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Nelson Rodrigues

Faço anos dia 23 de agosto e confesso: — te-


nho, como o José Lino Grünewald, a alma do ani-
versariante. Nos meus sete, oito anos, minha famí-
lia nem sempre teve uma fatia de pão com um
pouco de manteiga para lhe barrar por cima. Não
importa. Mesmo sem uma mísera cocada, sem uma
mísera mãe-benta, eu celebrava, sozinho, a feliz
data.
E, hoje, quero crer que o aniversário apagado
e triste é mais lindo. Também o José Lino Grüne-
wald sabe fazer anos como ninguém, e repito: —
é um aniversariante vocacional. Muito bem. Fiz
esta introdução para dizer o seguinte: — lembro-
me, com implacável nitidez, de cada dia 23 de
agosto de minha vida.
Dirão vocês que dou muita importância a
meu próprio aniversário. Exato, exato. Dou, sim,
uma importância capital. Todavia, há um 23 de
agosto que me doeu com uma pungência mais

[1]
aguda. E isso por dois motivos: — primeiro, por-
que eu fazia anos; e, segundo, porque era véspera
de um suicídio histórico. Vocês já perceberam que
falo de Getúlio.
Um suicida não se improvisa, assim como não
se improvisa o artista, o poeta, o mágico, o mí-
mico, o arquiteto. Portanto, teremos de antedatar
a tragédia getuliana. Não sei se me entendem e
tentarei explicar. O suicídio é anterior a si mesmo.
Começa muito antes e direi mesmo: — começa no
berço. Não sei se cabe falar em gesto nato. Ao vir
ao mundo, o homem traz um repertório de atos
facultativos e de atos obrigatórios. Quando Getú-
lio nasceu, o tiro no peito estava inserido entre
seus gestos obrigatórios. Em 30, ao assumir o po-
der, já era o suicida. E, dia após dia, foi ainda e
sempre o suicida. Até que, já aos setenta anos ou
pouco mais, matou-se. Mas atirou no peito. Não
estourou os miolos, como o faria um suicida banal.

[2]
Quis preservar o rosto, o último rosto, para a his-
tória, para a lenda. O povo quer olhar a cara do
líder morto.
Mas o que eu queria dizer é o seguinte: —
Getúlio foi o último grande enterro do Brasil. Pa-
rou a cidade, parou o Brasil. Lembro-me de uma
crioula, de gloriosas ventas raciais, que desmaiou
junto ao caixão. Foi levada, arrastada por dois ou
três. Que crioula, gorda como a babá de ...E o vento
levou, retinta como a babá de ...E o vento levou, que
crioula, repito, desmaiaria por um morto contem-
porâneo?
Somos 80 milhões. Examinemos, um por um,
os 80 milhões. Façamos um censo de possíveis de-
funtos. E chegaremos à conclusão de que ninguém,
no momento, justificaria um grande enterro. Por
isso, falo na solidão do Brasil. Não há a perspectiva
do “grande enterro” porque não há “grande ho-
mem” para enterrar.
Parece enfático falar em “solidão do Brasil”.

[3]
Mas é a límpida e inapelável verdade. E como é
árida a época que não consegue dar um defunto
monumental! De repente, entendemos o mistério
brasileiro. Somos uma rala, uma tênue orla litorâ-
nea. O que existe, fora de nós, é uma imensa sibé-
ria florestal. E nunca o deserto siberiano daria um
radiante cadáver.
Aqui, passo às nossas esquerdas. Sou uma flor
de obsessão e, nos meus últimos escritos, tenho
insistido no papel e destino das esquerdas brasilei-
ras. Elas não faziam nada, senão beber no Antoni-
o's, dourar-se na praia e rabiscar nos suplementos
dominicais. Até que uma data universal deu-lhes a
oportunidade sonhada: — o 1º de maio. As es-
querdas se prepararam para entoar o que se
chama, em ópera, o dó de peito. No mesmo dia 1º
de maio, o Estádio Mário Filho apresentava um Fla-
mengo x Vasco. O paralelo pode ser feito nos se-
guintes termos: — o jogo trouxe, em seu ventre,
uma renda de 416 milhões de cruzeiros antigos. E

[4]
ao comício compareceram apenas os oradores.
Minto. Em verdade, compareceram alguns familia-
res dos oradores.
E o comício foi desses fatos íntimos, confi-
dencialíssimos. O pior vocês não sabem. O pior é
que, em pleno e furioso ato cívico, dois ou três
oradores ligaram o rádio de pilha e ficaram ou-
vindo o jogo. Travou-se, ali, um duelo inesperado
entre as duas retóricas: — de um lado, a libertária;
de outro lado, a futebolística. Enquanto em São
Cristóvão o orador fazia anti-imperialismo, no Má-
rio Filho o locutor tratava de botinadas.
No dia seguinte, encontro-me com um es-
querdista feroz. Numa cava depressão, gemeu: —
“Como pode? Como pode?”. Ele não entendia os
quinze gatos pingados do comício e as 200 mil pes-
soas do jogo. E, por uma boa meia hora, rosnou
de impotência e frustração. Por fim, despediu-se.
Mas estava de pé o problema, a saber: — por que
o povo ignora as esquerdas? Pelo simples motivo

[5]
de que as esquerdas também ignoram o povo. Não
se conhece, na Terra, caso mais prodigioso de ali-
enação.
Por outro lado, volto ao dado fúnebre, que
me parece decisivo: — onde não há perspectiva de
“grande enterro”, também não é viável o “grande
comício”. E vêm as esquerdas e começam a falar
do Vietnã, de Cuba, dos Estados Unidos. Se o pro-
blema é racismo, falam do norte-americano. E não
há uma palavra, ou um palavrão, em favor do negro
brasileiro. Simplesmente, o nosso negro não
existe. Poderão objetar que não há racismo em
nosso país. Como não há, se nunca vimos um ne-
gro de casaca? Mas a fatal alienação das esquerdas
começa na própria língua. Já citei uma passeata re-
cente.
Vários cartazes davam morras ao imperia-
lismo. Mas a palavra escrita, a piche, era “Muerte”.
Não morte, e sim “Muerte”. Os gaiatos odiavam

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em castelhano, queriam matar em castelhano. Pu-
nham sotaque até nos cartazes. Claro que ali se
insinua a influência cubana. Mas Cuba é uma Pa-
quetá ou, se preferirem outra imagem, eu diria que
é uma pulga e o Brasil um fabuloso elefante geo-
gráfico. A troco de que a pulga vai montar no ele-
fante? Os gringos das nossas esquerdas represen-
tam o anti-Brasil, a negação do Brasil. As esquer-
das não entendem o povo, nem o povo as entende.

[O GLOBO, 10/5/1968]

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