,
fi lha de Louhi, a Don~:rla do Norte, e porqur a Donzela morrru pisolcada
p<·diu-lhc que se cas;t.~Sl' con1ele mesmo por seu pr6ptio gado, num <t disputa
St'm o sampo. Ela conco rdou, desde que com Kullervo (outro dos vários
ele cumprisse uma série de tarefas quase personagens de Kaii!Vala). ll malinen
impossíveis, tais como amarrar um ovo, retornou à Finlândia viúvo e se re-
dt·" a'1 ar uma pedr.1 c partir um cabelo ronriliou com o irmão, que ficara
lOIII uma faca cega. i:\u en tamo, na rl'swnLido com o casamento. Ele disse
Vainamôinen que Louhi tinha se
a deixá-lo de~posar
filha, rnas o povo
licara com o
Achando que
l'ra injusto. os
decidiram
o objeto, para

de Vllnlmlllnen, tlnatar.
o Sol e a Lua dos ovos
pata selvagem que
um ninho no seu colo.
El ' RO PA 131

Aino, lrml de Joukahalnen, rejeita V3in3moinen por 1..<-mminkaint•n cantou em alta \'01. um
actlâ·lo velho demais. Para escapar do casamento, hino d(• vitória, acordando Louh, q ue
ela decide se juntar às donzelas da âgua.
emriou l ('mpc~tades para dcl>lruir a
q ue a prospe-ridade coubesse ao povo embarcação. Com o barco haticio pelas
linlandês. Levando j un to o ave ntureiro onda,, o sampu quebrou-se, c ' til\
Lemminkiiinen. embaracararn no pedaço., licararn à deriva, na água.
barco-lançadeira que \ 'aiuiimoinen
linalmt'nlt' completara. OS PRESENTES DE VÃINÃMÔINEN
\ 'aimunõinrn resgatou o máximo de
A DESTRUIÇÃO DO SAMPO pedaço., do sam po que pôd~: l' o'> lcYou
Na Terra do Norte, Viiinamüi nr n usou de Yolla à Finlândia . Mesmo os
um outro objeto mágico do Aâln•ala, a [ragnlt::nw, trouxrram prosperidade a
cítara fin landesa, um instrume nto seu pab. .Júido'\o, ele se prq)<lrtJU para
mu~ical part>cido com a harpa. A morrer. Doou ao reino a m.'.1,rira da
música qur rle produ.tia tinha o poder primmera, para resguardar o povo do
de- e-ncantar os ou,~ntes e fa~ t-Io~ inverno a que Louhi o submt•tia l' doou-
dormir. Q.uando chegaram a Pohjola, lhe tamlx·m a citara. Depoi' de ic;ou
Vainiimiiinrn tocou a cítara, r a rainha velas para uma terra m isteriosa entre o
Louhi e lOdo o seu povo adormeceram. Céu t a Terra, onde d izc· m r lc
O s três ave-ntureiros roubaram o sampo ainda vive, p ronto para retor nar st• o
e navegaram para casa, mas seu povo delr precisar.

INSPI RAÇAO PARA ARTISTAS

O Ka/evo/o inspirou alguns dos melhores


artistas finlandeses. Foram temas freqUen-
tes para o pintor Akseli Gallen-Kallela. como
no triplico acima. O compositor Sibellus (dir.)
também nele se inspirou para uma série de
famosos poemas sinfônícos, como Luonnotor
(1913). Elias Lõnnrot, que, enquanto servia
como oficial médico distrital na fronteira da
Finllindia com a Rússia, coletou e anotou a
poesia tradicional que formaria a base do
Ko/evalo, também encontrou tempo para
escrever um livro prático de medicina para
os camponeses finlandeses e para dominar
a citara finlandesa.
132 EL' ROP.\

OS DEUSES ESLAVOS
A~ culturas eslavns do Leste Europeu tinhnm Ltma mitologia muito
rica antes da convrrsào ao cristianismo, que ocorreu em partes
entre os sécs. \' 111 e X IIL Welizmente, poucos mitos eshwm. {oram
regi~trados por escrito ou em manifestações arósúcas, c muito do que
abemos hoje foi reconstituído de trechos de registros históricos c dos
resíduos das crenças pagãs que sobrevivem no folclore.

DEUS BRANCO, DEUS NEGRO Os antigos eslavos acreditavam que objetos


como esse (fósseis de belemnltes. parentes
Uma das caractl'IÍsticas mais pré· históricos da lula) eram raios já usados
óbvias da mitologia eslava é o pelo deus Perun.
dualismo. O mundo r visto como
~c:ndo regido por divindades do a luz. ~!esmo depois dt• mil ano~
b(•m c do mal, um roncri to clt• cdstianismo, a-. hi~tórias esla-
provavelmentr emprestado do vas sobre a criação geralmente
zoroastrismo e da mitologia mostnun D eus c o Demônio
maniqueísta da Pt'·r.;i:\ antiga. criando o mundo junto.... Por
Os <-slavos do oeste chamavam txt>mplo, quando Drw. quis
c·stas divindadt:l> de D<·us Branco criar a Terra, elt mandou o
e Deus 1'\egro, Byl'lun <· Demônio mergulhar no oceano
Ct·rnobog, e acreditavam num primcvo para buscar barm.
l:onflito infinito cntn· as trevas c O Demônio obedeceu, mas,
133

além de encher a mão, (um deus da colheita) c


também encheu a Mokosha (a deusa da
boca. Obser\'ou Deus Terra), qur ainda
espalhando o barro vive na religião
que ele carn:gara, popular russa como
ctiando a Terra perfei- "Mãc-'l crra úm ida".
tamente p lana. Contudo, apenas seis
Ql1ando o Demônio anos depois de
tentou falar, engas- erguer o templo,
gou com o barro e Vladimir converteu-
começou a correr se ao cristianismo c
apavorado, tossindo e atirou as estátuas no
expelindo o barro, que rio Onicpcr.
formou as colinas e a.s
montanhas. O DEUS DO GADO
O deus eslavo mais
O DEUS-TROVÃO importante, que não
Um deus de duas cabeças é o tema
O deus mais impor·- dessa antiga escultura encontrada constava do tcmplo de
perto de Novi Sad, na SéiVia.
tant.c dos eslavos Vladimir; era Volos, o
pa1,râos, conhecido na Rússia como deus do gado. A palavra "gado" t:am-
Pcrun c na Lituânia como Pe1·kun, era bém significa {(muna ou dinheiro c,
essencialmente um deus da t,>uerra, por extensão, Volos parccc ter sido o
cujas armas cram r<~ios e trovões. deus do comércio c da riqueza. Em
Ccralmcntc desc1il0 corno deus- tratados, os nomes Pcrun c Volos
trovão, P<~run é comparado tanto com eram evocados juntos para selar as
o deus nórdico Thor quanto com o promessas de paz c de negócios.
Zcus grego. Era por Pcrun que os
eslavos faziam juramentos de paz e de DEUSES E SANTOS NA RÚSSIA
guem:~,julgando qur, se quebrassem O período em que o paganismo c o
os votos, morreriam atingidos por suas cristianismo coexistiram na culwra
próp1ia~ armas. eslava deixou um fonc resíduo da
crença pagã no lolclor·c russo. Votos,
JOGADOS NA ÁGUA o deus do gado, sobreviveu na reli-
Os seis deuses eslavos mais importan- gião popular· como São Vlasü, o
tes foram representados num templo santo padroeiro do gado. Da mesma
construído pelo príncipe Vladimir de forma, a função de !'nviar· tmvões c
Kiev em 982.Jumo à estátua de rajos, atribuiç;-lo de. Pcrun, !oi trans-
Perun estavam Khors (um deus do ferida ao profeta llya (Elias). São
sol), Dazhbog (um deus do fi)go <.: da Jorge (Egorii) também herdou alguns
tiqueza, também conhecido como o aspectos de Perun. pois "deslranca-
Sol), Stribog (deus do vento), Simargl va" a 'lerTa depois das geadas do
inwrno uma ian:fa que antes era
Elementos de Perun sobrevivem no herói mftico
russo llya Muromets, que aparece aqui ladeado de e.xecutada por Penm com a chave de
dois companheiros bogatyrs ou cavaleiros errantes. ouro de seu raio.
134 EUROPA

A GRANDE INUNDAÇÃO
ClJ Criação c dilôvio r6 A.H. Wrausl;,lw, SiTry l<olk-tnlesjrum
!ti Eslovênia O riental E.~dusirr{r SIO<'oniç Sources
m Carniola, Eslovênia

Esse mito conta como a preguiça da primeira raça PERSONAGENS-CHAVE


provocou um grande dilúvio que matou todos, exceto OS PRIMEIROS HUMANOS •
o vigilante Knmyatz. Faz parte de um ciclo de mitos criados de uma gora de
que narra as competições entre Kranyatz e Kurcnl - suor de Deus
KURENT • o trapaceiro, deus
o trapaceiro pelo comando da Terra. Kurcnt é
da videira; às vezes o ances·
conhecido como o Dioniso esloveno, sendo a videira trai dos homens na Terra
o seu cajado. Kurent usa a videira inicialmente para KRANYATZ • o vigilante,
salvar Kranyatz, na histó1ia abaixo, e depois, no mito único sobrevivente do
dilúvio
da página ao lado, para escravizá-lo.

ENREDO
DO PARAfSO AO DILÚVIO q uisesse. O ovo partiu-se com um
Os plimeiros humanos desfrutavam rugido de trovão, t: a água verteu dele.
uma vida fácil num valr o ndr tudo ínund<Uldo o vale atr não hm•er nada
crescia sem neee~;idade de trabalho. além de um enorme lago.
O vale era irrigado por sete rim que
fluíam de um ovo c crrcado por O ÚNICO SOBREVIVENTE
montanhas altas. Os humanos Todos morreram exceto Kranyat.z, o
tornaram-se mu ito preguiçosos e vigiJantc, que estava ele guarda no cimo
indolentes. Não se davam ao trabalho da montanha mais alta. Kurenl esten-
sequer de pegar o pão que crescia nas deu e segurou seu cajado uma videira
á rvores: ateavam fogo na árvore para - pa ra salvar Kranyatz, que se agarrou
que o pão lhes cai'i.Sc nas mãos. em suas gavinhas por nove anos até as
D ecidiram então quebrar o ovo par-a água.~ do dilúvio rerroceclerem, alimen-
cada um toma r tanta água quanto tando-se da.~ uvas 1wssc lnte1im.
135

KURENT, O TRAPACEIRO
IIl E.~trata.~tna$ t6 A.I L '"'mtisla\V, Six~1 [iiJ/k ta/i!sfiom
ll1 I:;.~Jovênia Oricmal E.w:/.usWely Stm:onic Sourcts
l!I Carniola , Eslovênia

D epois que foi :;alvo do d ilúvio po r Kurent (jJ.J3 4), PERSONAGENS-CHAVE


K ranyatz agradeceu ao trapaceiro, cham a ndo-o
KRANYATZ • um homem
seu salvador. Ku re nt, enfurecido, retrucou -lhe que primevo, de estatura
deveria ser grato à videira e prometer amor her6ica, como todos os de
então
incondicional ao seu fruto. Esse amor - que
KURENT • o trapaceiro,
persiste até hoje - seria a pe rdição d e K ranyatz c deus da videira
da h umanidade, pois permitiu que o trapaceiro GOD • o criador, de cujo
vencesse Kranyalz n uma competição para relonceor de olhos surgiam
estrelas
deter m inar o governante da Terra.

ENREDO
UMA BATALHA PELA KURENT ADMITE A
SUPREMACIA DERROTA
Kranyatz rep resentou a "Você é imperador do
humanidade na disputa mundo", ronredeu
com Kurent, que Kurent. Kranyatz, d 1eio
organizou urna de orgulho, escalou o
competição em três pico mais alto para se
rtapas para decid ir sentar à mesa de Deus c
quem dominaria a comeu a came prepa-
Terra. Na primeira, rada para Ele. Kurenl,
deveriam saltar sobn· o declarando-se servo de
oceano, para drcidir Kranyatz, ofereceu
quem g-overnaria a vinho de seu cajado-
terra c o mar. Kurcnt, videira ao mestre. O
ao saltar, molhou um sedento Kranyatz bebeu
pé; já o poderoso o vinho c adormeceu.
Kranyatz apenas Quando Deus cnccnr-
esticou a prrna c ak<m- Na tradição folclórica eslovena, as Lrou-o bêbado à mesa,
çou o oulro lado. Na máscaras representando Kurent ainda lançou-o mon tanha
segunda, deveriam são usadas em festivais por homens abaixo, c lá ele ficou por
jovens e fortes, que conseguem
fender a Te rra, para agUentar o peso e o calor da pele de vários ~mos. Quando
decidir o domínio ovelha que as cobre. finalmente ele reviwu,
sobre as rocha~. Kurem bateu o pé e havia perdido sua lorç.a, e desde então os
perfurou a Terra até alcançar um poço humanos têm sido pequenos e li-aeos.
cheio de dragões, mas Kranyatz de novo
o superou, ao cavar um buraco que ESCRAVO DO VINHO
revelou rios subte rrâneos de ouro p uro. Ouu-a versão deste mito diz que
A terceira etapa> que decidiria o KranyaLZ, au-aído e enganado pelo vinho,
dominio dos céus, também foi vencida cedeu a lider-ança a Kurcm, dizendo-lhe:
por Kranyatz, cuja flecha voou por "D aqui por diante, trata-me com este
nove dias, um dia a mais do que a vinho e governa para sempre tanto o
llecha de Kurent. meu corpo quanto a minha alma."
/

ASIA
ASIA

rt==\1 COJ\'fl~ENTE ASiknco abrange uma vasta área, abrigando


~ divf'rsos povos e culturas. Muitas destas se sobressaem por
suas raízes antigas, suas tradições escritas que remontam a séculos
longinquos e suas mitologias especialmente complexas e tàscinan-
lcs. Este capít1.tlo concentra-se em quatro: os mitos da China, do
Japão, da Índia e das antigas cidades-Estado da Ásia Ocidental.

Embora as civilizações da escritos cm tabuletas de


Cnina, du j apâo, da Índia argi la, falam dos deuses
e da Ásia Ocidental s<'Jam que eram adorados nesses
muito di{i:-rcmes entre si, templos, e as suas
ela~ têm em comum a histórias constituem uma
enorme quantidade de das mitologias mais
druscs (tantos, que o antigas do mundo.
número chega a ser Cidades distintas
descrito como infinito). desenvolveram suas
Destes, um grupo menor próprias wrsões dos
de divindades principais mitos, com freqüência
emerge como niadores, dando às divindades
com influências poderosas nomes ligeiramente
sobre os homens. di[crentes~ por exemplo,

Uma representa ção tallandesa lnana, deusa do amor


MESOPOTÂMLA de um guerreiro-macaco do épico ~cxua l, tambrm aparece:
A terra em torno dos rios mitológico hindu, o Romayono. como lshtar. l\Jas há
Tigre e Eul'ratcs, no que hoje é o tema~ invariáveis, como a criação de
Iraque, foi o h<'rço de uma das água~ primordiais, a~ leis divinas que
civi lizaçõ<'s de maior destaque elo governam a viela e as difintldades dos
terceiro milênio a ntes de Cristo. foi homens ao lidar com sua~ limitações
uma cultura ele cidades-Estado, reis enquanto servos elos deuses. Dois dos
poderosos c templos enorrneli problemas que têm de cnfrenta1· o
conhecidos como ziguraLcs, qu e Grande Dilúvio c a questão da monali-
consistiam c:m enormes plata1orma~ de dade estão no mais famoso texto
tijolos de barro. Os textos antigos, m itológico da região, a !!,'pica de Gi/gamcsh.

OS M ITOS DA ÍNDLA
A cornplc:xa csmtmra elas crenças que
consti t11em o hinduísmo criou uma
mi tologia indiana que pareC<' ser uma
das mais intrincadas, pois há milhares
de divindades c as vária~ cultwas e
idiomas da Índia datam de milhares de
anos. Mas há um padrão subjacente
que revela uma unidade nesse vasto
pan teão. O todo da C riação c os deuses,
.inclusive, são (;()nsiderados aspectos de
uma única verdade divi na, conhecida
como Brahman, e três deus<:-~ principais
Gllgamesh, o her6i do épico da Mesopotâmia e
precursor do grego Héractes, é representado por· - Bm hma, Shi.va e Vishnu estão no
tando um disco alado, talvez um símbolo do Sol. cerne dessa nútologia. A este grupo
139

principal tk dt'U'>t"> juntam-se uma ou ofi·rt·ndas a deuses qur controlam


duas outr.b di,indades, como a Grande a'IX'tiO\ r,pccíficos de no~ ,;.da,.
Deu'<t Dn i, uma fi!(ura com v{uios A n·ligiào nati'-a do J apão. o
nomt'~ (' k>rlll.l\. 'intoí,mo. também tem' ária> de uM''•
Suas hi~túria' aparC"cem em inúnwrm ou k:uni'>. Eles podem estar incorporados
textos nc • antifl'o idioma >ân.scri lo. Os <'111 vin unlmen te qualquer ser vivo, lugar
mab an tigos ,;io o> f.M11.1, flUe for<Ull ou fi·nômrno. Qualq uer coisa podt·rosa
tnu1smi tido~ oralml'lllt' por séculos an te~ uma úrvore, uma montanha ou um
de sen·m t''><Titm. A~ últimas compi- animal pod r srr um kami, e o~
laçõe'>, çomo o' Puran(IJ e a~ Bmhmanw, 't'l.,'tJidorrs do xintoísmo làlam de um
mai> baS(•ad.c\ em rituai>, além dt• doi> núnwro infinito de kami,. Apl''<lr di,,o,
enorme\ p<x·mas t'piro-., o Rmnll)·<uw c o a mitologia jap<1nrsa se concentra num
.llalmblwmla. tamocm são ricas lomc> de punhado de di,indade\
n.trrati'<L~ 'obn.· (~>deu'<"> hindu,. printipai,, inclusive um
ta,al primordial, Izanagui
O EXTREMO ORIENTE t' lt.an;tmi, que criou o
A divc:r-idade da mitologia ch ine;;a vem mundo, ou "chamou-o a
de sua rap. ct·idade de absorw r hi ~tó­ Sl'r''. Ma i, importantes
tias de pdo menos 1rrs si,tenuL~ disli ntus a inda •ào os filhos d esse
dl' rn• nc;as: as tradições nativas çhine- t"a '>al: ,, dcusa-~ol
sas do taoí,tuo t' do confucionismo, e a fi:·
budi~ta, qul' dH'I{OU à China at:ravé~ da
Índia. ()., rhinl'\1', ('Ombinaram ess.'\5
influC:·nlias, prudut.indu outro vasto
pamt•ào dc• dnl,t''>. Suas hi,tória\
chrgam att• no' por meio d e , ·áJio,
1(''\tO\ c tambi-mumlme nte. pela n·ligJào
popular de wmunidade> ·
lodo o lll ll lld o. <11jo' fieis
140 ÁSIA

O S DECRETOS SAGRADOS
IIJ Fundação i1f:> D ianc Wolkstcin c Samucl Noah
~ Snmí-ria, sudeste da Mesopotâmia Knuucr, fnmma, ({ymt rif lleoum
ar Cidades de Uruk t· Eridu na Svmétia ulld Eortlt

lnaoa, também conhecida como Ishtru; é a deusa mais PERSONAGENS-CHAVE


imponante ela mitologia mesopotâmica. Não raro, faz- INANA • deusa do amor,
se referência a ela como a "deusa do amor", mas seu rainha do Céu e da Terra
nome tr.:tduz-sc literalmente como " rainha do Céu", e EN KI • deus das águas e da
uos fnl{,'lllentos de poesia enco11tJ·ados ern tabuletas de sabedoria (em alguns
fragmentos, pai de /nono)
argi la de quatm mil anos atrás ela se coroou como a ISIM UD • servo de Enki
rainha da Terra. Nesse trecho, ela visita Enki, o deus da NINSHUBUR • serva de
sabedoria, e g-anha dele o me, os pode res sagr.:tdos da::. /nona
leis que ele usou para estabelecer a ordem no mundo.

ENREDO
------
INANA DEMANDA A COROA ENKI DÁ O ME PARA INANA
Inana, a deusa do amor, pegou a coroa E.nki e lnana brindaram e Enki, Lendu
da Ten·a e a colocou sohrc a cabeça. A exagerado na bebida, oli·receu o me à
segui1; ela se recostou numa macieira e nlha Inana. Quatorze vezes ele ergueu a
decidiu ir para Eridu visitar" ... meu pai taça e ritual mente ofereceu a Inana
Enki, o detL~ que conhece o me, as leis qua>e cem de seus poderes, incluindo o
sagradas do Céu c da Terra". Quando alto-sacerdócio, o Lrono, a arte do amor,
lnan;J entrou no templo sagrado, Enki a o dom ínio do poder c da verdade, a
recebeu com bolos, água cessão dos julgamentos e a capacidade
fria para "refrescar o de descer ao Mundo Subto:rn'ineo c
seu co ração'· f' fl'ssurgir na Terra. A todos fn ana
ccrvt:ia, e eles respondeu: ''Aceito!" Em seguida, a
beberam juntos, à bordo da Barca do Céu, naveg<>u com o
mesa do Céu. mr rumo ;, sua cidade, Uruk.

ENKI RECUPERA A SOBRIEDADE


Quando os e rei tos da cerveja se
d issipa ram , Enki pediu ao sctvo Isimud
para Lrazcr o me, mas Isimud disse: "O
sen hor o deu a Inana." Então, En ki
enviou Isim ud atrás ele Inana para
trazer os poderes de volta, c quando
fnana se r<'rusou a devolv(·-los, ele
enviou seis demônios terríveis pa ra
persegui-la. Inana chamou sua St'rva
Ninshubur para (ljudá-la. r\ inshubur
cortou o a1· cum a mão c mandou us
demônios de volta para J:<:ridu. Com a
ajuda da serva, lnana conduziu a Barra
do Céu até Uruk, onde houve !i:st<:jos
nas ruas quéllldO Jnana colocou o me
em seu templo ~;1grado.
ÁSTA

ÁGUA SALGADA E ÁGUA DOCE


CD 1\ Criação; b•ucm1s enne os Jn Babilôuia, Mesopotâmia
deuses: lundaçiio de cidade h N.K.Sandan;, Poems rif llral•en mui Heilfomulnci.enl
~ Babilônia MesofNi/{lmia; Sttplwni.c Dailty, AfyiiLs.from Mt~oo/XJlnmitJ

A épica babilôtúca da Criação, o Eníima Elish, era PERSONAGENS-CHAVE


recitado no fesri\'al do Ano-novo (equinóóo da
APSU • o oceano doce
primavera} diam c da estátua d o deus Ma rduc, em TIAMAT • o oceano salgado
celebração à sua vi tó ria sobre a deusa TiamaL e ao seu MUMMU • a névoa
papd na ma nutenção da ordem do universo. O s lÍlUais ANU • o deus do céu
n essa época reencenavam a batalh a de J\ll arduc contra EA • o deus da Terra e da
água
T iama t com o fito de assegurar que a~ forças primitivas
MARDUK • filho de Ea
do caos [(>sscm m antidas sob contmlc "até que o KINGU • aliado de Tiamat
tempo envelheça", como di-.~: o cântico da Ctiação.

ENREDO
OS DOIS MARES O sacerdote da Mesopotâmia ora diante
No princípio havia dois dos símbolos de Marduc, divindade
lUtelar da antiga cidade da Babilônia.
mares, o de água doce e o
de água salgada , que e gerou um exército de
ti nham o nome de Apsu mo nstros para lutar
c Tia mat. Eram contra Ea e 1Vlard uc.
acompanhados por um O líder cra Ki ngu , que
deus miste rioso chamado lutou com as T ábuas do
M ummu ("névoa"). Apsu D esuno presas ao peiLO.
(macho) c Tiamat (fêmea)
deram à luz dois grandes deuses: MARDUC DERROTA TIAMAT
Anu, o deus dos céus, c Ea, o deus da Mard uc concordou em combater
Terra e da água . T ia mat se os o utros deuses o aceitassem
como rei. Então, ele a tacou T iamat
GUERRA ENTRE OS DEUSES c cortou-a ao meio, e das metad es ele
Apsu e Tia mat perturbaram-se com o formou o Céu e a Terra. Os rios Tigre
barulho dos jovens deuses e Apsu c Eufrates saltaram dos olhos de T iamal.
decidiu d estruí-los. Ma~ Ea se adianwu , A segujr, l\llardu c sacrificou Kingu c
matando ta nto Apsu quanto Murnmu. usou as T ábuas do D estino para criar o
Mais tarde, ele criou uma câmara cosmo. Ele criou a humanidade do
subter rânea, na qual nasceu seu filho sangue de Kingu e fundou a cidade da
Ma rduc (''cr;ança-sola r" ). T iama t, Babilônia para ser o local de seu
enraivecida, transformou-se em dragão templo.
144 ASLA

"... Ele era sábio) ele via os mistérios e sabia das


coisas secret~ ele nos trouxe uma história dos
dias anteriores ao Dilúvio... ))
AEpopéia de Gilgamesh
AS li\

""
A EPOPEIA DE
GILGAMESH
IJJ Ht rili da t·u ltur<t: husca da imonalidatk·; diJ(!, " '
JU ~ksopotàrui.t
ml nrk. \1c•,opot."tmia
6 l tf.:plia ,J, ( ••(S!fllllf•il

A stnm·riana l~iJOfJii.n dr GilgameJh data apmximada-


mentc do lt'n-ciro milênio a.C., sendo o mais antigo
poema <'pico i1 ~obrcvivo.:t: Chegou <li~~ nús plll u rcio
de lragnwntos c.·m \'(uias tabuletas de ar~-,>ila descober-
ta> por arqueólogos na Mesopotâmia (lraque
moderno). O cm~junw mais compkto St' Otigina da
bibliote<·a do ).(rande rei assírio A•Ntrb:UJipal. que
!{owrnou no -,('c. \' J[ a.C. e ntio palácio fica\".ll'lll
NíniH· .1 <id.ldc mais anti1.;.1 do amigo impc.•rio
assírio. O tt•i Assurb<ulipaJ emiou os ~cus ~c.·n·os para
coletar t' tr.tdntir texws de tOdo o mundo mcsopmá-
mio, t• a hi~ tória de Gilgamesh foi um dos St' IIS
maiorc.·s prt·n1ios. A narrativa tornou-se conhccid:1 Gllgamesh é o herói trágico do
novamt·ntc.· quando o arqueólogo britârtit·o t\w,Jc.·n mais antigo poema épico a
sobreviver. Sua busca frustrada
Hem) Layard começou as csC<tva<;ôes rm :'lfínivc da imortalidade tornou-se lenda
(agora t\1o-.uh na década de 1840 e enmntrou a'> na Mesopotâmia.

tabuinhas de Assurbanipal.

PERSO NAGE NS-CHAVE


O PR IMEI RO HERÓI TRÁGICO DO MUNDO
:\o poema, o herói Gilgamesh é rei de Urul.. hoje GILGAMESH • rei de Uruk
ARURU • deusa da Criaçlla
\Varka\, um.t das maiores cidades da :\1 c~opot:imia.
ENKIDU • amiga I!
Embora houw~sc um rei histórico chamado companheira de Gi/gamesh
Gilgamcsh, o hcrúi do poema é w11 pcrson.tg<·m HUMBABA • um monstra
mítico que l'ra parcialmente divino, pan·ial111t'nlc INANA • deusa do amar
humano; possuía a força e a bdet:a de um deus, mas ANU • deus da céu
SHAMA.SH • deus·Sal
estava fhdado a mutTtT. A epopéia dcscrc.·w suas
StDURt • deusa da vinho e
aventuras com o amigo Enkidu, seu cncontro com a da sabedoria
deusa lmum e ~ua busca da imortalidade. UTNAPISHTIM • humano
O poema cobre \'ários dos grandrs tcm.ts que ins- sobrevivente da Grande
Dilúvio
pirariam cSt.ritorcs posteriorc:,: o comp<mh<•irismo URSHAHABI • o barqueiro
nas armas, u abale de um monstro. um wandr di Ili- do Mundo Subterr6neo
do, o hcn1i polimlente e a incvit.abilidade d<t mone.
i\!:> IA

ENREDO
G ilgamesh era dois terços de us e um
terço hum ano. Quando c hegou ao trono
de Uruk, ele se mostrou um governante
tirânico que forçava os ho me ns d e seu
reino à escravidão e e tuprava a~ mulhe-
res. O povo o rou aos d e uses por auxilio e
An•ru, a deusa da Cliaç-ão, se comoveu.
D o barro, ela fez um homem selvagem
c ha mado Enkídu c o enviou para lutar
conD·a Gilgamesh c matá-lo. !\·Ias
qua ndo Gilgamesh soube de Enkidu, ele
simplesme nte decidiu domá-lo. Enviou- A Mesopotâmia, cujo nome significa "terra entre
lhe. prime iro, uma prosrituta sagrada de rios". era com freqOência inundada pelos rios Tigre e
Eufrates, o que tornava os barcos essenciais cl vida.
Ina.na para seduzir o selvagem e lhe
ensin ar os modos civilizados. A mulhe r chegar em U ruk, Enkidu encontrou
encontrou-se com Enkidu e o conve nceu Gilgamesh e os doi!! começaran'l a lutar.
a deixar os animais do campo e ir com Assim, eles vieram a respeitar a {orça u m
ria até Uruk. Enkidu, ansioso por do o utro e viram q ue não haveria
companheiros homens, concordou. Ao vencedor. Então pararam de lmar,
a braçaram-se e tornaram-se a migos.
UMA JANELA DO MUNDO SUBTERRANEO
Uma das tabu letas de Gilgamesh traz uma O MONSTRO HUMBABA
versão alternativa para a morte de Enkidu. In feliz mente. isso sign ificava que a cid ade
lnana faz um tambor e baquetas rituais da de U ruk agora tinha dois problemas:
madeira de uma árvore. Gilgamesh os deixa Gilgamr,~h c Enkidu. Assim, os deuses
cair no Mundo Subterrâneo, mas Enkldu se enviaram um monstro chamado
oferece para buscá·los. Gilgamesh diz para
H um baba para m atar a mbos c livrar o
ele não usar sapatos ou perfume e de forma
alguma atrair os mortos, mas Enkidu é povo. Humbaba tinha r> rosto repleto de
vaidoso demais e é logo capturado. O deus intesti nos retorcidos, hálito de fogo e ma.n-
Ea faz um buraco no chão, pelo qual o c!J1)ula~ mortífe ras, mas não se mostrou à
espírito de Enkidu a parece e descreve as altura de Gilga mesh c Enkídu, ajudados
tristes almas dos mortos. por Shamash. ó d eus-Sol. O monstro
sofi-cu golpes suet''lSivos a té m orrer.
147

O TOURO DO CÉU comportamento baruJhenw c


Zangados po• Gilgamesh mais wna \l.'Z dc~•Tgrado dm humanos, decidiram
enganar ·• mmw. 1r1 deuses decidiram dc:"1>truir m mortais num dilúvio. ;>.J a~
derrotá-lo rom um estratagema. Jnana t' IC linha sido sai\'O porque Ea, o d('uS
tentou M'd tMi-lo, mas ele a rejeitou. Ela d.1 ;ígua, o tinha visi tado num son ho e
rcdamou an dcm Anu, que enviou um dis~em-lhc para cons truir un • barco.
touro do rt•u para combater C ilga mcsh Como ~obrevive ra à tcmpcstadl', o~
c Eukidu, ma.~ eles mataram o touro c dt•us<'s cor Jcederam-lh e a vid;t etern a,
ofen·tl'ram M'u coração a Shamru.h.
En tão, Ina na d ecidiu que os d errotaria A PLANTA DA VIDA ETERNA
sozinh,t. ~ l atou Enkidu com uma lebre l 'tnapishtim di<;.-;c a Gilgamc'>h
e o enviou para ~r juntar para aceitar >eu dt'stino,
ao:, e>pÍIÍUJ\ rom as;ts de pois nada dura para
p:i.'>.'ktro n.t t <L-.., do pó, semp re, ~l ru, dt• n·velou
gO\'I'rnada pda terrível que havia uma planta
rainha d() ~lundo no fundo do lago no
Subtrrr.inm, Ere~h ki­ .Nlundo Suhtcrrimeo
gal. Gilganu·~h lkou que conlc ria a juwn-
arrasado. De· r1·prntc tude Ncrna. Assim.
com prl'l'ndt·u que Gilgamrsh vi ;~jou
tam~m mo1Tc•ria un1 até o lago c, tom a
dia. Conwçou rnt;io Utnaspishtim, de forma bem p.1recida com Noé na <yuda do barqut•iro
a J'l'lil'lÍJ t' a wbiç:u· Bíblia, sobteviveu a um grande dilúvio com a Urshanabi, mt'l),"'.l-
tamnia e foi ·a semente de todos os seres vivos".
o >eh'Tedo da lhou c encontrou a
imort.tlidadt•. planta. Dq)OÍ'> partiu para t'ruk,
e,pcrando compartilhar a pla n ta t·om
A HISTÓRIA DO DILÚVIO o p<>HJ e torn.í-lo imortal. ,\ la!> ll<l cami-
Gil!!,amesh prrguntou a Siduri, deusa uho parou num lago para se banhar t·
do\ in h o l' da sabedoria, como uma cobra m uhou e comeu a planta
enco ntrar Lflllapishtim, o sobre\~ventt• (por i~'o as rolwa~ se regeneram
do Grandl' D ilúvio(' o Ílnico humano a tmca11do a prlc). G ilgamesh voh o u a
receber a imortalidadr. Ao encontTá-lo, Uru k desolado: pe r-dera o am igo c sua
Gilganw~ h intarogou UtnapÍl;húm ún ica chance de imortalidade.
sobrl' e"~·~ fino> c ouviu o relato de
como u, dcme,, zangados com () MITOS RELACIONADOS • O Grande Dilúvio (p.134)
.\SL\

A CORTE A INANA
IIl l't·nilidad<· rt:. Diane \ \(>lk.,u·ul ,. s.,mud :'\oah Kr.lllW l', 1111111/UL O!wn
1)1 "unwria. \lt•'>t>pcH.irni.l ~/ lfrarrn tmd Fmth: S.unud :\oah Kr.unn. ~umm/Jtl
m ~um~ria. :\lt....>pol~mi.l .l{rth ·"~I!.Y

O ça<;<unemo de lnana, dt·usa do amor, com<> PERSONAGENS·CHAVE


pa:.lOr Dumuzi é uma narrativa central na
UTU • o deus·Sol
mitologia suméria, e rdata que coube à deusa lHANA • a irma de Utu,
cscul hcr rntl1' um mnrido agricultor c um pa..,lo l~ deusa da amor e do
dt'cidi ndo-sc pelo último. Acreditava-se que e~\a fertilidade
OUMUZI • o deus pastor
união sa~rada a.'>sq,'llr.t\'a a fertilidade, c. nssim,
ENKIMDU • o deus
rodos os anos ela era encenada pelo rei de l 'ruk c agricultor
'" .tltas sacerdotisa., de lnana. Em ourra versão do
mito, o nome do marido de lnana é Tamu'l..

o
O LENÇOL NUPCIAL DE INANA forneceu ao mundo a lã, o lt-ilt' to
O deus-Sol Utu receu linho pard fazer qut•ijo. enquanto E nkimdu t•nchcu os
um ll·nçolnupcial para ;,ua irmã lnana. edt·im~ de l{ràos e pmn-u farinha.
'·Qm·m ser.í o meu marido?", Inana n·rwja l' pão. D umu1i (()i o mai~
qui~ ~aber. U tu rc;,pondt•u que ela convincente c o vencedor, lll<l' lnana
dt•veria ;e casar com Dumuzi, o pastor. n:io ficou sati5fcita at(· Dulllllt.i
lnana não gostou da escolha. "O pastor comparar-se ao irmão dela, li tu. t:
u'>a roupas de lã gro'\st•iras", ela disse. endwr-l he o coraçfto de dcs<:jo.
··cu prdim o linho mario que
Enkimdu, o agricultor, planta.'' Dumuzi O CASAMENTO
e Enkimdu drsafiaram-st', t' cada um I na na cobriu-se de jóias t' uni{ÍU o
mo~trou suas aptidões. D umu/.i corpo rom óleo. e o ca~al amou->e
apah.onadamentc. lnana dru a
Dumuzi o rei nado de Uruk l' prometeu
o a poio de sua força c pocln. C{'clo
Dumuzi a deixou para assumi r o
l'Cin,,do e Inana llcou só rum '"
k ml>r ,mças de seu amor.
AS I A 149

INANA NO MUNDO SUBTERRÂNEO


!D !\Iom• I' rc~'urrei\ào: d•·"·irb m Sumhi.l ~.~ ('MJ)Xll:Unia
,lo \1 undo Suhttrr.itwo 16 Dianl' Wnlk,tl'in o: Samut>l Noah Kt~llllt'r,
111 '>umC:·ri.1. i\lcsopot<uni,l lnamta, Q:• '"r{ 1/ra:'m mtd f.mtJt

A clt'~cida de Inana ao l\l undo Subterrâneo Í' um PERSONAGENS -CHAVE


dos mi10s mesopotàmi o~ mais poderosos e lt'lll ~ido
INANA • deusa do amor e
int<·rp r'<'tada com o um rito de iniciação nos mistb 1os da fertilidade
c p od eres da feminilid ade. Seus mo Livos para ta l ERESHKIGAL • irmd de
viagt•m niiu são muito claro'>; l'ia apenas se scntt' lnana, rainha do Mundo
Subterrâneo
impdicla a ir. Lá chegando, ,. brutalmente de,pida NtNSHUBUR • serva de /nona
de tudo que pona e lhe (• caro, l ' morre. Enki a DUMUZI • marido de /nono
re-.su~ci t a, ma~ da só pock retornar ao mundo ENKI • deus da sabedoria
dos vi\·os '>t' oulra p csso<1 a substituir.

INANA CONFRONTA A MORTE Astart~ era a encarnação fenlcla de lnana e era


i\o St' prrp.trar para vi;~jar adorada no Egito, em Ugarlt e Canaã.

ao l\ lundo Suhterr;lneo, O RENASCI MENTO DE


l nana di~~r à -.cn -a INANA
:'\imhubur: " Receio Embora Ninsh uhur
en trar naquela terra rogasse aos dcu~C's, rks se
esc ura c seca. 1c nhu negaram a <\iudar l nana,
nwdu de ser ent c•-rada em qu e emrara uo Mundo
seu pó.'' Mcsmo as~i m, Subterrâneo por sua pn)pria
dt''><t'U. A cada um..1 da-. Sl'H' vomacle. Só Enki lt'H' dó. Fez
pona' da foi <;{~ndo dua-, criaruras a panir da terra
dt'-.IXljada de 'uas roupas l' sob sua.~ un has r enviou-as
jói;1.3 l' da, T ábuas do Dntino par:1 Inana com alimemo e
q ue portava, até chrgar nua t' ítt.,rua para rrssuscitá-l<t.
indcfi·sa diante do tro no dt•
Erc~hkigal , sua irmã. o~ sell' INANA SACRIFICA O MAR IDO
j uítl'~ do infe rno condenaram- (),jUÍ/.I'S do inferno 11'C'll'>illõ.\ll1-SI.' a
1M à morte e penduraram o ~~·u dei.x;tr Ina na retomar ao mundo do,
cad.tvn numa estaca. \Ívus a nwnos que alguém a '>UI.)'.tituísse
no ~ l undo Subtemi.t1ro. lnana não
O DESTINO DI OUMUZI deixou qu<' dn tomassem Nin.,huhur,
Oumuzi (conhecido pelos babilônios como nem st·us filhos Sharn e Lalal. "'l·íq lw com
Tamuz) foi condenado a ficar seis meses o mn • marido, Dumuzi'', d a diss1'. Os
do ano no Mundo Subterrâneo. Quando demônio'> partiram em busca de Dumuzi,
ele emergia, trazendo a primavera, sua qul' foi .tjudado pelo deus-sol Utu <'
irmã Geshtinana o substitufa. Sua morte e
tr..tru.formado em ..erpente. Ma.., Í'-<;<> não
ressurreição eram marcadas por rituais
que são mencionados na Bíblia (Ezequiel,
bastou. lnana rrrw;ou-se a lht' dar
8:14): "Então ele me trouxe à porta da proteção, l' os demõnios o JX'g-aram,
entrada da casa do Senhor, que estava surraram, prenderam e aJTastar:un p;u-a o
voltada para o norte; e vimos lá, sentadas, Mundo Subt<••r.lneo.
mulheres chorando por Tamuz.~
MITOS RELACIONADOS • Oeméter e Perséfone (p.54)
A DERROTA DE YAM
CD Guerras entre os d~ust·~ t6 .)nm~s B. Prit<·hard,'llle . l11ritntSrar I..Ort:
~ lJg,,rit S. H. ll nok \/1(/d{(/'À.\tml.lf_}tlw/i~I!,Y
m C'anaã. norte d.l 'iiri.t

O mito de Ugarit narra a n\'alidade "rcpdc". Baal


entre Raal, deus da fcrlilidadc, do raio c amrou t' derrubou
do trm·ão, c Yarn (o u Yam-Nahar}, deus Yn 111 com t•ssas
do~ lli<H't'S e dos rios. Eles eram os filhos armas t· ia matá-lo,
do deus <,uperior El (ou Buli El) e sua mas fo i im p<'dido pda
c,pma A'ltarté. O mito(· uma histótia miit\ A\tarté. que
\imhólica da compNi<,ào t•ntre os ali rmou estar Yam ll
podert•;, de destntiçào e rriaçào da água. partir de então sob
eu-.tódia do; deuses.
RIVALIDADE ENTRE IRMÃOS
\'am, co m ciúml' do irmão Baal. pediu
aos deuses que n l orna~~e m st•u escravo.
El e~ concordaram, 1rmrndo o poder de
Yam. l\las o deus do' ant•,ào; Kothar
O deus da fertilidade, Baal. tornou·se
ou KOlhar-u-Kha-.i, dt•u .1 Baal duas re1 dos deuses e também era conhe<ido
maça': ,\ )111Ur "impek" t' Yagrush como o "Prlncipe, Senhor da Terra".

O PALÁ.C IO DE BAAL
m Gu('rras CJlll'' "'dl'll"'S m .\ lonte Zafcm , C.m.l:i tnc>ne da Síria
Jll L'g-arit t6 J.tme- B. Pritdw'll, /lu luriml. \ror i:AJ/;
~. I L llookl', ,\/uldlr f7mtmd{!thologr

Apó-. a \ilótia sobr<' Yam (arima}, Baal e convidou todo~ o~ i n i mi~os dl' Baal.
a inuà A na l pediram aos d rusr~ li cença Quando ('slavam todos rc unidm, da
para rons1ruir um pal:ício no mome ft·chou a pona e os matou. Di1r111
Zaf(m. Kothar, o dt•u, dm .uwsàos. que o san~ue lhe che!{a\',1 athjol'lho,,
ch·-rnhou um lindo pabdo, mas Baal rnqu.mto c:uninha,·a com ,L, 1 .tlx·ças
\'l'tuu as jand<b. com nwdo que Yam dm, \Ítimas dq:>endurada' ao IX''<'OÇO.
I''Pi<t:>'ol' suas concubimL'·
Ko tha r cmào deixou ..,{J
uma janela para Baal
pnde r enviar a chuva, o-.
raio' c> trovõrs. Uma w1.,
-.ua irmã, a temÍ'v'l'l Anal,
deu lllll<~ !.,'lâllde fest,, no
IMiàdo, para a qual

Opalãclo de Baal ficava ao norte


da antiga Ugaril, agora na Sfrla,
onde as pequenas tábuas que
descrevem esses mitos foram
encontradas.
.\SI/\

BAA L, O RE I
ID Gut>rlõl' t'llU~ Os d<'th<es 1D !\tom<' Zatcm, Ca.n,,;, ,norte da Síria)
r.u L -~·trit 6 J am<'s B. Plitl'hard, Tltf Ancimt . \ 'far ÜJJI:
S. 11. J ltlOkt·, .l fu/dlf F.1111rm ,I [rtholog)'

Dt·poi~ ele :mpcrar o tiva l e irmão, n deus do mar PE RS ONAGE NS-CHAVE


Yam VJ. /50, Baa l proclamou a sua an ·rsi'ío ao dc·us
BAAL • deus da fertilidade
da morte. :\lot . o novo fiworito do drus maior El. ANAT • irmã de Baal, deusa
Ele dcdamu qu<· não mais honraria i\Iot. l\ la~ o da amar e da gue"a
recado que :\lot cm;ou como rt''po"ta , n~jo comeú- MOT • deus da morte e da
esterilidade
d o infi·liznwme (· de~onhecido, foi tão imimidador
El • deus superior
que dobrou a rt·,istl-ncia de Baal. Pouco tempo SHAPASH • deusa-Sol
depoi.,, Baal morrru, e foi preciso que sua irmã i\nat
U\'CSSe a cot~lgcm de derrotar ~ lot p:1ra tx·s~uscit;\-lo.

ENREDO
A PROVOCAÇÃO DE BAAL~ PUNIDA
";\'ão honran·i i\ lot, por mais qur El o
ame", Ra.1l dcdarou. i\ las .\·1ot prn~ou:
" Eu sotinho ~m·ernarei homens r
dt'tN''....' ''im . .\ lot e miou mensa-
geiro, p.u·a Baal. com um recado tão
terrhd qut• t•k '<' declarou escra\·o de
,\ lot para !>tmpre.

SECA E FOME
Quando Baal morreu , n grnndc deus El
o pramt·ou <' ~Wl irmã CLI!Tegou seu
corpo au'• o monte Zafi1u para t·merrá-lo.
Por st'll' ant>:i LI.! a i ficou morto.
Fomrn ano~ tk ..eca e lome. pois 1\ lol
em o "·nhor d.t arida terra da morte.
Por fim .. \nat, enrai\ecida, foi
procur.u o wrpo do Ínll<tO. Q wmdo
~ lot '><' htll!J:Ioti.l ck t~·-lo devorado.
, \ Jl<ll u,,, <l t·,pacla pam crifá-lo,
corta-o t•m ped.u;o.,, penei m-o.
qurima-o <'o l tÍIIII'a ua moenda;
depoi!>. ~<'li leia-o pt'111s campos.

O RETORNO DE BAAL
Baal n·tornou ~~\ ida, rnas 1\lot
também 1<'11<\\!'t'll, t' logo <L~ briga'
recome~,,,r,lm. Acabaram ~endo
contido' p<lr Shapa,h, a dcusa~">ol, que·
os con\tnteu a toman·m reino>
Quando EI soube que Baal morrera. deixou ~eu
'><'parado,, um mundos tt•rreno e trono para homenageá·lo. Derramou pó sobre sua
subt(•rdtu•o. cab~ça e corlou suas bochechas com uma pedra.
152 ÁS lA

O DEUS DESAPARECIDO
IIl Fcrr.ilidadt· 16 Jamcs B. Pritch<u·d, 17lf, lnriml .!I'Mr Eost;
ltf (;ultura bitila, Anatólin S.H. Hookt, i\tl~ldl~ Eastem M)'Uwlogy
m Anatólia, Oriemc Médio

1elepino, o deus da agricultura e da não queimavam, as vacas c as oveU1as


fertilidade, lin ha nm péssimo humor. abandonaram as crias, o grão não
Ceno dia, teve um acesso de fluía germinava, as fomes secaram e as
incontrolávf'l. "Ninguém pode interferir pessoas pararam de procriar.
no meu reino!", gritou. Ficou tão
agitado q ue calçou o sapato direito no O FIM DA FÚRIA
pf <'squcrdo, e vice-versa. A segui•; A deusa-mãe H anna.hanna mandou sua
começou a caminhar e se perdeu na abelha localizar Telepino e fe n·oar-lhc
rsLrpc. Sem Telepino, as achas no fogão mãos e pés, para trazê-lo de volta a si.
Isso só o deixou mais l'urioso c
dest.rulivo. En.fim, a deusa da cura,
Kamrusepa, com a ajuda de um Jitual
com asa de águia, feito por humanos,
conseguiu al iviar-lhe a fú ri a e
red irecioná-la ao Mundo I nfe rior. O
guardião do Mundo Inferior abri u as
sete portas, c a ira de Telepino
desapareceu no escuro do qual nada
rctorna. A fertilidade do r.nundo fora
restaurada.

A DERROTA DO DRAGÃO
CD DC'u!i contra <> monstro; m
Kiskilnssa, Anatólia
deusc~ c mortais 6 S.H. Hookc, Mir.kllt Eos~ITI ,\tlylhiJIIJgl';
ill CuJLUm hilita; Anatiltia Gary Brdan.m, 7lu Allalblimt Myth qf llluyank4

Certa vez. o deus da tempestade prrnde u o dragão com cordas, e Teshub


Teshub travou uma feroz batalha contra então o matou.
o grande dragão flluyanka. Teshub foi
dcrror.ado pelo dragão e pediu ~j uda A DEUSA E O HOMEM
aos out.Tos deuses. Apenas sua filha Inara construiu uma casa para ela e
Inara se apresentou, pondo-se a Hupasiya, avisando-o de que deveria
preparar uma armadilha para o dragão. ignorar a esposa e os filhos, caso os
Pediu a um mo rtal, Hupasiya, para visse. Como não o conseguiu, ele pediu
'1iudá-los, e ele concordou, sob a a l nara pa ra de ixá-lo voltar. l\'ào fica
condição de que ela dormisse com ele. rlaro se a deusa o deixa partir, mas, de
Assim foi, c os Lrês foram à cova do faLO, ela deu sua casa para o rei, que
dragão. Lá Inara encheu alguns tonéis organizou o festival de Purulli, no qual
com álcool c, usando sua beleza, alr<Liu esLe miLO é encenado.
o dragão, que bebeu o álcool. Hupasiya
AS lA 153

OS DEUSES TERR1VEIS
IIl Gl1erra~ l"nlrc.' O$ deuses tlb S.H. Hooke, tlliddk
lU hw·rita c hitita, Anatólia
Cultura~ E(/Jw n A(ytlwfJJgJ'
m Alta SJria e Mesupocàmia

Uma coletân<>a de m itos h uni tas e hititas narra uma PERSO NAGE NS-CHAVE
série d e batalhas cmre p ais c filhos. l niciaJmcntc, o
ANU • deus do céu
filho de Alalu, Anu, usurpou se u lugar. A nu, por sua KUMARBt • filho de Anu
vez, foi atacado pelo fiU1o KLtma rbi, q ue então cuspiu ULLIKUMMt • um gigante,
três deu~es, indusiv<> o deus da tempestade "l t'shub. filho de Kumarbi
Para se opor a Tcshub. Kumarbi criou Ullikummi, o TESHUB • deus da tempestade
UBELLURI • o deus que
gigan te, que foi finalmente derrotado pela sahedmia segura o mundo
do d eus Ea (evidência do débiw cultural desses povos EA • deus da sabedoria
para com a nútologia ba bilônica).

Na esperança de vencer destrui<;ào do mw1do e, em


Teshub, o deus da visita a Ubellu•-i, disse-lhe
tempestade. Kumarbi para olhar por sobre o
ge ro u Ullikummi, um ombro a fim d(' ver a sua
gigume. Kumarbi d isse ao nova c monstruosa carga.
giga nte para se se mar no
ombro direito de Ubelluri, A QUEDA DO GIGANTE
o deus que segura a Tr rra, Com a mesma faca de
e depois to m ar-se um pilar cobre, antes usada para
enorme de rocha separar a Tcrra do Céu ,
inquebra ntável. Para o Os touros se enfrentam usando os Ea soltou os pés de
temor dos dcuses, chifres, síml>olo do conflito entre as Ullikummi, e então
llikummi crgur u-sr até divindades hítilas narrado acima. Teshub o atacou com
o céu c arrebatou a rsposa de Teshub, suas armas, os raios e os trovões.
Hebat, de seu tr mplo. Ela se qu eixou ao Enfraquecido, Ullikummi ainda se
marido, que buscou o auxílio de Ea, o gabava de que derrotaria Teshub para
deus ela sabedoria . Ea pe•-gu ntou aos governar o mundo, quando o deus da
deuses por q ue cst.avam permitindo a tempestade finalmente o matou.

MITOS RELACIONADOS •
Pouco se sabia a respeito da cultura e história
dos hitrtas até 1906-7, quando foram encon·
tradas mais de 10 mil pequenas tábuas de
argila nas ruínas de Hatusa (agora Bogazkoy),
na Turquia, com inscrições sobre a mitologia
hurrita e hitita. Muitas estavam quebradas e,
portanto, os mitos que herdamos são frag-
mentos. No centro de Hatusa estão as ruínas
do enorme complexo do templo principal, em
que o rei hitita prestava homenagem aos
deuses, na esperanç<1 de que fossem
favoráveis ao seu império e ao seu povo.
154 ÁS IA

O SÁBlO SENHOR
lll Crias<lo; bem t• mal: m Pérsia
o fim do rnundo r6 Mary Boycc. Tt.rllllll Soura.r.for tllt Stut!J
llJ Pérsia o/ ,?oroaslrimlism; R. C. Zachner, Zui'V(m

O zoroastrismo foi uma religião da an tiga Pérsia PERSONAGENS · CHAVE


prf-islâmica fundada pelo profe ta Zoroastro no
ZURVAN • o ser primitivo
séc. V 1 a.C. A língua persa era próxima à que e ra AHURA MAZDA • o criador e
usada no norte da Índia, c os e nsinamentos ele sábio senhor
Zoroastro estão con tidos nos textos sagrados indo- AHRI MAN • o espfrito
destruidor
iranianos Avesta e Calha. Eles contêm a história
MASHYA AND MASHYOI • os
arqueúp ica ela luta entre o be m e o mal, qt1e será pais da humanidade
resolvida apenas pelo surgimento do salvad 01; SAOSHYANT • o salvador
Saoshiant, t: pelo fim do~ tempos.

F.NRF.OO

O VAZIO PRIMITIVO OS G ~MEOS


No vazio p1i mitivo existia apenas o ci<'us Ainda duran te a gestação e, Zurvan
Zurvan (Tempo), uma divindade andró- pr<'viu que o p rimeiro filho a nascer
gina. Zun'l!n dest:java muito rcr um filho governaria o mundo. Ao saber disso, um
c ofereceu sacrificar mil anos a fim ele dos gÇmcos, Ahura ?vfazda, contou o
c1iar um. Entretanto, conforme o tempo lato a seu tenívcl irmão, Ahriman, q ue
se aproximava elo fim, el<' começou a então forçou o caminho para nascrr
duvidar de seu poder de criação. Então, primeiro. E le disse a Zuwan: "Sou
concebeu gêmeos, um nascido da dúvida Ahura ?vlazda, seu primeim lilh o."
e ouU'O nasddo do otimismo. .Nfas Zurvan não se deixou enganar:
"Ele é leve e cheiroso, mas você é
Mitra era o deus persa da luz.
que mantinha a ordem cósmica. escul'O e fétido." E chorou.
Alguns dizem que ele era filho
de Ahura Mazda. o criador A CRIAÇÃO
do mundo.
Ahura Mazela. o sábio c co-
nhecedor ele tudo, fez o Sol,
a Lua, as es1relas e a Boa
Mente que alua no homem
e em toda a Criação.
Ahriman o atacou com
demônios, mas Ahura
Mazda o baniu para ru;
trevas. Então, Ah u ra Mazela
criou o ptimeiro homem,
Gayoman, c o mundo
reria sido perfeito se o
malvado Ahriman não se
tivesse precipitadodo do
céu numa explosão de
fogo, trazendo cnnsigü a
fome, as doença~. a dor,
a llLxúr-ia t: a morte.
O Imperador persa Dario I, construtor da
magnífica capítal Persépolis, era um adorador
fervoroso de Ahura Mazda. Sob Dario e seus
descendentes. Q zoroastrismo se tomou a
religião oficial do enorme império aquemênida.

Ele corrompia tudo o que locava e se e vai permanecer no mundo espalhando


alegrava com isso. 'r\ minha viLó1·ia é o mal até o fim dos tempos. Ah ura
perfeita'', exultava. "Eu contaminei o :\lazda là.z o que pode para eomr-lo çom
mundo com Sl!jei ra e f'snuidão e disso fi7 a <\iuda dos ~~·te drusc~. inclusive Mitra, o
a minha l(wça. Scqu<'i a Terra, para que deus-Sol, que dizem ser seu filho.
as plantas morram, e enn:nenei
Gayomat1. que 111orrcrii." A APARIÇÃO DO SALVADOR
Perto do (i.m elos tempos, surgirá o sal-
INFERNO NA TERRA vador Saoshi<ml. que preparará o mun-
De lato, Gayomart morreu, mas de sua do para se r reCJiado e ;~judan'• Ahura
scmem<' Ahura ~1azda criou a mãe e u Ma..:da a drstruir Ahriman. Os hom~:ns
pai da humanidade: Ma~hya c Mashyoi. vão se rornar cada \'CZ mais puros, até
Todos os humanos df~~ccnckm deles c que, srm necessidade ele comida e bebi-
nascem bons, mas Ahura ~·1azda os deixa ela, sob•·evin-rão <tpena,. ele a r. Ahura
Liwes para <'scolher entre o bem e o mal. ~ l azd:~ ban ir;) Ahri rmut da c•iação, o
Ahura Mazela não conseguiu den·otm· trmpo se cxt.ing'uirá r o mundo \..ome-
Ahrirnan, e. ft~~Ílll , estabelcn·u um limite çará novamcme, mas dessa \'('Z será per-
de tempo e prendeu Ahriman dcmro da lei to. Saoshiant ressuscitará os mmtos,
C •iaçào. Ahriman não conseguiu escapar e Ahum Mazela unir:\ o corpo à alma.
ÁSI A

O NASCIMENTO DE BRAHMA
lll Origem do cosmo
~ Índia
m O cosmo

Na a ntiga mitologia hindu, há um deus supr·emo PERSONAGENS- CHAVE


chamado Prajapa ti, senhor do universo, uma
PRAJAPATI • o senhor do
divindade eterna e não-concebida q ue existe a n tes universo
de tudo o mais. É Prajap ali que ilúcia o processo BRAHMA • o criador, o
dr Criaç:ão do cosmo, tra7.cndo Bra hma, o deus primeiro deus da Trimurti
(o trindade de deuses
criador, à existê ncia. Em outros mitos (p. 157), supremos)
Praj apati se mescla com Bra hma, que é uma das
três mais poderosas divin dades hindus, junto com
Vishnu (o preserv ado r) e Shiva (o destruido r}.

NASCIDO DO LÓTUS
Enquanto Prqjapati, o senhor do
unive rso, meditava, uma semente surgiu
em seu umbigo. Uma planta de lótus
brotou da scmc·me c, ao crescer; !oi
sendo banhada por uma luz brilhante.
Brahma nasce u desse lótus e da lu7. que
o circundava. A luz se espalhou pelo
cosmo. e com ela Brahma. que se
tornou a~si m a essência de todas as O CISNE COMO VEÍCULO
coisas c do poder nelas contido. U m cisne d ivino serve como veículo a
Bra hma também se tornou a essência Brahma. A ave tem a rapacidade mágica
do tempo um único dia de sua vida de disLinguir; quando mistu rados, o leite
dura quatro bilhões c 320 milhões de puro da água. Da mesma for ma,
anos humanos. Quando esses anos devemos ver que o hem c o mal estão
tiverem passado, o ciclo da C riação mesclados no nosso uni verso e aprender
recomeçará e se iniciará uma nova era a separá-los, mantendo o que importa e
do cosmo. livrando-nos do que não é importante.

Acredita-se que a morada dos deuses hindus


seja no monte Meru, montanha dourada no cen·
tro do mundo. Segundo relatos antigos, lndra,
o deus do céu, construiu esse paraíso no topo da
montanha; por versões mais recentes, lá está o
palácio de Brahma, com os de Vishnu, Krishna e
outros deuses mais abaixo. A montanha repousa
sobre sete mundos inferiores, sustentados pela
grande serpente Vasukisupported.

Oilem que as torres elevadas dos templos


hindus representam o majestoso monte Meru,
em cujo sopé fica o Himalaia.
ÁS Ti\ 157

BRAHMA CRIA O COSMO


IIl Criação lb Rig l rda
~ Índia
m O cosmo

A mito logia hindu, uma elas mais antigas c diversi- PERSONAGENS-CHAVE


ficadas do mundo. possui vários mitos sobre a
BRAHMA • o criador, o
Criação. Num deles, um carpinteiro divino constrói primeiro deus de Trimurti
o universo e tudo que ele contém. Em outros, um A AURORA • a filha de
deus c uma deusa primitivos geram as outras Brahma
A NOITE • a ignorância de
divindades. Nlas o mito mais comum envolve o deus
Brahma
criador Brahma (ou Prajapati}, que usa uutto seu
poder meditativo quanto a sua sexualidade pa ra
criar tudo, do alvorecer até as plautas e os homens.

MEDITAÇÃO DE BRAHMA primeiros seres de cada espécie animal


No princípio, Brahma conrcmplou o no planeta. Quando a Criação se
cosmo, que não era nada aJt~m de um completou, Brahma foi morar no cimo
caos ITvolto c disforme. Conrormc do monte 1\llcru, embora digam que
Brahma meditava, o cosmo começou a ele tambfm está em toda a parte. Ele
tomar forma; a ordem começou a se cominua a mf'ditar para dar força
definir a panir do caos. Mas o criador ao universo.
percebeu que ele ainda não sabia como
st'ria o universo, e sua própria
ignorância tomou a forma de um ser
escuro, que Brahma, desapon tado,
afastou. Este ser tornou-se a Noite.
Dizem ainda que enquanto continuava
a meditar Brahma deu odgem a uma
sucess~lO de ou tros seres, das estrelas aos
deuses, não sem antes gerar uma bela
filha, a Aurom.

OS DESCENDENTES DE BRAHMA
Assim que viu a bela Aurora, Brahma
desejou-a. Tento u possuí-la, mas ela se
transformou numa corça. Brahma
então se transformou em cetvo.
Seg-undo uma versão da história, a
filha de Brahma ainda assim não
conscmiu no acasa.lamcnto; r ir
espalhou no chão o seu sêmen e este
deu 01i.gem ao primeiro homem e à
primeira mulher. Em outra versão do
mito, o casal copulou vát·ias ve7.eS e
Deuses e outros ~rsonagens da mitologia hindu
mudo u constantemente ck forma para num templo na Índia. A maioria dos deuses vedas
que seus lllhos se tornaSSl'm os antig·os simbolizava as forças naturais.
ASI!\

A FONTE DA FORÇA DE SHIVA


CO Gne rra entre os deuses .6 Mahahhnrofa (ur l<tmhém p.i68 9)
IV fndiu
IIl O cosmo

Segundo cletL~ ela Trimm·ti h.indu, ou trindade de PERSONAGENS ·CHAVE


deuses, Shiva é tido com o "o destruidor". Se u
BRAHMA • o críodor, o
poder d estrutivo é equilibrad o pelo de criação, primeiro deus da Trimurti
assim como sua dança selvagem é contrabalançada SHIVA • o destruidor, o
pelo amor à mediLação, e seu julgamento rápido segunda deus da Trimurtii
UM GRUPO DE DEMÔNIOS
pela m isericórdia. Shi va sempre teve grand e l()rça
e muita~ armas, mas aumentava seu poder enga-
n<Ulclo os outros deuses quand o e les estavam sob o
ataque- de d emônios e preósavam de sua ~j uda.

ENREDO
OS DEUSES CON TRA OS DEMÔNIOS tito pQ{Ierosa, capaz de destrui r ta.is
Um grupo dr demônios, ávidos de fortalezas. Os demônios mmbém tinham
pode-r, convrnrcu Brahma a lhes dar u·(·s ciência disso e Jogo começaram a atacar
dos mais forúllcados castelos já os deuses. Sh.iva. o destru.idor. era o malli
construídos. Eles só poderiam ser forte dentre os deuses, e, assim. as o utras
tomados por um dcw;, usando apenas divi ndades pediram a sua ajuda. Ele lhes
uma Occha. Assim qur os demônios emprestOu m etade de sua força. o que
ocu param os castelos, os druses percebe- não (i.mcionou. Para ser uma arma
ram que ne-nh um deles tinha uma flecha eficaz, a força precisa ser equilibrada
pelo controle, e nenhum dos omros
Adoradores fazem oferendas votivas durante o
festival Shivaratri, a comemoração mais deuses era capaz de con trolar seq uer
importante no calendário hindu. metade da força de Shiva

ESTRATAGEMA DE SHIVA
Por i~o, Shiva elaborou um plano dife-
rente. Se os druscs un issem ;,uas forças
c depois lhe rmpresLasscm metadr
dela, ele ficaria muito mais forte e
ainda seria capaz de controlar
essa força enorme. Assim eles
derrotariam os demônios. Os
deuses concordaram, c- Shiva
conceno'Ou toda aquela n ova
força, atirando uma única
necha, que derrotou os
demônios. Finda a guerra.
os deuses pediram ~ua~
forças d<" volta, o qut
Shiva n~cusou. Tornara-
.ÁSIA 159

SHIVA E DAKSHA
IIl Amorc;, c guerras entre o~ deust>s
lU Índia
m o cosmo

Um dos mais famosos mitos sobre Shiva está PERSONAGENS-CHAVE


relacionado à inimizade com a família de Bra hma .
BRAHMA • o criador, o
Tudo começou quando Shiva cortou uma das primeiro deus do Trimurti
cabeças de Brahma e fo i banido do céu. A seguir, ele SHIVA • o destruidor, o
criou problemas para D aksha, o filho de Brahma, e segundo deus da Trimurtl
VISHNU • o preservador, o
forçou o seu casamento com a fi lha de D aksha.
terceiro deus da Trimurti
Longe de rrazer a reconciliação, o casamento piorou DAKSHA • filho de Brahma
o mau relacionamento entre eles. Apenas a SATI • filha de Oaksha
intetvençào de Vishnu evitou a tragédia.

ENREDO
O ESTRATAGEMA DE SHIVA no céu c, quando elt-~ a
Quando Shiva cortou trouxeram de vo lta, Shiva
uma das cabeças de dançou o Ta.ndav - a
Brahma. os o uu·os dança da morte - com
de uses baniram-no o corpo de la. O
do céu . Então, o bjetivo dessa dança
quando D a ksha era trazer o fim elo
organizo u a fCsta de cosmos e Shiva,
noivado a fil ha Sati, de-.;do à intensa do r
Shiva não foi pela perda da esposa,
convidado. :\o au11;e a executava antes do
da festa, Daksha pediu tempo cen o.
a Sati para jogar a
!,rtti rlanda e conhecer o
marido escolhido dentre
os deuses reunidos. Os deuses llcaram
Quando Sati lançou-a Shiva dança para a destruição cósmica muiw preocupados. e
no ar, Shiva aparccf'u rodeado de fogo e batendo o pé sobre Vishnu (o pn:seivador).
um pequeno hornem, que representa a
e a arrebatou. Assim, ignorância
ao ver o qut: acontecia,
pa ra desgosto de in tcrleriu. Fez a esposa
Da ksha, os dois Li\'(~ ram de casar, mas de Shiva renascer como PatvaLi. uma
Shiva e de cominuaram as brigas. deusa aiuda mais bela q ue Sati e
esposa p('J'ICita.
MORTE E DESTRUIÇÃO Rrcupf'l'ada a esposa, Shiva decidiu
Sati odiava a dispu ta entre Shiva e reaver a vida de Daksha, mas
Da ksha e senlia-se cada vez mai~ descobriu que não poderia devolver ao
infeliz. finalmente, como os do is sogro a sua cabeça. pois os demônios a
continuavam a se insultar. ria se jogou unham roubado. E IHàO usou a cabeça
no fogo sacrilicial. Shiva culpou ele um bode, a rriawra ma is à mão.
Daksha e o atacou furioso, cortando- Isto tampouco ajudou a que Daksha
lhe a ca beça. Depois, mandou os passasse a apreciar Shiva, c elrs
demônios procurat·cm o corpo de Sar i permaneceram inimigos para sempre.
160 ÁSIA

A DEUSA GENTIL
ID Amores dos deuses ~ Marlwul~;·n Purana
flJ Índia
m Münu.: .\Jt·ru

Assim como os muitos deuses hindus são aspectos de PERSONAGENS -CHAVE


uma única verdade absoluta a (Bmlmzan), al.Sim também SHIVA • o destruidor
todas as deusas se condensam em apenas uma figura, a PARVATI • a grande·deusa
da grande-deusa Devi. Nos seus vários papéis, ela (também conhecida como
Devi, Sati, Uma e
twnbém é conhecida como a pacifica deusa-mãe Uma
/ogadgouri)
c a brilhantejagadgawi (Luz do munclo).Todavia é SKANOA • filho de Sh/vo
mais conl1ccida como Parva6, esposa de hiva, a deusa GANESHA • filho de Parvo ti
quf' equilibra o caráter destrutivo do marido com sua
nalure"-a doce, trazendo paz c harmonia ao mundo.

A ESPOSA DE SHIVA surgiu para derrotar


Qpando Sati, a primeira 1àraka, um demônio que
esposa de Shiva, imolou- amcaç.ava destruir o
se (p. 159), ela reencarnou mundo. Sua coragem foi
na forma da gentil recompensada pelos
Parvati. O relaciona- deuses, que o aceiL<tnllll
mento do casal nem como seu general, e por
sempre loi fácil, devido ao Parvati. que o reroJLhecnt
temperamrnto dr Shiva c: como ftlho.
ao jeito b1incalhão de:
Parvati. Crna vez, Parvati GANESHA,
cobriu os olhos de Shiva O DEUS·
com suas mãos, mas este ELEFANTE
simples gesto trouxe a O nascimcmo
csctnidào ao mundo t> Parvatie Siva símbollzam 0 poder do outro filho de
drixou furioso o malido da felicidade coníugal e o seu poten· Parva ti, Cancsha,
que rapidamente fez cial como uma força civilizadora. também foi
outro olho aparecer no mrio da testa. incomum. Descj<mdo um Glho para
Outros mitos comam como Parvati protegê-la, a deusa, enquanto se
certa vez irritou Shiva por ter adorme- banhava, <·li ou-o do ólro do
ciclo enquanto ele U1e explicava as escri- banho e dr esc-aras de seu rorpo.
rura~, r como o casal brigou por causa Então, agindo c.omo protetor
de um jogo de dados. :\ifas a esposa de de Parvati, Ganesha impediu
Shiva gt·ralmeme conseguia acalmá-lo. Shiva de enu·..1r no quarto da
esposa, e em um acesso de fu1ia o
SKANDA, O MATADOR DE DEMÔNIOS deus cortou-lhe a cabeça. Parva6 ficou
Os deuses, a temer que os lllhos dr Shiva desolada, c Shiva ent.'io substituiu a
e P:uvati pude!>Sem ser terrivelmente antiga cabeça pela que estava mais à )"'
poderosos, interromperam o casal mão: a de um elefante. Desde então, ~~,
durante o ato amoroso, e o sêmen de Ganesha tem a t:abeça do animal e,
Shivajorrou no Ganges, onde fecundou. como deus, é sempr·e invocado como
N<t~ccu Skanda, o deus da gurn-a, que o ''rrmovedor dr obslárulos".
AS l A 161

DURGA, A GUERRE I RA
IIl Guerra entre os dcusc~ t6 Markand~_,(l I\Jrmu1
lU Índia
m Ü CO\ffiO

Em seu papel de guerreira, a grande-deusa Ü C\i é PERSONAGENS -C HAVE


conhecida como D urga (a Inacessível). Sob essa DURGA • a inacessfvel (uma
forma, comanda o poder cósmico, personificando dos formos do grande·
toda a energia guerreira do universo num ser mais deusa)
aterrador q ue qualquer nutro deus. Na maior parte DURGA • o reí·dem6nio

do tempo ela parece calma c serena. mas Durga


consegue se tranSformar, usar qualquer arma, e
mesmo tornar-se um exército poderoso a fim de
livrar o mundo dos demônios mais ameaçadores.

ENREDo.....__
DURGA E OS DEMÔNIOS
FORMAS DE DEVI
Durga derrotou muitos demôniol>. Um
do~ mais terríveis foi um rei-demônio
A grande·deusa tem várias formas
benéficas que são populares na rndia,
curiosamente também chamado Durga - ,
especialmente entre as devotas femininas.
que tinha conqui~tado tOdo o cosmo e Como a deusa do rio mais sagrado desse
expulsado os deuses de seus palácios. subcontinente, ela é Ganga e abençoa
todos os que se banham no Ganges.
Os dançarinos se alinham para representar uma das
muitas faces de Durga, desenvolvendo uma infi· Como esposa de Brahma, ela é chamada
nldade de braços para combater Sarasvati, criadora do sânscrito e deusa
um demônio. das artes e dos idiomas. Talvez a mais
popular de todas as suas formas seja
Lakshmi, deusa da boa fortuna, que
dizem trazer prosperidade a todos

Em desespero eles pediram o auxílio


de D urga, oferecendo-lhe
suas forças e várias arma~.
Ela combateu o demônio
sozinha. enfrentando seus
t'xércitos de milhõe~, com-
postos por cavaleiros, aurigas,
guerreiros montados em elefantes
c pela infantaria, transfornaan-
do-se por sua vez em outro
<'M~rcito de milhões e dizi-
mando as hostes do demônio.
A seguir, ela o enfrentou
num combate singular,
desenvolvendo mil braços
e conseguindo derru-
bá-lo e esfaqueá-lo
até a morte.
t62 ÁS li\

OS AVATARES DE VISHNU
Vishnu, o protetm; r o tCfCeiro deus da trindade hindu. MilOs primi-
tivos afir mam que ele participou da criação do mundo. Um conta
como um lótus contendo Brahma cresce do seu umbigo; outro, como
três passada~ suas definiram os mundos dos homens e dos deuses.
Os mitos mais famo!>os descrevem St'us dcz avatares, as formas sob
as quais ele vem à Terra para protegê-la do perigo e do mal.

PROTETORES E Mandara nas cost..'ls,


GUERREIROS quando os <kusrs
Q ;, avatares são ror- agitaram o oceano
mas tem:nas do drus para prodUJ:ir o eli-
V'IShnu. Em seus trt~ xir da vida. Como
primeiros aV"atart'S, ele Varana, o javali,
visitou a 1erra. para ergueu a ·Lerra
proteger o mw1do de uma acima da á1,rua, para
série de desastres naturais. que ela sobrevivesse a
Como Matsia, o Vishnu cerc.do de avatares
ourra inundação. Os
peixe, ele avisou Manu, dentro de uma Ror de 161us: alusão três avatarcs scguimes,
o primeiro homem, do ao nascimento de Brahma (p.rs6). Narasirnha (o hornern-
C rande Dilúvio, para lcâo), Vamana (o anão)
que Manu pudesse construir um r Parashu rama (o brâmane), salvaram
barco e sobreviver. Como Ku rma, a o mundo derrotando vários inimigos,
tartaruga, V!Shnu tomou o monte inclusive demônios e guerreiros.
ÁSIA

Vlshnu, o deus supremo e


preservador da Terra, deleita·
se com a música tocada por
um dos m6sico~ reais.

OS AVATARES
MfSTICOS
Os dois último~ avata-
rcs de Vishnu ttrn um
aspecto mais espiritual.
O p rimeiro f Buda, o
grande líder religioso c
RAMA E KRISHNA mestn', que abandonou uma vida de
O ..i-timo avatar, Rama, 1>Srnhor, é um riquc:tas e privilégios para <'nrontrar
do~ ma.ion-s heróis da nútología hindu, a satisfação espiritual. Ele mostra às
um 1-,rut•rreiro que del>trói o cruel rei de pessoas o caminho para a ilumina-
I ~mka. Sua lústórizt é narrada no gran- ção, e, rsprrto, engana os ma lfrito r'<'S
de tpico hindu, o Rnmqyana (jl/64-7). para qut' eles sejam pun idos.
Em seguida. \ti.shnu vcio à 'lhra como O último avatar ainda não surgiu.
Kri~hna, destinado a derrotar<>'> demô- Seu nome é Kalkin. Dizem que ele
niO'> do mal e adorado como um deus.. apaf'Ccerá montado num cavalo
Krishna também é famo-o pelas branco, banirá o mal e dará início a
amantes, especialmente a fiel Radha, uma nova idade do ouro.
Ctúa veneração é vista como um exem-
Quando o mundo foi criado, uma serpente
plo perfeito de como wn adorador enorme. chamada Shesha. surgiu da âgua e se
deveria amar a um deus. tornou o lugar predileto de repouso de Vlshnu.
ÁSIA

"Um dia durou a batalha, mas infinitas


foram as histórias a narrar. .. "
ORamayana
AS IA 165

0 RAMAYANA
IIl Aw ntur,\\ de- heróis
lll Índia
m fndi.•. Sri l.anka
6 0Rflmtmma

Um dos dois grandes épicos hindtL\, o Ramayana é


um por•ma dr· mais de 50 mil ~nh as, e~crit o t·m
~ân~crito C' l\1111pil,tdu pu1 vulta LI~: 200 a.C. Diz!'lll
que foi o bra do poeta Valmiki, que n·un iu mui to~
mito~ t' pcrsona~cn~ d iferentes al~um da tradição
oral t' outro\ de escritos anteriorC's. l' Omo O'> l i'da1 e As aventuras d@Rama, a ~tíma
encarnação de Vishnu. s.1o o tema
os moldou num \Ô.
do êpico Romayono. Ao lado. esta
O Rimll!vana narra a vida terrena de Rama, o '>étimo retratado o guerreiro-macaco
avatar do dt·us \í~hnu p.i62-3. Cada um du~ '>t' te Hanuman, um importanl@ aliado
de Rama nessa busca para
livro~ de poemas foca um aspecto da vida dt· Rama, socorrer a esposa das garras do
mas a história rentral é a de seu amor 1x·la bela e malvado gigante Ravana.
virtuosa prinn·s:-~ Sita. Inclui seu rapto pelo dmtôn io
Ravana t• Sl'll n·sgate, quando Rama o dtrTo ta.

UM DEUS COM FALHAS HUMANAS


Os pcr~onagens p rincipais d esta narralÍ\".t "«i o todos
exemplos 1x·rfeitos dt• virtude. Ma~ wmu todos os
heróis rmú~ inlen-s.<;<uucs. Ram a tem seus dd(·itos.
SclL\ eiúmcs infundados e sua desconfiança de Sita

são o f<Ku de a]J.,rtrns dos acontecinwntos prinripai, da


narrativa. l•: k lt•ndc a ser preten.sioso t', à;, \t'll'~.
preorupa-'>r mais com a aparência qu<· com a sua PERSONAGENS-CHAVE
própria fc·liridack- c ll de Sita. A pena.~ no fim do RAMA • o s~timo ovotor de
poema, quan do sc reún e co m Sita 110 céu, t• lt• Vishnu
ron1p1'1:1'11Ck ltHalmcntc sua c-oncli~·ão como dnrs e o SITA • esposo de Roma
lAKSHMAN • irmão de Ramo
valor vndmlt•iro de seu relacionamt•ntoçom a t'~f.XIsa.
SURPAHAKHA • um dem6nio
C:ondit.t•nte com sua natureza tanLo cl1· awutura fêmea
quanto dl' obra dl' !>triedade moral, o Ramayana tem RAVANA o irmão de
uma import:mcia rnorrnc para o hinduísmo. Rama Surponokho, um dem6nio
SUGRIVA o rei das macacos
é amplanwntt' n·,,wimdo con10 o marido que,
HANUMAH o um herói·
diferentrm\'ntc de ta mos outros druses hindus, macaco
permanerr fiel a apt•na~ uma e~posa.
t66 ÁS IA

INREDO
Ram a era o filho mai., ve lho do rei
HANUMAN, O GENEitAL·..;,;M,;;,ACA
;,;;,;,C;,;O;...._~
Da~harata de Ayodhya. Ele crt·scia fel iz
na corte do pai, mas, quando jovem, O macaco Hanum an, uma mistura de
herói e trapaceiro, é um dos persona·
' iajou parda con e do rci.Janaka. onde
gens mais populares do Ramoyono, em
con ht'ce u a fil ha do rei. Sita, e se apai-
parte por sua devoção a Rama. Ele
xonou por ela. O rrij anaka o rganizou encontra ervas medicinais quando Rama
uma competição de :uro-e-flecha para se fere e em determinado ponto abre sua
ajudar Si ta a escolher um marido e pele para revelar Rama e Si ta assentados
Rama vence u. Ele foi o único que con- em seu coração. Hanuman também é
seguiu l'rgucr o pesado arco, uma ann a admirado porque consegue fazer o
qtw lora do deus Shiva . Ram a pediu a feitiço virar contra o fei ti ceiro. Quando o
demônio Ravana coloca fogo em sua
mão da noiva. ~o início, o casamento
cauda, ele sacode o rabo, incendiando a
li1i um mar de rosas e de ftli<idade. fortaleza de Ravana e a cidade de Lanka.

"VERDAD EIRAMENTE Q1J IETA EM ATOS


E PALAVRAS. SITA. EM SEU SILEN C IOSO
SOFR1M ENTO . LAM ENTA A AUSÊNC IA
DE SEU SEN HO R.''
ORomoyona

O RAPTO OA ESPOSA OE RAMA ~i t u açào, Surpanakha lo i rerlarnar com


i\ pós algum tempo. se m motivo, Ram a o irm ão Ravan a, o mai<. pockrusu de
m mtçou a suspeita r d a fidelidade de t<>dos os dem ô nios, e este urdiu um
Sita c o casal bd gon. Em ronst'qüência, pla no para ra ptar ita e dermtar ck vez
de' foram banidos para a flort'.>la, ondr Rama. Ravana sabia da paixão ck Rama
't' rnllliram ao fiel irmão de Rama. pda caça; metanJOrfo,rou um de seus
l ..tk,hman. E nq uanto moravam na demônios em cervo e, enquanto Rama
llon·,ta, um demônio-lt·nwa cham ado ~:~iu no encalço do ani ma l-demônio,
Surpanakha viu R ama e ><' a paixono u Ravana ataco u Sita c a lrvcw para o seu
por tle. Ram a rcj f'iiOu suas investidas e pal:ki o em Lan ka. De vol ta da caçada,
da. num acesso de raiva, atacou Sita. Ram a descobriu que a t'>pos:l li:n·a
Lak~h m a n veio e m sotorro l'. na lula, rapt;rda l' ficou desolado. Entn·tanto,
l(' riu Surpanakha .. \ gra,ando a um esphito a q uem rir ajudara antes
aconselhou-o a procumr
alL'úlio com o rl·i-macaco
Sugri va. EMr bu~rava um
aliado para ecuheg-túr de
vol ta o seu reino, qut' fo ra
tomado por Ba lin. St'll
meio-irmão. Rama
ajudou o rt•i Sugri"a a
combater Balin {' a
rt'cuperar o '>t'll trono.
Em unca, Sug riva
Rama foi auxiliado por seu irmão
predileto, Lakshman. na sua luta
contra os demônios.
ÁSIA

olereceu a Rama os serviços de seu Rama e o irmão lakshman recebem enviados, numa
general Hanuman para acompanhá-lo cena do Ramayana que reflete a dívida dele para
com o exército de macacos por terem recuperado
até Lanka c resgatar Sita. Hanuman era Sita das mãos de Ravana.
um macaco Cl!jos poderes mágicos
incluíam a capacidade dt' voar, o qut' rm cujo abrigo dt"u à luz seus
lhe permitiu encontrar Sita rapida- ftlhos gêmros.
mente. Então, o exército de macacos Rama não viu os meninos at.é
de H anuman construiu uma ponte ficarem adultos, quando
sobre o mar até Lanka c atacou o imediatamente os reconheceu como
palácio. Rama matou Ravana, Sita foi seus próp rios filhos e chamou a esposa
resgatada, e o casal retornou ao lar. de volta ao palácio. Sita voltou, ma~.
ainda infeliz e para provar sua
O EXfLIO E A MORTE DE SITA fidelidade, conclarnou a mãe-terra a
Depois que Sita c Rama voltaram ao levá-la ao seu seio. Assim q ue
reino de 1\yoclhya, houve rumores pronunciou as palavras, a terra abriu-se
infundados de que Sita fora infiel ao diante dela, c Sita caiu no abismo.
marido enq uamo rstava cativa. Rama Rama, entristecido por seu ciúme ter
suspeitou dela c por IIm decidiu exilá-la. provocado Lal perda, jogou-se atrús
Exilada, Sita cnconLrou o sábio Valnúki cicia. O casal se juntou no céu, oude
(o reputado a utor do Ramayana), viveram em paz.

------· ·-··--- .
168 ÁSIA

O MAHABHARATA
ID Guerras dos ancestrais ib MttlwbharaJa
lU Índia
m Hharam (Índia Sup<:rior)

O Malzahlzarata é o segundo dos doi> grandes poemas PERSONAGENS·CHAVE


épicos indianos. Foi compilado por vários escritores OS PANDAVAS • filhos do rei
a nônimos, apesar de ser atribuido ta nto ao sábio Pandu
Vya>a qua nto ao deus Ganesha. Compreende dezenas OS KAURAVAS • filhos do rei
de histórias, mas seu enredo principal gira em torno Dhritarashtra
KRISHNA • avatar de Vishnu
da 1ivalidade enll'C duas famílias de governantes. O (p.162-3)
l:pico é precioso principalmente por incluir um poem a YUDHISTHIRA •líder dos
chamado Blwgavad Giw ("Canção do Senhor"), que Pandava
con tém os ensinamentos de Krislma.

ENREDO
RIVAIS PELO RE INO K aw·ava. Ele U1es deu du as
Quando Pandu, rei de Bharata, opções: poderiam te r
morrf'u, deixou o rei no para o apoio de seu enorme
o mais velho dos cinco exército, ou sua aj uda
fi lhos, Yudllisthira. pessoal. Du ryodhana
Con tudo, este rapaz c seus escolheu o exfrcito,
irmãos (que juntos são enquanto Arjuna pediu
conhecidos como os o apoio de Krishna em
Pandava) únham como pessoa, que decidiu ser o
livais pelo poder seus cem condutor da carruagem de
primos, os Ka urava, li lhos 1\Jjuna. Este, um príncipe
ele um rei cego chamado gentil, não queria
Dhritara~htra. Os guerrear. Para an imá-lo,
K aurava eram também K rish na recito u o
encarnações ele demônios Ganesha, o deus da prosperidade. Blwgavad Cita. O poema
inimigos dos deuses. é tradicionalmente nomeado como explicava que tudo é
o autor do Mahabhorara.
lnicialrncntc eles len- resultado de um desúno
taram conquistar o trono po r esLralagc- irnulávt>l. O soldado deve lutar c sua
mas; enganaram Yudhisthira num j ogo vílima, morrc1·: este era o seu destino.
de dados, expulsando-o de se u reino c As palavras de Krishna mudaram a
banindo lambfm os Pandava. Estes disposição de A1juna para o combate.
acabaram retornando, mas os K au rava
não abriram mão do reino.

KRISHNA E AR] UNA


O s dois lados se prepararam para lutar
pelo reino. Nesse ponto, K1isbna, o
oitavo avalar do deus Yishnu, in1erlcriu.
Ele rra ligado à~ duas famílias e se
encontrou com os líderes militares dos
dois lados: o irmão de YucUlistlúra,
Arjuna, t' Duryodhana, líder dos
ÁSI A

"Maya" significa "ilusão" em hindu. Para


os deuses. as coisas passageiras são
maya; apenas o eterno é real. Savitri, um
dos personagens do Mahabharata, perde o
marido Satyavan para a Morte. Quando a
Morte lhe oferece um favor, Savi tri pede a
vida para si mesma. No entanto, sua vida
só é completa com Satyavan, portanto ele
deve ser ressuscitado. Savitri conclui que,
para uma pessoa rea lmente sãbia, a Morte
é maya e o espírito v ivo é real.
O mito de Savitri (dir.) é uma das diversas
narrativas inclusas no Mahobharota e ilustra a
verdadeira devoção.

A GRANDE BATALHA mesmo assim perderam vários


Os Pandava lutaram uma longa e memhros da família. Os Kaurava
sangrenta batalha contra os Kaurava. sob reviventes (indu indo D hritarashtra)
O combate duro u J8 dias e mui tas exilaram-se.
pessoas foram mortas dos dois lados. Os
Pandava venceram, pois contavam com PARTIDA DESTE MUNDO
o próprio Ktishna a seu lado, mas Sentindo remorso por toda a matança,
Yudhisthira decidiu làzer o ma peregri-
nação ao palácio dos deuses no monte
Meru. Os irmãos e sua "esposa
romum", Dr«upadi, foram com ele.
Com a benç~o de Krishna, fizeram ele
Parikshit, neto de Atjuna, o governante
de Bhara ta, e partiram. A viagem
quase os vrnceu. Apenas Yudhisthira
d1cgou ao portal do céu sem ferimen-
tos, c ele se recusou a ultrapassá-lo até
ler certeza d e CJUC os irmãos e
D raupadi poderiam também cn Lrar.
O Mohobhorota, escrito entre os sécs.IV e V d.C.,
ainda ê representado no mundo todo, como nessa
produção taitandesa.
170 ÁSIA

OS SENHORES DA TERRA
m Criação ib Veni cr Elwin, The Bo(f!.a;
fll Baiga, Índia Cemml 111/yth.s '!/ Middk lttdio
m: Colinas d<· Mandla, Madhya Pradt'sh, Índia

Veni er Ehvin, a g rande autoridade sobre o povo PERSONAGENS-CHAVE


baiga das co)jnas de Mandla, na Índia, escreveu: BHAGAVAN • o criador
" De todas as tribos que conheço, eles são os mais KARICAG • o corvo, filho de
imbt údos na sua mitologia." F.~sa mitologia coloca Bhagavan
os baig-<.~s no cerne da criação da Te rra e os wrna NANGA BAIGA • o estobili·
zodordo Terra, mais tarde
senhores dos a nimais. Na nga Baiga c sua irmã o senhor da Terra
N anga Baigi n <~ud<un o criador da Te rra a estabili- NANGA BAIGIN • o irmã e o
z<tr o plane ta; em troca, seu povo recebe o poder ajudante de Nongo Baiga
sobre a l e rra e sobre os an im ais para sempre.

o
BHAGAVAN CRIA O MUNDO K a ricagvoou muüo. até q ue caiu sobre
No princípio, nâo havia nada além de as costas de uma tartaruga enorme,
água. O drus nada tinha a se u dispor: Kekramal Chartri. J untos, eles
nem vento, nem terra. nem selva . convencenun os 12 irmâos que
Bhagavan Autuava na água sobre um a primeiro (u ndiram o ferro a fazer-lhes
enorme foU1a de lótus, sozinho. Um dia um a gaiola de metal, na qual ambos
ele esfregou o braço, e do resíduo que foram baixados ao fundo do ma.: I .á
saiu fez um corvo. sua filh a Karicag. enconu·aram o verme G iehnaraj a, que
Ele lhe disse: " Vá procura r alguma tinha engolido a Terra. Ka ricag e
Terra para mim. Estou solitário. Kckra mal Chau ri assustaram o ve rme,
Quero criar um mundo." fazendo-o vomi tar a Terra .

Nanga Baiga foi instrufdo a nunca rasgar o


corpo da mãe-terra com um arado e, por
isso, os baigas praticam uma forma sagrada
de agricultura conhecida como bewar, que
corta as plantas e as queima. Isso foi fonte
de um sério conflito em meados do séc.XIX
com os guardas florestais. que os forçaram
a trocar os machados e enx.adas pelo arado.
Os direitos da floresta eram restritos e eles
tinham permissão de praticar o bewar apenas
na reserva Baiga Chak, onde a maioria dos
baigas mora hoje.
ÁS IA 171

ESTICANDO A TERRA Os mágicos ou curandeiros balgas - gunio- ainda


Karicag lfvou a Te rra para Bhagavan, são multo respeítados. em especial pela aptidão
para controlar os tigres, herdada de Nanga Baiga.
que a abriu como um enorme chapa!Ji
(pão indiano aduttado) c a espalhou GUARDIÕES DA TERRA
sobre a superficie da água. Mas da não Nanga Baiga c Nanga Baigin vesti ram-
era estável, e a Terra inclinava se alguém se e começaram a vi~ar pelo mundo.
subisse nela. Mesmo o f{ig-ante Bhimsen Sacrificaram uma porca para Dharti
não conseguiu aj udar Bhagavan a fixar a Mat.'l. que parou de oscilar quando a
Terra de forma segura. primeira gota de saJl!,TtLe caiu sobre ela.
Em seguida, eles conseguiram quatro
O NASCIMENTO DOS BAIGAS pregos enormes e com eles firmaram os
Enquanto isso, sob uma touceira de quauu cantos do mundo.
b2u11bus na florest<t, duas crianças Bhagavan conclamou todas as
na~ce ram do útero de Dharti Mata (mãe- tribos a escolhe1- um rei. Todos vieram
terra): Nanga Bruga e Nanga Baigin.J á vestidos com roupas llnas, exceto
cr..scidos, Nanga Bruga foi 4?Spiar Nanga Nanga Haiga, q ue estava cobn10
Baigin se banh<Uldo e eles se uniram de folhas. Bhagavan queda torná-lo rei
entre a$ árvorfs na beira do lago. do mundo, mas Nanga Baiga recusou.
Ele d isse: "Faça o gondi re i, pois ele é
BHAGAVAN PEDE SOCORRO meu irmão."
Bhagavan enviou mensageiros para Então Bhagavan responde u: "Os reis
pedir aos dois baigas para <0udarem a podem perder seus reinos, mas vocês
segurar a Terra. Eles St' rrc usaram, mas nLtnca perderão a selva. Vocês são feitos
depois di~seram qur assumiriam a de Terra C' são os senhores da Terra e
tarefa junto rom o povo gondi, porq ue nunca a desampaxarão. DC'vcm guardar
um membro dessa tribo fora a única a Ierra e manter os pregos no lugar.
pessoa disposta a se se mar com eles e a Nunca rasguem o seio da sua mãe com
compartil har o alimento. Vendo q ue os um arado."
baigas não ti nham roupas, o go ndi foi
ter com Bhagavan, que rasgou as MITOS RELACIONADOS • fzanagi e lzanami (p.1Bo-1)
própria~ vestes para lhes d ar. • Ilha da Tartaruga (p.194- 7)

. --- - ----I-- I
172 ÁS IA

A CRlAÇÃO DE PAN GU E NÜ WA
ID Criação ib Hstt Chun~ (amb.), Sanwu liji (Re,uistro> Ilist6ricos
lU China do.r tr(.s diuind(ll]e.r soberanas e dos dn.co deuses); Xuj ung (atrib.),
m o çosmo, a l~rra Híg>rutlinimtj (Cronicas dos cinco cidi)S do tempo)

O mito cosmogônico mais corrente na C hina fala do PERSONAGENS -CHAVE


criador primordial Pan Gu, que acorda de um longo
PAN GU • criador da Terra
sono e inicia o processo de criação golpeando os NO WA • criadora da
elemen tos caóricos com a m ão. Antes de adormecer humanidade
dt:: novo, elt:: mamém a Terra e o céu separados e seu
corpo se torna o resto do cosmo. A deusa Nü Wa
aprova as glórias ela criação ele Pan Gu, mas ainda
sente falta de a lguma coisa c complemcnta essa
necessidade com a criação da buman.idadc.

ENREDO
PAN GU DESPERTA Terra e o céu
Por milhares de anos separados, até estar
Pan Gu, o criador, cerw de que se ele se
dormiu, mexesse os elementos
economizando forças não voltariam
para o trabalho ela novamente ao caos.
criação. Ao dcspenar, Então clr se cleiwu,
olhou para LUdo e exausto, e dor miu
zangou - ~e com o caos profundamcmc.
e a desordem dos
elementos ao seu O DESCANSO DE PAN GU
redor: Com raiva, saiu Quando Pan Gu
batendo em tudo e sua dorm iu, seu corpo se
mão enorme chocou- transformou no resto
Sf' contr-a os df'mcn tos do un ive rso. Os olhos
que giravam, com um tornamm-se o sol e a
estrondo podemso. A deusa NU Wa êretratada como uma lua, e os cabelos de sua
O golpe de Pan Cu figura híbrida, com o corpo de serpente barba se partiram em
fez os elcmcmos do e a cabeça de uma jovem. milhares de
un iverso se movimentarem em novas fragmentos, as estrelas. ])artes de seu
d ireções. Gradualmente, eles corpo viraram as cordilheiras c o resto
começaram a se ordenar os elementos ela carne se tornou solo. Os cabelos
pesados afundaram, li)rmando as enraizaram-se no solo c cresceram
rochas da 'ferra, os mais leves flu tuaram plantas e árvores. Foram a li mentados
fazendo o céu. A Terra e o céu pelo sangue de suas veias,
cresceram e Pan Gu ficou entre eles, transformado em rios, e pelo suor ele
mamenclo-os separados. Quando a sua testa, o orvalho matinal.
'rena c o céu se expandiram, Pan Gu
também crf'sccu 1', enquanto o criador UMA DEUSA SOLITÁRIA
se tornava cada vez mais alto, a Ten·a e Os olhos aguçados de Nü Wa
o céu também foram se clístanciando. enxergaram mu ito além da Terra. Ela
Por mu itos anos Pan Cu manteve a gostou da visão elas montanhas c
ÁSI A 173

p lanícies, das flores e áJVorcs que Pan A PRÓXIMA GERAÇÃO


Gu criara. Ela gostou de visitar a Ter ra Os humanos viajaram para vários
e de se maravilha r com a bela paisagem. lugares da Terra e logo encontraram
Contudo, sentiu-se solitária em suas onde viver. Eram felizes. Nü Wa ficou
visitas e decidiu lazer algo a respeito. satisfeita com a sua alegria e gostava de
visitá-los quando vinha à Terra. Mas
NO WA CRIA AS PRIMEIRAS PESSOAS depois de um tempo ela percebeu que
Nü Wa percebeu que em algumas suas criações mostravam sinais de
partes da superfície da Terra o solo era envelhecimento, e a deusa sabia que
feito de barro macio, amarelado. Ela eles começruiam a morrer. Assim, ela
pegou um pouco dessa argila e lhes deu o poder de rcrem fi lhos e
começou a moldá-la. Logo fez uma mostrou-lhes como usá-lo para fazer
figura, e quando a colocou no chão, ela amor e se multiplicarem.
viveu. Nü Wa fizera o primeiro homem.
A deusa ficou satisfeim com a sua SUPERAÇÃO DA MORTE
criação, especíalmenre quando ele As pessoas cuidavam dos filhos com cari-
começou a correr e dançar, e assim ela nho sabendo que por meio deles a raça
criou cada vez mais figuras pequenas. humana como um todo superaria a morte
Após um tempo o mundo estava do indivíduo. Truuo ~ü Wa quan to QS
povoado de urna raça inteira de homens homens se alegraram ao sa.b er que sem-
c mul heres feitos por Nü Wa. pre haveria humanos viyen.do na Terra.
174 ÁSIA

YI ATIRA NOS SÓIS


m Desastre natural 16 Liu An, JiuUÍIUlnzi (Os mestn.r tk Hrcaimm)
~ China
1D A ' Lerra

A China tem vários mitos sobre desastres natura is PERSONAGENS -C HAVE


em que os imo rtais <'Yudam a raça humana durante O IMPERADOR DO ctU •
uma c1ise ambiental. A histó ria d e Yu é sobre urna criador dos dez sóis
seca provocada p or d e-.t sóis que briU1a m juntos no YAO • o imperador da China
céu. Yi, o arque iro celestial, vem à T erra para Yl • um Mbil arqueiro

de rrubar nove sóis, mas é r.'io eficiente que parece


poder dizimar todos os dez. A catástTOfe é evitada
p elo imperador Yao, que retira uma d as Aeehas d e
Yi, para que a vida na T erra possa ter continuidade.

OS DEZ SÓIS Yao olhou para o arco


Há muito tempo não maravilhoso de Vi, mas
havia apenas um sol no d uvidou que se•ia sufi-
céu, mas dez sóis ciente para d<'rro!ar os
diferen tes. Eles se poderosos sóis. Os dois
revezavam para brilhar aguardaram até a alU'o-
no cé u. Contanto que ra para ver se os dez sóis
a penas um sol brilhasse surgi1iam. fui o que
em cada dia, a Terra acon teceu, e mais uma
era aquecida, as vez a TetTa começou a
colheitas cresciam e rachar e a sofi-er com o
todos no planeta calor. Yi ergueu o arco,
ficavam felizes. M as um mirou e atirou no pri-
dia os dez sóis se meiro sol. Ele desapare-
cansaram de,~sa rotina e ceu e seu espírito, na
decidiram brilhar todos Yl ganhou o título de Arqueiro Celestíal forma de urn corvo
ao mesmo tempo. Com e a imortalidade por derrubar nove dos enorme, caiu ao chão.
dez sóis da Terra.
o calor cscaldantc, as
p lantações minguaram e os rios e os SUPERAÇÃO DA SECA
lagos secaram - até mesmo as rochas Um por mn, Yi derrubou os sóis com
detTetiam. As pessoas comcr,:aram a seu arco poderoso. Quando seis já
sucumbir de fome. Parecia que a Terra tinham sido atingidos, Yao percebe u que
estava morrendo. D esesperado, Yao, o ainda sob ravam quatro flechas. Yi era
imperador da China e wn dos Três tão bom na sua tarefa que o imperador
Aut,'llstos, decidiu orar ao Imperador do lemeu que ele de rrubasse todos os dez
Céu, o pai dos dez sóis, por ajuda. sóis e fizesse a Terra mergulhar em
escuridão eterna. Assim, enquanto Vi se
VI, O ARQUEIRO preparava para mirar, Yao discretamente
O Imperador do Céu ouviu as o raç.õcs de retirou um a das flechas da aljava. Vi
Yao e enviou Yi, seu arqueiro mais hábil, acertou todos os alvos, derrubando nove
à Terra para alvejar nove dos sóis. E ra sóis, e assim o planeta começou a se
noite quando Yi chegou. O imperador recuperar da terrível seca.
175

YU ACALMA OS DILÚVIOS
ID Dc-,l strç nawral 6 Chuci (CallfÔ<'J tk Ch'u
~ China
m China

Desde o início ela civilização chint·sa os rios são PERSONAGE NS-CHAVE


usados como meio de transporte c ali me mo. Em O IMPERA.DOR DO CtU
geral eles inundam, c um mito chinês narra um GUN • o neto do Imperador
poderoso dilúvio pro,·ocado pelo Imperador do Céu do Céu
em punição ao tcrrivcl comportamento do:. humanos. YU • um dragão
Foi tarcfà do dragão Yu, milagrosamente nascido do
cadáver do neto do imperador, convencer o mesmo a
deixá-lo const•rtar os p~juízos da intmdação para
que a vida na Terra pudesse prosseguir.

O GRANDE DILÚVIO o céu a fim de pedir piedade ao im-


Muito tempo atrás, o Imperador do l)('rador para com os humanos. O
Céu zangou-se com os homens por imperador aquiesceu e permitiu que
causa de \CU comportamento Yu consertasse o estrago.
pecaminoso c enviou um dilúvio terrível Yu trabalhou muito, elevando novas
como castigo. Os rios transbordaram de tolinas c montanhas, restaurando a!!
seus leitos, casas foram destruídas c margens dos rios c construindo novos
muita~ pessoa~ se afogaram. canais para conduzir a água. Após 30
Gun, o nrto do Imperador do Ct-u, anos, as á1,ruas cederam c o planeta
teve p<'na do povo e desceu à Term llcou a salvo novamente.
para restaurar as margens do •·io,
trazendo consigo t<' tTa do céu para
absorver a água. Contudo, não disse ao
avô o que faria, e quando o Imperador
do Céu dcscob•iu, zangou-se
novamente c mandou matar Gun.

A CHEGADA DE YU
O corpo de Gun não apodreceu como
um cadáver humano. Em vez disso, o
dragão Yu, uma nova forma de vida,
cresceu de suas cntril nhas. Quando Yu
viu o estrago do di lúvio, voou para
Os rios da China foram formados por golpes da
cauda de Yu, segundo algumas versões deste mito.
Sua ação sobre o dilúvio permitiu que a agricultura
fosse retomada.
ÁSIA

OS DEUSES CHINESES E A CORTE DA CHINA


As histórias sobre o vasto panteão de deuses chineses foram contadas
em vários textos, alguns remontando ao séc.V a.C. Na época da
dinastia Song (960-1279 d.C). acreditava-se que esses diversos mitos
cspelha\'am a corte do imperador chinê!>. As~i m como a cone e a
burocracia imperial na Terra, o Céu tinha seu próprio imperador,
ajudado por um vasto corpo de serviçais celestes.

A CORTE CELESTIAL MUITAS F~S.


O imperador do céu MUITOS DEUSES
era conhecido como E.sta multidão de deuses
\'uhuang,o tem origens di'v't'rsas.
Imperador dejadt·. Alguns, vindos da reli-
Dizia-se que, como gião taoísta, eram meros
sua conrrapane ter- mortais que por est1.1do,
restre, ele morava discernimento ou instru-
num palácio cercado ções de um sábio encon-
de serviçais. Os notá- traram a imortalidade
veis da cone incluíam por sua fé. Outros vie-
a sua esposa \\'ang ram da trad ição confu-
M u e seu primeiro- cionista e foram grandes
ministro Dong'Y'-•e Yuhuang, o Imperador de Jade, estudiosos ou seguidores
Dad i. d ivindade que era o regente do céu e o de Conii:.Cio an tes de se
patrono da famOia Imperial.
presidia mais de 75 tornarem imortais.
seções diferemes do funcionalismo Outro ainda eram figura.~ re\'crencia-
público celestial Cada uma dessas das do budismo que atingiram a ilumi-
divisões era governada por um deus nação e cujo auxílio sempre foi muito
próprio. invocado pelo pú\'0 chinê~. À frente de
177

todo~ es>e;; imortais rm :mas patt·dcs ao


budi\IL'L~ estavam o longo do ann; a
próprio Buda e Guan fumaça kvaria seu
Yin, a d1' usa da mist·- relatório para o d·u.
rirórclin, que ouvr a
todos que buscam sru PAPEL DOS DEUSES
au,ílio. 1 Iuitos imoatais
A;, 111 i wlogias desses eram invoradus por
lrê~ sistrmas de suas funçôes t•sprd-
rrenças o taoí.~mo, fkas. O rei-d ragão
o ronfucionismo (' o Long-.vang, p.r,.,
budismo comrça- guardião do~ rio~ c
ram a S<' mesclar e, mare:., controlava a~
por isso, a mitologia OTemplodoCéu, omaissantodostemplos chuv-ãS. e O'> agrirul-
rhinesa contém ele- chineses, era usado pelo imperador em tores o evocavam
nwntos importantes pessoa durante as cerimônias de colheita. quando as colheita.:;
dos tri's. careciam de água. Algtms deuses
governavam fases espedfica~ da vida.
LIGAÇÃO ENTRE O CW E A TERRA Di.àa-~<' qu<' Yue Lao, o \dho
Dcpoas da dinastia Song, ~ im1x·rad<.>- homem da lua, u$llv-a um cord.lo
n-s tcm'='>tres afirmaram t">tar em con- para unir quem de\·eria ~ ca\ar.
tato direto com Yuhuang, mas que os Outro~ deu\t'S protegiam a humani-
ouI ans mortais tc.riam dr sr comunicar dade, cnmo ;, imagem de Zhong Kui,
com o céu orando a dt•ust·~ menores. que l'spantava os maus espíritos.
1\s pt's.<:oas também falavam com o céu Quando Zhong era mortal, saiu-sr
por meio do mcnsagriau dos dell<;eS. bem 110~ testes para o serviço rivil,
í'..aojun. o deus da ('tYFÍnha t' relator mas pt"rcku o útulo por sua apalincia
do wmporramento lnml<UlO. Todo ano desleocada. Ele comctf'u 'uilídio c'
as fiunílias chinesas quc:ima\<Ull a ima- foi imonalizado. wrnandn-'>1' o d<'US
gc:m dC' Zaojun que <'stiwra t'xposta do~ cxanws.
180 ÁSI A

IZANAGUl E TZANAMI
llJ C riação ltJ hijiAí (Rrgi.<tm de Coi.1as A11tigas);
~.Japão }{i/umsltol,i (Crõnicas do Japão):
mJap:io, n Mulld\'> Sub tl'rrânt'O .Julif't Pigoll, Japanese,I;J_rtJw(ogy

lzanagui c Jzanami fo ram o primt-iro casal, q ue PERSON AGENS-CHAVE


desceu do céu num arco-íris. Eles agitaram o IZANAGUJ • Aquele Que
oceano primordial com uma lanç_a e criaram as Convida, um deus criador
iJ h as do J apão. Depois procriaram, dando origem a IZANAMI • Aquela Que
outros deuses. Sua história te rm ina de for ma tri!ile, Convida, uma deusa
criadora
q uando lzanami morre ao dar à luz o deus do fogo. KAGUTSUCHI • deus do fogo
Embora Izanagui a siga até o Mu ndo SubteJTâneo, HIRUKO • uma criança·
como no mito grego de Orfeu, a experiência da sanguessuga
motte faz com q ue Izanami se volte contra ele.

BNREDO
OS PRIM EIROS DEUSES que se transformaram em mais dois
1\o princípio do Céu e da Terra, deus\'s: o deus dos Excelenles-Brotos-
surgiram três deuses invisíveis: o Senhor dc:Junco c o deus da Imobilidade
do Centro Celestial, a Energia Vi tal Celestial. Juntos, esses <.:i nco compõem
Superior e a Energia Vital Divina. Eles as Divindades I ndependentes Celestiais.
loram os primeiros kamis ou deuses. Do
lodo primordial saíram brotos de junco O MASCULINO E O FEMIN INO
Jzanagui e Izanami eram da sétima
geração de de uses. Representam oyin
c oyang, os pli.nópios masculino e
fe minino, e são os ancestrais de toda
a criação.
As •rochas casadas• em l.se. Japão. foram
nomeadas em homenagem a lzanami e
Jzanagui, o casal primordial da mitologia
japonesa.
ÁS IA 181

CRIAÇÃO DA TERRA a lzanagui que não


Izanagui e lzanami fosse atrás dela. Mas
desct>ram pela ponte ele a seguiu na
do arco-Íiis e criaram escuridão c, ao quebrar
Onogoro, a primeira uma hastc de· seu
ilha. Observando o pente, para fazer dele
at:asalamemo de duas uma t0d1a, iluminou
aves. Izanagui c Izanami. Viu então o
lzanami sentiram-se corpo da rsposajá uma
atraídos. Caminharam massa puh·clàta cheia
ao redor de um pilar, de vcrmcs, que se
um pela direi ta c o D·ansformavam f'm
outro pela esquerda, c deuses do trovão.
quando se enconlra-
tam amaram-se (essa O VÔO DE IZANAGUI
união inicial ficou lzanagu.i fugiu pelo
maculada por l.zanami longo túnel perseguido
ler tomado a palavra pelos guetTeiros de
em primeiro lugar). Yómi. Conseguiu
atrasá-los jogando
OS FILHOS DE objetos que magica-
IZANAGUI E IZANAMI mente se transforma-
A pr~mcira criança loi vam em comida. Mas
Hiruko, o vennc rzanami também o
sanguessuga, que eles seguia e não podia ser
abandonaram flutuan - lzanaml e lzanagul estão sobre a ponte enganada Lào facilmen-
do sobre um junco. Os do arco·fris e criam uma ilha usando a IC. Ela estava quase no
lança celestial craveiada de jóias.
deuses aconselharam- topo do túnel quando
nos a rcpcdr a união, mas dessa vez Izanagui saltou c vedou a saída com um
Izanagui deveria fal ar primeiro. Assim rochedo enorm<'. Presa no Mundo
fizeram, e então lzanami deu à luz Subtcrrânro, lzanami gri tou <tu·avés da
todas as ilhas do Japão c os deuses dos rocha que se vingar·ia ela humilhação
mares, dos rios, dos ventos, das árvores, matando mi l seres humanos por dia;
da~ montanhas c das plaJúcies. Por fim, Izanagui retrucou promet~ndo criar
pariu o deus do logo, Kagutsuchi, que a 1.500 crianças todos os d ias.
queimou, fazendo-a vomitar<' expelir
mais deuses ainda. MITOS RElACIONADOS • Orfeu no Mundo
Subterrâneo (p.57) • A filha de Sol (p. '98)
MORTE PELO FOGO
lz<mam.i ficou rào que imada que
morreu e desceu a Yõmi, o Mundo A mitologia de deuses como lzanagui e
Subterrâneo. Com raiva, lzanagui lzanamí pertence à religião xintoísta, que é
cortou a cab<'ça de Kagu tsuclú, e mais conhecida como Kami na Michi, "o caminho
deuses nasceram de seu sangue. do kami''. A palavra "kam!', muitas vezes
traduzida como "alma". "espírito" e
Desconsolado, l zanagui desceu a Yõmi
"divindade", é a essência da religião
e pediu a Izanan1i para retornar, mas
xintoísta. Os kamis maiores são os deuses,
ela lhe disse: "Você wio tarde demais. como lzanagui,lzanami e Amaterasu
E tl j á comi do fogão de Yõmi." (p.182). Mas todos os seres vivos têm um
Ela lhe prometeu kami, inclusive os homens, cujos kamis
implorar aos de uses sobrevivem após a morte. Dessa forma, o
de Yõmi permL~são xintoísmo combina a adoração dos poderes
para retornar, e pediu sagrados da natureza e dos ancestrais.
ÁSJA

A TEMPESTADE CONTRA O SOL


IIl Guerras entre os deuses 6 Kqjiki (Registro Ih Assuntos Anl(gos);
lU J apão .Nihondloki (Crônicas 1Ú1 }apii!J);
m .Japão julieLPigott,]apUJI<Se l\!yllwlogy

Três das divindades mais importantes do J apão, PERS ONAG ENS - CHA V E
u deus da lua Tsukiyomi, Susanoo, o deus das IZANAGUI •o deus criador
tempestades, e Arnatcrasu, a deusa do sol, surgiram TSUKIYOMI • o deus da lua
quando o deus-criador Izanagui se purificou depois AMATERASU • a deusa do
de ter abandonado a esposa c co-c•iadora Izanarni sol
SUSANOO • o dew; das
no Mundo Subterrâneo (p./80-1). A rivalidade
tempestades e do mar
en tre dois desses deuses ameaç.ou mergulhar o AMA-NO-UZUME • a deusa
mundo nas trevas e destruí-lo. A engenhosidade das profundezas
dos ou I ros deuses foi a salvaç,ão.

ENREDO
PURIFICAÇÃO RITUAL perturba r minha irmã Amaterasu."
h:anagu i emergiu do Mundo E partiu em tempestuosa ira.
Subtnrânco poluto e imundo e ao se
pu rificar num rio, e criou m<Ús deuses. VIOLAÇÃO DOS SAGUÕES SAGRADOS
Quando lavou o olho esquerdo, surgiu a Susanoo acabou com as plantações de
deusa do sol Amaterasu. Au lavar o arroz de Amaterasu, defecou no Saguão
d ireiw, o deus da lua Tsukiyorni veio à dos Primeiros Frutos e maculou o
luz, c lavando o nariz ele criou o deus Saguão de Tecelagem , onde a irmã e
das trmprstadcs, Susanoo. suas donzelas fiavam as vestes divinas.
Amaterasu ficou tão assustada que
U MACR~ NÇA C HORO N A chocou a genitália contra uma
Susanoo não parava de chorar por lançadeira do tear e se machu eou.
Izanami, a " mãe'' morta. que perma-
necia no Mundo Subterrâneo. Dese- O DESAPAR ECI MENTO DO SOL
jando unir-se à mãe, gritou de tristeza Amaterasu fi.1giu aterrorizada e
até sua barba ficar com oito palmos de escondeu-se numa caverna, vedando a
comprimento, e lzanagui d isse-lhe: entrada com urna enorme pedra. O
"~es~e eas(), voe<- não pode ficar aqui." mundo núu na escu ridão: nada crescia e
Susanoo respondeu: -~\ntes de ir, ,·ou os maus espí titos tromceram distúrbios.
O s deuses usaram vários
estratagemas para conven-
cê-la a sai r da caverna, t.al
como o dos galos
anunciarem uma falsa
aurora . .Mas n<lda
funcionou, até qu('
Omohika nc, o drus sábio,
qur coordena o pensa-

Muitos templos xintoístas


um espelho sagrado,
momento em que
cegada pelo próprio
ÁS IA

os deuses interditaram a entrad a da


caverna com uma corda sagrada para
Amaterasu, a deusa do sol, era tida como a que ela nunca vol t.a~sc para lá.
ancestral original da família imperial. Dizia·
se que o primeiro imperador, Jimmu·tenno,
A EXPULSÃO DE SUSANOO
era seu tataraneto. Dessa forma, ela se
tornou a divindade mais importante. Seu Para p unir Susanoo, os deuses
templo em lse vem sendo renovado a cada prnalizar·am-no, corta ram-lhe a barba e
duas décadas desde os úIti mos dois mil as unhas, rxorcizaram-no e o banira m
anos; todos os japoneses tentam visitá· do céu pa ra vagar pelo mundo como
lo ao menos uma vez na vida. p roscr;to. Então ele
A palavra Nippon Oapão)
encontrou a princesa
significa "origem do sol".
do campo de a rroz,
Durante a 2 l Guerra, a bandeira K usanada-pime, sob
japonesa ostentava os raios do sol. a ameaça de um
d ragão de oito
menro, teve uma idéia. cabeças. Susru10o
Omohi.k;me pediu à de usa transformou-a em
da aurora Ama-no-uzume para se despir um pente e colocou-a em segura nça no
numa bru1heira cheia de saquê. Em seu cabelo. D epois, em bebedou o
estado de possessão divina, a deusa dragão de saquê e o despedaçou com a
expôs os seios e a ge nitália aos deuses, espada. D entro da cauda do dragão ele
q ue caú·am na gargalhada. Curiosa, encontrou a espada conhecida como
Amaterasu entreab riu a porta da Kusanagi, o cortador de grama, que ele
caverna para ver o que era tão engraça- presenteou a Amatcrasu como um
do e perguntou: "Que <lf,>Í taçào é essa?" pedido de desculpas. A seguir ele
transform ou a princesa do campo de
MAIOR QUE O SOL arro;-: em uma jovem novamente e a
" Estamos comrmo rando porq ue há drsposou.
uma deusa ft UC ilum ina ainda mais qur MITOS RELACIONADOS • Oeméter e Perséfone
você", Ama-no-u.zume responde u. (p.54) • O deus que desaparece (p.152) • A filha de
Quando 1\materasu abriu a porw mais Sol (p.198)
um pouco, os deuses ergueram um
espelho e cegru·am-na com o seu
próprio reHexo. O deus T,1jikawa-wo
("Divindade Masculina da Mão Forte")
agarrou a porta e a abtiu. Pegou
Amaterasu pela mão e l"O nd uziu-a
ai nda tonta para fora da caverna. Então
ÁSIA

UM BANQ1JETE INDESEJADO
m Fcnilidadc 6 J0jild (RPt,'Í.rtro rk Coisas A11tigtrr);
"' J;tplQ .Nihonslwki (Crôrzicas do ]apã11);
mJapão j ulict Pigou ,.Japanese A~)'tlwlogy

Neste mito sobre Ogetsu, a deusa do alimento, o PERSONAGENS-CHAVE


deus ela lua Tsukiyornj é tão violento quanto seu TSUKIYOM I • o deus da lua
irmão Susanoo, o deus da tempestade (p.l82-3). De OGETSU (ou UKE·MOCHI) • a
fato, o texto Kqjiki atribtú os atos ele Tsukiyomi a deusa da alimento
Susanoo. No mito, a morte ela deusa é necessária AMATERASU • a deusa do
sol
para a produção dos alimentos básicos do J apão.
Também explica por q ue o sol e a lua, embora
irmão e irmã, em geral hesitam tanto em aparecer
j untos no céu.

UM DEUS FAMINTO banquele: ao ol har os campos, o arrox


Amaterasu, a deusa do sol, sabt•ndo que cozido saiu em torrentes de sua boca;
a deusa do alirnemo Oget.su eslava ua ao encarar o mm·, vomitou peixe c
Terra Central das Planícies de Junco, aJgas-mm·inhas comestíveis; à vista das
enviou ' fSukiyorni, o deus da lua, para montanhas, gerou animais ele caça.
ver o que ela fazia. T.~ukiyomi obede-
ceu, mas ele estava farninto c exigiu ALIMENTO A PARTIR DE UM CADÁVER
uma refeição de Ogetsu. Ofendida, a Por sua vez, Tsukiyorni ficou tão
deusa vomi to u e ex:peliu-ll1e um lauto irritado com esse insulto que d esembai-
nhou a espada e matou OgeLm. Do
Um mito diz que Ogetsu, a deusa japonesa do
alimento, antes de morrer era casada com o deus do <A"l.dáver de Ogctsu surgi ram todas as
arroz lnari (ver O Deus dos Campos de Arroz. p.185). culturas de base do J apão: o arroz
cresceu de seus olhos,~, milht•te das
orelhas, feijões vermelhos do
nariz, o trigo dos genitais
c a soja de seu reto. As
vacas e os cavalos surgi-
ram de sua testa, e os bichos-
da-seda, das sobrancelhas.

Quando Tsukiyotni disse à irmã


Amaterasu o que fizera, ela
ficou tão horrorizada que fez
votos de nunca mais olhar
para ele novamente. É por
isso que o sol e a lua cheia mmca
St'io vistos juntos. Depois, Amaterasu
enviou wn mensa.&>eiro pm-a coletar
todas as coisas úteis que tinham s<údo do
corpo de Ogct~u, para que ela pudesse
distribuí-las entre os homens.
ÁS IA 185

O DEUS DOS CAMPOS DE ARROZ


CD Fertilidade h Julicl f:>igou,Japmuse Mytlwlogy;
~ Japão J. W. Robcrtson Scou, The RnmrintWTI.'i 1!/Japan
ID: Japão

O arroz é u alimento básico do J apão, e preparo dos campos, na cultura, colh eita
há um deus especial para esse alime nto: e corte do arroz são novos. Os homens
loari. Esse deus aparece como um e mulheres que se dedicam ao cultivo
homem barbado, uma mulher e até primeiro se banham, num ritual de puri-
mesmo uma raposa. ficação, nwna casa de banJ1os constnúda
Inari sai de seu lar nas montanhas na especialmente para esse fim e depois
primavera e retorna no outono, como a entoam uma ora1;:ão em honra de lnali.
água dos montes que ali-
menta os campos cultivados.
O arToz é ~ímbolo de lique-
za, e assim lnari também é
o deus dos comerciantes.
O arroz a ser· servido na
coroação do imperador é
plamado com ritos especiais
para atrair as bênç.ãos dos
deuses ao novo reinado.
Um pequeno templo
xintoísta foi cons1ruído
diante dos campos de arroz
c os utensílios usados no

CASAMENTO COM A RAPOSA


CD Amores dos deuses lb Juli<.>t Pigou,Japanesc Mj·llwlogy; Ymmgita
~ Japão Kuuiu. Cuult lo tlte]apanes( Fol/r.J.ale; Carmen
mJapJo Blackc.r, Thr Catalpa &w

Embora as raposas não tenham muito que a mãe está vant:ndo o


boa reputação no J apão, há um quint:al com o rabo.) A maioria
conto popular sobre uma mulher- elos homens teria ficado decepcio-
raposa, que pode se r o deus do nada com isso, ma~ o agricultor
arroz lnari na forma humana. amava a bondosa esposa, que o
Um agJicultor casou-se com zyudava a enganar os coletore.s de
uma mulher de outra região e impostos, mosLTando a de como
estava muito f<·liz, até fJU C uma semear os campos de arroz para
noite viu uma cauda de raposa que este crescesse de cabeça
pendendo de sob a cokha. para baixo, e~condendo a plan-
Sua mulher era uma raposa tação de o lhos inoumcr:idos.
em ronna humana! (Em
As raposas são associadas a lnari. o deus
omra versão, a esposa-raposa do arroz. na mitologia íaponesa, e repre·
é traída prlo fllho, que diz ao pai sentadas em vários locais sagrados.
t 86 ÁSIA

OS MITOS DOS AINOS


Os ainos, que em grande parte vivem atualmente na ilha de H okaido,
são os aborígines do J apão. Culturalmente, eles têm afinidade cóm outros
caçadores c coletores do Pacífico Norte, como os imútes do Alasca e os
chukdús ela Sibéria, especialmente em sua reverência pelos espíritos do
mtmdo natural A mitologia aino está contida numa vasta literatura oral
de épicos cantados, conhecida como am19 ukar - as canções dos deuses.

CANÇÕES DOS DEUSES xamãs femininas sob posses-


Os famosos kanu!Y yulrtu can- são divina.
tam as interações entre
deuses ~ homens. O.s deu- APAZIGUANDO OS DEUSES
ses são antropomórficos, Nas crenç·as animistas dos
mas às vezes também zoo- ainos, a baleia-assassina {Repun
módicos, se concebidos, Kamu_y) controla os peixes e o
p.ex., como w·so ou baleia- urso (!úmun Kamuy), os pássaros
assassina. Entoando as can- e os animais de caça. Com
ções dos deuses, os homens freqüência, os deuses visitam
(os ainos) se comunicam o mundo hLmlano como ani-
com os não-humanos mais para negociar com a~
(karmg), com os quais compar- pessoas, trocando o dom do
tilham o mundo fisico. Os Ai nos acreditam que suas
disfarce animal por vinho,
Os kamuy yukar são can- almas subirão ao Komuy Mosir comida e esculturas em
tados em primeira pes- (a terra dos deuses). galhos de chorão. aprecia-
soa, como se fossem os próprios deu- das em seu própáo mundo. Não
ses uma fo rma de naiTativa especial surpreende que os rituais que acal-
para os ainos. Os drusrs também mam esses deusrs sc:jam centrais na
falam diretamente pelas bocas de cultura aino.
A caça, matança e consumo de ursos tem
pro funda~implicações espirituais pata os ainos.
ASIA

Os homens ainos usam barbas


compridas e as mulheres, tatua·
gens como se fossem bigodes.

festival cerimonial de
inverno, ao fim elo qual
o deus é enviado para
casa coberto de
presentes, inclusive
saquê, salmão seco e
guio~as. O deus
aproveita a festa
ENVIO DE ESPfRITOS r.nquanto observa os ainos dançarem
Um dos kmnuy yulmr, "Canção de um e os ouve cantar o kam1~yyukar. Os
urso", narra como o deus ela moradores do vilarejo interrompem
montanha Kimun Kamuy segue a o canto abruptamente a fim de que o
esposa até o mundo humano, com d eus re-torne para ouvir como
uma cria nas costas. Seu corpo de termina a história.
urso é morto por uma flecha de
caçador envenenada com acônito, O FOGO SAGRADO
mas o próprio deus salta nas costa~ Fuchi. a deusa do fogo, é importante
do caçador. conseguindo ser levado nos rituais ai nos porque eles acredi-
ao vilarejo, onde f: bem-rec<>bido e tam que ela leva a~ orações até os
ganha presentes. Seu ftlho f: mantido deuses - o que ocorre quando, no
preso a fim de ser criado para a ritual. aspergem vinho sobre o fogo.
cerimônia iyqmante - um ritual no Um miLo narra como Fuchi se envol-
CfUaJ o espírito de um deus visitante é. w num concurso mágico com a deusa
enviado de volta ao céu. No b»onumte, da água, que roubara o seu marido.
os lilhotes de urso são criados para Fuchi vence e o marido volta para o
serem morto,, e comidos no ritual do lar. ohedirntr. assustado e submisso.
ÁS IA

FOGO EM T ROC,A DE ARROZ


!D H eróis da cultu ra 6 Roy Franklin Uart<m, 71u M_yt/wlogy ~f'
lU Cuhura ifug<tO, Filipinas lhe ljitgaor, TI~ RPligion qf (/ze !fogao,f
m Cordilh6 r;1 Central, ilha de· Lum n (como contado por Ngiclulu)

A cultura d os ifugaos, tribo das mon tanhas d as PERSONAGENS-CHAVE


Filipinas, está centrada no cultivo do an oz, c seus WIGAH • um caçador e o
enorm es terraços d e plantações já fo ra m chamados primeiro fazedor de campos
de oitava m ar avilha elo mundo. Eles contam que KABIGAT • um caçador
ap re nder am a construi-los com an cestrais-heró is BUGAN • a esposa de Wigan
LI DUM E HINUMB[AN •
co nhecidos como os Fazedores d e C ampos. O mito
deuses do Mundo do Céu
a segu ir narra como os Fazedo res d t· Campos DINIPAAN • um deus-ferreiro
ganhara m ~lrroz dos de uses do Mundo do C é u
em troca do pode r do fogo.

o
CAÇA AO PORCO protestou. "Nossos
Certa vez. dois cachorros o perseguiram
ca<,~dores de K ayang, desde Kayang." Depois
Wigan e seu irm ão de contar os porcos, os
Kabigat, sacrificaram ele uses arei taram is.m
um a galinha para ver como verdade. Então,
se teriam sorte na VVigan cort ou o porco
caçada do dia . Invoca- para compartilhar a
ram a ajuda dos deuses, carne com os deuses.
como os Cansados da Estes corumun
Região Rio Acima, e os pequenos nacos de
deuses de Alab<tt, que ca rne das pec,:as maiores,
mora m nas monta nhas misturaram com arroz e
r a q ue-m toda a çaça ofereceram as porções
pertence. par<1 \>Vig-.rn come•~ Mas
O s pressá1,rios foram ele respondeu: ''Não vou
bons e, assim, os Os ifugaos encontraram usos múltiplos comer com vocês, pois a
caç.adorcs pa rtiram para pedaços de bambu, inclusive carre· carne cs1.á crua."
gar água. fazer instrumentos musicais e
com suas la nças c acender o fogo.
cachorros na busca ele TROCA PELO FOGO
po rcos selvage ns. Eles e ncon ~raram um Wigan pegou um pedaço de barnuu e se
c o pr rscguiram pela floresta r depois pôs a prepará-lo para fuzer fogo. P1imeim
montanh a acima. O porco subiu cada cortou-o ao meio. D epois fez um buraco
vez mais alto, até chegar ao Mundo do na lateral de w11 dos pedaços ele bambu c
Céu, onde os dois caçadores o alcança- colocou dentro dele uma pequena pilha
ram e o mata ra m. ele folhas secas amassadas. Q uando
começou a esfrcgar o scgu ndo pedaço dr
CHEGADA DOS DEUSES FURIOSOS bambu na transversal elo buraco,
O s deuses Lidurn e Hinum bian aparece- surgiram faísca~ que atearam fogo nas
ram c acus..1.ram os homens de terem foiJ1as secas de dentro elo bambu. Com
matado um dos porcos elo Mundo do cuidado, Wiga n transportou as folhas
Céu. "Este porco não é dos seus", VVigan incandescentes para uma pilh<l maior e
Os terraços lfugao nas filipinas sao hoJe
Patrimônio Mundial. Chegam a 1.5 metro
de altura e M mais de z.ooo anos
produzem arroz e trigo.

fez uma fogueira. ondt• t·ol.inhou a çarm· olert•t•t•u ao povo as facas tm troca de
e o rumz para o;, dcust"i. Esh•s licar.un t:lo cc~tos com frangos. No dia seguinte,
impressionados qm· ofi-rt·n·ram a \Vig-an Wigan supervisionou a primeira colheita
qualquer coisa ('lll lmca do podc•r do e o nrma:t.enamento do anvt: no celeiro,
fogo. Ele rc·rusou jóia~ t• 1wdiu o clrlirioso com Lo<los os rituais e sac:rilkios
arroz que crescia no M unrlu rio C:éu, r necc'ssúri os <LOS deuses do Mundo do
assim os deu.'lt's ('ll;,inaram-lhr romo lhzt•r Cc;u, aos do Mundo Subterrâneo, aos
os campos de arnr~: em terraços. Tudo da Região Rio Acima e aos deuses do
que de tinha de llv:cr t'r'llc~prtar uma rcll'iro. Fi nalmente, ele reritou esta
eiL~ada no chão d<L~ cm·ost<L~ íngn·nws m!'sma histó ria c invocou os deuses
das mont.:mh,~S, e da.'> se tr,msli>rmariam novamente, para que o arroz st'mprr
num crunpo. O prot:t'~' poderia dumr aumcntr e floresça em sua K ayangin.
por tanto tentp<l quanto sua t'spo&l fosse
capaz de permanrrer t"itátira.
No seu complexo ddo anual de rituais e
O PREPARO DOS CAMPOS DE ARROZ cerimônias, os ifugaos evocam cerca de
De volta ao mundo d.1 'Jhra, Wigan 1.500 deuses e suas esposas, com

começou a f:v.c.·r th rampoo; dt• freqOência altamente especializados.


P.ex. os Bulots (ou Buluts), as
arroz. Quando já havi,1 pn·p<lmdo
divindades dos celeiros de arroz,
oito deles, sua <">I>O,a st' mt•st•u representados por efígies de madeira
ligeirrunente, e t'ntào nada mai~ e evocados num festival ritualistico
aconteceu quando clt• t'SJX'tava a em que os sacerdotes sào
enxada na Terra. "possuídos" pelos deuses Bulo! e
''Tudo bem''. Bugan filiou. ':Já correm de quatro por toda a casa,
temos o sulicirntr." dançando com a efigie, gritando e
gemendo. Às efigies dão· se vinho e
A~si m, \Nigan espl'lou a
bolinhos de arroz para chamar os
enxada na margem acima dos deuses de volta à imagem; em
campos, e a água st· espalhou troca, acredita·se, os Bulots ajudam
irrigando o arroz, rarrtgando no cultivo do arroz. Há 25 deuses
consigo os Ill' núfàr('S C'] IH' Bulo!, entre eles Balulung, o •aulol
florescem na supnlkil· dos de canga", que está preso como um
campos. porco para não escapar. A efígie de
Bulol o Mudo relembra o mito do
primerro Bulol, filho do deus do Mundo
A PRIMEIRA COLHEITA
Subterrâneo Tinukud, que ficou mudo e
Quando o arroz amadurt·ct•u, :\.'i depois foi miraculosamente curado.
pessoas prcrisavam de ferramentas para
fazer a colheita. Dinipaan, o dt·u~­ Eft'gles Butot como esta são esculpidas em
madeira narra da Região Rio Abail<o, na
ferreiro, preparou os foks l' forjou o forma de um homem ou de um porco.
ferro em facas. Fi.li at(· Kayang t'
/

ASAMERICAS
192 AS AM ÉRICAS

1AJ :\U toux,J \ IH'> \.\U~RICAS (• tão variada quanto as culturas


~ deste continente, embora alguns temas sejam comuns a
todas das. Dos inuítes no Ártico aos Yamama da Terra do l•bgo,
r<'n>renciam-se os homens-animais, seres do tempo da Criação, a
energia que une os St'n'!:> vivos e a<; tradições míticas que pcrmeiam
o mundo natural.

i\ mitologia americana{· muito \ Vakan 1ànka niin {· um só c~pírito,


variada c hem flu ida. Numa mas dezesseis, o "Q.uatro-vezes-
tradição rsst>ncialmcnw
or.tl, a.> diferentt's veNÕ(·~
de um mito podem O EXTREMO
t'vnluir conforme o NORTE
narrador ou a época. Os inuítt•s do Círculo
(h mitos, suscetiwi-, às Ártico ncrt•ditam que
circ unstâncias, podem todos os s<·n·s vivos
absorver novas possuem uma alma, ou
inlhrmaçôe>. P.ex., üma, a força da \ida.
t' lllre duas versõe ... Logo. um st•ntido de
canônicas da mitologia potencialidade nútica
hopi, o deus Taiowa, O t.lmbor é uma terra menta espiri· impregna o mundo
con,iderado um deus-sol tua! poderosa nos rituais da Amé- inteiro. Os mitos
rica do Norte e em geral ê usado
mt•nor na primeira, exp ressam a wrdade da
para induzir o transe xam~mlco.
ton w-~e o "Criador" nn \~da; a vida cxpt\'ssa a
Sl'gunda. Variantes míticas podem sur- verdade do mito. A identidade cult ural
l-,rir também entre vers(ks conhecidas do povo úkigaq do Alasca ('Stá codi-
por todos os membros d(• uma cultura e ficada no mito do Cof\O c da Baleia.
aquelas restritas aos iniciados, como Tikigaq era o nome da prinwira baleia,
'amfu; e sacerdotes. A\sim, para os que, arpoada pelo Corvo, transformou-
índio~ lakotas, o Granel<- ~:-:;;pírito é uma se na terra que habi tam. O iglu tikigaq,
t:ntid<tde única, Wn_kan Tanka, mas t'l!jo po rtal de enmtda é.· um osso de
para os homens sagrados lakotas, bakia, representa a bal<·ia. Quando
caçam l'str an imal, os homens, com
di'>f:trf.'c de corvo, eJlcenam o papel do
Cof\'0, ('nquanto as mulheres dentro
do iglu representam inua, a bakia.

AMÉRlCA DO NORTE
i\s primeiras palavras do mi to da
C riação da Lribo mari copa, do Arizona,
dizem: 'i\ 1err·n ern a mfr<· t' o Céu, o
pai." M uitas nações indígenas
conroniam com isso. 'a crrnça dos
nativos americanos, o mundo todo é
sagrado e unido por um mi!>terioso
poder invisível, o espír·ito vivo do
Grand(• M istério. O s mitos mostram
Os lndios taos encenam a dançn da âgula sagrada
no Novo México. A águia é considerada uma ligação esst· poder operando por meio dt·
entre o céu e a Terra em multas mitologias. dcus<·s, animais c homens. Mui tos deles
AS AMÉIUCAS 193

remetem ao tempo da C1iaçâo e aos ca~, lhlantes do t:WL?.il, que crêem ser
feitos dos anccsu·ais e mestres da este mundo um cubo em repouso nos
humanidade. e aos homens-animais; ombros dos deuses dos Quatro-cantos
outros, aos alimentos básicos da vida, e ser o umbigo do mundo um monte de
como o milho, o búfalo ou o salmão. terra, local de oferendas, no cenuu
ccrimonj<ll de Zinacantán.
MÉXICO E AMÉRICA
CENTRAl AMÉRLCA DO SUL
as mitologias do México e da América Os mitos dos incas e seus temas são
Central dominam as culturas asteca e apenas um dos aspectos da mitolo1,ria
maia, cujos elaborados mi tos refletem a sul-americana, que se estende dos
crença na dívida de sangue da waraos, no delta do Orenoco, à cultural
humanidade para com os dcusrs. Os extinta dos yamanas. no extremo sul da
heróis Gêmros dos maia~ possuem Terra do I:Ogo. Cada tribo tem sua
reflexos na mitologia norte-americana, própria c complexa mitologia, em geral
em especial na do sudoeste dos EUA. intimamente vinculada ao meio-
Os mitos maias e o seu complexo ambiente em que vivrm. Mais uma vez,
calendário persistem até hqje entre os o foco de muitos mitos são os homens-
maias do a ltiplano, corno os zinacante- animais da época da Criação.

Conhecida anteriormente apenas


por alguns agricultores locais. a
cidade inca de Machu Picchu foi
descoberta quase por acaso em
1912 e ainda é um lugar miste-
rioso. cujo real propósito
nunca foí revelado.
('Foi determinado que o solo do fondo do oceano
primitivo deveria ser trazido à tona e colocado
sobre o casco firme e amplo da Tartaruga... ''
)eremiah Curtin e ).N.B. Hewitl, Legends, ond Myths
AS AMÉ. IU CAS 195

ILHA DA TARTARUGA
llJ Criaç-í\o 16 J.N.B. Hewitt, Tmquoiw~
~ l'\ordcstc dos EUA (À/.l1tw~;Jrrcmiah Curtin e
m l'lion:kste dos EUA H~wi n, S/'1/eraFu:twn,
J.N.ll.
ügmds, mui M_~tlu

Muitos mitos dos iroqueses e algonquinos do


nordeste dos EUA possue-m temas e padrões
nan<ttivos comw1~. Um dos mais famosos é o m.ito
da Criação, que dá nome à Amé1ica do Norte na
linguagem dos nativos americanos: Ilha da
Tartaruga. Como diz CathJohnson, da nação
wyandot, do Kansas: "H oje todos vivemos sobre o O rosto de Hadu'i (o Redemoinho
casco da Tartamga. Qpando ela se move, provoca iroquês), um ser primitivo da
doença e da morte. esculpido em
terremotos." um tronco de árvore. Hadu"i foi
vencido por Aquele·que·Segura·o·
Céu, neto da Mulher Velha.
A MÃE-PRIMEVA Mesmo com o nariz quebrado,
A maioria das lribos possui sua própria versão deste Hadu"i prometeu sanar o
envenenamenlo da Terra,
mi to, no qual Mulher Velha é expulsa do céu e se ajudando os homens.
torna a Mãe-Primcva. Uma das melhores versões é a
dos senecas - o "povo da Colina Grande", que
lrad.icionalmenrc vivia na atual Nova York. Uma
versão dejohn Anhur Gibson, chefe seneca, cob•·c
138 páginas. Os scnecas chamavan1 a Mãe-Primcva
de Eagentci, que significa "mulher velha" e, em
essência, é a própria Terra, fonte de lodo alimento.
Os pcnobscotes, do Ma.ine, dizem que a Mãc-
Primeva se sacrifica para salvar os prime-iros
humanos da fome e morre para que "o seu poder
seja sentido pelo mundo inteiro, e para que todos os PERSONAGENS-CHAVE
homens a amem". O ANCIÃO/ AQUELE-QUE-
São os netos da Mulher Velha que completam a SEGURA-A-TERRA • o líder
do céu
Criação. Para os senecas, eles são conhecidos como MULHER VELHA/ PRIMEIRA-
Aquele-que-Segura-o-Céu e Sílex, ou Boa Mente e MÃE • esposa do Ancião
Mcmc Má. Como os nomes sugerem, Boa Mente é A FILHA DA MUlHER VELHA
benévolo e wrna a Terra aprazível para o homem, AQUELE QUE SEGURA O CtU/
BOA MENTE E SflEX/ MENTE MÁ
enquanto Mente Má é malévolo c tenta danificar o • filhos do filho da Mulher
trabalho da Criação. Velha e do Vento
AS .\XIERLCA

ENRE...;.
D...;;O'---
O ANCIÃO E A MULHER VELHA !1 C.t:(ua que então cobria :t ' lt• rra. 0-,
t\quell·-quc-Segura-a-' lhra, n Ancião, pnws viram sua queda e j untaram as
nror<IV.:I no mmrdo du du. l'lll nüo cen- as:h para apará-la. E loi t·m:'to que a
lm <Tt'<\<·ia uma árvort· enC>rme, que sus- Grall(k ' Jàrtaruga, ergm·ndo-~<· do
tt•ntava a todos qut> 1ft d,·iam com suas Mundo Subterrâneo, criou-llw um
llnn•, c· frmas. Aqucle-<JUt' · abrigo acima da.'> água~
~q;:ura-a-Terra tomou a em seu <'u rvu c·asco.
tvlullwr \ c U1a mmo
~''posa <' ela engravidou <lO UM MUNDO NOVO
impir<tr o hálito do Urn ra to-almi,carado
marido. ,\las Aqurle-que- escavou sob a itgua c
S<·~ura-a-Terra Susp<'itou trouxe lama para cima,
d<1 mulher e começou a ~ com a qual t•le cobriu o
mnsumir de ciúme. casco da Tart.truga.
Ele sonhou que a Conforme a supnlicie
M>luç.io pa•-a os seus começou a se t•xpandir. a
pmblnnas seria di'ITubar Mulher Vdha libt-ro u as
:t enorme árvorr e, <L~si m, se mentes r a raiz que
arrancou-a do solo, O rato·almiscarado cobriu o segurava. i\ Terra logo se
,thrindo uma pas:;ag1•rn casco da tartaruga com lama para cobriu de pl.mld.'> t· uma
a Mulher Velha se deitar.
no ehào do mundo do nova án·ore nao,reu da
t'Í'u. Chamou a ~1 ullwr \ elha para rai:~.. 1\ ~lulher \ 'elha cou-,truiu um
~·~piar e. qmmdo da M' aproximou, abrigo para si sob a á rYorT <' lú deu à
t•mpurrou-a. Enqua nw c;úa, <"la agarrou lu:t. uma filha, que por· sua Wl. l'ngravi-
sc•mc·ntes da á.rvon· com uma das mãos dou do Vento. A filha ouviu duas vozes
c' uma nüz com aroma d1· tabaco com a demro ck si, bligando sobr't' quem
outra. A ~1ulher \ clha caiu cm direção deveria na>cer primeiro; uma era sua,·e,
1\ S t\.\fF.R ICAS 197

O casco da tartaruga e sua associação com a


Criação têm um papel relevante nos rituais dos
povos nativos dos EUA. Os iroqueses fazem
chocalhos com o casco inteiro da tartaruga,
sendo os cabos a cabeça e o pescoço. Eles são
usados pelos curandeiros para exorcizar as
doenças. Os mandans das Grandes Planícies
usavam quatro tambores - representando
tartarugas - na sua cerimônia central, a
Okeepa, "a dança para chamar búfalo".

Com pequenas pedras nos cascos de tartaruga, o


povo chumash fazia chocalhos. e com eles música
para curar doenças e ensinar as crianças.

a outra bruta. "Se você não me deixar céu. o mho q ue nasceu de sua axi la foi
sair pri meiro. vou ab rir caminho." E chamado Sílex, e seu coração era fi;o e
com isso a cria nça com a voz clc$agra- dw-o. O outro, Aqude-que-Sq,><tra-o-
dávcl irromrwu da axila da mãe. Céu, ent ca loro;.u e cat;n hoso.

O NASCIMENTO DAQUELE QUE SEGURA OS PRIMEIROS HUMANOS


o ctu Q uando os mrninos crrsccram,
A filha da Mulher Vrlha mal tcvr forças drridiram alargar a llha da Tatta ruga.
para dar à luz o segundo filh o amrs de Silrx criou as montan has(' as colinas a
morrer. Ela foi a primrira a caminhar oeste, r nquanto Aquelr-qur-Scgu ra-o-
deste mundo de volta para o mundo do Céu fez os vales c a~ campinas a leste.
''\l(x:ê está deixando tudo muüo
Do túmulo da filha da Mulher Velha nasceram as
Três Irmãs- o milho, o feijão e a abóbora-, além de confortável", disse Sílex, c tudo fez para
tabaco, cuja fumaça sobe como incenso ao céu. estragar a nova terra. Chegou até a
roubar o sol e a escondê-lo no sudoeste
cri ando o inveruo, embora Aq uele-que-
Segura-o-Céu u tenha reconq uistado.
Vendo seu reOcxo num lago, Aq uele-
q ue-Segura-o-Céu, com um pouco de
barro, fez sei ~ pares de hum;.~ nos à sua
própria imagem - os primeiros c<&'l.is das
seis nações iroqucsas.

IRMÃOS EM CONFLITO
Aqudc-qur-Srgu ra-o-Céu rnsinou os
ho mens a vive r, mas a cada d ádiva sua
correspo nclia um mal doado por Sílex.
S<· o p rimeiro criava uma pla nta
medicinal, Síl rx criava uma ve nenosa
Por fim , Aquele-q ue-Segura-o-Céu
desafiou e venceu o irmão, prendendo-
o numa caverna. Ele ainda derrotou
outros inimigos dos home ns: o
~rdcmoin ho, o Vento r a Bes ta do
e criou as estrelas, o sol e a lua.
a cria<;ào, seguiu o caminho do
AS AMÉRLCAS

A FILHA DE SOL
IJJ A origem da mortt li! Terri(úriu ch~rok('C na Gt'()Tgia, Carolina du Sul c do
lb Chcrokec u\n) un"iya), t\one e Temwsscr
~udtS(C dos f'.L'A 6 J :Vlooney.lirfrtliJ qf du~ 01erolá!e, contado pelo ' adador

Segundo a lenda chcrokec, certa vez o calor de Sol, PERSONAGENS-CHAVE


t>ntidade feminina, ficou tão intenso que os homens SOL
decidiram matá-la, mas acabaram matando sua LUA• seu irmão e amante
lilha por engano. Sol, desesperada com a perda, A FI LHA DE SOL
decidiu esconder-se; e o mundo licou escuro e frio. CABEÇA DE COBRE,
HETERODON, CASCAVEL E
Temendo pela vida da Terra, as pessoas resolveram
UKTENA • quatro homens
resgatar-lhe a filha de entre os mortos. E~tavam convertidos em serpentes
prestes a consegui-lo quando, no último momento,
ela escapou.

ENREDO
SOL E A FILHA imensamente que as pessoas não
Quando jovem, Sol tinha um amante podiam mais olha r para ela sem franzir
que a vi~itava ap<·nas à noitr e se o rosto, mas podiam sorrir para Lua.
r('<:usava a deixá-la wr o sru rosto. Ciumenta c zan~acla, Sol começou a
Urna noite ela esfrcgou cinzas no rosto brilhar cada vez mais forte. até que o
do amante para tentar identificá-lo povo começou a morrer de calor. As
drpois. Na noite seguinte, quando o seu pessoas ficaram tão descsperacl:ls que
irmão, Lua, surgiu no céu, Sol, decidiram matá-la.
horrorizada, viu-lhe o rosto manchado. Sol morava no lado leste ela abóbada
Lua ficou tão enver~onhado que, daí celeste, e sua filha vivia no centro.
~m diante, ficou o mais distante Todos os dias, conforme Sol !'sralava o
possível da irmã. Sol brilhava tão céu c se movia e,m direção ao oeste,
No princípio, o mundo era apenas água e
céu. Todos os animais viviam no céu,
mas este ficou superlotado, e assim o
besouro d'água mergulhou para ver o
que havia sob a água. Ele trouxe um
pouco de barro, que aumentou até se
tornar a Terra. O formato das montanhas
e dos vales foi forjado pelo bater das
asas de um gavião. A Terra ainda
permanece presa por quatro cordas à
abóbada celeste de cristal, e, quando
essas cordas se desgastarem, dizem que
a Terra afundará novamente na água.

pa rav<t para a rdr ifi:lo do nll'io do di,\ ••·solwra m buscar a filha de Sol no
na ca~a d a rilha amada. 'lbdos ~al 11alll .\111ndo das Trevas. L-1 chegando,
disS(I, c clrcidiu-st• então u~ar ('sla rotina r ncomranun-na d<mçando co m
como parte do plmto para matá- la. Dob fantasmas. C a ptura rarn-11 a e
homc ru. se translo rmararn (' m colmL\ coloca ram-na numa caixa, que, com o
H ctcrodon e C abeça de lhes loi dito, nã o
C o bre c ficaram deveriam ab rir dc m odo
deitados esperan do Sul alg um . No n 11ninho tk
na porta da casa da filh a. volt,t. a j owm rogava
~1as. ao chegar no d ia q ue a soltassem ,
~eguin te, sua lut lui tão étlegand o primcim fomr.
ofuscame que: l lttl'r()(lon depois :,ceie c, por fim,
::.ó con>el,ruiu tu~pir uma falta de ar. O s h omens,
secreção aman·la ao t'ntão, entreabriram um
tentar mord(;·la, e pouco a tampa da cdi.xa.
Cabeça de C obre e um som vibrante, um
rast<:jou para lon~t'. chilreio de piiSsaro, fez-~·
ou,;r. e algo n10u: um
A MORTE DA Fil HA pás...aro cardeal a filha
O s humanos não Os cherokees acredilam que Sol dr Sul. que voara para
desist.iram. Um tl·n ('II O aonda chora pela filha e que suas longe.
lágrimas se pre<ipitam como chuva.
ho mem se twnslormou
em c.:a.~~ a\ d ,. um q uarto numa O PODER CURATIVO DO RI SO
eno rme serpente, UkH·na. O sangue dc QJ•ando viu os ho mens reto rnartm 'o('m
Uktena era vcnenoso t so o ;,cu ol har j.t o,ua filha, a dor de Sol foi tão in tema
era m o rtal. r\~si m , cl<' pan·ria o q ue seu pranto in undo u a Terra. O s
candid ato pcrlê·iw para 111.11.1r Sol. ho mens tentaram animá-la, mas só
As duas c obr,ls lora m ;\ <·a ~a da lilha volto u a sorrir, e o mundo a se cnd1er
de S ol e lá fica ram i1 t•sprl·ita. Quando dt' lu1, quando o uviu o som ak~re do
a po rta st· a b•·iu, ,, Casca\'l'l st' adiau- tambo r às m ãos de um há bil riuniMa.
tou às rt'gas t' ace rtou q ut•m ti nha Dcsde l'ntào, Sol nunca m ais alterou
dianH' d r .,i a hlha, que morn• u seu ralor. mas os hom c--ns ainda não
instanta neamt•ntc. pockm olhá-la sem fr.:tn;.ir o t!' nho.

O APElO DE UM FANTASMA
( :ht••a de tnst<'t.a pd.t mont• da lilh.t,
Sc)J {'S('Oild!'U•SI', (' O lllUildO pndeu 'Uil MITOS RELACIONADOS • Oeméler e Perséfone
lu1. e t·alor. o , honwn,, (·ntào. (p.s4l • Vi a1ira nos sóis (p.q4)
Menino kiowa numa cerimônia de dança do milho
no Novo Mi!xico. Dançar tornava os espfritos das
presas, p.ex. búfalos. pro prelos aos caçadores. e
também os das "três irm<\5": milho. feijllo e abóbora.
Na famosa Dança da Cabaça kiowa, os chocalhos
são feitos de cabaças secas.
20 2 .\S UIÉRJCAS

MULHER PENSADORA
CD Cri,u,.:lO é Fr.u11. lln.t"-. Art. ca11 'ú~L<:. l\fatikLt CuM· Stc·vt·uM>n.
~ K t'l'("' 17v .<;,11; '\l.tuht·" \\: Stirlin~. O~;çm \f1lh of . lromn;
m "lldot"ll" du, l.l',\ Rmh Bc·m·dit 1. la/" of 11'<' 0Kh1h h•lial15

\'arios pm·os Pueblo con,ideram a Criação uma PERSONAGENS-CHAVE


obra lcminina. EnuT Ih kcn:~ dUcm, às ve;<·s, cpu·
SUS'SISTINAKO • Mulher
o Cri<lclor miginal era l(.'minino e oulras VL'I.t's Pensadora, a criadora
na lvet sob inAuênria do rrislianismo) que era IATIKU • a MiJe-Milho
ma,nalino. Este primeiro Criador pôde faz<·r o IATIKU • filha de lotiku, mãe
das povos indfgenos
mundo de um coágulo dt• sangue ou simplesmente
NAUTSJTI • {ilha de lotiku,
usar o poder da irnal{ina<;ão. Dizem que a l\lulher mãe das povos brancos
Pt nsadora, a aranha. criou o wú,·erso a partir da
teia de seus próprios pl'nsamcnlos.

ENREDO
A CRIAÇÃO tinha doi~ aspectos: um qul' 1wrmanccia
No paindpio ha\i.t apcna' um ~r. uma ~ublerrânco c para o qu.1l O\ morto'
ar.111ha chamada Sus\i,amako, que n·wrna\-am; e outro qut• -.i;üa\a pelo
'i~aulica ~1ulhcr Pcmador.t mundo, lt·v.mdo o dom da\ ida. Ela
St"\islinako rcmcteu seus pensamentos u·w duas ftlhas, a quem cku rc·st<Ls
ao !'spaço c os usou para tecer o repktas dt• semt:mes e inwgt•n,, quc
uni wrso. /\baixo da ' H·n·a, da colocou ckwri:un SI:' r usadas para I rat.c'l" vida
latiku. a Mãe-Milho, tarnb(·m conhcci- ao mundo.
da <o mo ''o sopro da vida". !•oi latiku
qul·m niou wdos os rlrnwnto~ que O SURGIMENTO
nmlpôt·m o mundo <lll' nwsmo a \ priml·ira filha foi chamad.1 latiku.
di\t'r-.<to. na forma do p.tlha(,;O Koshart'. l'omo a màe. pob elas st• p.m·ri,tm
a qtu•m da moldou dt· pl'll.t\'" de sua muiw. \ "'~tmda filha uúo nTt'l><'u
prlr, para fazer a~ pr~~oa., rir('lll. latiku lllll 1101111'.
AS A.MÉ IUCAS 203

A Mulher-Aranha desempenha, em geral, o


papel de Criadora nas mitologias de outros
povos do sudoeste dos EUA. Os hopis
acreditam que ela teceu a lua com algodão
branco e moldou os primeiros homens do
barro. Para os dinés {navajos), ela teceu a
escada de cordas pela qual os homens
subiam a este mundo, e a tecelagem foi
uma dádiva sua. Os dinés nunca matam as
aranhas, pois livram os seres humanos de
insetos, mosquitos e moscas.

As moças dlnés esfregam teias de aranha nos


braços para se tornarem tecelãs incansáveis.

As d u a~ ir mãs subira m :1Terra c·, todas tw •feitamenle agrupadas, aLf qur


quando emergiram, o mu ndo ainda uma meni ninha, ao espiar o fr ixc de
estava rscu ro. Decidiram, então, tTiar estrelas. deixou-as escapar, rspal ha ndo-
a luz. E ntoaram a c-anção da C ri ação, as desordenadamente pelo céu.
for mando o sol d,· ro nr has r prdras
vermelhas. Depois, viajando para o COMPETIÇÃO ENTRE AS IRMÃS
les te, levaram o sol até o cume dr uma laLiku percebeu q ue o cesto d a irmã
alta montanha t' deixaram- no cair do comi nha mais coisa~ p reciosa, que o
outro lado. Na manhã seguinte, u sol dela l' resolveu chamar a i rm i\ de
se ergueu pela p•·imeira vez. Nau tsiti, q ue' sign iflca "mais de tudo no
se u resLO". As dua~ irmãs compe ti ram
CESTOS DE VIDA para \'t'r qual delas comandat·ia o
huiku e a irmã continuaram a espalhar mundo. l atiku \'enreu, poi~ a Mu lhn
as sementes c as imagens de seus cestos Pensadora srnlou-sr no seu omb ro sob
l' cada coisa gan hava vida assim qu e for ma de aran ha e rochir hou-UlC' as
caía. Fizeram a lua r depoi s as estrelas, respostas. Como vencedora, Iat:iku
ficou sendo a màe dos índios, enquanto
Os povos pueblos do Arizona e do Novo México
tóma ram esse nome da palavra que os espanhóis Nau tsili par tiu r tornou-se a mãe dos
usavam para designar suas antigas colonizações. hnmco~.
204 AS AM ÉRICAS

O CORVO ROUBA O SOL


ID Herói da cultura tt:. Fnu'IZ Boas, Tsimslrian 'Tí-:o:ts e 'Ti'imshion A~>·lhology
llJ 'fsimshian, Canadá (como regisLmdo pOI' Hcnrr W 'Httc); Marius Barbcau,
m Colúmbia Britfulica TJ-im-!}'1111 A.t'fdlJ; Barbeau e l~eynon, Tsimshian .\'(!Jratú:ts

H ouve Lml tempo em q ue o mundo era completam ente PERSO NAGENS-C HAVE
escuro e os seres podiam tom ar forma human a ou a ni- O CHEfE DOS KUNGALAS E
m aL O fill1o de um chefe lribal morreu, mas retornou SUA ESPOSA
como um j ov-em que brilhava c se recusava a co mer, até O CORVO • seu filho
que lhe dera m sangue coagulado para beber e ele ficou O CHEFE-005-CtUS • o
Criador
famin to. Ele foi mandado embora, na form a de um
A fi LHA 00 CHEfE·OOS·
corvo, c semeo u a terra e os ri os. Depois voou p ara o ctus • a segunda mãe do
céu e roubou a luz do dia do Corvo
Chefe-dos-Céus.

UM FILHO AMADO
O chefe d os kungalas e sua
e~posa tiw ram um fi lho muiLO amado,
que mo rreu. Eles f' a tri bo choravam o
corpo todas as man hãs. U m dia, a mãe
descobri u um j ovem tão brilha nte
q ua nto o fogo no lugar do corpo do
filho, c d isse ao marido: "~osso filh o
voltou à vida." O che fe pergu mou
ao j ovem se ele era seu fi lho, e o
jovem bri Lha nte respo ndeu O Corvo é um conhecido
afirmativame n LC. deus-trapaceiro em várias
tribos do noroeste dos EUA.

O JOVEM BRILHANTE ba ni mento do lllho. Deu-lhe Ltm


O chefe e a esposa a ma ra m o escalpo de corvo, mais frutos
renascido ainda mais. Só lhes silvestres e ovas d e peixe a serem
preocupava o fi lho não aceitar nenhum espalhados por terras c águas, a fi m de
alimento. En tão, um dia, o escravo nunca passar fome.
Boca-em-Cada-Extremo deu-lhe um
pedaço de carne de baleia !' nvolto em O ROUBO DA LUZ
sangtu' coag ulado do osso da O j ovem wsti u a pele de co rvo c voou
barbatana. I mediatamente ele se ao claro mundo dt) céu, c esperou
tornou insaci{tvel, e sua vo racidade perto de uma fonte até a filha do
levou o chefe a decidir-se pelo Ch efe-dos-Céus aparecer.
têm uma comple11:a estrutura de paren-
tesco, visualmente codificada em totens.
Estes não ~o arteratos religiosos. mas
e11:pressões de orgulho ramiliar, que
traçam a linhagem até os homens-
animais do tempo da Criação. As escul-
turas destes ancestrais-animais em geral
descrevem mitos. O Corvo, p. &, pode
ser visto com a lua no bico. A quem
passava num vilarejo estranho, bastava
olhar para o totem de cada casa para ver
que famfllas compartilhavam os sfmbolo~
de seu clã e, assim,
acolhida. Os

Tramformo u-se. então, numa folha d•· O MUNDO SE ILUMINA


cedro ,1 flutua r na correnteza. A jovem O mundo ainda estava escuro quando
beb<•u da <Í~ua com a folha e, no o Corvo dC'sceu prrto d o ri o Nass.o,
tempo dt'vido, de u à lul. um meni no. honw nss c~tavam reunidos, romeudo
Todos no mundo d o céu amava m a o/athrn (peixe-vela). O Corvo, ma is
criança, mas não sabiam o porquê de llu n into (]U e nunca, gritou: ':Jogucm-
seu choro ininterrupto. Quando nw uma dC'ssas coisas que vocC:s estfto
desco brira m que a razão era a bola conwndo." Os homens respondera m-
qm· conti nha a lu.t. do dia, deram-na Ih(· co m insultos. " Eu lhes trouxe a lu1
para t'lr. Por muito u:mpo, o menino <k ntm de uma bola", disse o Corvo, "r
brincou com .1 hola. mas um dia '" não n 1r dt·rrm um peixt', ' ou
colocou-.1 110 ombro e correu até a quebrá-la." Eles apenas riram, e e mào
pa~sagt•m do ri·u, ondt' jogou a pele de o Corvo cumpriu sua palavra. Foi ao;.,im
corvo sohn• ~i <' voou de volta à 1rrra que ,, lut do dia se espalJ1ou pdo
com a lul. mundo inteiro.
206 AS A~1.1~RICAS

KAYAK, O FALCÃO-PEREGRINO
[l) H~rói <lllmral 6 Knud Rasmus<cn, Tilz 1!-à{!/e'.! Cjjl: t llos/w EsJ.:imo 'fã~.
llJ Lnuitr como c-ontado pot; Lda Kiana Oman, Tlu lijlit f!f
m .'\las<:<~ Q'!)vut: '17w ÚJIIf!.rSI S111ry Eutr '7Í!ld B_y i\& PeofJÚ!

O ciclo épico dos inuítes do Alasca inclui um herói, PERSONAGENS-CHAVE


que transita na paisagem da época da Criação: KAYAK (FALCÃO-PEREGRINO) •
Kayak. Assumindo a forma de todos os tipos de o herói mutonte dos inuftes
animais, inclusive pássáros c peixes, sua jornada é a do Alasca
O HOMEM OA FLORESTA • a
da descoberta c domínio dos segredos do mundo
pai de Kayok
natural: um processo de aprendizado prálico. No
triste final, Kayak retoma à casa c encontra os pais
já mortos. Ocorre então sua mclamorfosc final em
falcão-peregrino.

ENREDO
O HOMEM DA FlORESTA Quando a criança - um
Um dia, um homem mctúno nasceu, o
apareceu caminhando Homem da Floresta
pela costa de Sclawik. lavou-lhe o corpo l:OI'Il a
Não se sabia exatamente pele de wn falcão, que foi
de onde vinha, apenas também o primeiro
que nascera no cenu·o do mnuleto da criança.
pais. O homem era um
grande caçador e FALCÃO-PEREGRINO
armador de armadilhas e Deram à criança o nome
foi chamado de Homem de F'alcão-Pcregrino,
da Floresta. Ele se casou c embora seu nome
teve quatro filhos que, um também fosse
após o outro, foram ca~:ar A mitologia inuíte não tem deuses. Qajartuarungnertoq,
e nunca voltard!Tl. Os Em vez disso, há os grandes espíri· "Aquele que sempre
pais, consternados, foram tos das criaturas que caçavam. sentirá falta de remar em
à pràia onde o Homem da F loresta com seu raiaquc", c, por isso, passou a ser
um pedaço de sílex produziu faiscas chamado simplesmente de Kayak. O
enquanto entoava palavras mágicas. H omem da Floresta criou-o para ser
Depois disse: ·~gora Leremos um filho.'' um grande caçador c, para que ele não
AS AMÍ~RI CAS 207

tivesse o des tino dos irmãos, pro tege u-o


com mais amulews, cuj a eficácia
mágica testava todos os dias. Sedna, a senhora dos animais marinhos,
mora no fundo do mar. Ela era uma órfã,
J á aos primeiros passos de Kayak, o
que fora jogada no mar por não ter quem
H omem da Floresta j ogou uma fara
olhasse por ela. A menina tentou se segu·
contra ele, mas ele se esq ui vou. rar no caiaque, mas cortaram·lhe os
En<]uanto dormia, alvejou-o com um dedos, que se transformaram nas primei-
flech a, mas Kayak de novo se e$quivou. ras focas. Pnr não ter dedos, Sedna não
Assim veio a st·r o m<úur caçador de conseguia pentear os cabelos, e os
todos os tempo~ c, ao atingir a idade xamãs deviam, a nado, driblar o cão que
certa, partiu para vingar os irmãos. a guarda para lhe desembaraçar e trançar
o cabelo.
AS AVENTURAS DE KAYAK
Ao va1,ruear pela te rra, Kayak
encontrou vád os homens que eram
na ve rd ade arúm ais. Chegou a casar-
se com uma jovem, de fato uma
coruj a, mas logo q ue a viu grávida de matando os monstros que atacavam os
um filho, que poded a caçar para ela, huma nos, ele retornou à sua terra
K ayak retomou sua peregrinação. nata l. Mas seus pais não estavam mais
Venceu todo tipo de irúmigos e lá: haviam morrido há muito rempo.
tam bém encontrou vários "amigos da Mesmo a grande árvore q ue crescera
humanidadt:'', como o homem que nas ruínas da casa não era mais que
lançava num rio lascas de abetos um cepo. Kayak se tra11Sformou num
vermcU1os, que se tn tllsforrnavam em falcão-p(•regrino, pousou no cepo c
sahnâo. Kayak a<;Sumiu a RJrm a de truta, chorou. Depois, abrindo as asas,
anninho, larva e ou tras criaturas. Por desapareceu voando nas florestas de
vezes foi pego c devorado, mas voltava à onde seu pai surgira tantos anos antes.
vida graças à mágica de seus amuletos.

O RETORNO DE KAYAK
D epois de viaj ar pelo mund o, ao longo
de Selawak, Kobuk, N oata k c: Yucon,
e de vingar a morte dos irmãos
l >o8 i'V~....-AS_A_M_ÉR_IC_A_s _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

(~ .. e quando a bolajài derrubada novamente,


foi a cabeça de Hunahpú
que rolou no campo... ''
Denis Tedlock, The Popol Vuh
i\S i\Mf:RICAS

OS GÊMEOS HERÓIS
m l krói,nolto u ai, 6 Dmuis ' l(·dlo< k, '171f 1\I{Jol
lU \ l.li.os lúli: Sdod<' I" .\lillto, I hr
m R··in(J quidu\ BJood qf lilL IIÜ(I!,'• h .ul l.oubt\
Gu.unn.tl.t Azl« llllll Jlm"fl ,\/,!/"

DO MITO
Popol ffi/1 t; o li\TO sagrado dos maia~ quich(-,
transcrito em meados do séc.XVI a panir dt· um
antigo o o·ihoinal hi,·mglíllco. Contém ns ~t·u~ m itos não
só de Criação l' fimdação, mas também sua história.
Como em muitas mitologias, nos ptimórdios maias,
o deus-criador do mar, Gugumatz, c o ckuo;-criador
do sol, Coração do Céu, tentaram criar a raça
humana várias \l".lC.... Mas seus primeiros st•rt·~ t•mm
incap;ues de pronunciar os nomes dos d<· u~·,; dt-s Hun Hunahpú, pai dos G~meos
grasnavam, uivnvam c chilreavam eM' translorma\",Lnl heróis, foi mono e decapitado
pelos senhores de Xibalba. Seus
em animais. A segunda raça, feita de barm, também filhos tentaram compô· lo
sem domina r a fala, diluiu-se na água. Consultados os novamente, mas ele n3o
conseguiu nomear todas as
adivinh()s Xpiyacoc c Xmucané, Sf'I'('S a n n·strais, os partes de seu corpo e teve de
deuses tTiaram então uma nova raça, moldando os permanecer no Mundo
Subterrâneo. Os maias vêem ·no
homens da míldcira e as mulheres do junco. Mas esses como o deus do milho. e com
prolo-humanos não tinham alma t' sc negavam a freqOência ele é representado
portando espigas de milho.
adorar os dcuscs, c assim Coração do Céu crwiou um
dilúvio para os destruir.
PERSONAG ENS·CHAVE
JORNADA AO MUNDO SUBTERRÂNEO
XPIYACOC E XMUCANt •
Ao final fomm os net.Os dos dois adivinhos qut>, adivinhos: o casamenteiro
superando a morte, abriram o caminho para a rrinção e o parteira da humanidade
bem-~uc<·dida dos humanos. Ess<·s dois irmiios, os HUN HUNAHPÚ E VUCUB
HUNAHPO • filhos de
Gêmeos herói~, se aventuram no Mundu Subll·rr:ineo Xpiyacoc e Xmuconé
para vingar a humi lhação e o assassinato do pai e do XQUIC • uma donzela do
tio pdos terríwis senhores de Xibalba. Essa í• uma d<L~ Mundo Subterrâneo
XBALANQUE E HUNAHPÚ o
partes mais repleta de awntura do Popol Ji11l. A fim11a
Gêmeos heróis, filhos de
cCJm que os espertos gêmeos retornar..un à vida depois Hun Hunahpú e Xquic
jle IC'U~ O:.so!> terem sido transformados em pó inspira a HUN CAME E VUCUB CAME •
dd<...._, Xmucané. a criar os quatro J>rimciros senhores de Xibalbo, o
Mundo Subterrâneo
anos, ancestrais das quatro linhagcn:. paternas
· hfs, de massa de farinha e água.
210 .\S \;\I é RI C,\S

ENREDO
OS JOGADORES DE BOLA
Xpiyacoc c: Xmucan(• tiwram dois
filhos. Hun H unahptl e \ 'ucuh
ll unahpú. Os menino, nada f;uiam o
dia inteiro além dt• b1i1Kar com dadm t'
jogar bola. O barulho que f:v.iam
perturbou H un Caml' t' \ 'urub Carne,
os ~cuhores de Xibalha, o :'\lundo
SLibll•rrànco, que llw~ I' IWiaram, por
mt·nsagciros-cnruj<h, o desafio de um
jo!o\o de bola no mundu d<~ mune.

RIDICULARIZADOS E MORTOS O fogo de bola sagrado dos maias origmou·st> das


Quando Hun Hunahpú l ' \ 'ucub histórias dos irmãos heróicos. O anel circular acima
é o gol usado nesse jogo.
ll uu:d1pú chegaram a Xib,1lba, H un
Canw l' \ 'ucub Canw convid aram-no> a A CHEGADA DOS GÊMEOS HERÓIS
SI' sc utar; eles acritaram, 111ll~ logo Xquic, uma donzl'ln de :(ihalha, foi H::r
dl'r:tm um salto, poi~ o lxulC'O lt-•via de a ;'u\'OI't' de cabaç<L~. ()_uando da
l ator, o que levou o" '-t'nhore~ de ap.mhou um fruto, a raheç.t de l Iun
Xihalba às g'dl-g-dlhad.t,. ,\ 'eguir, ll un.thpú cu~piu na palma dt• wa mão.
ronduziram-no' au' a Ca,,l da &cu ri- Lia 1·n~ra,idou c rlcu ;i luz O\ Gí·mcos
dão. !>Ó tom uma 101 h a l ' dois l'haruw' ht:n'Ji\. ll unahpú e Xb;tlanqut·. l:tc,
como lume e com ordem dl· lll.Ullt-Io., gtht,\\ .un tanto de jol\<lr bol,t quanto o
'''mp re aceso~. :'-lo d ia scguiiHl', Hun pai I' o tio, l' M'US gritos t.unbí·m
Camc e Vucub Canw exigiram a LOcha perlurbararn os S('nhores d!' Xibalba, e
c os c-harutos de volta Como tinham se :ts~im um novo desaJio fi1i propos10.
cou~umido, c o~ scnhon'' enl.1o llunahpú c Àoalanqul' t'rtlz.trnm o rio
ordenaram a morte dth mt·nino, que dl' Pth e o rio de Sangut•t• nllraram em
fin,un 'aCJil1cado, l ··mt-rrado' no Local Xib.tlba. ·rooas as noite-. l'lr-. t•ram
dt O..,at 1'ilido do, Jogo, dt• Bola..\ lur\.tdns a ficar numa d,L, teníH·is ~as
rabt'\.1. ck Hun ITun.thpu lili cortada t de Xih.tlba: a Casa F~'-t ura, a Ca\<1 da
pre~a a uma árvorr, que deu fru to~: <h :\avalha. a Ca~a r.ia. a ( ;,IS<I doJtguarf'
primeiras ('abaças. ,, ( :a,.t do H1gü. Ele, st·mprc· conM·guianl

O Mundo Subterr$neo mala e~pelha a sua


civilização acima da terra, com uma clas~e de elile-
os st>nhores de Xíbatba -. 1emplos e comp exos de
quadras de JOgos de bola Stm lares aos centros
malas como o de Cht<hén ltzâltd
,\S .\ ~!I:RJCAS 211

'<>hrn 1\ ,·r ao> lCJ>lC::> c tonM\ ,un .t j~ar


bol.1 <onlla os scnhon·, de X ibalba. r\a
Casa da E.ctuidào. por cxc111plo, c·Jrs Os prefixos uhun~ e úvucub" significam "um"
rvitara m qtw os c ha ru tos qut·i111assrm e "sete". Hun Hunahpú é traduzido como "um
soprador de zarabatana" e Vucub Came como
coloc.u1do vagalumcs na pou ta em vez de usétima morte". Entre os maias, muitos
au·ndi·-lo,. Na Ca~.t do-; :\lon·rgos, o~ personagens míticos têm nomes contendo
Gfnw<r. dormiram dullm dt ~u.1s números que se reladonam aos complexos
.1.a1 abat.tn<L~ por segur.lllç.t. m<L~ quando ciclos do seu calendário, que observava o ano
H unahpú colocou a c:tl>t.'Ç.t para lora solar, o ano lunar e o cido de Vênus em uma
para \\'r '>l'j.í tinha aman hn ido, série de linhas de tempo interligadas.
um mor1.·t·go dccepo u-llw a sobre uma base de 26o dias, de
aproximadamente nove meses. o
ralx:ça <.' a an1.·mcsso u pela
período da gestação humana.
quadra de jogo.
Xbalanquc esculpiu PEDRA 00 CAlENOAAIO MAIA
uma r.tbeça nova para
H uno.~hp[r de uma
.tbcíhor.t <'. quando espalharam o pó no rio.
aman lwc t•u. os Gêmeo' Porém , apó~ ~t·is di<t~ os
saíram. ()jogo de bola G i'·rneos rel ornarnm a
conli'<,'CJU co111 a cabeça d<' X iba lba, m a is lindo, (]li\' nunca
1lunahpú 1'01110 bola; Xbalanqut• c· a l'(·liXIr-se de cortSI.'p;uir lr.v.er os
batcu-a para for.t do campo. onde· um morto' dc· \nlt;t à \·ida. O , 'o('nhon·, de
coelho aguardava para pt-g:t-la t' Xib.ub.1 t''-i~iram a prova. t\s::.im,
!»t'tn.·t.mwnu· dtvolvi'-l,t a Xhal.mquc_ Xbalanque w locou lhmahpú ele br·aços
Enquamo m ...cnhorc> dt Xihalha aberto~ I' n•timu-lhe o coração. Dq>ois
pnKura\am a bola, elt rnoi()(IHI a disst': "l.J.•, ·a ntc•-se!'', e llunahpú rcviwu.
cabcc;a do irmão no lugar, c: assim os Ilun C:u1W r Vucub C a mc ficaram t;io
G ê111cm mais u ma ve'l vc:m·c·r,un m animados que g-ri laram: "Faça cl nw~mo
wn hort·~ de X ibalba no jogo. em nó-,! Eu; a o mrsmo t'l11 nó,."
H unahpú e Xbalanqur rortaram os
A MORTE TERRfVEL cor.u~ÕI'!. do... senhores da mortt', mas não
(), ...c·nhon.:~ de Xibalba não os ln•uwr.tm de vo lta . O poder da mo ne
con'o(·~uir:.m suportar t\'-'<1 d<·m>la. Eles f<l l a w mpido e diminuído. Findo o
qtwinl.lrAm os Gêm eos nu m flu no, u-abalho, o~ G (·meos subira m a o d u,
torraram os ossos como lh riuh.1I' ond1· se torna ram o sol ta lua.
,\S AMI'.RICAS

A SERPENTE EMPLUMADA
CD Criação t6 J ohn Bicrhol'l-1, /h!/or)' wuf.\lyilwi/Jf:)' ~/ lllf.l:11u; Día:~:
~ ' \ Sl\'(::1.' t' Rodgen.. 77tt (.<Jt!n JM,.w; &rnadino dt· Saha~·ún,

m México FLmnlw (A.drt~ K.!rl 'l:mtx. -~ mul.\1'!1'(1 \11tl"

o, a~tecas acreditavam que nosso mundo t'r.t o PERSONAGENS-CHAVE


quinto sol, ou quinta-criação. Os outros teriam
QUETZALCOATl • o deus do
sido destruídos respectivamente por jaguarr·s, ven- vento
tos, chuva de logo (' um grande dilúvio. O mundo TEZCATLIPOCA • o deus trapo·
fi)i então recriado pelos irmãos Quctzakoatl <' ceiro, irmão de Quetzo/cootl
MICTLANTECUHTll • o regente
·n.-zeatlipoca, que st· transformaram em scrpcnt<'s de Mictlon, o Mundo
para c-;quartejar a deusa da terra Tlaltecuhtli e Subterrâneo
criar a Terra e o~ céus. Quctzalcoatl resgatou os ClHUACOATl • o deusa do
osws da raça anterior para criar novos humanos. fertilidade

ENREDO
DESCIDA AO MUNDO SUBTERRÂNEO
PROFECIA CUMPRIDA
Qucv.akoatl foi até ~lit tlantecuhtli, re-
gt'lll<' do ~lundo Subterrâneo, pt:dir os Nos meses antes da chegada de Cortês e os
espanhóis ao México em 1519. o reino asteca
OSI!Ch da última raça de humanos. para
estava repleto de prorecias lúgubres.
rom dcs povoar a Terra. O chefe con- Os caçadores trou)(eram ao rei
rordou desde que QueL;.akoatl ca- Montezuma um pássnro com um
valgasse quatro vc;.t·s ao n•dor da espelho na cabeça, no qual se via
terra morta toca ndo sua corneta o céu. No espelho o rei viu
dt· co•Kha. Mas a conrha não ú- homens armados e julgou,
nha fwt>S. Por isso. Quet7akoaLI quando Cortês aportou, que
condamou os verme;, para fa~.cr Quetzalcoatl retomara.
O!> luros, c as abelha<;, para nela
st' aninhar c amplificar-Ih<· o ~om. HERNÁH CORTts

Quetzalcoatl porta um colar ou um leque de penas


do Resplandecente Quetzal. um pãssaro espetacular,
com plumagem furta-cor vermelha e verde. QUETZALCOATL PORTA UM COLAR
Queualcoalt recclx·u as duas pn:ciosas
pilhas de ossos de homens c mulheres
qut• lhe eram devidas, wb a tondição de
não levá-los consigo. Ao concordar, men-
tiu, c os espíri tos perceberam. Enquanto
filgia, fizeram-no trop1•çar c espalhar os
ossos, que roram bicados por um a
codorna. Quctzalcoatlemrcgou-
os a CihuacoaLI, que os m<X'u
para serem aspergidos com o
sangue dos dcuse~, do que
resultou o renascimento da
humanidade. Mas como os ossos haviam
sido bicados pela codoma, os homens
t(·m tamanh os difere ntes c l'Stão
destinados a morrer.
213

O ESPELHO ENFUMAÇADO
ID lkrt'n da cultura 6 j ohr1 Biahorst. fllllof"' (111(/ !lfrtlwliJgJ o/ lht A~"' 1:
fU , \ '11'\',lS 'Tht Cudn Chimalpop..m; ll••rnadino d<· Sa.h.t!(Utl.
m 1\lt:,;,o Ht~mrtittt CM/t.\: <:auTal l llwry ~f tk T/lmf.• '!/ ' '" 'if"'m

Q, n:latcb da mitologia a'ltTa pó,-conquista falam PERSO NAGENS-CHAVE


de Qurtzakoaú tanto romn ckus qua.nto como o rei TOPILTZIN CE ACATL
humano de ' fb llan. Topiltzi n Ct· Acatl Quctzalcoad QUETZALCOATl • rei de
(8 17-05 d .C.) foi modelo para todos os reis tL\llTW\. Tollan, formo humana do
deus Quetzo/cootl
Sob c n< ar nação humana, dit.-\l' que introduziu o
TUCATUPOCA • um tropecei·
rakndúriu asteca e muito' rito-.. Recusava-se a ra, irmão de Quetzalcootl
pmúrar o .;acrificio hum;uw t\ por isso. Trlt.:.ttlip<K.t QUETZALPETIATL • irmd de
hcu <. rud irmão; dt·s~rdçou-o por meio de trapaça, Quetza/coatl
levando-o a abdicar do reinado.

ENREDO
UMA VIDA DE ORAÇÕES INCESTO E EXIUO
Tt•~t·atlip<K'il, irmão de l opih,.in, na i\ li% idack fez Topilvin lwht·r pulque
ttm kitirdro, dono de wn npdho atf ,,. l'mbriagar. Ele ch<UliOU Qucttal-
magko. que c·milia fumaç.1 c m.lla\'a pctlatl. a irm.i. que tambhn .,.. c:mbe-
M'll'> inimit.:"'· !<à,·or;Ívl'l <r ,,,rrifkios bedou, c· o;, irmãos dormiram junto>.
humano~, vivia em rix,l com o irmão, Ao acordar, c nrlwram-se
Topil1zin, que se n·cusava a de uistcza c• wrgonha.
pagar tributo aos dcu;,c~ ron1 Mortificado,
t.:m,u.;ôes humanos. Em \t'/ Topilt.tin partiu
di,,o, ele 'e fi·cha\'a em para o kstc· numa
;,u,, ~'•l'·' dl' orações, jangad.1 (k
<·onfin.Hio t'lll auto- scrpcnlt's.
sac rifirio 1ofhecia o promt·((•ndo
próprio sangl.tt', oraçôes c· ret ornar algum dia.
imolava eohra'>, pás~arus Em outra ve rsão
c· borbolc•tas). Como do mito, clt• ;c• j oga
Topiluin nada fi:v.ia numa pir.1 funerária
além dt• orar. ~eu corpo dr tanto n•mnr-o,
ddinhou, \Uas órbitas apcna' par·a n•,su!Wr
alund.u am no cr.lniu e A ~scullura d~ um crânio decorado 110\'aJllC'Ill(' ('OiliO O
os olhm 'kllmram. representa o terrível Tezcallipoca. deus Senhor d.t ,\urora a
do "espelho enfumaçado".
1 i·zcatlipoc:a, emào, estrtl;r d 'alva. nu
c·nviou-lhe um espelho ' rlahuizcalparlll'l'uhtli.
c· ' lhpihl'in hnn·orizou·'ll' mlll a própria As d u;" wr;.cics do mito pnHIH'll'lll seu
visão. Por i"u. pediu a Covotlinahual, o retorno fm,rl.
anc·sào de penas. que llw l11c·"c· uma
nliÍst .1r.1 ()t- turquesa com pn·,,rs de
"'rp•·nt~· ,. um nxar c·nm l'r.mF'' de
pena~ elo;, p;í.,o;.'lrus qurtt.al t' rollwrt•iro.
Q!rando Topiltzin \t' viu 1111 C'spc·lho tào
bt•m ornanwmadu. d{'ixou : 1 casa tk MITOS RElACIONADOS • lnana no Mundo Subter-
orncJlt's ,tliviadu e li-lit.. râneo (p.r49) • Gêmeos heróis (p.2o8-11)
214

O SACRIFÍCIO ASTECA
Os astecas acrecliLavam ter uma dívida con1 os deuses, pois I'SL<'S
r('criaram a humanidade com o próprio sangue c ofcrtaratll St'US
corações para mm'Ínwntar o novo Sol. Por isso. o sacrilkio humano
tornou-se o cerne da cultura asteca, e Wll\ sacerdotes oficia' .un
rituais sangremos em que imolm·am wandt• número de pri~ionciro!),
cujos corações eram ofen:cidos aos deuses ainda pulsando.

A DIVIDA PARA COM SACRIFiCIO


OS DEUSES NO TEMPLO
J o inkio do Quinto Q, coraçlx·, tT.tm
Sol lcido da Criaçàu1. an-ancad<h da' dúmas
Q.uctzakoaLI, deus du com lâmin.,, 'acriliciais
n·nto. c Tezcmlipuca, o feitas d<' oh~idiana c
<ku~ trapaceiro, ofcnados ao' dt·u~cs
\'ert(•ram o próprio num n.•cipi<'nlt• chama-
!\<liii{IIC sobre O' O!>SOS do cuauhxiralli, "uma
da pri m ii i\'a raça cabaça de :r~ui,,",
humana para recriá-la Retirado o cmaç.io. as
(fl2121, o que o~ dti•wu 'iúmas cr~un ,•,foladas
S('(lc>ntos de sang-ue t' e dcrapitada,. c· o' crâ-
ávidos pelos coraçõ<·s As vítimas eram atiradas escada
a i nela pulsanLcs dos al>aixo. 1epresentando o deus do patama!Y's votivos.
rogo asteca matando uma deusa má.
~arrifi rados. Tamb~·m
Tlalt<·ruhili, deu~a qut• o' dois irmão, RITOS DO CALENDÁRIO
haviam rasgado ao mdo para criar a O ano riw,u astfca inclní.t '''nilkios
T(•n-a c O:, céus, c dt ntio corpo a ckust'' t' deu'~ em dat.h lhas.
na>ccram toda, as plant.t~ qu<' M'f.,'lllldo ,\ cvoluç:io do~ v;\rios lidos
alimcnLam a hurnan icladc. clamava à do r nk nchírio dc-ssc povo. l~t'x., a
nnite po r cor·açtll'' humano~ um cuda :l(lO d ia~ um home rn, rqm·~l·n­
;~I to 1 lhiO a ser paco pd;~s d;idivlh land u :\lirtlanteruhlli. n d<'us do
divina."- :\ lunrlo SulJlemim·o ( ra s.u rifi<'.tdo
A~ Al\tf: RtCAS 215

à noite no templo de Tlalxicco, ''o


umbigo do mundo". Acredita-se que
Para o festival de Tlacaxipehualiztli, os
depois a vitima era ingericla pelos
homens que representavam o deus Xipe
sacerdotes. Os celebranrcs menos Totec usavam a pele esfolada de um
importantes comiam Ízoal/i, figuras cado. Conforme a pele apodrecia, a pessoa
feitas ele massa de grãos misturada que a usava emergia de dentro dela como
um broto fresco de uma semente. ~assim
com sangue. Partir o it.oalli e consu-
que Xipe To te c é representado, como um
mj-lo era comungar com os dcuses. homem dentro da pele de outro. Além de
ser a divindade da fertilidade, ele
ENCONTRAR VÍTIMAS também é patrono dos joalheiros.
Uma máscara de ouro de Xipe Totec. o
Para assegurar um
esfolado, cujas estátuas eram recobertas
suprimento constante com pele humana de verdade.
de vítimas para o
sacrilkio, os astecas O dcu~-serpcnte de plumas
praticavam um tipo Quctzakoatl apreciava o
de guen·a conhecido sacrilkin de borboletas e
como "Guerra bc~a-norcs. Os asrccas também
Florida·•, em que o objetivo costumavam sangrar-se na língua.
era c.apturar o inimigo, não matá-lo. nos lóbulos da orelha ou no pênis,
Ideal na cultura asteca, essa técnica com lâminas de obsidíana ou cnma-
de luta mosu·ou-se totalmente inade- g-aves. Esse sangramento, ou auto-
quada comra os conquistadores espa- sacrilicio, nurria o~ deuses c honrava
nhóis liderados por Cortés. Em 80 espedalmente Nanahuitzin, que ven-
anos após a sua chegada, em 1519, cera os demais ao oferecer cspinhos
as derrotas e as doenças européias de agave aspergidos com o próprio
reduziram a população asteca de 20- sangue na disputa p ara tornar-se o
25 milhões para apenas um milhão. Sol da Quinta Era. Scu rribulo foi
considerado mais valioso que quais-
AUTO·SACRIFÍCIO quer jóias preciosa~ oferecidas pelos
Nem todas as oferendas Jilltrus envol- outros deuses.
"iam a mortc de inímigl)s. Aos deuses
Lambéxn eram oferecidos incenso,
taba<'o, alimeu~ e objt·lo<~ pn~(:i.<,~

----- -- - ---~-~~-- -- -
216 AS AM ÉRI CAS

OS FILHOS DO SOL
m C riaç.'io b Bcrnab<' Cobo,lnw Religion rmd Cur/.otiLI;
iU lnnl:l Juan dt• Bctanzo&. }virrraJiJIP !ffllu buQJ;
m La~o Titicaca <: CIII.CO (P<'ru) Gary l' r•wn. lrtc(l ,\(ytlts

O império inca d e Taw~mtins uyu foi fi,mdado na PERSONAGENS-CHAVE


cidade de Cuzco por volta de 1200, e em 1532 o VIRACOCHA • o deus criador
domínio inca se estendia p elo Peru, Equador, C hile INTI • o deus·so/
e pa rt es ela Bolivia c Argcmina. O s inca~ acreclila- ATAHUALlPA • o último
\'::tm ser filhos elo Sol. In ti, o d eus-sol, era ad orad o imperador inca
no Trmplo do Sol; sua imagem era um rosto
d ourado cercado de: raios solares. i'vlas o criado r
<' ra Vir acocha, que mold ou os homens a partir de
pedra, nincla m alcável n a época da Criação.

ENREDO
SURGIMENTO DE UM LAGO estrelas da riha do Sol no (·entro do
Viracocha emergiu no escuro p rimiúvo lago. Pegou ped ras ela beira da margem
da~ :'rguas sagradas do lago T iticaca. c com elas moldou os primeiros homens
Ek criou uma raça de gigantes, ma~ e mu lheres. Pintou-os com roupas e deu
elrs dC,J)(Ttaram sua ira e, por isso, ele a cada tribo sua própria linguagem,
os alagou, u·ansformando-us tm pedras. música c alimentos. Viracocha e os
A ~rguir, com•ocou o sol. a lua c as filhos viajaram cntJ·e os povos,
ensinando-os a viver, antes de se
a rastarem caminhando pelo oceano
Pacífico.

UM FALSO RETORNO
O s incas, acreditando que o sol e as
estrelas estavam em guerra, tentaram
ama rrá-los po r me io de rituais nn
lntihuatana (pilar onde se p rrndc o sol)
em Machu Piccbu. Eles pediam a
Viracocha que o mundo nào findasse e
ansiosamente aguardRvam o seu
prometido retorno. Atahualpa, o últim o
imperador inca, acreditou que o invasor
espa nhol Pizarro fosse Viratotha
retornando; quando
percebeu o erro, já era
prisioneiro de Pízarro e
o império inca eslava
sendo saq uc:'ado.

lntl Raymi, o Festival do Sol,


que marca o Início do ano
novo, ainda é um grande
evento em Cuzco.
AS .\~l ÉR I CAS 217

O CRIADOR MENDICANTE
rn Cri"~;.. ,: hn<'1i d.t t ultur.l 6 I1.UJI.. S,llumon e George L. l 1ti<Nl',
1':1 Yauvu' fhr !futtrodliri .\ Jrmu.•m /,1: Gary l ' r1o 11 .
m H uarm lnri , P<'m iii•II M)'Iht

D cnll't' os índios yauyos dos a ltiph.mos and inns, os PERSONAGENS -CHAVE


mitos dt• litnda.,-ão do Esmdo govern,utl l' inca
CONIRAYA VIRACOCHA • um
foram mt·nus n·lt'vames que os mito~ indígena-. herói cultural trapaceiro do
llKais. O lonl{inquo dru~ criador inca \írawcha cultura
fP.216)cm par.1 eles uma outra divindadt•tnrc•arc CAVILLACA • uma deusa
O FILHO DE CAVILLACA
chamada Coniraya \ 'iracocha. ~ lais trapact'im qur
PACHACAMAC • criador do
criador, ch- tinha podl•r sobre o rf'ino animal l·, Terra e do tempo
com f•·eqllêtl( ia, visitava a Terra di!>fan;ado ck
índio pobre, com roupas maltrapi lhas.

RNRF.DO
Coniraya Virarot h a As ruínas de Pachacamac.
vagava pda 'l(·rra t·omo construídas pelo deus de
mesmo nome.
lUll mt·ndigo. Rejeitado
pda bda ca.. 111aca, Conira}a os p<'r..l',l\'Uiu.
e~palhou M'U ..t·mc·n r\o caminho. enl'onlmu
numa frut.l, qut• da todos os animai-, t' lhe~
comeu. Um ano após o deu caracterbúca.\ lxMs
nasc·iml'nto mi'>tl'rioso de ou más, conforme
Sl'U h!'ht•, l'la (OilVOl'OU respondiam à' ~ua'
todos w. dt'W•t'S honH•ns, pergun tas. O condor o
em ~uas md horc~ Vl'Sit•s; incentivou, c Coniraya
Coniraya, wio <'111 andro~os. Quando ck u-llw vida longa; o gambá não fl'z o
Cavillat·a pil-, o filho no chão, rle ~ubiu llH'MliO, daí S('ll horríwl dwiro.
no colo do pai, idt'ntitirando-o. Clwgando ao litoral, Conira}a
Atcrrori;,,d.t. ela li.t~u com o bdx para t•nwmrou Ca,illaca e o filho tran,li>r-
o litoml. morad.1 de Pachacamat. mado., em pt•dra e então uniu-'>t' à
rriador da liTr.l ,. do tempo. filh.1 mai, \1'lha de Pachacamac.

Os hotunruno (povos confederados) do


impl!rio inca, como os yauyos, acreditavam
que a natureza era animada pelos espíri tos
dos huocas. ou lugares sagrados. Além de
venerar essas personificações da paisagem
sagrada, eles adoravam os corpos mumi-
fi cados de seus antepassados. Algumas
dessas múmias ainda sobrevivem, e o povo
quichua de hoje acredita que eles sejam os
primeiros seres. ou o povo antigo.
HutKJJ ~o nome dado a um local sagrado, em geral
um templo, ponte ou montanha. Mas uma múm1a,
espedalmenlr de um mca de alto-escalão. também
pode ser um huaco.
220 AS AMÉRICAS

MÃE DA FLORESTA
!D llcrói cultural tt. Johann('s Wilberl, Folk I.i.lrralurt 1!/
ll:l Cultura warao IM I Yamo fllllínn'; A1ystic Eruinwme11l:
!!I Delta do Orcnoco, Vcoczud,L Rel~r<iow P:tlmngmfil!y I!J" t!tP l1~1rilo l11dums

A história de D a uarani, a M ãe d a Floresta, surge PERSONAGEN S -CHAV E


do rrúto de H abu ri e sua fuga de uma muU1cr-rã. o TOSTAOOR um caçador

O pai de H<tburi, LUU caç.ador cham ado 'JbsLador, DUAS IRMÃS • mulheres-
era casado com duas irmãs. Cena vez, um espírito /antros, esposas do Tostador
pervC:'rsO matou o Toslador c perseguiu as irmãs e HABURI • filho da irmã mais
nova
Haburi até a casa de uma velha mulher-rã chamada
WAUTA • uma mulher-rã
'Nau ta. Na tentativa de escapar, H aburi inve ntou a DAUARANI • Mãe da
canoa escavada em tronco e o remo, que se auto- Floresta
translo nnararn em D auarani c seu amante.

ENREDO
TRANSFORMAÇÃO DA CANOA E DO REMO ao centro da Terra, onde a mulher-
Quando as mulhcrcs c a criança serpente se tornou Dauarani, a Mãe da
chegaram à casa de '"'aula, uma Floresta. O povo warao, espiando por
mulher-rã, ela transformou o bebê em um vão do céu onde .,.;via, viu o
homrm, que cometeu incesto com as mundo abu ndante de comida e desceu
mulheres. Em seguida, Haburi inventou para a Ierra por llma corda. Dauarani
a canoa escavada em tronco c o remo, se tornou a primeira das xamãs-
para que os três pudessem escapar de sacerdotisas (chamadas \Vishiratu, nome
Wauta. Remaram llté a montanha do que significa ":\1estres da Dor").
mundo elo norte, onde vivia o deus da
água Nabarima.
Agora desnecessár;os, a canoa de Warao significa Mpovo das canoas". Os
jacan>úba se Lransformou em uma waraos literalmente vivem em suas canoas
gigantesca muJher-serpeme c o remo escavadas em troncos, e quando morrem
num homem, seu amamc. Eles voltaram sào enterrados nelas. As canoas são feitas
da árvore jacareúba, como a que se trans·
A construção de canoas é um processo espiritual formou em Dauarani. Cada uma ê a recria·
e sexual para os waraos, que consideram a canoa ção da canoa original, e a sua construção
o símbolo da vulva da grande deusa Dauarani. não é vista apenas como arte, mas como
um exercício espiritual no qual o artesão
se torna o amante da própria Oauarani.
i\S AMÉLUCi\S 221

A CH EGADA DA NOITE
[I) Cna~.io tb \l.m· dt· CiHi<ux, ll átun11a: . 111 Omrortl
J:U C ultura }<'kuan,\ (Makirilarc• CrraiiMI (.')dr; D.tvi.cl M. Gu", 'l o llíau
m t\lw O n·uoco, V <'tH'Zlrda multoSinK

V\'anadi, o Cri,1dor, enviou para a Term, que na rpoca PERSONAGENS -CHAVE


estava lll<'f'!.,"'tlhada em constante luz diurna, o s<·u WANADI• o criodore suas
<."Spírito nwno;agciro, também chamado \Vanadi. Ele encarnações
criou a~ prinwim-, pc:.soas e enterrou a sua própria ODOSHA • o espfrito do mo/
placenta, que brotou da Term como Odo'>ha, um KUMARIAWA • mãe de
Wanodi
homem mau. f'.~tc com·cnccu as pt'l>."'><>J.' a matan'm
IARAKARU • sobrinho de
\\'anadi, l' como castigo da~ foram tran~formada~ em Wanadi
animais. Outros dois Wanadi foram enviado., para a KUDEWA • um papagaio
Terra, mas apenas o quano destruirá Odosha.

ENREDO
WANADI BRINCA COM A MORTE
A segunda t•nrarnaçào de Wanadi
estava determinada a provar às pessoa~
que a monr era uma ilusão. Ficou
scmado <'m ~ilí·nrio, fumando c so-
nhando. ' onhou com a própria mãe
sob a forma ck urna mulher adulta dla-
mada Kumariawa. Qpando Wanadi pen-
sou ''vida", da nasceu; quando ele
pensou "mortr'', r ia morreu, e assim
ele demonstrou S('ll poder a Odosha.
\Vanadi t'nterrou Kumatiawa na
terTa <" d<•ixou K.udcwa, o papagaio,
tomando rorua do túmulo, dizendo: Os macacos calararas são chamados iarakorus na regi3o
"Ela l'l.'tornará em breve. :-;ão dei.xe do Orenoco, Venezuela, porque o sobrinho de Wanadi
transformou-se em macaco após deixar a noite escapar.
Odo:.ha ~<'aproximar." Também dei.xou
a sua chakora (bolsa de xamã com caiar.uas). À medida que a mãe ck
rrmédim) com o sobrinho Iarakaru e Wanadi saía do solo, Odosha jo~;wa
lhe disse para não a abrir de jeito sohl'l.' ela sua urina, um veneno terrivcl
algum, ou rr noi te escaparia_ Em que queimou o corpo da mulher,
seguida, Wanadi foi caçar. ckixando apenas os ossos. Kudcwa
gritou, mas quando Wanadi chegou
NASCE A NOITE havia apenas rSC'u ridão, ctnzas e ossos.
Subitameme, o braço de Kumariawa saiu " ãn há luz. O mu ndo não é mais
da terra, Kudcwa deu o alcna c Wanadi meu", VVanadi disse. "Todas as pessoas
!'{'tornou correndo. Enquanto corri~ o morrerão, agora." Ele voltou ao mundo
cscum da noite caiu sobre ele pela elo r(•u, carregando consigo os ossos ela
primeira ''<"'-: Odosha cochichara no mãe, r lá devolveu-lhe a vida, elei.xando a
ou\i.do de larakaru r ele abrira a chakua, ' lcmt para Odosha. ~1as este não vi"'t'rá
dei.xando a noite <=apar. l ara.karu ficou para M'mpre: morrerá quando o mal
tão assu!>lado que se transformou nwn desapar<-cer, c então uma nova raça de
macaco branco (o primeiro dos macacos homens bons r s.wios nascerá na Terra.
/

AFRICA
224 ÁFRICA

rt=\1 s ~u ro~ D.\ \1 RICA, perpetuados por tradição oral em mais


L~ de mil idiomas, não são muito conhecidos mundialmente.
Contêm a e~sência do que a África é, (oi e pode ser. O s deuses,
espíritos e ancestrais !W congregam numa dimensão sobrenatural
que se desdobra no mundo visível. Gêmeos, p.ex., são tspcciais,
representando o equilíbrio entre forças opostas do mundo natural.

i\~ ~:rcnças na África podiam assumir


subsaariana tendem a (Anú bis podia str
não ser ri1-,ridamente chacal, st·rpeutt: ou
or~anizadas, e falci'lo), qun no
tl'ntativas de separar sincreti.,mo dt• forças
<h divindades por em di ..;ndade~ mistas,
rategoria em panwiics como Ra-llorakhty
não ajudam muito. (Rá c Húrus) ou
l'vksmo no Bcnin, Isermithis (Ísis c·
onde a família real fez RenerHtt<·t).
um esforço deliberado Os egípcios não
para organizar a adoravam os animais
tradicional religião em si, ma.\
dos fons. não foi reverenciavam a~
possível listar todos os formas animais na~
deuses e cullos. No quais os ckuscs se
Mal i, a mitologia dos manifrstavarn. Animais
doguns dá a todos os Um bosquímano do Kalahari examina ligados a determinados
aspe~:tos da vida um pinturas do antigo povo san represen· deuses como o
tando animais e divindades.
significado espiritual, crocodilo de Sebek, o
t é tão complexa que lt·varia uma vida gato de Bast, o falcão de Hórus e a íbis
imeira para ser compktamcntc sagrada de Thoth eram cri.tdos nos
t•ntcndida. santu:'lrio~ dos templos. Tum ato de
Tais complexidade c riqueza também piedade-, os adoradores pagavam pela
estão reflcLidas numa mitologia escrita mumificação e enterro dos animais do
da África: a do Egito Antigo. o templo, para que eles pudessem voltar à
entanto, mesmo ness<· raso gt'ralmente vida no outro mundo c agir como
só sobreviveram fragmentos de mitOs. int<·rmcdiários entre os dcu<;es c a
humanidade
OS DEUSES DO EG ITO
(), textos egípcios mencionam tamos MITOS SUBSAARIANOS
dnc;t:s que seria impossível contá-los. Contar histÓI'Ías permancn' uma
Esses deuses são aspectos da infinitude rradição viva na Áfri ca subsaariana.
do Criador, "o Oculto, aquele cuja Como um xarnã dos sans rolocou:
forma <'lcrna é desconhecida". Cada ''Uma história é como o vento: vem de
um existia iniciaJmrntr como um tipo um local distante, e nós a senúmos."
dt• poder abstrato, um e~tado de ser m mito famoso dos ashanti~ de Gana
em potencial, que podia tomar ttma narra como as próprias histórias- os
forma individual, o mais das vezes de mitos que descrevem a cosmologia c a
natureza animal. criação c definem a ordem socia l -
17.ssa muiLiplicidadc de deuses vê-se foram recebidas d o cxigentt· deus do
qu<·r na~ várias formas animais que c(•u Onyankopon pela aranha-vilã,
225

As esfinges eg(l)<las s.1o híbridos


míticos com corpo de leão e
cabeça de homem ou de carneiro

Anami. No início, o deus


do céu l't'C u~ou-se a d ar
as histórias p.tra Ana nsi;
quando a a ranha insistiu
que d l' fit.t'~sc seu p reço,
Onyankopon pediu a
Anansi para lhe trazer a
píton O nini, o leopardo
Üst'bo, o <'nxame de
vespões ~ l m boro, c o
espíriLO ~1 moa t ia uma tarefa ad tou graça c cedeu as histórias para
impossÍv<'l. ~l as, com a ajuda da Anansi. O s escravos levaram M'US
esposa, Anan~i pre ndeu todas essas mitos t• d euses para o ~ovo Mundo,
criaturas t', por via das dúvida~, ('agora essas histórias comu me nte
incluiu ai nd:1 sua própria mãe na Jj~ ta. são narradas tanto em C a na qua nto
Isso imp res~i onou Onyankopon, que uo Caribe.

A tribo dogon de MaUacredita que


a dança cria uma ponte com o
mundo sobrenatural.
226 .\FR IC. \

ACRlAÇÃO
CD Cri.11;ão 6 EA Wallis lludgl', 7/tr C.otb '!f IN l!.gJ'fi/Í(Im; Mi1·iam
J:'J L:~w Antigo Lich thcim. , lnrU?I( F.!!,Htlinn l ifl'rf1111rr, U. I\ 1<-c k.~ and
lD \'ai~ do '\ilo, E~ w C . Favarrl-~lnh. 'llrr !>ai{) l-!fr'!f /J1r F.r:JJIIInn (;od<

:\ mitologia altamrmc n11npl<'xa do Egito Antigo pos- PERSONAGENS·CHAVE


'ui v{u1as históri<L\ sohR· a Criação, toda~ com um RÁ • o deus·sol e Criador
wm a central: a luta rn lR' o rdem c caos r e nt re c1iação CHU • deus do ar seco
t' ck struição. No on·auo p1imcvo, antes do início do TEFNUT • deusa do ar
tempo, o Criador dc'-('an\ó.l\'a sob a forma dr um úmido
urúboro, uma 'it'qx·nt<· n'Nltica, símbolo da c•tcnudadc GEB • o deus da rerro
NUT • a deusa do c~u
e da R'numçào inhnita do wmpo. Ek !><' manif(-.,la\'a
THOTH • o deus da luo
tomo Rá, o dcus-•,ol. qut· também é ronlwddo como
Atum. "u tudo". r '\'t·lwnchcr, "o senhor S('fll limites''.

ENREDO

O ALVORESCER DA CONSCI~NCIA 1pen·t·pçàn) <' H u !afirmação . u~ando­


1\o !,'Tand<' oceano dt• ;'IJun, "não-ser'', as. l'it• rondamou todm os dl·mcmos da
R.1, o deus-><>1 e Criador, tomou rons- Cri.u,ào, traz<'ndo-os ;, \id,a touformc
t i(·m ia de si. Elt• criou o., outros deuses o, nonu·m·a. A seguir, criou um quarto
a parúr de si me~mo. lll<Lo,turbando-se. poder, ~ la'at, a deusa d,a \C'rd.ade r
Dt· ~uas narinas v<•io C:hu, o deus do ar ela harmonia cósmica, par~1 l'('gular
~rt'o, c da boca r ir <'uspiu Tcfnut, a ~ u a cri ;:~ção.
dt· u~a do ar úmido.
CRIAÇÃO DO MUNDO
OS ELEMENTOS DA CRIAÇÃO Rá l'm ·iou Chu r Trf'illl t p<lr ~obre as
R <í w.ou trfs forças inatas para dar águas e fe'l o oceano ptirniú\o de Nun
t•,istrnd a ao mundo fon;.L\ que mai:. w rl'lrair att~ -.urgir uma ilha onde ele
ta rde ~r wrnariam os pníptios deuses e pudt''"l' M' firmar; cs,c rnontt• primitivo
qut· o acompanham rm sua baR·a solar foi rhamado de Pedra Bt•nlx·n. t· sc
(sua nave do réu ). gssas rol\'as t•ram torn:u·ia modelo para as pirâmides. Rá
l ll'ka (poder criativo ou múf.,ri( a), Sia "pensou com o seu rora~ à o" corno
227

Nut, a deusa do cfu, e a abóbada


celeste. sustentada por seu pai
Chu. o deus do ar S4!CO.

'" toil><.L' de·, c•riam '<t'r, e


depois fi·t. ~urgir dc l'\un
tod<t.s a~ p l ant:l~, ave~ c
oulm~ ani111ais da Terra.
Ele pron unciou os 'cus
notTWS t' de-. passaram
a e:-..i-,tir.

OOLHODERÁ
Ra Ul\ inu wu olho, a
delll><.t 1-bthur. ;, pn><ura
de Chu e 'I dilut. . \ o vohar e ver qu<· t'stn•lao;, e o pai Chut. comumido pdo
um outro olho ha.,ia tomado 'eu lu(\ar 1 itmw. separou o casal, !>mpendendo
na farc· de R;í, da ficou irada. e Sll<b o rl'u com as n cão~ e apoiando O\ pt1>
lágrim:b M' tran-,fi~rmaram nos 11:1 Tnril.
primei ro~ s<'n's humanos. Rá, emào,
colocou-a n:1 tt•sta, sob a form a de uma E N ~ADA
cobra enr,ti\'('rida, para tê-la tonsigo Dt•poi ~ do na-;cimento da.~ ('~ trela~. Chu
atl- u final dos H·mpo,, quando, apÓ!> st·u amaldic;<)Ou a filha para qu<' da uunt'.l
governo, ltl(b a Criação dc:;aparetná. mai, del>se à luz. ~ias Nut fe1. uma
t' o mundo 'ot·ra mais uma vez coberto ap<hta com Thoth. o deus da lua t'
pdu diltt\io infinito de Xun. t·akul.ldor do tempo. e ganhou cinco
dia.~ ddt· para serem acn••cido~ ao
TERRA E C~ U ralt'ndário lunar de 12 meses com 30
Q , filhos de C:hu r Tcfnm eram Geb, a dias cada. ~esses dias, ela dru à lu.t.
terra ~era, l' I': ui, o céu úmido. ul c cinco filhos: o Hórus Cego. O síri'>, St' l,
Gcb, unidos tm cópula, geraram as his l' Nrftis (JJ.232). Destes, os últimos
quatro se juntaram a R á, Chu, Tt'fnul,
O lago sagrado em Karnak, Egito. simbolizava
Nun, as águas primitivas do caos, das quais Rã Geb l' Nut formando a Enéada o~
surgiu para cri~r o mundo e seus habitantes. novl' dt'uses maion·s do Egito.
228 Á FRICA

A BARCA NOTURNA DE RÁ
rn Renovação do mW1do 6 E.A. Wallis Budgc, The Cods l!f UUi
lU Egito Antigo Egyptimts; Miri;un Lichtheim,
.!Il Vale do Nilo, Egiro Ancimt Egyptian Uterahtre

"SaJve R á, perfeito to dos os dias!" A~im com eç-a PERSONAGENS·CHAVE


um hino q,rípcio ao deus-sol, o Criador n ão-criado RÁ • o deus·sol
que "atravessa a eternida de" e para quem cada dia NUT • o deusa do céu
não passa de um mo men to. Tndas as noites, R á APÓFIS • o serpente do
navega pelo Mundo Subterrâneo com a sua L>a rca caos
SET • o deus do caos e do
no LUrna e é atacado pela serpente d o caos, Apóris.
revolto
Se um dia Apófis derro ta r R á , o sol não nascerá MEHEN • o deus·serpente
mais. Pa ra preve nir isso, os egípcios representam
elabor ados rituais r o ntra a serp ente.

ENREDO
AS FORMAS DO SOL
Eram três as princi pais formas assum i-
da~ por Rá: Khepri ~o escaravelho, que
era o sol nascente), Aw n (o disco sola •;
que e- ra o sol do meio-dia) e Atum (o sol
pocnt.e, em gera.l rep resentado como um
velho cansa.do apoiando-se num caj ado).

ENGOLIDO PELO CÉU


Todas a~ noites, quando o sol atingia o
pico mais distante a oeste do monte
Manu, a deusa do céu Nut o engolia.
loda~ as manhãs, eJa novamente dava o
Sol à luz no leste. Esse ciclo diário de mor- O deus egfpclo Rá e sua viagem noturna
te c renascimento vcio a simbolizar o ciclo representam as clássi cas e eternas batalhas
entre luz e trevas, bem e mal, vida e morte.
de vida da humanidade, que esperava
após a morte encontrar um renasce~; "o A SERPENTE DO CAOS
nascimento de Rá no Oriente". Durante o dia, Rá navegava pelo céu em
sua barca solar. À noite, usava outra
RÁ E TUTANCÂMON barea,junto com Set, o deus do caos
O fanático faraó do Novo Império, Akhe,naton, (/~ 232), c M ehen, o deus-serpente, que
tentou estabelecer Áton, o Disco do Sol do enroscava o co rpo ao redor da embarca-
meio-dia, como deus único. Abandonou a ção. Enquanto navegavam pelo Mundo
velha capital Tebas, onde Rá era adorado Subterrâneo, Rá e seus com panheiros
como Amon, o deus·oculto, e construiu uma eram atacados por demônios, liderados
nova cidade, ei-Amarna, em honra a Áton.
pela monstruosa serpente Apófis. Na
Ele chegou a batizar o filho de Tutankhaton,
"imagem viva de Áton". Mas com o hora mais escu ra antes do amanhece•;
abandono da cidade de Akhenaton e as Apófis atacava com mais força. Todas as
reformas, o menino tomou o nome pelo qual noites, Set atirava uma lança contra
é conhecido historicamente: Tutancãmon, Apófis, c Rá, sob a form a de um gato,
"imagem viva de Amon". cort ava sua cabeça. Assim, todos os di a~
o sol tornava a nasce r.
,\I'R ICA 229

O NOME SECRETO D E RÁ
ID Ri v;tlidadr entre O> ele-m e' tt:. E.A. W<llli~ Bud.~. TIIJJ God1 oJ lht·
lU I:gi10 Anúgo Egrp1i11m: t-. liriam lichthcim,
m \ ak do Z'ilo. Egito . l nâml l .ff.lptinn u /nahm

Rá tinha U\nto~ nonw~ qm· nem mesmo os dt'thl'' PERSONAGENS-CHAVE


conlwriam LOdos. Os nomt·s completos do~
RÁ • o deus-sol
dcuM:~ emm uio longos que alguns deman dariam ISIS • a deusa da
a nos para pronunciá-los. O s l'gípcios considt:ravam maternidade
qtu: o nome de a lgurm t•ra uma parte essencial da HÓRUS • o deus da poder
real, filho de lsis e Osfris
pcs.~oa; apagar um numl' dt· uma sepullllra era
li tt•ralmenre apagar a pc.,,oa, de~truí-la no :\l undo
Subtt-rrnnro. D aí a rclednria do empenho de í,i,
em clcscobJ; r o nome ~nreto de Rá.

ENREDO
PICADO POR UMA COBRA coração li•f"\'C c meu C"orpo a~íta-\r
Rá t•m·clhrcia tnda;, <t~ noitt''• I' o,ua ronw ,1\ onda.-. do mar...
boca murrha dcixa,·a t'M'urrer a 'aliva.
h is. a deu,a da magia. rramfiu·mou a iSIS ROUBA O NOM E DE RÁ
,,1liva t•m 'crpemc. Picado pc·la Ísis. 1 ,tdiante t•m poder, di\sl' que
st•rpt•nte. R;í !oi aromctido ele horríveis e"purgaria o \'l'neno de;d1• qut· R(t lhe
dnn·s e 11<·mores causados pelo wneno rr\'t•la,~e ~f· u nome scc re10. Com '"
C] IH' fl uía l'l11 seu corpo como as :ígua' entra nha\ em li1go pelo efi·iw cln toxina,
do :'~li lo t•m tempo de dwia. Con~óente elt• comcntiu em passar seu nome
dt· qut• lcmt atin~do por um 'wr não ~ereto p<lra o rorpo ele Ísi'. Ptofi·rindo
cri Mio por de. dizia: .. De,ck ante' de fórmula' magíca.s. a deusa ordt•nou qur
meu na,c·inwnlo, oculto nwu nonw o n :nt·no ,;ú,,r do rorpo de R <í ,. fos'-t"
l>el rew para pmtegn-me dt• maldiçõrs. wnid<> para o chão. Rá li li curado. mas
Ainda a;.sím algo mr picou, e meu Ísis lirou sabendo seu nome ,t·çn:lu.

fsls herdou o poder de Rá ao saber o seu nome. e


passou esse poder ao filho H6rus. como mostra o
templo de fsrs em FilaePhilae.
em Gls~ perto do C~lro,
A Plrimlde de Quéops, ete M~ravilhas do
única remanescente da~ SdAsr•u de seu túmulo
Mundo !g · o
Ant. 0 pnmeoro ' •
0 faraó Ojoser. da Terceira
foi construído parn d ·s reverenciado como
dinastia, por lmdho~ep~S:::;'; e medicina.
o deus da sabe o na,
232 AFRI CA

RIVALIDADE EN TRE lRMÃO S


cn Rivalidade entre os deuses 6 Plutarco, Ísis e 0.1iris; E.A. \ Vallis Budgc,
lU Egilo Anligo Tht Gudl qf t/1e Egvptim1s; Miriam Lich1hcim,
lii Vale do l"ilo Aucimt Ep;yptian !.itrralJm

A rivaJidade entre os irmãos O síris, Set c Hórus PERSONAGENS·CHAVE


C ego refle te a luta entre a ord em c o caos no m ito OSIRIS • o primeiro rei do
d e Criação egíp cio . Assim como os reis egíp cios. Egito
O síris e Sc t casaram-se com duas ele su as irmãs, SET • irmão de Osíris, deus
do caos e da confusão
mas cobiçaram a esposa um do outro . Essa
H0RUS CEGO • irmão de Osíris
rivalidad e reple ta de çiúme rcsullou em assassinato.
ISIS • irmã e esposa de Osíris
Sct m a tou Hórus C ego , c depois O síris, mas Ísis NÉFTIS • irmã de Osíris,
deu à lul. uma criança qu e os vingaria . esposa e irmã de Set

ENREDO

O PRIMEIRO REI A PRI MEIRA MÚMIA


O síris, o prim eiro rei do mundo Ísis e sua ir mã Néfti rcc:olhcram
suprrior, recebe u o nome os pedaços e, com a aj uda d e
\IVrnnefcr, "eternamente bom". An úbis (o d~:us-chacal dos
Sua irmã Ísis também era mon os) c ThotJ1 (o deus-lua),
querida, pelas a ptidões q ue recompuseram o cor po para
passo u às mulheres. M as fu.e r a p rimeira múmia . A
O síris Linha um violC'nlo seguir Ísis mmsformou-se em
ir mão, Set, q ue já malara milhafre c, sobrevoando u
um terceiro irmão, Hóms corpo de Osíris, conseguiu
Cego, c ago ra decidi ra com o ve nto de suas asas
<1ssassiná-lo. Ele enganou restituir-lhe o sopro vital c
O síris c o lez entrar em engravidar. Acompanhada
uma caixa de madci.-a, de sete escorp iões. ela fugiu de
qu e vedou com chumbo Sel. Na fuga, uma mulher
derreti do c j ogou no Em geral, Osíris é representado rica r·ecusou-sc a abrigá-
Nilo. Ísis, a esposa de carregando um látego e um cajado. la, c os escorpiões
O síris, resgatou o corpo, que simbolizam autoridade divina. picara m seu lüho, mas
mas Set o cncom rou, o retalhou e lsís salvou-o. Ma is tarde, qu ando o seu
espalhou os ped aços po r Lodo o EgiLO. fi lho Hórus foi picado por um
ÁFRICA 233

RIS

A história da morte, mumificação e


ressu rreiçao de Osíris foi o mito que
ofereceu aos egípcios a esperança de vida
após a morte no reino de Osíris. O centro do
culto ao deus era Abidos, onde por mais de
dois mil anos os seus mistérios foram
celebrados todos os anos. O festival público
envolvia a representação da história do
assassinato de Osíris por Set, mas os rituais •
sagrados nunca foram revelados.

Quando Anúbis mumificou Osíris, seu pai, deu iní·


cio a uma longa tradição funerária. Com freqüência,
escreviam-se orações nas bandagens de linho.

esco rp ião, Ísis não consegui u salvá-lo, O TRIBUNAL DOS DEUSES


pois já tinha usado o seu poder. Sua Set declarou aos deuses que desonrara
angústia foi tamanha que Rá, o de us-sol, H órus, o que o tornava indigno elo
inter mmpeu sua jornada pelo mundo. trono. Hórus negou e con tra-aracou.
Ele r0cuprrou o dia - e o mundo O tri bu nal pediu ao sêmen de Set que se
enviando Thoth p<u·a cur<u· Hóru.'. m an ifcsta~se, e ele se pronunciou elo rio.
Em seguida, pediram que o sêmen ele
OITENTA ANOS DE CONTENDAS Hórus se manifestasse, c ele se pronun -
H órus cresceu r exigiu u trono como ciou de dcmro de Sct: ~ai u de s ua testa
hcrclrim lcgílimo. Por oiten ta anos ele o como um d isco de ~oi dourado, que Toth
dispu tou com Set, nurna série de batalhas perseguiu c colocou na própria cabeça.
feroze-s e por vezes cômicas. Certa vez,
Set surpreendeu H órus adormecido mm1 NAVIOS DE PEDRA
oàsis e arrancou-Uw os oi h, !S. M as Ísis, ao Então, Sct dc~afiou H ó rus para uma
e ncontrar o filho rego, c.hora ndo no con·ida de navios le itos de ped ra. Mru,
deserto, devolve u-U1e a visão. este passou gesso sobre um navio feito
de pinheiro, enquamo Sct fez o seu do
ESTUPRO E VINGANÇA pico da montan ha, e ele a fundou . Srt
Set convidou Hórus parti uma festa c à fico u tão furioso qur se transformou
noite tentou vio lentá-lo, mas seu sême n num hipopótamo e destruiu o navio de
atingiu a mão de Ilórus. Ísis, ao ver o H órus. D epois d isso, Hórus fmalmente
ocorrido, decepou a mão do filho e assumi u o trono, enqmmto Set foi
jogou-a no Ni lo. Após dotar H órus de banido para o deserto.
uma nova mão, Ísis recolheu o sêmen de
MITOS RElACIONADOS • Oeméter e Perséfone
H órus c csp;.~rgi u-o sobre urna alface da (p.54) • O deus desaparecido (p.•sz) • Tempestade
horta de Set, a fim de que r ic o iqjcrisse. contra o sol (p.182) • Fílha do Sol (p.198)
234 ÁHUCA

A VIDA PÓS-MORTE DOS EGÍPCIOS


Os egípcios não tinham obsessão pela morte, mas pela vida. Todos os seus
rituais de morte - a mumificação, o sepultamento e as oferendas rituais
visavam a garantir uma nova vida após a morte. Eles queriam viver como
seres perfeitos no Campo de J uncos, domínjo de Osíris, onde os mortos
abençoados se reuniam em meio a
ricas plantações de cevada e trigo.

PRESERVAÇÃO DA PESSOA
COMO UM TODO
Os egípcios acreditavam que para
a~~egurar essa vida nov.t todos o.~
elementos que formam uma pessoa
deveriam ser cuidados: o corpo fisico, Urnas com o nome do morto na tampa guardavam
o nome e a sombra. O corpo tinha os órgãos retirados durante a mumificação. com o
nto Ue ceintegrarem o corpo após a morte.
de ser preservado porque era para ele
que o kf1 a sua força vital - meio de uma cerimônia que
relornaria por sustento malerial. Se o encenava a morte e ressurreição do
corpo apodrecesse, o kf1 morreria e deus, e trazia o dom da vida eterna.
não poderia se unir ao ba, a alma ou O prior dos sacerdotes funerários c
personalidade, para criar o aJJi, o a liciador dos Mistérios, rep1·esentava
espírito perfeito que poderia o papel de Anú bis, o deus-chacal
aproveitar a vida no Campo de protetor dos mortos.
Juncos.
A mumificação permitia aos
morlos identificar-se com Osiris, por

O ser alado, ou o pássaro bo, representa um dos


componentes da alma que põ~rtlu e que deve se
reunir com o corpo mumificado todas as noites.
AF RI CA 235

O processo de mumifica<,1ío do morto era posto numa balança


levava 70 dias. Começava com a pluma de Ma'at, ou a
com a cerimônia da Verdade. Se o coração, rcplcw de
Abertura da Boca, uma vergonha e pecado, fosse mais
série de 75 rituais que pre- pesado que a pluma, seria engo-
paravam o cadáver para lido por Ammul, a devoradora
receber o ka do mOita. dos monos. Se a pluma superas-
Todas as partes do corpo, se o coração, Hórus conduzitia
necessárias na nova vida, o morto à presença de Osíris
começando pela boca, eram e dos 42 deuses que atuavam
tocadO-~ com ins1rumentos como juízes do Mundo
especiais a fim de ter suas Subterrâneo.
funções restauradas.
O JULGAMENTO FINAL
AS DUAS VERDADES O Mundo Subterrâneo era
Depois, o morto negocia- um vale estreito pelo qual
va o caminho deste corria um rio. Era
O deus-chacal Anúbis, deus dos
mundo para o próxi- mortos. era considerado o Inven- separado do mundo
tor da arte do embalsamamento.
mo, evitando perigos dos vivos por uma cor-
tais como o deus com cabeça de dilheira, onde o sol nascia e se
cachorro que engolia a~ som- punha. No Mundo Subterrâneo, os
bras e arrancava os corações. maus sofi·iam uma segunda morte da
A seguir, eram cond uzidos qual não havia retorno; os mortais
por Anúbis ao Pavilhão da~ normais serviam a Osiris, enquanto
Duas Verdades. Lá o coração os bons aproveitav<un uma vida eter-
na feliz. Uma antiga canção egípcia
di:t:ia: '1\ vida Lerrrna é apenas um
sonho passageiro. Qj,tando chegares
à tetra dos mortos, serás bem r ece-
bido, a salvo, em casa."
ÁFR fCA

O ANTÍLOPE D E / KAGGEN
m c ,·iação r6 D.F. Bleck, Tk iiflliiiÚ and 1/is Frimds;
llJ Sans, sul da África J.D. T_e";,.\ \C.lliams, Sturirs tlwt Floatji·um Afor
!ll De!)l~ rto do Kalah;tri

A cultura dos b osquím a nos sans, aborígi nes elo PERSONAGENS-CHAVE


clescno d o K ala ha ri no sul d a África, rem onta a / KAGGEN • Criador dos
30 mil an os, faze ndo d cslc povo um dos mais sans, que pode tomor a
am igos do mundo. Os "cliq ues" de sua lí ngua, forma humana ou a de
vários animais, como louva·
represemados aq ui pela ba r ra (/ ),são traços elas a-deus, anll1ope ou lebre
falas human as m ais primi tivas. O C tiado r sa n, KWAMMANG-A • o arco -íris
I K aggen, é um trapaceiro, qu e aparece em m ui tos / NI-OPWA • o mongusto
mitos com d is farces dive rsos d e p erso nal id ade : africano (Jchneumon)
bobo, sáb io, solícito o u brincalh ão.

E N REDO

A CRIAÇÃO DO ANTÍLOPE A MORTE DO ANTÍLOPE


Kwamm ang-a, o cu-co-íris, perde u um Kwamma ng-a e seu rtlho / 1'\i-opwa, o
sapato, que seu sogro / Kagge n, o mangusto, pensavam sobre o q ue
Louva-a-deus, encon trou e jogou numa / K aggcn fazia com tanto mel. Por isso,
pQça d'{•gu<t. O sapato se Lransformou cen a vez, /Ni-opwa espiou o avô c viu o
no primeiro a mfl opC', embora pequ eno. a núl ope. Kwamm ang-a ficou de mraia e
/ Kaggc n loi atrás do antílope, o matou enqu anto de bebia água na
cha mando-o por uns ui nados que signi- poça. / Kaggcn chorou quando viu
lic;avam '\apato de K wammang-a". l<wammang-a csquru"Lrjando o animal.
Toda vez q l l<' de chamava, o antílope
vinha / Kaggrn rsfr<'gou-o com cera de A CHEGADA DA NOITE
:1 bdha para q ue brilhasse e o alimentou / Kaggen pegou a vc~íc u la do antílope e
com m el até- ele Ler o taman ho certo. a pcrl'u rou co m um galho. D e lá saíram
Quando viu comn o <111imal ficou as trevas, cobrindo o m undo. Para que
bonito, camou de a legria. houvesse um pouco de luz, / Kaggen
j ogou o próprio sapato no cé u, e ele se
Para os bosqulmanos sans, pinturas nas rochas eram
mais que representações da vida: quando os xamàs tornou a lua .
pintavam um antnope, aprisionavam sua essência.
O LEGAD O DO MITO
A té hqje, o antílope é o
animal que c.:ondensa a
maior carg<t da espirilua-
lidade ~an , C' f él figura
c.:c ntJ'al e-m quatro ritos
bási('OS dos bosquíma nos:
na pri m eira caçada do
menino, na pubt't-dadc da
men ina, no ca~ame nt o c
na da nça de Lransc, em
que os xamãs sans (bo.r
/). 237) tentam aclquit·ir a
fim;a desse animal.
ÁFRJCA 237

A ORIGEM DA MORTE
lll O rigem da morre !6 W.H.J. Bleek e L. C . Uoyd, Spu:imms qf Bu.rkman
ru Sans, sul da África FQlklorr; Janctte Deacon e Thomas A Dowson ,
m Deserto de Kalaha ri VoicesftOm t!UJ RJSt

Na mitologia dos sans, a lua caminha pelo céu da PERSONAGENS-CHAVE


noite como o sapato que um dia foi (p.236).
/ KAGGEH • o Criador san,
Quando está cheia, o sol a perfura com sua faca e, que sonhou e fez o mundo
assim, ela apodrece, deixando apenas a sua A LUA • formado a partir do
espinha. Então, seguindo a p r<Jmessa do criador sapato de !(oggen
A LEBRE • um humano em
/ Kaggen, a lua renasce vagarosamente, até se sentir
forma de lebre
de novo viva. Antes de ser incomodada pela lebre,
a lua que tia q ue as homens-ani mais da época da
Criação dos sans ti vessem o mesmo plivilégio.

F.NREDO
O TEMPO ANTES DA MORTE
A lua, por morre r e 1·enascer, desejava
o mesmo para os seres humanos, pois Para os sans, os mundos natural e
disso lhes advitia grande alegria. sobrenatural estão intrinsecamente
ligados, e as suas pinturas em rochas,
encontradas por todo o sul da África.
O PERIGO DO DESESPERO testemu nham a importância centra l do
Um humano em forma de lebre xamanismo nessa cultura. Eles dizem que
chorava a mo rte da mãe. "Minha mãe / Kaggen sonhou com o mundo que viria a
morreu e nunca mais vai voltar'', ser, e os xamãs sans conseguem entrar
lamentava. A lua disse: "Não chore, ela num estado de vigília criativa similar para
vai retornar." "Não", disse a lebre. "ela exercer seus poderes, como atrair a chuva ,
cura r e fazer a mãgica da caça. Quando
está morta e nunca volta rá." A lua se
nesse estado, diz-se que um xamã
enfureceu por a lebre disrordar está morto e que o seu coração se
dela. Bateu no a nimal, tornou uma estrela. Uma das fontes
deixando-lhe uma cicatriz no principa is da mitologia san era o
lábio, e o amaldiçoou. / Xam shaman /Kabbo, cujo nome
Zangada, disse: "Quanto aos se traduz como ''Sonho". e cujos
homens, agora eles morrerão poderes, diz·se, foram herdados
e nunca retornarão" - t:: diretamente de /Kaggen. Acredita-se
que os xamãs sans sejam capazes de se
com essas palavras a
transformar em te?~
morte passou a e..xistir.
240 AFRICA

A SERPENTE ARCO-ÍRIS
CD C1iação, o fim do lll1111do t6 MdvilleJ. HeN:ko•ics c Fra nces
fU . \ cultura fon de Dawnc\ llt••tin S. H cr~ko\~ts, Dahumra11 J\ arratit·t;
m Bcnin, et·,tc da Í.l riC"a ~l chillcJ. Hcrsko,·ic-, Dalwmey

:\lawu-Lisa é um deus com dois rostO~. O primeiro PERSONAGE NS-CHAVE


í· o de uma mulher, M awu. cujos olhos s~ o a lua; o MAWU -LISA • o deus·
segundo é o de um homem, Lisa, ctuos olhos são o criador macho e fêmea
sol. Maw1.c rege a noite<' Lisa, o dia. O rosto AIDO-HWEDO • serpente
f<·mininu tem um ~crvo, a serpente Aido-Hwcdo, orco-fris
AOANHU • Oprimeiro
que a ajudou a criar o mundo. Como :\ fawu- Lisa, homem
Aido-H wcdo é uma lê>rma hjbrida macho-fêmea; YEWA • o priml!iro mulher
m('tadc mora no céu c a outra, no oceano. 'a
Sl',l,'ttncla metade repousa a segurança do mundo.

ENR EDO

CRIAÇÃO DO MUN DO sob a Terra, para apoiá-la. Aido-


Quando :\1awu esta''<~ criando o Il \\ cdo não gosta de calor c, portanto.
mundo.• \ido-H" cdo, a ~erpellle arco- l\1awu fez do oceano flio um lar para
íris, <'fa sua serva. OizC'm que ela surgiu ela. Quando a Terra a incomoda,
com o primeiro homem, i\danhu, e a Aido-1lwedo se mexe, provocando
prinwira mulher, Yewa. 1\ido-Hwedo terremotos. Ela come ferro, forjado
carregava Mavro na boc:;1ao nde quer para ela por macacos vcrmdhos que
que ela quisesse ir. Por isso há curvas e habitam o oceano. Qua ndo acabar o
\'t·ntos na Terra, esc ulpidos a partir dos ferro, Aido-Hwedo começará a
movimentos sinuosos da ~<·rpente. Onde definhar de fome. Em dcsrspero, terá
qun que descansas~cm, ~urgiam con\ ulsões. e a Terra c wdo o que ela
montanhas, que ~ào os excrementos de contém núrào no mar.
Aido-Hwedo. É por C>Sc motivo, dr.:t'm,
que g randes riquezas podem ser MITOS RELACIONADOS • Deuses africanos no
encontradas no interior das Mundo Novo (p.242) • A serpente arco·frls (p.249)
montanhas a.tua.lmenlt·.

COISAS DEMAIS
Quando Mawu terminou o
trabalho da Criaç;io, viu que 1
li:t.era coisas demais: muitas árv~s.
ntouta n.has, um exagero ele tudo.
J\ Terra não suportaria o pc~ó.
1\s~im, ela disse a i\ido-
l lwcdo para se enrolar

O povo da t ribo f on faz


oferendas anuais para
assegurar a proteção
e a benevolência dos
deuses.
ÁFRIC.\ 241

O MACACO Q!JASE VIRA HOMEM


OJ Criação dos animai~ 16 Melvilk.J. Herskm·i1s <· fr.UICe>
~ A cuhura foll de Daomf, lknin S. Hrn,kovits, Dalwllu'aJI Narmlwt
m Benin. Ot'SIC da África

1awu-Lisa, o deus criador hermafrodita, ficou PERSONA GE NS- CHAVE


gr:tvido c deu tt luz sete mitos, incl ui ndo Da Zoc!ji
MAWU·LISA • O deus
(deus da Terra), So (detL~ do trovão). Aglx~ (deus do criador hermo{rodito
mar) c Cu (deu' do ferro c da guerra). ~ lawu, a GU • o deus do {erro e do
metade feminina do deus, povoou a 11:-m.l c enviou a guerra
MACACO • um dos animais
sua metade ma~r u l i na, Lisa, com Cu, pa ra ensinar criados por Mawu
às pessoas como viver. Em seguida, Mawu ctiou os
animais - e ck:-cobriu que um deles trunlx'·m precisa-
va dr uma lição de bom comportamento.

ENREDO
MAWU FAZ OS ANIMAIS
Dt'pois de criar os homens. Ma\m
começou a criar todos os animais.
Disse-lhes que dm·ia se us nou1cs após
completar a tarc:fa, mas primt•iro
deveriam ajud{t-la no trabalho,
moldando mai~ animais.
Todos os an imais começaram a sovar
o barro, amariaudo-o para clr ixá-lo
pronto para as mitos criativas clt' M awu.
Ela observou o macaco que criara c
dj<,-,e: ·'Como tcrh cinco dedos t'm cada
mão, se trabalharc•s bem, eu te rolocart•i
entre os home n~. não entre os animais.'' Em certas versões do mito, ao apregoar que tinha
O macaco ficou animado com es.sa o dom da vida, o macaco desagradou Mawu, que o
matou envenenando o seu mingau.
possibilidade. Dirigiu-se a todos os
animais, um a um ao kão, ao Kilhando-st• dt• ~n melhor que ck>.
elefante, à hiena c a todos os outros - , "Amanhã, niio estarei ent re os animai,,
~c rei um homem", dizia o conwncido
O ADIVINHO DE FA macaco.
A mitologia dos rons possui um deus
trapaceiro chamado legba, que ê a entidade O ORGULHO PRECEDE A QUEDA
da adivinhação (ou Fa). Legba tem uma irmã O macaco dl' tanto exibir-se diante dos
hermarrodita chamada Gbadu, que tem 16 outros animais não trabalhou nada.
olhos e mora em cima de uma palmeira,
Quando l\lm, u voltou, viu-Q barendo
observando o mundo todo. t tarera de Legba
subir na palmeira todos os dias e abrir os
palmas e 1·anmndo: ·~manhã serei
olhos de Gbadu; ele lhe pergunta quais olhos
ela quer abertos, e ela se comunica com ele
I homem.'' Ela ficou tão 1.ang-ada que
ch utou a tola criatura diL<•mlu-lhe:
colocando coquinhos em suas mãos. Um "Sl'mprc scd-, macaco e nunca
adivinho humano seguidor de Fa também
1 ~onhece os desejos de Mawu ao jogar
[_:oquinhos para abrir os olhos de Gbadu.
J caminhará, ereto.''
,\J"RICA

OS DEUSES AFRICANOS NO NOVO MUNDO


Entrr os sécs. X\'1 <'XL'\, mais de 12 milhões de JX'S.~oa~ muita:. das
tribos I<Jl1, iorubá e jeje, da co~t a oeste da África, a famo~a "costa dos
escravos" foram transportadas para o Carih<' e para as Américas. a
cruel <'XIWtiência da e~cravidão, seus mirch e rituais plasmaram-se em
novas rdigiõcs o candomblé do Brasil, a wnteria de Cuba, o obe~h da
J amaica e o vodu da América do ortc e do l l aiti.

PRESERVAÇÃO DAS RAÍZES e da felicidade. í'ra a"oriado a ,ão


As nova' religiões híhridas ajudaram Patrício; E/ili. o iu.·n do <ut10t; it
os escravos a exaltar sua identidade Virgem Nlaria e Lrgba, o mantcnc-
do or~l<" da África, aU·m de servir dor da ligação entre os mundos tt'r-
como liKo de rc~i~t~ntia e rebelião. reno r 'obrenatural, a ..ão Pedro c
1.\'ão surpreende que os donos dos ~amo i\nclr~.
escravos ll'lllasscm abaüu· essas crcn- O vodu, em sua, v<itia.., manifr~ta­
ç.as (\ por l'S~e motivo, os devotos do çõrs, (• uma religião M'm qualqurr
vodu adotavam a iconografia do ('ris- estnnura formal que t't' pousa na cn·n-
úanismo. Cada um dos deu,l'> vodus. ç-a da ()(h.'>t~'lo divina. Os trt'Illt- dan-
os iwm, tt·m a identidade de um
Uma cerimônia vodu nas calçadas de Porto Prfnclpe,
sanw ratúlico. P.ex., a ~erpen te arco-
Haiti. A palavra "vodu" se origina de "vodun",
íris Dambalah \\'(·do, o iwa da ~onr palavra do oeste africano para "espírito".
.\FRJC.\

GEDÉ
No Haiti, Gedé é um iwa, senhor tanto da
vida quanto da morte. Mais que um mero
iwa com muitos aspectos, alguns consi·
deram Gedé a famflia de espíritos dos
mortos. com o Barão Samedi como líder.
Gedé pode ser reconhecido pelos óculos
escuros, cartola ou chapéu coco, roupas
de coveiro, voz anasalada e fala e com·
portamento obscenos, gulosos e lascivos.

Amaquiagem de Balio Samedi enfatiza sua


natureza dupla. Com o olho esquerdo, ele supervi~
siona o universo e com o direito. vigia sua comida.

çmn em ht<N' ao redor de uma colu- de Dambalah \Vedo, a scrpcme arco-


n,l que liga a terra e o céu. "tomados'' íris, uma ~.tn•rtloúsa sarrilkou um
pelos espíritos dos iwru. A rdação porco prtto <' untou os r'tbcldes com
emrc o dcn>to c o uva é altamen te JX'S- o ~anguc dt) anim al. Boukman fo i
wal c algun~ iniciado:> morto na f('\'Oita, mas
cht·gam a 'l' "casar.. seu lugar de líder foi
com o ü.t•a e~t·olhido. ocupado pdo cstratc-
j.,rista Toussaint
REVOLTA DOS VODUS Louverturc, que decla-
l\o Haiti, o' ÍU'as nxlus rou a indcpcndi:·ncia do
c,tào fundidus à cultu- I Iai ti e o fim da escra-
ra c à política, espccial- vidão em 180 I. O
meme na tmancipa- vodu pennam·cru uma
çào. Em I l de agosro frmunema política
de 1791, tuna cerimô- durante todo o ~rc.XX:
nia vodu marcou o iní- F't-ançois Du valici; o
cio da pximcira revolta "Papa D oe", adotou os
bem-sucedida de escra- Um fiel de candomblé no Brasil oculos e:.curos (' o cha-
'-O'· ConduLidos pelo veste·se como Oba lua lê- um JX~U preto do h' a Gedé
orixá que equivale a sao lázaro.
líder vodu Boukman !' nomeou a ~ua polícia
Dmly, o:. adoradores juraram preferir sccrNa de Tonton l\llacoutt' em
morrer a ,·ivcr como e'cravo~. homenagem a um espírito do mal da
Cnquanto Boukman in,ocava a ajuda mitOlogia h..Uúana.
OCEANIA
OCI:ANL\

't=\1 s r-mos T>.\ OC:I...\.'IL\ estão dentre os mais ricos do mundo.


V J O s elaborados cantos da Criação poJinésios, a-;sim <"omo
o Kumulipo havaia no, que descreve como a noite deu à l11z toda a
criação, são obras-primas da literatura mundial. A Austrália, lar
dos aborígines há mais de 40 mil anos, tcm seu passado, presente
<· futuro simultancamentc codificados nos mitos do onho.

A~ cul turas da~ ilhas dos em pane·~ da pai:-.a?;cm.


~1 urt•s dv S ul, que O So nho ex iq<· c· é
comp reende m a Polin é~ia, mantido vivo por m eio de
a ~klan ésia c a ~1icron(·­ história,, d,tnç<Ls. rituais e
,ia. permanecem ,;,,1\ pintura" na a rt'ia. no
wm o" mitos. Esta última, corpo humano t', mais
un1.1 árça que rell nc mai~ re<:entemt'llll'o c·m telas.
dt· (i00 ilhas no Padfiru
Nortt', u ~a mitos SONHOS VIVOS
diwrtidos para personifi- O s sonh o:. c':-.tão intima-
car a ('Ultura de sc· u<, mente lig-ado' à terra. ele
povo... ,\ ~Ielané,ia, outro forma qur o que pode
' ,1\to ,,grupamento de• parecer um d<'\eno sem
ilh;L, ao ~ul da ~ l irmn{·­ graça par.t um co,tranho é.
sia. é u la r do pc_wo mai<; Aarte abongine nas rochas ir\Ciui na realidade, um tipo de
amiw• da região, m. Intricados padrões que sao códl· m ito \Í\·o em que cada
gos visuais para recontar os mitos.
papuas, q ue lá vivem h;'t mo mr, rocha, riacho o u
mais de Hl mil ano.,. O s melan(•sios poço revela os caminhos elos ~t·n:·s
nwo,clam habilido~amcntc os co nceitos am·c·>trais do Sonho. 0 -. acidentes
ck 'exuali dadc c organi1açà(l 'ocial de geográfico~ são \'Í.,ros como o' corpos
mant'ira a moldar; definir e n.prçssar a rçai) ck'>Sc' ru1cestrais. Dot.tdo, de um
sua identidade cultural. poder c~pirirual. chrumtdo t!jan,f!,. o lulf<lr
COill IlM i> tfjattg de todoo, é l"( li 1'11
AUSTRÁLLA ANTIGA (també m conhecida romo Rocha Aycrs).
O Svnho Aborígine da .-\ustrália fala q ue st• situa no cemro d e un1 e naaranha-
d(• um mundo com romeço e sem fim, do de tri lhas do Sonho, as quai' ,e
c· d!' t'lernos serc.>s míticos q ue podem enti'I'C'I'LIZ.Ull por todo n conti ne nte.
morrer apenas para 'e transfor·ma r
CREN ÇAS MELANÉSIAS
1'\a ~kl,m(-,ia. os mito, da Nm-,t Cuiné e
do esll'('ito de Torres têm st•mc·lh <mças
óbvias rom os da Austr:ília aborígine. Os
mitos dl· povos .:omo os ma ri nd-<111 ins de
lrianjaya também validam todos os
asp<Ttos de M"U sistem a d (' dâ;..: m
CO\tumes, as cre nças. os 1ituai\ n ·ligiosos
e a \C'ualidade. Um miw <'''><'nrial dos
marind-anins narr.t a origem do fi:>go
("rapa"). Uaba c Uali\\amb licLram
prC'sos um ao outro durante o atu !!C-xuaL
Os aboriglnes australianos acreditam que podem se
comunicar com os espíritos do Sonho e liberar seus Q)aando Aramemb, u d (•us dos
poderes e conhecimentos por melo de rituais. r urandeims, separou-o~. o primeiro fogo
OCJ.o:t\1'\IA 247

dbparou dt" ~~·nitai' de Com freqO~nda, estátuas polinésias mostram


L'ali\\amh. ICxl.t a ,;da ritual os deuses com cabeças grandes e despropor·
donais. iA que a cabeça era considerada
dos marind-anirh b<L~eia-sc nas altamente sagrada.
c-ontinua~ I' pt•no""' terimõ-
ni,t~ Otiv- Bombari, que ,ão
ritos ele inicia~:ão ~t·xual. nrcessá ria para a navegação do~
Outra rnrancrística dos marrs e para a sobrcvivC·rrcia.
mito~ nwlnní-,ios (:a elo c-ulto
à ''mrg"a" q t il' ~urgiu após o LENDAS PO LI NÉS IAS
primeiro <·om:uo dm ilhéus a Polinésia, casta ~ dt•
c-om o-, nii'OIWU\. Por esses ~accrdote~ c go\'rrnantes ck
culto,, um <\nn·,t ral ou deus poder hereditário deram
aparncrit tr.l/l'ndo con..;igo forma e estru tura ao' mito~.
··ca~a·· ou riqu\'/a -,cmclhante t''P<' cialmente no H a,aí t• na
à dos eurol><' u'. . a ilha Tanna, ~0\·a Zdândia. L' ma \<t~ta
em \'anuatu, o pdncipr Philip, literatura or-a.l foi recolhida,
da f.111tília rt•al britânica, (: t<'ma ~randt• pane relacionada ao
de um culto :'t "carga". pan tcào que aceita deu~cs como
Rang i r Papa, o céu c a tl· rra,
M ITOS M ICRONÉS IOS co mo líderes. Há rnuitas
Os a túi ~ da l'vlicronésia abrigam variações Ta ngaroa , p.ex.,
a lgumas da' rnai~ cati\-antes. é o criad or taitiano, ma' í.· o
equilibrada~. padfic:ts e cooperati- deus do mar para os maori.
va.' ~ori<'d.tdt·, humanas. Os mito~ do 1\la' h:í também um nmávl·l ~rau de
atol lf,tlul. ';io pot;ticos e rcpktos <k n>t'"io: Tangama está pn•,t·ntl' atí• nm
lomor ao\ dt' the' benevolentes, que n.tn·mos da rc~ào polinésia, p.t·x.
legaram .w l)(l\·o toda a sabedoria Rapa :'\ut ilha de Páscoa, como um
tt•i que !ol' transforma em foca. i\ a
As sociedades das Ilhas melanésias reconhecem ntitolugia, d e chega a R apa !\ui
como parte do cotidiano os espíritos ancestrais e
mágicos, que mantêm os mares rra nqOilos e os aprnas para ser morto e cozinhado
vulcOes adormecidos. por ilh<\ts dt•screntes.
LUMALUMA
tD I k r·ói da cuhtu-.1 t6 Ron.tld l\1. Hc·rnd t e Catherinr I I. lkrndt ,
iU Gunwinggus ,Kum,inJkus\, Aust:rália 771if Sp.v1J.mg úmd; Man, lnJ/f/ & .H)tft in
m 'lhra de Arnlwm, ,\ tl\tr.ília \mthnn AtL<Iraka

l.uruaiLtma, o ancestral sagrado do povo PERSONAGENS-CHAVE


gunwinggu. trouxe-lhes o ronhecimemo re l i1,ri o~o c LUMALUMA • uma baleia
cultural. Ele era uma bakia que saiu do mar na que se transforma em
lc1rma de homem para ensinar os 1itos sagrados. homem
J\ las de era voraz e, scmpl\' que d esejava ronwr AS DUAS ESPOSAS DE
LUMALUMA
a.l({o, declarava o a limento tabu, a fim d e tê-lo só HOMENS E MULHERES 00
para si. As pessoa~ famintas acabaram por matú-lo, POVO GU NWINGGU
ma~ nw~mo enquanto morria de continuou a
tminar os ri tos sagrados.

F.NRF.DO

TRAZENDO OS RITUAIS mulhen·s. O povo escondia a comida de


,\ b.tleia Lumaluma t•mergiu do mar Lumaluma, que continuava fam into r
'ob forma humana r roubou duas conwçou a comer o~ corpo' da\ crian-
t'SJX>,.ts cujos ma rido, t•sta\ an1 fora ça.~ mona\. Temendo M'r ckvomd~ a
P<'~rando. Viajou para o oeste, levando população cercou-o na praia t' atacou-o.
os rittwis sagrados con,igo. Quando via
homl'nS colhendo mc:l ou inham es LUMALUMA RETO RNA AO MAR
ddicim.os, o u caçando ca ngunts, logo "Matem-me devagar", dr di-;.<;(•, ";únda
dcd,mlVa o alimento mmriin, ~agrado, c trnho o que ensinar." Enquamo monia.
dt• stu consumo exclusivo. p<'t'l.t\llltou: ''Entenderam toda.\ aJ. irúor-
Ondr quer que para'>\l', LumaJuma m:u;õt.>l> !><lgr..tdas qur pa.-..-.ei? Contem-me!"
en~inava os rimais marrun ao povo. E o~ homens rrspondrr.tm: ·• im.
Eminou aos homcn~ tomoS(' enu·ndemos tudo." Então Lurmtluma
transi(H'mar, c as esposa~ que tomara morn•u. Eles não o enterraram, senão
para si ensi naram seus ritos :ts rsiaria morto para sempr1•. Deixado à
beira-mar, seu corpo foi arra\tado pelas
Os seres mltot6gicos do Sonho est3o "em repouso",
nao mortos. Vivem na paisagem. em caoções e em ondas(' transformado novamentt·
de~nhos. em hall'ia.
OCEAl'llA 249

A SERPENTE ARCO-ÍRIS
aJ Herói contra monstro m Terra de Arnbem. Austrália
lU Ngulugwongga (nanggiomeris), 6 Ronald M. Bcrndt c Catherinc l i Bcrndt,
Austrália This SprakiJI.!!, úmd

As serpentes arco-íris são figw-as poderosas na PERSONAGENS-CHAVE


m itologia aborígin e. Hermafi-odita~, manúferos c
BULALOYI (aARCO-[RIS") •
répteis ao mesmo tempo, elas sào forças criativas do uma serpente orco·íris
Sonho. Enquanto viaj avam p elo país, seus movi- GABAO • uma mãe
mentos criaram as colinas, os vales c os CLlfSOS OUTRA MU LHER
d 'água na paisagem a ncestral. As serpe ntes arco-íris WULGUL • uma corujo-
{elticelro
são criaturas petigosas se irritadas - a desta lenda
zanga-se com o choro de uma cria nça. Mas G abad
tem sorte em matá-la com um só golpe.

ENREDO
UMA CRIANÇA CHOROSA
Bul aloyi, uma serpente a rco-íris, vivia
na baía Anson . Um di a ouviu uma
cri ança chorando e m deg-Dilg.
lrrriló r·io dos ngulugwonggas, e
pe nsou: " Vo u co me r essa cria nça."
Enqua mo Bulaloyi vi~ava, seu enorme
co rpo formo u mon tanhas, rios,
córregos c poços, e nqua nto com sua
cauda ló. o a rco-ír·is. Hoje a serpente arco·íris é associada à fertilidade,
E m dcg-Dilg, du as mulheres, abundância, comunidade e paz. Ela tem o poder de
dar a vida, mas pune os infratores da lei.
aj oelhad as, tra nçavam fibras para faze r
sacol:.s e cole tar alimentos das savanas. A SERPENTE ATACA
U rna era G a bad, e era o seu filho q ue Bulaloyi usou o corpo pat·a abrir cami-
chorava. Enqua nto ela vigiava a nh o através da montanha e m deg-Dilg
criança, vVulg ul, a co nua, e deslizou até o nde as d uas mulh eres
copulava com a outra mulh e r faziam a~ sacolas. Então ela
por trás. ergueu a cabeça e engoliu o
menino chorão. '~! A Arco-
i ris rst.á a q ui!", disge Gabad.
Os poderes xamânicos dos Enquanto a cobra
"homens sábios" aborígines esticava o pescoço para a
foram obtidos da serpente arco- fre nte, Gabad golpeou
íris. Dizem que os candidatos a Bulaloyi com a vara da sacola,
xamã são engolidos pela cobra,
quebrando-lhe o pescoço. A
reduzidos ao tamanho de uma
criança e levados ao mundo do se rpe nte arco-í ris, Gabad , se u fi lho,
céu e mortos antes de serem trazidos a outn• m ul her e \•Vulgul ainda est..'lo
novamente à vida com poderes de cura e lá, nas rochas de deg-Dilg, em
a capacidade de visitar aquele mundo. Ngulugwongga.
Xamãs aborígines usam um espantado r de
moscas em seus rituais de morte e renascimento. MITOS RELACIONADOS • A serpente arco·íris
(p.240) • Deuses africanos no Novo Mundo (p.241)
OC:EANIA

O DEUS DÉMA DO SOL


CD Criação 6 .J. Van Baal, Dtma
l:tl Ma rind-anins, ~ov-.t Uwni'
m l rianJaya, NU\·a Guiné Ocidenta l

Os espí1i1.0s conhecidos como démas ~àn os PERSONAGENS-CHAV E


ancestrais dos dfu; dos marincl-anins. tribo da Nova NUBOG • a terra
Guin(· Ocidental. D e vária~ formas, o mun do DINADIN • a céu
invisível f- mais importante para os ma rind-a nins GEB • a sol, antepassado
que o mundo vi~íve.l habitado por dcs. · 1o início dos morínd·anins
SAMI (MAHU) • antepassado
havi<J apena~ dois démas: ubog, a u:rra fCmeJ, c
dos marind-anins
Dinacün, o céu macho. Eles tiveram dois filhos. Gcb
e Sami. l\1csmo quando os hom ens se voltarnm
contra Gcb, rk conti nuo u a sustentá-los.

A PUNIÇÃO DE GEB reduzir o calor. Qu;mdo Geb apareceu,


Geb v.ivia num rormiguc::iro que irra- os homens cortaram sua cabeça.
diava um calor insuponáwl. Ele não
corJSeg11i<1 uma espos<J c tin ha dr O SOL E A TERRA
se contc:n1:1r rom um caule de bambu A cabeça de Geb fugiu para o leste por
que todavia lhe deu vàrios filhos. Gcb baixo da terra t' emergiu em Kondo.
também raptava ctÍ<Ulças. em especial Ak escalou urn broto de inhame
meninos de pele acobreada, e os levava e chegou au cétr, wrn<tndo-sc o Sol, e
a seu lar in lcrnal, onde os decapiuwa. Kondo IXtssou a ser o local do nascente.
D<·cidiu-se que algo tinha de se r feito. Os A cabrça vi ~on pelo rf-u par-;1 o oeste,
homens relmavarn em ~e aproxi mar do nwrgul hando de volta na Ter-ra e retor-
fc.wmigueiro, mas as muU1eres insi.sti r~m e ua ndo a Kondo pelo subsolo. D esde
jogaram a água no formigueiro para <·n tão, repete essa viagem c~ari amente.
O co rpo de Geb foi d ividido entre os
vários clãs e se wrnou a terra.

MITOS RELACIONADOS • A barca


noturna de Râ (p.~:l8) • A orígem
da morte (p.237)
OCE,\.'\I IA 251

A ORIGEM DA HUMANIDADE
IIl Criaç~'ío 6 J. Van Baal, Déma
ll1 Marind-anins, Nova ÜUÍilt
m Trian j aya, Nova Guiné Ocidental

O s démas da tribo m a rind-anim da Nnva Guiné PERSONAGENS-CHAVE


O cidental sào <>spíritos do rcmpo da Criação, que
GIRUI • um cõo-déma
produziram o mundo e foram os anrest1·ais dos UMA GARÇA-OÉMA
clãs. Pod<'m assumir form a hum;ma ou an imal. ARAMEMB • o déma dos
O miro dos marind-an ins sobre a orige m da curandeiros
humanidade ro nta que os prime iros humanos GEB ANO SAMI • os ante·
passados dos morínd·anins
emergiram de um poço como peixes e rerebt'ram BRAGAI • o ancestral déma
a for ma humana de Aramemb, o déma elos dos clãs bragai-zé
curandeiros.

ENREDO
UMA FESTA SUBTERRÂNEA
Certa vez os démas deram uma
grande (esta .ubterrànea no extremo
oeste do território dos marinds.
Enqua nto festejavam. rum aram para o
lrste por bai xo da terra. ~a superficie,
G irui, un1 cào-dbna, omiu o burbu1·inho
~', curioso. começou a Se!:,'tlir os rirmos
enquanto t•k s -~<' moviam sob a tl'rra.

HOMENS-PEIXES
Girui sC'guiu o barulho até r hrgar a
Kondo, onde o sol nascia. Ali os ru ídos se O mito dos homens·bagres pode ter sido inspi·
tornaram muito altos, c Cirui sentiu que rado por variedades anflbias desse peixe que
"caminham" ou serpenleiam na água.
a fonte do baruU1o estava pe rto. Cavou a
mm"!{em de tu li tiacho r a água brotou..
lntzendo vá1·ios seres esiTanhos, que dos home ns-peixes to mava m forma em
pareciam bagrcs. Eram human os, mas seus rostos com um " pop!". A segui r,
sua!, li.·içõe~ c ram achataclm, e os braços, Aramcmb rwgou sua lhca de ba mbu e
pernas e dedos não estav-am ~eparados de liberluu os braços, as pernas c os dedos
seus lorsos. Uma garça-démo começou a de seus troncos. E le j ogou fora os
bicá-los, m;Js d<>s eram duros demais l'. n:stos, que se translormararn em
por isso, o biro da garça é torto at{• hoje. sang uC'ssugas.
Ar<lmemb, o dbna dos c ura ndeiros, Ccb c Sami 'hcgaram C'm suas
afugentou o do e a garça e tez uma canoas para levar os novos humanos.
foguci t·a com bambu para scntr ns El.:s foram divididos em doi s grupos:
honwns-pcixcs. Gch C' Aramcmb lc·varam os que
liwmm·am os clãs Gcb-zt~ c Aramcmb,
DIVISÃO DOS CLÃS enquanto Smni e outro déma, Bragai, se
Cada \TZ que os talos de· bambu es tal a- responsabilizaram pelos homens dos
vam, as o relhfls, o ih os, na riz<>s e bocas clãs Ma hu-z{> c· Br<tgai-zé.
252 OCEANI A

O NASCIMENTO DOS DEUSES


rn Criac;ão 6 A mony Alpcrs, úgerulr if lhe Soutl! &as
lll Polinésia
m Taiti

1\a Nova Zclàndia, T angaroa é o deus do mar, mas PERSONAGENS- CHAVE


em várias ilhas poüné.~ia~ ele- é o Criador d e todas TANGAROA (TANGALOA,
as coisas. Es ta versão do mito vem do Taiti, e TA'AROA, A'A) • o deus
lendas similares, com vatiações do nome Tangaroa, Criador
TU (KU) • o deus da guerra
ti'>ram coletadas n as ilJ1as de Samoa, Tonga,
e mestre artesão
Tuvalu, e ntre outros lugaTes. Nessas histórias,
T angaroa emerge do ovo primordial para ctiar o
mundo e d;u· à luz os outros deuses.

ENREDO
CRIAÇÃO DO MUNDO De acordo com a tradição maori,
Por um longo tempo, Tangaroa era filho de Ranginul (o pai
do céu) e Papatuanuku (a mãe·terra).
Tangaroa permaneceu no
escuro dentro de uma casca criou as nuvens. A Terra foi
denomin~1da Rumia, que frita de sua carne. De falo,
tinha a forma de um ovo. Tangaroa fez tudo que existe a
1\ada mais existia, apenas a partir de seu corpo c da casca
casca c o va;úo. Foi um do ovo. Chegou a usar as
período rlc escuridão tmh as das mãos e dos pés para
constante c impenetrável. fazer as escamas e as conchas
Por fim Tangaroa rompeu dos seres do ma•: Dr den tro dr
a casca. "Tem alguém aí?", si Tangaroa ronclamou os
pcrgumou, ma~ não houve outros deusrs. Com a aj uda de
resposta da amplidão vazia. Tu, o grande deus artesão, de
D a casca rompida ele fez a crio u os homens c as mulhe res
abóbada celeste; de sua e convenceu-os a se aproximar
colu na vertebral, uma uns dos muros.
cordilheira, e de suas entranhas
TUDO TEM UMA CASCA
Assim como Tangaroa tinha
Há diversos mitos poiinésios sobre a Criação, uma casca. wdo o mais também tem. O
alguns bastante longos e complexos. Muitos céu é uma casca que contém o sol, a lua
registram detalhadamente uma série de e as estYelas. A Terra é uma casca com
uniões sexuais por meio das quais todas as as rochas, a água, a terra e as plantas.
coisas são criadas, começando com a união
O útero da mu lher é: uma casca da qual
do claro e do escuro. Em tábuas de madeira
rongorongo de Rapa Nui (Ilha de Páscoa) há
surgr a nova vida. As casca~ do mundo
hieróglifos ainda não totalmente decifrados são tanta~ que seria impossível
que parecem registrar listas de tais uniões e enumerá-las todas.
os filhos gerados. Uma canção da Ilha de
Páscoa narra que "a Coisa Pequena ao se
deitar com a Coisa Imperceptível criou a
MITOS RELACIONADOS • O ovo primordial (p.J6) •
Poeira Fina no Ar".
A criação de Pan Gu e Nu Wa (p.172- 3)
OCEANIA 253

A ORIGEM DA MORTE
CD Origem da morte 6 Kathminc Luornala. ~óiu.r on tlt~ I ~vul; Roslyn
lU Maor·is Póignant, Ouonic Myl/tology
1D Nova Zclâtl<lia

O nome T<llle significa "homem'' e, dentre todos os PERSONAGENS-CHAVE


deuses polinésios, lalve.: Tane seja o mais próximo
TANE • deus da floresta
dos humanos. Ele era o deus da Aorcsta maori e, HINE·HAU·ONE • a esposa
criando as árvores, deu aos homens o presente da de Tane
madeira e das fibràS dr pl anta~, que permitiram ao HINE-TITAMA • a filha de
Tane
povo fazer várias coisas, inclusive os equipamentos de
pcsc.a. lsso acabou provocando a in imizade de seu
irmão, deus do mar: I nfelizmente, apesar de ser amigo
dos homens, foi Tane que trouxe a morte ao mundo.

ENREDO
UM DEUS SOLITÁRIO misturou um pouco de lama e areia e
Tanc, deus da floresta, era solitário e moldou uma mu lhe r. l nsuHou-lhe a
queria uma parceira sexual. Sua mãe n vida e a chamou de H ine-hau-one, "a
rejeitou c suas outras parct•iras donzela fe ita de terra".
produziam apenas coisas inadrquada~
como os córregos, o capim e as pedras. PAI E FILHA
Por fim, ele foi à praia rm Hawaiki, Hinr-hau-one dru à luz uma filha,
Hine-titama, "a donzela da aurora".
Não sabendo que Tane rra seu pai,
Hinc-titama também se tornou sua
esposa. Um dia, ela foi até o vilarrjo e
pergunlou inocentemente quem era o
seu pai. Quando ouviu a resposta, fugiu
para a escmidào do Mundo
Subterrâneo.

A CHEGADA DA MORTE
Quando Time percebeu que l:line-
titama desaparecera, foi procurá-la. Ao
ouvir a canção tríste que ela entoava,
"É$ Tane, meu pai?", ele a chamou,
mas não podia entrar em Po, o l\1undo
Subterrâneo.
Ela lhe disse: "Fique no mundo da
luz e crie nossos filhos. Deixe-me ficar
no mundo das trevas a lamentá-los."
Seu nome foi mudado para Hine-
nui-le-po, "a grande deusa da escuri-
dão". AnLes disso a morte não existia,
mas agora todos os seres vivos devem
Num rito, o alto guerreiro maorl ldentíficado pelas
tatuagens agradece a Tane por fornecer a madeira morrer, sendo sugados ao Mundo
para fazer a toioho, sua arma. Subterrâneo por H ine-nui-te-po.
254 OCE.\t\1.'\

MAU I DOS MIL TRUQJ)ES


[lJ Ctiação. deus lrapacciro 16 K<tlharine Luorn;~la,
il1 Puli.nésía Maui qfn· Tlu>ttrond-Tricks
.ID: Pulim1sia

l\ [a ui é o grande herói trapaceiro da milolobr:ia PERSONAGENS -CHAVE


polinésia. Segundo uma importante lenda, ele pescou
MAU I • o trapaceiro
as ilhas da Polinésia usando um anzol enor me. Alguns HINA • a mãe de Maui
dizem que o anzol pertencia a Kuula, o deus da MURI·RANGA·WHENUA • a
pr$ca, e outros qut' veio dn osso do maxilar da sua bisavó de Maui
KUULA • a deus da pesca
bisavó. Muri-ranga-whcnua. Mau i fcn·çou o céu po:n·a
HINA·NUI·TE·PO • a deusa
rima, roubou o fogo do Mundo Sublcrráneo e até da marte
enganou o Sol para làzê-lo ir mais dcvag;u: Ele podia
fazer qualquer coisa, menos superar a mo rte.

PESCA DE ILHAS corda de fibra de coco, mas o Sol a


~la ui n'\rbru um anzol mágko da mãe queimou. Então ele fez outra corda, do
H ina. Ao jo~ar a linha, o "peixe" que cabelo de sua irmã, e capturou o sol
pegou era tão enorme que ele não que despontava no téu. Maui se
conseguiu tirá-lo do mar: era a massa recusou a libert<\-lo até ele concordar
de !erra ela Polinésia. que permaneceu em brilhar por mais 1empo no \'erào e
para sempre ligeirame nte ,ubmersa. restrinf,>Ír os dias curtos ao inverno.
aparecendo como um grupo de ilhas.
SEMI-APAIXONADO PELA MORTE
O LOG RO DO SOL Maui que1ia conquistar a mone. D esceu
Maui acreditava que o Sol se movia ao Mundo Subterrâneo e tentou estu-
rápido demais no céu e queria fazê-lo ir prar a deusa da morte, Hune-nui-te-po,
mais devagar. Ele o laçou com uma enquanto ela dormia: engatinhou para
dentro dela, querendo atr<n·essá-la e sair
por sua boca. Quando somente as per-
11àS de Mau i se agiLavam do lado de
fora, os pássaros nas árvores acha-
ram a visão tão engraçada que se
puseram a gargalhar e acorda-
ram a deusa - que fechou as
coxas e esmagou-o até a morte.
Em algumas versões do mito. Maui
engana o sol sobre o vulcão de Haleakala
("morada do Sol") na ilha Mau i e dá o seu
nome à ilha.
OCEi\:'\TA 255

DEUSA DO VULCÃO
CO Amor e vingança 116 MarLha Bed:with, llawaiil111 .I !Jtlwlog~:
llJ Polinésia Nathaniel B. Emerson, ( 1mt'fitten
1I! Havai. ~tados Unidos Literalurt 1!/ lhe !lula

Pele é uma deusa polinésia que' lidera diversos PERSONAGENS-CHAVE


deuses do lhgo no vulcão K.ilauea, no Hav<Ú. Ela é
PELE • a deusa do fogo
filha da deusa-mãe Haumea. r sru ca rá trr tempes- HI'IAKA • sua innã mais nova
tuoso a torna a d eusa pcrlc ita para o vulcão. Sú ela HOPOE • amiga de Hi'iaka
con trola o fiuxo de lava. Pdc deixou o Taili bus- LOHIAU • um chefe
cando um novo la r, c escol heu o H avaí. Ela se HAUMEA • a deusa-mãe,
mãe de Pele
a paixonou por um jovem ch<>fe d e o utra ilh a. c KAN E • o deus-pai protetor
seu amor ciumento a levou ao assass inato. das criaturas vivas

ENREDO
NA DANÇA
Pdr viu o belo c jovem chelc Lohiau
pela p rimeira vez numa dança de hula
f"m uma ilha próxim.:1 c: decidiu tê-lo.
Pt'd iu à irmã Hi' iaka para bu:.eá-lo, e ela
concordou , sob a condição dr q ue Pele
garanlissc que nenhum mal aco nteceri a
às suas floresta~<' à am iga Hopoe
enquanto ela estivess<' fora.

DE VOLTA À VIDA
Quando Hi'iaka finalmPntc cons•'guiu
encontr<u- L:lhiau, descobriu fJ LIC de
morrera de desilusão. ~vias ela c-apturou
se u espírito e:: usou seus poderes mágic-os
para restaLmu·-U1e a vida. Enquanto isso,
Pele, suspeitando da demora da irmã, foi
tomada por um ciúm <: incontroláwl. o vulcão Kllauea no Havaí, suposta morada da
impetuosa deusa Pele, que provoca erupções com
A MALDIÇÃO DE LONO -----~ sua po'oe. vara mãglca.

Lono é o deus havaiano da chuva, da ferti- O MUNDO EN TRA EM ERUPÇÃO


lidade, da música e da paz. Ele desceu à Pele regurgitou fogo. devastando as
Terra num arco -íris para se casar com florestas de H i'iaka e matando a bela
uma mortal. Convencido por engano de H opoc. Quando f-li'iaka )"{·tornou e viu
que ela era infiel, espancou-a até a morte
o fJUC Pele fizera. voltou-se para Lohiau,
e deixou a ilha arrasado, prometendo
voltar um dia. Por coincidência. o capitão a quem começara a amar. Pt'lc os viu
Cook visitou o Havaí pela primeira vez no abraçados e ficou fu riosa. Entrou em

J
dia da celebraçào anual desse mito, erupção, lançando lava, transformou
sendo tratado como se fosse o deus L:lhiau em pedra e fez a terra e o mar
retornado. Mais tarde, ele voltou à ilha tremerem. Apcna~ a inrcrvcnçào do
numa época dedicada a Ku, o deus da deus Kanc pôd<> salvar o mundo da
guerra, e foi morto.
ruína final.
Os extraordln4r1os mools de Rapa Nui (Ilha de
~oa) ~pedras enormes, monumentos a chefes
do passado. Um moai extraído do local sagrado de
Orongo encontra-se no Museu Britânico. em Londres.
Os ilhéus o chamam de Hoa Hakananai'a (amigo
roubado) e ainda aguardam o seu retorno um dia.
OCEANIA

MAKEMAKE E HAUA
!D Fundação, herói da cult.ura m Rapa Nui (J111a de Páscoa), f>olinésí<\
j:U Rapa Nu i (nha d<" Piiscoa), 6 Alfrcd Métraux, &utn- Jsland
Polint<sia

Rapa Nui - a llha de Pá~coa - é o mais distante PERSONAGENS-CHAVE


povoado da Polinésia; seu nome é tmduzido tanto MAKEMAKE • o Criador e
como "o umbigo do mundo" quanto como "o fim da deus dos pássaros marinhos
Terra". Seu fundador mitológico é o grande-pai, Hoto HAUA • deusa esposo de
Matu'a, que navegou para lá depois que seu tatuador Mokemoke
UMA SACERDOTISA
Haumaka sonhou com uma terra que ficava na dire-
HOTO MATU'A • o grande
ç·ão leste, do outro lado do oceano. O deus criador de pai
Rapa Nui é Makemake, que é virtualmente idêntico HAUMAKA • o totuodor
ao deus polinésio Tane (ou Kanc, no H avaí).

ENREDO
A SACERDOTI SA E O CRÂNIO Rapa Nui." Haua concordou c
Ta praia da baía de Tonga-riki, uma acrescentou: "A saccrdoása deverá vir
sacerdotisa guardava um crânio que conosco. Ela deve revelar os nossos
ficava sobre um rochedo_ Um dia, uma nomes aos habitantes e ensinar-lhes os
onda enorme quebrou na praia c levou ritos com q ue devem nos adorru:"
o cránio. A sacerdotisa mergulhou no Assim Makemake e Haua
mar para procurá-lo, ma~ não o conduzirant os pássaros pelo mru· até
recuperou. Três dia~ depois, ela Rapa Nui, estabelecendo-os nas ilhotas
apareceu na praia de uma ilha. A deusa rochosas ao longo da costa de Orongo.
Haua surgiu c perguntou-lhe o que
fazia ali. ADORAÇÃO AOS DEUSES
"Estou procurando o meu crânio, A sacerdotisa ensinou ao povo de Rapa
que o mar levou", ela respondeu. "Não Nui como adorar os deuses. Quando
era um crânio, era o deus Makemake", eles plantassem, deveriam colocar um
Haua lhe disse. crânio no chão e dizer: "Ka to ma 1-/oua,
ma Makmake" ("Plante para Haua, para
A MUDANÇA PARA RAPA NUI Makcmakc"). Qpando se sentassem
Certo dia, Makrmake, o dcus-cliador e pru·a comer da colheita, deveriam
deus dos pássaros marinhos dis.<;e: ''Vamo'!. separa r uma pof\1íO dizendo:
enviar todos os pássaros marinhUii para "Makemake e Haua, ísto \108SO."
OCEANIA 259

O CULTO AO HOMEM-PÁSSARO
lll Funda,çào, herói da cultura 6 Alfn·d ~félraux, Easter l sla.11d;
lU Rapa Nui (llha de Páscoa), Poli11ésia John flcnk y c Paul Baho,
m Rapa N1ü (llha de 'Páscoa), Polinésia TM Enig11ws of Easter lskmd

No loc.:'ll sagrado de O rongo em Rapa Nui há, esc-ul- PERSONAGENS-CHAVE


pidas em rochas, as imagens ele um homem com
MAKEMAKE • o Criador e
cabeça e bico de pássaro, segurando w11 ovo: é o deus dos p6ssaros
Homem-Pássaro, representante vivo do deus Make- marinhos
make. Um novo Homem-Pássaro era escolhido todos VIE·KAHA • o deus do
pássaro tesourão
os anos, após vários desafios em busca do primeiro ovo
O HOMEM·PÁSSARO • o
da est<u,:ão. O ovo era pe ndurado e m sua cabana, pois representante vivo de
acreditava-se que geraria alimentos, e reverenciado Makemake
por um povo quase semp re à beira da inanição.

ENREDO
REUNIÃO DOS CLÃS
Todo mês de julho, os clãs se reuniam em
Orongo pam aguardar a ninhada dos pás-
saros-marinhos. Os matalo'a (cheles) com-
petiam pelo Líwlo indica ndo hopu (servos)
para nadar por eles no mar repleto de tu-
barões até a ilhota Moto Nui, para obser-
var os pássaros. Os nadado!'('S podiam ser
hábeis e ousados, ma~ só encontrrui am o O Homem·Pássaro era a representação viva do deus
ovo de pássaro se o mala/()'a que eles repre- Makemake na Terra, e seu culto assegurava o
sentavam fosse favorecido por Makemake. suprimento de batata. frango e peixe da ilha.
Ca'iO contríuio, um lwpu não perceberia o O ENCONTRO DO OVO
primeiro ovo mesmo se tropeçasse nele. Ao encontrar o primeiro ovo, o hopu
g ti tava " Raspe a cabeça!" ao seu chefe,
o novo H omem-Pássaro. Com o ovo
Quando o capitão Cook visitou Rapa Nui sagrado na palma da mão, o chefe ia
(1774), as "guerras de derrubar estátuas" até uma cabana especial, onde raspava
já haviam destruído muitos moais. a cabeça e se recolhia p or um ano,
Desmoralizado e faminto, o povo vendeu orando e prot<'gendo o ovo.
seus objetos mais sagrados- as estátuas
de Makemake, Haua, Vie·kana e uma
mão de madeira (o Homem-Pássaro) - ao
intérprete de Cook. Mahine.
260 OCE.\:-JIA

O TRABALHO DOS DEUSES EM TIKOPIA


Tikopia, uma das ilhas Salomão, no sudoeste do Pacífico, possuj uma
da~ culturas mais estudadas no mundo, sendo assunto de vários livros
de Raymond Fírth, antropólogo neozelandês que escreveu na década de
1930. Um complexo ciclo titual, que de nomeou de Trabalho dos
Deuses, era central na sociedade de Tikopia. Este ritual polinésio é
comparável a ritos como o Makahiki do Havaí ou o lnasi ck Tonga.

A~ institwções r os valol\'s da das atividades envolvidas, p.ex. o


>ociedade de Ttkopia eram conseno de canoas ou o
modelados e sanciona- preparo de c,teirns,
do. pela vida ritual. O ernm \imis à ~ub,~­
cido mais ÍlllJX>nantr tência da tribo.
de 1itos, o Trabalho Como os atuas con-
dos Deuses, tinha por sumiam apenas uma
ol ~jetivo a satisfação dos pequena porção dos
aluas espíritos ou cirtL'>eS alimentos c knm que
poderosos que lh.c;egttra- lhes eram of\·recidos. o
liam colheitaS abundamc:.. resto ficava disponível
Duas vezes ao ano, durantr para o consumo humano.
seis semanas, a sociedade Akova, uma bebida levemente
ck Tikopia se dedicava narcólíca à base de plantas, era ACALMANDO MAPUSIA
aos ritos, divididos ('ll h'C servida em utenslllos rituais. Diz-s<: que os ritos
o Trabalho dos Ventos Alísios e ao foram instituídos por l\1apusia, o
Trabalho das Monç<>M. mais poderoso c temido atua, que
também era o espírito principal do
TROCAS COM OS DEUSES clã kafika. cu chefe Ariki K aftka
O Trabalho do~ Ut'usrs rra visto não agia, ponanto, como o sumo
tan to como um culto, mas como um sacC'rdotr nos ritos. Era ele que
sistema lógico de trocas entrt> os drcidia quando "jogar o bastão de
homens c os seres espirituais. l'vluila~ fogo" para dar início ao ritual.
Acredita-se que a cúrcuma. uma
frngrância sagrada usada como coran-
lt' e tinta corporal nos rituais, era o
prrfume de Mapusia, e a ~ua extração
cerimonial oconia durante vfuios diru>
na estação dos ventos alísios

O DEUS VIVO
É difiC'il afirmar se a palavra a/1«1 é
mdhor traduzida como ''espírito"' ou
Tikopla ~o lar do temMI M.Jpusla, também conhe-
cido como Te Atua t Kafika ("o deus de Kafika") e Te como "deus"', pois Mapu,ia era origi-
Arikl Fakamataku ("o chefe que provoca o medo"). na lnwntr um homem, chamado Saku.
OCEANlA 261

Este nome é sagrado e jamais pronun- SAKU SE TORNA IMORTAL


ciado, c mesmo o nome Mapusia rara- Q uando Saku mm·rcu, numa disputa
mente era usado. Em sua vida enquan- territorial, ele voou para os deuses.
to homem, Saku era wn herói culmral. Como ele se deixou matat; em vez de
Deu roupas ao povo, despertando-lhe a se erguer para assassinar o adver~~á­
consciência humana e, a"-Sim, forne- rio, loi considerado "puro" e pôde
cendo-lhe as "mentes". Fez também os pedi r a cada um dos aluas os seus res-
OlÚ:/!s sagrados (ferramentas para escul- pectivos manas (poderes sagrados).
pir) e estabeleceu a Obra dos Deuses. Rebalizado Mapusia, tornou-se o
Naquela époC<"l, tudo tinha voz, mesmo atua mais temível. Caso fosse oft>ndi-
as árvores e as rochas, mas Saku pediu do, era capaz de destruir vilarejos
para que se calassem. Ele ordenou às inteiros com a seca, a peste ou os
pedra~ que se erguessem c for massem ciclones tropicais.
wna pilha, c que a terra as cobrisse,
Quando Raymond Firth fotografou o taamatangi, a
formando a plataforma onde o templo dança para abrandar os ventos, o povo de Tikopla
de Kaftka foi erguido. ficou surpreso ao não ver os deuses nas fotografias.

- - --- ----~--- ------ - -


OCEANIA

MAPEAMENTO DO MAR
ID Her6i cultural i6 Ed"~" G. Burrows c Mdford
f.U llitluk, Micronésia E. Spiro,AnA.Mf Culture
m Ditas CaNtinas, Microné!lia

lfaluk. atol na~ ilhas C.:arolina, ab6ga mna cultura PERSONAGENS-CHAVE


pacífica e criativa, típica da Micronésia. Sendo a
ALULUEI • deus do
navegação essencial à vida em lfaluk, os construtores navegação
de canoas e os navegantcs são muito estimados. Suas FILHA DE ALULUEI
artes foram estabelecidas por Aluluei e ouuas divin- VALUR • deus dos peixes
dades do mru· e da consLrução de barcos. Embora WERIENG • deus dos
pássaros marinhos
Aluluci fosse um m estre navegador, no i1úcio de não SEGUR • deus dos
conhecia todos os segredos elo mar. Esse m ito re lata novegontes
como ele adquiriu o p1imeiro mapa do ocermo.

ENREDO
O PARA{SO NUMA ILHA nadou para perto deles com LUTI coco
Aluluei se estabeleceu na ilha Bwennap, pequeno, não maior que seu punho,
pequena i.lba de areia com uma árvore c dizendo: "Não estão com sede?" Os
muitas pessoas, e se tornou seu chefe. deuses riram do tamanho da fruta: "Não
Casou-se com uma m Ltlhcr do local e o é suficiente para nós", disseram. Mas
casal gerou dois filhos e uma filha. todos os três beber-am ;\vontade, r ainda
restou água no coco. Eles acharam
UMA CANOA REPLETA DE DEUSES gr.tça de um coco tão pequeno comer
Certa vez, chegou à costa de Bwennap Lallla água e ficaram tão agradecidos
uma canoa com os três filhos de Aluluci que deram à jovem o primeiro mapa do
de um relacionamento anterior: Valur, mar, compilado pelos três.
Werieng c Segur. A filha de Al uluei A menina o levou para o pai, que
eslava se banhando no mar, e os saudou. ficou muito !Ciiz ao ver que o mapa
Eles continuaram a remar, mas ria mostrava a posição de todas as ilhas,
pássaros e peixes do mar. Elr passou
As extraordinárias viagens mantimas dos povos
micronésios dominam a sua mitologia. Aluluei e seu todo c.sse conhecimento aos filhos, que
pai, Palulop, são os deuses patronos da navegação. o transmiliram ao seu povo.
OCEAN IA

WOLFAT TRAZ A TATUAGEM


IIl Herói cult ural, deus trapaceiro t6 Edwin Gr.Ult Burrows. Flou1er i:Jt ,\1jl Ear:
1!1 lfaluk, Micronésia Att.; a11d Etlw.r r![ !faluk Awll
m Uàluk, 1\l!icronésia
Quando o a nu·opólogo Edwin Gralll Burrows o PERSONAGENS-CHAVE
estudou, no fim dos anos 1940, o povo do atol WOLFAT • o deus trapaceiro
Ifhluk contava apenas 250 pessoas. No entanto, LUGWEILANG • o pai de
Burrows coletou um grande volume de belos Wol{at
poemas. Em vários deles, as mulheres ifhluks ALUELAP • o senhor do céu,
avô de Wo lfat
admiram as tatuagens de seus ftlhos c amantes.
I LOUMULIGERIOU • uma
Este mito relata como a tatuagem foi mtzida aos mulher
ifaluks pelo deus Wolfat, que descobriu ser
extremamente desejável com elas.

ENREDO
O CÉ U DE FlORES
Wolliu., o dtus trapaceiro, vivia no céu
de flores com os outros deuses, os
alusiang. Seu pai, Lugwcilang, visitava as
ilhas todos os dias para pa.<;.~ar um
relatório sobre os feitos dos homens ao
avô de Wolfat, Aluelap, o deus do céu.
Wolfal foi o primeiro deus a "usar" urna
tatuagem. Dada a sua condição divina,
eJe conseguia colocá-la e retirá-In
novamente.

WOLFAT ENSI NA OS M ORTAIS


Um dia Wolfat olhou para a 'ICrra c viu
uma bela mulher; lloumuligc riou, que
Lhe agradou. Decidiu descer para visitá-
la. A mulher acordou com o homem
estranho na casa e acendeu o li:•go para Por tradição, os ilhéus dos mares do Sul cobrem
ver quem era. Quando olhou os o corpo com tatuagens. Cada desenho tem um
sentido simbólico.
desenhos escuros em seu corpo, ela se
encheu ele dtsejo. D e manhã, Wolf.:'1t
CANÇAO DE AMOR DE UMA MULHER IFALUK voltou ao céu, mas desejou a mulher
Os compositores deste poema e da can- de novo. A~sim, retornou na noite
ção dos ifaluks viam-se como as "canoas seguinte, porém sem a tatuagem. Como
dos deuses•. Aqui, uma esposa aguarda a mulher o rejeitasse, saiu e voltou
o regresso do marido que estava em alto tatuado - então lloumuligcriou deitou-
mar e canta seus sentimentos:
se com ele.
"Meu coração anseia por ti,
Çom a tua bela tatuagem,
a manhã seguinte, Wolfat mostrou
As linhas descendo o teu dorso aos outros homens como tatuar o corpo
E as curvas dos teus quadris e tornar-se mais atraente, usando
Não consigo esquecer." rulig<·m preta c uma agulha feita com a
asa de um tesourào.
/

QUEM E QUEM
NA MITOLOGIA
266 QU EM É QUEM A MITO LOG IA

rt=\1 s ~~~ ros IX> ML-r-.no co:...TF~\r milhares de deuses, que exercem
~ centenas de funções variadas. Diferentes partes d o globo têm
di' indadcs diversas regendo objclos c fenôm enos, de rocha c; a
furacões. Em muitas culluras, cada áJVorc, montanha ou vale cslá
relacio nada a uma divindade, c os deuses controlam todos os
prinrip<Ús acontecimentos, da criação ao fim do mundo.

Como l'n('OIHrar uma quanto divindadt•s da


ordrm comum a caça agrit'ultura,
tanto\ deu\es? Uma na._<eimcnto 1' guerra.
solução 1: da~'ilicar as Embora muita\ dt"&l\
di'•indades mais figuras sejam me no.,
importante~ pelas suas poderosas em trrmos
funções: o papd que cósmicos qur as alta.~
desempenham na divindades, também
mitologia, do que eram muito importames
realmt' llll' se ocupam c p<tra o coLidi<tuo elos
a importftncia que têm que as vener,tVant. Para
para m devotos. os povos caçadun·~ t'
Esta st·ç:"w descreve coletores d<tl> {trcas
várias das divindades gelada~ ártie<L~ da
mab relevante~ e Amérirn do :'\one, ou
t'onlwcida.~ nas de uma ill1a do J>adliw,
mitologia.~ do mundo. render hmm·nagt·ns ao'
l nit'ia pelo<; criador<"S e deuses era uma t( ..·ma
as <tltas divindades, de assegumr o sucesso
que ocupam o topo As divindades de uma cultura podem ser na caça e, assim,
da hierarquia no tão numerosas que artistas posteriores por garantir a sub•·cviv\-n-
vezes incluíam legendas, como no caso
pantdlo dc· seus destes deuses do Olimpo.
cia. O mesmo vulc para
povos. Algum:.~.s dessas o culto de dl·idades
figur<L~ são vagas c desconhecidas, a~ricola.~ em sociedades agr<írias. A partl'
existindo dt•sdc o início dos tempos, final drsta seção cnfoca <Y.. dt'LIS('l> do
envoltas t•m mistério. Ourra~. ~ lundo Subterrâneo. À~ \'I:"J'.Cs ;~.._.,ustado­
igualmente poderosas, são os dcusclo n·~. a imponáncia destes dcll'>C~ rc'idia
'upremo,, divindades que se na compreensão de uma vida apú> a
encontram no c,·rnc da mitologia de mortr, em que presidirun a wn sistema
suas culturas, t'omo o deus grego Zeu\ de julgamento moral (um juí1.0 final),
c o egípcio R;í. A maioria é do sexo wm a promessa de uma vida ('()n fort{wcl
mast' ul ino, e ;c•us equivale ntes aos bons e aos devotos fiéis.
remininos desemprn ham o papel de
deusas-mães c· divi ndades da Terra, TEMPLOS E CULTO
como ,t hindu Devi. O qu(' ('merge dessas narrativas míti<:.'lS
{• o sentido real que os fiéis atribuíam
UM D EUS PARA CADA FUNÇÃO ao~ St'u~ deuses. O s mitos qut n·l:ttam
As l~Ut'!{oria.~ desta seção cobrem a maior 'Ua$ vidas não eram apenas h<l<l' e
pane da.' divindades ~ja função primor- imeressaml'S histórias; os dt·u.-.c·s l'r:tlll
dial é n·gl'r área~ espeóficas do unÍ\\'Nl entidades a quem ~e devia n·~peito,
ou da atividade humana, abarccu1do c-ulto c preces, e eram tão <'SSt-ndais à
ta11to deuM''> do mar, do céu e do cosmo vida quanto as árvores, o gado, a carne
Ql'EM É QUE:\1 :\lA M ITOLOGI A

r o sangue.- humano. Evidt·nda.s unidade dentro de alguns pan-


do culto aos deuses sobreviwm tt•õcs; pois, embora as culturas
rm ruínas dr templos, santuá- po~sam trr centenas ou milha-
rios, centros ritualísticos <' em res de divi ndades, às Vl'Zl'S t•sscs
textos qut• mencionam ritu:tis c dt'L&'S são vistos como aspectos dl'
Cl'rimônia.~. Esta seção trat um deu-; maior. Esse ;~málgama
ainda quadros com informações de deidades pode ser c::onleitual,
adicionai, sobre como e onde como no hindtúsmo, t•m <JUC
as divindadrs eram cultuadas. wdo; os deuses são 1ido:. r omo
a_o;~)('ctos da verdade absoluta,
O PANTEÃO o Bhraman; nHÚs literal, romo
Se os deuses de diferentes nn ca;o do mito poli nt~~Í() do
cul tur:L~ são diversos, ap l t'~l'n­ deu~ do mar, Tanga roa, que·
tam wmbt•m incríveis 1'111 algumas versoc~ abriga
'rmrlhanças entre si: todm os outros dt·use~ l'lll ~u
deuses do sol que Muitas figuras que claramente ventre. O e~uimago de
cn11am os céus, deuses representam divindades ou seres Tangaroa tanto pmtegc
espirituais são impossfvels de ser
do cru que produzem Identificadas.
quanto i: nutrido por
trovão, divindades que todos os dcust•s. da
rt'~rm a mudança das I'Stac;õe~. Assim. mesma fi 1r111a que Suas histéwi<L'>
embC>ra o~ panteõcs das várias ntlturas continuam a fornecer
sejam hem clin•rsos, tnmb<~m existem alimento e~piritual
font•s pamlclo,. Do mesmo modo. há c intelectual

Os sfmbolos nas representações de deuses


e outras figuras míticas permitem que sejam
facilmente identificados.
268 QUEM É QUE.\1 NA M ITOLOGIA

CRIADORES E
DIVINDADES
SUPERIORES

Todas as mitologias reservam um lugar especial para o


Criador; o deus que cria a si mesmo e molda as
características do universo. Contudo, ta mbt:m são mui to
respeitados os sobera nos do pa ntcão, figuras que não
cri ara m o cosmo mas têm um papel preponderante ta nto
nos assuntos sobrenaturais como nos humanos.

m geral, os criadores são li1,runL~ ('3\':\111 rorça~ poderosas que afi·wm o


muito sombrias. Os chineses t' mundo dos homens: os dcUM_"> do sol,
o<. gregos produziram muita'> como os cgipcjos Rá e Áton, p.cx., ou o~
estátuas c· pi ntura.~ de seus deuses, ma~ deuses do trovão, como Zcu.~. A~ divin-
pouca$ dr d ivinrbdcs com o o cliador dades superiores d1cg<m1 <tt(· nH'smo a
chini·s Pan G u o u a deusa primiti va agi r como regentes dr rortt's rde~liais,
grega Eudno ml': o trabalho a exemplo de un1 rçi
dessas dl'idaclrs \~ ronside- mmtal. Prxkm '>t'r wnc~
rado tão vasto c misterioso completa-'>, com fwwinn(t-
qu\' r dilkil n·pre'>t'nt.'l-lo. rios públi<..-o:, ccl6tiai'
Mas i-;.-.o não acontece (como a do lmpemdor do
tom ao, alta, di\indadcs, J ade chin(-s), ou mt•no'>
dr )J('rsonalidadL'S mais intrincadas, rom alta~
mru'C'<Il1l<'s r conheci- divindades n:n:adas por
das, como o lascivo deuses mrnort•s. Nos
grego Zcus ou o sábio dois casos, os mitos
Ah ura M :vcla da Pérsia. descrevem palácio\ ('111
qnr a corte Sl' •·rú ne ~o
CORTES SAGRADAS o deus hindu Vish nu como Kurma, 0 redor da divindade
D ivi ndades como l'S.<;ru; avatar·tartaruga. o segundo dos dez regente. A ligação l'ntn·
foram rnai\ facilmente avatares que criou para si mesmo. o rei mortal c o regentt'
aceitas )J(>r .,.-·u~ mltores, pois de certa edestial em mútua. Ao longo da hi>téuia
forma as.">(·mclhrun-sc a seus próprios r<·is houw muitos reis que, pam ampliar M'U
e rainh;b. T;unbém têm papel relevàllte )J(xlcr, retratavam-se como cku'l'l>. ou
nas qurMÕ<'" hwnanas, inspinmclo cultos homens que, como os ÍlllJX'r.ldort·~
que kvarru11 à construção de enornws <hine;c:s ou faraó~ egípcios, C>IX'r<wam
ll'rnplos. Em geral, esses deuses personifi- se.· juntar aos imortais após a morte'.
QGEM É Q UEi\,J NA M fTOLOGlA

Zeus
1'1 Grécia 6 .Júpiter (Roma)
O deus do céu Zeus era a cüvindade mais irnpon a mc para
os gregos an tigos, reinando supremo no monte O limpo. Ia
Terra, dihia-se que ele provocava fenômenos como o trovão
c a chuva e interfe1ia na vida de homens e mulheres.

Zeus era filho dos ti tãs Cronos e Réia e guerra. foi ele quem definiu o destino
teve de combater a raça de seus pais elo herói troiano H eitor n o embate com
pelo pode r(p.38-9). Ao fim dessa o líder grego Aquiles. Quando optou
guerra, q uando os de uses cüvicüram o po r Aquiles, ta mbém impecüu que
universo, Zeus se rornou o senhor dos Apolo interferisse por H eitor.
céus, e recebet1 também o controle
geral do universo. To rnou-se famoso
não apenas por seu enorme poder, mas
também por seu apetite sexual e suas
várias amames (p.42-3). É pai de vá rios
heróis c heroínas da mitologia grega.

ZEUS E O S MORTAIS
Acrecütava-se que Zeus moldava o
caráter dos homens e mul heres,
controlando a predominância do bem
ou do mal neles. Nos umbrais de seu
palácio h avia dois jarros, um contendo
o bem e o o utro, o mal. Quando um
mon al nascia, Zeus em geral dava-lhe
um pouco de cada jarro, mas às vezes
concedia apenas um dos atributos, e dai
resultava have r homens de todo
maus e de todo bons.
Zeus e os demais deuses
do Olimpo influenciavam
a vida adulta dos mortais.
Durante a guerra de
Tróia, por exemplo, vários
heróis receberam o apoio
de diferentes deuses e deusas,
mas Zeus ocupou posição de
destaque em momentos decisivos da

CULTO

O mais famoso templo dedicado a Zeus foi o


oráculo de Dodona. no lpiro, noroeste da
Grécia. Em geral, as profecias do oráculo eram
interpretadas a partir do som de uma nascente
que minava das raízes de um catvalho sagrado
ou, às vezes, do farfalhor de suos {olhos.
270 Q UEM (~ QU E M OA MlTOLOG I A

Júpiter
lU Roma Antíga 6 Zeus (Gr~cht)
Divindade suprema romana,.J úpiter era
o deus do céu e da luz do dia, o líder
do conselho dos deuses c fom e de rodo
o poder.

Deus da cidade de Roma, .Júpiter j á


era ado rado ali séculos antes de os
romanos estabek cerem o seu irnpr rio.
Q uando eles conq uistaram a G réda,
J úpiter incorporou muitas carac-
t(~rístiras de Zeus (jJ.2G9). Era adorado
em templos por todo o império, e
especialmente pelos generais, cônsules
e imperadores, que o viam como seu
protetor.
Estátuas de Júpiter (em geral ladeadas por outras duas
divindades, )uno e Minerva) eram colocadas nos
templos de muitas das principais províncias romanas.

CULTO

O templo mois famoso de Júpiter {oi constn.tfdo


no monte Capitólio em Roma. • Seus festivais
aconteciam em 15 de março, 15 de maio e 15
de outubro, da/os em que tamMm ocaniam
os Jogos Copitolinos em sua homenagem.

Eurínome
lU Grécia Antiga
Os mitos gregos mais antigos sobre a Criação, que sobrevivem apenU$
parcialmente, refercm.se à Deusa de Todas as Coisas, conhecida como
Euiinome (''eterna caminhante"). Essa deusa primitiva criou o Universo e
deu à antiga raça dos Titãs o poder sobre várias partes do cosmo.

Eurínome emergiu nua do Caos, Terra. Eurínome defini u a estrutura de


separou o mar do céu e então dançou poder do cosmo indicando um Titã<"
sobre a água. Seus movimentos criaram uma Titâ n.ida para reger cada pla neta.
o vento norte, que ela esfregou entre as A parte final do mito narra o surgi men-
mãos, criando uma scq)ente, Ofion. to da raç.a humana: Eurínomc tornou o
Enquamo elas copulavam, o cálido solo da Arcádia especialmente fértil, c
ven to norte soprava sobre a dew;a, dele surgiu o primeiro homem, Pelasgo,
tornando-a fénil . Ela tomou a forma de c seus companheiros. Pelasgo ensinou
uma pomba e gerou um ovo, do qual aos homens a construção de cabanas, a
st1rgi ram os elementos do cosmo: a~ manufatura de roupas c os meios de
estrelas, os planetas, o sol, a lua e a subsisiêntia.
C RIADORES E D I VI NDAUL~S SUPERIORES 2]1

Odin
~ N(>rdicos 1'1 Wnden (anglos-saxõc:s); Pnd;m, Wotan (g<Tmàniços)
Odín, o deus nórdico da magia, da guerra, da sabcdOJiá e
da poesia, era poderoso r complexo. Mudava dr forma,
era o líder de todos os deuses c a divindade que recebia as
almas dos heróis mortos em seu palácio, o Valhala.

Odin usava a sua habilidadr de se aui butos mágicos: sua lança e seu
transformar em vár·ios seres e cavalo. Conhecida por Gungni r; a
fenômenos extrao rdi ná rios, de peixe a la nça, feita por a nões, nunca deixava
fogo c de serpentes a fum aça, pa ra de ace rtar o alvo; uma vez la nçada,
obter tudo o que desej asse. Após não podia ser dNida e simbolizava o
sacrificar um de seus olhos, bebeu do poder de Odin sobre o " ponto sem
poço de Mitnir, c assim adquiriu o retorno", o momento em que a lança
conhecimemo do passado, do presente deixa a mão do lançador. O cavalo de
c do futuro, c ainda conseguiu o Odin, Slcipnir, era filho do deus Loki c
hidromel da inspiração divina l,p./20, do cavalo Svadilfari. Suas oiLO pernas
128). O imenso conhecime nto, a tornavam-no a montaria mais rápida
Lnspiração e a experiência de vida sob do mundo e seu enorme poder
LOdas as Jormas deram a Odin a permitia-lhe saltar os muros de
sabedoria universal, e daí seu enorme Niflheim, o reino dos gigantes.
poder. Ele era famoso po1· usar suas
aptidões de forma volúvel, e seus
N&sta pintura do séc.XIX, Odin observa o mundo
apeüdos iuduem Svipall ("o volúvel") e em chamas durante a batalha de Ragnarok. que
Gla psvidir ("ágil trapaceiro rápido"). marca o fim do mundo.
De bravura lendária em batal has,
Odin era conhecido por instigar
!,ruerras e definir o seu resul tado. Ele
era auxiliado não apenas pelos poderes
sobrena turais, mas lambém por do is

CULTO
Ogrande templo dourado em Gamla Uppsa/o,
na Suécia, mostra imagens de Odin, Tor e
Freir. • Homens e animais eram sacrificados em
rituais e pendurados em órvores, reatualizando
a busca do conhecimento de Odin (p.120).
2 72 QUEM É QUEM NA MITOLOGIA

Ilnatar Vainãmoinen
lU Finlândi:1 6 Luonnntar lU Finlând ia

Também conhecida como '~jovem do Filho de llnatar com o mar,


ar", llnarar é a deusa primitiva do Vainãmõinen era o deus fin landês da
épico finlandês Kalevala (p.l28-31 ). Ela canção e da poesia. Por ter ficado
estava no mar quando uma pata botou mais de 700 anos no útero da mãe, já
ovos em seu joelho e, quando Dnatar se nasceu velho, c foi logo reconhecido
mexeu, os ovos caíram e se partiram. como um sábio. Mágico hábil, ele
Os pedaços formaram o cosmo: as viajo u até Tuonela, o Mundo
cascas viraram a Terra e o céu; as Subterrâneo, para dominar os
gema~, o sol; e as claras, a lua. encantamentos mais poderosos.
Possuia uma voz canora mágica com
CULTO que encantava e transformava q uase
Nos penhascos de Rauma, no sul da Rn/Ondia, tudo, podendo mesmo controlar os
.há cinco grandes mesas de pedra, que dizem elementos e comandar a Terra com
ter sido usados para oferendas aos deuses suas canções. O épico nacional
pagãos. • O día de /Inatar na Finlândia é
26 de agosto.
finlandês Kalevala narra várias de suas
aventuras (p.128-31).

O Daghda Sucellus
lU lrhmda lU CeltaS

Líder dos Tuatha Dé Danaan, a Rei dos deuses da Gália c Bretanha


última raça do povo mágico que celtas, Succllus ("o bom batedor"} era
habitava a Irlanda, o Daghda em uma figura forte, que usava barba e
conhecido como o "deus bom", graças portava um martelo com um longo
a seus vários poderes e aptidões, que cabo, que podia usar de várias formas:
iam da arte bélica à música. Um de batia no chão e fazia as plantas
seus papéis era o de deus da crescerem na primavera; golpeava os
abundância. Possuía um inimigos, mandando-os para o
caldeirão enorme ljJ. 100), que Mundo Subterrâneo;
se enchia de leite e carne carregava-o como símbolo
para alimentar os seus de sua grande força e
seguidores. Possuía ainda importância. Também
um pomar com árvores era uma ferramenta-
sempre cobertas de símbolo, sugerindo a
frutas e dois porcos, que habilidade do deus em
ressurgiam após cada criar as coisas. Em
abate. Como deus da geral, Succllus é
guerra, sua arma era representado com a
uma clava tão grande esposa, Nantosuelta,
que tinha de ser deusa da fertilidade,
movida sobre rodas. do convívio familiar e
Um lado da clava do lar.
tinha o poder de
Sucellus era um líder
matar e o outro, de mágico e o equivalente
devolver a vida. gaulês de Oaghda.
CRJADORES E DIVTNDADES SUPElUORES 273

Teutates O Corvo e Tangen


lU Cdúc 6 'Joutates lU Chukchis, Sibéria

Divindade maior da Grà-Bn·tanha c O Corvo, Ctiador dos chukchis,


Gália celtas, celebrado em diversos exrrdou o mundo. Tomando a forma
t·egistms, Trutales era pruvavelmcmc dr um a ncião (' com a ~juda de seu
o deus protetor de vári a~ uiuus celtas, fi lho, Tangrn, cdou os primeiros
embora pouco se saiba de fato a seu homens com puuhados de baJTo,
respeito. O escritor romano Lucano usando grama eomo cabelo, e lhes
afirmou qur os devotos de Teutates insuflou a vida. Tangen tentou dar-
lhe ofereciam sacrificios humanos. lhes a lhla com a rscrita. mas não teve
e segundo outro suces~o. Então u
escritor 1eutates Corvo se transfo rm ou
preferia quando as numa ave; os homens
vÍlimas eram afogadas. imitaram sru som e,
Isso levou à teoria de assi m, descobriram
que alguns elos corpos que podiam fala1: O
da Idade do Ferro Corvo roubou o sol do
prrsrrvados em áreas céu, escondrndo-o na
pantanosa;; na europa boca, mas Tangc n fez-
rram vítimas de tais lhe cócegas e, ao rir,
sacri fícios. ele cuspiu o sol de
volta ao céu para
Vitimas de sacrificios a
ilumina r o mundo.
Teutates eram afogadas
num Lonet. provavelmente
de cerveja.

Byelun e Cernobog Perun


lU ~::!.I avos ~ Biclobog t' Tçhcrnooog lU Rússia 6 Pt·roun , Perkun. Perkuna

Os eslavos acreditavam no eterno Há só verstígios do mito rela tivo ao drus


conflito entre o bem e o mal, o q ue guerreiro Perun, o mais imponante dos
se manifestou na própria mi tologia dcusrs pag-:ios eslavos. Num fragmento
sob a forma dos dcusrs g~meos lituano, sob o nome de Perkun, ele corta
criadores conhecidos pelos eslavos a lua (um elemento masculino) com
ocidentais como Byel un e Cernobog (ou a espada, como punição por cortejar a
Chcrnobog). Byrlun era a divindade estrela d'alva r Lrair a esposa, o sol. Em
do sol, da frlicidadr e da boa sorte; ge ral, Perun r idr11tilicado como o deus
Cernobog era o deus das trevas (' do do trovão. Sua á1vore sagrada era o
mal. Essa dualidade foi comparada carvalho, talvez porque os carvalhos
à do zoroa~trismo, com os deuses Creqüc nteme ntr são atin!,ridos por raios.
antagônicos Ahura Maxda e Ahriman.
e de f.'lto os eslavos l'ram adcpws dos CULTO
ensinamentos dos bogomilos e Os sacerdotes de Perun mantinham o fogo
dos cátaros, seita religiosa medieval eterno em seus templos. • A estátua de culto
herética que enfatizava a dualidade a Perun em Kiev, Ucrânia, tinha a cabeça de
prata e o bigode de ouro. • Galos, animais
bem/mal e q ue linha ligações com domésticos e homens lhe eram sacrificados.
o zoroasltismo.
274 Q UEM É QUEM N A MITOLOG IA

Enlil
lll M'esopocâmia 6 Ell il (Acádios}
O deus do ar Enlil era uma das d ivindades mais importan-
tes nas mitologias suméria, babilônica e hilita. Separava o
céu da Terra e era pai de vários outros deuses.

Acredita-se q ue ' ippur, a cidade de " Enlil e inlil" relata como ele a
Enlil, existia antes da criaç.:"io do violenta e é banido para o J\ll.undo
homem, sendo chamada " a ügação Subierrâneo. M as ela o segue até lá, e,
entre o céu c a Terra". De Enlil disfarçados, unem-se mais trf>s vezes.
provi nham a civi li7.açã o e a agricultura .
Um longo poema narra como ele
inventou a picareta, outro corno ele
criou o deus do gado Lahar c a deusa CULTO
do grão, Ashn an, para alimenta r c O centro de adoração a Enli/ era a templo de
vesti r os deuses. Estes, entã.o, c1i aram E·kur ("Casa da Montanha''), em Nippur,
perto das montanhas l ogros, no atual/roque.
os homens para lazer uso total de tais
Às vezes, Enlil é chamado de "a grande
dádivas. Enlil era casado com Ninlil (às montanha". • Diz·se que as cidades novas
vezes também chamada Sud ou surgiam apenas com a bençiío de Enlil.
Mullissu), uma deusa-mãe. O poema

Marduc El
lll B<!bilõnia 6 llkrodaque. :\la!'duque

O fil ho do deus da Terra e da água, El, freqüentemente chamado de To wu


Mard uc, o p rinci pal deus da Babilô- El, era o pai elos deuses na mi w logia
nia. era adorado no templo de Esagil dos cananeus (uga1·itas), casado com a
j un to com sua esposa, Sarp anitu, a deusa A~toré. Tan1bém chamado de El
deusa do nasci mento. Seu poder El yon, "o deus superior", é o-adicional-
cresceu qua ndo a cidade da mente representado como um velho (às
Babilôni a se w rnou a vezes com asas ou chifres ele touro),
capital do império. O sentado, com os braços ao alto. Os
Enflma Elisli, " Épica gregos identificavam-no com C ronos,
d a criação", o saúda rei dos Titãs.
como o rei dos deuses. JVIuitos mitos canancus rr.latam uma
Nlard uc matou a co ntenda entre os deuses, em especial
d1·agoa Tiamat e de en tre dois filhos de El: Baal, de us da
seu corpo criou a tempestade, e Yam (Yan·1-?\'ahar), deus
Terra e o céu. elos mares e dos d os. O soberano El
Apoderando-se favorece Yam em detrimento do rcbelde
das T ábuas do Baal, que apesar disso oiunfa. E mbora
D estino de seu uma di vi ndade sobcrana, El apa recia
protetor Ki ngu, mais ligado a deuses como Baal. Ele
ele se tornou o tam bém não ti nha templo ern Ugarit,
sobera no elo enquanto o de Baal era bastante
cosmo. SlllllliOSO lp. /50-1).
CRIADORES E DIVINDADES SUPERIORES 275

Ahura Mazda
IV Pérsia (J,·ã) 6 Ohr.nazd
Ahura Muda é o Criador onisciente, ClÜOs planos para um universo perfeito
são frustrados por Ahriman, seu ir mão gêmeo e mau. Ahura Mazdarepre-
senta a bondade e a luz, enquanto seu irmão
espreita nas trevas, da Casa das Mcnt·iras.

Ahura Mazda é um deus sábio e


wlcranrc que dá aos homens a
liberdade ele escolher entre o bem c o
mal, embora se diga que a '!erra seja
mais feliz quando um rlos fiéis rstá
no comando. A história do mundo é
a história da batalha entre o
Pensamento Santo (Spenta Mai.nyu) de
Altura Mazda e o Pensamento
Perverso de- Ahriman. O primeiro pot·
fim vencerá com a ajuda do salvador
Saoshyanl (ou Sosbans), qu e nascerá
de uma virgem fecundada pelo Ahura Mazda, o ser supremo da Pérsia Antiga. luta
esperma mirarulosamenle preservado para separar as forças do bem e do mal, que mantêm
o mundo criado por ele em constante tumulto.
CULTO do profeta Zoroastro (Zaratustra). Os
No túmulo de Dario (p.tss). o disco alado de e nsinamentos de Ahura 1\tlazda foram
Ahura Mazda paira sobre o teí. • Os zoroastris- passados d irelameme a Zoroastro e
tas expunham os mortos às aves de rapina. Eles co nservados num relicário de I 7 hinos
não podem ser enterrados, pois são conspurco-
dos por Ahriman; mas, como criações de Ahura conhecidos como Gathas. Dizem que
Mazda, tampouco podem ser queimados. Zoroastro foi a única criança que riu
ao nascer, em vez de chora r.

Elagábalo Zurvan
IV Síria; Itália 6 Heliogâbalo, El Cabal IV Pér~ia (Irã)

Era adorado em Emesa (hoje- Homs, na Deus cósmico andrógi no da Pérsia,


Síria), na forma de um meteorito negro. qu e existiu no vazjo primordia l,
Seu nome em aramaico é ·naha Cabal, Zurvan (" Tem po") deu à luz os
"deus da momanha". Por um insólito princípios opostos do bem e do mal:
fato histórico e por um breve período, Ahura Mazela (acima) e Ahriman.
quando seu sumo sacerdote tornou-se o Zurvan deu, en tão, galhos da árvore
imperador Bassiano de Roma, Elagábalo símbolo do sacerdócio do :-.oroas uismo,
foi o deus supremo da cidade. conhecido a Ahura Mazda, indicando que ele era
por ·'o sol invencível". Elagábalo (ou se u filho legítimo. O culto ao deus
ainda Baba Cabal) foi uma das unificado Zurvan tornou-se uma
divindades orientais a encontrar lugar no heresia na fé de Zoroastro, q ue vê
[mpétio Romano, junto com o Baal de Ahura .Mazela e Ahriman como
Balbeck (hoje no Líbano) e a t1indade uma dualidade desde o princípio
Bêl, larhibôl c Aglibôl, de Palmira. elos tempos.
276 QUEM É QUEM NA lVllTOLOGIA

Brahma, Vishnu e Shiva


ru Índia
T rês deuses intimam r ntc re lacionados estão no
centro da mitolof,ria hindu: Brahma.
criador do cosmo; Vishnu, ~~'U
protetor: e Shiva. que o destruirá.

Dizem qur Brahma existe num plano


r numa escala dr tempo diferentes
da vida mortal. Um dia de sua vida
dura o equivalente a 4.320 milhõe>
de anos humanos. Essa escala cósmica
torna Brahma um deus distante. As
outras duas divindades da trindade
hindu têm mais comato com o
mundo mortal c são mais
culwadas. Shiva é a personifica-
ção da força e do conhecimento c
represellla a união dos opostos.
Vishnu vem aj udar a Trrra quando
ela corre pc1igo. tomando a forma de
um dos dez avataJ't'S (p./62).

CULTO
Há muitos templos para Shiva e Vishnu no
fndio, mos apenas um paro Brohma- em
Pushkar, Rojosthan. • Um brâmame As quatro cabeças de Brahma
(sacerdote) age como o intermediário entre simbolizam os quatro Vedas
os adoradores e o deus nos templos hindus. e estão voltados para os
quatro pontos cardeais.

Bhagavan Phan- Ningsang


111 Jlajgas, fndia Ct·ru ral 111 Singpllos, nordcst.c da ludia

O criador Bhagavan instituiu qmt~e todos Phan-Ningsang é o maior dos deul;es


os a<;p<'ctos d a \~da econômica, social e dos singphos, sendo o deus do céu
e;;pirit·ual dos baigas. Vive "longe", num Math um-Matta seu rn inisrJ'O. D epois
palúcio numa ilha guardada por dois rios que o mu ndo f()i criado, os dois decidi-
de rogo, onde recebe as alma~ dos mortos ram explorá-lo. Encontraram uma
antes de ckvolvê-las à Tcrra para o cabaça na forma de homem, e q uando
renascimento. Não é de todo bom: a abriram vária~ pequen a~ criatu ra~
enviou uma serpt'n te para e nven enar o sairam dela. Com o machado, Phan-
primeiro homem - trazendo a morte ao Ningsang esculpiu seios nas mulheres,
mundo - por puro ciúme, e enganou os e Mathtun-Matta esculpiu órgãos
descendentes de Nanga B<tiga com sua masculinos nos home ns. Em seguida,
má~ca. Essa an'lbivalência está renerida com a magia de um cachimbo dourado,
em seu palácio: metade brilha como a encantaram os hum anos, que se
luz, metade apodrece. rspal ha ram pelo mundo e sr amaram.
C RIADORES E D I\'1:'\D.\DES SOHERA:-;AS 277

Pan Gu Fuchi
lU Chin.• 6 1'.1n Ku

O criador do mundo de aco rdo com a Na mi tologia chinesa, o d e us Fur hi (·


rni tul o~o,ri a r h incsa, ~urgiu q uando a~ ronsidr rado um a csprri<' dt impc·rad o r
duas fo n;as pri mit i v:.l~, Yin c- Ya ng, ;,c ptimevo e fundado r d a China. Elt- \ t'
combina ra m no p rincípio d os lt' mpns. casou com a de m;a Nü Wa, q ur criem os
Ficou inativo por I8 m il anos, st'rt'> huma nos, moldando-o~ a pa rti r do
e nquanto o eam o rod eava, c depoi\ barro. e mostrou aos hom('m a~ habili-
levou nuli\ I 8 mil ano> para cr<'~n·r. cladt.·~ da civilização: a raça. a pc.>M a, a
linalmcntt• lilrçando as duas metalurgia<' a agriwltum.
panes dt• st·u m·o primai mé Fuchi foi o nwntor do
(']a;, '<' tottMn·m a Terra e regime da rcakza ou do
o d·u (fl/72 . ,\IJ.,'1 tm<l~ impétio <' do rálrulo
vc r~Gcs do utilO rela tan1 do tempo, al(· m de
que l'a n G u fui ajud ado inventar uma sérit• de
na rriaçito do ro~mu símbolos r hamada
por um g rupo ck Ba Guá (oito
a nima is mítiros (desde trigramas). Este·-.
então \'i"IO" tomo símbolos. dotado~ de
podt•mso'> o u ele bom poderes mágicm.
augúrio 11<1 mitolos.,ria eram usados para
ch inc~a: um dra~ào. pre,·er o futuro.
uma 1(-nix, um
Fudli criou oBa Guá, mais tarde
unicórnio, uma tanaruga usado no I Ching. Aqui ~le sesura um
e, fu; w zt•.,, um tigre). medalhão decorado com os trigramas.

O Imperador do jade
lU C hina 6 O lmP< r.rdor du Cc'.,, o ~uprcmn Rcl{cntc•
:'\a China Antiga, o lmpnador d o Céu, ou o lmpt•rador
do j ade p. / 76-lí. t•ra um ser dt• poder incríve l. J-)c
lideraYa uma C'oru· dt• <ktN'\ q ue e~pelha\ a a corte
terrena do imJx·rador d.t China.

Supn· ma divindade na mitologia achatado r decorada com 13 pinge nte<,,


chinesa, o Imperador do j ade, q ue j :í t•ada um deles emrcmeado com con tas.
frlcan çara '' iluminação p or ter Ex,·n·ia seu amplo pod<' r po r m c:io de
cultiva do o Tao (u camin ho), era o t·~píri tos, capazes de d!'slrui r qualquer
árbi tro fina l de quaisq uer disputas emn· pe,soa que o ofe ndesse. No entanlo, sua
os dt·usc•s. Em ge ral, pensava-se se r este li>rma corriqu eira de cont.rol;u· a vida
o st.• u m aior pape· I, d•ú rlc ser· tão humana era ma is sutil. Ajudado por
exaltado c.· t ão distantl' c. ao comrário mensageiros que lhe na rravam os
d o' outro'> dt.•ust''>. não poder ser aromt.•eimentos terren os, maminha
adorado ou rq>r<'w n tad o diretanwn te. n·gi'>tflh detalhados da vida dl' 'i<'ll'>
e retratado, \ !''>t ia-'><' normalmentc .,úditos apto, portant o, p ar.r
romo um imperndor mortal com a o j ul!f<rmc m o fi na l dos mesmos no
coroa im perial o u mifn, d<' LOpu Mundo Subterrâneo.
QUEM É QU EM NA MITOLOGIA

lzanagi e l zanami
IQ Japão

O casal pdmal do folclore japonês criou as ilhas do J apão,


celebrou o primeiro casamento e deu origem aos deuses,
ou kamis. Seus nomes podem ser traduzidos como o Nobre
Homem e a Nobre Mulher.

Suas lendas estão registradas no Kqfiki Perséfone, alimentara-se no Mundo


(" Registro de Coisas Antigas"), Subterrâneo e lá fi co u presa para
comple tado em 7 I 2 d.C., e em sempre.
JVifwnshoki (''Crônic as do Japão"), um Izanagui, horrorizado após observar
tex to posterior de 720 d.C . O mito o corpo putrefato de Izanami,
narra como as divindades celestes pm-ificou-se ba nhando-se num r io.
independentes pediram para Izanagui Por esse motivo, algumas pessoas vêem
c lzanami criarem a Te rra, agitando o I zanagui corno o fundador da prática
mar com uma lança mágica. lwrae - cerimônias de pu rificação
Ind ividualmente e juntos, os dois xintoístas, quando o corpo é lavado,
deram à luz muitos deuses, inclusive o e preces são dims pa ra a retirada do
deus do vento Fujin, que completou a pecado c do infortúnio. A purificação
cri ação do J apão soprando a névoa e pode centrar-se no indivíduo, numa
revelando as ilhas. cidade ou num país imei1·o .
t'vl ais tarde, lzanami morreu ao dar à
luz o de us do fogo. Depois de sua CULTO
morte, lzanagui a seguiu até o Mundo No mar perto de /se em Hanshu (local do
Subterrâneo c tentou resgatá-la, mas templo de Amaterasu) estão as "rochas
unidas", que abrigam os espíritos de lzanami e
não se saiu melhor do que Orfeu na
lzanagui (p.t8o). A corda que une as rochas é
mitologia g rega (p.57). Apesar de trocada todos os anos. A rocha maior tem uma
inst.ruçõcs claras para resisti•; lzanagui passagem sagrada para um templo xintoísta.
ol hou para lzanami, que, com o

Kotan-kor-kamui Tohan
IQ Japão IQ Chcwong, Malá.:.ia 6 Allah T~' Allah

O povo ai no de Hokaido diz que o Tohan, o deus supremo, doador do sopro


mundo foi criado por Kotan-kor-kamu i, de vida aos p1imeiros homens, é mais
"a divindade que faz a terra" . Original- reverenciado como sobre-hwnano do que
mente, a Terra era um br<;jo sem vida, como deus. Tohan habita este mundo,
com seis céus acima e seis nmndos que é conhecido como a Sétima 1 1-rra na
abaixo. Kotan-kor-kamui íez descer uma cosmologia dos chewongs, c confiou à
alvcóla, que bateu sua cauda na água, Nabi, sua se•va, a respiração humana,
como até hoje esse pássaro faz, fazendo mas Nabi deixou que um pouco se eS<:a-
surgir a terra, c Kotan-kor-kamui criou passc, e o hálito transformou-se em maus
o primeiro aino para habitá-la. Esse espíJitos (bas). Qmmdo o mtmdo se torn<t
povo primitivo tinha o corpo de barro, poluído por exces.<;O de mo.rtes, sangue e
cabelo de capim e palhas no lugar da fezes, Tohan o vira e novamente começa
coluna, o que explica o {àto de o ser a criar plantas, animais, montanha~ r.
humano cwva r-se com a idade. homens na supcdicjc achatada inlcri01:
CR IADO RES E DiVi NDADES SUPER IO R ES 279

Corvo
j:Q Nati\'OS do noroeste dos EUA 6 Gralha

O Conto é a personagem mais importante das rnítologias


do noroeste dos EUA e das regiões subárticas e árücas da
América do Norte. Aparece em vários mitos nos papéis de
criador, transformador, herói e trapaceíro.

Na costa noroeste dos EUA, o ct·iador CURA PARA A SO LIDÃO


geralmente é uma figu ra remota, como OJ.!ando o homem sentiu fome, o Cotvo
o "Andarilho do Céu", do povo transformou-se de novo em pássaro e
tsimshian, q ue criou as estrelas com foi buscar-ll1e frutos. D epois voltou a ser
centelhas que voaram de sua boca homem, moldou algumas ovell1as e
enquanto dorm ia. O Corvo ~~ um renas de barro e d eu-lhes vida, dizendo
criador muito mais presente. Seu nome ao homem: "Te setllirás solitário,
entre os haidas significa ·'aquele que sozinho." Por isso, tomou mais barro e
vai ordenar as coisas", e sua tarefa fez urna mulher usando capim aquático
principal era organizar o m undo, o fino como cabelo. Quando ele bateu as
que fez quando translormou as asas, ela ganhou vida, tornando-se uma
primeiras coisas existentes, para depois bela companheira para o homem da
estabelecer as leis da natureza. vagem de ervilha.
As lendas dos L~imshi;tns sobre o
Conto relatam como ele roubou o sol do CULTO
mundo do céu, e também como despo- A entrado da coso cerimonial do povo kwo·kwo·
sou a Mulhe r Nuvem Btilha nre, uma ko'wokw (Canadá) tinha forma de bico do corvo.
mulher-salmão, que criava mais salmões A porte mais baixo abria-se com um movimento
brusco e com o peso do p~ na parte interna elo
só ao mergulhar os dedos na água. se fechava, "engolindou quem chegava.

NASC IDO DE UMA VAGEM


DE ERV ILHA
No Alasca, os mitos dos imútes
(esquimós) unalits dizem q ue depois que
a Terra foi ctiada pelo Conto ainda não
existiam homens. Mas o primeiro
homem já estava lá, encolhido na
vagem de uma ervilha. Um dia, ela se
rompeu e ele se ergueu, já adulto. O
Cotvo pousou perto dele, forçou St'u
bico contra a sua testa c tra nsformo u-se
em homem. Quando este
contou ao Conto que viera
de uma v<lgem de
ervilha, o deus disse:
"Criei essa planta,
mas nunca pensei
q ur algo semelhante a
ti sairia dela."
Em algumas versões do mito, o
Corvo encontra muitas pessoas
saindo de uma concha na praia.
280 QCEN( É QUE!\ L NA .MITOLOGIA

Wakan Tanka Awonawilona


~ Lakotas, América do !'(or te l'laníéiesl ~ Zuni.s, sudot·stc dos EU.\

~: referido, em geral, como uma R elatos an tigos da mitologia dos zuiíis


entidade onisciente. Os lakOLas (siou:>:) mencionam um criador an drógi no,
chamam tudo o que é sagrado ou Awonawilona, mas sabe-se hoje que o
misterioso de waka11. Uma prece típica termo designa um grupo de poderoso~
de~sc povo pode ser simplesmente ·'seres-rudes", homens-animais da
"Wakan 'lànka, tenha piedade de época da Criação que podem assu mir
mim". Wakan Tanka ("o grande qua lq uer forma. Esse cot1iunto inclui o
mistério") também é um grupo de 16 Pai-Sol (Yato kka Tarcu) t a Mãe do
espíriws, o quatro-vezes-quatro. Esses luar. (Yaonakka Citta). O Pai-Sol tem
poderes posÍti\·os incluem o Sol, a duas moradas, uma no leste c o utra no
Rocha, u Trovão e a TeJTa, que juntos oeste. A Mãe do luar é sua esposa,
controlam o mundo. Dentre os omahas, mas está sempre separada dele. Sua
é definido mais como um a força irmã é a Anciã do Sal.
inttínseca, \.Yakon'da, que como deus.

Quetzalcoatl
lU Astc.-as, M~xico 6 EhécntJ. Ce i\c::ul 'Jopil tzin, Kukukan, Gu~unlaiZ

O nome Q uctz<Licoad significa "serpente


emplumada". Esse bom deus da América
Ccmral toma a for ma híbrida de um
pássaro quNzal e de uma cascavel.

Um dos mais relevantes deuses


astec.:is, que remoma a c.lOOO a.C.
Como ccrcti ador da presente era,
com o irmão e rival Tezcatlipoca,
foi ele quem desceu ao :.V!undo
Subtemineo para recuperar os ossos
de uma raça anterior e •·ec1iar a
humanidade atual. É conhecido por
usar outras formas também, principaJ-
menle Ehécall, deus do vento. Sob esse
aspecto, também era um herói cultural
qui" ensi nou aos humanos como Cabeça em pedra de Quetzalcoatt, como a serpente
emplumada, num lemplo dedicado a ele em
deveriam viver. Tornou-se imimamentc Teotihuácan, a Cidade dos Deuses, no México.
identificado com Topiltzin Ce Acatl
Quetzalcoad, o rei humano da lendátia
CULTO cidade de Tollan. Diz-se que este rei
A pirâmide de Quetzalcoat/, parte do comple- navegou para o leste numa jangada de
xo de Teotihuácan, que fica ao norte da cida· serpentes, envergonhado por ter sido
de do México, possui os representações mais enganado por Tezcatl ipoca e dormido
antigas de Quetzalcoatl como a serpente
emplumado. Seus devotos {az.iam peregrina· com a própria irmã. Alguns acreditam
ções a Cholula, um templo dedicada a e/e. que Quetzalcoatl reencarnou como o
planeta Vênus.
CRIADORES E DIVL ·oADES SOBERANAS 281

Viracocha
1'1 Incas. i>(·ru 6 Con Tirei Viraroclm, Conir;.1ya Viracocha
VJraco<:ha, criador r herói cultural dos Andes, era il
divindad~.: máxima do antigo Peru. Uma oração inca se
refere a rlr como o "Senhor do Universo" e sugere que
este d<'us podia ser vü;to como homem ou con10 mulher.

Vi.raco cha invocou o so l, a lua e~ cheg<mdo à casa do dt:us C riador


emel a~ a parti r da ilha do Sol no lago Pachaca rn ae ("aquele que anima a
Titicaca, criando, logo após, os pri me iros "ferra"). Ali d e seduziu un•a das filhas do
humanos. Embora os incas venerassem deus c Urpay H uach ac, c acidentalmeme
este deus. também se consideravam semeou o oceano com pei.""~:.es do lago
"filho, do sol'', ou do deus-sol ln ti. O desta última, que ficou conhecida como
oitavo rei da dinastia inca r Viracocha a mãe dos peixes marinhos.
Inca. Esse rei humano fo i assim
denominado por afi rmar que o Criador
lhe aparecera certa noite. As histórias
sobre o deus Viracocha e o rei Viracocha
Inca estão profundamente ügadas. CULTO
r a versão dos povos do altiplano A estátua de Viracocha no seu santuário em
andino, esse deus era chamado Con iraya Cuzco era feita de ouro e o representava como
Vtracocha, um criador-trapaceiro, que um homem branco barbado com uma longa
túnica. Na forma de Con ncci Virococha, ele
vi~java como mencügo. Como tal (p.2 17), viajou pelos altiplanos do Peru curando os
procurou sua aman te, a deusa Cavillaca, doentes e devolvendo a visão aos cegos.
e seus filh os. Coniray<• \Íajou até a costa,

Aquele que Segura o Céu


ll:l lroques('s, r\méríca do l\orrr 6 Tçharonhy~wágon. Boa Mente, Árvore Nova, Broto

Para as tribos iroquesas do nordeste da América do Norte, Aquele qu<.' Segura


o Céu é o Criador, uma figura que se mescla com o herói cultural c mestre da
vida, Hawenniyo. Ele tem um irmão gêmeo perverso, Sílex, que forçou sua
passagem para o mundo através da axila da mãe, e com isso a matou.

Aquele que Segura o Céu e Sílex são fluir nwn só sentido. Ta mbém tornou o
gêmeos nascidos da filha da Mulher tamanho do mosq uito tão desmesurc~do,
Velha, que caiu do céu e veio repousar a pomo de poder derrubar os brotos da~
na.~ cosias da Grande Ta11aruga (/~ 194- ilvorcs, mas Aquclr que Segura o Céu
7). A filh a engravidou do vento (numa reduziu o tamanho do inseto a fim de
versão, a personificação do vemo minimizar o mal que poderia causar.
simplesmente pôs ao k1clo dela uma
flecha simples c uma com ponta de sílex). CULTO
Os gêmeos eram antagônicos em sua~ Em 1799 o profeta iroquês Lago Formoso
ações. P.ex., Aquele que segura o Céu fundou uma religião: em suas visões.
("mt' nte boa") criou os rios fluindo em o Mestre do Vida lhe dissera que o povo
seneca deveria continuar seus rituais ou
ambos os senti dos, para qur sempre fosse o mundo seria consumido pelo fogo.
lacil remar, mas Sílex ("mente má") os fez
Olodumaré Mawu-Lisa
~ lorub~s, Nigéria 6 Olorun ~ Fons, Bcni n 6 S<•gbo

"Olodumaré" significa ·'a grande Mawu-Lisa, o criador andrógino, é uma


majestade eterna". Também chamado divindade do céu q ue abarca a fenúnina
Olorum, "o dono do céu", criou a lua (Mawu) e o masculino sol (Lisa).
Terra a partir de um b rt:io primitivo e Mawu-Lisa viajou na boca da scrpeme
insuflou viela nos primeiros homens, cósmica Aido-Hwedo enquanto moldava
seres feitos de argila pelo deus Obatalá o mundo e, mÍS[Ura.ndo o barro com a
(alguns falhos, pois o trapaceiro Exu água, como se prepara o material para
deu muito vinho de palma a O bata lá construir uma casa, criou os pri meiros
enquanto este trabalh;ava). Oloclumaré homens. O primeiro homem e a primeira
ouve e vê LUdo q ue aconli'CI' na Terra, mulher, às vezes chamados Adanhu e
mesmo à d istância - antes o céu era tão Yewa, estabeleceram o culto a i\ttawu-
próximo q ur os deuses podian1 ir e vir Lisa e aos deuses menores que ele/ ela
numa teia ele arartba, mas os homens deu à luz. Na nútologia dos fons, que
perturbaram Olodumaré limpando as veneravam o céu, o mundo foi criado
mãos sujas no céu, que por isso foi inicialmente por outra di ,~ndade
erguido mais alto. andrógina, Nana-Buluku, mas esse
criador raramente é lembrado hoje.

Amma Juok
~ Oogon, Mali ~ Sbilluks, Sudão 6 J ok, J wok, Joagh

~a complexa cosmologia dos 'Juok" é usado em todas as línguas


clogons, Amma é o c·riador, que nilóticas significando o divino. O
primeiro existiu na forma de um conceito deJuok engloba todo o
ovo cósmico contendo todas as mundo sobrenatural, e tanto
sementes do universo fisico e o bem quanto o mal. O Ütto levou
espi ritual. Estas ganharam vida algu ns missionários a traduzi-
pelo impulso de vibrações rem a palavra como "deus",
internas que, desdobrando-se em enquanto ouu·os a interpretam
forma de hélice, quebraram o como "diabo". Dentre os
ovo e, suspensas no espaço, shilluks, grupo étnico do sul do
criaram o cosmo. Uma raça de Sudão,J u.o k é concebido como
seres gêmeos divinos, os Nommo, um espírito universal, sem
também estava no ovo. Um deles, forma e invi.s(vcl. Como Criador
Ytu·ugu, libenou-se e tento u criar do mur1do, está presente em tudo
um universo rival, mas falhou sem c controla os destinos de wdos os
sua contraparte fem inina. A Terra homens, plantas e animais. Só r
foi feita de sua placenta. Um outro possível di rigir-se a de por meio
Jommo plantou as sementes q ue de Nyikang, um intermediário e
niaram os homens, os animais e ancestral mítico dos shilluks, que
as plama~ c levaram a Terra a rccncarna nos reis desse povo.
frutificar com a chuva. Nos sacrifícios a Nyikang, pede-
se que ele influenciejuok a
Esta escultura dogon de um Nommo
mostra·o "fisgando" as nuvens de chuva enviar chuva, c:urar doenc;.as
necessárias às planTações. ou lrazer boa sorte.
CRIADOR ES E DLVlNDAOES SUPERIO R ES


~ EgitO 6 Rc, Khtpri, Ateu, Áton, Nebencher. Atllot1·Rá, f'tã

Rá, o deus-sol, era a forma visível do criador e era co-


nhecido também por Nebertcher ("o senhor sem limites")
c Áton (" o todo"). Tinha ainda um nome secreto, cujo
conhecimento traria imenso poder (p.229)

Rá podia assLUnir formas diversas: como possuía diferentes aspecws. Um hino nos
KJ1cpri (o escaravelho) era o sol nascente, conta: "Deus é u·es deuses, aci ma de
como Atem (o cl.iJ;co solar), o sol do meio- mdo: Amon, Rá e Ptá . Sua natureza
dia c como Aton {um ancião apoiado como Amon esuí ocul ta, não pode ser
num cajado). o sol poente. A rada conhecida. Ele é Rá em suas caracrerísti-
entardecer. o sol era engolido pela deusa cas e Ptá em seu corpo." ' fodos os três
do céu. Nut, e Rá navegava o Outro fundem-se na mesma divindade criadora,
:V[unclo em sua barca noLUrna. Ali, era "o grande deus que ouve as preces,
atacado pela serpente do raos, Apófis. atende ao apelo o dos pobres e dr.sampa·
Após o deus Set atingir a serpente com radus, dá aJenw aos desditosos".
uma lança, Rá assumia a forma de um
gato para decepar sua cabeça. En tão Rá CULTO

podia comjnuar seu trajeto, para renascer O templo mais importante de Rá ficava em
novamente ao raiar do sol. Ele tmnbém He/iópalis ("cidade do sol", em grego), no delta
do Nílo. Ele também era venerado no grande
O deus· sol Rá é representado com as asas abertas e complexo do templo de Kornak, em Tebas (hoje,
a cabeça de carneiro neste mural sobre o cido solar, Luxor), como Amon ou Amon-R6, o deus oculto.
da tumba da rainha Tausert (c. 1190 a.C.).
QUEM F: QU EM NA MIT OLOGI A

,
Aton
flJ Egito ,\ ntigo 6 Ateu, Ymi
Origina1iamente, Áton era apenas um nome do ck us-sol
Rá, reprt>sentado como o disco sola r ou um sol alado.
Enlfcta nLO, dlllan te o Novo Império (1550- 1069 a.C.),
Atun passou a ler um culto em separado.

Jú ames do rei nado do la raó Amcnotep "!"tino a Áton'', supostamente escrito


IV ( 1352- 1336 a .C.), Áton to rnara-se pelo próp rio Akhena to n, tr m vá1ios
um a rorm a distin ta de de us-sol. Mas o pa ralelos com o salmo bíblico 104. O
lan•ó, que mudou de nome para hino se d irige a Áton como "o deus
Akhena\on ("servo de Áton"), J(>z de ún ico", d izendo: "Criastes sozinho a
Áton o dt· us-sol supremo, tornando o Terra, de aco•-do com o teu desejo."
seu culto a religião oficial. O s nomes
dos o u tro~ deuses loram co•iados das
pa rcclrs dos 1'<:-mplos, nu ma tentativa de
destruí-los pela negação de sua CULTO

existê-ncia. Akhcna ton c.onsu-u.iu um a Em Akhetoton construiu-se o Grande Templo


nova capital, cha mada Akhctaton ("o de Aten. • Há evid€ncios de sacerdotes de
horizonte de Aton"), em E.l-Ama rn a, na Áton em He/iópo/is (centro de culto o R6). •
Parece que havia templos em sua honro em
margem leste do rio Nilo, onde Áton M€n{is, no Egito, e em Sasebi. no Núbio.
era cultuado como deus único. Um

Hapi
flJ Egito Antigtl
O Nilo era simplesmenLc itew, "o rio", mas sua inundação era um deus, H api,
ta mbém conhecido como "o senhor d1 ~~ peixes e pássRros dos pi'm tanos". A
civilização egípcia como um todo dependia da inundação c do limo novo c
fértil para o plantjo de cult uras ao longo das ma rgens do Nilo.

Representado como um homem barrigudo .-------~------------.


de enormes seios femin ino~ (possivelmente
indicando fertilidade), vivia numa caverna
na al tura da primeira ca.taram do Nilo, em
A'l.~uã, de onde vinham as inundações
todos os anos. A inundação fluía de dentro
de sua caverna como uma dádiva infini ta
''que fàzia ::as campú1as sorrirem". Não
foram erigidos templos para Hapi. embora
possuísse centros de culto em Gebel el-
Silsila e Assuã. No "Hino a Hapi" diz-se
que o deus-sol Rá é seu filho, igualando
Hapi a ~un, as águas primordiais da~
quais Rá emergiu. Hapi também tomava a
Deus do Baixo e Alto Egito, Hapi era quase sempre
forma de uma se•·pcnle r ósmica, símbolo representado como gêmeos, um coroado com o papiro
da rtcrna renovação do tempo. do norte (esq.) e o oulro (dir.). com o lótus do suL
CRIADORES E DlVIi\DADES SUPERIORES

Tangaroa
6 K~naloa, Tangaloa. Ta'aroa, !\'a

Tang-aroa é o nome maori para o deus polinésio do oceano, ruja respiração cria
a~ marés. :\a Polinésia ocidental, era o criador prt>existente, soh o nome de Na,
Tangaloa e Ta'aroa. qt•c vivia sozinho no vazio
primordial e que deu origem a wdas as \oisas.

No TaiLi, como Tangaloa. adquiriu


primeiro a \ons<:iência denuu dr uma
\ancha "corno um ovo a girar no rspaço
infinito'', quebrando-a e emergindo para
rriar o mundo. Uma lenda da ilha ck
Samoa narra \Omo Tangaloa criou a ilha
Manu'a (pertencente a Samoa) deixando
cair uma rocha no oceano e a seguir ((-z
a~ outras ilhas. inclusive Tonga e Ftii.
Para dar sombra a seu pássaro Tuli. ctiou
a Videira da Povoação, que lõe espaUlou
por toda Lcrra. Quando el<• murchou.
Tangaloa frz das larvas que & nuuiam
da vegetação plll rd~lla os p1i111eiros
humanos, dando-lhes cora~o e alma.

CULTO

A estátua de culta de Tanga/ao cama A'a, no


Museu Britânico, em Londres, mostro outros
deuses engatinhando sobre seu carpa-cancha;
uma cavidade na estátua cantinho figuras de Nos mitos maoris, Tangaroa. deus dos mares, é
madeiro de deuses diversos. irmão de Tane, deus das norestas. Na mitologia
havaiana, ele era conhecido como Kanaloa.

Baiame Serpente Arco-íris


lll :\uSU'ália 6 BUiyil, Nooralic lll Austrália

Baiamc, o deus criador, pai de tudo e Figura importante na mitologia<'


ele Lodos, talvez sej a o mais impm-tan- religião aborígine, a serpente arco-íris
te no sudeste da Austrá lia. De cena emergiu de um poço durante o Sonho,
forma, sua mitologia foi inAucnciada ou a época ela Criação. Conforme ela
pelo cristianismo. Baiame vivia no viajou pelo país, seus movimen tos
céu c criou os animais e os homens. criaram os montes, montanhas, vales<'
Junrou todos os anima is descon tentes cursos d'água da paisagem ancestral.
(os animais tinham amoconsciência Muitas lendas falam do prrigo de se
durante o Sonho) e os deu de pr<"- irritar uma serpente arco-íris () U de
scntc aos ho mens. Birrahgnooloo, danific<trar seus ovos, o que a levaria a
a mãe ele todos, é sua esposa, e enviar uma inundação. Hoje a serpente
DaramuJun, S{'U filho, foi enviado à está curvada c suspensa acima da Terra,
Terra pa•·a ensinar aos hom<' ns as leis como um arco-itis no céu, podendo ser
sob as quais vivex: vista no cintil11r da luz na água.
286 QUEM É QUE.'vl ~A M ITOLOGiA

DEUSAS-MÃES
E DIVINDADES
DA TERRA

Em mLÚtas mitologias há uma deusa suprema, figura


geralmente benevolente, mas por vezes destrutiva, que cuida
da Terra e é vista como um tipo de mãe cósmica. Seu papel
abarca a concepção e o nascimento da própria Terra. Assim,
figuras como Gaia, da Grécia Antiga, e a deusa maori Rangi
representam a "Mãe-Terra".

figu ra da Mãe-Terra Hera, a rainha das deusas gregas, vivia no


Olimpo. Seu ciúme em relação à infidelidade
aj udava a explicar a de Zeus era notório.
criação do mundo e a
exisrf\ncia h umana. Em mu itos simp lesmcmc "deusa") é uma
c:asos, fecundada por seu espécie de essência das
parceiro (em geral um demais deusas e pode
deus celeste} gerava, assumir todos os
então, u hábital da aspectos, de nu I riz a
humanidade. O d estruido ra.
nasc imento da Terra e o
parto h umano eram ass im RJTOS SECRETOS
considerados análogos. Tal como o parto, o cu ho
à deusa-mãe ou à deusa da
DEUS ES PESSOA IS Te rra era em geral restt'Íto
Embora muitas das a mulhçJ·es, q ue oficiavam
deusas-mães fossem seus ritos em segredo dos
figuras distantes, outras, homens, cujo acesso aos
como as do pa no ou do templos ou santuários era
casamcmo, eram mu ito proibido. No caso da d eusa
próximas a seus fifis. romana Bona Dea, até o
Deusas importantes, ocupam às seu nome próprio era desco-
vezes o topo da hierarquia sagrada, nhecido dos não-iniciados, o que
tal como a romanajuno, uma das três reforça o mistério e a importância tanto
principais divindades de Roma. No da clew;a em si q uanto da !rrli l i dadt~ c
panteão h indu, D evi (q ue significa da abu ndância, dád iva~ suas.
DE SAS-MÂES E D IVINDADES DA TERRA

Bona Dea
lll R"ma Antiga
Importante deusa roman a da terra, Bona D ea, a "boa
deusa" é tlma figura misteriosa, que j am ais teve seu nome
pr6prio revelado publicamente e era cultuada por
mulheres em ritos secretos sem registros.

H á muitas h ipóteses q uanto à Vestais em cerimônias exclusivas a


identidade ele Bona Dea , e é possível mul heres. Comumen te cultuada num
tratar-se de uma das deusas da templo, honravam-na ai nda com um
natureza, conhecidas pelos ro manos fesliv-dl a nual Bona D ca era evocad<~
sob o utros nomes. Um a cand idata é para promove r a saúde, a castidade e a
Maia, deusa a quem era ro nsagrado o fertilidade. Era popular enlre os libertos
mês de maio e associada a Vu lcano. e entre os escravos que esperavam
O utra é Ops, a deusa sabina da tornar-se libertos um d ia.
plenitude; esposa de Saturn o, Ops Consta q ue nos ritos de Bona Oca
presidia as colheitas. o que a aproxima as mulheres oferecian1-lhc flores, ,·in ho
da ter ra e de sua abundfmcia . A mais (referi do como " leite") e um porco.
provável, porém , é a deusa Fa una, A ce rimô ni a era acompanhada de
popular entre as mulheres, irmã e música, o que, segundo um relato
esposa de Fa uno (d eus dos pastores e rspecífico, levaria as devotas a um
um amigo e mítico rei do Lácio}. estado de transe.

CULTO PARA MULHERES


Os devotos de Bona Dca d iziam q ue CULTO
ela possuía() dom da profecia e Seu principal templo ficava no monte Aventino,
consideravam-na casta, wnw que seus Roma, e apenas mulheres eram admitidas. • O
ritos eram oficiados pelas virgens principal festival em suo honra ocorria em
dezembro. As palavras ''vinho" e "murta" eram
O festival de Bona Dea, restrito a mulheres, tornou· proibidas, pois certa vez Bana Dea embebedara·
se público depois que um homem disfarçado. (crê·se se e fora açoitada com ramos de murto.
que Clodius Pulcher, em 62 a.(.) se infiltrou.
288 QUEM É QUEM NA .M ITOLOGI.\

Cibele Gaia
lU Roma e Gr<·cia Anrigas 6 K.ybdc lU Grécia Antiga 6 Ge

A deusa Cibele é originária da Frígia Caia era a deusa da Terr-a na Grécia


(atual Turquia), e acredita-se que os Antiga. Ela emergiu do caos primitivo
gregos tenham adoLado seu do universo c desempenhou um papel
culto após a Guerra de essencial na criação da primeira raça
Tróia. Reverenciada em de seres, os Tilàs f.P.36) .
todo o mundo grego e, Também foi mãe de
mais tarde, também no diversas outras raças
romano, ficou conhecida míticas, como a dos
como a "Grandc::-:Vlãe". Ciclopes, de um só olho.
SeLL~ sacerdotes. os Galos, a dos Hecatõnqui ros
rasrravam-sc para ser,.i -la. (ou ·'giganLes de cem
mãos") e a das
Eumênides. deusas
temíveis que puniam a
0> d•vul<» u" Cibele, que dançavam
até o transe extático. eram conheci-
traição familiar.
dos como Coribantes.

Hera Juno
lU Grt'ci;t Antig-a 6 Juno Rom<I) lU Roma Antiga

Hera, por ser irmã c esposa de Ze us, Protetora das mulhcres,Juno tinha vários
era a rainha do Monte O limpo. outros nomes, qut> enfati7..avam os dlle-
Entre seus filhos estão os deuses Ares rentes aspectos de sua personaüdade. Co-
e Hefesto e a deusa H cbc. Reverencia- rno J uno Luci na, era a deusa do parto.
da pelas mulheres, era a protetora das Como J uno Maneta, advertia as pessoas
esposas t' tinha o dom da profeci~L dos perigos. Por ocasião da invasão gau-
Festivais comemorando sua união com lesa, os gansos de seu sanmário grasna-
Zeus eram organizados regularmente ra.m t.alllo que alertaram o exército para
na Grécia. Existia, entretanto, um lado a presença dos inimigos, e Roma foi salva.
ruim em sua personalidade: quando
Júplt~r tentou Imortalizar seu filho semi mortal,
Zeus, Posídon e Hades divid iram o Hércules. colocando-o ao seio de Juno. Um jorro
universo, Hera foi deixada de lado, e do leite para o alio formou as estrelas.
isso, somado aos muitos casos
amorosos de Ze us (p.42-3), wrnou-a
rancorosa. Seu ciúme nutrido contra
suas rivais e contra os fi.lhos de Zeus
com outras parceiras torn ou-se seu
traço dom inante c contribui u para
alguns dos mais d ramáticos episódios
da mitologia g rega. Hera participou da
rebelião cont ra seu marido e, ressenti-
da por tcr perdido um concurso de
beleza entre as deusas (p. i O), provoco u
o conflito q ue culminaria com a
Guerm de Tróia.
DEWiAS-MÀF.S E D IVINDADES DA T ERRA

Ncrto Mokosha
lU {;t·rmânicos

O lústoriador romano T ácito descreve A deu!>a pagã da Terra, Moko~ha,


a deusa ~erto como Mãe-Terra. Ela sobreviveu na religião popular russa
seria a deusa das tribos de uma ilha como a 11U1l' f)-Taia <Pnlia, ".1\lãe-Terra
báltica c apareceria entre o povo num úmida". Era a deusa da fertil idade e da
carro puxado por vacas que ninguém, prosperidade, c respeitavam-na como a
além de seu sacerdote, podia tocar. uma mãe; o costume de pedir desculpas
Enquanto estava entre o povo, todos à Terra antes da morte durou até
baixavam as armas, c a paz prevalecia. tempos recentes. Associada também à
Depois retornava a sc:u bosque, onde tecdagcm c à fiação, representam-na
escravos lavavam seu carro r em em bordados tradicionais russos como
seguida eram sacrificados. para uma figura feminina com os braços
pre~crvar seus segredos. erguidos, ladeada por dois cavaleiros.

Friga
lU '\6rdicos 6 frfia, l'rig'l
Co mo filha e esposa de Odin, Friga estava cmrc o:. deuses
nórdico;, mais podero~o>. Era a deusa do céu, descrita como
vestindo-se com roupas de nuvens, que escureciam
quando ela se enfu recia.

Friga era associada a casamento, amor,


fertilidade, nascimento e vida fami liar.
Sentada ao lado de Odin, assim como
ele, intervinha nas questões humanas,
embora em geral tomasse partido
contrário ao marido, sendo esta uma das
fontes de conflito entre o casal. Embora
fosse a deusa do casamento, era amante
dos dois irmãos de Odin, os deuses
criadores Vili e Vê, e há registro de que
se envolveu também com um escravo.
Seu relacionamento com o filho, Balder,
era conturbado. Sua participação
involu ntária na trágica morte de Balder
l,p. 124), levou-a a enviar o irmão deste,
H ermod, ao Mundo Subterrâneo para
suplicar por seu perdão.

CULTO

Em Asgard, Fensalir ("região pantanoso") era


o lar de Friga, a que sugere que possa ter sido
adorada em riachos e lagos. • Friga era iden·
tificado com a deusa romana venus, e seu dia
veio o ser o sexta·feiro (Fridoy) , dia de Frigo.

'
290 QLJE~1 É QUE:\1 NA W I'OLOG I A

D evi
1'1 Índia
A palavra "devi" signifira "deusa" e designa a prindpal divin-
dade- feminina no hinduhrno. Ela personifica tod<L'> as deusas:
crimi' ••., c dcsrrmh-a,, pacíficas t' guerreira... Sua raraneristic.a
mais importante é a de '>~Ta <"'JJJ>a do deu, Shi\".1.

Assirn como todas as drusas Sl' juntam


na figura de D evi, todos o~ poderes divi-
nos, tanto masculino'> quanto femininos,
se unem no casamento de Stúva e sua
esposa. As lamosa~ matadoras de demô-
nios Kali e Durga reprt'>entam a parte
destrutiva da esposa de hi,~a;já a cari-
nhosa e genól Parvati {· a sua contrapar-
1<' b~:ncvolentc. Devi pode ai nda ser
vista como consorte de Yishnu, c então
r denominada Lakshmi, reinando como
a drusa da riqueza, que traJ. a sorte.
Devi, a mãe de tudo, é a deusa da natureu e da
vida. Na mão direita, ela segura a alegria e a dor, e
com a esquerda distribui a vida e a morte.

Kwannon Pachamama
1'1 Japão 6 Gu.u\ Ytn Clnn,t1

Kwannon é a deusa da misericórdia, Pachamama (: a deus..'l-teml da n'giào


fcmte de piedade. Originariameme, era andina, cujo culto data da época do
um bodhisalá!a masculino (no budismo, império inca. Os agricu ltores erguiam
um ser iluminado), Avalokitesvara, altas pedras-alta•'Cs no centro de seus
"Senhor que observa com piedade". campos em honra à Mãe-1errae,
Suspenso à beira do nirvana, com preces, pediam-lhe um solo
Avalokitesvara fora incapaz de ir ICrt.il e boa colheita. Na área de
além do mundo temporal, pois Cuzco. quichua~ atuais ainda
ainda havia dor a ser ali..,iada, e veneram Pachan1ama como a
então se transformou numa deusa da agricultura a viver no
drusa que redime e ampara. interior da terra. Divindade
Assim, Kwannon (: essencialmrntc frminina, as
representada à vezes sob mulllcrt'S chamam-na de
forma ma.~ulina; outras, "companheira" em suas
como a deusa de muitos preces. Para o~ povos
braço-., a "Kwannon da~ andinos, toda a paisagem é
Mil ~ l àos". um ser vivo, dotado de
poder soh!\'natural,
Multas vezes, Kwannon é acessível em locais
representada olhando para
baixo, a Indicar que zela sagrados, <'On hecidos
pelo mundo. como lm11ras.
D EUS1\S-~ I ÀLS E DI\'1:\DA D ES DA TERR.'\

Dauarani ~1u U1cr-que-semprc-muda

Na miwlo&ria do povo warao do delta M ullwr-que-..empre-muda é .1 dcu'la


do Orinoco, a M ãe da FlorNa (Jâ2(J, mais impon ante da cribo diní·. l-i lha dos
Dauarani, originou-se da primeira ca- jO\·rm \ ída Lo nga e Felicidade, foi tra-
noa, c-ri.1da pelo dell.'> HabUii. 0 >ane- zida à vida pelo Deus Falanu:, a partir
sào~ warao~ dão às canoa~ um l(m nato de uma imagem de turq ursa, r acolhida
que rt:'()l'fS(•nta a vulva dr Da uara ni; os pelo Pl'inwi ro Homem e pela Primeira
aprendit.e~ devem viajar all'<tvés do cor- Mulher: A Mulher-quc-sr mpre-rnuda
po da grande serpente do â·u até chegar reprt'S('uta a essência da vida: envelhece
ao lar de Da uarani na sua moutanha- e l1jll\'l'nt•sct• ao longo do clt'rno ócio
mundo, a sudeste. Lá, soh uma lu/ da' <·~tal)i>t>s. Deu à luz os gt'lll<'<h heróis
brilhante, conhecem os sc·grw!o~ da :\latador de Monsrros e as('ido-<'m
fabricação de canoas, numa extwriên- bll.'>c<t-<k-<ígua . .\f udou-se para o Ol'St(',
ci<l ex t:íti ea que se rept•te du r-;1 ntt' a mas, ao sc·nti r-se soli úuia, rriou os dinés,
construção dP cada nova C'a noa. <1 partjr de esem-as de sua pele.

Geb
!U 1:,.:>111 ,\nrigo

Cc•b _:'1 t•sq., com o d('us-faldio I lórus) era o deu~ da


Terra. Em geral, é representado deitado de costas, com o
falo ereto, por ter sido separado à força de ~ul, o céu; às
wze~. pintam-no de verde, a cor da vegetação.

Louvado como o "senhor dC' mil hões enq u,\1110 hu ficou j un to a R~í. o
de ano-,'', era fi lho de Shu, u deus do deUS·!>OI.
ar seco, c dC' Tefnu t. a dtma do ar Na mitologia, G eb distingue-se por
úmi do. Gcb, a terra seca , e sua irmã S{' r um deus-Tr rra masculino. Co nsta
Nut, a vas ta abó bada celeste, dC'ra m à que, na aurora dos tempos, elc pôs o
luz m p rincipais deuses <:gí prios: Gra udç Ovo. do qual nasce u o pá~saro
O~íri~, Hórus Cego, S<·t, Í~i ., c Htis. Benu (p.30 1). Por isso, um dt· Sl'U~
Geb a inda foi o juiz das rcivi nd iraçõe:. nomes i.· o dr G rand e Cacarejador.
do~ rivais Set e H órus pelo trono, O animal consagmdo a Geb era o
d ispu ta em que favorcn·u o último. ganso, forma animal sob a qu al era
Inscrit a numa estela do pt•ríodo comumr nt e representado.
ptolomairo, um a lenda conta qu r o
pai ck Geb, Shu, já fraco c doente,
asn~ ndcu ao cé u, após te r sido rei do
Egi to por mui tos anos. Por nove dias,
a escuri dão cobriu o mundo c o ven to CULTO
uivava pela te rra. Geb a pro' citou a Em seu templo em lunu (petto do Colro). ero
oca~ião para ir ao palácio de Sh u em cultuado como um deus bissexuodo. • A
Mênlis e violentar sua mãe, Tefnut, Cosa do Vida. em Ábidos, era uma réplica
sagrado do Universo, cujo chão era Geb. • Em
qu e· coh i ~·ava. Longe dr se r punido textos {uner6r/os, é citado coma uma ameaço
por se u a to, ao cabo dos nove dias, par tentar aprisionar o mafto no corpo.
Gcb subiu ao tron o do Egi to,
292 QlJJ:~1 É QCE~I :\A ~ IITO I.OG I A

DIVINDADES
DO MAR, DO CÉU
EDO COSMO

Para os povos antigos, a Terra parecia c lar


circundada por forças - como o ma r, o céu e as cslrelas -
de imensos poder e tamanho. O movimento do Sol e o ir
e vir das ma rés sugeriam poderes além do en te ndimento
humano, que eram explicados co mo movimentos do mais
poderoso dos deuses.

erras divindades J)(·rsoni- personificam esta imprc-


ficam a V<lStid ão dos cé.us, visibilidadc: o grego Posídon
como An, da Mc·sopota- condamava tempestades tom seu
mia, c podem ser remotos C" tridente; o nórdico T hor
diManlcs, mas representam comandava o trovão com seu
o grande potencial de martelo e o hindu lndra,
criação celeste. P.ex. o Senhor da ;ígua. trazia o
deus rnaori Rangi, urna ll'OVào r a chuva.
figum enorme e pai dos
primeiros deuses. Nut, O BEM E O MAL
:mtiga deusa egípcia do As divindades eram
céu, é outro exemplo personificaçõc.s de reais
ela capatidade de ansiedades humanas em
expansão celeste: seu Os Tritões, filhos ·serelos" de relação à~ forças cósmi-
corpo, que se estende Posídon. sopravam con<has retorcidas ca_<>, r, assim, reverenciar
em Clli'Vd pelo réu, acalmando ou agitando as ondas. os deuses de cc n o modo
forma um arco sobre o quRI c) deus-sol Rá .Yudava a apazigttar o poder de des-
vi;\ia diariamente em sua barca celeste. tru içào de tais forç.as. M as o poder
destrutivo dos deuses também implicava
FORÇAS CÓSM ICAS a força ctiati\'a que personifica\'am.
,'c, forças cósmicas do mar e do céu são Esses dois poderes antagônicos mas
contraditórias. O mar pode trazer tanto complementares - destruição c criação -
tempestades ameaçadoras quanto são em geral represemados por deuses
f<trtura de peixes. O Sol aquece a Terra, irmãos. a rnitologiajaponc~a. p.ex., o
mas também pode secar os rios c deus do mar te mpestuoso c· da tormenta,
tram(()rmar o solo fCrtil ('lll pó. Algtms Susanoo, é complcrnrnl ado por sua
llllli!-,'OS deuses do mar C do cr u ge11til irmã, Amatrrasu, deusa do Sol.
OIVJ:\TDAD ES DO .'vlAR, DO CÉU E DO CO Sl\.JO 293

Cronos
6 K ronos, Cronos; S~mrno (Roma)

Cronos, deus do céu, era filho dc G aia e Úrano e um dos


Titã~, primeira raça a habi tar o cosmo. O rclacioname nto
dific:il com os seu~ filhos, os deuses do Olimpo, gcrou um a
guerra (p.38-9).

A guerra entre Titãs c Olímpicos foi


vencida pelo~ Cthim o~. No mi to
tradicional, os Titãs ckrrotados !i:wam
confin ados no Tár·raro, região sombri a
do Mundo SubLcn·âncu. A tr adição
órfica, po rrm, re'lata uma ourra versão,
em que, ll-itas as pazc~ com Zc.:us,
C ronos torn a-se o primei ro sobera no
do céu c ela Te rra. ao rece ber ele Ze us a
lll1a elos Bem-Aventurados, um a bela
região, situada no extremo O cidente,
alé m das estrelas . .Junto à esposa R éia,
C ro nos lá governou co m paz e tamanh a
fartura que o periodo de scu reinado
ficou conhecido como a Idade de Ou ro.
Cronos devorou cinco de seus filhos. t entando
rev erter o oráculo de que seria deposto por
um deles.

CULTO

Dizia-se que o Ompholós de Delfos seria


exatamente a pedra que Cronos engolira,
acreditando ser seu (ilho caçula, Zeus. • A
pedra do Ompholós era untada com óleo e
depois coberta com lã durante os rituais.

Posídon Úrano
r.u Oréda Amiga 6 üuranos, Uranus

O domínio de Posídon lp.50), deus do Úrano era ~i lh o de G aia (ou, segundo


rnaJ; aban·ava tambf rn na<;rentcs c' lagos. alguns, d e Etc r, o cé u superior}. Era a
Surgia cm seu CaJTo, com um séq ui to de pr rso nitlr ação g rega do d u c pai dos
criaturas e ninfas marinhas, podendo T itãs (p.36}. Diz-sc que fo i ca~ trado c
deSt:ncadear tormentas e terremulO~. de posto pelo lllho C ronos, a pedi do
Ajudou o~ troianus na construção das de Ga ia. Segundo ou tra tradição, loi
mu ralhas da cidadr, ma~ enviou-lhes o um rei humano, qu e ensinou a
terror de um monstro marinho por astronom ia c as artes da civilização a
discordar quanto ao pagamento pelo seu povo antes de morrer c ascender
St:rviço pr·cstado. N<t Guerra. de Tróia, ••o céu.
posicionou-se a lavor dos gregos.
294 QUEM É QUEM NA MITOLOG IA

Thor
IV ~6rrlico~ 6 TM, Thml<lr (a nglo-saxõt's); Dona r (gt'r mânicos)

De olhar penNraoLe, barba ruiva c com um martelo


amedrontador, Thor çra o mais fotte dos deuses nórdicos.
Ao cruzar o céu em seu carro, pr(lduzia o trovão. Prestava
auxílio aos deuses quando ameaçados p elos gigantes.

Muitos mitos se referem a vários povos do no rte da Europa. Há muitas


gigantes mon os por Thor. Nesses feitos, pedras votiva~ c escultur as d e seu
o deus conta com a ajuda não só de $CU machado na D inamarca e na Suécia, e
poderoso ma rtelo, Mjõllnir (que nunca amuletos em forma de m<u·telo, como o
errava o alvo c sempre retornava à mão mostrado acima, foram encontrados em
de Thor), mas também das luvas de sepulcros.
ferro e do cinto qu e dupl icava sua fo rça. Na poesia nórdica há desc rições de
A tem ida serpt' tllC Midgard foi um dos diferentess templos em honra a Thor,
poucos inimigos que T hor não mas em todos havia o recipien te para
conseguiu aniquilar (embora exista a colher o sangue de anim<tis sacriflciais,
profecia de qtH' rle há de matá-la na e, ocupando o centro, uma enormr
batal ha final de R agnarok). estátua dourada do deus, sentado em
Apesar de seu notório e descomunal seu carro puxado por dois bodes.
apelit.e e de seu feroz temperamento,
Thor era o deus mais popular emre os CULTO

Em templos como os de Dublin, Upsala e


Thor, mais conhecido como o matador de gigantes,
Thrandheim, as esculturas de Thor ocupavam
executava os inimigos com um só
golpe de seu martelo.
o lugor de honra. No primeiro sua imagem era
negra; no segundo, aparecia em pé, segu-
rando o martelo; e no terceiro, com adornos
de ouro e prata, sentado em seu carro.
DIVINDADES DO MAR, DO CÉU E DO COSMO 295

Manannán mac Lir


lll lrlandeses/C:ch as 6 Manunnan. Ma nandan, 1\lona naun; Ma nawyda n (galcs('S)
Contam que o deus irlandês do ma1; Ma nanná n mac Li r ("filho do mar"),
vivia em Emain Ablach, ilha da costa da Escócia. De lá, singrava as onda~
em seu carro puxado por cavalos, viajando para ajudar outros deuses em
suas batalhall e juntar-se a j ornadas de outros heróis irlandeses.

Figura impressiouame, Manannán mac


Lir era belo e poderoso com seu manto
de cor cambiame como a do ma1~
capaz de mudar o destino de quem o
vestisse e agitasse no ar. Carregava uma
bolsa mágica com LOda~ as suas posses e
uma espada que podia perfurar
qualquer armadura. Se necessário,
Manannán também podia recorrer a
diversos cnrantamentos, os quais
ensinou aos dru idas, e ainda usar o utro
feitiço: um denso nevoeiro que o
ocultava dos inimigos ou supreendia
seus adversários.

Diz-se que Manannán ma c Li r singra as ondas num


carro ou a cavalo, mas que também pode usar um
barco mágico sem remos nem velas.

Nanna Enki
6 Sin lacídios) ~ Mesopotâ mia 6 Ca {acádi<!s)

Deus da lua, Nanna nasceu ela Deus do oceano de água doce


donzela Ninlil e do deus do a r Enlil. subterrâneo, chamado Abzu. O centro
Sua esposa era a deusa Ningal e seus ele seu culto, siluadn em Eridu, era
filhos, o deus do sol Utu (Shamash) c a E-abw ("casa de Abzu"). Deus da
grande deusa I na na (jJ.3 15). Seus sabedoria e da magia, na lenda
principais templos situavam-se em Ur de Inana e Enki (p. NO), possui o me,
e Harran, no norte da poderes sagrados que
Síria. O número 30 controlam a ordem do
também designava mundo, mas o perdem
Nanna, por ser essa a para Jnana, por es1ar
quantidade dt· dias embriagado. No mito
em um mês lunar. do grande dilúvio, é
Enki quem fica a favo r
dos homens c contra
Luas crescentes ladeiam o
deus lunar, Nanna, neste alto·
os deuses. Sua esposa era a
relevo assírio em pedra. deusa Dan1galnuna.
QUEM É Q UEM NA MITO LOG IA

An Utu
Jl' Mesopotâmia 6 Anu, Anus Jl' Mcsopoli\mia 6 Shamash

An, cujo nome significa "céu" em Utu, deus-sol sumério, era fil ho de
sumério, era filho ele Ansar c Kisar, o Nan na, o deus-lua, e irmão de I nana,
céu e a 1err.;~, e tornou-se o deus-céu a deusa do amor e da guerra. Segundo
sup1·emo após a separação entre Terra um mito, U tu e lnana desejavam-se
c céu. Apesar ele importante, era uma mutuamente, c consta que foi U tu quem
divi ndade remota e, como tal, pouco providenciou o casamento da irmã. Ele
rcpresc ntado na arte mesopotâmica. se casou com Sherida (Aya), uma deusa
Nos mitos hilita.s é An u, deus q ue da luz, associada à sexualidade e ao
usurpa o poder do pai, o Criador amor; o casal era venerado em templos
AJaJ u, c por sua ve;r. tem seu poder de Sippar c Larsa, c a cada manhã o
usurpado pelo filho Kum arbi, q ue o deus surgia das portas elo paraíso para
mara, arrancando-lht' a genitá lia com cruzru· o céu.
os dentes.

Indra Susanoo
Jl' Í nclia Jl' .Japã., 6 Susar1o, Susano'o, Su5:lnowo

lnd ra, anti~o deus-céu hindu, com O ambivalentc Susanoo é o de us das


seu relâmpago e arco, u·azia chuvas tempestades. Em sua ira, desonrou o
rcfrcscantts à Índia, banindo Vritra, céu f' levou a irmã, a deusa do sol
o drus da scca c da morte. O dom ele Amate ra~u, a sr esconder numa
trazer a vida vale u a lndra a afeição caverna, mergulhando o mundo na
do povo, e muiws hinos do Rig Veda. escuridão (p. 182-3). Uma vez banido elo
antigos textos re ligiosos india nos, céu, sua ira se dcsvancn:u, e Susanoo
enaltecem-lhe> o poder e o a uxílio tornou-se tun deus bcnc·volcntc. ~a! vou
prestado aos homens. Com seu raio, a P1incesa dos Campos de Arroz ele um
lndra tanto a nu nciava a chuva quanto terrível dragão, matou-o usando de
vencia inimigos; com seus mil o lhos, trapaças e descobriu t·m sua cauda um
via o cosmo imeiro; dos três grandes
corn seus longos tesouros ela realeza
b rac,:os, abarcava os imperial japonesa: a
céus. O céu de lnd ra espada K usRnagui
era Svarga, onde vivia ("ceifadora de grama"),
com Inclrani, sua que hoje se encontra
csposa, r dl, onde só no templo Atsuta,
de tempos em tempos peno de Nagóia. A
se ausen-tava para tendê-ncia de Susanoo
combater os ao descontrole, à
demôn ios. violência e à destruição
tanto reflete a natureza
das tempestades
qurullo representa. em
Este entalhe do templo de
Hoysalesvara mostra l ndra
termos pskológiros, a
matando o demônio- interiorizaçào da perda
serpente Vrítra. da "mãe'', lzanani.
DIVI!'\DADES DO MA R, DO CÉU E DO COSMO 297

Amaterasu Dijun
lU J apão lU China 6 Dijun, T i C hün

A d eusa-sol é a divindade prote tora A divindade chinesa do cé u oriental,


dojapào e a ancestral da família DiJun, tinha por consort e Xi H e,
imperia l. Desde os primórd ios, é qu e ora é enunciada como uma deusa-
V('ncrada co mo a Grande D ivindade Sol, ora como w11 deus-Sol, mas sob
Brilhante do Céu em seu santu ário, ambos os gêneros cruza o céu em seu
uma csuutura simples de pal ha, rar-ro como divind ade portadora ela luz.
renovada a cada 20 anos, em lse, Segundo uma vers~o do mito, os filhos
na ilha H onshu. Uma p rece a do casal eram dez sóis que se revezavam
Amaterasu, propiciatória de colheitas, no céu, a té o d ia em que brilharam
afirma: "Assim como lU abençoas te juntos, provocando calor e seca
o reino do soberano c o tornaste insuportáveis. O imperador Yao emào
lo ngo e duradouro, assim eu também pediu a intervenção de Dijun, qur deu
curvo meu pescoço, tal um mergu lhão ao herói c a rqueiro Yi um poderoso
em busca ele p eixe, para adorar-te arco com que pudesse alvejar nove sóis c
c venerar-te." restaurar o c~ ma à normal idade (p 17•1).
Di.Jun também era
famoso por sua lamília,
da qual constam vários
heróis cultt arais que, em
suas viagens pelo mundo,
descobriram muitos países
c difundiram as artes
da civilização.

Amaterasu é incitada pelos


deuses a sair da caverna na qual
se escondera após se zangar com
Susanoo (p.z96) , deixando o
mundo nas trevas.

Inti Coyol~auhqui
lU Astecas, Mfxim

O drus-sol lnti era o progen itor míl.ico Quando a deusa-mãe Coallicu<'


da dinastia real inca . Seu templo em cngravidou de Huitzilopochtli, sua
Cuzco ostentava um d isco solar de ciumenta fi lha Coyolxauhqui c seus
ouro maciço, com formato dr rosto 4{)0 filhos (as cstTda~) mataram-na.
humano, circundado por raios. lnti Huitzilopocht1i vingou-a:
era servido por sacerdotes c por esquartejou a irmã, n~a
"virge ns do sol" juradas à ca beça, lançada ao céu,
cas údade, c suas su mo tornou-se a lua, que é
sacerdotisas eram ''morta" pelo sol lndos
co nsiderada~ esposas do sol, os meses.
embora a co nsorte divina de
As práticas sacrificiais aste<as
lnti fosse a deusa-lua reproduzem o esquartejamento
Mamaquilla (Mama Ki lya). de Coyoalxauhqui.
QUEt-.'f f: QUEM NA MITOLOGIA

Jtl '-'giw Amigo 6 I lort•makhl·t, Rá-1-l orakht)'


Havia dois deuses com o nome Flórus. O primeiro, Hórus
Cego, foi morto por Sct, deus do caos. Renru,cido como o
filho dt' Ísi~; e Osíris, Hórus pa~ou a ser identificado com
os fa.ra6s e a ser venerado de várias foxmas.

O céu c Hórus era concebido como CULTO


um falcão de asas abertas, cujos olhos
eram o sol c a lua. Em sua primeira O templo de Hórus em Edfu é um dos vários
consagrados a esse deus. • Sacerdotes
encarnação, H órus, o mais velho, ou vestiam-se como Hórus, para purificar ritualis·
Hón•s Cego, rece beu tal nome por não ticamente o caminho de um sarcófago •
enxergar em noite sem luar. Onome do faraó - o serekh
Hórus Cego era um deus - era escrito de forma o
representar um falcão.
guerreiro, armado com uma
espada e pa rticularmente
perigoso durante os pci'Íodos de
cegueir a . Foi a primeira vílima do
ciúme do deus do caos, St.:t, seu
irmão, que o atacou c o matou,
auxiliado pelas sete estrelas da
constelação da Ursa Ma ior.

O DEUS RENASClDO
Hórus renasceu como filho de Ísis e
O síris, e os se us mitos, t~m sua maioria,
rela tam a lo nga batalha que travou
com Set pelo trono, após este último
ter matado O síris. N um confromo, Sct
arrancou um olho de H órus (a lua),
mas a deusa H ato r (que nas narrativas
é tanto sua no iva qua nto sua irmã)
curou-o. Esse olho, werfjal, restaurado
tor nou-se o mais comum dos
amuletos egípcios (acima), símbolo de
integiidade, proteção, força e
perfeição. No Egito Antigo,
acreditava-se que o faraó
detivesse poder divÍJlO
para governar e fosse a
e ncar nac,:<lo viva do
de us H órus.

A parte branca da coroa


de Hórus representa o
Alto Egito e a parte
vermelha, o Baixo Egito.
DIVINDAD ES DO MAR, DO C I~U E DO COSMO 299

Thoth N ut
J:tl Egito A11tigo 6 ~jt'huty !U E'lito Antigo

Deus da escrita, do conhecimento, do Nut era a deusa egípcia do céu, uma


tempo e das lll.ses da lua, era representa- dos Enéadas, os nove grandes deuses.
do como um babuíno ou wna Seu corpo era a abóbada celeste e suas
íbis, e achava-se que a curva mãos e pés, os quatro pontos cardeais
do bico desse pássaro da awología clássica do Egito Antigo:
assemelhava-se tan to à lua o horizonte orírnta l, ondr o sol nascr;
crescente q uamo a uma o horizonte ocidental, onde se põe; c
pena de junco. Estima-se os pontos mais a lto c mais baixo do
que q uatro milhões ck íbis céu. Todas as noites, ut engolia o
sagradas tenham sido deus-sol Rá, dando-o à luz na manhã
sacrificadas, mum ificada~ seguinte.
c colocadas em jarros de Nut era fiUw de Shu, deus do ar
cerâmica, durantr rit uais seco, r de Tcliwt, deusa do ar úmido;
no templo de Thod1, em unida a seu irmão Gt>b, a Terra,
Sakk<l.ra, e mais alguns gero u as estrelas. Shu suspendeu Nut
milhões em Tuna al-Gebel. no ar para separá-la do corpo de
Os antigos egípcios Gcb, ato que definiu a criação, por
acreditavam que. após a separar o céu da Terra. Nut tam bém
morte, Thoth elencava foi mãe de Osírís. Hórus Cego, Set,
suas ações em voz alta. no Ísis e Néllis. Os laraós acreditavam
Salão Subtrrrâneo das que, ao morre r, entravam no corpo de
D uas Verdades, a fim de Nut, do qual mais tardc seriam
que os 45 de uses-j uízes rcssuscit.ados. O plátano dr Nut
pudessem dNcrm inar o (árvore miwlógica) ficava em
dcsüno eterno do morto. Hcliópolis.
Thoth (à dlr.) e sua consorte,
Nehmetaway, eram cultuados na
cidade de Khmun. no Egito.

Mujaji R angi
fll Lo\•edus, ) ,frira do Sul 6 Modj:tdji 6 T.angi, l .,ngh, I 'lgi, At<'.a

Mujaji é o tí tulo da rainha da chuva Na mitolo1,ria maori, Rangi, o deus-céu,


dos lovedus, encarnação viva da deusa faz parte do casal primordial, e estava
da chuva e das nuvens, Khifidolamaru- preso em c'tr.rna cópula rom Papa, a
a-D;:ya. A rainha da r h uva. líder de deusa-Terra. O casal foi separado pelo
uma dinastia matriarcal de 400 anos, crescimento de seu filho Tane, o deus
controla as chuvas e o ciclo das da noresta, que os empurrou, apartado-
estações. Quando morre, a seca é os e permitindo que a luz chegasse ao
certa; por isso, ela ckve rscolhcr com mundo. As lágrimas de amor do casal
muito cuidado o momento de sua separado ainda se mesclam à névoa e
morte por suicídio. Mt\iaji V, porém, ao orvaU1o. Na Polinésia Orient.-'1.1, Rangi
recusou-se a cometer suicídio e morreu era conhecido wmo Atea (espaço sem
natw·almente, o que abriu t l rn novo li mi Lcs). Um nome manri mais longo,
p•·ecedente. Hanui~Rangi. significa "pai dos ventos".
300 QUEM É QUEM NA MITOLOGIA

DIVINDADES
DOS ANIMAIS
E DA CAÇA

D e pássaros c criaturas poderosas que vagam nas florestas


até enorm es serpentes que habitam o espaço subterrâneo,
nas mitologias de todos os conúnentes há divindades
animais, e também deuses que trazem sorte aos caçadores -
uma demonstração do quanto as sociedades humanas
dependem do mundo natural.

PODERES ANIMAL$
[QJ
cuses-a nim.ais ge ralmente se
originam de religiões Os animais m anlêm um forte vín-
an imi~tas. Essas crenças culo rom muitas fo rças natu -
fazem parte de divrrsas socied ades rais. O antigo deus egípcio
tradicionais. mesmo que do do lilo, Scbek, tomava
muito d istante> uma~ das a forma de um crocodilo.
outras. Sc!,rtmdo elas, cada Em muitos mitos dos
obj<•tn e se r, de um seixo a um nat ivos amed ca nos,
besouro, é um elo vital na cadeia o r<"lâmpago, o trovão, o
ela vida, e que uma coisa pode se fogo e a chuva são
transformru· em outra. Todos os controlados por aves;
animais tf:m urn espí rito, c deuses- o deus criador de a lgumas
animais abu ndam, especial mente tribos norte-americanas é o
na África, Occania c América. corvo. Histórias sobre mis
djvindades explicam fenô-
RELAÇÕES ESPECWS menos imprevisíveis, e seus
Mui tos deu~cs mamêm um cultos ajudarn a proteger o
relacionamento especial povo ele p erigos.
mm divindades <mimais e Ártemls, a deusa grega da caça,
criaturas mágica~. Vários também era a protetora divina de VÍNCUlOS AN fMA l S
rodas as crias animais.
deuses nórdico~ c hindus Po1· vezes é a raça o que
possuíam poderosos corcéis que os aproxima ho mens de d f' uses-animais,
carTegavam pelo cosmo, c um dos e então a prC'sa inspira pro!illldo
personagens mai~ populares da respeito; por outras, um a nimal é o
mitologia h indu é: o macaco Hanum an, vínculo entre um povo C' se us
cttios poderes c sagacjdadc a uxiliara m ances trais, com pondo uma relação
Rama c Sitá no Rrmugmw. central f'm sua mitologia.
DlVl NDAD ES DOS ANIMA IS E DA CAÇA 301

Ártemis Diana
lU Grécia Antiga 6 Di ana IRomal J:'l Romit Antiga 6 Arterhi~ i Grécia)

Árternis, filha de Zeus e Leto, e irmã Diana era a deusa virginal da caça e da
gêmea de Apolo, era a deusa grega da luz, e seu nome p rovém do mesmo
caça. j ovem e virgem, é em geral radical que díes, "dia". Na Itália Antiga,
representada po rtando seu arco, arma associada aos bosques, D iana possuía
usada tanw em caçadas quanto contra uma Aoresta sagrada em Arícia, no
seus inimigos - que são muitos, dada a Lácio, mas tornou-se wna divin dade
sua natureza vingativa. P.ex., quan do mais significativa j unto aos romanos,
Níobe, mãe de muitos filhos. insultou que lhe e1igiram imponentes templos
Lew, que tinha só dois, Ártemis e por todo o [mpéri o e na própria Roma.
Apolo vingaram a mãe matando todos Muitos de seus festivais eram vedados a
os filhos de Níobe a Aechadas. O homens, e conta-se q ue seus cães de
caçador Órion foi caça estraçalhavam
outra vitima de todo aquele que
Ártemis. pois tentara tentasse enn·ar em
violentar a de usa ou seu santuário durante
uma de suas ninfas. os ritos. O veado era
Culluada p rincipal- o animal consagrado
mente em locais a Diana, e em Cápua,
distantes c montan ho- num dos seus san-
sos da Grécia, a tuários, viveu por
rebelde Ártemis nem mu itos anos uma corça;
semp re era vingativa e os habitantes diziam
violenta: era também a que, enquanto o animal
protetora de crianças e:: estivesse vivo, a cidade
crias indefesas. estaria a salvo.

Diana também era a deusa pro·


1etora dos escravos. que podiam
pedir asilo em seu templo.

Cernunnos Lah ar
J:'l Celtas J:'l Sumérios, Mesopo tâmia

Cermmnos, que significa literalmente Ames de Lah<n; os deuses não tinham


"o cornudo", lin ha corpo de homem roupas nem alimento, e assim Enlil, o
e chifres de veado, c era um dos deus sumério. criou Lahar como o deus
principais deuses da Europa celta. do gado e das ovelhas, a fim de que hou-
Deus dos animais, das frutas e do vesse couro c leite, e criou Ashnam, sua
milho, suas várias at ribtLiÇÕC$ sugerem irmã, como a deusa do grão. 1o início,
que ele era ve nerado como fonte os dois ir mãos trabalharam em harmo-
de fertilidade e como provedor de nia, mas quando se embriagaram, discu-
ali mentos. Sua surpreendente figura tiram tão violentamente que os deuses
tem sido encontrada em muitos locais tiveram de imcrvit: Não se conh ece.
da Europa. contudo, o final de suas histórias.
3 02 QU E,'vi t QUEM NA MIT OLOG IA

Prajapati
lU Índia c!l Bmhmarishi, Brahmaputra
Pf<\japati, "Senhor dos animais" ou "Senhor da criação", f: o
termo que em geral desig11a o deus criador hindu. É mais um
epíteto que o nome de uma divi ndade específica, c também se
aplica a L1dra, Brahma c os "na~ridos