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PRINCÍPIO DE NÃO-INTERVENÇÃO

Celso A. Mello·

  • 1. Introdução; 2. Algumas observações preliminares sobre a

intervenção; 3. Prindpio de não-intervenção no DI universal;

  • 4. O mesmo princfpio no continente americano; 5. Tese Drago;

6. Conclusão.

  • 1. Introdução o

presente

estudo

visa

traçar

a

evolução hist6rica do princípio de

não-intervenção, principalmente no continente americano, com a finalidade de se verificar a existência de alguma especificidade que possa contribuir para a fonnação do DI americano.

  • 2. Algumas observàç6es preliminares sobre a intervenção

o estudo da intervenção pertence à política, e não ao direito. "Ela está acima e além do domínio do direito", assinalava um jurista inglês no século XIX.' Um internacionalista, também inglês, em trabalho relativamente recente, afirma que a "intervenção é um antigo hábito político e talvez uma necessidade política". 2 Pode-se, assim, afirmar que a intervenção faz parte da realidade política internacional e o direito trava uma luta realmente ingl6ria tentando reprimi-la. Pode-se lembrar que as duas grandes ideologias que dominam o mundo internacional são ambas expansionistas. O Instituto Brookings (EUA), em estudo realizado por solicitação do Pentágono e publicado em janeiro de 1977, afirma que "os Estados Unidos teriam intervindo militannente ou teriam ameaçado de intervir 215 vezes depois do fim da n Guerra Mundial".' Ora, a intervenção não é realizada apenas por meios militares, mas pode sê-Io por meios diplomáticos e econômicos. Não há Estado que possa af'umar jamais ter cometido um ato de intervenção. Ela é, infelizmente, uma atividade diária na vida internacional. Conceituar intervenção não é fácil e apenas pretendemos adotar uma deimição operacional, que é calcada na de Charles Rousseau, • com ligeiras modificações. Assim, intervenção seria a ingerência por um Estado nos assuntos de outro, com a fmalidade de obter uma atitude determinada. A nosso ver, a ingerência deve ter um aspecto compuls6rio. Esta observação mostra a relatividade deste conceito, uma vez que uma pequenâ potência não poderia intervir em uma grande potência.

• Professor de direito internacional pdblico na UFRJ e na PUC-RJ; juiz do Tribunal Marítimo.

,

útters by Historicus on some questions ofintemationaI law. Reprinted from Tire Trnes, with considerable

additions. London and Cambridge, Macmillan, 1863. p. 14. ("Historicus" é o pseudônimo de William Ver- non Harcourt.)

  • 2 Fawcen, E. S. Intervention in internationallaw. In: Recueil descoUTs. 1961. v.2, t. 103, p. 347.

  • 3 Rousseau, Charles. Droit international public. Paris, Sirey, 1980. L4, p. 101.

• A defInição do internacionalista francês é a seguinte: ,,~ o fato de um Estado que realiza um ato de in- gerência nos assuntos internos ou externos de um outro Estado para exigir a execução ou a inexecução de uma ação ou de uma prestação determinada." (Rousseau, Charles. op.ciL p. 37.)

R.C. pol.,

Rio de Janeiro,

33(3):9-19,

maio/jul. 1990

A intervenção não é uma prática nova na hist6ria. A doutrina tem citado um tratado entre o fara6 dos egípcios e o rei dos hititas (1294 a.c.), em que é estabelecida a assistência ml1tua entre os contratantes pelo envio de tropas em caso de revolta dos sl1ditos.· De qualquer modo, a intervenção, como uma política consagrada na vida internacional, parece ser mais ou menos recente. Deste modo, McNemar' aftrma que a não-intervenção no sistema europeu predominou até a Revolução Francesa e depois de 1850 até a I Guerra Mundial, quando os Estados adotavam uma "política de não-intervenção em relação às guerras ci vis". Foi a Revolução Francesa, ao provocar como reação a ela a política legitimista, que trouxe a intervenção para a política européia como uma prática usual. Para nos limitarmos ao século XX, podemos lembrar as intervenções dos EUA, Grã-Bretanha, França e Japão na guerra civil da URSS, em 1918, ou ainda a da Itália e Alemanha (a partir de 1936) na guerra civil espanhola. Ap6s a 11 Guerra Mundial, a prática intervencionista continua a ser usual nas relações internacionais, como as intervenções da URSS na Checoslováquia (1968), na Hungria (1956), ou ainda a dos EUA, na década de 60, no Vietnã, para citarmos apenas algumas das que obtiveram maior repercussão. VelIas 7 aftrma que na Conferência de Yalta foram criadas duas zonas de influênCia: a da URSS e a das "potências ocidentais". Ap6s a Conferencia de Bandoeng (1955), com o "desmantelamento progressivo dos dois blocos, cinco grandes zonas de influênCia foram constituídas": a) a dos EUA no continente americano (medidas dos EU A contra Cuba, em 1962, na crise dos mísseis e intervenção na República Dominicana, em 1965); b) a da URSS com as intervenções acima citadas; c) a da Grã-Bretanha na Commonwealth "com as intervenções do exército inglês na África Oriental e na Malásia de 1964 a 1966"; d) a da França na África de língua francesa, onde se pode citar a intervenção no Gabão em 1964; e) a da China no Sudeste asiático. VelIas, ao fazer esta exposição, pretende mostrar que a intervenção tem sido admitida e s6 é "proibida" quando realizada fora da zona de influência da grande potência. Assim, Franck e Rodley8 observam que "a prática dos EUA nas crises de Berlim, Hungria, Polônia e Checoslováquia tem tido reciprocidade por parte da União Soviética na crise cubana dos mísseis e na crise dominicana". A ánica conclusão possível é que toda grande potência é intervencionista, e neste caso estão os EUA, que têm co~o sua "reserva de caça", respeitada pelos demais países, a América Latina.

3. Princ(pio de não-intervenção no Dl universal

Os mais diferentes doutrinadores datam o princípio de não-intervenção nos

textos do fil6sofo

alemão

Kant,

que

no

seu Projeto de paz perpétua (1795)

Boutros-Ghali, Contribution a une th/orle g~nlrale des alliances. Paris, Éditions A. Pedone, 1963. p.

15-16.

8

McNemar, Donald W. United Nations peacekeeping: an altemative for future vietnams. In: Falk, Ri-

p.98.

chard. A., coord. The Vietnam war and intemationallaw. Princeton, Princeton University Press, 1976. v.4,

7

Vellas, Pierre. Droit intemational public. Paris Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence

1967 p.

236-8.

'

Franck, Thomas M. & Rodley, Nigel S. Legitirnacy and legal rights of revolutionary movements with special reference to the people's Revolutionary Govemmente of South Vietnam. In: Falk, Richard A., co- ord. The Vietnam warandintemationallaw. Princeton, Princeton University Press, 1972. v.3, p. 729.

8

estabeleceu o seguinte princípio: "Nenhum Estado deve imiscuir-se pela força na constituição e governo de um outro Estado." É o 52 dos "artigos preliminares", seguido de comentário em que ele observa

que mesmo em "conflito interior ainda não resolvido (

) [a] ingerência de

... potências estrangeiras seria uma lesão dos direitos de um povo lutando somente contra seu sofrimento interior, e não dependendo de nenhum outro; isto seria dar lugar a um escândalo e tomar incerta a autonomia de todos os Estados". 9 A doutrina no século XIX vai também condenar a intervenção. Kluber,'o em obra publicada inicialmente em 1819 e que possui uma edição aumentada em 1821, escreve que o Estado não se pode imiscuir nos assuntos internos de outro. Heffter," em livro publicado em 1844, aÍrrma que "nenhuma potência tem o

direito de se imiscuir nos assuntos internos de um Estado estrangeiro". Funck-Brentano e Sorel 12 negam a existência de um direito de intervenção e defendem que o uso da palavra direito neste caso é um "abuso", bem como escrevem que "a intervenção armada constitui sempre uma violação do direito das gentes em tempo de paz" - todavia, admitem a intervenção diplomática. No século XX, a conden3:ção à intervenção continua a ser feita e para citarmos apenas um texto, que é o mais importante, a Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), estabelece no art. 22:

"A Organização e seus membros, para a realização dos propósitos mencionados no art. 1 2 , agirão de acordo com os seguintes princípios:

7. Nenhum dispositivo da presente Carta autorizará as Nações Unidas a intervirem em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição de qualquer Estado ou obrigará os membros a submeterem tais assuntos a uma solução, nos tennos da

presente Carta (

...

)."

Duas observações iniciais devem

ser fonnuladas. A primeira é que o art. 1 2

consagra, entre outros propósitos, a "igualdade de direitos e a autodeterminação dos povos", 13 isto é, exatamente os fundamentos da não-intervenção. A segunda observação é que o art. 2 2 limita a atuação da própria ONU no sentido de que ela

deverá respeitar a jurisdição doméstica dos Estados. Ora, em conseqüência, não se poderia conceder o direito de intervenção aos Estados indevidamente. É de se assinalar que a ONU age em nome dos interesses da sociedade internacional, ou como representante destes mesmos interesses. A idéia de se condenar a intervenção pode ser vista, a nosso ver, também no art. 2 2 , alínea 4, que estabelece:

"Todos os membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de

  • 9 Kant, Emmanuel. Projel de paix perplruelle. Trad. ]. Gibelin. Paris, Librairie Philosophique ]. Vrin,

1948. p. 8.

.

  • 10 Kluber.]. L. Droil des gens modeme de rEurope. ed. rev. anol. complel. por A. Ott. Paris, Librairie de GuilIaumin, 1861. p. 72-3.

" Heffter, A. C. Le droil inlemalionaIderEurope.4.ed.aumenl.anol.porHeinrichGeffcken.Trad.de ]ules Bergsen. Paris, A. CotilIon, 1883. p. 108-9.

  • 12 Funck-Brentano Th. & SoreI, Albert. Prlcisdu Droitdes Gens. 3. ed. Paris, PIon, 1900. p. 211 segs.

• 3 L6pez, Angustias Moreno./gua/dad de rJerec1w~ y libre detemrinaci6n de 1cs pueblos. Principio Ejede De- recho Internacional Contemporaneo. Granada, Universidad de Granada, F. de Derecho, 1977; Suceda, A. Rigo. The evolulion of lhe righl of self-delemainJllion. Leiden, A. W. Sijthoff, 1973.

qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os propósitos das Nações Unidas." A Declaração relativa aos princípios de direito internacional concernentes às relações amigáveis e à cooperação entre os Estados, conforme a Carta das Nações Unidas (1970), estabelece os seguintes princfpios:

"Nenhum Estado nem grupo de Estados têm o direito de intervir, diretamente ou indiretamente, por qualquer razão que seja, nos assuntos interiores ou exteriores de um outro Estado. Em conseqüência, não somente a intervenção armada, mas também qualquer outra forma de ingerência ou toda ameaça dirigidas contra a personalidade de um Estado ou contra seus elementos polfticos, econômicos e culturais são contrários ao direito internacional. Nenhum Estado pode aplicar nem encorajar o uso de medidas econômicas, polfticas ou de qualquer natureza para constranger um outro Estado a subordinar o exercício de seus direitos soberanos e para obter dele vantagens de qualquer ordem que sejam. Todo Estado tem o direito inalienável de escolher seu sistema polftico, econômico, social e cultural sem ingerência de qualquer forma da parte de qualquer outro Estado." A mesma condenação da intervenção é encontrada na Ata final da Conferência sobre a Segurança e Cooperação na Europa (Helsinki, 1975) que proíbe seja ela "direta ou indireta, individual ou coletiva" nos assuntos internos ou externos que façam parte da "competência nacional" de um Estado. Proíbe a coerção militar, polftica ou econômica. Estabelece ainda a proibição de qualquer auxflio direto ou indireto a "atividades terroristas ou atividades subversivas" que visem a "derrubada violenta do regime de um outro Estado". O Protocolo 11 de 1977 às Convenções de Genebra de 1949 estabelece:

"Art. 3 2 Não-intervenção - 1. Nenhuma disposição do presente Protocolo será invocada com a finalidade de

atingir a soberania de um Estado (

...

).

2. Nenhuma disposição do presente Protocolo será invocada como uma

justificação de uma intervenção direta ou indireta, por qualquer razão que seja, no

conflito armado ou nos assuntos internos da Alta Parte contratante (

...

)."

Pode-se ainda recordar que os Pactos de Direitos do Homem (1966) estabelecem no art. 12:

"I. Todos os povos têm o direito de autodeterminação. Em virtude deste direito

estabelecem livremente sua

A

nossa intenção

não

condição polftica (

...

)."

foi

reproduzir todos os textos que no DI universal

condenam a intervenção, mas apenas alguns deles, com a finalidade de

demonstrannos que o princípio de não-intervenção está consagrado no mundo jurfdico.

4. O mesmo princfpio no continente americano

Acreditamos poder dizer que a luta pela não-intervenção é o tema central das relações interamericanas. No início de sua hist6ria, a América Latina temeu as intervenções européias que a Doutrina de Monroe nem sempre foi capaz de evitar e, posteriormente, passou a temer as intervenções dos EUA, muito mais ameaçadoras e perigosas do que as européias, devido à sua proximidade geográfica e poderio econômico e militar. Por outro lado, a América Latina se transformou em zona de influência dos EUA, que passou a exercer um "policiamento" sobre o nosso continente. A intervenção é uma realidade

12

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constante na vida política da América Latina. É o princípio de não-intervenção a norma jurídica internacional mais violada nas Américas. Talvez seja a nossa uma das regiões do globo em que mais tempo na história o princípio de não-intervenção tem permanecido letra morta. Nunca o DI foi tão "dever ser" quanto no princípio de não-intervenção.

Fabela"

faz

um

levantamento detalhado da poSlçaO da doutrina

latino-americana a respeito da intervenção. A seguir resenha da exposição do internacionalista mexicano nos permite segui-lo com tranqüilidade. Começa a exposição por analisar a obra do "decano" dos internacionalistas latino-americanos, Andrês Bello, cuja obra Pri.ncfpios de Derecho Internacional, de 1832, condena a intervenção, mas a admite no caso de guerra civil, como pertencendo ao direito costumeiro. Dentro de orientação semelhante está Carlos

Calvo, que afirma serem a intervenção e a não-intervenção "princípios de Direito das Gentes", mas que parece "prevalecer" nas relações internacionais a não-intervenção. Kane,'5 com fundamento na obra de Fabela, observa que até Drago, no início do século XX, os autores latino-americanos seguiam a posição européia admitindo a intervenção, mas que, no corrente século, eles se filiam ao princípio de não-intervenção,'· o que serve para demonstrar o ingresso tardio deste princípio no nosso continente, apesar de sermos, no século XIX, países fracos em um mundo de grandes potências. De qualquer modo, a doutrina no século XX vai defender a não-intervenção e a diplomacia latino-americana vai lutar pela sua consagração em texto convencional. Fabela vê uma manifestação neste sentido na recomendação aprovada na I Conferência Internacional Americana (Washington), consagrando a igualdade de direitos civis entre estrangeiros e nacionais, bem como que "a nação não reconhece em favor dos estrangeiros nenhuma outra obrigação ou responsabilidade que as estabelecidas em favor dos nativos nos mesmos casos, pela Constituição e as leis". Afirma o internacionalista que a citada resolução visava os EUA, que faziam inúmeras intervenções em nome da defesa de seu nacional. Ela não foi aprovada pelos

EUA.'7

Na n Conferência Internacional Americana (México) manifesta-se a mesma tendência de especificar os direitos de que gozam os estrangeiros. Entretanto, a formulação é mais precisa e estabelecida em uma convenção, em que se estatui a não-responsabilidade do Estado por danos causados a estrangeiros por "atos de facciosos", etc. H Na Conferência Internacional Americana de Buenos Aires é reconhecida a arbitragem para a solução das "reclamações por danos e prejuízos pecuniários". Salienta Fabela "que o interesse de todas as delegações em insistir sobre a

arbitragem obrigatória era com o fim precisamente de evitar intervenções (

...

)."11

Fabela, Isidro. Intervencwn. M~xico, Escuela Nacional de Ciencias Polfticas y Sociales, 1959. p. 133 segs. Ver, ainda, uma excelente análise deste princípio nas diferentes confer!ncias pan-americanas: Oliveira,

..

Jane Tereza Gonzaga de. O princfpio de não-intervenção no sistema das relações inteTt1l7lericanas. Tese de

doutorado. Rio de Janeiro, Faculdade de Direito, UFRJ, 1986. mimeogr.

Kane, WiIliam Everett. CNU striJe in Latin America: a legal history ofU.S. involvement. Baltirnore, The Johns Hopkins University Press, 1972. p. 115.

'5

  • 11 Ver Fabela, Isidro. op. cito p. 133 segs.

  • 17 Id. ibid. p. 195.

 
  • 11 Id.

ibid.

p.

197 - 202.

  • 11 Id. ibid. p. 204.

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13

A intervenção integra a polftica externa dos EUA, sendo que Blasier observa apresentarem as revoluções latino-americanas uma relevância especial devido aos seus interesses na região. Este autor mostra a "participação" norte-americana nas mais diferentes revoluções ocorridas no nosso continente. 21 Para citarmos apenas alguns casos mais recentes podemos lembrar a intervenção norte-americana na Rept1blica Dominicana,22 em 1965, ocasião em que é elaborada a Doutrina Johnson, que procura mascarar a intervenção norte-americana com a OEA. Neste caso, os EUA enviaram 30.000 homens para protegerem 8.000 estrangeiros, quando as tropas da Rept1blica Dominicana não ultrapassavam 25.000 homens. As tropas norte-americanas foram desembarcagas com o pretexto de defenderem os cidadãos estrangeiros e evitar o derramamento de sangue, tendo em vista a guerra civil que ali se desenrolava. A América Latina se manifesta receosa de uma volta à polftica intervencionista dos EUA. Em conseqüência, as tropas norte-americanas vão ser substituídas pela Força Interamericana da Paz (FIP) , criada pela X Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores. Esta FIP é ilegal no contexto da OEA, porque esta s6 possui o direito de legítima defesa e não de "polfcia internacional". E mais, o art. 53 da Carta da ONU proíbe qualquer ação coercitiva por parte das organizações regionais, sem a autorização do Conselho de Segurança. Desde 1961 que fazia parte da política externa dos EUA a criação de uma força internacional sob a OEA.23 A tentativa norte-americana de transformar a FIP em algo permanente fracassou, devido à oposição da grande maioria dos países da América Latina, como Chile, México e Venezuela. No tocante a esta intervenção, os EUA não tiveram a menor preocupação com o aspecto legal, sendo que o Consultor Jurídico do Departamento de Estado afirma que não se deve analisar o que estabelece um "código" ou fazer uma "análise legal", mas sim dar "uma solução prática e satisfat6ria" ao problema. 2. Foi dentro deste quadro que foi formulada a Doutrina Johnson, em discurso pronunciado por este presidente, na Universidade de Baylor (Texas), em 1965, afIrmando que a diferença entre guerra civil e guerra internacional não tem mais validade no mundo atual e que a OEA deve intervir nos casos de ameaça do comonismo na América. Esta doutrina nos parece falsa e perigosa pelas seguintes razões: a) há sempre a possibilidade de existirem conflitos internos sem a participação de Estados estrangeiros; b) não distinguir guerra civil de guerra internacional acabará por conduzir à IH Guerra Mundial; c) a OEA não tem uma autonomia e continuará a ser cada vez mais instrumento da polftica externa

  • 21 Blasier, Cole. TIu! Iwvering giant. U.S. responses to revolutionary change in Latin America. University

of Pittsburgh, 1976. p. 3. A contradição entre a defesa do princfpio de não-intervenção e as intervenções constantes no continente americano é explicada por Noel, J. (op. cit. p. 2) da seguinte maneira: "a identifi- cação dos interesses das elites locais com os de Washington" é que "o apoio e a intervenção dos EUA são então indispensáveis para esta classe continuar a reinar". Observa que as elites não têm o apoio dos povos, da( a necessidade da intervenção. Salienta ainda que "a regra de não-intervenção, proclamada por esta mes- ma classe, serve para adormecer a vigilância, a acreditar na existência em seu seio de um cuidado de inde- pendência nacional" •

  • 22 Ver sobre o tema: Marinho, limar Penna. Conseqüências da crise dominicana sobre a evolução do siste-

ma interamericano. In: Boletim da Sociedade Brasileira de Direito Internacional, 41/42: 69 segs., janJdez.

  • 1965. Ver ainda: Polftica externa independente. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, n. 2, ago. 1965.

  • 23 Veneroni, Horacio L. Estados Unidos Y las Fuerzas Armadas de AmLrica Latina. Buenos Aires, Periferia,

    • 1973. p. 74.; Child, Jobo. Unequal aDiance: The inter-american rnilitary 1938-1978. Boulder, Westview

 

Press, 1980. p. 128.

2.

Apud Kane, William Everett. op. cito p. 2.

Não-intervenção

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abusos do capitalismo. Conclui o seu pensamento dizendo que se os EUA virem em cada revolução uma intervenção de Moscou eles vão "escorregar de uma crise para outra". 30 A razão parece estar com Ronning, que afmna: "A não-intervenção 'absoluta', deste modo, se toma, para os EUA, um objetivo ut6pico e inacessível. O seu poder político e econômico é tão grande, que qualquer coisa que 'façam' ou 'deixem de fazer' em relação a outra repdblica americana influenciará os neg6cios políticos dessa repdblica. "31 Na verdade, suprimir a intervenção em um mundo dominado por grandes potências é de certo modo uma utopia. Não adiantaria substituí-la por um sistema regional de intervenção, porque este acabaria por ser dominado por uma grande potência. Substituí-la por um sistema universal também não funcionaria, porque s6 tem conduzido, em parte, a uma divisão do mundo em áreas de influência, bem como não há ainda um "amadurecimento" da sociedade internacional neste sentido. De qualquer modo, n6s, que nos dedicamos ao direito internacional positivo, somos um pouco ut6picos. Defendemos o princípio de não-intervenção como norma desse direito, apesar de suas constantes violações.

5. Tese Drago

Os Estados latino-americanos, os primeiros subdesenvolvidos na sociedade internacional a alcançarem a independência, vão ser defensores do princípio de não-intervenção. Dentro desta linha de pensamento se encontra a tese Drago. A sua origem está no bloqueio da Venezuela, onde foram bombardeados La Guaíra, Maracaibo e Porto Cabello, em 1902, por uma esquadra da Alemanha, Inglaterra e Itália. O fundamento deste ato dos países europeus era que a Venezuela não efetuava o pagamento de indenizações a alemães, ingleses e italianos, que tinham sofrido danos com os movimentos revolucionários que ali ocorriam, bem como não pagava as amortizações e juros dos empréstimos contraídos para a construção de estradas de ferro e outras obras públicas. Esta intervenção européia fez com que Luis Maria Drago, Ministro das Relações Exteriores, enviasse, através do ministro argentino em Washington, uma nota 32 ao Departamento de Estado dos EUA, em que sustentava a não-intervenção nos casos de cobrança das dívidas pdblicas com os seguintes fundamentos: a) o

credor sabe a quem empresta o dinheiro e "não ignora que tratou com entidade soberana e uma das condições pr6prias de qualquer soberania é a de não poder ser iniciado nem concluído, contra ela, processo executivo nenhum, porque tal modo

.'

'.

!

de cobrança comprometeria a sua pr6pria existência (

)"; b) "os Estados, seja

... qual for a força de que disponham, são entidades perfeitamente iguais entre si

(

...

)";

c)

"(

...

) a cobrança compuls6ria e imediata em determinado momento, por

meio da força, levaria à ruína as nações mais fracas (

)"; d) "a cobrança manu

... militar; dos empréstimos incide na ocupação territorial, ocupação que presume a supressão ou a subordinação dos governos", o que violaria a Doutrina de Monroe. Afmna ainda: "em uma palavra: o princípio que a Repdblica Argentina desejava ver reconhecido é que a dívida pdblica não pode provocar a intervenção armada e

  • 30 Hoffrnann, Stanley. La nouvelle gue"efroide. Paris, Berger-Levrault, 1983. p. 192-3.

  • 31 Ronning, Neale. O direito no diplomacia interamencana. Trad. Jo~ Carlos Coelho de Souza. Rio de Janeiro, Forense, sld p. 105. (Edição americana: 1963.)

  • 32 A sua data ~ 29.12.02.

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menos ainda a ocupação material do solo das nações americanas por uma potência européia."33 Esta doutrina acabou por receber o apoio do Presidente Theodore Roosevelt, em 1905. 34 Em 1906, ela foi trazida à discussão na Conferência Panamericana, realizada no Rio de Janeiro, mas como a matéria era de interesse, não apenas dos Estados americanos" mas tambépt dos europeus, resolveu-se adiar a sua discussão, com uma moção aprovada neste sentido, para a 11 Conferência de Haia, a se reunir em 1907. Na Conferência de Haia, a Doutrina Drago foi aprovada com o apoio dos EUA, cuja delegação tinha a chefia do General HoracePorter, que nela introduziu alterações.35 Assim sendo, foi aprovada uma convenção concernente à limitação do emprego da força para a cobrança de devidas contratuais, que ficou conhecida como convenção Drago-Porter. Ela é de um certo modo uma conciliação entre a prática intervencionista e o princípio de não-intervenção. Ela determina: 38 a) não haver o recurso "à força armada para a cobrança de dívidas contratuais reclamadas ao Governo de um País pelo Governo de outro País, como devidas a seus nacionais"; b) a determinação anterior "não poderá aplicar-se, quando o Estado devedor recusar ou deixar sem resposta uma proposta de arbitragem, ou, aceitando-a, tomar impossível a celebração do compromisso, ou, depois da arbitragem, deixar de conformar-se com a sentença proferida". Algumas observações devem ser formuladas. A primeira delas é que a idéia de arbitragem nestas questões figurou, em 1903, em uma nota do Secretário de

Estado norte-americano 10hn Hay, em resposta à nota Drago. 37 A segunda é

de

que Drago não se opôs, em Haia, à arbitragem, mas ele não aceitava que se fizesse

intervenção em momento algum. Sobre o alcance da citada Convenção de

Haia no tocante à expressão "d(vidas

contratuais", esta tem sido entendida como abrangendo toda e qualquer dívida do Estado, inclusive as dívidas pl1blicas (exemplo: emissão de bônus) de que falava Drago. As devidas pl1blicas se caracterizam por não serem passíveis de execução, uma vez que são contraídas a título soberano, podendo o devedor fixar a forma de pagamento. 3 . 8 Strupp" considera que a Convenção de Haia não inclui as dívidas oriundas de atos delituosos. Em sentido contrário está Moulin. 40

  • 33 A nota de Drago está reproduzida em Bevilacqua. Clovis. A nota Drago: In: Revista da Faculdade Livre ck Direito da Bahia. Bahia, Litho- Typographia Almeida, p. 79-87, 1910. Pode-se dizer que esta tese tem as suas raízes em Carlos Calvo, que combateu a intervenção, sob qualquer forma, por motivos econômicos ou por prejuízos causados em guerra civil aos nacionais no estrangeiro. Considerava que isto era um abuso das grandes nações (ver Fabela, op. cit. p. 137). Ver ainda: Strupp, Karl. tlene~ du Droillntemational public universel, europlen et amhicain. Pref. Alejandro Alvarez. 2. ed. Paris, Les Editions Internationales, 1930. v.l, p. 124; Drago, Luis M. Cobro coercitivo de ckudas pl1blicas, Buenos Aires, Coni, 1906.

Inicialmente esta doutrina foi recebida com frieza nos EUA e na Europa. Ver: Moulin, H. A. La doctrine de Drago. Revue GlnbaIe de Droit Intemational Public, Paris, A. Pedone, p. 4, 1907.

34

3 5 ~ interessante observar que Drago compareceu pessoalmente a esta Confer!ocia, bem como que o Brasil

combateu esta doutrina, vez que o estrangeiros.

Barão

do Rio

Branco temia com a sua defesa a fuga dos capitais

Mello, Rubens Ferreira de. Textos de direito internacional e ck hist6ria diplom4tica. Rio de Janeiro, A. Coelho Braoco, 1950. p. 141-2.

38

La Doctrina Drago. Colecci6n de documentos. Con una adverteocia preliminar de S. P&CZ Triana y una introducci6n de W. T. Stead. London, Imprenta de Wertheimer, 1908, p. 12-3. A arbitragem veio a ser consagrada no nosso continente na convenção sobre reclamações pecuniárias. coocluída em Buenos Aires, em 1910, onde os Estados americanos se obrigam a submeterem à arbitragem "as reclamações por danos e prejuízos pecuniários" que nio sejam resolvidas amigavelmente. Ver: Mello, Rubens Ferreira de. op. cit. p.

37

223-5.

3.

Moulin. op. cit. p. 9.

 

3'

Id.

ibid.

v.

I, p. 125. 1,1930, p. 125.

40

Id. ibid. p. S-9.

 

18

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De qualquer modo, esta discussão não tem nenhum valor, porque a Carta da ONU proíbe o uso da força armada por parte dos Estados, tomando a convenção Drago-Porter em algo de interesse meramente hist6rico.

6. Conclusão

A tradição na hist6ria da América Latina é a intervenção. Alberdi aÍrrmava ser ela "tradição de 1810",., isto é, desde a independência das colônias da América espanhola4 Os Estados do nosso continente intervêm sempre um no outro, entretanto, o grande receio foi, inicialmente, a intervenção das potências européias e, posteriormente, dos EUA. Daí o princípio de não-intervenção que o nosso continente é o primeiro a codificar na sociedade internacional. Acabamos por influenciar o DI Universal, sendo suficiente comparar a Carta da OEA e a Declaração relativa aos princípios de direito internacional, concernentes às relações amigáveis e a cooperação entre os Estados, conforme a Carta das Nações Unidas, para se verificar a semelhança na redação entre alguns princípios aí estabelecidos e os que figuram na Carta da OEA. A pr6pria posição da América Latina nem sempre foi uniforme, sendo suficiente lembrar a denominada Doutrina Larreta, proposta pelo Ministro das

Relações Exteriores do Uruguai, Eduardo Rodriguez Larreta, em 1945. Ele assinala "o paralelismo entre a paz e a democracia" e recorda que as conferências internacionais americanas sempre consagraram os ideais da democracia. Para tomar isto efetivo propunha que no sistema interamericano fosse estabelecida uma intervenção coletiva para garantir a democracia. A maior parte dos Estados americanos desaprovou a nota enviada pelo chanceler uruguaio, alegando a dificuldade de se caracterizar a democracia, bem como o fato de que esta nem

sempre está ligada à paz. 42

Podemos concluir aÍrrmando que, hoje, o princípio de não-intervenção, além de pertencer ao DI Positivo, é também um ideal da sociedade internacional, pelo menos, da maior parte dos Estados que a integram, isto é, os países em desenvolvimento, as eternas vítimas da intervenção. Ele deixou de ser um princípio exclusivo do DI americano.

4' Moreno, Isidoro Ruiz. Aspectos modernos de la Doctrina Drago. C6rdoba. Universidad Nacional de C6rdoba, 1960. p. 19.

  • 42 Tbomas, Ann Van Wynen & Thomas Ir., A. J. La no intuvenci6n. Trad. Eduardo Ponssa 4e la Vega. p. 449 e 50. Buenos AireS, La Ley, 1959. E ainda: Tbomas, Ann Van Wynen & TbomasIr., A. J. TheOr- ganization of American S tates. Dallas, Southem Melhodist University PmIS, 1963. p. 219-20. Sefte Câmara considera com razão que a doutrina 6 "p~", beJp como qu~ 56 "organismos internacionais" poderão tratar do respeito b liberdades individuais (Seue Câmara Filho, J. A doutrina Larreta. In: Boletim

da Sociedade Brasileira de Direito Internacional, (3): p. 55 segs., janJjun. 1946). Ver ainda: Ulloa. Alberto.

La propuesta Rodríguez Larreta. In: Revista Peruana de Derecho Internacional, Lima. Sociedad Peruana de Derecho Internacional, Torres Aguirre, 5 (18): p. 291 sega., octJnovJdic. 1945. Trellcs, Camilo Bareia. EspafIa, I! ONU, la Doctrina Larreta y el problema de la intervenci6n. In: Trencs, Camilo Barcia. Estudios de poIItica internacional y tkrecho tU gentes. Madrid, Consejo Superior de Investigacioncs Científicas, Instituto Francisco de Vitoria, 1948. p. 87. sega., espec. p. 112 sega.

Não-intervenção

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