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A relação (à custa de outrem)

Entre o enriquecimento e o empobrecimento deve existir uma relação, sendo que esta é expressa na
letra da lei através do termo “à custa de outrem” (cf. art.º 473.º, n.º 1, CC). A jurisprudência alemã fez,
da correspondente fórmula do BGB, uma aplicação progressivamente mais lata, sendo que, no limite, o
requisito “à custa de outrem” acabaria, mesmo, por ser dispensável:
i. No enriquecimento por prestação porque, por definição, a prestação tem um autor, sendo
dispensável acrescentar que é “à custa dele”;
ii. No enriquecimento por intervenção porque, estando em jogo um (mero) conteúdo da
destinação, as vantagens do enriquecido não teriam de ocorrer “à custa” de ninguém.
Menezes Leitão sufraga, de certo modo, esta orientação na Doutrina portuguesa, quando considera que
o empobrecimento nada mais seria do que a imputação do enriquecimento à esfera de outra pessoa.

Por “à custa de” entende-se uma relação entre os futuros credores da obrigação de restituir o
enriquecimento e o devedor da mesma. Menezes Cordeiro entende que esta fórmula é imprescindível,
sob pena de se soçobrar no completo irrealismo.

A imediação

A lei emprega, a propósito dos requisitos do enriquecimento sem causa, a expressão “enriquecer à
custa de outrem” (art.º 473.º, n.º 1, CC). Com base nesta locução, põe-se o tema de saber se a relação
entre o enriquecido e o empobrecido deve ser directa, ou se ela pode ser indirecta, no sentido de o
enriquecimento, em vez de “transitar” deste para aquele, poder ainda passar pela esfera de terceiros.
Tradicionalmente, a doutrina, designadamente Antunes Varela, entendia que “à custa de” implicava
uma ideia de imediação: o enriquecimento teria de passar, directamente, do empobrecido para o
enriquecido. Contra manifestou-se doutrina posterior, defendendo que se não se exige uma efectiva
deslocação patrimonial, qual será o sentido da imediação. No entanto, Larenz e Canaris entendem que a
imediação mantém o seu sentido, visando exprimir