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Nelson Rodrigues

O D E ST I N O D E SE R
TRAÍDA
Um amigo meu vem para mim de braços abertos. Soluça: – “É
a nova Revolução Francesa!”. Agarra-me pelos dois braços e repete:
– “A nova Revolução Francesa!”. Ainda olhei para os lados, como se
a Revolução Francesa pudesse estar por perto, a nossa espreita. Só
então percebi que o outro falava da agitação infantil que lavra por
toda a França.
Rádio, jornais e TVS dão notícias como chicotadas: – “Fábricas
ocupadas. Incêndios, depredações, o diabo. Seqüestrados os gerentes
da Renault, da Citroën, da Sud-Aviation. De Gaulle viaja. A França
pega fogo e De Gaulle viaja etc. etc. etc. Os operários aderem aos
estudantes. A polícia pede desculpas aos estudantes”. É a Revolução
Francesa ou talvez pior do que a Revolução Francesa.
Digo “pior” e explico: – a multidão é recente. Uns 150 gatos
pingados derrubaram a Bastilha. Ninguém podia sonhar que a História
pudesse juntar 200 mil pessoas como o jogo Vasco x Flamengo. Mais
tarde é que o mundo veio a conhecer as primeiras multidões. Hoje
qualquer pretexto emocional improvisa massas tremendas. É tranqüila
a superioridade numérica da agitação estudantil sobre a Revolução
Francesa.
Outro dia, no intervalo de Fluminense x Madureira, um “pó-de-
arroz”, muito aflito, veio me perguntar: – “Afinal, por que é que estão
brigando na França? O que é que os estudantes querem?”. O torcedor
me olha e me ouve como se eu fosse a própria Bíblia. Começo: –
“Bem”. Faço um suspense insuportável. Fecho os olhos e pergunto, de
mim para mim: – “O que é que os estudantes querem?”. Era

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perfeitamente possível que eles não quisessem nada. Por sorte minha, o
jogo ia começar. Enxoto o torcedor fraternalmente: – “Vamos assistir
ao jogo!”.
Depois da vitória, fui para casa, na carona do Marcello Soares
de Moura (para mim, uma das poucas coisas boas do Brasil é a carona
do Marcello Soares de Moura). Quando passamos pelo Aterro, só uma
coisa me fascinava, ou seja: – a hipótese de que os estudantes
franceses estejam lutando por nada. Vejam bem. Hordas estudantis
fazendo uma Revolução Francesa por coisa nenhuma. Se eu
conhecesse o Paulo de Castro, havia de propor-lhe tal idéia.
Mas, quando entramos no túnel do Pasmado, lembrei-me de
que havia, sim, um motivo original. Alegavam os estudantes que os
métodos de ensino, na França, eram inteiramente obsoletos, gagás,
humilhantes. O sujeito estudava como no tempo de Luís XV. A
Sorbonne estava senil e, repito, velha de babar na gravata. Portanto,
os estudantes exigiam uma nova estrutura para todo o ensino francês.
Esse o nobilíssimo ponto de partida. E foi aí que, pela primeira
vez, o mundo descobriu que, na França, se ensina errado, que na
França se aprende errado. E é tal a inépcia que foi mister uma
Revolução Francesa para corrigi-la. Aconteceu então esta coisa
admirável: – todo mundo concordou com os estudantes. Foi uma
solidariedade unânime e irrestrita. De Gaulle também acha que o
ensino francês exige uma modernização total e fulminante, Malraux,
idem. E assim os professores, e assim os deputados, e assim os
ministros. Também a polícia deve pensar assim porque, depois de

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baixar o pau, pediu desculpas.
Portanto, a Revolução Francesa devia parar no mesmo dia. De
modo algum. No segundo dia, já ninguém pensava mais na crise do
ensino. O motivo original sumiu até o último vestígio. E, aqui, abro um
parêntese para uma breve meditação. Imaginem que muitas e muitas
gerações brasileiras viveram da “cultura francesa”. No meu tempo de
menino, não se dava um passo sem esbarrar, sem tropeçar num
anatoliano. Um intelectual brasileiro era mais francês do que um
apache. Todas as nossas admirações literárias eram francesas. E não
só aqui. O mundo inteiro amou a “prosa francesa”.
Ezra Pound, o gênio crítico do século, vivia dizendo aos seus
discípulos: – “Não leiam os russos. Leiam os franceses”.
E, súbito, os próprios estudantes franceses vêm e denunciam
que, desde Luís XV, o ensino francês é uma gigantesca impostura.
Outra: – a enfática Sorbonne. Sabemos agora que a Sorbonne é uma
vergonha. Dirá alguém que o ensino não tem muito a ver com os
literatos, os estilistas, os pintores, os cineastas, os compositores etc. etc.
Aqui, o analfabeto também escreve, pinta, faz música, cinema. Mas
nosso pobre povo jamais foi portador da pomposa “cultura francesa”.
Quem sabe se a França não é, precisamente, a anti-França?
Mas se é falso, antigo, gagá o ensino, por que não o será o
resto?
Tivemos, aqui, uma geração anatoliana, outra claudeliana, mais
outra gidiana, uma quarta sartriana. Parece que, de longa data,
admiramos errado.

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Assim como não há ensino na França, pode acontecer que
também não haja romance, nem poesia, nem estilo, nem teatro, nem
música, nem pintura.
Todas as dúvidas tornam-se extremamente válidas e
persuasivas.
A glória de certos povos pode ser uma soma de imposturas
fascinantes. Sempre acreditamos em certos mitos da História francesa.
Mas os estudantes carregam retratos de Mao Tsé-tung, de Guevara,
Lenin. O torcedor do Fluminense poderia perguntar: – “Nada se salva
no movimento estudantil?”. Direi que se salva a força física com que os
estudantes arrancam paralelepípedos e quebram vitrinas. É um luxo
nunca visto de potencialidade muscular. Ocupam a Sorbonne e, à
noite, dançam e bebem, numa boêmia frenética.
Sem querer, penso na entrada dos nazistas em Paris. Os
tanques passando por debaixo do Arco do Triunfo. Paris se oferecia:
– era uma cidade aberta. Não só Paris. Toda a França era uma pátria
aberta. Quando se declarou guerra à Alemanha, o Partido Comunista
Francês lançou um manifesto ignóbil. Chamou a guerra de imperialista.
Exortou o trabalhador a não lutar. Sim, o Partido Comunista Francês só
virou francês quando a Rússia entrou na guerra.
Mas existiam os estudantes, pais dos que, hoje, carregam
retratos dos líderes comunistas. E que fizeram eles? Eram jovens,
tinham idade militar, e que fizeram eles? Eu me pergunto se o destino
da França é o de ser traída.
Quando a Alemanha a invadiu, os tanques passavam por onde

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não podiam passar. Até as florestas, até os rios, traíram a França.
Houve um momento em que ninguém era francês. A França deixara de
ser a França. O único francês era De Gaulle. Roosevelt e Churchill
tinham-lhe horror, porque ele vociferava pela pátria. E De Gaulle
tornou-se um mito patético. Era a França.
Nós o recebemos, aqui, como um mito. Mas onde está ele? O
mito passeia.

[O GLOBO, 20/5/1968]