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Judith Kemp

e
Sonia Emília Lopez Andreotti São Paulo, agosto 2013

© 2013 Judith Kemp e Sonia Emília L. Andreotti


Editora Fôlego
www.editorafolego.com.br

Editores
Emilio Fernandes Junior Rosana Espinosa Fernandes

Capa
Cleber Neres
Diagramação Cleber Neres
1a edição brasileira Julho de 2013

Todos os direitos são reservados à Editora Fôlego, não podendo a obra em questão ser reproduzida ou
transmitida por qualquer meio - eletrônico, mecânico, fotocópia, etc. - sem a devida permissão dos
responsáveis.

Dados de Catalogação na Publicação

Kemp, Judith e Andreotti, Sonia Emília Lopez


Antes de tudo fazei discípulos
Judith Kemp e Sonia Emília Lopez Andreotti, São Paulo: Editora Fôlego, 2013.

ISBN 978-85-8206-019-3 1. Bíblia 2. Vida cristã 3. Ensino. Título


Sumário
Dedicatória, 7
Introdução, 9
Deus pode usar um “joão-ninguém”?, 13
Fazei discípulos, 19
O que é um discípulo?, 27
Jesus nos deu a vida eterna, 33
Jesus glorificou o nome do Pai, 41
Jesus transmitiu as palavras do Pai, 51
Jesus orou por seus discípulos e por nós, 59 Jesus lhes deu a sua alegria, 69
Jesus os protegeu do maligno, 77
Jesus se santificou a favor deles, 85
Jesus queria que fossem unidos, 95
Jesus os enviou ao mundo, 105
Jesus queria que estivessem com ele para sempre, 117 Epílogo, 121

Apêndice, 127
Dedicatória
Dedicamos este livro a todos aqueles que se engajaram de corpo e alma à
proposta colocada pela Missão Vencedores Por Cristo, que sempre priorizou
a evangelização e o discipulado.

É com grande gratidão que o oferecemos a cada missionário que trabalhou


para a expansão desse ministério e, sem dúvida, do reino de Deus,
manifestando o seu amor através de sua entrega e empenho.

Da mesma forma, a todos os equipantes que abraçaram a ideia de separar três


meses de suas vidas – às vezes mais do que esse tempo
– preparando-se para o evangelismo e o discipulado.

A Lidia Rosina, eficiente e incansável secretária de VPC que, com amor,


seriedade, paciência e eficácia, organizou e manteve toda a estrutura do
escritório da missão por muitos anos. A ela, nosso reconhecimento e carinho.

E dedicamos também a todos que continuam divulgando e praticando o


ministério do discipulado no Brasil e pelos quatro cantos do mundo.
Introdução
por Judith Kemp

Dentre as inúmeras bênçãos que Deus nos tem dado desde que viemos para o
Brasil, tenho que ressaltar a bênção da amizade. E uma das amizades mais
preciosas para nós é aquela que temos com Sonia Emília. Desde as primeiras
equipes, quando ela e os outros jovens “pegavam no pé” do meu marido, até
o presente momento, ela passou a ser parte importante da nossa família.

Não há ninguém melhor do que ela para escrever a história de Vencedores


Por Cristo, já que viajou em diversas equipes, foi missionária durante seis
anos e até hoje mantém contato com muitas pessoas daquelas primeiras
equipes.

Quando resolvemos escrever este livro, queríamos que ele fosse mais do que
uma simples coleção de memórias. Nosso desejo é passar a visão e encorajar
outros a obedecerem à ordem do Senhor de “fazer discípulos de todas as
nações”. Porém, também queríamos incluir testemunhos de pessoas que
adotaram a visão proposta pelo ministério e continuam fazendo discípulos
desde então.

Sonia Emília tem trabalhado conosco na preparação dos textos de muitos dos
nossos livros (mais de 60). Ela também nos ajuda na edição dos nossos
artigos para a Revista Lar Cristão. Sei que não tem sido fácil para ela
entender o nosso “portuglês”. Sempre sentimos que a sua contribuição tem
sido tão valiosa que seu nome deveria aparecer ao lado do nosso na capa de
cada livro lançado. E desta vez vai aparecer!

Algumas pessoas têm tentado “roubá-la de nós”, pois ela entrega nosso
material às editoras praticamente finalizado.

Tenho certeza de que nenhum dos nossos livros anteriores foi tão prazeroso
para ela trabalhar como este, pois lhe proporcionou o privilégio de telefonar e
trocar e-mails com vários de seus grandes amigos e relembrar os “velhos
tempos”. Os artigos que eles enviaram às vezes provocaram lágrimas e às
vezes sorrisos. Eu sei como essas amizades têm sido especiais e importantes
para ela através dos anos, e principalmente durante o tempo difícil em que ela
travou uma batalha contra uma doença muito séria. Como agradecemos ao
Senhor, que em sua imensa graça tem respondido as nossas orações e
restabelecido a sua saúde!

Esperamos que os testemunhos que você lerá neste livro possam desafiá-los a
também fazer discípulos!
Só para deixar bem claro, a primeira parte de cada capítulo foi elaborada por
mim (com muita ajuda da Sonia) e a segunda parte corresponde ao trabalho
dela contatando e coletando os depoimentos de alguns amigos que
participaram de Vencedores Por Cristo.

por Sonia Emília Lopez Andreotti

Este livro fala de milagres! No decorrer da sua leitura você ficará sabendo de
fatos e acontecimentos que mudaram a vida de muitas pessoas. Tomará
conhecimento da ação poderosa de Deus em suas vidas, ao realizar o milagre
da transformação. Saberá por que essas pessoas optaram pelo caminho que o
Senhor lhes mostrou, apesar de, muitas vezes, ele parecer totalmente
contrário às expectativas estipuladas pelo mundo em que vivemos.

Os jovens costumam ser inquietos. Gostam de coisas novas, desafios e


dinamismo. Geralmente, são inconformistas. No final da década de 60 e
início dos anos 70, muitos jovens brasileiros cristãos não sabiam bem qual
deveria ser a sua função na igreja local, que era dominada pelo
conservadorismo. A verdade é que a relação entre o inconformismo e o
conservadorismo não prosperava.
Introdução 11

Quando Jaime e Judith Kemp lançaram a proposta da missão Vencedores Por


Cristo e formaram a primeira equipe, a novidade se espalhou entre os jovens
cristãos como fogo em palha. Tanto isso é verdade, que naquela época não
era fácil conseguir ser selecionado para uma das equipes. Choviam
formulários de jovens querendo participar.

Com o passar dos anos, o ministério tornou-se sólido e, ao lado de novas


missões que surgiram especialmente voltadas para os jovens, a visão de
Vencedores Por Cristo se propagou pelo Brasil. O evangelismo e o
discipulado se tornaram um marco no crescimento espiritual da juventude
evangélica em nosso país.

O amor e o talento do brasileiro pela música são reconhecidos mundialmente.


Foi através de centenas de canções que milhares de jovens foram às igrejas,
praças etc., para ouvir sobre o evangelho e conscientizar-se da necessidade de
comprometer sua vida à vontade de Deus.

Foram tantos milagres! Quando Judith Kemp conversou comigo sobre seu
desejo de colocar em um livro algumas histórias do que Deus fez através de
Vencedores Por Cristo, não imaginei como seria emocionante relembrar, com
muitos de meus amigos, tudo o que aquela época significou em nossas vidas.

Como idealizadores e fundadores de VPC, Jaime e Judith foram os


instrumentos que o Senhor usou para reunir centenas de jovens cristãos para
apontar-lhes o traçado que Ele havia planejado para suas vidas.

Nós nos sentíamos em casa no lar dos Kemp. Vimos suas meninas chegarem,
acompanhamos seu crescimento, muitas vezes cuidamos delas. A porta da
casa deles sempre esteve aberta para nós.

Mas, acredite, não foi fácil. Imagine 20, 12, 10 jovens barulhentos reunidos
em sua casa para treinamento, almoçando, lanchando e largando para trás
uma imensa bagunça. Ou então uma equipe chegando de viagem de
madrugada para dormir em sua casa, todos cansados, precisando de um
banho, famintos, assaltando a geladeira sem nem mesmo poupar o leite das
meninas para a manhã seguinte. Acho que, por isso, eles resolveram incluir
no treinamento como os jovens deveriam se comportar na casa das pessoas
que os acolheriam durante a viagem. Porém, acho que, graças a Deus, nunca
os envergonhamos.

Acredito que quando um fato é demasiadamente marcante em nossa vida é


impossível retermos e guardarmos tudo o que aconteceu só para nós ou para
alguns. Quero dizer que entendo o porquê deste livro. Foram tantas as
experiências inacreditáveis e magníficas vividas pelos Kemp, tantas vidas
transformadas, centenas de ministérios gerados e amizades eternizadas, que
se torna necessário compartilhar a gratidão pelo Senhor que superlota os seus
corações.

Provavelmente, quando Jaime e Judith vieram para o Brasil não imaginavam


que tudo seria como foi. Creio que as palavras do apóstolo Paulo em Efésios
3.20 traduzem o que ambos sentem sobre a atuação de Deus através da
missão Vencedores Por Cristo desde 1968 até hoje: “Àquele que é capaz de
fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, de acordo
com o seu poder que atua em nós, a ele seja a glória na igreja em Cristo Jesus
por todas as gerações, para todo sempre! Amém!”.

Minha oração é que os conceitos apresentados e o compartilhamento de todos


que participaram deste livro abram seus olhos e o seu coração para o imenso
desejo que o Senhor tem de transformar sua vida e, através dela, transformar
muitas outras.

Capítulo1
Deus pode usar um “joão-ninguém”?
“Agora, meus irmãos, lembrem do que vocês eram quando Deus os chamou.
Do ponto de vista humano poucos de vocês eram sábios ou
poderosos ou de famílias importantes. Para envergonhar os sábios, Deus
escolheu aquilo que o mundo acha que é loucura...” (1 Coríntios 1.26-27-
NHTL)

- Não sei se ele é um bom candidato. Afinal, não passa de um “joão-


ninguém”!

Se soubéssemos que ela iria dizer isso, com certeza jamais teríamos escolhido
Miss Pine para escrever uma carta de recomendação para nossa admissão
como missionários da Sepal (Servindo Pastores e Líderes). Nós achávamos
que ela era uma boa escolha por causa da sua dedicação a missões mundiais.
Seu comentário nos deixou chocados!

Miss Pine era chamada por todos pelo seu sobrenome. É claro que ela tinha
um primeiro nome, mas nunca o usávamos, porque chamála pelo seu
sobrenome era uma demonstração de respeito (além disso, pensávamos que
Miss era uma abreviação de missionária?!).

Apesar do fato de ela ser a diretora de uma escola e de nunca ter colocado
seus pés num campo missionário, Miss Pine respirava e amava missões. Ela
dedicou longas horas orando por muitos missionários ao redor do mundo e
escrevendo cartas fielmente para eles.

Miss Pine frequentou a mesma igreja a vida toda, na mesma cidade em que
foi criada, Grass Valley, Califórnia, Estados Unidos. Essa cidade foi
construída na época do descobrimento do ouro, em 1849, e se encontra
incrustada nas montanhas Sierra Nevada. Jaime foi o primeiro jovem da
igreja local a ser mandado para o campo missionário. Ilusoriamente, nós
pensávamos que Miss Pine ficaria muito feliz ao saber que sua igreja havia
preparado um missionário. Mas, certamente, ela não achava que o Jaime era
uma boa escolha.
Olhando para trás, hoje é mais fácil entender os sentimentos dela. Quando
Miss Pine conheceu o Jaime, ele era o presidente da mocidade da igreja,
porém, na verdade, não era nem mesmo crente. Talvez ele até usasse uma
máscara de espiritualidade no domingo, mas durante a semana ele vivia como
um pagão. Evidentemente, sua reputação diante da população local não era
das melhores, pois a cidade até hoje é muito pequena. Além disso, não era
nada fácil enganar Miss Pine.

Contudo, algo muito importante aconteceu na vida do Jaime entre esse


período e a época em que estávamos nos preparando para partir como
missionários. Durante seu último ano no ensino médio, ele foi confrontado
num acampamento para jovens pela necessidade de ter um relacionamento
pessoal e sério com Jesus Cristo. Finalmente seu cristianismo tornou-se algo
significativo, íntimo e real. Sua vida mudou tão radicalmente que ele decidiu
abandonar seu sonho de ser engenheiro mecânico e matricular-se na
Universidade Biola, uma faculdade cristã.

Enquanto estudava ali, Jaime envolveu-se em pequenos grupos que oravam


por trabalhos missionários em várias áreas específicas do mundo, como
África, América do Sul, Ásia etc. A escola também promovia conferências
missionárias, e as mensagens eram sempre inspiradoras. Ao mesmo tempo,
ele teve a oportunidade de participar de trabalhos missionários durante as
férias, e todas essas experiências o levaram, junto com dois colegas, a
começar uma missão chamada “Rural Outreach” (Alcance Rural). Eles
queriam ensinar a Palavra de Deus e evangelizar naquela região do país,
carente de Cristo. Também tinham esperança de que as experiências dos
jovens envolvidos nesses trabalhos durante os meses de férias seriam usadas
por Deus para treiná-los e desafiá-los para o seu serviço. Foi em uma equipe
de jovens assim que o próprio Jaime acordou e reconheceu que Deus poderia
usar a sua vida para glória d’Ele.

Muitas pessoas já ouviram o testemunho do meu marido. Como ele mesmo


costuma dizer, ele veio “da roça”. De fato, a palavra que Miss Pine usou para
descrevê-lo foi “hayseed”, que quer dizer semente de palha. Ela também
define uma pessoa um tanto limitada, alguém que não vai conseguir produzir
nada de valor. Imagine que o lugarejo em que ele foi criado é tão
insignificante que nem aparece no mapa da região e não tem uma boa
reputação (por isso era costume perguntar: pode alguma coisa boa sair de
North San Juan?).

Jaime é fruto do terceiro casamento de sua mãe – que se casou quatro vezes –
e vivia na mesma casa com o irmão e as irmãs dos casamentos anteriores. Seu
irmão foi preso quando jovem. A maioria se divorciou várias vezes. Era uma
família completamente problemática. Acho até meio irônico uma pessoa com
esse histórico familiar ser escolhida por Deus para um ministério com
famílias no Brasil.

Eles eram pobres. O pai do Jaime trabalhava duro numa serraria, sob o sol
forte da Califórnia, para sustentar sua esposa e os sete filhos. O pequeno
“Jimmy” estudou em uma escola rural que só possuía uma sala e uma
professora para todos os níveis. Até hoje meu marido se gaba por ter sido o
segundo melhor aluno de sua turma. A bem da verdade, só eram dois.

Já ouvi várias histórias sobre “as coisas ruins” que ele fez durante sua
adolescência e juventude: ele participava de “rachas” (corrida ilegal de
carros) na rua principal da pequena cidade, entrava no cinema sem pagar e
outras maluquices que é melhor nem contar. Portanto, Miss Pine tinha razão:
ele era um “hayseed”!

Foi durante as viagens que o Jaime fez às áreas rurais dos Estados Unidos
com outros jovens que ele aprendeu que Deus tinha lhe dado dons e talentos.
Seus olhos se abriram para a necessidade das pessoas ao seu redor, perdidas
sem Jesus. Ele experimentou a comunhão que existe no Corpo de Cristo,
aprendeu a conviver com outros membros da equipe e apreciar seus dons.

No decorrer daqueles anos de formação, o Espírito Santo transformou aquela


semente de palha num grão de trigo que deu fruto.

Por algum motivo que ainda desconhecemos, a Sepal decidiu nos aceitar,
apesar da avaliação negativa de Miss Pine. Fomos designados para trabalhar
no Brasil. Quando chegou o momento, reservamos dois lugares num navio
japonês que ia partir de Los Angeles (Califórnia) para Santos (São Paulo), no
dia 17 de março de 1967.

Tudo isso aconteceu há muito tempo. Durante os anos que se seguiram, Miss
Pine tornou-se a nossa maior intercessora, nossa maior fã e uma de nossas
melhores amigas. Sei que ela teria sentido muita vergonha se descobrisse que
nós sabíamos da sua avaliação a nosso respeito e da palavra que tinha usado
para definir o Jaime. Mas foi também graças às suas orações que as missões
VENCEDORES POR CRISTO e LAR CRISTÃO vieram a existir no Brasil.

Alguns dias antes de partir para encontrar o seu Senhor, aos 96 anos, Miss
Pine pediu que fôssemos vê-la no hospital. Jaime tinha acabado de receber
doutorado honorário na Universidade Biola. Ela sinalizou para ele aproximar-
se mais de sua cama, pois sua voz estava muito fraca e ela queria ter certeza
de que o Jaime escutaria o que ela tinha a dizer. Quando o ouvido dele estava
bem perto de seus lábios, Miss Pine cochichou: “Eu só queria que você
soubesse que sinto muito orgulho de você”. Acho que foi o maior elogio que
ele já recebeu – até maior do que o seu diploma de doutorado!

Como você pôde perceber no desenrolar desta história, é possível


compreender como aquele “joão-ninguém” teve a sua vida transformada por
meio de uma experiência real com Jesus Cristo. É preciso também ressaltar o
impacto que aquelas equipes de treinamento causaram em sua vida. Sua
importância e influência foram tamanhas que ele decidiu usar o mesmo
método no Brasil. E foi assim que nasceu a missão VENCEDORES POR
CRISTO.

Uma dica da Sonia. Só para você saber...

Dizem que o homem deixa a roça, mas a roça jamais abandona o homem.
Logo no princípio de VPC, desde as primeiras equipes, o pessoal percebeu
que o Jaime, apesar de ser americano, país que, na época, influenciava
bastante os brasileiros na música, nos costumes e até na adoção de palavras,
era caipira. Se há algo que brasileiro gosta de fazer é “alugar” alguém...
Durante a leitura deste livro, você descobrirá como não foi fácil para o Jaime
aprender a ser brasileiro.
Capítulo2
Fazei discípulos
“Jesus, aproximando-se , falou-lhes, dizendo: toda a autoridade me foi dada
no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos...” (Mateus 28.18-19 –ARA)

As últimas palavras que dizemos a alguém são muito importantes. As últimas


palavras pronunciadas por uma pessoa amada antes de morrer, ditas pelo
cônjuge antes de sair em viagem ou, por que não, as últimas palavras que um
rapaz ou uma garota cochicham no ouvido do(a) namorado(a) antes de dar o
beijo de boa noite.

Quando chegou a hora de Jesus deixar este mundo e voltar ao Pai (depois de
mostrar o quanto Ele nos amava), suas últimas palavras foram: “... Foi-me
dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos
de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo, ensinando-os a obedecer a tudo que eu lhes ordenei. E eu estarei
sempre com vocês, até o fim dos tempos.”

Eu nunca estudei grego, mas aqueles que já o fizeram afirmam que o único
verbo no imperativo neste trecho de Mateus 28.18-20 é fazei. Em outras
palavras, não se trata de uma sugestão. É uma ordem do chefe! É nossa
responsabilidade fazer discípulos.

Jesus dedicou seus três breves anos de ministério às multidões ensinando,


curando e cuidando das pessoas; a seu Pai em oração e comunhão; aos doze
homens que Ele escolheu para serem seus discípulos. Em Marcos 9.30-31a
lemos: “Jesus e os discípulos saíram daquele lugar e continuaram
atravessando a Galileia. Jesus não queria que ninguém soubesse onde Ele
estava porque estava ensinando os discípulos...” (NTLH). Depois da sua
partida, os discípulos iriam continuar a obra que Ele havia iniciado aqui na
Terra e “transtornar o mundo” com sua pregação (Atos 17.6 – ARA).

Antes de vir para o Brasil, Jaime e eu tivemos longas conversas com o Dr.
Dick Hills, o fundador da Sepal, nossa missão na época. Dick e sua família
atuavam como missionários na China e foram forçados a sair daquele país
por causa da guerra. Ele compartilhou conosco que seu único conforto era
saber que os missionários americanos e europeus haviam deixado para trás
um grupo de chineses altamente qualificados para continuar a obra.

Por isso não ficamos surpresos quando Dick nos disse: “Vocês podem fazer
coisas boas no Brasil, mas acima de tudo “FAZEI DISCÍPULOS!”. Outro
conselho que ele nos deu foi: “Nunca vão a um lugar sozinhos. Sempre levem
alguém que possa aprender com o seu exemplo”. Cada vez que ele nos
visitava no Brasil ou que nós íamos visitá-lo, ele perguntava: “Onde estão os
seus discípulos?”. Quero deixar bem claro que discipular significa mais do
que evangelizar. É o que pretendo explicar a você no decorrer deste livro.

Se as últimas palavras de Jesus foram “fazei discípulos”, será que as


primeiras palavras que ouviremos quando o encontrarmos não serão: “Você
fez o que eu pedi?”.

Um dos versículos que o Senhor usou na minha vida quando me chamou para
missões encontra-se em 1 João 2.28: “Sim, meus filhinhos, continuem unidos
com Cristo, para que possamos estar cheios de coragem no dia em que ele
vier. Assim não precisaremos ficar com vergonha e nos esconder dele
naquele dia.” (NTLH).

Durante nosso primeiro ano no Brasil estudamos a língua portuguesa. Logo


depois da nossa formatura foi organizada a primeira equipe de Vencedores
Por Cristo, que viajou pelo Estado de Minas Gerais evangelizando depois de
um período de treinamento dos jovens. Muitos daqueles que viajaram naquela
equipe eram membros da mesma igreja que eu e o Jaime frequentávamos, a
Igreja Presbiteriana de Santo Amaro. Nosso português deixava muito a
desejar. Hoje em dia, quando penso naquela época, pergunto a mim mesma:
“Quem discipulou quem?”.

Quando observamos a vida de Jesus e avaliamos honestamente o que Ele nos


ensinou durante nossos anos no Brasil, reconhecemos que existem alguns
conceitos importantes no que diz respeito a relacionamento em um
discipulado:

Contato
Não há impacto sem contato. Jesus chamou seus discípulos para estarem com
Ele (Marcos 3.13-14). As pessoas que têm maior sucesso em fazer discípulos
são aquelas que praticam a hospitalidade e convidam os outros a fazerem
parte de suas vidas e famílias. Muitos dos nossos discípulos, que agora estão
discipulando outros, são muito melhores do que eu fui executando essa tarefa.

Convicção
Se vamos fazer discípulos, temos que estar convencidos de que este é
realmente o melhor caminho a seguir. Às vezes é difícil contentar-se com um
grupo de dez ou doze pessoas quando sonhamos ensinar multidões. O que
realmente importa não é a quantidade, mas a qualidade do nosso discipulado.

Compromisso
Se vamos investir num grupo pequeno de homens e mulheres, devemos fazer
o possível para escolher pessoas que são fiéis (2 Timóteo 2.2). Mesmo assim,
algumas vezes as pessoas nos desapontam. Até Jesus passou por isso.
Lembra-se de Judas Iscariotes?

Caráter
O apóstolo Paulo disse aos seus discípulos: “Sigam o meu exemplo como eu
sigo o exemplo de Cristo” (1 Coríntios 11.1 – NTLH). Ao mesmo tempo,
precisamos prestar bastante atenção às palavras de Jesus aos líderes religiosos
da sua época: “... vocês... hipócritas... percorrem terra e mar para fazer um
convertido e, quando conseguem, vocês o tornam duas vezes mais filho do
inferno do que vocês” (Mateus 23.15 – NVI).

Comunhão
Um grupo pequeno oferece uma situação perfeita para experimentar a alegria
de sermos “membros uns dos outros”. Nossa comunhão é com o nosso Pai
celestial em oração e também com os outros membros do grupo quando
mostramos amor e oramos uns pelos outros.

Confissão
O alvo do nosso discipulado é providenciar um ambiente em que cada pessoa
se sinta livre para compartilhar suas lutas e falhas. Isso somente acontece se o
discipulador é honesto e aberto a respeito de sua própria vida. Nós devemos
dizer: “Sigam o meu exemplo como eu sigo o exemplo de Cristo”, mas às
vezes precisamos nos humilhar e admitir: “Não sigam o meu exemplo neste
momento, porque o que eu acabei de fazer não reflete algo que Cristo faria se
estivesse em meu lugar”.
Confrontação
Isso leva tempo. Se vamos confrontar alguém, aquela pessoa precisa ter
certeza de que, acima de tudo, ela é amada e aceita. Eu sei que é difícil para
os brasileiros confrontar alguém, porque são muito educados. Porém, há
ocasiões em que temos que conversar seriamente com um jovem que está
namorando uma pessoa que não é crente ou alguém que está tendo problemas
no seu casamento. Uma vez que você começa a se preocupar com eles, nunca
deixará de fazê-lo.

Conteúdo

Jesus instruiu seus discípulos a transmitir para outros TUDO o que Ele tinha
ensinado para eles (Mateus 28.20). É importante ter um plano de estudo
específico. Se o discípulo é novo convertido, devemos ensinar as coisas
básicas da fé cristã: a vida de Jesus, atributos de Deus, Romanos etc. Uma
vez que conhecemos as necessidades específicas dos indivíduos, temos uma
ideia melhor de como devemos prosseguir. A Palavra de Deus é o ingrediente
mais importante no processo de fazer discípulos.

Contexto
Jesus não treinou os seus discípulos numa sala de aula, usando um quadro-
negro e giz. Ele viajou com eles para que observassem como evangelizava,
como se relacionava com as pessoas e como ensinava. Nosso propósito é
sempre apontar para o exemplo de Jesus. Todos os discípulos são d’Ele, não
nossos. Não estamos preparando pequenos clones. Porém, ajuda muito
termos um contexto, um ministério para que nossos discípulos possam
observar e participar. Um de nossos discípulos uma vez disse: “No seminário
eu aprendi o que fazer. Em Vencedores Por Cristo aprendi como fazer”.

Quando tudo começou por Osiander Schaff da Silva

Tempos atrás recebi a carta de um jovem, apelidado de Bequinho,


relembrando uma época em que ele e outros dois jovens, Milton Peyroton e
Elnatã, estiveram no Peru como missionários enviados pela igreja da qual eu
era pastor. Segundo ele, apesar do risco de morte por causa da constante
oposição do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, aquele foi o período mais
importante em sua vida cristã. Igrejas foram iniciadas e vidas edificadas.
Fiquei pensando como tudo isso começou. Talvez nada teria acontecido não
fosse o discipulado que eu recebi. Conheci o missionário Jaime Kemp
quando ainda era jovem, solteiro, na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em
São Paulo. Ele me convidou para nos reunirmos alguns dias por semana para
fazer ginástica, tomar café, orar e estudar a Palavra antes de eu ir para o meu
trabalho.

Foi durante esse período que o Jaime iniciou a missão Vencedores Por Cristo
e organizou equipes de treinamento, e eu pude participar de várias delas
como equipante e de outras como líder, sob sua supervisão. Ele, com imensa
paciência, suportou minhas deficiências e promoveu meu crescimento
espiritual.

Foi através dessa influência e do trabalho de Vencedores que eu e muitos


outros jovens foram chamados por Deus para o seu ministério. Por isso louvo
a Deus, porque a influência da vida do Jaime e da missão Vencedores Por
Cristo não se deteve apenas em Santo Amaro, São Paulo, mas chegou ao Peru
e, sem dúvida, a muitos outros lugares do mundo.
Osiander Schaff da Silva - filho de Jacob Silva (pastor presbiteriano) e Elmira Batista da Silva nasceu
em Lavras-MG. . Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e em Filosofia
pela Universidade de Mogi da Cruzes. Trabalhou na Mocidade para Cristo em clubes bíblicos e como
gerente do escritório da SEPAL do Brasil - em São Paulo. Participou da primeira equipe de Vencedores
por Cristo, de muitas outras equipes de VPC e mais tarde da liderança dessa missão. Participou do
treinamento de liderança cristã no Instituto Haggai em Singapura, foi pastor da Igreja Presbiteriana de
Santo Amaro, Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, Primeira Igreja Presbiteriana de Anápolis e
Igreja Presbiteriana do Setor Bueno em Goiânia. Trabalhou como professor de Filosofia na rede pública
do DF. Casado com Marcia desde 1969. Pai de três filhos - Alexandre, Janice e Guilherme. Avô de
André, Camila e Felipe.

Convivendo e aprendendo por Dimas Antonio Pezzato

Em 2012 tornei-me parte de um grupo seleto, popularmente conhecido como


“melhor idade” (por ter completado 60 anos), e assim posso afirmar, por
experiência própria, que sem dúvida alguma um dos maiores propósitos que
Deus tem para a sua Igreja, o corpo de Cristo, é a edificaçāo dos seus
membros, que acontece por meio da convivência uns com os outros, através
da “koinonia”.

O Novo Testamento está permeado de mutualidades, de ensinamentos


seguidos da expressāo “uns aos outros” (como, por exemplo, orem uns pelos
outros, encorajem uns aos outros, perdoem uns aos outros, confessem seus
pecados uns aos outros para que sejam curados, e uma série de outros mais).
Esta perspectiva sobre a vida cristā ficou profundamente impressa na minha
mente durante o início da minha vida adulta, quando estive envolvido com as
equipes de treinamento de Vencedores Por Cristo.

A oportunidade que a convivência “uns com os outros” proporcionava para o


exercício das verdades ensinadas nas Escrituras foi o veículo que Deus usou
para trazer firmeza e maturidade à minha vida em Cristo. Poder observar a
relevância e eficácia dos preceitos bíblicos no dia a dia da vida de outras
pessoas (o modo como encarar e tratar os problemas e fraquezas, o
relacionamento conjugal, a educaçāo dos filhos etc.) foi profundamente
impactante e motivador para o desenvolvimento da minha vida cristā.

Em outras palavras, o compartilhamento de ensinos bíblicos acompanhado de


oportunidades para exercitá-los e prová-los é, no meu modo de entender, o
significado da ordem deixada pelo Senhor Jesus aos seus discípulos: “Façam
discípulos... ensinandoos a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei”.

É sob essa perspectiva e diretriz que tenho procurado viver a vida cristã.
Dimas Antonio Pezzato – É formado em Teologia pela Faculdade Teológica de São Paulo. Entre 1970
e 1980 participou de várias equipes e foi missionário de Vencedores Por Cristo. Desde 1994 tem
pastoreado uma igreja brasileira nos Estados Unidos da América. É casado com Janis Pezzato de pai de
Dimas Sam e Nicolas, casado com Briana.
Capítulo3
O que é um discípulo?
“E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo
transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros.” (2
Timóteo 2.2)

Será que os discípulos de Jesus entenderam o que Ele quis dizer quando
ordenou “fazei discípulos”? Se nós queremos obedecer a Cristo, certamente
precisamos, antes de tudo, entender o que é um discípulo.

O dicionário Webster diz que discípulo é: 1) uma pessoa que acredita e ajuda
a disseminar os ensinamentos de um mestre e 2) um dos seguidores de Jesus.

Quando esta palavra é usada no Novo Testamento, algumas vezes se refere à


multidão curiosa que seguiu Jesus e ouviu os seus ensinamentos. Nem todos
aqueles discípulos foram leais a Ele. Em João 6.66, depois de escutarem
algumas palavras duras de Jesus, “... muitos dos seus discípulos voltaram
atrás e deixaram de segui-lo”.

É claro que quando falamos sobre fazer discípulos, queremos mais do que
isso. Mas parte do processo de discipulado envolverá ensinar pessoas
simplesmente curiosas. Nem todos continuarão seguindo a Jesus.

Jesus chamou seus discípulos para serem “pescadores de homens” (Mateus


4.19). Sendo assim, o nosso propósito é apenas considerar como discípulo
aquela pessoa que, através do nosso exemplo e ensino, torna-se apta para
evangelizar e discipular outros?

Quando Jesus deu suas últimas instruções, Ele não estava basicamente
dizendo: “Vá pelo mundo e faça na vida dos outros a mesma coisa que eu fiz
por você”? O conceito transmitido pelo apóstolo Paulo ao seu filho na fé,
Timóteo, ratifica a instrução do Mestre: “E as palavras que me ouviu dizer na
presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que também sejam
capazes de ensinar outros” (2 Timóteo 2.2 – NVI).

Contudo, antes de FAZER discípulos, precisamos aprender a SER discípulos.


Quando Jesus desenvolveu seu ministério aqui naTerra, Ele deixou bem claro
o tipo de compromisso que seria exigido daqueles que escolhessem segui-lo.
Eu consigo destacar no Novo Testamento pelo menos quatro condições
específicas que precisamos aceitar para sermos considerados discípulos de
Jesus. Algumas vezes, Ele ressaltou que quem não estiver disposto a aceitar
tais condições “não pode ser meu discípulo”. Vamos observar cada uma delas
cuidadosamente.

Um discípulo verdadeiro ama a Jesus acima de tudo “Jesus dizia a todos:


‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a
sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem
perder a sua vida por minha causa, este a salvará. Pois que adianta ao homem
ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?’”(Lucas 9.23-25
– NVI).
“Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos,
seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser
meu discípulo. E aquele que não carrega a sua cruz e não me segue não pode
ser meu discípulo. Da mesma forma, qualquer de vocês que não renunciar a
tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lucas 14. 26-27,33 – NVI).
Você ama a Jesus mais do que a si mesmo? Mais do que a sua família? Mais
do que seu conforto? Mais do que suas posses? Se sua resposta for sim, você
pode ser discípulo de Cristo.

Um discípulo verdadeiro ama a Palavra de Deus “Então Jesus disse para


os que creram nele: Se vocês continuarem a obedecer aos meus
ensinamentos, serão, de fato, meus discípulos e conhecerão a verdade, e a
verdade vos libertará” (João 8.31-32 – NTLH).
Você tem obedecido a Palavra do Senhor? Você estuda a Bíblia todo o dia ou
somente aos domingos? Você é “verdadeiramente livre”? Existe alguma área
de sua vida que ainda permanece escravizada? Se você ama, obedece e
medita na Palavra de Deus, o convite para ser um discípulo e fazer discípulos
é para você.

Um discípulo verdadeiro ama seus irmãos e irmãs em Cristo “Eu lhes dou
este novo mandamento: amem uns aos outros. Assim como eu os amei, amem
também uns aos outros. Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que
vocês são meus discípulos” (João 13.34-35 – NTLH).
Será que as pessoas com as quais você convive, inclusive aquelas que ainda
não são convertidas, reconhecem que você pertence a Jesus justamente por
causa da maneira como você trata seus irmãos em Cristo? Quando
testemunhamos nossa fé, o que é mais importante: o que falamos ou o que
fazemos? Como nosso bom amigo Ary Velloso sempre dizia: “Se você não
for viver como um cristão, por favor, não conte para ninguém que você é
cristão”.

Um discípulo verdadeiro ama as almas perdidas “E a natureza gloriosa do


meu Pai se revela quando vocês produzem muitos frutos e assim mostram
que são meus discípulos” (João 15.8 – NTLH).
Quais são os frutos a que Jesus se referiu nesse versículo? São os frutos do
Espírito citados em Gálatas 5.22-23? Certamente, fazem parte. Jesus disse
que Ele escolheu e mandou seus discípulos para “ir e dar fruto – fruto que
permanece” (João 15.16). Em 1 Coríntios 9.1 (NTLH), Paulo faz a seguinte
pergunta aos cristãos: “Por acaso vocês não são o resultado [fruto] do
trabalho que faço para o Senhor?”.
Quando Jesus afirmou que devemos dar frutos, Ele não estava dizendo que
devemos pregar o evangelho e levar outros a crerem n’Ele? Porém, é claro
que sem os frutos do Espírito nosso evangelismo não dará resultado.
Você é capaz de dizer, honestamente, que está disposto a aceitar estas quatro
condições? Será que eu posso? Somente quando conseguimos dizer sim com
convicção é que podemos ser discípulos no verdadeiro sentido da palavra. Se
optarmos por sermos comprometidos com Jesus, sua Palavra, sua família na
fé e sua missão, seremos realmente seus discípulos e, percebendo ou não,
estaremos fazendo discípulos.

Discipulado consciente e intencional por Cláudio Antônio Batista Marra

Sou de uma tribo que conheceu o evangelho há muitos anos. O século 20 só


estava começando. A maior parte do Estado de São Paulo era coberta de
matas quando meu avô materno foi para o sertão de Borborema plantar uma
fazenda. Claro que para plantar qualquer coisa lá seria necessário primeiro
arrancar algumas árvores e espantar algumas onças.

Homem resolvido, meu avô ficou impaciente quando pediu uma Bíblia ao
padre e o homem o tentou enrolar. O vigário também não gostou da
insistência do fazendeiro e, ao lhe entregar finalmente o livro sagrado,
recomendou emburrado:

– Leia e siga!

Foi o que o seu Sebastião Bueno fez. Ele e a família conheceram o evangelho
e receberam a Cristo pela fé, tornando-se discípulos d’Ele. A boa notícia se
espalhou ao longo dos anos, e netos, bisnetos e por aí afora foram sendo
discipulados também. Eu mesmo sou de um ramo da família muito
comprometido com o discipulado da próxima geração.

Foi com esse histórico familiar que vim a conhecer Jaime e Judith em 1968.
Foi uma festa. A ideia daquela dupla doce, dinâmica e determinada, bem
como o propósito do ministério que os trouxe ao Brasil, era exatamente
discipular pessoas que discipulariam outras pessoas, nessa marcha de boas
novas que vem fazendo andar a igreja de Cristo há dois mil anos. Em
Vencedores Por Cristo, nome da equipe reunida pelo casal, discipulado era
algo consciente e intencional, jamais ocasional ou aleatório.

Foi a partir de Vencedores que comecei a pensar acerca de minha


contribuição à Igreja para a dinamização do discipulado. O estudo do Novo
Testamento mostrou-me como a Igreja foi organizada desde o seu início e
como deveriam ser comprometidos com o ensino e discipulado todos os
presbíteros encarregados de seu pastoreio, de modo que em cada igreja local
o discipulado fosse, como aprendi em Vencedores, algo consciente e
intencional, jamais ocasional ou aleatório.
O Rev. Cláudio Antônio Batista Marra é bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de
São Paulo e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, é Doutor em Ministério pelo Theological
Seminary de Jackson, Mississippi, e Mestrando em Letras pela Universidade Mackenzie. Pastor
presbiteriano há 40 anos, ele é o editor da Editora Cultura Cristã. É casado com Sandra e pai de dois
filhos adultos.

Nota das autoras:


Deus tem mostrado ao Cláudio como desenvolver o discipulado na igreja local. Sua exposição a
respeito, para consulta em apêndice deste livro, visa auxiliar pastores, presbíteros e líderes que
compartilham este mesmo ideal.
Capítulo4
Jesus nos deu a vida eterna
“Depois de dizer essas coisas , Jesus olhou para o céu e disse: Pai, chegou a
hora. Revela a natureza divina do teu Filho a fim de que Ele revele tua
natureza gloriosa. Pois tens dado ao Filho autoridade sobre todos os seres
humanos para que Ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida
eterna é esta: que eles conheçam a ti, que és o único Deus verdadeiro; e
conheçam também Jesus Cristo, que enviaste ao mundo.” (João 17.1-3 –
NTLH)

Algumas horas antes de ser crucificado, Jesus orou pelos seus discípulos. Eu
gosto de pensar que Ele estava apresentando um tipo de relatório do
progresso da sua missão ao seu Pai. Ele disse: “Eu te glorifiquei na terra,
completando a obra que me deste para fazer” (João 17.4 – NVI). Jesus estava
finalizando a obra da nossa redenção e também a preparação dos homens que
havia escolhido e chamado para continuar a sua missão na terra.

João 17 tem sido a síntese que orienta e dirige meu ministério no Brasil. Eu
estudei esse trecho detalhadamente, pela primeira vez, quando minhas filhas
eram pequenas. Adotamos as duas meninas durante nossos primeiros anos no
Brasil. Tornar-me mãe foi a realização de um sonho. Porém, eu também
queria fazer discípulos, e foi difícil achar tempo para isso enquanto não
parava de fazer mamadeiras e trocar fraldas. Sou grata a uma amiga por ter
me alertado que minhas filhas também precisavam ser discípulas de Jesus no
futuro. Naquela época eu estava utilizando para minha vida devocional um
livro publicado pela ABU, chamado “This Morning with God” (Esta Manhã
com Deus). Certo dia, o texto destacado para estudo foi João 17, e uma das
perguntas formuladas para meditação era: “O que Jesus fez para os seus
discípulos?”.

A lista que eu fiz mudou radicalmente a minha vida. Mais tarde serviu de
esboço para meu livro: Meu filho, deu discípulo” e até hoje ela ainda é a
orientação que eu uso para qualquer discipulado, inclusive para meu estudo
bíblico com mulheres.
Jesus estava a caminho da cruz, onde sacrificaria a sua própria vida para que
nós pudéssemos viver com Ele eternamente. Nos primeiros versículos de
João 17, temos uma das melhores definições da vida eterna, que é conhecer o
único Deus verdadeiro e conhecer seu Filho, Jesus Cristo (v. 3).

No treinamento das equipes de VPC, sempre pedíamos para cada jovem


escrever um testemunho e apresentar ao grupo. Depois, durante a viagem,
eles tinham a oportunidade de compartilhar seu testemunho em praças
públicas, igrejas, auditórios, no rádio, na televisão e em escolas. No início era
difícil para eles. Cada testemunho precisava ser avaliado e reavaliado:

• A pessoa forneceu uma base sólida e bíblica para fundamentar sua fé?
• Apresentou claramente o plano de Deus para a nossa salvação?
• O testemunho é curto e objetivo?
• Há uma sequência de pensamento lógico e organizado?
Esses questionamentos também proporcionavam uma oportunidade para cada
jovem avaliar a sua própria vida e descobrir se, um dia, realmente tinha
convidado Jesus para ser seu Salvador e Senhor. É perigoso presumir que
alguém é crente simplesmente porque frequenta uma boa igreja.
Os membros da equipe logo descobriam que não existe nada melhor do que
ver alguém entregar a sua vida para Jesus por causa do seu testemunho. Eu
me lembro especialmente de um jovem que estava falando numa praça
pública diante de uma pequena multidão pela primeira vez. Ele estava
nervoso e, por isso, esqueceu o que ia dizer. Como resultado, seu testemunho
foi meio confuso e desorganizado. Porém, quando foi feito um apelo para que
as pessoas que estavam ali assistindo aceitassem Jesus como Salvador,
algumas foram à frente. Ele ficou eufórico! O Espírito Santo tinha usado seu
testemunho, apesar de, aparentemente, ter sido um desastre. Foi uma
experiência inesquecível. No decorrer dos anos, ele estudou teologia e
continua sendo um líder evangélico muito respeitado.
Na maioria das vezes, as pessoas que se reuniam para ouvir uma equipe de
VPC cantar e testemunhar eram muito abertas e receptivas, mas houve
algumas poucas exceções. Certa vez, eles foram a uma escola muito grande
no sul do país. Tudo estava correndo bem enquanto a equipe cantava, mas
quando um dos participantes, Guilherme, iniciou seu testemunho, os alunos
começaram a conversar entre si e atirar aviõezinhos de papel pelo auditório.
O murmúrio e a agitação foram crescendo até que o Guilherme finalmente
parou e disse: “Não temos mais condições de continuar. Se existe alguém
aqui que realmente quer ouvir o que temos a dizer, então venha até à frente
para conversar conosco pessoalmente”. Uma das minhas fotos prediletas é
justamente daquela escola. Cada membro da equipe aparece cercado por
alunos que estavam querendo, seriamente, conhecer a Verdade.
Muitas vezes nós evangelizamos pessoas as quais, depois, não temos a
oportunidade de discipular e também discipulamos pessoas que não
evangelizamos. Contudo, ocasionalmente, Deus nos dá a bênção e a alegria
de participar de todo o processo. Artemis era uma deusa dos antigos efésios.
Pode parecer um nome estranho para a filha de um pastor. Quando
conhecemos essa garota, ela demonstrava ser muito mais adepta a falsos
deuses do que ao Deus do seu pai. Ela estava estudando filosofia e tinha
tendências comunistas. Na época, seus pais convidaram Carolina Jones, uma
jovem americana que estava participando de VPC, para ficar na casa deles,
em Bauru, uma das cidades que faziam parte do roteiro ministerial da equipe.
Como Artemis falava inglês, ela ajudou muito Carolina; mas mais tarde
ficamos sabendo que ela sentia vergonha quando seus amigos a viam
conosco, pois sempre afirmava a eles que era contra a igreja, contra
americanos, enfim, contra tudo.
Porém, algumas coisas interessantes estavam acontecendo, e ela resolveu
permanecer por perto daquele pessoal. Por exemplo, foi exatamente durante
aquela semana que a Carolina conheceu seu futuro marido, o Ary Velloso.
Todos nós ficamos muito empolgados observando o início daquele namoro.
A nossa filha Melinda, que tinha somente cinco meses, estava viajando
conosco e precisávamos de alguém para cuidar dela enquanto cantávamos
com a equipe. Graças a Deus, ao menos Artemis não era contra bebês!
Artemis escutou um testemunho após outro, mas não deu ouvidos à
mensagem que transmitíamos. Parecia que nada penetrava em sua mente e no
seu coração. Depois de nossa última apresentação em Bauru, numa
penitenciária, ela entrou conosco no ônibus em que viajávamos e sentou-se
ao lado de um rapaz que tinha muito zelo, mas pouco tato. Ele disse a ela,
sem rodeios: “Você pode continuar me dizendo que se sente feliz sem Jesus,
mas eu não acredito. Você nunca será feliz sem Ele!”.
Ela foi para casa fumegando de raiva – “Como ele tem coragem de falar
assim comigo?! Quem ele pensa que é? Quem deu a ele o direito de sugerir
em que eu devo crer ou não?”. Entretanto, quanto mais ela pensava nas
palavras do rapaz, mais reconhecia que ele tinha razão. E foi assim que
naquela mesma noite Artemis entregou a sua vida para Jesus. Ela viajou na
equipe seguinte de VPC e depois decidiu ir estudar no Instituto Bíblico
Palavra da Vida. Nós tivemos o privilégio de hospedar a Artemis em nossa
casa durante todo o seu período de estágio, juntamente com Sonia Regina e
Vera, duas de suas colegas de escola. Até hoje ela continua sendo uma pessoa
muito importante para a nossa família.
Depois de alguns anos, Artemis casou com Carlos Osvaldo, que também já
tinha participado de uma equipe. Eles mudaram para o Texas (EUA), onde o
Carlos fez doutorado no Dallas Theological Seminary. Atualmente ele é o
chanceler do Seminário Palavra da Vida, onde ambos estudaram. Eles têm
três lindas filhas, todas servindo ao Senhor, e, o melhor de tudo, já são avós!
Artemis, você é nossa coroa e alegria!

Lições e lembranças inesquecíveis por Sonia Regina Rachid Pezzato

Tenho um lugar muito especial no coração para as lembranças do período da


minha vida em Vencedores por Cristo. Falar de discipulado tem outro sentido
quando penso na convivência, na vida repartida, nos ensinamentos práticos
vivenciados e no estudo da Palavra que até hoje modificam a minha vida.

Quando fui convidada para a primeira equipe de que participei, não tinha a
menor noção do que Deus ia começar a fazer em minha vida. Meu coração
rebelde tinha muito que aprender. Tive de pensar e repensar no amor de
Jesus, aprender a contar para os outros o que significa ser amado e salvo por
Ele. Nosso treinamento incluía estudos da Palavra que atingiam em cheio
meu coração, apontando os valores errados que Deus queria substituir pelos
d’Ele. Foram anos de aprendizado e crescimento.

Os amigos com quem dividi a vida nessa época são especiais até hoje.
Quando penso neles, lembro logo da frase de Jônatas para Davi: “O Senhor
para sempre é testemunha entre nós” (1 Sm 20.42). O segredo de um laço de
amizade duradoura é ter o Senhor no meio. Isso enriqueceu muito nossos
relacionamentos durante o tempo em que participei de Vencedores (da 4ª. à
24ª. equipe!). Até hoje encontro de vez em quando alguém (agora de cabelo
branco) que se converteu ou teve a vida impactada por uma das nossas
equipes. Glória a Deus por isso!

Há mais uma coisa que eu gostaria de registrar: Deus me deu o privilégio de


morar na casa do Jaime e da Judith durante quase três anos. Ali entrei em
contato com uma família cristã que se esforçava na busca dos princípios
bíblicos e na obediência ao comando de Deus. Sou muito grata porque essa
influência mudou o meu ponto de vista sobre casamento, família,
relacionamentos, que podem ser diferentes quando se tem Deus em primeiro
lugar.

Nem o Jaime ou a Judith me disseram: “Seja minha imitadora como sou de


Cristo”, mas é esse o meu sentimento hoje. O fato de eles terem
acompanhado minha vida mudou, em muitos aspectos, o meu caráter e
motivação para seguir Jesus.

Não quero endeusar ninguém. Acho que todo cristão sabe que é pela
misericórdia de Deus que nossas vidas são usadas para influenciar outras
pessoas e fazê-las olhar para Jesus. Creio que esse é o melhor resultado do
discipulado: que o discípulo realmente olhe para Jesus e aprenda a amá-lo
mais do que tudo. Discipulado se faz assim.
Sonia Regina Rachid Pezzato - nasceu em São José dos Campos, SP. Estudou no Seminário Palavra
da Vida, depois de trancar matrícula na Faculdade de Odontologia. Participou de muitas equipes e
devido às viagens frequentes terminou seu curso teológico na Faculdade Teológica Batista de São
Paulo. Em uma das equipes de Vencedores conheceu Laudir Pezzato, com quem casou em setembro de
1976.
Laudir, vindo de Jundiaí para São Paulo, estudou na FaculdadeTeológica Batista e também participou
do ministério de Vencedores, inclusive assumindo a liderança da missão, que lhe foi passada por Jaime
Kemp.
Hoje moram em Curitiba, onde vivem desde 1984, e trabalham no pastorado da Igreja Batista do Prado.
Eles tem dois filhos já casados: Daniel e sua esposa Talita, moram em Curitiba, e ambos trabalham no
Tribunal de Justiça; Davi e sua esposa, Juliana, moram na Tailândia, onde atuam como missionários.
Capítulo5
Jesus glorificou o nome do Pai
“Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer... Eu
revelei teu nome àqueles que do mundo me deste... Agora eles sabem que
tudo o que me deste vem de ti.” (João 17.4.4, 6a-7 – NVI)

Jamais podemos esquecer que fomos criados para glorificar a Deus e


desfrutar da sua companhia para sempre (Confissão de Westminster). Jesus
disse que foi glorificando a Deus que os seus discípulos aprenderam que
todas as coisas vêm dele (v. 7). Esta é uma lição importantíssima, que precisa
ser assimilada por qualquer pessoa que pretende servir ao Senhor.

Durante todos esses anos que estamos trabalhando aqui no Brasil, temos sido
fielmente sustentados financeiramente por amigos e por igrejas dos Estados
Unidos. Muitos deles não falharam um único mês ao longo de tantas décadas.
Para nós isto é emocionante e maravilhoso! Essas igrejas são um bom
exemplo para as igrejas do Brasil que agora estão enviando muitos
missionários para desenvolver seu ministério ao redor do mundo.

Nossa filha Melinda teve a oportunidade de crescer observando que Deus


nunca deixou de suprir nossas necessidades. Então, quando deixou o Brasil
para completar seus estudos nos Estados Unidos, na imaturidade da sua
adolescência ela achava que o Senhor iria dar rapidinho o dinheiro que ela
precisava para comprar um carro. Por que não? Afinal, Ele nunca tinha
falhado com o pai dela!

Desde a primeira equipe de VPC, Jaime sempre pediu que cada jovem
participante pagasse sua parte nas despesas do treinamento, como aluguel do
ônibus durante um mês, confecção do uniforme etc. Quando as pessoas
ouviam sobre essa regra, questionavam se algum jovem estaria disposto a
pagar para ter o privilégio de evangelizar. Achavam que isso não daria certo.
Porém, deu certo. Que eu saiba ninguém deixou de participar por falta de
sustento. Eu gostaria muito que você também pudesse ter ouvido as histórias
que os jovens contavam sobre como o Senhor providenciava a quantia
necessária para eles.
Eu me lembro muito bem da primeira vez em que foram formadas duas
equipes para viajar no mesmo mês, para lugares diferentes. O problema é que
nós tínhamos somente um sistema de som disponível. Luis Antonio Caseira,
um estudante de medicina que trancou sua matrícula na faculdade para
participar de uma dessas equipes, sempre foi um homem de fé. Confesso que
eu não tive a mesma fé quando foi mencionada a necessidade de comprar
mais um sistema de som. Como um pequeno grupo de pessoas, a maioria
jovens, conseguiria recursos para adquirir algo tão caro?

O problema foi compartilhado na igreja, e, com a convicção da fé, Caseira


colocou uma caixa de violão vazia na frente do púlpito, para que as pessoas
que desejassem colaborar colocassem ali sua oferta. Quando o dinheiro foi
contado, tinha mais do que o suficiente para comprar tudo o que era
necessário. Nunca esquecerei a reação dos jovens. Espontaneamente, eles
começaram a cantar louvores a Deus.

Em outra ocasião, o Caseira e o Jaime entraram em um hotel simples, tarde


da noite, para tentar hospedar toda a equipe ali. Eles estavam em trânsito
entre uma cidade e outra. Foi uma situação meio ridícula, considerando o
dinheiro que eles carregavam no bolso. Porém, os jovens já tinham passado
uma noite dormindo na areia da praia e todo mundo precisava de um banho e
de uma boa noite de sono. O primeiro preço dado ultrapassava muito o que
eles tinham e o segundo não foi muito melhor. Diante disso, o Caseira e o
Jaime começaram a explicar que se tratava de um grupo musical em viagem
ministerial e que eles precisavam descansar, pois ainda estavam longe da
cidade em que deveriam se apresentar a seguir. Curioso, o dono do hotel
perguntou o nome do grupo. Quando eles disseram Vencedores Por Cristo,
ele respondeu:

- Vencedores Por Cristo? Eu conheço Vencedores Por Cristo!

Rapidamente eles chegaram a um acordo. A equipe hospedou-se ali e, em


troca, Jaime deu tudo o que tinha no bolso (que como já disse, era bem
pouco), e VPC fez uma apresentação especial para os hóspedes do hotel.

Salmos 50.15 (ARA) diz: “... invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu


me glorificarás”.
Caseira continua glorificando a Deus com sua vida. Depois de viajar com as
equipes, ele terminou seus estudos, montou seu consultório e até ensinou
numa faculdade de medicina. Mas por causa do seu amor ao ministério, ele
deixou a sua profissão por um período para ser diretor de VPC. Foi sob sua
liderança e inspirada por sua fé que a missão conseguiu comprar o escritório
que mantém até hoje. Atualmente, ele está novamente praticando medicina no
Estado do Rio de Janeiro. Nos finais de semana, junto com sua esposa,
Ângela, ministra seminários para casais. Todas as ofertas que eles recebem
são enviadas para ajudar o sustento do ministério Vencedores Por Cristo.
No mesmo salmo 50 também lemos: “O que me oferece sacrifício de ações
de graça, esse me glorificará...” (v. 23). As equipes também glorificaram a
Deus através das suas músicas de louvor.
Quando chegamos ao Brasil, a música nas igrejas dependia exclusivamente
de um órgão de pedaleira ou de um piano e dos hinários que as pessoas
levavam. Se você era visitante e não tinha o hinário correspondente ou
esquecido em casa, não podia cantar.
O povo brasileiro ama a música e não há nada que se compare a um grupo ou
uma pessoa cantando para reunir uma multidão rapidamente. Hoje em dia,
especialmente nos grandes centros urbanos, as pessoas se reúnem nos
shoppings, mas naquela época o centro de atividades, o “point”, era a praça
pública.
As primeiras equipes apresentavam os cânticos disponíveis. Algum tempo
depois recebemos permissão de Ralph Carmichael e da Maranatha Music
para traduzir suas músicas. Até hoje a igreja vibra quando as cantamos.
Naqueles dias era muito difícil, para algumas pessoas, aceitar mudanças,
principalmente nas igrejas mais tradicionais. Vagarosamente foi se tornando
possível conquistá-las, e o louvor nas igrejas começou a modificar. Outros
grupos de louvor começaram a viajar, cantar e evangelizar. Sempre pedi a
Deus que todos também priorizassem o discipulado.
Todas as pessoas, por todo o Brasil, que foram abençoadas com a música de
VPC provavelmente ficariam surpresas ao descobrir que, quando iniciamos o
ministério, a música nunca foi o alvo principal. Nós nem perguntávamos aos
jovens que participavam se eles sabiam cantar. Entretanto, hoje em dia VPC
também é reconhecido pela maneira como transformou o louvor neste país.
Com o passar dos anos, Deus preparou vários compositores brasileiros que
fizeram músicas em harmonia com o ritmo e a poesia do povo: Sergio
Pimenta, João Alexandre, Jorge Rehder, Nelson Bomilcar, Guilherme Kerr,
Jorge Camargo, Sérgio Leoto, Edilson Botelho, Aristeu Pires, Massao, Paulo
César, Jairo Gonçalves, Adhemar de Campos, Gerson Ortega, Edy e Bilão,
Artur Mendes (perdoem-me se deixei de citar alguém). Quando meu grupo
pequeno de mulheres começou a estudar o livro de Isaías, tivemos o
privilégio de ouvir um CD de Guilherme Kerr, baseado em versículos do
mesmo livro, e cantar junto.
Tenho aprendido que quando oramos “Senhor, glorifique o teu nome”,
podemos estar certos de que Ele o fará. Na verdade, é o que Ele mais deseja
fazer.

Olhando além do que se vê por Nelson Bomilcar

Não tenho dúvidas de que alguém que se dispõe a trabalhar com jovens e se
propõe a investir tempo em os discipular no evangelho de Cristo, precisa ter
uma boa dose de fé e perseverança e uma capacidade de olhar além do que
vê. Mais ainda: ver esta construção através da criação de um ministério que
iria treinar esses jovens para uma espiritualidade saudável, bíblica e cristã e
com um senso de evangelização e missões num país continental como o
Brasil.

Louvo a Deus porque existem e existiram pessoas que têm feito diferença no
que são e fazem para o Senhor. Gente que doou o melhor que tinham e
tiveram suas fraquezas aperfeiçoadas pelo poder de Cristo.

Este é sem dúvida um grande mérito do querido casal Kemp, Jaime e Judith,
que foram visionários e corajosos ao atender à voz de Deus com amor,
dedicação e paixão. Tiveram visão do reino e de como uma igreja jovem
poderia mudar o rumo de tantos proclamando este evangelho e cantando este
evangelho, usando também a música e a arte. Apresentaram seus pães e
peixes para que o Pai pudesse multiplicar e ofereceram sua humanidade,
coração e lar abertos. Têm seus nomes e vidas gravados no coração e história
de milhares de pessoas, também fruto do trabalho do discipulado que foram
aprendendo a fazer. Abriram espaço para que vários ministrassem em nossas
vidas, como Ary Velloso, Dennis Kizziar, Paul Landrey, Russell Shedd e
tantos outros, nos treinamentos de Vencedores Por Cristo.

Eu fui um dos agraciados e beneficiados em poder ser treinado na missão


Vencedores Por Cristo com centenas de outros jovens em mais de 40 anos.
Lá conheci minha esposa, Carla, que teve comigo as mesmas oportunidades
de servir a Jesus por este maravilhoso país. Ganhamos uma visão da vida
cristã que acumularia o conhecimento bíblico à prática do que estávamos
aprendendo. Conhecemos irmãos que se tornaram amigos para a vida toda
(alguns que já partiram e que felizmente usaram suas vidas para a glória de
Cristo).

Eu e Carla fomos chamados por Deus nesses anos dourados e nos


consagramos ao ministério como missionários e pastores em missões e
igrejas locais. Outros se tornaram missionários desta própria missão que
fundaram.

Privilégio para mim, como músico, também ter convivido com outros
músicos e compositores e, juntos, investirmos tempo e talentos para
testemunhar do evangelho, além de deixarmos registros em LPs, fitas e hoje
CDs de músicas de evangelização, de adoração, de missões, adornadas com
poesia e ritmos de nossa rica cultura.

Ao lado de Guilherme Kerr, Aristeu Pires, Sérgio Pimenta, Gerson Ortega,


Sérgio Leoto, Jorge Camargo, Jorge Rehder, Artur Mendes, Edy e Abílio
Chagas, Dimas Pezzato, e outros, eu pude também deixar em VPC uma parte
deste acervo que norteou e influenciou uma geração de jovens, líderes,
músicos e igrejas. Tudo foi pela graça d’Ele, e sem nos darmos conta que
aquilo que vivíamos poderia resultar em tantos frutos. LPs como “De Vento
em Popa”, “Tanto Amor” e a série “Louvor” foram marcantes em sua
influência e com novos sopros de sonoridade rítmica, melódica e harmônica,
além de requintada, sensível e profunda poesia.

Foi sem dúvida um caminho aberto para que a igreja no Brasil, representada
por diversas denominações históricas e novas, enfrentasse seus muitos
preconceitos em relação ao uso da arte e da sua tradicional liturgia. Este novo
cancioneiro e hinódia incentivaram a liderança de igrejas locais, institutos
bíblicos e seminários a uma revisão e revisitação em sua teologia do culto,
adoração, evangelização e arte a serviço da igreja e do reino. Foi a
oportunidade histórica de ver o evangelho redimir a cultura naquilo em que
ela foi distorcida pelo diabo e uma afirmação consciente e firme de que Deus
é o único Criador e a Ele pertence o copyright de toda a criação.

Nesta música cristã contemporânea e brasileira gerada na convivência e


amizade, construída com sonhos e projetos no serviço e em missão por esses
jovens compositores e também no investimento e registro desse acervo, uma
missão sem cor denominacional como VPC pôde ajudar pessoas que não
conheciam o evangelho a considerar a salvação oferecida por Jesus, e
também que a liderança evangélica considerasse suas formas e estratégias de
levar essa mensagem de maneira mais sábia, pertinente e contextualizada,
sem distorcer suas bases de fé.

Claro, nesse processo surgiram muitas críticas e muitos obstáculos


precisaram ser superados, para trazer e criar uma nova mentalidade e a
vivência de uma liberdade em Cristo, com responsabilidade. Foram parceiras
nessas mudanças e deram sua marcante contribuição algumas outras missões
de jovens que trabalhavam com acampamentos e estudantes, como Jovens da
Verdade, Aliança Bíblica Universitária e Mocidade Para Cristo.

O casal Kemp plantou as sementes que lhes foram confiadas em um solo


fértil na missão que fundaram. Acreditaram no evangelho e em seu poder
transformador e conscientizador. Acreditaram no valor e importância do
discipulado na Palavra de Deus, tendo Jesus Cristo como nosso maior
referencial. Acreditaram que valia a pena investir em jovens com suas lutas e
ambiguidades, para o evangelho ser espalhado e conhecido, contribuindo para
uma mudança reconhecida por muitos em uma geração. Muitas vezes foram
surpreendidos por Deus em coisas que nem imaginavam que as sementes
iriam gerar e na amplitude de áreas e ministérios que seriam alcançados,
como, por exemplo, na contribuição para a música evangélica brasileira e
contemporânea e uma adoração mais informal.

Fomos todos desafiados a ter um estilo de vida igual ao de Cristo e construir


uma história junto com Ele. Entendemos que disciplinas espirituais são vitais,
como a oração, meditação da Palavra, consciência limpa, adoração,
comunhão e relacionamentos genuínos que crescem na luz, na verdade e no
serviço a Deus e ao próximo. Aprendemos no discipulado e caminhada com
eles que a família é importante e que devemos investir tempo e atenção de
qualidade nela. Enfim, aprendemos que devíamos negar a nós mesmos, tomar
a cruz e seguir a Jesus, buscando conhecer e realizar a sua vontade.

Eu louvo a Deus com alegria por esta jornada maravilhosa que vivemos junto
aos Kemps e VPC, pelos erros e acertos que me trouxeram lições preciosas
para uma vida pessoal, familiar, comunitária e ministerial saudável e que
valesse a pena. Grato ao Deus Trino por vocês, Jaime e Judith. Grato por
terem, com fé e esperança, olhado além do que viam em nós anos atrás,
jovens cristãos do Brasil. Grato pela amizade sincera e autêntica. Sejam
recompensados em tempo oportuno por nosso amado Deus e Amigo.
Nelson Bomilcar é pastor, missionário, compositor, escritor e conferencista. Casado com Carla há 33
anos e pai da Karen e Nathan, serve a Deus há 37 anos na adoração, pastorado e música cristã no
Brasil. Fez seus estudos teológicos na Faculdade Batista de São Paulo, Universidade Metodista de São
Paulo e no Regent College (Vancouver, Canadá). Foi missionário da Aliança Bíblica Universitária
(ABU) e da União Bíblica do Brasil. Atuou junto à missão Vencedores Por Cristo (74-87), no Grupo
Semente e na Igreja Batista do Morumbi no louvor, produções musicais e pastorado auxiliar. Pastoreou
também na Igreja Batista Cidade Universitária (Campinas) e no Projeto Raízes por 14 anos, em SP.
Trabalha com o ISA (Instituto Ser Adorador) (www.seradorador.com.br ). É articulista na área pastoral
e musical da revista Cristianismo Hoje e no portal de arte Cristianismo Criativo. É professor da Escola
de Missões e Ministérios em Bauru. Apresenta o programa de rádio “Sons do Coração” pela
Transmundial, um rico acervo sobre música, adoração e arte cristã. Toca com a Confraria das Artes
pelo Brasil dando seminários e workshops (www.nelsonbomilcar.com.br). Congrega na Igreja Batista
da Água Branca, em São Paulo.
Capítulo6
Jesus transmitiu as palavras do Pai
“Pois eu lhes transmiti as palavras que me deste, e eles as aceitaram.

Eles reconheceram de fato que vim de ti e creram que me enviaste. ...Dei-lhes


a tua palavra... Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” (João
17.8, 14a, 17-NVI)

Antes de voltar ao Pai, Jesus levou seus discípulos para uma montanha e
disse a eles: “... Deus me deu todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão a
todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a obedecer a tudo o que
tenho ordenado a vocês. E lembrem disto: eu estou com vocês todos os dias,
até o fim dos tempos” (Mateus 28.18-20 – NTLH).

O que Jesus ordenou? Entre outras coisas, Ele mandou seus discípulos
ensinarem que devemos amar uns aos outros como Ele nos amou, perdoar uns
aos outros como Ele nos perdoou, vigiar e orar para não entrar em tentação e
ir por todo o mundo e pregar o evangelho.

Eu não esqueço as horas preciosas que passamos estudando a Bíblia com


aquelas primeiras equipes de Vencedores Por Cristo. Sempre foi muito
emocionante observar os jovens deixando de ser somente ouvintes para se
tornarem praticantes da Palavra. Você constata que a Palavra de Deus está
realmente sendo compreendida e aceita quando ouve uma jovem
compartilhar, com lágrimas nos olhos, que rompeu seu namoro com um rapaz
não crente ou que está aprendendo a amar um membro de sua família e,
assim, começando a superar as dificuldades de um relacionamento difícil.

Alguns estudos que o Jaime ministrou naquela época tornaram-se a base do


seu ministério com famílias. Quase todo final de semana meu marido viaja
para algum canto do Brasil para ensinar jovens sobre namoro, noivado,
casamento e sexo (nessa ordem) ou ensinar casais sobre comunicação,
intimidade e criação de filhos. Eu costumo brincar com o Jaime dizendo que
as únicas pessoas que conhecem o Brasil melhor do que ele são os
representantes da Coca-Cola.
É extremamente recompensador e estimulante ouvir um casal, já com netos,
dizer que conseguiu estabelecer um fundamento firme para o seu casamento,
ainda durante o namoro, porque decidiu obedecer aos princípios da Palavra
de Deus.

Entre outros estudos que o Jaime ministrou para os jovens havia um que
falava sobre a importância de não casar sob um jugo desigual, com um
incrédulo. Sonia Emília viajou diversas vezes com VPC e foi uma das
missionárias que trabalharam com as equipes. A Sonia sempre disse ao
Jaime: “Eu vou me casar com um homem de Deus, mesmo que tenha de
esperar até os 40 anos para isso acontecer”. O Jaime celebrou seu casamento
cinco meses depois de ela ter completado 40 anos. E que marido Deus deu
para ela! Marinho é o homem de Deus que ela tanto queria. Ele participou de
algumas equipes de VPC tocando contrabaixo. Hoje reconhecemos como
fomos privilegiados em tê-lo conosco, pois ele se tornou um músico
profissional muito reconhecido no meio secular. Agradecemos ao Senhor a
maneira como Ele tem usado o talento e o testemunho do Marinho. Rafael,
filho deles, é outra bênção do Senhor e outra resposta de oração.

Sonia Regina também é alguém muito especial para mim e para o Jaime. Ela
morou em nossa casa durante três anos, enquanto estagiava durante o seu
curso no Seminário Bíblico Palavra da Vida, onde se formou. Foi
simplesmente fantástico observar o Senhor trabalhando em sua vida,
transformando uma garota meio rebelde em uma valorosa mulher de Deus.
“SoSo”, nós a consideramos uma filha!

Durante um dos estudos sobre a importância de manter a consciência limpa,


Sonia Regina lembrou que certa vez havia roubado algo em uma loja na sua
cidade. O Espírito Santo tocou o seu coração, e ela resolveu ir até lá. O filho
do dono tinha sido seu colega de classe na escola e, para seu
constrangimento, ele estava presente no dia em que ela voltou à loja para
confessar o que havia feito e pagar pelo item.

Sonia Regina é casada com Laudir Pezzato, que também viajou em diversas
equipes e foi diretor de VPC. Hoje ele é pastor de uma igreja em Curitiba e a
Sonia é seu braço direito. É ela quem prepara estudos para grupos pequenos.
Graças a Deus, ela continua mantendo sua consciência limpa. Enquanto
escrevo este livro, Sonia e Laudir estão na expectativa da chegada de seu
primeiro netinho. Davi, um de seus filhos e pai do futuro bebê, é missionário
na Ásia ao lado de sua esposa, Juliana.

Quando viemos para o Brasil, não havia muito material disponível para
grupos pequenos de estudos bíblicos. Sempre senti que a melhor maneira de
estudar a Bíblia é escolher uma passagem, fornecer uma folha com perguntas
para as pessoas estudarem em casa e depois voltar a se reunir para
compartilhar o que cada um aprendeu. Eu observava que nos grupos
pequenos eram dadas palestras em que uma pessoa falava o tempo todo e o
restante apenas ouvia – ou dormia! Então, quando minhas filhas iniciaram o
ensino fundamental, eu comecei a preparar guias de estudos. Quando,
finalmente, chegou a hora em que eu tinha tempo disponível para me
envolver com os grupos pequenos de mulheres da minha igreja, os estudos já
estavam prontos.

O que eu mais gosto é abrir a Bíblia para estudar com alguém que nunca fez
isso antes. Algumas das mulheres do meu grupo não eram nem convertidas
quando começamos. Ao longo dos anos, toda vez que inicio um novo grupo
costumo gastar pelo menos uns seis meses estudando cada item do esboço
que sempre utilizo de João 17:

• Conhecendo a Jesus – v. 3 – o evangelho de João, especialmente as


provas que mostram que Jesus é o Filho de Deus;
• Conhecendo a Deus – v. 3 – seus atributos, descobrindo quem Ele
realmente é;
• Conhecendo a Palavra – vv. 8, 14, 17 – métodos de estudos bíblicos.
Também estudamos a doutrina da fé cristã em Romanos;
• Conhecendo nosso inimigo – v. 12 – como reconhecer as suas táticas e
obter vitória sobre ele.

Em outras ocasiões, concentramos nossa atenção na importância da:


• Oração – vv. 9, 15
• Santificação – v. 19 –
• Unidade no Corpo de Cristo – v. 20-21
• Evangelismo – v. 18
Quando comecei, eu distribuía os estudos em folhas soltas. Depois preparei
cadernos com espirais. Hoje alguns dos estudos já foram publicados pela
Editora Fôlego em forma de livro e estão disponíveis a todos que desejarem
utilizá-los.
Adivinhe quem me ajudou a preparar os estudos? Sonia Emília! Na verdade,
ela nos ajudou na preparação dos textos de mais de cinquenta livros. Iara, que
foi secretária do Jaime durante muito tempo, editou e fez o layout para a
maioria deles. Ela também foi responsável pela preparação da revista Lar
Cristão por muitos anos. Iara se casou com João Marcos, que também viajou
em uma equipe de VPC. Atualmente ele faz parte do conselho da missão Lar
Cristão. Ambos dão aula na escola dominical da igreja que frequentamos em
São Paulo, onde moramos. Iara ainda transmite à sua classe alguns dos
estudos que recebeu quando participou de Vencedores Por Cristo.
Deus sempre cumpre o que promete: “Assim também ocorre com a palavra
que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo
e atingirá o propósito para o qual a enviei” (Isaías 55.11 – NVI).
Gerações futuras no Brasil não lembrarão de Jaime e Judith Kemp. As
missões Vencedores Por Cristo e Lar Cristão podem deixar de existir. Como
o Jaime gosta de dizer: “Não existem vacas sagradas”. Mas a Palavra de Deus
plantada em corações preparados pelo Espírito Santo permanecerá, dará fruto
e trará bênçãos para esta nação.

Eu não tinha ideia... por Iara Vasconcellos

“Nossa, quem será aquele americano que passa cantando pelos corredores?”
Nos meus 15 anos e dos meus 1,53m de altura, eu olhava de longe e ficava
imaginando quem seria aquele gringo alto e barulhento! Foi isso que pensei
ao ver Jaime Kemp pela primeira vez. Na época todos o chamavam de “Jim”.
O “abrasileiramento” para Jaime deu-se vários anos depois.

Na sala de aula eu tomei conhecimento das divisões do Antigo Testamento,


de seus escritores, das situações em que os livros tinham sido escritos e de
inúmeras personagens bíblicas que, até então, eram ilustres desconhecidas
para mim. Meu mundo foi se expandindo com as aulas semanais ministradas
pelo Jaime no Instituto Bíblico Palavra da Vida, onde eu estudava na época.

Eu gostava muito de cantar e fiquei mais do que feliz quando o Jaime me


convidou para participar da equipe de VENCEDORES POR CRISTO que
estava sendo formada para viajar nas férias de julho. Cada jovem precisava
levantar determinada quantia em dinheiro para as despesas de viagem,
uniforme etc. O objetivo era receber treinamento para cantar nas igrejas que
constavam de um roteiro preestabelecido. Durante esse tempo eram
ministrados estudos bíblicos sobre mutualidade, relacionamentos e também
sobre como dar testemunho de nossa fé a outros. Depois, quando cada jovem
voltava para sua igreja, ele passava a transmitir o que havia aprendido. Isso se
tornava uma rede de transmissão, que depois fiquei sabendo chamar-se
discipulado.

Fiquei muito impressionada com os estudos ministrados, pois eles “mexiam”


na vida das pessoas a ponto de mudarem de comportamento, assumirem
ações antes negadas, pagarem dívidas financeiras ou emocionais, pedirem
e/ou receberem perdão, enfim, poder conhecer a vontade de Deus e obedecer-
lhe no dia a dia fez toda a diferença também em minha vida.

Jaime e Judith Kemp querem que voltemos nossos agradecimentos e honras a


Deus, e não a eles, mas não dá para fazer um e omitir o outro. Esse casal
precioso esteve presente em várias fases decisivas de minha vida. A
adolescente que precisava de orientação recebeu deles o melhor guia de
todos, os princípios bíblicos que a ajudaram, e ainda ajudam, a viver.

Esses princípios têm me acompanhado e os tenho compartilhado há anos na


igreja que frequentamos. 2 Timóteo 2.2 mostra o que o casal Kemp começou
lá atrás e continua a fazer até hoje: “O que de minha parte ouviste, através de
muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos
para instruir a outros.”

Meu marido João Marcos também participou de uma das equipes de


Vencedores, e ambos fomos impactados pelo ministério dessa família.
Naquela época eu não tinha ideia de que conviveríamos muito mais de perto
com eles. Eu já estava casada há nove anos quando fui trabalhar na SEPAL,
missão a qual Jaime e Judith pertenciam, e lá fiquei 12 anos só saindo para
acompanhá-los quando fundaram sua própria missão, o LAR CRISTÃO.
Fiquei com eles ali mais 12 anos. De secretária passei a produtora e
finalmente a editora da Revista Lar Cristão.

Foram 24 anos de convívio, nos bons e nos maus momentos de ambos os


lados. Laços indissolúveis foram formados. Conviver com quem vive o que
prega é algo muito precioso. Jaime e Judith são gente como a gente (título
inclusive de um de seus livros), “pisam na bola”, mas pedem perdão e
perdoam. Não se colocam em torres de marfim, muito pelo contrário, são
simples, humildes, espontâneos e, creio que esse é o motivo pelo qual Deus
continua a usá-los. Isso não implica perfeição, mas sim obediência.
Obediência aos princípios que lá no passado eu ouvi pela primeira vez e que
transformaram a minha vida.
Iara Vasconcellos é jornalista, produtora editorial e tradutora. Trabalha na Editora Hagnos, em São
Paulo, como editora assistente. Casada com João Marcos Vasconcellos, participam da CBMoema, em
São Paulo.
Capítulo7
Jesus orou por seus discípulos e por nós
“Eu peço em favor deles. Não peço em favor do mundo, mas por aqueles que
me deste, pois são teus. Não peço somente por eles, mas também em favor
das pessoas que vão crer em mim por meio da mensagem deles...” (João
17.9, 20 – NTLH)

Os discípulos de Jesus tiveram a oportunidade de observar todas as vezes que


Ele levantou cedinho para passar um tempo com seu Pai, num lugar à parte.
Eles percebiam a força que Ele recebia nesses encontros. Também tiveram o
privilégio de constatar as respostas milagrosas do Pai às intercessões de seu
Filho. Foi por isso que os discípulos pediram: “Senhor, ensina-nos a orar...”
(Lucas 11.1). E aquilo que Jesus ensinou a respeito da oração serve como
fundamento e exemplo para todos os cristãos até o dia de hoje. Para algumas
pessoas a oração do Pai Nosso pode tornar-se uma “vã repetição”, mas existe
muito a aprender com as palavras do nosso Mestre.

Pai nosso, que estás nos céus...


A oração é uma conversa íntima com nosso Pai. Ocasionalmente encontro
alguém que padeceu nas mãos de um pai abusivo ou negligente e, por isso,
tem dificuldade para encarar o Senhor como Pai. Porém, Deus não é o pai
que você teve. Ele é o pai que você sempre quis ter: aquele que está sempre
disponível e acessível, sempre atento e carinhoso, que sempre sabe o que é
melhor para seus filhos.

... santificado seja o teu nome...

Em outras palavras: “Pai, não quero a minha glória, mas a sua”. Oração é
adoração. Para glorificarmos a Deus como Ele merece, precisamos conhecê-
lo como Ele realmente é. Às vezes pode ser difícil agradecer ao Senhor pela
situação difícil em que nos encontramos, contudo é sempre possível sermos
gratos por aquilo que Ele é e pelo amor que tem por cada um de nós. Eu
tenho descoberto que uma das melhores maneiras de adorar a Deus em
oração é através de músicas de louvor (especialmente os velhos hinos da fé).
Tenho uma grande coleção de CDs de VPC que elevam a minha alma até o
trono do Pai.

... venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu...
Ou: “Pai, não prevaleça o meu pequeno reino, mas o seu reino; não a minha
vontade, mas a sua”. Oração envolve submissão à vontade de Deus – mesmo
quando é complicado. Também significa orar para que o reino de Deus seja
estabelecido nos corações dos nossos familiares, vizinhos e amigos que ainda
não conhecem a Jesus como Salvador e Senhor.

... o pão nosso de cada dia dá-nos hoje...

Ou: “Pai, não predominem os meus valores, mas os seus”. A Bíblia diz que
“se temos comida e roupas, fiquemos contentes com isso” (1 Timóteo 6.8 –
NTLH).

Quando oramos, pedimos o que precisamos. Gostamos bastante dessa parte e,


infelizmente, devo dizer que a maioria dos cristãos só pratica esse tipo de
oração. Nosso Santo Deus é simplesmente reduzido ao papel de “Papai Noel
celestial” que é obrigado a abençoar seus filhos se eles derem dízimo, tiverem
fé suficiente ou frequentarem a igreja certa. Entretanto, todos nós, cristãos,
devíamos saber que o nosso Deus se agrada em dar coisas boas aos seus
filhos e que “não temos porque não pedimos” (Tiago 4.2).

Eu e o Jaime temos observado, através dos anos, o Senhor providenciando


socorro a problemas financeiros, dando força, saúde e até uma esposa ou um
marido, especialmente selecionados por Ele, para um dos nossos “filhos”
espirituais.

Recentemente, uma das mulheres no meu grupo de estudo bíblico pediu que
orássemos pela filha dela, que queria se casar com um homem que levasse
Deus a sério. Outra mulher, do mesmo grupo, tinha feito um pedido
semelhante para o filho dela. Três meses depois o seu filho estava namorando
a filha da outra, e quero salientar que isso aconteceu sem a interferência das
mães. Hoje os dois já estão casados e servindo juntos ao Senhor. Deus
respondeu a oração das duas mães ao mesmo tempo!

... e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos
nossos devedores...
“Pai, ajude-me a ver e entender as pessoas sob a sua perspectiva, e não a
minha.” Colocar as diferentes situações que enfrentamos não sob a
perspectiva da nossa natureza humana e pecadora, mas enxergá-las através
dos olhos de Jesus, com compaixão e boa vontade. Posso utilizar como
exemplo algumas orações de participantes de VPC naquela época:
“Senhor, eu não demonstrei respeito por minha mãe. Preciso pedir perdão a
ela” ou: “O Senhor sabe como estamos cansados e com as emoções à flor da
pele depois de todas as apresentações que tivemos que fazer. Dissemos coisas
que era melhor não terem sido ditas. Perdoa-nos e ajude-nos a perdoar os
outros elementos da equipe que estão tão cansados e irritados quanto nós”.
Precisamos lembrar que “se eu acalentasse o pecado no coração, o Senhor
não me ouviria” (Salmos 66.18 – NVI).

... e não nos deixe cair em tentação; mas livra-nos do mal... Quer dizer,
“Pai, que não prevaleça a minha natureza, mas a sua”. Oração é proteção.
Jesus disse aos seus discípulos: ”Vigiem e orem para que não sejam tentados.
É fácil querer resistir à tentação; o difícil mesmo é conseguir” (Mateus 26.41
- NTLH). Nosso inimigo estremece quando vê um cristão de joelhos. Numa
era como a atual, em que os cristãos sofrem tanta influência do inimigo, eles
precisam estar sempre conscientes da necessidade de ter a proteção do
Senhor. No meu relacionamento matrimonial, algumas vezes estou
plenamente certa de que tenho razão e que meu marido está completamente
errado. Bem, na verdade penso assim até a hora em que ele diz: “Vamos orar
a respeito do problema”. Quando me ajoelho e tento explicar para Deus por
que tenho razão, percebo claramente que não é bem assim.

... pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém! Aqui
dizemos: “Pai, não confio na minha força, mas confio na sua. Não depende
de mim, Senhor. Não vou conseguir desenvolver esse ministério confiando
apenas no meu treinamento, nos meus talentos e carisma. Que tudo o que eu
fizer hoje seja usado para glorificar o seu nome e contribuir para o
crescimento do seu reino”.

A oração de Jesus pelos seus discípulos em João 17 também é um exemplo


para todos nós. Ele orou pela salvação deles (vv. 1-3), pela sua proteção (v.
15), sua unidade (vv. 11, 23), sua santificação (v. 17) e seu ministério (v. 18).

Em João 17.20 Jesus orou por nós. Ele disse: “Não peço somente por eles
[pelos discípulos], mas também em favor das pessoas que vão crer em mim
por meio da mensagem deles”. Em Romanos 8.34 o apóstolo Paulo
respondeu com convicção sua própria pergunta: “Será que alguém poderá
condená-los? Ninguém! Pois foi Cristo Jesus quem morreu, ou melhor, quem
foi ressuscitado e está à direita de Deus. E Ele pede a Deus em favor de nós”.

Isto não é maravilhoso? Significa muito saber que outros cristãos estão
orando por nós, mas é ainda mais significativo e encorajador saber que nosso
Salvador está fazendo o mesmo, incansavelmente. E é difícil pensar que Deus
não atenderá ao pedido do seu Filho tão amado.

Deus é real
por Luis Antonio Fernandes Caseira

Décima segunda equipe de Vencedores Por Cristo, 1973. Éramos onze


pessoas distribuídas em uma perua Veraneio (GM) e uma Variant
(Volkswagen), junto com malas, instrumentos e equipamentos. Cada mala e
cada equipamento tinha seu lugar correto para ser guardado, tal como num
quebra-cabeça. Isso facilitava e agilizava a arrumação, afinal a cada dois dias
estávamos na estrada, viajando por todo o país, evangelizando em escolas,
universidades, igrejas, praças, rádios, TVs, orfanatos, prisões e onde mais
Deus abrisse as portas. Algumas malas eram colocadas no bagageiro no teto
da Veraneio, cobertas com uma lona e presas por elásticos e ganchos.

Nesse dia já era final da tarde e procurávamos desviar dos buracos nas
estradas do Nordeste. Mas era impossível desviar de todos e passamos em um
buraco que provocou um grande tranco na Veraneio. Porém, como nada
aconteceu com o veículo seguimos em frente, pois logo anoiteceria e
tínhamos pressa para chegar ao nosso destino. Por volta das 18 horas paramos
em um posto para abastecer. Ao descermos do carro, qual não foi nossa
surpresa ao notar que um elástico tinha se rompido no bagageiro, a lona se
desprendido e uma das malas havia sumido. Certamente havia caído na
estrada. Lembramos do buraco pelo qual tinhamos passado cerca de 30
quilômetros antes e presumimos que ela devia ter caído lá. E aí surgiram as
dúvidas:

-Vamos voltar?
- A essa altura outro carro ou caminhão já passou e recolheu os pertences da
mala.
-E se a mala caiu no mato ao lado da estrada?
-Já está escuro, como descobrir onde ela caiu se nem sabemos o local certo?

Uma das grandes virtudes do Ministério Vencedores Por Cristo é ensinar que
a vida cristã tem que ser autêntica, vivida diariamente, praticada, e que a
oração é um instrumento poderoso, em vez de uma vã repetição de palavras.
Esses ensinamentos mudaram a vida dos jovens que participaram das
equipes, pois vimos, na prática, Deus agir das formas mais impressionantes.
Aprendemos que Ele não é apenas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, mas é o
Deus de cada um de nós, vivo e presente em pleno século XXI.

Aprendemos, na prática, o que gravamos e cantávamos na 12ª. equipe: “...


digo então que meu Deus é real! Sim, Deus é real! Deus é real!”.

Pois bem, havíamos feito no dia anterior um estudo bíblico com toda a equipe
sobre a necessidade de entregar para o Senhor tudo que possuíamos e
também nossos dons e talentos. E sabíamos que Deus nos colocaria à prova a
respeito. Lembrando do estudo, chamei Janice, a dona da mala, e perguntei:

-Você orou ontem no estudo bíblico entregando tudo o que é seu para o
Senhor, reconhecendo que foi Ele que lhe concedeu tudo que você é e tem?
Tem certeza de que sua mala e tudo o que nela havia você consagrou para
Deus?

Sim, eu entreguei e reafirmo isso.


A equipe se reuniu em círculo e nós oramos:
“Senhor, reafirmamos que tudo que temos lhe pertence,

inclusive nossas vidas. A mala da Janice também. Muitas coisas que estavam
ali eram importantes para ela e para a equipe, porém se o Senhor decidiu que
os pertences que estavam na mala não lhe serão mais necessários, nós o
louvamos pelo tempo que ela pôde usufruí-los e cremos que o Senhor poderá
dar muito mais do que havia lá. Mas se o Senhor está testando a nossa fé, nós
declaramos que cremos que o Senhor pode dar a mala da Janice de volta e,
por isso, vamos fazer o retorno para procurá-la. Achando-a ou não, nós o
louvaremos”.
Entramos nos carros e pegamos a estrada de volta. Confiando que Deus não
precisava das coisas que estavam na mala e que Ele estava testando nossa fé e
nossa dependência d’Ele, fomos louvando através de orações e cânticos, ao
mesmo tempo em que olhávamos atentamente para a estrada e os
acostamentos.

A noite praticamente já havia chegado. Era algo quase impossível,


humanamente falando, achar um objeto relativamente pequeno à noite, que
não sabíamos onde estava nem em que estado se encontrava. Rodamos 10,
20, 35 quilômetros, quando o farol da Veraneio mostrou rapidamente um
volume no acostamento do lado oposto da estrada. Paramos os carros e
corremos até o local e lá estava ela! A mala havia sido destroçada na queda e
algumas partes da tampa e das laterais ainda estavam jogadas na pista e mais
adiante no acostamento, porém o seu interior estava cuidadosamente
empilhado, intacto, tal qual um bolo que foi retirado de uma forma. Mais um
metro para a direita a mala teria caído no mato e mais um metro para a
esquerda teria caído na pista. Além disso, já havia transcorrido mais de uma
hora e meia desde que havíamos passado naquele local, quando a mala caiu
do bagageiro. Quantos carros e caminhões passaram por ali enquanto ainda
havia claridade e ninguém viu nada?

A nossa alegria foi imensa ao ver a fidelidade do nosso Deus e a sua resposta
às orações. Conferindo depois seus pertences, Janice informou que nada
havia se perdido. Ali mesmo, à beira da estrada, com os corações
transbordando de alegria e gratidão, louvamos ao Senhor por mais uma prova
do cuidado d’Ele conosco.

Essa foi apenas uma das inúmeras situações nas quais O Senhor mostrou sua
fidelidade para conosco através da resposta de oração.

Deus é real
(CD “Seu eu fosse contar” – Vencedores Por Cristo – autor: Ralph
Carmichael – tradução: Carlos Osvaldo Cardoso Pinto)

Se eu fosse contar o que de alguém ouvi Poderia um detalhe esquecer


Pois quando se conta algo que não se viu Muita gente, talvez, não vá crer
Mas o que senti com o toque da fé E até com os olhos da alma eu vi Dê um
tempo e escute e verá, afinal, Que o Deus que eu achei é real
O Deus que o mundo tão lindo criou, Tanto amou a você e a mim
Por isso seu Filho ao mundo mandou Nos trazer salvação que é sem fim

Mas o que senti com o toque da fé E até com os olhos da alma eu vi Deixa
claro, Ele vive em meu coração Encontrei seu perdão e a paz sem igual Digo
então que meu Deus é real! Sim, Deus é real!
Deus é real!
Luis Antonio Fernandes Caseira (Luis Caseira) é médico fisiatra. Foi professor do curso de Medicina
da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. É membro da Catedral Presbiteriana do Rio de
Janeiro, vice-diretor do Ministério Vencedores Por Cristo – SP e palestrante na área de família em
seminários, cursos e encontro da casais, no Brasil e exterior. Casado com Ângela (pedagoga e
fisioterapeuta), tem dois filhos: Ana Paula (médica neurologista) e Davi (produtor editorial e ator
profissional).
Capítulo8
Jesus lhes deu a sua alegria
“Agora vou para ti, mas digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo,
para que eles tenham a plenitude da minha alegria.” (João 17.13 – NVI)

Você já reparou como a maioria dos artistas plásticos já tentou pintar um


quadro de Jesus e quase sempre o retratou como alguém muito triste? Eu
reconheço que Jesus sofreu muito e, quando pensamos n’Ele, sempre vem à
nossa mente o seu sacrifício por nós na cruz. Porém, Ele deixou bem claro
que queria nos dar a sua ALEGRIA. Ele disse em João 15.11: “Eu estou
dizendo isso para que a minha alegria esteja com vocês, e a alegria de vocês
seja completa.” (NTLH)

Às vezes, quando estávamos viajando com uma das equipes de VPC e


caíamos na gargalhada por causa de alguma situação engraçada ou absurda,
alguém saía com perguntas desse tipo: “será que os discípulos de Jesus
alguma vez passaram por isso? Será que eles também tiveram que usar como
chuveiro um balde de água com buraquinhos no fundo, pendurado em uma
árvore, e que esvaziou rapidinho bem na hora em que estavam totalmente
ensaboados? Será que eles dormiram numa sala cheia de sapinhos ou urubus?
Acho que um dos motivos por que o Jaime conseguiu aguentar as diversas,
variadas, estafantes e pitorescas exigências daquelas viagens foi graças ao seu
senso de humor.

E Paulo, Silas, Lucas e João Marcos? Será que eles sentaram ao lado de uma
fogueira à noite e riram das experiências incomuns, muitas vezes ridículas,
que foram obrigados a passar? Eu sei que eles desfrutaram de muita alegria,
apesar do preço que precisaram pagar para poder servir ao Senhor. Tenho
certeza disso, porque Paulo escreveu uma carta (aos filipenses)
compartilhando a alegria que sentia. E essa carta foi escrita enquanto ele
estava na prisão! Nela, ele fala sobre:

A alegria de trabalhar em parceria com outros


“Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, fazendo sempre, com
alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações, pela vossa
cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou plenamente
certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao
Dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1.3-6 – ARA).
Há algo de muito especial em fazer parte de uma equipe que está realizando a
obra do Senhor. É sempre tão gostoso passar tempo ao lado de outras
pessoas! As amizades feitas naquelas viagens permanecem até o dia de hoje.
A nossa família é muito rica por causa das experiências que vivemos em
VPC. Algumas vezes o Jaime telefonava dizendo que eu precisava preparar
um lugar em casa para doze jovens dormirem. Melinda e Márcia não se
importavam com o fato de ter de dormir no chão para ceder suas camas para
alguém. Para elas era muito divertido pular pelos colchões espalhados pelo
chão da sala. Quando elas eram pequenas, sempre tinha alguém para lhes dar
colo ou com quem brincar. O “tio” Gui fez uma música chamada “Melinda” e
depois o “tio” Carlos Osvaldo também fez uma música para a Márcia. Elas se
divertiram muito nas viagens que a “tia” Sonia Emília fez com a nossa
família. Sempre a chamavam de “Sonia Amiga”!

A alegria porque Cristo está sendo proclamado “É verdade que alguns


pregam Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade.
Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do
evangelho. Aqueles pregam Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade,
pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso. Mas, que
importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou
verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato,
continuarei a alegrar-me”
(Filipenses 1.15-18 – NVI).

Preciso confessar que, para mim, é muito mais fácil me regozijar quando
Cristo está sendo pregado por motivos puros. No Brasil já temos nossa cota
de escândalos evangélicos e de propagação de charlatões. Ficamos muito
tristes quando vemos a noiva de Cristo com um vestido tão sujo. Contudo,
também temos muitas igrejas maravilhosas, saudáveis, onde as pessoas são
fiéis à Palavra de Deus. Temos o privilégio de ministrar nessas igrejas
importantes e queridas todo final de semana.

Quando chegamos ao Brasil, havia somente 2.000.000 de evangélicos.


Naquela época, muitas pessoas de cidades do interior se negavam a passar na
frente de igrejas evangélicas. Os filhos dos crentes enfrentavam
discriminação nas escolas. Apesar de toda oposição, hoje existem mais de
30.000.000 de evangélicos no Brasil.

Nossos pastores poderiam muito bem ministrar seminários para pastores e


líderes ao redor do mundo, ensinando como implantar igrejas. O pastor de
uma das igrejas onde Jaime esteve recentemente, no Nordeste, contou que ele
próprio havia implantado 89 igrejas em 40 anos de ministério. Ele também
treinou todos os pastores dessas igrejas.

Até a mídia secular costuma admitir que, aparentemente, a única esperança


para uma pessoa libertar-se das drogas, do alcoolismo etc. é o evangelho.
Lembro-me de uma experiência que tivemos numa igreja perto do Rio de
Janeiro, onde trabalhamos muito no passado. Um dos líderes quis nos
apresentar outro líder. Ambos apareceram abraçados e nos contaram que
antes de conhecer a Cristo um deles foi contratado para matar o outro.
Transformações assim não passam despercebidas!

A alegria de experimentar o cuidado dos outros


“Na minha vida em união com o Senhor, fiquei muito alegre porque vocês
mostraram de novo o cuidado que têm por mim...” (Filipenses 4.10a –
NTLH).
Paulo estava agradecendo aos filipenses a oferta que eles haviam mandado
para ele. Anos atrás um missionário de VPC, Cláudio Marra, aceitou o
pastorado de uma igreja de língua portuguesa na África do Sul. Algum tempo
depois, sua pequena congregação enviou uma oferta para nossa missão nos
Estados Unidos destinada ao nosso sustento no Brasil. Dá para imaginar?
Nesses últimos anos, com a desvalorização do dólar e a recessão econômica
nos Estados Unidos, amigos brasileiros têm nos ajudado financeiramente. Um
desses amigos está pagando o aluguel do nosso escritório.

A alegria do Senhor
“Meus irmãos, sejam alegres por estarem unidos com o Senhor. ...Tenham
sempre alegria, unidos com o Senhor! Repito: tenham alegria! (Filipenses
3.1, 4.4 – NTLH)
Nós que conhecemos Jesus como Salvador e Senhor temos muitas razões
para nos alegrarmos, não temos? Nosso Deus é tão bom e, como o Jaime
sempre gosta de dizer: “Não existe um projeto mais fascinante do que levar
pessoas à fé em Jesus Cristo”.

Lembranças do arquivo de memória por Sonia Emília Lopez Andreotti


- Ah, tudo isso é muito chato! “Tô” fora!

Foi exatamente isso que pensei quando fui à primeira reunião de treinamento
para a 4ª. equipe de Vencedores Por Cristo. Eu havia preenchido um
formulário para participar e fui selecionada, mas na verdade
nãotinhaamenorideiadoqueeraaqueleministério.Umagarotadaminha igreja
tinha viajado e estava tão entusiasmada quando voltou que eu pensei: “Puxa,
isso deve ser ótimo! Viajar com uma turma, fazer novos amigos, conhecer
novos lugares”. Quando fui à primeira reunião naquele sábado e vi que eles
ficavam estudando a Bíblia, orando, ensaiando as músicas e compartilhando,
concluí que tinha “entrado numa fria”.

Eu já havia aceitado Jesus como Salvador, era frequentadora assídua de uma


igreja, mas não vivia uma vida comprometida com o Senhor. Além disso,
quando vi os integrantes daquela equipe compartilhando suas vidas,
expectativas e provações, fiquei muito surpresa e intimidada, pois nunca
tinha visto nada igual àquilo. Não apareci mais!

Como todo ser humano, o Jaime tem defeitos, mas ele não desiste facilmente
de investir em “vasos de barro” quebrados, aparentemente sem conserto. Na
véspera da viagem, ele me procurou e perguntou se eu ainda queria participar.
Fiquei sem graça em responder não. Então, ele pediu a uma senhora que
confeccionasse meu uniforme durante aquela noite, e lá fui eu, a contragosto,
participar da 4ª. equipe. Lembro que não era permitido viajar sem
treinamento, mas o Jaime abriu uma exceção. Ele perguntou a outro líder de
VPC, na minha frente, o que ele achava de eu ir sem treinamento. Ele disse
que não concordava com isso. Fiquei brava! Que ousadia! (hoje ele é um
grande amigo). Mesmo assim, o Jaime assumiu o risco.

Durante a viagem aconteceu o inesperado. O Espírito Santo tocou no meu


coração de uma forma contundente: “A vida cristã não é para ser levada
como um hobby. Ela não significa ir à igreja todo domingo para aliviar a
consciência e passar o resto da semana esquecendo que existe um Deus
ansioso por se fazer conhecer e também fazer parte do nosso dia a dia, das
nossas decisões, alegrias e ajudando-nos em nossas dificuldades”.
Quando compreendi o plano que o Senhor havia arquitetado para aproximar-
se de mim, praticamente me empurrando para participar daquela equipe
contra a minha vontade, fiquei maravilhada! E Deus mostrou-se a mim, sem
reservas. Os estudos bíblicos preenchiam a minha alma, as canções
extravasavam minha necessidade de louvá-lo e o compartilhamento renovava
as minhas forças. Pouco a pouco passei a entender o que realmente significa
viver a vida cristã.

Mas você pode perguntar: “Vocês só estudavam a Bíblia, meditavam e


oravam?”. Devo dizer que éramos o oposto de um grupo sisudo, introvertido,
reservado. Durante as viagens, nas estradas, cantávamos, brincávamos uns
com os outros, ríamos muito. O brasileiro costuma ser alegre por natureza,
não gosta de perder uma piada, e o Jaime, um pobre e ingênuo americano
desavisado, recentemente chegado das montanhas isoladas da Califórnia,
meio caipira, era o alvo fácil e preferido de brincadeiras.

Quantas vezes, no ônibus, esperávamos ele ir sentar para que, antes que o
fizesse, colocarmos um chuchu espinhento no assento. Ele dava um pulo e
quando olhava para tentar descobrir quem tinha cometido o delito, todos
estavam sentados quietos, muitos fingindo dormir.

Certa vez, numa apresentação, o Jaime tomou um choque do microfone bem


na frente da plateia, enquanto falava. Foi um choque forte. Ele é um homem
de um metro e noventa de altura e aproximadamente 100k. Pego de surpresa,
começou a pular, jogando o microfone de uma mão para outra, encenando
uma espécie de estranha e desajeitada dança indígena por alguns segundos –
e a equipe morrendo de rir atrás! Então ele se virou, fulminou cada um de nós
com os olhos e disse alto e muito zangado: “Não achei graça nenhuma!”. Mas
a gente tinha achado e a plateia também, coitado!

Em outra ocasião, também durante uma apresentação, os instrumentistas


estavam dispostos atrás, o Jaime na fileira do meio ao lado dos outros rapazes
e as garotas à frente. Inocentemente, ele resolveu tirar os sapatos para
descansar seus pés. Quando o baterista viu aquilo, não pôde deixar escapar a
oportunidade. Escondeu os sapatos! O problema é que o Jaime era o próximo
para ir à frente e dar a mensagem final. Foi muito engraçado vê-lo falando
afastado do centro do palco, meio escondido atrás de um monte de garotas,
olhando em volta disfarçadamente para tentar achar seus sapatos. Nunca mais
ele os tirou durante uma apresentação.

Mas ele também tentava arquitetar pegadinhas contra nós. Estávamos em Juiz
de Fora, Minas Gerais, trabalhando numa tradicional escola da cidade durante
uma semana. Um dia, ele escondeu o gravador (um tesouro na época) de um
dos rapazes, que percebeu o que ele havia feito, mas fingiu procurar o
aparelho desesperadamente. O Jaime achou divertido até a hora em que um
membro da diretoria, a pessoa que havia nos convidado, depois de ter entrado
em acordo com o rapaz, afirmou, fingindo preocupação, que a escola seria
fechada e todos, alunos e funcionários, seriam revistados e o responsável
seria severamente punido. Aí foi o Jaime quem desesperou e não teve outra
saída senão confessar à vítima, envergonhado, a sua frustrada armação.

Tenho milhões de histórias inesquecíveis e hilariantes para contar. Sei que


cada uma das pessoas que participou de uma equipe também. Foi uma época
de muitas bênçãos e muita alegria. Passávamos por provações pessoais e
ministeriais, trabalhávamos muito, enfrentávamos estradas perigosas,
necessidades e, muitas e muitas vezes, desconforto. Entretanto, tudo isso fica
para trás quando lembramos dos momentos maravilhosos que vivemos
assistindo a pessoas entregando suas vidas a Jesus, comprometendo-se a viver
uma vida cristã verdadeira; do privilégio de iniciar o discipulado com muitas
delas, no início pessoalmente e depois por carta (ah, se já existisse a
Internet!); das amizades que extrapolaram a necessidade da presença porque
ficaram ligadas pela alma; dos momentos de alegria, de riso, de
compartilhamento, antes surpreendentes para mim e tão imprescindíveis
agora.

Eu precisaria de muitas páginas para descrever o imenso significado do


ministério Vencedores Por Cristo na minha vida cristã, pois foi esse o meio
que Deus usou para fazer parte ativamente da minha vida, em definitivo!
Sonia Emília Lopez Andreotti estudou no Seminário Bíblico Palavra da Vida, foi professora no
Colégio Batista Brasileiro durante 14 anos e além de participar de várias equipes foi missionária de
Vencedores Por Cristo durante seis anos. Atualmente trabalha na preparação dos textos dos livros e
artigos do Pr. Jaime Kemp e de sua esposa Judith. É casada com Marinho Andreotti e mãe de Rafael
Capítulo9
Jesus os protegeu do maligno
“Agora estou indo para perto de ti. Eles continuam no mundo, mas eu não
estou mais no mundo. Pai Santo, pelo poder do teu nome, o nome que me
deste, guarda-os... Quando estava com eles no mundo, eu os guardava pelo
poder do teu nome, o mesmo nome que me deste. Tomei conta deles... Não
peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno.” (João 17.11-
12, 15 – NTLH)

Nós tínhamos a esperança de que grande parte dos jovens que viajaram com
as equipes de Vencedores iriam continuar com seus estudos bíblicos pessoais
e sua vida de oração, depois que voltassem para suas casas e suas igrejas.
Tínhamos consciência de que tais hábitos iriam protegê-los do inimigo
(Salmos 119.11; Mateus 26.41). Quando “tomávamos emprestados” os
jovens de suas igrejas por três meses de treinamento e viagem, insistíamos
que eles recebessem a aprovação e o encorajamento de seus pais e pastores.
Queríamos que eles comunicassem às suas igrejas que voltariam e
procurariam desenvolver um ministério ali quando a equipe fosse desfeita.
Não queríamos deixar nenhuma dúvida sobre o fato de que não estávamos
“roubando ovelhas”. Nosso propósito sempre foi preparar cada membro para
servir ao Senhor mais eficazmente em sua igreja local.

Atualmente, muitos dos nossos “filhos”, que agora já estão em idade de se


aposentar, são líderes em igrejas brasileiras. Porém, alguns se desiludiram
com elas e, até o dia de hoje, ainda estão procurando a “igreja certa”. Eu
questiono se eles não estão tentando encontrar o mesmo tipo de comunhão
que desfrutaram com seus amigos quando viajaram juntos em VPC (sei que
muitos deles mantêm contato contínuo ao longo de todos esses anos). Porém,
atitudes assim nos deixam muito tristes, porque cremos que o plano de Deus
sempre foi e sempre será realizado através da igreja local.

A experiência de VPC mudou a vida de muitos, mas não de todos.


Conhecemos algumas pessoas que viajaram conosco, às vezes mais de uma
vez, que hoje estão vivendo longe do Senhor. Temos de lembrar que até Jesus
perdeu um dos seus discípulos (João 17.12).
Satanás é muito hábil e astuto. Ele sempre está à espreita para atacar aqueles
que estão vulneráveis. Ele costuma sussurrar no ouvido daqueles que estão
em dúvida: “Desista de tudo isso e volte para o mundo. Abandone a Palavra
de Deus!”. Mas por mais que Satanás insista em nos convencer, Deus nos
fortalece e nos capacita a continuarmos firmes em seu caminho. Eu o
glorifico por não desistir de nós e não nos abandonar nunca!

Lembro-me de um dos participantes, um guitarrista, que por pouco não


colocou uma mochila nas costas e abandonou a equipe na metade da viagem.
Só depois ele revelou o porquê. Ele disse que no início ficou muito
empolgado com a oportunidade de viajar para evangelizar as pessoas, mas
depois mergulhou numa escuridão que parecia não ter fim.

“A primeira oportunidade que tive de viajar com a Equipe de VPC foi na nº


9, que foi para interior de Minas Gerais e depois para Vitória, no Espírito
Santo.
Até hoje não sei explicar exatamente o que me aconteceu naqueles dias. Era
julho de 1971. Eu tinha entregado minha vida ao Senhor em janeiro daquele
mesmo ano e, portanto, apesar de toda a bagagem evangélica e conhecimento
da “vida na igreja”, eu era praticamente um “bebê” na fé.
Nos primeiros meses de nova vida com Jesus eu me sentia muito feliz,
praticamente como se meus problemas tivessem terminado para sempre. Mas
no decorrer dos meses seguintes, a vida foi voltando a certa “normalidade”.
Por volta de abril, eu fui convidado por Vencedores para participar de uma
das equipes nas férias de julho. Aceitei sem pensar muito e quando a equipe
começou, eu já estava me sentindo muito mal – tinha a sensação que aquela
alegria inicial havia ido embora e sentia-me acusado de haver feito alguma
coisa muito errada.
Constantemente, meus pensamentos voltavam para o texto bíblico que fala
sobre o “pecado contra o Espírito Santo”, como sendo um pecado que não
pode ser perdoado. Como eu não conseguia restabelecer por mim mesmo
aquele sentimento de harmonia e paz com Deus e como sentia que minhas
orações, naquela época, não estavam passando do teto, conclui (em acordo
desconhecido com o Inimigo de nossas almas) que devia ter pecado contra o
Espírito Santo e que não havia mais remédio ou lugar de arrependimento para
mim.
Tudo isso aconteceu dentro do meu coração e durante o tempo de viagem
daquela equipe. Obviamente, eu não contei para ninguém, primeiro porque
não tinha a quem contar, depois não sabia definir com clareza o que estava
me acontecendo. Foi muito difícil levar a equipe até o fim. Eu pensei, na
época, em abandonar todo mundo e me juntar a um grupo grande de hippies
que estavam se reunindo na Bahia, às margens da Lagoa de Abaeté. Esse
pensamento inúmeras vezes voltava à minha mente e foi só a graça de Deus
e, quem sabe, algum vago senso de responsabilidade, que não permitiram que
eu fizesse isso. Na verdade, levei a responsabilidade até o fim, com prejuízo
de minha própria sanidade, pois, literalmente, me sentia um hipócrita.
Quando a equipe acabou, eu “despenquei no abismo” – não conseguia mais
estudar (cursava na época Humanas na Unicamp); não conseguia mais ir à
igreja ou sequer tinha vontade de encontrar com alguém, aterrorizado que
pudessem enxergar o desespero que se instalara na minha alma e me
perguntassem o que eu não sabia nem nunca soubera responder: – “Por quê?
O que aconteceu?” Não conseguia mais nem tocar violão ou cantar e perdi
literalmente o gosto pela vida. Comer em excesso me trazia algum conforto e
ganhei quase dez quilos em poucos meses. Dormir ou tentar dormir era
também uma maneira de escapar de “meus demônios”.
A vida se tornou cinzenta porque, no final de contas, minha razão me dizia o
seguinte: “se Deus que é Deus não pode resolver a sua ‘parada’, o que mais
poderá resolver?” Foi o único tempo em minha vida que me lembro de ter
desistido de viver. Por respeito aos meus pais e familiares, eu procurava uma
oportunidade de acabar com tudo de uma maneira que parecesse mais um
acidente do que um ato contra minha própria vida, algo como um acidente de
carro ou coisa parecida. De vez em quando, falava com Deus, mas não em
bons termos, e com toda sinceridade, achava que ele tinha fechado o coração
para mim. De novo minha razão me dizia que o problema era eu – Deus (se
de fato é Deus) não poderia estar errado ou mesmo ser injusto, LOGO o
problema estava do meu lado da equação. Parecia um beco sem saída!
Um dia como outro qualquer, eu estava conversando com uma pessoa amiga
que sem saber detalhes do meu desespero de alma, começou a contar da
alegria que sentia por ver Deus agindo na sua vida e na vida de outras
pessoas. Tive uma “santa” inveja e saudade de um dia ter sentido as mesmas
coisas e ter perdido, ou quem sabe vendido o ‘direito à minha herança” - e
como o filho pródigo de outrora, me lembrei da casa de meu Pai. Minha
mente foi transportada pelo Espírito de Deus para o texto de Lucas 15, tão
conhecido, de como o filho “mal-agradecido” e egoísta decidiu voltar para
casa e propor ao Pai que “não merecia mais ser chamado de filho, mas se
contentaria em simplesmente morar na sua casa”.
Era só o que eu precisava, um raio qualquer de esperança no meio de um
largo e escuro túnel de quase um ano. Abri o jogo com Deus – “Aceito a
barganha. Deixe que eu more como um qualquer à sombra da Sua
generosidade e bondade que isso me basta. Topo ser o cachorrinho na soleira
da porta, desde que esse nó desate da minha garganta e esse desespero me
largue e eu possa somente existir. Não mereço e não acho que tenho estatura
para ser chamado filho”.
O restante da história é história tanto na Bíblia quanto em minha vida. O Pai
se alegra com o filho que voltou e com o que estava morto e reviveu. Foi isso
que Ele fez comigo, porque de fato é mais que verdadeira a palavra de Isaías
referindo-se ao Messias que haveria de vir: “Aqui está o meu servo, a quem
eu fortaleço, o meu escolhido, que dá muita alegria ao meu coração. Pus nele
o meu Espírito, e ele anunciará a minha vontade a todos os povos. Não
gritará, não clamará, não fará discursos nas ruas. Não esmagará um galho que
está quebrado, nem apagará a luz que já está fraca...” (Isaías 42.1-3a –
NTLH)
Alguns meses depois, lembrando sempre que pouca gente estava ciente desta
história enquanto ela estava acontecendo, fui convidado novamente a
participar de outra equipe. Até hoje não entendo por que o Jaime Kemp
decidiu fazer isso (minimamente ele sabia que eu tinha tido um longo
“afastamento” de Deus e da comunhão com os irmãos – embora não soubesse
dos detalhes todos), mas serei sempre grato a ele por me ter dado uma
“segunda chance” e ter “apostado no azarão”. Foi naquela equipe que Deus
começou a “curar” muita coisa no meu coração, muita negatividade, muita
religiosidade baseada em performance, e me “iniciar” na escola dos
relacionamentos. Cada um dos meus companheiros de equipe, naquele ano de
72, marcou minha vida para o bem. Sou grato ao Pai e grato a cada um
deles....
trecho escrito por Guilherme Kerr Neto

Quando meu marido me perguntou o que eu achava sobre convidar


novamente o Guilherme para participar de uma equipe, como eu não sabia de
tudo o que o rapaz havia passado, respondi que seria um erro levá-lo outra
vez. Por que correr o risco?
Graças a Deus, meu marido não me ouviu. Ele disse: “Acho que ele merece
uma segunda chance”. Olhando para trás, tremo ao pensar o que poderia ter
acontecido se o Jaime tivesse me dado ouvidos. Quantas bênçãos teríamos
perdido!

Guilherme é um dos nossos grandes amigos. O Senhor não somente o usou


de uma maneira poderosa na equipe da “segunda chance” como em muitas
outras. Anos depois, ele até se tornou missionário de VPC, treinando outros
jovens. Jaime celebrou o casamento dele e da Sandra. Ambos viajaram juntos
em 1972 em uma equipe que trabalhou em escolas, universidades, igrejas,
praças etc. de todo o Brasil. Ele também foi um dos pastores de uma igreja
que frequentávamos e depois se formou em uma universidade cristã, no
Canadá. Hoje ele continua sendo pastor e é pai e avô de uma grande família.
Ele é uma das pessoas mais felizes que eu conheço. Como já disse, é um
compositor muito talentoso, e seus CDs, vendidos em todo o Brasil, têm
abençoado o coração de muitas pessoas, inclusive o meu!

Seu ministério é um ministério de graça. Naqueles primeiros anos de VPC, eu


me lembro de uma apresentação que a equipe fez no Rio de Janeiro.
Estávamos reunidos numa casa muito grande, perto das montanhas daquela
linda cidade. Os jovens que assistiam estavam sentados no chão de cimento
da quadra de tênis, enquanto a equipe cantava e o Guilherme dava o seu
testemunho. Ele falou sincera, honesta e abertamente sobre aquela época
escura da sua vida e chorou ao falar para eles sobre tudo o que a graça de
Deus significava para ele. Eu estava um pouco afastada e pude observar
muitos daqueles jovens soluçando, aliviados, enquanto abaixavam as suas
cabeças em oração. Como era bom descobrir que os seus pecados podiam ser
perdoados e esquecidos por Deus!

Vários anos depois eu também passaria por minha própria experiência de


depressão. Eu também experimentei exatamente o que o Gui sentiu durante
aqueles dias em que ele se escondeu em seu quarto. O Senhor usou aquele
período para revelar algumas atitudes críticas e negativas que eu carregava
em minha vida como fardos pesados. Assim como aconteceu com o
Guilherme, o Senhor me deu uma segunda chance. E agora, eu reconheço que
todo mundo merece uma segunda chance, uma terceira, uma quarta, uma
quinta...
Como já mencionei, um dos discípulos de Jesus se perdeu eternamente. Eu
oro para que Satanás não conquiste a vitória final na vida de qualquer um dos
nossos “filhos”, mas, infelizmente, tenho que admitir que, no momento,
posso lembrar-me de dois ou três que estão afastados do Senhor. A minha
oração é que, onde quer que eles estejam andando agora, possam reconhecer
que não é possível chegar tão longe que a graça de Deus não consiga alcançá-
los.
Guilherme Kerr Neto começou sua jornada de fé através da missão Vencedores Por Cristo, onde
trabalhou por quase 7 anos. Foi pastor auxiliar na Igreja Batista do Morumbi, quando de seu início, por
outros 6 anos. Atuou por um período em missões interdenominacionais e diversas outras igrejas. Mais
recentemente, auxilia nos EUA o pastoreio de uma igreja na Flórida, a Harbour Church. Casado com
Sandra, é pai de quatro filhos e avô de oito netinhos.
C a p í t u l o 10
Jesus se santificou a favor deles
“Eu me dedico a atender às suas necessidades de crescimento, tanto na
verdade como na santidade.” (João 17.19-Bíblia Viva)

Décadas atrás, quando eu estava fazendo uma lista de tudo o que havia
encontrado em João 17 e que precisava colocar em prática, lembro-me de que
não sabia o que fazer com o versículo 19. Eu queria “fazer discípulos”, mas
era óbvio que não estava conseguindo seguir à altura o exemplo de Jesus. Ele
era 100% santo. Eu nunca fui nem 10%! Como eu podia ser um exemplo para
as outras pessoas seguirem? Como eu podia afirmar que havia santificado a
mim mesma para que elas pudessem ser santificadas na verdade?

Eu tentei. Realmente me esforcei. Prometi a mim mesma que nunca iria


perder a paciência com as minhas filhas ou gritar com elas, mas descobri que,
às vezes, era a única maneira de ser ouvida acima de tanto barulho. Eu estava
tentando ser uma boa esposa, mãe, missionária, mas diversas vezes senti que
a tarefa era difícil demais.

Uma vez fiz um bolo para um chá de cozinha. Não sei decorar bolos, mas dei
o máximo de mim e fiquei razoavelmente contente com o resultado. Eu
consegui preparar dois corações, um com o nome do noivo e outro com o
nome da noiva. Fiz algumas flores e enfeitei toda a beirada. Quando eu já
estava lavando a louça engordurada da cobertura, virei em tempo de ver
minha filha mais velha passando o dedo no enfeite ao redor do bolo. Ela
queria “experimentar” como tinha ficado a cobertura! Eu explodi: “Por que
você não pode ter mais cuidado? Trabalhei o dia todo nisso!”.

Mais ou menos duas semanas depois fui buscar Mindy na escolinha. Quando
ela saiu, estava com os braços cheios de coisas – a lancheira, a blusa, alguns
papéis e uma lata de atum enfeitada com macarrão que ela tinha feito para a
mamãe. Ela entregou tudo para mim, e eu não me dei conta de que a lata
havia caído. Infelizmente, um dos pedacinhos de macarrão quebrou e ficou lá
no chão como prova do “meu pecado”. Aquela pequena artista olhou para
mim e, com os mesmos gestos, usando a mesma expressão no rosto e a
mesma tonalidade de voz que eu tinha usado dias antes, gritou: “Por que você
não pode ter mais cuidado? Eu trabalhei o dia todo fazendo isso!”. Lembro-
me perfeitamente do que pensei na hora: “Senhor, uma boa mãe não deve
ensinar esse tipo de reação à sua filha”.

Deus tinha mais uma lição para me ensinar e, para isso, usou aquela mesma
professorinha de apenas três anos de idade. Certo domingo, eu e minhas
filhas fomos para a escola dominical. Papai estava viajando com uma das
equipes de VPC. Depois do culto, uma das professoras da Mindy puxou
conversa comigo e contou que minha filha tinha brigado com um menino da
classe. Quando ela disse para Melinda pedir perdão ao menino, minha filha
recusou. Quando a professora sugeriu que ela orasse pedindo perdão a Deus,
Mindy também se recusou. Você, que tem filhos, pode entender os meus
sentimentos ao ouvir tudo isso. Como você reage quando alguém critica o seu
“anjinho”? Francamente, eu não sabia o que fazer. A professora estava
exagerando? Eu devia forçar minha filha a pedir perdão?

Voltamos para casa e eu só queria servir o almoço para as duas e colocá-las


na cama para descansarem um pouco. Estávamos terminando de comer
quando a Melinda bateu com o cotovelo no copo. O leite voou por todo lado.
Enquanto eu estava limpando, reclamava em voz alta. Ela até me avisou:
“Mamãe, você não está falando muito bonito”. Isso só me deixou ainda mais
brava. Finalmente, ela não aguentou mais me ouvir liberando minha raiva e
começou a chorar. Soluçando, ela disse: “Mamãe, sssinto mmmuito!”. Seu
choro me comoveu bastante, e eu reconheci a seriedade da minha reação.
Então, coloquei meus braços ao seu redor e disse: “Você não precisa pedir
perdão, querida. Foi um acidente. Você não fez de propósito. Você tem razão.
Mamãe não estava falando muito bonito. Você me perdoa?” Os cachinhos do
seu cabelo balançaram quando ela afirmou, aliviada, que me perdoava.
Depois eu acrescentei: “Mindy, quando eu reajo assim, não é só você que fica
triste. Deus está triste também. Ele ainda me ama, mas não gosta nem um
pouco quando eu reajo dessa maneira. Por isso preciso orar e pedir perdão a
Ele. Você quer orar comigo?”. Depois da oração o episódio poderia ter sido
esquecido, mas não foi. Naquela mesma noite, quando voltamos à igreja para
o culto, sem dizer nada para mim, Mindy foi pedir perdão ao menino com
quem tinha brigado. Em seguida pediu que eu orasse com ela pedindo perdão
a Deus.
O Senhor queria me ensinar que Ele não exige perfeição. Somente Ele é
perfeito. O que Deus exige é honestidade. Quando Jesus andou na Terra, Ele
proferiu algumas palavras duras aos fariseus por causa da hipocrisia em que
viviam. Em todos esses anos, trabalhando com jovens, reconheço que a pior
atitude que os pais podem adotar é serem hipócritas.

Durante a infância e adolescência de nossas filhas sempre havia alguém


morando conosco. Era como viver numa casa de vidro. Os jovens
observavam como eu disciplinava as meninas, como interagia com meu
marido, quanto tempo dedicava à comunhão com Deus e se evangelizava
meus vizinhos ou não. Devo confessar que, às vezes, senti que era muito
difícil viver a vida cristã. Precisei entrar no túnel escuro da depressão durante
um ano para finalmente reconhecer que:

• Não é pecado dizer não quando estou estressada;


• Que eu ainda posso servir de exemplo quando cometo um erro, se
souber sincera e humildemente pedir perdão;
• Que o Senhor não quer que eu aja por obrigação. Ele aprecia as
atitudes de um coração cheio de amor.

Sei que eu ficaria muito ofendida se minhas filhas adotivas sentissem que
precisavam “dar o sangue” para ganhar a minha aprovação e receber o meu
amor.

Naqueles anos, apesar de teoricamente saber que eu era salva pela graça de
Deus, sentia que viver a vida cristã dependia do meu próprio esforço e
desempenho. Hoje eu me preocupo apenas com uma coisa: conhecer o meu
Deus. Quanto mais o conheço, mais eu o amo! Quanto mais eu o amo, torna-
se mais fácil obedecer-lhe, pois confio n’Ele. Quanto mais lhe obedeço, mais
quero servi-lo. Agora, meu ministério é uma alegria para mim!

Durante todos esses anos em que estou casada com o Jaime, uma das coisas
que mais admiro nele é o fato de que ele não consegue ir ao púlpito e pregar
se não está tudo bem entre nós. Em seus seminários cujo tema é a família, ele
também compartilha seus erros e não somente suas vitórias. Ele é o primeiro
a dizer: “Eu estava errado. Por favor, me perdoe. Eu amo você!”.

Anos atrás, Jaime estava dirigindo tendo ao lado no banco de passageiro um


de seus discípulos. Eles tiveram muito tempo para conversar e, em
determinado momento, o rapaz disse: “Sabe, Jaime, houve uma vez em que
eu me senti decepcionado com você”. É claro que o Jaime ficou curioso para
descobrir o que havia feito de errado. O rapaz continuou: “Eu fui até sua casa,
mas antes que a Judith pudesse chamá-lo ouvi a porta dos fundos se abrindo e
você entrar gritando alguma coisa em inglês para ela. Logo em seguida, você
saiu de novo batendo a porta. Fiquei sem jeito e pensei que era melhor ir
embora. Mas foi bom eu ter ficado mais um pouco, porque depois de um
tempo você abriu a porta dos fundos outra vez. Não deu para ouvir o que
você e ela conversavam na cozinha, mas fiquei muito curioso e levantei para
xeretar através da abertura da porta. A Judith estava sentada no seu colo e
vocês estavam orando juntos. Jaime, você salvou a pátria!”.

Caráter é algo muito importante, seja para quem está criando filhos ou para
aqueles que estão desenvolvendo discipulado em um ministério na igreja. Em
resumo, para todos que querem fazer de sua vida cristã um norte para os
filhos ou discípulos, é revigorante poder confiar na promessa: “Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os pecados e
nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9-ARA). E, graças ao Senhor, os
filhos de Deus nos perdoam também!

Há um tempo certo para tudo por Melinda Kemp Jacobson

Fico maravilhada como Deus tem o seu tempo certo! Eu fui abençoada no
tempo certo quando o Senhor providenciou para minha vida pais zelosos e
amorosos. Na sequência dos acontecimentos, ainda bem novinha, também no
tempo certo entendi a mensagem da salvação e abri meu coração a Deus.
Bênção dobrada a minha! A primeira adoção em uma família temente a Deus
abriu as portas para a segunda adoção, na família do próprio Deus, quando fui
adotada por sua imensurável graça (Efésios 1.5-6).

Nem sempre é fácil sermos filhos de Deus, não é? Há momentos difíceis na


vida daqueles que querem seguir ao Senhor de forma genuína. Da mesma
forma, nem sempre foi e é fácil ser filha de Jaime e Judith Kemp. Minhas
irmãs e eu tínhamos muitos olhos voltados para nós e isso às vezes nos
sufocava. Mas, indiscutivelmente, ao colocar-nos naquele lar o amor de Deus
por nós ficou evidente também na maneira como nossos pais se esforçavam
por viver uma vida comprometida com Ele, para servir-nos de exemplo.
Uma das coisas que me emocionam desde quando eu era pequena e perdura
até hoje é a fé do meu pai. O exemplo dele sempre impressionou aquela
menininha a quem ele pegava no colo. E confesso que até hoje minha vida
pessoal de oração e minha própria fé no Deus Poderoso são influenciadas por
ele. São incontáveis as vezes que eu o flagrei ajoelhado em oração,
conversando com o Senhor sobre assuntos de seu ministério e apresentando
pedidos relativos à nossa família e amigos. Como Deus nos respondia! E
como comemorávamos as respostas! Quantas vezes, em vez de pedir, eram
orações de agradecimento!

Lembro-me de que eu e minha irmã, Márcia, achávamos que muitos dos


pedidos que meus pais faziam eram grandes demais para receberem resposta,
mesmo de Deus. Recordo-me de situações em que o ministério precisava de
grandes somas de dinheiro e, de repente, o dinheiro aparecia; portas antes
hermeticamente fechadas para o evangelho se abriam sem “nenhuma
explicação” aparente; pessoas doentes por quem intercediam logo nos
ligavam dizendo que estavam se sentindo melhor etc. etc. etc. Nossos pais
faziam com que compreendêssemos, em nossa linguagem de criança, que
nada era grande demais para o poder de Deus e que suas bênçãos iam muito
além do que nossas cabecinhas podiam imaginar.

Certa vez, tive uma experiência com Deus que me fez colocar os joelhos no
chão. Eu já estava casada e tínhamos acabado de comprar nossa primeira
casa. Eu tinha um ótimo emprego, com todos os benefícios inclusos. Assim
que fechamos o negócio com a casa, soube que a empresa onde trabalhava
dispensaria por volta de 500 funcionários. O clima tornou-se tenso entre
todos, pois as pessoas iam sendo empurradas para fora como se fossem
moscas. Eu achava que Deus não havia nos dado a oportunidade de adquirir
uma casa para nos tirar logo depois.

A possibilidade de ficar desempregada me deixava apavorada. Então resolvi


ir atrás de uma nova colocação. E assim passei por uma nova experiência na
vida: uma sequência de portas batendo na minha cara!

Bem nessa época – outra vez o tempo perfeito de Deus – meu pai estava de
férias e veio passar uns dias conosco. Um dia, eu ainda estava no trabalho
quando meu pai apareceu trazendo-me flores. Ele me abraçou forte e me
ouviu pacientemente. Despejei em cima dele toda frustração de estar
novamente atrás de um emprego. Com muito amor, mas muita seriedade, ele
me olhou profundamente e perguntou:

- Você já colocou seu problema nas mãos de Deus e está orando


constantemente por isso?
Aquela pergunta me incomodou, apesar de eu ter dito a ele que sim.
Na volta para casa, decidi entregar meu currículo num hospital. Entreguei por
entregar. O cargo era bom, mas eu não me achava capacitada para exercê-lo.
Era uma segunda-feira. Dois dias depois eu fui chamada para uma entrevista.
Fiquei surpresa, mas a pergunta do meu pai não saía da minha cabeça. E
então, com humildade e toda honestidade deixei o Espírito Santo falar ao meu
coração. Reconheci o meu egoísmo e cegueira que estavam me impedindo de
ver a mão de Deus trabalhando para me preparar outro emprego.
Que momentos maravilhosos passei, em oração, aos pés do meu Pai
Celestial! Comecei orando por perdão, depois por paz. Eu precisava sossegar
e descansar. E Deus trouxe à minha mente dois versículos que sempre ouvi
de meus pais: “Não se preocupem com nada, mas em todas as orações peçam
a Deus o que vocês precisam e orem sempre com o coração agradecido. E a
paz de Deus, que ninguém consegue entender, guardará o coração de vocês,
pois vocês estão unidos com Cristo Jesus” (Filipenses 4.6-7
– NTLH); “Confie no Senhor de todo o coração e não se apóie na sua própria
inteligência. Lembre de Deus em tudo o que fizer, e ele lhe mostrará o
caminho certo” (Provérbios 3.5-6 – NTLH). Assim que terminei a oração
senti uma paz simplesmente inacreditável. Fosse qual fosse o plano de Deus
para mim, estava certa em que Ele sabia o que fazia.
Dois dias depois eu fui até o hospital entregar uma carta, contando minha
experiência em oração, à senhora que havia me entrevistado. Nem sei por que
decidi fazer isso. Simplesmente precisava fazê-lo. Como ela não estava,
deixei com a recepcionista. Ao sair, encontrei Katherine, a senhora que me
entrevistara, no estacionamento. Ela perguntou se eu poderia acompanhá-la
até o seu escritório. Lá, ela disse que o emprego era meu!
- MEU?
- Sim, seu.
A partir daquele instante foi só alegria. Meu salário seria o dobro do que eu
ganhava na outra empresa, com todos os benefícios possíveis e outros
atrativos. Na mesma hora, eu agradeci a Deus em voz alta. Ela quis saber o
porquê da minha reação. Depois de ouvir minha resposta, ela me contou que
também era cristã, líder em sua igreja, que havia ficado impressionada
comigo desde a entrevista, apesar de eu ter me sentido inadequada.
Quando saí daquele escritório, a primeira coisa que fiz foi ligar para o meu
pai. Mais tarde, toda a família se reuniu num jantar para comemorar e nossa
conversa foi uma profusão de expressões de gratidão a Deus por seu cuidado
e controle em nossas vidas.
De toda essa experiência, jamais me esquecerei do quebrantamento pessoal
que o Senhor promoveu no meu coração. A alegria que eu via nos olhos do
meu pai quando suas orações eram respondidas, tornou-se minha naquele
momento.
O sentimento de intimidade que desfruto com Deus foi altamente
influenciado pelos exemplos e conselhos de meus pais.
- Como é bom ter sido adotada por meus pais!
- Como é bom ter sido adotada por Deus!
Melinda Kemp Jacobson é responsável pelo escritório da “Christian Home Ministries” (Ministério
Lar Cristão) em Grass Valley, Califórnia, Estados Unidos. É casada com Paul Jacobson e mãe de James
Paul.
C a p í t u l o 11
Jesus queria que fossem unidos
“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em
mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és
tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo
creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens
dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de
que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me
enviaste e os amaste, como também amastes a mim.” (João 17.20-23-ARA)

Alguém disse sabiamente: “Se o mundo pudesse ver os seguidores de Cristo


amando uns aos outros como Ele ensinou, as pessoas quebrariam as portas
das igrejas para conseguir entrar”.

Enquanto viajávamos com as equipes, nos esforçávamos muito para manter


os relacionamentos em ordem. Orávamos para que as pessoas que iam nos
ouvir cantar e testemunhar também percebessem o amor com que
interagíamos uns com os outros.

Existem muitos versículos bíblicos que falam sobre a importância e o


significado de sermos “membros uns dos outros”. Lemos, por exemplo, que
não devemos julgar as pessoas (Romanos 14.10-13), provocá-las ou sentir
inveja delas (Gálatas 5.25-26), feri-las ou prejudicá-las (Gálatas 5.14-15). Em
vez disso, devemos confessar os nossos pecados uns aos outros (Tiago 5.16),
perdoar uns aos outros (Colossenses 3.13), fazer o bem para todos (Hebreus
13.16).

Certa vez, Jaime estava dando uma aula sobre o livro de Atos no Seminário
Bíblico Palavra da Vida, falando a respeito dos cristãos que tinham todas as
coisas em comum (Atos 4.32). Em determinado momento, ele perguntou:
“Há alguém aqui que está passando por alguma necessidade?”. Uma das
meninas, Teresa (nós a chamamos Teka), abriu seu coração e contou que ela
precisaria deixar a escola porque não tinha o dinheiro necessário para pagar a
mensalidade. Aquela não era a primeira vez que ela precisava confiar na
provisão de Deus. Sua mãe ficou viúva com suas filhas ainda pequenas e
lutou muito para sustentá-las como costureira. A família passou por muitas
necessidades, chegando a morar em prédios abandonados. O pai de Teka
aceitou Jesus como Salvador antes de morrer e disse às filhas: “Se vocês
querem me ver novamente, também precisam entregar suas vidas a Jesus”.

Voltando à aula do Jaime, quando todos abaixaram suas cabeças para orar,
silenciosamente os outros alunos começaram a colocar notas enroladas de
dinheiro na carteira da Teka. Quando ela abriu os olhos, tinha diante de si
uma pilha. Ao contá-las, ela descobriu que Deus havia providenciado mais do
que o suficiente para pagar a mensalidade. Hoje Teka é esposa de um pastor
de uma igreja em São Paulo e suas irmãs também servem ao Senhor, algumas
como missionárias.

Décadas se passaram e amizades desenvolvidas durante o tempo em que


viajamos juntos em Vencedores permanecem até hoje. Ainda choramos com
aqueles que choram e nos alegramos com aqueles que estão alegres. Ainda
levamos as cargas uns dos outros. Quando alguém enfrenta uma doença, uma
crise familiar ou a perda de um ente querido, sempre pode contar com um
coração compassivo, ouvidos prontos para ouvir e um ombro para chorar.

Aprendemos a aceitar, apreciar e valorizar os dons e as habilidades uns dos


outros. O fato de Deus não ter nos criado todos iguais é maravilhoso. Fico
imaginando se em Vencedores Por Cristo todos fossem só guitarristas, ou
pianistas, ou cantores. O que faríamos sem pessoas queridas como Edaci, que
gostava de ajudar seus amigos de equipe a lavar e passar as suas roupas; ou
como Allyn, que estava sempre pronto e disposto a carregar o “Alex” (um
famoso amplificador enorme e pesadíssimo). Até hoje sabemos a quem
devemos recorrer quando precisamos de alguém com o dom de serviço ou
misericórdia, de liderança ou ensino, ou...

Os elementos das equipes convidados procediam de várias igrejas e


denominações. Nem sempre todos concordavam entre si em todos os
pequenos pontos das diferentes doutrinas, mas sempre concordavam sobre o
que era mais importante. Se como igreja brasileira queremos realmente amar
uns aos outros, precisamos nos dispor a deixar de lado nossas diferenças e
mostrar ao mundo como fazê-lo. Devemos acolher uns aos outros “como
também Cristo nos acolheu para a glória de Deus” (Romanos 15.7-ARA).
Porém, às vezes o relacionamento entre uma igreja e outra parece ser mais
uma competição ou concurso. Há contendas e “aliciamento de ovelhas”. Isso
dá aos incrédulos a impressão de serem concorrentes e não comunidades
irmãs onde uns amam aos outros, como Cristo os amou.

No decorrer de todos esses anos que estamos trabalhando no Brasil, sempre


optamos que os ministérios Vencedores Por Cristo e Lar Cristão não fossem
ligados a uma denominação específica. É interessante observar que algumas
das igrejas que se mostraram mais resistentes ao nosso ministério no passado
– porque não somos da mesma denominação – atualmente são aquelas onde
falamos aos maiores grupos de pessoas e temos as maiores oportunidades.

Uma vez um amigo comentou: “Vencedores Por Cristo é como uma loja de
sapatos. Todos saem aos pares”. Para falar a verdade, não era permitido ao
jovem namorar outro equipante durante os três meses em que participavam
das equipes. Tínhamos regras rígidas. Por exemplo, depois de escurecer era
até proibido aos rapazes sentarem ao lado das moças no ônibus. Porém, é
impressionante como muitos deles conseguiram manter seu interesse mútuo e
engatar um romance depois de a equipe ter sido desfeita. Olhando para trás,
vejo como isso foi uma bênção. Apesar de não ter sido esse o nosso objetivo,
a experiência em Vencedores deu aos membros a oportunidade de
conhecerem cristãos dedicados do sexo oposto, membros de outras igrejas,
muitas vezes de outras cidades, estados ou até país.

Observamos muitos namoros de perto. Carolina encontrou com Ary Velloso


pela primeira vez numa época em que morava conosco. Quando a Virginia
também estava morando em nossa casa, ela entrou na cozinha uma tarde e leu
a carta que acabara de receber de um rapaz, Paulo Moreira. Ela me
perguntou: “O que você acha?”. Eu fiquei muito entusiasmada com a ideia –
Paulinho foi uma das primeiras pessoas que conhecemos quando chegamos
ao Brasil, nosso aluno no Instituto Bíblico Palavra da Vida, e,
particularmente, sempre gostamos muito dele.

Jaime fez o aconselhamento pré-nupcial para muitos desses casais e, desde


então, ele tem ajudado a preparar outros milhares através do seu livro-guia
sobre o tema. Quando ele está reunido com pastores ou ministrando seus
seminários, sempre encoraja e insiste para que o curso de aconselhamento
pré-nupcial para os noivos seja implantado de modo definitivo nas igrejas.
Diz o ditado: “É melhor prevenir do que remediar”. Quando os jovens
desenvolvem um fundamento firme durante o período de namoro e noivado,
eles têm maior chance de construir um casamento sólido e equilibrado.

Se o nosso cristianismo não funcionar dentro dos nossos próprios lares, então
não funcionará em qualquer outro lugar. Tenho dito frequentemente a grupos
de mulheres que o grande testemunho que podemos dar a este mundo, que
precisa desesperadamente de Jesus, é o testemunho de um lar unido.

Jesus falou para os seus discípulos: “Eu lhes dou este novo mandamento:
amem uns aos outros. Assim como eu os amei, amem também uns aos outros.
Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que vocês são meus
discípulos.” (João 13.34-35 – NTLH).

E Jesus também fez esta oração ao Pai: “Eu fiz com que eles te conheçam e
continuarei a fazer isso para que o amor que tens por mim esteja neles e para
que eu também esteja unido a eles” (João 17.26 – NTLH).

Geração abençoada por Sergio e Magali Leoto

Havia na juventude da década de 70 o desejo de “lutar por uma causa”. O


movimento hippie nos EUA era um exemplo disso, com o lema “faça amor,
não faça a guerra”, protestando contra a guerra no Vietnã. Aqui no Brasil e
em toda a América do Sul os jovens ansiavam por uma redemocratização. No
meio evangélico, os jovens foram alavancados por movimentos como
Vencedores Por Cristo (VPC), Mocidade para Cristo, Aliança Bíblica
Universitária, Palavra da Vida, Jovens da Verdade, Atletas de Cristo, entre
outros. Eles também tinham seus ideais de servirem a uma causa maior: o
reino de Deus.

Tais movimentos tinham em comum o desejo de alcançar a juventude com o


evangelho de Cristo, através de comunicação contextualizada à sua realidade,
usando linguagem informal, música, literatura, pintura, expressão corporal,
teatro, esportes etc. Os jovens daquela época estavam cansados de ir à igreja
por um simples “ritualismo” que lhes parecia sem sentido, num formato de
culto cuja comunicação privilegiava os adultos e idosos. Queriam poder
expressar uma vida cristã que fosse verdadeira e não apenas uma
religiosidade da “boca para fora”.
Não existiam naqueles tempos os meios que hoje são tão comuns, como uma
mídia forte com jornal, rádio e TV, internet, redes sociais etc. Os jovens eram
impactados através da música. Havia os grupos musicais e movimentos
estudantis cristãos, que mobilizavam os jovens das igrejas evangélicas.

Foi nesse contexto que eu, Sérgio Leoto, vi VPC pela primeira vez em 1971,
numa igreja de São Paulo. O impacto dos testemunhos dados por aqueles
jovens foi imediato em minha vida! Interessei-me em viajar com o grupo,
inscrevendo-me junto com vários outros rapazes e moças. Depois de muitos
formulários preenchidos e informações dadas, os líderes pediram que eu fosse
a uma entrevista pessoal.

Ao comparecer à entrevista, trêmulo e sem saber o que mais iriam perguntar,


entrou na sala o pastor Jaime Kemp. Depois de mais de 30 minutos de
questionamentos sobre minhas intenções em participar do grupo, ouvi a
última pergunta, num português carregado de sotaque americano: “Você toca
bateria?”, ao que respondi: “Não! Nunca tentei!”. Jaime olhou-me bem e
disse: “Mas você tem cara de baterista! Conhece algum amigo que poderia
lhe ensinar a tocar esse instrumento?”. Curiosamente, eu tinha um colega de
escola que era baterista profissional. O pastor me disse: “Então vá aprender
com ele, que nas próximas férias você será o nosso baterista!”.

Parece loucura, mas deu certo! Fui o primeiro baterista a sair em viagens
missionárias de VPC. Toquei esse instrumento de 1972 até 1990. É preciso
explicar que naquela época a bateria não era aceita nem bem vista pelas
igrejas. Tocada em bares e boates, era considerada um “instrumento do
diabo”! Como no meio evangélico não existiam muitos bateristas, o Pr. Jaime
teve que dar uma de profeta, e eu fui o elemento da sua profecia!

Hoje sou pastor, com mais de 30 anos de experiência ministerial. Boa parte
do que aprendi e apliquei na obra de Deus veio da boa base recebida pelo
discipulado e estudos bíblicos recebidos em VPC. Os temas tinham como
objetivo três áreas de nossa vida: a primeira tratava do nosso relacionamento
com Deus, depois do nosso relacionamento com as pessoas, para em terceiro
lugar aprendermos a evangelizar e testemunhar de Cristo. No início, o casal
Kemp nos acolhia em sua própria casa repassando-nos todos esses
ensinamentos. Nos anos que se seguiram, os estudos eram feitos no escritório
da missão, com vários pastores e missionários ,como Ary e Carolina Velloso,
Bill e Larry Keyes, Ken e Diane Kudo, Russell Shedd, Guilherme Kerr,
Nelson Bomilcar, entre outros.

Trabalhamos eu e minha esposa, Magali, em tempo integral, como


missionários em VPC por nove anos. Treinamos e discipulamos mais de 200
rapazes e moças de várias denominações, na prática da evangelização, do
aconselhamento bíblico e da liderança cristã. Participamos junto com o Pr.
Jaime Kemp de diversos trabalhos em escolas, principalmente as que eram de
origem evangélica, como batistas, presbiterianas, entre outras. Isso aconteceu
na época em que Jaime estava em VPC e também depois, quando passou a
liderar o ministério Lar Cristão.

Alguns desses trabalhos em colégios duravam a semana inteira. Eram muitas


classes e não havia condição de fazer um evento único, pois não caberiam
todos os alunos no auditório. Assim, subdividíamos as classes em eventos
menores, repetindo os assuntos das aulas até que todas tivessem ouvido a
mensagem.

Realizamos vários eventos utilizando o conteúdo do livro Turbulentos anos


da Adolescência, de autoria de Jaime Kemp. Percorríamos as características
dessa faixa etária, passando por seus problemas e expectativas, mas
finalizando com a ideia de que esse é um dos períodos mais importantes de
nossas vidas – cheio de oportunidades e desafios, que abrem possibilidades
maravilhosas ao ser humano. Acima de tudo, mostrávamos que Deus estava
interessado em caminhar com eles durante todo esse processo.

Falar sobre a adolescência com aqueles estudantes abria o diálogo com vários
deles para aconselhamentos em particular. Eles nos falavam sobre seus
dramas com os pais, a falta de diálogo com alguns, a negligência paterna ou
materna, entre tantas coisas. Essas causas provocavam em alguns deles atos
de rebeldia e violência, busca por vícios e drogas, vida de prostituição,
devassidão, abortos etc. Muitos eram os aconselhamentos que fazíamos, mas
não dávamos conta de todos. Saíamos daqueles trabalhos contentes, mas
preocupados, pedindo ao Senhor que complementasse soberanamente aquela
obra.

À noite esses colégios ofereciam palestras voltadas aos pais dos alunos.
Centenas deles compareciam, pois os livros do Jaime eram muito conhecidos
e atraíam pessoas até das igrejas de cidades próximas. Em geral, Magali,
professora e também escritora de livros sobre a adolescência, dividia as
informações aos pais com o Pr. Jaime, que sempre fechava o evento fazendo
a palestra principal. E ao final do evento também não dávamos conta dos
aconselhamentos aos pais.

Foram anos de discipulado com Jaime e Judith, bem como trabalhos


realizados ao lado deles, seja ministrando o curso Lar Cristão, falando a
adolescentes e pais ou em congressos de líderes de ministério de famílias.
Somos gratos a Deus por esse privilégio, que é a base para o nosso ministério
atual. Hoje também somos missionários itinerantes, falando às famílias por
esse Brasil e fora dele, escrevemos livros sobre esse tema, como eles. Porém,
acima de tudo, o que nos ensinaram foi amar a Deus e dar o melhor de nossas
vidas a Ele e ao seu reino. Fizeram isso não só através dos seus
ensinamentos, mas muito mais com seu exemplo de vida. Se nossa família
hoje possui um alicerce firme na Palavra de Deus, muito se deve à prática do
que aprendemos com eles, desde nossos tempos de namoro.

Desde que nos conheceram, Jaime e Judith demonstraram seu carinho e nos
cativaram. Esse afeto transbordou também para nossa filha Jessica, desde
pequenininha (hoje ela tem 21 anos). A nossa oração é que esse legado
recebido do casal Kemp, que teve como marca o temor a Deus, possa ser
vivido também pelos filhos dos nossos filhos – para que possam ser
abençoados, como a nossa geração o foi.
Sérgio e Magali Leoto atuam em comunidades de todas as denominações desde 1975 no ministério
entre adolescentes, jovens, casais e famílias nas áreas de treinamento, ensino, liderança,
aconselhamento, evangelização e música. Os dois já trabalharam com a Aliança Bíblica Universitária
(ABU) e integraram o grupo Vencedores Por Cristo (VPC). Sérgio é teólogo e bacharel em Arquitetura.
Magali é formada em Música Sacra, Educação Artística e Psicologia. Eles são casados desde 1982 e
têm uma filha, Jessica.
C a p í t u l o 12
Jesus os enviou ao mundo
“Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.”
(João 17.18 – ARA)

Anos atrás, o evangelista Billy Graham disse que se o Senhor Jesus


demorasse a voltar, eventualmente o Brasil seria a próxima grande nação a
enviar missionários ao redor do mundo. Ele viveu para ver a sua profecia
tornar-se realidade.

Eu sempre apreciei a ênfase que a Sepal dá às missões transculturais. Alguns


dos seus missionários, tanto americanos como brasileiros, estão diretamente
envolvidos em desafiar jovens, ensinálos, enviá-los ao campo missionário e
dar-lhes assistência ali.

Os brasileiros, em geral, são bons missionários. Primeiramente, eles são bem


aceitos em lugares onde outros estrangeiros, às vezes, não podem nem entrar.
Em segundo lugar, os brasileiros têm mais facilidade em se ajustar a uma
nova cultura. Porém, um dos problemas é como sustentar financeiramente
esses missionários. Quando testemunhamos que, pessoalmente, Jaime e eu
temos indivíduos e igrejas nos Estados Unidos que não falharam um mês no
sustento do nosso ministério durante mais de quinze anos, tentamos encorajar
as igrejas brasileiras a aceitarem o desafio de missões transculturais.

Não temos dados mais recentes, mas anos atrás, quando foi feita uma
pesquisa, descobrimos que mais ou menos 200 dos 400 jovens que viajaram
nas primeiras equipes de Vencedores Por Cristo estão envolvidos atualmente
em ministérios, dedicando tempo integral a eles. Alguns são pastores, outros
têm ministérios itinerantes, são missionários aqui no Brasil ou ao redor do
mundo.

Iveli viajou em uma de nossas primeiras equipes. Ela estudava no Seminário


Bíblico Palavra da Vida e depois da sua formatura se casou com Paulo Silas.
Logo depois, ambos foram para Roraima, onde trabalham até hoje com uma
tribo indígena que vive perto da fronteira com a Venezuela. Há alguns anos
fui convidada para dar uma palestra para um grupo de mulheres em Boa
Vista. Nessa ocasião, tive o privilégio de conversar longamente com Iveli.
Nós matamos as saudades e ela leu para mim trechos da Bíblia que eles
haviam traduzido para a linguagem da tribo.

Virginia foi criada em Dourados, Mato Grosso do Sul, bem pertinho de outra
tribo indígena. Mais tarde ela veio estudar em São Paulo, viajou em uma de
nossas equipes e morou por um tempo em nossa casa. No capítulo anterior eu
já contei sobre o seu namoro com Paulo Moreira. Depois de casados, eles
foram com seus três filhos pequenos para Amsterdam, trabalhar com a
associação Billy Graham em países do leste europeu. Para nossa tristeza,
quando seus filhos eram adolescentes, Virginia faleceu. Como ela teria
orgulho hoje de ver sua filha, Shaila, atuando como missionária na Ásia.
Paulo atualmente é o pastor da igreja que frequentamos em São Paulo, e
continua desafiando a todos para missões.

A família Chagas é muito especial para nós. A nossa amizade começou há


mais de 40 anos, quando os dois filhos, Abílio Junior (Bilão) e Edy viajaram
com VPC. Naquele tempo, o pai, Sr. Abílio, era consultor jurídico da Câmara
Municipal na cidade de Bauru. A família iniciou uma igreja muito dinâmica
ali e, através dos anos, estabeleceu diversas outras igrejas. Eles também
desenvolveram ministérios diversificados, como, por exemplo, com meninos
de rua e prostitutas. Edy e sua esposa, Liliam, mudaram para Londres, onde,
por um período, exerceram seu ministério como colaboradores em uma igreja
local. Já Bilão e sua família iniciaram uma igreja em Portugal. Atualmente,
pai e filhos têm ligação com uma igreja em Lagos, na África. Recentemente
participaram de uma campanha evangelística na Nigéria, onde havia tantas
pessoas no evento que foi necessário enviar um ônibus para trazer à frente
aquelas que queriam aceitar a Jesus.

Enquanto estou escrevendo este capítulo, Davi Pezzato, filho de Laudir e


Sonia Regina, está servindo como missionário na Tailândia, ao lado de sua
jovem esposa. Também não quero esquecer as filhas do nosso saudoso Allyn,
que dedicaram um tempo trabalhando com os pigmeus na África.

É claro que muitos daqueles que viajaram com Vencedores Por Cristo hoje
em dia exercem trabalhos seculares, mas nem por isso deixam de ser
missionários. Como diz o lema de nossa missão, “cada coração com Cristo é
missionário, e cada coração sem Cristo é um campo missionário”.
Paulo Andrade era obstetra, mas há alguns anos decidiu dedicarse ao
pastorado. Ele e sua esposa, Dora, têm trabalhado em uma nova igreja.
Anteriormente, durante muito tempo, Dora foi uma das líderes do movimento
Desperta Débora, que desafia as mães a orarem por seus filhos e pelas
crianças do Brasil por quinze minutos, diariamente. Foi através das orações
dessas mulheres que outdoors inapropriados e até mesmo ofensivos foram
banidos no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Jaime e eu nunca imaginamos que teríamos a oportunidade de ministrar em


outros países do mundo. Temos dado cursos para jovens e casais em
Portugal. Não tem sido fácil alcançar o povo. No entanto, muitas pessoas que
jamais iriam a uma igreja evangélica espontaneamente aceitam o convite para
uma reunião onde haverá uma palestra sobre a família. Quem pode saber?
Talvez, no futuro, possamos ter um ministério mais extenso naquele país.

Meu marido também viajou ao Japão e à França para ensinar a Palavra. Fui
com ele até Londres trabalhar numa igreja brasileira local, muito dinâmica.
Em algumas das viagens para a Europa visitamos alguns jogadores de futebol
brasileiros que conhecemos nas conferências dos Atletas de Cristo.

Baltazar foi artilheiro em um dos campeonatos espanhóis. Quando fomos


visitá-lo na Espanha, ele sua esposa nos levaram para conhecer a cidade de
Madri. Nas ruas todos reconheciam seu herói e, é claro, queriam um
autógrafo. Cada uma delas recebeu o testemunho pessoal de Baltazar junto
com o autógrafo. Quando ele deixou a Espanha, uma das revistas esportivas
escreveu que em mais de 100 anos nunca houve um cristão tão conhecido
naquele país. Silas, por sua vez, jogou em Lisboa. Certa vez fomos juntos a
um jantar e, entusiasmados, o ouvimos testemunhar para um grupo de
homens de negócios.

Marcos (mais conhecido como Ceará) jogou em Paris, na França, onde


sempre fez questão de organizar estudos bíblicos e encontros de casais. Além
disso, ele tem sido especialmente uma bênção para o ministério Lar Cristão.

Há centenas de exemplos que eu gostaria de citar, de homens e mulheres que


têm trabalhado em várias áreas de ministério ou testemunhado de Cristo com
a integridade de suas vidas em seus empregos, para seus amigos, familiares e
filhos. Como escreveu o apóstolo Paulo: “... pela palavra da verdade do
evangelho, que chegou até vós; como também, em todo o mundo, está
produzindo fruto e crescendo, tal acontece entre vós, desde o dia em que
ouvistes e entendestes a graça de Deus na verdade...” (Colossenses 1.5b-6)

De Bauru para o mundo por Edy Chagas

Um encontro recente de nossa comunidade teve por tema “Justiça, paz e


alegria no Espírito Santo”. As discussões em grupo foram bastante animadas
e edificantes para os participantes: homens, mulheres, jovens e adolescentes.
A base das discussões? Um estudo sobre liberdade cristã extraído do
treinamento de Vencedores Por Cristo que fizemos nos anos setenta.

O tempo que passamos em VPC teve forte influência não só em nossa vida
como também na formação e crescimento da Comunicação e Missão Cristã,
que nasceu em 1979. Antes disso, na Igreja Presbiteriana de Bauru, tivemos
uma base sólida no evangelho. Ainda muito jovens, passamos por uma forte
experiência com o Espírito Santo. E aí fomos chamados para participar de
VPC.

Pouco sabíamos sobre discipulado, embora nossa atividade cristã já fosse


intensa nos cultos e reuniões da mocidade. Em momentos de inspiração, eu
compunha algumas músicas com Artur Mendes e, junto com Bilão,
cantávamos por aí. Foi nos treinamentos que tomamos contato com estudos
práticos de vida, como namoro, autoaceitação, relacionamentos, como estudar
a Bíblia sozinho. Foi nas viagens que enfrentamos e superamos nosso medo
de falar em público e evangelizar nas praças e ruas. Nas dificuldades, às
vezes sem lugar para tomar banho, carregando instrumentos pesados,
tomando chuva, dormindo em bancos de igrejas ou até sem ter algo decente
para comer, aprendemos a nos submeter e servir sem reclamar.

Além disso, o exemplo dos missionários que lideravam as equipes, a forma


como eles se davam ao serviço do Senhor, nos inspirou. Bilão conta que foi
no final de uma viagem de VPC ao Uruguai, em 1977, que sentiu o chamado
de Deus para servi-lo em tempo integral. Por conselho de nosso pai -que
havia dedicado Bilão ainda bebê a Deus-, terminou a faculdade de engenharia
e depois se dedicou ao ministério. Recém-casado, foi com Lilian para o Chile
por três meses para aprender mais na comunidade de Concepción, onde já
viviam intensamente o discipulado. O contato com irmãos argentinos, da
Comunidade Cristã em Buenos Aires, também nos fortaleceu nesse caminho
do discipulado.

Eu demorei um pouco mais para me dedicar integralmente. Formei-me na


faculdade e passei a trabalhar com artes gráficas e propaganda. Participei de
várias outras equipes em VPC e do Grupo Semente. Fiz algumas capas dos
discos desses grupos. No meu coração, entretanto, sempre houve o desejo de
servir a Deus mais intensamente. Em 1993 abriu-se uma porta para participar
de um projeto de missões transculturais, o “Ide às Nações”, junto com outras
igrejas de várias partes do Brasil. Foi quando fomos, eu e minha esposa, para
a Inglaterra ajudar uma igreja e ter a primeira experiência transcultural de
nossa Comunidade. Ali passamos por situações que exigiram atitudes de
verdadeiros discípulos: submissão, humildade, serviços “pouco espirituais”
como lavar banheiros e cuidar do jardim da igreja. Mas, no final, tivemos
contato com uma escola bíblica, em Emsworth, que nos inspirou a formar a
EMM, nossa escola de missões em Bauru.

Um detalhe importante: nossas esposas, Lilian e Liliam, sempre apoiaram e


participaram ativamente de nosso ministério. Ambas fizeram o treinamento
em equipes de VPC.

Bilão foi em 1995 para Portugal, onde ficou três anos com sua família e
iniciou a igreja que se multiplicou em várias congregações em Alto de
Barronhos, Algés e São Marcos, obra que foi confiada a discípulos nossos e
hoje tem à frente ex-alunos da EMM. O material que Bilão usou nos grupos
de discipulado ali? Os estudos de Integração da Sepal e os da pasta usada nos
treinamentos de VPC.

Hoje nos tornamos uma igreja missionária. Vamos aos bairros de Bauru,
estamos em quase todas as cidades da região plantando igrejas, temos
missionários no Ceará, igrejas em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul,
Brasília, São Paulo. Fora do país, em Portugal e Estados Unidos. Estamos
ligados à AFI (Apostolic Fellowship International), que reúne apóstolos de
vários países como Argentina, Chile, Colômbia, Itália, França, Espanha,
Índia, Tailândia, Austrália, Estados Unidos, Nigéria e Brasil. Assim temos
tomado conhecimento do que Deus tem feito por esse mundo afora.

Nunca abandonamos o discipulado. Claro que nesse tempo desenvolvemos


outros materiais de estudo, mas nunca deixamos de consultar as folhas
amareladas das pastas de VPC que mantivemos em nossa biblioteca. Mais
ainda: a experiência que ganhamos participando das equipes continuam
influenciando nossa atuação como pastores e as amizades que fizemos
naquele tempo, hoje muitas delas nossos colegas, ainda ocupam um espaço
grande em nosso coração.
Edy Chagas - nasceu em1954, em Bauru. Quando estava com seis anos, seus pais, Abílio e Neid, junto
com o irmão, Abílio Jr. Bilão, mudaram para a Califórnia, EUA, onde ficaram durante 3 anos.
Cursou Propaganda na FAAP, em SP. Trabalhou em Bauru com artes gráficas por 16 anos. Em 1976 e
em 77 participou da 20ª. 23ª. 27ª. equipe de VPC e depois do Grupo Semente.
Já casado com Liliam, foram para a Inglaterra como missionários para ajudar uma igreja.
Permaneceram ali durante 18 meses. Ao voltar, foi ordenado pastor em sua congregação.
Têm dois filhos adotivos que completam sua família. Todos trabalham juntos na igreja e em grupos
caseiros. Edy ensina, Liliam canta, dá aulas de dança, Raquel ajuda com as crianças e Josué toca violão.

Abilio Pinheiro Chagas Junior (Bilão) - Nascido em 1952, em Bauru. Casado desde julho de 1979
com Lilian, é pai de três filhos - Thaís, Gabriel e Maysa
-e avô de Davi e Maria Laura. Formado engenheiro civil desde 1977 pela Fundação Educacional de
Bauru, tem curso médio de Teologia pela Escola Batista de Bauru, com experiência missionária desde
1980 pela Comunicação e Missão Cristã de Bauru. Foi missionário em Portugal de 1995 a 1998. É
presbítero da igreja CMC – Comunidade das Nações.

Se eu fosse contar... por Marcelo Gonçalves

Sempre que sou convidado para falar em uma igreja ou evento aqui nos
Estados Unidos, onde vivo atualmente, eu agradeço publicamente a Igreja
Americana por enviar e sustentar missionários ao redor do mundo. Eu e
minha família conhecemos a Cristo e nossas vidas foram transformadas
através do ministério e testemunho de missionários no Brasil.

No início dos anos 70, eu era um jovem que “amava os Beatles e os Rolling
Stones”. Estava cursando o primeiro ano da faculdade, em São Paulo, quando
Jaime Kemp “acreditou” em mim e me convidou para participar da 4ª. equipe
de Vencedores Por Cristo. Pela primeira vez na minha vida experimentei o
cristianismo atuante e dinâmico levando o evangelho por meio da música em
igrejas, clubes, praças públicas e cadeias. Essa experiência causou um
impacto tão grande na minha vida que ao regressar disse a meu pai: “Quero
cursar uma faculdade teológica e ser pastor”. Então, meu pai me aconselhou:
“Você está cursando Economia e Administração de Negócios e deve primeiro
terminar essa faculdade para depois estudar teologia”.
Como “filho obediente” que eu era, concluí meu curso e iniciei minha
carreira profissional. Logo em seguida me casei com Odila, uma garota que
conheci na 4ª. equipe de VPC, da qual ela também participou.

O meu projeto de estudar teologia e servir ao Senhor ficou encubado por


vários anos. Trabalhei para uma multinacional por mais de dez anos e depois
para uma “muito nacional” por outros dez anos. Quando cheguei aos 40 anos
de idade, comecei a pensar nos alvos que já havia alcançado e o que deveria
fazer com o resto da minha vida.

Mais uma vez, o Jaime “acreditou” no meu potencial quando eu disse a ele
que estava pensando em “virar a mesa”, vender tudo o que era nosso e ir para
os Estados Unidos estudar teologia. Já tínhamos morado na América antes
para participar de um treinamento extensivo e sempre quisemos voltar para
dar aos nossos filhos a oportunidade de estudar fora do nosso país.

Em 1995 fui aceito pelo Dallas Theological Seminary e pela Biola University
e acabamos optando pela segunda faculdade. Depois de terminar meu
mestrado em Educação Cristã, pensei que iria trabalhar como missionário em
Moçambique. Mas Deus, que fecha portas e abre outras, nos dirigiu ao
Exército de Salvação. Odila e eu nos alistamos como soldados voluntários
nessa organização que está presente em 127 países e tem como missão pregar
o evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo e, por amor a Ele, atender às
necessidades de pessoas carentes sem discriminação.

Depois de receber treinamento adicional e ter vivido muitas experiências


enriquecedoras, estamos hoje servindo a comunidade de Redondo Beach, no
sul da Califórnia. Como Capitão do Exército de Salvação, dirigimos
programas que incluem uma igreja multicultural com cultos em inglês e
português, uma residência com apartamentos para idosos e um programa de
alimentação que distribui centenas de refeições na comunidade. É um
privilégio, e ao mesmo tempo uma grande responsabilidade, servir ao Senhor
em qualquer parte do mundo.

Uma velha canção que costumávamos cantar nos anos setenta nas equipes de
Vencedores Por Cristo dizia: “Se eu fosse contar o que me aconteceu, poderia
um detalhe esquecer…”. De fato, é impossível resumir em poucas páginas a
bondade e a fidelidade de Deus em nossa vida. Quando nos lembramos da
nossa experiência em Vencedores Por Cristo, não gosto de pensar que somos
ex-VPC ou ex-membros de VPC. Com certo orgulho – saudável, diga-se de
passagem –, prefiro dizer que faço parte de uma confraria de “mais que
vencedores” que estão espalhados pelo mundo, dando continuidade ao
trabalho missionário de um jovem casal que deixou a Califórnia décadas atrás
e dedicou as suas vidas a Jesus como missionários no nosso querido Brasil.
Sempre seremos mais que vencedores por Deus que nos amou!
Marcelo Gonçalves e sua esposa, Odila, são oficiais (capitães) do Exército de Salvação, servindo na
cidade de Redondo Beach, Califórnia, desde julho de 2009. Antes disso, serviram nas cidades de
Whittier e Anaheim, Califórnia. Ambos se alistaram como voluntários no Exército de Salvação em
1998 em Torrance, Califórnia. No início de sua carreira profissional, Marcelo trabalhou na
multinacional Caterpillar Tractor Co. por mais de dez anos. Depois atuou nas empresas ligadas à
família por outros dez anos, como gerente e diretor-financeiro. Ele é formado em Administração de
Empresas pela FMU, em São Paulo, em Teologia pelo Crestmont College, Califórnia; e obteve
mestrado em Educação Cristã na Biola University, também na Califórnia. Odila é formada em
Pedagogia pela FMU, em São Paulo bacharel em Música (piano) pelo tradicional Conservatório São
Paulo e bacharel em Teologia pelo Crestmont College, na Califórnia. Casados desde 1974, Marcelo e
Odila têm dois filhos que são voluntários no Exército de Salvação. Mauricio obteve seu mestrado em
Linguística pela Universidade da Califórnia, em Fullerto. Ricardo é formado em Biologia pela
Universidade da Califórnia, em Long Beach, e atualmente está complementando sua educação superior.
C a p í t u l o 13
Jesus queria que estivessem com Ele para
sempre
“Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que
me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste porque me
amaste antes da fundação do mundo.” (João 17.24 – ARA)

Você não sente seu coração aquecer ao saber que Jesus quer que você esteja
com Ele eternamente? Seu desejo era tão grande e profundo, que para Ele foi
mais fácil enfrentar a morte na cruz do que a possibilidade da eternidade sem
você e sem mim. Agora, sinceramente, se você não se sente amado(a), não sei
o que é preciso para fazê-lo(a) sentir-se.

Afinal, o propósito de todo o evangelismo, discipulado, ministério na igreja e


trabalho missionário não é a recompensa de ter aqueles que tanto amamos
conosco, eternamente? E é claro, queremos principalmente ver o sorriso no
rosto do nosso Salvador e ouvi-lo dizer: “Muito bem, servo bom e fiel... entra
no gozo do teu senhor” (Mateus 25.23 – ARA).

Jesus disse aos discípulos que seus corações estariam no mesmo lugar onde
estava o seu tesouro. Alguns dos nossos “tesouros” já chegaram ao céu. Anos
atrás, Sergio Pimenta, um militar formado pela Academia de Agulhas Negras,
um cristão dedicado e músico talentoso, escreveu estas palavras:

Lá está o meu tesouro


Lá, onde não há choro
Onde todos cantaremos juntos Hinos de louvor ao Senhor

Algum tempo depois de compor este cântico, Sergio foi promovido ao céu.
Coube à sua linda esposa, Sonia Pimenta, criar os dois filhos ainda muito
pequenos. Sergio foi o primeiro de cinco de nossos compositores que foram
chamados ao céu ainda cedo na vida. Meu marido, Jaime, diz que Deus está
preparando um departamento especial para a música brasileira lá em cima.

Também tivemos de dizer adeus à nossa querida Virginia, depois de ela


voltar do campo missionário muito doente. Não foi fácil para ela deixar seu
marido e seus três filhos adolescentes. Nós sentimos muito a sua falta, mas
sabemos que nossa perda representou ganho lá no céu e que logo estaremos
reunidos. Sabemos que a voz linda que ela possuía agora enriquece o coro
celestial, louvando ao Senhor pelo menos em seis línguas: tupi-guarani,
português, inglês, holandês, alemão e romeno.

Dizer adeus é algo que, eventualmente, todos nós temos que fazer. Mas
aparentemente, parece-me que missionários têm que fazê-lo mais vezes.
Nossa primeira viagem ao Brasil demorou 25 dias. Embarcamos em um
navio no porto de San Pedro, perto de Los Angeles, descemos pela costa do
México, passamos pelo Canal do Panamá, paramos em Curaçao, Venezuela,
Belém do Pará, Rio de Janeiro e, finalmente, no porto de Santos. Nunca
esquecerei a tristeza que senti quando o navio japonês Argentina Maru
começou a se afastar do cais. Minha mãe estava segurando uma ponta de um
rolo de serpentina, e eu a outra. A nossa foi a última a se rasgar. Para mim,
aquilo foi muito significativo, porque eu e o Jaime estávamos quebrando o
elo com as nossas famílias e o nosso país.

Onde ficava exatamente o Brasil no mundo? O fato de demorar tanto para


chegar ao nosso destino fez com que ele parecesse mais remoto. E o pior é
que não conhecíamos nem um brasileiro e não falávamos nenhuma palavra
em português.

Naquela época as ligações telefônicas eram muito raras, de péssima qualidade


e absurdamente caras. Não havia computadores, portanto e-mail e Skype, um
sonho impossível. Uma carta enviada demorava dez dias para chegar à minha
família e mais dez dias para recebermos a resposta.

Aquele dia, naquele navio, ao lado do meu marido, lembro que pensei: “O
que estamos fazendo?”. Tínhamos somente um ao outro e uma promessa do
Senhor: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou
irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pais ou filhos, ou campos por amor de mim e
por amor do evangelho, que não recebe, já no presente, o cêntuplo de casas,
irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir,
a vida eterna” (Marcos 10.29-30).

Jesus sempre fala a verdade e temos desfrutado da sua fidelidade em nossas


vidas. A promessa que Ele nos fez em Marcos 10.29-30 tornou-se realidade.
Tem sido muito prazeroso falar nestas páginas sobre “os filhos” que Deus nos
deu. Desde 1968, mais de 60 equipes de Vencedores Por Cristo foram
treinadas e viajaram evangelizando não somente no Brasil, mas em outros
países da América Latina e Europa.

Jesus disse ao Pai: “Terminei a obra que me deste para fazer” (João 17.4 4 –
NTLH). Como Ele sabia que sua obra tinha terminado? Ele sabia que seu Pai
o estava chamando para voltar ao seu lar. Jaime sempre diz que a
aposentadoria não é um princípio bíblico (lembra-se de Calebe, que com 80
anos de idade pediu ao Senhor: “Dê-me esta montanha...”?). Deus nos tem
dado saúde, força e proteção. Quem sabe, talvez Ele permita que cheguemos
a completar 50 anos de ministério no Brasil.

Porém, eu não me sentiria culpada ou frustrada se amanhã tivéssemos que ir


embora desta terra que amamos tanto. É claro que sentiríamos muita falta dos
nossos amigos brasileiros (não quero nem pensar nesse adeus), mas nos
sentimos confortados por saber que não somos indispensáveis, de jeito
nenhum. Há centenas de pessoas, muito capazes, espalhadas pelo Brasil
exercendo o ministério.

Temos visto o crescimento do Encontro Anual da Sepal, que começou com


oito pessoas e agora já chegou a duas mil. Hoje, a liderança da missão está
nas mãos de brasileiros muito queridos, assim como o ministério Vencedores
Por Cristo (desde 1977). E existem pastores e líderes em todo o Brasil
ensinando os princípios bíblicos sobre a família.

Jesus prometeu que seríamos ricamente recompensados agora e na


eternidade. Já imaginou? Tudo isso e o céu também?!
Vencedores por Cristo hoje por Uassyr Verotti Ferreira

Quando Jaime e Judith Kemp iniciaram um projeto de discipulado em 1968,


que mais tarde veio a se transformar na missão Vencedores Por Cristo, não
tinham ideia do alcance e ramificações que esse ministério teria.

O discipulado foi o ponto de partida. O fato de reunir jovens, dedicar tempo


ao ensino da Palavra, conviver, vivenciar experiências transformou a vida de
muitos e o comportamento da Igreja evangélica brasileira. Foram mais de 550
jovens que passaram pelo treinamento de VPC e grande parte deles está hoje
no ministério pastoral ou de liderança.

O tempo passou, o mundo mudou, assim como as igrejas e os jovens, mas o


que percebemos é que as marcas do discipulado permanecem até hoje. O
discipulado é a condição essencial para um grupo de VPC produzir frutos ou
não. O método a ser seguido não é importante: a utilização de apostilas, um
encontro para jantar juntos durante a semana, uma caminhada em um dia
ensolarado. O fundamental é envolver-se.

Os depoimentos relatados no “Diário da Equipe”, registrados durante as


viagens que os grupos realizavam, revelam histórias interessantes do
comportamento até certo ponto “rebelde” dos jovens de diferentes épocas,
recheados de muita energia e questionamentos. Olhar hoje para esses antigos
jovens, que se tornaram grandes líderes conduzindo grandes igrejas,
demonstra que jamais poderíamos mensurar a relevância e o alcance do
discipulado.

Durante todos esses anos, em todas as atividades que exercemos com os


integrantes de Vencedores Por Cristo, sempre nos preocupamos em deixar
uma marca na vida das pessoas que encontramos pelo nosso caminho,
mostrando tudo o que Deus quer e pode fazer na vida de alguém. Por isso
insistimos com os jovens que o discipulado também envolve coisas simples,
como um estudo específico sobre “Boas Maneiras”, que ensina como devem
se comportar nas casas dos hospedeiros, nas igrejas e no trato com os outros.

No decorrer de todas essas décadas, as equipes de VPC visitaram diversos


Estados e cidades de todo o Brasil e até do exterior, como Portugal, Estados
Unidos, República Dominicana, Itália, sempre focando o envolvimento
pessoal, procurando, através da vida dos jovens participantes e da liderança,
compartilhar um pouco do que se aprendeu.

Falar sobre Vencedores Por Cristo atualmente remete à sua história musical,
pois foi por intermédio dessa ferramenta, a música, que a missão também se
tornou conhecida. Podemos afirmar que o diferencial de tudo foi justamente o
conteúdo das letras, os ritmos brasileiros adotados e o estilo de vida dos
jovens.
Não tenho dúvida de que o discipulado é um ministério eficaz. Creio que
estaremos dando continuidade à missão Vencedores Por Cristo enquanto
conseguirmos desafiar jovens a uma vida de discipulado.
Uassyr Verotti Ferreira é missionário de Vencedores Por Cristo desde 1986. Assumiu a presidência
da missão em 2001. É membro da Igreja Batista Nações Unidas, em São Paulo. Casado com Lucitânia,
que, além de missionária de VPC, desenvolve um trabalho de discipulado em duas igrejas: Igreja
Batista Nações Unidas e Igreja Chinesa Cabo Verde. Eles têm dois filhos: Mariana e Bruno.

Em terras nordestinas por Samuel Tito

A edição dominical da Folha de S. Paulo de 17 de julho de 1994, no seu


caderno “Mais!”, trata da “superinfovia do futuro” e anuncia: “nasce uma
nova forma de comunicação que ligará por computador milhões de pessoas
em escala planetária”. Três anos depois, Vencedores Por Cristo encerrava sua
56ª. Equipe de Treinamento, e percebendo que o jovem não tinha mais tempo
para nada que não fosse embrionariamente virtual, decide atuar apenas com
um grupo fixo.

Há pouco tempo vi um colega pastor angustiado por não conseguir fazer os


jovens de sua igreja entenderem tudo o que Paulo quis dizer, quando desafiou
os cristãos a serem “cartas vivas” (2 Coríntios 3.2-3). É óbvio que não
entendem! Lá se foram quase 20 anos desde aquela edição da Folha, e há
outros tantos amizades são quantificadas e (des)nutridas via redes sociais...
“O que é carta mesmo, pastor?” –, muitos jovens perguntam. Imagine, então,
o que foi para minha família abraçar, em pleno século XXI (2006), o projeto
de retomada das equipes de treinamento. Naquela época já haviam se passado
quase 10 anos desde a formação da última equipe de VPC (a 56ª.).

Mas se você mora nas regiões Nordeste e Norte do Brasil sabe bem o que
aconteceu! Entre dezembro de 2006 e novembro de 2009 foram 167
programas em 22 cidades diferentes (algumas delas várias vezes), 4 equipes
(chegamos à 60ª.!!!), com 3 de transição entre elas (para atender os
intermináveis convites) e 20 jovens treinados. Tudo regado a muita pizza e
sanduíches juntos, gargalhadas e confidências trocadas noites afora. Cinema e
filmes na TV com muito cochilo, rixa santa nos jogos de futebol e outras
vidas sendo desafiadas pelo exemplo extemporâneo (será?) que davam.
Comunhão inapagável da memória, que foi colada pelos números ainda bem
maiores de vezes que a gente sentou para estudar a Palavra e orar com amor
um pelo outro.

Eu, minha esposa Naná e nossas crianças nos despedimos de VPC em


dezembro de 2009, mas só fisicamente. Nada poderá deletar das nossas almas
e das nossas mentes cada aventura vivida com aqueles jovens maravilhosos, o
carinho dos “irmãos mais velhos” participantes das equipes, que inundaram
“Muka” e “Dodó” – nossos filhos! Vez por outra, alguns deles ainda invadem
nossa casa, saem para tocar e cantar com a gente ou simplesmente ligam para
dizer que a saudade dói!!! Fui premiado com a bênção de celebrar o
casamento de quatro deles (até agora! Mas sei que vem mais por aí), só para
confirmar que o avivamento se repetiu! Amamos demais cada um deles!!!

Mas também direcionamos nosso mais sincero amor e agradecimento às


nossas famílias e a cada um que, em maior ou menor intensidade, num
simples estudo bíblico ou na disponibilização de muitos dias de suas vidas,
em uma gravação ou em vários programas, investiu conosco naquela turma
de jovens que nunca mais será a mesma, pois teve o privilégio de viver,
durante alguns meses, o desconhecimento do que eram barreiras
denominacionais, inércia e inatividade religiosa, experimentando
intimamente o conceito mais próximo de reino aqui na Terra: uma equipe de
treinamento de Vencedores Por Cristo!
Samuel Tito nasceu em Pirassununga, SP. Morou também em Sorocaba, mas vive em Recife há muitos
anos. É nordestino de “corpo, alma e coração”. Além de pastor, é administrador de empresas e diretor
de uma administradora de dois shoppings em Recife. Foi professor do Seminário Presbiteriano do
Norte.
Naná, sua esposa, é formada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e coordenadora do Ensino
Médio em uma escola de Recife. Eles casaram em dezembro de 1995 e tëm um casal de filhos: Samuel
(Muka) e Thamar (Dodó). Foram missionários de Vencedores Por Cristo durante quatro anos e
responsáveis pela implantação da base de Vencedores por Cristo no Nordeste, pela retomada das
equipes de treinamento e pela primeira produção de um CD de VPC fora de São Paulo (Pastor Amado -
2007).
Epílogo
por Jaime Kemp

Você já presenciou esta cena: um homem de trinta e cinco anos de idade,


pesando por volta de oitenta quilos, sentado no colo de sua mãe, tomando
uma mamadeira que ela preparou? Ainda bem que eu, particularmente, nunca
vi isso. No entanto, já observei milhares de casos em que isso acontece em
dimensão espiritual. Pessoas que tomaram a decisão de entregar suas vidas a
Cristo há muitos anos, mas que jamais evoluíram em sua experiência com
Ele. Ainda continuam sendo seres necessitados de leite para recém-nascidos e
do colo da mamãe, quando deveriam estar comendo arroz, feijão e carne. O
resultado é a desnutrição espiritual. Que desperdício!

É por esse motivo que a Bíblia diz que devemos deixar de insistir em
continuarmos sendo bebês: “... continuem a crescer na graça e no
conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 3. 18 –
NTLH). Deus tem nos chamado ao amadurecimento espiritual e também para
sermos o meio pelo qual outros “bebês” em Cristo possam abandonar suas
mamadeiras e começarem a desfrutar as delícias do alimento sólido.

O apóstolo Paulo afirmou certa vez: “... meus queridos filhos, eu estou
sofrendo por vocês, como uma mulher que tem dores de parto. E continuarei
sofrendo até que Cristo esteja vivendo em vocês” (Gálatas 4.19 – NTLH).
Você consegue compreender o que Deus quis dizer com as palavras “formar
Cristo em seu caráter”? Você consegue entender que Ele quer usá-lo(a) para
discipular outros até que Cristo seja formado neles?
124 - Antes de tudo, fazei discípulos

Em Romanos 8.28-29 Paulo expõe o mesmo conceito utilizando outro


contexto: “Pois sabemos que todas as coisas trabalham juntas para o bem
daqueles que amam a Deus, daqueles a quem ele chamou de acordo com o
seu plano. Porque aqueles que já tinham sido escolhidos por Deus ele
também separou a fim de se tornarem parecidos com o seu Filho...” (NTLH).
Tudo o que já aconteceu em nossa vida, quer tenha sido bom ou ruim,
coopera para a realização do propósito de Deus, que é tornar-nos semelhantes
à imagem de Cristo, seu Filho. Trata-se de nos lapidar para nos
transformarmos em uma pedra preciosa em suas mãos.

Por que devemos ser discipuladores? Judith já deixou claro nas páginas deste
livro. Em um dos capítulos ela citou as palavras de incentivo de Paulo a seu
filho na fé, Timóteo: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de
muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de
ensinar outros” (2 Timóteo 2.2 – NVI).

O processo do discipulado resume-se em investir a si mesmo em outros. Não


em qualquer um, mas sim em alguém que tenha pelo menos duas
características essenciais: fidelidade e idoneidade. Esta sempre foi a razão da
existência de Vencedores Por Cristo. A música, um complemento. O
discipulado sempre foi o principal!

Em 2 Timóteo 2.3 Paulo lança um desafio para Timóteo e também para nós:
“Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Jesus Cristo”(ARA).
Se você pensa que existe discipulado sem batalha, está muito enganado.
Vencedores Por Cristo, um ministério grandemente abençoado pelo Senhor,
também contabilizou algumas derrotas e viu alguns soldados tombarem
feridos pelo caminho.

Prosseguindo em suas recomendações a Timóteo, Paulo argumentou que um


soldado em serviço “não se envolve em negócios desta vida”. É impossível
ser um soldado comprometido e ainda continuar totalmente envolvido e
encantado com a vida civil. Quando um jovem se alista no serviço militar
eles, cortam tudo, inclusive o cabelo. Durante a luta, um soldado precisa estar
preparado para enfrentar tribulações, inevitáveis quando se pretende explorar
um território.
Epílogo 125

Por último, o soldado tem somente um propósito, que é satisfazer aquele que
o arregimentou. Há somente uma pessoa que eu quero agradar: Jesus Cristo,
meu Salvador e Senhor! A sua coroa e a minha serão as pessoas em quem
investimos uma parte da nossa vida, sangue e suor. Paulo disse: “Pois quem é
a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de
nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?” (1 Tessalonicenses 2.19 –
ARA). São os discípulos!

Deus usou alguém para impactar a sua vida? É claro que sim! Agora é a sua
vez de investir em alguém que um dia será a sua coroa, em quem você se
alegrará.

Finalizando este livro, quero deixar este desafio: “Sim, meus filhinhos,
continuem unidos com Cristo, para que possamos estar cheios de coragem no
dia em que ele vier. Assim não precisaremos ficar com vergonha e nos
esconder dele naquele dia” (1 João 2.28)

Desejo manter a minha cabeça erguida confiantemente diante do Senhor no


dia de sua vinda, para prestar contas do que fiz com tudo o que Ele me deu.

Pense bem em tudo o que você acabou de ler, em cada capítulo deste livro,
todos os testemunhos, todos os ensinamentos, a plena convicção de tantas
pessoas que relataram como vale a pena investir e aprofundar-se no
ministério do discipulado. Espero que no dia em que comparecermos diante
de Cristo estejamos lado a lado para vermos juntos o semblante radiante do
Senhor e ouvirmos de sua boca: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no
pouco, sobre o muito te colocarei entra no gozo do teu senhor” (Mateus 25.21
– ARA).
Jaime Kemp é formado pelo Western Seminary, em Portland, Oregon, EUA e pela Universidade
Biola, na Califórnia, EUA, onde também recebeu o doutorado em “Ministério da Família”. Em 1967
veio com sua esposa, Judith, para o Brasil, enviado para atuar na Sepal e aqui fundou a missão
Vencedores Por Cristo. Em 1977 transferiu a liderança dessa missão a brasileiros. Saindo da Sepal em
1998, fundou a Sociedade Religiosa Lar Cristão. É palestrante, autor de dezenas de livros, articulista de
várias revistas e idealizador da Revista Lar Cristão. É pai de três filhas (Melinda, Márcia e Annie) e avô
de três netos.
Apêndice
Gostaria de explorar algumas perguntas. Quem pastoreia a igreja, para
começar? Quem lidera o programa de ensino e discipulado em sua igreja? É o
Conselho, conduzido pelo pastormestre? Ou cada setor faz o que bem
entende?A partir do estudo da Palavra, sugiro aqui alguns passos para termos
Conselhos bem-sucedidos no pastoreio e no discipulado de seu rebanho e
uma igreja local consciente e integralmente comprometida com o
discipulado:

Em todos os assuntos o Conselho discipulador terá a orientação da


Palavra de Deus.
Moisés começou com a lei antes de dizer aos pais que eles deveriam
discipular os seus filhos (Deuteronômio 6.4). A Palavra de Deus é o
referencial para todo o ensino na igreja. O ensino da lei em Israel enfrentou a
competição de Baal (Jz 10.10) e de astarotes (1 Samuel 7.3); hoje temos um
punhado de ideias e mensagens tentando tomar o lugar das Escrituras. Os
presbíteros devem vigiar e verificar se “lobos vorazes” e homens falando
“coisas pervertidas” estão fazendo mal ao rebanho que Deus colocou sob os
seus cuidados (Atos 20.29). Em oração, os presbíteros não desistirão da
Bíblia.

Os presbíteros serão orientados em seu relacionamento pessoal pela


Palavra de Deus.
Na busca pelo conhecimento na prática da Palavra eles oferecerão à igreja um
modelo do laço de amor pelo Senhor. Não haverá divisões e amargas
discussões entre eles, e a mesma orientação eles se esforçarão para ministrar
aos seus discípulos e para toda a igreja.

Os presbíteros serão orientados por uma visão bíblica de discipulado na


execução de todas as tarefas do seu ofício.
Não são apenas nem primeiramente executivos ou empresários, tampouco
guardiães de tradições ou de bons hábitos, mas discipuladores. Eles poderão
delegar o discipulado de grupos específicos na igreja para líderes de quem
eles mesmos sejam os mentores e a quem tenham treinado para aquele fim —
especialmente em igrejas maiores será impossível, mesmo para um Conselho
discipulador acompanhar pessoalmente todo e cada membro do rebanho –,
mas os presbíteros se recusarão a delegar a responsabilidade última pelo
discipulado e pelo pastoreio da comunidade.

Os presbíteros serão orientados por uma sensibilidade para o


discipulado que eles deverão desenvolver.
Foi essa preocupação com o discipulado que levou o Senhor a dar a Israel sua
lei – Ele queria que seu povo se desenvolvesse e crescesse, que vivesse de
modo a agradá-lo e fosse um testemunho para as nações – e deu instruções
específicas acerca do treinamento das crianças, providenciando também
oportunidades para que elas aprendessem em situações formais e informais e
insistindo com os pais para aproveitar essas situações (Deuteronômio 6.4;
Josué 4.21).

Os presbíteros deverão ser orientados pelos objetivos de Deus para a sua


igreja.
Jesus deseja que os seus discípulos “tenham vida e a tenham em abundância”
(João 10.10). O desenvolvimento pessoal de cada crente será o propósito do
Conselho, e discípulos desenvolvidos viverão de modo que será uma bênção
para a igreja (Efésios 4.16) e testemunho para o mundo (Deuteronômio 4.5-
8). Havendo adotado o mesmo alvo, o apóstolo Paulo declarou que
“anunciamos,
Apêndice 129

advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a


fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Colossenses 1.28
– ARA).

O Conselho da igreja será orientado pela consciência de que é um corpo


dentro do Corpo.
Como um corpo, os presbíteros oferecerão à igreja um modelo de
relacionamentos no Corpo de Cristo. Obviamente, os membros da igreja não
poderão ver esse modelo numa pessoa apenas – por exemplo, um pastor-
bispo ou qualquer CEO carismático que dirige a igreja sozinho –, mas o
verão no Conselho da igreja. Eles verão como os presbíteros honram e dão
preferência uns aos outros, como se apoiam, amam e perdoam uns aos outros.
Quando ensinarem à igreja esses valores, estarão falando daquilo que eles
mesmos já mostraram, como os membros da igreja poderão testemunhar.

Os presbíteros serão dirigidos pela consciência de seus relacionamentos


com as suas famílias.
Os presbíteros saberão que as suas ovelhas os estão observando para aprender
de que modo um marido crente se relaciona com a sua esposa (Efésios 5.25-
27) “com discernimento”, de quem a honra “como parte mais frágil” (1Pedro
3.7), e de quem cria os seus filhos “na disciplina e na admoestação do
Senhor” (Efésios 6.4).
Os presbíteros recusarão envolvimento em tantas atividades, como, por
exemplo, trabalho após o expediente, reuniões da firma e mesmo da igreja
que os impeçam de estar com as suas famílias como eles devem fazer. Mas
não se satisfarão em apenas estar em casa. Junto com suas esposas, eles
pensarão em meios de aproveitar ao máximo o tempo com a família para
discipular os filhos.

Os presbíteros serão também orientados pela consciência de seu


relacionamento com o rebanho.
Eles não se esconderão atrás das bandejas ou da mesa da Ceia do Senhor, não
se esconderão nas reuniões do Conselho, nem em um número absurdo de
programas e reuniões, não se esconderão em seus títulos e posição e
tampouco em qualquer outro esconderijo que possam cavar para si mesmos.
Serão, isto sim, presbíteros com o seu povo, para pastorear e ensinar o
rebanho a ser como Jesus, que chamou os seus discípulos “para estarem com
ele” (Marcos 3.14) e para serem como ele (Mateus 10.25; Lucas 6.40).
O Conselho da igreja não terá sucesso como um Conselho se os presbíteros
não oferecerem ao seu povo oportunidade de vê-los nas situações formais da
igreja, mas também em situações diárias informais. Assim eles farão e assim,
pela palavra e pelo exemplo, ensinarão outros discipuladores da igreja a
fazerem o mesmo.
Bons modelos. Bíblicos e funcionais. A igreja precisa deles para praticar o
discipulado consciente e intencional.
Cláudio Antônio Batista Marra
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