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A Afrociberdelia Esclarecida de Chico Science & Nação Zumbi

João Victtor Gomes Varjão (UNIVASF)1


jvitorvarjao@hotmail.com

Resumo: Este presente ensaio pretende demonstrar o Esclarecimento e a


ferramenta-razão, definida por Immanuel Kant (1783; 2006), no álbum musical
Afrociberdelia da banda Chico Science & Nação Zumbi. Utilizando algumas
músicas do álbum, procurarei analisar as letras, fazendo analogias e referências a
Kant. Destrinchando as metáforas e alegorias presentes no Afrociberdelia, somando
também às concepções de Hannah Arendt para o arcabouço teórico.
Palavras-chave: Afrociberdelia; Esclarecimento (Auflklärung); Ferramenta-razão;
Chico Science & Nação Zumbi.
Abstract: The present essay aims to demonstrate the Enlightenment and the reason-
tool, defined by Immanuel Kant (1783; 2006), in album musical Afrociberdelia of
the Brazilian band Chico Science & Nação Zumbi. Using some songs of the album,
I will try to analyze the letters, making analogies and references to Kant. Interpreting
metaphors and allegories present in Afrociberdelia, also adding to the conceptions
of Hannah Arendt to the theoretical framework.
Keywords: Afrociberdelia; Enlightenment (Auflklärung); Reason-tool; Chico
Science & Nação Zumbi.

A Afrociberdelia Enter:
“Pernambuco embaixo dos pés/ E minha mente na imensidão” com estes versos,
é aberto o álbum musical Afrociberdelia (SCIENCE, 1996), segundo da carreira de Chico
Science & Nação Zumbi (CSNZ). Visto como um dos maiores álbuns da música
brasileira, a obra fez parte do movimento Manguebeat, e é carregada de símbolos,
alegorias e metáforas, as quais serão o foco desta pesquisa.

Este movimento, divulgado, principalmente, pelo CSNZ, além de bandas como


Mundo Livre S/A, Eddie, teve ressonâncias nacionais e internacionais, expandindo sua
estética para outros campos artísticos, tais como o cinema, as artes plásticas, e elevando
Pernambuco como um dos estados de maior produção artística. O Manguebeat,
embebedado pelo conceito e estética da Antropofagia de Oswald de Andrade e do
Tropicalismo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, foi um marco da contracultura brasileira.

Pretendo, neste ensaio, fazer uma análise alternativa na obra manguebeatiana,


Afrociberdelia (1996). À luz de um curto e importantíssimo artigo de Immanuel Kant,

11 Graduando em Ciências Sociais (Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF). Ensaio
de conclusão para a disciplina Antropologia, política e as formas de governo, ofertada pelo professor
Gabriel Pugliese.

Juazeiro, 2015
Resposta à pergunta: Que é Esclarecimento? (KANT, 1973), procurarei mostrar o
Esclarecimento (Auflklärung) e a ferramenta-razão no álbum musical, utiliza ndo,
principalmente, as letras de algumas músicas para análise. Recorrerei, também, à Hannah
Arenth, somando às concepções kantianas, no arcabouço teórico.

Longe de tentar esvaziar o conteúdo completo da obra, analisarei e interpretare i


algumas músicas, as quais, para mim, mais simbolizam o esclarecimento e a razão.
Tentando, talvez, mostrar as influências, os significados, os possíveis diálogos teóricos
das músicas de Chico Science & Nação Zumbi.

Afrociberdelia Esclarecida: Canções para o mundo

O álbum se inicia com a canção Mateus Enter, a qual, especialmente, me motivou


a escrever este ensaio. Apresentando versos curtos, diretos e gritantes, a canção poderia
ser considerada um prólogo-manifesto, ela explicita tudo que virá no álbum, toda sua
força e razão. Sendo um discurso direto e público, tal como Kant (1783, p. 5) afirma sobre
a razão, a qual deveria falar “(...) ao verdadeiro público, isto é, ao mundo, por conseguinte
no uso público”:

Eu vim com a Nação Zumbi


Ao seu ouvido falar
Quero ver a poeira subir
E muita fumaça no ar
Cheguei com meu universo
E aterriso no seu pensamento
Trago a luzes dos postes nos olhos
Rios e pontes no coração
Pernambuco embaixo dos pés
E minha mente na imensidão.
(SCIENCE, 1996)

A ousadia da canção, faz-nos perceber o teor do álbum, repleto de uma consciênc ia


de mundo, a qual, mesmo estando com “os pés em Pernambuco”, tem a “mente na
imensidão”. O próprio título cumpre com caráter regional-mundial, o qual o próprio
Chico Science disse a respeito, numa entrevista para Up To Date2 :

“O Mateus é um personagem de maracatu. (...) chega para (...) falar


sobre tudo num universo de idéias de zombeteiro. E o “Mateus Enter”
é uma coisa de um Mateus mais tecnológico. O enter [tecla de
computador] é a entrada do Mateus.”

2 No site da web Brazilian Music Up To Date http://www2.uol.com.br/uptodate/index.html

Juazeiro, 2015
Ainda nesta entrevista, Science fala a respeito do significado da Afrociberdelia, a
qual teria influência africana e seria “o ponto de fusão do maracatu, da cibernética e da
psicodelia. (...) é um comportamento, é um estado de espírito, é uma ficção”3 . Talvez,
podendo ser considerado como um movimento afro-consciente cibernético.

A canção, dirigida a quem estiver ouvindo, afirma: “Cheguei com meu universo /
E aterrisso no seu pensamento” (SCIENCE, 1996), demonstrando o caráter público que
o CSNZ pretende trazer com suas canções, ou seja, a ação política que aquele álbum
pretende realizar. Semelhante, como já mencionado, ao uso da ferramenta-razão, para
Kant (2006), a qual deve ser dirigida para o público que se interessar.

A próxima canção é O Cidadão do Mundo (SCIENCE, 1996), sentido interligada


à anterior. Na letra da música, podemos identificar um eu-lírico que pretende escapar do
corte no pescoço pela estrovenga4 , sendo, talvez, uma metáfora ao perigo de “não
raciocinar” por si só – não se esclarecer.

A estrovenga girou
Passou perto do meu pescoço
Corcoviei5 , corcoviei
Não sou nenhum besta seu moço
A cena parecia fria
Antes da festa começar
Mas logo a estrovenga surgia
Rolando veloz pelo ar
Eu pulei, eu pulei
E corri do coiçe maçio
Só queria matar a fome no canavial na beira do rio
(SCIENCE, 1996)

O personagem, na canção, começa a se descrever, sendo um escravo-fugido, o


qual faz referência à grandes figuras do movimento afro: tais como Dona Ginga 6 , Zumbi,
Veludinho7 . Além de figuras regionais de Pernambuco: Mestre Salustiano. A metáfora,
sendo um escravo, evidencia o caráter atual da música de CSNZ, criticando um dos
problemas mais atuais da sociedade brasileira: o racismo.

3 Idem.
4 Foice de dois gumes, de proporção pequena, usado na agricultura. Demonstrando o caráter regional que
Chico Science dá às alegorias das canções.
5 Significa: Desviar, esquivar.
6 Ana de Sousa, conhecida como Rainha do Ginga, foi rainha de reinos de Ndongo e de Matamba, no

sudoeste africano.
7 Exu Veludinho, entidade da religião Umbanda.

Juazeiro, 2015
Jurei, Jurei
Vou pegar aquele capitão
Vou juntar a minha nação
na terra do maracatu
Dona Ginga, Zumbi, Veludinho e segura o baque do Mestre Salu
Eu ví, eu ví
A minha boneca vodu
Subir e descer do espaço
Na hora da coroação
Me desculpe senhor, me desculpe
Mas esta aqui e a minha nação
Daruê Malungo, Nação Zumbi
(SCIENCE, 1996)

O eu-lírico, agora, demonstra toda consciência de mundo, tal como a música se


chama, um cidadão do mundo. Na letra, mesmo saindo “do manguezal”, o eu-lírico se
mostra participante de tudo: da capital, da liquidação total, e dos “pivetes” de Recife.
Fazendo um movimento contrário à tendência da era moderna, que Hannah Arendt (2010)
critica, de se alienar do mundo e de si mesmo, o eu-lírico encontra um “cidadão do
mundo” no próprio “manguezal na beira do rio”, mostrando-se consciente de seu
“manguezal” como uma fonte de “caranguejo esperto”8 .

É o zum, zum, zum da capital


Só tem caranguejo esperto
Saindo deste manguezal
Eu pulei, eu pulei
E corria no coice macio
Encontrei o cidadão do mundo no manguezal na beira do rio
Josué!!!
(SCIENCE, 1996)

O personagem da canção, sai do manguezal e corre para a capital. Chegando ali,


vê um “pinico9 anunciá/ É liquidação total” (SCIENCE, 1996). Ressignificando o eu-
lírico, a música passa a observar uns “pivetes” que se assustam com o anúncio do
“pinico”. Talvez, seja essa uma ironia do compositor, denunciando a situação dos
“pivetes” que se assustam com a liquidação anunciada, mas precisam roubar a igreja para
comer um pedaço de pão.

Eu corri saí no tombo


Se não ia me lascá
Segui a beira do rio

8 Referência ao primeiro manifesto do Manguebeat: Caranguejos com Cérebro, escrito por Fred
ZeroQuatro.
9 Significado: Autofalante.

Juazeiro, 2015
Vim pará na capitá
Quando ví numa parede um pinico anunciá
É liquidação total
O falante anunciou
Ih! tô liquidado
pivete pensou
Conheceu uns amiguinhos e com eles se mandou
Aí meu velho
abotoa o paletó
não deixe o queixo cair e segura o rojão
Vinha cinco maloqueiro
Em cima do caminhão
Pararam lá na Igreja e conheceram uns irmãos
Pediramum pão pra comer com um copo de café
Um ficou roubando a missa
E quatro deram no pé
Chila, Relê, Domilindró!!!!
(SCIENCE, 1996)

O álbum segue com a canção Etnia, a qual trata de uma questão fundamental da
antropologia brasileira: a miscigenação. No entanto, usando essa questão como base para
sua estética “miscigenada”. Tratarei mais desta questão no decorrer da análise. A música,
fazendo ainda uma alusão aos estilos musicais, afirma:

Somos todos juntos uma miscigenação


E não podemos fugir da nossa etnia
Índios, brancos, negros e mestiços
Nada de errado em seus princípios

O seu e o meu são iguais


Corre nas veias sem parar
Costumes, é folclore, é tradição
Capoeira que rasga é o chão
Samba que sai da favela acabada
É hip-hop na minha embolada
(SCIENCE, 1996)

A canção, então, permite-nos visualizar “a mistura” existente no Brasil, tal como


a antropologia brasileira bem sabe. O diferencial da letra é, provavelmente, a utilização
de alegorias por meio dos estilos e costumes regionais, os quais tentam elucidar que toda
“geleia geral” pode viver e conviver em conjunto. Assim, a música trata de uma questão
até bastante problemática: o convívio – apesar das diferenças. Tanto a questão étnica que,
claramente, é mencionada na música, quanto a questão da condição sexual pode ser
interpretada: “Não há mistérios em descobrir o que você é e o que você faz” (SCIENCE,
1996), demonstrando o caráter político e consciente do discurso pragmático de CSNZ.

Juazeiro, 2015
Outra canção presente no álbum, que é carregada de elementos simbólicos é
Passeio No Mundo Livre. Esta se inicia com os versos: “Um passo à frente/ E você não
está mais no mesmo lugar” (SCIENCE, 1996), a música trata da questão de se viver “no
mundo livre” sem ser incomodado. Podemos associá-la à liberdade definida por Hannah
Arendt (2007), a qual podemos considerar como a liberdade para começar com uma ação,
criar algum problema – abrir uma discussão, tal como o Afrociberdelia nos permite. A
liberdade, desse modo, seria a de poder governar a si mesmo em comunhão com os outros
– esclarecer por si mesmo, dialogando com os outros. As metáforas da música, sobre essa
liberdade, são particularizadas pelo CSNZ, aproximando-nos a uma cena cotidiana: andar
nas ruas.

Eu só quero andar nas ruas do Brasil


Andar no mundo livre
Sem ter sociedade
Andando pelo mundo
E todas as cidades
Andas com os meus amigos
Sem ser incomodado
(SCIENCE, 1996)

Uma das alegorias mais utilizada no álbum é a do “corpo de lama” – fazendo uma
referência aos mangues existente em Pernambuco, como nos versos da canção
Manguetown: “Tô enfiado na lama/ É um barro sujo” (SCIENCE, 1996). Mais que isso, a
alegoria faz referência aos próprios “mangueboys” e “manguegirls” do movimento, que
estão entupidos até o pescoço de conhecimento, crítica, consciência. Assim, o álbum toma
uma forma peculiar, tanto na questão estética, quanto na questão política.

A ética está intrínseca em todo conceito do álbum. Longe de ser uma música “à lá
bossa nova”, sobre barquinhos, patinhos e garotas de Ipanema; a música do
Afrociberdelia é um corpo de lama crítico. Transcendendo a concepção de música pela
estética para uma música política, engajada e conhecedora dos problemas sociais.

Esse, talvez, seja um dos pontos mais importantes do álbum. É como se fizésse mos
a pergunta: “para que música?”, e o Chico Science & Nação Zumbi respondesse “para
provocar!”. Na canção Um satélite na cabeça, a banda mostra todo o seu aparato
“antenado”:

Com as roupas sujas de lama


Porque o barro arrudeia o mundo
E a TV não tem olhos pra ver

Juazeiro, 2015
Eu sou aquele boneco
Que apareceu no dia da fogueira
E controla seu próprio satélite

Andando por cima da Terra


Conquistando seu próprio espaço
É onde você pode estar agora
(SCIENCE, 1996).

A canção citada provoca o próprio ouvinte “É onde você pode estar agora”
(SCIENCE 1996), controlando seu próprio “satélite”, sem a “TV” para orientar. Um dos
pontos-chave da concepção de Esclarecimento para Kant (1783) seria, propriamente, sair
da tutela do outro, orientar-se por si só – controlar seu próprio satélite. O governo de si
se encontra e permeia todo o álbum – essa noção permeia todo o álbum, ora criticando,
ora metaforizando, ora se referindo ao passado. Em outra canção, Corpo de Lama, a
criação de uma identidade própria e consciente pode ser percebida:

Este corpo de lama que tu vê


É apenas a imagem que sou
(...)
Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente
Sem que sejam forjados para acontecer
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes
(SCIENCE, 1996)

Um corpo de lama racional


O “corpo de lama” de CSNZ é um corpo esclarecido, por isso mesmo, é um corpo
que dialoga com o público, que abre discussões, que cria ações políticas. Não é um corpo
inerte ou ditador, como tão facilmente encontramos hoje, seja na televisão, seja nos
jornais: ideias prontas, consciências mal pensadas, pessoas muito técnicas. O corpo de
lama no Afrociberdelia (SCIENCE, 1996) instiga seus ouvintes a serem “atolados na
lama”, observando todos “pequenos detalhes” da vida social, sem que nada seja “forjado”
ou tutelado. Esse corpo está longe de dar consciências prontas.

O Esclarecimento não é “dado” pelo outro – esclarecer-se é o contrário de ser


guiado. O Esclarecimento, na verdade, é um exercício cotidiano, quase uma “batalha
cotidiana”, que “significa a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é
responsável” (KANT, 1783, p. 1). Trata-se, então, de raciocinar por si próprio, sem a
tutela do outro. No entanto, antes disso acontecer, é preciso aprender, ouvir e discutir. O
Afrociberdelia consegue cumprir essa tarefa de sábio, abrindo um leque de discussões, de
problematizações – ele instiga o seu ouvinte a pensar.

Juazeiro, 2015
Pretendi, então, mostrar que o “Afrociberdelia” (SCIENCE, 1996) pode ser um
desses meios que nos possibilitam raciocinar por si só. A ferramenta-razão, que critica,
discute e amplia a visão é uma das bases desse álbum. Talvez, assim, possamos interpretar
obras para além do acadêmico, tal como álbuns musicais, filmes, séries, livros. Mais que
isso: com este ensaio pretendo mostrar que o Esclarecimento pode estar ao alcance de
qualquer um, basta que se esteja “antenado” e “aberto”, tal como “uma antena parabólica
enfiada na lama”10 .

Referências Bibliográficas:

ARENTH, Hannah. “A vida ativa e a era moderna”. In: A condição humana Rio de
Janeiro: Forense universitária, 2010.

_______. “O que é Liberdade?”. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva,
2007.

CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. “Afrociberdelia”. Rio de Janeiro: Chaos, 1996.
Compact Disc. Digital Audio, 1 CD. Remasteriza em Digital.

KANT, Immanuel. “Prefácio”. In: A Antropologia de um ponto de vista pragmático. São


Paulo: Iluminuras, 2006.

_______. “Resposta à pergunta: O que é liberdade?”. 1783. Disponível em:


http://www.uesb.br/eventos/emkant/texto_II.pdf. Acesso em 6 de julho de 2015

10 Manifesto Caranguejos com Cérebro, escrito por Fred ZeroQuatro. Disponível em


http://www.recife.pe.gov.br/chicoscience/textos_manifesto1.html Acesso em: 08 de julho de 2015.

Juazeiro, 2015