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Ética e Filosofia Política

(Direito Natural, Direito Subjetivo


e Direitos Humanos)

Brasília-DF.
Elaboração

Rogério de Moraes Silva

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário

APRESENTAÇÃO................................................................................................................................... 4

ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA...................................................................... 5

INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 7

UNIDADE ÚNICA
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA.................................................................................................................. 9

CAPÍTULO 1
ÉTICA...................................................................................................................................... 9

CAPÍTULO 2
HISTÓRIA SOCIAL................................................................................................................... 11

CAPÍTULO 3
A MUDANÇA DE PARADIGMA CULTURAL E A CRISE DA CIVILIZAÇÃO......................................... 17

CAPÍTULO 4
LIBERALISMO E GLOBALIZAÇÃO.............................................................................................. 28

CAPÍTULO 5
A CRÍTICA NA CONTEMPORANEIDADE.................................................................................... 34

CAPÍTULO 6
A TEORIA CRÍTICA E A ESCOLA DE FRANKFURT........................................................................ 43

PARA (NÃO) FINALIZAR....................................................................................................................... 56

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................... 57
Apresentação
Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem
necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela
atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade
de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos
a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma
competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para
vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar
sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a
como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

4
Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de
forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões
para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao
final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e
pesquisas complementares.

A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos
e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Praticando

Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer


o processo de aprendizagem do aluno.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

5
Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Exercício de fixação

Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/
conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não
há registro de menção).

Avaliação Final

Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso,


que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única
atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber
se pode ou não receber a certificação.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

6
INTRODUÇÃO
Em toda a sua história e existência, a Filosofia passa por períodos distintos, temas, disciplinas e
áreas de investigação. E aqui destacamos a Ética e a Filosofia Política, que reflete sobre a mudança
de paradigma cultural e a crise da civilização; apresenta aspectos relevantes sobre liberalismo e
globalização, identifica aspectos de crítica na contemporaneidade e a Escola de Frankfurt.

Este caderno, portanto, tem o objetivo de proporcionar informações acerca da Ética e Filosofia
Política, com o compromisso de orientar os profissionais da área de Filosofia para que possam
desempenhar suas atividades com eficiência e eficácia.

Objetivos
»» Levantar aspectos relevantes sobre ética.
»» Identificar aspectos relevantes da história social.
»» Conhecer aspectos relevantes da mudança de paradigma cultural e a crise da
civilização.

»» Identificar aspectos relevantes sobre liberalismo e globalização.


»» Levantar informações sobre a crítica na contemporaneidade
»» Identificar aspectos relevantes sobre a teoria crítica e a Escola de Frankfurt.

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ÉTICA E FILOSOFIA UNIDADE ÚNICA
POLÍTICA

CAPÍTULO 1
Ética

Da ética filosófica
A dificuldade em colocar a ética como conhecimento – segundo Aristóteles – não existe necessidade
nas ações humanas e, para Sócrates, que afirmava que não é possível ensinar a virtude.

Por isso, a necessidade do conhecimento teórico e prático, consequentemente a contingência para


dissertar sobre ética e bioética.

Trabalhando com emoções, não é possível demonstrar o que é necessariamente o bem e o mal, pois a

A dificuldade da Ética consiste justamente em introduzir normatividade na


contingência, pois está fora de dúvida que quem age moralmente o faz a partir
de normas que não são apenas relativas à pessoa e ao momento.

É possível em uma situação existir um bem superior e absoluto, mas é muito difícil identificar-lhe
na contingência em que acontecem as relações humanas.

Ética e conhecimento
Não podemos situar a ética como dimensão cultural sem separar o conhecimento e a religião, pois
a relevância da ética como contexto próprio, definindo o ser humano seguido da essência de sua
existência nos leva a alcançar regras de generalidade e de universalidade que ultrapassam o mero
plano dos fatos estritamente considerados.

A partir do momento que empregamos processos intelectuais de ordenação, inferimos a ordem dos
fatos que interferem no conhecimento e, para separar conhecimento do que é moral, diferenciam-se
os juízos que a ciência expede, estão na ordem de juízos propriamente morais na ordem do ver e ser.
Com essa constatação, quer dizer que quando a ciência vai tratar da realidade como ela é, e a moral
da realidade como ela deve ser, por conseguinte a ciência elaboraria juízos de realidade e a moral
juízos dependentes de normatividade.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Na natureza, atribuímos um grau de necessidade que nenhuma observação particular poderia a si


mesma justificar.

Aristóteles reconhecia que o saber acerca das coisas inclui necessariamente o conhecimento das
causas de seu aparecimento e de seu modo de ser.

Com as teorias do conhecimento da Antiguidade e da modernidade descritas por Aristóteles – ele


afirmava que incluíam na compreensão não apenas a eficiência causal da produção do fenômeno,
como também a finalidade a que cada parte está submetida na totalidade.

Não bastaria entender como os fatos se produzem, mas seria preciso compreender a função de cada
um no conjunto e as razões da ordem estabelecida para elaboração desses fatos.

Por muitas vezes foi criticada na história das epistemologias modernas, a causalidade final que indica
que o esforço de conhecimento solicita, como que naturalmente, completar-se na formulação das
indagações relativas ao porquê dos fenômenos descritos na estrutura da realidade. E, certamente, esse
tipo de resposta, se fosse possível, permitiria um tipo de conhecimento que não seria somente mais
abrangente, mas, mais avaliativo, isto é, possibilitaria julgamentos mais seguros acerca da totalidade,
pois nos faria ver talvez com maior clareza o sentido das partes e do todo, a razão da posição de cada
elemento na articulação geral e o modo pelo qual convergem, na sintonia e na diferença.

Contudo, estaríamos ainda no plano dos juízos de realidade, no sentido em que os entendemos
quando dizemos que a ciência os produz para descrever compreensivamente os seus objetos,
articulando as percepções e sistematizando a experiência. Mas talvez não fiquemos apenas nisso.
Por um misto de ingenuidade e pretensão, muitas vezes emitimos juízos que qualificam a realidade.
Dizemos não apenas que as coisas são desta ou daquela maneira, mas também que é bom que sejam
assim, ou que é mau, ou que poderiam ser de outra maneira. Talvez, de maneira implícita, isto
ocorra sempre, sendo impossível olhar as coisas sem atribuir a elas um valor, embora a disciplina
da atitude científica nos leve a reavaliar esse modo de julgamento.

Persistindo a mentalidade do senso comum, bem como no que a ciência descreve do homem comum,
algo do animismo da relação primitiva com o mundo, fazendo com que se defenda que todas as
coisas aparecessem como benéficas ou maléficas, ultrapassando os poderes que interferiam na vida
e nas ações humanas, ou seja, nos sentimentos e emoções.

Portanto, conhecer é saber como aproveitar o caráter benéfico e propiciatório ou presumindo o


mal que as consequências poderiam causar advindo do próprio conhecimento das coisas. A ciência
buscou eliminar essa valoração; primeiro, pelo conhecimento das causas materiais que regem o
comportamento dos seres naturais e, em seguida, estabelecendo leis gerais e necessárias que nos
permitem prever esse comportamento para, dessa forma, dominá-lo.

Com isso, o mundo deixa de ser enigma quando o conhecimento torna-se sinônimo de determinação
necessária.

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CAPÍTULO 2
História social

Pensamento político
Observamos que no pensamento político há determinadas questões que, na abordagem de
Aristóteles, Maquiavel e Hobbes, por exemplo, tornam-se efetivas em outros contextos históricos.
Marcel Prélot coloca que os escritos de grandes autores lançam uma luz na política contemporânea
a fim de compreendê-la.

É impossível analisar, e ainda menos compreender, a realidade presente, sem


o conhecimento dessas grandes obras da literatura política, que representam
marcos na história da humanidade [...]1

Jean Touchard observa:

Não se trata aqui somente de analisar os sistemas políticos elaborados por


alguns pensadores, mas de integrar esses sistemas no seu contexto histórico,
de procurar ver como nasceram e o que representavam para os homens que
viviam nessa época. [...] Mas logo surgem dificuldades sem conta. Como
analisar as ideias políticas de uma sociedade? O que já de si é difícil em relação
à época em que vivemos não será impossível a respeito de eras passadas? O
historiador das ideias deveria, para cada época, perguntar a si próprio quais
são as ideias políticas dos camponeses, dos operários, dos funcionários, da
burguesia, da aristocracia, etc.”2

Ao nos depararmos com ideias de estudiosos sobre qualquer tema histórico, sobretudo o da política,
é necessário, para melhor entendimento, que se faça o estudo antropológico também.

Assim, pode haver uma história social da política, permitindo a maior compreensão dos escritos
dos filósofos como dos próprios cidadãos de seu tempo. E isso desde a leitura de textos canônicos –
inebriados de política – quanto de um James Frazer3 quando fala do caráter mágico da realeza, ou
de um Marc Bloch4 em seu estudo sobre os reis europeus e sua taumaturgia.

Jacques Le Goff refere-se a uma nova História Política, que tem estudado o Estado monárquico
moderno, em escritos de Jean–Marie Apostolidès (1987) e Louis Marin (1981), além do inglês Peter
Burke (1993) e os americanos Ralph Giesey (1986) e Sarah Hanley Madden (1982).

Essas pesquisas acarretaram um conceito de Estado moderno que ultrapassa a dinastia, a diplomacia
e aspectos jurídicos, em que enfatiza o simbólico do Antigo Regime. De fato, a partir dos anos

1 PRÉLOT, Marcel. (1974) As doutrinas políticas. Vol. 1. Lisboa, Editorial Presença. (Edição original francesa, 1959), p. 7.
2 TOUCHARD, Jean. (1970) História das ideias políticas. Lisboa, P.E.A. (1ª edição francesa, 1959), p. 11.
3 Frazer, James. O ramo de ouro. Rio de Janeiro: Zahan, 1981.
4 Bloch, Marc. Les rois thaumaturges. Strasbourg: Librairie ISTRA, 1924.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

1960, a história política centra-se nas monarquias absolutistas. Podemos ver grandes trabalhos a
respeito da história política nas mãos de Robert Mandrou, com “La raison du Prince” e “Louis XIV
et son temps”, e Pierre Chaunu com “A civilização da Europa Clássica”. Boris Porchnev e Roland
Mousnier colocavam as particularidades de cada província do absolutismo na Europa, e o Congresso
Internacional de Roma (1955) colaborou para novos estudos sobre o Estado Moderno, orientando
pesquisas de Roland Mousnier, Fritz Hartung e Boris Porchnev.

Boris Porchnev pregava o campesinato, e suas jacqueries, como contrário às garras fiscais do
Estado, sendo autônomo, longe de ser conduzido pelas elites. Para Roland Mousnier, as rebeliões
camponesas foram mesmo amparadas e promovidas pela nobreza, ora insatisfeita com a monarquia
absolutista e os intendants.

Depois da Peste Negra, aconteceram várias revoltas de camponeses, devido ao aumento considerável
de trabalho, uma vez que muitos haviam morrido, portanto, havia pouca mão de obra e muito que
fazer. O alto valor de impostos também alvo dos maus contentos. No norte da França de 1358, em
meio à Guerra dos Cem Anos, a miséria, de fato, assolava o país. O termo jacquerie provém de
“Jacques” ou “Jacques Bonhomme”, utilizado pelos nobres quando se referiam aos camponeses.

[...] Neste tempo revoltaram-se os Jacques em Beauvoisin, e começaram a ir em


direção de Saint-Leu e de Clermont no Beauvoisin. [...] E quando os Jacques
se viram em grande número, perseguiram os homens nobres, mataram vários
e ainda fizeram pior, como gente treslocada, fora de si e de baixa condição. Na
realidade, mataram muitas mulheres e crianças nobres, pelo que Guilherme
Carlos (seu líder) lhes disse muitas vezes que se excediam demasiadamente;
mas nem por isso deixaram de o fazer.5

Figura 1: Massacre dos Jacques, em Meaux.

Os rituais, a ficção e a literatura


A partir dos anos 1960, de fato, há um estudo sobre o Estado Moderno enfatizando a noção de
ritual político, que seriam as cerimônias reais do Antigo Regime, sobretudo em seguidores de Ernst
Kantorowicz. Foram elas que elaboraram a linguagem política e, por meio de sua ação cênica, a
adesão dos cidadãos. E esse ritual é tido como força criadora do Estado Moderno francês e inglês;

5 PAIS, Marco Antônio de Oliveira. O despertar da Europa: a baixa idade média. São Paulo: Atual, 1992, p. 77.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

assim, funde o jurídico com a liturgia cristã. E essas pesquisas utilizam como referência Mircea
Eliade – antropóloga religiosa –, Georges Dumézil – antropólogo histórico –, a sociologia pautada
em Weber e historiadores do direito, como Percy Ernst Schramm.

Esses rituais criam uma imagem lúdica da realidade, em uma representação, uma figuração, uma
história que se enlaça em sujeitos que se tornam personagens.

Nos escritos de Deleuze e Guattari, sobretudo quando analisam a obra de Kafka, falam do devir,
e a este podemos comparar o desejo revolucionário político, quando os personagens resistem às
transformações jurídicas da subjetividade. Há o preâmbulo de um tornar-se outro quando em
situações em que o desejo culmina no ato criador.

O tornar-se nada tem de metafórico. Nenhum simbolismo, nenhuma alegoria.


Não é também o resultado de um erro ou de uma maldição, o efeito de uma
culpa. Como diz Melville a propósito do tornar-se baleia do capitão Achab,
trata-se de um “panorama”, não de um “evangelho”. Trata-se de um mapa de
intensidades. Trata-se de um conjunto de estados, distintos uns dos outros,
enxertados no homem na medida em que ele busca uma saída. Trata-se de uma
linha de fuga criadora, que nada quer dizer além dela mesma.6

Quando Deleuze e Guattari negam o caráter metafórico do devir, eles afirmam que há uma literalidade
nas obras escritas, quando da transformação ou mutação dos personagens. Para eles, o desejo não está
sob as bases da psicanálise, não se relaciona com a subjetividade de Édipo, por exemplo. Hans, ao se
deparar com um cavalo que se debate na rua, não tem em seu inconsciente a relação com seu pai, mas
seria um devir natural, um tornar-se cavalo.7 No nível psíquico, as transformações sociais decorrem da
economia e da política, mais do que como em uma tragédia grega. Deleuze e Gattari ressaltam que as
transformações não querem dizer outra coisa senão elas mesmas, resultado do desejo de quem sofre a
transformação, como acontece com o capitão Achab, de Hermann em Melville.

Convém, para compreendê-lo bem, considerar sua lógica: Todo devir forma
um “bloco”, em outras palavras, o encontro ou a relação de dois termos
heterogêneos que se “desterritorializam” mutuamente. Não se abandona o que
se é para devir outra coisa (imitação, identificação), mas uma outra forma de
viver e de sentir assombra ou se envolve na nossa e a “faz fugir”. A relação
mobiliza, portanto, quatro termos e não dois, divididos em séries heterogêneas
entrelaçadas: x envolvendo y torna-se x’, ao passo que y tomado nessa relação
com x torna-se y’. Deleuze e Guattari insistem constantemente na recíproca do
processo e em sua assimetria: x não “se torna” y [...] sem que y, por sua vez,
venha a ser outra coisa [...]. 8

A política aparece via resistência frente ao que aprisiona. A formação jurídica da subjetividade
se depara com a incompreensão de um fenômeno, uma vez que aos sujeitos estão encerrados
juridicamente, mas são impelidos a um devir. Ressaltamos que se trata de um tornar-se outro,
frente ao que determina juridicamente a identidade do sujeito.
6 DELEUZE, G. Crítica e Clínica. São Paulo: 34, 1997, p. 54.
7 DELEUZE, G. & PARNET, C. Psicanálise morta análise, in Diálogos. São Paulo: Ed. Escuta Ltda, 1998.
8 ZOURABICHVILI, François. O vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004, p. 48-49.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Deleuze e Gattari, ao falar de Kafka, não o interpretam via psicanálise ou via subjetividade
exacerbada, que colocam as obras do literato na esfera intimista e fantasiosa.

Por isso é tão desagradável, tão grotesco, opor a vida e a escritura em Kafka,
supor que ele se refugia na literatura por carência, fraqueza, impotência
diante da vida. Um rizoma, uma toca, sim, mas de modo algum uma torre de
marfim. A linha de fuga criadora traz com ela toda a política, toda a economia,
toda a burocracia e a jurisdição: ela as suga, como o vampiro, para fazê-las
dar sons ainda desconhecidos, que pertencem ao futuro próximo – fascismo,
estalinismo, americanismo, as potências diabólicas que batem à porta.9

Os autores falam, então, das transformações como um fato político-ético-estético, em uma expressão
dos personagens como revolução ao estabelecido, seria a micropolítica do desejo10. Devemos ler
Kafka como o mundo real, pois as determinações se dão na prática, na literalidade, segundo Deleuze
e Gattari.

Não há nada metafórico ou simbólico nas tensões cotidianas de alguns romances, e Deleuze e Gattari
veem em Kafka o desejo ultrapassando o jurídico e o burocrático.

Em “O Processo”, Kafka coloca as ações sob a ordenação do Estado, mas em um processo em que a
justiça não se faz valer perante todo o cientificismo que a apoia. O desejo aparece como infindável,
colocando os sujeitos em uma situação espinosiana de autoprodução do ser. A partir dessa obra,
Deleuze e Gattari colocam que as leis terminam sem seus enunciados, ou seja, não há nada além
deles, e sempre são inflamadas de culpa.

Enfim, porque não tem objeto de conhecimento, a lei só se determina na medida


em que se enuncia e só se enuncia no ato de castigo: enunciado no próprio real,
no próprio corpo e na carne; enunciado prático, que se opõe a toda proposição
especulativa.[...] Enfim, não é a lei que se enuncia em virtude de sua simulada
transcendência, é quase o contrário, é o enunciado, é a enunciação que forma
a lei, em nome de um poder imanente daquele que enuncia: a Lei se confunde
com o guardião, e os escritos precedem a lei, longe de serem sua expressão
necessária e derivada11.

De fato, o desejo percorre a justiça, uma vez que em um processo judicial, há também o processo do
desejo, neste caso, determinando as relações de poder. Desenha-se aqui o conceito de ponto de fuga,
em que se abre um novo campo de possibilidades, ou uma reconfiguração de formas. Seria a fuga de
que falam Deleuze e Gattari sobre os literatos anglo-americanos, que saberiam “fazer fugir” e seguir
uma linha de maneira a criar novos caminhos, inéditos.12 Seria uma evasão do já dado, como se o
“eu” do sujeito se levasse por caminho em que ele mesmo fugisse do estado de sujeito e se tornasse
outros. A transformação, então, não se dá perante opções dadas à nossa consciência, mas como
fuga, e esta fuga é aqui a expressão do ser ativo.

9 DELEUZE, G. Crítica e clínica. São Paulo: 34, 1997, p. 62.


10 DELEUZE, Gilles; Guattari, Félix. Mil platôs. São Paulo. Editora 34, 1997.
11 Idem, p. 67-68.
12 DELEUZE, G. & PARNET, C. Psicanálise morta análise, in Diálogos. São Paulo: Ed. Escuta Ltda, 1998, p. 49.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

Fugir não é exatamente viajar, tampouco se mover. Antes de tudo porque há


viagens à francesa, históricas demais, culturais e organizadas, onde as pessoas
se contentam em transpor seu “eu”. Em seguida, porque as fugas podem
ocorrer no mesmo lugar, em viagem imóvel. Toynbee mostra que os nômades,
no sentido estrito, no sentido geográfico, não são migrantes nem viajantes, e
sim, ao contrário, os que não se movem, os que se agarram à estepe, imóveis a
grandes passos, seguindo uma linha de fuga no mesmo lugar, eles, os maiores
inventores de armas novas.13

A linha de fuga, portanto, coloca o sujeito frente a uma condição dicotômica que se dá em uma
tomada de decisão. Revolucionar toma a forma do “fugir = fazer fugir” a esse contexto de dicotomias
que “estriam previamente a percepção, a afectividade, o pensamento, encerrando a experiência em
formas totalmente prontas, inclusive de recusa e de luta.”14

A linha de fuga é traçada sobre um plano de intenções em que se desenham novos campos de
afecções, por meio de deslocamento em uma ruptura espaço-temporal, desviando da lógica e dos
códigos já estabelecidos.15

Em Kafka, como em Proust, ocorre a união entre literatura e política, em que a linguagem mesma é
desterritorializada, desdobrando-se por novos territórios. Deleuze e Gattari falam que este efeito se
dá em literaturas menores, ou seja, diferente das maiores, das oficiais. A literatura menor é política,
no momento em que a minoria se expressa falando coletivamente.

As três características da literatura menor são de desterritorialização da língua,


a ramificação do individual no imediato-político, o agenciamento coletivo de
enunciação. Vale dizer que “menor” não qualifica mais certas literaturas, mas
as condições revolucionárias de toda literatura no seio daquela que chamamos
de grande (ou estabelecida).16

Na desterritorialização da linguagem, se abre um campo de possibilidade para a escrita. Se um autor


estrangeiro escrever utilizando a língua portuguesa, a linguagem, de fato, se desterritorializa, ela
toma outra forma, entra em outro entendimento.

Esse novo território que a linguagem é capaz de alcançar dá-se como deslocamento da língua como
ação política, desviando e operando no cânone linguístico.

É válido falar um pouco de Cindy Sherman, que assume diversas personalidades, modificando seu
“eu” externo e se fotografa nessas diferentes maneiras.

13 Idem, p. 50-51.
14 ZOURABICHVILI, François. O vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004, p. 57.
15 DELEUZE, G. & PARNET, C. Psicanálise morta análise, in Diálogos. São Paulo: Ed. Escuta Ltda, 1998, p. 54-55.
16 DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Kafka: por una literatura menor. México: Ediciones Era. 1978, p. 28.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Figura 2

Sherman parece fabricar corpos em suas inúmeras representações e possibilidades, brincando


com clichês femininos e históricos. Em centenas de imagens, sejam fazendo referência a ícones
conhecidos ou mesmo sujeitos comuns e até mesmo imaginários, a artista parece ser “outro” que
não ela mesma. A sua identidade é ultrapassada para além do limite do sujeito e se torna uma
fabricação em autorretratos.

Figura 3

De fato, Cindi Sherman explora a construção de uma identidade contemporânea, elaborada a partir
de imagens fílmicas, televisivas, de revistas e da própria arte, afastando-se da estética e da ética na
medida em que ficcionaliza o “eu”.

16
CAPÍTULO 3
A mudança de paradigma cultural e a
crise da civilização

A crise no Brasil não se dissocia da crise da civilização que acomete o mundo todo, principalmente no
que se refere à mudança de paradigma cultural. É mesmo perceptível o envolvimento em uma imensa
crise civilizatória, em meio a um processo qualificado como a “desumanização da humanidade”. E
isso em decorrência do afastamento do sujeito do núcleo do processo de organização da sociedade e
da economia, em detrimento de “entidades” mercadológicas ou do meio ambiente, tidas como tendo
seus próprios direitos.

A cunho ilustrativo do que seria essa “desumanização”, nos deparamos com o jornal O Globo17, que
profere a notícia: “lavrador é preso por raspar casca de árvore.” No caso, um lavrador de Goiás ficou
preso por sete dias por ter raspado a casca de uma árvore – Almesca – em uma área de preservação
ambiental, a fim de encontrar o ingrediente para o chá de sua mulher, portadora da doença de chagas.
Aqui está o conceito do biocentrismo, cunhado pelos radicais ambientalistas, que visa colocar os
direitos inalienáveis e o ser humano no mesmo patamar que os outros seres vivos. É lamentável, diz
Geraldo Luís Lino, na palestra proferida no Painel Brasil Soberano e a Expressão Psicossocial, na
Adesg-RJ, em 2000, que essa distorção, que está no centro do movimento ambientalista, esteja se
tornando cada vez mais forte diante das políticas públicas.

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho divulgou


um relatório a respeito dos “desastres mundiais de 1999”, considerando que grande parte das 13
milhões de mortes ocasionadas por doenças infecciosas poderia não ter ocorrido se fossem investidos
somente cinco dólares per capita. Seriam 65 milhões de dólares, pouco diante de dois trilhões de
dólares que permeiam por dia os mercados financeiros.

Perante todas essas notícias, os próximos historiadores certamente concluirão uma crise do final do
século XX, próxima à que ocorreu no século XIV. O que muda é que, atualmente, o homem já possui
conhecimento e meio para moldar seu futuro, solucionando muitos problemas, como a miséria e as
epidemias. O Banco Mundial, em 1998, fazendo referência ao desenvolvimento do mundo, coloca
que precisaria investir 100 bilhões de dólares anualmente para erradicar a pobreza e a miséria dos
países. O Brasil, em 2000, gastou dois terços desse valor com suas dívidas.

Alguns estudos ainda denunciam que é possível que cada cidadão do globo tenha um padrão de vida
como o de um americano dos anos 1960 – tido como maior que o de hoje – se o mundo trabalhasse
nessa esfera, e levaria o tempo menor que uma geração. Isso não se dá atualmente devido à falta de
direcionamento das esferas políticas hegemônicas e dos poderes dominantes, e não em decorrência
de recursos naturais, humanos e financeiros escassos.

Igual otimismo permeava os dirigentes no período pós-guerra, de modo a Carmem Soriano Puig
denominá-lo de “revolução das expectativas crescentes”. A boa esperança não se pautava na

17 De 24 de junho de 2000.

17
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

subjetividade, mas em um real fundamento: houve, entre 1950 e 1973, o maior crescimento do
PIB per capita mundial em toda a existência humana. Isso se deu pelo êxito do Bretton Woods,
sistema monetário instituído ao término da Segunda Guerra Mundial. Tal sistema não era isento de
problemáticas, porém, possuía taxas fixas de câmbio entre as moedas de muitos países, estabelecidas
de acordo com o dólar, que era cunhado em relação ao ouro. Dessa maneira, não havia especulações.
Mas ocorreu, sim, a destruição desse mote, acarretando em um caos econômico que permeia até hoje.

Um enorme otimismo tecnológico acompanhava a economia do pós-guerra, ratificado por


ocorrências científicas, como a busca de se chegar ao espaço pelos EUA e URSS, a vontade de um
uso pacífico da energia nuclear, os avanços da Medicina, a “revolução verde”. Houve também as
“décadas de desenvolvimento das Nações Unidas” e a “doutrina social da igreja católica”, com a
encíclica populorum progressio.

Mas como se deu a reversão de otimismo para um quadro de depressão, de poucas perspectivas
culturais, onde prevalece apenas a luta pela sobrevivência cotidiana? Houve, de fato, a chamada
“mudança de paradigma cultural”, induzida de maneira artificial aos educadores da sociedade após
a década de 1960.

É válido constatar que, desde os tempos remotos, a sociedade é conduzida por elites hegemônicas e
oligarquias, que trabalham na “engenharia social”18. A presidente da Fundação Macarthur19, Adele
S. Simmons, falou:

Há vinte anos, quando a fundação Ford decidiu investir em um centro de


estudos acadêmicos – o Cebrap –, idealizado na época por um sociólogo
chamado Fernando Henrique Cardoso, a situação política brasileira não era
particularmente sólida. Foi feita uma aposta em um grupo que, vinte anos
atrás, parecia ter o perfil de uma futura liderança. Deu certo.20

Vemos agora à declaração de Fernando Henrique21:

Indiscutivelmente, o regime está rearticulando o sistema produtivo do Brasil.


Portanto, ele está dando possibilidade a que os setores mais avançados
do capitalismo tenham prevalência... Nesse sentido, ele é socialmente
progressista... Não é das classes médias burocráticas, nem das classes médias
que ficaram desligadas desses dois processos – a modernização produtiva
e da universalização dos bens sociais. (por favor, não riam!) Não é dos
corporativistas, não é do setor burocrático anterior. Mas também não vou
dizer que seja dos excluídos, porque não tem condição de ser. Aspiraria a poder
incorporar mais, mas não posso dizer que seja.

18 Por vezes, as fundações, além de evadir impostos, exercem a função de “engenharia social”, de modo a financiar órgãos e
indivíduos. E algumas universidades acabam por exercer suas atividades de acordo com os interesses da classe dominante.
19 A Fundação MacArthur é a quinta maior fundação oligárquica americana.
20 Em entrevista à Revista Veja, em julho de 1995.
21 Em entrevista à Folha de São Paulo, em outubro de 1996.

18
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

Aqui vemos que Fernando Henrique reconhece que o governo privilegiou “os setores mais avançados
do capitalismo”, e um deles é justamente o representado por Adelia Simmons. Válido falar do
Diálogo Interamericano, organização fundada em 1982, após a Guerra das Malvinas, dando o mote
e centralizando o planejamento estratégico e a propaganda política anglo-americana em direção a
todo o ocidente. Dele participam em torno de cem personalidades da área política e da academia,
além de outras esferas, de muitos países americanos, e o Brasil não ficou de fora.

Uma reunião acontece todos os anos, quando são discutidos assuntos de “interesses comuns”,
que depois são transformados em políticas de governo dos países participantes, como defender
a legalização de drogas, adotar uma política neoliberal na economia, a politização das questões
ambientais, a desestabilização das Forças Armadas ibero-americanas. Várias autoridades políticas
fizeram ou ainda fazem parte do Diálogo, como Raúl Alfonsín (Argentina), Julio Sanguinetti
(Uruguai), Gonzalo Sanchez de Lozada (Bolívia) e Fernando Henrique Cardoso. Luiz Inácio Lula da
Silva participa desde os anos 1990, e Ciro Gomes foi membro de 1994 a 1998. Não podemos deixar
de observar que os candidatos mais votados nas eleições anteriores ao ano de 2000 eram do Diálogo
Interamericano. As oligarquias, então, tiveram os seus interesses muito bem garantidos.

E como ocorre a estruturação dessas personalidades? Elliott Roosevelt, filho de Franklin Roosevelt,
foi oficial da Força Aérea na Segunda Guerra Mundial, acompanhando o pai em várias reuniões
e conferências pelo mundo, e disso resultou a obra “Como meu pai os via”. Essas personalidades
que se reuniam eram consideradas, por ele, de “inimigos do progresso”, ou seja, defensores da
oligarquia, distanciando-se de uma república. E há, de fato, inúmeras famílias nesse segmento na
Europa, sobretudo no Reino Unido, e na América do Norte, na tangência da Casa de Windsor. Eles
autodenominam-se “Clube das Ilhas”, homenageando o rei Eduardo VIII, que esteve ao trono de 1901
a 1910, quando a esfera britânica e a estadunidense se articularam. As oligarquias agem mediadas
por muitas instituições de planejamento estratégico, que trabalham em prol da “engenharia social”.
Dentre elas, colocadas aqui de maneira hierárquica, estão:

»» Grupo Bilderberg, com início de 1954, onde participam apenas a mais alta elite e
somente europeia e norte-americana. Exerce um enorme poder sobre o mundo, e
suas decisões ocorrem em reuniões anuais. Foram eles que decidiram, por exemplo,
em uma de suas reuniões, em 1973, na Suécia, a alta de 300% dos preços do petróleo
no mundo inteiro, alguns meses antes da Guerra dos Seis Dias.

»» Instituto Real de Assuntos Internacionais de Londres (RIIA) e Conselho de Relações


Exteriores de Nova York (CFR), representando os grupos oligárquicos britânicos e
norte-americanos, iniciados na década de 1920.

»» Comissão Trilateral, surgida por meio da família Rockefeller, em 1973. Esta


oligarquia tinha por objetivo a atração de representantes da elite japonesa.

»» Diálogo Interamericano, a única da qual fazem parte latino-americanos.


»» Rand Corporation, Instituto Hudson, Clube de Roma 22
, Instituto Tavistock23 e as
fundações Ford, Rockefeller e MacArthur.

22 Que tinha a função de difundir a ideologia dos “limites de crescimento”.


23 Constitui-se em um importante centro de “guerra psicológica” e “engenharia social”.

19
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Não podemos deixar de elencar o enorme poderio das oligarquias, que controlam de maneira direta
as instituições:

»» Banco da Inglaterra, Sistema da Reserva Federal dos EUA e Banco de Compensações


Internacionais da Basileia. Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial,
Organização Mundial do Comércio, Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente e para o Desenvolvimento. Casas bancárias e financeiras europeias e da
América do Norte, muitos escritórios jurídicos, além de inúmeros cartéis. Também
os regimentos mundiais das ONGs. E estão em estreita comunicação com os serviços
de inteligência da Inglaterra e dos Estados Unidos.

A efetivação da “mudança de paradigma cultural” foi dada mediante do seguimento de diretrizes


políticas que cunhavam por:

»» reverter o pensamento de progresso como sendo de caráter vocativo da humanidade;


»» instituir o conceito de um Estado nacional que deve promover o bem-estar e o
progresso, destituindo a ideia de um republicanismo;

»» promover o hedonismo e o individualismo.


As diretrizes foram:

»» O desmembramento do Bretton Woods, acarretando na “financeirização” da


economia do mundo. Fato este que se deu após 1971, com o convencimento do então
presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon de cindir a paridade entre o dólar e
o ouro, acabando com referenciais monetários e dando lugar às oscilações cambiais
e à especulação financeira.

A especulação como fim em si mesma, sem vínculos com o real, seria a essência da “globalização”?
Lyndon La Rouche, economista, fala da necessidade de uma “nova conferência de Bretton Woods”,
a fim de refazer todos o sistema financeiro e monetário do mundo, construindo a economia sobre
novos pilares, como a defendida pelo governo chinês, a saber, a Ponte Terrestre Eurasiática.

»» Promover a “sociedade pós-industrial”, a ideia enganosa de uma “sociedade da


informação”. De fato, isso é o cerne da “Nova Economia” que é pautada nos altos e
baixos de Nasdaq.

»» Promover a “contracultura” – inseminada de drogas entorpecentes –, popularizar


internacionalmente o rock – antes de pouca abrangência nos Estados Unidos – e a
“revolução sexual”. Em consequência, o conceito de família mudou de características.
Ocorreu também a ascensão do misticismo, denominada “Nova Era”.

»» Politização do malthusianismo e do ambientalismo, disseminando a ideia de que não é


possível que todas as civilizações se beneficiem da industrialização, devido à escassez
dos recursos naturais. Eles defendem muitas questões antidesenvolvimentistas em
prol da proteção da natureza, quando estão escondidos atrás de fatores políticos.

20
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

»» Executar as “reformas educacionais”, substituindo os currículos clássicos pelos


“profissionalizantes”, sobretudo no ensino médio. Teve início na esfera da
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, colocadas em
prática também nos Estados Unidos e depois em vários outros países. Tal reforma
acarretou em sistemas que não mais primavam pela formação de indivíduos com
uma boa e vasta visão social, nem formavam profissionais de qualidade.

»» Instituir as estruturas que se constituem em um “governo mundial”, substituindo os


países soberanos e suas instituições.

Geraldo Luís Lino defende a necessidade de se retomar os antigos currículos, que formam um
cidadão com visões gerais, pois seria inconcebível especializar para profissões que possam não mais
existir em poucos anos e para aquelas que ainda não se configuraram. Segundo ele, o Brasil adotou
essas reformas durante o governo militar, com os acordos MEC-Usaid, sem fazer uma prévia crítica,
causando graves consequências na educação.

O fundador do clube de Roma, Alexander King, também é um dos elaboradores da “reforma


educacional”, e fala:

O Clube de Roma se originou de um sentimento de que o crescimento pelo


crescimento não era uma boa coisa [...] O que foi discutido foi a questão da
inquietação educacional, a questão da necessidade de profundas reformas
educacionais para tornar a juventude mais sintonizada com o que estava
acontecendo, mais sintonizada com as realidades da sociedade. As discussões
levantaram a questão da destruição ambiental, a questão da alienação do
indivíduo, rejeição da autoridade e outros temas do gênero. Tudo isso surgiu
ao mesmo tempo... Nós inventamos toda a questão das reformas curriculares,
tentando ensinar matemática, química etc., de novas maneiras. Nós éramos
o único grupo que começou a ver a educação em termos do seu impacto
econômico... Grosso modo, nossa política era a de que deveríamos estar pelo
menos cinco anos à frente do pensamento dos Estados nacionais. Entretanto,
nunca deveríamos parecer estar mais do que dois anos à frente.24

Aqui ganha relevância a elaboração de uma legislação internacional no que concerne a temas
importantes, como o desarmamento e cessar a proliferação de armas de destruição de massa, o
problema ambiental, os direitos humanos, a corrupção e promover a democracia.

José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, um pouco antes de sair do ministério, fez um convênio com
a Transparência Internacional. Essa ONG teria a função de fiscalizar a honestidade das licitações
do governo do país. Mas esse papel não deveria ser de um Estado e sua soberania? Seria mesmo
necessário que uma entidade que não pode representar os interesses brasileiros, e sem ter sido
eleita, exerça essa ação? Não podemos deixar de mencionar que a ONG Transparência Internacional
é aliada ao príncipe Philip, e seus partidários foram selecionados em meio a sujeitos que trabalharam
no Banco Mundial e no FMI.

24 Em entrevista à revista Executive Intelligence Review, em junho de 1981.

21
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Vale salientar que a ação das ONGs na esfera política, atuando como agentes, no lugar das
instituições nacionais, é importantíssimo para esse processo. Não obstante, Fernando Henrique
Cardoso denominava as ONGs de “organizações neogovernamentais”.

O Movimento Viva Rio participa ativamente na preparação da “segurança cidadã”25, em substituição


da “segurança nacional”, tida como retrógrada pelos governos militares. Nesse contexto, está a
errônea consideração de que a finalização da Guerra Fria poderia autenticar a “desmilitarização”,
a abreviação da efetivação das Forças Armadas dos Estados, sobretudo dos subdesenvolvidos. Mas
aqui estão excluídas as forças da Otan.

Muitos se perguntam se é possível estancar essa degeneração civilizatória, e, diante desse


questionamento e das ações de grandes personalidades mundiais, Abraham Lincoln afirma: “pode-
se enganar todos por algum tempo e alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos
por todo o tempo”. Assim, seria mais prudente perguntar: como podemos frear a “mudança de
paradigma cultural” que as oligarquias impuseram? Talvez seguindo o exemplo dos chineses, que
colocam na crise a configuração de novas oportunidades; de outra “Idade das Trevas” em direção a
um Renascimento, de modo a retomar expectativas deixadas de lado no passado.

Mas isso só será possível com o surgimento de uma elite que possa, conscientemente e de modo
determinado, colocar em uso outros princípios de civilização. E essa elite não se refere aos indivíduos
que possuem um maior poder aquisitivo ou são influentes politicamente, mas àqueles que se
preocupam e que agem para além de seu universo, na defesa pelo bem da comunidade e da própria
humanidade. De fato, esses cidadãos terão que ser ainda formados e nós podemos contribuir para
que isso ocorra, adotando princípios civilizatórios. Adicionado a isso, poderia haver um “projeto
nacional”, conceito um pouco retrógrado em meio a um mundo globalizante.

Um “projeto nacional” retomaria o princípio republicano e a noção de progresso, seguindo o preceito da


igualdade de interesses entre as esferas que representam a sociedade, da equivalência de oportunidade
entre os cidadãos, solidariedade entre os sujeitos, isentando todos de falar em “excluídos”, que seria
apenas uma justificação para não se comprometer com algumas esferas sociais.

A crise dos valores na contemporaneidade


Paul Valéry já falava do descrédito dos valores morais tradicionais, fato que se deu juntamente com
o término da hegemonia política e econômica europeia. Diz ele: “[…] a nossa geração […] assistiu
também à negação brutal das nossas ideias mais evidentes. […] Já não podemos então confiar no
Saber e no Dever?”26 De fato, esses valores (trabalho, esforço, família, pátria) foram colocados sob
suspeita a partir dos adventos da Primeira (1914-1918) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Essa crise teve lugar em Portugal com a Primeira República e somente emergiu novamente depois
que Estado Novo27 intercedeu com seu autoritarismo.

25 A então nova política de segurança do País.


26 VALÉRY, Paul. Variété. Paris: Gallimard, 1927.
27 O Estado Novo fez a sua intersecção com o regime do pós-25 de Abril de 1974. Válido ressaltar que havia uma estrutura de
valores estáveis, mas passíveis de questionamento pelos democratas.

22
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

A Europa ficou desmoralizada em detrimento das duas guerras, que teve como consequência a morte
de milhares de pessoas. Como uma possibilidade de liberdade diante das ideologias estanques,
cerradas e totalitárias, surgiu o Existencialismo, que primava pela realização individual por meio de
projetos pessoais.

Vale fazer referência ao expressionismo nas artes plásticas, uma tendência artística europeia,
cunhado na Alemanha, de 1905 a 1914. O termo foi utilizado pela primeira vez na revista Der
Sturm28, em 1911, opondo-se ao impressionismo francês, que registrava a natureza por meio de
sensações visuais momentâneas. Os expressionistas primavam pela expressão vinda do artista em
direção ao real, longe daquelas paisagens de Claude Monet (1840-1926). A arte está relacionada à
ação, por meio da qual a imagem se constitui, ao se utilizar as cores e as formas de modo a recusar
a verossimilhança.

O movimento se afirma com o grupo Die Brücke29, fundado em Dresden no ano de 1905, por Ernst
Ludwig Kirchner (1880-1938), Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976), Erich Heckel (1883-1970), Emil
Nolde (1867-1956), Ernst Barlach (1870-1938), dentre outros. Objetivam a crítica social da arte,
a utilização da tinta de maneira forte e vigorosa, relacionar-se com as artes gráficas, sobretudo a
xilogravura, o olhar voltado para a arte primitiva, sempre tendo o cotidiano como poética.

O expressionismo direciona seu olhar para o romantismo alemão, na questão em torno da


individualidade do sujeito diante da natureza, bem como permeando a expressão da irracionalidade,
a exemplo de Vincent van Gogh (1853-1890) e Paul Gauguin (1848-1903). A imaginação de Jame
Ensor (1860-1949) também ganha espaço, assim como a retomada de um simbolismo, no que diz
respeito ao mundo onírico, mesmo que ocorra o descarte da visão transcendental e do espiritualismo.
Talvez o maior expoente do movimento seja Edvard Munch (1863-1944), que sofre influências de
Ibsen e Strindberg, além de Van Gogh e Gauguin, quando enfatiza a tragicidade da vida humana.

Figura 4: “O Grito”, de Munch (1893)

28 A revista constituía-se em um importante veículo do movimento, e significa “A Tempestade”.


29 “A Ponte”.

23
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

O movimento expressionista se desdobra com o Der Blaue Reiter, fundando em 1911 por Franz
Marc (1880-1916) e Wassily Kandinsky (1866-1944). Depois da Primeira Guerra Mundial, o
expressionismo manifesta nos trabalhos dos artistas da neue sachlichkeit30, a exemplo de Otto
Dix (1891-1969) e George Grosz (1893-1959). Alvo do nazismo, em 1933, foi considerado uma “arte
degenerada”, assim, é retomada somente depois do término da Segunda Guerra Mundial, criticando
o fascismo e denunciando os males da guerra, como fez Picasso (1881-1973), em Guernica31.

Figura 5: “Guernica”, de Picasso (1937)

Também cunhado no expressionismo, aparecem os trabalhos de Constant Permeke (1886-1952),


Gustave de Smet (1877-1943), Jan Toorop, H. Werckmann, na Bélgica e na Holanda; Henri Matisse
(1869-1954), André Derain (1880-1954), Raoul Dufy (1877-1953), Georges Rouault (1871-1958),
Marc Chagall (1887-1985), Chaim Soutine (1893-1943), na França, todos dialogando a sua maneira
com o movimento. Lembramos ainda de Egon Schiele (1890-1918) e Oskar Kokoschka (1886-1980)
– estudantes das obras freudianas –, na Áustria, e do expressionismo abstrato, que se dá nos Estados
Unidos após a década de 1950.

Os trabalhos de 1915 e 1916, como “O Japonês”, “A Estudante Russa”  e “A Boba” denunciam a


vertente expressionista de Anita Malfatti (1889-1964), revelada também em Lasar Segall (1891-
1957), Oswaldo Goeldi (1895-1961), Flávio de Carvalho (1899-1973) e Iberê Camargo
(1914-1994).

Figura 6: “Abandono”, de Goeldi (1937)

30 “Nova Objetividade”.
31 “Guernica” é o resultado do olhar de Picasso acerca das consequências do bombardeio na cidade de Guernica, antes capital
basca, em meio à Guerra Civil Espanhola, em 26 de abril de 1937.

24
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

O modelo grego de ética, pautada na prudência, na justiça e na temperança, foi renegado, não
obstante a vontade europeia em fundamentar um modelo diverso, por meio da Comunidade
Econômica Europeia/União Europeia, elaborado por Jean Monnet e Robert Schuman. Em seu lugar
primava o modelo de sucesso da América, sob o pragmatismo de William James e o utilitarismo de
John Stuart Mill.

Na contemporaneidade, os indivíduos passaram a exigir seus direitos, mas esqueceram de que


também possuem deveres; a honra e a honestidade, por exemplo, parecem não mais existir.

No contexto da globalização, está o narcotráfico, que cada vez mais se dissemina em todos os países,
dos menos desenvolvidos aos mais promissores. Interessante o livro “A Rainha do Sul”32, de Arturo
Pérez-Reverte, que trata justamente da fácil circulação das drogas provenientes da América do Sul
em direção ao sul espanhol e Marrocos, abastecendo os mercados da Europa.

Em outra esfera está a violência, já banalizada na vida cotidiana e nos meios televisivos, tornando a
força um valor ético favorecendo o pragmatismo. Maquiavel mesmo falou de princípios semelhantes
que um verdadeiro príncipe deveria ter. O terrorismo parece vigorar diante do ineficaz combate da
ONU, que acaba por potencializar esse fenômeno e a contrapartida neoconservadora de G. W. Bush,
pautada nos ideais de Paul Wolfowitz. Adriano Moreira já denunciava:

De modo que nos encontramos numa situação de total falta de ordem, porque
se disfuncionou o sistema dos Pactos Militares, sem capacidades sabidas para
retomar o modelo observante da Carta da ONU, procurando implantá-lo
como modelo observado, mas obrigados a recorrer aos planos de contingência
como meio de enfrentar os picos mais desafiantes desta ‘anarquia madura’ da
comunidade internacional, como lhe chamou Buzan.33

Os estados parecem decair alegando problemas financeiros, o que nos remete à questão Malthusiana
dos recursos inexistentes perante o crescimento demográfico. Isso os torna enfraquecidos e
sem condições de apoiar os menos abastados. Essa escassez de recursos financeiros atrelada ao
aniquilamento dos valores tradicionais – responsabilidade, dever, trabalho – põem em descrédito
as instituições estatais educativas e da justiça.

A falta de ética, sobretudo a financeira, que permeia o início do século XXI, acarretou em um aumento
das fraudes fiscais e as especulações. De fato, o mundo caminhou de maneira veloz em direção
ao “novo mundo”, como advertiu, em 1932, Aldous Huxley34, transformando os sujeitos em seres
isentos de moralidade. A coesão social é desmantelada pelo individualismo e o senso competitivo, e
isso em uma esfera global aos moldes do capitalismo.35

Mudanças tecnológicas permeiam pela contemporaneidade, conduzindo os cidadãos a uma vida


com qualidade reduzida, denunciada mesmo pela “Expo 2010”, em Xangai. Toda essa tecnologia
aumenta as margens de lucros das empresas, e o consumo é estimulado; o “ter” (material) torna-se
mais importante que o “ser” (humanismo), e o ocidente, então, a fim de tentar equilibrar-se, aposta
32 PÉREZ-REVERTE, Arturo. A rainha do sul. Lisboa: Asa, 2003.
33 MOREIRA, Adriano. A ética nas relações internacionais, in  Estudos da Conjuntura Internacional. Lisboa: Publicações Dom
Quixote, 2000, p. 287.
34 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Lisboa: Livros do Brasil, 1981.
35 Ver FRIEDMAN, Milton. Liberdade para escolher. Publicações Europa-América, 1982.

25
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

nas medicinas alternativas, nas iogas, nas acupunturas, nos saberes milenares orientais, que cada
vez mais agregam adeptos, sobretudo os trabalhadores nos moldes capitalistas.

O relativismo ético coloca a dificuldade das verdades absolutas, e isso é apontado por Max Weber
em “Ensaios sobre a teoria das ciências”.

[...] em Max Weber, subsiste uma diferença fundamental entre a ordem


da ciência e a ordem dos valores. A essência da primeira é a submissão da
consciência aos fatos e às provas, a essência da segunda é a livre escolha e a
livre afirmação. Ninguém pode por meio de uma demonstração ser levado a
reconhecer um valor ao qual não adira.36

Nuno Sotto Mayor Ferrão nos lembra da pintura de Rafael Sanzio na “Stanza della Segnatura”, no
Vaticano, em que retrata as virtudes – justiça, temperança, fortaleza e prudência), que deveriam
permear os bons sujeitos tornando-os honrados cidadãos, não possibilitando que o mundo caminhe
em direção a uma ética inerte.

As mudanças de paradigmas nas histórias


infantis
Com tantas mudanças ocorrendo em esfera mundial, a maneira de se educar e, sobretudo, de contar
histórias às crianças, também se tornou diferente, basta se ater “À Procura de Nemo” e “Shrek”.

Bettelheim, em “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, colocou que, à maneira tradicionalista, os


contos de fadas aliviavam as dores infantis por meio de “resgates, escapes e consolos”. Isso se dava
devido à evolução da psique para outro estágio, uma vez que as histórias lidam simbolicamente
com acontecimentos conflituosos entre a criança e o mundo real. Hoje, com as novas abordagens –
como, por exemplo, a princesa que beija o sapo e transforma-se em um deles – também acarretam
um alívio psicológico, mas agora centrado na aceitação de si e na crença de poder ser feliz pelos
próprios meios.

Por muito tempo, os interesses dos sujeitos e da sociedade não convergiam: casamentos arranjados,
regras de postura profissional, aliados comerciais e políticos de um lado e liberdade, criatividade e
espontaneidade de outro. Esses últimos, sempre tidos como uma ameaça às áreas de produção e às
bases familiares.

Desde Platão, chegando a Comte, houve o incentivo para que os indivíduos cultivassem o que havia
de melhor em si, tomando como base os moldes pré-idealizados que cercava os interesses comuns.
A imperfeição do “eu” necessitava de um autocontrole, não obstante, quem era contrário às leis era
desprezado, humilhado exilado e, muitas vezes, morto.

Na contracultura apareceram filósofos como Nietszche, que denunciavam a antropometria de


escravização humana, lutando pelo direito à liberdade. Dizia ser o “eu” perfeito, precisando apenas
se impor, e aqui não haveria, nem seria possível, uma transformação em outro “eu”, diferente ou
mais qualitativos.
36 ARON, Raymon. As etapas do pensamento sociológico. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, p. 499.

26
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

De fato, desde as últimas décadas so século XX, os indivíduos conseguem seus espaços diante de
valores estanques. É difícil algo que possa escandalizar a sociedade contemporânea – tolerância
religiosa, divórcio, homossexualismo. Em “À Procura de Nemo” e “Shrek”, o ponto central é a
manifestação do “eu”, o aceite da individualidade, de sua particularidade, do “ser” em uma sociedade
não estanque.

Sonia Regina Rocha Rodrigues37 coloca que, tradicionalmente, nas histórias infantis, há um príncipe,
o bom filho, que deve cumprir sua missão e vencer. Esse foco é passado para a persistência, este,
sim, é o mérito em lugar da vitória, na contemporaneidade. Em “Nemo”, é o pai que luta para salvar
o filho, desconstruindo o herói de sempre: o filho que salvaguarda o pai.

A criança, diante de um conto de fadas tradicional, parece ser moldada para sempre se sacrificar:
heróis que se mutilam, que não porporcionam prazeres a si mesmos, que conquistam as princesas
e o ouro dentro de torres inatingíveis, sob a vigilância de dragões. As novas histórias não utilizam
esses símbolos e dão importância à qualidade de ser determinado, corajoso, no momento em que
assume suas especificidades e se adapta a uma sociedade de grande instabilidade.

A força interna do herói, simbolizado pelo mentor, deixa de existir, agora, o parceiro prima também
pela imperfeição. A “amiguinha” de Nemo é distraída, o companheiro de Shrek é solitário. Não há
objetos com poderes, mas conselhos são repetidos: “continue!”, “faça alguma coisa!” ou “persista!”.

A inversão acontece em vários âmbitos dos novos contos de fadas. O pai de Nemo é quem vive uma
aventura, mas é superprotetor e ansioso. Ao final da saga, ele se modifica, torna-se autoconfiante,
supera seus problemas, assim aceita seu filho e o liberta para a vida. De fato, a criança identifica-se
com o protagonista, que pouco pode fazer diante dos pais, e deseja sempre ser vista como meiga e
bonita.

O fato de ser criticado, desajeitado, fora dos padrões sociais, faz com que a identificação pela criança
também aconteça, como em Shrek. Esse herói não pode ser encaixado nas comuns expectativas:
é grosseiro, não quer receber um beijo de amor, sacode a princesa e a presenteia com sapos. Ela
não está mais na história de maneira secundária, na posição de obediência, mas tem coragem, luta
karatê, é questionadora e decide seu destino. Já o príncipe tem muita vaidade, mas não próprias
opiniões e desejos, demasiado superficial.

O beijo apaixonado, tradicionalmente, termina com o encantamento em direção a uma posição ideal,
enquanto nos atuais contos, os protagonistas são remetidos à realidade, reafirmando o encanto.

37 A autora é, além de escritora, pediatra.

27
CAPÍTULO 4
Liberalismo e globalização

Com origem no século XVII, a definição do pensamento liberal está em um conjunto de princípios e
teorias políticas, que apresentam como ponto principal a defesa da liberdade política e econômica,
sendo contrários ao forte controle do Estado na economia e na vida dos sujeitos. Mas a lei
fundamental do liberalismo, o livre uso, por cada indivíduo ou membro de uma sociedade e de
sua propriedade omite o fato de que quando da sua criação, nem todos possuíam propriedades,
ou tinham apenas uma; os trabalhadores eram detentores apenas de sua força de trabalho e eram
outros os que obtinham os meios de produção. Na sociedade arcaica como na atual, nem todos são
iguais e o bem nem sempre é comum.

A igreja católica, durante vários anos, opõe-se contra o movimento e a ideologia liberalista de forma
direta e aberta. Foram várias as áreas de influência liberal condenadas, principalmente o laicismo
e a democracia.

Porém, após a Primeira Guerra Mundial, a igreja foi obrigada, mesmo sem abrir mão de seus valores,
princípios e dogmas, a rever seus posicionamentos para a sociedade civil. E devido à falência dos
governos totalitários, viu-se obrigada a aceitar em 1944, por meio do papa Pio XII, a democracia
como a mais justa forma de governo, mesmo sendo este um fruto do liberalismo.

Hegel percebeu a desordem nas teorias contratualistas do seu tempo, entre a sociedade civil-burguesa
e o Estado. Nesta, o contrato do direito privado prevalecia a favor dos interesses particulares, e o
Estado era governado pelo princípio da universalidade e da necessidade do direito público, que
transcende os interesses privados e não depende da vontade associativa e contratual dos indivíduos.

Segundo ele, para assegurar os direitos da pessoa, a autoridade pública deve intervir na sociedade
civil-burguesa, assim como o bem-estar daqueles que são prejudicados pelo funcionamento liberal
do sistema econômico dessa sociedade, que contém a origem mistificadora da tirania e jugo
econômico, motivo pelo qual a crítica da economia política revela-se, também, como uma crítica da
política.

Contra as teses do concernimento social que retorna a Aristóteles e a Hegel, Taylor se opõe à doutrina
política do individualismo ou do atomismo liberal. Os profundos valores comunitários e culturais
historicamente construídos e necessários, não são considerados pelo liberalismo político.

Para Schmitt, o liberalismo não conseguiu eliminar a política que tanto negou, apenas ocultou-a. Eis
o seu fracasso. Em sua análise, a defesa da especificidade do político passa pela necessária presença
da dimensão do conflito e do valor constitutivo do antagonismo na vida real. Já Habermas tende
para a combinação de dois modelos: a alternativa liberal dos direitos humanos e a soberania do
povo do republicanismo, tentando adequar a autonomia privada dos membros da sociedade e a
autonomia política dos cidadãos. Uma conciliação entre a liberdade dos modernos e antigos, assim
como a liberdade negativa e positiva que ele concilia.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

A prova do estado de decadência do liberalismo é sua própria pretensão modernizadora, visando


ela, em última instância, à igualdade, ou seja, à harmonização do panorama das desigualdades em
nome do princípio isonômico do direito, lógica, sobretudo na expressão do igualitarismo liberal
e da democracia socialista. O liberalismo também difunde o conceito de que a liberdade começa
onde a política termina, ao dissociar a liberdade da política, efeito da interiorização da liberdade na
consciência individual.

Vale adentrarmos na noção de globalização, tema de debates e discussões há alguns anos. O termo,
segundo Gómez,38

está atravessado por uma ambivalência ou impressão constitutiva em função


da variedade de fenômenos que abrange e dos impactos diferenciados que
gera em diversas áreas: financeira, comercial, produtiva, social, institucional,
cultural, etc.

Há quem defenda a sua existência desde a evolução do ser humano, aumentando sua influência com
o passar do tempo, ou seria a globalização uma expansão do capitalismo?

O adjetivo “global” surgiu no começo dos anos 1980, nas grandes escolas
americanas de administração de empresas, as célebres “gusiness management
schools” de Harvard, Columbia, Standord etc. [...] Fez sua estréia a nível
mundial pelo viés da imprensa econômica e financeira de língua inglesa, e em
pouquíssimo tempo invadiu o discurso político neoliberal.39

No comentário de Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2001, sobre


globalização, vemos:

Para a maior parte do mundo a globalização, como tem sido conduzida,


assemelha-se a um pacto com o demônio. Algumas pessoas nos países ficam
mais ricas, as estatísticas do PIB – pelo valor que possam ter – aparentam
melhoras, mas o modo de vida e os valores básicos da sociedade ficam
ameaçados. Isto não é como deveria ser.40

A produção de riquezas e o consumo não são os únicos aspectos da globalização, são apenas o
primeiro resultado da mudança. Como ela ainda está em seu início, muitas são as consequências
que ainda virão e não podemos precisar, mas podemos falar sobre as consequências já conhecidas.
O processo da globalização está em uma rápida evolução e não é possível pará-lo. Alguns críticos
defendem a ideia de que haverá uma crise social de proporções nunca vistas não somente com
relação ao desemprego, mas, também, com a segurança e qualidade de vida.

Não se pode negar que, se não houvesse a evolução e contato entre as civilizações, os transportes,
as trocas, linguagens, modos de vida e principalmente os meios de comunicação, provavelmente
não estaríamos debatendo sobre o tema, que teve maior aceleração justamente com a difusão e
a banalização dos meios de comunicação. Em resumo, a globalização permite a interligação das

38 GÓMEZ, José Maria. Globalização da política: mitos, realidades e dilemas. In: GENTILI, Pablo (Org.). Globalização
excludente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
39 CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
40 STIGLITZ, Joseph E. The pact with the devil. Beppe Grillo’s Friends interview.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

economias dos países, cria um processo de aprofundamento da integração social, cultural, econômica
e política, gerados pelas necessidades do capitalismo para se formar uma aldeia global. Mas esses
não são os únicos questionamentos e resultados a respeito, tem-se perguntado também quais são
os reais benefícios e malefícios.

A globalização também atravessou crises, não ficou imune a elas, assim como vários sistemas
políticos. Foram iniciadas em países em desenvolvimento, repetiram-se e espalharam-se
sistêmica e rapidamente por outros países, como um círculo vicioso ou “efeito dominó”, devido à
interdependência econômica. Financeiramente, essas crises geralmente desnorteiam o acesso do
governo e das empresas ao crédito internacional. Os preços das ações caem, assim como o PIB,
aumentando a pobreza e o desemprego.

O tema também atraiu críticas. Uma delas é com relação à forma desigual e injusta da sua realização,
que não está universalmente distribuída, uma vez que nem toda a população ou todos os países
recebem os benefícios desse fenômeno, pelo contrário, apenas o trabalho duro. A globalização
econômica demonstra este fato com toda clareza e dados de pesquisas, ao compararmos os salários
ou diárias de trabalhadores de diferentes Estados e países. Suas culturas e dimensões econômicas,
muitas vezes, não estão ao alcance para identificar as novas necessidades que a globalização gera
nos consumidores locais. Os países subdesenvolvidos e as suas estruturas produtivas antiquadas
são forçados a desfazer-se com o consequente aumento do desemprego.

Os seus críticos também argumentam sobre os custos humanos e ambientais dentro desse processo,
onde um produto antes de sua venda final passou por diversos países desde a matéria prima e mão
de obra. Mas os benefícios nem sempre são desiguais. Há quem diga que toda esta integração global
é um jogo de disputa apenas entre os países ricos e não existe a possibilidade de nivelamento entre
todos do globo.

Comparando a produção agrícola de países subdesenvolvidos e os desenvolvidos, por exemplo,


podemos ver clara uma situação em que a globalização não é homogênea. Os países desenvolvidos
estão equipados com tecnologias, ferramentas e recursos para realizarem investimentos, além de
colaborar uns com os outros para sanar os empecilhos durante o caminho. Já os países pobres não
possuem apoio mútuo e individualmente lutam pela construção de sua identidade, não recebendo
a globalização tecnológica que baixa os custos e melhora os meios de cultivo dos alimentos de sua
produção, privilégio de poucos.

Os créditos não estão disponíveis para todos os países, grandes empresas financeiras estrangeiras
fazem a compra de bancos menores, mas deixam de financiar a produção local, em detrimento
das empresas internacionais, o que tira do emprego vários cidadãos e pequenos empresários. Esse
sistema financeiro mundial incrementou a vulnerabilidade de muitos países a crises externas e aos
caprichos dos investimentos especulativos, com sua livre mobilidade de capital.

A globalização faz e fez com que no mundo, antes trabalhadores e produtores de uma economia
agrícola, passassem para uma economia industrial e depois para uma de informação. Mas à medida
que esse efeito ocorre, os mercados com as suas limitações e falhas, enfrentam o aumento do
desemprego por não terem a capacidade de administrar os recursos com eficiência, ou também por
substituírem o trabalho braçal por máquinas e equipamentos.

30
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

Esse fenômeno não permaneceu apenas no mundo dos negócios e das finanças, seu processo foi
conhecido devido ao grande espaço na mídia. Mas essa divulgação também ocorreu por meio dos
protestos antiglobalização, mesmo que não lembrados pela maioria do público, devido ao foco
proposital da mídia.

O movimento da antiglobalização refere-se a todos aqueles que são contra as características do


capitalismo liberal. Ele vem reclamar o término de acordos comerciais e também do livre trânsito de
capital. Eles se opõem à formação de blocos comerciais como o Tratado Norte Americano de Livre
Comércio (NAFTA) e a Área Livre de Comércio das Américas (ALCA), além de fazerem propostas
alternativas ao regime capitalista, como, por exemplo, o socialismo, o comunismo e a anarquia.

Em 1999, em Seattle, ocorreram atos de manifestantes contra a globalização, cada um com o seu
interesse em particular: ambientalistas, anticapitalistas e humanitários. Mas anterior a essa data já
haviam ocorridos outros protestos, como na Índia, em 1993, e em Colônia, em 1999.

Outros grupos de protestos são anticapitalistas, como os anarquistas, antimilitaristas, católicos


progressistas, comércio justo, movimentos de camponeses, ecologistas, feministas, marxistas, media,
organizações não governamentais generalistas, dos direitos humanos, pacifistas, sindicalistas.

Além dos argumentos contra a desigualdade dos benefícios, custo humano no processo, outros
aspectos envolvendo o capitalismo de mercado citados pelos oponentes à globalização são:
desemprego; desigualdade social e de renda; exploração dos países mais pobres; redução de salários;
diminuição da garantia do emprego; aumento da poluição; tensões sociais e políticas.

Com a globalização, as barreiras comerciais e de investimentos vêm tendo redução progressiva, mas
o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas não é acompanhado por todos os mercados, causando
insegurança. Além disso, a desregulamentação dos setores de produção e de serviços leva a maiores
oportunidades de especulação.

No processo globalizante, há vários desafios e esses, devido ao ritmo e à ausência de governança eficaz,
torna-se cada vez mais intenso e preocupante. Outros exemplos de resultados são: aquecimento
global; recursos minerais; consumo exagerado; endividamento pessoal; concentração de renda.

Figura 7 – Imagem apelativa de crítica ao capitalismo e a globalização

31
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

As relações entre países estão mais saudáveis com a globalização? Permite um maior contato entre
culturas e partilha de muitas informações e conhecimentos para o bem da humanidade? De fato,
o fenômeno é crescente, e o número de investimentos estrangeiros também, o que promove o
desenvolvimento, sucesso e prosperidade, embora esses impactos positivos cheguem apenas nas
regiões onde ela se instala. E as consequências negativas para os países subdesenvolvidos ou em
desenvolvimento? E os que ficam sem os seus empregos em detrimento de outros?

A globalização faz com que os produtos percam a sua nacionalidade e há o aumento do hábito de
consumir, mas o orçamento de várias indústrias foi diminuído pela perda de poder competitivo
dos produtos nacionais. Não existem mais fronteiras a delimitar territórios. O globo parece se
transformar em uma nação única. Mas essa unificação não é tão simples como parece quando são
levadas em conta as especificidades de cada país, sua cultura, religião; as implicações políticas dessa
união podem não ser tão fáceis de se administrar, masas é esse o fundamento da globalização: a
massificação da sociedade, tanto nas formas de convívio quanto nos procedimentos éticos.

O foco é o mercado internacional, enquanto os valores locais e regionais são deixados de lado, mas
há riscos dessa prática tanto para a sociedade quanto para os indivíduos. Não existe mais controle
sobre a produção e comercialização de tecnologia, não ficando esta restrita à imagem dos países
soberanos. Empresas operam em escalas planetárias, com contratos em várias partes do mundo e
não importa mais a origem da tecnologia e da matéria-prima, assim como do trabalho, desde que
tenham baixos custos.

Enquanto cresce a globalização no globo, este parece diminuir diante do crescimento desenfreado
das metrópoles aliado à poluição desmedida, aquecimento global, crise da água. Pode-se considerar
que a água também está sendo globalizada, no sentido negativo da palavra. Os governos dos
países que possuem reservas de água doce estão privatizando seu controle por meio de acordos
para instituições globais de comércio, lucrando muito com esses serviços, e pretendem fazê-lo em
todo o território global, aproveitando-se da fragilidade e dívidas dos países subdesenvolvidos, onde
os próprios moradores não poderão pagar pelo preço alto da privatização. Um desses acordos é
a Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e a Organização Mundial do Comércio
(OMC). Fóruns mundiais sobre as questões e soluções para a água são feitos periodicamente, mas,
organizados pelas próprias empresas interessadas na privatização. Que chance de direito teriam os
países e cidadãos com visões alternativas?

Outro exemplo de impacto negativo da globalização nos países explorados é a biopirataria. Os


países desenvolvidos, principalmente da Europa e dos Estados Unidos, apropriam-se dos recursos
nativos de alguns países, como, por exemplo, do Brasil, da Índia e da Ásia, explorando suas riquezas
naturais, e patenteiam este conhecimento aproveitando-se da falta de recursos para se defenderem,
controlarem essa exploração e lucram milhões a cada ano.

Além de impactar a economia e a sociedade, a globalização também pode interferir na cultura,


no que diz respeito à diversidade, levando à padronização dos gostos e aspirações devido à
exposição dos consumidores dos recentes mercados a marcas e produtos do mundo desenvolvido.
Esse seria um efeito tão danoso quanto a exploração econômica dos países mais pobres, apesar
de menos tangível.

32
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

A globalização mina a cultura de um país e impõe a ele um estilo de vida diferente, mais típico
dos americanos, em que a principal característica é o crescente número de empregos com baixos
salários, mas com pouca segurança e ocupações parciais. O impacto da globalização em todas as
esferas: econômica, social ou cultural, percebe-se que ela é impulsionada por culturas e interesses
específicos, o que pode ocasionar mais um temor, o de um novo imperialismo cultural, levando ao
crescimento de tendências nacionalistas. Sobre esse assunto, podemos citar Milton Santos:

Para a maior parte de humanidade, o processo de globalização acaba tendo,


direta ou indiretamente, influência sobre todos os aspectos da existência: a vida
econômica, a vida cultural, as relações interpessoais e a própria subjetividade.
Ele não se verifica de modo homogêneo, tanto em extensão quanto em
profundidade, e o próprio fato de que seja criador de escassez é um dos motivos
da impossibilidade da homogeneização. Os indivíduos não são igualmente
atingidos por esse fenômeno, cuja difusão encontra obstáculos na diversidade
das pessoas e na diversidade dos lugares. Na realidade, a globalização agrava a
heterogeneidade, dando-lhes mesmo um caráter ainda mais estrutural.

Uma das conseqüências de tal evolução é a nova significação da cultural


popular, tornada capaz de rivalizar com a cultura de massas. Outra é a nova
significação da cultura popular, tornada capaz de rivalizar com a cultura de
massas. Outra é a produção das condições necessárias à reemergência das
próprias massas, apontando para o surgimento de um novo período histórico,
a que chamamos de período demográfico ou popular.41

A globalização cultural, para Daniele Conversi, pode ser ainda compreendida na sua atual forma,
como a importação, em via de mão única, de itens culturais, estandartizados e ícones de um único
país, os Estados Unidos, em uma americanização altamente superficial, incoerente, fracional e
deficiente em que os outros povos “como macacos, imitam algo que eles nem mesmo entendem”.42

Em uma esfera maior, a globalização não se refere apenas às transformações econômicas, mas à
conjunção e à integração das revoluções econômica, digital e biotecnológica em única grande
revolução, a qual está impulsionando uma verdadeira mudança civilizacional.

Os parâmetros da civilização humana estão sendo transformados radicalmente por estas três
revoluções simultâneas, podendo, inclusive, colocar a sobrevivência da humanidade em risco, caso
não sejam controladas.

As principais economias do mundo sofreram uma das maiores crises financeiras dos últimos
tempos, devido, principalmente, ao alto grau de entrelaçamento dos mercados de capitais mundiais.
São muitos os exemplos de grupos de países, empresas ou produtos que passaram a fazer parte do
mesmo grupo devido ao fenômeno globalizante. No mercado editorial, são selecionados autores que
caminham em uma única direção de países periféricos, com as mesmas cadeias de comercialização,
fazendo com que as livrarias pareçam cada vez mais umas com as outras, o mesmo estilo, os mesmos
livros, o mesmo grupo.
41 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 142-143.
42 CONVERSI, Daniele. Americanization and the planetary spread of ethnic conflict: The globalization trap, in
Planet Agora. Dezembro 2003 – janeiro 2004.

33
CAPÍTULO 5
A crítica na contemporaneidade

Interseções da teoria crítica


Passou-se já uma década desde o lançamento de “O Local da Cultura”, de Homi K. Bhabha. Durante
esses anos, consolidou-se uma tendência nos estudos culturais e na teoria crítica, o neocolonialismo e
sua entrada na área sociológica, nas ciências políticas, na teoria literária, nos estudos antropológicos
e na comunicação. É claro que há muitos outros críticos dialogando com essa tendência, como
Stuart Hall, Edward Said, Gayatri Spivak e Arjun Appadurai, porém, em Bhabha, nos deparamos
com a problemática da diferença cultural e a periferia nas ciências humanas em âmbito geral. O
livro, juntamente com seus conceitos – entrelugar, agência, negociação identitária – é apenas um
pretexto para abordar o transcorrer dos estudos culturais.

Debruçamo-nos, agora, acerca das mudanças da teoria crítica da cultura a partir das periferias,
apresentando um pouco da história da teoria nos últimos vinte anos, enfocando conceitos como
identidade, minorias, agência e nacionalidade, conceitos esses intensamente discutidos na pós-
modernidade. Vale também abarcar os híbridos culturais e a teoria da tradução da diferença social,
sempre ultrapassando os polos extremos, seja ocidente e oriente, como centro e lateralidade.

Transcorridos os anos 1980, aparece um novo termo – na esfera teórica e, também, na política –
para designar o terceiro mundo: pós-colonial. Isso se dá em um contexto em que a promessa da
unidade terceiro-mundista está decaída, escondida pelas crises nesses países. De fato, não há uma
homogeneidade nos Estados do terceiro mundo – ideia esta implícita desde a sua denominação
– como o próprio mundo periférico não tem a intenção de se caracterizar como um bloco igual.
Outra atitude terceiro-mundista, no que concerne aos sítios culturais e teóricos, é a tentativa de
se valer da “diferença” e “alteridade” como início de integração ao modelo capitalista do mundo,
principalmente relativo aos bens culturais. O multiculturalismo e a inserção de bens simbólicos das
periferias na cultura de massa do mundo estão cada vez mais presentes, principalmente após os
anos 1980.

As típicas culturas libertárias do militarismo da década de 1960 e 1970 são deixadas de lado nos
anos 1980, em prol de estratégias de mercado transacional, portanto, acompanhando as mudanças
de paradigmas, a maneira de se referir e de abordar teoricamente o terceiro mundo também deve
ser diferente.

O multiculturalismo43 ultrapassa o limiar do mercado de uma cultura de massa e adentra as


universidades – especialmente nas anglo-americanas – caracterizando-se como acontecimento pós-
moderno, em decorrência da descentralização. Assim, os assuntos em torno do multiculturalismo
ganham destaque nos debates culturais da época. E aqui surge a oposição entre as opiniões de
43 Multiculturalismo foi a denominação inicial para a disseminação de várias culturas no ocidente em fins da década de 1980,
também podendo ser chamado de “estado híbrido”, “mundialização”, “globalização cultural”. CANCLINI, 1990, 1999; ORTIZ,
1994; FEATHERSTONE, 1995.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

conservadores e radicais multiculturalistas, cada um buscando mostrar que a sua cultura é superior.
Mas também reascende o interesse pela cultura do outro ultrapassando, a psicologia, a antropologia,
a linguística e a etnografia.

Esse outro emergido em fins dos anos 1980 nas universidades europeias e norte-americanas, é o
terceiro mundo44. Os discursos são voltados para o relacionamento entre “império” e “colônia”, por
isso a denominação pós-colonial. Vale ressaltar que são promovidos, nos Estados Unidos e Grã-
Bretanha diversos cursos e antologias, todos de enorme repercussão na mídia. O interesse pelo
outro passa a ser o cerne das teorias culturais, interesses científico, cultural, e, claro, mercadológico.
Diz Ella Shohat:

O pós-colonial não emergiu para preencher um especo vazio na linguagem da


análise político-cultural. Ao contrário, a sua larga adaptação durante o final
dos anos oitenta foi coincidente com e dependente do eclipse de um paradigma
anterior, aquele do Terceiro-Mundo.45

A expressão “terceiro mundo” não é mais conveniente, uma vez que torna homogêneas as
especificidades, além de carregar consigo um mote revolucionário proveniente das lutas pela
independência ocorridas nos anos 1960 e 1970. O que não quer dizer que a teoria pós-colonial,
que passa a substituir o “terceiro mundo” não deixa de ser, também, de cunho homogeneizante,
porém, ao identificar o colonialismo como algo dado no passado, o elemento utópico-revolucionário
desaparece.

Não podemos deixar de observar que essa substituição também é proveniente de terceiro-mundistas
que não se deixam caracterizar como tal, sentindo-se em posição inferior diante daquele termo.

[...] na Índia, as pessoas que podem pensar na explicação dos três mundos
estão totalmente irritadas pelo país (a Índia) não ser reconhecido como o
centro das nações não alinhadas, ao invés de um ’país de Terceiro Mundo.46

Academicamente falando, a teoria pós-colonial busca solucionar questões embutidas no radicalismo


multicultural. Quando unem todas as “etnias e histórias” em uma só denominação, os teóricos pós-
coloniais não ficam tão isolados quando um que se direciona apenas para um só povo, como, por
exemplo, aos “estudos africanos”, mesmo que eles estejam debruçados sobre o mesmo fenômeno.

Quando colocam na sociedade o contexto pós-colonial, os intelectuais enfatizam que ele deve
ser entendido relacionado às demais experiências desse mesmo contexto. Concomitantemente, é
possível, ainda, colocar os países de primeiro mundo como pós-coloniais, uma vez que o espaço
geográfico não interessa no momento, mas as condições temporais. Assim, essa teoria procura
deter-se sobre a cultura mundial depois do colonialismo, como se essa experiência tivesse ficado no
passado. Mas aqui há uma contraversão, uma vez que, em muitos casos, a condição colonial ainda
vigora, e alguns deixaram essa posição há anos, mas não se esqueceram de seu passado, pois, de

44 Os discursos também se voltam para as mulheres, gays e negros.


45 “The ’post-colonial’ did not emerge to fill an empty space in the language of political-cultural analysis. On the contrary, its
wide adaptation during the late eighties was coincident with and dependent on the eclipse of an older paradigm, that of the
Third World”. SHOHAT, 1992, p. 100.
46 “(…) in India, people who can think of the three worlds explanation are totally pissed off by not being recognized as the centre
of the non-aligned nations, rather than a ’Third World country’”. SPIVAK, 1990, p. 91.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

fato, cada povo viveu a sua experiência colonial de maneira diversa da do outro. Aqui, vemos na
teoria pós-colonial uma diretriz um pouco limitadora.

Esse conceito também se mostra limitado no que se refere ao idioma em que ela é divulgada: o
inglês. É nesse território linguístico que ela se acomodou.

Com a globalização, a noção de estado-nação é enfraquecida, implicando certa deshierarquização da


Europa e dos Estados Unidos como polo de onde irradia a moda cultural, embora elas ainda estejam
calcadas como potências mundiais. Cidades como Nova York, Paris e Londres, elas mesmas, agora
ditam a condição periférica da cultura.

Os estudos culturais pretendem a revelação teórica de uma contemporaneidade desmistificadora e


deshierarquizada, além de calcar uma política desafiadora da hegemonia nordocêntrica.

As novas políticas culturais da diferença não são simplesmente oposicionais


na sua contestação do mainstream (ou malestream) pela inclusão, nem
transgressivas no sentido vanguardista de chocar o público burguês
convencional. Ao contrário, elas são articulações distintas de colaboradores
talentosos (e, geralmente, privilegiados) que desejam alinhar-se com pessoas
desmoralizadas, desmobilizadas, despolitizadas e desorganizadas no sentido
de empoderá-las e habilitá-las para a ação social e, se possível, possibilitar uma
insurgência coletiva pela expansão da liberdade, democracia e individualidade.47

De fato, os estudos culturais e a teoria pós-colonial procura rever as condições desiguais modernas,
e fornecer outros modelos econômicos, sociais e políticos do primeiro mundo. Torna-se necessária,
por exemplo, a revisão do conceito de cosmopolitismo, por vários aspectos:

»» muitas metrópoles encontram-se na periferia, como a Cidade do México, Jacarta,


São Paulo, Istambul;

»» a dissolução do conceito “segundo mundo”;


»» o desenvolvimento econômico dos países asiáticos, de modo que eles se tornaram
potências econômicas, causando modificação no sistema cultural;

»» estados muçulmanos posicionaram-se culturalmente de maneira isolada;


»» guerras em detrimento de conflitos étnicos e de religião;
»» dispersão de estudiosos para o primeiro mundo;

»» avanço das redes de comunicação.


Esses são alguns acontecimentos que definiram novos moldes para as culturas periféricas,
precipitando a dimensão da cultura globalizante. É o que Appadurai define como “ampla

47 “The new cultural politics of difference are neither simply oppositional in contesting the mainstream (or malestream) for
inclusion, nor transgressive in the avant-gardist sense of shocking conventional bourgeois audiences. Rather, they are distinct
articulations of talented (and usually privileged) contributors to culture who desire to align themselves with demoralized,
demobilized, depoliticized, and disorganized people in order to empower and enable social action and, if possible, to enlist
collective insurgency for the expansion of freedom, democracy and individuality.” WEST, 1994, p. 204.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

modernidade”.48 E aqui se delineia o debate acerca da identidade nacional, da representação, da


etnicidade, da diferença e da subalternidade.

Os estudos pós-coloniais, em oposição à antropologia clássica e à histiriografia tradicional,


reescrevem a história de modo periférico e desconstroem a hegemonia ocidental. Assim, ocorre
uma reavaliação de valores, sobretudo do cosmopolitismo tradicional, uma mudança dos cânones
culturais.

Bruce Robbins afirma que:

O interesse do termo cosmopolitismo está localizado, então, não na sua total


extensão teórica, na qual se transforma numa fantasia paranoica de ubiquidade
e onisciência, mas, ao invés disso (paradoxalmente) nas suas aplicações locais,
onde o ideal irrealizável produz uma pressão normativa contra alternativas
como a tão na moda “hibridização”.49

Grandes metrópoles vivem o chamado cosmopolitismo periférico. As regiões de contato entre


o primeiro e o terceiro mundo multiplicam-se, há zonas de um no outro, um espaço intersticial,
denunciando um capitalismo transnacional. É aqui que a teoria pós-colonial encontra os seus
objetos, justamente nesse fervor cultural.

A crítica formada nesse processo de enunciação de discursos de dominação


ocupa um espaço que não está nem dentro nem fora da história do domínio
ocidental, mas numa relação tangencial com ele. É o que Homi Bhabha chama
de in-between, entrelugar, uma posição híbrida da prática teórica, ou o que
Gayatri Chakravorty Spivak denomina catacrese; “a reversão, o deslocamento
e a posse do aparato dos códigos valorativos”.50

Muito já foi problematizado acerca de noções de representatividade, identidade, alteridade,


hibridismo, colonização, porém, como o pós-colonialismo, hierarquias e termos são questionados
acerca de seu caráter utilitário e de continuidade. “A pós-colonialidade representa uma resposta
a uma necessidade genuína: a necessidade de superar a crise de entendimento produzida pela
inabilidade das velhas categorias em dar conta do mundo.”51

Na América Latina, a teoria pós-colonialista associa-se àquelas pós-modernas e aos conceitos pós-
estruturalistas, ao avaliar assuntos que tangem à época moderna e o desenvolvimento social. E aqui,
nos deparamos com o conceito de hibridismo, tão caro aos estudos culturais desses países na década
de 1990. Em “Culturas híbridas – estrategias para entrar y salir de la modernidad”, Canclini
defende uma abordagem transdisciplinar das sociedades latino-americanas na contemporaneidade,

48 APPADURAI, Arjun. La modernidad desbordada. Buenos Aires: Trilce/Fondo de Cultura Económica, 2001.
49 “The interest of the term cosmopolitanism is located, then, not in its full theoretical extension, where it becomes a paranoid
fantasy of ubiquity and omniscience, but rather (paradoxically) in its local applications, where the unrealizable ideal produces
normative pressure against such alternatives as, say, the fashionable ’hibridization.’” ROBBINS, 1992, p. 183.
50 “Criticism formed in this process of the enunciation of discourses of domination occupies a space that is neither inside or
outside the history of western domination but in a tangential relation to it. This is what Homi Bhabha calls an in-between,
hybrid position of practice, or what Gayatri Chakravorty Spivak terms catachresis; ’reversing, displacing, and seizing the
apparatus of value-coding.’” PRAKASH, 1992, p. 8.
51 “Postcoloniality represents a response to a genuine need, the need to overcome the crisis of understanding produced by the
inability of old categories to account for the world.” DIRLIK, 1994, p. 352.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

devido à sua “heterogeneidade multitemporal”. E o autor procura por uma nova definição de
modernidade, pautado no processo de hibridização.

Las reconversiones culturales que analizamos revelan que la modernidad no


es sólo un espacio o un estado al que se entre o Del que se emigre. Es una
condición que nos envuelve, en las ciudades y en el campo, en las metrópolis y
en los países subdesarollados. Con todas las contradicciones que existen entre
modernismo y modernización, y precisamente por ellas, es uma situación de
tránsito interminable en la que nunca se clausura La incertitumbre de lo que
significa ser moderno.52

Canclini preocupa-se com a modernidade e seus desdobramentos latino-americanos, em que


o multiculturalismo e a hibridização tomam o centro de seus questionamentos. Após escrever
“Consumidores y ciudadanos” (1995), o autor se debruça sobre uma nova configuração da identidade
urbana latino-americana moderna, de modo abrangente e focando na indústria cultural, chegando,
assim, a um debate sobre o pós-moderno e a globalização.

As metrópoles, agredidas pelo crescimento desorganizado e multiculturalismo em estado de conflito,


são onde se dá a decadência das metanarrativas históricas e das utopias certas de um caminhar
humano ascendente e coerente. Até mesmo em localidades com muitos signos do passado, como a
Cidade do México, há um olhar perplexo diante do devir que aniquila a temporalidade vivencial em
prol de relações e conexões espaciais simultâneas.53

Figura 8: Catedral Metropolitana da Cidade do México

Em “Imaginários Urbanos” (1997), Canclini retoma seu questionamento sobre o contexto de


globalização na contemporaneidade e a hibridização cultural, dando ênfase à desterritorialização e
reterritorialização na América Latina, denunciando algumas interpretações errôneas por parte das
teorias pós-coloniais.

Hay que aclarar en seguida que este reordenamiento global de las culturas no
elimina las desigualdades ni la asimetría entre las metrópolis y las sociedades
periféricas. Sin embargo, tampoco estamos en régimen de desigualdades
52 CANCLINI, 1990, p. 333.
53 CANCLINI, 1995, p. 130.

38
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

comprensible con nociones de otro tiempo, como colonialismo o imperialismo.


Es necesario construir una nueva conceptualización que vincule lãs
desigualdades con las hibridaciones, de acuerdo con esta descentralización de
los mercados globalizados, que ya no puede ser explicada, como hace Homi K.
Bhabha, oponiendo La hibridación colonial a la hibridación de la resistencia.54

É natural que os países latino-americanos preocupem-se com conceitos como pós-modernidade e


globalização, justamente pela modernização que ocorre de maneira não igualitária e descompassada
com os centros.55

Uma vez que essa mesma heterogeneidade e latência arcaica que aparecem
junto com a aspiração pela modernidade é transformada em uma fonte
de exotismo na mente europeia ou norte-americana, a América Latina é
contaminada pelo peso prestigioso daquelas culturas (exóticas para os olhos
latino-americanos, por sua vez), catalisando, com a “consciência de identidade”
o que era meramente projeção de um outro idealizado. Neste sentido, os
Estudos Culturais Latino-Americanos, sejam eles conduzidos no continente ou
no estrangeiro, assumem um contraefeito ideológico que não é aparente no
caso dos Estudos Culturais puros e simples.56+

Os estudos culturais latino-americanos abordam o problema da subalternidade. A exemplo do


Subaltern Studies Group57, teóricos pensaram na criação de um grupo58 a fim de fazer oposição à
histiriografia de visão elitista, recuperando o caráter específico dos subalternos e que possa corrigir
distorções ocorridas pelas leituras hegemônicas. Para tanto, é necessária também uma revisão nos
conceitos de nação, identidade nacional, política e cultura.

Representar a subalternidade na América Latina, em quaisquer das formas


que ela toma, em qualquer lugar que apareça – nação, hacienda, local de
trabalho, casa, setor informal, mercado negro –, achar o espaço em branco
onde ela fala como um sujeito social político, requer que nós exploremos
as margens do estado. [...] Nós precisamos ser cuidadosos, no processo de
conceituar a subalternidade, para não cairmos na armadilha do problema,
dominante nas articulações prévias da liberação nacional [...], da elite nacional
como subalterna, ou seja, como tradutor, transcrevente, intérprete, editor:
evitar, em outras palavras, a construção das intelligentsias pós-coloniais como
“arrendatários” na hegemonia cultural metropolitana.59
54 CANCLINI, 1997, p. 44.
55 CANCLINI, 1999; MOREIRAS, 2001.
56 “Once this same heterogeneity and archaic latency that goes hand in hand with the aspiration to modernity is transformed
into a source of Latin American exoticism in the European or North American mind, it rebounds off Latin America with
the prestigious weight of those cultures (exotic, in their turn, to the eyes of Latin America), catalizing, with ‘consciousness
of identity’, what was merely the projection of an idealized Other. In this sense, Latin American Cultural Studies, whether
conducted from within the continent or abroad, assumes an ideological counter effect which is not apparent in the case of
Cultural Studies pure and simple.” SEVCENKO, 1993, p. 148.
57 Organização de acadêmicos sul-asiáticos liderados por Ranajit Guha.
58 Próximo ao Founding Statement do Grupo latino-americano de estudos subalternos.
59 “To represent subalternity in Latin America, in whatever form it takes wherever it appears – nation, hacienda, work place,
home, informal sector, black market – to find the blank space where it speaks as a social political subject, requires us to explore
the margins of the state. (...) We must be careful, in the process of conceptualizing subalternity, not to ensnare ourselves in
the problem, dominant in previous articulations of ’national’ liberation (...), of the national elite itself as subaltern, that is,
as transcriber, translator, interpreter, editor: to avoid, in other words, the construction of postcolonial intelligentsias as
’sharecroppers’ in metropolitan cultural hegemony.” LATIN AMERICAN SUBALTERN STUDIES GROUP, 1993, p. 119.

39
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Em todo esse questionamento está a dualidade centro/periferia, e a denúncia de uma crise de


centralidade em que o ocidente está inserido.

Antônio Cândido e a crítica cultural


Antônio Cândido realiza uma crítica cultural na contemporaneidade, isenta muitas vezes de seu
devido crédito. O teórico diz que o estado de pobreza e a falta de desenvolvimento das instituições
brasileiras impedem um pensamento científico organizado. “Acredito que muito de nossa crítica
cultural contemporânea, fundada na desestabilização simultânea do universal e do nacional, e dos
dispositivos historicistas de originalidade e influência, devem muito a Antônio Cândido, embora
raramente explicitem essa dívida”, conforme Célia Pedrosa60, que completa:

(ela) ensina uma rara lição, a lição do que se pode extrair da ousadia de estar
atento ao inusitado e aberto ao reconhecimento da dúvida – ao contrário de
uma grande maioria de críticos – inclusive dos que o reclamam como mestre
– que, diante da diferença e do desafio, optam pelo dogmatismo da recusa e da
desqualificação.

Antônio Cândido é referência para a sociologia e para a literatura brasileira, uma vez que faz uma
articulação dialética entre a produção literária e o contexto social e histórico. Dialética na medida
em que não é determinista, tampouco solipsista em sua estética.

Em “Crítica e Sociologia”, ele enfatiza que “toda mimese é uma forma de poiese”, por isso é necessário
atenção ao processo em que elementos contextuais tornam-se estruturais em uma obra de literatura.
Assim, ao se debruçar na estrutura formal e nas especificidades dos escritores, o leitor pode perceber
mais facilmente o valor social e histórico da obra. No ensaio “Dialética da malandragem”, Cândido se
debruça sobre “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, mostrando
sua veracidade no momento em que deixa de lado os moldes oitocentista do realismo naturalista
e costumbrista. Cândido encontra uma lacuna no que concerne a informações a respeito dos
personagens e seu contexto sociohistórico. É aqui, por meio deste espaço, que “Memórias” figuram
uma maneira de articulação desse contexto, que a sociologia compreenderá posteriormente – a
protagonista representa o “homem livre na ordem escravocrata” na sociedade brasileira do século
XIX.

Cândido procura sempre mostrar aqueles que foram os fundadores da literatura no Brasil. De fato,
o nacionalismo foi primordial para que ocorresse uma formação cultural no País, como acontece
em outras sociedades que também tiveram seu passado marcado pela colonização e suas formas
violentas. Dando atenção a tal observação, o literato coloca que os escritores são movidos pelo
desejo de se fazer uma literatura brasileira, a fim de alcançar uma identidade nacional, embora essa
identidade fique isenta de naturalidade.

Dessa maneira, Cândido reconhece o nacionalismo como ideologia. Porém, ocorre um paradoxo, na
medida em que muitas formas de nacionalismo são dadas justamente pelas culturas que exerceram
60 Célia Pedrosa é crítica literária, mestre e doutora em Letras, pós-doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
É organizadora de Crítica e valor (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008). Atualmente, é professora de Literatura Brasileira e Teoria
da Literatura da Universidade Federal Fluminense.

40
ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

o papel de colonizadores: a ideia de Estado-nação – uma postulação iluminista –, o conceito de “bom


selvagem” de Rousseau, o olhar de Chauteaubriand acerca da natureza e seu relacionamento com
a alteridade americana. Há, também, a ideia de que o nacionalismo poderia ser mais produtivo no
que se refere à arte, se, além de se favorecer das especificidades das localidades, pudesse valer-se de
elementos universalizantes, a fim de evitar o classificado como exótico, típico, ou mesmo simplista.

Antônio Cândido compreende a nacionalidade cultural e literária brasileira a partir de um olhar


antropofágico. Aqui podemos lembrar do tropicalismo, como também do entre-lugar-latino-
americano de Silviano Santiago.

O literato escolhe o ensaio como forma para sua escritura, pois, segundo ele, em detrimento do fato de
as instituições estarem pobres e atrasadas, não houve maneiras de ter um pensamento desenvolvido
e consolidado organisticamente, exercendo sua autonomia. Os intelectuais brasileiros, à época da
colonização, eram artistas, políticos e pensadores, como podemos identificar nos árcades mineiros,
em José de Alencar. Porém, há algo vantajoso identificado por Cândido: um pensamento híbrido,
maleável e imaginoso, na imbricação das ações de observar e de imaginar, como em Gilberto Freyre, 
Sérgio Milliet  e Sérgio Buarque de Holanda. Em suas obras, os pressupostos e métodos científicos
tradicionais unem-se a certa indisciplina, ou melhor, uma mobilidade, em que articula de maneira
dialética vários elementos por vezes opostos, como a relação entre o literário e o sócio-histórico.

Pautando-se nos estudos literários posteriores aos anos 1940, Cândido procura fazer uma integração
entre a perspectiva sociológica de Georg Lukács  e o textualismo do New Criticism, preenchido
por concepções do formalismo e do estruturalismo. Sem esquecer de lançar um olhar à crítica
impressionista, como a de Álvaro Lins, que se utiliza da sensibilidade ao avaliar as peculiaridades
de estilo em cada trabalho e em cada escritor – um desafio perante a racionalidade de um pensar
que se funda na coerência.

Mas o literato acredita que a literatura brasileira latino-americana ainda não detém toda a
originalidade dos autores da tradição europeia – o posicionamento crítico de Cândido está pautado
por valores muito questionados, a exemplo da originalidade estética e política de textos canônicos.
Ele referencia a literatura nacional quando da intenção de se construir um sistema cultural cuja
conversa entre escritores, obras e leitores, no âmbito de valores da estética e da política nacional,
são mais importantes do que se encaixar em algum cânone universalista.

O trabalho de Antônio Cândido é marcado por estética e pressupostos históricos convencionais


para um olhar de hoje, porém, reúne de maneira dialética alguns antagonismos e aponta
consequências contraditórias na uniformidade. Por isso, a crítica cultural contemporânea, que se
funda na desestabilidade ao mesmo tempo do universal e do nacional, da ferramenta historicista de
originalidade e influências, tem suas bases neste autor.

É válido lembrar que o teórico é da primeira geração de críticos que possuem formação universitária,
assim, se preocupa com a pesquisa e com a metodologia, além de toda a sistematização consequente,
preocupações raras na cultura. E ele pôde munir-se de seus saberes acadêmicos para quebrar com
a toda a rigidez dessa mesma formação. Aprende que lhe são caras toda a teoria e a metodologia,
e também o cotidiano, portanto, ambos devem ser muito bem observados e dada sua devida
importância. Por isso, valoriza a atividade do crítico jornalístico, e direciona seu olhar acolhedor a

41
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, que surgiam em discrepância com todo
o cânone de então. É aqui que percebemos a sua abertura para o inusitado e para reconhecer que
muitas vezes não possui ainda todas as ferramentas para julgar um trabalho, o que muitos críticos
não fazem, optando, diante do diverso, pelo dogmatismo da desqualificação.

A perspectiva de Antônio Cândido é historiográfica, e prima pela nacionalidade, ideologicamente


falando. Diante disso, ele não tem os trabalhos escritos na época barroca como brasileiros,
justamente por ainda não haver uma motivação nacionalista.61 O fato de extrema relevância é que o
literato articula diversidades, a fim de conversar a sensibilidade autônoma e a compreensão política
do que significa ser indivíduo.

61 Vale lembrar aqui de Benjamin acerca do barroco alemão, caminhando para as relações entre modernidade, alegoria, melancolia
e fragmentação. Ressaltamos também que o neobarroco ajudará a compreender a pós-modernidade artística. 

42
CAPÍTULO 6
A teoria crítica e a Escola de Frankfurt

A filosofia alemã, independente de seus ideais, esteve à frente do panorama intelectual do ocidente,
sobretudo entre os anos de 1850 e 1950, um intervalo temporal correspondente à criação do Estado
Germânico (II Reich – República de Weimar – II Reich) e sua elevação à potência mundial, destruída
pelas duas guerras.

Nesse período, críticos, a exemplo de Marx e Nietzsche, ascenderam diante das ciências sociais e
novas ideologias. A Escola de Frankfurt, cuja fundação deu-se em 1924, foi a última protagonista
da boa fase das ideias alemãs, de modo que todas as esferas da modernidade tornaram-se alvos de
crítica de seus comentadores.

A temporalidade da filosofia na Alemanha


É possível designar, após o final do século XVIII, cinco importantes períodos na filosofia moderna
alemã. Em um primeiro momento, estendido até 1860, houve a dominação do “idealismo clássico”,
nas ideias de Kant, Herder, Fichte, Schelling, Hegel e Schopenhauer. Karl Marx encabeçou o
segundo momento, juntamente com Friedrich Engels, com o materialismo filosófico, cujas obras
de maior relevância deram-se entre 1850 e 1880. Nietzsche dominou o terceiro momento, e suas
considerações ressonaram de maneira ímpar após 1900, ano de sua morte.

Adentrando o século XX, aparece o quarto momento, que influenciou parcela da filosofia
contemporânea, com as considerações de J. E. Husserl – fenomenologia –, de N. Hartmann –
ontologia – e de M. Heidegger – existencialismo.

Acompanhando a temporalidade do quarto momento, aparece o quinto, com a estruturação da


Frankfurt Schule, a Escola de Frankfurt, idealizada por Félix Weil, Max Horkheimer, Theodor
Adorno e Herbert Marcuse. Ernst Bloch e Erich Fromm também foram notórios, embora suas
considerações tenham se difundido após o exílio americano de ambos.

Oficialmente, a Escola chamava-se Instituts fur Sozialforschun62, Instituto de Pesquisa Social. Teve
sua fundação em um auditório da Universidade de Frankfurt, em 22 de junho de 1924, resultado
de um seminário – Erste Marxistische Arbeitswoche – em Turíngia, em meio a conflitos políticos
que ocorrriam em todo o país. Weil, Friedrich Pollock, Georgy Luckás, Karl Wittfogel, Karl Korsh e
Victor Sorge participaram.

62 A denominação original da Escola era mais abrangente: Institut für Forschungen über die Geschichte des Sozialismus und der
Arbeiterbewegung, über Wirtschaftsgeschichte und Geschichte und Kritik der politischen Ökonomie.

43
UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

Figura 9: Integrantes do simpósio sobre marxismo,


núcleo fundador da Escola (1923)

A união desses filósofos pôde constituir-se em uma escola, pelo fato de haver uma institucionalidade
(cuja representação deu-se pelo Instituto para Pesquisas Sociais), um mestre-de-pensamento (posto
ocupado inicialmente por Horkheimer, depois por Adorno) e um programa de ação, divulgado já no
primeiro discurso, em 1931. Falavam de um “novo paradigma”, em que o materialismo histórico e a
psicanálise fundiam-se e abriam espaço para mais pensadores, no caso, Schopenahauer e Nietzsche,
o que foi caracterizado como Teoria Crítica. Havia também um periódico com os escritos de seus
integrantes e colaboradores.63 Integravam a escola: Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter
Benjamin, Herbert Marcuse, Leo Löwenthal, Erich Fromm, Jürgen Habermas, entre outros. Essa
teoria difundiu e disseminou expressões como “indústria cultural” e “cultura de massa”.

A Escola foi contemporânea à República de Weimar (1918-1933), que buscou, pela primeira vez,
implementar a democracia na Alemanha, em meio à turbulência internacional acarretada pela
Revolução Russa (1917), pelo governo ditatorial bolchevique e pelo governo fascista. Em 1933, o
nazismo transcorre por toda a sociedade alemã rapidamente, forçando os intelectuais, muitos de
proveniência judaica, a sair do país nesse ano.

Foram em direção a Genebra, depois a Paris, México e Estados Unidos, quando se fixaram na
Universidade de Columbia, em Nova York. Passados vinte anos, Adorno e Pollock retornaram para
a Alemanha, juntamente com Horkheimer, que então, renegou suas teorias passadas. Vale salientar
que esse fato marcou todos os participantes, sobretudo após o suicídio de Benjamim, em 1940, não
resistindo à tensão psicológica.

Importante lembrar que o Instituto originou-se pela liderança de Félix Weil, com então 25 anos, que
convenceu seu pai, Herman Weil64, a financiar os integrantes da instituição de estudos marxistas.
Deveria ser um apêndice da Universidade de Frankfurt, consequentemente, também do Ministério
da Educação e Cultura prussiano. Seria autônomo, com estrutura predial própria e ganharia
anualmente 120 mil marcos dos mecenas.

O Instituto Marx-Engels, em Moscou, cujo fundador foi D. Riazanov, na União Soviética, em 1920,
inspirou a criação da Escola. Há quem denuncie que Félix Weil desejava entregar a instituição
63 Rolf Wiggershaus – A Escola de Frankfurt, 2002, p.34.
64 Negociante judeu que fizera fortuna na Argentina.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

de cunho marxista a um Estado Soviético reinante na Alemanha em algum período. Apenas de


cunho comparativo, Kant e Hegel viram de perto as ações de Roberspierre e Napoleão, enquanto os
integrantes da Escola de Frankfurt depararam com Lenin e Stalin.

Muitos intelectuais buscaram modelos teóricos multidisciplinares, juntamente com suas


experiências de campo, a fim de melhor compreender os acontecimentos de então, e diversos
seguiram Horkheimer e Adorno. É verdade que possuíam um lado de esquerda, mas como não se
aliavam a nenhum partido e a seus dogmas, isso não prejudicou suas pesquisas. A criticidade não
tinha o propósito revolucionário, uma vez que se voltava para os estudos e publicações, ficando
distante de uma possível mudança em massa da sociedade pós-Primeira Guerra Mundial.

Havia, de fato, uma crise que atingia as ideias marxistas, mostrando ainda mais a incapacidade
de revolução. Até mesmo Carl Grünberg65, na primeira aula do Instituto, declarou-se “adepto do
marxismo”, mas que teria que ser entendido “não num sentido partidário, mas estritamente num
sentido cientifico”.66

“Estudos sobre Autoridade e Família” foi a primeira obra do grupo, escrita em Paris, quando
interrogam acerca da verdadeira vocação dos operários para a revolução social. Dessa maneira,
ocorre um distanciamento entre os intelectuais e os trabalhadores, ratificado pelo lançamento da
obra “Dialética do Esclarecimento”, em 1947, em Amsterdã, onde a expressão “marxismo” já fora
eliminada. Conceitos da Teoria Crítica unem-se à psicanálise com Erich Fromm e Marcuse. Esse
último permaneceu em solo americano após o retorno do Instituto para a Alemanha, em 1948,
e foi quem mais agregou bons olhares para suas produções, inspirando movimentos pacifistas,
sobretudo os de estudantes, de importância ímpar em 1968 e 1969. Porém, Adorno é considerado o
principal filósofo da Escola de Frankfurt, continuando sua intenção de transformar dialeticamente
a racionalidade ocidental, estruturada na obra “Dialética Negativa”. Após sua morte, a Escola entra
em um segundo momento, liderado por Jürgen Habermas, que foi assessor de Adorno e depois seu
crítico mais voraz.

A sociedade de comunicação de massa e a


indústria cultural
De que maneira os meios de comunicação de massa influenciam uma sociedade? Como se dá a
mobilização dos cidadãos para assistirem a um jornal de notícias com a mesma postura que se vê um
filme? A Escola de Frankfurt agregou os precursores intelectuais que denunciaram o aniquilamento
de fronteiras entre a informação, o entretenimento, o consumo e a política, causados pelos meios
midiáticos, e suas consequências nocivas para se formar uma sociedade crítica. A chamada Teoria
Crítica se opõe, portanto, à Teoria Tradicional, que tem como característica a sua neutralidade,
enquanto aquela analisa as condições sociopolíticas e econômicas em suas criticas, almejando a
modificação da realidade.

Em “Dialética do Iluminismo”, de 1947, Adorno e Horkheimer propuseram a definição de indústria


cultural como um sistema político e econômico que visa à produção de bens culturais, como filmes,
65 Primeiro diretor da Escola de Frankfurt. Veterano historiador do socialismo.
66 Festrede gehalten, 22 de junho de 1924.

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

livros ou músicas populares, tratados como bem mercadológico e, consequentemente, tornando


uma estratégia para controlar a sociedade.

Vamos à questão: os meios de comunicação de massa pertencem a empresas em busca de lucro, e


que não têm a pretensão de modificar o sistema econômico atuante a fim de continuar com a ação
lucrativa. Desse modo, são colocados à venda seriados norte-americanos e músicas, por exemplo,
como produtos de consumo, não como bens culturais, retardando a formação crítica dos cidadãos,
mantendo-se sob a alienação do real.

Filmes e rádio não têm mais necessidade de serem empacotados como arte.
A verdade, cujo nome real é negócio, serve-lhes de ideologia. Esta deverá
legitimar os refugos que de propósito produzem. Filme e rádio se autodefinem
como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores-
gerais tiram qualquer dúvida sobre a necessidade social de seus produtos.67

Adorno coloca que os consumidores constituem-se em vítimas da indústria, de modo que seus
hábitos, opiniões e gostos cairiam em uma padronização, consumindo produtos de pouca qualidade.
Nessa esfera, a denominação “indústria cultural” passou a ser utilizado em lugar de “cultura de
massa”, pois se caracteriza por uma ideologia que os sujeitos recebem por imposição, longe de ser
uma cultura popular.

A indústria cultural, portanto, serve à dominação política. Não é por acaso que Adorno e Horkheimer
falavam dos meios de comunicação de massa como aniquiladores dos propósitos do Iluminismo do
século XVIII. Esses acreditavam na libertação dos sujeitos perante a mitologia, e isso em detrimento
do progresso da razão e da tecnologia, de modo que a sociedade se tornaria livre e permeada pela
democracia.

Lembramos que os judeus da Escola de Frankfurt sofreram a emboscada nazista, que se apoiou
nos meios de comunicação como instrumentos ideológicos para realizar sua propaganda. De fato,
o nazismo mostrou como a técnica, que libertou o homem iluminista – escravizou os sujeitos
modernos.

A tecnologia e a ciência são, por vezes, utilizadas para camuflar as desigualdades entre os sujeitos,
de modo que eles fiquem alheios à sua condição. Ao invés de ler, frequentar teatros e concertos,
questionando e tornando-se mais engajado na política, indivíduos retomam na esfera doméstica
os mesmo valores que permeiam no cotidiano de seu emprego. Dessa maneira, a indústria cultural
domina e controla os cidadãos, constituindo-se em consumidores passivos.

Entre os anos 1970 e 1980, os teóricos da escola de Frankfurt tornaram-se alvo de inúmeras críticas
por uma concepção reducionista dos receptores, devido a alguns estudos que denunciaram que as
pessoas não se deixam manipular facilmente, como acreditava Adorno. Há também o fato de que as
produções culturais não provêm somente do meio industrial. Não obstante, Adorno e Horkheimer
denunciaram ineditamente o “totalitarismo eletrônico”, de maneira que o entretenimento e questões
de vital importância são colocados em apenas um produto, e onde políticos são eleitos sem qualquer
criticidade, situações que permeiam até hoje.

67 Dialética do Iluminismo.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

Os teóricos de Frankfurt
A corrente de pensamento de Frankfut tem suas considerações, sobretudo, na Revista de Pesquisa
Social, de extrema importância para quem deseja compreender o que se passava na Europa do século
XX. Seus intelectuais refletiam criticamente a respeito da economia, da sociedade e da cultura, e
alguns deles ainda sobre política. Fatos que fizeram com que eles se tornassem alvo de perseguição
dos conservadores, defensores dos regimes totalitários.

A revista, após a mudança de sede (após 1933) para Genebra, depois para Paris e logo para Nova
York passou a ser chamada de “Estudos de Filosofia e Ciências Sociais”. Quando os aliados tomaram
o poder (Segunda Guerra Mundial), o Instituto foi reorganizado novamente na Alemanha, em 1950.

Alfred Schmidt ratificou a importância da revista, uma vez que, a seu ver, a autonomia intelectual,
as análises críticas e os protestos humanísticos se imbricam de maneira singular. Quem colaborava
com seus escritos, colocava-se em oposição àqueles periódicos e instituições demasiadas
acadêmicas. Possuíam, sim, um mesmo pensamento, porém, não anulando os interesses de cada
um individualmente, e acompanhando os rigores científicos.

Gian Enrico Rusconi acredita que as ideias do grupo só podem ser compreendidas se relacionadas
à tradição esquerdista alemã. O estudioso é da opinião de que o significado histórico e político das
críticas da revista só existe porque exerce certa continuidade em conformidade com o marxismo e a
ciência social anticapitalista.

Esse posicionamento teórico desenvolveu-se em meio ao nazismo, ao estalinismo e à Guerra Fria,


por isso a “Teoria Crítica” constitui-se na expressão da crise teórica e política da época, discorrendo
de maneira radical sobre esses problemas. Talvez por isso tenham influenciado tanto os movimentos
de estudantes na Alemanha e nos Estados Unidos, no final dos anos 1960.

Colaboraram com a revista Herbert Marcuse (1898-1979), autor de “Eros e Civilização” e “O


Homem Unidimensional” (ou “Ideologia da Sociedade Industrial”), e Erich Fromm (1900-1980),
direcionado para a psicologia social, relacionando a psicanálise freudiana ao marxismo. Também
Siegfried Kracauer, cuja obra “De Caligari a Hitler” analisava o cinema alemão, e Leo Löwenthal,
cunhado na sociologia da arte e nos pensamentos estéticos. Wittfogel, F. Pollock e Grossmann
discorreram acerca da economia política.

Benjamin, Adorno e Horkheimer – que podem ser ligados às ideias de Jürgen Habermas – uniram-
se de forma coesa, em uma maior unidade teórica.

Walter Benjamim
A biografia mais conhecida talvez seja a de Walter Benjamim, em detrimento de sua morte trágica aos
48 anos, marcando de maneira singular o restante do grupo. Adorno falava que sua personalidade
era enigmática, sobre a contradição de seus interesses e dos momentos em que se comportava de
maneira ríspida e, em outros, muito polido. Essa personalidade mais se aproximava da vibração

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UNIDADE ÚNICA │ ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA

dos artistas que da racionalidade dos filósofos. Gerschom Scholem, amigo de Benjamim desde os
tempos da juventude, falava de sua profunda melancolia.

Benjamin nasceu em Berlim, no ano de 1892, descendente de israelitas. Estudou em diversas


universidades, a partir de 1913, e sempre realizou muitas ações políticas e culturais entre seus
companheiros. Casou-se em 1917 e estabeleceu-se em Berna (Suíça), quando dissertou sobre “O
Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão”.

Traduziu os “Quadros Parisienses de Baudelaire” (1821-1867) em 1921, e logo foi convidado por
Hugo Von Hofmannsthal68 (1874-1929) a participar, com uma publicação, da revista “Novas
Contribuições Alemãs”. Aqui o público entrou em contato com seu primeiro ensaio significativo,
“As Afinidades Eletivas de Goethe”. Mas, em 1928, a Universidade de Frankfurt não aceitou sua
tese “As Origens da Tragédia Barroca na Alemanha”, e Benjamin, então, passou a realizar críticas
jornalísticas e traduções. Foi nesse período que trabalhou na tradução de “À Procura do Tempo
Perdido”, de Proust (1871-1922). Também se dedicou ao projeto de uma obra na área de filosofia da
história, “Paris, Capital do Século XIX”, mas não chegou a terminá-la.

Na década de 1930 ocorreu o falecimento de seus pais, divorciou-se de sua mulher e houve a
ascensão do totalitarismo nazista. Pôde ainda fazer a publicação de alguns trabalhos, mas com a
utilização de pseudônimos. Seus trabalhos de extrema notoriedade, “A Obra de Arte na Época de
suas Técnicas de Reprodução”, “Alguns Temas Baudelairianos”, “O Narrador” e “Homens Alemães”,
foram escritos em Paris, após seu refúgio a partir de 1935.

Os intelectuais de Frankfurt possuíam vários interesses, por isso não se reuniam em torno de uma
escola como é concebida na tradição, mas se posicionavam criticamente diante das questões culturais
do século XX. Assim sendo, sistematizar o pensamento da Escola é algo inconcebível, porém, pode-
se fazer uma composição de suas ideias.

Benjamin refletia, sobretudo, acerca das técnicas reprodutivas de uma obra de arte, de maneira
particular sobre o cinema, e o que esse fato acarreta social e politicamente. Adorno debruça-se sobre
o conceito de “indústria cultural” e a função de uma obra artística. Os fundamentos epistemológicos
do posicionamento dos demais intelectuais são tratados por Horkheimer. Habermas discorre acerca
das ciências e das técnicas, ideologicamente.

A primeira significativa teoria materialista da arte, e se dá pelas mãos de Benjamim, ao analisar o


que a destruição da “aura” de uma obra de arte – tida até então como objetos singulares e providos
de unicidade – pode acarretar. A “aura”, segundo o teórico, é dissolvida diante das reproduções que
são feitas a partir do original, assim, a obra perde seu cunho aristocrático e religioso, um objeto de
culto dirigido a poucos. Assim, a ausência aurática atinge uma dimensão social, visto que os avanços
técnicos e a mudança de percepção estética estão estreitamente ligados.

O cinema é o que mais carregou essas novas percepções, mudando qualitativamente as relações
entre a arte e as massas. A “aura” de Macbeth, no teatro, está relacionada de maneira indissolúvel
com a do ator, e sentida pelos espectadores, enquanto nas telas de cinema isso não se dá, pois há um
aparelho, uma máquina, entre os atores e o público.
68 Poeta e dramaturgo.

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ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA │ UNIDADE ÚNICA

Benjamim salienta que a quebra da “aura” liquida o elemento tradicional da gênese da cultura,
porém, isso não é de todo negativo, uma vez que outra forma de relacionamento da arte com o
público, as massas, ocorre.

Theodor Wiesengrund-Adorno
Nascido no ano de 1903, Adorno obteve a sua graduação em Filosofia em Frankfurt, sua cidade natal.
Pôde estudar composição musical com o protagonista da revolução musical pós-moderna, AIban
Berg (1885-1935). Elaborou, em 1932, o ensaio “A Situação Social da Música”, primeiro de muitos
com essa temática: “Sobre o Jazz” (1936), “Sobre o Caráter Fetichista da Música e a Regressão da
Audição” (1938), “Fragmentos Sobre Wagner” (1939) e “Sobre Música Popular” (1940-1941).

Deu aulas na Universidade Oxford, de 1933 a 1937, durante seu exílio na Inglaterra. Já nos Estados
Unidos, escreveu, juntamente com Horkheimer, “Dialética do Iluminismo” (1947), e em comunidade
com outros pensadores “A Personalidade Autoritária” (1950), tido como fundamental na sociologia
empírica. No ano dessa última publicação, Adorno pôde retornar à Alemanha e instituir novamente
o Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt.

Em 1969 falece o filósofo, após escrever ainda “Para a Metacrítica da Teoria do Conhecimento –
Estudos Sobre Husserl e as Antinomias Fenomenológicas” (1956), “Dissonâncias” (1956), “Ensaios
de Literatura I, II e III” (1958 a 1965), “Dialética Negativa” (1966), “Teoria Estética” (1968) e “Três
Estudos Sobre Hegel” (1969).

Adorno considera ingênuo o otimismo de Benjamim diante da função revolucionária da arte


cinematográfica. Segundo o teórico, o conceito de “técnica” aloja um antagonismo, uma vez que
ele pode ser definido de dois modos: “enquanto qualquer coisa determinada intraesteticamente” e
“enquanto desenvolvimento exterior às obras de arte”. O conceito de técnica não pode ser absoluto,
compreende uma origem histórica, passível de desaparecimento.

Com a produção em série e com a igualdade, as técnicas reprodutivas agravam a diferença entre
a natureza da própria obra de arte e do sistema social. Consequentemente, se as técnicas exercem
uma dominação sobre a sociedade, isso ocorre porque a elite econômica maneja essa dominância.
Por isso, segundo Adorno, tanto o cinema quanto o rádio não podem ser tidos como arte, “O fato de
não serem mais que negócios – escreve o teórico – basta-lhes como ideologia”. São apenas negócios,
com a finalidade comercial realizada por meio da exploração dos bens culturais, e essa exploração é
que se denomina “indústria cultural”.

O termo tornou-se público na “Dialética do Iluminismo” (1947), de Horkheimer e Adorno, e esse


esclareceu, em 1962, que a expressão pretendia entrar no lugar de “cultura de massa”, que serve
apenas para adular os interesses da elite que domina os meios de difusão.

Os que defendem pronunciar “cultura de massa” têm a intenção de que os sujeitos acreditem
que essa cultura surge de maneira espontânea do interior do povo. Segundo Adorno, cuja crítica
é divergente dessa ação, a indústria cultural, querendo uma integração vertical daqueles que

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consomem seus produtos, realiza uma adaptação desses seus produtos ao mercado consumidor e
atua como determinadora do próprio consumo.

Dessa maneira, os sujeitos são consumidores ou empregados, apenas, em uma visão definitivamente
reducionista da indústria cultural, detentora de uma ideologia dominante, capitalista, que impõe
sentido ao sistema.

Parece que as relações entre os indivíduos são falseadas nesse contexto, também o relacionamento
com a natureza, congratulando-se em um anti-iluminismo. Nas palavras de Adorno, a indústria
cultural “impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de
decidir conscientemente”.

Nem mesmo o ócio escapa dessa ideologia, que, influenciado pelo capitalismo, a diversão parece ser
uma continuação do trabalho, de toda a mecanização diária; quem procura uma maneira de escapar
do processo alienado, acaba sendo posto, novamente, em submissão a ele. A mecanização, não há
dúvidas disso, está em todas as esferas da vida dos homens, desde o seu labor até os produtos que
são fabricados para sua distração e suas ações subsequentes.

São estabelecidas, cada vez mais, situações em que ocorre o comércio fraudulento, onde os
consumidores são enganados quando lhes prometem algo que não pode ser cumprido. A indústria
cria “necessidades” para o consumidor, ele se contenta com o ofertado, e compreende que é
apenas um elemento que consome um objeto da indústria – aqui se delineia a dominação natural e
ideológica. Essa dominação, segundo Max Jiménez i Jiménez, tem como mola propulsora a vontade
de ter, o desejo de posse que se renova em detrimento dos avanços técnicos e científicos, sob o
controle da indústria cultural. Assim, universo social seria um universo de coisas, cerrado, sem
possibilidade de libertação. Mas em “Teoria Estética”, Adorno discorre acerca da possibilidade de
um caminho para a salvação.

Kothe comenta que, em “Teoria Estética”, “Adorno oscila entre negar a possibilidade de produzir
arte depois de Auschwitz e buscar nela refúgio ante um mundo que o chocava, mas que ele não podia
deixar de olhar e denominar”. Os movimentos de contestação radical criticaram arduamente essa
postura, acusando-o de se refugiar na teoria e na arte para se esquivar da práxis política, e Adorno
responde: “ou a humanidade renuncia à violência da lei de talião, ou a pretendida práxis política
radical renova o terror do passado”.

Nesse contexto, a obra de arte seria a antítese social, em que as antinomias e antagonismos estão
nela constituídos como questões inerentes de sua forma. Dessa maneira, Adorno posiciona-se
contrariamente à práxis brutal da sobrevivência. Mas na relação entre artista, obra e receptores, o
produto artístico tem prioridade epistemológica, e se coloca como ser autônomo.

A obra de arte, portanto, é tida como aparência, pois se difere do real, possui um caráter aparente da
paisagem retratada, do espírito daquilo que manifesta, e mesmo de si mesma, pois almeja ser o que
não pode, ou seja, a perfeição em uma realidade de imperfeições, a permanência na efemeridade.

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Max Horkheimer
Nascido em Stuttgard no ano de 1885 (e falecido em 1973), Max Horkheimer tinha origem judaica,
não diferente dos demais intelectuais da Escola de Frankfurt. Seu pai era um industrial, Mortitz
Horkheimer, e ele era quem deveria tomar o seu lugar. Intermediado por Pollock, Horkheimer
se aliou à elaboração do Instituto para a Pesquisa Social, tornando-se dirigente no lugar de Carl
Grünberg, em 1931.

Horkheimer tem Stuttgart como sua terra natal, nascido em 1895. Seu falecimento foi em Nuremberg,
em 1973. De 1930 a 1934, lecionou em Frankfurt, depois, refugiado, deu aulas na Universidade de
Colúmbia, nos Estados Unidos, onde ficou até retornar para a Alemanha, em 1949, para organizar
novamente o Instituto de Pesquisas Sociais, juntamente com Adorno.

Dentre seus escritos – grande parte está publicada na Revista de Pesquisa Social – estão “Inícios da
Filosofia Burguesa da História” (1930), “Um Novo Conceito de Ideologia” (1930), “Materialismo e
Metafísica” (1930), “Materialismo e Moral” (1933), “Sobre a Polêmica do Racionalismo na Filosofia
Atual” (1934), “O Problema da Verdade” (1935), “O Último Ataque à Metafísica” (1937) e “Teoria
Tradicional e Teoria Crítica” (1937).

Horkeimer parte da teoria marxista para sua “Teoria Crítica”, também fazendo oposição à “teoria
tradicional”. Para ele, o marxismo não tem a pretensão de um olhar conclusivo da totalidade, mas
a preocupação de desenvolver de maneira concreta o pensamento. Assim, as categorias que seguem
as ideias de Marx não são concebidas como conceitos estanques, mas indicando investigações
posteriores, de modo que os resultados incidam sobre elas mesmas.

Ao se valer da expressão “materialismo”, Horkheimer não está repetindo os significados de Marx


e Engels, mas o utiliza sob a visão dos momentos subjetivos e objetivos que podem dar-se na
interpretação desses teóricos. E quando se refere a “teoria tradicional”, ele compreende a ideia de
ciência que resulta do processo de acessão que relembram o “Discurso do Método de Descartes”
(1596-1650).

Descartes definiu a ciência, idealmente, como sistema dedutivo em que as proposições que se referem
a certo campo estariam relacionadas de maneira que a maioria poderia derivar de poucas delas.
Essa relação deveria se dar de maneira direta, sem contradições, como se fosse um plurisistema
matemático de signos.

Horkheimer reconheceu que a concepção descartiana era legítima e válida, contribuindo para
controlar tecnicamente a natureza. Porém, há um efeito nocivo, uma vez que o trabalho direcionado
do especialista fica alheio dos demais, sobretudo das conexões do mundo e dos setores produtivos.
Disso resulta o aspecto ideológico de processos de trabalhos autônomos, e seu direcionamento
deduz-se da natureza interior de seu objeto.

O pensamento que prima pela cientificidade busca organizar a experiência, que acontece embasada
em atuações sociais, mas o que elas significam para a sociedade como um todo não se insere nas
determinações da “teoria tradicional”. Melhor dizendo, essa teoria não se detém acerca da gênese
social dos problemas, dos acontecimentos efetivos da realidade onde a ciência e seus escopos

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são utilizados. Ocorre, então, uma divergência, na qual a ciência tradicional, justamente pela sua
pretensão de rigor para fins de aplicação prática, torna-se demasiada abstrata, distante da realidade,
mais que a teoria crítica. Esta dá importância social à ciência, e, assim, não chega à conclusão de um
conhecimento pragmático, mas enaltece a reflexão autônoma, onde a análise prática da ideia não
é o mesmo que sua verdade. A teoria crítica vai além do subjetivismo e do realismo que permeia
o positivismo, ícone da teoria tradicional. Ela visa ao descobrimento do conteúdo cognoscitivo
da práxis histórica. Os acontecimentos sensíveis, que na visão do positivismo possuem caráter
valorativo irredutível, são, segundo Horkheimer, “pré-formados socialmente de dois modos: pelo
caráter histórico de objeto percebido e pelo caráter histórico do órgão que percebe”.

Na conferência intitulada “Sobre o Conceito de Razão” (1951), encontramos a crítica de Horkheimer


ao positivismo, especialmente acerca dos aspectos políticos. Aqui ele coloca que o positivismo
conceberia uma racionalidade subjetiva, formal e instrumental, em que há somente um critério
de verdade, caraterizado pela sua operatividade, ou melhor, o papel que exerce na dominação dos
sujeitos e da natureza. Assim, os conceitos não mais expressariam as características qualitativas
das coisas, mas somente organizariam um material do saber; são como abreviaturas de coisas
particulares. Nesse contexto, a razão solta-se do pensamento acerca dos fins e fica incapacitada
de afirmar a irracionalidade de um sistema político ou econômico. A teoria crítica considera que a
existência social atua de modo a determinar a consciência, dessa maneira, diagnostica a situação
mundana.

Horkheimer estimula os indivíduos a protestarem contra a ordem totalitária e seu aceite resguardado.
No momento em que se posiciona contrário à razão instrumental e subjetiva do positivismo, mostra
que diverge teoricamente, mas que não pretende solucionar a dualidade entre razão subjetiva e
objetiva por meio da teoria. Essa resolução ocorrerá apenas quando o relacionamento entre os
sujeitos e desses com a natureza entrará em outro âmbito, que não o de dominação. Ambas as razões
poderão unir-se com um trabalho da totalidade social, ou melhor, da práxis histórica.

Jürgen Habermas
Habermas é um seguidor das ideias da Escola de Frankfurt. Nasceu em Gummersbach, no ano de
1929 e obteve a sua licenciatura em 1954, com “O Absoluto e a História”, dissertação sobre Schelling
(1775-1854). Foi colaborador no Instituto de Pesquisa Social, acompanhando Adorno, entre os anos
de 1956 e 1959 e tornou-se professor na New Yorker New School for Social Research em 1968.

Escreveu “Entre a Filosofia e a Ciência – O Marxismo como Crítica” (1960), “Reflexões Sobre o
Conceito de Participação Pública” (publicado em 1961 ao lado de outros teóricos, na obra intitulada
“O Estudante e a Política”), “Evolução Estrutural da Vida Pública” (1962), “Teoria e Práxis” (1963),
“Lógica das Ciências Sociais” (1967), “Técnica e Ciência como Ideologia” (1968), e “Conhecimento
e Interesse” (1968).

Habermas e Horkheimer caminham com suas teorias em um mesmo sentido. Habermas coloca
a necessidade crítica de uma teoria que deve primar pelo engajamento nas atuais lutas políticas,

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fazendo-se em prol de um porvir revolucionário; assim, uma ideologia dá-se ideológica e criticamente,
também como um questionamento revolucionário do presente.

O filósofo detém um projeto de filosofia que se sintetiza em torno de um posicionamento crítico ao


positivismo e, consequentemente, ao tecnicismo. Esse se constitui em uma ideologia que procura
colocar em funcionamento, na prática, os saberes da ciência e as técnicas dela derivadas. Assim, há
um íntimo relacionamento entre ciência e técnica, uma vez que esta, mesmo dependendo daquela,
incide sobre ela, e, assim, determina os caminhos por onde deve seguir.

Esse vínculo, defende Habermas, é próprio nos Estados Unidos69; a Secretaria de Defesa e a Nasa
constituem-se nos mais influentes e como os que direcionam as pesquisas científicas. Considerando
o complexo militar industrial norte-americano, dele resulta outro, o complexo ciência-técnica-
indústria-exército-administração, a que o filósofo faz a analogia com vasos comunicantes, em
detrimento justamente de sua realimentação em todos os sentidos. Habermas fala:

são os cientistas e os técnicos que, graças a seu saber daquilo que ocorre num
mundo não vivido de abstrações e de deduções, adquiriram imensa e crescente
potência [...], dirigindo e modificando o mundo no qual os homens possuem,
simultaneamente, o privilégio e a obrigação de viverem.

O contexto que surge, além de técnico-científico, é econômico-político. Assim, o filósofo posiciona-se


contrário à pura teoria, trazendo à margem a genealogia antropológica da prática teórico-científica e
descortina os interesses elementares do conhecimento.

Quanto à filosofia social, Habermas derrama seu olhar crítico ao objetivismo ontológico e mero
contemplativo da teoria da tradição. Para ele, é impossível a exatidão filosófica, suas pretensões
apenas provam que ela está influenciada pelo objetivismo positivista. Dessa maneira, seria apenas
mais uma ciência enraizada dentro de uma instituição, e longe das preocupações reais. De fato,
a crítica de Habermas ao positivismo científico e teórico dá-se concomitantemente com seu
empreendimento contra o objetivismo tecnocrático.

Herbert Marcuse
Nascido em Berlim, no ano de 1898, Marcuse tem sua origem no judaísmo. Em 1918 fez parte do
spartakista70; tem formação em filosofia na cidade de Berlim e em Friburgo, e, em 1925, ocorre
a publicação da bibliografia sobre Schiller, seu primeiro trabalho. Após estudar com Heidegger,
realizou seu doutorado em Filosofia, em 1927, cuja tese abordava o filósofo que influenciou suas
ideias, Hegel. Com a ampliação de sua tese, em 1932, surgiu “A ontologia de Hegel e o fundamento
de uma teoria da historicidade”.

Em 1933 refugiou-se em Genebra, e, em 1934, fixa moradia nos Estados Unidos, juntamente com
Horkheimer e Adorno, também neo-hegelianos, com os quais executou inúmeras pesquisas. Desse
período Marcuse nos legou muitos ensaios, que contêm o início de teses que foram retomadas e
colocadas em desenvolvimento anos mais tarde, que seriam: as consequências com os avanços
69 Na URSS, supostamente, acontecia o oposto.
70 Movimento revolucionário.

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tecnológicos sem controle, o racionalismo exacerbado da modernidade, a repressão à liberdade


dos sujeitos, a derrubada da razão hegeliana. Essa razão de Hegel constitui-se no desenvolvimento
total e livre das potencialidades humanas. Mas que potencialidades são essas? É o que pretendem
responder os membros do “Instituto de Pesquisas Sociais”.

No mesmo período, os pensadores de Frankfurt questionam uma tese marxista: “a revolução


como responsabilidade histórica do proletariado”. Eles dividem a opinião de que o proletariado
enfraqueceu quando deixou entrar na sociedade os sistemas totalitários: nazismo e stalinismo por
um viés, e, por outro, a indústria cultural, filho dos países capitalistas.71

Marcuse trabalhou no Departamento de Estado Americano entre 1942 e 1950, e permanece


lecionando de ciência política na Universidade Brandeis, quando Horkheimer e Adorno voltam para
a Alemanha, em 1950. É nessa década que publica “Eros e Civilização” e “Marxismo Soviético”. Na
primeira obra, o sociólogo demonstra a possibilidade da felicidade humana, na segunda, descortina
o sistema soviético, denunciando que o totalitarismo russo está longe do humanitarismo marxista.

Em 1964, a sociedade conhece “Homem Unidimensional” (em português “Ideologia da Sociedade


Industrial”), quando elabora uma derradeira crítica à repressão e irracionalidade do pós-
industrialismo moderno – o “Welfare State”, o Estado do Bem-Estar Social.

O retorno de Marcuse dá-se no ano de 1967, para um curso na Universidade Livre de Berlim, quando
conhece o líder estudantil Rudi Dutschke, de formação socióloga. Ele causava grande movimentação
na Alemanha, de modo que, em 1968, sofreu um atentado72 que o afastou de suas lutas por semanas.

Em detrimento do relacionamento próximo de Dutschke com Marcuse, o nome deste é projetado


internacionalmente, intensificado após a revolta francesa. Em 1969, o sociólogo retorna à Alemanha,
a propósito de um debate com alunos que insurgiam Berlim e deixa o anfiteatro da Universidade
Livre de Berlim sobre aplausos e vaias. Marcuse, de volta aos Estados Unidos, passa a dar aulas de
filosofia e ciência política, na Universidade da Califórnia.

Marcuse retoma as noções hegelianas “Razão” e “Negatividade”. A primeira manifesta-se na total


utilização pelo sujeito de suas possibilidades. Mas é difícil desvincular o conceito de possibilidade do
de necessidade, é ela quem nos direciona para as coisas das quais sentimos falta. Já a possibilidade
realiza como que uma medição do raio necessário para que possamos alcançar um objeto. Para
exemplificar facilmente, temos como objeto de necessidade um carro, e a medida de possibilidade é
o dinheiro. Mas há uma ficção aqui, pois podemos adquirir o automóvel mesmo faltando dinheiro,
mas vivemos sob convenções sociais, que são respeitadas mesmo sem críticas, e é o que nos freia
diante de encontrar outras possibilidades para adquiri-lo. No mesmo momento em que nos
interrogamos sobre a real necessidade do objeto, essa também se dilui. De fato, o carro é um símbolo
de ascendência na sociedade, ou resulta de convenções em prol de um gosto que, por vezes, não
nos satisfazem internamente. Assim, a necessidade aparece como falsa, como a não aquisição pela
ausência monetária também se configura falsamente. Onde estariam as nossas reais necessidades e
possibilidades? Onde estaria a nossa razão?

71 Os proletários de hoje seriam os miseráveis, as minorias raciais, aqueles que são impossibilitados de participar da sociedade.
72 O atentado foi precedido por uma violenta campanha da imprensa dirigida pelo truste alemão dos jornais, as empresas Springer,
que acusavam Dutschke de “baderneiro” e “irresponsável”.

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A obra de Marcuse debruça-se constantemente nessas questões, e sempre pautada, radicalmente,


na dialética e na criticidade. Ele se propõe a uma crítica à maneira de viver na atualidade, o que
denuncia uma esfera da negatividade identificada, por ele, como o centro da dialética hegeliana.73

O sociólogo identifica um nacionalismo, segundo ele, um fantasma, que permeia as sociedades no


Modernismo. Assim como para Adorno e Horkheimer e para Georg Lukács e Marx, para Marcuse74,
o nacionalismo teria se originado do mercantilismo burguês, que levaria a sociedade moderna a
procurar administrar totalmente suas esferas, levando-a a uma má tecnocracia, à planificação de
seus setores.

Para que exista a atividade comercial, é necessário que tudo se reduza a uma só medida, a moeda,
quantificação que foi adentrando todos os segmentos da humanidade. O elogio que muito se faz à
rigorosidade científica, à precisão dos resultados das técnicas, é entendido como a consequência
do fato de o comércio ter sido estendido para todas as categorias da vida cotidiana. Essa crítica ao
nacionalismo está estampada em Marx, e Marcuse a retoma.

É em Freud que o sociólogo depara-se com a possibilidade da felicidade dos homens, sobretudo em
“Eros e Civilização”, que fala que a infelicidade humana dá-se pelo bloqueio do mundo à realização
dos desejos. A isso Freud denomina de “princípio da realidade”. Mas é possível superá-lo?

Marcuse defende que são certas condições históricas que condicionam o princípio de realidade, ou
melhor, a infelicidade não se dá de maneira separada de algumas situações sociais. Desse modo,
ao atingir a situação social considerada certa, os sujeitos encontrariam a felicidade. Isso se daria
no “Império da Razão”. E o sociólogo ainda fala que os indivíduos têm a lembrança interna de um
porvir feliz, lembrança que está em Orfeu e Narciso.

Em “Ideologia da Sociedade Industrial”, Marcuse também critica o racionalismo75 do mundo


na modernidade, e procura delinear uma maneira de caminhar para longe dele. Isso se daria se
as pessoas colocadas em situação marginal de desprezo pela sociedade ou que não puderam ser
beneficiadas, contestassem. Em outra direção estaria o avanço tecnológico extremo, acarretando,
consequentemente, de acordo com Marx e Marcuse, em revoluções, ou melhor, efeitos revolucionários.

A sociedade moderna tem um mal que parece infindável, o pensamento mercantilista dominante.
Essa mentalidade está representada na esfera econômica pelo valor de troca, que se relaciona
intimamente com as esferas alienantes. Caso a tecnologia se desenvolvesse de maneira extrema, “a
forma de produção assente no valor de troca sucumbirá”. É possível que a própria sociedade, diante
desse contexto, reprima esses avanços? Todos esperam que não.

73 Marcuse acreditava que a forma triádica da dialética (tese, antítese e síntese) é uma “máscara” a respeito do que os conceitos
tratados tinham significado mesmo para Hegel.
74 Em Fundamentos da Crítica à Economia Política.
75 Irracional, uma vez que não é fundado na razão verdadeira.

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PARA (NÃO) FINALIZAR

Reflita sobre os dados abaixo:

Em 21 de maio de 2000, no Jornal do Brasil, podemos ler: “dinheiro vale mais que bom caráter.”
Em uma pesquisa sobre os valores mais importantes para um indivíduo, dentre 1.000 alunos da
PUC do Rio de Janeiro, 400 deles apontaram o dinheiro, duas vezes mais que os que se referiram ao
emprego. 95 falaram do amor, três do altruísmo e somente um do respeito à pátria. Os valores morais
foram bem menos citados do que os materiais, em uma universidade que forma a elite brasileira.

Na Folha de São Paulo, junho de 2000, está: “mercados comemoram alta do desemprego”, fazendo
referência aos inúmeros de desempregados nos Estados Unidos, freiando a economia no País. Como
consequência, a inflação continuaria baixa e a reserva federal dos EUA não teria a necessidade
de aumentar a taxa de juros. Assim, o consumo não seria prejudicado, nem os promissores
investimentos. Aqui, o processo econômico parece se dar inversamente, em que o bem-estar do
sujeito subordina-se às vontades do sistema financeiro.

56
REFERÊNCIAS

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