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O Código Civil prevê diversas hipóteses de restituição do enriquecimento ou, em geral, de restituição,

mau grado a interposição de um negócio jurídico concluído com um terceiro ou o facto de ser um
terceiro o beneficiário do enriquecimento:
1. Perante a nulidade de um negócio ou a sua anulação, deve ser restituído tudo quanto houver
sido prestado; todavia, tendo alguma das partes alienado gratuitamente coisa que devesse
restituir e não podendo tornar-se efectiva, contra o alienante, a restituição do valor dela, fica o
aderente gratuito obrigado em lugar daquele, mas só na medida do seu enriquecimento (art.º
289.º, n.º 2, CC);
2. O que cumpriu obrigação alheia na convicção de estar obrigado para com o devedor a cumpri-la
não tem a repetição contra o credor mas apenas o direito de exigir do devedor exonerado aquilo
com que este injustamente se locupletou (art.º 478.º, CC);
3. Caso o enriquecido aliene gratuitamente o que devesse restituir, fica o adquirente gratuito
obrigado em lugar dele, mas só na medida do seu próprio enriquecimento (art.º 481.º, n. 1, CC);
4. O terceiro adquirente de boa fé de bens que, mercê da procedência de uma acção pauliana,
devessem ser restituídos ao credor, só responde na medida do seu enriquecimento (art.º 616.º,
n.º 3, CC).
Tem-se, aqui, duas situações diferentes:
i. A das alienações gratuitas do enriquecimento, a qual se pode somar o caso da pauliana que,
na prática, irá dar no mesmo: a lei desvaloriza o interesse do adquirente gratuito, conectando
a sua vantagem ao empobrecido;
ii. A do pagamento, de boa fé, de dívida de terceiro, o que origina uma relação trilateral que o
legislador português, na tradição da repetição do indevido, valorou a partir do credor.
Quando se refere a imediação do enriquecimento, tem-se em vista, de modo mais ou menos implícito,
uma ideia empírica do fenómeno: haveria como que uma massa patrimonial em trânsito, de uma esfera
para outra. A assim ser, é óbvio que a doutrina da imediação está ultrapassada. No entanto, a ideia
deverá ser outra: existe, sim, uma única valoração que permite formular um só juízo de enriquecimento
entre duas pessoas, ainda que, de permeio, possam surgir outras esferas. Uma cadeia de juízos
desembocaria já num fenómeno diverso: vários enriquecimentos sucessivos, todos com os seus sujeitos,
os seus objectos e as suas medidas, que só por coincidência se equivaleriam.
Um certo enriquecimento pressupõe uma precisa relação jurídica (logicamente) entre dois sujeitos,
sendo esta determinada por um juízo de valor que, por tradição, se exprime pela locução “à custa de”.
No terreno, esse juízo de valor terá por base a ideia fecunda do conteúdo da destinação, sendo que,
perante os bens em jogo, perguntar-se-á a quem o ordenamento os destina. Se se encontrarem em esfera
diversa, o juízo de enriquecimento é directo, sendo o seu papel o de identificar a relação.

A falta de causa

Exige-se, para o enriquecimento, que este tenha ocorrido sem causa justificativa (art.º 473.º, n.º 1, CC),
tratando-se se um conceito particularmente controvertido, no qual as dificuldades se prendem com dois
pontos:
i. O de fazer (re)intervir, a propósito da falta de causa, toda a problemática ligada à unidade
ou diversidade do enriquecimento e, ainda, a problemática do “à custa de”;
ii. A de (re)colocar, aqui, o controverso tema da causa do contrato, com alguns alargamentos.

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