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A ilicitude imperfeita

No Direito romano, a existência de uma tipicidade dos delitos deixava na sombra a específica função
da responsabilidade civil, inexistindo qualquer possível confusão com as condictiones, que
apresentavam, também elas, elementos próprios.
A recondução justinianeia do enriquecimento sem causa ao universo quase contratual deixou na
sombra especiais ligações suas com o universo dos malefícios. Não obstante e descendo das
abstracções, impõe-se o seguinte: se o Direito determina a restituição do enriquecimento é porque, à
partida, pretende que ele não tenha lugar. Promover “enriquecimentos” será contrário ao sistema: donde
o dever de restituir.
A aproximação do enriquecimento sem causa à ideia de contrariedade ao Direito – portanto, à ilicitude
– foi assumida por Fritz Schulz. A restituição seria, no fundo, uma sanção – quer pela aceitação ilícita
de uma prestação ou de uma coisa (no enriquecimento por prestação), quer pela intromissão indevida
na esfera alheia (no enriquecimento por intervenção). A matéria teria de ser ordenada não em função do
enriquecimento em si, mas sim da ilícita actuação do agente.
O Direito pretende que não haja enriquecimentos sem causa, fazendo-o por constatar que os
instrumentos mais directos, como o contrato e os delitos, não são suficientes para promover, na
periferia, os valores do sistema. Mas fá-lo, antes de mais, por entender que as situações de
enriquecimento sem causa não devem ter lugar.
Os objectivos do sistema levam a que não se requeiram, aqui, os requisitos subjectivos que animaram a
responsabilidade civil, mantendo-se, todavia, a ideia básica: ideal seria que, num momento prévio, as
pessoas se coibissem de promover enriquecimentos à custa alheia.

Menezes Cordeiro considera haver espaço no enriquecimento sem causa para a aplicação da ideia de
ilicitude imperfeita, tratando-se de um especial esquema pelo qual o Direito procura aperfeiçoar as
condutas humanas sem imediatas utilizações de normas de imposição e de proibição. O enriquecimento
funciona quando (e porque) num momento prévio, foi inobservada uma regra objectiva que o vedava.
Esta dimensão fica reforçada com a aplicação recente do enriquecimento sem causa na tutela dos bens
de personalidade.
É uma ilicitude imperfeita porque se encontra despida de elementos subjectivos, enquanto que a
ilicitude verdadeira pressupõe um acto humano contrário a uma regra jurídica.