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Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues

Todos os dias, chova ou faça sol, vou tomar

o meu copo de leite, ou meu prato de mingau, ali,

no Cabaré dos Bandidos. É na esquina de Mem de Sá com Tenente Possolo. Eu tenho, se assim posso dizer, uma úlcera amestrada, que dói na hora certa. Nunca houve uma lesão duodenal tão adu- lada. E, assim, com papinhas analgésicas, minha úl- cera vive a vida que pediu a Deus. Boa, excelente ferida. Mais do que um martírio, é um hábito. Sinto falta de sua dor e, quase diria, saudades de sua aci- dez.

Ontem, aconteceu como sempre: — na hora convencional, começaram os seus espasmos de ví-

bora. Olho o relógio e constato a sua pontuali- dade. Manifestava-se na hora própria, nem um mi- nuto a mais, nem um minuto a menos. Levanto-me

e vou para o Cabaré dos Bandidos, a dois passos

do trabalho. Quando chego na esquina, paro em cima do meio-fio. Fechara o sinal para os pedes-

tres. Ao meu lado estava um jovem havaiano do

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Leblon, vasta cabeleira, imensas costeletas, blusão de couro. De propósito, e não sei por que, espe- rou que o sinal abrisse para os carros. Podia ter atravessado antes, com os outros. Não. Ficou es- perando. E quando os carros, os ônibus começaram a rolar, desceu do meio-fio como de um pedestal. Seria talvez um desafio. Ou estaria testando a pró- pria onipotência. Os Fuscas passavam em delirante velocidade. E lá ia ele, num passo mole, sem olhar, de perfil, sempre de perfil, sem pressa, uma moro- sidade insolente. A princípio, imaginei: — “Vai morrer”. Se fosse um velho, ou uma senhora, ou alguém de mais de 35 anos, seria fatalmente arras- tado, esmagado. Logo, porém, baixou em mim uma certeza to- tal: — não aconteceria nada. Ele chegaria ao outro lado, maravilhosamente intacto. Os Fuscas tiravam finas mortais. Houve derrapagens, buzinas; em dado momento, um pneu chiou como uma cigarra

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lancinante. E nada aconteceu, prodigiosamente nada. Por um desses milagres irritantes, aquele ra- paz não seria atropelado, em hipótese nenhuma. De uma calçada a outra, cumpriu a sua travessia encantada. A velocidade o poupou como a um santo. Em outros tempos, ou na passada geração, o mesmo jovem levaria uma trombada assassina. Se- ria batido, ao mesmo tempo, por três automóveis.

E ficaria emborcado, rente ao meio-fio, com a cara

enfiada no ralo. Uma apiedada mão acenderia uma vela. Alguém talvez o cobrisse com uma folha de jornal. E a chama ficaria lambendo o silêncio. De-

pois, viria o rabecão apanhá-lo. E, então, o jovem seria apenas um cadáver numerado do necrotério. Hoje, não. Há, por toda a parte, a “jovem re- volução”. É um movimento mundial. Quem o diz,

e as manchetes o confirmam, é o Carlinhos de Oli-

veira. Os jovens se levantam na China, na França,

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nos Estados Unidos, na Inglaterra. E por que se le- vantam? Segundo se diz, porque estão insatisfeitos com os valores até então vigentes. Só que tais va- lores, ninguém os realizou e todos os traíram. E os jovens parisienses arrancaram os paralelepípedos, viraram os carros e incendiaram a Bolsa. Na China,

a guarda vermelha caça os inimigos de Mao Tsé-

tung. Sim, os desafetos de Mao são exterminados

a pauladas, na rua, como obesas ratazanas. Tem razão o Carlinhos de Oliveira: — a “jo- vem revolução” é mundial. Só uns dois ou três su- jeitos, estreita e amargamente positivos, insinuam que se está fazendo, e também em dimensões mundiais, uma gigantesca e irresistível impostura. Outros espíritos, também minoritários, afirmam o seguinte: — a “jovem revolução” nada tem de jo- vem. São precisamente os velhos que a promo- vem. E, com efeito, o caso da China dá o que pen- sar. A guarda vermelha tem, já o disseram, a idade de Mao Tsé-tung e, possivelmente, a sua obesidade

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e, mais possivelmente, a sua arteriosclerose.

Cabe então a pergunta: — e por que, de re- pente, os “mais velhos” resolveram idealizar o jo- vem e conferir ao jovem a própria onipotência? Referi, mais acima, o episódio de trânsito. O rapaz

que, insolentemente, esperou que o sinal fechasse para os pedestres e só então atravessou a rua. Não foi atropelado porque os veículos também bajulam a “jovem revolução”. Ainda ontem, fui procurado por um rapaz, es- tudante de teatro. Entrou na redação e vinha so- lene, ereto, hierático. Pára na minha mesa. Diz, gravíssimo: — “Seu Nelson, trouxe isto aqui para

o senhor ler”. Era um recorte de jornal; explica:

— “É uma entrevista da Cacilda Becker”. Estou ouvindo, risonhamente. E ele continua: — “Queria

que o senhor lesse, o senhor que é contra o jo-

vem”. Com tal afirmação, o rapaz criou entre nós

o súbito e cavo abismo da primeira divergência.

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Dá-me um certo cansaço, um certo tédio, ou- vir que sou contra o jovem. Repeti para o rapaz a casta e singela verdade: — não sou contra ou a favor de ninguém, automaticamente. Expliquei que

a mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pu- lhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. Naturalmente, o jovem tem o defeito sa- lubérrimo e simpaticíssimo da imaturidade. De vez em quando, isto é, de quatro em quatro séculos, aparece um Rimbaud. Aos dezessete anos, fez toda

a sua obra. Se não me engano, o poeta acabou aos

dezessete anos. Viro-me para o rapaz: — “Queres que eu te admire? E te faça manchetes? Sê um Rim- baud. Aí está a solução. Sê Rimbaud”. Foi então que o garoto ousou a confidência:

— não estava interessado em poesia. Fiz um alegre escândalo: — “Não é possível! Um estudante de teatro tem que estar interessado em poesia!”.

Novamente, ele me surpreendeu ao dizer

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que também não estava interessado em teatro. Desta vez, o meu espanto teve um mínimo de ir- ritação. Disse-lhe: — “Escuta cá. Se não te interes- sas nem por teatro, nem poesia, estás interessado em quê?”. Disse, ofegante da vaidade: — “Sou da linha chinesa”. Fez-se uma pausa. E, então, catei na mesa a entrevista da minha amiga Cacilda Becker. Mas, an- tes de lê-la, fiz para o rapaz algumas observações de minha experiência teatral. Eis a minha tese: — uma atriz ou ator não devia ter nada com a vida real. Por exigência contratual, não poderia deixar o palco, nunca. Justifiquei meu ponto de vista: — a Duse, a Sarah Bernhardt ou qualquer outra grande atriz age e reage, cá fora, como uma canastrona. Eu preferia uma Cacilda dramática, lírica, român- tica, e não impressa. A Cacilda impressa, a mim, não me diz nada. Nem a líder. Conheço-a, somos amigos, admiro-a

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profundamente. E parece que eu estava adivi- nhando. Começo a ler e paro nesta frase: — “O mundo é dos jovens”. A gloriosa atriz dá o mundo, de graça, de mão beijada. O sujeito tem dezessete, dezoito, vinte. Pronto. Toma o mundo. Mas vejam como, numa simples frase, está todo um crime, ou seja, o crime de dar razão a quem não a tem. O mundo só pode ser dos que têm razão. Mas a razão é todo um maravilhoso esforço, toda uma dilacerada paciên- cia, toda uma santidade conquistada, toda uma de- sesperada lucidez. Não era bem assim que eu que- ria dizer. Faltam-me palavras.

[O GLOBO, 20/6/1968]

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