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Nelson Rodrigues

SER PARA
SEMPRE FIEL
Em capítulo recente falei de Adolpho Bloch,
não o atual, o milionário de Manchete. Não. O
fundador de um império gráfico interessa menos. O
grande Adolpho é o de Pereira Nunes, de pé
descalço e calça furada. Era menino e passava
fome. Hoje, ele muda de automóvel como de
camisa. Todo o dia sai com um carro novo. E aqui
está o suave milagre: — o menino da fome não
morreu em Adolpho Bloch, e repito: — Adolpho
Bloch não o matou.
Não só não matou e digo mais: — esta
criança exânime e obsessiva há de salvá-lo. De vez
em quando, resolvendo negócios nababescos, o
Adolpho começa a tremer de humildade. Na porta,
à sua espera, está o automóvel bonito como um
elefante de rajá. E, apesar disso, Adolpho torna-se
pungente, plangente. Ninguém entende, mas
explico: — é o menino da fome que começa a doer
em suas entranhas.
Mas falei em fome e, por associação, penso
em D. Hélder (ah, este homem fatal). Contei em
nota recente a entrevista do querido arcebispo na
televisão pernambucana. O locutor fez-lhe a
pergunta melíflua: — “padre, o que é que o senhor

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acha do amor livre?”. O Nordeste em peso tremeu.
D. Hélder faz um risonho suspense e fala: — “Por
que tratar de amor livre se o Nordeste passa
fome?”. Assim falou o grande arcebispo. Mas o
Hélio Pellegrino, que soube do episódio, comentava
comigo: — “Ah, D. Hélder perdeu a chance de uma
resposta genial”. Se o Hélio Pellegrino lá estivesse
havia de responder, na hora, em cima da pergunta:
— “O amor livre é a fome!”.
Aqui entro eu para observar: — claro que a
fome do Nordeste é muito mais promocional. E
porque faz as relações públicas da fome nordestina,
D. Hélder despreza ou esquece as outras fomes do
homem. Pois o amor livre, como diz o Hélio
Pellegrino, é uma delas, e insisto: — uma das mais
cruéis, das mais hediondas.
Na minha infância havia um rapaz que era o
escândalo de toda a Aldeia Campista. Chamava-se
Meireles. Meireles ou Marcondes? Não, não. Era
Meireles mesmo. Pois o Meireles tinha uma
namorada em cada esquina, noivas e esposas por
toda a cidade. Muitos já insinuavam o vaticínio: —
“Qualquer dia dão-lhe um tiro!”. E o Meireles foi,
talvez, o primeiro sujeito que ouvi falar em “amor

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livre”.
Certa vez houve uma festa na vizinhança; era
batizado ou aniversário, não me lembro mais. E o
Meireles (ou seria Marcondes?), o Meireles estava
lá e tomou conta da festa. Cercado de mocinhas, de
senhoras, contou a própria vida. Confirmou que
tinha uma paixão, ou várias, em cada bairro.
Alguém lhe perguntou se não tinha vergonha. Abriu
o riso: “Vergonha teria de ser homem de uma
mulher só!”. Naquele tempo as mulheres usavam
leque (o movimento lépido ou lento do leque era de
uma delicada voluptuosidade). E as presentes
abanavam-se com mais angústia. (Depois se soube
que o Meireles tinha não só namoradas, mas filhos
por toda a cidade.) No fundo, no fundo, a audiência
estava fascinada com esse descaro monumental.
Antes de sair, ainda disse: — “Qualquer um pode
gostar de quinhentas ao mesmo tempo”. Eu estava
no aniversário, comendo mãe-benta. O Meireles foi,
talvez, o primeiro cínico que conheci na vida real.
Depois que o Meireles saiu, um vizinho, já
senhor, de olho grande e triste, disse apenas: — “É
um canalha!”. Aí está um ponto de exclamação que
realmente o velho não usou. Dissera “canalha” sem

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ira, um “canalha” que saiu apenas informativo.
Quanto a mim, nos meus sete anos, exatamente
sete anos, tive uma náusea adulta. Pode parecer
que eu esteja aqui retocando, valorizando uma
reação infantil. Repito que me veio uma ânsia,
quase um vômito ético. Desinteressei-me das
mães-bentas; e vim para casa com vontade de
morrer.
Exatamente: — vontade de morrer. Eu não
entendia um Meireles. Nasceu comigo o horror de
trair. Eu queria ser fiel e que todos fossem fiéis.
Amar a mesma, sempre. E, mais tarde, quando
comecei a namorar, teria pena, vergonha de
dançar, simplesmente dançar com outra. Em toda a
minha infância, a minha mais doce utopia era
morrer com o ser amado.
Volto ao Meireles. Nos fundos da nossa casa
havia uma farmácia (ainda hoje o cheiro de
remédio, de certas pomadas, deflagra em mim todo
um processo regressivo. É a farmácia que não
morre. Em seu lugar levantaram um edifício. Mas
em mim ela não morre). E uma tarde o Meireles
entra lá. Nunca riu tanto. Ouvia-se a sua
gargalhada no fim da rua. Contou anedotas. E em

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dado momento diz que naquele instante estava
sendo pai outra vez. Alguém perguntou: —
“Quantos?”. Ele pensou um momento e resmungou:
— “Sei lá!”.
E de repente o Meireles diz para os três ou
quatro que estavam na farmácia: — “Olha o que eu
vou fazer”. À vista de todos, puxou o revólver.
Houve protestos: — “Vira isso para lá!”. Pediram:
— “Não brinca”. E então, pálido mas sereno, ele
introduziu o cano na boca. Ninguém dizia nada.
Puxou o gatilho.
Eu estava em casa e ouvi o tiro. Horas depois
já se montava todo um folclore sobre o suicídio.
Segundo uns, pulou um olho; outros viram voar o
tampo da cabeça; e se disse também que o sangue
esguichara na cara de uma testemunha. Lembro-
me de que o tal senhor triste, que já o chamara de
canalha, andou dizendo: — “Quem devia ter dado o
tiro era um pai, um marido, um irmão”. “Morte
instantânea”, disse o jornal. Quando a ambulância
chegou, estava deitado, os sapatos tortos de
cadáver.
Hoje, na minha casa, penso de vez em
quando no Meireles. E o gesto suicida parece

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tornar-se no mais transparente dos mistérios. Na
época toda a Aldeia Campista perguntava: — “Por
quê?”. Ninguém entendia nada. Mas o Meireles está
diante de mim, tão nítido. Morreu do amor livre e,
pois, de falta de amor. Tudo é falta de amor. O
câncer no seio ou qualquer outra forma de câncer.
É falta de amor. As lesões do sentimento. A
crueldade. Tudo, tudo falta de amor.
E o Meireles separou o amor e o sexo. E
sempre há os que apodrecem em vida porque
separaram o sexo e o amor. A toda hora
esbarramos com sujeitos que praticam a variedade
sexual. Esses vão morrer na mais fria, lívida,
espantosa solidão. Por vezes, de madrugada,
começo a jogar com as palavras. “Quem tem uma
tem todas. Quem tem todas não tem ninguém.”
Depois do suicídio andaram fazendo na rua
Alegre um censo das mulheres de Meireles. Falou-
se em “duzentas”. Porque teve duzentas, o Meireles
morreu virgem como uma solteirona de Garcia
Lorca.
O GLOBO, 2. 1. 1968

APEDEUTEKA GUINEFORT 2014