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Nelson Rodrigues

A VIUVEZ DE
SARONG
Disse não sei quem que o desejo é triste. Triste de
acordo, se for verdadeiro. Porque o falso desejo, o desejo
apenas representado, é alegríssimo e salubérrimo. Eis o
que eu queria dizer: – o carnaval que passou foi um
espetáculo inédito na Terra. O turista que aqui veio teve
uma sensação de erotismo unânime e colossal.
Os gregos antigos achavam que o estrangeiro é
divino. E divino porque não traz nome, nem passado, nem
história, nem lenda. Tudo o que diz, ou faz, tem um toque
de mistério e de sagrado. Assim pensavam os gregos. Mas
eu diria que o turista de carnaval não é divino, mas obtuso.
Passou aqui os quatro dias e viu tudo errado.
“Errado, como?” – perguntará o leitor. Explico: –
viu um erotismo que absolutamente não houve. Nunca se
desejou tão pouco e repito: – nunca a mulher foi tão
secundária para o homem, nunca o homem foi tão
secundário para a mulher. Alguém poderá argumentar
com os nus da televisão. E, de fato, o que se viu foi uma
nudez indiscriminada, sim, uma nudez multiplicada,
obsessiva e feroz.
Usou-se um sarong que realmente só era sarong
na cor. Em verdade, em verdade, o sarong era uma nesga
de pano, vaga folha de parreira, sei lá. A TV é que olhava
tudo com a pupila violenta dos faunos. Lembro-me de um

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ventre de baile. Durante horas o câmara parou nessa
obsessão abdominal. E o espectador só via aquele umbigo,
sempre o mesmo. Minto. Via também a cicatriz de uma
apendicite recente. Nada de caras, ou de gestos. Só o
umbigo e só a cicatriz.
Na praia ou, pior, num campo de nudismo, há uma
distância, uma distância que permite um mínimo de
idealização da nudez. O olho não está tão próximo que
possa descobrir uma pequena cicatriz. Ao passo que a TV
elimina qualquer distância. Sua lente aproxima e amplia o
umbigo e a cicatriz. Em todos os bailes, a função da
imagem foi essa berrante ampliação.
No vídeo, o cavo umbigo era um súbito e feio
abismo. E a penugem leve, que o olho humano não
percebe, que o próprio tato não sente, vira uma flora
liliputiana, mas visível. Os poros estão lá. Em casa, o
telespectador vê, de repente, aquele umbigo invadir sua
intimidade. Não são milhares, e eu quase dizia, milhões de
umbigos. É um único, sempre e fatalmente o mesmo. E a
mesma cicatriz da mesma apendicite.
Mas por que essa fixação cruel e cínica? Ao mesmo
tempo em que nos era imposta a paisagem abdominal,
vinha o locutor e falava em “festa sadia”. Sadia, como?
Sadia, o quê? E todas as estações, todas, insistiam em

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chamar tudo de “sadio”. Uma cidade inteira se despia para
milhões de telespectadores. Isso era profundamente
“sadio”. Uma câmara fixava um único e exclusivo umbigo.
Muito saudável. E a cicatriz enfiada na cara do
telespectador? Saudabilíssima.

O pobre turista, com a sua obtusidade de turista, via


em cada rapaz um fauno de gaita e em cada mocinha uma
ninfa de tapete.
Mas dizia eu que o desejo não tem nada a ver com
alegria e nada a ver com a multidão. O desejo é triste e
exige o pudor, o segredo, o mistério, a exclusividade do

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casal (desculpem estar aqui proclamando o óbvio). Aí está
dito tudo: – o casal.
Acabamos de ver uma festa coletiva, em que o casal
não teve função, nem destino. E os pares que se beijavam
para milhões de telespectadores eram falsos casais,
fingindo um desejo, representando um amor. Conheço um
rapaz que conheceu e amou uma pequena.
Imediatamente, os dois construíram uma solidão
desesperadora. Ninguém vê o rapaz, ninguém vê a
pequena. Eles andam por não sei que catacumbas, não sei
que terrenos baldios. Deus me livre que fossem os dois
para o baile do Municipal, que é, justamente, o túmulo
ululante do amor e, até, do simples e animal desejo.
Sempre que um homem e uma mulher se gostam
precisam estar prodigiosamente sós, como se fossem o
primeiro, único e último casal da Terra.
Nunca houve um carnaval tão triste, porque nunca
houve um carnaval tão nu. Dirá alguém que minha
obsessão pela nudez é uma fixação infantil. Não sei se
infantil, mas é uma fixação. Os jornais e os locutores vão
falar em “alegria, alegria”. Realmente, não houve tal.
Nada mais triste do que a nudez sem amor. Mas o nu é
sempre belo, dirão alguns. Nem isso. É feio, e repito: –
sem amor, é feiíssimo.

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Ontem, pela manhã, saio de casa perto do meio-dia.
Embaixo, na porta, encontro um amigo. Já no
cumprimento sinto a sua amargura. Seu lábio tem o ricto
cruel de certas máscaras cesarianas. Diz o “bom-dia” e
logo geme: – “Como é feio umbigo! Você não acha umbigo
um negócio feio pra burro?”. Pedia, pelo amor de Deus, a
minha solidariedade estética. Sim, quarta-feira a cidade
acordou com o tédio cruel, uma ressaca insuportável de
umbigos femininos. Estamos todos ressentidos contra
eles.
E deprime ver a soma de esforços e de conivências
que uma simples nudez exige. Uma garota faz, ou compra,
um sarong equivalente à folha de parreira. Mas ela não
faria isso sozinha. O uso de sarong seria impossível sem o
apoio do pai, da mãe, dos irmãos, do marido, do
namorado, dos vizinhos, das autoridades, da imprensa,
rádio e televisão. Todos aceitam e estimulam porque
todos, inclusive as autoridades, querem ser “pra frente”.
Vi, no Municipal, a viúva de um aviador que se
espatifou contra a montanha. Pôs ela um sarong na sua
viuvez e foi sambar. Quero crer que o falecido também
autorizou.
Vejam quantas instituições se juntaram para
promover um simples umbigo. E, então, a mocinha vai

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para o Municipal. Será vista por dez mil pessoas no baile.
Vamos somar as dez mil pessoas e mais os cinco milhões
de telespectadores da cidade e estados. Portanto, cinco
milhões e dez mil vão ver o que devia ser exclusividade do
bem-amado. E como a televisão amplia mais do que o olho
do ser amado, este não verá o que os cinco milhões viram
com a mais deslavada nitidez.
E perguntará o leitor: – “Quer dizer que somos
todos cínicos?”.
Exatamente: – cínicos. Não me venham falar em
alegria. Na quarta-feira de Cinzas o brasileiro acordou
com este sentimento inexorável: – como é feia, triste,
humilhada, ofendida, a nudez sem amor.

O GLOBO, 29.
29.02.1968

APEDEUTEKA GUINEFORT – 2014 – 0009

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