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NOTA

A medicina é uma ciência em constante evolução. À medida que novas pesqui-


sas e a expe­riência clínica ampliam o nosso conhecimento, são necessárias mo-
dificações no tratamento e na farmacoterapia. O organizador/coautores desta
obra consultaram as fontes consideradas confiáveis, num esforço para oferecer
informações completas e, geralmente, de acordo com os padrões aceitos à épo-
ca da publicação. Entretanto, tendo em vista a possibilidade de falha humana
ou de alterações nas ciên­cias médicas, os leitores devem confirmar estas infor-
mações com outras fontes. Por exemplo, e em particular, os leitores são acon-
selhados a conferir a bula de qualquer medicamento que pretendam adminis-
trar, para se certificar de que a informação contida neste livro está correta e de
que não hou­ve alteração na dose recomendada nem nas contraindicações para
o seu uso. Essa recomendação é particularmente importante em relação a me-
dicamentos novos ou raramente usados.

M294 Manual de perícias psiquiátricas [recurso eletrônico] / Organizadores,


Daniel Martins de Barros, Eduardo Henrique Teixeira. – Porto Alegre :
Artmed, 2015.

Editado também como livro impresso em 2015.


ISBN 978-85-8271-143-9

1. Psiquiatria. I. Barros, Daniel Martins de. II. Teixeira, Eduardo


Henrique.

CDU 616.89(035)

Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094


Versão impressa
desta obra: 2015

2015
© Artmed Editora Ltda., 2015

Gerente editorial
Letícia Bispo de Lima

Colaboraram nesta edição:


Coordenadora editorial
Cláudia Bittencourt
Capa
Maurício Pamplona
Preparação do original
Antonio Augusto da Roza
Leitura final
Leonardo Maliszewski da Rosa
Editoração eletrônica
Armazém Digital Editoração Eletrônica – Roberto Carlos Moreira Vieira

Reservados todos os direitos de publicação à


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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
AUTORES

DANIEL MARTINS DE BARROS


Psiquiatra. Bacharel em Filosofia. Doutor em Ciências pela Universidade de São Pau-
lo (USP). Professor colaborador do Departamento e do Instituto de Psiquiatria do
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-
-HCFMUSP). Coordenador médico do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria
Forense e Psicologia Jurídica (NUFOR) do IPq-HCFMUSP.

EDUARDO HENRIQUE TEIXEIRA


Psiquiatra Forense. Especialista em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina de Ri-
beirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Especialista em Medicina
Legal – Perícias Médicas – pela FM-USP. Mestre e Doutor em Psiquiatria pela Facul-
dade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp).
Membro efetivo do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia
Jurídica (NUFOR) do IPq-HCFMUSP.  Médico perito da Secretaria de Saúde – Regio-
nal de Campinas/SP (DIR XII). Chefe do Departamento e professor de Psiquiatria
da Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas
(FCM-PUC-Campinas). Responsável pelo módulo prático de Psiquiatria Forense do
Programa de Residência Médica (3º ano) da PUC-Campinas e Unicamp.

GUSTAVO NOGUEIRA-LIMA
Psiquiatra da Infância e Adolescência. Membro do Programa de Atendimento a
Transtornos Afetivos do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (PRATA/
SEPIA) do IPq-HCFMUSP.

LUCIANO VIANELLI RIBEIRO


Psiquiatra. Psiquiatra Forense reconhecido pela Associação Brasileira de Psiquiatria/
Associação Médica Brasileira (ABP/AMB). Psiquiatra Forense do Tribunal Regional
Federal do Estado de São Paulo. Pós-graduando com MBA Executivo em Saúde na
Fundação Getúlio Vargas (FGV).

LUIZ FERNANDO LONGUIM PEGORARO


Psicólogo. Extensão em Psicologia Forense pela PUC-Campinas. Especialista em Saú-
de Mental pela Unicamp e em Neuropsicologia pela USP. Mestre e Doutor em Ciên-
cias pela Unicamp. Psicólogo do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da
Unicamp. Professor de Neuropsicologia na Universidade São Francisco (USF).
vi Autores

MARIA HELENA CAMPOS DE CARVALHO


Advogada. Mestre em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade de São
Paulo (PUC-SP). Professora titular nas áreas de Direito Civil e Direito do Consumidor
na PUC-Campinas. Secretária-geral da Câmara Brasileira de Mediação e Arbitragem.
Membro efetivo da Comissão de Mediação e Arbitragem da Ordem dos Advogados
do Brasil/São Paulo (OAB/SP). Membro da Comissão de Mediação do Instituto Bra-
sileiro de Direito de Família (IBDFam).

MIGUEL ANGELO BOARATI


Psiquiatra da Infância e Adolescência. Coordenador do Ambulatório de Transtornos
Afetivos (PRATA) e do Hospital-Dia Infantil (HDI) do Serviço de Psiquiatria da Infân-
cia e Adolescência (SEPIA) do IPq-HCFMUSP.
DEDICATÓRIA

Para Danielle, Arthur e Bárbara, que, ao entrar em minha vida (nessa ordem),
mostraram que o afeto pode se multiplicar indefinidamente.
Daniel Martins de Barros

Dedico este livro à minha eterna namorada, Sandra Regina Campos Teixeira,
que sempre me apoiou e esteve ao meu lado em todos os momentos, bons e ruins,
nestes últimos vinte e cinco anos. Fico quase sem palavras... Quer casar comigo?
Eduardo Henrique Teixeira
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APRESENTAÇÃO

A literatura científica e os tratados e manuais sobre psiquiatria forense no Brasil ne-


cessitam de grande investimento intelectual, científico e crítico, posto ser essa área
de extrema importância teórica e prática e de marcada relevância social e humana.
Nesse sentido, esta obra, organizada por dois psiquiatras com excelente formação e
experiência em psiquiatria forense, o Dr. Eduardo Henrique Teixeira e o Dr. Daniel
Martins de Barros, vem sanar uma lacuna para os profissionais tanto da saúde como
da área jurídica em nosso país.
O professor Eduardo Henrique Teixeira percorreu, em sua trajetória profissio-
nal, científica e intelectual, um caminho árduo, mas fértil e proveitoso. Realizou sua
formação como cientista e pesquisador na Pós-graduação da Faculdade de Ciências
Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp) e, atualmente como professor da
Faculdade de Ciências Médicas da PUC-Campinas, coordena o ensino de psiquiatria
forense aos residentes destas duas universidades em atividades práticas no fórum de
Campinas/SP. Tive o privilégio de orientá-lo e de compartilhar sua dedicação e se-
riedade no trabalho de pesquisa sobre delírios e atos violentos no mestrado e sobre
intervenções terapêuticas no comportamento agressivo grave em crianças e adoles-
centes no doutorado. Paralelamente, realizou cuidadosa formação em psiquiatria fo-
rense, principalmente junto ao Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria da Univer-
sidade de São Paulo (USP), o NUFOR, onde teve início a parceria entre os dois orga-
nizadores desta obra.
O professor Daniel Martins de Barros tem igualmente um currículo excelente
nessa área, orientando residentes de psiquiatria na área de psiquiatria forense e coor-
denando o programa de residência em psiquiatria forense do Instituto de Psiquiatria
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O Dr. Barros desen-
volveu sua carreira junto ao NUFOR, tendo participado de sua fundação junto com
o professor Eduardo Henrique Teixeira. Tem dedicado suas pesquisas à avaliação de
alterações de personalidade em indivíduos que cometeram delinquências, bem como
a investigar as respostas do sistema nervoso autonômico nesse grupo de indivíduos,
com base em vários testes detalhados. Sua experiência em psiquiatria forense, tanto
prática como no ensino, é notável.
O livro que o leitor tem em mãos apresenta modelos de perícias em psiquiatria
forense que são o resultado concreto da experiência em trabalho pericial dos auto-
res. Ou seja, trata-se de perícias realizadas no contexto da vida real, na forma como
ocorrem no trabalho rotineiro de profissionais competentes em instituições forenses.
Embora esta obra seja principalmente a expressão do trabalho de dois médicos,
eles buscaram dar a ela um caráter multidisciplinar e puderam contar com a colabo-
ração do psicólogo, do advogado e do especialista em psiquiatria da infância.
x Apresentação

Finalmente, há um capítulo sobre casos especiais, em que foram abordados te-


mas relativamente incomuns, mas de grande relevância. Embora exiguamente trata-
dos em obras desse tipo, foram contempladas condições como a síndrome de Mun-
chausen, o exibicionismo e situações relacionadas à condição de transgênero.
Dessa forma, Eduardo e Daniel conceberam um livro voltado para aqueles pro-
fissionais que desejam aprender de fato como é o ofício e a ciência da psiquiatria
forense. Creio que esta obra será de grande utilidade para aqueles que desejam se-
riamente penetrar nesse campo tão delicado, crítico e importante, que aproxima de
modo incitante medicina e direito, psiquiatria e justiça.

Paulo Dalgalarrondo
Doutor em Medicina pela Universidade de Heidelberg,
Alemanha, e Doutor em Antropologia Social pela
Universidade de Campinas (Unicamp).
Professor Titular de Psicopatologia pela Unicamp.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO......................................................................................... 13

2 HISTÓRIA............................................................................................... 17

3 PERÍCIAS................................................................................................ 21
Modelo de laudo.......................................................................................... 24

4 PERITOS................................................................................................. 29
Denominações do perito.............................................................................. 29
Impedimentos, suspeições e motivo legítimo............................................... 30
Assistência técnica....................................................................................... 33

5 PERÍCIA EM DIREITO CÍVEL................................................................... 37


Capacidade mental...................................................................................... 37
Ação de interdição....................................................................................... 40
Ação de verificação de validade de negócio jurídico.................................... 47
Ação de verificação de capacidade testamentária........................................ 51
Ação de anulação de casamento.................................................................. 54
Guarda de menores ou destituição do poder familiar.................................. 58

6 PERÍCIA EM DIREITO PENAL................................................................. 69


Tipos de exames.......................................................................................... 74
Exame de insanidade mental....................................................................... 74
Exame de verificação de dependência toxicológica...................................... 89
Exame de verificação de cessação de periculosidade................................... 97

7 PERÍCIA PREVIDENCIÁRIA E TRABALHISTA........................................ 105


Perícias previdenciárias............................................................................. 105
Perícias trabalhistas................................................................................... 113
12 Sumário

8 AVALIAÇÃO PERICIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES..................... 127


Fases do crescimento e desenvolvimento................................................... 128
A avaliação clínica de crianças e adolescentes........................................... 129
Principais transtornos mentais de início na infância e na adolescência..... 132
Abordagens terapêuticas............................................................................ 139

9 PSICOLOGIA JURÍDICA E PSICOTESTES.............................................. 141


Avaliação psicológica forense e psiquiatria................................................ 143
Avaliação da inteligência........................................................................... 143
Avaliação da personalidade....................................................................... 144
Avaliação neuropsicológica........................................................................ 145

10 HONORÁRIOS....................................................................................... 147

11 CASOS ESPECIAIS................................................................................. 149


Regulamentação de visita e importância de exames complementares....... 149
Transexualismo e autorização para cirurgia de mudança de sexo.............. 152
Exibicionismo e avaliação de sanidade mental.......................................... 156
Interdição e anulação de ato jurídico de adoção........................................ 159
Infanticídio e psicose puerperal: hipótese descartada................................ 164
Síndrome de Munchausen ou doença orgânica: caso inconclusivo............ 167

REFERÊNCIAS ................................................................................................. 175


Leituras sugeridas................................................................................................. 183
capítulo

INTRODUÇÃO
Eduardo Henrique Teixeira
1
Daniel Martins de Barros

A
s perícias em psiquiatria são cada vez mais comuns – seja em proces-
sos criminais, cíveis, trabalhistas ou de família, a sociedade está cada
vez mais atenta às interações entre saúde mental e justiça.
A área de atuação específica da psiquiatria que se volta para tais ques-
tões é a psiquiatria forense, ramo da medicina legal, que, acompanhando o
ritmo da ciência médica, vem se modernizando junto com as tendências e os
avanços da psiquiatria geral. Como acontece com todas as especialidades, o
acúmulo de informações em psiquiatria exige do profissional que pretende
atuar na interface com a justiça não só a atualização em sua área, mas tam-
bém o conhecimento das leis e de suas reformas. Isso ocorre porque a função
do perito é exatamente aproximar a linguagem médica da linguagem jurídi-
ca, possibilitando o esclarecimento das questões legais decorrentes de esta-
dos mentais alterados ou relacionadas a eles.
Termos utilizados nas leis, como enfermidade mental, lucidez tempo-
rária, ébrios habituais, psicopatia, sociopatia, embriaguez patológica, idiotia,
desenvolvimento mental incompleto e prodigalidade, entre outros, podem ser
compreendidos e considerados de formas diferentes, dependendo da forma-
ção e experiência do profissional, sobretudo para aquele que não é da área
da saúde mental. Por isso, é mais necessário entender o que cada um des-
ses termos quer dizer no contexto individual das perícias do que tentar uma
simples transposição de significados.
O profissional que atua como perito na área de psiquiatria utiliza seu
conhecimento para fornecer subsídios que esclareçam a ligação de um trans-
torno psiquiátrico com um litígio. Além disso, também é sua função identi-
ficar aspectos psicopatológicos no réu, na vítima ou em outros que estejam
envolvidos em uma determinada ação legal.
Embora o campo de atuação do psiquiatra forense seja amplo, este é
seu papel principal: estabelecer o intercâmbio entre o conhecimento médico
e o jurídico. Tal comunicação se dá mais comumente pela elaboração de lau-
dos periciais a pedido da justiça, via de regra – mas não apenas – de um juiz.
14 Barros & Teixeira (orgs.)

“Quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou cientí-


fico, o juiz será assistido por perito”.1
Contudo, outras atividades são comuns no campo de atuação desse es-
pecialista: o trabalho como assistente técnico de uma das partes em litígio,
a consultoria na área e a interconsulta em questões bioéticas são exemplos
bastante frequentes. O psiquiatra forense poderá ser contratado por uma
empresa, um advogado, um paciente ou até mesmo por outro profissional
da área da saúde mental que desconheça as questões legais ou não tenha
experiência no assunto. Na função de assistente técnico, terá que elaborar
quesitos e escrever pareceres, entre outras atividades, as quais serão descri-
tas em capítulo específico.
As áreas do Direito criminal, cível, familiar e sucessões, trabalhista e
previdenciária são as que mais necessitam de concurso para perito em psi-
quiatria. Com o crescente interesse pela especialidade, já há colegas que es-
colhem, entre as áreas do Direito, aquela com a qual têm mais afinidade.
Portanto, alguns desses peritos trabalham somente com ações judiciais tra-
balhistas; outros, apenas com ações cíveis.
Outra opção para esse profissional é trabalhar em instituições forenses,
como casas de custódia (atual denominação para o manicômio judiciário) e
centros de detenção, e também na área de ensino ou pesquisa, que pode in-
cluir diversos campos, como comportamento agressivo, perfil da vítima, psi-
copatia, entre outros.2 Para o Direito, essas áreas denominam-se, mais espe-
cificamente, vitimologia, medicina legal, psiquiatria ou psicologia forense,
criminologia, entre outras designações encontradas nos currículos das facul-
dades de Direito do País.
Por fim, o trabalho do psiquiatra perito difere da rotina e do ambien-
te de um consultório médico, incluindo obrigações como estudar os longos
processos judiciais, cumprir prazos legais, redigir petições, etc. Nem sempre
os honorários são compatíveis com todos os esforços necessários e com o
tempo gasto para redigir um laudo bem detalhado, com considerações ade-
quadas e elucidativas. Ademais, a necessidade de conhecer detalhadamente
a legislação, que muitas vezes encontra-se inserida em diversos documentos
legais, é um desafio em nosso País.3
Do ponto de vista histórico, a psiquiatria forense ficou desassistida e foi
pouco estudada durante décadas no Brasil. Só recentemente novos livros fo-
ram publicados, permitindo modernização e maior interesse no assunto. Um
hiato geracional se formou na produção acadêmica concernente aos temas
da área, relegando a especialidade diversas vezes à inadequação da prática
sem teoria. Como será descrito neste livro, esse trabalho complexo, exaus-
tivo e, por vezes, desafiador necessita da confluência da teoria e da prática
para atingir bons resultados.
Nesta obra serão apresentados laudos para exemplificar casos periciais.
Nesses modelos, por questões éticas, todos os elementos de identificação e
Manual de perícias psiquiátricas 15

detalhes da história processual ou pessoal relativos à perícia foram altera-


dos. Os nomes, dados pessoais e familiares são fictícios, não havendo, por-
tanto, qualquer possibilidade de identificar alguém que tenha sido subme-
tido a uma perícia médica por um dos autores. O objetivo desses laudos é
oferecer ao leitor um elemento a mais para conhecer a atividade prática da
psiquiatria forense, tendo contato com exemplos de perícias mais frequen-
temente realizadas.
Também com o intuito de fornecer exemplos para a prática diária, no
último capítulo do livro são apresentadas perícias psiquiátricas de casos ra-
ros e especiais, as quais poderão ser usadas como embasamento para con-
clusões em assuntos mais específicos e restritos, posto que a psiquiatria fo-
rense carece muito desse tipo de material.
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capítulo

HISTÓRIA
Eduardo Henrique Teixeira
2
Daniel Martins de Barros

difícil precisar quando surgiu institucionalmente a psiquiatria foren-


É se, pois desde que as leis passaram a ser formalizadas, antes mesmo
do surgimento formal da especialidade, as doenças mentais já eram
um desafio para a justiça. Na Roma Antiga, por exemplo, já se utilizava o
termo alienação mental no contexto legal, e já se podia determinar a inim-
putabilidade para os casos denominados como furiosus, mentecaptus, insa-
nus, dementia, etc. A Lei das Doze Tábuas (460 a.C.), criada pelo senado ro-
mano, já fazia referência à incapacidade dos indivíduos com doença mental
e providenciava tutores para os insanos.4 Por isso, quando surge do ponto
de vista institucional, a psiquiatria imediatamente encampa o desafio de li-
dar com o doente mental criminoso, dando origem à psiquiatria forense.5
O médico italiano Paul Zachias (1624) é considerado o fundador da
psicopatologia forense, que, com seu livro Questiones Médico Legales, fez as
primeiras referências aos transtornos mentais e sua relação com a lei. Con-
tudo, nessa época ainda não se tinha uma definição clara dessas condições,
como ocorre atualmente.
Cesare Lombroso (1835-1909), também italiano, foi bastante influen-
te na área. Aplicando as teorias da frenologia de Gall e da degenerescência
genética de Morel, publicou, em 1876, O homem delinquente. Propôs que as
doenças mentais eram fruto da degeneração biológica da espécie e do acú-
mulo de defeitos hereditários, que não só explicariam a loucura, mas seriam
também visíveis externamente em malformações como estrabismo e assime-
tria facial.5,6 Essas características que podiam ser identificadas pela aferição
das medidas do crânio eram natas, ou seja, o indivíduo, segundo a escola
positivista, já nascia com a tendência para ser criminoso.7 A teoria do crimi-
noso nato frutificou no direito durante um curto tempo na Europa. Contu-
do, apesar de descartada pelas evidências, encontra, ainda hoje, sobretudo
em nosso meio, defensores pontuais. A teoria perdeu importância também
porque novos trabalhos comprovaram a importância do ambiente e do meio
social na conduta do indivíduo. Embora também seja inquestionável a im-
portância da genética no comportamento humano, as teorias deterministas
já não se sustentam diante das evidências.
18 Barros & Teixeira (orgs.)

Em relação ao Brasil, Raimundo Nina Rodrigues, professor de medi-


cina legal da Faculdade de Medicina da Bahia (1862-1906), é considerado
por muitos o fundador da psiquiatria forense no País.8 Com os resultados de
seus estudos, propôs uma reformulação no conceito de responsabilidade pe-
nal, sugeriu a reforma dos exames médico-legais e foi pioneiro da assistên-
cia médico-legal a doentes mentais. Defendia a aplicação da perícia psiqui-
átrica não apenas nos manicômios, mas também nos tribunais. Foi seguido
por Afrânio Peixoto, também professor de medicina legal da Faculdade de
Medicina da Bahia, que, para outros autores, seria o real fundador da psi-
quiatria forense no Brasil.9 Deu sequência aos estudos de Nina Rodrigues e,
em seu livro Medicina legal, de 1911, abordou a relação da epilepsia com a
delinquên­cia e fez críticas às ideias de Lombroso.
Um episódio anterior, mas também relevante, foi a interdição de D. Ma-
ria I de Portugal, em 1792, que, além de sua importância histórica, talvez
tenha sido o primeiro ato psiquiátrico forense do Brasil. Ocorreu median-
te laudo elaborado por 16 médicos, quando ela já estava vivendo em nosso
país. Nessa época, a medicina no Brasil seguia os rigores europeus, e o laudo
que comprovou sua incapacidade foi elaborado por médicos vindos, em sua
maioria, da Europa para esse fim.10
O primeiro manicômio judiciário (atualmente chamado de casa de cus-
tódia e de tratamento psiquiátrico) brasileiro foi construído na cidade do
Rio de Janeiro em 1921. Denominado Hospital Nacional dos Alienados, fi-
cou sob a direção do psiquiatra Afrânio Peixoto por quase duas décadas. Ou-
tro foi criado em seguida, no Estado do Rio Grande do Sul, no ano de 1925.9
Essas instituições oferecem tratamento àquelas pessoas que cometeram um
crime e foram consideradas inimputáveis em decorrência de uma enfermi-
dade mental.11 Apesar de oferecerem tratamento psiquiátrico, seu regime é
prisional e, atualmente, são coordenadas pela Secretaria de Segurança Pú-
blica de cada Estado.
Essas duas unidades citadas influenciaram de forma significativa a psi-
quiatria forense atual, pois, nesses Estados, houve um desenvolvimento par-
ticular da especialidade em seu viés criminal, sob influência dos professores
Miguel Chalub e Talvane de Moraes, no Rio de Janeiro, e José Taborda, no
Rio Grande do Sul.
Até chegar nossa época, a especialidade passou por décadas de apa-
rente inércia. Isso se deu sobretudo em decorrência de um regime político
não democrático, no qual a psiquiatria forense poderia ter sua credibilidade
questionada, e de um padrão assistencial caracterizado por macro-hospitais,
abandono e pouco investimento em pesquisa.
A atual modernização da área é, ao mesmo tempo, influenciada e de-
corrente da evolução da psiquiatria, da psicologia e das leis. Termos utiliza-
dos por muitas décadas, como loucura moral, imbecilidade, idiotia, loucos de
Manual de perícias psiquiátricas 19

todo gênero, personalidade epileptoide, entre outros foram sendo ajustados e


corrigidos dentro das novas normas e padronizações.11,12
A época atual é marcada pela evolução dos tratamentos e pelo surgi-
mento dos códigos de classificação das doenças – os principais manuais de
classificação diagnóstica em psiquiatria, o DSM e a CID, estão em fase de
transição neste começo de século, e a importância de se considerar a auto-
nomia do paciente como base para os tratamentos e outras abordagens foi
muito ressaltada nos últimos anos.14
Sendo assim, a psiquiatria forense moderna conta com ferramentas
que permitem uma classificação uniforme do doente mental. Ainda é limita-
da de recursos objetivos, mas novos avanços chegam diariamente. Embora
não se vislumbre um dia em que a psiquiatria perca por completo seu caráter
subjetivo, a evolução histórica desse campo da medicina legal mostra que
as perícias psiquiátricas sempre podem evoluir paralelamente ao desenvol-
vimento da especialidade.
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capítulo

PERÍCIAS
Eduardo Henrique Teixeira
3
Daniel Martins de Barros
Maria Helena Campos de Carvalho

N
o Direito, existe a utilização crescente de expertises para orientação e
esclarecimento do juiz; isso acontece porque as áreas de conhecimen-
to sofrem expansão constante, tornando impensável exigir de uma
única pessoa conhecimento razoável em todas as áreas do saber humano.
Considerando os diferentes tipos de provas – confissão, documentos,
testemunhas, presunção e perícia, conforme dispõe o Artigo 212 do Código
Civil15 – a perícia pode ser considerada um dos mais técnicos elementos de
prova existentes, dado seu teor científico e a clareza que, idealmente, dela
promana, sob a forma de laudo.
Cumpre esclarecer que caberá exclusivamente ao juiz a valoração das
provas produzidas, elegendo, entre elas, aquelas que repute essenciais para
o deslinde da questão, aplicando, desta forma, o princípio do livre conven-
cimento do juiz, garantido na legislação pátria. Isso significa que o juiz não
precisa necessariamente concordar com a conclusão do laudo e segui-la,
como expresso na lei: “o juiz não ficará adstrito ao laudo, podendo aceitá-lo
ou rejeitá-lo, no todo ou em parte”, segundo Artigo 182 do Código de Proces-
so Penal;16 e “o juiz não está adstrito ao laudo pericial, podendo formar a sua
convicção com outros elementos ou fatos provados nos autos”, segundo Artigo
436 do Código de Processo Civil.1
Todos os meios de prova aduzidos possuem vantagens e desvantagens,
razão pela qual caberá ao juiz a devida avaliação das evidências. A confissão
nada mais é do que a assunção como verdade do que é imputado pela outra
parte. Há o reconhecimento espontâneo de fatos e/ou situações explanadas
pela parte na demanda.
A prova documental, por sua vez, é uma das mais importantes, pois
atesta, em princípio, a veracidade dos fatos. Na área do Direito, os docu-
mentos podem ser públicos ou particulares; alguns essenciais, outros mera-
mente informativos. Fato é que muitas demandas necessitam de prova docu-
mental, sob pena de serem julgadas improcedentes.
Pode-se citar como exemplo o processo de divórcio, que exige, entre
seus documentos, a certidão de casamento. Só pode haver o divórcio de pes-
22 Barros & Teixeira (orgs.)

soa casada, dentro dos requisitos prefigurados pelo Direito Pátrio. Muitas
vezes, a pessoa que, ao consultar um advogado, pretende propor ação de di-
vórcio é casada apenas no religioso, sem efeitos civis. Logo, aos olhos da lei,
essa pessoa é solteira, não havendo que se falar em divórcio.
Assim como nesse caso, existem muitos outros em que um documento
é pré-condição para a aceitação da ação proposta. Imagine-se uma ação con-
tra um plano de saúde, sem o documento representativo do contrato com o
respectivo plano. Um absurdo, claro. Vemos, pois, que os documentos po-
dem ser essenciais para que o próprio pleito encontre sua razão de ser.
Já em outros casos, ele pode servir para atestar uma afirmação de fato
realizada na ação. Daí sua relevância, sobretudo nas áreas do Direito Civil
e Trabalhista.
Já a prova testemunhal é considerada a mais frágil, uma vez que todo
homem está sujeito a falhas ou equívocos em suas lembranças ou percepção.
A pessoa indagada só pode falar do que viu ou ouviu. Não cabe qualquer juí-
zo valorativo dos fatos. Caso uma testemunha minta, responderá penalmen-
te pelo fato. Em suma, em alguns casos é uma forma de prova imprescindí-
vel, posto que, embora existam relações de parentesco, certamente algumas
situações só serão conhecidas de amigos ou parentes.
A testemunha não pode ter interesse na causa, nem ser amigo ou ini-
migo íntimo da parte. Já na esfera penal, a situação da prova testemunhal é
diferenciada, pois pode significar a diferença entre a condenação ou não de
um réu. Portanto, não devem os meios de prova sofrer generalização quanto
a sua pertinência, uma vez que cada caso tem sua peculiaridade e cada área
do Direito trabalha com hipóteses e situações distintas, que requerem meios
de prova igualmente diferentes.
Presunção é a ilação de um fato conhecido pelo outro. No Direito, tais
presunções dividem-se em absolutas – às quais não cabe prova em contrário
– e relativas. Elas têm maior aplicação no campo processual, isto é, no enca-
minhamento do processo.
A prova pericial é a prova técnica por excelência. Na maioria das vezes,
ela é elaborada sob a forma de laudo, no qual o perito nomeado pelo juiz
transcreve a perícia que realizou e responde de maneira detalhada aos que-
sitos (perguntas) que lhe foram destinados. São muitas as formas de perí-
cia, da contábil à médica, passando pela engenharia, computação, fotografia
e tantas outras. Evidentemente, ela deve ser realizada, de preferência, por
profissionais versados no assunto. A seguir, é transcrito o disposto no Códi-
go de Processo Civil:1

Art. 145 – Quando a prova do fato depender de conhecimento técnico


ou científico, o juiz será assistido por perito, segundo o disposto no
art. 421.
Manual de perícias psiquiátricas 23

§ 1º – Os peritos serão escolhidos entre profissionais de nível universi-


tário, devidamente inscritos no órgão de classe competente,
§ 2º – Os peritos comprovarão sua especialidade na matéria sobre
que deverão opinar, mediante certidão do órgão profissional em que
estiverem inscritos.
§ 3º – Nas localidades onde não houver profissionais qualificados que
preencham os requisitos dos parágrafos anteriores, a indicação dos
peritos será de livre escolha do juiz.

A perícia médica será elaborada por um profissional conhecedor do


assunto e com formação na área. Não condiz um médico ortopedista fazer
uma perícia psiquiátrica ou o contrário.
O termo “perito” (do latim per, perios) significa percorrer, mover-se
através, denotando a ideia de um profissional que “sabe por experiência,
que tem prática”,17 conotação também presente na denominação expert, fre-
quentemente utilizada. O perito não poderá ser influenciado por questões
externas, considerando as regras legais e éticas da atuação pericial e deixan-
do suas conclusões isentas de influências.
A perícia psiquiátrica é constituída por uma avaliação muito seme-
lhante àquela realizada na rotina da psiquiatria clínica. Contudo, a relação
com o examinando, o objetivo do exame e seu foco serão outros. A neces-
sidade de esclarecer uma lide faz o médico perito ter uma visão muito par-
ticular sobre o sujeito à sua frente, muito diferente da relação assistencial
do consultório. Em primeiro lugar, a pessoa submetida ao exame pericial
normalmente não o faz de livre escolha, o que já altera de modo significa-
tivo o setting. Mais do que isso, a questão do sigilo é bastante diferente –
enquanto ele é, em princípio, absoluto no contexto clínico, salvo as exce-
ções de praxe, na perícia ele é apenas parcial. O periciando sabe que seu
parecer será acessado por terceiros, no relatório do perito. Desnecessário
dizer que essa particularidade é suficiente para interferir bastante na co-
municação entre os envolvidos. Por fim, e mais importante, deve-se ter em
mente que os processos judiciais só existem naquelas situações em que há
desacordo, e o médico perito entra no meio desse litígio. Isso significa que
o periciando pode estar mentindo, diferentemente do atendimento clínico,
no qual, em teoria, prevalece a verdade por parte do paciente – já que seu
interesse em geral é ser curado.
Cabe a ressalva, contudo, de que o sigilo é parcial, mas não ausente. O pe-
rito pode e deve falar nos documentos tudo o que for pertinente ao caso. No en-
tanto, deve se manifestar apenas nas formas da lei – em laudos ou depoimentos
– e apenas sobre o que for relevante para o caso. Excedendo-se nas respostas ao
que lhe foi perguntado, o perito pode responder por quebra de sigilo.
A perícia pode ser transversal, retrospectiva ou indireta, dependo do
tipo de ação e do momento que está sendo realizada. Na perícia transver-
24 Barros & Teixeira (orgs.)

sal, os questionamentos da autoridade requisitante serão relativos ao estado


atual (no momento da perícia), a princípio não importando quando o qua-
dro do paciente teve início ou o seu prognóstico. Pode ocorrer em diversas
demandas, como, por exemplo, nas avaliações de pacientes internados e
momentaneamente incapacitados ou naqueles episódios de superveniência
de transtorno mental, quando uma doença aparece após a ocorrência do cri-
me. Neste caso, é necessária avaliação em relação à capacidade do pacien-
te de ser interrogado, sentenciado ou até mesmo de cumprir a condenação,
além de avaliar a necessidade­de tratamento específico.
No caso da perícia retrospectiva, o que importa na avaliação é como
o periciando estava em um momento anterior, como ocorre em perícias cri-
minais, de anulação de ato jurídico ou em algumas demandas trabalhistas.
Muitas vezes, a perícia psiquiátrica é realizada vários meses após o perician-
do ter cometido o delito, realizado o ato jurídico ou ter sido demitido, de
modo que o sujeito pode não apresentar mais os sintomas pertinentes à lide.
Neste caso, todos os detalhes da época deverão ser avaliados pelo perito, em
entrevistas, análise de prontuários ou outros documentos.
A perícia indireta é aquela realizada sem contato com o periciando, ba-
seada apenas em documentos apresentados e relatos de pessoas envolvidas.
Pode se referir a algum desaparecido ou falecido, devendo a perícia esclare-
cer como estavam suas capacidades mentais anteriormente. Trata-se de uma
perícia pouco frequente, a qual em geral envolve anulação de ato jurídico
ou testamento.

MODELO DE LAUDO
O laudo psiquiátrico segue a mesma estrutura básica de uma perícia médi-
co-legal. O perito pode acrescentar pequenas mudanças e criar seu próprio
estilo, porém mantendo sempre a estrutura mínima. O esqueleto clássico de
um laudo se constitui de:

1. Preâmbulo
2. Quesitos
3. Dados da perícia
4. Dados dos autos/processuais
5. História/Anamnese
6. Descrição do exame físico
7. Descrição do exame do estado mental
8. Exames complementares
9. Discussão
10. Conclusão
11. Resposta aos quesitos
Manual de perícias psiquiátricas 25

1. Preâmbulo: neste item o perito se dirige à autoridade requisitan-


te, apresentando o laudo devidamente identificado com número
do processo e nome do periciando. Aqui, o perito poderá expor
de forma concisa suas qualificações e titulações. Isso facilitará ao
leitor do laudo avaliar a dimensão da precisão e a qualidade das
considerações psiquiátrico-forenses. A identificação e a qualifica-
ção do periciando podem fazer parte do preâmbulo, dos dados da
perícia ou mesmo constar em um tópico à parte.
2. Quesitos: a transcrição dos quesitos (questões) logo no início do
laudo permite uma visão geral dos itens que o perito abordará
durante sua avaliação, já que deverá responder a todas essas per-
guntas. Embora não seja obrigatório transcrevê-las, isso facilita
muito a leitura e compreensão do que virá a seguir. Na prática,
como são muitos quesitos, estes costumam ser transcritos no final
do laudo, junto com suas respectivas respostas.
3. Dados da perícia: aqui são registrados todos os detalhes de como
transcorreu a avaliação e a elaboração do laudo, isto é, onde,
como e em que condições foi feita a avaliação. É fundamental
pedir sempre documentos de identificação do periciando e de
quem esteve presente na perícia e anotá-los, bem como registrar
intercorrências e documentos médicos importantes para o laudo.
Todos esses detalhes são de muita importância e devem receber a
devida atenção e cuidado.
Por exemplo, no caso de um paciente em um estado demencial
avançado, que não oferece mais nenhum tipo de comunicação,
será difícil comprovar sua identidade e se realmente trata-se da
pessoa que deverá ser examinada. Alguém querendo interditar um
parente com idade avançada, mas não demenciado, a fim de obter
vantagens financeiras, poderá trazer outra pessoa e apresentá-la no
lugar do periciado. Pode parecer um exagero, mas as pessoas são
criativas quando o assunto é dinheiro. Se necessário, o perician-
do poderá ser fotografado caso ele próprio ou seu representante
autorizem.
4. Dados dos autos processuais: aqui serão descritos motivo da
ação, alegações dos advogados e documentos médicos relevantes
juntados nos autos.
5. História/anamnese: neste item são descritos todos os detalhes
do histórico de vida e do transtorno psiquiátrico do periciando,
antecedentes pessoais e familiares. Deverão constar suas habili-
dades ou limitações sociais, pessoais e laborais, doenças clínicas e
hospitalizações. O objetivo é mostrar os sinais que possam indicar
o diagnóstico, a gravidade do quadro e a repercussão na vida do
periciando. Em determinadas ações, será fundamental indicar o
26 Barros & Teixeira (orgs.)

início do quadro e quando a patologia passou a interferir nas ha-


bilidades do periciando.
6. Descrição do exame físico: descrição do exame físico, conside-
rando sobretudo aqueles itens que serão importantes para suas
considerações finais – aspectos sindrômicos, alterações neuroló-
gicas, etc.
7. Descrição do exame do estado mental (psíquico): deverão ser
descritas de forma minuciosa todas as funções mentais, alteradas
ou não. Embora não se possa prescindir do uso de termos técnicos,
deve-se escrever, dentro do possível, com uma linguagem que torne
o exame compreensível para profissionais que não sejam da área
da saúde mental.
8. Exames complementares: transcrevem-se os resultados dos exa-
mes prévios ou daqueles solicitados após a primeira avaliação caso
o perito julgue-os necessários para finalizar o laudo ou dar mais
consistência às suas considerações. Podem ser pedidos exames ra-
diológicos (tomografia computadorizada, ressonância magnética),
eletrencefalogramas ou, ainda, testes psicológicos, de preferência
realizados por um psicólogo forense e que tenha experiência com
testagem.
9. Discussão: este é considerado o item mais importante do laudo.
Aqui serão expostos, com detalhes, os diagnósticos clínico e médico-
-legal, respectivamente, o transtorno psiquiátrico e a condição do
periciando perante a lei. Deverá ser detalhado como foi feito o
diagnóstico clínico e como foi estabelecida a relação de nexo da
patologia com o aspecto legal (entendimento e determinação).
Deve ser fixada de forma clara a metodologia utilizada na avalia-
ção, pois ela poderá ser questionada pelos assistentes técnicos que
venham a contestá-la ou validá-la.
10. Conclusão: este item deverá ser objetivo e conciso, basicamente
resumindo os dados relatados na seção anterior (discussão).
11. Resposta aos quesitos: embora não seja obrigatório, é bastante
elegante transcrever aqui, mais uma vez, as perguntas que foram
feitas, seguidas das respostas do perito. Isso facilita bastante a
leitura e, consequentemente, a compreensão do documento. Ideal­
mente, todas as respostas devem ser oferecidas da forma mais
objetiva possível, como “sim”, “não”, “total”, “parcial”, etc. Para
maiores detalhes, deve-se remeter ao trecho do laudo que contem-
pla a questão. Nenhum quesito pode ser deixado sem resposta.

Para uma perícia criminal, o item “versão do periciando” deverá ser


acrescentado e poderá ser incluído após os dados dos autos (denúncia). Tra-
ta-se de um dado importante, que pode ajudar a estabelecer a relação do
Manual de perícias psiquiátricas 27

ato criminoso com as alterações psicopatológicas do caso em questão. É cla-


ro que a versão do réu será influenciada por sua condição atual e pelo seu
defensor, mas, mesmo assim, poderá, em muitos casos, ajudar no diagnós-
tico médico-legal.
O ideal de um laudo pericial bem elaborado é que todos os itens expos-
tos sejam coerentes e que sua conclusão seja consequência natural do traba-
lho. Ou seja, o texto deve ser redigido de forma cuidadosa, coerente e clara.
Com o tempo e a experiência adquirida, o perito poderá até se anteci-
par a possíveis indagações ao seu laudo e já oferecer todos os detalhes ne-
cessários, evitando grandes questionamentos ou até mesmo uma eventual
impugnação de seu laudo. Isso com certeza fará seu trabalho ser reconheci-
do e recomendado.
Esta página foi deixada em branco intencionalmente.
capítulo

PERITOS
Eduardo Henrique Teixeira
4
Daniel Martins de Barros

O
médico que atua em perícias poderá receber três denominações: peri-
to oficial, perito nomeado (ou louvado) ou perito assistente técnico,
como será descrito a seguir.

DENOMINAÇÕES DO PERITO
O perito oficial é o profissional investido de cargo ou função pública para
rea­lização de perícias, como aqueles que atuam no Instituto Médico Legal,
no INSS ou em outros órgãos periciais públicos. O perito louvado ou nomea­
do é aquele indicado por uma autoridade em uma ação judicial, podendo
ser um profissional de sua confiança ou proveniente de um rol de peritos in-
dicados por alguma entidade ou instituição ligada à psiquiatria. Apesar das
diferentes vinculações, segundo o Artigo 275 do Código de Processo Penal,16
o perito, ainda quando não oficial, estará sujeito à disciplina judiciária.
O assistente técnico é o profissional contratado por uma das partes en-
volvidas na ação judicial. Sua função é supervisionar e acompanhar o tra-
balho do perito oficial ou nomeado, podendo, ao fim do processo, realizar
um parecer ao laudo oficial. Mesmo visando o interesse de seu cliente, o as-
sistente técnico também tem, idealmente, compromisso com a veracidade,
pois seu trabalho deve ser baseado nas regras legais e éticas da atuação mé-
dica e pericial.
Segundo os Artigos 181 e 182 do Código Penal (CP), o juiz não ficará
restrito ao laudo, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo, no todo ou em parte. Tam-
bém poderá ordenar que se proceda novo exame, por outros peritos, caso
julgue conveniente.18
Nas perícias psiquiátricas, até três psiquiatras poderão atuar na avalia-
ção de um caso, sendo um nomeado pelo juiz e dois indicados pelas partes,
os quais atuarão como assistentes técnicos, nos termos do Artigo 421 do Có-
digo de Processo Civil (CPC).1 Enquanto o primeiro apresentará suas con-
clusões na forma de um laudo médico, os últimos as apresentarão na forma
de um parecer. Embora a figura do assistente técnico não seja prevista no
30 Barros & Teixeira (orgs.)

Código Penal, por analogia ao Código Civil o réu também pode contratar um
profissional para auxiliá-lo, bem como a promotoria pode solicitar o concur-
so de auxiliares da acusação.
Quando um médico for nomeado perito em uma ação criminal, ele fi-
cará obrigado a cumprir seu dever, conforme transcrito a seguir. No entanto,
poderá apresentar justificativas declinando do encargo, as quais poderão ou
não ser aceitas pela autoridade.

Artigo 277 do CP – O perito nomeado pela autoridade será obrigado


a aceitar o encargo, sob pena de multa de cem a quinhentos mil réis,
salvo escusa atendível.18

IMPEDIMENTOS, SUSPEIÇÕES E MOTIVO LEGÍTIMO


Os motivos que poderão ser usados como justificativa para declinar da no-
meação poderão ser classificados como impedimento, suspeição ou motivo
legítimo.
O impedimento poderá ser declarado pelo próprio profissional ou por
alguma das partes envolvidas na ação judicial. O perito nomeado deverá re-
cusar o encargo alegando impedimento se já tiver prestado depoimento ou
opinado na ação (Artigo 279 do CP),18 for parte ou tiver relação de paren-
tesco com alguma das partes na ação (Artigos 134 e 138 do CPC).1 Essas si-
tuações podem afetar a imparcialidade da ação pericial, devendo ser men-
cionadas pelo próprio perito para que outro profissional seja nomeado em
seu lugar.
Quando nos voltamos para a esfera civil, novos elementos devem ser
considerados. Em caso de falta de conhecimento na área, também poderá ser
alegado impedimento. Segundo o Artigo 145 do CPC,1 “[...] o juiz será assis-
tido por perito quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou
científico”. A princípio, todo médico pode ter conhecimento na área, mas, ain-
da assim, poderá alegar que já não está mais familiarizado com determinados
assuntos, como no caso daqueles profissionais atuando em uma área muito es-
pecífica, como psicoterapia, psiquiatria geriátrica ou psiquiatria infantil. Pode
também justificar a falta de conhecimento em psiquiatria forense, a qual re-
quer conhecimentos nas áreas jurídica e de medicina legal. Tais justificativas
nem sempre são aceitas pela Justiça, sobretudo na ausência de outros peritos.
No caso de suspeição, o perito deverá recusar a tarefa, e sua justifica-
tiva também será a possibilidade de seu trabalho pericial ter “sua imparcia-
lidade suspeita”. No caso de não se declarar suspeito, o profissional poderá
ser assim declarado por qualquer uma das partes.
Segundo o Artigo 135 do CPC,1 as possibilidades de suspeição estão re-
lacionadas à proximidade ou vinculação que o perito possa ter com uma das
Manual de perícias psiquiátricas 31

partes, sendo então afetada a necessária neutralidade para que exerça o seu
trabalho. Grau de parentesco, relações financeiras trabalhistas, entre outras
vinculações, ou já ter orientado uma das partes são as condições mais co-
muns para se alegar suspeição.
A seguir, é transcrito um trecho do Artigo 135 do CPC,1 redigido em re-
lação à atuação dos magistrados. Deverão ser consideradas as mesmas con-
dições para o trabalho pericial, descritas no Artigo 138 do CPC.1

“Artigo 135 do CPC – Reputa-se fundada a suspeição de parcialidade


do juiz, quando:
I – amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer das partes;
II – alguma das partes for credora ou devedora do juiz, de seu cônjuge
ou de parentes destes, em linha reta ou na colateral até o terceiro grau;
III – herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de alguma das
partes;
IV – receber dádivas antes ou depois de iniciado o processo; aconselhar
alguma das partes acerca do objeto da causa, ou subministrar meios
para atender às despesas do litígio;
V – interessado no julgamento da causa em favor de uma das partes.

Artigo 138 do CPC – Aplicam-se também os motivos de impedimento


e de suspeição: ...
I – ao órgão do Ministério Público, quando não for parte, e, sendo parte,
nos casos previstos em I ao IV do Art. 135;
II – ao serventuário de justiça;
III – ao perito (Redação dada pela Lei 8.455/92);
III – ao intérprete.

Ainda em relação à questão da suspeição, quando alegados orientação


ou aconselhamento prévio às partes envolvidas, o perito destituído poderá
ainda atuar como assistente técnico, segundo Lei nº 8.455/9219 (transcri-
ta a seguir). A publicação dessa lei alterou dispositivos do CPC referentes a
prova pericial e atuação do perito em ações cíveis, como impedimento e sus-
peição dos assistentes técnicos; nomeação, escusa, recusa e substituição do
perito; e entrega do laudo pericial.

Artigo 422 da Lei 8.455/92 – O perito cumprirá escrupulosamente o


encargo que lhe foi cometido, independentemente de termo de compro-
misso. Os assistentes técnicos são de confiança da parte, não sujeitos a
impedimento ou suspeição.19

Com relação à ultima condição para recusa, denominada motivo legíti-


mo, segundo o Artigo 146 do CPC1 (transcrito a seguir), as hipóteses usadas
como justificativa podem ser as mais diversas e poderão ser aceitas ou não
32 Barros & Teixeira (orgs.)

pela autoridade requisitante. As definições de motivo legítimo são aquelas de


foro íntimo, como falta de tempo, ter uma viagem programada, estar doente
ou ter um familiar enfermo.20,21

Artigo 146 do CPC – O perito tem o dever de cumprir o ofício, no prazo


que lhe assina a lei, empregando toda a sua diligência; pode, todavia,
escusar-se do encargo alegando motivo legítimo.

Outra condição que pode ser usada como motivo legítimo é a insuficiên­
cia de honorários periciais, considerando toda a demanda necessária para
realizar a tarefa. Trata-se de um item delicado e complexo, mas justificável,
considerando o teor do Artigo 98 do Código de Ética Médica:22

Artigo 98 do CEM – Deixar de atuar com absoluta isenção quando de-


signado para servir como perito ou como auditor, bem como ultrapassar
os limites de suas atribuições e de sua competência.
Parágrafo único. O médico tem direito a justa remuneração pela rea-
lização do exame pericial.

Caso o perito deixe de cumprir sua obrigação ou prazos sem apresen-


tar justificativas, poderá ser multado e notificado por meio da entidade pro-
fissional que o representa, segundo o Artigo 424 da Lei 8.455/92,19 como
transcrito a seguir.

Artigo 424 da Lei 8.455/92 – O perito pode ser substituído quando:


I – ...
II – sem motivo legítimo, deixar de cumprir o encargo no prazo que
lhe foi assinado.
Parágrafo único. No caso previsto no inciso II, o juiz comunicará a
ocorrência à corporação profissional respectiva, podendo, ainda, impor
multa ao perito, fixada tendo em vista o valor da causa e o possível
prejuízo decorrente do atraso no processo.

É importante lembrar que, no caso dos médicos, constitui-se em infra-


ção ética explícita atuar como perito em lide envolvendo paciente ou ex-pa-
ciente, já que a isenção, nessa situação, também fica prejudicada. Além dis-
so, a resolução do Conselho Regional de Medicina de São Paulo23 determina,
acertadamente, que:

§ 1º – É vedado ao médico do trabalho de empresa/instituição atuar


como perito ou assistente técnico em processo judicial ou procedimento
administrativo envolvendo empregado/funcionário ou ex-empregado/
funcionário da mesma empresa.
§ 2º – É vedado ao médico, qualquer que seja a especialidade, atuar
como perito em face de servidores da mesma instituição e mesmo local
Manual de perícias psiquiátricas 33

de trabalho, exceto se compuser corpo de peritos exclusivos para esta


função ou na função de assistente técnico.

ASSISTÊNCIA TÉCNICA
O trabalho do assistente técnico segue, em parte, as mesmas regras da atua-
ção pericial anteriormente descrita, mas com algumas particularidades. Tra-
ta-se de uma tarefa bastante relevante, quase sempre mais rentável ao psi-
quiatra forense – por se tratar de um contrato particular, não sujeito a arbi-
tramento –, mas ainda pouco requisitada em nosso País.
Sua importância se dá principalmente em ações cíveis e trabalhistas,
mas também poderá ocorrer em lides criminais, previdenciárias, etc. Este
profissional tem como função: supervisionar os trabalhos periciais; discor-
dar ou concordar; elaborar os quesitos (perguntas) que serão respondidos
pelo perito judicial (com o objetivo de orientar a perícia) e esclarecer todas
as dúvidas; e criticar ou complementar o laudo do perito oficial, por meio
de seu parecer, cabendo ao juiz, pelo princípio do livre convencimento, ana-
lisar seus argumentos e decidir se fundamenta sua decisão nesse parecer ou
não.24
Em uma ação, o juiz nomeará seu perito judicial e dará prazo para que
as partes envolvidas contratem seus próprios peritos – os assistentes técni-
cos –, os quais serão apresentados nos autos dentro do prazo previsto na lei
e determinado pelo magistrado. A contratação de um assistente técnico não
é uma obrigação, mas um direito das partes.
Esse profissional poderá acompanhar a perícia médica judicial, apre-
sentando, em seguida, suas considerações na forma de um parecer. Seus
compromissos e prazos são diferentes se comparados aos do perito judicial,
mas devem ser cumpridos com rigor, como descrito a seguir, segundo a Lei
8.455/92.19

Artigo 433 – O perito apresentará o laudo em cartório, no prazo fixa-


do pelo juiz, pelo menos vinte dias antes da audiência de instrução e
julgamento.
Parágrafo único: Os assistentes técnicos oferecerão seus pareceres no
prazo comum de dez dias após a apresentação do laudo, independen-
temente de intimação.

A questão dos 10 dias de prazo poderá ser um problema, pois difi-


cilmente o assistente técnico será informado da data da juntada do laudo
(apresentação do laudo no respectivo cartório). Em acórdão do 2º Tribunal
de Alçada Cível do Estado de São Paulo, foi determinado que esse prazo se
dará a partir da intimação às partes da juntada do laudo do perito. Com isso,
34 Barros & Teixeira (orgs.)

o advogado será informado da data da juntada, mas, na prática, o assistente


técnico deverá ficar atento aos prazos para que elabore com tranquilidade
seu parecer. A situação pode ficar ainda mais complicada nas varas do tra-
balho, já que aí a regra pede que os laudos dos peritos e assistentes técnicos
sejam entregues na mesma data. É fundamental, portanto, um diálogo cor-
dial entre peritos e assistentes para que tal norma seja cumprida.
Nesse sentido, é fundamental que o assistente técnico ofereça um aces-
so fácil ao perito e ao advogado. Por meio dele, esse perito terá acesso ao
processo e aos documentos apresentados, além de se informar sobre prazos,
condição dos trabalhos e teor do laudo judicial.
Ainda em relação ao trabalho desse profissional, uma dúvida frequen-
te é se o médico de um paciente poderá ou não atuar como assistente técni-
co. Consideremos o teor do Artigo 93 do Código de Ética Médica (CEM):22

Auditoria e perícia médica:


É vedado ao médico:
[...]
Artigo 93 – Ser perito ou auditor do próprio paciente, de pessoa de
sua família ou de qualquer outra com a qual tenha relações capazes de
influir em seu trabalho ou de empresa em que atue ou tenha atuado.

Se incluirmos na denominação perito a figura do assistente técnico, tal


atuação é vedada ao médico e incorrerá em infração ética. Essa é a intepre-
tação do CREMESP na já citada Resolução 126/05,23 que considera infração
ética o “[...] médico ser perito ou assistente técnico em processo judicial ou
procedimento administrativo, envolvendo seu paciente ou ex-paciente”. No
entanto, na reforma do CPC ocorrida em 1992,19 o termo assistente técnico
foi criado na intenção de diferenciá-lo do perito judicial, já que o compro-
misso desse profissional não é com a autoridade, mas com as partes. Assim,
basicamente, ele não está sujeito aos mesmos impedimentos e suspeições a
que o perito judicial está submetido.
Por isso, alguns defendem que o médico pode ser assistente técnico do
próprio paciente, alegando que essa função não é pericial, e sim uma assistên-
cia especializada. A própria lei entende que os assistentes são “de confiança
das partes”. Para essa linha de pensamento, o impedimento para atuar como
assistente técnico do próprio paciente é exclusivamente uma função da per-
da de imparcialidade que essa relação necessariamente gera. É evidente que
o trabalho de assistente não é imparcial, até mesmo por ser pago. Além disso,
conhecendo os pormenores do caso, o que só o acompanhamento longitudi-
nal permite – e que é impossível aos peritos –, esse médico poderia contribuir
ainda mais na situação pela qual seu paciente está passando.
Contudo, os que condenam a prática alegam que o trabalho é sim pe-
ricial e que, por isso, deverão ser consideradas as regras pertinentes a esse
Manual de perícias psiquiátricas 35

tipo de prática. O profissional terá que examinar um processo, elaborar que-


sitos, acompanhar a perícia judicial, conhecer leis, etc. Sendo assim, predo-
mina a ideia de que é melhor e mais prudente evitar essa situação, pois, in-
dependentemente do resultado final da ação, no mínimo a relação médico-
-paciente seria afetada de alguma maneira.
Dá mostra da controvérsia da matéria o fato de os editores deste livro
defenderem cada um uma posição. No entanto, para evitar problemas futu-
ros, recomendamos que se siga o que é expresso nas resoluções dos CRMs de
cada Estado. Na ausência delas, a decisão fica a critério do médico.23
Ainda em relação à importância do assistente técnico, uma condição
nova, proposta no texto da Lei 8.455/9219 (transcrita a seguir) e ainda mui-
to pouco explorada, diz respeito à possibilidade da dispensa da perícia ju-
dicial quando o juiz considerar que a documentação apresentada ainda nas
fases iniciais da ação judicial for fundamentada e suficiente para suas con-
clusões. Sendo assim, um assistente técnico, com bom currículo e experiên-
cia na área, poderá fornecer os elementos necessários para que isso ocorra.

Artigo 427 da Lei 8.455/92 – O juiz poderá dispensar prova pericial


quando as partes, na inicial e na contestação, apresentarem sobre as
questões de fato pareceres técnicos ou documentos elucidativos que
considerar suficientes.

Por fim, na prática da perícia por vezes ocorre certo constrangimento


quanto aos limites e alcances da atuação do assistente técnico durante o exa-
me pericial. Vale lembrar que a lei determina que o perito não deve admitir
interferência em seu mister; assim, o papel de acompanhar e, por que não,
supervisionar o trabalho pericial tem esse limite claro – legal e eticamente,
não é permitido pressionar ou influenciar de modo acintoso o perito. Este
não pode, por sua vez, impedir o trabalho do assistente técnico, cabendo-
-lhe fazer perguntas e conceder a este último acesso a todos os documentos
de que tiver conhecimento. Ao final da perícia, o ideal é que os profissionais
conferenciem entre si, discutindo suas impressões iniciais. Embora seja uma
questão de bom senso e elegância, essa prática não é obrigatória por lei. No
Estado de São Paulo, contudo, a Resolução 126/05 do Conselho Regional de
Medicina de São Paulo (CREMESP) determina que ela ocorra:23

Art. 7º – O assistente técnico tem o direito de estar presente e participar


de todos os atos periciais.
§ 1º – É dever do perito judicial e dos assistentes técnicos conferen-
ciarem e discutirem o caso sub judice, disponibilizando, um ao outro,
todos os documentos sobre a matéria em discussão após o término
dos procedimentos periciais e antes de protocolizarem os respectivos
laudos ou pareceres.
36 Barros & Teixeira (orgs.)

Ainda nesse artigo, há um parágrafo frequentemente ignorado, mas


que pode levar à impugnação de todo o trabalho do perito:

§ 2º – É dever do perito comunicar aos assistentes técnicos, oficialmente,


e com a antecedência mínima de 10 (dez) dias, a data, a hora e o local
da realização de todos os procedimentos periciais.

O Conselho Federal de Medicina, embora não deixe tão explícitos os


prazos, também determina em Resolução25 que “[...] peritos e assistentes
técnicos devem se tratar com respeito e consideração recíprocas, cabendo ao
perito informar aos assistentes técnicos, previamente, todos os passos de sua
investigação e franquear-lhes o acesso a todas as etapas do procedimento”.
Embora não seja lei, por tratar-se de resolução, essa determinação deve ser
seguida em todos os Estados do País.
capítulo

PERÍCIA EM
DIREITO CÍVEL
5
Eduardo Henrique Teixeira
Daniel Martins de Barros

quesito mais importante na área de direito cível é a avaliação da ca-


O pacidade mental. O atual Código Civil,15 que entrou em vigor em
2003, trouxe várias mudanças em relação ao anterior e representou
uma modernização da legislação, principalmente em relação à psiquiatria
forense. Termos como “loucos de todo gênero”, que aparecem no Código Ci-
vil anterior, vigente desde 1916,26 foram substituídos considerando o avan-
ço nos diagnósticos psiquiátricos e sistemas classificatórios. Contudo, essas
mudanças poderiam ter sido mais aprofundadas e ainda mais apropriadas,
dado o constante avanço da medicina.
Essas mudanças devem ser conhecidas e compreendidas pelo perito
que atua em psiquiatria forense, mas também deveriam ser de conhecimen-
to do psiquiatra clínico, pois assim este também poderia oferecer ao pacien-
te e seus familiares orientações sobre seus direitos e deveres, bem como
formular atestados e relatórios condizentes com os atuais conteúdos da lei.
Em relação à avaliação da capacidade mental, o psiquiatra deverá ava-
liar a capacidade de fato, também chamada capacidade civil plena, qualida-
de que confere às pessoas a plena condição de exercício livre, pleno e pes­
soal de seus direitos, bem como do cumprimento de seus deveres.27

CAPACIDADE MENTAL
A capacidade civil permite a uma pessoa adquirir direitos e contrair obriga-
ções por conta própria, sem necessidade de representante legal.
Em relação à incapacidade, esta poderá ser total (absolutamente inca-
paz) ou parcial (relativamente incapaz). A lei determina que, para que pos-
sam exercer os atos concernentes à vida jurídica, os indivíduos com incapa-
cidade total sejam representados; já aqueles considerados relativamente in-
capazes serão, apenas, assistidos.20
38 Barros & Teixeira (orgs.)

O capítulo sobre personalidade e da capacidade do Código Civil15 des-


creve quem são os indivíduos com incapacidade total (Artigo 3º, transcrito
logo a seguir) e relativa (Artigo 4º, transcrito mais adiante).

Artigo 3º – São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os


atos da vida civil:
I – os menores de dezesseis anos;
II – os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o
necessário discernimento para a prática desses atos;
III – os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua
vontade.

O termo “enfermidade” do inciso II pode abranger de forma geral qual-


quer doença psiquiátrica que seja grave o suficiente para levar à privação
do discernimento; até por isso, refere-se com maior frequência às psicoses,
como esquizofrenia e demências, incluindo a doença de Alzheimer, entre
outras de nível de gravidade elevado. O perito deverá definir qual patologia
afeta o periciando (diagnóstico clínico) e avaliar se esse quadro clínico afeta
sua capacidade de discernimento (diagnóstico médico-legal).
O termo “deficiência mental” é relativo aos pacientes com retardo men-
tal (oligofrenia) e segue a mesma regra citada no parágrafo anterior; por-
tanto, esse quadro clínico deverá afetar a capacidade de discernimento do
periciando. Alguns termos relativos a retardo mental usados pelos profissio-
nais da área do Direito, como idiotia, imbecilidade e debilidade mental (re-
tardo mental grave, moderado e leve, respectivamente), ainda podem surgir
nos autos ou em quesitos, devendo ser de conhecimento do perito.
O inciso III refere-se àquelas pessoas totalmente incapazes de se ex-
pressar ou de se comunicar por alguma “causa transitória”, como acontece
em afecções clínicas graves, traumatismo cranioencefálico ou em estado co-
matoso. O perito poderá, então, ser solicitado para avaliar o grau de capa-
cidade e a causa do quadro, bem como, se possível, oferecer as informações
necessárias em relação ao prognóstico.
A incapacidade relativa ocorre naqueles casos em que existe alguma
limitação, porém sem uma alteração acentuada. Nesses casos, ficam limita-
dos os poderes do curador nas questões que envolvam “emprestar, transigir,
dar quitação, alienar, hipotecar, demandar ou ser demandado, e praticar, em
geral, os atos que não sejam de mera administração”, como descritos no Arti-
go 1782 do Código Civil.15
No mesmo capítulo do Código Civil está descrito quem são os parcial-
mente incapazes:15

Artigo 4º – São incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira


de os exercer:
I – os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;
Manual de perícias psiquiátricas 39

II – os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência


mental, tenham o discernimento reduzido;
III – os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo;
IV – os pródigos.

O inciso II abrange a pessoa que tem a capacidade de discernimento re-


duzida em decorrência de dependência a etílicos (“ébrios habituais”), depen-
dência de substâncias (“viciados em tóxicos”) e retardo mental (“deficiência
mental”). Neste último caso, dentro da linguagem jurídica, é comum o uso do
termo “débil mental”, por ainda constar no Código Penal em vigência.
Em relação ao inciso III, o legislador considera como “excepcionais”
aqueles indivíduos acometidos por quadro síndrômico, autismo ou outra
condição clínica que se diferencia do retardo mental por ter ocorrido algum
desenvolvimento, mas ainda persistindo limitações de funções mentais que
interferem na capacidade de discernimento ou de tomada de decisão.
O pródigo, citado no inciso IV, é definido como aquele que pratica gas-
tos imoderados, de dissipação sem finalidade produtiva ou desastrada-
mente planejada.28 Ele é incapaz de controlar seus dispêndios, realiza gas-
tos supérfluos e afeta de forma significativa seu patrimônio ou de sua famí-
lia. A prodigalidade não é considerada uma doença mental, contudo, poderá
ser sintoma de um quadro psiquiátrico cuja característica principal seja o
gasto imoderado. Disso decorre uma distinção fundamental: se tais gastos
supostamente imoderados não tiverem por base um transtorno mental, eles
ficam fora da esfera de atuação do perito; ou seja, definir se um padrão de
vida financeiro é ou não suficiente para ser definido como pródigo é função
legal, não uma atribuição médica.
A prodigalidade poderá ser o argumento principal de base para uma
ação judicial e caberá ao psiquiatra forense identificar se uma doença cau-
sa o problema. Esse “sintoma” poderá ser encontrado, por exemplo, nos pa-
cientes com transtorno afetivo bipolar, transtorno da personalidade emocio-
nalmente instável (impulsivo ou borderline), nos dependentes de álcool e
drogas ou, ainda, nos casos de retardo mental leve ou limítrofe, em que se
observa uma imaturidade para avaliar os gastos e suas implicações.
Um caso que não se contempla na leitura literal da lei é o dos pacien-
tes que apresentem transtornos mentais como, por exemplo, psicose ou de-
mência, sem, no entanto, ter seu discernimento completamente acometido.
A dúvida surge quando o perito procura ansiosamente pelo artigo ou inciso
no qual deve enquadrar o periciando, mas não encontra tal previsão legal.
O erro, aqui, é o médico atribuir a si mesmo funções judiciais, crendo fal-
samente ser seu mister dizer em qual lei o paciente se enquadra. Se ele se
mantiver nos limites de sua função, definindo qual a doença do periciando e
detalhando quais as consequências para sua vida prática, o juiz terá elemen-
tos para firmar sua decisão.
40 Barros & Teixeira (orgs.)

AÇÃO DE INTERDIÇÃO
Uma ação cível de interdição é promovida quando o indivíduo perde sua ca-
pacidade de gerir seus bens e sua própria pessoa. Esse tipo de lide represen-
ta uma das solicitações judiciais mais comuns nas quais uma perícia psiquiá­
trica é requisitada.29
Em decorrência da Lei 8.742/93, denominada Lei Orgânica da Assis-
tência Social (LOAS),30 existe uma demanda crescente de perícia em ação
de interdição. Segundo o Artigo 20, a lei garante um salário mínimo para as
pessoas com alguma deficiência que não tenham meios de prover sua pró-
pria subsistência. Considera-se com deficiência aquele indivíduo que tem
impedimentos de longo prazo (mínimo de dois anos) de natureza física,
mental ou sensorial.30 Para receber o benefício citado, são necessários uma
pessoa capaz (curador) de movimentar uma conta bancária e o pedido de
interdição.31 A lei não determina que, para receber tal beneficio, o indivíduo
esteja interditado; no entanto, como tais avaliações são feitas por peritos
nem sempre especialistas no INSS, muitos advogados orientam seus clientes
a buscarem uma interdição judicial previamente, com intuito de comprovar
sua incapacidade e o consequente enquadramento na LOAS.
Na ação de interdição, o indivíduo é avaliado quanto a sua capacida-
de de reger sua própria pessoa e administrar seus bens, conforme o Artigo
1.180 do Código de Processo Civil,1 com o objetivo de impedir que o sujeito
tome decisões, sobretudo – mas não exclusivamente – econômicas, que pos-
sam prejudicá-lo (ou a seus familiares) do ponto de vista legal, gerando gran-
des transtornos.7,32,33 A mesma lei define, no Artigo 1.177, quem poderá pe-
dir a interdição:1

Artigo 1.177 – A interdição pode ser promovida:


I – pelo pai, mãe ou tutor;
II – pelo cônjuge ou algum parente próximo;
III – pelo órgão do Ministério Público.
Artigo 1.178 – O órgão do Ministério Público só requererá a interdição:
I – no caso de anomalia psíquica;
II – se não existir ou não promover a interdição alguma das pessoas
designadas no artigo antecedente, ns. I e II;
III – se, existindo, forem menores ou incapazes.

O Código Civil, em seu Artigo 1767,15 define quem, em razão de sua


incapacidade, está sujeito a curatela, como transcrito a seguir:

Artigo 1.767 – Estão sujeitos a curatela:


I – aqueles que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o
necessário discernimento para os atos da vida civil;
Manual de perícias psiquiátricas 41

II – aqueles que, por outra causa duradoura, não puderem exprimir a


sua vontade;
III – os deficientes mentais, os ébrios habituais e os viciados em tóxicos;
IV – os excepcionais sem completo desenvolvimento mental;
V – os pródigos.

A curatela é o encargo público concedido, por lei, a alguém para reger


e defender uma pessoa, bem como administrar os bens de maiores incapa-
zes, que, por si sós, não têm condições de fazê-lo, em razão de enfermidade
ou deficiência mental.20 O curador pode ser o cônjuge, os pais, os filhos ou
um parente que se mostre mais apto para essa função; na ausência destes,
há a possibilidade de um curador dativo, nomeado pelo juiz.
A pessoa a ser periciada poderá se manifestar contrária à sua condição
de possível interditado, segundo o Artigo 1.182 do Código de Processo Civil,1
transcrito a seguir. Isso é comum nos casos em que existe disputa entre fami-
liares, principalmente quando esta envolve dinheiro, rendimentos, bens e he-
rança. Um filho poderá requerer (nos autos denominado “requerente”) a in-
terdição de seu pai (“requerido”), mas outro filho – ou o próprio pai – poderá
não concordar com a interdição ou com as condições como ela está sendo con-
duzida. Quando não existe tal conflito, o Ministério Público representará o in-
terditando nos autos, mas este poderá também contratar seu próprio defensor.

Artigo 1.182 – Dentro do prazo de 5 (cinco) dias contados da audiência


de interrogatório, poderá o interditando impugnar o pedido.
§ 1o Representará o interditando nos autos do procedimento o órgão do
Ministério Público ou, quando for este o requerente, o curador à lide.
§ 2o Poderá o interditando constituir advogado para defender-se.

A interdição poderá ser temporária naqueles casos em que o prognós-


tico ainda não está fechado ou em que o quadro é sabidamente transitório,
sendo necessária nova perícia após um período mínimo de tratamento ade-
quado. O tempo de tratamento não está previsto na lei e, portanto, será ba-
seado nas considerações do perito.
Mesmo tendo sido interditado indefinidamente, o “levantamento da in-
terdição” poderá ser solicitado a qualquer momento pelo próprio interdito
ou pelo seu curador, sendo, então, necessária uma nova perícia, conforme
estipula o Artigo 1.186 do Código de Processo Civil:1

Artigo 1.186. Levantar-se-á a interdição, cessando a causa que a de-


terminou.
§ 1o O pedido de levantamento poderá ser feito pelo interditado e será
apensado aos autos da interdição. O juiz nomeará perito para proceder
ao exame de sanidade no interditado e após a apresentação do laudo
designará audiência de instrução e julgamento.
42 Barros & Teixeira (orgs.)

§ 2o Acolhido o pedido, o juiz decretará o levantamento da interdição e


mandará publicar a sentença, após o transito em julgado, pela imprensa
local e órgão oficial por três vezes, com intervalo de 10 (dez) dias,
seguindo-se a averbação no Registro de Pessoas Naturais.

A seguir, é apresentado um modelo de perícia de interdição, na qual


o periciando foi considerado incapaz. Neste caso, a sintomatologia é muito
característica de um retardo mental com comprometimento da capacidade
de discernimento do indivíduo. Foram apresentados quesitos apenas pelo
Ministério Público.

MODELO DE PERÍCIA (INCAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA DE FAMÍLIA


E DAS SUCESSÕES DA COMARCA DE xxx

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INTERDIÇÃO
Processo n-o-
Periciando: xxx

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xx, na Sala de Perícias Médicas do Bloco D da CIDADE JUDICIÁRIA (Rua
Francisco Xavier de Arruda Camargo, 300, Jardim Santana, Campinas, SP), foi exa-
minado um indivíduo adulto do sexo masculino que foi identificado como sendo o peri-
ciando acima referido.
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhado por seu pai, Sr. xxx, RG n-o- xxx.
Foram apresentados os seguintes documentos médicos comprobatórios de esta-
do de saúde:
• Relatório Médico do Dr. xxx.
• Relatório do CAPS, assinado pelo Dr. xxx,
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, principalmente com
o acompanhante, permitindo as devidas conclusões do presente laudo.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


O pai do periciando está requerendo sua interdição, alegando incapacidade men-
tal, para fins de gerenciamento dos atos da vida civil.
Consta Atestado Médico do Dr. xxx (folha xx).
Manual de perícias psiquiátricas 43

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/xxx e procedente de xxx/SP, onde mora com os pais. Idade de 26
anos, solteiro, sem filhos, analfabeto.
Último filho de uma prole de dois filhos provenientes de casal não consanguíneo.
Nascido de parto cesárea a termo sem intercorrências. Desenvolvimento neuropsico-
motor com importante atraso. Falou somente após os 2 anos de idade.
No início da idade escolar, foi feito o diagnóstico de retardo mental. Como era muito
agressivo e não conseguia acompanhar o aprendizado, foi encaminhado para a APAE
de sua cidade, onde permaneceu até os 18 anos de idade. Não conseguiu desenvol-
ver as capacidades necessárias para leitura, escrita ou para fazer contas. Reconhece
dinheiro, mas não sabe manuseá-lo.
Nunca teve qualquer tipo de relacionamento afetivo-amoroso e vive sob os cuidados
de seus pais, dos quais é dependente financeiramente. Não teve empregos fixos e passa
a maior parte do tempo dentro de casa. Só sai sozinho do domicílio nas proximidades.
Quase todos os dias da semana, frequenta o CAPS, com boa adaptação e rendi-
mento dentro das suas possibilidades.
Mantém comportamento predominantemente agressivo e desde sua adolescência
apresenta baixo limiar à frustração e crises de heteroagressividade. Já esteve interna-
do várias vezes em hospitais psiquiátricos da região.
Em uso das medicações já referidas no primeiro item.
Sem história de adição, sintomas psicóticos ou epilepsia.

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, anictérico, marcha sem alterações.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece bom contato com o examinador e mantém comportamento passivo
para a ocasião.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, vestes limpas e adequadas.
• Afeto: irritado, hipomodulando.
• Pensamento: lógica deficitária, coerente e de conteúdo empobrecido e compatí-
vel com idade mental reduzida.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos.
• Capacidade intelectual: reduzida.
• Capacidade de abstração: abolida.
• Atenção: hipotenaz.
• Funções cognitivas (orientação, memória): comprometidas, desorientação qua-
se global, conseguindo apenas informar alguns dados pessoais.
• Juízo crítico da realidade: deficitário.

6 – DISCUSSÃO
O retardo mental (deficiência mental, nos termos da Lei n-o- 10.406 de 10/01/2002 –
Código Civil)15 é uma condição de desenvolvimento interrompido ou incompleto da men-
te, sendo especialmente caracterizado por comprometimento de habilidades manifesta-
das durante o período de desenvolvimento, as quais contribuem para o nível global de
inteligência, isto é, aptidões cognitivas, de linguagem, motora e social.34
44 Barros & Teixeira (orgs.)

Essa patologia compreende diversos níveis de gravidade:


• Leve, F70, corresponde a idade mental de 9 a 12 anos;
• Moderado, F71, corresponde a idade mental de 6 a 9 anos;
• Grave, F72, corresponde a idade mental de 3 a 6 anos;
• Profundo, F73, corresponde a idade mental abaixo de 3 anos.
Essa classificação pode sofrer variações diante do aculturamento do examinando;
fatores variados, como instrução dos pais, poder econômico, acompanhamento psico-
lógico e pedagógico, influenciam sobremaneira no quadro clínico.
Considerando os dados da história pregressa do paciente e os achados do exame clí-
nico, trata-se, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (CID-
10),35 de quadro compatível com Retardo Mental Moderado, F71. Ele não apresenta a
mínima condição para exercer de modo responsável e eficiente os atos de sua vida civil.
Considerando as diversas experiências terapêuticas e psicopedagógicas, conclui-
-se que o mal é crônico e não apresenta expectativas de cura ou melhora, apesar de
ser aconselhável manter os tratamentos oferecidos.
7 – CONCLUSÃO
Diante do exposto até o momento, concluímos ser o periciado incapaz de gerir
seus bens e sua vida cível.
8 – QUESITOS
[Responder a todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.
Abaixo, exemplo de quesitos geralmente formulados. Usa-se o termo “prejudicado”
quando um quesito anterior invalida o quesito a ser respondido.]
1. O paciente apresenta anomalia ou anormalidade psíquica?
Sim.
2. Em caso afirmativo, qual é a natureza da moléstia? É de caráter permanente ou
transitório?
Retardo mental. Permanente.
3. Se positivo o primeiro quesito, é esse mal congênito ou adquirido?
Congênito.
4. Se adquirido o mal, qual a data ou a época, ainda que aproximada, de sua eclosão?
Prejudicado.
5. Tem o paciente condições de discernimento, com capacidade de, por si só, gerir
sua pessoa e administrar seus bens?
Não.
6. No caso do quesito 4º, a eclosão do mal gerou desde logo a incapacidade de o
paciente, por si só, gerir sua pessoa e administrar seus bens?
Prejudicado.
7. Se positivo o 5º quesito, o paciente sofre de restrições, ainda que reduzidas, na
capacidade de gerir e administrar seus bens, bem como praticar todos os atos
da vida civil? Em caso positivo, em que consistem tais restrições? São elas tem-
porárias ou permanentes?
Prejudicado.
8. Demais considerações entendidas necessárias, a critério do Senhor Perito.
Sem mais.
Dr. _______________________________ Dr. _______________________________
Perito Relator Perito Subscritor
Manual de perícias psiquiátricas 45

Modelo de perícia (capaz)


O laudo a seguir foi realizado por uma equipe interdisciplinar, e, dada a na-
tureza da matéria, apenas um laudo, psicológico e psiquiátrico, foi realiza-
do. Esse não é um expediente comum, por questões tanto processuais como
burocráticas, mas, em nossa experiência, é uma das melhores formas de
abarcar mais amplamente o psiquismo do indivíduo.

MODELO DE PERÍCIA (CAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA DE FAMÍLIA


E DAS SUCESSÕES DA COMARCA DE xxx

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INTERDIÇÃO
Processo n-o-
Periciando: xxx

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – PREÂMBULO
Foi realizada avaliação psiquiátrica e psicológica em xxx, portador do documento de
identidade número xxx, conforme sua própria solicitação, no Núcleo Forense (NUFOR)
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Uni-
versidade de São Paulo, na data de xx/xx/xx, com o propósito de aferir se o periciando
apresenta capacidade para os atos da vida civil.

2 – IDENTIFICAÇÃO DO PERICIANDO
Xxx, 88 anos, nascido em xxx, RG n-o- xxx, residente e domiciliado em xxx.
3 – MÉTODOS E INSTRUMENTOS
O periciando foi submetido a avaliação psiquiátrica, exame das funções cognitivas
e intelectual (QI) por meio dos testes:
I- Semelhança (WAIS III);
II- Vocabulário (WAIS III);
III- Cubos (WAIS III);
IV- Dígitos (WAIS III);
V- Compreensão (WAIS III);
VI- Figuras Complexas de Rey;
VII- Memória Lógica (WRM III);
VIII- Entrevista psicológica e psiquiátrica.
4 – HISTÓRIA
Informações obtidas com o próprio periciando e com sua filha, xxx.
46 Barros & Teixeira (orgs.)

Há cerca de 2 anos, xxx e sua esposa, de 84 anos, decidiram fazer a partilha de suas
propriedades, de valor semelhante, a cada um de seus filhos, registrando a transferên-
cia da escritura em cartório e tendo conversado individualmente com cada filho sobre
a questão. Um deles, por questões pessoais, recusou a escritura, dizendo que preferia
ficar apenas com uma procuração em seu nome referente ao imóvel que lhe foi desti-
nado. Por temer contestação judicial da partilha após sua morte, por algum dos filhos,
genros, noras ou netos, por alegação de insanidade no momento da partilha, xxx resol-
veu submeter-se a avaliação psiquiátrica para validar sua decisão.
O periciando nega problemas de saúde que lhe comprometam o psiquismo e a me-
mória (“Graças a Deus estamos lúcidos” [sic]). Diz já ter realizado algumas cirurgias
ao longo da vida – apendicite, hérnia, catarata –, mas se orgulha de sua saúde cardio-
vascular. Tem uma vida plena em sua autonomia e independência: dirige sozinho, cui-
da de casa, realiza atividades bancárias, organiza seus documentos sem interferência
dos filhos, cumpre tarefas domésticas e executa serviços de manutenção sem neces-
sitar de ajuda de terceiros.
Durante a entrevista, conta com detalhes dados de história solicitados e fornece nú-
meros de RG, CPF e data de nascimento.

5 – DESCRIÇÃO
Apresenta-se para a entrevista asseado e com vestes adequadas, cordial e solíci-
to, aparentemente comprometido em mostrar-se saudável. Postura ereta, aparenta boa
saúde global, sem prejuízos notáveis de visão ou audição. Orientado no tempo e no es-
paço, auto e alo psiquicamente, vigil, com atenção espontânea e voluntária sem alte-
rações. Aparenta, em raros momentos, ter certa dificuldade de evocar alguns poucos
termos, porém consegue com sucesso transmitir a ideia central; após algum esforço,
chega à palavra desejada, desenvolvendo bem uma mesma linha de raciocínio, mes-
mo que por tempo prolongado. Eutímico, sem alterações do afeto. Pensamento com
curso e velocidade normal, demonstrando, com exemplos que dava para elucidar seu
discurso, boa capacidade de abstração, bem como de prever com razoável precisão as
intenções do entrevistador com suas perguntas – por exemplo, preocupa-se se o es-
quecimento de um termo ou outro foi o motivo da solicitação dos testes de memória.

6 – ANÁLISE DOS RESULTADOS DOS TESTES PSICOLÓGICOS


O sr. xxx não apresenta prejuízos em sua capacidade intelectual. Nos testes que
avaliam capacidade visuomotora, habilidade de planejamento, organização, estratégia
de solução de problemas, funções perceptuais, motoras e de memória, verificou-se que
possui boa capacidade. Porém, precisa de mais tempo que a média das pessoas para
solucionar questões complexas, pois tem dificuldade em perceber relações parte-todo,
com déficit na capacidade de planejamento visual.
Quando precisa fazer uso de suas funções motoras, seu desempenho mantem-se
relativamente preservado. Contudo, há prejuízos em tarefas de execução motora, ou
seja, apresenta melhor desempenho quando a solução de problemas depende apenas
de planejamento verbal, e não de desempenho motor.
Nos testes que avaliam capacidade de senso comum, juízo social, conhecimento
prático, maturidade social, conhecimento de normas socioculturais, capacidade para
avaliar a experiência passada, compreensão verbal, raciocínio lógico, memória e aten-
ção, o sr. Xxx apresenta resultados dentro da média esperada para sua faixa etária, o
que implica que o periciando dispõe de boa memória remota. Além disso, não apresen-
Manual de perícias psiquiátricas 47

ta dificuldade na retenção de novas construções e é capaz de evocar imediatamente a


informação obtida, mesmo após um longo período.

7 – DISCUSSÃO
Sr. Xxx solicitou perícia para avaliar sua capacidade civil atual, a fim de prevenir fu-
turos questionamentos de seus atos civis de hoje, notadamente a partilha de seus bens.
Não apresenta história de transtornos psiquiátricos ou neurológicos, nem de eventos
cardiovasculares que possam comprometer seu estado psíquico ou sua cognição. Du-
rante a entrevista, e de acordo com a história coletada, o Sr. Xxx demonstra grande au-
tonomia, independência e desenvoltura para lidar com seus atos de vida civil.
A avaliação das funções cognitivas a partir de testes psicológicos corroborou a ava-
liação psiquiátrica, uma vez que o Sr. Xxx não mostra prejuízos em sua capacidade in-
telectual, apresenta desenvoltura visuomotora e habilidade de planejamento e organi-
zação, assim como estratégia de solução de problemas e funções perceptuais, motora
e de memória preservadas. Contudo, precisa de mais tempo do que a média das pes-
soas para solucionar questões complexas, pois tem dificuldade em perceber relações
parte-todo, com déficit na capacidade de planejamento visual.

8 – CONCLUSÃO
O periciando Xxx não apresenta transtornos mentais e, atualmente, é capaz de rea­
lizar com plenitude seus atos de vida civil. Apresenta boa capacidade intelectual e de
resolução de problemas, sem comprometimento de seu poder de raciocínio, de plane-
jamento ou tomadas de decisão.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

AÇÃO DE VERIFICAÇÃO DE
VALIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO
Nesse tipo de ação, o diagnóstico do transtorno mental não é, em si mesmo,
suficiente para indicar a incapacidade. Contudo, a patologia deve causar um
prejuízo no julgamento relativo às questões específicas envolvidas. A com-
petência também é essencial em contratos, que podem ser declarados invá-
lidos se, quando assinados, uma das partes era incapaz de compreender a
natureza de seu ato.13,36
Segundo as disposições gerais do Código Civil,15 do Título II – das Pes-
soas Jurídicas, como transcrito a seguir, o ato jurídico poderá ser anulado:

CAPÍTULO V – Da Invalidade do Negócio Jurídico


Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
I – celebrado por pessoa absolutamente incapaz.
48 Barros & Teixeira (orgs.)

Nesses casos, será fundamental avaliar se a doença diagnosticada e sua


incapacidade estavam presentes no momento da efetivação do ato jurídico;
portanto, a perícia será retrospectiva. O negócio jurídico poderá ser um fe-
chamento de contrato, uma venda ou uma compra, entre outras situações
em que é necessário ter condições mentais plenas para avaliar o ato e suas
consequências.
Esse tipo de perícia poderá, em alguns casos, exigir muito trabalho por
parte do profissional. Não existirão dúvidas nos casos de início da doença na
infância, como nos pacientes com retardo mental (deficientes mentais) em
que a gravidade é explícita. Contudo, em indivíduos com transtornos agudos
ou episódicos, será necessária ampla investigação para constatar a incapaci-
dade e comprovar o nexo causal e temporal. Transtorno do humor bipolar e
surto episódico agudo são os diagnósticos mais comuns nessas solicitações.
Ainda mais complexa será a perícia indireta para a anulação de ato ju-
rídico. Neste caso, toda perícia será baseada em documentos médicos e rela-
tos indiretos para se comprovar a incapacidade do periciando no momento
da efetivação do ato jurídico. O periciado poderá ainda estar vivo, mas to-
talmente incapacitado, ou já ter falecido.
Apresentamos a seguir um modelo deste tipo de exame. Trata-se de
uma perícia indireta, ou seja, baseada somente em documentos. Foi consi-
derado que, na época, a pericianda era incapaz de realizar negócio jurídico,
pois a doença já estava instalada e já afetava sua capacidade de discerni-
mento devido à gravidade do quadro psiquiátrico.

MODELO DE PERÍCIA (INCAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: VERIFICAÇÃO DE VALIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
A presente perícia foi elaborada com base nos documentos apresentados através
do Ofício n-o- xxx/xxxx da xxa Vara Cível da Comarca de xxx/SP.
Os documentos de importância médico-legal que foram apresentados permitiram a
conclusão final deste laudo.
Sem intercorrências.
Manual de perícias psiquiátricas 49

2 – DADOS DOS AUTOS


História
A pericianda (nascida em xx/xx/xxxx), representada por sua curadora provisória,
Sra. xxx, move ação de cobrança em face de xxx (fls. 02).
Xxx e xxx, ambos irmãos da pericianda, tornaram-se seus procuradores para rece-
ber toda parte de sua irmã nos rendimentos mensais pagos pela empresa xxx, no perío­
do de 01/1971 a 10/1983. Na condição de curador, Xxx também realizou empréstimo
em nome da pericianda e manipulou seu patrimônio (fls. 03/04).
Consta que a curatela provisória foi decretada em 23/12/1997 (fls. 04).
Documentos médicos (relevantes)
Consta atestado da Clínica xxx/SP, datado de 22/01/98, assinado pelo Dr. xxx,
CRM xxx, referindo que a pericianda esteve internada nos períodos de 30/11/1965 a
17/07/1966, de 22/02/1979 a 30/08/1979, de 17/03/1980 a 05/12/1983 e encontrava-se
internada desde a data de 13/12/1983 (fls. 08).
Consta relatório médico da Clínica xxx/SP, datado de 12/11/1997, assinado pelo
Dr. xxx, CRM xxx, referindo que a pericianda encontrava-se internada desde 13/12/1983,
devido à doença mental crônica (esquizofrenia) com longo tempo de evolução. Já ha-
via sido internada também nos anos de 1965, 1979 e 1980. Encontrava-se bem adap-
tada à vida na comunidade hospitalar, sendo, no entanto, incapaz de decidir sobre seus
atos na vida cível ou de retornar ao convívio sociofamiliar (fls 09).
Consta atestado da Clínica xxx/SP, datado de 27/01/1994, assinado pelo Dr. xxx,
CRM xxx, referindo que a pericianda estava sob seus cuidados desde 1980 e era por-
tadora de perturbações da personalidade, correspondente ao diagnóstico 295.1/3 da
CID-9. Refere que, na época, estava em condições de reger a sua pessoa e de admi-
nistrar seus bens (fls. 174).
Consta relatório médico da Clínica xxx/SP, datado de 15/07/2003, assinado pelo
Dr. xxx, CRM xxx, referindo que a pericianda apresenta transtorno mental da série es-
quizofrênica de longa evolução e que os primeiros sintomas de sua enfermidade surgi-
ram por volta dos 17 para os 18 anos de idade. Sofreu inúmeras internações psiquiá­
tricas, recebendo vários tratamentos biológicos e terapias medicamentosas diversas.
Encontrava-se hospitalizada na clínica desde 13/12/83, estabilizada dentro de sua cro-
nicidade, mantendo os distúrbios psicóticos fundamentais do seu transtorno mental,
sem condições de retornar ao convívio sociofamiliar. Diagnóstico de esquizofrenia re-
sidual, F20.0 (fls. 186).
Consta boletim de admissão da Clínica xxx/SP, datada de 13/12/1983, referindo que a
pericianda estava apresentando crises de agitação psicomotora, heteroagressividade vol-
tada à família, manifestações delirantes alucinatórias, insônia e apragmatismo (fls. 187).
Consta cópia de anamnese da Clínica xxx/SP, datada de 22/02/1979, realizada
pelo Dr. xxx, referindo que a pericianda tinha na família casos de psicopatias, principal-
mente entre seus irmãos – uma irmã que já havia sido internada na mesma clínica, e
seus irmãos apresentam distúrbios conativos. A paciente sempre gozou de boa saúde
e sofreu as enfermidades próprias da infância. Adoeceu por volta dos 17 aos 18 anos,
quando passou a se apresentar estranha, exótica e extravagante. Ria imotivadamen-
te e deixou de interessar-se pelas atividades produtivas, passando longas horas reco-
lhida em seu quarto (fls. 190).
Consta relatório da Clínica xxx/SP, assinada pelo Dr. xxx, referindo os dados da
anamnese colhidos em 1965, por ocasião de sua primeira internação na clínica, e afir-
50 Barros & Teixeira (orgs.)

mando que a paciente apresentou os primeiros sintomas do seu transtorno mental com
a idade de 18 anos, em 1947, tendo sofrido várias hospitalizações em outras clínicas
psiquiátricas (fls. 225).

3 – DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES PSIQUIÁTRICO-FORENSES


A esquizofrenia e seu diagnóstico.
A esquizofrenia (enfermidade mental, nos termos da Lei n º 10.406 de 10/01/2002
– Código Civil)1 é uma patologia psiquiátrica de curso crônico com episódios de rea­
gudização. Caracteriza-se por importante comprometimento das capacidades social,
afetiva e pragmática. Nas fases de reagudização, aparecem pensamentos deliran-
tes e alucinações, com total comprometimento do juízo crítico da realidade – sur-
to psicótico.34
A esquizofrenia é uma doença mental grave, caracterizada por desordem profunda
nos processos psíquicos, resultando em falta de unidade ontológica.
O desfecho desfavorável e o início na juventude ou no começo da idade adulta for-
neceram, historicamente, os elementos fundamentais para caracterizar essa doença.
A doença evolui por surtos, isto é, existem períodos de exacerbação dos sintomas
mórbidos e existem períodos de acalmia. Porém, mesmo remitido o surto agudo, o pa-
ciente continua apresentando, no período intervalar, desordens mentais, que se cha-
mam defeito esquizofrênico, o qual é caracterizado por embotamento afetivo, ensimes-
mamento, falta de auto e de heterocrítica, distúrbios do pensamento, etc., sintomas que
podem manifestar-se de modo isolado ou em conjunto.
Os surtos não têm frequência constante. Podem ocorrer várias vezes ao ano ou uma
só vez na vida (muito raro). Porém, se são irregulares quanto à frequência, não o são
quanto ao desarranjo psicopatológico que engendram na mente do paciente. São sem-
pre graves, muitas vezes de difícil abordagem terapêutica, e quanto maior a fre­quência
com que ocorrem, mais rapidamente levam o paciente ao comprometimento total das
esferas psíquicas, à demência propriamente dita.
A esquizofrenia e suas implicações legais.
O comprometimento psicótico pode ser evidenciado por meio da investigação
direta ou retrospectiva das modalidades de contato estabelecidas pelo sujeito com o
meio; da adequação de seu comportamento nos diversos contextos de sua existência
pessoal; do exame de sua orientação quanto a todos os fatos de sua vida; e da avalia-
ção dos padrões globais de seu estado mental.
Em relação à validade dos atos praticados pelo indivíduo interditado antes do pro-
cesso de interdição, o nosso Código Civil dispõe, segundo Sílvio Rodrigues, em 2002,
que o ato praticado pelo indivíduo com transtorno mental não interditado “valerá se a
outra parte estava de boa-fé, ignorando a doença que o afetava”.37

4 – CONCLUSÃO
Trata-se de quadro compatível com psicose crônica, do tipo esquizofrenia, co-
dificada como F20.
A pericianda era incapaz de gerir sua vida cível ao tempo da realização do em-
préstimo. Essa incapacidade teve início com a instalação da doença, ou seja, próximo
dos 18 anos da idade.
Manual de perícias psiquiátricas 51

5 – QUESITOS
[Responder a todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentados.]

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

AÇÃO DE VERIFICAÇÃO DE
CAPACIDADE TESTAMENTÁRIA
Os peritos podem ser solicitados para avaliar a capacidade testamentária do
periciando, ou seja, sua competência para fazer testamento. Três capacida-
des psicológicas são necessárias para essa competência. Os sujeitos devem
conhecer:38

1. a natureza e extensão dos seus bens (posses);


2. que estão fazendo um testamento; e
3. quem são seus beneficiários naturais, ou seja, cônjuge, filhos e
outros parentes.

Nunca é demais lembrar que a função da perícia não é determinar se


um sujeito saudável tem tais capacidades, mas verificar se há um transtor-
no mental que prejudique tal discernimento – devemos sempre ter em vista
que a função da perícia médica é determinar a presença ou não de doenças
e suas consequências.
Seguem as disposições gerais do Capítulo da Sucessão Testamentária
do Código Civil:15
Artigo 1.857 – Toda pessoa capaz pode dispor, por testamento, da
totalidade dos seus bens, ou de parte deles, para depois de sua morte.
Artigo 1.860 – Além dos incapazes, não podem testar os que, no ato
de fazê-lo, não tiverem pleno discernimento.
Artigo 1.861 – A incapacidade superveniente do testador não invalida
o testamento, nem o testamento do incapaz se valida com a superve-
niência da capacidade.

Portanto, a lei deixa claro, no Artigo 1.857, que a pessoa tem de ser
“capaz” para poder fazer seu testamento. O Artigo 1.860 reforça que os “in-
52 Barros & Teixeira (orgs.)

capazes” não poderão fazê-lo, e o Artigo 1.861, que no momento da elabora-


ção do testamento, o sujeito deverá ser capaz, independentemente de adoe­
cer antes ou depois do ato.15
O perito, então, deverá ser requisitado para avaliar a pessoa na épo-
ca de fazer o testamento. Poderá, ainda, ser solicitada perícia retrospectiva,
a fim de determinar se a pessoa tinha condições quando da elaboração do
­documento. Como nos casos de anulação de ato jurídico, essa perícia é bas-
tante trabalhosa, e o profissional deverá ser muito cuidadoso, buscando in-
formações de fontes confiáveis e imparciais para finalizar seu laudo. A perí-
cia também pode ser indireta, para os já falecidos.
Apresentamos a seguir um modelo em que a pericianda foi considera-
da capaz para fazer seu testamento. Apesar da idade avançada, 90 anos, não
havia sinais ou história indicativa de processo degenerativo ou outro que pu-
desse afetar sua capacidade mental; além disso, tinha exame mental dentro
da normalidade.

MODELO DE PERÍCIA (CAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: AÇÃO PARA VERIFICAÇÃO DE CAPACIDADE TESTAMENTÁRIA
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas do Bloco D da CIDADE JUDICIÁRIA (Rua
Francisco Xavier de Arruda Camargo, 300, Jardim Santana, Campinas, SP), foi examina-
do um indivíduo adulto do sexo feminino, identificado como a pericianda acima referida.
Compareceu munida de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhada do sobrinho, Sr. xxx, RG n º xxx.
Foram apresentados os seguintes documentos médicos comprobatórios de esta-
do de saúde:
- Relatório da Dra. xxx, CRM xxx, referindo que a pericianda é acompanhada no ser-
viço de cardiologia por motivo de fribilação atual crônica, hipertensão arterial, diabetes e
osteoartrose generalizada com deficiência física, estando incapacitada para deambular.
As informações foram colhidas principalmente com o acompanhante, de forma ade-
quada e detalhada, colaborando para a elaboração do laudo.
Sem intercorrências.
Manual de perícias psiquiátricas 53

2 – DADOS DOS AUTOS


Seu sobrinho move ação de incapacidade para testar em relação à pericianda, ale-
gando incapacidade mental desta para fazer seu testamento.
Consta atestado do Dr. xxx, CRM, xxx.

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/MG e procedente de xxx/SP, onde vive sozinha. Idade de 90 anos,
viúva, sem filhos, ensino médio completo, do lar.
Oitava filha de uma prole de nove filhos provenientes de casal não consanguíneo.
Nascida de parto normal a termo sem intercorrências.
Foi criada pelos pais biológicos em ambiente harmonioso. Infância aparentemente
normal, sem relato de patologias graves ou traumas. Desempenho escolar satisfatório.
Parou de estudar para poder trabalhar.
A pericianda trabalhou na empresa xxx até se aposentar por tempo de serviço e
sempre viveu na companhia de seus pais. Após o falecimento deles, viveu sozinha por
mais de 20 anos e casou-se somente após 60 anos de idade.
Refere que tinha ótimo relacionamento conjugal e que não teve filhos. Ficou viúva
há 15 anos e não teve outros relacionamentos. Seus irmãos são todos falecidos, e os
únicos parentes no momento são seus sobrinhos maternos e paternos.
A pericianda refere que sempre teve ótimo desempenho social e laboral, sem rela-
to de doenças de ordem psíquica. Sempre teve total autonomia dos seus bens e ren-
dimento. Ainda está bem de funções neurocognitivas, e a intervenção do sobrinho é
somente em função de conflitos familiares e de interesses pessoais. Além dele, uma
sobrinha sua não aceitou as doações que ela fez para duas instituições filantrópicas da
cidade e tentou intervir na época.
Relata que tem interesse em dispor de seus bens para pessoas específicas e para
algumas instituições. Tem noção clara da dimensão dos seus bens e dos rendimentos
que pode obter com eles. Queixa-se de ter tido pouco contato com sobrinhos e que so-
mente no último ano houve aproximação deles, quando ficaram sabendo que ela que-
ria fazer seu testamento.
No momento, está em tratamento ambulatorial e faz uso regular de medicação para
problemas cardíacos. Nega tratamentos psiquiátrico ou neurológico prévios.
Sem relato de epilepsia, sintomas psicóticos, tabagismo ou internação psiquiátrica.
Sem antecedentes familiares de doenças psiquiátricas ou neurológicas.
4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corada, hidratada, anictérica, eupneica. Marcha lentificada sem
necessidade de apoio. Tremor essencial.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador e mantém comportamento ade-
quado para a ocasião.
• Apresentação geral: facies indiferente, asseada, vestes limpas e adequadas.
• Afeto: calmo, associada ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, sem delírios, sem alteração de conteúdo ou forma.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos.
• Capacidade intelectual: adequada.
54 Barros & Teixeira (orgs.)

• Capacidade de abstração: adequada.


• Atenção: normotenaz.
• Funções cognitivas (orientação, memória): orientada globalmente; memórias pre-
servadas.
• Juízo crítico da realidade: preservado.
• MMSE: 28/30.

6 – DISCUSSÃO / CONCLUSÃO
A pericianda não apresenta qualquer transtorno neuropsiquiátrico e, no momento,
apresenta capacidade mental adequada para tomar suas próprias decisões.
Diante do exposto, concluímos ser a pericianda totalmente capacitada para fa-
zer seu testamento.

7 – QUESITOS
[Responder a todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.]

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

AÇÃO DE ANULAÇÃO DE CASAMENTO


Para ser firmado o casamento, é necessário que as partes tenham capacidade
mental para avaliar a natureza, os deveres, as obrigações e outras caracte-
rísticas envolvidas no matrimônio. Assim, deve ser avaliada a capacidade de
compreensão do compromisso ao tempo em que este foi assumido.
Portanto, o casamento poderá ser anulado, segundo o Código Civil,15
quando:

Artigo 1548 – É nulo o casamento contraído:


I – pelo enfermo mental sem o necessário discernimento para os atos
da vida civil;
Artigo 1.549 – A decretação de nulidade de casamento, pelos motivos
previstos no artigo antecedente, pode ser promovida mediante ação
direta, por qualquer interessado, ou pelo Ministério Público.
Artigo 1.556 – O casamento pode ser anulado por vício da vontade,
se houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial
quanto à pessoa do outro.
Artigo 1.557 – Considera-se erro essencial sobre a pessoa do outro
cônjuge:
Manual de perícias psiquiátricas 55

IV – a ignorância, anterior ao casamento, de doença mental grave que,


por sua natureza, torne insuportável a vida em comum ao cônjuge
enganado.

Em relação aos Artigos 1.548 e 1.549, o perito deverá avaliar as con-


dições mentais do examinando e sua capacidade de compreender as obri-
gações e os deveres na época do casamento firmado.15 Trata-se de perícia
pouco comum, podendo ocorrer quando alguém tem interesse em estabele-
cer relação conjugal com uma pessoa já doente, acreditando que poderá se
beneficiar de seus rendimentos, bens e/ou herança. Nesse caso, algum fami-
liar, compreendendo que seu parente com um transtorno psiquiátrico (em
geral retardo mental ou demência) foi “enganado”, poderá pedir a anulação.
Em relação aos Artigos 1.556 e 1.557, também poderá ser anulado o
casamento quando o “enganado” não foi o enfermo, mas seu cônjuge.15 Este
terá que provar que não tinha conhecimento da doença do parceiro antes do
casamento e demonstrar que a vida conjugal é insuportável em função da
patologia, que era previamente existente.
Ainda segundo o Código Civil,15 de importância à psiquiatria forense,
a dissolução da sociedade e do vínculo conjugal (diferente da anulação) po-
derá ocorrer quando:

Artigo 1.572 – Qualquer dos cônjuges poderá propor a ação de separa-


ção judicial, imputando ao outro qualquer ato que importe grave viola-
ção dos deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum.
§ 2º O cônjuge pode ainda pedir a separação judicial quando o ou-
tro estiver acometido de doença mental grave, manifestada após o
casamento, que torne impossível a continuação da vida em comum,
desde que, após uma duração de dois anos, a enfermidade tenha sido
reconhecida de cura improvável.

Na situação citada, uma das partes poderá pedir a separação alegando


perigo para o cônjuge e/ou à prole devido a doença mental que afete grave-
mente a vida a dois. Em relação à lei anterior (Lei do Divórcio de 1977),39 o
tempo mínimo de evolução da doença mudou de cinco para dois anos, e o jul-
gador não poderá mais recusar a homologação da separação judicial alegando
a possibilidade de agravar ainda mais a situação do enfermo.
Nesses casos, dificilmente caberá perícia, mas é fundamental que o
profissional da área da saúde mental tenha conhecimento desses artigos
para poder orientar de forma adequada seus pacientes.
Caso ocorra a separação e fique comprovada a incapacidade do enfer-
mo de se autossustentar, ele está autorizado a pleitear alimentos daquele que
tiver possibilidade de prestá-los, conforme o Artigo 1.695 do Código Civil.15
O modelo a seguir é muito semelhante ao da perícia para avaliação da
capacidade civil. Trata-se de uma perícia solicitada pelo Oficial de Registro
56 Barros & Teixeira (orgs.)

de Matrimônio, via juiz, após suspeitar da capacidade mental do noivo. A


investigação tem por objetivo avaliar a capacidade mental para se casar e
irá prevenir a anulação do casamento por uma das partes, como demanda-
da anteriormente.

MODELO DE PERÍCIA (CAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: CAPACIDADE PARA CONSTITUIR MATRIMÔNIO
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, xx/xx/xxxx e xx/xx/xxxx, em consultório privado situado à xxx, foi
examinado um indivíduo adulto do sexo masculino, identificado como o periciando aci-
ma referido.
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhado da noiva, Srta. xxx, RG n-o- xxx, e dos genitores.
Foi apresentada cópia de relatório médico da Dra. xxx, CRM xxx, que examinou o
periciando em consulta no dia xx/xx/xxxx, sem que tenham sido encontrados sinais de
incapacidade.
As informações foram colhidas de ambos os cônjuges, de forma adequada e deta-
lhada, colaborando para a elaboração do laudo.
Sem intercorrências.
2 – DADOS DOS AUTOS
Solicitada perícia médica para avaliar a capacidade do periciando de praticar atos
da vida civil, especificamente constituir matrimônio.

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/SP e procedente de xxx/SP, onde vive atualmente na residência da
família da noiva. Idade de 19 anos, branco, solteiro, sem filhos. Exerce a profissão de
carregador, com registro na carteira; estudou até o 2o ano do ensino médio.
Primeiro filho de uma prole de três filhos de casal não consanguíneo. Nascido de
gestação fisiológica com parto normal a termo. Desenvolvimento neuropsiquicomotor
dentro dos limites da normalidade. Aleitamento materno.
Infância aparentemente normal, sem relato de patologias ou traumas. Boa capaci-
dade de socialização.
Em idade escolar, tinha rendimento satisfatório e cursou até o 2o ano do colegial
(ensino médio). Foi reprovado na 4a série, aparentemente em decorrência de baixa mo-
Manual de perícias psiquiátricas 57

tivação. Conseguiu desenvolver as capacidades de escrita, leitura e cálculo e parou os


estudos para poder trabalhar. Sem transtornos de aprendizado ou de comportamento.
O seu atual emprego é o primeiro com registro em carteira. Antes, já havia traba-
lhado em diversas áreas de atuação, como em bicicletaria, em lanchonetes, em serra-
lharia e como porteiro.
Refere ter tido várias namoradas, porém em nenhum relacionamento teve intenção
de constituir família, o que ocorre em seu relacionamento atual. Já está namorando há
um ano, e há seis meses ficou noivo.
O periciando sempre viveu com seus pais, com quem tinha relacionamento estável
e harmonioso. O relacionamento era mais distante, apenas com seu genitor, pois ele
era muito nervoso e autoritário. Chegou a trabalhar por seis meses em uma lanchonete
de propriedade de seu pai, com isso ajudando no orçamento doméstico.
Segundo sua noiva, o periciando é uma pessoa muito esforçada e honesta. Acredi-
ta que foram impedidos de casar apenas por divergências familiares, que já vinha ocor-
rendo desde que ficaram noivos. Também desconfia que essa situação pode ser mo-
tivada por racismo ou porque os pais dele não aceitam o fato de ela ser mais velha ou
de já ter uma filha.
Segundo seus genitores, o comportamento do periciando mudou muito depois que
ficou noivo. Passou a evitar contato com os pais e, quando questionado sobre o casa-
mento, ficava muito irritado e tinha crises de choro. Decidiram por impedir o matrimô-
nio devido à suspeita de ele estar sendo manipulado e porque havia comentários de
uma possível “profecia” que obrigava o periciando a casar-se no máximo até dezem-
bro. Desconfiaram que esta predição teria sido dita pela mãe da noiva, a qual é pasto-
ra na igreja que o casal frequenta.
Acrescentam que ele sempre negou a história dessa possível “profecia” e que pre-
tendia constituir família por convicção no sentimento do casal. Atualmente, conseguiram
resgatar o relacionamento com o filho e percebem que ele está mais calmo e centrado.
Desde que o casamento foi impedido, o periciando está vivendo junto da família de
sua noiva. Os dois ainda não estão em relacionamento marital, pois alegam que esse
tipo de união é contrário aos mandamentos da sua igreja.
O periciando refere ter usado maconha algumas vezes na sua adolescência e que
fazia uso de etílicos socialmente. Parou de beber há mais de dois anos, porque não
queria correr o risco de ficar dependente e porque tem seguido de forma mais rigorosa
as doutrinas de sua igreja (Pentecostal Monte do Senhor).

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, anictérico, eupneico.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador e mantém comportamento ade-
quado para a ocasião.
• Apresentação geral: facies indiferente, asseado, vestes limpas e adequadas.
• Afeto: pouco ansioso, associado ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, conteúdo compatível com contexto sociocultural,
sem delírios, sem alteração de conteúdo ou forma.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos.
• Capacidade intelectual: adequada.
58 Barros & Teixeira (orgs.)

• Capacidade de abstração: limitada.


• Atenção: normotenaz.
• Funções cognitivas (orientação, memória): orientado globalmente; memória pre-
servada.
• Juízo crítico da realidade: preservado.
• MMSE: 30/30

6 – DISCUSSÃO / CONCLUSÃO
O periciando não apresenta qualquer patologia psiquiátrica que comprometa sua
capacidade de entendimento ou autodeterminação.
Apresenta capacidade mental adequada para tomar suas próprias decisões.
Diante do exposto até o momento, concluímos ser o periciando capaz de gerir seus
bens e sua vida cível e de constituir matrimônio.

7 – QUESITOS
[Responder a todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.]

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

GUARDA DE MENORES OU
DESTITUIÇÃO DO PODER FAMILIAR
Ao contrário da anulação de casamento, ações relacionadas a guarda de me-
nores ou destituição do poder familiar são cada vez mais comuns (sobretudo
as primeiras), levando a um aumento das solicitações de perícia psiquiátrica.
Tal fato é decorrente do aumento das separações conjugais, comum na
sociedade moderna, e, mais recentemente, da lei da Síndrome da Alienação
Parental. Apesar da denominação – síndrome –, não se trata propriamente
de uma doença mental, tendo sido a princípio descrita nos Estados Unidos,
em 1987, como um conjunto de sinais exibidos pelo menor, o qual é vítima
de uma disputa entre seus pais, que se empenham em denegrir a imagem
do outro.40
No Brasil, a Lei 12.318 de 26/08/201041 estabelece os critérios para
que um genitor seja considerado alienador:
Manual de perícias psiquiátricas 59

Artigo 2o – Considera-se ato de alienação parental a interferência na


formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou in-
duzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança
ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que
repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manu-
tenção de vínculos com este.

No texto legal vê-se claramente que a alienação parental é definida


pela ação de algum dos parentes, não por sua consequência para a criança;
independentemente de o filho desenvolver ou não a rejeição a um dos ge-
nitores, a interferência para que isso aconteça pode já caracterizar tal fenô-
meno. Com isso, podemos inferir que o juiz pode se convencer da ocorrên-
cia da alienação parental com base em um conjunto de provas que dispense
a perícia – as modalidades de prova documental, testemunhal e mesmo por
presunção podem bastar. Tanto é assim que a lei faculta ao juiz pedir ou não
a perícia (Artigo 5o).41 Contudo, quando esta é necessária, o ideal é que seja
realizado um estudo biopsicossocial detalhado, pois são casos muito delica-
dos e de difícil avaliação.

Artigo 5o- Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em


ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia
psicológica ou biopsicossocial.

A alienação poderá ocorrer de diversas formas, desde apresentação


de falsas denúncias, dificultação do contato e do convívio com o genitor
e omissão de informações relevantes até a grave desqualificação psíquica
ou moral do outro. Infelizmente, não são todas as comarcas que contam
com uma equipe completa para realizar avaliações dessa natureza, a qual
deve ser constituída de psiquiatra, psicólogo e assistente social. Em geral,
cada profissional fará seu laudo e o apresentará separadamente no proces-
so. O ­psiquiatra perito deverá avaliar as condições mentais dos pais, deter-
minar seu perfil de personalidade e a relação das alterações encontradas
com a possibilidade de alienação. Os menores afetados também deverão ser
examinados, e, nesse caso, o perito poderá complementar seu trabalho com
uma avaliação cuidadosa de um psiquiatra especialista em infância e ado-
lescência.
Sendo essa uma questão bastante específica, abre-se por vezes a neces-
sidade de uma avaliação ainda mais especializada, surgindo a possibilidade
de uma nova área de atuação da psiquiatria, a psiquiatria forense da infân-
cia e adolescência (Capítulo 8). Trata-se de uma subespecialidade de impor-
tância, considerando o progressivo aumento na demanda de avaliação peri-
cial de menores.
60 Barros & Teixeira (orgs.)

Já no que se refere à perda do poder familiar, anteriormente denomi-


nado de pátrio poder, será imposta essa sanção à falta grave dos deveres
dos pais com os filhos. Nesse caso, leva-se em consideração a segurança que
deve ser oferecida à criança, bem como o direito de seu desenvolvimento fí-
sico, intelectual e moral, segundo Código Civil,15 transcrito a seguir.

Artigo 1.638 – Perderá por ato judicial o poder familiar o pai ou a


mãe que:
I – castigar imoderadamente o filho;
II – deixar o filho em abandono;
III – praticar atos contrários à moral e aos bons costumes;
IV – incidir, reiteradamente, nas faltas previstas no artigo antecedente.

Talvez mais do que em outras áreas, é fundamental rememorar que a


função do médico é atestar a presença ou não de transtornos mentais, bem
como sua relevância para a lide em questão. Assim, a perícia psiquiátrica
não se presta a dizer se há ou não alienação parental, ou se os genitores são
ou não bons pais. Deve, isso sim, dizer se os responsáveis apresentam trans-
tornos, por exemplo, que impeçam o exercício da paternidade, ou se há do-
enças mentais nas crianças que indiquem sofrimento. As ilações feitas a par-
tir desses elementos cabem aos operadores do Direito.
Apresentamos a seguir um modelo de perícia em uma ação de perda do
poder familiar. A pericianda apresenta quadro compatível com transtorno da
personalidade borderline associado ao uso de drogas. Considerando a gravi-
dade da condição psiquiátrica, foi considerada incapaz para os cuidados de
sua prole – o que não significa dizer que todo paciente com tal transtorno
apresente essa incapacidade.

MODELO DE PERÍCIA (INCAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: DESTITUIÇÃO DO PODER FAMILIAR
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:


Manual de perícias psiquiátricas 61

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas do Bloco D da CIDADE JUDICIÁRIA,
foi examinado um indivíduo adulto do sexo feminino, identificado como a pericianda
acima referida.
Compareceu munida de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhada de seu pai, Sr. xxx, RG n-o- xxx.
Foram apresentados os seguintes documentos comprobatórios de estado de saúde:
- Receituário da Dra. xxx, CRM xxx, datado de xx/xx/2010, referindo o uso de ris-
peridona 2 mg/dia e de clorpromazina 25 mg/dia.
- Declaração da psicóloga xxx, CRP xxx, de xx/xx/2010, referindo que a pericianda
está em tratamento no CAPS-AD, sem referência a diagnósticos e implicações.
As informações foram colhidas com ambos, de forma adequada e detalhada, cola-
borando para a elaboração do laudo.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


O Ministério Público move ação de destituição de pátrio poder em relação à perician-
da. Consta que, desde a gestação de sua filha, a pericianda se comportava de modo
irresponsável e autodestrutivo, fazendo uso de drogas e medicamentos. A criança foi
abrigada logo após o nascimento, visto que a família extensiva não tinha interesse em
ficar com a menor (fls. 02-06).
Consta relatório médico do serviço de saúde xxx, de xx/xx/2010, referindo que a
pericianda está em tratamento no CAPS-AD desde xx/xx/2010, sem referência a diag-
nósticos e implicações (fls. 34).

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural e procedente de xxx/SP, onde atualmente vive sozinha. Idade de 32 anos,
branca, solteira. Tem uma filha de 1 ano e cinco meses que está em abrigo. Possui for-
mação universitária, atualmente trabalhando como operadora de telemarketing.
Última filha de uma prole de dois filhos de casal não consanguíneo. Nascida de ges-
tação fisiológica e parto normal a termo.
Desenvolvimento neuropsiquicomotor dentro dos limites da normalidade. Sem rela-
to de patologias graves ou traumas. Desempenho escolar pouco satisfatório, com mui-
tas dificuldades no relacionamento interpessoal com professores e colegas de sala.
Segundo o acompanhante, desde a adolescência a pericianda vem demonstran-
do muita agressividade, impulsividade e ideias supervalorizadas (delirantes?). Sempre
manifestou pensamentos de que estava sendo prejudicada de alguma forma. Nessa
fase, o convívio familiar estava gravemente afetado pela separação conjugal dos pais.
Aos 21 anos ingressou em universidade no curso de música. Permaneceu em xxx
por seis anos. Refere que tinha boa adaptação, porém apresentava dificuldades finan-
ceiras e acabou voltando para sua cidade, onde passou a residir com sua mãe. Durante
o período de faculdade, fez uso de maconha, aparentemente de forma recreativa e sem
história de complicações. Fazia uso também de etílicos, aparentemente de forma social.
Não chegou a constituir família, porém teve um filho de convívio temporário, o qual
vive aos cuidados da requerente. Refere que manteve namoro por período curto e que
a relação era permeada por brigas constantes entre o casal. Certo dia, seu namorado
foi embora e deixou a criança aos cuidados da pericianda.
62 Barros & Teixeira (orgs.)

Sempre teve dificuldades no relacionamento com sua mãe, que era agravado
pela sua falta de autonomia. Não conseguia ganhar dinheiro suficiente com músi-
ca. Segundo o acompanhante, nos últimos anos a pericianda chegou a consumir
bebida alcoólica diariamente durante um tempo, período em que ficou ainda mais
agressiva. Apresentava importante alteração de comportamento quando estava so-
bre efeito de álcool.
Ainda de acordo com o acompanhante, a pericianda tem baixo limiar à frustração
e, quando fica nervosa, quebra objetos e ameaça a família. Durante a gestação, após
passar alguns meses na casa de seu pai, ambos se envolveram em uma discussão
devido a gastos excessivos com telefone celular e acabaram se agredindo fisicamente.
O Sr. Xxx descreve sua filha como uma pessoa muito desconfiada e instável.
Desde que ficou grávida de um relacionamento passageiro que teve na cidade xxx,
esses episódios se intensificaram, e a pericianda acabou sendo internada quatro vezes
em hospitais psiquiátricos. Esteve internada duas vezes na xxx, uma vez em xxx e uma
vez em xxx.
A pericianda, no momento, está em seguimentos no CAPS-AD, pois, assim que per-
deu a guarda do filho, passou a consumir etílicos de forma descontrolada. Nega uso
de maconha ou de outras drogas no momento. Está em uso das medicações já referi-
das e participa de psicoterapia semanal. Refere que está bem no momento, que man-
tém abstinência de qualquer substância psicoativa e que procura fazer uso correto das
medicações indicadas.
Não há relato de comprometimento de funções neurocognitivas ou alucinações.
Sem relato de doença neurológica.
Sem antecedente familiar de doença psiquiátrica.

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corada, hidratada, anictérica, eupneica.
Sem sinais neurológicos grosseiros. Sem outros sinais de importância médico-legal.
5 – EXAME DO ESTADO MENTAL
Estabelece contato pouco produtivo com o examinador e mantém comportamento
inadequado para a ocasião. Em vários momentos, irritou-se com os questionamentos
e ameaçou sair da sala. Hostil com o examinador, alegando que este estaria envolvido
com o tráfico de crianças por ser professor universitário.
• Apresentação geral: facies indiferente, asseada, vestes limpas e adequadas.
• Afeto: irritado e desconfiado, associada ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógica deficitária, coerente, de conteúdo paranoide e autorreferen-
te (delírios? ideias supervalorizadas?). Crítica e insight reduzidos em relação ao
seu estado mórbido.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: comprometida.
• Atenção: normotenaz.
• Funções cognitivas (orientação, memória): orientada globalmente; memória pre-
servada.
• Juízo crítico da realidade: prejudicado no momento.
Manual de perícias psiquiátricas 63

6 – DISCUSSÃO
Transtorno da personalidade, F60 (CID-10 – OMS):35
Caracteriza-se por perturbação grave da constituição caracteriológica e das tendên-
cias comportamentais do indivíduo, em geral envolvendo várias áreas da personalida-
de e quase sempre associada a consideráveis rupturas pessoal e social. Há, em geral,
sentimentos crônicos de vazio. Objetivos e preferências internas (incluindo sexual) são
com frequência pouco claras ou perturbadoras.
Transtorno da personalidade emocionalmente instável, subtipo borderline, F60.3
(CID-10 – OMS):35
Caracterizado por tendência nítida a agir de modo imprevisível sem consideração
pelas consequências; humor imprevisível e caprichoso; tendência a acessos de cóle-
ra e incapacidade de controlar os comportamentos impulsivos; tendência a adotar um
comportamento briguento e a entrar em conflito com os outros, particularmente quan-
do os atos impulsivos são contrariados ou censurados. Dois tipos podem ser distintos:
o tipo impulsivo, caracterizado sobretudo por instabilidade emocional e falta de contro-
le dos impulsos; e o tipo borderline, caracterizado, além disso, por perturbações da
autoimagem, do estabelecimento de projetos e das preferências pessoais, por sensa-
ção crônica de vacuidade, por relações interpessoais intensas e instáveis e por ten-
dência a adotar um comportamento autodestrutivo, compreendendo tentativas de sui-
cídio e gestos suicidas.
Esse quadro ainda pode ser caracterizado por comportamento psicopático (socio-
patia) e tendência a estados psicóticos passageiros com pensamentos supervaloriza-
dos/delirantes e alterações sensoperceptivas.42
Transtorno mental e de comportamento decorrente do uso de canabinoides, sub-
tipo uso nocivo, codificado como F12.1. Trata-se do indivíduo que faz uso frequen-
te de substância psicoativa, com características de adição, porém sem prejuízo grave
de funções psicossociais. Também denominado viciado, usuário habitual ou funcional
(segundo classificação da UNESCO).

7 – CONCLUSÃO
Considerando as evidências mostradas até aqui, a pericianda apresenta quadro
compatível com transtorno da personalidade borderline, F60.3, com aspectos psi-
copáticos, associado a transtorno mental decorrente de uso de Cannabis, F12.1.
Diante do exposto até o momento e tendo em conta as características do quadro
clínico em pauta, concluímos ser a periciada incapaz de oferecer os cuidados neces-
sários mínimos ao bem-estar do menor.

8 – QUESITOS
[Responder a todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.]

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor
64 Barros & Teixeira (orgs.)

Já no caso do laudo a seguir, a pericianda também apresentava o diag-


nóstico de transtorno da personalidade borderline, mas não foi encontrado
motivo psiquiátrico que a impedisse de ter a guarda do filho, conforme mos-
tra o documento. Fica mais uma vez claro que não é o diagnóstico, por si só,
que determina a consequência jurídica. Esta depende sempre do quadro clí-
nico e de suas implicações para a questão posta.

MODELO DE LAUDO (CAPAZ)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: DE GUARDA DE MENOR
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – PREÂMBULO
Conforme solicitação da Divisão de Pediatria do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, foi realizada avaliação psiquiátrica de xxx,
portadora do documento de identidade número xxx-x, no Núcleo Forense (NUFOR) do
Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universi-
dade de São Paulo, na data de xx/xx/2011.

2 – IDENTIFICAÇÃO
xxx, 40 anos, nascida em xxx, amasiada e com um filho. Residente à xxx.

3 – HISTÓRIA
Relata que foi demandada a passar por avaliação pericial com o objetivo de julgar
sua capacidade de prover os cuidados adequados ao filho, xxx, nascido em xxx. Conta
que este nasceu prematuro de 32 semanas e se encontra internado, aguardando ape-
nas a definição da perícia para a liberação da alta.
O menino é fruto de seu relacionamento com o atual companheiro, com o qual está
há oito meses. Como se tratava de gestação não planejada, durante todo o seu trans-
correr ela manifestava o interesse pelo abortamento, porém diz ter sido impedida pelo
companheiro de executar o ato. Sem outros filhos, já teve uma gravidez prévia, inter-
rompida propositalmente.
No decorrer da última gravidez e nos dias seguintes ao parto, sentia-se angustiada
com sua nova situação de vida e chegou a ter piora dos sintomas depressivos na oca-
sião. Com medo de não receber o devido apoio da família e de seu companheiro, pen-
Manual de perícias psiquiátricas 65

sava constantemente em desistir da gestação. Após o nascimento da criança, por al-


gumas vezes, pensou em agredi-la e até mesmo matá-la.
Em decorrência de tais fatos, tem sido impedida de receber seu filho após a alta
hospitalar. O ocorrido já foi comunicado à Vara da Infância e da Juventude, já tendo
sido acionado o Conselho Tutelar de sua cidade.
Confessa que, no início, teve, por algumas vezes, ímpetos de sufocar seu filho e
até mesmo atirá-lo contra a parede. Atrela a raiva à sensação de insegurança que ti-
nha em ser mãe, às incertezas que tem com relação ao companheiro e às dificuldades
que enfrenta em seu ambiente familiar.
Desde o nascimento, a criança necessitou de acompanhamento hospitalar por com-
plicações clínicas. Durante todo o período, a pericianda tem acompanhado diariamente
a evolução de seu filho. De modo concomitante, desenvolveu melhor crítica sobre sua
situação e, hoje, apesar de insegura, acredita estar mais bem adaptada à nova função
de mãe. Arrependida de suas ideias prévias, atualmente diz conseguir perceber que
eram frutos do desespero em que se encontrava, tendo sido potencializadas pela ins-
tabilidade de suas emoções, a qual diz lhe ser característica.
xxx faz acompanhamento psiquiátrico em regime ambulatorial, alega ter transtorno
da personalidade borderline, depressão, cleptomania e transtorno alimentar. Julga que
as duas últimas condições estão controladas. Descreve como seus principais proble-
mas: a instabilidade emocional; os frequentes períodos de depressão e ansiedade; as
dificuldades em manter relacionamentos estáveis; e o constante medo de ser abando-
nada pelas pessoas com quem tem vínculos.
Conta história de desenvolvimento de personalidade com relacionamentos instá-
veis e tempestuosos; brigas frequentes; dificuldades de adaptação às normas; furtos;
impulsividades; e mau desempenho acadêmico e profissional. Nega uso de álcool ou
drogas ilícitas. Afirma sentimento de vazio frequente e baixa autoestima; teve três ten-
tativas de suicídio prévias, a última há mais de três anos. Todas foram motivadas por
um estressor ambiental claro. Sem história concreta de atos agressivos.
Em uso atual de medicações psicotrópicas, refere boa aderência e resposta favorá-
vel tanto às medicações como aos tratamentos não farmacológicos, como a psicotera-
pia. Mora com o pai, que lhe fornece suporte ao tratamento. Ajuda nos cuidados de dois
irmãos especiais (sic), a irmã dita com atraso de desenvolvimento neuropsicomotor e o
irmão com sequelas pós-traumatismo craniencefálico, o qual é descrito como agressivo.

4 – DESCRIÇÃO
Apresenta-se com cuidados à aparência adequados e roupas alinhadas. Aparên-
cia cansada e estafada, a qual atribui às viagens diárias que faz de sua cidade de re-
sidência ao hospital.
Sua atitude geral é colaborativa, responde às perguntas de forma bastante articula-
da, não demonstrando timidez ou insegurança durante a entrevista. Durante toda a ava-
liação, mostra-se apreensiva e aflita com a possibilidade de perder o direito à guarda de
seu filho; sente-se ameaçada com a possibilidade de a criança ser destinada a um abrigo.
Mantém-se adequada ao ambiente, sem atitudes hostis ou agressividades.
Atenção focada na entrevista, sem dificuldades para rememorar fatos remotos ou
recentes.
Vígil, orientada no tempo e no espaço.
66 Barros & Teixeira (orgs.)

Humor levemente polarizado para a depressão. Ansiedade importante, angustiada.


Não apresenta pensamentos de morte ou ideação suicida.
Inteligência dentro dos limites da normalidade.
Pensamento sem alterações de curso, forma ou conteúdo.
Juízo de realidade preservado. Comenta sobre a dificuldade em lidar com a situa-
ção do momento e sobre o medo de perder o direito à guarda de seu filho.
Não apresenta vivências alucinatórias nem comportamento que as sugira duran-
te a entrevista.
Nega pensamentos heteroagressivos.
Personalidade imatura, baixa capacidade de insight.
Sem alterações de psicomotricidade.

5 – DISCUSSÃO
A personalidade de um indivíduo é definida a partir da totalidade dos traços emo-
cionais e do comportamento, integrando seu modo de sentir e processar as emoções e
sua forma de agir. Um transtorno da personalidade aparece quando tais traços são in-
flexíveis e mal ajustados, prejudicando a adaptação do indivíduo às situações que en-
frenta, causando a ele ou aos próximos sofrimento e mal-estar.
Os indivíduos com transtorno da personalidade borderline possuem caracteristi­
camente grande instabilidade de emoções, com esforços excessivos de evitar ou impe-
dir o abandono real ou mesmo imaginário por parte daqueles com quem se relacionam.
A percepção da rejeição iminente pode ocasionar profundas alterações na autoimagem,
na cognição e no comportamento, o que pode culminar em rompantes de raiva inade-
quados e até mesmo em atos impulsivos. Os sintomas tendem a ser transitórios, e as
expressões de raiva, com frequência, são seguidas de vergonha e culpa.
O tratamento desse transtorno é bastante longo e necessita de abordagem multidis-
ciplinar intensa; apoia-se essencialmente em intervenções psicofarmacológicas e psi-
coterápicas. A questão do curso e prognóstico é indefinida, podendo seguir um com-
prometimento sócio-funcional duradouro ou mesmo uma evolução muito mais favorável
na maior parte dos pacientes que realmente se dispõem ao tratamento, sendo o enga-
jamento do indivíduo o principal determinante na evolução.
No momento, o que se pode observar na entrevista de xxx é que esta se mostra
envolvida com seu acompanhamento psiquiátrico e que se encontra em um momento
de relativa estabilidade de sua condição. Não existem fatos concretos de descontrole
do impulso nem mesmo motivações agressivas que justifiquem prever atos violentos.
A pericianda se mostra interessada em assumir a guarda de seu filho, viajando diaria-
mente de sua cidade para São Paulo a fim de visitá-lo, e tem procurado apoio em sua
rede familiar para prover os cuidados necessários.

6 – CONCLUSÃO
Conclui-se a partir do exposto que a pericianda apresenta transtorno da persona-
lidade borderline (F60.3, CID-10),34 necessitando de acompanhamento médico e psi-
cológico contínuo. No entanto, tal condição não a impede no momento de exercer as
atividades de maternagem, já que não foram encontradas condições concretas e imi-
nentes de risco ao seu filho, de acordo com o que pode ser apreendido nesta avaliação.
Em se tratando de uma condição clínica caracterizada por grande instabilidade, faz-
-se necessário atrelar os cuidados da criança a um tratamento eficiente da mãe, tanto
para prevenção de recaída de sintomas como para acompanhamento de possíveis si-
Manual de perícias psiquiátricas 67

tuações de risco. Ademais, é importante a participação de instrumentos estatais desti-


nados a supervisionar e monitorar os cuidados da criança, como, por exemplo, a Vara
da Infância e Juventude.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor
Esta página foi deixada em branco intencionalmente.
capítulo

PERÍCIA EM
DIREITO PENAL
6
Eduardo Henrique Teixeira
Daniel Martins de Barros

I
nicialmente, é fundamental entender o significado de alguns termos
utilizados na lei, os quais servirão de base para a perícia psiquiátrica
na área criminal. No Capítulo III do Código Penal, Artigo 26,18 estão
descritas as situações relacionadas à imputabilidade penal, como transcrito
a seguir.

Artigo 26 – É isento de pena o agente que, por doença mental ou desen-


volvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou
da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato
ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Redução de pena
Parágrafo único – A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o
agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvi-
mento mental incompleto ou retardado, não era inteiramente capaz
de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com
esse entendimento. (grifos nossos)

A capacidade de entender refere-se à possibilidade que o indivíduo tem


de conhecer e compreender a natureza, as condições e as consequências do
ato ilícito. De forma mais específica, essa capacidade significa ter conheci-
mento da penalidade, da organização legal e das consequências sociais, vis-
ta sob uma ótica apropriada de lucidez, de atenção, de orientação, de me-
mória e de inteligência.
Já a capacidade de determinar-se está relacionada diretamente ao com-
ponente volitivo (vontade) da ação, ou seja, à possibilidade de o indivíduo
escolher entre praticar ou não o ato, estando em condições mentais adequa-
das para uma reflexão prévia dentro de um processo volitivo normal. Re-
quer, portanto, que esteja livre de qualquer condição mórbida que possa in-
terferir ou abolir essa capacidade de reflexão.
Os termos utilizados no Artigo 26 e seu parágrafo único para definir os
quadros psiquiátricos não correspondem diretamente à nomenclatura utili-
70 Barros & Teixeira (orgs.)

zada pelo sistema de classificação médica, seja a CID-10,35 seja o DSM-IV-


-TR43 ou o DSM-5.44 Será função do psiquiatra forense fazer a aproximação
dos termos descritos na lei com aqueles utilizados nos sistemas de classifi-
cação em voga.
Em relação ao termo desenvolvimento mental retardado, como já des-
crito no Capítulo 5, refere-se àqueles transtornos psiquiátricos que afetam
a capacidade intelectual, denominados como retardo mental pela CID-10.35
Para os diferentes níveis do retardo mental – leve, moderado, grave e pro-
fundo –, alguns termos ainda aparecem na área de direito, a saber: debilida-
de mental, para retardo mental leve; imbecilidade, para retardo mental mo-
derado; e idiotia, para retardo mental grave ou profundo.
Em relação ao termo desenvolvimento mental incompleto, devem ser in-
cluídos nesse grupo aqueles pacientes que não conseguiram atingir maturi-
dade de funções mentais importantes e que têm sua capacidade de enten-
dimento comprometida. Em geral, são indivíduos que sofreram alguma pri-
vação que afetou seu desenvolvimento ou acometidos por autismo, alguma
deficiência sensorial não adequadamente estimulada, como surdo-mudez,
ou, ainda, alguma síndrome genética. Vale lembrar que o Código Penal18 é
de 1940, quando esse termo era utilizado sobretudo em relação aos silvíco-
las aculturados (indígenas), situação pouco provável nos dias atuais.
Já o termo doença mental, presente também no Código Civil,15 pode
abranger qualquer diagnóstico psiquiátrico cuja gravidade seja suficiente
para levar à perda de entendimento ou autocontrole. Pela necessidade de
ser grave, costuma incluir psicoses (agudas, esquizofrenia, transtorno deli-
rante, psicoses orgânicas e psicoses secundárias), fase de mania do transtor-
no bipolar, demências e epilepsias, as quais afetam totalmente a capacida-
de de entendimento ou de autodeterminação do examinando, desde que te-
nham nexo de causalidade com o ato ilícito.
O mesmo serve para o termo perturbação da saúde mental, relativo ao
parágrafo único do Artigo 26 do Código Penal:18 qualquer diagnóstico pode
aí ser enquadrado, desde que influencie o entendimento ou autocontrole,
sem, no entanto, aboli-los. Seguindo o mesmo raciocínio, nessa categoria,
na maior parte das vezes, incluem-se os transtornos da personalidade e as
antigamente chamadas neuroses. Trata-se de um grupo bastante amplo, e
sua principal característica é estar entre a imputabilidade e inimputabilida-
de, a chamada semi-imputabilidade. Em geral, é tema de muita discussão,
pois, além de não ser reconhecida em muitos países, é muito difícil estabele-
cer uma condição que está entre o normal e o patológico.
Segundo Jesus,45 em seu livro de direito penal, esse grupo compreen-
de os casos benignos ou fugidios de certas doenças mentais; as formas me-
nos graves de debilidade mental; os estados incipientes, estacionários ou
residuais de certas psicoses; os estados interparoxísticos dos epilépticos e
histéricos; certos intervalos lúcidos ou períodos de remissão; certos estados
Manual de perícias psiquiátricas 71

psíquicos decorrentes de especiais estados fisiológicos (gravidez, puerpério,


climatério, etc.); e as chamadas personalidade psicopáticas.45 Assim, fica
demonstrada a impossibilidade de se querer estabelecer um enquadramento
automático de certos diagnósticos em determinados artigos: se o sujeito está
em intervalo lúcido, pode não haver qualquer alteração do entendimento e
vontade – e, nesse caso, a pessoa seria imputável. Já no que se refere às per-
sonalidades psicopáticas, há pacientes que têm pleno entendimento e auto-
controle e outros que são altamente impulsivos – demonstrando que não se
pode enquadrá-los a priori.
Para todas as condições vistas até aqui, quando o indivíduo for consi-
derado totalmente incapaz de entender ou de autodeterminar-se em relação
ao ato ilícito, será considerado inimputável. Já aqueles julgados parcialmen-
te capazes de entender ou de se autodeterminar em relação ao ato ilícito
serão considerados semi-imputáveis. O termo imputar (do latim imputare)
significa atribuir a alguém a responsabilidade de um ato. Segundo Damásio,
a presença da causa (p.ex., doença mental) e do efeito (incapacidade de en-
tender e de querer) é que faz surgir a inimputabilidade.45
Ao indivíduo totalmente capaz de entender ou de se autodeterminar
será imputada a responsabilidade do ato ilícito, mesmo que ele apresente al-
gum transtorno mental. Imputável é o sujeito mentalmente são e desenvol-
vido, que possui capacidade de saber que sua conduta contraria os manda-
mentos da ordem jurídica,45 ou aquele que apresente um transtorno mental,
inclusive grave, mas que não guarde relação com o crime em questão – note
que a lei determina que a imputabilidade não se deve à presença da doença,
mas à privação do entendimento ou autodeterminação para o ato em ques-
tão causada pela moléstia.5
Ao inimputável, nos termos do Artigo 26 do Código Penal, caput, aplica-
-se a medida de segurança. Embora isento de pena, o indivíduo ficará sujeito a
internação em hospital de custódia ou tratamento ambulatorial, dependendo
do ato ilícito praticado, conforme os Artigos 96 e 97 do Código Penal.18

Artigo 96 – As medidas de segurança são:


I – internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico ou, à
falta, a outro estabelecimento adequado;
II – sujeição a tratamento ambulatorial.
Parágrafo único: Extinta a punibilidade, não se impõe medida de se-
gurança nem subsiste a que tenha sido imposta.
Imposição da medida de segurança para inimputável
Artigo 97 – Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua inter-
nação (artigo 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível
com detenção, poderá o juiz submetê-lo a tratamento ambulatorial.
Prazo
§ 1o. A internação, ou tratamento ambulatorial, será por tempo inde-
terminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante perícia
72 Barros & Teixeira (orgs.)

médica, a cessação de periculosidade. O prazo mínimo deverá ser de


1 (um) a 3 (três) anos.

Considerando os dizeres do Artigo 97 o juiz decidirá qual será o tipo de


tratamento da medida de segurança, de acordo com o crime cometido e sua
respectiva pena.18 Mesmo assim, o perito poderá incluir no laudo sua indi-
cação médica de tratamento baseada somente nos aspectos clínicos da pato-
logia, que poderá ou não ser considerada pelo juiz.
Segundo o Artigo 32 do Código Penal,18 os tipos de penas são três: pri-
vativas de liberdade (reclusão ou detenção), restritivas de direito (prestação
de serviços, interdição temporária de direito e limitação de fim de semana)
e multa. Quando houver condenação com reclusão, a pena se iniciará em re-
gime fechado e, nesse caso, o inimputável cumprirá a medida de segurança
em ambiente específico.
Ao semi-imputável, nos termos do parágrafo único do Artigo 26, have-
rá redução de pena de um terço a dois terços. Contudo, a punição poderá
ser substituída por medida de segurança, nos termos do Artigo 98 do Código
Penal18 (reformado em 1984), transcrito a seguir.

Artigo 98 – Na hipótese do parágrafo único do artigo 26 deste Código


e necessitando o condenado de especial tratamento curativo, a pena
privativa de liberdade pode ser substituída pela internação ou trata-
mento ambulatorial, pelo prazo mínimo de 1 (um) a 3 (três) anos, nos
termos do artigo anterior e respectivos §§ 1o a 4o.

Nesse caso, o semi-imputável terá redução da pena, mas poderá ficar


sob tratamento se cometeu crime de maior gravidade (para pena privativa
de liberdade).
Ainda em relação à imputabilidade (Capítulo III do Código Penal),18
outra condição que o psiquiatra perito deverá avaliar diz respeito ao estado
de embriaguez, como transcrito a seguir:

Artigo 28 – Não excluem a imputabilidade penal:


I – a emoção ou a paixão;
II – a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de
efeitos análogos.
§ 1º É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, prove-
niente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da
omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou
de determinar-se de acordo com esse entendimento.
§ 2º A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, por
embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, não possuía, ao
tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter
ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Manual de perícias psiquiátricas 73

O estado de embriaguez, por si só, não exclui a imputabilidade, que


pode ser voluntária ou culposa, ou seja, ingerir etílicos (ou análogos) com
ou sem a intenção de embriagar-se, mas, por imprudência, resultando em
embriaguez. Contudo, algumas situações específicas podem resultar em
inimputabilidade ou semi-imputabilidade, conforme os parágrafos 1º e 2º,
que são as ocorrências de embriaguez provenientes de caso fortuito ou força
maior. Caso fortuito refere-se à situação de embriaguez por ingestão aciden-
tal. Um exemplo seria a hipótese de um indivíduo ingerir alguma substância
sem saber que na sua composição havia etílicos ou, ainda, desconhecer sua
condição fisiológica particular, que resulta em grave embriaguez com peque-
na quantidade de etílicos ou substância análoga. Esta última possibilidade é
denominada embriaguez patológica.45 Excepcionalmente, pode ocorrer tam-
bém de o indivíduo desconhecer a interação da substância que ingeriu com
alguma medicação de que faz uso.
A condição de embriaguez patológica, denominação no âmbito jurí-
dico, tem correspondente na psiquiatria. Refere-se ao diagnóstico de trans-
torno mental e comportamental devido ao uso de substância psicoativa,
subtipo intoxicação aguda, tipo patológica, codificado pela CID-1035 como
F1x.07 (o “x” especifica o tipo de substância). Considerando a gravidade e
tendo afetada sua capacidade intelectual ou volitiva, pode-se aplicar o dis-
posto no Artigo 26 do Código Penal18 e seu parágrafo.45
São casos raros, ignóbeis e, na maioria das vezes, relacionados a ele-
vado grau de violência. O indivíduo não se recorda do ato cometido ou tem
apenas alguns flashes do momento do crime e pode ou não se lembrar de ter
ingerido álcool ou alguma outra substância previamente ao crime.
Lamentavelmente, nos poucos casos em que fiz esse diagnóstico, o ato
criminoso não tinha nenhum propósito ou explicação – e a vítima era sem-
pre um familiar ou conhecido –, como atacar sexualmente e com violência
a própria filha, em estado de total ausência de lucidez, após ingestão de pe-
quena quantidade de etílico, sendo o agente um pai presente, sem antece-
dentes e de personalidade inquestionável.
Outra situação descrita no Artigo 28 do Código Penal18 refere-se à con-
dição de força maior. Nesse caso, o indivíduo é forçado a ingerir etílico ou
alguma substância análoga, resultando em embriaguez. Também é uma situ-
ação pouco comum e de difícil comprovação. Um exemplo seria a vítima de
um assalto ser obrigada a ingerir etílicos pelos assaltantes e, em decorrência
da embriaguez, acabar participando ativamente do assalto ou praticando al-
gum outro crime. Aqui entra em cena outro tema polêmico: definir se o de-
pendente químico tinha ou não capacidade de controlar o uso da substância
que o privou do entendimento. A nova lei de tóxicos contempla essa situa-
ção, como veremos a seguir.
Por fim, na embriaguez preordenada, o indivíduo ingere etílico ou aná-
logo na intenção de ficar embriagado para praticar um ato ilícito.46 Essa si-
74 Barros & Teixeira (orgs.)

tuação é considerada um agravante nos termos do Artigo 61 do Código Pe-


nal:18

Artigo 61 – São circunstâncias que sempre agravam a pena, quando


não constituem ou qualificam o crime:
II – ter o agente cometido o crime
...
l) em estado de embriaguez preordenada.

TIPOS DE EXAMES
Os exames periciais de psiquiatria na área de direito penal são: avaliação de
insanidade mental, verificação de dependência toxicológica e verificação de
cessação de periculosidade. Até 2003, outra avaliação fazia parte deste rol:
o exame criminológico. Foi instituído pela Lei de Execução Penal de 198447
e tinha a finalidade de avaliar as condições do indivíduo para progressão
de pena. Sua obrigatoriedade foi extinta em 2003, com a Lei 10.792/13.48
­Atualmente, esse tipo de avaliação fica por conta dos Conselhos Peniten­
ciários, da direção da penitenciária e da equipe multidisciplinar que atua no
sistema prisional.

EXAME DE INSANIDADE MENTAL


Quando houver dúvida sobre a sanidade mental do acusado, o juiz determi-
nará a perícia médica, instaurando o auto de Incidente de Insanidade Men-
tal. Este poderá ser pedido pelo magistrado, pelo Ministério Público ou pelo
defensor, entre outros, conforme o Artigo 149 do Código Penal:18

Artigo 149 – Quando houver dúvida sobre a integridade mental do


acusado, o juiz ordenará, de ofício ou a requerimento do Ministério
Público, do defensor, do curador, do ascendente, descendente, irmão
ou cônjuge do acusado, seja este submetido a exame médico-legal.

O trabalho pericial terá início com a nomeação e o perito deverá rea-


lizar sua tarefa dentro das regras determinadas pelo Código Penal18 e pelo
Código de Processo Penal16 quanto a prazos, acesso ao processo e a docu-
mentos médicos e exame do réu. O Capítulo VIII do Código de Processo Pe-
nal16 define essas condições, sendo transcritas a seguir as mais relevantes.

Artigo 149...
§ 1o O exame poderá ser ordenado ainda na fase do inquérito, mediante
representação da autoridade policial ao juiz competente.
Manual de perícias psiquiátricas 75

§ 2o O juiz nomeará curador ao acusado, quando determinar o exame,


ficando suspenso o processo, se já iniciada a ação penal, salvo quanto
às diligências que possam ser prejudicadas pelo adiamento.
Artigo 150 - Para o efeito do exame, o acusado, se estiver preso, será
internado em manicômio judiciário, onde houver, ou, se estiver solto,
e o requererem os peritos, em estabelecimento adequado que o juiz
designar.
§ 1o O exame não durará mais de quarenta e cinco dias, salvo se os
peritos demonstrarem a necessidade de maior prazo.
§ 2o Se não houver prejuízo para a marcha do processo, o juiz poderá
autorizar sejam os autos entregues aos peritos, para facilitar o exame.
Artigo 151 - Se os peritos concluírem que o acusado era, ao tempo
da infração, irresponsável nos termos do artigo 26 do CP, o processo
prosseguirá, com a presença do curador.
Artigo 153 - O incidente da insanidade mental processar-se-á em auto
apartado, que só depois da apresentação do laudo, será apenso ao
processo principal.

Em relação aos artigos supracitados, o prazo para entrega do laudo


deverá ser cumprido sempre com rigor, a fim de não atrasar o andamento
do processo; contudo, poderá ser estendido quando houver necessidade de
mais tempo para a finalização do laudo. Tal situação deverá ser explicada ao
juiz, sendo geralmente atendida quando bem justificada.
Dando início aos trabalhos periciais, o médico perito tem a função de
identificar a patologia que afeta o denunciado e estabelecer o nexo de causa-
lidade com o ato ilícito. Para esse fim, o profissional terá acesso ao processo,
poderá solicitar documentos médicos que não foram apresentados nos autos
ou até pedir exames complementares, se considerar necessário.
Quanto mais detalhado for o laudo pericial, mais embasada será sua
conclusão. No entanto, na prática, é mais funcional buscar estabelecer as
conclusões periciais com base naquilo que foi apresentado no processo ou
durante a avaliação do periciando, deixando as solicitações adicionais para
aqueles casos mais complexos em que não foi possível finalizar o laudo de
forma segura e clara.
Infelizmente, em alguns casos a conclusão pericial é muito difícil, so-
bretudo porque se trata de um exame retrospectivo, às vezes realizado mui-
tos meses após o ato criminoso. Às vezes, não são encontrados familiares
para detalhar a história da doença, o periciando não colabora com o exame
e há dúvidas em relação à veracidade dos documentos apresentados. Mesmo
assim, o perito deverá fazer suas considerações e finalizar o laudo pericial.
Como a pergunta da Justiça é se, ao tempo da ação ou da omissão, havia
transtorno mental com repercussão legal, trata-se sempre de uma perícia re-
trospectiva. Há quem proponha a tentativa de um exame psíquico ao tempo
do crime, o que para nós se trata de uma impossibilidade lógica, já que essa
76 Barros & Teixeira (orgs.)

avaliação é feita a partir do que verificamos ao entrevistar a pessoa. O que


deve ser feito, isso sim, é – no tópico “Discussão” do laudo – inferir, a partir
do quadro clínico, da anamnese e de outras informações, cotejadas com o
conhecimento da história natural da doença, qual era o provável estado do
indivíduo no momento do ato.
Em geral, tratando-se de exame de insanidade mental, alguns casos
são bem caracterizados, de modo que o trabalho pericial flui de forma muito
tranquila. Apresentamos a seguir um modelo de perícia na qual os trabalhos
foram conduzidos com tranquilidade e cuja conclusão não deixa dúvida em
relação ao quesito básico, a condição da imputabilidade.
Trata-se de um caso de tentativa de homicídio cometida por um indi-
víduo com esquizofrenia. Em tratamento em um CAPS de sua cidade, ten-
tou matar seu médico por acreditar que estava sendo abusado sexualmente
pelo profissional.

MODELO DE PERÍCIA (INIMPUTÁVEL)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TITULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas da cidade de xxx, foi examinado um in-
divíduo adulto do sexo masculino identificado como o periciando acima referido.
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhado da mãe, Sra. xxx, RG n-o- xxx.
Foram apresentados os seguintes documentos médicos comprobatórios de esta-
do de saúde:
- Relatório do CAPS, de xx/xx/xxxx, assinado pelo Dr. xxx, CRM xxx, referindo que
o periciando está em tratamento na instituição devido ao diagnóstico de esquizofrenia,
F20 da CID-10.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, colaborando para
a elaboração do presente laudo. A acompanhante ofereceu poucos elementos de his-
tória e aparenta ter baixo nível cultural.
Sem intercorrências.
Manual de perícias psiquiátricas 77

2 – DADOS DOS AUTOS


Em xx/xx/xxxx, na sede do CAPS no município de xxx, o periciando, com intenção
homicida, efetuou golpe com instrumento cortante contra o médico xxx, não se consu-
mando o ato por circunstâncias alheias a sua vontade.
Foi denunciado pelo Ministério Público como incurso no artigo 121 “caput” c.c o ar-
tigo 14, ambos do Código Penal.
Consta relatório do CAPS, de xx/xx/xxxx, assinado pelo Dr. xxx, CRM xxx, referin-
do que o periciando é acompanhado há mais de cinco anos com diagnóstico compatí-
vel com esquizofrenia, F20 da CID-1035 (fls. 14).

3 – VERSÃO DO PERICIANDO
Xxx confirma o crime que lhe é imputado e apresenta explicações delirantes em re-
lação ao crime descrito na denúncia. Os delírios são de conteúdo persecutório e eroti-
zados em relação à vitima e em relação à equipe do CAPS que o assistia.
Relata que as enfermeiras “abriam as pernas para mostrar suas partes íntimas”
para ele e tentavam agarrá-lo com frequência. Os homens tentavam acariciá-lo e abu-
savam dele sexualmente. Acreditava que tinha sido sedado com medicações psiquiá-
tricas e sofrido abuso sexual enquanto dormia.
Na época, pensava o tempo todo nesse assunto e não tinha dúvidas da sua ocor-
rência. Refere ter certeza do ocorrido e que pensa em terminar o serviço que começou.
4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural e procedente de xxx/xx, onde vive com a mãe. Idade de 32 anos, solteiro,
sem filhos, 3ª série do ensino fundamental, porteiro.
Último filho de uma prole de oito filhos provenientes de casal não consanguíneo. É
o único filho homem da prole. Nascido de parto cesárea a termo de nove meses. Rela-
to de ingestão de líquido amniótico durante o parto. Desenvolvimento neuropsicomotor
dentro dos limites da normalidade.
Na infância, era uma criança com comportamento aparentemente dentro da nor-
malidade. Aos 7 anos foi atropelado e sofreu grave traumatismo craniencefálico (TCE).
Chegou a ficar dois meses internado, e recebeu alta aparentemente sem sequelas.
Em idade escolar, tinha baixo rendimento e abandonou os estudos porque não con-
seguia ir além da 3ª série. Conseguiu desenvolver as capacidades para escrita e leitura.
Trabalhou como porteiro por vários anos e foi demitido quando estava com 24 anos.
Refere que teve vários problemas com moradores de uma favela da região do condomí-
nio, os quais o perseguiam e o ameaçavam com frequência. Relata que quase foi atro-
pelado por um caminhão na saída do seu trabalho e que sempre ouvia alguns meninos
da favela dizerem que “estava chegando seu dia”.
O periciando não chegou a constituir família. Teve poucas namoradas, e seus rela-
cionamentos sempre duravam curtos períodos.
Por volta dos 25 anos, passou a apresentar comportamento agressivo e ameaçador,
aparentemente sem desencadeantes, com a equipe do centro de saúde da sua região.
A equipe, percebendo que seu comportamento não era normal, o encaminhou para o
CAPS, onde começou tratamento irregular e com baixa adesão.
Refere que não gostava do tratamento e que a insistência da equipe o incomoda-
va muito. Eles telefonavam para sua casa e cobravam sua presença no CAPS. Sem-
pre acreditou que não precisava de medicação e que a vítima e sua equipe só atrapa-
lharam sua vida.
78 Barros & Teixeira (orgs.)

Apesar de não acreditar estar doente, relata que já ouvia vozes dizendo que deve-
ria procurar uma igreja e que já viu “espíritos na forma de fumaça”. Não considera es-
ses fatos sintomas de doença.
Após o crime descrito na denúncia, ficou internado em enfermaria de psiquiatria por
seis meses. Durante esse período, via raios de luz no céu com sons de trovão e acreditava
que eram mensagem divinas. Após a alta, foi reencaminhado para tratamento no CAPS.
A acompanhante, com quem o periciando sempre viveu, acredita que o filho não tem
problemas mentais; contudo, refere que sempre trabalhou muito e, por isso, tinha pou-
co convívio com ele. Nega ter observado comportamento indicativo de alucinações ou
ideias estranhas sugestivas de delírios. Geralmente, quando o periciando ficava agres-
sivo, era por algum motivo específico. Ele não fala com uma de suas irmãs desde os 17
anos, quando os dois tiveram uma briga muito grave e foi necessário chamar a polícia.
O periciando, no momento, está em tratamento no CAPS e faz uso de Olanzapina
10 mg/dia. Refere que usa o medicamento corretamente, mas não gosta e não acredi-
ta ser necessário. Relata que fez um acordo com a equipe do CAPS de que vai usar o
fármaco por apenas três anos.
Fez uso de maconha quase diariamente dos 24 aos 29 anos. Desde que foi inter-
nado, cessou o uso. Experimentou crack e cocaína no início da idade adulta. Sem re-
lato de etilismo ou epilepsia.
Sem antecedente familiar de doença psiquiátrica.

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico. Sem sinais
neurológicos grosseiros. Sem outros sinais de importância médico-legal.

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador. Mantém comportamento adequa-
do, porém tenso e desconfiado.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, cabelos alinhados, higienizado, ves-
tes adequadas.
• Afeto: desconfiado, hipomodulando.
• Pensamento: ilógico no momento, coerente, sem alteração de fluxo, delírios de
controle, persecutório e erótico.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: comprometida.
• Atenção: hipotenaz.
• Orientação: orientado globalmente.
• Memória: aparentemente preservada.
• Juízo crítico da realidade: comprometido.

7 – DISCUSSÃO
A esquizofrenia (doença mental, nos termos do Código Penal, e enfermidade men-
tal, nos termos do Código Civil) é uma patologia psiquiátrica de curso crônico com epi-
sódios de reagudização. Caracteriza-se por importante comprometimento das capaci-
dades afetiva, pragmática e de sociabilização. Nas fases de reagudização, aparecem
pensamentos delirantes e alucinações, com total comprometimento do juízo crítico da
realidade (surto psicótico).
Manual de perícias psiquiátricas 79

Pode aparecer nas formas indiferenciadas ou desorganizadas, e o diagnóstico é fei-


to ao longo do tratamento, considerando evolução e resposta terapêutica. Essa classi-
ficação e o diagnóstico clínico podem sofrer variações diante do aculturamento do exa-
minando, do uso de substâncias psicoativas e de responsividade ao tratamento.
Considerando os dados da história pregressa do paciente e os achados do exame
clínico, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (CID-10),
trata-se de quadro compatível com Esquizofrenia, F20. Considerando as possibilidades
terapêuticas atuais, conclui-se que o mal é crônico e sem expectativas de cura ou me-
lhora. A duração do tratamento é indeterminada.

8 – CONCLUSÃO
Trata-se de quadro compatível com psicose crônica do tipo esquizofrenia, codi-
ficada como F20 pela CID-10.35
Classifica-se o periciando, segundo as prerrogativas da responsabilidade penal,
entre os inimputáveis.

9 – RESPOSTAS AOS QUESITOS


Fls. 04 – Juízo
1ª série (INIMPUTABILIDADE)
1. O periciando, por doença mental, era, ao tempo da ação (ou da omissão), intei-
ramente incapaz de entender o caráter criminoso do fato? Sim.
2. Por doença mental, embora entendendo o caráter criminoso do fato, era intei-
ramente incapaz de determinar-se de acordo com esse entendimento? Prejudi­
cado.
3. Por desenvolvimento mental incompleto, era, ao tempo da ação ou da omissão,
inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do fato? Prejudicado.
4. Por desenvolvimento mental incompleto, embora entendendo o caráter crimino-
so do fato, era inteiramente incapaz de determinar-se de acordo com esse en-
tendimento? Prejudicado.
5. Por desenvolvimento mental retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão,
inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do fato? Prejudicado.
6. Por desenvolvimento mental retardado, embora entendendo o caráter criminoso
do fato, era inteiramente incapaz de determinar-se de acordo com esse entendi-
mento? Prejudicado.
2ª série (SEMI-IMPUTABILIDADE)
1. O periciando, por perturbação da saúde mental, ao tempo da ação ou da omis-
são, era desprovido da plena capacidade de entender o caráter criminoso do fato?
Prejudicado.
2. Por perturbação da saúde mental, ao tempo da ação ou da omissão, embora en-
tendendo o caráter criminoso do fato, era desprovido da plena capacidade de
­determinar-se de acordo com esse entendimento? Prejudicado.
3. Por desenvolvimento mental incompleto, ao tempo da ação ou da omissão, era
desprovido da plena capacidade de entender o caráter criminoso do fato? Preju-
dicado.
4. Por desenvolvimento mental incompleto, ao tempo da ação ou da omissão, em-
bora entendendo o caráter criminoso do fato, era desprovido da plena capacidade­
de determinar-se de acordo com esse entendimento? Prejudicado.
80 Barros & Teixeira (orgs.)

5. Por desenvolvimento mental retardado, ao tempo da ação ou da omissão, era des-


provido da plena capacidade de entender o caráter criminoso do fato? Prejudicado.
6. Por desenvolvimento mental retardado, ao tempo da ação ou da omissão, embora
entendendo o caráter criminoso de tal ação ou omissão, era desprovido da plena
capacidade de determinar-se de acordo com esse entendimento? Prejudicado
3ª Série (DO TRATAMENTO)
1. O examinando necessita ou não de tratamento? De qual tipo: o caso exige ou
não internação? Sim, internação.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

Nesse exemplo, os sintomas e a evolução são típicos de uma esquizo-


frenia (alucinações e interpretações delirantes), e o crime foi motivado pelos
sintomas da doença (o periciando tentou matar o médico porque acredita-
va estar sendo sedado para que fosse abusado sexualmente pela equipe do
CAPS). Nesse caso, não há dúvida quanto ao diagnóstico e ao nexo de cau-
salidade, portanto o examinando foi considerado inimputável.
Já no laudo a seguir, no qual avaliamos um homem preso por abusar
sexualmente da filha, apesar de a perícia indicar a presença de um trans-
torno psicótico, os sintomas não guardavam relação com o crime. Esse caso
ilustra bem que não basta haver uma doença psiquiátrica: é necessário que
ela seja ligada ao comportamento criminoso para alterar a imputabilidade:

MODELO DE PERÍCIA (DE INSANIDADE MENTAL)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – IDENTIFICAÇÃO
Xxx, 36 anos, filho de xxx, natural de xx – PE; escolaridade: ensino fundamental
incompleto.
Manual de perícias psiquiátricas 81

2 – QUESITOS
1. O acusado era, ao tempo da ação delituosa, portador de doença mental?
2. Em caso positivo, qual doença?
3. Em caso negativo, apresentava ele desenvolvimento mental incompleto ou retar-
dado?
4. Em virtude da doença mental ou do desenvolvimento mental incompleto ou retar-
dado, era ele inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito da ação delituosa?
5. Se era capaz de entender, estava, contudo, inteiramente incapacitado de deter-
minar-se de acordo com esse entendimento?
6. Negativo o primeiro quesito, era o agente, à época do fato, portador de perturba-
ção da saúde mental?
7. Em virtude dessa perturbação, tinha ele a plena capacidade de entendimento da
ilicitude do fato ou de autodeterminação?
8. Negativos o primeiro, o quarto, o quinto e o sexto quesitos, e afirmativo o tercei-
ro, em virtude do desenvolvimento incompleto ou retardado, tinha ele, à época
do fato, a plena capacidade de entendimento da ilicitude do fato ou a autodeter-
minação?
9. Necessita o acusado de tratamento especializado?
3 – HISTÓRIA
Trata-se o presente de parecer psiquiátrico e psicológico para apurar as condições de
funcionamento mental e de personalidade do réu, referente ao processo xxx, pelo crime
capitulado no Artigo 213, por solicitação do MM. Dr Xxx – Juiz de Direito – X Vara Criminal.
Segundo o examinando, ele está preso injustamente, pois nunca fez nada de mal.
Sabe que é acusado de molestar sexualmente a filha, mas nega tal atitude, dizendo que
nunca faria isso porque sabe que é errado.
Xxx conta que começou a usar drogas na adolescência; a princípio maconha de modo
esporádico, progredindo para uso mais frequente, seguido, em diversas ocasiões, pelo
uso de cocaína. Desenvolveu com o tempo padrão de dependência de cocaína, com uso
praticamente diário. Nessa época, começou a se sentir perseguido, crendo que havia pes-
soas do tráfico observando seus passos e controlando sua vida. Passou a acreditar que
estava “grampeado”, com câmeras na sua casa e com pessoas o seguindo pelas ruas.
Fez tratamentos irregulares por um tempo, alternando períodos de abstinência com
outros de recaída, sem, contudo, ficar livre da sensação de perseguição. No entanto,
nega alterações do pensamento ou perda de controle corporal durante todo o período.
Não conseguiu frequentar mais a escola, o que atribui às perseguições. Desde então,
vive de bicos como pintor e realizando pequenos consertos domésticos.
Acredita que as atuais denúncias guardem relação com a perseguição que sofre,
mas não tem convicção. Está em tratamento psiquiátrico há três anos, período em que
refere não ter mais apresentado recaídas no uso de drogas.
Embora haja provas testemunhais e periciais (sexológico) que apontam para sua
autoria de abuso sexual da filha, Xxx insiste em dizer que não fez nada e que o caso
pode ter relação com seus perseguidores, mas não sabe explicar porquê.
4 – DESCRIÇÃO
Durante o exame, notamos apresentação e autocuidados condizentes com sua si-
tuação, estabelecendo bom contato com os examinadores.
Nível de consciência preservado, desperto, orientado no tempo e no espaço, atenção
voluntária e espontânea preservadas, memória de fixação e evocação sem déficits notáveis.
82 Barros & Teixeira (orgs.)

Pensamento e discurso não evidenciam desde logo alterações quanto à forma; no


decorrer da entrevista, deixa transparecer ideias delirantes frouxas, relacionadas a alu-
cinações auditivas aparentemente constantes, além de evidenciar concretude do pen-
samento e baixa capacidade de abstração.
Afeto não polarizado para depressão ou hipomania/mania, humor congruente com
o afeto; modulação e ressonância preservados.
Apresenta capacidade de insight prejudicada, com pouca crítica sobre seu estado.
Alucinações auditivas na 3ª pessoa, comentando seus atos e, por vezes, ameaçado-
ras, interpretadas, de forma delirante, como persecutórias.
Sem alterações na psicomotricidade.

5 – DISCUSSÃO
Com intuito de sistematizar e melhor compreender para tratar de modo mais ade-
quado os sintomas mentais, as funções psíquicas são subdivididas, permitindo que se
investigue separadamente aspectos diversos, como memória, humor, raciocínio, aten-
ção, etc. Assim, embora funcionem como um todo integrado, tais funções também po-
dem – e com frequência o fazem – adoecer de forma separada, havendo transtornos
que afetam-nas em parte, poupando algumas funções e alterando outras.
Tal é a situação do caso em tela. O periciando apresenta evidente alteração da sen-
sopercepção – ou seja, suas funções sensoriais e perceptivas – caracterizada pela pre-
sença de alucinações auditivas. Alucinação, vale lembrar, é a presença de uma per-
cepção sem que o estímulo correspondente exista na realidade – ver o que não existe,
ouvir o que não é dito, sentir cheiros que não estão sendo produzidos, etc. Por si só,
as alucinações não estabelecem um diagnóstico preciso, sendo necessária sua avalia-
ção no conjunto do exame psíquico do indivíduo. Quando em conjunto com pensamen-
to delirante, por sua vez, indicam fortemente a presença de um quadro psicótico – ou
seja, um quadro definido pela quebra, total ou parcial, das amarras que prendem o in-
divíduo à realidade. O sujeito psicótico, portanto, em um ou mais aspectos de sua vida,
perde o contato com o real, assumindo crenças e, por vezes, desenvolvendo compor-
tamentos, em função de tal transtorno.
O periciado em questão apresenta alucinações auditivas e delírios persecutórios – no
momento mais amenos, mas ainda presentes –, que são crenças inabaláveis de que estaria
sendo perseguido por um contingente enorme de pessoas, não relacionadas entre si, mas
possivelmente arregimentadas por alguém, no caso seu irmão, com o intuito de matá-lo.
Os quadros psicóticos podem ser primários ou secundários (quando são advindos de
causas externas, como uso de substâncias psicoativas, alterações orgânicas ou doen­
ças clínicas). No caso presente, temos uma história de uso intenso de drogas no pas-
sado em contraponto ao prolongado período atual sem consumo de substâncias. Dian-
te disso, torna-se temerário afirmar peremptoriamente se o quadro psicótico é primário,
tendo sido apenas deflagrado pelas drogas, ou secundário a elas, tendo se cronificado
ao longo do tempo e permanecendo a despeito da atual interrupção de seu uso. Não
se pode falar em esquizofrenia, em seu caso, pois o periciando não preenche critérios
suficientes para tal diagnóstico.49 De qualquer forma, mais do que as causas, é mister
investigar quais as consequências de tal transtorno.
Manual de perícias psiquiátricas 83

Pode-se afirmar que ele apresenta sua capacidade de ajuizar a realidade totalmente
prejudicada, pois não consegue ter a crítica adequada sobre a situação clínica em que
se encontra. Em contrapartida, mostra capacidade de raciocínio lógico dentro da média,
com conhecimento das regras sociais, o que permite sua adaptação conforme o meio.
Faz-se a ressalva de que os sintomas evidenciados em momento algum denotaram
qualquer característica sexual, não se podendo afirmar, portanto, que, se houve algum
crime de natureza sexual, este guarde relação com a sintomatologia psicótica descrita.

6 – CONCLUSÃO
Do verificado e exposto, concluímos que Xxx apresenta diagnóstico de transtorno es-
quizofreniforme (F20.8), necessitando de tratamento psiquiátrico. Tal quadro não impe-
de nem prejudica seu discernimento e autocontrole no que se refere a impulsos sexuais.

7 – RESPOSTAS AOS QUESITOS DO JUÍZO


1. O acusado era, ao tempo da ação delituosa, portador de doença mental? Sim.
2. Em caso positivo, qual doença? Transtorno esquizofreniforme (F20.8).
3. Em caso negativo, apresentava ele desenvolvimento mental incompleto ou retar-
dado? Não se aplica.
4. Em virtude da doença mental ou do desenvolvimento mental incompleto ou retar-
dado, era ele inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito da ação delituosa?
Não.
5. Se era capaz de entender, estava, contudo, inteiramente incapacitado de deter-
minar-se de acordo com esse entendimento? Não.
6. Negativo o primeiro quesito, era o agente, à época do fato, portador de perturba-
ção da saúde mental? Não se aplica.
7. Em virtude dessa perturbação, tinha ele a plena capacidade de entendimento da
ilicitude do fato ou de autodeterminação? Não se aplica.
8. Negativos o primeiro, o quarto, o quinto e o sexto quesitos, e afirmativo o tercei-
ro, em virtude do desenvolvimento incompleto ou retardado, tinha ele, à época
do fato, a plena capacidade de entendimento da ilicitude do fato ou a autodeter-
minação? Não se aplica.
9. Necessita o acusado de tratamento especializado? Sim.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

Os quesitos apresentados para uma perícia na área criminal variam


muito, pois serão elaborados por partes distintas de atuação no processo
– o juiz, a promotoria e o defensor do réu. No modelo supracitado, foram
apresentados quesitos somente pelo juiz. Contudo, mesmo após a entrega
84 Barros & Teixeira (orgs.)

do laudo, ainda poderá ser apresentado quesito complementar por qualquer


uma das partes.
As respostas devem ser coerentes com a conclusão pericial e redigidas
de forma clara e objetiva. Nos quesitos mais complexos, o perito poderá te-
cer suas explicações e detalhes para respondê-los. No caso daqueles sem
sentido aparente com o caso ou com a psiquiatria, o médico perito deverá
deixar claro o motivo de não tê-los respondido. O termo “prejudicado” é uti-
lizado para os quesitos que não precisam mais ser respondidos porque algu-
ma resposta anterior já os anulou.
Apresentamos a seguir um modelo de perícia em que também não hou-
ve dúvidas na elaboração do laudo, sendo a conclusão clara em relação à
condição da imputabilidade. Neste caso, ao contrário do exemplo de perícia
anterior, o réu foi considerado totalmente imputável, pois não foram encon-
trados sinais ou sintomas indicativos de transtorno psiquiátrico.

MODELO DE PERÍCIA (IMPUTÁVEL)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx e em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/xx, foi exami-
nado um indivíduo adulto do sexo masculino identificado como o periciando referido.
Compareceu devidamente escoltado e acompanhado por sua mãe, Sra. xxx, e por
sua irmã, na segunda avaliação, Sra. xxx.
Não foram apresentados documentos médicos comprobatórios de estado de saúde.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, permitindo as de-
vidas conclusões do presente laudo.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


Em 19 e 20/02/2010, na cidade de xxx/xx, o periciando teria praticado ato libidino-
so com seus filhos. Foi acusado pela sua ex-esposa.
O periciando foi denunciado como incurso no Artigo 226 do Código Penal.18
Não constam documentos médicos nos autos.
Manual de perícias psiquiátricas 85

3 – VERSÃO DO PERICIANDO
Nega a autoria da prática delituosa e diz que sua ex-esposa só quer lhe prejudicar.
Relata que ela só pensa em dinheiro e que, com a separação, ela passou a ter dificul-
dade em manter o mesmo padrão de vida, pressionando o periciando para aumentar
a pensão dos filhos. Conta que ela tentou de diversas formas pressioná-lo para con-
seguir mais dinheiro.

4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/xx e procedente de xxx/xx, onde vive atualmente com sua atual amá-
sia. Idade de 36 anos, solteiro e amasiado, dois filhos, ensino médio, motoboy.
Primeiro filho de uma prole de dois filhos provenientes de casal não consanguíneo.
Nascido de parto normal a termo, sem intercorrências.
Desenvolvimento neuropsicomotor dentro dos limites da normalidade. Foi criado
pelos pais biológicos em ambiente harmonioso e estável.
Em idade escolar, o periciando tinha rendimento satisfatório, sem relato de trans-
tornos de aprendizado ou de comportamento. Era bastante dedicado, envolvido com os
estudos, e foi reprovado apenas uma vez
Adolescência sem relato de problemas de comportamento ou de relacionamento.
Trabalha desde os 12 anos e já exerceu várias atividades. Há quase 10 anos trabalha
na função de motoboy e, na época que foi preso, tinha emprego fixo e regular.
Próximo dos 25 anos, conheceu a mãe dos seus filhos, Sra. xxx, durante uma visita
ao bairro de prostituição da cidade Xxx. Após apenas um encontro íntimo com ela, de-
cidiram iniciar um relacionamento. Ela falava que não queria ser prostituta, que foi ex-
pulsa de sua casa e que gostava muito do periciando.
Iniciaram relacionamento estável e tiveram um casal de filhos, os quais estão atual­
mente com 10 e 9 anos. Refere que o relacionamento foi bom no início, porém, após
três anos, foi se deteriorando progressivamente. Depois do nascimento de sua filha,
os conflitos conjugais se intensificaram, e sua amásia passou a evitá-lo e a recusar-lhe
momentos de intimidade. Ele não entendia o motivo até ser avisado por um amigo que
ela teria voltado a se prostituir.
Assim que confirmou o fato, optou pela separação. Encontrava seus filhos nos fins
de semana e pagava pensão alimentícia regularmente. As brigas entre o casal eram
comuns, e o motivo principal era sempre dinheiro. Como ela continuou se prostituindo
e não cuidava dos filhos de modo adequado, ele decidiu pedir a guarda dos menores.
Algum tempo depois, ela o acusou de molestar sexualmente os filhos e, até hoje, não
há decisão sobre a guarda.
O periciando relata que já tem novo relacionamento e estava tralhando normal-
mente quando foi preso há oito meses em decorrência do processo em tela. Refere
que tem sentido muito desânimo e tristeza; contudo, tem esperança que saia da ca-
deia em breve.
Seus familiares descrevem o periciando como uma pessoa de boa índole e trabalha-
dora. Acreditam que ele tenha sido vítima nessa situação, pois é uma pessoa que sem-
pre gostou de ajudar os outros, e que sua ex-mulher era muito sedutora e manipuladora.
Nega terem observado qualquer sintoma ou sinais indicativos de algum transtor-
no psiquiátrico.
No momento, o periciando está preso em Sorocaba/SP e recebe visitas regularmen-
te. Nega uso de drogas ilícitas, etilismo, epilepsia, descontrole para jogos ou internação
em hospital psiquiátrico. Sem antecedente familiar psiquiátrico.
86 Barros & Teixeira (orgs.)

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico. Sem sinais
neurológicos grosseiros.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador. Mantém comportamento cordial e
adequado. Atitude ativa em relação ao exame.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: calmo, algo depressivo, dissociado ideoafetivamente, hipomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, de conteúdo adequado para contexto sociocultu-
ral, sem delírios sistematizados, sem alteração de fluxo ou forma.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: adequada.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada.
• Juízo crítico da realidade: preservado.

7 – DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES PSIQUIÁTRICO-FORENSES


Diante do exposto até o momento, concluímos:
• O periciando não apresenta qualquer transtorno psiquiátrico, doença mental, per-
turbação da saúde mental ou desenvolvimento incompleto ou retardado.
• Classifica-se o periciando, segundo as prerrogativas da responsabilidade penal,
entre os imputáveis.

8 – RESPOSTA AOS QUESITOS


Fls. 03 – Juízo
1. Por doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era o pe-
riciando, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o
caráter criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimen-
to? Não.
2. Por doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era o réu,
ao tempo da ação ou da omissão, parcialmente incapaz de entender o caráter
criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento? Não.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor
Manual de perícias psiquiátricas 87

No exemplo citado, não existe qualquer elemento indicativo de um


transtorno psiquiátrico; portanto, o periciado foi considerado imputável
quanto ao crime descrito na denúncia. Não cabe ao perito fazer qualquer
julgamento ou tecer comentários em relação à situação do réu além do con-
texto psiquiátrico. Se ele molestou ou não seus próprios filhos, cabe à justi-
ça proceder a investigação detalhada. Como foi considerado imputável, res-
ponderá penalmente como um criminoso comum.
Os quesitos nesse modelo foram apresentados apenas pelo juiz e
de forma resumida e objetiva, facilitando o trabalho pericial. Pode-se
obervar que os quesitos foram formulados com base nos dizeres do Ar-
tigo 26 do Código Penal,18 que descreve exatamente a condição da im-
putabilidade.
Ainda no contexto de insanidade mental, uma situação que também po-
derá ser foco do trabalho pericial é a condição definida como superveniên­
cia de doença mental. Esta refere-se àquele indivíduo que adoeceu após ter
cometido o crime, e, portanto, não existe nexo de causalidade. Nesse caso,
a função do médico perito é identificar a moléstia, estabelecer a cronologia
em relação ao ato criminoso e indicar qual a melhor forma de tratamento,
se em regime ambulatorial ou internação, conforme os artigos transcritos a
seguir:18

Artigo 152 - Se verificar-se que a doença mental sobreveio à infração,


o processo continuará suspenso até que o acusado se restabeleça, ob-
servado o § 2o do artigo 149.
§ 1o O juiz poderá, nesse caso, ordenar a internação do acusado em
manicômio judiciário ou em outro estabelecimento adequado.
§ 2o O processo retomará o seu curso, desde que se restabeleça o acu-
sado, ficando-lhe assegurada a faculdade de reinquirir as testemunhas
que houverem prestado depoimento sem a sua presença.
Artigo 154 - Se a insanidade mental sobrevier no curso da execução da
pena, observar-se-á o disposto no artigo 682.
Artigo 682 - O sentenciado a que sobrevier doença mental, verificada por
perícia médica, será internado em manicômio judiciário, ou, à falta, em
outro estabelecimento adequado, onde lhe seja assegurada a custódia.

Trata-se de uma situação importante do ponto de vista psiquiátrico,


pois um indivíduo acometido de um transtorno mental grave, como, por
exemplo, uma psicose, recluso em um estabelecimento prisional, terá sua
condição mental seriamente agravada – e, caso já tenha sido condenado,
a situação será totalmente incompatível com a ideia de reeducação. Além
disso, o sujeito acometido por uma patologia dessa natureza não poderá
se defender durante o processo criminal. Nessas circunstâncias, a pessoa
deverá ser internada em um estabelecimento apropriado e voltar a respon-
88 Barros & Teixeira (orgs.)

der o processo ou cumprir sua pena quando sua condição mental for res-
tabelecida:18
Artigo 682 – O sentenciado a que sobrevier doença mental, verificada
por perícia médica, será internado em manicômio judiciário, ou, à
falta, em outro estabelecimento adequado, onde lhe seja assegurada
a custódia.
§ 1º – Em caso de urgência, o diretor do estabelecimento penal poderá
determinar a remoção do sentenciado, comunicando imediatamente
a providência ao juiz, que, em face da perícia médica, ratificará ou
revogará a medida.
§ 2º – Se a internação se prolongar até o término do prazo restante
da pena e não houver sido imposta medida de segurança detentiva,
o indivíduo terá o destino aconselhado pela sua enfermidade, feita a
devida comunicação ao juiz de incapazes.

Ainda no que se refere à avaliação de insanidade mental, a perícia


psiquiátrica pode ser solicitada a examinar a vítima de crime sexual. A lei
caracterizava como violência presumida, sendo, portanto, um agravante o
fato de a vítima ser uma pessoa acometida por uma condição psiquiátrica
específica. Com a Lei 12.015/2009,50 que altera o Código Penal, e a Lei no
8.072/1990,51 que dispõe sobre os crimes hediondos, a condição alienação
mental e debilidade mental do Artigo 214 foi modificada para enfermidade
mental e deficiência mental. A presunção de violência passou a ser chamada
de “estupro de vulnerável”, como transcrito a seguir. A pena é a mesma da-
queles casos em que a vítima é menor de 14 anos.

Estupro de vulnerável
Artigo 217-A – Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso
com menor de 14 (catorze) anos:
Pena – reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput
com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o
necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer
outra causa, não pode oferecer resistência.

No caso, além de o psiquiatra perito ter de identificar qual transtorno


psiquiátrico afeta a vítima, deverá avaliar se o quadro psiquiátrico prejudi-
ca sua capacidade de compreender (discernir) a prática do ato ou, ainda, se
afeta sua capacidade de oferecer resistência.
Por fim, apesar das dificuldades, as perícias de insanidade mental são
as mais ricas do ponto de vista psicopatológico e as que mais despertam in-
teresse e desafio na prática do psiquiatra forense.
Manual de perícias psiquiátricas 89

EXAME DE VERIFICAÇÃO DE
DEPENDÊNCIA TOXICOLÓGICA
Trata-se de uma solicitação muito frequente, visto que a questão do uso de
drogas é um problema grave de saúde pública e atinge cada vez mais a po-
pulação das grandes cidades. Nos últimos tempos, o consumo crescente do
crack tem acentuado ainda mais essa questão.
O assunto é polêmico, complexo e está em constante mudança. Dia-
riamente surgem novas regras, novas drogas e novas formas de tratamento
e abordagem clínica ao dependente de drogas. O caráter subjetivo da ava-
liação da impulsividade decorrente do uso de drogas é um elemento muito
delicado,52 e, portanto, o perito deverá estar sempre atualizado e prepara-
do para oferecer um trabalho conclusivo e embasado.
A Lei de Drogas em vigor foi homologada em 200653 e substituiu a Lei de
Tóxicos, de 1973, com mudanças significativas, sobretudo em relação à condi-
ção de usuário, denotando uma tendência à descriminalização do uso. Como
transcrito a seguir, o usuário poderá ser apenas advertido.

Artigo 28 - Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou


trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às
seguintes penas:
I – advertência sobre os efeitos das drogas;
II – prestação de serviços à comunidade;
III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso edu-
cativo.
§ 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal,
semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena
quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência
física ou psíquica.
§ 2o Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o
juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao
local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias
sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.

O perito será nomeado em fase processual, e seu trabalho será identi-


ficar se o indivíduo apresenta um quadro de dependência de drogas, se essa
condição tem nexo de causalidade com o crime cometido e se a dependência
afetou sua capacidade de entendimento (cognição) ou de autodeterminação
(volição), conforme o artigo da Lei de Drogas, transcrito a seguir.53

Artigo 45 - É isento de pena o agente que, em razão da dependência, ou


sob o efeito, proveniente de caso fortuito ou força maior, de droga, era,
90 Barros & Teixeira (orgs.)

ao tempo da ação ou da omissão, qualquer que tenha sido a infração


penal praticada, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do
fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Parágrafo único. Quando absolver o agente, reconhecendo, por força
pericial, que este apresentava, à época do fato previsto neste artigo, as
condições referidas no caput deste artigo, poderá determinar o juiz, na
sentença, o seu encaminhamento para tratamento médico adequado.
Artigo 46 - As penas podem ser reduzidas de um terço a dois terços
se, por força das circunstâncias previstas no art. 45 desta Lei, o agente
não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de
entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com
esse entendimento.

Segundo o Artigo 45,53 o periciando será considerado inimputável e


encaminhado para tratamento, conforme parágrafo único. Já de acordo com
o Artigo 46,53 o periciando será considerado semi-imputável e poderá ser
sua pena reduzida.
Como já comentamos, esse artigo modifica um pouco o entendimen-
to expresso no Artigo 28 do Código Penal,18 que dizia serem inimputáveis
apenas aqueles totalmente embriagados por motivo de força maior. Aqui,
fica claro que o legislador reviu tal entendimento, na medida em que diz ser
isento de pena quem, em razão da dependência, era, ao tempo do crime, in-
capaz de entendimento ou autodeterminação. A lei vai além, explicitando
não se referir apenas a crimes como tráfico ou diretamente relacionados ao
uso das drogas, quando diz “qualquer que tenha sido a infração penal prati-
cada”. Vale lembrar, mais uma vez, que a função pericial não é dizer qual ar-
tigo se aplica ao periciando, mas apenas descrever seu estado mental, diag-
nosticar ou não a dependência e inferir a influência desta no crime em tela.
A maior dificuldade estará em estabelecer se existe uma dependência
e qual sua gravidade. O trabalho pericial poderá ser um pouco mais simples
nos casos extremos, ou seja, naqueles de dependente grave ou de usuário
eventual.
O dependente grave seria aquele indivíduo com história de uso crô-
nico, múltiplas internações, perdas sociais graves, síndrome de abstinên-
cia característica e eventuais estados psicóticos secundários ao uso da(s)
substância(s). Em geral, esse indivíduo comete crimes sem qualquer ela-
boração, de forma impulsiva e em estado de abstinência. Será considerado
inimputável e encaminhado para tratamento, geralmente internação.
Para indivíduos com história de uso eventual de drogas, não será pos-
sível estabelecer o nexo de causalidade, com exceção apenas dos casos de
intoxicação patológica (embriaguez patológica), já descrito neste capítulo.
Apresentamos a seguir dois modelos de perícias, o primeiro conside-
rando o periciando inimputável, e o segundo, imputável.
Manual de perícias psiquiátricas 91

MODELO DE PERÍCIA (INIMPUTÁVEL)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/SP, foi examinado um indivíduo
adulto do sexo masculino identificado como o periciando acima referido.
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhado da mãe, Sra. xxx, RG n-o- xxx.
Foi apresentado o seguinte documento médico comprobatório de estado de saúde:
• Declaração do Hospital xxx assinada pelo médico Dr. xxx, CRM xxx, de xx/xx/
xxxx, que afirma que o periciando se encontra internado desde xx/xx/xxxx devi-
do a F19.2 (Dependência a múltiplas drogas) e F19.5 (Psicose induzida por múl-
tiplas drogas) da CID-10.35 No momento, encontra-se estável e em condições de
continuar tratamento em nível ambulatorial.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, permitindo as de-
vidas conclusões do presente laudo.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


Em xx/xx/xxxx, na cidade de xxx/SP, o periciando subtraiu para si um aparelho de
telefonia celular móvel da marca Sony Ericson, modelo Z30001, avaliado em R$ 300,00,
pertencente à vítima, xxx.
Denunciado pelo Ministério Público como incurso no artigo 155, art. 394 do Códi-
go Penal.18

3 – VERSÃO DO PERICIANDO
Confirma a prática delituosa, mas não se lembra com detalhes do momento do cri-
me. Acredita que estava com a mente muito perturbada, pois há alguns dias não fazia
uso de drogas ou etílicos. Tinha intenção de trocar o telefone por drogas.

4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/SP e procedente de xxx/SP, onde vive com a mãe. Idade de 47 anos,
divorciado, duas filhas, ensino fundamental incompleto, ajudante geral.
Sem história de traumas ou patologias graves na infância. Era uma criança com
funcionamento psicossocial aparentemente normal. Foi criado pelos pais em ambien-
te harmonioso.
92 Barros & Teixeira (orgs.)

Em idade escolar, tinha baixo rendimento regular e ficou por quatro anos na 2ª série.
Seu comportamento era adequado, sem relato de inquietação e agressividade. Apren-
deu a ler, escrever e fazer contas. Parou os estudos por falta de interesse.
O periciando refere que começou a fazer uso de etílicos por volta dos 15 anos de
idade. Consumia com amigos, vizinhos e desconhecidos. Acredita que ficou dependente
de etílicos ainda muito cedo, pois era comum programar seu dia em função da bebida.
Segundo a acompanhante, desde muito cedo o periciando encontrava-se sempre
alcoolizado, e não conseguiu nenhuma realização na vida. Chegou a se casar, mas
sua esposa pediu a separação por causa do uso de etílicos e drogas. Nos períodos de
maior uso, é comum falar sozinho e rir sem motivo aparente.
Teve poucos empregos fixos, sempre por curtos períodos. Desde que se separou
da esposa, há mais de 10 anos, não conseguiu mais emprego e vive da ajuda finan-
ceira de sua mãe.
Ainda na adolescência, passou a usar também maconha e cocaína, que resultou
em piora acentuada no padrão de consumo de etílicos e agravou ainda mais seu com-
portamento. Fica muito agressivo sob efeito dessas substâncias e nunca aceitou qual-
quer tipo de ajuda. Nos últimos anos, predomina o consumo diário de etílicos (pinga),
cigarros de maconha e mesclado (maconha com crack). Quando interrompia o uso de
etílicos, apresentava sérios sintomas de síndrome de abstinência.
Mais ou menos desde que completou 20 anos, vem sendo internado com frequên-
cia em clínicas psiquiátricas. Sempre volta ao mesmo padrão de consumo após a alta.
Devido ao uso de drogas, passou a cometer pequenos furtos, tem três processos
criminais e já esteve preso três vezes.
Quando consegue ficar abstinente e sob tratamento regular, fica a maior parte do
tempo em casa; quase não tem mais amigos e não faz planos.
No momento, está internado no hospital psiquiátrico de xxx/SP e abstinente desde
que internou em xx/xx/xxxx. Diz que vai trabalhar quando receber alta, mas não elabo-
ra um projeto e planos.
Sem relato de epilepsia ou doenças clínicas. Sem antecedente familiar de doenças
psiquiátricas graves ou alcoolismo.

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico.
Sem outros sinais de importância médico-pericial.

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabeleceu contato produtivo e manteve comportamento adequado para a oca-
sião. Aparenta mais idade.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: depressivo, hipomodulando.
• Pensamento: lógica superficial, coerente, de conteúdo pouco adequado para
contexto sociocultural, sem delírios sistematizados, taquilálico. Crítica superficial
quanto aos fatos e quanto ao seu estado mórbido. Insight prejudicado.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: reduzida.
Manual de perícias psiquiátricas 93

• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada.
• Juízo crítico da realidade: deficitário.

7 – DISCUSSÃO
O quadro de dependência é caracterizado não só pela quantidade e frequência do
consumo, mas também pelo descontrole do indivíduo quando está sob efeito da subs-
tância, determinando comprometimento das capacidades sociais e laborais e da saú-
de física e mental.
A toxicomania é um estado de impregnação tóxica provocada pelo uso repetido e
indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psí-
quica, em prejuízo do próprio usuário e também da sociedade. A expressão “toxicoma-
nia” foi, modernamente, substituída por “dependência”.54
“O alcoolismo crônico é uma marcha residual, uma deformação persistente do psi-
quismo e, portanto, similar à psicose ou doença mental, devendo ser juridicamente ob-
servado. [...] Ocorrem distúrbios psíquicos em todos os alcoólatras, assim como trans-
tornos de conduta, de atitude diante da vida, dos outros e da estrutura do caráter”.55
O denunciado se declara viciado em drogas e apresenta elementos indicativos de
um quadro de dependência grave, F19.2, segundo diretrizes da Organização Mundial
da Saúde.35 Há relato de sintomas compatíveis com síndrome de abstinência nos pe-
ríodos em que ficou afastado das drogas, sendo este um elemento importante para o
diagnóstico da dependência.
Considerando os dados da história pregressa do paciente e os achados do exame
clínico, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (CID-10),35
trata-se de quadro compatível com:
Dependência a drogas e álcool de intensidade grave (usuário dependente ou “dis-
funcional”), codificada como F19.2 pela CID-10.35

8 – CONCLUSÃO
Pelo exposto até o momento, concluímos:
• Trata-se de quadro de dependência ao álcool e drogas de intensidade grave (F19.2
da CID-10);35 portanto, o periciando é inimputável quanto aos fatos em pauta.
• Tratamento indicado em regime ambulatorial nos moldes do CAPS pelo período
mínimo de dois anos.

9 – QUESITOS
Não foram apresentados.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor
94 Barros & Teixeira (orgs.)

No caso deste modelo, não existe dúvida quanto ao quadro clínico de


dependência e sua gravidade, a qual é confirmada pelas perdas sucessivas,
empobrecimento psicosocial e fracasso recorrente nos tratamentos. Neste
estágio da doença, a autodeterminação (volição) está gravemente compro-
metida. Por fim, trata-se de um crime caracterizado por ausência de plane-
jamento e motivado basicamente pela fase de abstinência (nexo de causa-
lidade).

MODELO DE PERÍCIA (IMPUTÁVEL)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/SP, foi examinado um indivíduo
adulto do sexo masculino identificado como o periciando acima referido.
Compareceu devidamente escoltado, porém sem acompanhantes.
Não foram apresentados documentos médicos comprobatórios de estado de saúde.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, permitindo as de-
vidas conclusões do presente laudo.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


Em xx/xx/xxxx, neste município, o periciando associou-se a outros em quadrilha ou
bando e invadiu a residência da vítima após passar por rígido sistema de segurança.
O grupo manteve a vítima rendida sob ameaça de arma de fogo, e, depois de subtraí-
dos os bens, o denunciado acabou por estuprar a vítima.
Denunciado pelo Ministério Público como incurso no artigo 157,§ 2º, incisos I, II e V,
e artigo 213, caput, ambos do CP, tudo na forma do artigo 69, todos do Código Penal.18

3 – VERSÃO DO PERICIANDO
Refere que estava sob efeito de etílicos, maconha e cocaína. Tinha intenção de co-
meter apenas um furto naquele dia. Quando encontrou os outros denunciados, decidi-
ram juntos cometer o assalto.
Não sabe dizer por que estuprou a vítima.
Manual de perícias psiquiátricas 95

4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural e procedente de xxx/SP, onde vive com sua família. Idade de 22 anos, sol-
teiro, um filho que vive aos cuidados da genitora, 7ª série do ensino fundamental, alfa-
betizado, auxiliar de produção.
Relata que sua primeira infância foi tranquila, sem relato de traumas ou patologias
graves. Por volta dos 8 anos, seus pais se separaram, e foi difícil para o periciando li-
dar com o pouco contato com seu pai. Após a separação, foi criado pela avó materna
e quase não conviveu com o genitor.
Em idade escolar, tinha desempenho regular, mas também sérios problemas de
comportamento. Chegou a ser expulso de uma escola e parou os estudos por falta de
interesse.
Próximo dos 15 anos de idade iniciou uso de maconha por curiosidade e por influên­
cia de colegas. Aos 17, foi preso portando maconha e acusado de tráfico de drogas. Fi-
cou nove meses institucionalizado na fundação Casa.
Após sair da instituição, foi trabalhar como ajudante de pedreiro, época em que pas-
sou a usar também cocaína. No início, consumia a substância sobretudo nos fins de se-
mana, em pequenas quantidades, geralmente por motivação social e junto com etílicos.
Sob efeito da cocaína, sente que “ficava elétrico e com mais energia”. Na falta da
droga, fica mais ansioso e inquieto. Usou crack apenas algumas vezes, mas prefere a
cocaína na forma inalável.
Nunca fez qualquer tipo de tratamento para seu problema com as drogas e acha
que nunca foi necessário, pois sempre conseguiu manter seu trabalho e relacionamen-
tos. No momento, diz que está sem usar drogas e tem planos de fazer um tratamento
no futuro, se voltar a usar. Nega que já tenha roubado ou vendido pertences pessoais­
para manter o vício.
O periciando chegou a viver maritalmente antes de ser preso e desse relaciona-
mento teve um filho. Não recebe visitas de sua amásia na cadeia. Está preso há mais
de um ano e recebe visitas eventuais de sua mãe.
Sem tratamento ou medicação no momento. Sem sintomas psicóticos, epilepsia
ou antecedente familiar.

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico. Sem sinais
neurológicos grosseiros.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador e mantém comportamento cola-
borativo.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: distante, associado ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, de conteúdo adequado, sem delírios sistematiza-
dos, sem alteração de fluxo ou forma. Crítica reduzida quanto ao seu estado mór-
bido. Não elabora culpa ou arrependimento.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
96 Barros & Teixeira (orgs.)

• Capacidade de abstração: adequada.


• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada
• Juízo crítico da realidade: preservado.
• Insight: rebaixado.

7 – DISCUSSÃO
O quadro de dependência é caracterizado não só pela quantidade e frequência do
consumo, mas também pelo descontrole do indivíduo quando está sob efeito da subs-
tância, o qual determina comprometimento das capacidades sociais e laborais e da
saúde física e mental.
A toxicomania é um estado de impregnação tóxica provocada pelo uso repetido e
indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psí-
quica, em prejuízo do próprio usuário e também da sociedade. A expressão “toxicoma-
nia” foi, modernamente, substituída por “dependência”.54
O denunciado se declara viciado em drogas sem, no entanto, apresentar elemen-
tos indicativos de um quadro de dependência, segundo diretrizes da Organização Mun-
dial da Saúde. Não há relato de sintomas compatíveis com síndrome de abstinência nos
períodos em que ficou afastado das drogas, sendo este um elemento importante para
o diagnóstico da dependência.
Considerando os dados da história pregressa do paciente e os achados do exame
clínico, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (CID-10),35
trata-se de quadro compatível com:
Transtorno mental por uso de múltiplas substâncias, de intensidade moderada, uso
abusivo (viciado ou usuário “funcional”), codificado como F19.1 pela CID-10.35
• As características e o grau da adição não interferem nas capacidades de enten-
dimento ou de autodeterminação do periciando.
• Não apresenta doença mental, nem desenvolvimento mental retardado ou incom-
pleto.
• Considerando ainda o padrão do ato criminoso, que foi caracterizado por ela-
boração, organização e elevado grau de violência, pode-se inferir que o uso de
substâncias psicoativas no dia dos fatos serviu como fator de encorajamento e
reforço para a prática criminosa. Portanto, não existe nenhuma relação de nexo
causal do uso dessas substâncias com o ato ilícito.

8 – CONCLUSÃO
Diante do exposto até o momento, concluímos:
• Classifica-se o periciando, segundo as prerrogativas da responsabilidade penal,
entre os imputáveis.

9 – RESPOSTA AOS QUESITOS


Fls. 03 – Juízo
1. Por doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era o réu,
ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter cri-
minoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento? Não.
Manual de perícias psiquiátricas 97

2. Por doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era o réu,


ao tempo da ação ou da omissão, parcialmente incapaz de entender o caráter
criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento? Não.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

Neste segundo modelo, o quadro clínico de uso de drogas é de pouca


expressão e importância na história do periciando, e o crime praticado não
condiz com alguém que apresenta história grave de dependência às drogas
ou se encontra em síndrome de abstinência: para conseguir entrar em um
condomínio de luxo, são necessários planejamento e funções mentais pre-
servadas em relação aos quesitos de entendimento (cognição) e autodeter-
minação (volição). O mesmo serve para a violência sexual praticada contra
a vítima, pois, em geral, o uso de drogas ou o estado de abstinência desor-
ganiza o comportamento e a sexualidade. Trata-se, portanto, de um ato cri-
minoso planejado, elaborado e sem qualquer nexo de causalidade com o
consumo de drogas, mesmo levando em conta a nova lei de tóxicos. Assim,
o periciando foi considerado imputável e responderá penalmente como um
criminoso comum.

EXAME DE VERIFICAÇÃO DE
CESSAÇÃO DE PERICULOSIDADE
Este exame será solicitado para aqueles pacientes sob medida de segurança.
No caso das pacientes internados na Casa de Custódia e Tratamento Psiquiá-
trico, o exame é realizado periodicamente pelos peritos da instituição; já para
aqueles em regime de tratamento ambulatorial, o exame será realizado por
psiquiatra perito da comarca onde o periciando reside ou onde esse profissio-
nal esteja disponível. É apresentado a seguir o artigo relacionado à medida de
segurança do Código Penal18 e à Lei 7.209/84 (altera o Código Penal).

Artigo 97 – Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua inter-


nação (art. 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível
com detenção, poderá o juiz submetê-Io a tratamento ambulatorial.
98 Barros & Teixeira (orgs.)

Prazo
§ 1º – A internação, ou tratamento ambulatorial, será por tempo
indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante
perícia médica, a cessação de periculosidade. O prazo mínimo deverá
ser de um a três anos.
Perícia médica
§ 2º – A perícia médica realizar-se-á ao termo do prazo mínimo fixado
e deverá ser repetida de ano em ano, ou a qualquer tempo, se o deter-
minar o juiz da execução.

Segundo Nelson Hungria:57

periculosidade é um estado psíquico que não se deixa averiguar direta-


mente, pois a psique humana é terra incógnita que tem escapado, até
hoje, quase totalmente, à investigação da ciência objetiva. Somente
de modo indireto, ou seja, por meio de indiciarias expressões de con-
duta, de interpretação de atitudes exteriorizadas, de comparações, de
analogias ou sugestões da experiência em torno de casos pretéritos, é
que se pode formular o juízo de cessação da periculosidade.

No sentido de tornar a avaliação mais precisa, o uso de escalas de ava-


liação de risco de violência é de extrema importância,58 sobretudo nos casos
em que há dúvidas sobre a cessação de periculosidade. Esses testes são dis-
cutidos em detalhes no Capítulo 9.
Justamente por tal dificuldade se prevê que a cessação da periculosida-
de é, a princípio, transitória: “a desinternação, ou a liberação, será sempre
condicional, devendo ser restabelecida a situação anterior se o agente, an-
tes do decurso de 1 (um) ano, pratica fato indicativo de persistência de sua
periculosidade”.18
O foco da avaliação será o tratamento, a evolução do quadro clínico e,
mais especificamente, a verificação do nível de periculosidade que o indi-
víduo oferece. Uma das maiores dificuldades, aqui, não é avaliar o quadro
clínico, mas compreender que o conceito de periculosidade, nesse contexto,
atrela-se apenas às relações existentes entre o transtorno mental e o crime.
Se o sujeito está em medida de segurança, isso se deu pelo entendimento de
que o transtorno mental desempenhou um papel de fundamental importân-
cia na prática do ilícito e possibilitava a ocorrência de novos comportamen-
tos criminosos.
A avaliação de cessação de periculosidade deve avaliar se a doença ain-
da está presente – descompensada ou não –, aumentando o risco da prática
criminosa. Tal exame não pode ser encarado como uma previsão do futuro,
afirmando se o sujeito irá ou não delinquir, tampouco como uma avaliação
Manual de perícias psiquiátricas 99

se a pessoa é perigosa em sentido amplo. Se o indivíduo já não apresenta


transtorno mental, ou se este se encontra remitido, a avaliação da periculo-
sidade não é mais da alçada de uma perícia psiquiátrica.
Assim, considerando que o examinando foi periciado na fase proces-
sual e considerado inimputável ou semi-imputável em decorrência de uma
doença psiquiátrica, caberá ao perito avaliar se essa patologia foi remitida,
se está sob controle, total ou parcialmente, se o indivíduo tem bom suporte
psicossocial, e se necessita ser mantido em tratamento e, em caso afirmati-
vo, de qual tipo.
Para os pacientes internados, a avaliação será realizada de forma segu-
ra e detalhada, pois poderá ser baseada na resposta ao tratamento oferecido
dentro da própria instituição, à qual os peritos têm pleno acesso.
Para os pacientes em regime ambulatorial, o perito da comarca fará
uma avaliação cuidadosa da doença mental de base e do resultado do trata-
mento que o sujeito está recebendo. Além disso, também deverá avaliar ou-
tros fatores que podem influenciar na periculosidade do periciando, como
suporte familiar, social, capacidade laboral, comorbidade e uso de substân-
cias psicoativas (álcool e drogas).
Muitas vezes, a avaliação é difícil e limitada pela falta de elementos ob-
jetivos. Alguns pacientes aderem pouco ao tratamento indicado ou não são
supervisionados de forma rigorosa em relação à adesão. Quando compare-
cem para o exame de cessação de periculosidade, a doença não está sendo
tratada de forma adequada, e o resultado do laudo acaba sendo desfavorá-
vel. Nos casos mais graves, poderá até ser indicada mudança de regime am-
bulatorial para internação.
Em contrapartida, quando o indivíduo segue o tratamento ambulato-
rial rigorosamente, melhora muito e já não apresenta sintomas, outra di-
ficuldade pode aparecer. Por mais que fique claro, nesse caso, que a me-
lhora só se deu pelo tratamento adequado, quando se tratar de um quadro
crônico, poderá o perito dizer que a periculosidade cessou? Se a doença
está remitida, teoricamente ele não oferece mais perigo; no entanto, dado
o caráter crônico, a dispensa do tratamento traz grande risco de remissão.
Se entendermos que é a medida de segurança – determinada por ele ser
perigoso – que garante sua adesão ao tratamento e controla sua pericu-
losidade, caímos no paradoxo de o sujeito só não ser perigoso por ser
continuamente considerado perigoso. Em doenças crônicas, portanto, em
geral não se recomenda a cessação de periculosidade, para desgosto dos
defensores.
A seguir, são apresentados dois modelos desse tipo de exame, o primei-
ro mantendo a periculosidade e o segundo apontando periculosidade cessa-
da com indicação para a suspensão da medida de segurança.
100 Barros & Teixeira (orgs.)

MODELO DE PERÍCIA (PERICULOSIDADE MANTIDA)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:


1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/SP, foi examinado um indivíduo
adulto do sexo feminino identificado como a pericianda acima referida.
Compareceu munida de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhada da irmã, Srª. Xxx, RG n-o- xxx.
Foram apresentados os seguintes documentos médicos comprobatórios de esta-
do de saúde:
• Relatório Médico, assinado pelo Dr. xxx, CRM xxx, psiquiatra, referindo que a pe-
ricianda está em tratamento devido a esquizofrenia, F20.9, e usando haloperidol,
levomepromazina, biperideno e diazepan.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, permitindo as de-
vidas conclusões do presente laudo.
Sem intercorrências.
2 – HISTÓRIA
Dados dos Autos:
Em xx/xx/1999, na cidade de xxx/SP, a pericianda ofendeu a integridade corporal
do Sr. xxx, causando-lhe lesões corporais de natureza leve.
Denunciada pelo Ministério Público como incursa no artigo 129 caput, do Código
Penal.18
Foi instaurado incidente de insanidade mental, e a examinanda foi submetida a pe-
rícia médica em xxx/SP. O laudo concluiu ser a pericianda inimputável por apresentar
quadro psicótico de natureza esquizofrênica, semi-imputável (fls. 23).
Dados da Perícia:
A pericianda está atualmente com 49 anos, é viúva, tem dois filhos e reside em xxx/
SP com sua mãe. Profissão: do lar.
Apresenta quadro psicótico crônico e mantém tratamento regular trimestral em Cen-
tro de Saúde de sua cidade. Refere que está bem e nega queixas específicas. Nega
estar ouvindo vozes e não descreve delírios. Descreve as vivências delirantes (conteú-
do persecutório) que apresentava nos períodos de crise e tem crítica parcial, pois ain-
da tem dúvidas do que acreditava na época.
A pericianda refere que está bem em casa. Ajuda sua mãe nas atividades domés-
ticas e tem contato regular com seus filhos, que já são casados. Nega uso de drogas
ou bebidas.
Manual de perícias psiquiátricas 101

Segundo a acompanhante, ela está com o quadro aparentemente controlado e fre-


quenta o Centro de Saúde com regularidade. Eventualmente, ainda fala sozinha, fica
agressiva e briga com sua mãe em decorrência de ideias delirantes de cunho perse-
cutório.
Está em uso de haldol, biperideno, levomepromazina e diazepan.

3 – EXAME PSÍQUICO
Estabelece contato produtivo com o examinador e mantém comportamento adequa-
do e colaborativo. Do ponto de vista físico, encontra-se obesa e com dentes em precá-
rio estado de conservação.
• Apresentação geral: facies atípica, asseada, cabelos alinhados, higienizada, ves-
tes limpas.
• Afeto: hipotímico, hipomodulado.
• Pensamento: coerente, sem alteração de fluxo, sem delírios estruturados no mo-
mento, porém sem crítica quanto ao seu estado mórbido.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: adequada.
• Atenção: hipotenaz.
• Orientação: orientada globalmente.
• Memória: aparentemente preservada.
• Juízo crítico da realidade: limitado.

4 – DISCUSSÃO/CONCLUSÃO
Trata-se de psicose crônica do tipo esquizofrenia, codificada como F20.9 na CID-10.
Mesmo sob tratamento, ainda apresenta sintomas produtivos e agressividade.
Diante do exposto até o momento:
Atestamos que NÃO houve diminuição do grau de periculosidade e indicamos ma-
nutenção da medida de segurança com tratamento em regime ambulatorial.

5 – RESPOSTAS AOS QUESITOS


Não foram apresentados.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

Nesse exemplo, foi indicada a manutenção da medida de segurança em


decorrência da presença de sintomas (delírios), mesmo sob tratamento, e do
subsequente comportamento agressivo.
Apenas uma pequena parcela de pacientes com esquizofrenia é real-
mente perigosa para a sociedade.11 No caso supracitado, tendo sido identi-
ficado o risco, a pericianda ficará sob tratamento rigoroso, e o Estado será
responsável por mantê-la em tratamento.
102 Barros & Teixeira (orgs.)

MODELO DE PERÍCIA (PERICULOSIDADE CESSADA)

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/SP, foi examinado um indivíduo
adulto do sexo feminino identificado como a pericianda acima referida.
Compareceu munida de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhada de sua prima, Srª xxx, RG n-o- xxx.
Não foram apresentados documentos médicos comprobatórios de estado de saúde.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, permitindo as de-
vidas conclusões do presente laudo.
Sem intercorrências.

2 – HISTÓRIA
Dados dos Autos:
Em xx/xx/1996, na cidade de xxx/SP, a pericianda desferiu golpe de faca em xxx,
seu pai, causando-lhe as lesões corporais descritas no laudo de fls. 07, só não conse-
guindo alcançar seu intento por circunstâncias alheias à sua vontade.
Foi denunciada pelo Ministério Público como incursa no Artigo 121, parágrafo 2-o- ,
incisos II e IV, c.c. o art. 14, inciso II e o art. 61, II, do Código Penal.18
Foi reconhecida a inimputabilidade da ré em razão de retardo mental e de não
ter condições de se determinar de acordo com o caráter ilícito do fato. Aplicada me-
dida de segurança consistente em tratamento ambulatorial pelo prazo mínimo de três
anos (fls. 21).
Dados da Perícia:
A pericianda está atualmente com 50 anos, é solteira, sem filhos e reside sozinha
em xxx/SP, sendo aposentada por invalidez. Comparece acompanhada da prima de
primeiro grau, Sra. xxx.
Refere sentir-se bem e não tem queixas específicas. Não faz qualquer tratamen-
to psiquiátrico e tem vida social muito restrita. Frequenta a igreja diariamente e qua-
se não tem contato com seus parentes. Mantém seu sustento com sua própria apo-
sentadoria e consegue administrar seu ganho previdenciário sem dificuldades. Desde
que seus pais faleceram, reside sozinha.
Segundo a acompanhante, a pericianda nunca foi submetida a tratamento. Desde o
crime em tela, ocorrido há mais de 15 anos, ela nunca mais apresentou qualquer alte-
ração de comportamento que necessitasse de cuidados mais intensivos. Acredita que
a ré atacou o pai porque ele era alcoolista e muito agressivo.
Manual de perícias psiquiátricas 103

Percebe que ela tem limitações e que sua vida é muito simples. Não aceita a apro-
ximação dos familiares e só recentemente voltou a conviver com a acompanhante, por
causa deste processo. Convive de modo harmonioso com seus vizinhos, os quais rela-
taram não ter mais presenciado comportamento agressivo da pericianda.
Sem relato de etilismo, uso de drogas, uso de psicofármacos ou internação psi-
quiátrica.

3 – ESTADO ATUAL
Estabelece contato produtivo e mantém comportamento cordial e adequado. Ati-
tude passiva.
• Apresentação geral: facies atípica, asseada, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: calmo (algo pueril), dissociada ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógica deficitária, coerente, de conteúdo com algum empobrecimen-
to, sem delírios sistematizados, sem alteração de fluxo ou forma.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: limite.
• Capacidade de abstração: reduzida.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientada alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada.
• Juízo crítico da realidade: deficitário.

4 – DISCUSSÃO/CONCLUSÃO
O retardo mental, F70 da CID-10,35 é uma condição psiquiátrica crônica, cuja pe-
riculosidade muitas vezes decorre da falta de um suporte psicossocial adequado e/ou
da presença de estressores socioambientais.
Diante do exposto até o momento, considerando que a pericianda não fez tratamen-
to e não tem indicação de fazê-lo, atestamos que houve cessação de periculosida-
de e não indicamos a manutenção da medida de segurança.

5 – RESPOSTAS AOS QUESITOS


Não foram apresentados.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

Neste último exemplo, foi indicada a suspensão da medida de seguran-


ça em decorrência da ausência de sintomas indicativos de comportamento
agressivo. Mesmo se tratando de um quadro crônico, observa-se que ela fi-
cou sem tratamento desde o início da medida de segurança e não apresen-
tou outro episódio.
104 Barros & Teixeira (orgs.)

Nesse caso, o ideal seria que a examinanda tivesse feito seguimento


médico regular e que, no dia da perícia, o profissional pudesse ter acesso ao
relatório do médico assistente. Contudo, ela não tem indicação de tratamen-
to especializado, e o comportamento agressivo foi muito pontual.
Todas as perícias de avaliação de risco, sempre que possível, devem ser
realizadas utilizando testes objetivos (psicotestes). Na prática diária de psi-
quiatria forense, dependendo da demanda e da comarca em que atua, fica
muito difícil para o perito aplicar esses testes de rotina. Geralmente, tal uso
se restringe aos casos mais graves e àqueles em que existe dúvida quanto à
conclusão do laudo. Esses testes são discutidos no Capítulo 8.
capítulo

PERÍCIA PREVIDENCIÁRIA
E TRABALHISTA
7
Luciano Vianelli Ribeiro
Eduardo Henrique Teixeira
Daniel Martins de Barros

A
s perícias trabalhistas e previdenciárias no âmbito da psiquiatria tam-
bém têm apresentado um aumento considerável na demanda de no-
meações, basicamente por conta da modernização da psiquiatria clíni-
ca e do maior acesso do reclamante às questões relacionadas a essa especia-
lidade. Na última década, os transtornos mentais relacionados ao trabalho
tornaram-se as enfermidades que mais geram incapacidade ocupacional.59
Temas como assédio moral e síndrome de burnout têm relação impor-
tante, direta ou indireta, com os transtornos psiquiátricos. Um indivíduo que
tenha sofrido assédio moral no trabalho, por exemplo, poderá vir a apresen-
tar um quadro psiquiátrico e ter sua capacidade laboral afetada.
Com o aumento dessa demanda, também aumentou a procura por as-
sistência técnica e elaboração de pareceres. Em uma ação trabalhista, como
em qualquer processo de forma geral, além de ser nomeado perito pelo juiz,
o psiquiatra forense poderá ser contratado pelo funcionário (que costuma
ser o reclamante) ou pela empresa (normalmente a reclamada).
Tanto a perícia previdenciária como a trabalhista são tratadas juntas
neste capítulo, pois o quesito principal da avaliação pericial será a capacida-
de laboral. Na trabalhista, será necessário avaliar também o nexo de causa-
lidade com o trabalho.
A avaliação pericial é muito complexa, principalmente em relação ao
quesito “nexo de causalidade”. Muitas vezes, a pessoa já está fora do am-
biente de trabalho ou não apresenta mais sintomas, ou, ainda, o transtorno
psiquiátrico é decorrente de outros eventos de sua vida.

PERÍCIAS PREVIDENCIÁRIAS
A Lei no 8.213/91, que regulamenta os Planos de Benefícios da Previdência
Social,60 tem por finalidade assegurar aos beneficiários os meios indispensá-
106 Barros & Teixeira (orgs.)

veis para que se mantenham quando não puderem prever seu sustento por
motivos de incapacidade, desemprego involuntário, idade avançada, tempo
de serviço, encargos familiares, prisão ou morte dos provedores da família.
As perícias previdenciárias podem ser divididas em dois grupos com
aspectos distintos: administrativas e judiciárias. As administrativas costu-
mam ser realizadas em órgãos públicos, como o Instituto Nacional do Segu-
ro Social (INSS), a Justiça Militar e demais instituições governamentais, nos
casos de licença médica de servidores públicos, bem como em instituições
privadas (perícias securitárias). São executadas por profissionais médicos
contratados pela autarquia ou pela instituição privada, nem sempre espe-
cialistas na matéria. É da responsabilidade do INSS a execução das perícias
médicas previdenciárias, as quais são realizadas por médicos peritos perten-
centes ao seu quadro de pessoal ou de profissionais credenciados. A avalia-
ção pericial previdenciária feita exclusivamente por perito psiquiatra acon-
tece apenas naquelas ações judiciais movidas pelos segurados contra o INSS
e que visam restabelecer ou requerer o direito a um benefício negado. Esses
peritos são nomeados pelos juízes.
Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo perito é a análise da
documentação médica contida no processo, que muitas vezes não apresenta
com precisão quando se deu o início da enfermidade e o momento em que
ela gerou a incapacidade laborativa. Em muitas situações, o periciando se
apresenta para o exame na Justiça em fase de remissão de sintomas, situa-
ção que compromete a avaliação dos peritos e juízes quanto à concessão e à
retroatividade do benefício.
Os principais benefícios previdenciários que requerem a participação
de perícia médica compreendem pensão por morte, auxílio-reclusão, auxí-
lio-doença previdenciário, aposentadoria por invalidez, auxílio por acidente
de qualquer natureza, aposentadoria especial, salário família, salário mater-
nidade, amparo social a pessoa portadora de deficiência (BCP/LOAS), auxí-
lio por acidente, aposentadoria por invalidez acidentária, pensão por morte
acidentária, auxílio acidente, pensão especial para vítimas de talidomida,
reabilitação profissional, reconhecimento de nexo técnico em acidente de
trabalho, majoração de 25% sobre aposentadoria por invalidez e isenção de
imposto de renda.
Quanto ao benefício de prestação continuada aos portadores de defi­
ciência, proveniente da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS),30 trata-se
de uma assistência social destinada a pessoas com deficiência ou idosos des-
providos de meios ou de família que provejam seu sustento. Para a obtenção
desse benefício, também será necessária perícia psiquiátrica a fim de avaliar
o transtorno mental e a incapacidade decorrente deste.
Segundo a Resolução no 10 de 1999 do INSS,61 incapacidade é definida
como a impossibilidade de desempenhar as funções específicas de uma ati-
vidade ou ocupação em consequência de alterações morfopsicofisiológicas
Manual de perícias psiquiátricas 107

provocadas por doença ou acidente. O risco de vida, para si ou para tercei-


ros, ou de agravamento da condição que a permanência na atividade possa
acarretar está implicitamente incluído nessa definição, desde que palpável
e indiscutível.
O requisito específico para o trabalhador pleitear o direito ao benefí-
cio previdenciário, além da qualidade de segurado, é a comprovação de sua
incapacidade para o trabalho ou para sua atividade habitual por mais de 15
dias consecutivos, segundo o Artigo 59 da Lei 8.213/91.60 Quanto aos graus
de prejuízos ocupacionais, podem ser classificados como parciais, quando
há possibilidade de execução de tarefas similares, e totais, quando não é
possível exercer quaisquer atividades. Quanto à cronologia, a incapacidade
pode ser temporária quando o retorno ao trabalho é viabilizado pelo trata-
mento adequado, e definitiva ou permanente, quando insuscetível de recu-
peração no prazo previsto.
Segundo a Lei no 8.213/91,60 acidente de trabalho é aquele que ocor-
re com o segurado empregado, o trabalhador avulso, o médico residente e o
segurado especial no exercício de suas atividades, a serviço da empresa, pro-
vocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, a per-
da ou a redução, temporária ou permanente, da capacidade para o trabalho.
Assim, nos benefícios previdenciários de auxílio-doença e aposentadoria por
invalidez, o perito psiquiatra poderá ser inquirido pelo juiz e/ou defensores
das partes envolvidas sobre a presença de nexo técnico entre a doença e o
trabalho. Quando se confirma o nexo de causalidade, a perícia médica vai
caracterizar o acidente de trabalho – desde que haja “lesão corporal ou per-
turbação funcional que cause a morte, a perda ou a redução, permanente ou
temporária, da capacidade para o trabalho” –, e o benefício previdenciário
se transforma em acidentário. A Previdência Social regulamenta o nexo de
causalidade profissional em seu Anexo II do Decreto no 3.048/99,62 no qual
lista os agentes patogênicos causadores de doenças. Os quadros de transtor-
no de estresse pós-traumático, síndrome de burnout e transtorno do sono-
-vigília relacionados com o trabalho figuram entre as patologias mentais lis-
tadas no Anexo II.
A lei inclui outras possibilidades para acidente do trabalho:62
Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo
anterior, as seguintes entidades mórbidas:
I – doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada
pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e cons-
tante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e
da Previdência Social;
II – doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadea­
da em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e
com ele se relacione diretamente, constante da relação mencionada
no inciso I.
108 Barros & Teixeira (orgs.)

§ 1º Não são consideradas como doença do trabalho:


a) a doença degenerativa;
b) a inerente a grupo etário;
c) a que não produza incapacidade laborativa;
d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em
que ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de
exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho.

Pode-se perceber porque este ponto é sempre muito importante nas pe-
rícias médicas: além de verificar se há ou não doença e se ela guarda ou não
nexo de causalidade com o trabalho, é fundamental ter em conta a capaci-
dade laboral do periciando, já que, se não houver incapacidade, será doença
ou acidente do trabalho, mesmo que haja o diagnóstico e a condição tenha
sido causada pela atividade profissional.
O Artigo 20 também é importante por abrir a possibilidade de que pro-
cessos de adoecimento também sejam considerados “acidentes”, ainda que
não sejam ocorrências fortuitas ou súbitas.62 Para tanto, distinguem-se a
doen­ça profissional e a doença do trabalho. A primeira consiste no agravo
à saúde que se desenvolve em virtude de uma determinada atividade que o
trabalhador realiza em sua profissão. Quem leva ao adoecimento é a própria
ocupação, daí seu nome. Já na segunda, a causa são as condições do tra-
balho, do ambiente ou das particularidades da atividade no local em que é
executada. Nesses casos, a doença não tem a ver com a profissão em si, mas
com o que o profissional precisa fazer no trabalho em questão.
Embora houvesse a mencionada relação elaborada pelo Ministério do
Trabalho e da Previdência Social, listando as doenças profissionais e do tra-
balho (Tabela 7.1), o parágrafo segundo do artigo já deixava explícito que
Em caso excepcional, constatando-se que a doença não incluída na
relação prevista nos incisos I e II deste artigo resultou das condições
especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona dire-
tamente, a Previdência Social deve considerá-la acidente do trabalho.

Com isso, mesmo aquelas doenças que não estão na lista poderiam ser
encaradas como relacionadas ao trabalho, desde que tal nexo de causalida-
de fosse constatado em perícia.
No que se refere ao conceito de invalidez, esta é caracterizada por
uma incapacidade laborativa total, definitiva ou permanente, multiprofis-
sional, insuscetível de recuperação ou reabilitação profissional e decorrente
de doen­ça ou acidente. A existência de uma doença psiquiátrica grave não
é o único motivo para alegar invalidez.63 Esta, no entanto, deve ser consi-
derada em enfermidades mentais graves com tendências a cronificação e
Manual de perícias psiquiátricas 109

TABELA 7.1 Transtornos mentais e do comportamento relacionados com o


trabalho (Grupo V)

Doenças Agentes etiológicos ou fatores


de risco de natureza ocupacional

I - Demência em outras doen- 1. Manganês X49.-; Z57.5) (Quadro XV)


ças específicas classificadas 2. Substâncias asfixiantes: CO, H2S, etc. (sequela) (X47.-;
em outros locais (F02.8) Z57.5) (Quadro XVII)
3. Sulfeto de carbono (X49.-; Z57.5) (Quadro XIX)

II - Delirium, não sobrepos- 1. Brometo de metila (X46.-; Z57.4 e Z57.5) (Quadro XIII)
to a demência, como descri- 2. Sulfeto de carbono (X49.-; Z57.5) (Quadro XIX)
ta (F05.0)

III - Outros transtornos men- 1. Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos


tais especificados, decor- (X46.-; Z57.5) (Quadro III)
rentes de lesão e disfunção 2. Chumbo ou seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.5) (Qua-
cerebrais e de doença física dro VIII)
(F06.8): Transtorno cogniti- 3. Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros
vo leve (F06.7) solventes orgânicos halogenados neurotóxicos (X46.-;
Z57.5) (Quadro XIII)
4. Brometo de metila (X46.-; Z57.4 e Z57.5) (Quadro XIII)
5. Manganês e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.5) (Qua-
dro XV)
6. Mercúrio e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.4 e Z57.5)
(Quadro XVI)
7. Sulfeto de carbono (X49.-; Z57.5) (Quadro XIX)
8. Outros solventes orgânicos neurotóxicos (X46.-; X49.-;
Z57.5)

IV - Transtornos da persona- 1. Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos


lidade e de comportamento (X46.-; Z57.5) (Quadro III)
decorrentes de doença, le- 2. Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros
são e de disfunção de perso- solventes orgânicos halogenados neurotóxicos (X46.-;
nalidade (F07.-): Transtorno Z57.5) (Quadro XIII)
orgânico de personalidade 3. Brometo de metila (X46.-; Z57.4 e Z57.5) (Quadro XIII)
(F07.0); Outros transtornos 4. Manganês e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.5) (Qua-
orgânicos de personalidade dro XV)
e de comportamento decor- 5. Mercúrio e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.4 e Z57.5)
rentes de doença, lesão ou (Quadro XVI)
disfunção cerebral (F07.8) 6. Sulfeto de carbono (X49.-; Z57.5) (Quadro XIX)
7. Outros solventes orgânicos neurotóxicos (X46.-; X49.-;
Z57.5)

Fonte: Organização Mundial da Saúde.35

(continua)
110 Barros & Teixeira (orgs.)

TABELA 7.1 Transtornos mentais e do comportamento relacionados com o


trabalho (Grupo V) (continuação)

Doenças Agentes etiológicos ou fatores


de risco de natureza ocupacional

V - Transtorno mental orgâ- 1. Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos


nico ou sintomático não es- (X46.-; Z57.5) (Quadro III)
pecificado (F09) 2. Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros
solventes orgânicos halogenados neurotóxicos (X46.-;
Z57.5) (Quadro XIII)
3. Brometo de metila (X46.-; Z57.5) (Quadro XIII)
4. Manganês e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.5) (Qua-
dro XV)
5. Mercúrio e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.4 e Z57.5)
(Quadro XVI)
6. Sulfeto de carbono (X49.-; Z57.5) (Quadro XIX)
7. Outros solventes orgânicos neurotóxicos (X46.-; X49.-;
Z57.5)

VI - Transtornos mentais e 1. Problemas relacionados com o emprego e com o desem-


de comportamento decor- prego: condições difíceis de trabalho (Z56.5)
rentes do uso de álcool: al- 2. Circunstância relativa às condições de trabalho (Y96)
coolismo crônico (relaciona-
do com o trabalho) (F10.2)

VII - Episódio depressivo 1. Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos (X46.-


(F32.-) ; Z57.5) (Quadro III)
2. Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros
solventes orgânicos halogenados neurotóxicos (X46.-;
Z57.5) (Quadro XIII)
3. Brometo de Metila (X46.-; Z57.4 e Z57.5) (Quadro XIII)
4. Manganês e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.5) (Qua-
dro XV)
5. Mercúrio e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.4 e Z57.5)
(Quadro XVI)
6. Sulfeto de Carbono (X49.-; Z57.5)(Quadro XIX)
7. Outros solventes orgânicos neurotóxicos (X46.-; X49.-;
Z57.5)

Fonte: Organização Mundial da Saúde.35

(continua)
Manual de perícias psiquiátricas 111

TABELA 7.1 Transtornos mentais e do comportamento relacionados com o


trabalho (Grupo V) (continuação)

Doenças Agentes etiológicos ou fatores


de risco de natureza ocupacional

VIII - Reação a estresse gra- 1. Outras dificuldades físicas e mentais relacionadas com o
ve e transtornos de adap- trabalho: reação após acidente do trabalho grave ou ca-
tação (F43.-): Transtorno tastrófico ou após assalto no trabalho (Z56.6)
de estresse pós-traumático 2. Circunstância relativa às condições de trabalho (Y96)
(F43.1)

IX - Neurastenia (inclui “sín- 1. Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos


drome de fadiga”) (F48.0) (X46.-; Z57.5) (Quadro III)
2. Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros sol-
ventes orgânicos halogenados (X46.-; Z57.5) (Quadro XIII)
3. Brometo de metila (X46.-; Z57.4 e Z57.5) (Quadro XIII)
4. Manganês e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.5) (Qua-
dro XV)
5. Mercúrio e seus compostos tóxicos (X49.-; Z57.4 e Z57.5)
(Quadro XVI)
6. Sulfeto de carbono (X49.-; Z57.5) (Quadro XIX)
7. Outros solventes orgânicos neurotóxicos (X46.-; X49.-;
Z57.5)

X - Outros transtornos neu- Problemas relacionados com o emprego e com o desemprego


róticos especificados (inclu- (Z56.-): desemprego (Z56.0); mudança de emprego (Z56.1);
sive “neurose profissional”) ameaça de perda de emprego (Z56.2); ritmo de trabalho peno-
(F48.8) so (Z56.3); desacordo com patrão e colegas de trabalho (con-
dições difíceis de trabalho) (Z56.5); outras dificuldades físicas
e mentais relacionadas com o trabalho (Z56.6)

XI - Transtorno do sono-vigí- 1. Problemas relacionados com o emprego e com o desem-


lia devido a fatores não or- prego: má adaptação à organização do horário de traba-
gânicos (F51.2) lho (trabalho em turnos ou noturno) (Z56.6)
2. Circunstância relativa às condições de trabalho (Y96)

XII - Sensação de estar “aca- 1. Ritmo de trabalho penoso (Z56.3)


bado” (“Síndrome de bur- 2. Outras dificuldades físicas e mentais relacionadas com o
nout”, “Síndrome do esgota- trabalho (Z56.6)
mento profissional”) (Z73.0)

Fonte: Organização Mundial da Saúde.35


112 Barros & Teixeira (orgs.)

acentuado comprometimento das funções cognitivas e afetivas, como, por


exemplo, os transtornos do aspecto da esquizofrenia, o transtorno bipolar
grave, o retardo mental moderado e grave, as psicoses de causas orgânicas
e as demências. Os transtornos depressivos e de ansiedade podem provocar
períodos de incapacidade, mas dificilmente seriam causas de invalidez. Con-
tudo, o perito psiquiatra deve estar bastante atento aos quadros de simula-
ção, à possi­bilidade de ganhos secundários e aos casos de supervalorização
da enfer­midade.
Nas perícias previdenciárias realizadas no INSS, constatamos que o
perito está restrito a quatro conclusões possíveis, classificadas do Tipo 1
ao Tipo 4 (T1 a T4). No critério T1, a conclusão é contrária à concessão
do benefício por inexistência de incapacidade laborativa ou pelo fato de a
doença ser preexistente à condição de segurado. No critério T2, conclui-se
com a data de cessação do benefício (DCB), sendo aplicado naqueles casos
em que a incapacidade é de duração previsível ou em que uma incapacida-
de anterior já tenha sido cessada. O critério T3 é reservado para os casos
relativos à gravidez. No critério T4, conclui-se com data de comprovação
de incapacidade (DCI), o que é adequado quando se constata incapacida-
de sem previsão de cessação. Nesse caso, o destino do segurado poderá ser
reabilitação, nova avaliação ou aposentadoria por invalidez. Após estabe-
lecer uma conclusão, o perito vai fixar as datas de início da doença (DID)
e de início da incapacidade (DII). A DID seria o surgimento dos primeiros
sinais e sintomas relevantes da doença, enquanto a DII marca o início das
alterações morfopsicofisiológicas que comprometem o desempenho das
funções ocupacionais. Essas datas serão importantes para auxiliar o ma-
gistrado a decidir pela concessão ou não do benefício e a fixar as quantias
indenizatórias retroativas. Por exemplo, nos casos de pensão por morte do
genitor, o filho dependente por invalidez deverá comprovar que a data de
incapacidade por enfermidade mental foi anterior ao falecimento do pai.
Houve uma importante mudança metodológica a partir da nova abor-
dagem do INSS (Nexo Técnico Epidemiológico – NTEP), implementado pelo
decreto no 6.042, de 12 de fevereiro de 2007, para caracterizar acidentes de
trabalho. Isso ocorreu porque, utilizando critérios epidemiológicos, as doen-
ças passaram a ser relacionadas não apenas a agentes etiológicos presentes no
trabalho, como era feito até então, mas também à atividade econômica em si.
Para tanto, foram levantadas as concessões de benefícios por doen-
ças codificadas na Classificação Internacional de Doenças,35 nos diversos ra-
mos de atividade segundo a Classificação Nacional de Atividade Econômica
(CNAE). Com isso, foi possível verificar, entre todas as atividades laborativas
do País, quais apresentavam incidência acima da média para as doenças hoje
reconhecidas. Estabeleceu-se, assim, uma longa lista de patologias, que pro-
varam estar estatisticamente ligadas ao trabalho, e, a partir dela, decide-se
pela concessão de benefício, com reconhecimento do nexo.
Manual de perícias psiquiátricas 113

Desde então, trabalha-se no Brasil com três tipos de nexo para fins pre-
videnciários: o técnico profissional ou do trabalho, baseado nas listas oficiais
que relacionam exposição a agentes etiológicos e doenças daí resultantes; o
técnico por doença equiparada a acidente de trabalho, quando a relação en-
tre adoecimento e atividade laboral se dá pela constatação de acidente ou
a patologia se equipara a acidente; e o técnico epidemiológico, baseado nas
associações estatísticas entre atividade econômica e incidência de doenças.
O maior impacto do NTEP se deu sobre as emissões de comunicações
de acidentes de trabalho (CATs) alegando doenças mentais. No ano seguin-
te a sua implementação, houve um incremento de 1.324% nessas CATs. Isso
ocorreu porque, diferentemente da maioria das doenças, os transtornos
mentais quase nunca apresentam uma causa clara e única, dificultando a
alegação de que teriam sido causados pelo trabalho. Com a lista, essa lacu-
na é preenchida, ficando presumido que o caso pode sim estar correlacio-
nado com a ocupação profissional, se caracterizado, por meios epidemioló-
gicos, o nexo.
Contudo, não é só isso que explica tal aumento: mesmo que haja, por
exemplo, muitos deprimidos entre os funcionários de uma área, isso não
significa que um funcionário específico não tenha outras causas para de-
pressão. Pela lista, por exemplo, um profissional de transporte rodoviário
de passageiros que tenha depressão, a princípio tem o nexo com o trabalho
reconhecido. Mas pode bem ser o caso de ele estar passando por muitos ou-
tros problemas pessoais, mais importantes ainda, e que essa depressão nada
tenha a ver com o trabalho. Isso deu margem a muitas tentativas não fun-
damentadas de benefícios e processos contra empresas, até mesmo fraudes,
por parte de trabalhadores sem qualquer doença (ou enfermos por outras
causas) que requeriam o reconhecimento legal da ligação entre sua condi-
ção e sua ocupação.
A perícia psiquiátrica, já importante, torna-se fundamental diante des-
se cenário fundamental, dada a avalanche tanto de alegações como de con-
testações do nexo nas ações trabalhistas.

PERÍCIAS TRABALHISTAS
Existe muito pouca variação nas causas trabalhistas no que se refere ao que
é requerido de um psiquiatra. Em geral, averiguar se o reclamante está (ou
esteve) doente ou não, estabelecer se a doença tem nexo de causalidade
com o trabalho e, por fim, avaliar se há sequelas que reduzam a capacidade
laborativa abarcam a maioria esmagadora dos casos.
Entre os diagnósticos relevantes, depressão, síndrome do pânico, trans-
torno de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada, sín-
drome de burnout e assédio moral são os mais frequentes em litígios contra
114 Barros & Teixeira (orgs.)

a empresa que carecem do auxílio da psiquiatria. Demências, dependências


químicas, transtornos psicóticos e transtorno bipolar, por terem causas me-
nos claramente atribuíveis ao trabalho, tendem a aparecer mais nas perícias
do INSS. Tais doenças têm se tornado tão frequentes, e suas alegações tão
comuns, que, assim como acontece na clínica, não há psiquiatras suficientes
para dar conta da demanda. Mais do que isso, muitas vezes não basta uma
boa formação em psiquiatria para fazer um laudo esclarecedor à Justiça, já
que as perguntas, explícitas ou implícitas, não são respondidas apenas com
o raciocínio clínico, por mais claro e preciso que este seja.
Ao mesmo tempo, o bom raciocínio pericial é, via de regra, insuficien-
te para a abordagem das questões psiquiátricas, e o conhecimento super-
ficial da especialidade leva quase necessariamente a distorções na realiza-
ção da perícia médica. Esse desenho pode ser ainda mais prejudicial para
a sociedade do que o anterior, pois, se no primeiro caso a Justiça fica com
uma correta descrição do quadro clínico, mas sem uma resposta satisfató-
ria, no último a descrição clínica deixa a desejar, e a Justiça acaba rece-
bendo uma resposta que, apesar de satisfazê-la, apresenta grandes chan-
ces de ser imprecisa.
Assim, é fundamental um conhecimento mais do que teórico dos
transtornos mentais, sobretudo no que se refere aos afetivos e de ansie-
dade. Ao perito que queira lidar com causas psiquiátricas, não basta ler a
descrição de sintomas nos manuais: é absolutamente necessário ter con-
tato com os pacientes no setting clínico, a fim de refinar seu instrumental
psicopatológico. Se não proceder assim, ele se assemelha ao sujeito que,
querendo simular um transtorno mental, decora a lista de sintomas e pas-
sa a representá-los no momento da perícia. A magnitude dos sintomas, o
peso de cada um deles na composição do quadro geral, a frequência ou
a raridade de cada uma das apresentações – conhecimentos práticos que
não se adquirem apenas em textos teóricos –, fazem toda a diferença tanto
na apresentação coerente dos sintomas como na capacidade do médico de
identificar tais características.
Embora tenha existido uma tentativa de padronização nas Diretrizes
de Apoio à Decisão Médico-Pericial em Psiquiatria, publicadas pela Previdên-
cia Social,65 é muito difícil que uma área tão subjetiva, passível de vieses e
sujeita a variações individuais seja abarcada por qualquer lista que preten-
da correlacionar automaticamente diagnósticos com suas possíveis causas e
alegadas incapacidades, a não ser de forma bastante genérica.
Isso não significa, contudo, que seja impossível realizar essas perícias.
Mais importante do que criar uma lista extensa de situações e suas impli-
cações, é fundamental construir uma forma de raciocínio que nos permita
abordá-las. O objetivo final, como em qualquer área pericial, mais do que
atestar se há doença (e qual), é esclarecer – caso a caso – quais as conse­
quências do quadro específico no contexto próprio daquela pessoa.
Manual de perícias psiquiátricas 115

Estabelecendo o nexo
Uma vez feito o diagnóstico, é preciso averiguar se há relação de causalida-
de com o trabalho, equiparando a condição encontrada a acidente de tra-
balho.
À dificuldade geral de responder tal pergunta a psiquiatria traz a com-
plicação adicional de não ser possível identificar os fatores etiológicos de
praticamente nenhum dos seus diagnósticos. Não é por acaso que ape-
nas um capítulo da Classificação Internacional de Doenças utiliza o termo
“transtornos” em vez de “doenças”, justamente o referente aos “transtornos
mentais”. Ao abrir mão do termo doença, reconhece-se que as causas, a his-
tória natural do problema e até mesmo seus mecanismos etiopatogênicos e
fisiopatológicos são, em grande parte, ignorados. A Organização Mundial da
Saúde afirma na CID-10:35

Embora fatores de estresse psicossociais relativamente pouco graves


possam precipitar a ocorrência de um grande número de transtor-
nos [...] ou influenciar-lhes o quadro clínico, nem sempre é possível
atribuir-lhes um papel etiológico, quanto mais que é necessário levar
em consideração fatores de vulnerabilidade, frequentemente idiossin-
cráticos, próprios de cada indivíduo; em outros termos, esses fatores
não são nem necessários nem suficientes para explicar a ocorrência e
a natureza do transtorno observado.

Para que se afirme, portanto, que o trabalho tem influência na origem


do adoecimento, a construção do raciocínio passa, após identificado o trans-
torno, a levar em conta sua natureza – se ansiosa, depressiva, psicótica, etc.
– e a considerar se os aspectos laborais alegados poderiam, de fato, guardar
nexo de causalidade, caso estejam verdadeiramente presentes. Além de ha-
ver plausibilidade clínica, é preciso considerar a relação temporal e a magni-
tude da intensidade: ter sido xingado uma vez pelo chefe é diferente de ter
sido xingado durante todo o tempo de contrato (a última situação apresenta
mais probabilidade de influenciar a origem do quadro do que a primeira).
Na medicina do trabalho, com base na classificação proposta pelo pro-
fessor Richard Schilling, da Universidade de Londres, na década de 1980,
quando se considera que o trabalho tenha desempenhado algum papel na
doença, ele pode ser enquadrado de três formas:

1. Causa necessária – como em uma intoxicação ocupacional, por


exemplo. Esses casos são raros em psiquiatria, por tudo o que já
foi exposto.
2. Fator de risco que contribui, mas não necessariamente causa – base
para o nexo técnico epidemiológico do INSS, às vezes pode ser
utilizado em perícias psiquiátricas fora da esfera da previdência.
116 Barros & Teixeira (orgs.)

3. Concausa, deflagrando doença latente ou agravando-a se já exis-


tente – talvez a situação mais comum em psiquiatria, uma vez que
estressores ocupacionais podem contribuir para o adoecimento
psíquico.

O grande cuidado no estabelecimento do nexo é lembrar que todos os


estressores da vida da pessoa contribuem para seu adoecimento, e, se qui-
sermos dizer que a doença foi causada por vários fatores, corremos o risco
de concluir que não há um “culpado”. O estresse do trabalho, especificamen-
te, deve ser apontado quando de intensidade relevante, superior aos outros
estressores. Uma costureira que fica viúva, por exemplo, pode alegar que o
trabalho deflagrou seu quadro depressivo. Pode até ser o fato que sua ati-
vidade seja estressante, mas, diante do luto, talvez seja temerário colocar o
trabalho como concausa nessa situação.
Outra cautela fundamental é delimitar muito bem qual o papel do peri-
to. Correndo o risco de soar repetitivo, é preciso sempre rememorar que o pe-
rito não é investigador, juiz, sindicalista ou advogado. É importante lembrar
disso porque as situações alegadas na esfera das reclamações trabalhistas que
tangem a psiquiatria, na maioria das vezes, não são passíveis de verificação
objetiva. Exigir a diligência ao local de trabalho, por exemplo, é um erro vindo
da aplicação acrítica e irrefletida das “regras” da medicina do trabalho. O Con-
selho Federal de Medicina, em sua Resolução 1.488/98,66 a qual “dispõe de
normas específicas para médicos que atendam o trabalhador”, determina que:

Artigo 10 – São atribuições e deveres do perito-médico judicial e as-


sistentes técnicos:
I – examinar clinicamente o trabalhador e solicitar os exames comple-
mentares necessários;
II – o perito-médico judicial e assistentes técnicos, ao vistoriarem o
local de trabalho, devem fazer-se acompanhar, se possível, pelo próprio
trabalhador que está sendo objeto da perícia, para melhor conhecimento
do seu ambiente de trabalho e função;
III – estabelecer o nexo causal, CONSIDERANDO o exposto no artigo
2o e incisos.

Examinar o trabalhador é dever do perito. Contudo, na resolução não


está dito que a vistoria é obrigatória, e sim que, ao vistoriar, é dever que tal
seja feito junto do trabalhador, se possível. Já o inciso III remete ao Artigo
2o, que diz:66

Artigo 2o – Para o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos


de saúde e as atividades do trabalhador, além do exame clínico (físico
e mental) e os exames complementares, quando necessários, deve o
médico considerar:
Manual de perícias psiquiátricas 117

I – a história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico


e/ou investigação de nexo causal;
II – o estudo do local de trabalho;
III – o estudo da organização do trabalho;
IV – os dados epidemiológicos;
V – a literatura atualizada;
VI – a ocorrência de quadro clínico ou subclínico em trabalhador exposto
a condições agressivas;
VII – a identificação de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos,
estressantes e outros;
VIII – o depoimento e a experiência dos trabalhadores;
IX – os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus
profissionais, sejam ou não da área da saúde.

Em ambos os casos, há que se perceber que os elementos devem ser


CONSIDERADOS, destaque feito pelo próprio inciso III do Artigo 10. Por
fim, o Artigo 11 não deixa margem para dúvidas:66

Artigo 11 – Deve o perito-médico judicial fornecer cópia de todos os


documentos disponíveis para que os assistentes técnicos elaborem
seus pareceres. Caso o perito-médico judicial necessite vistoriar a
empresa (locais de trabalho e documentos sob sua guarda), ele deverá
informar oficialmente o fato, com a devida antecedência, aos assistentes
técnicos das partes (ano, mês, dia e hora da perícia). [Grifo nosso]

Se raciocinarmos minimamente sobre essa questão, chegamos à con-


clusão de que isso não será aplicável à maioria dos casos psiquiátricos por
alguns motivos simples.
Em primeiro lugar, a visita ao local de trabalho serve sobretudo para
verificar as condições do local. Os fatores de risco ocupacionais considera-
dos na legislação são os físicos, químicos, biológicos, de acidente e ergonô-
micos e psicossociais. Estes últimos, no entanto, não são colocados no mapa
de risco ocupacional das empresas, justamente por serem dinâmicos, não
passíveis de mapeamento. O Ministério da Saúde, em seu Manual de procedi-
mentos para os serviços de saúde sobre as doenças relacionadas ao trabalho,67
cita como exemplos de fatores de risco psicossociais elementos como “exi-
gências de produtividade, relações de trabalho autoritárias, falhas no trei-
namento e supervisão dos trabalhadores, entre outros”. Beira o óbvio que
tais aspectos não podem ser verificados em uma inspeção local. Se o obje-
tivo for conversar com outros colegas, isso poderia ser feito no consultório,
o que até aumentaria a confiabilidade das informações. Estas, contudo, são
tão enviesadas quanto o relato do periciando, já que, normalmente, os fun-
cionários que ainda atuam na empresa temem por seu emprego, enquanto
ex-funcionários não raramente trazem suas próprias questões com relação
118 Barros & Teixeira (orgs.)

a seu empregador. Não se pretende, com isso, dizer que todos estão sempre
mentindo, apenas que fiar-se do relato de terceiros como fonte de objetivi-
dade é ingênuo e pode levar a erros graves.
Se um funcionário alega que seu chefe o xingava, ou que o humilhava de
várias maneiras, exigia tarefas impossíveis, etc., é inocência acreditar que per-
guntar para o empregado, para o chefe ou para os colegas se isso de fato ocor-
ria levará o perito a conhecer a verdade. O melhor a fazer é considerar, caso
sejam verdadeiras as alegações, se elas seriam suficientes para ter nexo com
a doença. Saber se o que o reclamante alega é verdade ou não foge ao escopo
da perícia, sendo essa uma decisão final do juiz. Por exemplo, imagine um pe-
rito que examina um sujeito que perdeu a audição e afirma que foi por conta
do barulho da empresa. O médico verifica que, de fato, há ruído excessivo em
um setor da empresa, mas esta diz que não era ali que o reclamante trabalha-
va e que a surdez do funcionário se deve ao fato de ele ser baterista em uma
escola de samba. Alguns colegas dizem que ele trabalhava naquele setor sim,
e que só de vez em quando ia à quadra; outros dizem que não costumavam vê-
-lo naquela parte da empresa, mas sempre o encontravam nos ensaios. O que
faz o perito? Não lhe cabe determinar quem está falando a verdade, apenas
atestar se há ou não surdez nervosa por excesso de ruídos e que em determi-
nado local da empresa – onde o periciando alega ter trabalhado – há ruídos
excessivos. Por que se esperaria isso da perícia psiquiátrica?

Estabelecendo a incapacidade
Incapacidade laborativa é a “impossibilidade de desempenhar as atribuições
definidas para os cargos, funções ou empregos, decorrente de alterações pa-
tológicas consequentes a doenças ou acidentes”, segundo o Manual de perícia
oficial em saúde do servidor público federal, publicado em 2010.68
A incapacidade, obviamente, não decorre da mera presença de um
transtorno mental. Assim, sua determinação tem de levar em conta sobre-
tudo a tarefa desempenhada e os impactos da doença sobre ela. Ao perito
cabe determinar o grau, a duração e a abrangência de tal impossibilidade.
Com relação ao grau, a incapacidade pode ser parcial, quando há pos-
sibilidade de desempenho das atribuições do cargo (sem que isso coloque
em risco a saúde ou a vida), ou total, quando é impossível desempenhar as
atribuições do cargo, função ou emprego.
No que diz respeito à duração, pode ser temporária ou permanente –
a primeira quando se vislumbra um horizonte de recuperação, e a segunda
quando não há tal perspectiva, seja de recuperação, readaptação ou reabi-
litação.
Por fim, a abrangência da incapacidade é classificada em uniprofissio-
nal, naqueles casos em que apenas uma função específica está prejudica-
Manual de perícias psiquiátricas 119

da; multiprofissional, quando o impedimento atinge múltiplas atividades do


cargo (ou função, ou emprego) em questão; ou omniprofissional, classifica-
ção reservada para aqueles casos graves em que existe impossibilidade de
realizar qualquer trabalho.
Frisamos, então, que a presença de uma doença, por si só, não signifi-
ca a existência de incapacidade laborativa. O mais fundamental na perícia
é estabelecer a repercussão da patologia no desempenho das atribuições do
cargo.

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: AÇÃO TRABALHISTA
Processo n-o-
Reclamante:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, no consultório privado localizado à Rua xxx, Xxx/SP, foi examinado
um indivíduo adulto do sexo masculino identificado como o periciando referido.
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acompanha-
do da esposa, Sra. xxx, RG n-o- xxx, e do assistente técnico da reclamada, Dr. xxx, CRM xxx.
As informações foram colhidas de ambos, de forma detalhada e adequada, colabo-
rando para a elaboração do laudo.
Não foram apresentados documentos médicos comprobatórios do estado de saúde.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


O periciando está movendo ação em face da xxx, para fins de reclamação trabalhista.

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Idade de 44 anos, casado, dois filhos, profissão xxx, atualmente trabalhando como
vendedor na loja de calçados xxx, ensino médio completo. Natural de xxx/SP e proce-
dente de xxx/SP, onde vive com sua família.
Quinto filho de uma prole de sete filhos provenientes de casal não consanguíneo.
Nascido de gestação fisiológica e parto normal a termo com bom peso. Desenvolvimen-
to neuropsicomotor normal. Recebeu aleitamento materno até 1 ano.
Infância sem relato de doenças graves ou traumas. Doenças comuns na infância, sem
complicações. Foi criado pelos pais em ambiente harmonioso e teve boa educação. Re-
lata bom relacionamento com família de origem e nega doenças comuns aos familiares.
120 Barros & Teixeira (orgs.)

Em idade escolar, tinha bom rendimento, sem relato de transtornos de conduta ou


da aprendizagem.
Casou-se com 23 anos e, desse relacionamento, teve dois filhos. Relato de relacio-
namento conjugal estável e harmonioso. Desempenho sexual satisfatório.
O periciando afirma ter ingressado na xxx (reclamada) no ano de 1990, quando ti-
nha 27 anos. Nessa época, estava finalizando o curso técnico de eletrônica no xxx, sen-
do comum iniciar estágio na reclamada.
Aos 29 anos foi contratado, por meio de concurso, para exercer a função de xxx.
Basicamente, realizava manutenção e instalação de equipamentos e componentes elé-
tricos. Gostava das suas funções e de seu emprego.
Dois anos depois, trocou de posto com outro funcionário e foi trabalhar em outro se-
tor, onde desempenhava função semelhante. Também refere que gostava do seu tra-
balho e que essa mudança foi sem um motivo específico.
Após aproximadamente quatro anos, no ano de 1999, foi transferido para um ter-
ceiro setor, também a seu pedido, porém motivado por um desentendimento com seu
chefe, xxx.
Nesse setor, permaneceu até o ano de 2006, porém os desentendimentos foram
progressivamente mais constantes. Alega que era obrigado a exercer função diferen-
te da sua formação, como ter que fazer jardinagem, atender portaria e realizar serviços
gerais. Diz que isso sempre resultava em conflitos com seus chefes, e as brigas pas-
saram a ser frequentes.
Nega que tenha ameaçado de agressão física ou que tenha agredido fisicamente
seus chefes. Sabe que é nervoso e que se desentendeu com vários funcionários, porém
acredita que eles sempre exageravam nas queixas em relação ao seu comportamento.
Nas duas ocasiões mais graves de desentendimento com seu superior, o perician-
do foi encaminhado ao CPP (Comissão Processante Permanente), órgão que avalia
a conduta do funcionário. Foi demitido em outubro de 2006, após a conclusão desses
dois procedimentos.
Durante o período que trabalhou na xxx, chegou a ser encaminhado para atendi-
mento psiquiátrico, mas não aceitou. O periciando refere que não é doente e que foi in-
justiçado com sua demissão.
Quanto à sua vida social e familiar durante os anos que trabalhou na xxx, nega con-
flitos familiares e diz que sempre teve vida social como qualquer outro cidadão. Relata
que tem muitas dívidas que foram contraídas nessa época. Acredita que sua situação
financeira não se deve à falta de um orçamento adequado de sua parte, mas ao fato de
os bancos “seduzirem” os funcionários da xxx.
A esposa do periciando, Sra. Xxx, confirma a maior parte dos dados relatados aci-
ma e descreve seu marido como uma pessoa muito nervosa e intolerante. É comum
se envolver em dívidas, tem baixo limiar à frustração e age predominantemente de for-
ma impulsiva.
No momento, o periciando está trabalhando como vendedor em uma loja de calça-
dos. Refere que está tendo dificuldades em atingir sua cota de vendas, mas nega con-
flitos com funcionários do local. A acompanhante ficou sabendo, por intermédio do che-
fe do periciando, que ele costuma dizer coisas sem sentido para os clientes e que, por
isso, perde tantas vendas.
Sem antecedentes de tabagismo, etilismo, uso de drogas ilícitas, sintomas psicóti-
cos, ideação ou tentativa de suicídio, epilepsia ou internação psiquiátrica. Sem antece-
dente familiar de transtorno psiquiátrico.
Manual de perícias psiquiátricas 121

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, anictérico, acianótico.
Sem sinais neurológicos grosseiros. Sem alterações de importância médico-legal.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador. Mantém comportamento adequa-
do, porém exibe postura desconfiada e em alguns momentos hostil.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: ansioso, com certa indiferença e hostilidade, dissociado ideoafetivamente,
baixo limiar à frustração com reação de raiva à confrontação.
• Pensamento: lógico, coerente, pensamento de conteúdo persecutório (não deli-
rante), sem alteração de fluxo ou forma. Autocrítica superficial em relação ao seu
comportamento com seus superiores e ética autocentrada.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: adequada.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada
• Juízo crítico da realidade: preservado.
• MMSE (Miniexame do Estado Mental): 30/30.

6 – DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES PSIQUIÁTRICO-FORENSES


Transtorno psiquiátrico – diagnósticos
• Os transtornos da personalidade, codificados como F60.x, são desarranjos gra-
ves da constituição caracterológica e das tendências comportamentais do indiví-
duo, não diretamente imputáveis a uma doença, lesão ou outra afecção cerebral
ou a outro transtorno psiquiátrico. Esses transtornos costumam compreender vá-
rios elementos da personalidade e são geralmente acompanhados de angústia
pessoal e desorganização social; aparecem habitualmente durante a infância ou
a adolescência e persistem de modo duradouro na idade adulta.
• O transtorno da personalidade com instabilidade emocional, codificado como
F60.3, é caracterizado por tendência nítida a agir de modo imprevisível, sem
consideração pelas consequências; humor imprevisível e caprichoso; tendência
a acessos de cólera; incapacidade de controlar os comportamentos impulsivos;
a adotar comportamento briguento e a entrar em conflito com os outros, particu-
larmente quando os atos impulsivos são contrariados ou censurados.
• O transtorno da personalidade paranoide, codificado como F60.0, é caracteriza-
do por sensibilidade excessiva ante contrariedades; recusa de perdoar os insul-
tos; caráter desconfiado; tendência a distorcer os fatos, interpretando as ações
imparciais ou amigáveis dos outros como hostis ou de desprezo; suspeitas reci-
divantes, injustificadas, a respeito da fidelidade sexual do esposo ou do parceiro
sexual; e sentimento combativo e obstinado de seus próprios direitos. Pode exis-
tir uma superavaliação de sua autoimportância, sendo frequente autorreferência
excessiva.35,43,69
122 Barros & Teixeira (orgs.)

Considerando as citações acima, baseadas em bibliografia de referência na psi-


quiatria forense moderna, o periciando apresenta quadro clínico sugestivo de um dos
subtipos de transtorno da personalidade descritos. Não se trata de uma uma doença
psiquiá­trica, e sim de uma alteração na constituição da personalidade.

7 – CONCLUSÃO
Considerando o exposto até o momento, concluímos que não há nexo de causali-
dade entre o transtorno psiquiátrico do periciando e o emprego que exercia.
Os desentendimentos ocorridos no ambiente de trabalho e que resultaram em sua
demissão são decorrentes da constituição de sua personalidade mórbida.
O periciando não está incapacitado para o trabalho.

8 – QUESITOS
Não foram apresentados.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

No exemplo supracitado, as histórias clínica e ocupacional do exami-


nando, tanto prévias como atuais, foram analisadas pelo perito antes de
apontar o nexo técnico de causalidade. Nesses casos, deve-se dar impor-
tância ao estudo da natureza, da especificidade e da força de associação do
agente patogênico a que o periciando foi exposto. Também é fundamental
observar a duração e intensidade dessa exposição, bem como o período de
latência entre esta e o surgimento da enfermidade. O psiquiatra perito de-
verá, ainda, avaliar se as causas não ocupacionais são menos determinantes
que os fatores ocupacionais, conhecer as condições do local de trabalho e o
perfil profissiográfico do examinando.
Com base nessa avaliação, o perito poderá concluir se o trabalho é
causa necessária (p. ex., transtornos do sono-vigília em trabalhadores no-
turnos), fator de risco contributivo de doença de etiologia multicausal
(p. ex., reações de ajustamento ou transtornos de adaptação por mudanças
no ambiente de trabalho) ou fator desencadeante ou agravante de doença
­preexistente (p. ex., agravamento ou recidivas dos transtornos depressivos
e ansiosos).
A avaliação do nexo de causalidade entre patologia e ocupação não é
tarefa simples, considerando que o processo de adoecer é específico para
cada indivíduo e envolve suas histórias pessoal e profissional. O nexo vai de-
pender do contexto organizacional do trabalho e das situações laborais que
Manual de perícias psiquiátricas 123

poderiam potencializar os transtornos mentais, incrementados pela vivência


subjetiva do trabalhador e de sua escassez de recursos mentais para reagir
aos estressores ocupacionais.
Caso necessário, podem ser solicitados exames complementares. Outro
dado importante é o conhecimento do perfil profissiográfico do periciando,
o qual inclui as condições do ambiente de trabalho e as particularidades da
função exercida pelo sujeito. Em geral, os magistrados não se conformam
em tomar decisões e proferir sentenças baseadas em suspeitas subjetivas, ca-
tegóricas e sem fundamentação.
No modelo de laudo a seguir, a perícia caracterizou o acidente de tra-
balho, já que tratou-se de ocorrências fortuitas e repetidas que acometeram
o sujeito em razão de seu ofício e que foram necessárias e suficientes para
o adoecimento:

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: AÇÃO TRABALHISTA
Processo n-o-
Reclamante:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – IDENTIFICAÇÃO
Xxx, 41 anos, natural de Pernambuco e procedente de São Paulo-SP, onde resi-
de com a esposa e filhos; ensino médio completo; gerente de posto de gasolina; cató-
lico não praticante.

2 – HISTÓRIA
Informações obtidas com o periciando em entrevista psiquiátrica
Relata que não apresentava problemas de saúde até 2xxx, quando foi vítima de as-
salto a mão armada e chegou a ficar refém dos assaltantes no posto de gasolina onde, na
época, trabalhava como caixa. Após esse episódio, passou a ter medo de sair de casa,
a assustar-se com qualquer barulho e a temer pessoas desconhecidas. Ficava choroso,
sentindo-se triste, não conseguia mais dirigir ou realizar outras tarefas de seu dia a dia.
Na época, chegou a iniciar acompanhamento cardiológico por sensações de opres-
são torácica, mas a investigação foi negativa para doenças cardíacas.
Foi aconselhado por um colega a iniciar tratamento psiquiátrico, pois apresentava
tremores intensos nas mãos durante seu trabalho, iniciando uso de amitriptilina e clo-
nazepam. Passou a apresentar pensamentos suicidas e comportamentos agressivos
124 Barros & Teixeira (orgs.)

com seus familiares. Relata que nessa época foi internado duas vezes em clínica psi-
quiátrica em função de tentativa de suicídio por ingestão de medicamentos (não sabe
informar quanto tempo permaneceu internado). Não recorda de quais medicações fez
uso, mas relata melhora progressiva do quadro, o que permitiu que retomasse suas ati-
vidades diárias e seu trabalho.
Há aproximadamente um mês, o posto de gasolina onde trabalha sofreu novo assal-
to. Estava em sua casa e recebeu uma ligação chamando-o ao local. Conta que, quan-
do chegou, viu seu colega baleado em membro inferior, o qual teve de ser amputado
após o ocorrido. Conta que ficou muito “marcado” pelo episódio e voltou a demonstrar
os sintomas que havia apresentado em 2004.
Atualmente, fica a maior parte do tempo em casa, deitado e sentindo medos ines-
pecíficos. Apresenta sintomas de tristeza, não tem vontade de sair e, quando sai, sente
medo e exibe tremores, sudorese intensa e taquicardia. Refere estar impaciente, com
baixa tolerância a sons. Dorme mal, acordando diversas vezes durante a noite devi-
do a sonhos com conteúdos violentos. Recorda-se a todo momento da cena ocorrida
no posto de gasolina e dos amigos que já foram baleados enquanto trabalhavam, pen-
sando neles sem vida e cobertos de sangue. Evita ao máximo passar perto ou voltar
ao seu local de trabalho e pensa que talvez seja melhor jogar seu carro de uma ponte
para acabar com seu sofrimento.
Traz, junto com seus documentos, receitas das medicações que lhe foram prescri-
tas para tratamento em outro serviço: haloperidol 10 mg/dia, clorpromazina 125 mg/dia
e amitriptilina 25 mg/dia. Quando questionado, relatou estar fazendo uso apenas de
risperidona 2 mg/dia até quando retornar para a próxima consulta com seu psiquiatra.

3 – DESCRIÇÃO
Apresentava-se em vestes adequadas para a entrevista.
Vigil, orientado no tempo e espaço. Com dificuldade em precisar datas ou a tempo-
ralidade de seus eventos biográficos e de sintomatologia psiquiátrica.
Atenção voltada para a entrevista.
Comportamento tímido, mantendo contato visual. Discurso e respostas adequadas
ao que lhe foi questionado.
Humor deprimido grave, demonstrando afetos de tristeza e de ansiedade quando
abordados os temas principais de sua avaliação.
Sem alterações de sensopercepção.
Pensamentos com conteúdo de revivência dos fatos estressantes em memórias ví-
vidas e de morte com ideação suicida.
Juízo de realidade preservado.
Hipomimia facial, tremores evidentes nas mãos, com piora durante o relato de sua
história.
Dificuldade em sua capacidade de planejamento ou prospecção.
Crítica parcial em relação aos diagnósticos e ao tratamento a que está sendo sub-
metido, mas com aparente boa adesão à terapêutica proposta.

4 – DISCUSSÃO
A partir dos dados coletados durante a entrevista e da documentação médica apre-
sentada, pode-se concluir que o periciando apresenta quadro compatível com o diag-
nóstico de transtorno de estresse pós-traumático.
Manual de perícias psiquiátricas 125

Esse transtorno é caracterizado na 10ª edição da Classificação Estatística Internacio-


nal de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) pelo desenvolvimento de
sintomas característicos após a exposição a um extremo estressor traumático,
envolvendo a experiência pessoal direta de um evento real ou ameaçador que
envolve morte, sério ferimento ou outra ameaça à própria integridade física; ter
testemunhado um evento que envolve morte, ferimentos ou ameaça à integri-
dade física de outra pessoa; ou o conhecimento sobre morte violenta ou ines-
perada, ferimento sério ou ameaça de morte ou ferimento experimentados por
um membro da família ou outra pessoa em estreita associação com o indivíduo.
No periciando, os sintomas característicos são a revivência persistente do evento
traumático, esquiva dos estímulos associados ao evento, embotamento da responsivi-
dade geral e sinais persistentes de excitação aumentada.
É comum os pacientes terem recordações “recorrentes e intrusivas do evento ou so-
nhos aflitivos recorrentes”, quando o evento é visualizado como se fosse “como um filme”.
No caso do periciando, o quadro clínico completo vem se manifestando desde que
testemunhou o crime mais recente em seu local de trabalho. Vale notar que ele já man-
tinha um tônus ansioso elevado pelo mesmo motivo, isto é, situação de ameaça à vida
no local de trabalho, mas ainda guardava certo nível funcional. Com a situação se re-
petindo, dessa vez presenciando efetivamente um colega baleado, o estresse foi sufi-
ciente para descompensar o quadro.

5 – CONCLUSÃO
O periciando apresenta sinais e sintomas compatíveis com transtorno de estresse
pós-traumático e, diante do exposto, é possível afirmar que tal quadro está diretamen-
te associado a suas condições de trabalho. Xxx apresenta importantes prejuízos psí-
quico, social e funcional que, no momento, impossibilitam o exercício de suas ativida-
des ocupacionais habituais.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

Observa-se que atitudes e condutas extremas são cometidas pelas dife-


rentes partes envolvidas na avaliação pericial. Se, por um lado, o perician-
do se acomoda no papel de doente e incapaz nos afastamentos prolongados
devido a ganhos secundários, por outro, alguns médicos assistentes se ex-
cedem na emissão de atestados repetitivos em conluio com o próprio dese-
jo do paciente, desvirtuando-se de uma adequada relação médico-paciente.
Cabe salientar que não é função do psiquiatra perito nomeado pelo juiz
assumir um papel paternalista ou fazer qualquer juizo sobre a ação. Para que
realize um bom trabalho pericial, o profissional deverá aplicar a técnica cui-
dadosamente, visando permitir ao juiz o alcance dos conhecimentos técni-
cos e científicos oferecidos em seu laudo pericial.
Esta página foi deixada em branco intencionalmente.
capítulo

AVALIAÇÃO PERICIAL
DE CRIANÇAS E
8
ADOLESCENTES
Miguel Angelo Boarati
Gustavo Nogueira-Lima
Eduardo Henrique Teixeira

A
o realizar a avaliação pericial de crianças e adolescentes, é fundamen-
tal ter em mente três aspectos peculiares. Primeiro, que se trata de
uma fase da vida de intensa mudança e desenvolvimento amplo em
diferentes esferas (físico, emocional, cognitivo, social, familiar), de modo
que a estabilidade diagnóstica é menor se comparada à dos adultos. É co-
mum que profissionais treinados na avaliação de adultos tenham dificulda-
de em estabelecer um diagnóstico clínico adequado em jovens e em definir
sinais e sintomas que sejam suficientes para o diagnóstico nosológico, o que
ocorre tanto pela falta de treinamento e experiência como pelo não conheci-
mento dos diversos transtornos mentais de início precoce e exclusivos da in-
fância, como, por exemplo, os transtornos do neurodesenvolvimento.44 Em
segundo lugar, trata-se de indivíduos que, na sua totalidade, não têm res-
ponsabilidade civil, criminal e de outras áreas do Direito, sendo esse papel
destinado aos seus responsáveis legais (pais, responsáveis ou Estado). O ter-
ceiro aspecto que deve ser considerado é o fato de esses periciandos estarem
sob a tutela do Estatuto da Criança e do Adolescente.70
O ECA prevê, em seu artigo 1o, proteção integral à criança e ao adoles-
cente e, em seu artigo 2o, estabelece como criança a pessoa que tem até 12
anos e como adolescente o indivíduo que tem entre 12 e 18 anos.70 Permite
uma leitura especial dessa fase da vida, na qual as peculiaridades supraci-
tadas possam ser contempladas, priorizando o cuidado e a proteção e man-
tendo os demais direitos fundamentais à pessoa humana, contemplado no
Código Civil.15
Em seu Artigo 4o, o documento define o que são os fatores de priorida-
de e de proteção e a quem cabe o dever de garanti-los.70
128 Barros & Teixeira (orgs.)

Art. 4o – É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e


do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos
direitos referente à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao espor-
te, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à
liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Assim, a sociedade como um todo se torna responsável pelo indivíduo.


Isso, por si só, torna mais complexa a tarefa de definir capacidade, uma vez
que, segundo a lei, o sujeito não é capaz ou responsabilizável por seus atos.
As principais solicitações de avaliação pericial de crianças e adolescen-
tes provêm das varas de família e da infância e juventude. As primeiras nor-
malmente têm o intuito de avaliar impactos psicológicos ou a presença de
transtornos mentais e emocionais diante de situações de lutas pela guarda
ou para definir ou não a suspensão do Poder Familiar (anteriormente cha-
mado de Pátrio Poder). Já as avaliações pessoais da Vara da Infância e Juven-
tude (VIJ), que lida com menores em situação de grave risco psicossocial ou
de prática delitiva, visam avaliar a presença de transtornos mentais que pos-
sam estar relacionados direta ou indiretamente com o início da prática cri-
minal, bem como determinar quais seriam as abordagens terapêuticas mais
apropriadas para cada caso, sobretudo quando há envolvimento com o uso
e abuso de substâncias psicoativas.
É fundamental ao perito em psiquiatria, principalmente quando ele não
possui formação específica em psiquiatria da infância e adolescência (PIA),
ter conhecimentos básicos de crescimento e desenvolvimento normal, da ava-
liação clínica psiquiátrica de crianças e adolescentes, dos transtornos men-
tais particulares dessa fase da vida e daqueles mais comuns em adultos, mas
que, por se iniciarem na infância e adolescência, exprimem peculiaridades na
apresentação e no curso clínico. Conhecimento de desenvolvimento cognitivo
e emocional são também essenciais ao perito, bem como a avaliação da famí-
lia (aspectos clínicos e de dinâmica familiar), pois muitas vezes a avaliação
pericial definirá o encaminhamento que será dado pelo judiciário e o conheci-
mento da estrutura familiar que o irá receber é de fundamental importância.

FASES DO CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO


Crianças e adolescentes têm características de comportamento muito distin-
tas dependendo de sua fase do desenvolvimento. Por exemplo, espera-se de
uma criança pequena ter medo do escuro, mas este comportamento não é
comum em adolescentes em condições normais. Os comportamentos espera-
dos para uma determinada faixa etária podem ser modificados por diversos
fatores, como patologias clínicas e psiquiátricas, fatores genéticos, socioe-
Manual de perícias psiquiátricas 129

conômicos e ambientais. Portanto, em uma perícia de uma criança ou ado-


lescente, antes de serem abordadas as condições psicopatológicas, pode ser
muito esclarecedor conhecer a fase específica do desenvolvimento em que o
periciando se encontra com suas características físicas, cognitivas e psicos-
sociais. A Tabela 8.1 descreve essas características para cada faixa etária.71

A AVALIAÇÃO CLÍNICA DE
CRIANÇAS E ADOLESCENTES
O processo de avaliação psiquiátrica de crianças e adolescentes está subme-
tido a algumas particularidades inerentes a cada fase do desenvolvimento,
exigindo do perito estratégias específicas ou uso de recursos não verbais du-
rante a entrevista.72 Para examinar crianças pequenas, tem sido preconiza-
do inclusive o uso de espaço especial, com elementos lúdicos e uso de histó-
rias e desenhos, pois, dependendo do nível de desenvolvimento emocional e
cognitivo da criança, é possível que informações essenciais não possam ser
obtidas em uma entrevista padrão.
Já com adolescentes, a utilização de técnicas verbais é mais fácil. Po-
rém, é comum a necessidade de fazer o adolescente sentir que a entrevista
não é demasiadamente dirigida, com perguntas fechadas, sobretudo em si-
tuações de abuso físico, emocional ou sexual e também no processo pericial
de menores infratores envolvidos em delitos de gravidade variável.
A avaliação exige dados trazidos por terceiros (pais, responsáveis,
cuidadores ou profissionais legalmente estabelecidos para responder pela
criança ou adolescente). Por vezes, essas informações são ignoradas ou di-
fíceis de se obter diretamente com os periciados, como marcos e falhas do
desenvolvimento, eventos de estresse ao longo da vida ou ocorrências de si-
gilo familiar.
Além disso, a criança ou o adolescente podem se recusar a colaborar no
processo de avaliação por não ser passível de sanções legais, como acontece
com adultos que não queiram colaborar. Nesse caso, é preciso que profissio-
nais treinados na abordagem dessa população sejam requisitados para auxi-
liar no processo de coleta de dados, mesmo que não tenham o treinamento
necessário em psiquiatria ou psicologia forense, pois dispõem de recursos
para lidar com a recusa ou dificuldade durante a entrevista. Esta, muitas ve-
zes, precisará ser filmada, e seu conteúdo, transcrito e resumido no corpo
do relatório.
Na maioria das vezes, é fundamental realizar a avaliação neuropsicoló-
gica com avaliação projetiva (aspectos cognitivos e emocionais), psicopeda-
gógica, de linguagem e psicomotricidade. Em adultos, esses exames muitas
TABELA 8.1 Desenvolvimento, nos grupos etários, de crianças e adolescentes 130
Faixa etária Desenvolvimento psicossocial Desenvolvimento cognitivo Desenvolvimento físico

Primeira • São estabelecidos os vínculos • O reconhecimento de símbolos e a • O cérebro, antes imaturo,


infância (do primordiais (pais e família). compreensão de seus significados começa a se desenvolver
nascimento • Desenvolvimento da ocorrem nesta fase. rapidamente e é muito sensível
aos 3 anos de autoconsciência. • Algumas capacidades cognitivas à influência ambiental.
idade) • Aumento progressivo do interesse estão presentes de maneira • A criança, por instinto e por
pelo ambiente, animais e demais primitiva, como tenacidade e mimetização, começa a adotar
seres humanos, adultos e memória de operação. padrões motores humanos.
crianças. • A linguagem se desenvolve, porém • O desenvolvimento físico é
• Aumento progressivo da de maneira rudimentar e baseada rápido.
Barros & Teixeira (orgs.)

independência. em informações concretas.

Segunda • Apesar de as demais crianças se- • Atividades de aprendizado escolar • O desenvolvimento físico
infância (3 a 6 rem cada vez mais importantes, a tornam-se viáveis. continua rápido, porém há
anos) família ainda é o foco da vida social. • Imaturidade cognitiva leva a um aumento maior da força
• A criança se reconhece como me- interpretação concreta de frases muscular e das habilidades
nino ou menina. subjetivas ditas por adultos. motoras finas.
• Aumenta o desejo de independên- • Funções cognitivas básicas • A diminuição do apetite e os
cia. se desenvolvem rapidamente, distúrbios do sono são comuns
• A compreensão das próprias emo- como memória de longo prazo e nesta fase.
ções e das dos demais indivíduos
linguagem. • Define-se a lateralidade (destra,
torna-se mais evidente.
sinistra ou ambidestra).
• As brincadeiras começam a ser diri-
• As proporções tornam-se mais
gidas para outras crianças e tornam-
-se mais complexas e subjetivas. parecidas com as de um adulto.
• Agressividade e medo são comuns
nesta fase.
• Aumenta a compreensão do ponto
de vista dos outros.

(continua)
TABELA 8.1 Desenvolvimento, nos grupos etários, de crianças e adolescentes (continuação)

Faixa etária Desenvolvimento psicossocial Desenvolvimento cognitivo Desenvolvimento físico

Terceira • Desenvolve-se o conceito de si, do • O pensamento lógico se • O desenvolvimento físico torna­


infância (6 a 11 ambiente e dos demais indivíduos. desenvolve. ‑se mais lento.
anos) • Comparações com outras crianças • As habilidades cognitivas básicas • O sistema imune ainda é
são comuns. ganham força rapidamente, imaturo, sendo comum a
• Surgem as tentativas de assumir beneficiando as atividades ocorrência de infecções virais.
o controle das decisões de vida e, escolares. • Aumentam o vigor físico e a
consequentemente, os conflitos • Lembranças podem ser mantidas a coordenação motora.
com os pais. longo prazo.
• Baixa autoestima é frequente.
• Aumenta gradativamente a
importância das demais crianças e
dos grupos.

Adolescência • O grupo de demais adolescentes • As atividades escolares • O desenvolvimento físico e


(11 a aproxi- torna-se o grupo de referência. concentram-se em conhecimentos sexual é rápido, possibilitando a
madamente 20 • A busca pela identidade torna-se mais complexos, focados na reprodução.
anos) uma prioridade. preparação para a faculdade ou • No final da adolescência, a
• Surgem as influências negativas e para a profissão. compleição física se assemelha
positivas dos amigos. • O desenvolvimento cognitivo avan- a de um adulto jovem.
• Aumentam os conflitos com pais e ça, tornando o desempenho nes- • Boa condição de saúde na
irmãos. ta fase semelhante ao dos adultos, maioria dos casos.
• Os comportamentos guiados por principalmente no final da adoles-
impulsos sociais podem colocar cência.
em risco a saúde do adolescente • Porém, ainda persistem alguns
(p. ex., uso de drogas, gravidez pensamentos imaturos em deter-
Manual de perícias psiquiátricas

precoce). minadas atitudes e comportamen-


tos, tornando o manejo difícil.
131
132 Barros & Teixeira (orgs.)

vezes são dispensáveis, mas, em crianças e adolescentes, podem ser essen-


ciais e, certamente, permitem maior embasamento nas conclusões periciais.
No caso de menores infratores, em que a medida socioeducativa preten-
de trabalhar elementos de reintegração social, é necessário saber se o peri-
ciando apresenta algum diagnóstico psiquiátrico que interfira na capacidade­
de compreensão e assimilação dessa medida. Nessa situação, a avaliação
cognitiva de processamento auditivo poderá indicar a melhor abordagem a
ser realizada ainda durante o regime de internação e qual será o limite pos-
sível de evolução dessa medida. Já naqueles indivíduos que estão inseridos
em condutas criminosas mais graves (líderes de gangues, homicídio, latrocí-
nio, etc.), a avaliação projetiva poderá indicar traços de sociopatia ou qual
é o impacto que determinada experiência gerou no jovem, podendo o delito
ser trabalhado de forma mais objetiva. O perito não deve se prestar a dizer
se o periciando é bom ou mau, se está ressocializado ou não – sua função
se restringe, técnica e eticamente, a definir diagnósticos e prognósticos re-
levantes para a justiça.
Concluindo, a avaliação de crianças e adolescentes exige do perito co-
nhecimentos com relação a crescimento e desenvolvimento normais, psico-
patologia da infância e adolescência, capacidade de vinculação e uso de re-
cursos não verbais para obtenção dos dados fundamentais para a perícia.

PRINCIPAIS TRANSTORNOS MENTAIS DE


INÍCIO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA

Na maioria das vezes, a solicitação judicial da perícia psiquiátrica visa deter-


minar a existência de um transtorno mental, correlacionando-o a uma situa-
ção de risco (no caso da determinação de guarda), ou definir o encaminha-
mento de uma medida socioeducativa (no caso de menores infratores que
estão envolvidos em delitos variados). Além disso, é necessário definir qual
ou quais tratamentos devem ser realizados, os locais em que eles ocorrerão
e quem será o responsável por esse cuidado.
Existem diferentes transtornos mentais cujo início necessariamente
ocorre na infância e na adolescência, como os do neurodesenvolvimento e
os comportamentais. Outros, cujos diagnósticos costumam ocorrer no início
da vida adulta, podem apresentar seus primeiros sintomas em fases mais
precoces, como é o caso dos transtornos do humor (em especial a depressão
e os transtornos de ansiedade). Por essa razão, é importante que o perito,
mesmo que não seja um psiquiatra da infância e da adolescência, possua co-
nhecimento básico dos critérios diagnósticos, em especial dos transtornos de
início precoce, para que possa realizar uma avaliação adequada e responder
aos quesitos solicitados.
Manual de perícias psiquiátricas 133

Entre os transtornos mentais de início na infância e na adolescência,


os comportamentais (também chamados de transtornos externalizantes) e
aqueles relacionados ao uso de substâncias psicoativas são os mais prevalen-
tes nas solicitações judiciais, em especial nos casos de menores em medida
socioeducativa. Contudo, outras patologias, como os transtornos emocionais
(ou internalizantes) e alguns transtornos do neurodesenvolvimento, pode-
rão ser o foco de investigação.

Transtornos do neurodesenvolvimento
São transtornos cujos primeiros sintomas já estão presentes no início do pe-
ríodo de desenvolvimento, com frequência antes de a criança entrar na esco-
la. Os déficits levam precocemente a prejuízos pessoais, sociais, acadêmicos
ou ocupacionais, interferindo no desenvolvimento e produzindo limitações
na aprendizagem, nas funções executivas e no controle de di­versas situa-
ções, com prejuízos globais de habilidades sociais e inteligência. O défi­cit
é global, afetando o desenvolvimento e apresentando repercussão e conse­
quências ao longo da vida.44 Fazem parte desse grupo de transtornos a defi­
ciência intelectual (retardo mental ou oligofrenia), transtorno da comunica-
ção, transtorno motor, os transtornos específicos da aprendizagem, o trans-
torno do espectro autista e o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade
(TDAH).
A deficiência intelectual é um transtorno que se inicia durante o perío-
do de desenvolvimento, possuindo etiologias diversas, e inclui déficits tanto
intelectuais (raciocínio, resolução de problemas, planejamento, pensamen-
to abstrato, julgamento, aprendizado acadêmico e aprendizado com as ex-
periências) como de funcionamento adaptativo (incapacidade de cumprir as
normas de desenvolvimento e os padrões socioculturais de independência
pessoal e responsabilidade social). Sem o apoio contínuo, os déficits adapta-
tivos limitarão o funcionamento em uma ou mais atividades da vida diária,
como a comunicação e a participação social, e impedirão o paciente de ter
uma vida independente em vários ambientes, como em casa, na escola, no
trabalho e na comunidade. É preciso realizar a avaliação clínica e/ou testa-
gem padronizada (avaliação neurocognitiva) para a confirmação diagnósti-
ca, principalmente nos casos leves.
Já no TDAH, é a presença de um padrão persistente de desatenção e/ou
hiperatividade e impulsividade que interfere no funcionamento global, na so-
cialização e na aprendizagem em diferentes ambientes e contextos. Para efe-
tuar esse diagnóstico, são necessários no mínimo seis sintomas de desatenção
e/ou hiperatividade/impulsividade interferindo de maneira significativa na
vida da criança ou adolescente. De todos os transtornos do neurodesenvolvi-
mento, o TDAH, devido ao alto risco de fracasso escolar ao longo do desenvol-
134 Barros & Teixeira (orgs.)

vimento, baixa autoestima, uso de drogas e envolvimento em práticas delituo-


sas ocasionados pelo transtorno, e também pela sua alta prevalência naqueles
entre crianças e adolescentes (em torno de 5 a 8%)73 precisa ser objetivamen-
te investigado, sobretudo em menores infratores ou naqueles com vivência de
rua, para uma adequada conclusão. A terapêutica clínica (medicação) é bas-
tante efetiva, em especial quando associada a medidas psicossociais.

Transtornos comportamentais ou externalizantes


Os transtornos externalizantes apresentam no cerne de seus critérios diagnós-
ticos a presença de alterações comportamentais que não sugiram sintomas
psicóticos, ou seja, em que o juízo crítico de realidade é preservado. Seus sin-
tomas incluem comportamento agressivo e disruptivo, irritabilidade, proble-
mas de sociabilização e dificuldade em aceitar regras e limites. São chamados
de externalizantes porque o diagnóstico clínico é feito principalmente a par-
tir da observação externa dos comportamentos, diferenciando-os, assim, dos
transtornos internalizantes (apresentados a seguir), cujos diagnósticos são so-
bretudo feitos com base nos relatos do paciente a respeito de seus sentimen-
tos e emoções. Esses transtornos também sofrem grande influência ambiental.
Entre as principais patologias dessa categoria estão o transtorno de
oposição desafiante (TOD), presente em infantes menores, e o transtorno da
conduta (TC), que afeta crianças mais velhas e possui um prognóstico pior.
O TOD é caracterizado por comportamento marcadamente desafiador,
desobediente e provocativo e pela ausência de atos antissociais ou agressi-
vos mais graves que violem a lei ou os direitos dos outros. É característico
em crianças com menos de 9 anos e difcilmente tem início na adolescência.
Além disso, restringe-se a uma breve fase do desenvolvimento psicológico.
A criança demonstra de modo persistente um comportamento negati-
vista, hostil, desafiador, provocativo e destrutivo, claramente anormal para
a idade e para o contexto sociocultural no qual está inserida. Esses pacien-
tes com frequência desafiam os pedidos e normas dos adultos que estão no
papel de figuras de autoridade, como pais e professores, e deliberadamente
aborrecem outras pessoas que com elas convivem. Tendem a ser coléricas e
ressentidas e culpam os outros por seus erros e dificuldades, apresentando
baixa tolerância a frustrações. Além disso, perdem a paciência com facilida-
de e causam turbulências familiares, escolares e no ambiente social em que
estejam inseridas. Crianças que crescem em cenários excessivamente per-
missivos ou rígidos em demasia, nos quais as regras não estão claramen-
te estabelecidas ou não há espaço para flexibilidade e diálogo, apresentam
maiores riscos para o desenvolvimento desse quadro.
Já o TC se caracteriza por um padrão persistente de comportamento
antissocial, com quebras de regras sociais ocorrendo de forma deliberada,
Manual de perícias psiquiátricas 135

o que acarreta consequências importantes e que afetam o indivíduo e o am-


biente a sua volta.
No TC, existem padrões de comportamentos antissociais que determi-
nam a sua gravidade: casos mais leves apresentam queixas relacionadas a
mentiras, lutas, provocações e faltas às aulas, enquanto os mais graves en-
volvem problemas com a lei, violência sexual, depredação do patrimônio
público e crueldade física com pessoas mais frágeis e animais. A presença
de sintomas mais graves, com curso crônico, ocorrendo com premeditação
e objetivos bem definidos de obter vantagens à custa de danos a outros re-
presenta um prognóstico pior, além de predizer transtorno da personalidade
antissocial na idade adulta.
Os transtornos externalizantes, em maior ou menor grau, apresentam
prevalência significativa em menores envolvidos em problemas com a lei ou
que estejam em medida socioeducativa, sendo, portanto, um dos principais
diagnósticos das avaliações das solicitações periciais.
Evidentemente, isso não significa dizer que todos os adolescentes que
cometeram atos infracionais apresentam TOD ou TC. É necessário que haja
um padrão estável de comportamentos disruptivos e disfuncionais por pelo
menos 12 meses antes do fato ocorrido e que a infração em questão, fruto
que determinou medida socioeducativa e, consequentemente, a solicitação
de avaliação pericial, esteja direta ou indiretamente relacionadas a esses
comportamentos. É significativo o número de adolescentes que cometem
atos infracionais de maneira ocasional e momentânea, guiados pelo grupo
ou por um impulso pela novidade, e que são apreendidos logo na primeira
tentativa, sem, no entanto, apresentar sintomas sugestivos de um transtorno
externalizante ao longo de seus desenvolvimentos. Nesses casos, não é pos-
sível definir o diagnóstico clínico de TOD ou TC, o que trará implicações na
determinação judicial para o caso.
Sempre que houver suspeita de um transtorno externalizante, sobre-
tudo na eventualidade de TCs graves (com envolvimento em crimes nefas-
tos, como homicídios, latrocínio, sequestro com cárcere privado, etc.), de-
ve-se solicitar avaliação projetiva e de funções cognitivas superiores para
se ter maior assertividade sobre o diagnóstico e o prognóstico. Nesses ca-
sos, é comum que o poder judiciário queira uma estimativa do nível de
periculo­sidade do sujeito. No papel de perito – e sobretudo considerando
os fatores do desenvolvimento da personalidade e a ausência de uma per-
manência do diagnóstico, ao contrário do que se observa em adultos com
transtorno da personalidade antissocial –, é imperativo concluir que se tra-
ta de um transtorno psiquiátrico bem estabelecido, mas que ainda existem
abordagens terapêuticas reconhecidas no meio médico capazes de modi-
ficar seu curso. Portanto, não é possível estabelecer de maneira definitiva
o desfecho, tampouco avaliar o risco de reincidência. Sendo assim, é rele-
vante ressaltar na conclusão da perícia que mesmo um TC de mau prog-
136 Barros & Teixeira (orgs.)

nóstico pode se modificar ao longo do tempo, a partir de medidas proteti-


vas ou terapêuticas.
O tratamento dos transtornos externalizantes exige terapia comporta-
mental, treino parental, estruturação ambiental e, em alguns casos (prin-
cipalmente quando há comorbidade com outros transtornos psiquiátricos
ou estão presentes sintomas de impulsividade e explosão afetiva – affective
storms),­o uso de medicação (que será discutido logo a seguir). Por vezes,
a solicitação da perícia de um jovem com suspeitas de transtorno externali-
zante visa determinar qual é a melhor e mais adequada abordagem terapêu-
tica para o caso. Por isso, é fundamental que o perito conheça os diversos
manejos disponíveis, para que, a partir de sua avaliação, o encaminhamento
do indivíduo seja o mais apropriado possível.

Transtornos emocionais ou internalizantes


Os transtornos emocionais ou internalizantes são assim denominados porque
neles, ao contrário do que ocorre com os externalizantes, o diagnóstico é feito
a partir de queixas objetivas e subjetivas do paciente. Fazem parte desse grupo
de doenças a depressão, os transtornos de ansiedade e os transtornos de vin-
culação, sendo estes últimos específicos da infância e adolescência. Os trans-
tornos de ansiedades são os mais prevalentes nas primeiras décadas de vida, e
sua prevalência varia conforme o tipo: ansiedade generalizada, pânico, fobia
social ou específico.74,75
A depressão apresenta uma prevalência de 1 a 2% em crianças, aumen-
tando de maneira significativa na adolescência, e está associada a risco de
suicídio, abuso de substâncias76 e outras comorbidades psiquiátricas, bem
como a prejuízos globais do desenvolvimento emocional e cognitivo. Os crité-
rios diagnósticos para as crianças são os mesmos utilizados para adultos, mas
diagnosticar a partir de queixas objetivas é por vezes difícil. É comum a crian-
ça ter dificuldade em definir seu estado de humor e caracterizar tristeza, de-
sesperança ou anedonia. Ela sente que existe algo ruim com ela e com tudo a
sua volta, mas verbalizar esses sentimentos de forma clara não é tão simples,
em função de seu desenvolvimento emocional e cognitivo incipiente. Ela po-
derá expressar sentimentos confusos, muitas vezes incongruentes para um so-
frimento psíquico, que exigirão do avaliador experiência e treinamento para
definir quais queixas correspondem aos sintomas de depressão. Já o adoles-
cente, apesar de entender que não está bem, resiste em confiar essas questões
a uma pessoa adulta para que possa ser ajudado.
O diagnóstico de depressão nas avaliações periciais realizadas nessa
faixa etária visa definir o risco de suicídio e as medidas preventivas a serem
adotadas, como necessidade ou não de internação em regime fechado.77
Essa é uma tarefa muito complicada, pois, além do grande tabu de se inves-
Manual de perícias psiquiátricas 137

tigar e definir critérios específicos e objetivos para determinar o risco de sui-


cídio em crianças e adolescentes, trata-se de uma condição muito complexa
e com marcada ambivalência (crianças e adolescentes não possuem clareza
sobre a real intenção de morrer).
Já os transtornos de vinculação, pela própria característica de sua apre-
sentação clínica e pela falta de vivência do psiquiatra com tal categoria no-
sológica, são muitas vezes ignorados dentro de um processo de avaliação
pericial. Recentemente, esse transtorno sofreu modificação conceitual no
DSM-5,44 sendo subdividido em duas condições complementares: transtor-
no de apego reativo (reactive attachment disorder) e transtorno de interação
social desinibida (disinhibited social engagement disorder). Ambas as condi-
ções apresentam um padrão marcado de vinculação bastante prejudicada,
e este ainda é um diagnóstico pouco familiar a psiquiatras de adultos. São
quadros bastante prevalentes em crianças que sofreram abuso, abandono ou
negligência; que foram precocemente institucionalizadas; que experimenta-
ram vivência de rua; e que não tiveram no início do seu desenvolvimento
uma figura de referência importante a quem pudessem se vincular de ma-
neira saudável e adequada para que seu desenvolvimento e amadurecimen-
to emocional pudesse ocorrer.
No transtorno de apego reativo, a criança não consegue se vincular a
ninguém, fechando-se em seu mundo interno e não interagindo com adultos
ou pares. No transtorno de interação social desinibida, por sua vez, o que se
observa é o contrário, ou seja, uma ausência de pudores na aproximação e
interação com adultos não familiares, com marcada indiscriminação nesses
vínculos e incapacidade em reconhecer intimidade ou seletividade. O perito,
ao avaliar crianças com história de abandono, maus tratos e violência, preci-
sa ficar atento à possibilidade de um transtorno de vinculação, o qual pode
estar associado a outra condição clínica. A avaliação neuropsicológica com a
testagem projetiva pode ser conveniente nesses casos.
Por fim, é importante destacar que o diagnóstico de um transtorno in-
ternalizante em perícias psiquiátricas necessita do vínculo de confiança en-
tre o perito e o periciando, além do uso de métodos não verbais, principal-
mente em crianças vitimizadas ou que apresentem algum grau de resistência
ao contato interpessoal. Desenhos, histórias e brincadeiras podem ajudar a
acessar o mundo interno do infante, possibilitando obter dados que corro-
borem a definição do diagnóstico clínico.

Transtornos de uso, abuso e


dependência de drogas e álcool
Os primeiros contatos com álcool e outras drogas ocorrem sobretudo na
adolescência, com uma tendência de atingir idade cada vez mais precoce,
138 Barros & Teixeira (orgs.)

tornando-se um sério problema de saúde pública, enfrentado atualmente


por diferentes países.
Os transtornos relacionados às drogas é o foco de muitas das solici-
tações de avaliações periciais, em especial de jovens envolvidos na prática
delitiva ou que vivem em situações de risco e abandono. Isso porque a pro-
ximidade entre as duas realidades (mundo infracional e drogas) torna uma
situação risco para a outra.
O uso de drogas é uma questão médica, e não jurídico-criminal, de
modo que a principal razão para o pedido de uma avaliação pericial des-
sa natureza é determinar se o jovem usuário de drogas e infrator apresenta
um problema de saúde que necessite de tratamento, ou se o caso envolve
apenas questões legais relacionadas ao envolvimento na prática delitiva, de-
vendo o sujeito ser enquadrado dentro de medida socioeducativa, segundo
o capítulo IV do ECA.70 Há pouco tempo, no Brasil, houve a descriminaliza-
ção do uso de drogas, justamente para tentar separar o usuário (no caso, a
pessoa com um transtorno e que necessita de tratamento específico) do in-
divíduo que comercializa a droga. Na prática, essa separação nem sempre
é fácil ou possível, pois não é incomum, sobretudo no caso dos jovens, que
o indivíduo que participe do tráfico de drogas o faça para manter o vício já
desenvolvido.
Em jovens em situação de risco (moradores de rua, abrigados ou vi-
vendo com famílias muito disfuncionais), o uso e abuso de álcool e outras
drogas é bastante expressivo. Avaliar a associação entre a situação de risco
vivida e o uso de álcool e drogas, bem como o impacto dessa associação e de
medidas protetivas é o foco da solicitação de perícia psiquiátrica nesses casos.
Também em menores internados por práticas delitivas de diferentes
graus de gravidade (desde furto e roubo até assaltos, sequestros e homicí-
dios) é expressivo o uso de álcool e outras drogas. É crescente o número de
solicitação de avaliação psiquiátrica desses jovens, capturados e internados
em medida socioeducativa, de acordo com o ECA, artigos 112 e 117 a 120,
por praticarem novo delito ou por não cumprimento de medidas alternati-
vas, como prestação de serviço à comunidade, liberdade assistida e semili-
berdade.70 O foco dessas avaliações é elucidar se realmente há um transtor-
no de dependência a drogas, o grau de envolvimento do periciando e quais
seriam as medidas mais adequadas, visando a abstinência e o cumprimento
da determinação judicial até a sua extinção. Esses exames precisam ser ob-
jetivos ao definir:

1. Se há ou não a presença de algum nível de uso, abuso ou critérios


de dependência química.
2. O grau desse envolvimento e os prejuízos associados.
3. A evolução ao longo do tempo, idade de início e substâncias utili-
zadas.
Manual de perícias psiquiátricas 139

4. Se o uso de drogas foi responsável direto ou indireto pelo envol-


vimento na criminalidade, pela recaída ou pelo não cumprimento
da medida em regime aberto.
5. Quais são os tratamentos mais adequados para o caso, considerando
os aspectos clínicos e psicossociais do periciando.

É essencial ter dados a respeito do respaldo e da continência familiar,


se o jovem tem outros parentes com transtorno de dependência de álcool e/
ou outras drogas e se há membros da família envolvidos com tráfico e crimi-
nalidade. A ausência parcial ou total de respaldo familiar e o uso significati-
vo de drogas – sobretudo daquelas com maior poder de causar dependência
e danos, como a cocaína e o crack – podem ajudar o profissional a definir
a melhor abordagem. Esta poderia ser, inicialmente, internação em clínicas
especializadas, mas isso pode gerar algumas dificuldades operacionais, por-
que, além do tratamento para a dependência, o jovem está em cumprimen-
to de medida por prática delitiva, e são poucos os serviços hospitalares que
possuem estrutura adequada para manter o tratamento em regime fechado,
evitando fugas. Naqueles casos mais leves ou nos quais a estrutura familiar
seja adequada, tratamentos ambulatoriais podem ser propostos.
É comum que esse parecer defina o modo como a medida socioeduca-
tiva será conduzida. Portanto, é essencial que ele seja objetivo e direto, evi-
tando pareceres dúbios ou inconsistentes.
A maioria das solicitações visa avaliar o grau de comprometimento
com as drogas, sua relação com a entrada e a permanência na vida infracio-
nal e os tratamentos mais adequados. Mesmo naqueles menores cuja prática
delitiva não é constante, o uso de drogas contribui para a refratariedade da
medida socioeducativa, sendo necessário introduzir abordagens que visem
manter essa associação (droga x crime), e o ponto de partida para isso é a
avaliação psiquiátrica.

ABORDAGENS TERAPÊUTICAS
Sugestões de abordagens terapêuticas podem ser indicadas pelo perito na
seção “conclusão” da avaliação. Ao fazer sua indicação, o perito deve consi-
derar o diagnóstico definido, os riscos do não tratamento e a necessidade­de
garantir que aquele jovem receba da família ou do Estado todo o necessário
para levar a termo seu tratamento, considerando as determinações presen-
tes do Artigo 11 do ECA, transcrito a seguir:68

Art. 11. É assegurado atendimento integral à saúde da criança e do


adolescente, por intermédio do Sistema Único de Saúde, garantido o
acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, pro-
teção e recuperação da saúde.
140 Barros & Teixeira (orgs.)

Mesmo para peritos sem vivência clínica no tratamento de crianças e


adolescentes, é fundamental que a conclusão possa contemplar as possíveis
e necessárias abordagens terapêuticas que, além do diagnóstico clínico, tam-
bém são foco da solicitação da perícia.
Dada a grande especificidade do tema, na maioria das vezes o peri-
to se limitará a indicar o encaminhamento para tratamento especializado,
sabendo que este deve ser constuído por abordagem multidisciplinar, com
investimento nos manejos psicoterápico e psicopedagógico (quando detec-
tado transtornos da aprendizagem), fonoaudiológico (nos distúrbios de lin-
guagem) e de terapia ocupacional (nos casos de prejuízo funcional e dos
cui­dados básicos da vida diária). Além disso, não se pode esquecer do tra-
tamento a ser destinado aos pais e cuidadores. Esse é um ponto que ne-
cessariamente precisa ser explorado com objetividade, pois, muitas vezes,
o manejo sugerido para o jovem na conclusão do laudo precisa vir atrela-
do às abordagens voltadas à família, sobretudo quando ele vive em conta-
to direto com um adulto que necessite de tratamento concomitantemente
(no caso de filhos de pais dependentes químicos ou com algum transtorno
mental) ou que não tenha treinamento parental suficiente para garantir o
cuidado (no caso de pais jovens, inexperientes ou que tenham muitas de-
mandas pessoais). O acompanhamento por profissional de serviço social e as
abordagens psicossociais, levando recursos à comunidade (cursos profissio-
nalizantes, áreas de recrea­ção e lazer, escola, etc.) costumam ser incluídos
na conclusão. Essas são particularidades que dificilmente serão encontradas
em perícias de adultos, mas que precisam estar presentes quando o objeto
de avaliação é uma criança ou um adolescente.
Por fim, a avaliação pericial de crianças e adolescentes, quando compa-
rada a outras formas de perícia, constitui um grande desafio, pois exige do
perito, além do conhecimento da estrutura técnica desse exame, familiarida-
de com os fundamentos da psiquiatria da infância e adolescência, conside-
rando aspectos clínicos, de neurodesenvolvimento e de abordagens terapêu-
ticas. Essa é uma área que carece de profissionais especificamente treinados,
acostumados e dedicados às peculiaridades dessa fase da vida. É necessário,
para que se garanta a boa qualidade técnica da avaliação, que haja a forma-
ção de profissionais com esse perfil.
capítulo

PSICOLOGIA JURÍDICA
E PSICOTESTES
9
Luiz Fernando Longuim Pegoraro
Eduardo Henrique Teixeira
Daniel Martins de Barros

A
psicologia jurídica ou forense é uma especialidade emergente da psi-
cologia, se comparada às áreas tradicionais de formação e atuação do
psicólogo, como a escolar, a organizacional e a clínica.78
Segundo a Resolução no 013/2007 do Conselho Federal de Psicologia
(Anexo II),79 o psicólogo jurídico é o profissional que

[...] atua no âmbito da Justiça, do planejamento e execução de políti-


cas de cidadania e de prevenção da violência, centrando sua atuação
na orientação do dado psicológico repassado não só para os juristas
como também para os indivíduos que carecem de tal intervenção para
possibilitar a avaliação das características da personalidade e fornecer
subsídios ao processo judicial, além de contribuir para a formulação,
revisão e interpretação das leis.

O psicólogo jurídico atua como perito judicial nas varas cíveis, crimi-
nais, do trabalho, da família, e da criança e do adolescente, elaborando lau-
dos, relatórios, pareceres e perícias, para serem anexados aos processos, a
fim de atender e orientar crianças, adolescentes, detentos e seus familiares.
Os campos de trabalho são muito semelhantes aos do psiquiatra foren-
se, mas com algumas exceções. Os psicólogos também elaboram laudos pe-
riciais por meio da nomeação de uma autoridade, geralmente um juiz, dão
pareceres técnicos ou realizam consultorias na área. No caso do parecer psi-
cológico, a solicitação poderá vir de um advogado, de um paciente ou até
mesmo de um psiquiatra forense que visa complementar seu laudo pericial
ou parecer. Em geral, nas varas criminais, a perícia é requisitada ao médi-
co psiquiatra, que pode solicitar uma avaliação psicológica como um exame
complementar.80
Os psicólogos jurídicos podem utilizar a avaliação psicológica para au-
xiliar em processos de separação, disputa de guarda, adoção, regulamenta-
142 Barros & Teixeira (orgs.)

ção de visitas e destituição do pátrio poder; em casos de interdição, indeni-


zações, acidentes de trabalho e avaliação da capacidade de imputação; na
elaboração de avaliações de progressão de pena, cessação de periculosidade
e insanidade mental; e na criação de pareceres em relação às questões que
envolvam relacionamentos conflituosos e mudança de guarda.
Cabe à psicologia jurídica a realização da avaliação psicológica por
meio da aplicação de técnicas e testes psicológicos, restritos ao uso do psicó-
logo. No campo forense, o profissional avalia as condições intelectuais, cog-
nitivas e emocionais de crianças, adolescentes e adultos em conexão com
processos jurídicos, em função de deficiência mental, intelectual e insanida-
de, testamentos contestados, aceitação em lares adotivos, posse e guarda de
crianças e responsabilidade legal por atos criminosos.
A importância da avaliação psicológica no campo forense está direta-
mente ligada ao tipo de ação e aos interesses envolvidos. Em alguns casos,
sua aplicação poderá ser fundamental, porém, em outros, seu resultado po-
derá ter validade questionada. Por exemplo, em uma ação de interdição de
paciente com quadro de deficiência intelectual leve (retardo mental leve)
ou inteligência limítrofe, a aplicação de um teste de inteligência poderá ser
muito útil como complemento à avaliação clínica do psiquiatra perito. Con-
tudo, no caso de o paciente “querer” ser interditado, talvez por almejar al-
gum ganho secundário, ele poderá deixar de responder o teste de forma
adequada, com o intuito de o resultado final do laudo classificá-lo como in-
capaz. Em contrapartida, se o sujeito mostra-se contrário a sua interdição,
fará o maior esforço para obter o resultado que demonstre sua capacidade
mental/intelectual.
A mesma situação poderá acontecer no caso de interdição de um pacien-
te em um processo demencial inicial. Nessas situações, as limitações podem
ser muito sutis, mas suficientes para interferir nas decisões e ações do indiví-
duo. Portanto, a avaliação de suas capacidades cognitivas poderá ser extrema-
mente útil como complemento ao laudo, salientando que o resultado do exa-
me também dependerá do interesse do paciente.
Ao realizar a avaliação psicológica dentro do âmbito forense, o psicó-
logo jurídico com frequência se depara com a simulação ou dissimulação de
sintomas psicológicos. Os profissionais da saúde mental devem estar espe-
cialmente atentos quando avaliam processos de divórcio, guarda de filhos e
interdição; situações que implicam em ganho financeiro importante; e casos
que envolvam restrição à liberdade da pessoa a ser examinada.81
Os psicólogos jurídicos têm elaborado estratégias de avaliação para li-
dar com situações em que os pacientes simulariam sintomas. Destas, a utili-
zação de múltiplos testes, técnicas e formas de examinar um mesmo indiví-
duo tem se mostrado mais eficaz.82
Manual de perícias psiquiátricas 143

AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA FORENSE E PSIQUIATRIA


A avaliação é um processo limitado no tempo, pautado em conhecimentos
científicos e que utiliza entrevistas, técnicas e testes psicológicos com o obje-
tivo de investigar o funcionamento cognitivo, intelectual e emocional do in-
divíduo.83 Consiste em entrevistas estruturadas com o periciando, familiares
e profissionais envolvidos e na aplicação de técnicas e testes psicológicos es-
pecíficos. Os dados coletados na anamnese, nas entrevistas e nas aplicações
dos testes são correlacionados e interpretados, permitindo a compreensão
das especificidades de cada indivíduo, bem como a formulação de diagnós-
ticos, recomendações e prognósticos.
Segundo Rovinski,84 a avaliação psicológica forense deve, “através da
compreensão psicológica do caso, responder a uma questão legal expressa
pelo juiz ou por outro agente jurídico”.
Apesar de os psicólogos jurídicos tenderem a utilizar os mesmos tes-
tes e técnicas da área clínica, há necessidade da adaptação dos métodos e
estratégias de obtenção de dados, a fim de conferir-lhes maior confiabili-
dade.85
No campo forense, em comparação à clínica e a outros contextos de
atuação do psicólogo, a precisão e exatidão das informações é imprescindí-
vel. Embora, na clínica, as pessoas costumem buscar o psicólogo voluntaria-
mente, no meio forense elas chegam ao consultório por ordem de um juiz,
advogado ou perito, demonstrando, em geral, maior resistência ao processo
investigativo. Além disso, como já referido, a simulação de sintomas e quei-
xas é comum na avaliação psicológica forense. Consequentemente, o psicó-
logo deve checar as informações dúbias ou inconsistentes.85
A avaliação psicológica forense poderá contar, além da entrevista clíni-
ca tradicional, com uma ampla variedade de testes, que serão selecionados
dependendo da questão legal e do examinando. Esses exames devem apre-
sentrar validade e fidedignidade e estar padronizados ao nosso contexto cul-
tural,86 constando, além disso, no rol de testes avalizados pelos Conselhos
de Psicologia. Os mais utilizados no contexto forense são os testes de inteli-
gência, de personalidade e de avaliação neuropsicológica.87,88

AVALIAÇÃO DA INTELIGÊNCIA
Segundo Gottfredson,89 a inteligência “é uma capacidade mental muito am-
pla que, entre outras coisas, implica na habilidade para raciocinar, planejar,
resolver problemas, pensar de maneira abstrata e aprender da experiência”.
A avaliação da inteligência, portanto, pressupõe a investigação de diferen-
144 Barros & Teixeira (orgs.)

tes capacidades específicas, como as habilidades verbais, matemáticas e vi-


suoespaciais.
A avaliação intelectual pode auxiliar no processo de investigação de
pessoas com deficiência intelectual (retardo mental) de diferentes graus e
com outras condições que costumam estar associadas a esse transtorno do
desenvolvimento, como os transtornos do espectro do autismo, as síndromes
genéticas e outras patologias que resultam em comprometimento intelec­tual
do indivíduo.
A pessoa com deficiência intelectual, por apresentar discernimento
prejudicado e compreensão reduzida da realidade, pode tornar-se vulnerá-
vel diante das demandas sociais. Logo, ela será inquestionavelmente inim-
putável para o Direito Penal e incapaz para o Direito Civil.90
As escalas de inteligência do psicólogo David Wechsler são considera-
das o padrão-ouro no que se refere à avaliação intelectual de crianças, ado-
lescentes, adultos e idosos. A Escala de Inteligência Wechsler para Crianças
(WISC-IV) foi recentemente revisada no Brasil91 e se destina a avaliação in-
telectual de pessoas entre 6 e 16 anos. Já a Escala de Inteligência Wechsler
para Adultos, em sua terceira edição (WAIS-III),92 permite avaliar indivídu-
os entre 17 e 89 anos. Ambos os instrumentos são compostos de vários sub-
testes, os quais fornecem uma medida para a capacidade intelectual geral,
o quociente intelectual (QI) e índices fatoriais para a compreensão verbal,
a organização perceptual, a velocidade de processamento e a memória de
trabalho.
Outros testes que podem ser utilizados por psicólogos jurídicos para a
avaliação intelectual de pessoas são: a Escala de Maturidade Mental Colum-
bia,93 o Teste das Matrizes Progressivas de Raven,94 o Teste de Inteligência Ge-
ral Não-Verbal TIG-NV95 e a Bateria de Provas de Raciocínio BPR-5.96

AVALIAÇÃO DA PERSONALIDADE
A personalidade refere-se às características da pessoa que explicam padrões
consistentes de sentimentos, pensamentos e comportamentos, que tornam
cada indivíduo único, singular. Essas características são, em parte, construí-
das socialmente, por meio da interação com nossos pares, e, em parte, cons-
tituídas pela herança genética de nossos pais.97
Os testes de personalidade são destinados à avaliação de aspectos nor-
mais e patológicos da personalidade, do humor e do comportamento do in-
divíduo. Em geral, o psicólogo jurídico é solicitado a avaliar a doença mental
e o funcionamento da personalidade em casos relacionados a imputabilida-
de, responsabilidade civil ou danos pessoais.87
Essa avaliação pode ser utilizada para auxiliar na investigação dos
transtornos da personalidade, do humor, psicóticos, do impulso, de depen-
Manual de perícias psiquiátricas 145

dência química e quadros de alteração do humor e do comportamento de-


correntes de lesão ou degeneração do sistema nervoso central.
Os testes de investigação da personalidade podem ser projetivos ou ob-
jetivos. Os primeiros consistem na interpretação de estímulos ambíguos, em
representações gráficas e na reprodução de figuras e construções artísticas.
Eles pressupõem que o indivíduo, ao interpretar uma figura ou ao realizar
uma representação gráfica, está projetando aspectos de sua personalidade,
seja ela normal ou patológica.
Os testes projetivos de Rorschach, o Teste de Apercepção Temática
(TAT),98 o Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister,99 o Teste Palográfico,100
o Teste Casa-Árvore-Pessoa (HTP)101 e as técnicas lúdicas e de desenho livre
são as mais utilizadas em avaliações psicológicas forenses. Essas técnicas,
por se basearem na percepção e experiência do clínico, costumam receber
críticas relacionadas a precisão, validade e normatização reduzidas.99
Em relação aos testes projetivos, os testes objetivos de personalidade
são mais estruturados e diretos. Eles são compostos de perguntas e opções
de respostas específicas para o examinando, como, por exemplo, “verdadei-
ro” ou “falso”, ou atribuir nota de 1 (nada a ver comigo) a 7 (tudo a ver co-
migo).
Internacionalmente, os testes mais utilizados para avaliação objeti-
va da personalidade são o Minnesota Multiphasic Personality Inventory 2
(MMPI-2)102 e o Inventário Clínico Multiaxial de Millon-III (MCMI-III).103
No Brasil, os testes baseados no modelo dos cinco grandes fatores de perso-
nalidade (neuroticismo, extroversão, abertura, amabilidade e consciencio-
sidade), ou seja, a Bateria Fatorial de Personalidade104 e o Neo-PI-R105 ga-
nharam repercussão após sua padronização e validação em nosso contexto.
Outros testes e escalas são utilizados para complementar a avaliação
da personalidade com a investigação de aspectos relacionados ao humor
(p. ex., os Inventários de Depressão e de Ansiedade de Beck,106 à socializa-
ção (p. ex., o Inventário de Habilidades Sociais [Del Prette, 2009]), e à psi-
copatia (p. ex., a Escala Hare Psychopathy Checklist Revised – PCL-R).107 A
escala PCL-R é um instrumento destinado à área forense, desenvolvido para
avaliar de maneira objetiva o grau de periculosidade e de readaptabilidade
dos condenados à sociedade.107

AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
A neuropsicologia é o campo do conhecimento que estabelece relações entre
o funcionamento do sistema nervoso central, as funções cognitivas e o com-
portamento, tanto na normalidade como na patologia.108
A avaliação neuropsicológica consiste na utilização de técnicas de en-
trevistas e exames da cognição tanto quantitativos como qualitativos, abran-
146 Barros & Teixeira (orgs.)

gendo a atenção, a memória, a percepção, a linguagem, o raciocínio, a pra-


xia, a visuoconstrução e as funções executivas.109
A aplicação da neuropsicologia e da avaliação neuropsicológica à área
forense tem ganhado cada vez mais importância ao longo das últimas dé-
cadas.110,111 O psicólogo jurídico pode, por meio da avaliação neuropsi-
cológica, auxiliar no diagnóstico diferencial, identificar forças e fraquezas
neuropsicológicas ao longo do tempo e avaliar condições neurológicas e
psiquiátricas, como, por exemplo, os transtornos do desenvolvimento, os
traumatismos craniencefálicos, as neuropatologias adquiridas, as doenças
crônicas e as demências.112
Em geral, a avaliação neuropsicológica é aplicada, na vara criminal, em
processos de verificação da capacidade de imputação, reeducativos e de ces-
sação de periculosidade; na vara cível, costuma ser empregada em proces-
sos relacionados a interdição, danos psíquicos e neurofuncionais; já na vara
trabalhista, é frequentemente solicitada em processos de capacidade labo-
rativa, relação nexo-causal e verificação das condições mentais para fins de
aposentadoria ou desempenho de cargos.113
Os neuropsicólogos contam com inúmeros testes e técnicas neuropsi-
cológicos destinados a avaliar a atenção, a memória, a linguagem, a visuo-
construção, a praxia e as funções executivas. Os principais testes dessa natu-
reza que podem ser utilizados no contexto forense para avaliar essas funções
cognitivas são: as Escalas de Inteligência de Wechsler (WISC-III, WISC-IV,
WAIS-III);o Teste das Figuras Complexas de Rey;114 o Teste Wisconsin de
Classificação de Cartas;115 o Teste das Trilhas Coloridas;116 o Teste de Aten-
ção Visual (TAVIS-3);117 o Teste de Bender;118 o Teste de Atenção Concentra-
da;119 os Testes de Atenção Dividida e Sustentada;120 e o Teste de Apren.116
capítulo

HONORÁRIOS
Eduardo Henrique Teixeira
10

tema “honorários” sempre gera muitas dúvidas para o psiquiatra fo-


O rense, sobretudo para quem está começando a atuar na especialida-
de. Isso ocorre, basicamente, porque não existe uma forma apropria-
da de definir o valor de uma perícia psiquiátrica. Este deveria ser definido
com base no tempo gasto (hora-trabalho) para realizar todos os trabalhos
periciais, isto é, analisar de modo detalhado o processo, examinar o peri-
ciando quantas vezes forem necessárias, escrever o laudo, possivelmente,
responder os quesitos complementares e questionamentos e lidar com a im-
pugnação. A hora-trabalho seria o valor da consulta médica do profissional,
acrescido do valor correspondente à qualificação e especialização que o tor-
na um perito no assunto.
Contudo, na prática não é isso o que acontece, podendo haver uma ne-
gociação do valor com intermediação do juiz, o qual poderá arbitrar o va-
lor que julgar apropriado. Caso o perito nomeado considere o valor muito
baixo, poderá cordialmente informar o juiz do seu interesse em declinar da
nomeação. Dessa forma, outro profissional poderá ser indicado. Segundo o
Inciso X do capítulo II – Direitos dos Médicos, do Código de Ética Médica,
é direito do médico “estabelecer seus honorários de forma justa e digna”.22
Em alguns tipos de ação judicial, como, por exemplo, em ações traba-
lhistas, os honorários são arcados pela parte que perder a causa. Nesses ca-
sos, geralmente o perito solicita um valor prévio para dar início aos traba-
lhos e notifica o valor final ao terminar e entregar o laudo, momento em que
já poderá ter uma melhor ideia do tempo gasto para concluí-lo. Quando for
finalizado o processo (transitado em julgado), o perito receberá seus hono-
rários corrigidos.
Segundo a Lista de Procedimentos Médicos da Associação Médica Bra-
sileira (AMB),121 o valor mínimo sugerido para perícia forense realizada por
psiquiatra é R$ 780,00 (igual a 20 vezes o valor de uma sessão de psicote-
rapia individual na mesma tabela, R$ 39,00). Considerando que, hoje, uma
sessão de psicoterapia custa em torno de R$ 100,00, o valor atual da perícia
corrigido pela tabela seria de R$ 2.000,00. Não há referência de perícia psi-
quiátrica na Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médi-
148 Barros & Teixeira (orgs.)

cos (CBHPM),122 de 2012, da AMB, a lista mais atual de valores de referên-


cia para honorários médicos no Brasil.
Existem algumas tentativas de definir esses valores, porém, em geral,
são incompatíveis com a complexidade da perícia psiquiátrica. Na Resolução
no 227, de 15 de dezembro de 2000, a Justiça Federal fixou os honorários
médicos para beneficiários da Justiça Gratuita em mínimo de R$ 150,00 e
máximo de R$ 300,00.123
Para o Estado de São Paulo, existe uma condição específica, talvez úni-
ca no Brasil, para os beneficiários da Justiça Gratuita e para perícias especí-
ficas. O exame será realizado por peritos credenciados por meio de concur-
so realizado pela Secretaria da Saúde da sua região, conforme Decreto no
39.008 de 04 de agosto de 1994, que define as regras para seleção do psi-
quiatra perito, suas devidas competências e a forma de pagamento.124 O juiz
fará a nomeação desse profissional no processo e no final do trabalho fará a
solicitação do pagamento à Secretaria da Saúde.
Nas varas federais da Justiça do Trabalho, quando a parte sucumbente
(quem perde o processo) não é capaz de arcar com os honorários periciais,
o próprio tribunal pode fazê-lo, no valor de até R$ 1.000,00.
O valor é muito inferior ao sugerido pela referida tabela da AMB; con-
tudo, as comarcas tendem a facilitar ao máximo o trabalho do profissional,
fornecendo local para realização dos exames e auxílio no encaminhamento
dos laudos.
Para perícias realizadas em locais onde existem peritos concursados
pelo Instituto Médico Legal, como nas grandes capitais, as perícias psiquiá-
tricas são realizadas nesses órgãos, e o recebimento é por carga horária de
trabalho.
Considerando que a psiquiatria forense tem se modernizado nos úl-
timos anos, passando a fazer parte dos principais programas de residência
médica, a expectativa é que ocorra um aperfeiçoamento progressivo e que
isso facilite o estabelecimento adequado dos honorários, permitindo um tra-
balho justo e digno.
capítulo

CASOS ESPECIAIS
Eduardo Henrique Teixeira
11
Daniel Martins de Barros

N
este capítulo serão apresentados alguns casos especiais que poderão
servir ao leitor como exemplos de situações de maior complexidade,
por serem inusitadas e, às vezes, até bizarras. São casos pouco fre-
quentes na rotina do psiquiatra perito, mas que geram muita tensão duran-
te os trabalhos, pois em muitas ocasiões a autoridade solicitante aguarda a
conclusão pericial para tomar sua decisão final.
Na quase totalidade das vezes, a conclusão do laudo é utilizada pelo
juiz para determinar a sentença.125 Portanto, uma investigação detalhada é
fundamental para o trabalho pericial. A maior dificuldade está justamente
na falta de casos na literatura que possam servir de base e parâmetro para
o perito.

REGULAMENTAÇÃO DE VISITA E
IMPORTÂNCIA DE EXAMES COMPLEMENTARES
O caso exemplificado a seguir mostra a importância de ampliar a investiga-
ção quando o perito achar necessário. Na prática, não é simples pedir exa-
mes ou fazer novas avaliações, pois os recursos são escassos e o prazo é cur-
to. Contudo, um simples exame laboratorial poderá mudar o desfecho da
conclusão pericial. Neste exemplo, o perito utilizou do seu acesso ao hospi-
tal universitário local para pedir um exame com urgência. O periciando não
teve como manter a “negação” e acabou confirmando a suspeita do perito.
Aos profissionais que não têm contato com uma universidade, vale lembrar
que o Instituto Médico Legal (IML) local também poderá oferecer esses re-
cursos.
150 Barros & Teixeira (orgs.)

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...


Data:
LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: AÇÃO DE MODIFICAÇÃO DE CLÁUSULA DE VISITA
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/SP, foi examinado um indiví-
duo adulto do sexo masculino identificado como o periciando acima referido. Em xx/xx/
xxxx, foi submetido a exames laboratoriais no hospital universitário local e reavaliado
no prazo de uma semana.
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhado de sua sobrinha, Sra. xxx, RG n-o- xxx.
Não foram apresentados documentos médicos comprobatórios de estado de saúde.
As informações foram colhidas de ambos, de forma detalhada e adequada, colabo-
rando para a elaboração do laudo.
Sem intercorrências.
2 – DADOS DOS AUTOS
O periciando move ação de modificação de cláusula de visita, com pedido de an-
tecipação, contra sua ex-esposa, Sra. xxx. Alega que ela não está cumprindo o acor-
do de visitas ao menor e o está impedindo de ver seu filho desde outubro de xxx (dois
anos da data da perícia).
3 – VERSÃO DO PERICIANDO
Na primeira avaliação, o periciando negou uso diário de bebida alcoólica, referin-
do apenas uso eventual e social. Negou também uso de drogas. Após ser submetido
a exame laboratorial e confrontado na segunda avaliação, confirmou uso quase diário
de bebidas alcóolicas, porém em quantidade moderada e com autocontrole satisfatório.
4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural e procedente de xxx/SP, onde vive com sua família. Idade de 33 anos, bran-
co, separado, amasiado, dois filhos, ensino médio completo, alfabetizado, trabalhando
como vendedor autônomo em uma companhia telefônica.
Último filho de uma prole de quatro filhos de casal não consanguíneo. Nascido de
gestação fisiológica e parto normal a termo, sem intercorrências. Desenvolvimento neu-
ropsicomotor dentro da normalidade.
Sem história de traumas ou patologias graves na infância. Era uma criança com fun-
cionamento psicossocial aparentemente normal.
Aos 17 anos, iniciou uso de maconha por curiosidade e influência do convívio so-
cial. Consumia 5 a 6 cigarros diariamente, porém sem qualquer comprometimento só-
cio-laboral. Sentia que ficava mais calmo e sociável.
Manual de perícias psiquiátricas 151

Próximo dos 20 anos, iniciou uso de cocaína. Acredita ter ficado seriamente vicia-
do, pois não conseguia trabalhar direito e vivia em função das drogas.
Aos 22 anos foi viver na Inglaterra, onde ficou por um ano. Usava, diariamente, etíli-
cos de forma descontrolada e, às vezes, cocaína e maconha. Quando retornou ao Bra-
sil, já manifestava aparente descontrole na ingestão de bebida alcoólica.
Casou-se com 26 anos e, desse relacionamento, teve um filho. Refere que conhe-
ceu sua ex-amásia nos grupos de usuários de drogas. No início, mantinham relacio-
namento harmonioso, porém as brigas foram ficando cada vez mais frequentes, até a
separação do casal em 1998. Refere que a separação ocorreu a pedido da ex-esposa
devido às brigas frequentes e à falta de respeito mútuo. Não sabe detalhar os motivos
que levaram à separação.
Relata que teve muita dificuldade em aceitar a separação do casal e a distância do
filho. No período que seguiu o ato, sentia muita tristeza e estava sempre muito ansio-
so, irritado e com choro fácil.
Está há três anos amasiado e refere relacionamento conjugal estável e harmonio-
so. Tem uma filha que está, no momento, com 8 meses. Diz manter uso de etílicos de
forma social e estar em total abstinência de drogas.
Segundo a acompanhante, o periciando usa bebida alcoólica de forma controlada,
mais em eventos sociais e fins de semana. Acredita que ele já não usa mais drogas.
Mantém bom relacionamento com o periciando e o descreve como uma pessoa traba-
lhadora e esforçada.
O periciando refere que nunca fez um tratamento para dependência, pois nunca jul-
gou ser necessário. Ainda acredita que pode parar sozinho, porém aceita ser submetido
a tratamento para poder manter um bom relacionamento com seu filho.
Sem relato de sintomas psicóticos, epilepsia ou uso de psicofármacos. Nega sinto-
mas de abstinência pela manhã. Sem uso de outras medicações no momento.

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico. Sem sinais
neurológicos grosseiros. Tatuagens nos braços sem significado específico.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


No primeiro contato, estava muito ansioso, intolerante e com tom de voz alterado,
conotando estar sob efeito de álcool. Não foram encontrados outros sinais sugestivos.
No segundo contato, manteve comportamento cordial e adequado.
• Apresentação geral: facies atípica, asseado, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: muito ansioso, associado ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, de conteúdo adequado, sem delírios sistematiza-
dos, sem alteração de fluxo ou forma. Pragmatismo aparentemente preservado.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: comprometida.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada.
• Juízo crítico da realidade: preservado.
152 Barros & Teixeira (orgs.)

7 – EXAMES COMPLEMENTARES
Hemograma: sem alterações.
Metabólicos de cocaína na urina: não detectado.
Dosagem de etanol no sangue: não realizado por problemas técnicos.
Eletrólitos, glicemia, função hepática, CK: sem alterações.
Gama GT: 124 U/L (normal até 49,0 U/L)

8 – DISCUSSÃO / CONCLUSÃO
Trata-se de história clínica caracterizada por descontrole no uso de substâncias psi-
coativas com negação dos prejuízos pessoais, familiares e sociais.
No decorrer do exame, o periciando forneceu dados poucos consistentes em rela-
ção ao consumo de drogas e álcool, confirmando o consumo frequente somente após
ser confrontado com exame laboratorial (gama-GT) positivo (indireto). Mesmo após ra-
tificar que ainda estava usando etílicos de forma descontrolada, manteve-se ambiva-
lente em relação a necessidade de tratamento e presença de riscos.
Considerando os dados da história pregressa do paciente e os achados do exame
clínico, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, (CID-10),35 trata-se
de quadro compatível com:
• Dependência de etílicos de intensidade moderada a grave, codificada como F10.2
na CID-10.
• Sem crítica quanto a seu estado mórbido, necessidade de tratamento e riscos ao
menor.
• As visitas deverão ser estabelecidas somente após tratamento especializado ri-
goroso pelo período mínimo de um ano.

9 – QUESITOS
[Responder todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.]

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

TRANSEXUALISMO E AUTORIZAÇÃO
PARA CIRURGIA DE MUDANÇA DE SEXO
No caso exemplificado a seguir, a grande dificuldade nos trabalhos periciais
foi lidar com um tema tão complexo. O transexualismo, codificado como
F64.0 na CID-10,35 é um quadro classificado entre os transtornos da iden-
tidade sexual. Não é uma “doença mental”, de modo que a necessidade de
avaliação pericial foi motivada por outras questões.
Manual de perícias psiquiátricas 153

O periciando já tinha passado por ampla investigação clínica e tinha


planos de ser submetido a cirurgia de mudança de sexo, a qual só é indicada
quando confirmado esse diagnóstico (F64.0).
Como a equipe cirúrgica tinha a preocupação de, futuramente, poder
ser questionada por erro médico e mutilação, solicitaram autorização judi-
cial prévia. O objetivo da perícia psiquiátrica era confirmar o diagnóstico de
transexualismo e descartar algum quadro psiquiátrico que pudesse influen-
ciar a capacidade do indivíduo de tomar suas próprias decisões.
A avaliação foi realizada com tranquilidade, apesar de ser um caso
pouco comum na rotina de psiquiatria forense, e não deixou dúvidas quanto
aos quesitos elaborados. Durante os trabalhos, o periciando foi submetido a
psicodiagnóstico pela equipe de psicologia do Núcleo Forense (NUFOR) do
Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (IPq-HCFMUSP).
O caso foi amplamente estudado, e confirmou-se que se tratava de
transexualismo primário, o qual, segundo a literatura, tem como uma das
opções terapêuticas a mudança cirúrgica de sexo.126

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: AUTORIZAÇÃO PARA PROCEDIMENTO CIRÚRGICO
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, xx/xx/xxxx e xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas de xxx/SP, foi
examinado um indivíduo adulto identificado como o periciando acima referido. Em xx/
xx/xxxx, foi submetido a exames psicológicos no NUFOR (IPq-HCFMUSP).
Compareceu munido de documentos pessoais, RG n-o- xxx, porém sem acompa-
nhantes.
Foram apresentados os mesmos documentos médicos comprobatórios de estado
de saúde que já constam nos autos.
As informações foram colhidas de forma detalhada e adequada, colaborando para
a elaboração do laudo.
Sem intercorrências.
154 Barros & Teixeira (orgs.)

2 – DADOS DOS AUTOS


O periciando está requisitando autorização legal para a realização de cirurgia visando
a adequação sexual a ser realizada por um hospital universitário credenciado pelo SUS.
Foi submetido a provas e testes pela psicóloga Sra. xxx, que concluiu “que o pa-
ciente sempre, em toda sua vida, teve comportamentos e sentimentos femininos, o que
lhe acarretou barreiras e problemas no convívio social, escolar e familiar. Tal fato ca-
sou-lhe sofrimento subjetivo e, ao mesmo tempo, força e ambições quanto a sua me-
lhor qualidade de vida. Assim, não existe impedimento psicológico no que tange a rea-
lização de cirurgia para mudança de sexo. Aconselha-se, ainda, seu encaminhamento
para psicoterapia” (fls. 06-07).

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/SP e procedente de xx/SP, onde vive com a mãe. Idade de 30 anos,
branco, solteiro, sem filhos, funcionário técnico da área de saúde, ensino médio completo.
Nascido de gestação fisiológica, com parto normal domiciliar a termo. Desenvolvi-
mento neuropsicomotor dentro dos limites da normalidade. Terceiro filho de uma prole
de quatro, sendo duas mulheres e dois homens.
Sem história de traumas ou patologias graves na infância. Bom aproveitamento escolar.
Relata que desde sua infância achava que era menina, agindo como tal (cita como
exemplo o fato de nunca ter urinado em pé), e desconhecia as diferenças dos órgãos
sexuais. Nega contatos íntimos na infância ou manipulação do próprio órgão genital. Ti-
nha tendência ao isolamento e vivia aos cuidados da avó materna, que pouco lhe ofe-
recia informações ou abordava o tema sexualidade.
Após os 12 anos de idade, passou a conhecer e a entender as diferenças físicas
de um homem e de uma mulher. Tinha muitas dificuldades em aceitar suas diferenças,
e era frequente a vontade de se automutilar.
Aos 13 anos, declarou ser apaixonado por um menino da escola. Esse fato teve
importante repercussão, e o periciando acabou sendo convidado a sair da escola. En-
tão, foi morar com a mãe e teve de mudar de convívio social. Nessa época, passou a
assumir atitudes e comportamentos femininos, que foram gradualmente aceitos pelos
seus pais e irmãos.
Acredita que nunca teve uma ereção e que a solução para seu problema é a mu-
dança física do órgão sexual. Mantém relações sexuais com homens no papel passivo
e refere satisfação “quase plena”.
Vem lutando pelo seu direito de escolher seu sexo físico e social desde sua adoles-
cência, pois o fato de não aceitar seu próprio corpo e de a sociedade não aceitar sua
identidade lhe causa muito sofrimento. Passou por muitas situações constrangedoras,
como quando entrou no exército e teve que beijar outros jovens a mando de superio-
res de forma perversa e sádica.
Há três anos, está em tratamento na Unicamp para realizar sua mudança de sexo.
Vem sendo submetido a hormonioterapia, e há um ano foi realizada cricotireoplas-
tia (retirada do pomo de Adão).
Nega sintomas psicóticos, epilepsia ou internação psiquiátrica. Já experimentou ma-
conha. Nega uso de outras drogas ilícitas. Nega já ter se prostituído.
Atualmente, em psicoterapia semanal. Sem relato de uso de psicofármacos.
Sem antecedente familiar de transtorno psiquiátrico. Refere que seus familiares lhe
apoiam e acreditam que ele tem de ser feliz da forma que achar melhor.
Manual de perícias psiquiátricas 155

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico. Sem sinais
neurológicos grosseiros. Ausência de pelos no corpo. Sem tatuagens ou cicatrizes.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece de imediato contato produtivo com o examinador. Mantém comporta-
mento cordial e adequado.
• Apresentação geral: aspecto geral e atitudes femininas. Cabelos longos e alinha-
dos, maquiado, unhas compridas e pintadas, poucos adereços. Vestes femininas
e adequadas para a ocasião.
• Afeto: calmo, associado ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, conteúdo adequado, sem delírios sistematizados,
sem alteração de fluxo ou forma. Centrado na intenção de conseguir sua cirurgia
como única opção para seu transtorno. Pragmatismo preservado.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: adequada.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada.
• Juízo crítico da realidade: preservado.

6 – EXAMES COMPLEMENTARES
Foi submetido a psicodiagnóstico pela equipe de psicologia do Núcleo Forense (NU-
FOR) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (USP), que chegou à seguinte conclusão:
“Este exame pôde apurar que não há conflito com a identidade sexual, mas sim com
a congruência, ou seja, há uma busca de harmonia/compatibilização entre as tendên-
cias internas (femininas) e as características externas (masculinas).”
Esses achados são compatíveis com quadro de transexualismo, acompanhado de
ansiedade e sofrimento psicológico importantes.
Convém ressaltar que as capacidades de entendimento e autodeterminação en-
contram-se preservadas, no momento, garantindo a integridade da responsabilidade
civil e penal do periciando”.

7 – DISCUSSÃO
Considerando os dados da história pregressa do periciando, os achados do exa-
me clínico e dos exames complementares, de acordo com a 10a Edição da Classifica-
ção Internacional das Doenças (CID-10), trata-se de quadro compatível com transexu-
alismo, codificado como F64.0.
Segundo a literatura científica, trata-se de um quadro grave de identidade sexual­
caracterizado pelo desejo de viver e ser aceito como um membro do sexo oposto,
­geralmente acompanhado por sensação de desconforto ou impropriedade de seu pró-
prio sexo anatômico, e pelo desejo de se submeter a tratamento hormonal e cirúr­
gico para tornar seu corpo tão congruente quanto possível com o sexo preferido
(CID-10, p. 210).
156 Barros & Teixeira (orgs.)

8 – CONCLUSÃO
Diante do exposto até o momento, concluímos:
Favorável ao procedimento cirúrgico, que é considerado uma das possibilidades te-
rapêuticas desse quadro. Acrescentamos, ainda, que o periciando apresenta sua capa-
cidade de entendimento e autodeterminação preservadas.

9 – QUESITOS
[Responder todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.]

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

EXIBICIONISMO E AVALIAÇÃO DE SANIDADE MENTAL


O exibicionismo é classificado entre os transtornos de preferência sexual ou
parafílicos e é codificado como F65 pela CID-10. É caracterizado por impul-
so e desejo recorrentes ou persistentes de expor a genitália a estranhos (em
geral do sexo oposto) ou em lugares públicos, sem convite ou pretensão de
contato mais íntimo.35 A excitação sexual decorre da antecipação da exposi-
ção, e o orgasmo acontece pela masturbação durante ou após o evento. Em
quase 100% dos casos, trata-se de homens expondo-se a mulheres.127
No caso exemplificado no modelo a seguir, a complexidade se encon-
trava em fechar o diagnóstico clínico, pois é muito difícil que pacientes com
esse quadro procurarem ajuda médica. Naturalmente, não havia documen-
tos médicos que pudessem ajudar na construção do diagnóstico. Além disso,
a falta de casos descritos na literatura, os quais poderiam servir de parâme-
tro para validação, foi outro fator limitante.
A conclusão pericial influenciaria a decisão judicial (condenação ou
medida de segurança) e a maneira como a situação desse indivíduo seria
conduzida após o veredicto. Como a base desse quadro clínico é a falta de
controle dos impulsos, o sujeito poderia ser classificado como semi-impu-
tável.
O caso foi amplamente estudado, e confirmou-se que se tratava de exi-
bicionismo.128 Durante os trabalhos periciais, o periciando foi submetido a
psicodiagnóstico pela equipe de psicologia do Núcleo Forense (NUFOR) do
Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (USP).
Manual de perícias psiquiátricas 157

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx, xx/xx/xxxx e em xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas do fórum de
xxx/SP, foi examinado um indivíduo adulto identificado como o periciando acima referido.
Na segunda avaliação, compareceu devidamente acompanhado da esposa, Sra.
xxx, RG n-o- xxx.
Apresentada declaração do Ambulatório de Saúde Mental de Indaiatuba, datada de
xx/xx/xxxx, onde estava em tratamento psicoterápico desde xx/xx/xxxx, iniciado após os
atos descritos na denúncia, em função de exibicionismo, F65. 2 da CID-10.
As informações foram colhidas de ambos, de forma detalhada e adequada, colabo-
rando para a elaboração do laudo.
O periciando foi submetido a psicodiagnóstico pela equipe de psicologia do Núcleo
Forense (NUFOR) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (USP) (vide item 7).

2 – DADOS DOS AUTOS


Em xx/xx/xxxx, na cidade de xxx/SP, o periciando praticou ato obsceno em públi-
co, ou aberto ou exposto ao público. No dia do evento, Sra. xxx e Sra. xxx circulavam
por uma via pública, quando perceberam o denunciado no interior de seu veículo em
ato de masturbação.
Denunciado pelo Ministério Público como incurso no art. 233 do Código Penal.18

3 – VERSÃO DO PERICIANDO
Confirma a autoria dos fatos.

4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/PR e procedente de Indaiatuba/SP, onde vive com a família. Idade
de 41 anos, branco, casado, três filhos, estudou até a 8a série, alfabetizado, trabalha-
dor do setor de construção civil.
Sétimo filho de uma prole de oito filhos provenientes de casal não consanguíneo.
Nascido de gestação fisiológica e parto normal a termo. Desenvolvimento neuropsico-
motor dentro dos limites da normalidade. Sem relato de patologias graves na infância.
Sempre teve bom rendimento escolar. Parou de estudar por falta de interesse.
Por volta dos 5 anos de idade, quando ainda residia em uma fazenda, manteve re-
lações sexuais passivas com um adolescente do mesmo sexo, que também morava na
158 Barros & Teixeira (orgs.)

propriedade. Relata essa fase como traumática e constrangedora. Acredita que foi en-
ganado e seduzido.
Na adolescência, teve “um envolvimento homossexual sem contato sexual”. Gos-
tava dessa pessoa, porém sentia muita raiva do que lhe havia acontecido na infância e
não conseguia aprofundar o relacionamento.
Relata que iniciou o comportamento de exibição genital, com vontade de se mastur-
bar em público, quando tinha aproximadamente 15 anos. Estava em uma praça e sen-
tiu um desejo muito forte de se masturbar no local. Afirma que a vontade não é vincula-
da ao contato físico com outra pessoa e que aparece de forma súbita e muita intensa,
aparentemente sem qualquer estímulo, bastando apenas estar em local público. Com-
para seu descontrole ao de um viciado em drogas. Sabe que é errado, que vai se arre-
pender, mas não consegue se controlar.
Refere que não procurou tratamento porque tinha muita vergonha e achava que era “ri-
dículo” o que lhe estava acontecendo. Pensava que seria alvo de gozação e que ninguém
iria acreditar. Iniciou tratamento apenas quando passou a ter problemas com a justiça.
Casou-se aos 22 anos e desse relacionamento teve três filhos. Sempre teve rela-
cionamento conjugal e harmonioso. Sua esposa só teve conhecimento do problema do
marido há oito anos, quando ele passou a ter problemas com a justiça e a ser exposto
na mídia. Estiveram próximo da separação, porém, com o tempo e o tratamento a que
ele se submeteu, o casal conseguiu superar a fase de instabilidade.
A esposa descreve o periciando como uma pessoa boa, trabalhadora, bom pai e bom
marido. Nunca notou qualquer comportamento sexual anormal dentro de sua residência.
O periciando foi submetido a tratamento psicoterápico e há um ano recebeu alta.
Refere sentir-se bem e que o problema não mais se repetiu. Procura sair de casa sem-
pre acompanhado de um familiar.
Sem história de adição, etilismo, sintomas psicóticos, epilepsia ou sintomas suges-
tivos de transtorno obsessivo-compulsivo.
Sem antecedentes familiares de doença psiquiátrica.

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico, acianótico, anictérico. Sem sinais
neurológicos grosseiros. Sem tatuagens ou cicatrizes.
Sem outros sinais de importância médico-legal

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece de imediato contato produtivo com o examinador. Mantém comporta-
mento cordial e adequado.
• Apresentação geral: facies atípica, pouco asseado, cabelos alinhados, higieniza-
do, vestes limpas e adequadas.
• Afeto: calmo, associado ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, de conteúdo adequado, sem delírios sistematiza-
dos, sem alteração de fluxo ou forma. Crítica adequada quanto aos fatos.
• Pragmatismo: preservado.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: adequada.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientado alo e autopsiquicamente.
Manual de perícias psiquiátricas 159

• Memória: preservada globalmente.


• Juízo crítico da realidade: preservado.

7 – EXAMES COMPLEMENTARES
Foi submetido a psicodiagnóstico pela equipe de psicologia do NUFOR do Institu-
to de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, realizado
pelas psicólogas professoras xxx e xxx.
A conclusão foi de quadro compatível com exibicionismo.

8 – DISCUSSÃO
Considerando os dados da história pregressa do paciente e os achados do exame
clínico, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (CID-10),
trata-se de quadro compatível com:
Descontrole de impulso do tipo exibicionista, codificado como F65.2, caracteriza-
do por uma tendência recorrente ou persistente a expor a genitália a estranhos (em ge-
ral do sexo oposto) ou em lugares públicos, sem convite ou pretensão de contato mais
íntimo. Costuma haver, mas não invariavelmente, excitação sexual quando da exposi-
ção, e o ato em geral é seguido de masturbação. Essa tendência pode ser manifesta
em períodos de estresse ou crises emocionais, entremeados com longos períodos sem
tal comportamento patente (CID-10).

9 – CONCLUSÃO
Diante do exposto até o momento, concluímos:
Classifica-se o periciando, segundo as prerrogativas da responsabilidade penal, en-
tre os semi-imputáveis.
O tratamento indicado nesses casos é ambulatorial.

10 – RESPOSTA AOS QUESITOS


Não foram apresentados.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

INTERDIÇÃO E ANULAÇÃO
DE ATO JURÍDICO DE ADOÇÃO
O caso seguinte ilustra a necessidade de se investigar a cronologia dos fatos.
Nele, não bastava só fazer o diagnóstico clínico: era preciso constatar o iní-
cio dos primeiros sintomas do quadro. Nesse sentido, os trabalhos periciais
foram bastante exaustivos e criteriosos, mas é justamente isso que se espera
de uma perícia.
160 Barros & Teixeira (orgs.)

A pericianda já apresentava sinais de demência avançada, e consta que


teria adotado sua empregada, nos anos anteriores, como sua única herdeira.
Seus familiares (no caso, a sobrinha) questionavam essa adoção, pois nin-
guém da família havia sido informado na época, e a pericianda nunca havia
manifestado essa intenção. Com os documentos apresentados pelos médi-
cos que haviam cuidado da pericianda nos últimos anos, os peritos puderam
chegar à conclusão quanto à anulação da adoção. As datas foram preserva-
das para uma compreensão detalhada do caso.

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INTERDIÇÃO
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em 11/12/02 e em 20/01/13, na Sala de Perícias Médicas do fórum de xxx/SP, foi
examinado um indivíduo adulto do sexo feminino identificada como a pericianda aci-
ma referida.
Compareceu munida de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devidamente acom-
panhada da sobrinha, Sra. xxx, RG n-o- xxx.
As informações foram colhidas principalmente com a acompanhante, de forma ade-
quada e detalhada, colaborando para a elaboração do laudo.
Foram apresentados os seguintes documentos médicos:
• Cópia de declaração médica do Dr. xxx, CRM xxx, datada de xx/xx/xxxx, referindo
que a pericianda fez avaliação médica neurológica em março de 2000, abril de 2002
e em 20/09/02, com queixas de esquecimentos, sendo constatado o diagnóstico de
demência desde a primeira consulta. O miniexame do estado mental (mini-mental
state), realizado na avaliação de 20/09/02, teve o escore de 10 (dez), compatível com
demência. O Dr. Xxx acrescenta que o quadro tem se mostrado progressivo.
• Cópia de laudo de tomografia computadorizada de crânio, datada de 11/10/02,
com a seguinte conclusão: ateroesclerose e proeminência dos sulcos, cisternas
e ventrículos.
• Cópia de declaração do Dr. xxx, datada de 17/10/02, referindo que a pericianda
apresenta síndrome demencial, provavelmente doença de Alzheimer. Apresenta
déficit cognitivo múltiplo, com comprometimento de orientação, memória e lingua-
gem, estando totalmente dependente e sem condições de gerar sua vida privada.
• Receituário médico indicando uso de Exelon.
Manual de perícias psiquiátricas 161

Em 12/12/02, foi avaliada a empregada, Sra. xxx, acompanhada de seu Defensor, Sr.
xxx, OAB xxx, que também forneceu dados relevantes para a elaboração deste laudo.
Em 13/12/02, encaminhei ofício a este cartório, solicitando relatório aos médicos
com quem a pericianda esteve em tratamento nos últimos anos.
São apresentados a seguir os resumos dos relatórios encaminhados a este consul-
tório. Os originais encontram-se em anexo:
• Relatório médico do Dr. xxx, CRM xxx, datado de 24/01/03, referindo que a pe-
ricianda iniciou tratamento clínico em 01/07/99 para osteoporose de coluna lom-
bar, punho e osteopenia femoral. A referida paciente é acompanhada paralela-
mente nas áreas de cardiologia, neurologia, nefrologia e ginecologia.
• Relatório médico do Dr. xxx, CRM xxx, datado de 16/01/03, referindo que a pe-
ricianda esteve pela primeira vez em consulta no dia 27 de junho de 2002, por
quadro de esquecimento caracterizado por perda de memória para fatos recen-
tes e certa dificuldade em aprender coisas novas. Ao exame neurológico, a pa-
ciente apresentava-se consciente, sem déficits motores ou sensitivos, exibindo
apenas discretas alterações nas funções cognitivas. Diante do quadro clínico, foi
aventada a hipótese diagnóstica de doença de Alzheimer, sendo solicitada to-
mografia computadorizada de crânio (o exame, em poder da paciente, demons-
trou atrofia cerebral cortical, subcortical, acometendo preferencialmente os lobos
temporais e frontais, o que sugere doença de Alzheimer). Diante desse achado,
foi introduzida a medicação Prometax 1,5 mg. Ainda na tentativa de confirmar o
diagnóstico foi solicitado SPECT (cintilografia de perfusão cerebral), realizado em
26/07/02, exame que apresentou como resultado sinais indicativos da doença de
Alzheimer. Tendo dois exames que confirmaram a presença da referida patolo-
gia, foi mantido o tratamento com Prometax 1,5 mg (1x). O Dr. Xxx refere que a
paciente vinha apresentando lenta melhora da memória, porém não pode forne-
cer mais detalhes, pois a última consulta da pericianda ocorreu em 09 de outu-
bro de 2002.
• Relatório médico do Dr. xxx, CRM xxx, datado de 29/01/03, referindo que a peri-
cianda esteve sob sua avaliação devido a queixa de esquecimento. A primeira ava-
liação aconteceu em março de 2000, quando referia que a queixa havia iniciado
aproximadamente oito meses antes da consulta. O diagnóstico era de ­demência,
porém a paciente aparentava-se tranquila, sendo sempre auxiliada pelo cuida-
dor no que se refere àqueles fatos dos quais não se lembrava, o que então pro-
movia poucas limitações na vida diária. O eletrencefalograma (EEG) (03/2000)
mostrava desorganização leve do traçado. Em outra ocasião, o EEG (05/2000)
mostrou-se normal. Na última avaliação, foi solicitada uma tomografia de crânio,
que revelou atrofia cerebral global e proeminente (09/2002). Além do exame físi-
co neurológico, foi aplicado o mini-exame do estado mental, sendo obtido o es-
core de 10 (dez). Os sintomas de demência têm se mostrado progressivos.
• Relatório médico do Dr. xxx, CRM xxx, datado de 11/02/03, referindo que a pe-
ricianda esteve sob sua responsabilidade profissional de 01/12/95 a 26/11/99
para tratamento de recuperação estrutural da coluna vertebral e de sequelas de
traumas, tendo obtido melhoras sensíveis do quadro inicial, com recuperação to-
tal da capacidade física dentro dos limites considerados normais para sua ida-
de. Refere que, até a data de sua última consulta, a pericianda apresentava óti-
mas condições físicas e não demonstrava nenhum sinal de transtorno mental. Ao
contrário, naquela oportunidade (26/11/99), apresentava ótima disposição, ten-
162 Barros & Teixeira (orgs.)

do deixado a informação de que estava de viagem para o seu Estado natal e que
provavelmente demoraria em retornar. No período entre 01/12/95 e 26/11/99, re-
tornou com uma frequência mensal e, em todas as consultas (quarenta e três),
esteve acompanhada da empregada, Srta. xxx, que demonstrava real apreço e
consideração pela paciente, observando-se em todas as ocasiões das consultas
que a simpatia era recíproca. O Dr. Xxx relata que, durante todo o período de tra-
tamento, a pericianda nunca compareceu acompanhada por outros familiares, os
quais sempre estiveram ausentes; somente a “empregada” a acompanhou em to-
das as consultas. Em nenhum momento, durante todo o período citado, a pacien-
te apresentou qualquer sinal de transtorno mental; pelo contrário, demonstrava lu-
cidez acima da média. Data da primeira consulta: 01/12/95; e da última: 26/11/99.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


A sobrinha da pericianda está requerendo sua interdição, alegando incapacidade
mental, para fins de gerenciamento das atividades da vida cível; além disso, pede anu-
lação da adoção.

3 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural de xxx/XX e procedente de xxx/XX, onde vive com a família da sobrinha. Idade
de 67 anos, branca, solteira, bancária aposentada, ensino médio completo, alfabetizada.
A acompanhante desconhece detalhes de condições de nascimento, desenvolvi-
mento neuropsicomotor, infância ou idade escolar.
A pericianda não se casou e teve poucos relacionamentos. Sempre trabalhou como
bancária no Banco do Brasil, até se aposentar por tempo de serviço, em 1982.
Segundo a acompanhante, ela sempre teve ótimo desempenho social e laboral, sem
qualquer relato de patologias neuropsiquiátricas ou vícios. Sofria de enfisema pulmonar.
A pericianda sempre viveu junto da mãe da requerente, até que, há 15 anos, deci-
diu viver sozinha, auxiliada pela sua empregada, Sra. xxx.
Nesses 15 anos, a pericianda sempre manteve bom contato com os familiares e ti-
nha total autonomia dos seus gastos e ganhos.
Segundo a acompanhante, há aproximadamente dois anos a pericianda vem se quei-
xando de lentidão de raciocínio e falhas de memória. Passou a ser levada para atendi-
mento médico no ano de 2000, porém a família não teve conhecimento do diagnóstico
de processo demencial, pois a pericianda era levada às consultas apenas pela empre-
gada. Esta sempre dizia à família que a pericianda estava bem de saúde.
Nos últimos seis meses, a família da requerente vem notando que a acompanhan-
te, Sra. xxx, não aceitava que os parentes se aproximassem da pericianda. Como ela
era de confiança, não deram muita importância a esse fato. Contudo, em outubro deste
ano, a requerente foi buscar a pericianda para consulta médica, sendo impedida pela
empregada de fazê-lo. Como percebiam que esse comportamento não era habitual, de-
cidiram procurar ajuda da polícia, tendo sido elaborado boletim de ocorrência.
Pouco tempo depois, a família descobriu que a empregada estava em posse do
dinheiro da pericianda e que havia sido adotada por ela no decorrer do ano de 2002.
Desde então, a pericianda está sob os cuidados da acompanhante. Esta relata que
a Sra. Xxx vem piorando de modo lento e progressivo, sendo que, atualmente, apre-
senta desorientação geral, confusão e comprometimento das memórias de fixação e
recente. Permanece a maior parte do tempo dentro de casa. Está independente dos fa-
Manual de perícias psiquiátricas 163

miliares para higiene e cuidados gerais, porém necessita sempre de supervisão. Não
percebe que está doente e acha que os esquecimentos são normais da idade. Nega
sintomas compatíveis com quadro depressivo. Mantém seguimento médico e hipótese
diagnóstica de doença de Alzheimer.
Sem história de adição, sintomas psicóticos ou internação psiquiátrica.
No momento, está em uso de Exelon. Sem antecedente familiar de doença semelhante.
Segundo dados obtidos com a empregada, Sra. xxx, que há mais de 15 anos tra-
balhava como doméstica para a pericianda e a considerava sua mãe, elas sempre tive-
ram ótimo relacionamento. Refere que residia no local de trabalho e que a pericianda
passou a apresentar esquecimentos para fatos recentes e falsos reconhecimentos em
abril ou julho de 2002, porém não tem certeza da data. Afirma que em abril deste ano,
levou sua patroa para consulta com o Dr. Xxx, neurocirurgião, o qual realizou EEG e
disse que a pericianda estava bem de saúde
Acredita que a pericianda estava bem de saúde até ser levada de casa pela sobrinha.

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, aspecto geral senil, corada, hidratada, anictérica, eupneica, mar-
cha atáxica com bases alargadas. Colabora pouco com o exame.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato pouco produtivo com o examinador. Mantém comportamento
cordial e adequado.
• Apresentação geral: facies senil, asseada, vestes limpas e adequadas.
• Afeto: adequado (desconfiado), hipomodulando, risos tolos.
• Pensamento: ilógico, coerente, empobrecido, confabulando e com pararrespos-
tas. Incapaz de fazer referência quanto ao relacionamento que mantinha com a
empregada.
• Capacidade intelectual: avaliação comprometida.
• Capacidade de abstração: avaliação comprometida.
• Atenção: hipotenaz.
• Funções cognitivas (orientação, memória): memória recente e de fixação com-
prometidas, desorientada alopsiquicamente.
• Juízo crítico da realidade: comprometido.

6 – DISCUSSÃO
A demência (enfermidade mental nos termos da Lei n º 10.406 de 10/01/2002 – Có-
digo Civil)15 é uma síndrome decorrente de uma doença cerebral, geralmente de nature-
za crônica ou progressiva, na qual há perturbação de múltiplas funções corticais supe-
riores, incluindo memória, pensamento, orientação, compreensão, cálculo, capacidade
de aprendizagem, linguagem e julgamento.
Essa categoria compreende as demências de etiologia diversas, como na doença
de Alzheimer (F00), a demência vascular (F01) e a demência não especificada (F03),
segundo as classificações da Organização Mundial da Saúde,35 e da American Psychia-
try Association.129
Considerando os aspectos clínicos e a evolução, o quadro clínico da periciada sa-
tisfaz os critérios diagnósticos para demência de Alzheimer, codificado como F00 na
CID-10,35 e teve início antes do ano 2000, portanto, antes da época da adoção.
164 Barros & Teixeira (orgs.)

7 – CONCLUSÃO
Diante do exposto, concluímos que a periciada é totalmente incapaz de gerir seus
bens e sua vida cível e que não tinha condições mentais plenas quando assinou a adoção.

8 – QUESITOS
[Responder todas as questões formuladas ou constar que não foram apresentadas.]

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

INFANTICÍDIO E PSICOSE PUERPERAL:


HIPÓTESE DESCARTADA
No caso exemplificado a seguir, também se destaca a necessidade de ampliar
a investigação e usar todos os recursos possíveis. Contudo, o tempo foi o
verdadeiro esclarecedor. Enquanto o perito solicitava cópia de prontuário
e relatórios médicos, novas informações foram obtidas, permitindo que o
laudo fosse finalizado sem dificuldade.
O leitor pode perceber que as notícias eram superficiais e levantavam
muitas dúvidas. O prontuário médico do local onde a pericianda foi inter-
nada logo após o parto era de fundamental importância. Esse documento
poderia trazer informações de um possível estado psicótico, uma vez que
a família negava que a paciente já estivesse apresentando alguns sintomas
nos dias anteriores. A psicose puerperal não é um quadro instituído de for-
ma tão abrupta, por isso a necessidade de acesso ao atendimento realizado
no dia dos fatos.
Na segunda avaliação, o prontuário médico apresentado não mostrava
quaisquer sinais indicativos de psicose. Relatava um atendimento realizado
em um serviço de urgência médica, no qual a paciente foi submetida a uma
avaliação clínica geral. Quando perceberam que já não havia mais feto, a fa-
mília foi notificada e um dos filhos encontrou o recém-nascido morto, enro-
lado em um pano escondido atrás de um armário.
O mais relevante nesse caso foi a revelação da motivação do infanticídio
(ou neonaticídio). Em interrogatório ocorrido após a primeira avaliação pe-
ricial, a pericianda confirmou a autoria do crime. Dizia que se sentia pressio-
nada pelo marido, pois essa gestação era fruto de um relacionamento extra-
-conjugal, e que ele não continuaria casado caso a criança continuasse viva.
Manual de perícias psiquiátricas 165

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...


Data:
LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL
Processo n-o-
Periciando:
TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em xx/xx/xxxx e xx/xx/xxxx, na Sala de Perícias Médicas do fórum de xxx/SP, foi exa-
minado um indivíduo adulto do sexo feminino identificado como a pericianda acima referida.
Para a segunda avaliação, foi solicitada cópia de prontuário médico do atendimen-
to médico do dia dos fatos. Não há relato de quaisquer sinais ou sintomas indicativos
de algum transtorno psicótico.
A pericianda compareceu munida de documentos pessoais, RG n-o- xxx, e devida-
mente acompanhada do marido, Sr. xxx, RG n-o- xxx, nas duas avaliações.
As informações foram colhidas de ambos, de forma detalhada e adequada, colabo-
rando para a elaboração do laudo.
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


Em xx/xx/xxxx, na cidade de xxx/XX, a pericianda, agindo com ânimo homicida e uti-
lizando-se de meio cruel contra vulnerável, matou seu filho logo após o parto.
Logo após o parto domiciliar, realizado sem qualquer assistência, a denunciada en-
rolou o recém-nascido com a placenta em um pano e o escondeu atrás de um armário.
Denunciada pelo Ministério Público como incurso no artigo 121, caput, c.c. o artigo
14, inciso II, ambos do Código Penal.

3 – VERSÃO DA PERICIANDA
Inicialmente, negou a autoria da prática delituosa, referindo que não se lembra dos
fatos e de como estava mentalmente na época.
Na segunda avaliação, considerando o teor dos depoimentos dos autos, a perician-
da confirmou o ato criminoso, mas não quis elaborar nenhuma versão sobre os fatos.

4 – HISTÓRIA/ANAMNESE
Natural e procedente de xxx/XX. Idade de 42 anos, branca, casada, quatro filhos,
do lar, ensino médio incompleto, alfabetizada.
Infância sem relato de problemas de desenvolvimento neuropsicomotor, traumas ou
doenças graves. Em idade escolar tinha rendimento satisfatório, sem relato de transtor-
nos de aprendizado ou de comportamento.
A pericianda casou-se aos 23 anos e dessa união teve quatro filhos. Relato de re-
lacionamento estável e harmonioso, apenas recentemente afetado pelo tema em foco.
Segundo o acompanhante, a pericianda sempre teve bom desempenho social e
laboral, sem relato de doenças neuropsiquiátricas, doenças clínicas graves ou vícios.
166 Barros & Teixeira (orgs.)

A pericianda nega já ter apresentado sinais ou sintomas indicativos de algum trans-


torno psiquiátrico, como desesperança, tristeza, pensamentos obsessivos ou sinto-
mas psicóticos. Queixa-se de períodos de ansiedade que alternam com momentos de
­desânimo, porém nunca fez tratamentos neurológicos ou psiquiátricos.
Relata que o ocorrido descrito na denúncia mexeu muito com o ambiente e a dinâ-
mica familiar. Sabe que foi uma situação grave e que estava muito assustada na épo-
ca. O relacionamento conjugal ficou gravemente afetado, mas o casal conseguiu, aos
poucos, resgatar a relação.
No momento, a pericianda não está fazendo qualquer tratamento médico. Sem an-
tecedentes de drogadição, etilismo ou outra patologia psiquiátrica. Sem anteceden-
te familiar.

5 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corada, hidratada, eupneica, acianótica, anictérica. Sem sinais
neurológicos grosseiros.
Sem outros sinais de importância médico-legal.

6 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabelece contato produtivo com o examinador. Mantém comportamento cordial e
adequado. Atitude ativa em relação ao exame.
• Apresentação geral: facies atípica, asseada, boa higiene, vestes limpas e ade-
quadas.
• Afeto: um pouco depressiva, associada ideoafetivamente, normomodulando.
• Pensamento: lógico, coerente, de conteúdo adequado para contexto sociocultu-
ral, sem delírios sistematizados, sem alteração de fluxo ou forma. Assume o de-
lito com pouca elaboração das perdas e questões decorrentes do ato, revelando
um distanciamento do seu comportamento transgressor. Crítica adequada em re-
lação a seu ato ilícito. Elabora arrependimento baseado em sofrimento pessoal­e
alheio.
• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alucinações.
• Capacidade intelectual: adequada.
• Capacidade de abstração: comprometida.
• Atenção: normotenaz.
• Orientação: orientada alo e autopsiquicamente.
• Memória: globalmente preservada.
• Juízo crítico da realidade: preservado.

7 – DISCUSSÃO
Considerando os dados da história pregressa da paciente e os achados do exa-
me clínico, de acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (CID­
‑10),35 não ficou evidenciado qualquer transtorno mental que comprometesse a capa-
cidade de entendimento ou de autodeterminação da pericianda no momento dos fatos.
Ela não apresenta doença mental, perturbação da saúde mental ou desenvolvi-
mento mental retardado, sendo totalmente capaz de entender e de se autodeterminar.

8 – CONCLUSÃO
Diante do exposto, concluímos:
Manual de perícias psiquiátricas 167

• Classifica-se a pericianda, segundo as prerrogativas da responsabilidade penal,


entre os imputáveis.

Fls. 03 – Juízo
1. Por doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era a ré,
ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter cri-
minoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento?
Não.
2. Por doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era a ré,
ao tempo da ação ou da omissão, parcialmente incapaz de entender o caráter
criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento?
Não.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor

SÍNDROME DE MUNCHAUSEN OU
DOENÇA ORGÂNICA: CASO INCONCLUSIVO
A síndrome de Munchausen é uma condição psiquiátrica classificada entre
os transtornos factícios, em que o paciente, de forma compulsiva, delibera-
da e contínua, causa, provoca ou simula sintomas de doenças, sem que haja
uma vantagem óbvia para tal atitude que não seja a obtenção de cuidados
médicos e de enfermagem. Codificada como F68.1 na CID-1035 (transtorno
factício), difere da simulação porque, nesta última, o indivíduo tem um ob-
jetivo consciente. No caso apresentado, a suspeita era de síndrome de Mun-
chausen por procuração.
Trata-se de um tema extremamente complexo, pois a realização de seu
diagnóstico é muito difícil e, na maioria das vezes, está relacionado direta
ou indiretamente com questões legais.
No caso a seguir, a possibilidade desse diagnóstico resultou em uma no-
tificação ao Conselho Tutelar, que indicou um afastamento dos pais até escla-
recimento da questão. Enquanto isso, a condição clínica da menor se agravou,
e foi aventada a possibilidade de um envenenamento intencional por parte do
profissional da área de saúde responsável pelos cuidados da jovem.
A necessidade de um laudo esclarecedor fez o perito aprofundar bas-
tante sua investigação. Entretanto, o resultado foi inconclusivo, apesar de o
perito ter deixado orientações finais sobre o caso.
168 Barros & Teixeira (orgs.)

A intenção de trazer esse caso como exemplo é justamente para lem-


brar o leitor de que nem sempre o trabalho pericial chegará a uma conclu-
são precisa.

MODELO DE LAUDO

EXMO. SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ...

Data:

LAUDO MÉDICO-PERICIAL
Ação: PERDA DO PODER FAMILIAR
Processo n-o-
Periciando:

TÍTULOS E CURRÍCULO DOS PERITOS:

1 – DADOS DA PERÍCIA
Em 08/11/2008 e 13/12/2008, na Sala de Perícias Médicas do fórum de xxx/XX,
foi examinado um indivíduo pré-púbere do sexo feminino identificado como a perician-
da acima referida.
Na primeira ocasião, foi avaliada na presença dos genitores, Sra. xxx e Sr. xxx, e
do tio materno, Sr. xxx. Na segunda foi avaliada na presença do genitor, Sr. xxx, e da
tia materna, Sra. xxx.
Os seguintes documentos de importância médico-legal foram examinados:
• Cópia do prontuário médico do hospital xxx, encaminhado ao meu consultório atra-
vés dos ofícios 51/08 e 52/08, referente aos períodos de internação de 31/10/2007
a 01/11/2007 (02 dias), de 03/11/2007 a 09/11/2007 (07 dias), de 19/11/2007 a
23/11/2007 (05 dias) e de 30/11/2007 a 01/02/2008 (63 dias: 11 dias de enferma-
ria e 52 de UTI). Constam todas as evoluções médicas e de enfermagem, pres-
crições, resultados de exames, relatórios diversos e boletim diário do período de
UTI. Segue em anexo ao laudo, em envelope lacrado.
• Cópia de laudo psiquiátrico dos genitores, realizado pelo Dr. xxx, em 09/01/2008,
referindo não ter encontrado nenhuma doença psiquiátrica e questionando o afas-
tamento da pericianda do convívio dos pais.
• Cópia de atestado do Dr. xxx, de 07/04/2008, referindo que a pericianda encon-
trava-se internada no Hospital xxx desde 04/04/2008 por não estar conseguindo
se alimentar e por apresentar-se desidratada.
• Relatório da Dra. xxx, datado de 19/08/2008, com quem a pericianda está em
acompanhamento ambulatorial desde 05/2008 devido a “um quadro clínico neu-
ropsiquiátrico classificado como psicose infantil, na sua forma mais grave, deno-
minada esquizofrenia catatônica (F20.2 – CID-10)”.35
• Relatório do Dr. xxx, datado de 02/12/2008, com quem a pericianda passou por
três avaliações (04/2008, 05/2008 e 12/2008). Refere a visita domiciliar e o grave
comprometimento neurológico nas duas primeiras avaliações, bem como o con-
tato com diversos familiares na segunda avaliação. Não aponta qualquer estado
Manual de perícias psiquiátricas 169

pré-mórbido e relata importante melhora na última avaliação. Sugere o diagnós-


tico de um quadro psicótico grave com características catatoniformes.
• Relatório do Dr. xxx, datado de 25/04/2008, referindo que examinou a pericianda
em 18/04/2008 e em 20/04/2008, durante sua internação no Hospital xxx. Refere
transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado (F09 da CID-10)35 e
exclui etiologia psicológico em decorrência da gravidade do quadro.
Durante os trabalhos periciais, a pericianda foi, ainda, submetida a exame de res-
sonância magnética de crânio e avaliação com psiquiatra infantil, Dr. xxx (vide item 6
– Exames complementares).
Sem intercorrências.

2 – DADOS DOS AUTOS


Consta relatório da professora xxx, datado de 13/12/2007, no qual afirma que a pe-
ricianda sempre teve ótimo desempenho escolar (fls. 90-92).
Consta relatório da psicóloga xxx, sem data, referindo seguimento psicoterápico de
início em junho de 2005 devido a queixas de dores abdominais, enjoo e choro quando
a mãe saía para trabalhar (fls. 93-94).
Consta estudo psicossocial realizado em 22/01/2008, por determinação judicial,
em relação aos pais e tio materno. Não há relato de comprometimento do funciona-
mento social dos examinados (fls. 173-175). Consta relatório da psiquiatra xxx, data-
do de 10/12/2007, que examinou a pericianda durante o período de internação no hos-
pital xxx, referindo a hipótese de síndrome de Munchausen com base na intoxicação
e na constatação de uma “relação simbiótica entre o par mãe-filha”. Relata história de
perda importante por parte da mãe (morte de um filho neonato) e falta de elaboração
dessa perda (fls. 266).
Consta relatório de avaliação neuropsicológica realizada pela psicóloga xxx, data-
do de 11/03/2008, que revelou “declínio acentuado em relação ao funcionamento inte-
lectual pré-mórbido” (fls. 815-823).
3 – HISTÓRIA
Atualmente com 12 anos de idade, sexo feminino, estudante da 5a série, natural de
xxx/XX e procedente de xxx/XX, onde vive com os pais e irmãos (no momento, está re-
sidindo com a família do irmão materno).
Terceiro filho de uma prole de quatro filhos (o segundo faleceu no período neona-
tal devido a pneumonia) provenientes de casal não consanguíneo. Gestação fisiológica
com acompanhamento pré-natal, sem uso de medicações ou intercorrências clínicas.
Nascida de parto cesárea a termo. Recebeu aleitamento materno até 3 meses de vida.
Desenvolvimento neuropsicomotor dentro dos limites da normalidade. Falou aos
9 meses, andou com 1 ano e desenvolveu controle esfincteriano por volta de 2 anos.
Sem relato de enurese ou encoprese após a primeira infância. Sem relato de doenças
graves na infância ou cirurgias.
Foi criada pelos pais biológicos em ambiente harmonioso e estável. Sempre teve
bom relacionamento com os irmãos, genitores, avós e tios.
Tem rendimento escolar satisfatório, sem relato de transtornos de aprendizado ou
de conduta. Apresenta boa habilidade em escrever e desenvolver textos. Sempre foi um
pouco tímida, porém sem afetar o desempenho escolar ou sua capacidade de sociali-
zação. Estava cursando a 4ª série quando foi acometida pelo quadro em tela. Como ti-
nha boas notas e assiduidade, foi promovida para a 5ª série.
170 Barros & Teixeira (orgs.)

Em função de sua timidez, estava fazendo psicoterapia com psicóloga em sua ci-
dade. Segundo relato, a pericianda tinha boa relação com a terapeuta e era motivada
e assídua às sessões. Durante esse seguimento, não foi evidenciado qualquer sintoma
que sugerisse algum transtorno psiquiátrico de maior gravidade.
Até a pericianda ser acometida pelo quadro em tela, que teve início em outubro de
2007, ela sempre teve boa saúde física e psíquica. Não há relato de desmaio, convul-
são, agitação psicomotora, agressividade, passividade extrema, maneirismos, postu-
ras bizarras, alterações de pensamento ou sensopercepção, etc.
Em outubro de 2007, passou a queixar-se de mialgia em membros inferiores, acom-
panhada de febre não aferida e de queda no estado geral. Iniciou investigação clínica
no Hospital xxx e, devido à gravidade do quadro e à evolução desfavorável, foi subme-
tida a quatro internações, sempre com diagnóstico a esclarecer. Em dezembro de 2007,
em sua quarta internação, foi realizado exame toxicológico, que indicou a presença de
duas substâncias na urina da pericianda (amantadina e clordiazepóxido).
Considerando que essas substâncias não faziam parte da prescrição, que o quadro
clínico era compatível com intoxicação e que a mãe sempre se apresentou muito an-
siosa e insistente em relação à equipe de saúde, foi aventada a hipótese de síndrome
de Munchausen por procuração. A pericianda foi transferida para a UTI e, em poucos
dias, afastada do contato com a mãe. Permaneceu na UTI por 52 dias em estado gra-
ve e recebeu alta com melhora clínica geral, porém ainda sintomática.
Por decisão judicial, após a alta, a pericianda passou a viver sob os cuidados do
tio materno, Sr. xxx. Desde então, vem fazendo seguimento ambulatorial como descri-
to nos diversos relatórios juntados no processo e apresentados no item 1 deste laudo.
Ainda persistem sintomas neuromotores e psicocognitivos, porém com alguma respos-
ta ao uso de Clozapina (antipsicótico atípico). O diagnóstico ainda não está fechado, e
a pericianda está recebendo tratamento para esquizofrenia do tipo catatônica.
O Sr. xxx e outros familiares relatam que, atualmente, todas as visitas da genitora
são sempre supervisionadas. Todos expressam perplexidade com relação à situação,
pois não há relato de qualquer transtorno psiquiátrico na história familiar.

4 – EXAME FÍSICO
Bom estado geral, corada, hidratada, anictérica, acianótica.
Contida pelo tronco em uma cadeira de rodas. Apresenta lentificação motora e di-
minuição da coordenação e força. Marcha não avaliada. Ausência de movimento corei-
cos, espasmos, distonia ou tremores. Fala lentificada.
Sem outros sinais ou alterações de importância médico-legal.

5 – EXAME DO ESTADO MENTAL


Estabeleceu pouco contato com o examinador e manteve atitude indiferente e pas-
siva em relação ao exame. No início da primeira avaliação, apresentou-se muito seda-
da, com melhora progressiva no decorrer da consulta.
• Apresentação geral: facies atípica, asseada, vestes limpas e adequadas para a
ocasião.
• Afeto: tendendo ao embotamento (algo pueril), hipomodulante e não ressonante;
em certos momentos, manifestando alguma perplexidade.
• Pensamento: lógica deficitária, coerente, com ritmo e curso diminuído, tom de voz
reduzido, monossilábica. Não foram detectados delírios. Apresenta algum empo-
brecimento de conteúdo.
Manual de perícias psiquiátricas 171

• Sensopercepção: sem sinais sugestivos de alterações.


• Capacidade intelectual: comprometida em decorrência do prejuízo cognitivo.
• Capacidade de abstração: comprometida.
• Atenção: hipovigil e hipotenaz.
• Funções cognitivas (orientação, memória): orientada autopsiquicamente e em par-
te desorientada alopsiquicamente; memórias de fixação e recente com pequeno
prejuízo.
• Juízo crítico da realidade: deficitário.

6 – EXAMES COMPLEMENTARES
Submetida a ressonância magnética de crânio em 13/12/2008, com resultado normal.
Submetida a avaliação com médico psiquiatra da infância e adolescência em
20/12/2008, Dr. xxx, professor da xxx, que teve a seguinte conclusão (segue relató-
rio anexo ao laudo):
“Não é possível se chegar a um diagnóstico conclusivo em relação ao quadro clíni-
co da criança. Apesar disso, outros diagnósticos clínico-psiquiátricos são bem mais pro-
váveis do que o de síndrome de Munchausen by Proxy (por procuração).
A criança tem apresentado melhora com o apoio fisioterápico e com o uso de an-
tipsicótico atípico e ansiolítico. Portanto, essa conduta clínica deve ser mantida, bem
como o suporte médico regular.
Deve-se manter uma investigação clínica e neurológica.
A família necessita de apoio emocional.”

7 – DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES PSIQUIÁTRICO-FORENSES


Intoxicação exógena:
O sulfato de amantadina é um fármaco eficaz na terapêutica da doença de Par­
kinson, com uma rápida ação na melhoria dos principais sintomas incapacitantes e ca-
racterísticos dessa patologia, como a rigidez, o tremor e a acinesia. Destacam-se seus
efeitos particularmente marcados de clarividência psíquica e aumento do interesse e
da participação do paciente no ambiente que o rodeia (grupo farmacoterapêutico: an-
tiparkinsonianos).
Os sintomas de intoxicação aguda incluem náuseas, vômitos, hiperexcitabilidade,
tremor, ataxia, visão borrada, letargia, depressão, disartria e convulsões. Psicoses tóxi-
cas agudas na forma de estados confusionais com alucinações visuais foram observadas
após administração simultânea de amantadina com outros fármacos antiparkinsonianos.
Esse medicamento só é vendido com retenção da receita médica feita em duas
vias (receituário tipo C).
O clordiazepóxido é um fármaco do grupo dos benzodiazepínicos (p.ex., Diaze-
pan, Bromazepan, etc.), os quais atuam, em geral, como depressores do sistema ner-
voso central. Esses medicamentos produzem todos os níveis de depressão, desde leve
sedação até hipnose, conforme a dose administrada.
Os sintomas de intoxicação aguda incluem confusão contínua, sonolência grave,
agitação, bradicardia, tonturas e debilidade grave. São de rara incidência e menos fre-
quentes: confusão, convulsões, náuseas ou vômitos, sudorese e tremores.
Só é vendido com receituário específico e retenção da receita médica (Receituário tipo B).
Considerações:
Não há dúvida quanto à intoxicação exógena, porém não fica claro o porquê de
uma evolução tão desfavorável, mesmo após a eliminação de toda a substância. Tam-
172 Barros & Teixeira (orgs.)

bém não foi esclarecido quais foram os sinais que indicaram à equipe a necessidade
de uma investigação toxicológica (novos sintomas? piora clínica?).
Transtornos psiquiátricos – diagnóstico
A síndrome de Munchausen é um transtorno psiquiátrico classificado entre os trans-
tornos factícios, em que o paciente, de forma compulsiva, deliberada e contínua, cau-
sa, provoca ou simula sintomas de doenças, sem que haja uma vantagem óbvia para
tal atitude que não seja a obtenção de cuidados médicos e de enfermagem. O transtor-
no factício (F68.1 da CID-10)35 difere da simulação porque nesta última o indivíduo tem
um objetivo consciente, enquanto no primeiro a sua motivação é inconsciente e de di-
fícil identificação.
Não se conhece a prevalência dessa síndrome na população, e a maior parte dos
estudos na literatura científica é baseada em relatos de casos.
A síndrome de Munchausen por procuração (by proxy) ocorre quando um dos
pais, quase sempre a mãe (85 a 95% dos casos), de modo persistente ou intermiten-
te, produz (fabrica, simula, inventa), de forma intencional, sintomas em seu filho, fazen-
do este ser considerado doente ou provocando ativamente a doença, o que coloca a
criança em risco e em uma situação que requeira investigação e tratamento. Quando se
faz o diagnóstico, é comum que outros filhos já tenham sofrido o mesmo tipo de abuso.
A mãe geralmente apresenta-se articulada, simpática, comunicativa, conhece a lin-
guagem médica, não manifesta culpa e está sempre presente, porém com uma preo-
cupação inferior ao esperado. São comuns tendência à hostilidade quando confronta-
da e antecedente de transtorno psiquiátrico.
O pai geralmente é omisso, passivo e acredita que a mãe é cuidadora e incapaz
de fazer mal à criança.
A criança, em alguns casos, pode manifestar um relacionamento de cumplicidade
com a mãe, caracterizada por uma relação simbiótica, distorcida e condicionada, poden-
do facilitar a atuação da genitora e também provocar alteração em seu estado de saúde.
Considerações:
Existem vários aspectos neste caso que indicam tratar-se desse tipo de transtorno
factício, sobretudo a confirmação da intoxicação por meio de exames objetivos e por
possuir quadro clínico e evolução atípicos. No entanto, vários fatores colocam em dú-
vida essa hipótese diagnóstica, como a ausência de antecedentes psiquiátricos da pe-
ricianda e da mãe, a evolução desfavorável mesmo após o afastamento da mãe e a
gravidade do quadro, que ainda persiste. O diagnóstico de síndrome de Munchausen
deve ser firmado preferencialmente quando existe uma comprovação do ato da genito-
ra (testemunha, filmagem, etc.).
Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções funda-
mentais e características do pensamento e da percepção, bem como por afetos inapro-
priados ou embotados. O paciente costuma manter a consciência e a capacidade inte-
lectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo.
A esquizofrenia catatônica, um subtipo de esquizofrenia, codificada como F20.2
pela CID-10, é dominada por sintomas físicos, como a imobilidade, a atividade motora
excessiva ou a adoção de posturas esquisitas.
Considerações:
Tendo em vista os dados da história pregressa, os achados do exame clínico e a
evolução, o diagnóstico de esquizofrenia catatônica é considerado possível, porém o
quadro não é característico e não preenche os critérios clínicos necessários, segundo
a CID-1035 e o DSM-IV-TR.43
Manual de perícias psiquiátricas 173

CONSIDERAÇÕES GERAIS
A sintomatologia desse caso não é específica, e vários aspectos são obscuros.
É evidente que muitas das condutas e impressões diagnósticas foram fortemente
influenciadas por aspectos subjetivos, dada a complexidade do caso e o nível de sofri-
mento geral. Fica evidente a presença de forte sentimento de impotência da equipe de-
vido à gravidade e à indefinição do quadro, ampliado pelo comportamento da genitora
ante o sofrimento da filha, e, por fim, a perplexidade de uma possível intoxicação exó-
gena sem comprovação de sua origem.
A primeira impressão é de que a situação teria sido provocada pela mãe, porém a
falta de uma prova real da ação direta da genitora e a persistência dos sintomas neu-
ropsiquiátricos mesmo após seu afastamento geram ainda mais incertezas.
Após toda essa trajetória, a pericianda ainda teve de passar por outros profissionais,
continuar um tratamento e iniciar um novo processo de investigação. Nesta fase, obser-
va-se um maior cuidado nos relatos e hipóteses, ficando evidente uma maior cautela
dos assistentes em não deixar que o fator subjetivo tivesse o mesmo impacto de antes.
Como acontece em uma parcela considerável dos transtornos psiquiátricos, o diag-
nóstico só é firmado após a evolução clínica por um período longo, que pode ser de me-
ses a anos. Essa evolução é condicionada a um tratamento rigoroso e supervisionado.

8 – CONCLUSÃO
Diante do exposto, concluo:
• Trata-se de um quadro clínico com sintomas neurológicos e psiquiátricos mistos,
de grande complexidade e com diagnóstico ainda não fechado, codificado como
F09 pela CID-10.
• Não existem elementos suficientes para firmar o diagnóstico, nem de síndrome
de Munchausen por procuração, nem de esquizofrenia catatônica. Também não
está descartada a possibilidade de uma doença neurológica de etiologia a escla-
recer.
• O retorno da pericianda ao convívio em seu núcleo familiar poderá permitir uma
evolução mais favorável ao tratamento oferecido atualmente. A atual médica que
a assiste deverá ficar responsável por supervisionar sua relação com a mãe e a
influência desta sobre o tratamento.

9 – QUESITOS
Não foram apresentados.

Por ser este expressão de nosso saber e boa-fé, assinamos o presente.

Dr. _______________________________ Dr. _______________________________


Perito Relator Perito Subscritor
Esta página foi deixada em branco intencionalmente.
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