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A contraposição básica, dentro de um enriquecimento lato sensu, é entre:

i. A repetição do indevido;
ii. O enriquecimento stricto sensu.
O enriquecimento lato sensu corresponde ao n.º 1 do art.º 473.º, exprimindo-se num princípio geral. A
repetição do indevido equivale à condictio indebiti, autonomizada pelo Código Napoleão, sendo
disciplinada pelos artigos 476.º a 478.º, tendo um regime distinto do do enriquecimento.

Dentro do enriquecimento stricto sensu, pode-se distinguir o enriquecimento por prestação e por
intervenção. Na tradição portuguesa, a distinção operava entre enriquecimento por transferência e
enriquecimento por intervenção. No entanto, Menezes Cordeiro prefere a terminologia alemã.
O enriquecimento por prestação abrange as hipóteses presentes no n.º 2 do art.º 473.º, dobradas pela
referência do art.º 475.º, estando em jogo prestações.
O enriquecimento por intervenção abrange as situações previstas em que exista uma actuação do
enriquecido ou de terceiro sobre património alheio.

No enriquecimento por prestação, é possível distinguir algumas velhas condictiones (art.º 473.º, n.º 2,
CC):
i. O indevidamente recebido (condictio indebiti), salvo a repetição do indevido que constitui
caso à parte;
ii. O recebido por virtude de causa que deixou de existir (condictio ob causam finitam);
iii. O recebido em vista de um efeito que não se verificou (condictio ob rem ou causa data
causa non secuta).

Funções e figuras afins – repetição e restituição

A determinação das funções do enriquecimento sem causa constitui uma tarefa jurídico-científica
inevitável. Dada a estrutura teleológica das proposições normativas, o conhecimento funcional de cada
instituto é relevante para a fixação do regime e para a tomada de decisões jurídicas.
As funções do enriquecimento devem ter como base uma (certa) antecipação dos regimes implicados.
No Direito português é inultrapassável a contraposição entre a repetição do indevido e o
enriquecimento stricto sensu.
A repetição do indevido visa, apenas, a restituição de uma determinada prestação. O enriquecimento
stricto sensu visa, imediatamente, uma função mais subtil: a de restituição do enriquecimento. Não se
trata de reverter uma prestação, a qual pode nem existir, sempre que esteja em causa uma intervenção:
apenas se visa o enriquecimento, i.e., a projecção, no património do beneficiário, do produto da
prestação em causa. Tem-se regras mais complexas e um resultado distinto: a função de restituição.

Contrato e propriedade

A função restitutivas pode assumir uma de duas funções:


1. Uma função correctora de movimentos de bens;
2. Uma função protectora dos próprios bens.
A função correctora de movimentos de bens torna-se clara no enriquecimento por prestação, sendo que
esta não ocorre em confluência do sistema, devendo ser corrigida. Está em causa um prolongamento do
contrato e do seu pensamento básico.
A função protectora dos bens manifesta-se no enriquecimento por intervenção. A intervenção em si
representa, prima facie, uma ingerência numa esfera alheia, sem a adequada cobertura. Os seus efeitos
não terão sido nocivos ou totalmente nocivos. Cabe ao enriquecimento ordenar a matéria, mas sem
incentivar às intervenções. O Direito aplicável a cada situação permitirá fixar o nível de equilíbrio
propugnado pelo ordenamento. Desta forma, tem-se um complemento do direito de propriedade,
mesmo que tomado em sentido amplo.

Assim, o enriquecimento sem causa assume a dupla função de defesa recuada do contrado
(enriquecimento por prestação) e da propriedade (enriquecimento por intervenção): os dois grandes
pilares da ordem civil. A propriedade deve, aqui, entender-se em sentido amplo, de modo a abranger as
situações relativas a bens imateriais e, até, de personalidade.
As valorações envolvidas num e noutro caso constituem úteis auxiliares de interpretação e de
aplicação.