Você está na página 1de 21

GRAMSCI E A QUESTÃO DA HEGEMONIA

Índice dos fichamentos:

1°) As antinomias de Gramsci (Perry Anderson)

2°) Gramsci no Brasil: recepção e usos (Carlos Nelson Coutinho);

3º) Las categorias de Gramsci y la realidad brasilena (Carlos Nelson Coutinho);

4°) Fascismo e cultura nacional: lendo Gramsci nos tempos da Hindutva (Aijaz
Ahmad);

5°) Hegemonia global e senso histórico de oposição (Paulo Arantes);

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Esquema para seminário:

1°) Condições de produção e recepção:

- Gramsci escreve num momento de recuo político:


"Nem um único de seus escritos de 1918 e 1936 faz qualquer sentido se
não lembramos que todo seu projeto tinha o único propósito de
reconstituir um leninismo que seria apropriado às condições de uma
sociedade atrasada, em grande parte camponesa, indiferentemente
industrializada - em face do fascismo.
- Intervalo longo entre a redação dos principais textos (1929) e publicação
(década de 1950);
- No Brasil:
- entre 1966 e 1968 foram publicadas no Brasil cinco das mais
importantes obras de Gramsci;
- obstáculos à recepção de Gramsci no Brasil: golpe militar e AI-5;
- na cultura de esquerda a maior influência era do marxismo da III
Internacional, ou marxismo-leninismo;
- a partir da metade dos anos 1970 os estudos de Gramsci começaram a
ser amplamente discutidos;

2") O conceito de hegemonia na teoria de Gramsci.


- Explicação Oriente/Ocidente segundo Gramsci:
"No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e
gelatinosa; no Ocidente, entre Estado e sociedade civil havia uma justa relação e,
quando se dava um abalo do Estado, percebia-se imediatamente uma robusta estrutura da
sociedade civil. O Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual havia uma

1
robusta cadeia de fortalezas e casamatas; a proporção variava de Estado para Estado,
decerto, mas precisamente isso exigia um rigoroso reconhecimento de caráter nacional".

- Consentimento: É necessário que entre dominados e dominantes exista uma


linguagem comum, que exista pelo menos como horizonte a ideia de um contrato social
do qual todos sejam partes atuantes, que exista uma comunidade de significados nas
palavras que são empregadas por um grupo e outro. Direito é direito, num certo
sentido."
- "E necessário que haja um campo de significações comuns, sem o quê, não há
comunicação entre eles, há pura e simplesmente ditadura e coerção."

- Contra-hegemonia: uma classe ou grupo que seja estruturalmente universal rompe o


bloco e prepara uma transformação social radical.

3°) A recepção de Gramsci no Brasil e do conceito de hegemonia.

- No Brasil: revolução passiva tomou a forma de "contra-revolução


prolongada", ou seja, "ditadura sem hegemonia".
- Revolução passiva = ciclos de modernização conservadora.
- Ao contrário do que prega a tradição marxista leninista não tivemos
uma revolução democrática burguesa, tudo foi solucionado pelo alto.

- Diretas Já: culminância do fortalecimento da sociedade civil.


- ditadura militar não foi regime reacionário com base de massa
organizada;
- ditadura não conquistou hegemonia / regime era desmobilizado;
- ideologia da antiideologia;
- crise do milagre económico: crise das bases de consenso;
- Ditadura "ocidentalizou" o país por meio de uma "revolução/restauração"
que inseriu o Brasil na fase do capitalismo monopolista de Estado.

- as classes dominantes brasileiras não desempenharam, em seu conjunto, uma


efetiva função hegemónica frente às massas populares;

- populismo, como modalidade de legitimação carismática, que vigorou de


1937/45 e de 1945 a 1964: tentativa de incorporar ao bloco do poder, em posição
subalterna, aos trabalhadores assalariados urbanos, mediante a concessão de direitos
sociais e de vantagens económicas reais. Contexto de industrialização acelerada
tomando por base o processo de substituição de importações. Ficaram excluídos do
pacto populista os assalariados agrícolas e os camponeses, que permaneceram privados
dos direitos sociais trabalhistas (na medida em que a maioria era formada por
analfabetos) inclusive até o direito de voto. Essa exclusão tornou possível a manutenção da
velha oligarquia latifundista no bloco de poder, e servia também a burguesia
industrial, na medida em que ampliava enormemente o exército industrial de reserva, e
por conseguinte, pressionava para baixo o salário dos trabalhadores urbanos.

- Crise dos modelos interpretativos, segundo Coutinho:

2
- se somos uma sociedade "ocidental" não podemos imaginar formas de
transição ao socialismo centrada na "guerra de movimento", no choque frontal com os
aparelhos coercitivos do Estado, em rupturas revolucionárias rápidas e violentas.
- ascensão de uma "esquerda moderna":
- objetivo das forças populares é a conquista da hegemonia via "guerra
de posições";
- consolidar a democracia pluralista para aprofundar a democracia de
massas para chegar ao socialismo democrático.

4°) Crise de Hegemonia: i

- pela primeira vez na história do Brasil e do mundo a ideia de hegemonia de uma


classe dominante está começando a fazer água, porque pela primeira vez a burguesia
renunciou à universalidade dos seus valores:

- "Lá em cima, crise da hegemonia global, e aqui, a burguesia renuncia a


universalidade de seus valores";
- "Pela 1a vez a ideia de missão civilizatória do ocidente em relação à periferia
mundial acabou". Não compartilhamos mais da mesma cultura e dos mesmos valores;
- que hegemonia é essa que exclui ao invés de incluir?
- Ela parece ser total, mas não é. "Ela é uma falsa hegemonia e ao mesmo
tempo não é uma ditadura no sentido claro do termo - porque essa sim é a dimensão
mais propícia para se explicitar e gerar um senso histórico novo de oposição, como foi o
caso de 20 anos do Brasil";
- na fase atual há uma renúncia ao cimento ideológico da hegemonia, que é a
sustentação da alegação de que a classe dominante representa não só os seus interesses,
mas atende aos interesses de todas as classes subalternas que se tornam no momento
aliadas e formam um bloco histórico.

5°) Gramsci em litígio: entre a esquerda democrática e o multiculturalismo

3
ANDERSON, Perry. As antinomias de Gramsci. In Crítica Marxista. São Paulo:
Joruês, 1986.

12)
TIPO DE SOCIEDADE ORIENTAL OCIDENTAL
Sociedade Civil Primitiva/gelatinosa Desenvolvida/sólida
Estado Preponderante Equilibrado
Estratégia Movimento Posição
Ritmo Rápido Prolongado

13)
Revolução permanente Hegemonia Civil
Guerra de movimento Guerra de posição

15) Hegemonia Civil = Guerra de Posição = Frente Única

16) O conceito de hegemonia como unidade teórica é criação de Gramsci.


Origem do termo: foi um dos lemas políticos centrais no movimento social-democrata
russo do fim dos anos 1890 e 1917.

Axerold (1901): "Em virtude da posição histórica de nosso proletariado, a social-


democracia russa pode obter a hegemonia na luta contra o absolutismo".

Martov (1901): "A luta entre os marxistas "críticos" e "ortodoxos" é na verdade o


primeiro capítulo de uma luta pela hegemonia política entre o proletariado e a
democracia burguesa".

17) O lema da hegemonia do proletariado na revolução burguesa era uma herança


comum aos bolcheviques e aos mencheviques no II Congresso do POSDR (1903).
Posteriormente, Lênin acusou os mencheviques por abandonarem o conceito de
hegemonia pela aceitação tácita do papel dirigente do capital russo na revolução
burguesa contra o czarismo"

18) Lênin, contra os mencheviques após derrota de 1905:


"É a consciência da ideia de hegemonia e a sua colocação em prática nas suas
próprias atividades que transformam as corporações no seu conjunto em uma classe".

Razão pela qual o termo caiu em desuso após a Revolução de outubro: "Forjado para
teorizar o papel da classe operária em uma revolução burguesa , ele tornou-se
inoperante com o advento de uma revolução socialista". .

Sobrevivência do termo na Internacional Comunista: IV Congresso da IC: termo foi


usado para descrever a dominação da burguesia sobre o proletariado.

Gramsci trabalha o conceito influenciado pelas definições da III Internacional.

20) Hegemonia nos Cadernos do Cárcere:


- deve-se levar em conta os interesses de outros grupos sobre os quais a
hegemonia se exerce;
- hegemonia ética-política e económica;

4
- determina unicidade dos fins económicos e políticos, intelectual e moral;
- plano universal, e não coorporativo.

21) Extensão do conceito:


Aplicação original (russa): perspectivas da classe operária numa revolução
burguesa contra uma ordem feudal;
-** Extensão de Gramsci: mecanismos de dominação da burguesia sobre a
classe operária em uma sociedade capitalista estabilizada.

23) Oposição entre sociedade política e sociedade civil, como duas modalidades de poder
de classe:

HEGEMONIA DOMINAÇÃO

CONSENTIMENTO COERÇÃO

SOCIEDADE CIVIL ESTADO

24) Noutros momentos Gramsci fala em hegemonia como síntese:


CONSENTIMENTO + COERÇÃO

Estado = hegemonia política

Sociedade civil = hegemonia civil.

3a versão: Estado é Ditadura + Hegemonia

26)
ORIENTE OCIDENTE
Estado > Sociedade Civil Sociedade Civil > Estado
Coerção Consentimento
Dominação Hegemonia
Movimento Posição

*** A preponderância da sociedade civil sobre o Estado no Ocidente pode ser colocada
como equivalente à predominância da "hegemonia" sobre a coerção, como a modalidade
fundamental de poder burguês nos países capitalistas avançados.
Nesse caso, hegemonia significa para Gramsci subordinação ideológica da classe
trabalhadora à burguesia, o que permite a esta exercer a sua dominação pelo
consentimento.

Mérito de Gramsci: foi o primeiro a ponderar com precisão sobre a diferença entre a
democracia parlamentar no Ocidente e sua ausência no Oriente.

26 a 28) As ilusões da social-democracia de esquerda:

5
"É à rede estratégica da sociedade civil que se atribui a manutenção da
hegemonia capitalista em uma democracia política onde as instituições estatais não
excluem ou reprimem diretamente as massas. O sistema é mantido pelo consenso e não
pela coerção. Assim, as tarefas principais dos militantes socialistas não é a de combater
um Estado armado, mas converter ideologicamente a classe operária para liberta-la das
mistificações capitalistas".
OBS: esse foi o argumento do PCB.

31) A segunda solução de Gramsci para o conceito de hegemonia:


____- Hegemonia distribuída entre o Estado (sociedade política) e a sociedade civil.
- a sociedade civil é apresentada como contrapeso do Estado ou em equilíbrio
com ele;
- hegemonia como combinação entre coerção e consentimento.
- controles ideológicos presentes tanto na sociedade civil como no Estado;

Funções ideológicas do Estado: ênfase na lei e na educação.

32) Equívoco dessa concepção, segundo Anderson:_____________________


- "O exercício da repressão é juridicamente ausente da sociedade civil. O
Estado o reserva como seu domínio exclusivo. (...) A ideologia é partilhada
entre a sociedade civil e o Estado: a violência pertence somente ao Estado.
Em outras palavras,o Estado está presente duas vezes em qualquer equação
entre os dois".___________________________________

Possível razão contextual para a dificuldade de Gramsci em isolar essa assimetria:


comandos fascistas com a conivência do Estado.

33) Terceira solução de Gramsci para o conceito de hegemonia:


- Estado = sociedade política + sociedade civil.

35) Sociedade civil em Gramsci:_______________________________


- "Entre a estrutura económica e o Estado, com sua legislação e coerção, tem-se
a sociedade civil";

- função de traçar uma indispensável linha de demarcação no seio das


superestruturas político-ideológicas do capitalismo._______________

40) Princípio do reformismo: ideia de que o poder do capital toma forma de uma
hegemonia cultural no Ocidente: estratégia do "caminho parlamentar para o socialismo"

Crítica à concepção de Coutinho e aos rumos do PT. 44) Hegemonia

como consentimento despreza a determinação da coerção.

54) Lukács defendeu as ofensivas revolucionárias: insurreições armadas rápidas,


limitadas e frequentes. Segundo ele elas se justificavam não por seus fins objetivos, mas
pelo seu impacto subjetivo sobre a consciência da classe operária.

6
58) Significado da proposta de frente única: significava a necessidade de um trabalho
político-ideológico profundo e sério entre as massas, um trabalho não corrompido pelo
sectarismo, antes que a tomada do poder estivesse na ordem do dia.

- O conceito de Guerra de Posição, seria mais abrangente que a proposta de Frente


Única.

65) *** A guerra de posição foi concebida como uma resposta à guerra de movimento de
Thalheimer e Lukács.

Sobre a inconsistência da oposição entre as duas táticas:


- "A mera oposição da "guerra de posição" à "guerra de movimento" em
qualquer estratégia marxista, ao final, torna-se uma oposição entre reformismo e
aventureirismo".
OBS: Trotsky trabalha tecnicamente com a ideia de articulação oportuna entre ambas,
como complementares.

66) Em política, segundo Gramsci, a guerra de posição é a hegemonia, e a hegemonia é o


governo pelo consentimento permanentemente organizado.

- Erro de Gramsci segundo Anderson: subestimou a guerra de movimento no


Ocidente e apoiou o centralismo da guerra de posição.

- "Quando soa a hora da prestação de contas na luta de classes, a liberdade


proletária e a insurreição vão juntas. É a sua combinação, e não outra, que
pode constituir uma verdadeira guerra de movimento social capaz de
derrubar o capital nos seus bastiões mais fortes".________________

68) Crítica de Anderson à Gramsci:


- "No labairinto dos Cadernos do Cárcere, Gramsci perdeu o caminho. Contra a
sua própria intenção, pode-se extrair de sua obra conclusões que se afastam do
socialismo revolucionário";
- "As condições nas quais Gramsci escreveu sua obra na prisão produziram uma
teoria sem unidade, fragmentária, que intrinsecamente comportava discordâncias e
incoerências.".

71) Conclusões:

1°) Formular a estratégia proletária como essencialmente uma guerra de posição é


esquecer o caráter necessariamente repentino e vulcânico das situações revolucionárias,
que pela natureza dessas formações sociais não podem jamais ser estáveis por longos
períodos, e portanto, impõem a maior rapidez e a maior mobilidade do ataque se não se
quer perder a oportunidade de conquistar o poder. A insurreição, como sempre
enfatizaram Marx e Engels, depende da arte da audácia.

2°) No caso de Gramsci, as inadequações da fórmula da "guerra de posição" tinham


uma clara relação com as ambiguidades da sua análise do poder de classe da burguesia.
Gramsci igualava a guerra de posição á hegemonia civil. Assim, exatamente como sua
utilização da hegemonia tendia a implicar que a estrutura do poder capitalista no
Ocidente repousava essencialmente sobre a cultura e o consentimento, a ideia de uma

7
guerra de posição tendia a implicar que o trabalho revolucionário de um partido
marxista era essencialmente o da conversão ideológica da classe operária - daí a sua
identificação com a frente única, cujo objetivo era ganhar a maioria do proletariado
ocidental para a terceira Internacional. Nos dois casos, o papel da coerção - repressão da
parte do Estado burguês e da insurreição da parte da classe operária - tendem a
desaparecer. A fraqueza da estratégia de Gramsci é simétrica a de sua sociologia.

COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci no Brasil: recepção e usos. In História do


Marxismo no Brasil, Volume 3. João Quartim de Moraes (org.). Campinas:
Editora da Unicamp, 1998.

124) Nas últimas décadas Gramsci foi o pensador marxista mais influente no país.
Influência maior do que a do marxismo leninismo.
Influência na cultura política do PT.

125) I Ciclo de influência : início da década de 1960 até metade da década de 1970.
– ambígua e insustentável coexistência entre marxismo ocidental na cultura e
marxismo-leninismo na política (126);
– Escassa repercussão do 1º ciclo (128);

130) Contribuição de Gramsci para o marxismo: elaboração de uma ontologia marxista


da práxis política.

2º Ciclo de Gramsci no Brasil:


– início: meados dos anos 1970;
– 1975/80: 24 livros sobre o autor (3 do período anterior);
– contexto: processo de abertura política;
– sociedade brasileira mais ocidental e menos oriental (emergência de dinâmica
sociedade civil);
– voga da “questão democrática”: eurocomunismo;
Democracia como valor histórico-universal > marxismo leninismo;
Tática do PCB: gradualista “guerra de posição”;
Teoria gramsciana do PCI como revitalizadora da esquerda esfacelada no
plano organizativo;
Conflito entre PCB e gramscianos: refúgio em outros setores da esquerda
(PMDB / PPS / PT);
Predomínio da interpretação da 3ª via: entre o reformismo social-
democrata e o rupturismo anacrônico de matriz bolchevique;

135) Influência de Gramsci na universidade e na teologia da libertação.

136) Categorias:
Revolução passiva: modernização conservadora.
Ao contrário do que prega a tradição marxista leninista não tivemos uma
revolução democrática burguesa, tudo foi solucionado pelo alto.
Estado ampliado: formação social de tipo ocidental.

8
Via prussiana (Lênin): infra-estrutura.
Revolução passiva (Gramsci): superestrutura.

137) Exemplo: o fascismo foi uma revolução passiva na Itália.

138) Revolução passiva: presença de dois momentos:


Restauração: é uma reação à possibilidade de uma transformação efetiva e
radical “de baixo pra cima”;
Renovação: muitas demandas populares são assimiladas e postas em prática
pelas velhas camadas dominantes.

139) Exemplo da ditadura de Vargas de 1937.

141) Revolução passiva como critério de interpretação para compreender o processo de


transição de nosso país à modernidade capitalista.
Duas causas-efeito:
1º) Fortalecimento do Estado em detrimento da sociedade civil:
predomínio das formas ditatoriais da supremacia em detrimento das formas
hegemônicas;
2º) Prática do transformismo como modalidade de desenvolvimento
histórico que implica a exclusão das massas populares.

142) *** No Brasil: revolução passiva tomou a forma de “contra-revolução


prolongada”, ou seja, “ditadura sem hegemonia”.
“Também no Brasil as transformações foram sempre o resultado do
deslocamento da função hegemônica de uma para outra fração das classes dominantes.
Mas estas, em seu conjunto, jamais desempenharam, até agora, uma efetiva função
hegemônica em face das massas populares. Preferiram delegar a função de dominação
política ao Estado – ou seja, às camadas militares e tecno-burocráticas –, ao qual coube
a tarefa de “controlar” e, quando necessário, de reprimir as classes subalternas. Mas essa
modalidade antijacobina de transição ao capitalismo não significa absolutamente que a
burguesia brasileira não tenha levado a cabo sua “revolução”: fez isso, precisamente,
através do modelo da revolução passiva, que tomou entre nós a forma – para utilizar a
terminologia de Florestan Fernandes – de uma “contra-revolução prolongada”, que é
outro modo de dizer “ditadura sem hegemonia”.

1433/44) Populismo de 1945/1964 analisado sobre os conceitos de revolução passiva e


transformismo.

144) Teoria ampliada do Estado:


Numa “Ditadura sem hegemonia”: o modelo abaixo descrito descreve uma
formação social de tipo oriental:

“Sociedade política” > sociedade civil


(aparelhos burocráticos e militares de (conjunto dos aparelhos privados
dominação e coerção) através dos quais uma classe ou
um bloco de classes luta pela hegemonia
e pela direção político-moral)

145) * Explicação Oriente/Ocidente segundo Gramsci:

9
“No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa; no
Ocidente, entre Estado e sociedade civil havia uma justa relação e, quando sedava um
abalo do Estado,percebia-se imediatamente uma robusta estrutura da sociedade civil. O
Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual havia uma robusta cadeiade
fortalezas e casamatas; a proporção variava de Estado para Estado, decerto, mas
precisamente isso exigia um rigoroso reconhecimento de caráter nacional”.

147) A dinâmica de ocidentalização é um fenômeno potencialmente universal.


– nunca fomos orientais como a China ou a Rússia;
– tivemos muitos traços que nos aproximavam das sociedades liberais européias
da 1ª metade do século XIX;
– porém tínhamos sociedade civil gelatinosa e Estado forte (existia escravidão).

150) Diretas Já: culminância do fortalecimento da sociedade civil.


– ditadura militar não foi regime reacionário com base de massa organizada;
– ditadura não conquistou hegemonia / regime era desmobilizado;
– ideologia da antiideologia;
– crise do milagre econômico: crise das bases de consenso.

151) Ditadura “ocidentalizou” o país por meio de uma “revolução/restauração” que


inseriu o Brasil na fase do capitalismo monopolista de Estado.

Crise dos modelos interpretativos:


– se somos uma sociedade “ocidental” não podemos imaginar formas de
transição ao socialismo centrada na “guerra de movimento”, no choque frontal com os
aparelhos coercitivos do Estado, em rupturas revolucionárias rápidas e violentas.
– ascensão de uma “esquerda moderna”:
– objetivo das forças populares é a conquista da hegemonia via “guerra
de posições”;
– consolidar a democracia pluralista para aprofundar a democracia de
massas para chegar ao socialismo democrático;
– teoria do Estado ampliado e categoria de “guerra de posição”.

Apontamos sobre o ensaio “Las categorias de Gramsci y la realidade


brasilena” de Carlos Nelson Coutinho.

– sobre a recepção de Gramsci no Brasil:


– entre 1966 e 1968 foram publicadas no Brasil cinco das mais importantes
obras de Gramsci;
– obstáculos à recepção de Gramsci no Brasil: golpe militar e AI-5;
– na cultura de esquerda a maior influência era do marxismo da III Internacional,
ou marxismo-leninismo;
– a partir da metade dos anos 1970 os estudos de Gramsci começaram a ser
amplamente discutidos;

10
– sobre a adequação da categoria de “Revolução passiva” para interpretação da
realidade brasileira:
– todas as transformações que o Brasil passou até o capitalismo foram feitas por
acordos da elite, sem a participação das classes populares. Exemplo: ditadura de Vargas
de 1937 após a fracassada Intentona Comunista de 1935;
– característica de fortalecimento do Estado em detrimento da sociedade civil,
ou, mais concretamente, o predomínio das formas ditatoriais de supremacia em
detrimento das formas hegemônicas;
– prática do transformismo como modalidade de desenvolvimento histórico que
implica a exclusão das massas populares;
– diferença do Estado autoritário brasileiro para o alemão e italiano:
p. 195) “Como se pode explicar o aparente paradoxo de que uma sociedade civil cresça
e amplia sua autonomia sob regime ditatorial? Antes de tudo, devemos recordar que o
regime militar brasileiro, apesar da intensa utilização da coerção e inclusive do
terrorismo de Estado, sobretudo entre os anos 1969-76, jamais foi uma ditadura fascista
clássica, ou seja, não foi um regime reacionário com base de massas organizadas.
Apoiando-se na capa militar tecnocrática, esse regime não foi capaz de criar organismos
capazes de conquistar uma hegemonia real na sociedade civil, nem de fazer funcionar os
aparatos desta como “correias de transmissão” de um Estado totalitário, como ocorreu
na Itália e na Alemanha.”

– sobre a incapacidade das classes dominantes brasileiras de desenvolverem uma


hegemonia:
– burguesia no Brasil: contra-revolução prolongada ou ditadura sem hegemonia;
– as classes dominantes brasileiras não desempenharam, em seu conjunto, uma
efetiva função hegemônica frente as massas populares;
– populismo, como modalidade de legitimação carismática, que vigorou de
1937/45 e de 1945 a 1964: tentativa de incorporar ao bloco do poder, em posição
subalterna, aos trabalhadores assalariados urbanos, mediante a concessão de direitos
sociais e de vantagens econômicas reais. Contexto de industrialização acelerada
tomando por base o processo de substituição de importações. Ficaram excluídos do
pacto populista os assalariados agrícolas e os camponeses, que permaneceram privados
dos direitos sociais trabalhistas (ma medida em que a maioria era formada por
analfabetos) inclusive até o direito de voto. Essa exclusão tornou possível a manutenção
da velha oligarquia latifundista no bloco de poder, e servia também a burguesia
industrial, na medida em que ampliava enormemente o exército industrial de reserva,e
por conseguinte, pressionava para baixo o salário dos trabalhadores urbanos.

11
Esquema do texto “Fascismo e cultura nacional: lendo Gramsci nos
tempos da Hindutva”, de Aijaz Ahmad.

– Propósitos e recepção da obra de Gramsci:

p. 255) “Nem um único de seus escritos de 1918 e 1936 faz qualquer sentido se não
lembramos que todo seu projeto tinha o único propósito de reconstituir um leninismo
que seria apropriado às condições de uma sociedade atrasada, em grande parte
camponesa, indiferentemente industrializada – em face do fascismo. Até mesmo quando
negociamos nosso caminho pelos conceitos gramscianos familiares de “hegemonia”,
“guerra de posição”, “nacional-popular”, “revolução passiva”, etc., é melhor recordar
que Gramsci escreveu sobre essas questões com uma consciência aguda do isolamento e
da derrota daclasse operária de Turim e da subseqüente vitória fascista”.
Os termos “hegemonia” e “guerra de posição” vem da experiência russa.
“Gramsci credita a si mesmo apenas a tentativa de elaborar essa teoria em condições
italianas específicas”.
*** “Os três termos – hegemonia, nacional-popular, guerra de posição –
designam no pensamento de Gramsci três aspectos de uma única problemática, a saber,
a relação entre consentimento e dominação”.
“Nenhuma política pode efetivamente liderar, a menos que tenha já se tornado o
senso comum do povo sob a forma de uma consciência nacional-popular, a fim de que
uma tomada final do poder possa ser preparada, no sentido leninista, por meio de uma
guerra de posição”.
p. 281) “Todas as forças que lutam pela hegemonia, em quaisquer condições, têm de
passar pelas fases de guerras de posição e de movimento; uma vez que os aparelhos de
Estado tenham sido assegurados, uma burguesia confiante também trava uma guerra de
posição a fim de impor as mudanças estruturais necessárias, com ou sem democracia
representativa”.

p. 258) “os escritos mais maduros de Gramsci tiveram um destino peculiar.


Diferentemente de Marx,ou Lênin, ou Mão, cujos escritos políticos foram compostos e
publicados para o debate imediato, houve um intervalo de diversas décadas entre o
momento da escrita de Gramsci e o momento de sua disseminação massiva. O grosso de
seus textos da prisão foi escrito entre 1929 e 1934, mas sua publicação mesmo na Itália
começou apenas no decênio de 1950”.
– Na língua inglesa a obra passa a ser efetivamente debatida somente a partir da
década de 1950.
p. 259) “É melhor reconhecer, penso, que o Gramsci que chegou a nós foi já filtrado por
meio de leituras euro-comunistas e culturalistas. As conseqüências dessas leituras são
demasiadas para desenvolver aqui, mas posso mencionar uma.

Definição de nacional-popular aparece na análise da experiência francesa, com o


sinônimo de jacobinismo:

p. 262) “Uma reconfiguração radical da “nação”por uma força urbana dinâmica que
estabelece sua liderança sobre o campo, incorporando o interesse camponês em seu
próprio projeto por meio de um programa de transformação agrária radical”.
p. 267) Citação de Gramsci: “na Itália, o termo “nacional” tem um sentido
ideologicamente muito restrito e não coincide, de modo algum, com “popular” porque
na Itália os intelectuais estão distantes do povo, isto é, da nação. Estão vinculados, ao

12
contrário, a uma tradição de casta que nunca foi rompida por um movimento político
nacional ou popular forte vindo de baixo. Essa tradição é abstrata e “livresca” (SCW, p.
208).
p. 271) Vontade coletiva nacional-popular:
“A formação do que ele chama de “vontade coletiva nacional-popular”, Gramsci
a associa com a revolução social que incorporou o interesse camponês como o ponto
focal de interesse nacional, em oposição às “altas” tradições da religião e do império”.

p. 287) “No 18 de Brumário, Marx observa que as revoluções do século XIX vão
adiante criticando-se constantemente. Foi na análise e na crítica rigorosas das
revoluções precedentes que finalmente se chegou à dinâmica das revoluções marxistas-
leninistas do século XX. Uma crítica das revoluções do século XX também terá de ser
uma parte integral das lutas contra os muitos fascismos que se desenvolvem em torno de
nós, para que as revoluções do século XXI possam ser superiores às revoluções do
século que acabou, assim como as revoluções do século XX foram muito superiores às
revoluções dos séculos XVIII e XIX”.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Hegemonia segundo Raymmond Williams, (citado em meu texto para caderno de


gênero):

Ao analisar o conceito gramsciano de hegemonia, Raymmond Williams (1979)


sugere que esse conceito é mais amplo e incorpora os conceitos de cultura – como todo
um processo social – e ideologia – como sistema de significado de valores que expressa
ou projeta um determinado interesse de classe. Hegemonia seria, portanto, um senso de
realidade absoluta, é uma “cultura” considerada como o domínio e subordinação vivido
de determinadas classes, ou ainda, segundo o autor, é todo um conjunto de práticas e
expectativas sobre a totalidade da vida: nossos sentidos e distribuição de energia, a
percepção de nós mesmos e de nosso mundo.
A dinâmica da hegemonia é algo vivido sempre em processo, que não existe
apenas passivamente como forma de dominação. Ao mesmo tempo em que se renova, se
recria, é atacada, pressionada e faz uso disso para se modificar.
Williams afirma que a “verdadeira condição da hegemonia é a auto-identificação
efetiva com as formas hegemônicas” (1979, p. 121). Se assim for, um dos primeiros
passos para a ação contra-hegemônica é a formação política e estética que dê condições
às pessoas para que elas estranhem o que parece natural, desnaturalizem o olhar para o
que é de hábito, e ao perceber que a visão de mundo consensual é na verdade a visão de
mundo da classe dominante, tomem providências individuais e coletivas para construir
atitudes e formas de representação da realidade que digam respeito à perspectiva
socialista que estamos construindo.

13
Esquema da palestra de Paulo Arantes “Hegemonia global e senso
histórico de oposição”, transcrita por Pedro Benevides:

Ponto de partida: sentimento ou impressão de que vivemos numa era sem oposição.
Oposição num sentido anti-sistêmico.
Impressão de servidão voluntária / regressão social / irracionalidade coletiva.

1ª vez em que a expressão “viver numa sociedade sem oposição” foi usada: 1964,
Herbert Marcuse, no prefácio ao livro “O homem unidimensional”, em referência a
sociedade industrial americana.
Diferença para hoje: percepção clara de que o capitalismo entregue a si mesmo
está tornando impossível a vida civilizada sobre o planeta.

Ideologia: “A idéia de ideologia, no sentido clássico, de uma racionalização que


encoberte o vínculo com interesses particulares, materiais, desapareceu”.

Nosso fascismo, consciência de nossa dependência ao capital estrangeiro, manifesta por


cinismo e/ou passividade: “E isso - como não há violência, a palavra sempre choca -
chama-se fascismo. Isso é o material, é a matéria-prima do fascismo. Não precisa ter
violência. Não precisa ter Gestapo às quatro horas da manhã levando alguém para
campo de extermínio. Agora, pode-se perfeitamente conviver com eleições de quatro
em quatro anos e assim por diante. Entre parênteses: na Alemanha, todo mundo sabia o
que estava acontecendo. De A a Z, ninguém ignorou nada.

Hegemonia, segundo Gramsci:


“E para o Gramsci - depois hegemonia passou para o sentido comum e as
pessoas não lembram mais que foi o Gramsci que formulou pela primeira vez o
conceito - hegemonia implica que, na dominação de uma classe sobre os outros grupos
sociais aliados e as classes ditas subalternas, para que essa dominação seja efetiva, ela
não possa dispensar e que ela conte com o consentimento, com o consenso daqueles
que em princípio ela deve liberar. Porque conta com esse consentimento, ela os libera.
Ela tem o poder coercitivo, a credibilidade e uma liderança intelectual e moral. É

14
necessário que a sua alegação de que domina em nome de algo que poderíamos chamar
vagamente de interesses gerais não seja inteiramente fraudulenta - porque em parte ela
é, senão não haveria dominação, haveria democracia. Dominação social implica,
portanto, em consentimento baseado num trabalho de educação, esclarecimento e
liderança baseada na autoridade moral e intelectual do projeto de uma classe social que
passa a ditar os parâmetros daquilo que nós poderíamos chamar de senso comum de
uma determinada época histórica - como foi com a República francesa, com hegemonia
jacobina cuja alegação de ser uma classe “universal”, entre aspas, era correta.
Portanto, numa situação de hegemonia, de unificação de interesses
contrapostos numa sociedade necessariamente antagônica, existe uma liderança natural
que está baseada não numa fraude ideológica. Está baseada também numa espécie de
auto-engano quanto à universalidade dos interesses e das razões que os exprimem. É
necessário que essa dominação se apresente como algo universal e que efetivamente ela
o seja num determinado momento, como foi o jacobinismo enquanto representante da
República francesa recém-nascida, portanto capaz de mobilizar todas as classes da
sociedade, inclusive na guerra externa contra as potência das monarquias do Antigo
Regime. É necessário que entre dominados e dominantes exista uma linguagem
comum, que exista pelo menos como horizonte a idéia de um contrato social do qual
todos sejam partes atuantes, que exista uma comunidade de significados nas palavras
que são empregadas por um grupo e outro. Direito é direito, num certo sentido.”

– “É necessário que haja um campo de significações comuns, sem o quê, não há


comunicação entre eles, há pura e simplesmente ditadura e coerção.”
– Contra-hegemonia: uma classe ou grupo que seja estruturalmente universal rompe o
bloco e prepara uma transformação social radical.

Hegemonia, segundo Chico de Oliveira, interpretando o governo FHC:


– FHC conseguiu instituir uma hegemonia como bloco histórico unificado da
direita, coisa que nem os militares fizeram (juntou Arena e MDB);
– uniu as nossas divididas oligarquias regionais, a nossa classe dominante, que
não se entendia, estava se entredevorando e por isso havia hiperinflação;
– isso seria um exemplo de um caso de manual de hegemonia no sentido
gramsciano.

15
Hegemonia imperfeita, segundo Chico de Oliveira: estamos para além da hegemonia e
aquém da democracia.
– pela primeira vez na história do Brasil e do mundo a idéia de hegemonia de
uma classe dominante está começando a fazer água, porque pela primeira vez a
burguesia renunciou à universalidade dos seus valores;
– “Lá em cima, crise da hegemonia global, e aqui, a burguesia renuncia a
universalidade de seus valores”;
– “Pela 1ª vez a idéia de missão civilizatória do ocidente em relação à periferia
mundial acabou”. Não compartilhamos mais da mesma cultura e dos mesmos valores;
– que hegemonia é essa que exclui ao invés de incluir? Hegemonia que ele
chamou de crise da hegemonia americana – uma retomada fraudulenta da hegemonia
americana”.
– totalitarismo, enquanto lógica totalitária do nexo mercantil:
“Você é apanhado pelo nexo mercantil em todos os momentos e é
desqualificado em função deste parâmetro. Portanto, a sua irrelevância social é uma
irrelevância mercantil. Você não serve para nada, isto é, não tem valor de mercado.
Portanto, não tem nem valor de uso, você é descartável em termos sociais. A faca que
vai nos cortar o pescoço está sendo amolada e não é privilégio nacional, não é
idiossincrasia, não é que nós estejamos na vanguarda dessa corrida em direção ao
fascismo.”
– Que hegemonia é essa? Ela parece ser total, mas não é. “ Ela é uma falsa
hegemonia e ao mesmo tempo não é uma ditadura no sentido claro do termo - porque essa sim é
a dimensão mais propícia para se explicitar e gerar um senso histórico novo de oposição, como
foi o caso de 20 anos do Brasil”;
– na fase atual há uma renúncia ao cimento ideológico da hegemonia, que é a
sustentação da alegação de que a classe dominante representa não só os seus interesses, mas
atende aos interesses de todas as classes subalternas que se tornam no momento aliadas e
formam um bloco histórico.

Hegemonia, segundo Giovanni Arrigui – matriz internacional do termo:


– Ele rastreou a noção de hegemonia. Ele fez o caminho inverso do Gramsci. Ele é
italiano, tinha sido marxista como todo mundo da nossa geração, gramsciano ,portanto, e ele
disse: “Vocês já repararam que a idéia de hegemonia - que o Gramsci foi buscar no Maquiavel,
em O Príncipe - na verdade é um conceito cuja origem, cuja raiz está na política internacional e
o Gramsci o transpôs para a política nacional?” É daí que vem a idéia de hegemonia, tanto é

16
que o termo grego hegemon é o Estado hegemônico num sistema de cooperação e ao mesmo
tempo de rivalidade e de competição até a guerra entre Estados relativamente soberanos entre
si. A primeira guerra de hegemonia foi a guerra do Peloponeso.
– tese da crise da hegemonia estadunidense.

Hegemonia britânica:
“Nosso quase Estado é fruto da hegemonia britânica. Isso é coisa de manual
de escola primária? Sim e não. Porque o Estado hegemônico deve legitimar o poder dos
governantes em relação aos seus próprios governados, sem o quê, ele não é
hegemônico. E é por isso que, sob a hegemonia britânica, nós tivemos um sistema de
economias nacionais que concorriam no mercado, um sistema de quase Estados
nacionais que competiam entre si articulados, por assim dizer, pelo coração londrino,
que atendia aos interesses de todas as classes proprietárias, portanto dos antigos
colonos do velho sistema colonial. Não é à toa. Portanto, atendia aos interesses do
escravismo brasileiro e legitimava o seu mando, tanto do ponto de vista nacional quanto
do internacional. Facultava o reconhecimento internacional e assim por diante. Ora,
esta hegemonia britânica (Eles a chamam de livre comércio, porque a Inglaterra sempre
manteve o livre comércio. Podia entrar tudo, porque ela comandava toda a rede. Ela
sugava tudo. E não tinha protecionismo.), entre outras coisas, pôde, no coração do
sistema, acomodar os interesses das novas classes sociais - no caso a força de trabalho -
alargando seus direitos, inclusive o direito político de voto, o sufrágio universal. Isto é,
há hegemonia não só legitimando o poder dos governantes, mas na medida em que
também atende os interesses daqueles que empurram lá embaixo. Portanto, inventa-se o
sufrágio universal. Foi imposto de baixo, mas foi reconhecido lá em cima. Você alarga
isso. Em plena hegemonia britânica, a nova maneira de organização do capital alemã,
concorrendo com a americana e com os ingleses e que depois vai desembocar na
Primeira Guerra Mundial, permite que o Bismarck forme o primeiro Estado social.
Hegemonia é isso.”

Hegemonia estadunidense (ou imperialismo americano):


– EUA se torna nova potência hegemônica a partir da II GM;
– omaior devedor do mundo é a única potência, falsamente hegemônica;
– “De onde é que surge essa hegemonia? Da clarividência da elite de poder
americana que, ao sair da Segunda Guerra Mundial, viu que a mitologia do mercado

17
auto-regulado, do padrão-ouro, do comércio internacional desregulado - como era antes
e que os ingleses não souberam amarrar - os levou à destruição e praticamente à vitória
da Revolução. Em 1944, mesmo nos Estados Unidos, ninguém, nem economistas como
o Schumpeter, tinha dúvidas de que o comunismo havia vencido, de que o capitalismo
estava com os seus dias contados. Só não sabiam como e quando exatamente - mês e
ano - seria, mas eram favas contadas. Sobretudo porque o capitalismo havia
desencadeado essas forças reacionárias - no sentido exato, é uma reação da natureza -
como o nazismo. Ele levou à barbárie. E, por isso, ou nós mudamos radicalmente ou o
socialismo tem razão e é questão de tempo eles ganharem. Diante dessa hecatombe,
desse apocalipse, provocado não pelos carrascos nazistas, mas pela sandice, pela
demência do padrão-ouro, do mercado auto-regulado, do Estado que não interfere na
economia e assim por diante. Tudo a que a hegemonia britânica levou.
Os americanos reordenaram - no sentido dos regulacionistas, digamos,
fordistas - a economia nesse sentido que está aí - de fato, nós podemos chamar
imperialismo do consumo de massa, isto é, por cima das fronteiras econômicas é
crucial, inclusive para se conter a União Soviética, que as massas cheguem ao consumo
tal como nós o encontramos na regulação dos regulacionistas fordistas dos Estados
Unidos. Isto é, automóvel, geladeira, televisão, salários dignos, linhas de montagem
para todos.
A Europa está destruída pela guerra. O que eles fazem? Vejam só o que é
uma potência hegemônica. E aí começamos a notar o que é a crise contemporânea. Ao
invés de fazerem o que fizeram com a Rússia agora (Destruíram-na como numa guerra.
A Guerra Fria finalmente aconteceu. Ela foi, em sete anos, destruída. Por isso nós não
somos a Rússia? É claro que não somos a Rússia. Ela foi simplesmente demolida.
Acabou. É um arsenal de dinamite.), que era o que uma contra-elite americana queria
fazer, eles disseram: “Não, não. Nós vamos reconstruir a Europa, o mercado europeu,
inclusive negociar com a força de trabalho um welfare state, um pacto entre capital e
trabalho. Nesses termos nós os financiaremos. É o Plano Marshall. A Europa será
reconstruída nesses termos.” Inclusive porque, claro, havia a ameaça soviética. Sem ela,
possivelmente essa clarividência da elite do poder americano não aconteceria. Eles
iriam barbarizar do mesmo jeito - é da natureza do capital.
Isso é hegemonia. Ao mesmo tempo em que eles cresciam adoidadamente, toda a
economia mundial crescia junto com eles - Europa, reconstruída; Japão, reconstruído e num
certo momento começando a rivalizar com eles; e a periferia, industrializada de uma maneira

18
diferente, subalterna, é claro. Tanto é que o Getúlio queria um Plano Marshall para a América
Latina e para o Brasil. Tanto é que a virada que ele deu para os americanos foi em função disso.
E eles disseram: “Não, não. Plano Marshall é para os europeus. Lá dá para recomeçar de zero.
Eles vão longe, serão nossos partners. Nós precisamos do mercado deles, como eles precisam
da gente. Vocês, ao invés do Plano Marshall, vão ter Volkswagen, Ford, Chrysler, General
Motors e assim por diante. As multinacionais serão o Plano Marshall de vocês.” Não deu outra.
Eles vieram para cá, enquanto nós esbravejávamos “Yankees, go home!”. Eles vieram
justamente transformar isso aqui numa economia industrial, só que capenga, subalterna,
periférica, baseada no endividamento do Estado, no impulso das multinacionais e na esmola
que era distribuída, subsidiando o atraso que era a empresa nacional. De modo que o modelo
nacional-desenvolvimentista nunca teve absolutamente nada a ver com a esquerda. Sem
nenhum ganho, a esquerda enfiou o ônus, a carapuça de uma coisa que ela não fez. O Estado
desenvolvimentista brasileiro é uma criação da classe dominante brasileira para subsidiar os
setores atrasados da sua própria economia que se encostavam no Estado, que por sua vez se
valia do apoio das multinacionais. Foi esse o tripé, que não tem absolutamente nada a ver com a
esquerda. É um erro histórico a esquerda dizer que está defendendo este patrimônio. Que
patrimônio? Ela simplesmente capitalizou essa corja”.

Crise estadunidense da década de 1970, investimento na periferia e o nosso “milagre


econômico”:
“Nós podemos imaginar que essa liderança hegemônica - no sentido de máquina
de crescimento - americana, que inclui o consumo de massa, direitos sociais, civis, até os civil
rights americanos (até o movimento negro entrou lá), começou a ratear um pouquinho com a
guerra do Vietnam (eu já vou contar umas peculiaridades da guerra do Vietnam que nós não
sabemos). Começou a se endividar (inflação, crise fiscal do Estado), começou a perder potência
em todos os sentidos. Os anos 70, vocês devem se lembrar, foi o momento em que começou a
se falar na decadência do império americano. Era o papo de todos os anos 70. Inclusive, foi em
função desta decadência - começou a diminuir a lucratividade da economia americana - que as
grandes multinacionais americanas inventaram um mercado off shore: tiraram dinheiro dos
Estados Unidos e começaram a investir na periferia. O nosso milagrezinho a 13% ao ano foi
isso. Durou cinco anos. Depois voltamos à nossa média histórica de um século. Foi esse o
milagre brasileiro: simplesmente uma disfunção na máquina americana, quando ela estava
começando a ratear. Milagre propriamente dito dos militares, porque nós vivemos de milagre
em milagre. Primeiro o açúcar, depois o ouro, o café, esse milagre do fordismo periférico e

19
agora o milagre da moeda estável, que durou quatro anos. Forte como o dólar, mercado
emergente. Acabou. Não tem mais. Ano que vem vai começar outra coisa e aí vamos ver para
que lado nós iremos. Nos anos 70, portanto, todo mundo dizia “perderam a guerra do Vietnam,
perderam, em 78, o Irã, uma peça fundamental na Guerra Fria”. Os Estados Unidos
desmoralizados em todos os campos. Inflação. Luta de classes adoidado na Europa. O dólar não
substitui mais o padrão-ouro e inclusive é desvalorizado. Essa é a crise dos anos 70. Não vou
entrar no que houve de ideologia nesse momento”.

A virada com o neoliberalismo – contra-revolução liberal conservadora, com Reagan e Tatcher:


– reversão do processo com valorização do dólar forte;
– de um país que “foi moderno alguma vez”, tornamo-nos uma economia primário-exportadora;
– quebradeira dos mercados e, cascata: primeiro América Latina, depois URSS (caiu com o
Reagen e seu projeto Guerra nas estrelas), desemprego e pobreza na Europa, estagnação na
Ásia.

Comentário de Eduardo Stotz sobre o assunto:

Ler Gramsci nesta perspectiva é ler "A questão meridional" e depois as anotações sobre a Igreja e
os intelectuais. Penso que ali está a proposta da construção de um "bloco histórico" do proletariado
industrial com o campesinato sob a direção do PCI. Daí a hegemonia, o que implicava em
conquistar a base intelectual da Igreja no meio do campesinatom no sul da Itália. Mas não se pode
esquecer que Gramsci era, neste momento, leninista. Quer dizer, tinha a idéia de um trabalho de
partido que, baseado na projeção politico-eleitoral de lideranças camponesas, contemplasse a
formação de quadros (propaganda) e a ação (agitação) entre os camponeses. A fase "conselhista"
e, pois, influenciada pela tradição das alas revolucionárias da social-democracia, havia sido
superada. O leninismo de Gramsci tem por trás as derrotas de 1918-1919 na Alemanha, Hungria e
Itália e, em contraponto, a vitória russa com o seu primado da organização de quadros. Rosa
Luxemburg não pode defender-se das acusações de espontaneísmo que Gramsci lhe fez quase
uma década depois.
Não acrescento nada em termos de leituras sobre Gramsci. Você já dispõe de textos suficientes
para contextualizar a sua própria leitura que, suponho, finca-se no tempo presente e na nossa
formação economico-social. A questão agrária no Brasil no momento atual é uma forma de
interpelar Gramsci, o que significa incluir uma avaliação sobre o papel da CPT e da CNBB como
núcleos dos "intelectuais orgânicos" dos movimentos da Via Campesina, não é mesmo?
Por último, vale a pena ler - e isso é um programa de leitura de longo prazo - os sete tomos da
Historia do Socialismo de G DH Cole, publicado pela Editora Fondo de Cultura Económica, do
México, para descortinar a riqueza das vertentes do movimento socialista no mundo que nos foi
subtraída pelo longo predomínio do estalinismo no século XX.

20
Bibliografia:

AHMAD, Aijaz. Fascismo e cultura nacional: lendo Gramsci nos tempos da Hindutva.
In Linhagens do presente: ensaios. São Paulo, Boitempo, ?.

ARANTES, Paulo Eduardo. Hegemonia global e senso histórico de oposição. Palestra


proferida na UnB no dia 17/09/1998. Transcrição de Pedro Benevides.

CECEÑA, Ana Esther. Hegemonias e emancipações no século XXI. In Hegemonias e


emancipações no século XXI. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciências
Sociales – CLACSO, 2005.
_____. Estratégias de construção de uma hegemonia sem limites. In Hegemonias e
emancipações no século XXI. Buenos Aires: Consejo Latinoamericanode Ciências
Sociales – CLACSO, 2005.
COUTINHO, Carlos Nelson. Las categorias de Gramsci y la realidade brasilena. In
Ensayo brasileno contemporâneo. Habana: Editorial de Ciências Sociales, 2005.

DIAS, Edmundo Fernandes. Hegemonia: racionalidade que se faz história. In O outro


Gramsci. São Paulo: Xamã, 1996.

FIORI, José Luís. O poder global e a nova geopolítica das nações. São Paulo:
Boitempo, 2007.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere (org. COUTINHO, Carlos Nelson;


NOGUEIRA, Marco Aurélio e HENRIQUES, Luiz Sergio). Maquiavel, Notas sobre o
Estado e a Política, vol. 03. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, 2ª edição.
_____. A questão meridional.

GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel: as concepções de Estado em Marx,


Engels, Lênin e Gramsci. Porto Alegre: L&PM, 1980.
_____ . O conceito de hegemonia em Gramsci. ?

INNOCENTINI, Mário. O conceito de hegemonia em Gramsci. São Paulo: Tecnos,


1979.

PORTELLI, Hugues. Gramsci e o Bloco Histórico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2002,
6ª ed.
SECCO, Lincoln. Gramsci e a Revolução. São Paulo: Editora Alameda, 2006.
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
_____. Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade. São Paulo: Boitempo,
2007.

21