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Direito Civil

Professor: Aurélio Bouret;

Bibliografia indicada:

i. Manual- volume único- Flávio Tartuce – Editora Método;


ii. Manual – Volume único – Pablo Stolze – Editora Saraiva;
iii. Manual de direito civil – Nelson Rosevald e Cristiano Chaves;
iv. Esquematizado do Carlos Roberto Gonçalves;
v. Manual – volume único - Anderson Schreiber;

Obs¹: Estudar TODOS informativos do STJ e do STF de 2012 em diante. Utilizar o site “Dizer O
Direito”.

Obs²: Vade Mecum de Jurisprudência do Dizer O Direito.

Obs³: Fazer simulados (pelo menos 2 antes da prova).

 Início de um Tópico.
o Observação.
 Início de Subtópico.

Aula 01: 17/07/2018

 Direito Civil Constitucional:

Direito Civil Constitucional não tem relação com a afirmação de que o Direito Civil deve
estar de acordo com a Constituição, uma vez que isso trata-se, meramente, de controle de
constitucionalidade.

 Definição:

O Direito Civil Constitucional é um movimento de releitura de todo o ordenamento jurídico


em que a Constituição deixa de ser um mero fundamento de validade das normas
infraconstitucionais e passar a ser um vetor hermenêutico. Trata-se, portanto, de um vetor
axiológico de todo o sistema. Ou seja, é o caminho valorativo. Quando interpretar uma norma
infraconstitucional, deve se buscar o caminho valorativo da Constituição, isto é, buscar os
princípios e valores constitucionais. Ex: Pode ter uma norma que esteja de acordo com a
Constituição, mas na hora de sua aplicação, deve-se realizar uma otimização dos valores
constitucionais.

Obs¹: Interpretar é buscar o real sentido e alcance da norma.

Obs²: Súmula 364 STJ é um exemplo da interpretação do STJ a luz do Direito Civil Constitucional.

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 LEI DE INTRODUÇÃO AO DIREITO BRASILEIRO:

Esta lei trabalha, principalmente, as questões relativas a vigência e vigor das normas.

Vigência: Refere-se à existência da norma. A lei será considerada vigente quando for publicada.

Vigor: É a capacidade da norma de produzir efeitos.

Obs¹: Vigência e Vigor nem sempre se coincidem, pois há, por exemplo, período de vacatio legis,
onde a lei está em vigência, mas não em vigor. Desse modo, consequentemente, não se pode
utilizar uma norma em período de vacatio legis, uma vez que a referida norma ainda não está em
vigor.

Uma norma será vigente até que outra a revogue. Quando o STF declara a norma
inconstitucional, ela não irá perder sua vigência e sim o seu vigor (torna-se norma nula), uma vez
que a norma continua no ordenamento jurídico até a formação de uma nova norma. Dessa forma,
atinge-se o campo da validade da norma

 Repristinação e Efeito Represtinatório das Decisões Judiciais:

I- Repristinação: É a retomada de vigência de uma norma revogada em razão da


revogação da lei revogadora. A repristinação, via de regra, NÃO pode ocorrer no
Brasil, salvo se a lei expressamente a permite, conforme Art.2°§3 da LINDB.

Ex: a lei A está em vigor até surgir a lei B que revoga a lei A. Desse modo, a lei perde
sua vigência e foi revogado. Posteriormente, a lei C revogou lei B. Se a lei C revogar
a lei B e fizer com que A retome a sua vigência, tem-se a repristinação.

II- Efeito Represtinatório Das Decisões Judiciais: Ocorre quando uma lei revogada
retoma a sua vigência em razão da declaração de inconstitucionalidade da lei
revogadora em controle de constitucionalidade em sede abstrato. Desse modo,
pode-se afirmar que decorre de ato judicial. Por fim, trata-se de um efeito
automático, para não ocorrer tem que ser ressalvado na decisão.

EX: Existe a Lei A que foi substituída por uma lei B, ocorre que a constitucionalidade
da lei B foi questionada em sede abstrata no STF, sendo considerada inconstitucional.
Desse modo, a lei B é considerada nula e a lei A retoma sua vigência.

 IRRETROATIVADE DAS NORMAS: Art. 6 da LINDB c/c art. 5, XXXVI, CF) – É o chamado
Princípio da Irretroatividade da lei nova. Via de regra, para o direito Civil, a lei não
retroage, contudo, há exceções.

Graus de Irretroatividade: Existem 3 graus: Grau máximo, Grau médio e Grau mínimo.
Ressalta-se que em todos esses graus a retroatividade é vedada.

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A) Retroatividade em Grau máximo: É aquela que ocorre quando a lei nova é aplicada em
situação jurídicas já consolidadas e consumadas, estabilizadas no passado. Não respeitando,
portanto, situações definitivamente estabilizadas, seja pelo direito adquirido, coisa julgada,
ou ato jurídico perfeito.

B) Retroatividade em Grau Médio: É aquela que ocorre quando a lei nova é aplicada as relações
jurídicas constituídas no passado sob a égide da lei anterior, contudo, a lei nova atingiria
apenas seus efeitos pendentes (aquele que se iniciou na vigência da lei anterior, mas continua
na lei nova). Mesmo assim, trata-se de uma retroatividade (em grau médio) e é vedada.

C) Retroatividade em Grau Mínimo: É aquela que ocorre quando a lei nova é aplicada as relações
jurídicas constituída no passado, mas atingindo apenas seus efeitos futuros (aquela que surge
já na vigência da lei nova, mas tem causa numa situação pretérita, anterior a essa lei).

 Exceções a Irretroatividade:

Quando estiver diante de outros direitos em jogo, não somente a segurança jurídica,
pode ser feita uma ponderação, no caso concreto, entre esses direitos em conflito e acabar por
permitir a irretroatividade. Realizando essa ponderação, poderá ser permitida a retroatividade
em grau mínimo.

Ex¹.: Plano de saúde, não existe ato jurídico perfeito em regime jurídicos (ex. Separação
antes e depois de 1977):

Ex².: Condomínios: antes da entrada em vigor do CC, a lei 4591/64 que regulava
inadimplemento de cotas condominiais. De acordo com artigo 20 da referida lei, permitia multa
de 20% em caso de atraso. Com o advento do Código Civil, estabeleceu-se no artigo 1336 que o
valor máximo de multa seria de 2%. VER SLIDE PARA OS EXEMPLOS DO PROFESSOR. O presente
caso é um EXCEÇÃO, conforme artigo 2035 do Código Civil. Ressalta- se que para parte da doutrina,
por permitir uma retroatividade em grau mínimo, indo na contramão do que é previsto na
Constituição Federal, o artigo 2035 do Código Civil seria inconstitucional.

OBS¹: O Código Civil entrou em vigor no dia 11 de janeiro de 2003!

 PESSOA NATURAL:

 Personalidade Jurídica da Pessoa Natural e da Pessoa Jurídica:

 Conceito:

Aptidão para contrair direitos e obrigações. Ou seja, é o atributo para ser sujeito de
direito.

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Adquirida a personalidade, o ente passa a atuar, na qualidade de sujeito de direito
(Pessoa Natural ou Pessoa Jurídica), praticando atos e negócios jurídicos dos mais diferentes
matizes.

Obs²: Pessoa não é sinônimo de ser humano. É um conceito jurídico de direito privado. A pessoa
natural terá aptidão para contrair direitos e obrigações.

Obs³: Criança de 3 anos pode comprar apartamento de 1 milhão de reais, isto é, figurar como
compradora na escritura de compra e venda? Sim, a resposta é sim, uma vez que é pessoa natural
e possui personalidade jurídica, isto é, aptidão para contrair direitos e obrigações. O que não
poderá fazer é comprar por si só, precisará estar representada por seus pais, mas possui
personalidade jurídica para titularizar relações jurídicas ela tem.

Pessoa Natural

Legitimação: Aptidão
Personalidade Jurídica para a prática de
Capacidade Jurídica
(Conceito Clássico): Aptidão determinados atos
genérica para contrair jurídicos que exigem a
direitos e obrigações ausência de uma
limitação circunstancial.

Entes despersonalizados:
Capacidade de Capacidade de Fato: Não são nem pessoa
Direito/gozo- Adquirida Possibilidade de exercer por natural, nem pessoa
com o nascimento si só os atos da vida civil jurídica. Não possuem
personalidade jurídica.

Obs²: Existem entes desprovidos de personalidade jurídica, mas serão considerados


sujeitos de direitos naquilo que a lei permitir. Os entes despersonalizados têm como exemplo o
condomínio, massa falida, espólio.

Obs³: Mp, TJ e Defensoria Não tem personalidade jurídica. São órgãos, quem possui
personalidade é o Estado. Isso não impede que contraiam determinados contratos, são entes
despersonalizados, mas a lei os autoriza.

 Capacidade Jurídica: é a medida da personalidade jurídica. É a maior ou menor


extensão de direitos dessa personalidade.

A) Capacidade de Direito/gozo: É a maior extensão da personalidade jurídica;


todo ser humano, inerente e a sua condição, possui capacidade de direito.
Coincide com a personalidade jurídica.

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B) Capacidade de Fato: Possibilidade de exercer por si só os atos da vida civil,
presentes no artigo 3 e 4 do Código Civil.

Obs.: Um absolutamente incapaz, por exemplo, pode realizar um negócio jurídico,


desde que representado, pois não possui capacidade de fato (art.3° c/c 1661, CC). Se realizar sem
estar assistido o negócio será nulo (art.3 c/c 166 CC).

Se um relativamente incapaz celebra um negócio jurídico sem estar assistido, este é


anulável (art.4°c/c 1711, CC).

 Legitimação: é uma aptidão específica para a prática de determinados atos que


exigem a ausência de uma limitação circunstancial (Ex.: art.1521) ou exigem
uma autorização especial. Resumindo, capacidade específica para realizar
certos atos.

 Início da Personalidade Jurídica da Pessoal Natural:

I- Teoria Natalista: Se inicia com o nascimento com vida – Nascituro não seria pessoa,
mas apenas parte da mãe, merecendo proteção apena quanto às suas expectativas
de direito. (Art.2° CC). No Brasil, inicia-se a vida com a primeira respiração, ainda que
venha a falecer logo após. Consequente, para essa teoria, o bebê na barriga da mãe
não é pessoa e sim parte do corpo materno. Visão Majoritária na Justiça Brasileira.

Exemplo: Seguindo essa doutrina, se o recém-nascido – cujo pai já tenha morrido-


falece minutos após o parto, terá adquirido, por exemplo, todos os direitos
sucessórios do seu genitor, transferindo-os para a sua mãe. Nesse caso, a avó paterna
da referida criança nada poderá reclamar.

II- Teoria Concepcionista: O início da personalidade da pessoa jurídica ocorre desde a


sua concepção. Dessa forma, o nascituro já tem personalidade jurídica. A concepção
ocorre com a chamada da nidação do embrião no útero materno. (Fundamento
encontra-se na parte final do art.2° do CC).Ex: Nascituro pode sofrer dano moral?
Para essa teoria, sim, o nascituro pode sofrer dano moral. – Visão majoritária da
Doutrina, incluindo STJ.

III- Teoria da Personalidade Condicional: A personalidade jurídica do nascituro ocorre


desde a concepção, contudo, estaria condicionada ao nascimento com vida,
condição essa de natureza suspensiva.

Obs¹.: Para todos as teorias, o embrião não possui personalidade jurídica, contudo, possuem
alguma proteção judicial.

Obs²: O fato é que, nos termos da legislação em vigor, inclusive do Código Civil, o nascituro,
embora não seja expressamente considerado pessoa, tem a proteção legal dos seus direitos
desde a concepção.

Obs³.: Enunciado 1 CJF: Art2°: A proteção que o Código defere ao nascituro alcança o natimorto
no que concerne aos direitos da personalidade, tais como nome, imagem e sepultura.

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Obs.: O nascituro pode receber doação, sem prejuízo do recolhimento do imposto de transmissão
Inter- vivos. Bem como pode ser beneficiado por legado e herança.

 Fim da Personalidade Jurídica da Pessoa Natural:

Termina a existência da pessoa natural com a morte (art.6 do CC/2002);

 A morte pode ser: Morte real e Morte presumida.

I- Morte real: É a morte encefálica. (art.3° L.9434/97);

II- Morte Presumida: É aquela em que não o cadáver para constatar a morte do
indivíduo. É dividido em morte com declaração de ausência e morte sem declaração
de ausência.

a) Com declaração de ausência (art.6° c/c art.22- 39 do CC): Não há certeza da morte nem
certeza da vida, há uma situação de ausência. Não se pode pedir para que seja declarada a morte
do indivíduo logo de maneira inicial e sim a declaração de ausência.

O Código Civil, em seu artigo 6°, reconhece a ausência como uma morte presumida a partir
do momento em que a lei autorizar a abertura de sucessão definitiva.

Ler os referidos artigos que detalha o que deverá ser feito!

Obs¹.: art38 CC: Quando o ausente contar com mais de 80 anos, no momento do pedido, e estiver
desaparecido com mais de 5 anos, já pode ser pedido a sucessão definitiva direto.

b) Sem declaração de ausência (art.7° inc. I e II do CC): O indivíduo desapareceu em uma


ocasião de alta probabilidade de morte. Tão logo cessado as buscas, a família vai entrar
com ação com justificação de óbito (lei 6015/73, art.88). Nessa sentença o juiz irá
declarar a morte presumida e fixará o dia da morte. A sentença, portanto, terá efeitos
retroativos. Desse modo, a família não precisa esperar prazo algum, tão logo que o fato
ocorreu a família já pode requerer a morte presumida. Há probabilidade de morte?
Alguém tem que ter visto o indivíduo na situação de perigo. Se sim, sem declaração de
ausência.

OBS¹: Se por um acaso um indivíduo que foi declarado morto presumido sem declaração
de ausência reaparece, utiliza-se o artigo 39 do Código Civil. DEVE CAIR.

Ex.: Indivíduo desapareceu no mar, foi para guerra, feito prisioneiro e não tem mais vestígio
depois de 2 anos. Acidente aéreos. Desaparecidos políticos.

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Aula 2: 24/07/18

 INCAPACIDADE:

Há um sistema de incapacidades, desde o Direito Romano. Determinados indivíduos, por


alguma questão pessoal, não estão em condições de travar negócios na ordem civil com
segurança, podendo ser prejudicados, seja pela tenra idade, seja por algum problema relativo a
embriaguez, vício em tóxicos, ou alguma outra causa que não lhe possibilite exprimir sua vontade.

A ideia do ordenamento jurídico não é de estigmatizar ao taxar de incapaz, mas sim de


proteger. O rol de incapacidade do Código Civil, portanto, é uma expressão do princípio da
isonomia constitucional (tratar os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual, na
medida de sua desigualdade).

O rol de incapazes no Direito Civil encontra-se em dois artigos. Pode se falar em


incapacidade absoluta (art. 3º, CC) e incapacidade relativa (art. 4º, CC). Esse rol de incapazes foi
profundamente alterado pelo Estatuto da pessoa com deficiência (Lei 13.146/2015, que entrou
em vigor em 2016). Essa lei não apenas veio para alterar o CC, mas é um estatuto em si, traz
normas próprias.

 FORMAS DE INCAPACIDADE:

A) Incapacidade Absoluta: Hoje, os absolutamente incapazes do art. 3º, CC são apenas os


menores de 16 anos. Logo, o critério aqui é etário.

B) Incapacidade Relativa: Os relativamente incapazes são aqueles entre 16 e 18 anos, os


viciados em tóxicos e os ébrios habituais (aquele tomado pelo vício do alcoolismo; não é
o ébrio eventual, mas sim o alcoólatra), assim como aquele que, por causa transitória ou
permanente, não pode exprimir sua vontade, e o pródigo (aquele que dilapida seu
patrimônio desenfreadamente, sem resguardar o mínimo para sua subsistência).

Obs¹: O pródigo pode ser sujeito a uma curatela, já que relativamente incapaz, necessitando de
um curador para assisti-lo nos atos da vida civil, mas não fica limitado a todos os atos da vida civil
(art. 4º, IV c/c art. 1782, CC). O pródigo não pode praticar atos de cunho patrimonial sem a
assistência de seu curador. Mas o pródigo pode praticar atos de mera administração sozinho,
bem como casar (visto que ato existencial), mas não poderá realizar pacto antenupcial, pois de
cunho patrimonial. O pródigo pode celebrar testamento, pois a incapacidade relativa declarada
do pródigo serve para protegê-lo dele mesmo (atos que podem afetar sua própria subsistência),
e não proteger sua herança.

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Os deficientes, tanto físicos quanto mentais, a princípio, são plenamente capazes, de
acordo com o art. 6º da Lei 13.146/2015. Os deficientes podem, inclusive, serem tutores ou
curadores, pois a ideia é de que a deficiência não retira a capacidade de ninguém; o que irá fazer
um deficiente perder sua capacidade não é a deficiência em si, mas as mesmas condições que
retirariam a capacidade absoluta de pessoa não deficiente.

Por exemplo, se o deficiente tem menos de 16 anos, será absolutamente incapaz; não
por causa da deficiência, mas pela idade.

O art. 198, I, CC diz que não corre a prescrição contra os absolutamente incapazes do art.
3º, CC. Logo, não corre prescrição contra os menores de 16 anos; para quem tem 17, por
exemplo, a prescrição corre. Antes do Estatuto, no art. 3º, CC figuravam outros absolutamente
incapazes; contudo, hoje, estes são apenas os menores de 16 anos. Logo, a prescrição corre
contra pessoas em coma, por exemplo (pessoas que não podem exprimir sua vontade), bem
como contra deficientes incapazes.

Por isso, na 8ª Jornada de Direito Civil, o CJF propôs uma alteração legislativa no art. 198,
I, CC para que fossem acrescentados no rol deste artigo aqueles que, por causa transitória ou
permanente, não podem exprimir sua vontade. Hoje, a prescrição corre contra esse tipo de
incapaz, mas já há uma proposta de alteração legislativa para que isso não ocorra.

Nesse âmbito, Caio Mário invoca o princípio do contra non valentem para argumentar
que não deve correr a prescrição contra pessoas que não possam agir para se valer de seus
direitos. Assim, Caio Mário defendia causas supralegais de suspensão da prescrição,
argumentando que o rol de causas de suspensão da prescrição não é taxativo, mas
exemplificativo.

 EMANCIPAÇÃO:

 Definição:

Emancipação é a antecipação da capacidade civil plena, pois o menor entre 16 e 18 anos


é relativamente incapaz; não possui capacidade de fato, a não ser que seja emancipado, podendo
agir por si só nos atos da vida civil. Emancipação não é antecipação da maioridade; a maioridade
continua sendo a partir dos 18 anos (o menor emancipado não pode dirigir e nem passa a ser
obrigado a votar, bem como não responde pelo CP, mas pelo ECA, pois não comete crime, mas
fato análogo a crime, por exemplo). A capacidade do menor emancipado passa a ser plena apenas
na órbita civil.

Obs¹.: A emancipação não afasta o poder familiar dos pais.

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 Espécies de Emancipação: a voluntária, a judicial e a legal;

a) Emancipação voluntária (art. 5º. § único, I, primeira parte, CC): decorre da vontade de
ambos os pais. Se dá por escritura pública em cartório extrajudicial (não pode ser por
escrito particular), não demandando homologação judicial. Pode ocorrer também
quando há uma divergência entre os pais, por recusa injustificada de um deles, podendo
o juiz suprir essa vontade injustificada; é voluntária, pois o juiz substitui a vontade de um
dos genitores.

b) Emancipação judicial (art. 5º, § único, I, segunda parte, CC): decorre de sentença, em
situações em que o menor se encontra sob regime de tutela (art. 1112, CPC).

c) A emancipação legal (art. 5º, § único, II, III, IV e V, CC) pode se dar em 4 hipóteses.

C.1) A primeira é aquela que se dá pelo casamento (não pode decorrer de união estável,
pois esta não é equiparada ao casamento; a CRFB apenas reconheceu que a união estável
é entidade familiar, mas não a confundiu com o casamento).

C.2) Os incisos III e IV são considerados anacrônicos (não dizem respeito à realidade
atual).

C.3) O inciso V trata daquele que possui renda suficiente para sua subsistência, por meio
de seu trabalho.

Obs.: Se uma pessoa de 16 anos casa e se emancipa, e se divorcia aos 17, sua emancipação
permanece. O mesmo ocorre no caso de casamento anulável. Contudo, em situação de
casamento nulo, em regra, o emancipado volta à condição de incapaz, pois o ato nulo produz
efeitos ex tunc (nunca poderia ter produzido efeitos, inclusive o da emancipação). Contudo, não
é o que ocorre no casamento putativo, onde, apesar de nulo, o nubente desconhece a situação
de nulidade. Neste caso, o casamento produz efeitos para o cônjuge de boa-fé.

Casamento - art.5°, § único, II do


CC

Emancipação Voluntária:
Poder Familiar
Emancipação pelo exercício
do cargo público - art. 5° III
do CC
Emancipação - art.5° CC:
Emancipação Legal: Opi
Antecipação da aquisição da
Legis
capacidade de fato
Colação de grau em curso de
ensino superior - art.5° IV do
CC
Emancipação Judicial:
Sentença (Regime de Tutela)
- art.1112, I do CPC
Relação de emprego ou em
virtude de estabelecimento
civil ou comercial - art. 5°, V
do CC

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 Direitos da Personalidade

 Conceito:

Direitos da personalidade são aqueles direitos que visam tutelar os aspectos físicos,
psíquicos e morais dos seres humanos. Em última análise, os direitos da personalidade visam
tutelar a própria dignidade humana. Podem ser citados aqui o direito à vida, à saúde, à
integridade física (não só do vivo, mas do cadáver também, bem como das partes destacáveis do
corpo, como os fios de cabelo, sangue, órgãos, sangue, sêmen, etc.), à honra (subjetiva, que diz
respeito ao sentimento pessoal de apreço, que pode ser abalado pela injúria, por exemplo; e
objetiva, que é a boa fama que o indivíduo tem na coletividade), à imagem, à privacidade e à
intimidade (privacidade está ligado ao que não está ao acesso público; ex.: com que a pessoa
reside; enquanto que a intimidade está em um âmbito ainda mais restrito, sendo ligado a
questões íntimas, como orientação sexual, por exemplo).

Obs¹: Existe um rol de direitos da personalidade no Código Civil, nos artigos 11 a 21. A
doutrina é unânime em dizer que este rol não é exaustivo, mas exemplificativo; existem
outros direitos da personalidade presentes no CC e no próprio ordenamento jurídico
(como o direito de pedir reconhecimento de paternidade, que está no Direito de Família,
por exemplo).

Os direitos da personalidade possuem características comuns, para que possam ser


identificados.

 Características dos Direitos da Personalidade:

1- São direitos absolutos, no sentido de que podem ser oponíveis erga omnes (contra todos).
Diz-se que são absolutos no sentido de sua classificação subjetiva (não há um sujeito
passivo determinado; todos devem respeitar o direito à honra de outrem, por exemplo),
mas podem ser ponderados/relativizados no caso concreto.

2- São também inatos e vitalícios, ou seja, os direitos da personalidade nascem com a pessoa
e a acompanham durante toda a vida, até a morte (não vão sendo adquiridos e nem
podem ser perdidos; a pessoa já nasce detentora desses direitos e não os perde ao longo
da vida).

3- São intransmissíveis; não podem ser transferidos a outrem, nem por ato inter vivos
(contrato), nem causa mortis. Por exemplo, num contrato de cessão de direito de
imagem, não se está transferindo o direito em si, mas se está a ceder seu exercício.

4- São indisponíveis, ou irrenunciáveis. Ou seja, não se pode renunciar a estes direitos.


Contudo, vale ressaltar que a parte final do art. 11, CC, deve ser interpretada de forma
restritiva, pois é possível que se limite voluntariamente o exercício dos direitos da
personalidade, desde que não seja permanente, genérica (não pode limitar totalmente
um direito da personalidade) e não agrida a dignidade e os bons costumes (Enunciados
4 e 139, CJF).

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5- São extrapatrimoniais, ou seja, não são suscetíveis de avaliação pecuniária; não podem
ser avaliados economicamente. Contudo, quando um direito da personalidade é violado,
nasce um direito patrimonial: o direito de pleitear uma compensação por danos morais.
Logo, tecnicamente falando, não se deve utilizar a expressão indenização por danos
morais, pois indenizar é restaurar (retomar o status quo); é preferível que se use o termo
compensação. Dano moral é lesão a direitos da personalidade; dano moral não é vexame,
humilhação, abalo psicológico, “dor na alma”. Isso são sintomas que podem aparecer ou
não quando se sofre um dano moral, mas tecnicamente, dano moral é lesão a direitos da
personalidade (ex.: o uso indevido de imagem, com desvio de finalidade e com
exploração econômica, já configura dano moral, ainda que não represente vexame algum
à pessoa). No direito português, por exemplo, dano moral é denominado dano imaterial.

6- São imprescritíveis, ou seja, não há prazo para se exercer um direito da personalidade.


Mas, uma vez violado um direito da personalidade, há um prazo para se pleitear a
compensação patrimonial. No Direito Civil, o prazo prescricional é de 3 anos (art. 206,
§3º, V, CC). Numa relação consumerista, o prazo é outro, por exemplo. Um vício é um
defeito do produto. Um fato é quando ocorre um acidente de consumo. Para reclamar
um vício do produto ou serviço, o prazo para reclamar com o fornecedor é de 90 dias, se
o produto é durável; para se reclamar um fato do produto, o prazo é de 5 anos (art. 27,
CDC). O que importa, por ora, é compreender que os direitos da personalidade são
imprescritíveis.

 Direitos da Personalidade em Espécie:

 DIREITO DE IMAGEM:

A imagem reflete a identificação do sujeito na sociedade; não é apenas o que se vê.

Pode ser dividido em 3 aspectos:

1. Imagem retrato: é a identificação do indivíduo através de seus aspectos fisionômicos; é


captada através de fotografia, pintura, vídeos.

2. Imagem atributo: é uma forma de identificar o indivíduo na sociedade, através de seus


atributos de personalidade, sejam positivos ou negativos. Não se confunde com honra
objetiva (boa fama). A imagem atributo deve ser respeitada, no sentido de que não deve
ser tratado de forma diversa da que a sociedade a identifica.

3. Imagem voz: é referente aos atributos sonoros de uma pessoa. Não se pode utilizar
atributos sonoros de alguém, sem autorização. Contudo, a imitação é possível, como
forma de expressão artística. Mas não se pode fazer uma imitação do Silvio Santos em
um comercial, por exemplo.

Obs¹.: Sobre as questões das biografias, o STF entendeu que não é necessária a autorização da
pessoa retratada para se escrever uma biografia, no caso de figuras notórias. Mas, obviamente,
caso haja uma violação a um direito da personalidade, a circulação deste livro pode ser proibida.

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Obs².: As pessoas públicas e notórias, segundo doutrina mais moderna, gozam da mesma
proteção dos direitos da personalidade que qualquer pessoa. Contudo, em alguns casos, haverá
uma ponderação entre os interesses dessas pessoas e os interesses da coletividade.

O direito de imagem funciona como um bom balizador do direito de sátira. A melhor


forma de se analisar se a sátira violou o direito de imagem é analisando se foi extrapolada a
imagem atributo do retratado. Se essa imagem atributo foi extrapolada, pode ser constatada a
violação a um direito da personalidade.

Obs.: Pessoa jurídica de Direito público pode sofrer dano moral? STF entendeu que
pessoa jurídica de direito público não sofre dano moral e não pode pleitear de particulares tais
direitos. O STF entende que os direitos fundamentais de 1° geração nasceu para proteção dos
indivíduos em face do Estado e os direitos da personalidade seriam direitos fundamentais de 1°
geração. Dessa maneira, não faria sentido proteger a pessoa jurídica de direito publico em face
do cidadão. Estaríamos, portanto, subvertendo a lógica. Então, nesse sentindo, pessoa jurídica de
direito público não pode sofrer dano moral.

Cabe ressaltar que a população de determinado município pode sofrer dano moral, mas
aqui seria dano moral coletivo e não em face do Estado.

Aula 03 – 31/07/2018

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 PESSOA JURÍDICA

 Conceito:

Pode ser definida como ente que deriva da reunião de outras pessoas (Pessoas físicas ou
Pessoas jurídicas) para atingir determinada finalidade lícita. A pessoa jurídica também pode
derivar da afetação de um patrimônio para atender determinada finalidade lícita.

 Surgimento:

O surgimento da pessoa jurídica de direito privado ocorrerá por meio do registro,


conforme presente no artigo 45 do CC.

E, pode-se concluir, portanto, que o registro da pessoa jurídica tem natureza constitutiva,
por ser atributivo de sua personalidade, diferentemente do registro civil de nascimento da pessoa
natural, eminentemente declaratório da condição de pessoa, já adquirida no instante do
nascimento com vida.

 Espécies de Pessoas Jurídicas:

A- Pessoas Jurídicas de Direito Público (art.40-42 CC): São subdividas em Pessoas de


Direito Público Interno e Pessoas Jurídicas de Direito Externo;

A.1 - Pessoas de Direito Público Interno: São os entes da federação, suas autarquias e fundações.

A.2- Pessoas de Direito Público Externo: são os outros países soberanos, os organismos
internacionais e a Santa Sé.

B- Pessoas Jurídicas de Direito Privado (art. 44 CC): Associações, Sociedades,


Fundações, Partidos Políticos, Organizações religiosas e EIRELI.

 Associação:

Conforme presente no artigo 53 do CC, Associação deriva da reunião de pessoas para


atingir uma finalidade não lucrativa/ econômica. A associação pode gerar renda, desde que
reinvista na própria associação/atividade, não há repartição dos lucros entre os associados.
Diferente da sociedade que o objetivo é lucrativo/ econômico, havendo a repartição dos lucros
entre os sócios.

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A associação deriva de um direito fundamental previsto no art.5°, XVII e XX que trazem a
ideia de liberdade associativa. Ou seja, há uma liberdade para se associar sem necessitar de
autorização estatal, desde que não tenha atividade ilícitas ou paramilitares. Cabe ressaltar que
essa liberdade associativa traz um direito de manutenção da associação, desde que não ocorra
abusos. Quanto ao indivíduo, todos detém o direito de associação e de desassociar. Isso não
significa que não possam haver regras em seus estatutos, pode se descriminar se haver
pertinência temática da associação. Ex.: Associação de judeu.

Quando não há razão para discriminar, isto é, quando não há requisitos específicos no
estatuto para entrar em determinada associação, não se pode haver discriminação entre os
indivíduos.

É possível a exclusão do associado desde que atendam os requisitos do artigo 57 do


Código Civil.

Obs¹: cumpre ressaltar que mesmo tendo direito ao devido processo legal na expulsão n
uma relação privada (é a chamada horizontalidade dos direitos fundamentais), a validade dela
ainda pode ser questionada no Judiciário, com base na Inafastabilidade do acesso da justiça.1

 Sociedade:

A sociedade deriva da reunião de pessoas ,instituída por meio de um contrato social, cuja
finalidade é exercer atividade econômica e partilhar lucros.

O ato constitutivo da sociedade é o contrato ser devidamente registrado.

Tema é estudado na matéria de Direito Empresarial.

 Fundações:

É uma pessoa jurídica que derivam da afetação, por testamento ou escritura pública, de
um patrimônio para determinada finalidade. Há um patrimônio afetado para criar uma fundação.
Cabe ressaltar que fundação é pessoa jurídica própria, tendo seu estatuto, não havendo dono.
Assim como a associação, ela pode ter lucro, desde que reinvista na sua própria fundação.

Como toda pessoa jurídica de direito privado, o ciclo constitutivo da fundação só se


aperfeiçoa com a inscrição dos seus atos constitutivos no Cartório de Registro Civil das Pessoas
Jurídicas.

As finalidades que a fundação pode ter estão no artigo 62, §único. Cumpre ressaltar que
não se trata de um rol não taxativo.

1
Eficácia diagonal dos direitos fundamentais: aplica-se os direitos fundamentais nas relações
privadas/particulares, contudo que não estão em pé de igualdade. Ou seja, materialmente estão em
posição distintas nessa relação. Busca-se uma maior influência dos direitos fundamentais nessas
relações buscando proteger o particular que se encontra em situação de desequilíbrio.

14
A fiscalização das fundações é exercida pelo Ministério Público do Estado em que tiver
situada a fundação, conforme art.66. Se estiver situada em mais de um Estado, o Ministério
Público de cada um desses Estados irá fiscalizar a fundação, dentro dos respectivos Estados. Se
tiver situada no Distrito Federal, cabe ao Ministério Público do Distrito Federal fiscalizar.

EXEMPLO:

João afetou parte do seu patrimônio para investir na pesquisa da saúde com a finalidade
de erradicar o vírus da dengue no Brasil e tornou-se uma fundação gigantesca e ao mesmo tempo
em que ela foi crescendo, João foi ficando pobre e morre, deixando dois filhos na miséria.
Posteriormente, houve a erradicação do vírus da dengue, tendo a fundação perdido seu objeto.
Sendo assim, os filhos de João entraram com ação pedindo a extinção da fundação com base na
perda do seu objeto. Tem fundamento?

Não, não há fundamento, uma vez que eles são herdeiros do fundador e não da pessoa
jurídica. No caso da extinção da fundação, deve seguir o que está presente no estatuto da
fundação. Em caso de omissão do estatuto acerca do tema, usar o artigo 69 do Código Civil.

Importante destacar que a extinção da fundação privada também faz cessar a


personalidade jurídica, devendo ser liquidado o passivo com o ativo existente, após o que o
resultado patrimonial positivo é que será destinada à fundação com fim igual ou semelhante.

Por fim, conforme artigo 765 do CPC, estão as possibilidades e os sujeitos que podem
requerer a extinção da fundação.

 Organização religiosa:

Na verdade, é uma forma/espécie de associação. Juridicamente, podem ser consideradas


organizações religiosas todas as entidades de direito privado, formadas pela união de indivíduos
com o propósito de culto a determinada força ou forças sobrenaturais.

Nesse conceito enquadram-se, portanto, desde igrejas e seitas até comunidades leigas,
como confrarias ou irmandades.

Cumpre ressaltar que conforme enunciado 143, da III jornada de direito civil, a liberdade
de funcionamento das organizações religiosas não afasta o controle de legalidade e legitimidade
constitucional de ser registro, nem a possibilidade de reexame pelo Judiciário da compatibilidade
de seus atos com a lei e com seus estatutos.

 Partidos Políticos:

Igual a organização religiosa, trata-se de uma espécie de associação. Os partidos políticos são
entidades integradas por pessoas com ideias comuns, tendo por finalidade conquistar o poder
para a consecução de um programa. São associações civis, que visam assegurar, no interesse do
regime democrático e defender os direitos fundamentais definidos na Constituição Federal.

Cumpre ressaltar que adquirem personalidade jurídica com o registro de seus estatutos
mediante requerimento ao cartório competente do Registro Civil das pessoas jurídicas da capital
federal e ao Tribunal Superior Eleitoral.

15
 EIRELI:

Empresário individual que afeta parte do seu patrimônio para criar uma pessoa jurídica.

Tema estudado em Direito Empresarial.

 Extinção da Pessoa Jurídica:

Dissolução da
Pessoa Jurídica

Convencional Administrativa Judicial

I- Convencional: É aquela deliberada entre os próprios integrantes da pessoa jurídica,


respeitado o estatuto ou contrato social;
II- Administrativa: Resulta da cassação da autorização de funcionamento, exigida para
determinadas sociedades se constituírem e funcionarem.
III- Judicial: Nesse caso, observada uma das hipóteses de dissolução previstas em lei ou
no estatuto, o juiz, por iniciativa de qualquer dos sócios, poderá, por sentença,
determinar a sua extinção.

 BENS JURÍDICOS:

 Conceito:

É a utilidade, física ou imaterial, objeto de uma relação jurídica, seja pessoal ou real.

Bem jurídico material é aquele sentido/ perceptível através dos sentidos, aquele que
pode ser tocado.

Bem jurídico imaterial é aquele que não é perceptível através dos sentidos, mas que pode
ser objeto de relações jurídicas.

 Bem jurídico X Coisa:

16
Prevalece o entendimento que bem jurídico é um gênero enquanto que coisa seria uma
espécie de bem jurídico material de conteúdo patrimonial.2 3

Obs¹: Animal é coisa, logo, atirar em um animal doméstico, por exemplo, seria crime de
dano.

 Bem jurídico X Patrimônio:

Patrimônio é todo complexo de relações jurídicas economicamente apreciáveis de


determinada pessoas.

 TEORIA DO PATRIMÔNIO MÍNIMO:

Trazida para o Brasil pelo Ministro Fachin, consagra a ideia que dentro do patrimônio de
uma pessoa, existe um núcleo mínimo/essencial, isto é, bens que devem ser protegidos para
garantir a própria dignidade humana. Exemplo: Proteção ao bem de família, lei 8009/90, art.
1711 - 1722 CC, art. 549 CPC e art.832-833 CPC.

 Classificação dos Bens:

Podem ser classificados considerados em si mesmo (art.79-91 CC). Nessa classificação,


olha-se para o bem e classifica com base no bem em si.

Outra classificação, é dos bens reciprocamente considerados (art.92- 97 CC). Nessa


classificação, analisa-se o bem em relação a outro.

A terceira classificação é em relação a titularidade. Em relação ao bem, se é público ou


privado.

Obs¹: não cabe usucapião de bem público (art.102, CC, c/c art.191§ único, CRFB c/c
Súmula 340, STF).

 Classificação dos bens reciprocamente considerados:

Nessa classificação, verifica-se se o bem é principal ou acessório.

I- Bem Principal: é aquele que tem existência própria. Não depende de


nenhum outro para existir.
II- Bem Acessório: é aquele que supõe a existência de um bem principal.

2
Animal é coisa? Sim, animal seria coisa móvel, sendo semovente.
3
Há projeto de lei para que os animais domésticos passem a ser tratados como serem dotados de
sentimentos.

17
Obs¹: bens acessórios são: Frutos, Produtos, Benfeitorias, Acessões e Pertenças.

Frutos: é utilidade que se retira periodicamente do bem principal sem alterar sua
substância. Frutos podem ser classificados em: Frutos naturais (provém da natureza); Frutos civis
(rendimentos de um investimento, alugueis); Frutos industriais (produção industrial);

Produtos: são utilidades que se retiram periodicamente da coisa principal, mas


diminuindo-lhe a substância (ex.: pedras e metais preciosos);4

Benfeitorias: São melhorias ou despesas realizadas na coisa principal com a finalidade de


conservar, dar nova utilidade ou embelezar. Existem 3 tipos de benfeitorias:

A- Benfeitorias Necessárias: Aquela com o intuito de conservar o bem, ou seja, evitar


um estrago iminente ou a deterioração da coisa principal;

B- Benfeitorias Úteis: Aquela que tem o intuito de dar uma nova utilidade para o imóvel,
ou seja, facilitar a utilização da coisa;

C- Benfeitorias Voluptuárias: aquela com o intuito de embelezar o local.

No artigo 1219 CC há uma regra em que afirma que o possuidor de boa-fé tem o direito
de ser indenizado nas benfeitorias uteis e necessárias, bem como terá direito de retenção. Ou
seja, quem fez benfeitoria útil e necessária pode se pedir reembolso/ indenização ou reter o
bem5. No caso das benfeitorias voluptuárias, não possui direito de retenção/ indenização.

Obs.: ver súmula 335 STJ.

Acessões: Incorporação de um bem por outro. É um acréscimo a um bem. Há dois tipos


de acessão.

a- Acessão natural: São acréscimo em imóveis ribeirinhos por força da natureza;


b- Acessão artificiais: São plantações e construções.

Obs.: Ver artigo 1219 CC tanto para benfeitoria quanto para acessão c/c com enunciado
81 da CJF.

Pertenças: são bens que não integram a coisa principal, mas se destinam de modo
duradouro ao seu serviço, ao seu uso ou ao seu embelezamento (art.93 CC). Aqui, o acessório
não vai seguir o bem principal. Sendo, portanto, uma exceção ao princípio da gravitação jurídica.
Ex: azulejo, mesa, cadeiras, retroprojetor.

Obs¹: Nos bens acessórios devem aplicar o princípio da gravitação jurídica que significa
que o bem acessório segue a sorte do bem principal. Porém, o único bem acessório que não segue
essa regra é a pertença, aqui, o bem acessório não segue o bem principal.

4
Bens no subsolo é da União, conforme CF.
5
Na lei 8245/91 (locação) a realização de benfeitorias uteis tem de ser autorizadas.

18
 Bens Corpóreos e Incorpóreos:

I- Bens Corpóreos: são aqueles que têm existência material, perceptível pelos nossos
sentidos, como os bens móveis e imóveis em geral.

II- Bens Incorpóreos: São aqueles abstratos, de visualização ideal (não tangível). Tendo
existência apenas jurídica, por força da atuação do direito , encontram-se, por exemplo, os
direitos sobre o produto do intelecto, com valor econômico.

 Bens Imóveis e Móveis:

I- Bem Imóvel: É aquele que não pode ser transportado de um lugar para outro sem alteração
de sua substância.

II- Bem Móvel: É aquele que são passíveis de deslocamento, sem quebra ou fratura.

Obs¹: animais são enquadrados como sendo bens móveis, semoventes.

 Bens fungíveis e Infungíveis:

I- Bens Fungíveis: São aqueles que podem ser substituídos por outros da mesma espécie,
qualidade e quantidade. É uma classificação típica dos bens móveis. Ex: Café, soja, dinheiro.

II- Bens Infungíveis: São aqueles que possuem natureza insubstituível. Ex: Obra de arte.

 Fatos Jurídicos:

Ordinário
Fato Jurídico em Ato jurídico em
sentido estrito
sentido estrito
Extraordinário
(não negocial)
Fato Jurídico
Ato-fato
jurídico Lícita(ato jurídico
lícito em sentido
amplo) Negócio Jurídico
Ação Humana

Ilícita
Ato ilícito

19
A- Fato jurídico: São acontecimentos que tem relevância para o direito. É todo
acontecimento, natural, ou humano, que cria, modifica ou extingue relações jurídicas.

A.1- Fatos jurídicos em sentido estrito é todo acontecimento natural,


determinante de efeitos na órbita jurídica. Assim, parte-se dos fatos – ordinários ou
extraordinários- em que a intervenção humana é inexistente (fato jurídico stricto
sensu).

Pode ser dividido em:

A.1.1: Ordinário: Aquele acontecimento da natureza que acontece


cotidianamente (Ex: nascimento, morte).

A.1.2: Extraordinário: São aqueles dotados de imprevisibilidade ou


inevitabilidade. Ganham destaque pela extraordinariedade, por serem inesperados ou
inevitáveis (caso fortuito ou força maior, respectivamente) Ex: catástrofes da natureza.

A.2- Ato fato jurídico: É um comportamento humano cujo os efeitos decorrem da


lei, sendo dispensável a análise da voluntariedade/vontade para o ato.

Exemplo é o artigo 1263, instituto da ocupação. Cumpre ressaltar que não tem previsão
no ordenamento, é uma construção doutrinária

Ex: criança sozinha, vai numa loja de doce e compra uma bala. Classifique o fato jurídico. É um
fato licito e praticou um negócio jurídico inválido/nulo, uma vez que não pode uma criança não
poderia celebrar um contrato. (art.166 CC). Em que pese seja tecnicamente invalido, ocorre na
prática. Desse modo 3 correntes tentam explicar a situação.

I- Guilherme couto – há uma presunção de que esses incapazes estão


representados. Ou seja, em negócio de pequena monta, há a presunção
da representação.
II- Pablo Stolze, Jose Maria Leone – afirmam que estamos diante de um ato-
fato jurídico e desconsiderar a análise da voluntariedade, uma vez que
se trata de um negócio jurídico de pequena monta.
III- Zeno Veloso, Humberto Theodoro Jr – afirmam que diante de uma
situação, a lei considera o negócio jurídico. Contudo, esses negócios
jurídicos de pequena monta não possuem capacidade de impactar a vida
social, desse modo, esses negócios sequer são relevantes para o direito.

A.3- Fato jurídico humano: Aquele que decorre da ação do homem:

II.I- Lícitos (Ato jurídico lícito em sentido amplo): Podem ser divididos em ato
jurídico em sentido estrito (não negocial) e o negócio jurídico.

II.ii- Ilícitos: 186/187 CC

 AULA 07/07/2018

20
A.3.1: Ato jurídico: É subdividido em ato jurídico em sentido estrito, previsto no artigo
185 do Código Civil (comportamento humano voluntário, cujo efeitos decorrem da lei. Ex.
reconhecimento de paternidade) e negócio jurídico, previsto nos artigos 104-184 do Código Civil,
(comportamento humano voluntário cujos efeitos decorrem da vontade das partes, ou seja, da
autonomia das partes. Ex: contrato é o típico exemplo do negócio jurídico unilateral, testamento
é o exemplo do negócio jurídico unilateral.

 NEGÓCIOS JURÍDICOS

 Conceito: Negócio Jurídico é a declaração de vontade, emitida em obediência,


aos seus pressupostos de existência, validade e eficácia, com o propósito de produzir efeitos
admitidos pelo ordenamento jurídico pretendidos pelo agente.

 Planos do Negócios Jurídicos:

É também chamada de escada ponteana. Existem três planos distintos.

1- Plano da existência: tenho que analisar os elementos da existência do negócio jurídico.


Manifestação de vontade (deve ser manifestada por alguém) + agente emissor da
vontade + objeto sobre o qual vai recair essa manifestação de vontade + forma de
expressar essa vontade;

2- Plano da Validade: Art.104 CC; analisar se está em conformação com a ordem jurídica. Se
está cumprindo os requisitos de validade: Manifestação de vontade livre e de boa fé,
agente emissor da vontade capaz e legitimado, o objeto dever ser lícito (em sentido
amplo), possível, determinado ou determinável, a forma será a prescrita em lei ou, se não
tiver prescrita em lei, será de forma livre.

Obs¹: artigo 108 CC.


Obs²: alienação é disponibilidade do bem, quando você deixa de ser o titular da coisa.

3- Plano da Eficácia: Análise da produção dos efeitos jurídicos. Cabe ressaltar, contudo, que
as partes podem subordinar esses efeitos jurídicos, através da Condição, Termo e do
Encargo. São os chamados acidentais do Negócio Jurídico.

Obs¹: cabe ressaltar que manifestação livre quer dizer ocorrer sem ameaça.

 DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO:

São previstos na lei do art.138 ao art.165 do Código Civil.

21
1- Erro:
2- Dolo:
3- Coação:
4- Estado de Perigo:
5- Lesão:
6- Fraude Contra Credores:

Obs¹: De acordo com o artigo 171,I do código Civil, todos os defeitos do negocio jurídico, de
acordo com a lei, são causa de anulabilidade. Desse modo, o ato anulável convalesce no tempo,
ou seja, tem um prazo para alegar essa anulabilidade. De acordo com o artigo 178, o prazo para
alegar essa anulabilidade é de 4 anos, iniciado a partir da data da celebração do negócio jurídico,
salvo no caso da coação, em que o prazo se inicia da data em que cessou a coação.

A natureza jurídica desse prazo de 4 anos é de prazo decadencial. Desse modo, não irá se
suspender, nem se interromper.

Obs²: Simulação não é defeito do Negócio Jurídico. Atualmente, a simulação é causa de nulidade
(art.167 CC). Por ser causa de nulidade, não há prazo para que seja alegada, pois ato nulo não se
convalesce no tempo.

Obs³: os 5 primeiros defeitos do negócio jurídico também são chamados de vícios do


consentimento (há um dissenso entre a vontade declarada e a real intenção da pessoa). A fraude
contra os credores é chamada de vício social( o indivíduo declara o que realmente quer, contudo
quer prejudicar o terceiro), assim como a simulação.

A- ERRO:

É a falsa representação da realidade. No erro, o indivíduo declara uma vontade que não
corresponde com sua real intenção, uma vez que ele está enganado/falsa representação da
realidade. O indivíduo não sabe o que está fazendo, acha que está fazendo algo e está fazendo
outro.

 Requisitos do Erro:

I- Erro deve ser substancial/essencial: significa que o erro deve recair sobre os
elementos principais6 do negócio Jurídico (elementos de existência);

Obs¹: Erro meramente acidental: trata-se de um erro que não iria configurar a realização do
negócio jurídico, desse modo, não irá configurar defeito no negócio jurídico.

II- Erro deve ser cognoscível: O erro tem de ser perceptível para o destinatário da
vontade. Deve ter condição de perceber que a pessoa está em erro.

Ex: maria, comerciante do ramo de joias, quer comprar um relógio de ouro. Vai a joalheira
comprar esse relógio, ao chegar a loja afirma ao vendedor: “quero esse aqui”. Contudo, ela

6
Para saber se o erro é essencial, faz-se uma pergunta: se o individuo soubesse disso, ele iria celebrar o
negócio jurídico? Se a resposta for sim, estaria cometendo erro essencial.

22
escolheu o único que não era de ouro e sim um de aço com a cor dourado. Trata-se de um erro
substancial e cognoscível, uma vez que você está numa joalheria e era o único relógio que não de
ouro da loja. Maria pode anular o negócio jurídico? Sim, pode anular. Para a doutrina, enunciado
número 12 da CJF, a escusabilidade não é mais requisito do erro, uma vez que é adotado a teoria
da confiança.

B- DOLO:

É o erro com a ajuda de alguém. Isto é, é um erro provocado por terceiro. É um artifício
ardiloso que alguém de má-fé te induz a erro. Há um artificio malicioso empregado para enganar
o negociante.

 Requisitos:

I- Tem que gerar prejuízo: uma boa maneira é analisar o preço do objeto.
II- Dolo deve ser substancial: Ou seja, deve recair sobre os elementos
principais, na qual se soubesse, não teria realizado o negócio jurídico. Se
ele mesmo assim realizaria o negócio jurídico, ele não poderia anular o
negócio jurídico, contudo poderia pedir perdas e danos.

Quanto à extensão, o dolo pode ser:

a) Principal(determinante, essencial ou causal);


b) Acidental;

O dolo, para invalidar o ato, deve ser principal – atacando a causa do negócio em si-, uma
vez que o acidental, aquela que não impediria a realização do negócio, só gera a obrigação de
indenizar. Art.145

Obs¹: Tomar cuidado com art.146 CC.

Quanto a atuação do agente, o dolo poderá ser:

a)positivo:

b) negativo (omissivo): art.147

O primeiro decorre de uma atuação comissiva. O segundo, fruto de uma omissão, traduz
uma abstenção maliciosa juridicamente relevante. É o caso do silêncio intencional de uma das
partes, levando a outra a celebrar negócio jurídico diverso do que pretendia realizar.

Admite-se no ordenamento jurídico brasileiro (art.148) que o negócio jurídico seja


anulado por dolo de terceiro. O CC prevê que o dolo de terceiro invalida o ato, não apena quando
a parte a quem aproveite efetivamente soube do expediente astucioso, mas também dele
devesse ter conhecimento. Cria-se uma hipótese de dolo eventual da parte a quem aproveita o
ardil.

Se a parte a quem aproveita o dolo não sabia, nem tinha como saber do expediente
astucioso, subsiste o negócio, embora o terceiro responsa civilmente perante a parte ludibriada.

23
Obs¹: Conforme artigo 150, se ambas as partes do negócio procederem com dolo, pelo
princípio que veda a alegação da própria torpeza em juízo, a lei proíbe que se possa anula o
negócio ou pleitear indenização.

C- COAÇÃO: art. 151 CC.

É a ideia de ameaça/ violência, fazendo com que ela perca sua liberdade e faz com que o
indivíduo celebre seu negócio jurídico contra sua vontade. Então a vontade manifestada no
negócio jurídico, não corresponde a real intenção. A pessoa tem de ser ameaçada.

Cabe ressaltar que ameaça pode ser verbal, tácita, espiritual. A ameaça pode recair sobre
o negociante, sobre a família do negociante, sobre seus bens, até mesmo para pessoas que não
são membros da família do negociante - art.151§único.

A ameaça, cabe ressaltar, não necessariamente será feita por quem faz parte do negócio.
É o que se chama de coação exercida por terceiro (art.154 e 155 CC). Quando a coação é exercida
por terceiro, não anulará o negócio jurídico se o negociado pela coação desconhecia desta ou
não poderia a perceber. Agora, se ambos soubessem, art. 155.

Podem-se apontar os seguintes requisitos para a caracterização da coação:

a) violência psicológica;
b) declaração de vontade viciada;
c) receio sério e fundado de grave dano à pessoa, à família (ou a pessoa próxima) ou aos
bens do paciente.

Obs¹: art. 153 do CC vai afirmar que atos referentes ao exercício regular do direito e o
mero temor reverencial não induzem a coação.

Obs²: o dolo manifesta-se pelo ardil, a coação traduz violência.

Obs³: qual a diferença entre estado de perigo e lesão:

Estado de perigo ( ocorre quando o agente, diante de situação de perigo conhecido pela
outra parte, emite declaração de vontade para salvaguardar direito seu, ou de pessoa próxima,
assumindo obrigação excessivamente onerosa) está presente no artigo 156 do CC enquanto que
a lesão está no artigo 157 do Código Civil.

Requisitos do estado de perigo:

i- Situação de necessidade:
ii- Dolo de aproveitamento: quando o destinatário da vontade percebe que a
necessidade do outro e se aproveita dela.
iii- Onerosidade excessiva:

Obs: não se deve confundir o estado de perigo, a coação e a lesão.

No estado de perigo, diferentemente do que ocorre na coação, o beneficiário não


empregou violência psicológica ou ameaça para que o declarante assumisse obrigação
excessivamente onerosa. O perigo de não se salvar, não causado pelo favorecido, embora de seu
conhecimento, é que determinou a celebração do negócio prejudicial.

24
Também com a lesão, o vício de que ora cuidamos não se confunde.

O estado de perigo traduz uma situação em que o declarante, premido da necessidade


salvar-se, ou a pessoa próxima, realiza o negócio jurídico, assumindo prestações excessivamente
onerosas. Busca evitar, pois, a concretização de um perigo de dano físico ou pessoal. Tal não
ocorre não lesão, em que o contraente, por razões essencialmente econômicas ou por sua
evidente inexperiência (ou leviandade), é levado, inevitavelmente, a contratar, prejudicando-se.

D- LESÃO: Art.157

Pode ser conceituado como lesão como o prejuízo resultante da desproporção existente
entre as prestações de um determinado negócio jurídico, em face do abuso da inexperiência,
necessidade econômica ou leviandade de um dos declarantes.
I- Situação de necessidade ou inexperiência
II- Situação manifestamente desproporcional/onerosidade excessiva.

Obs¹: Art157§2° pode ser aplicado analogicamente no estado de perigo, de acordo com a
doutrina.

 RESPONSABILIDADE CIVIL

A doutrina fala em um modelo dual ou binário de responsabilidade Civil. Vale dizer, existe
a responsabilidade civil contratual e a responsabilidade extracontratual, também chamada de
aquiliana.

1- RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL:

A responsabilidade civil contratual decorre do inadimplemento de uma obrigação. Cuida-


se do descumprimento daquilo que foi ajustado. É o rompimento daquela ideia que decorre do
pacta sunt servanda.

Como cediço, pelo pacta sunt servanda o contrato faz lei entre as partes (é a máxima da
obrigatoriedade dos contratos), de modo que, caso não cumprido o contrato, haverá
responsabilização patrimonial do inadimplente.

Exemplo: o bem não foi entregue no prazo avençado ou na hipótese em que o pagamento foi
feito com cheque sem provisão de fundos. Nessa ambiência, aplicam-se as regras contidas nos
arts. 389, 390 e 391 do Código Civil, dispositivos estes que estão topograficamente situados na
parte relativa ao Direito das Obrigações.
CC. Art. 389. Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e
danos (o que efetivamente perdeu e
o que razoavelmente deixou de ganhar), mais juros e atualização monetária
segundo índices oficiais
regularmente estabelecidos, e honorários de advogado.

25
“Perdas e danos”, constantes do art. 389 do Código Civil, se refere aos danos emergentes,
que é o que a parte efetivamente perdeu, e aos lucros cessantes, que reflete aquilo que a parte
razoavelmente deixou de ganhar.

CC. Art. 390. Nas obrigações negativas o devedor é havido por inadimplente
desde o dia em que executou o ato
de que se devia abster.
CC. Art. 391. Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens
do devedor.

O art. 391 do Código Civil traz o princípio da responsabilidade patrimonial: a


responsabilidade pelo inadimplemento da obrigação é patrimonial, vale dizer, a responsabilidade
pelo inadimplemento recairá sobre o patrimônio do devedor (aquele que está inadimplente). Não
há, via de regra, o sancionamento corporal com a restrição da liberdade do sujeito.7

Obs¹: numa responsabilidade civil contratual (significa que há um contrato anterior) tem que se
verificar se essas excludentes são um fortuito interno ou fortuito externo. São formas de
classificações.

Na responsabilidade civil extracontratual, se o réu comprovar uma excludente de nexo causal,


em regra, não haverá responsabilidade civil.

Na responsabilidade civil contratual não basta comprovar a presença de uma dessas


excludentes, deve se demonstrar que é caso de fortuito externo. 8

A) Fortuito Externo: é aquele acontecimento que não é inerente a atividade contratual,


logo, excluirá a responsabilidade civil contratual.
B) Fortuito Interno: é aquele acontecimento inerente a atividade contratual. Irá incidir na
fase de elaboração do produto ou execução do serviço e ainda que represente uma
excludente do nexo causal, não irá excluir a responsabilidade a civil.

Artigo 734: cláusula de incolumidade (salvo motivo de força maior, contudo se for fortuito
interno, ele irá responder).

2- RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTRATUAL OU AQUILIANA:

Obs.: o Código Civil de 1916 afirmava que a responsabilidade civil extracontratual


decorria, exclusivamente, da prática de um ato ilícito.

7
Há exceção: possibilidade de prisão civil do devedor inescusável de obrigação alimentícia. É a única
hipótese referendada pelo STF, na medida em que, quanto ao depositário infiel, o STF não mais admite
sua prisão civil.
Dessa forma, tirando a prisão civil do devedor de alimentos, todas as demais hipóteses de
responsabilização daquele que está inadimplente deverá recair sobre o seu patrimônio.
8
Ver excludentes na página 28.

26
O Código Civil de 2002 afirma que há possibilidade de responsabilidade civil
extracontratual decorrerá de duas hipóteses: (A) Prática de ato ilícito (art.186 CC) ou (B) Abuso
do Direito (Art. 187 CC).

Desse modo, a responsabilidade civil extracontratual decorrerá de ou da prática de ato


ilícito ou do abuso de direito.

Obs¹: Ato ilícito (sentido amplo) se subdivide em: ato ilícito, 186 CC, (sentido estrito) e
abuso do direito, art.187.

2.1- DOS ATOS ILÍCITOS E DA RESPONSABILIDADE CIVIL:

Atualmente, tem-se um tripé de artigos em que há a estruturação da responsabilidade


civil extracontratual. São os artigos 186, 187 e 927, todos do Código Civil.
CC. Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência, violar direito e causar
dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
CC. Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao
exercê-lo, excede manifestamente os
limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons
costumes.
CC. Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente
de culpa, nos casos especificados
em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano
implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

O primeiro deles (art. 186) fala da prática de um ato ilícito.

O ato ilícito é aquele praticado decorrente da conduta humana, comissiva ou omissiva, que
viola uma regra jurídica. É o ato praticado em desconformidade com o ordenamento jurídico.

Ato ilícito, portanto, é aquele praticado com infração à lei, ofendendo direitos
patrimoniais ou extrapatrimoniais (v.g, direitos da personalidade), e que geram a
responsabilização civil. É fonte das obrigações, ao lado dos contratos e dos atos unilaterais de
vontade.

Exemplo 1: se o professor pegar o apagador do Curso Ênfase e o inutilizar, ele estará


praticando um ato ilícito. Essa conduta é desrespeitosa ao direito de propriedade alheia. Nesse
caso, o professor deverá indenizar o Curso Ênfase, restituindo outro apagador ou pagando a
quantia equivalente.

Exemplo 2: um sujeito (hater) vai para as redes sociais e começa a xingar todo mundo,
ofendendo a honra daqueles que pensam de modo diferente. O sujeito que assim procede
comete ato ilícito, pois ofendeu direitos extrapatrimoniais de terceiro, devendo, portanto,
indenizar o ofendido, embora os direitos da personalidade não sejam aferíveis economicamente
em um primeiro momento. Vide art. 5º, incisos V e X da CF.

27
Obs²: Cumpre ressaltar que um ato ilícito pode ser repercutir tanto na esfera civil, penal
e administrativa. Por isso, importante olhar artigo 935.

Obs²: Conforme artigo 927, quem comete ato ilícito e abuso do direito tem o dever de
indenizar.

Obs³: existe responsabilidade civil por ato lícito? A resposta é sim, exemplo,
responsabilidade civil derivada da legitima defesa, estado de necessidade, exercício regular de
direito. Art.188 CC c/c art.929 c/c 930 CC. Contudo, em regra, é que decorre de ato ilícito.

1.2.1- Primeiro Alicerce Categórico:

Responsabilidade civil decorrente de ato ilícito (art. 186, CC).


CC. Art. 186. Aquele que, por ação (+) ou omissão (-) voluntária, negligência
ou imprudência, violar direito E causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Essa conduta decorre de um ato humano que fere direitos subjetivos privados
(patrimoniais ou extrapatrimoniais da vítima).

Embora o dispositivo mencione negligência e imprudência, cuida-se, na verdade, de culpa


lato sensu. Vale dizer, o dever de responsabilização decorrente do cometido de ato ilícito decorre
da culpa lato sensu, ou seja, decorre tanto da negligência e imprudência, quanto também da
imperícia e do dolo.

Outrossim, para que surja o dever de indenizar decorrente da responsabilidade civil


extracontratual, É NECESSÁRIO a ocorrência de dano a outrem, mesmo que esse dano seja
exclusivamente moral. Não se fala em responsabilidade civil extracontratual sem a existência do
dano.

Exemplo: sujeito vem dirigindo embriagado e atropela um transeunte, que, atingido, dá uma
cambalhota e cai em pé e sai andando, incólume. Não há que se falar, nesse caso, em dever de
responsabilização civil, porque embora se tenha a conduta imprudente daquele que dirige
embriagado em alta velocidade, não houve qualquer dano.

Assim, ato ilícito = lesão de direitos + danos (elemento fundamental da responsabilidade


civil → dever de indenizar [art. 927 do CC]). Portanto, sem danos, em que pese a presença do ato
ilícito, não haverá o dever de reparação, nos termos do art. 927 do CC.
CC. Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo.

28
1.2.2 – Segundo Alicerce Categórico:

Inovação no Código Civil de 2002, se refere ao abuso do direito (art. 187 do CC). Trata-se
da Teoria do abuso de direito como ato ilícito.
CC. Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao
exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim
econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.

No abuso do direito, tem-se uma situação que, inicialmente, é protegida pelo direito.
Contudo, no seu desenrolar ou no seu conteúdo ela transmuda-se para algo ilícito. Assim, aquilo
que era originalmente tutelado pelo direito, no exercício desse direito, transforma-se em algo
ilícito.

Obs¹: Também comete ato ilícito aquele que exercer manifestamente os limites impostos
pela boa-fé, bons costumes e fins sociais.

O abuso de direito está relacionado à intensidade. Para sua ocorrência, o titular de um


direito, no seu exercício, deve exceder, manifestamente, os limites impostos pelo seu fim
econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes. Dessa forma, são parâmetros para a
caracterização do abuso do direito:

1- Fim social;
2- Fim econômico;
3- Boa-fé;
4- Bons Costumes;

A doutrina diz que decorre do art. 187 do CC dois grandes princípios estruturantes do
Direito Civil, quais sejam, o princípio da socialidade (que trata da finalidade social dos institutos)
e o princípio da eticidade (tais como os deveres de honestidade, lealdade e boa- fé).

 Consequências do Abuso do Direito:

I- Tutela ressarcitória: se o ato abusivo causar dando, haverá o dever de indenizar 187c/c 927
II- Tutela inibitória: havendo dano ou não, mesmo que o abuso do direito não cause o dano,
pode-se mover uma tutela inibitória. Ingressando-se com ação de obrigação de não fazer.
III- Tutela resolutória: É possível extinguir um contrato alegando uma modalidade de abuso
do direito;

Obs¹: conduta sem utilidade com a única intenção de prejudicar terceiro. Chama-se de ato
emulativo, uma modalidade de abuso do direito. É quando exerce um direito, prática uma
atividade sem qualquer utilidade, única e exclusivamente com a intenção de prejudicar terceiro.

Novos paradigmas do Direito Civil: Princípios basilares do Código Civil de 2002. Uma vez
que o código foi sendo criado desde a década de 70, o Miguel reale afirmou que todos os
professores responsáveis pela criação do código civil, deveriam seguir 3 princípios basilares:

I- Operabilidade: É um paradigma que traz a ideia de que o novo CC deveria ser um


código de fácil compreensão/operacionalização, tanto para o operador do direito,

29
quanto para o leigo. Ademais, há preocupação para que o código não tragar institutos
equívocos.
II- Socialidade: ideia de que todos os direitos/interesses são funcionalizados. Ou seja,
todos os direitos têm uma função a cumprir na sociedade. daqui nasce o princípio da
Função Social. O direito não existe para ser exercício de maneira egoísta, mas de
maneira de atender aos anseios da sociedade.
III- Eticidade: A ética deixar de estar num campo meramente moral e passar a ir para um
campo jurídico, inclusive impondo deveres jurídicos, mesmo que não previstos na lei.
Da ética nasce o princípio da Boa-fé objetiva (É o padrão de comportamento ético
esperado de todos em sociedade).

Obs¹: Boa -fé subjetiva é o contrário do comportamento antiético, ausência de boa-


fé.

Funções da boa-fé objetiva:

a) Interpretativa: art. 113:


b) Limitadora: art.187: Possui uma função de limitar o exercício do direito.
c) Criadora de deveres anexos /deveres laterais/deveres secundários: art.422: Dever de
lealdade, informação, proteção, cooperação, confiança.

A violação positiva do contrato é uma terceira forma do inadimplemento (além da mora


e do inadimplemento absoluto), que decorre da quebra dos deveres anexos da boa-fé objetiva.

Obs¹: Enunciado 25 e 25 CJF. Cumpre ressaltar que os deveres anexos devem ser
respeitados não apenas na decorrência do contrato, mas também nas fases pré ou pós contratos.

30
Há duas naturezas de Responsabilidade civil:

As naturezas da responsabilidade civil podem ser divididas em objetivas e subjetivas.

- Subjetiva: aquela que tem como fundamento a culpa. É uma conduta culposa.

- Objetiva: é aquela que tem como fundamento o risco e não a culpa. Deriva da lei. Não demanda
da analise de culpa do responsável. Artigos mais comuns de responsabilidade objetiva: 187
(abuso do direito gera responsabilidade objetiva),927§Único,932,933,931,936.CDC, art.12,14,17.
CF, 37§6°,

 Elementos da Responsabilidade Civil:

1- Conduta: Humana(inclusive omissão) e voluntária. Deve ser analisado também a


imputabilidade do sujeito (não se considera à vontade o incapaz, por exemplo.)

Obs¹: em regra o menor incapaz não responde civil ou penalmente, ou seja, é inimputável.
Exceção, menor de idade com patrimônio, enquanto os pais não possuem qualquer patrimônio.
O menor responderia com base no art.928 do CC. Trata-se, nesse caso, de uma responsabilidade
subsidiária, condicionada, de natureza subjetiva e mitigada.

Obs²: existe alguma responsabilidade solidária do menor? Sim, é a hipótese da emancipação


voluntária por idade. Na emancipação voluntária, apesar do menor ser plenamente capaz, os pais
respondem solidariamente. Art.942§único.

Obs³: Atos involuntários e reflexos não geram responsabilidade civil.

Obs4: existe algum caso do menor incapaz e responde diretamente? Sim, de acordo com artigo
116 do ECA.

Regra geral é de você responder solidariamente, tanto responsável como causador do


dano. Contudo, apesar dos pais serem responsável pelos filhos, há uma regra especifica, presente
no artigo 928

2- Culpa: Culpa Lato sensu. Engloba tanto o dolo(intenção de causar o prejuízo) e a culpa
estrito sensu (inobservância do dever de cuidado. Uma conduta negligente, imprudente,
imperita);

Pode-se, assim, dizer que haverá a responsabilização em caso de:

a) Dolo (intenção);
b) Imprudência (falta de cuidado + ação): ex. dirigir em alta velocidade, com os pneus do
carro careca, etc;
c) Negligência (falta de cuidado + omissão): Como não cuidar do cão, que foge e fere
transeunte;
d) Imperícia (falta de qualificação ou treinamento para desempenhar determinada função.
Normalmente, tem relação com o exercício de uma profissão ou labor de forma
descuidada, como a médica que opera sem habilitação;

Para analisar a imperícia, importante prestar atenção no artigo 951 CC, direcionado para
alguns profissionais, como os médicos que realizam este tipo de ato.
Art. 951. O disposto nos arts. 948, 949 e 950 aplica-se ainda no caso de
indenização devida por aquele que, no exercício de atividade profissional, por

31
negligência, imprudência ou imperícia, causar a morte do paciente, agravar-
lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para o trabalho.

Culpa concorrente: a pessoa se coloca em situação de perigo, contudo, o réu também


possui culpa do agente. Ou seja, a própria vítima contribuiu, de alguma forma, com o evento
danoso e o ato ilícito e, por isso, será levada em consideração essa culpa para fixação da
indenização. O Artigo 945 afirma que isso não anulará a responsabilidade, contudo, haverá
indenização em um valor menor.

Enunciado 459, CJF: A conduta da vítima pode ser fator atenuante do nexo de causalidade na
responsabilidade civil objetiva.

3- Nexo Causal: liame causal subjetivo que liga conduta ao dano.

Há duas teorias que explicam o nexo de causalidade. Essas teorias são muito próximas. O
STJ tem um acordão que diz que as duas teorias são sinônimas. Antes de saber disso, é importante
relembrar que o nexo de causalidade é o elemento virtual, que liga conduta ao dano.

Excludentes do Nexo Causal: Caso fortuito ou força maior; fato de terceiro; fato
exclusivo da vítima.
a) Caso fortuito/força maior :aquele acontecimento imprevisível ou ainda que
previsível, inevitável que vem a gerar o evento danoso.
b) Fato de terceiro: não foi o réu que gerou o resultado e sim um terceiro que
ocasionou o fato
c) Fato exclusivo da vítima/culpa exclusiva da vítima: quem causou o resultado
foi a própria vítima. A própria vítima ocasionou o resultado.

4- Dano: É o prejuízo sofrido, que pode ser de ordem patrimonial ou extrapatrimonial. Não
há responsabilidade civil sem dano ou prejuízo à vítima. É o ato ilícito e o dano.

a) Dano material: É o prejuízo patrimonial. Deve se demonstrar, efetivamente, o


quanto perdeu de dinheiro. É subdividido em dano emergente e lucros
cessantes.
Dano emergente é o prejuízo material decorrente diretamente do fato.
Lucros cessantes é entendido como sendo aquele em que se deixa de auferir.
Certamente poderia auferir e está deixando de ganhar.

b) Dano moral: é lesão a direitos da personalidade. Decorre da ofensa a direitos


extrapatrimoniais, vinculado à garantia dos direitos da personalidade. O dano
moral decorre também da conduta do agente, porque não se fala em
responsabilização sem d ano, assim, o dano moral é o dano extrapatrimonial
vinculado/atrelado a garantia da dignidade da pessoa humana, quando
relacionado a pessoa natural. Cumpre ressaltar que seus fundamentos estão
previstos no art. 5°, V e X da CRFB.

32
Obs¹.: conforme entendimento do STJ, pessoa jurídica também pode sofrer dano
moral.
Enunciado 411 – CJF: O descumprimento de contrato pode gerar dano moral
quando envolver valor fundamental protegido pela Constituição Federal de
1988.

Assim, a violação de um contrato, a não observância das cláusulas contratuais por uma
das partes, pode gerar o dano moral, onde este pode decorrer da violação do contrato, quando
vinculado à valor fundamental protegido na CF. Ex.: direito à moradia.

Há uma outra modalidade de dano, extrapatrimonial, que é o dano estético. Dano


estético é uma alteração na conformação corporal, decorrente de uma lesão a integridade física.
Atualmente, há o entendimento que essas marcas não precisam ser alterações visíveis. Não há
necessidade de o dano estético ser permanente.

O dano moral e material são de ônus da prova do autor, que deve comprovar o dano
patrimonial ou extrapatrimonial por ele suportado, o qual não pode ser hipotético, mas real ou
efetivo.
Art. 373. O ônus da prova incumbe:
I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;
II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do
direito do autor.

Teoria da perda de uma chance: Gera a responsabilidade civil por uma chance perdida.
Trata-se de uma responsabilidade civil que não decorre de um dano específico e sim de uma
chance perdida. Podendo ser um dando material ou moral, a depender do caso concreto.
Ocorrerá quando alguém se ver frustrado numa oportunidade futura de obter uma vantagem ou
diminuir um prejuízo.
Enunciado 444 do CJF, V Jornada de Direito Civil.
A responsabilidade civil pela perda de chance não se limita à categoria de danos extrapatrimoniais, pois,
conforme as circunstâncias do caso concreto, a chance perdida pode apresentar também a natureza
jurídica de dano patrimonial. A chance deve ser séria e real, não ficando adstrita a percentuais
apriorísticos.

Como se vê, a responsabilidade pela perda de uma chance não se limita a dano moral, ou
seja, também pode ser usada para dano patrimonial, porque, conforme as circunstâncias do caso,
pode tratar-se de dano real.

Aula 05 – 14/08/2018

 PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA:

 PRESCRIÇÃO:
Pode ser definida como a perda da pretensão ao exercício de um direito subjetivo.

Obs¹:Prescrição não é a perda do direito. É a perda da pretensão.

33
Violado o direito subjetivo, a pretensão tem que ser exercida no prazo estabelecido em
lei (art. 189 CC c/c 882 CC). Cumpre-se ressaltar que prescrito o prazo, não se perde o direito em
si, mas se perde a pretensão de exigir o exercício do direito

Direito Subjetivo: é aquele direito que assegura ao seu titular a possibilidade de exigir de
alguém determinado comportamento. Corresponde sempre, portanto, a uma prestação.

Direito Potestativo: é aquele direito que confere ao seu titular a prerrogativa de produzir
efeitos jurídicos tão somente com sua manifestação de vontade. Basta o titular demostrar efeitos
jurídicos que já irá produzir efeitos jurídicos. Essa manifestação de vontade, contudo, deve ser
feito na forma da lei.

Obs.: quando se tem um prazo para ser exercido, a natureza desse prazo é decadencial. Ex:
art.178 Código Civil.

Características:

1- Envolve matéria de ordem/interesse privado: Somente as partes interessam a prescrição


e por isso, admite renúncia (art.191 CC). Contudo, não é possível a renunciar
antecipadamente a prescrição.

Obs¹: A prescrição, mesmo sendo de interesse privado, pode reconhecer de ofício. Cabe ao
magistrado, contudo, intimar as partes para permitir o contraditório.

Obs²: art.193 CC. A prescrição pode ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição nas
instancias ordinárias. RE e RESP só pode ser alegada se a matéria tiver sido prequestionada.

Obs³: a decadência envolve matéria de ordem pública.

A prescrição admite interrupção e suspensão dos seus prazos.

Obs.: a decadência, em regra, não admite suspensão e nem interrupção, conforme artigo 207 do
Código Civil.

 DECADÊNCIA:
É definida como sendo a perda do direito potestativo.

Passo a passo para questões da prescrição:

1° passo: Verificar a relação jurídica;

2°passo: Identificar o prazo prescricional (art.206, se não estiver lá,205 CC);

3° Passo: Identificar o termo inicial. Em regra, artigo 189, da data da lesão do direito
subjetivo.

Obs¹: Cuidado!

Teoria da Actio Nata: há o entendimento de quando o titular não sabe que seu direito foi
violado, não seria justo que esse termo inicial da prescrição já tenha se iniciado. Nesse caso, o
termo inicial irá variar para quando ele tiver conhecimento.

Causas obstativas do Prazo: são causas que impedem (art.197 -201), suspendem (art.197
-201) ou interrompem (art.202) a prescrição.

4° Passo: realizar a conta para achar o termo final.

34
 Aula 6 – dia 21/08/18

 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES:

Livros: Leoni, Rosevald, comentários ao código civil Gustavo Tepedino;

 Conceito:

É o vínculo jurídico que confere ao credor o direito de exigir do devedor o cumprimento


de uma determinada prestação. Trata-se de uma relação de natureza transitória de crédito e
débito, de cunho pessoal, cujo objeto consiste em uma prestação economicamente aferível.

 Características gerais das obrigações:

a) Vínculo jurídico de caráter transitório (relação pessoal);


b) Vinculo jurídico que autoriza o credor a buscar a satisfação do seu interesse no patrimônio
do devedor;
c) Caráter patrimonial do objeto; O direito das obrigações integra o gênero do direito
patrimonial; então a obrigação tem que ter um cunho econômico, porque uma vez que
ele não conseguir sua prestação, ele resolverá no patrimônio do devedor. Então, se você
tem um direito de fidelidade de cunho do matrimonio, você não resolverá em direito das
obrigações, porque não tem cunho econômico, você resolverá no direito de família. É
claro que se houver reflexos de cunho econômico, poderíamos pensar em um
ressarcimento: ninguém é obrigado a casar, não é ato ilícito e não tem que responder por
perdas e danos. Mas se houver um ilícito, dano moral (“xingar de corno no casamento”) é
passível de ressarcimento, porque gera uma responsabilidade extracontratual. Ex.:
casamento com tudo pago, buffet, lista de presente e convites, mas o noivo deu para trás.
O dano patrimonial que causou foi de pagar a multa; então dessa conduta surge uma
reparação civil. Observe que tínhamos desde 2003 uma controvérsia. Com o CC temos
que prescreve em 03 anos a reparação de buscar um dano civil. Então, o STJ sempre foi
na linha de que essa responsabilidade civil é extracontratual. Já a responsabilidade civil
contratual (oriunda do inadimplemento) é de 10 anos, para o STJ. Já em 2016, a Terceira
Turma do STJ entendeu que o código não faz essa distinção e embarcou que toda a
responsabilidade (contratual e extracontratual) possui a prescrição da reparação civil tudo
com 10 anos. Porém, em agosto de 2018 entendeu que tinha que voltar pro primeiro
entendimento: a reparação civil extracontratual 03 anos e a reparação civil contratual de
10 anos.

d) Prestação positiva ou negativa; positiva no sentido que se requer do devedor um “dar”,


um “fazer”, um “restituir”. Enquanto as obrigações negativas, requerem do devedor um
contrário senso, mas obrigações de “não fazer”.

Obs¹: com o advento do CC, art. 203 inciso V, referente ao tempo prescricional

35
O STJ entendeu em 2015 que o Código Civil não fazia qualquer distinção quanto ao prazo
prescricional de responsabilidade civil contratual e extracontratual, de modo que, deveria ser o
mesmo prazo para os dois (3 anos, art. 203, inciso V). Contudo, atualmente, voltou atrás e
entende que as prescrições para a responsabilidade civil contratual é de 3 anos e extra- contratual
de 10 anos.

 ELEMENTOS DA OBRIGAÇÃO:

1) Sujeitos:

Pode ser conhecido ou não (determinado ou não). Se na formação do vínculo jurídico não
saber o sujeito, por si só, não gera nulidade. Essa pessoa natural ou jurídica deve ser conhecida
no pagamento (na tradição).

Exemplos de que no momento não conhece o sujeito: promessa de recompensa; loteria


esportiva;

2) Objeto:

Pode ser existente ou futuro (deve existir no momento do pagamento). 9Cumpre ressaltar
que o objeto é a prestação;

3) Vínculo jurídico:

Já foi dito como característica, mas também é um elemento geral. O vínculo jurídico é o liame
que une credor e devedor e permite ao primeiro exigir do segundo coercitivamente o
cumprimento da prestação.

Esse vínculo jurídico desde a época do direito romano, temos ele associado a sua repercussão
econômica ao patrimônio do devedor. Nessa época entendia-se que o devedor respondia pelo
patrimônio como em sua própria pessoa, dizendo que se o devedor restar insolvente, ele será
esquartejado em quantos pedaços forem seus credores, salvo se for vendido como escravo.
Porém, essa hipótese não atende os interesses do devedor, só impelia o devedor a cumprir a
obrigação, porque sabia que seria esquartejado.

A teoria dualista é que foi quem trouxe entre o débito e a responsabilidade. O débito
(“schuld”) como elemento principal da obrigação: aquilo que se espera do devedor, que ele saia
do estado de inércia e cumpra com aquilo que ele se obrigou. O Schuld transita por esse elemento
espiritual (que é a atitude do ser humano).

Já o desrespeito por esse elemento espiritual, permite o credor se ver ressarcido por essa
inércia. Se ele por ventura tiver interesse na prestação, o devedor estará na mora; mas se não
tiver interesse, irá buscar por perdas e danos pelo inadimplemento dessa prestação (“haftung”).

Pergunta: Quando o devedor terá sua liberdade restrita quando for inadimplente?

Quando não houver cumprido com a sua obrigação de pagar alimentos (saindo da ideia do
depositário infiel que foi revogada com o Tratado Internacional de José da Costa Rica).

9
Tradição que transfere o imóvel/móvel.

36
Hoje temos credor e devedor integrados no vínculo contratual, onde ambos participam da
prestação. O credor porque tem interesse nela e o devedor mostra para a sociedade que ele é
um bom cumpridor das obrigações; de outro lado a sociedade pode, apesar dos efeitos serem
interpartes, exigir que o contrato atinja os seus objetivos dentro de uma visão externa da função
social e a boa-fé objetiva. A boa-fé objetiva está implícita no contrato, coordenando essa relação
jurídica, para atender os interesses individuais e os interesses coletivos (deveres de informação,
cooperação, transparência). Temos hoje o direito privado coordenado por esses princípios e pelo
direito fundamental, porque estamos em uma relação de natureza pessoa (então todos os
princípios que integram o direito humano fazem parte disso), visto que estamos dentro de uma
visão civilista constitucional.

• Figuras híbridas:

Observe que qualquer solução que não seja a prestação específica que a in natura é a perdas
e danos; já em uma situação em direito real ele não se satisfaz em perdas e danos, mas ele busca
o bem onde quer que esteja. Temos algumas figuras híbridas que vão nos trazer dúvida de qual
direito deveremos aplicar.

No direito obrigacional temos uma relação entre pessoas; no direito real temos uma situação
jurídica que permite o titular da coisa se submeter a sua própria vontade, ao seu próprio desejo
(art. 1.228, CC – através dos poderes do direito ao domínio: gozar, usar e reaver). A doutrina
entende que é uma situação jurídica (autoriza o titular do bem se submeter a sua própria
vontade), porque não há relação jurídica entre pessoas e coisas. Observe que o direito das
obrigações é interpartes, e o direito real tem eficácia erga omnes. Os direitos reais se sujeitam à
usucapião, os direitos das obrigações não.

Então você tem o poder de submeter o objeto a sua própria vontade (em uma leitura
moderna do direito real não é tão ilimitado assim, porque a titularidade da coisa depende da
função social – art. 5o, XXII e XXIII, da CRFB), então a propriedade que não cumpre a sua função
social não é reconhecida do direito constitucional. Agora, absoluto esse direito real se mantém
(alguns doutrinadores e jurisprudências dizem que não é mais absoluto, mas ele é!), porém não
é mais ilimitado.

Obs¹: direito real só é criado pela lei, uma vez que tem como consequência o efeito erga
omnes.

a) Obrigações com eficácia real:

Na origem, há um vínculo obrigacional oriundo da manifestação de vontade e que assim


o sendo, gera efeitos interpartes. Todavia, em razão da lei, a manifestação de vontade pode
inserir nesse contrato uma cláusula que gere eficácia real(efeitos erga omnes). O direito real só é
criado por lei (porque gera efeito erga omnes), já o direito obrigacional é da manifestação da
vontade (gerando efeitos interpartes).

Exemplo: contrato de locação – é um contrato de natureza pessoal, que é um vínculo jurídico


formado entre locador e locatário e que obriga a terceiros. O art. 8o, da Lei de Locações trabalha
com uma cláusula de vigência locatícia. O exercício da posse (usar e gozar) é do locatário,
enquanto o locador mantem os outros domínios (dispor e reaver), nada impedindo que o locador
disponha da coisa. Então o terceiro, que vai comprar a coisa, não impede do terceiro adquirente
de buscar a coisa, salvo se inserir a clausula de vigência locatícia, que ela dará efeito erga omnes.
Tendo essa cláusula o adquirente pode comprar, mas ele terá que respeitar o contrato em vigor
(estando no RGI averbado), não podendo tirar o locatário da locação.

37
Outro exemplo é o direito de preferência (art. 33, da Lei de Locações), que se for ventura o
locador resolver alienar o bem a terceiro, deve dar preferência ao locatário. Não dando, o
locatário tem 6 meses para buscar o bem. Tem que estar registrado no RGI para poder obrigar a
terceiro. Caso ele venda a terceiro e não dê preferência ao locatário e não estando averbada na
origem do imóvel, fica somente entre as partes, podendo o locatário pedir perdas e danos.

b) Obrigações propter rem:

São aquelas em que há um dever de prestar não oriundo da manifestação de vontade,


mas do simples fato de ser titular de uma coisa. O titular da coisa tem a responsabilidade de pagar
quanto a essas prestações, porque, na verdade, a obrigação é da própria coisa, porém ela não
tem como pagar, alguém tem que pagar por ela, então quem pagará é o responsável pelo seu
objeto, logo, essa coisa gera despesas que deverão ser feitas pelo seu titular.

Obs¹: Ex.: você mora no condomínio edilício e ele por si só produz despesa (aquela unidade
particular integra um todo que produz despesa).

Ex.: o IPTU é imposto sobre bens imóveis, sendo o imóvel que gera o IPTU. Você tem o dever
de prestar essa pecúnia pelo simples fato de ser o titular da coisa.

• Cuidado! Nas obrigações propter rem há essa relação. Direito de vizinhança é obrigação,
o dever de não fazer é do simples fato de você ser possuidor da coisa você não pode fazer algumas
coisas que estão na Lei.

c) Ônus reais:

Obrigação que surge da coisa que vincula terceiros pelo simples fato de não ter sido
adimplida quando da época oportuna e que, necessariamente, resta atrelada a coisa em razão
do princípio da ambulatoriedade.

A coisa irá responder pela dívida, leva o bem para hasta pública. Se mesmo em hasta
pública não ter sido suficiente para quitação da dívida, invade o patrimônio da pessoa que deu
causa.

Obs¹: terceiro resolveu pagar o imóvel: a dívida é do imóvel, logo, a obrigação do pagamento será
da coisa, ou, do dano da coisa. Nesse caso, o terceiro adquirente irá pagar e depois por meio de
ação de regresso requerer o valor pago.

Obs²: executou a coisa, sobrou um resquício, quem irá pagar? Não será o terceiro
adquirente, uma vez que não foi ele que deu origem a divida e sim o alienante.

d) Sub-rogação real:

Observe que a sub-rogação pessoal, que é trabalhada tanto por critérios legais como por
de convenção entre as partes (art. 346, CC), você substitui pessoas (fiador chamado a pagar a
dívida do locatário se sub-roga nos direitos de pagar). Mas a sub-rogação real não te um capítulo
específico, somente espalhado no CC, não se substitui pessoas, mas coisas, por isso que é real.

38
Ex.: então, se você resolver casar e você tem bens particulares que você adquiriu antes do
casamento, casando pelo regime da comunhão parcial, previsto em lei, ou seja, só se comunica
os bens adquiridos na constância do patrimônio. Ela resolveu vender o bem particular, mas
primeiro tem que passar pela outorga marital. Ele tem cunho econômico, então a repercussão do
cunho econômico integra o interesse da família (art. 87, do CC. É uma cláusula de anulabilidade,
você tem que passar pelo crivo, mas tem que justificar senão tem abuso do poder). Vendeu o
bem certo, entrando no patrimônio pecúnia. O antigo proprietário resolveu comprar outro imóvel
na constância do matrimonio, então em tese comunicaria. Mas o que acontece? Sub-rogação
real, aquele bem adquirido recebe as qualidades do bem anterior, de bem particular (art. 1.659,
II, do CC).

Ex.: um titular de um patrimônio resolveu fazer testamento, porque está preocupado com
seus descendentes, gravando com cláusula de inalienabilidade para terceiros. Claro que ela tem
que ter uma justa causa, diante dos poderes inerentes ao domínio: usar, gozar, dispor e reaver.
Só que se houver uma fatalidade naquele imóvel, o proprietário terá que morar lá mesmo ferindo
sua dignidade? A Lei autoriza, desde que autorizado ao magistrado, alienar esse bem a terceiro,
mas quando alienar, ele irá necessariamente com a cláusula de inalienabilidade.

Exemplos: art.1659,II.

 OBRIGAÇÕES DE DAR: Art. 233 CC

É aquela na qual o devedor se compromete em benefício do credor a promover a tradição


(que é a transferência da propriedade do bem, não é só venda!) de uma coisa móvel ou imóvel,
ceder sua posse ou ainda restitui-la.

Então, aqui o que interessa para o credor é a tradição da coisa ou a posse do bem, pouco
importando a atividade do devedor para que ele realize a tradição. A prestação in natura é a coisa
ou a posse. Nas obrigações de dar, dentro de uma visão clássica, não satisfeito o credor ele irá ao
patrimônio do devedor e pega a coisa. Já nas obrigações de fazer, você precisa de um atuar do
devedor e dentro da visão clássica, ninguém é obrigado a fazer o que não é de sua vontade,
resolvendo em perdas e danos. Hoje isso é mitigado, pelas astreintes ou por um cumprimento de
terceiro (obrigação de fazer, mas o CPC hoje autoriza também para uma obrigação de dar, mas
ainda é controvertido).

Dentro das obrigações de dar, temos as espécies:

‣Obrigações de dar coisa certa

‣Obrigações de dar coisa incerta

I- OBRIGAÇÕES DE DAR COISA CERTA:

O objeto da prestação já se encontra plenamente individualizado, seja no gênero, na


quantidade e na qualidade.

Princípio da especialidade/identidade do objeto: art. 313 CC.

Ex.: o automóvel, é um bem fungível. A princípio ele está no rol de dar coisa incerta, mas quando
se tem um automóvel de chassi xxx está plenamente obrigado o objeto – princípio da
especialidade ou da identidade do objeto (art. 313, CC), sendo que o credor não é obrigado a

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receber coisa diversa, ainda que mais valiosa. Observe que se o credor aceitar, não é mais um
objeto in natura, ocorreu uma extinção da prestação e do vínculo prestacional de forma indireta,
pela dação em pagamento.

II- OBRIGAÇÕES DE DAR COISA INCERTA:

Nas obrigações de dar coisa incerta, o objeto de formação pelo vínculo jurídico é tão
somente conhecido pelo gênero e quantidade, devendo-se posteriormente ser submetido ao ato
de escolha, o tornando definitivo e, a partir de então, atrelado a regra as obrigações de dar coisa
certa.

No momento da formação do vínculo jurídico nós temos um gênero (entregar dez sacas
de feijão), mas não se sabe qual o feijão, que irá torná-lo aquele objeto único e indiscutível. Essa
escolha, a princípio, é realizada pelo devedor, salvo disposição em contrário (art. 244, do CC).

O art. 244, parte final, do CC diz que o devedor não poderá dar a coisa melhor, nem
obrigado a dar coisa pior.

Caio Mario diz que se deve trabalhar com a média. Mas se estamos em âmbito de compra
e venda, deve-se esperar que o preço está em acordo com o objeto, tendo uma paridade da
relação.

A partir do ato de escolha, o objeto se torna individualizado, mas isso tem que ser de
conhecimento da outra parte, porque senão a coisa ainda é de gênero (art. 245, do CC – as
sessões antecedentes é de entregar coisa certa). O art. 246, do CC diz que antes da escolha o
devedor não poderá complementar ainda que por força maior ou caso fortuito, mas isso não é
absoluto assim.

Pôde-se ter as dívidas genéricas restritas: você restringe o gênero ao ambiente. Entregar
100 vacas holandesas da fazenda Piauí. Você não sabe quais são as 100, mas antes da escolha a
fazenda sofre uma erosão e as 500 vacas vão para o brejo, todas morrem. Então, está restrita à
fazenda Piauí, não podendo sair para comprar em outro lugar; restringe-se ao contrato e resolve-
se, as partes voltando ao status quo anterior.

 Responsabilidade civil:
No âmbito do estudo geral, a nossa responsabilidade é subjetiva, ou seja, devendo se
analisar culpa. Diz o legislador a partir do art. 234, do CC que se a coisa se perder sem culpa do
devedor, resolve-se a obrigação e as partes voltam ao status quo antes; mas se o devedor perdera
coisa por culpa, responde por perdas e danos de modo equivalente.

A doutrina é tranquila em entender que um conceito pra equivalente é a estimativa


pecuniária do objeto, é quanto ele vale.

Ex.: a pessoa adquiriu um elefante da África, mas ele vem se perder por culpa do devedor porque
ministrou um remédio errado ao elefante. Se o credor iria pagar 90 pelo elefante, ele terá que
restituir os 90 e também os lucros emergentes e os lucros cessantes (deixa de lucrar).

Observe que se o dano emergente é o prejuízo patrimonial oriundo da perda da coisa e


se a coisa vale 90 e se o equivalente é 90, não tem o que falar sobre lucro emergente. Mas na

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literalidade do dispositivo, entende-se equivalente + perdas e danos (porque se tem um contrato
que você terá um inadimplemento). A doutrina fala que só se fala em equivalente quando houver
o pagamento pelo credor e as perdas e danos que por ventura forem apuradas; se não adiantou
nada, é somente as perdas e danos (sendo que as perdas e danos tem que se mostrar o prejuízo).
Porém esse equivalente tem que ser interpretado à luz do enriquecimento sem causa.

Se a coisa se deteriorar sem culpa (art. 235, do CC), abre a opção de manter ainda o
objeto ou resolver a obrigação, sendo então um direito potestativo do credor, sendo um direito
potestativo – direito resolutivo da obrigação. Observe que isso não é tão absoluto assim (a
resolução da obrigação), temos que pensar à luz dos princípios da boa-fé, dever de cooperação.
Então, Caio Mario dirá que essa deterioração terá que ser analisada se não é um abuso do direito
(um leve arranhão no carro não pode ser motivo para resolução do contrato).

Então, quando não se há inadimplemento absoluto, há uma mora, a coisa vem a se perder
em função de caso fortuito ou coisa maior, porém ele não agiu com culpa. Aqui temos a chamada
perpetuação da obrigação. Essa obrigação é para se extinguir por estar por força maior, porém a
obrigação se perpetua por estar em mora (art. 399, primeira parte, do CC).

Uma exceção é se mesmo se ele não estivesse em mora, a coisa se deterioraria (o raio ia
cair de qualquer jeito na casa mesmo não estando em mora), art. 399, parte final, do CC.

A segunda hipótese de exceção de ingressão da perpetuação da obrigação é quando o


devedor prova de que não houve culpa para ingressar em mora (a pessoa tinha que entregar
carros em SP, mas o caminhão não conseguiu chegar porque o caminhão enguiçou porque teve
uma enchente).

III- OBRIGAÇÃO DE RESTITUIR:

A obrigação de restituir é uma subespécie da obrigação de dar, em que consiste na


devolução da posse da coisa ao credor no prazo pactuado ou quando extinta a finalidade para
tanto. No nosso sistema vigora o princípio da res perit dominus (ou seja, “a coisa perece para o
dono”), o dono que sofre as consequências da perda. Se na obrigação de dar o dono perde, ele
sofre as consequências. O mesmo vigora na obrigação de restituir, sendo que quem sofre é o
credor, porque o que houve foi somente a transferência do direito de posse (art. 238, do CC).

Aqui o equivalente é plenamente cabível, porque no nosso exemplo o equivalente é a


casa que se perdeu: se houve culpa, ele irá responder pelo equivalente + perdas e danos. Agora,
ela pode também se deteriorar na posse do terceiro, se ela se deteriorar sem culpa, resolve-se a
obrigação (art. 240, primeira parte, do CC). Se por culpa do devedor, terá que fazer o equivalente
por perdas e danos, mas a coisa é do proprietário ainda! Mas aqui deveria ser art. 236, do CC!
(Fazer remissão para art. 236 no art. 240, CC). Ele pode trabalhar o equivalente + perdas e danos
ou aceitar a coisa em que se encontra de modo razoável.

◦Enunciado 15, CJF;

 OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA (ART. 252, DO CC)

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As obrigações alternativas não se confundem com as obrigações de coisa incerta. Nestas
nós temos um único objeto identificado por gênero. Na obrigação alternativa nós temos mais de
um objeto principal e o devedor se exonera entregando um desses objetos: entrega de vaca ou
camelo. O devedor se exonera pegando a vaca ou o camelo. Também na obrigação alternativa, a
escolha se dá ao devedor.

A perda deve ser analisada antes da escolha, mas se tem mais de um objeto para serem
entregues. Se um dos objetos se perde sem culpa, entrega o outro. Se ambos se perderem sem
culpa do devedor, resolve-se a obrigação. Se houver culpa do devedor, analisamos quem
competia a escolha: um dos objetos se perde por culpa, a escolha sendo do devedor, ele
entregará o remanescente. Agora se os dois objetos se perderem por culpa, em um ou em ambos,
o legislador diz que ele responderá pelo equivalente mais perdas e danos, o qual por último se
perdeu.

Agora, se houve culpa do devedor e a escolha é do credor, ou ele concentra no


remanescente ou busca o remanescente mais perdas e danos. Ou se os dois se perderem, ele irá
escolher o equivalente, mais perdas e danos, com equivalente dos dois.

Observe que essa escolha é irrevogável por segurança jurídica, sendo definitiva e
irrevogável. Porém, temos uma exceção no art. 252, §2o, do CC, que trabalha com as obrigações
de trato sucessivo ou periódica: em cada período poderá o devedor alterar a escolha, podendo
ser um período escolhido pela vontade das partes.

Deve-se sempre trabalhar com os deveres anexos da boa-fé objetiva: a conduta do


devedor ao longo do tempo a mesma, quando ele romper essa conduta e entrega outra, ele atua
contraditoriamente – conduta supressio, aquela conduta reiterada. Alegar isso não é tão somente
trabalhar com a quebra da confiança e o fator tempo da boa-fé, tendo sempre que analisar os
prejuízos. A supressio mantém o status quo, porque tem o direito de exigir a vaca, porque ele
demonstra que tem prejuízo (podendo exigir do devedor o mesmo objeto).

 OBRIGAÇÕES FACULTATIVAS

Essa obrigação facultativa não está na Lei, sendo uma construção da doutrina, diante de
uma prática da sociedade. As obrigações facultativas não se confunde com as alternativas. Nas
obrigações facultativas teremos o objeto principal que deverá ser cumprida pelo devedor. Porém,
nesse mesmo contrato, pode o devedor se exonerar entregando o objeto principal ou o
subsidiário. Observe que o devedor também escolhe quando chega a data do pagamento, o
devedor faz a escolha.

Obs¹: Aqui não é dação em pagamento, porque você só conhece o objeto substituído na dação
em pagamento somente no pagamento. Aqui na obrigação facultativa você conhece na
pactuação.

Percebam, nas obrigações alternativas, se um dos objetos se perder sem culpa do


devedor, ele terá que entregar o remanescente. Nas obrigações facultativas, se o objeto principal
se perder sem culpa, ele não deve entregar o objeto subsidiário. O nome é facultativa, porque
quando chega no pagamento, o devedor tem a faculdade de entregar o principal ou o subsidiário.

Mas se o objeto principal se perder com culpa, pôde-se entregar o subsidiário, porque a
escolha será do devedor na hora de entrega.

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 OBRIGAÇÕES DE FAZER

Nas obrigações de fazer, o devedor se compromete a prestar um serviço ou uma


atividade em prol do credor. Ou seja, o que interessa ao credor é um fazer e não uma coisa. Esse
fazer pode ser fungível ou infungível. O fazer será infungível quando além do serviço, interessa
para o credor a pessoalidade daquele que vai executar o serviço – ou seja, é uma obrigação
personalíssima. Essa infungibilidade decorre da natureza da obrigação ou da vontade das partes
(art. 247, do CC).

Esse dispositivo é demasiadamente criticado pela doutrina, porque temos que entender
as perdas e danos como a última ratio e não a primeira. Deve-se buscar primeiro o adimplemento
da obrigação, então deveria se buscar as astreintes, que tem como natureza jurídica uma multa
coercitiva, para que o devedor saia da inércia e cumpra a obrigação. Observe que as astreintes
seria por uma obrigação infungível. Mas você pode encontrar a imposição das astreintes para
obrigações fungíveis. Então, quando se impõe astreintes você passa a violar os princípios
constitucionais da pessoa humana.

Obs¹: O inadimplemento pode ser oriundo por fato de natureza material ou jurídica.

‣Fato oriundo de natureza material – ex: um vestido de noiva que não foi entregue no casamento.
Não há mais interesse no contrato depois da festa.

‣ Fato oriundo de natureza jurídica – ex: fazer Crossfit e acaba empurrando alguém que é
atropelado. Ou contrata um químico que quer fazer um produto próprio para ele, e a Anvisa
proíbe o produto durante a mora. Responde por perdas e danos, pela perpetuação das
obrigações (aplica-se o art. 239, do CC).

O art. 249, do CC diz que será livre o credor mandar executar a custa do devedor quando
puder ser feito por terceiro. Quando a busca pelo judiciário fulminar o interesse, pode se valor
da autotutela (sendo esta uma exceção). Havendo urgência, pode o credor se valer da autotutela.
Mas o que é urgência? É um conceito indeterminado.

 OBRIGAÇÕES DE NÃO FAZER (A PARTIR DO ART. 250, DO CC)

Nas obrigações de não fazer, espera-se do devedor uma abstenção de um ato, de um fato
ou de um serviço que, em tese, poderia desempenhar caso não fosse a obrigação por ele
assumida.

Nas obrigações de não fazer, como está atrelada a uma abstenção do devedor, ela é
personalíssima. Como temos uma abstenção ela pode ser tanto pessoal quanto patrimonial. Se
ela é patrimonial (não alienar o imóvel), ele pode assumir pelo tempo em que ele entender
razoável. Essa clausula, se ela não estiver averbada na matricula do imóvel não exclui terceiro.
Agora, quando esse não fazer estiver atrelado à pessoa do devedor, porque deve ser observado
se atinge a dignidade ou não (sua liberdade de casar, por exemplo).

Se ele pratica o ato do qual se absteve, não tendo culpa, resolve-se a obrigação. Caio
Mario entendia que nas obrigações negativas, elas são instantâneas (art. 390, do CC), então pode
se falar de mora nas obrigações negativas, quando se for de trato sucessivo, podendo se falar em
perdas e danos (morga e purga da mora nas obrigações negativas).

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Se o ato vier a ser praticado e houver interesse na execução de não fazer, o desfazimento
do ato pode ser tanto pelo executor quanto por terceiro (art. 251, do CC).

 28/08 - Aula 07

 Obrigações de meio

Nas obrigações de meio, o devedor se compromete a empregar todo seu conhecimento


e técnica para execução do serviço, mas sem garantir o resultado esperado pelo credor. Deve ser
diligente, competente naquilo que pretende desempenhar, mas não tem como garantir o
resultado querido pelo credor, pois este foge de sua esfera da atuação; ele não manipula o
resultado.

 Obrigações de resultado

O resultado é da própria essência da obrigação, e, uma vez não atingido esse resultado,
o devedor responde pelo inadimplemento ou pela mora. Aqui, o devedor não tem como se
desvincular do resultado, pois este integra o objeto da obrigação.

Essas classificações são estudadas tão somente para se saber acerca do ônus da prova. A
regra é responsabilidade subjetiva.

Nas obrigações de meio, cabe ao credor provar que o devedor não foi diligente, deverá
comprovar sua culpa.

Já nas obrigações de resultado, o devedor que deverá comprovar que não agiu com culpa.

Obs.: art. 14, §4º, CDC - para os autônomos, a responsabilidade é subjetiva.

 Obrigações divisíveis e indivisíveis (art. 257 e ss, CC)

Obs.: O que é divisível ou não é o objeto da prestação, e não a obrigação em si.

1. Obrigações divisíveis (art. 257, CC)

O conceito para a divisibilidade ou não, aqui, é jurídico, e não material.

Um objeto divisível (juridicamente) é todo objeto que pode ser fracionado, sem perda da
sua substância, características e finalidade, e que ainda não sofra depreciação econômica (art.
87, CC).

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Só vamos estudar este assunto, quando estivermos diante de pluralidade de sujeitos (art.
257, CC). Havendo unicidade de sujeitos, não se entra no estudo desta matéria (art. 314, CC). A
regra é a divisibilidade apenas quando estivermos diante de pluralidade de sujeitos (concursu
parres fiunt - as partes só se responsabilizam por sua quota parte, pois ninguém se obriga por
mais que aquilo pelo que manifestou sua vontade).

Em uma obrigação divisível, onde há mais pluralidade de credores, cada credor só pode
exigir de seu devedor a sua quota parte. Por outro lado, havendo pluralidade devedores, o credor
só pode exigir a quota parte de cada um dos devedores.

Obs.: Prescrição - art. 197, CC.

2. Obrigações indivisíveis (art. 258 e ss, CC)

A partir do art. 258, estão as obrigações indivisíveis. A primeira exceção à regra do


concursu parres fiunt é a obrigação indivisível. Essa obrigações pode ser indivisíveis em razão de
3 situações, no tange ao objeto da obrigação: em razão da natureza da coisa; coisas que só
ganham cunho econômico conjuntamente (o conjunto a torna indivisível); e dada a razão
determinante do negócio jurídico (art. 258, CC).

Obs.: Remissão se refere a perdão (SS = duas pessoas ajoelhadas); aqui, o verbo é “remitir” (o “T”
lembra a cruz). Remição se refere a pagamento (Ç lembra $); aqui, o verbo é “remir”.

 Obrigações solidárias (art. 264 e ss, CC)

Nas obrigações solidárias, credores e devedores são legitimados a exigir, bem como
pagar, o todo, ou seja, há um expansão da responsabilidade individual, uma vez que esta não está
mais adstrita, a partir da manifestação de vontade, à quota parte de cada um.

Na solidariedade ativa, há pluralidade de credores e, segundo a doutrina, é um instituto


que está em desuso, pois não traz segurança aos credores para o recebimento. É um facilitador
para o devedor, que se exonera pagando o todo para qualquer um dos credores (não há
necessidade da caução de ratificação).

Na solidariedade passiva, há uma pluralidade de devedores, onde há uma facilitação do


pagamento, pois o credor pode exigir o todo de qualquer um desses devedores.

Há 3 postulados da solidariedade.

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1. Ocorrência da solidariedade tão somente no plano externo da relação. Ocorre no plano
externo, ou seja, relação entre credor e devedor. No plano interno, não há solidariedade,
a princípio; ocorre o fracionamento (entre cocredores ou codevedores).
2. Quitação integral. O credor tem legitimidade para dar instrumento de quitação sobre o
todo.
3. A solidariedade não se presume; decorre da lei ou da vontade das partes (art. 265, CC).
Ex: art. 942, CC (exemplo de solidariedade legal).

O entendimento do art. 284, CC, segundo a doutrina (Gustavo Tepedino), também se


aplica na situação de remissão de um dos devedores pelo credor (art. 277, CC). Ou seja, para que
os devedores não sejam prejudicados por ato exclusivo do credor (remissão da dívida de um dos
devedores), este devedor também deverá integrar o rateio para pagamento da quota do devedor
insolvente.

Art. 285, CC. Trata da figura do fiador (art. 828, II, CC). O fiador não é devedor solidário, é mero
solidário. Trata da situação do fiador de um dos devedores, que paga a integralidade da dívida ao
credor. Logo, devedor afiançado deve restituir a integralidade da quantia paga por seu fiador.

 Cessão de crédito

Transmissão das obrigações é gênero, da qual são espécies a cessão de crédito e a


assunção de dividas.

A cessão de crédito é um negócio jurídico bilateral, pelo qual o credor transfere a outrem
seus direitos na relação obrigacional, seja a título oneroso (que é o mais comum) ou gratuito, e
independentemente da concordância do devedor.

As figuras jurídicas que transitam por esse ambiente são 3: o cedente (credor), o
cessionário (aquele que adquire o crédito) e o cedido (devedor).

Por consistir numa relação jurídica de direito privado, as partes podem realizar uma
cessão de crédito total ou parcial. Nesta última, o credor continua atrelado ao vínculo jurídico.

Obs.: Devem ser respeitados os critérios do art. 104, CC.

Obs¹: Não há anuência do devedor nessa relação.

A princípio, podemos falar de uma cessão de qualquer crédito. As exceções podem se dar
com relação à natureza desse crédito (ex: crédito de natureza alimentar), créditos oriundos de
critérios legais (ex: art. 298, CC) ou por disposição contratual das partes (por critérios de
convenção).

A cessão de crédito é, a principio, pro soluto, pois o cedente garante a existência e a


titularidade do crédito, mas não garante a solvência do devedor (art. 295, CC). Porém, pode haver
hipótese de se tratar de cessão pro soluto e pro solvendo, ao mesmo tempo (art. 296, CC).

A cessão de crédito convencional é aquela oriunda da vontade das partes.

A cessão de crédito legal é aquela imposta pela lei; é automática (ex: art. 287, CC).

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A cessão de crédito judicial é aquela feita em juízo, determinada pelo magistrado.

A cessão de crédito não passa pelo crivo do devedor. Porém, para que tenha eficácia
perante este devedor, é necessário que este tenha ciência da cessão de crédito; o devedor precisa
ser notificado (art. 290, CC).

Essa notificação é importante, também, no que se refere às exceções pessoais que o


credor tinha perante o devedor (art. 294, CC).

O STJ tem um posicionamento tranquilo no sentido de que os contratos de factoring,


atrelados ao CDC, consistem em cessão de crédito (AgRg no AREsp 592779). Logo, no momento
em que os cheques são repassados à empresa, deve haver a notificação do cedido.

 Assunção de dívidas (art. 299 e ss, CC)

Obs¹: Era uma prática comercial, que não tinha correspondente legal no anterior CC.

Assunção de dívidas é um negócio jurídico bilateral, pelo qual o devedor, com anuência
expressa do credor, transfere a um terceiro, que o substitui (ou não), os encargos obrigacionais,
de modo que este assume sua posição na relação obrigacional, responsabilizando-se pela dívida,
que subsiste com seus acessórios.

Deve haver anuência expressa do credor, pois há substituição do patrimônio do devedor;


inclusive o próprio caráter do devedor pode influenciar nesta relação.

Modalidades que transitam pela assunção de dívidas:

1. Modalidade cumulativa. Não está na lei; decorre da manifestação de vontade das partes
(a lei não proíbe). Nesta modalidade, o terceiro assume a dívida, sem excluir o devedor;
amplia-se o polo passivo e permite ao credor cobrar o todo do assuntor ou do devedor
originário. Pagando o todo o assuntor, este não pode cobrar quota parte do devedor
originário, pois a solidariedade não se presume, decorrendo da lei ou da vontade das
partes.

1. Modalidade liberatória (art. 299 e ss, CC). O devedor originário é liberado do polo passivo;
é exonerado da dívida, devendo responder por ela tão somente o assuntor.

As partes podem implementar. assunção de dívidas através de 2 maneiras.

1. Expromissão. Aqui, o credor convida um terceiro (assuntor) a ingressar no polo passivo.


É o credor que está procurando se resguardar; isto não passa pelo crivo do devedor.
Nessa negociação, entre credor e assuntor, estes decidem a modalidade que será
implementada.

1. Delegação. Aqui, há uma relação jurídica trilateral, pois num primeiro momento, há um
devedor ofertando um assuntor ao credor. Se este anuir com a assunção, eles decidirão
a modalidade de assunção a ser implementada (cumulativa ou liberatória).

Obs.:Art. 300, CC. Se houver uma garantia especial (real ou fidejussória) prestada por um terceiro,
para que esta garantia seja transferida com a assunção da dívida, deve haver o consentimento
daquele garantidor (Enunciados 353 e 422, CJF).

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 Pagamento (art. 304 e ss, CC)

O pagamento é uma espécie do gênero extinção das obrigações. É a única hipótese


voluntária de cumprimento/extinção da obrigação.

O terceiro interessado é aquele que pode vir a sofrer as consequências do


inadimplemento, por ter se colocado numa posição de garantidor (ex: fiador - art. 346, III, CC). A
lei entende ainda que pode ser aquele que indiretamente sofre as consequências do
inadimplemento, seja por questões jurídicas ou econômicas (ex: sublocatário que paga divida do
locatário para com o locador, para não se ver despejado do imóvel sublocado - art. 346, II, CC).

O meio conducente à exoneração do devedor (art. 304, CC) é a consignação em


pagamento (art. 334, CC).

O terceiro não interessado é aquele que é um intruso no vínculo jurídico, que o faz por
questões morais (ex: pai que paga dívida do filho). Este pode efetuar o pagamento em seu próprio
nome ou em nomeado devedor.

Se o fizer em nome próprio, a lei lhe confere o direito de reembolso daquilo que
efetivamente pagou. A lei, no intuito de homenagear a prestação in natura, optou pela
possibilidade de conferir-lhe também a subrogação, que é convencional, ou seja, decorre da
manifestação de vontade das partes (art. 347, I, CC).

Obs.: art. 348 c/c 290, CC - aqui, a pessoa só se subroga por aquilo que pagou; se não pagar a
dívida integral, o credor permanece da relação jurídica, sendo titular da cobrança daquilo que
sobrou.

Se o terceiro não interessado efetuar o pagamento em nome próprio, à revelia do


devedor (sem o conhecimento do devedor), e quando o devedor demonstrar que tinha meios
para efetuar o pagamento, não obriga o devedor a reembolsá-lo (art. 306, CC).

Se o terceiro não interessado efetua o pagamento em nome do devedor, não terá direito
nem de reembolso, nem se subrogação, pois o que ocorreu foi uma doação, uma liberalidade. É
como se o próprio devedor tivesse efetuado o pagamento.

O pagamento deve ser efetuado ao credor, ou a quem o represente. Porém, este


entendimento abarca exceções (art. 308, CC).

Credor putativo é aquele que se apresenta ao devedor como sendo o verdadeiro credor,
por realmente acreditar sê-lo, pela situação fática aparentar tanto, e o credor o paga, por
acreditar ser este o verdadeiro credor (art. 309, CC).

Obs.: art. 310, CC.

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 03/09 - Aula 08 (caderno da Carol)

I. Formas de Extinção da obrigação

1. Pagamento Direto (Adimplemento) = satisfação direta e imediata do interesse do credor.


O pagamento pactuado e feito é a “prestação”. Não é dinheiro, muitos confundem.

2. Pagamento Indireto = interesse do credor é feito de forma indireta, mediata, dação em


pagamento (devedor paga com a outra prestação), sub-rogação, etc.

3. Formas especiais de extinção das obrigações = interesse do credor NÃO É SATISFEITO mas
mesmo assim a obrigação é extinta porque houve inadimplemento. Ex: confusão (credor e
devedor são a mesma pessoa).

2. Espécies de extinção da obrigação por pagamento indireto

a) Dação em pagamento – Art.356 CC;

Trata-se de uma forma indireta de extinção. Nesse caso, o devedor se libera da obrigação
entregando prestação diversa da pactuada com o consentimento do credor.

“dação in solutum” (# dação pro solvendo!) - não extingue, apenas é mero facilitador do
pagamento.

Ex: tem que pagar 300.000 e entrega um carro no lugar.

Art 313 - credor não é obrigado a aceitar, mesmo que seja mais valiosa.

Ex prático: devedor entrega um cheque (não pagou na verdade). Recebedor endossa o cheque.
Pode depois devolver o cheque e continuar cobrando.

Obs¹: Conforme 358, se o bem dado em dação em pagamento for título de crédito, a transferência
importará em cessão de crédito.

Requisitos:

a. Dívida vencida

b. Consentimento do credor

c. Animus solvendi = intenção de pagar, se não é simples liberalidade.

Obs¹: Recibo: é importante, porque dá segurança ao devedor, se não poderia haver a hipótese de
entregar um presente caro e dizer que “já pagou”, mas o credor não sabia, não percebeu e
aceitou como “presente”, e não como pagamento.

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Art. 357:Se você paga entregando um bem (um imóvel, por exemplo), a quem cabem os gastos
com registro? Ao credor (adquirente do bem)! Por força do 357, determinado o preço da coisa
dada em pagamento, as relações entre as partes regular-se-ão pelas normas do contrato de
compra e venda, e neste tipo de contrato é o comprador que arca com esse tipo de registro
(sublinhar no art 490). (fazer remissão!)

Art. 357. Determinado o preço da coisa dada em pagamento, as relações entre as partes regular-
se-ão pelas normas do contrato de compra e venda.

Art. 490. Salvo cláusula em contrário, ficarão as despesas de escritura e registro a cargo do
comprador, e a cargo do vendedor as da tradição.

João tem 2 filhos- f1 e f2.

F1 emprestou $ a João. (contrato de mútuo) - coisa fungível. F1 é credor de 1 milhão.

Art.357 cumulado com 496 (regra) Apesar de não ser tecnicamente uma compra e venda, precisa
do consentimento dos demais filhos e do cônjuge (art. 496). No regime da separação obrigatória
NÃO (exceção parágrafo único).

STJ – obrigação alimentar dispensa anuência (exceção). STJ entende que dívida de alimentos não
se equipara a uma compra e venda. Os outros filhos não têm que dar consentimento (Nesse caso
não se aplica 357+496).

Obs: examinador gosta de misturar obrigações e contratos, obrigações e sucessões.

>> OBS: Evicção (contratos) = perda da coisa transferida, em razão de sentença que reconhece
melhor direito de outrem (art. 450 = direitos do evicto).

EX: João alienante – Maria adquirente pagou 400 mil a João. José ingressou com ação
reivindicatória em face de Maria. Houve fraude e se ele provar, Maria perde o imóvel. Maria vai
acionar João – vai pedir o valor do bem (não o reembolso) mais os danos (custas processuais,
valor do registro, honorários, etc).

João depois vai acionar quem vendeu para ele, e assim sucessivamente, até eventualmente
chegar até José.

Exemplo de caso diverso: Bruna deve 30 mil a Flávio, e entrega carro no valor de 28 mil. Flávio dá
quitação total (ocorreu dação em pagamento). Marcos pede o carro depois, juiz julga procedente.
Flávio PERDE o veículo (que volta para Marcos), mas apesar de ser evicção, Flávio não pode
acionar Bruna – art. 359. A obrigação original se restabelece:

Art. 359. Se o credor for evicto da coisa recebida em pagamento, restabelecer-se-á a obrigação
primitiva, ficando sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros.

50
Esquece tudo e Bruna continua devendo 30 mil, com juros, correção e multa desde a data do
vencimento.

Prescrição – art 199 = prazo fica suspenso na “situação” de evicção.

Art. 199. Não corre igualmente a prescrição:

III - pendendo ação de evicção.

Imputação ao pagamento – 352 a 355

Pode ser definido como sendo “indicar” qual dívida está sendo paga.

Ex: 3 dívidas – 5 mil cada uma. Se todas já estão vencidas, ele deve 15 mil. Considerando que
todas são relativas ao mesmo credor, e o devedor só tem 5 mil, e paga esse valor, qual das dívidas
pagou? O devedor vai indicar o que está pagando, independente de qual venceu primeiro, de
qual é maior.

Se o devedor não indicar, vai ser considerada paga a dívida que o credor indicar no recibo.

Se credor também não indicar:

- se alguma tiver juros, será sobre a que corre juros (independente da matéria);

- nas líquidas e vencidas – a que for de maior valor

- se todas venceram juntas – a mais onerosa

- se todas venceram juntas e são de mesmo valor – a que tiver alguma multa (a mais onerosa)

- se de todo modo não der pra fazer nenhuma das acepções acima, a lei não diz o que fazer. A
doutrina aplica um artigo já revogado, 433 IV C Comercial, que previa o “abatimento proporcional
de todas as dívidas”.

Outra parcela da doutrina diz que se fizer abatimento proporcional, o juiz decidirá qual das duas
foi extinta.

Prevalece o entendimento de abatimento proporcional.

Ex: pagar 3 dividas de cortiço, iguais – proporcional.

Já vimos pagamento e dação em pagamento.

Ex de aplicação prática disso: Cortiços – aluga quartos. Às vezes, a família faz 3 contratos iguais,
de 3 quartos idênticos, de igual valor.

51
Consignação em pagamento

Em direito civil, o que extingue a obrigação é o pagamento em consignação. E o


procedimento previsto no CPC é a consignação em pagamento.

No CC o pagamento em consignação está previsto no art. 334 e ss. E o procedimento da


consignação em pagamento está prevista no art. 539 no CPC.

Ocorre quando o credor dificulta o pagamento, ou quando não foi encontrado.

O pagamento em consignação pode ser feito judicialmente ou extrajudicialmente.

Vantagem para o devedor: não será considerado em mora.

Outra situação: quando a obrigação está litigiosa. O devedor não deve fazer o pagamento
quando o crédito é litigioso. Se o devedor tem conhecimento do litígio, não pode pagar para
qualquer dos 2. Art 344.

Ex: cessão de credito – João é credor de maria, mas cedeu o credito para marcos. Maria
precisa ser notificada dessa cessão. Se não for notificada e pagar pra João, antigo credor, não
pode ser responsabilizada, pois pagou para o credor putativo. Agora, se ela foi notificada, se
pagou pra João, tem que pagar para Marcos de novo.

Quem paga mal paga 2x, mas não tem prejuízo em dobro. Se paga pra João, tendo sido
notificada, vai ter q pagar pra marcos, mas pode se voltar em face de João em regresso e
recuperar aquele valor, pois João não podia ter recebido.

Outro ex: se Marcos apresenta uma notificação dizendo que João passou o crédito, mas
João fala que esse documento é falso, que não cedeu o crédito: Maria então deve consignar o
pagamento, pois não é juíza da situação para decidir para quem pagar.

Outro ex: marceneiro leva 3 meses pra fazer móvel, mas no fim das contas casal está se
separando quando ele termina de fazer – paga em consignação bem móvel em juízo.

NOVAÇÃO

Analisar a novação = também é uma forma de extinção das obrigações, em razão da


criação de uma nova obrigação. Uma nova obrigação é criada com a intenção de extinguir a
anterior.

A novação possui 3 requisitos:

1. A obrigação que será extinta com a criação de uma nova deve ser válida ou pelo menos
anulável = não é possível novar uma obrigação nula. (O ato nulo não admite ratificação). Art 367
cc. Obs: não é possível novar um contrato com cláusulas abusivas.

2. Para criar uma nova obrigação deve haver a substituição das partes ou do objeto.

3. Animus novandi = é essencial que haja a intenção de novar, ou seja, de extinguir a


obrigação anterior com essa nova. 361 – Essa é a diferença entre novação e renegociação, ou
aditamento negocial.

52
COMPENSAÇÃO

Situação em que credor e devedor podem compensar as suas dívidas recíprocas. A


compensação irá ocorrer quando 2 ou mais pessoas forem credoras e devedoras umas das outras.
Art 368.

Requisitos da Compensação– art. 369:

Art. 369. A compensação efetua-se entre dívidas líquidas, vencidas e de coisas fungíveis.

1. diante de uma dívida líquida (certa quanto à existência e determinada quanto ao seu
valor);

2. Vencida;

Ex- Maria deve 10000 prescritos pra João, e João deve 12000 pra Maria. Não pode compensar,
pagando só 2000 pra Maria.

A exceção (= defesa) (de João, neste caso) prescreve no mesmo prazo que a pretensão (“perdeu
a espada para cobrar o valor, perdeu o escudo para se defender”) – Então aqui não cabe João
alegar a exceção do art. 190, pois a dívida de Maria está prescrita. >>>> Fazer REMISSÃO no
código: 369 CC <–> 190 CC !

Art. 190. A exceção prescreve no mesmo prazo em que a pretensão.

Obs: Art. 372 = Prazo de favor: vence dia tal, mas dou até outros dias mais para pagar (estendo o
prazo); ou “se pagar ate o dia tal, tem tantos % de desconto” (na verdade não é desconto, é prazo
de favor). Esse prazo maior não pode ser usado como argumento para não compensar:

Art. 372. Os prazos de favor, embora consagrados pelo uso geral, não obstam a compensação.

Ou seja: apesar de estendido o prazo para pagamento, a dívida ainda se encontra vencida,
cumprindo o requisito para compensação, por isso o artigo fala que não obsta (porque caso
considerássemos que o prazo de favor prolonga o prazo de vencimento da dívida, isso obstaria a
compensação, pois a dívida não cumpriria o requisito de estar vencida).

Ex: Maria deve 10.000 ate 27 de agosto, mas por prazo de favor foi prorrogado ate dezembro. E
João deve pra Maria 5.000 ate setembro. Ele quer compensar, mas Maria se recusa dizendo que
ainda não venceu sua dúvida = errado! Venceu sim, o prazo de favor não se computa para fins de
vencimento!!! Então não há esse óbice alegado por Maria, não há óbice à compensação, neste
caso, conforme 372.

3. Coisa fungível.

CONFUSÃO

Forma peculiar de extinção – na mesma pessoa se reúnem as figuras de credor e devedor.


As regras estão no art. 381 a 384.

Duas situações:

 Uma decorrente da sucessão causa mortis – filho deve 1000 para o pai – o pai morre, e o
credito de 10000 que o pai tinha com o filho será transferido para o filho – se reunindo na mesma

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pessoa a figura de credor e devedor. Se tiver outro irmão, se confunde parcialmente, continuará
devendo 5000 ao espólio.

 Ou pode ocorrer na sucessão por atos inter vivos = empresa A compra empresa B
(incorporação empresarial)– uma credora da outra – confusão pois viram a mesma pessoa.

Art. 384. Cessando a confusão, para logo se restabelece, com todos os seus acessórios, a
obrigação anterior.

384 – ex: Se o CADE após analisar, informar que a incorporação da empresa A pela B foi inválida
– neste caso se trata de uma confusão por sucessão inter vivos que deixou de existir, e as
obrigações voltam a valer.

Obs¹: É possível cessar a confusão também em sucessão por ato causa mortis? Sim. Se foi
declarada a morte presumida desse pai, pode ser que o patrimônio tenha passado para o filho e
tenha havido a confusão. Com o retorno do ausente ou do morto presumido, aplica-se o 384
também.

3. Inadimplemento

Formas de inadimplemento:

Absoluto

Relativo (mora)

Violação positiva do contrato

 Inadimplemento Absoluto = ocorre quando a prestação principal não é cumprida, ou ela


não é mais util ao credor. Ex: bufett de casamento que chegou no dia seguinte.

Art. 389 = perdas e danos + juros + atualização monetária + honorários

O inadimplemento absoluto pode ser culposo (quando o indivíduo não cumpriu por culpa dele),
ou pode ser fortuito.

393 = devedor não cumpriu a prestação pois houve fato externo e imprevisível (fortuito).

Empresto meu carro – contrato de comodato – meu amigo teve o carro assaltado - Res perit
dominus – a coisa perece para o dono: meu amigo não será responsabilizado neste caso.

Porém, 399 – se o contrato era até semana passada, e meu amigo já esta em mora, neste caso,
mesmo sendo fortuito, responde pelo prejuízo (por causa da mora).

Porém, se conseguir comprovar que aconteceria o assalto da mesma forma (ex: botou o
carro na minha vaga, que eu coloco todo dia no Menezes Côrtes e que eu teria colocado também,
se ele já tivesse me devolvido) – neste caso meu amigo fica isento também (399 parte final - “ou
[se provar] que o dano sobreviria ainda quando a obrigação fosse oportunamente
desempenhada”).

 Inadimplemento relativo = mora

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A mora é quando a prestação não é cumprida no tempo, no local e na forma pactuada. 394 cc.

O devedor em mora também responde pelas perdas e danos. Art.395

 Violação positiva do contrato = forma de cumprimento imperfeito do contrato

Inadimplemento decorrente da não observância ou quebra dos deveres anexos da boa-fé objetiva
(lealdade, informação, proteção, confiança, cooperação).

Instrumentos para evitar o inadimplemento

CLÁUSULA PENAL

408 e seguintes - pena convencional, ou também chamada multa. Ambas as partes estão
inserindo-a no contrato, de comum acordo.

Cláusula penal = pacto acessório por meio do qual as partes visam antecipar a indenização
devida em caso de inadimplemento (absoluto ou relativo).

2 Funções:

 Pré-liquidar os danos, antecipar o valor da indenização em caso de inadimplemento,

 Função coercitiva – desestimular o devedor a não cumprir.

2 espécies de clausula penal:

 Moratória – multa para o caso de atraso (inadimplemento relativo) – é a multa que visa
antecipar a indenização devida em caso de mora. 411 cc. Pode fixar multa para obrigar a cumprir
obrigação acessória também, ex: multa de 1 real por não rebobinar a fita cassete.

 Compensatória = para compensar o inadimplemento absoluto. Limite do valor: valor da


prestação principal.

Art. 412. O valor da cominação imposta na cláusula penal não pode exceder o da obrigação
principal.

Art. 410: O credor decide se vai executar a multa ou a prestação.

Art. 410. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de total inadimplemento da obrigação,
esta converter-se-á em alternativa a benefício do credor.

Se o prejuízo gerado pelo inadimplemento superar o valor da multa: é possível pedir indenização
suplementar? Em regra NÃO – 416 p. Único. Caput – não é necessário provar o prejuízo.

Art 740 §3º - contrato de transporte – hipótese de expressa previsão da indenização MÁXIMA.

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Art. 413. A penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver
sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-
se em vista a natureza e a finalidade do negócio.

ARRAS OU SINAL

Pacto acessório pelo qual uma das partes entrega determinado bem ou valor a outra,
como forma de garantia do cumprimento da obrigação pactuada. (Valor entregue para garantir
que a obrigação seja cumprida).

2 tipos de arras ou sinal:

 Arras confirmatórias = sinal é pago para marcar o início de execução do contrato,


excluindo o direito de arrependimento.

418 = eu poderia exigir o cumprimento da obrigação, mas, se eu preferir, posso entender que o
contrato foi desfeito e ficar com o sinal (é mais prático para o vendedor isso, pois ele fica com o
sinal e pode vender pra outra pessoa pelo preço inteiro). Quem tem o direito de exigir o
cumprimento da obrigação escolhe se fica com o sinal e entende o negócio por desfeito, ou se
obriga a prestação, entendendo o sinal como parte do pagamento já. Quem deu as arras perde o
sinal, quem devolveu paga o sinal em dobro.

 Arras penitenciais = natureza indenizatória. Sinal é dado no contrato em que existe o


direito de arrependimento, se inserem nos contratos em que está garantido o direito de
arrependimento. Aqui não há inadimplemento, há o direito de voltar atrás.

Ex: estou vendendo apto, e faço promessa de compra e venda, recebi um sinal num contrato de
promessa de c.v. Eu quero ter direito de voltar atrás e vender por um preço maior se houver
boom imobiliário. Aqui não há inadimplemento, pois, a pessoa tem direito de se arrepender e
voltar atrás, devolvendo sinal em dobro.

Não existe uma data para exercer o direito de arrependimento, mas no avançar do
contrato, com a posse já conferida ao promitente comprador, gera uma legitima confiança de
que havendo o pagamento nos moldes acertados haveria uma integralização do contrato. Então,
ao exercer o direito de arrependimento pôde-se, nesse caso, configurar a violação da boa-fé
objetiva, pois esta na posse do bem, pagando as prestações – teria ocorrido a supressio desse
direito de arrependimento, então existiria a possibilidade de pedir indenização (porém, vale
ressaltar que pela literalidade do 420 não poderia ter pedido de indenização).

04/09 - Aula 09

Obs.: Estudar contratos em espécie em casa! O professor recomenda o livro do prof. Flávio
Tartuce.

 Teoria Geral dos Contratos

Contrato é um negócio jurídico bilateral, por meio do qual as partes convergem suas
vontades para atender determinadas finalidades, e essas finalidades devem estar de acordo com
o ordenamento jurídico, ou seja, dentro dos limites legais e atendendo aos princípios da boa fé
objetiva e da função social dos contratos.

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O ponto principal dos contratos é essa convergência de vontades; em rega, o contrato
nasce do consenso.

Podem ser destacados dois momentos da relação contratual: a fase pré contratual e a
fase contratual.

A fase é contratual também é chamada de fase das tratativas preliminares ou fase da


pontuação. Esta é uma fase pré contratual, ou seja, não há contrato ainda. Nesta fase, há
sondagens, conversas entre os pretensos contratantes, para verificar a viabilidade de um
contrato.

O que é principal nessas tratativas preliminares é que esta fase não vincula as partes;
ninguém fica obrigado pelo que for dito nessas conversas/sondagens.

Logo, as tratativas preliminares não vinculam as partes, no entanto, é possível que gerem
uma responsabilidade civil pré contratual. Toda vez que, numa fase pré contratual (tratativas),
uma das partes gerar uma expectativa legítima na outra, de que o contrato será celebrado, e, no
momento posterior, essa expectativa legítima vem a ser frustrada, verifica-se uma
comportamento contraditório abusivo, o chamado venire contra factum proprium; trata-se de
um abuso do direito, que gera um dever de indenizar (art. 187 c/c 927, CC).

Não são as tratativas que vinculam (estas nunca vinculam), mas o comportamento
abusivo da parte, que gera a responsabilidade civil.

A fase contratual começa com a proposta/oferta. Quando a proposta encontra a


aceitação, tem-se o chamado consenso (há a convergência de vontades); aqui, se forma o
contrato. a proposta vincula/obriga o proponente (art. 427, CC); uma vez feita a proposta, o
proponente fica vinculado a manter os termos de sua proposta, até os limites estabelecidos no
art. 428, CC.

Uma proposta de contrato entre pessoas presentes é aquela que é feita em contato
direto, imediato; o proponente tem condições de saber se a outra parte aceitou ou não (ex: entre
pessoas no mesmo espaço físico; por telefone; videoconferência). Já na proposta de contrato
entre ausentes, não há este contato direto e imediato; é preciso aguardar a resposta chegar (ex:
carta; email; mensagem de texto).

Obs.: Art. 428, II, CC - o juiz analisa no caso concreto este “tempo suficiente”, com base nos
costumes e na boa fé (art. 113, CC).

Existem duas teorias que tentam explicar o momento de formação do contrato entre
ausentes: a Teoria da expedição e a Teoria da recepção.

Pela Teoria da expedição, considera-se formado o contrato no momento em que a


resposta é expedida aceitante. Esta teoria foi expressamente adotada pelo CC, em seu art. 434.

Por outro lado, a Teoria da recepção sustenta que o contrato entre ausentes estará
formado no momento em que a resposta é recebida pelo proponente.

A Teoria da expedição foi adotada expressamente no art. 434, CC, mas a doutrina
sustenta que, implicitamente, o CC adotou a Teoria da recepção, no caso de haver retratação da
aceitação, que chegar antes ou simultaneamente à primeira resposta expedida (art. 434, I, CC,
que remete ao art. 433, CC). Enunciado 173, 3ª Jornada do CJF.

 Princípios Contratuais

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1. Princípio da autonomia da vontade privada - por este princípio, há uma liberdade de
contratar com quem quiser, quando se quiser, da forma como se quiser, logicamente se
respeitando os limites do ordenamento jurídico; é uma liberdade regrada (ex: art. 550,
CC).

1. Princípio da força obrigatória dos contratos - também conhecido como princípio da pacta
sunt servanda; o contrato é lei entre as partes.

1. Princípio da relatividade dos contratos - traz a ideia de que o contrato só pode obrigar as
partes contratantes. Há exceções, principalmente com as chamadas obrigações propter
rem.

1. Princípio da boa fé objetiva contratual - art. 422, CC c/c Enunciados 24 e 25, CJF. Decorre
da ideia daquele padrão de comportamento ético esperado de todos em sociedade.
Verifica-se se os contratantes estão sendo éticos uns com os outros. É o que a doutrina
chamada de análise endógena, pois olha-se para dentro da relação contratual, dentro do
comportamento das partes.

1. Princípio da função social dos contratos - está previsto no art. 421, CC. Aqui, a análise é
exógena, pois analisa-se se aquela relação contratual causa efeitos noivos para fora dessa
relação; se causa efeitos nocivos para a coletividade.

Obs.: arts. 27, 33 e 8º, Lei 8245/91.

 Formas de tutela da função social dos contratos

Essa tutela da função social dos contratos pode ter uma eficácia interna ou uma eficácia
externa (também chamada pela doutrina de tutela externa do crédito).

Com relação à eficácia interna, as parte querem celebrar os contratos, mas estes violam
sua função social, na medida em que não respeitam valores constitucionais (ex: contrato de
arremesso de anões em bares, o que viola o princípio da dignidade da pessoa humana).

Por outro lado, a eficácia externa pode estar ligada à tutela de direitos meta individuais,
do terceiro vítima ou do terceiro ofensor.

Um contrato não tem a função de causar efeitos nocivos a direitos difusos e coletivos,
que são direitos meta individuais; aqui, são afetados terceiros indeterminados (ex: dano
ambiental).

Um contrato também viola sua função social quando causa efeitos nocivos a direitos de
terceiros determinados (terceiro vítima).

O contrato é uma situação jurídica merecedora de tutela erga omnes; ele gera efeito ente
as partes (é relativo), mas deve ter uma tutela contra terceiros (erga omnes). Ou seja, os terceiros
devem se abster de interferir no contrato; não podem causar efeitos nocivos numa relação

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contratual já existente. O art. 608, CC traz textualmente essa hipótese, no que diz respeito
especificamente a prestação de serviços.

 Classificações dos contratos

Entre contratos típicos e atípicos.

Contrato típico é aquele que tem previsão legal (não necessariamente no CC, mas em qualquer
legislação).

Contrato atípico é aquele que decorre da criatividade das partes (não possui previsão legal); as
partes criam um novo tipo contratual, que deve respeitar o ordenamento jurídico. Ex: contrato
de multipropriedade, também chamado de time sharing, onde mais de uma pessoa tem o direito
de usar e fruir exclusivamente do bem, em períodos distintos, por estipulação contratual. Outro
exemplo de contrato atípico é o contrato de intercâmbio de residências, onde as pessoas trocam
suas residências, por período determinado.

Entre contratos unilaterais e bilaterais.

Contrato unilateral é aquele contrato que tem prestações a serem cumpridas por apenas uma
das partes (ex: contrato de doação pura).

Contrato bilateral, ou sinalagmático, é aquele contrato em que há prestações a serem cumpridas


por ambas as partes; há prestação e contraprestação.

Obs.: Quando se fala em negócio jurídico, este pode ser unilateral ou bilateral. Aqui, analisa-se a
manifestação de vontade. Todo contrato é negócio jurídico bilateral, pois não existe contrato em
que haja manifestação de vontade de apenas uma das partes.

Obs.: Contrato bilateral imperfeito é aquele contrato que nasce unilateral, e, no decorrer de sua
execução, se torna bilateral, pelo surgimento de uma prestação a ser cumprida pela outra parte.

Entre contratos consensuais e reais.

Contrato consensual é aquele que se considera formado/aperfeiçoado tão somente com o acordo
de vontades; basta que as partes cheguem a um consenso sobre os elementos do negócio, que
este se considera formado. Aqui, a transferência é mero exaurimento. Ex: contrato de compra e
venda.

Contrato real é aquele em que não basta o consenso, mas exigem a entrega da coisa. Só haverá
o aperfeiçoamento do contrato após a tradição (entrega da coisa). Ex: contrato de comodato (art.
579, CC); contrato de depósito.

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Dia 11/09/18 – aula 10

 VÍCIOS REDIBITÓRIOS NOS CONTRATOS (art. 441 e segs, do CC)

Observe que no nosso ordenamento jurídico, o que transfere a propriedade da coisa é a


tradição, no caso dos bens móveis; no caso dos bens imóveis é o RGI. Logo, o contrato, no nosso
ordenamento jurídico, não transfere obrigações.

Estudamos também, na Teoria do Risco, que “a coisa perece para o dono” enquanto não
havida a tradição, a coisa ainda pertence ao devedor e ele vai sofrer as consequências dessa
perda. Se, por ventura houver a tradição, a coisa será do credor e este, consequentemente,
sofrerá essas perdas – res periti domino. A conclusão lógica que se chega é que se a coisa é
entregue ao credor, ele sofreria o perecimento de eventual deterioração do objeto. Essa é a regra
do nosso ordenamento.

Porém, a lei protege esse adquirente quando estivermos diante de situações em que o
vício da coisa se mostra oculto e somente se revela após a entrega. Então, o legislador pensando
nessa situação, criou a Teoria dos Vícios Redibitórios e a Teoria da Evicção, que protegem o
adquirente quanto a essas situações que pode trazer prejuízo ao adquirente. Logo, essas duas
teorias são exceções à regra res periti domino, ou seja, a regra que “a coisa perece para o dono”.

Então, esse adquirente poderá manejar as ações pertinentes para essa questão que são
chamadas as ações edilícias, que é o gênero, da qual são espécies a Ação Estimatória (quanti
minoris) – cuja finalidade é a busca do abatimento no preço diante de uma deterioração. Agora,
se a coisa se perder em razão do vício, busca-se a extinção do contrato e a devolução dos valores
pagos, pela Ação Redibitória.

‣Ações edilícias:

• Ação Estimatória – deterioração + abatimento;

• Ação Redibitória – extinção + indenização;

 Conceito:

“Vício Redibitório é o defeito oculto de que a portadora, a coisa, objeto de um contrato


comutativo, que a torna imprópria para o uso a que se destina, ou lhe prejudica sensivelmente o
valor”.

 Requisitos:

Desse conceito podemos extrair alguns requisitos para que a parte possa alegar o vício
redibitório, sendo o primeiro: a existência de um contrato comutativo.

Nos contratos comutativos há equivalência de prestações, que gera benefício e sacrifício


para os envolvidos e, se por ventura existir o vício, estaremos diante de uma quebra dessa
paridade. Consequentemente gera um prejuízo para um dos envolvidos. A pessoa paga um preço
pela coisa, só que a coisa não corresponde a esse preço em razão desse vício.

Por isso, conforme o interesse, busca-se o abatimento do preço ou a extinção do


contrato. Diferentemente da Teoria do Risco e das Obrigações de dar coisa certa, não se analisa

60
culpa, mas a existência do vício. Objetivamente analisando, se existe esse vício capaz de tornar a
coisa imprópria para o uso ou diminuir o valor, a parte pode buscar a proteger os seus interesses.

Por se tratar de contratos comutativos e prestações para ambas as partes, leva-nos a


concluir que esses contratos são onerosos. Então, quando se há doações onerosas, podemos
também trabalhar com vícios redibitórios, que quando se tem uma doação remuneratória (art.
540, CC).

Outra controvérsia é quando se trata de contratos aleatórios (quando há um risco e uma


das partes assume as consequências desse risco). São contratos que, no primeiro momento, não
se busca equivalência de prestações, diante do risco que neles existem. Então, se não há essa
equivalência das prestações, não caberia a parte alegar vícios redibitórios, já que é da própria
essência do contrato a disparidade, a desproporção (entendimento de Tepedino). Assim,
Tepedino entende que não se pode alegar vícios redibitórios, visto que é a própria literalidade do
dispositivo (art. 441, CC).

Só que a desproporção do contrato aleatório é oriunda de riscos. O risco é que traz a


desproporção.

Ex.: assumo o risco quanto à existência da coisa e se a coisa não existir, a parte ainda assim fica
obrigada a pagar (art. 458, do CC). Aqui há quebra da paridade, mas em razão do risco se assume,
então há consequência.

Só que o que gera a desproporção é o vício oculto e não o risco. Então, no contrato
aleatório se a desproporção é ocasionada em razão do vício e não do risco, a parte pode vir a
alegar, porque a coisa existiu, lhe foi entregue, mas ela tinha um vício oculto. Logo, nos contratos
aleatórios, quando a desproporção está no vício e não no evento, deve-se entender que cabe a
alegação de vício redibitório (Enunciado 583 CJF e Tartuce – corrente majoritária).

‣Requisitos:

• Contrato comutativo – paridade de prestações

‣Obs.: doações onerosas

• Vício oculto

• Gravidade do defeito:

‣Perda da finalidade

‣Diminuição econômica

• Vício pré-existente à conclusão do contrato e à tradição

O segundo requisito é o vício oculto, sendo aquele que as partes desconhecem no


momento da conclusão do negócio. Só com o uso é que se perceberá que tem alguma coisa
estranha naquele objeto, pois o vício não é aparente ou claro.

Porém, se esse vício for aparente, claro ou de fácil identificação, a Lei faz a presunção de
que a pessoa renunciou a essa garantia legal e aceitou a coisa no estado em que se encontra.

Terceiro requisito é a gravidade do vício, do defeito. Pode ser que o defeito seja oculto,
mas ele é irrelevante, ele não gera perda da finalidade da coisa e nem traz diminuição econômica.

61
Então, por mais que ele seja oculto, ele não é suficiente para buscar uma extinção do vínculo
jurídico.

Aqui a gente trabalha com a Teoria do Adimplemento Substancial: tendo uma leve
indenização para suprimir aquele vício, mas isso não autoriza a extinção do contrato. Porque se
assim o for, estaremos diante de um abuso do direito, que se uma vez que o bem não perdeu o
valor econômico e nem a sua finalidade.

Outro requisito é a pré-existência desse vício. Logo, o defeito deve ser oculto e pré-
existente à conclusão do contrato e à tradição. Porque se ele é oculto e se origina após a entrega
do bem, trabalha-se com a Teoria res periti domino, ou seja, a coisa perece para o dono.

Em tese os contratos são instantâneos: as partes firmam o contrato de compra e venda,


paga-se e entrega o bem. Mas pode ser que haja um contrato em que a entrega da coisa seja em
um momento futuro. Então, você já concluiu o contrato, mas a data para a entrega ainda não
ocorreu. E esse defeito surge exatamente entre a conclusão do contrato e a tradição. Surge a
pergunta de quem é essa responsabilidade, visto que, a princípio, o alienante poderá dizer que já
concluiu o contrato e o vício veio a surgir, mas o adquirente poderá dizer que ainda não ocorreu
a tradição e a propriedade só se transfere com a tradição.

‣ Pergunta-se: quem assume a responsabilidade quando o vício ocorre entre a


conclusão e a tradição?

‣ O entendimento que prevalece é que a responsabilidade é do


alienante se a coisa perecer antes da tradição (art. 444, CC), aplicando-se a Teoria da coisa
perecendo para o dono (res periti domino).

Assim, para que haja uma responsabilidade do alienante pós contrato e pré tradição,
compete ao adquirente provar que o vício era pré-existente à tradição. Por outro lado, compete
ao alienante provar que o adquirente conheceu o vício ou defeito para não se submeter a
responder, trabalhando com a renúncia de alegar os vícios redibitórios ao concluir o contrato.

 Efeitos do vício redibitório:

Já falamos, mas vamos pontuar: os efeitos é abrir uma alternativa para o adquirente. O
direito potestativo que a lei faculta é: ou o adquirente pleiteia um abatimento no preço e fica
com a coisa; ou ele busca a redibição, ou seja, a extinção do vínculo jurídico, uma vez que ele não
tem mais o interesse de permanecer com a coisa no estado em que se encontra ou quando ele
consegue provar que ela perdeu o valor econômico ou a sua finalidade.

Porém, o Tartuce e o Marco Aurelio Bezerra de Melo dizem que o nosso sistema vigora o
princípio da continuidade dos contratos. Logo, a princípio deveria haver a manutenção desse
contrato e falaríamos, no primeiro momento, tão somente em um abatimento do preço. Cabendo
ao adquirente provar sua falta de interesse na coisa.

A outra corrente trabalha com a literalidade do artigo e do direito potestativo do


adquirente em sua essência, garantido na Lei (art. 442, CC).

Só que pode ser que a parte tenha interesse na coisa, mas não chegaram a um acordo
quanto ao montante do abatimento. Então, no curso da demanda no Judiciário, o alienante
perde o interesse na coisa porque esses vícios se agravaram, então:

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‣Pergunta-se: na ação de cognição do preço do montante devido, com o pedido
inicialmente feito de mensuração de abatimento, pode alterar para um pedido de extinção de
vínculo jurídico, porque esse vício se agravou?

1ª corrente:

‣Se a sentença ainda não foi proferida, ele pode buscar essa
alternativa, buscando uma modificação do pedido, só que teria que provar o agravamento do
risco (Carvalho Santos).

2ª corrente:

‣A corrente que prevalece é que as obrigações alternativas,


uma vez realizada a escolha, ela se dá de caráter definitivo e irrevogável. Então, se ele foi pela
linha do abatimento, essa escolha é definitiva e irrevogável, até por uma questão de segurança
jurídica, não cabe alterar o pedido, tendo que sofrer as consequências da sua escolha (Caio
Mário, Tepedino, Marco Aurélio Bezerra de Melo).

Percebam que a coisa foi entregue ao adquirente, sendo na data, na forma e no lugar
previamente estabelecido. Então não há inadimplemento, porque quando se ocorre o
inadimplemento teremos que analisar a culpa, para saber se o alienante responderá pelo
equivalente mais perdas e danos. Assim, não teremos que analisar a teoria do risco; analisando
somente a boa-fé ou má-fé dos sujeitos envolvidos.

Se o alienante está de boa-fé e ele desconhecia o vício, a sua responsabilidade é tão


somente devolver os valores que foram pagos. Mas se houve má-fé, ele conhecia o vício e não
informou ao adquirente, então, além de o adquirente buscar a devolução do valor pago, pode
pleitear perdas e danos. Logo, se chega às perdas e danos pela boa ou má-fé, não pela culpa (art.
443, CC).

Falando que não se analisa a culpa, mas também temos para essas obrigações o caso
fortuito e força maior. Então, sabemos que nessa ocorrência ou iminência de caso fortuito ou
força maior não há culpa e as partes não respondem pela perda ou deterioração.

‣Pergunta-se: se a coisa se perder não em razão do vício, mas em razão do caso


fortuito? Poderia o adquirente pleitear a devolução do montante pago?

1ª corrente:

‣A perda não está relacionada ao defeito, mas ao evento (força


maior ou caso fortuito). Então não há relação de causa e efeito, logo, não teria que se falar de
pleitear a devolução.

‣Pode ser que a culpa seja do próprio adquirente da coisa, sem


ter relação com o vício que a possuía. Então, quando há culpa exclusiva da vítima também não
há que se falar de pleitear a devolução do automóvel (Tepedino) – posicionamento majoritário.

2ª corrente:

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‣Se o vício já tiver se revelado (o adquirente já conhecia o vício,
só que ainda não pleiteou, se valendo dos prazos decadenciais que está na Lei), e a coisa se
perde em razão de um caso fortuito ou força maior, por já ser um direito subjetivo dele de
devolver a coisa, ele teria direito àqueles valores. Ele só não tinha manejado a demanda ou
notificado o proprietário; e se já o tivesse feito, já teria o valor em mãos, o raio iria cair e quem
iria perder era o alienante (Orlando Gomes).

3ª corrente:

‣Tem outro posicionamento que diz que não se tem o direito


de montante total, quando se ocorre um caso fortuito ou força maior após descobrir o vício
oculto, mas abate-se o preço do vício descoberto do montante total do objeto. Não há relação
de causa e efeito com o vício, mas ele diminui a coisa, então esse montante que não deveria
corresponder ao valor da coisa total, devem ser devolvidos ao adquirente (Marco Aurélio de
Melo).

 Prazos:

Não se poderia alegar a todo e qualquer momento o vício redibitório e pleitear a extinção
do contrato depois de 15 anos, por exemplo, gerando uma total insegurança jurídica e vínculo
eterno. Se a prescrição começar a correr da lesão e estava oculto, começa a correr naquele
momento do conhecimento.

Então, por questão de segurança jurídica, o Legislador trouxe prazos decadenciais (que
não se suspende e não se interrompe) para estabilizar essas relações. E se arguir dentro dos
prazos previstos em Lei, deverá o alienante suportar aquele defeito e a consequência da extinção
do contrato ou do abatimento no preço (art. 445, seguintes, CC). Caso decorra o prazo
decadencial previsto na Lei, há uma renúncia do direito de extinção contratual ou de abatimento
no preço.

Se a coisa for móvel, o prazo é de 30 dias (art. 445, primeira parte, do CC) e se a coisa for
imóvel, o prazo é de 1 ano (art. 445, segunda parte, do CC) – todos contados da tradição (e não
de quando surge o defeito).

‣Prazo:

• Móvel – 30 dias – tradição ≠ 32 dias

• Imóvel – 1 ano – tradição ≠ 1 ano e 2 dias

Porém, se já estava na posse do bem, o prazo conta da alienação, reduzido à metade (art.
445, parte final, do CC). Então, se for móvel: 15 dias; se for imóvel, 6 meses.

Assim pensou o legislador, porque o cara já está na posse do bem, então já está sentindo
a coisa, tendo uma facilidade maior em identificar o vício.

Ex.: na traditio brevi mano, ou seja, tradição de mão curta: o locatário já está utilizando a coisa,
gozando e usando. Não tem como se contar da tradição, porque ele já estava na coisa, então
conta-se da alienação. Conta-se pela metade, porque ele já estava no bem, já podendo sentir que
tinha um defeito oculto pré-existente.

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Só que o Marco Aurelio diz: pode ser que o locatário só esteja a um mês na locação, não
tendo possibilidade de perceber o defeito oculto. Então, há uma solução harmônica, dizendo: se
essa posse direta for inferior ao prazo reduzido, aplica-se ao prazo cheio (o prazo reduzido é 6
meses, se ele ingressou antes de 6 meses, entende-se que se trabalharia com 1 ano, mas se ele
já estava há 8 meses na coisa, ele trabalha com 6 meses de prazo).

Pode ser que o defeito oculto não se revele assim tão rapidamente como quis o caput
do dispositivo, sendo um defeito que se revele mais tarde, tão somente após algum tempo.
Então, o legislador resolveu tutelar e trabalhar outros prazos quando essa revelação for tardia
(art. 445, §1º, CC): sendo móveis o prazo de 180 dias e imóveis 1 ano, a contar da ciência do
vício. Só que traz um insegurança jurídica, então a jurisprudência e a doutrina resolveram
interpretar de outra forma esse dispositivo.

Ex.: passa-se 8 anos do evento, se o bem é móvel, ele terá 180 dias para pleitear a extinção ou
abatimento do preço e se for imóvel, mais um ano (literalidade do art. 445. §1º, do CC). Essa
literalidade está prevista no CDC, que lá se aplica (art. 26, §3º, CDC).

Só que no âmbito do Código Civil, a jurisprudência e a doutrina resolveram trazer uma


segurança jurídica para essa hipótese, dialogando esse prazo com prazo previsto no art. 445,
caput, CC. Então, o prazo previsto no §1º se refere ao prazo que o vício tem para se revelar (e ser
considerado um vício tardio), sendo: prazo máximo de 180 dias e máximo de 1 ano.

Se for móvel, depois de 180 dias, ele terá 30 dias para alegar (combinando com o caput).
Se for imóvel, ele terá que se revelar em 1 ano, então terá mais 1 ano para se revelar (combinando
com o caput).

Assim, os prazos no §1º são aqueles para o vício se revelar, já o prazo para arguir estão
no caput.

(REsp 1.095882, Enunciado 174 CJF, doutrina Tepedino, Marco Aurelio e Venosa).

(Já a favor da literalidade, está o Tartuce).

A cláusula de garantia (art. 446, CC) diz que não corre o prazo na vigência da cláusula,
tendo 30 dias para notificar o fabricante depois do vício, sob pena de decadência da garantia, não
a decadência do código!

Ex.: o vício se revelou no segundo mês, não notificou, então perdeu o prazo de garantia
convencional (do contrato). Agora, ele ainda está dentro do prazo de alegar o vício redibitório. A
única diferença é que ele deverá provar a existência do vício, no outro está na própria garantia.
Ele terá que provar que o vício era pré-existente e que o bem está inutilizado para uso.

 EVICÇÃO (art. 447 e segs, do CC)

Assim como os vícios redibitórios é uma garantia legal ofertada ao adquirente que está
na iminência de sofrer o prejuízo em razão de algum defeito oculto. Só que, diferentemente do
vício redibitório, aqui o defeito é jurídico, é um defeito do direito, em que pode vir gerar a perda
total ou parcial desse direito. O vício redibitório é um vício material (que torna inútil ou diminuir
o seu valor), aqui é um vício de direito, que pode ser total ou parcial.

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 Conceito:

Antigamente, tinha-se o conceito que atrelava e evicção à necessidade de sentença


judicial transitada em julgada diminuía demasiadamente a alegação da evicção para terceiro de
boa-fé, ferindo os princípios da boa fé objetiva, função social e equivalência das prestações.

Então, hoje temos um conceito mais aberto, atrelando a evicção a outras coisas: “fala-se
em evicção que opera em desfavor do adquirente quando o direito transferido onerosamente
por uma pessoa pertence a outra como reconhecido por decisão Estatal, que pode ser uma
sentença judicial ou uma decisão administrativa legitimada para tanto”.

A pessoa que postula a titularidade do direito sobre a coisa é chamada de evictor. E


aquele que vai perder a coisa para o evictor, é o evicto; e quem provocou tudo isso continua
sendo o alienante (não havendo o nome iuris para quem causa a arguição).

 Requisitos

O primeiro requisito é ser um contrato oneroso. Contratos onerosos há uma equivalência


das prestações: aquilo que se paga pela coisa corresponde ao valor que ela representa e, se por
ventura, aquele que adquiriu vem a perdê-la por evicção, tem-se a desproporção, ou seja, a
quebra da paridade. E, consequentemente, se assim o mantiver, o enriquecimento sem causa.
Então, a fim de evitar a manutenção do enriquecimento sem causa, o evicto poderá pleitear ao
adquirente o montante em que pagou e outras despesas.

Aqui também surge a dúvida se poderíamos aplicar a evicção nos contratos aleatórios, já
que nesses contratos não há equivalência nas prestações. Mas um contrato aleatório não é
comutativo (equivalência de prestações), mas é oneroso. Logo, não há impedimento para se
trabalhar em contratos aleatórios.

Ex.: assumo um risco quanto à existência de vacas holandesas que vai existir ou não. Se o vício
estiver na própria titularidade do bem, não tem como alegar evicção. Se por ventura estiver
atrelado a outra situação, pode alegar a evicção.

Se estamos falando de contratos onerosos, não há problema em alegar em doações


onerosas, que são as doações remuneratórias (art. 552, CC).

‣Requisitos:

• Contrato oneroso – prestações equivalentes

• Somente a perda do direito

• Titularidade pretérita do evictor

• Boa-fé do adquirente

No CC/16 a evicção estava adstrita no domínio, posse ou do uso da coisa. O CC/02 não
faz mais essa restrição e atrela tão somente à perda do direito por evicção.

Ex.: temos o direito de crédito, por exemplo, o cedente garante a existência e a titularidade do
crédito, só que esse crédito pertencia a outrem, então o cessionário não conseguirá cobrar do

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devedor, só que poderá reaver o seu direito em parte. Logo, no CC/02 não está atrelado ao direito
de domínio, mas em direito.

Observe que o art. 447, CC diz que mesmo sendo feito a aquisição em hasta pública, pode
subsistir a evicção. Mas para imóvel, aplica-se o art. 1.268, CC, não havendo evicção em móvel.

A titularidade pretérita do evictor significa: ninguém transfere mais direitos e obrigações


do que a possui. Logo, cabe ao evictor provar que ele tem a verdadeira titularidade da coisa para
provar a sequela de quem o bem encontre (art. 1.228, CC – sequela do proprietário). Provando
que é o proprietário, o bem retorna para o seu patrimônio e o alienante responde na forma do
art. 450, CC.

Próximo requisito é a boa-fé do adquirente. Se o adquirente sabe que a coisa pertence a


outrem, ele não pode se beneficiar de sua má-fé. Então, a partir do momento que a pessoa sabe
que o bem pertence a outra, ela assume o risco da evicção. Então podemos dizer que é um
contrato aleatório, e se alguém arguir a evicção, estava dentro do risco que ela assumiu (art. 457,
CC).

Observe que, a perda da garantia, decorre da Lei; mas as partes podem modificar os
defeitos da garantia legal, seja para diminuir, excluir ou reforçar a garantia (art. 448 e 449, CC).
Claro que se você excluir a garantia, você está restringindo o direito, devendo observar se a
manifestação de vontade foi livre e consciente para tanto; se isso for feito em um contrato de
adesão a cláusula é nula (art. 424, CC).

Agora, se a pessoa renunciou a garantia, ela renunciou a possibilidade de cobrar os


valores previstos no art. 450, CC. Ele não abre mão do valor que ele pagou pelo bem, isso ele
sempre terá, porque senão haveria um enriquecimento sem causa. O que ele estará abrindo mão
são as repercussões dos valores do art. 450, CC.

‣Temos duas exceções a essa regra, que quando ele renunciar a garantia,
também renuncia o preço que pagou pelo bem:

• quando ele está de má-fé, sabe que a coisa pertence a outrem, então
ele assumiu o risco.

• quando ele, mesmo de boa-fé, sabe do risco da evicção, mas acredita


que não vai acontecer, acreditando que aquele é realmente o proprietário (ex.: “não, você é o
proprietário”, “mas eu tenho dúvida”, “não, isso aqui faz de você o proprietário”. Ele está de
boa-fé, mas assumiu o risco).

Fora essas hipóteses, ele terá direito ao preço e as verbas previstas no art. 450, CC:

‣(i) – temos um possuidor de boa-fé; e o art. 1.214, CC diz que o possuidor de


boa-fé tem direito aos frutos percebidos, colhidos. Quanto aos frutos pendentes (aqueles que
estão unidos à coisa), o legítimo proprietário que irá colher, porque ele não pode colher por
antecipação. Mas toda a despesa que teve para gerar esses frutos deverá ser indenizado pelo
alienante, que foi quem deu causa a essa situação;

‣(ii) – segundo direito é a despesa que teve com o contrato; ou seja, se é um


bem imóvel, ele pagou o ITBI, a escritura pública, puxou a certidão de ônus reais.. todas essas
coisas ele tem direito de pleitear a devolução do que pagou (inciso II, primeira parte);

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‣(iii) – são os prejuízos que diretamente resultarem da evicção, como o juros da
mora, enquanto a coisa não for entregue ao verdadeiro proprietário (inciso II, parte final);

‣(iv) – as custas judiciais e os honorários do advogado por ele constituído;


sendo o evicto cobrando do alienante. Observe que o legislador poderia ter sido mais
abrangente, porque disse tão somente “custas judiciais”, não falando de despesa judicial, então
pode não cobrar os custos de perícia, por exemplo. Mas nesse sentido segue a doutrina e a
jurisprudência em incutir a despesa judicial também para o alienante;

‣(v) – por fim temos uma última verba, que é a famosa “Plus-Valia”, ou seja, o
alienante terá que pagar ao evicto o preço da coisa que será apurado no momento da evicção.
Se foi por sentença judicial que se reconheceu o direito do evicto, é nessa data que vai se
apurar o valor da coisa. Se ela se valorizou, o alienante deverá pagar o preço com a valorização
no momento da evicção; mas se houve desvalorização terá que pagar o preço que foi pactuado,
senão terá enriquecimento sem causa (art. 450, parágrafo único, CC: o momento em que se
“evenceu” é o momento que ocorre o trânsito em julgado da sentença).

Nesse tempo que estiver com o evicto, a coisa pode se deteriorar. Então, o legislador dirá
que se a coisa está deteriorada, provavelmente o evictor vai pleitear os montantes dessa
deterioração (art. 451, CC), só que o adquirente evicto está de boa-fé e não sofrerá o ônus dessa
deterioração; mas terá que pagar a deterioração se houver dolo, ou seja, vantagem ou proveito
dessa deterioração (art. 451, parte final, CC).

Ex.: o entulho que ficou ao transformar uma casa de 4 quartos para 3 quartos, ele vendeu. Então
cabe o art. 451, CC.

Com relação às benfeitorias (art. 453 e 454, CC), as benfeitoria abonadas são as
indenizadas. Lembre-se que as benfeitorias são ações realizadas em coisa já existente (benfeitoria
necessária, útil ou voluptuária). O evicto tem que pagar o valor para o evictor, senão terá que
botar na conta do alienante (art. 1.219, CC, que diz que ele terá o direito de retenção do
possuidores boa-fé).

Observe que essas benfeitorias necessárias são de responsabilidade do proprietário, que


é da própria coisa, que é em relação ao uso da própria coisa. Para se evitar o enriquecimento sem
causa, o alienante pode cobrar as benfeitorias do evictor, para as benfeitorias necessárias, porque
ele está de boa-fé e as benfeitorias necessárias são para o uso da própria coisa. Mas se o alienante
estiver de má-fé, ele tem direito de ser indenizado pelas benfeitorias necessárias (art. 1.220, CC).

Uma última coisa para se falar é a questão da sentença judicial que não é mais um
requisito para a evicção. Hoje se trabalha com a questão de decisões administrativas que
possuem decisão de polícia também.

Ex.: o veículo foi roubado e adulteraram o chassi, mas foi recuperado. Então, vai reaver a coisa
não por uma sentença judicial, mas por uma decisão administrativa, que devolve o bem ao
verdadeiro proprietário. Então, essa decisão oriunda do poder de polícia tem força de caracterizar
a evicção (REsp 407.179 e REsp 1332112).

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Observe que o artigo não faz referência à sentença judicial, mas sim ao litigioso, que nem
sempre precisa ser por sentença só judicial (art. 457, CC), podendo transitar também pela via
administrativa.

 EXTINÇÃO DOS CONTRATOS (art. 472, segs, do CC)

Os contratos são dotados de cunho pessoal e, por isso, existe uma transitoriedade nesse
vínculo jurídico. Os contratos, assim como as obrigações, nascem para serem extintos conforme
as finalidade que dispõem esses contratos. Quanto antes cumprirem essas finalidades, melhor,
pois as partes recuperam a sua liberdade e podem transitar por outras cearas jurídicas. Então, é
de sua essência se extinguir, porque se houvesse um vínculo eterno, estaríamos quebrando a
função social dos contratos e a boa-fé objetiva pela qual ele se dispõe.

Claro que se quer que ele se extinga pela maneira que as partes se compactuaram, onde
há entrega da prestação in natura. É isso o que as partes desejam (plano interno) e a sociedade
espera por ser a função social (plano externo), que estabiliza as relações jurídicas nesse ambiente
coletivo em que estivemos. Quanto maior o número de contratos cumpridos perante a sociedade,
estabiliza-se as relações jurídicas nesse ambiente. Mas, muitas das vezes esse desejo não é
obtido, então estaremos diante de uma extinção anormal do vínculo jurídico, dos contratos. Isso
que se preocupa o legislador: trabalhar as consequências jurídicas diante da extinção anormal do
contrato.

A doutrina não se entende quanto à nomenclatura para essas extinções anormais (em
opinião do professor, o nome iuris é fungível, tendo somente que ser observado o interesse da
parte, podendo o juiz corrigir sem extinguir a petição sem resolução do mérito). O mais
importante é observar que o gênero é a extinção, da qual são espécies as seguintes
nomenclaturas:

‣Resilição

• Bilateral (distrato)

• Unilateral

‣Revogação

‣Renúncia

‣Resolução

• Resolução por Onerosidade Excessiva

 RESILIÇÃO (art. 472, CC)


Temos a resilição quando há vontade livre e consciente de uma ou de ambas as partes na
extinção do vínculo jurídico, ou seja, é modo voluntário de extinção do vínculo jurídico (as partes
desejam a extinção ou uma das partes deseja a extinção).

‣Bilateral (distrato)

‣Unilateral

Temos que ter em mente que a resilição é a vontade de extinguir o contrato, podendo
ser então: unilateral ou bilateral (também conhecida como distrato), esta quando ambos

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querendo extinguir o contrato (art. 472, CC), que deverá ser feito da mesma forma que foi feito
o contrato, porque o distrato é um outro contrato também para extingui-lo.

Por isso que é impossível se ingressar com “demanda de distrato”, visto que o conceito
de distrato é a manifestação bilateral de vontade livre e consciente de desfazer o vínculo jurídico.

Observe que no CC/16 dizia que “se as partes elegeram uma forma para contratar, essa
mesma forma deveria ser usada para distratar”. Isso porque o distrato nada mais é do que um
novo contrato, só que para distratar. Diante da redação ruim do CC/16 tínhamos duas correntes:
uma dizia que se as partes elegeram um instrumento particular, por exemplo, tinham que
distratar pelo mesmo; já outra corrente dizia que as partes poderiam distratar por outro veículo,
desde que a Lei não exigisse esse veículo para contratação.

Ex.: contrato de locação, este pode ser verbal. Só que é ruim no contrato de locação verbal é a
segurança jurídica (qual a prestação, multa, as obrigações das partes envolvidas). Então as partes
resolveram colocar da forma escrita, por instrumento particular. Só que a Lei não exige forma
para aquele contrato. Por isso parte da doutrina entendia que, por conta disso, não precisaria
adotar a mesma forma para se distratar, podendo ser verbal.

Nesse entendimento (do distrato se dar por outro veículo, se a Lei não exigisse forma
específica) é que seguiu o CC/02, tendo o entendimento expresso no art. 472, do CC. Ou seja, se
o contrato exige escritura pública, tem que se distratar pela escritura pública (usufruto, por
exemplo), não podendo ser verbal.

Agora, os efeitos desse distrato também tem duas correntes:

‣1ª corrente: ex-nunc (Tepedino)

‣2ª corrente: ex-tunc (Tartuce)

O entendimento da doutrina que os efeitos do distrato deve ser ex-nunc, por uma
questão de segurança jurídica. Já outra parte da doutrina entende que os efeitos podem ser ex-
tunc para as partes envolvidas, salvaguardando interesses de terceiros, não podendo prejudicar,
pois os efeitos são inter partes dos contratos. Visto que decorre da manifestação de vontade,
então se não há interesse de terceiro envolvido, as partes podem afastar algum efeito produzido
pela manifestação daquele contrato.

Resilição unilateral é prevista no art. 473, CC, embora esteja na mesma seção do distrato,
tendo o nome iuris de apenas “resilição”, está ocorrendo da Lei ou de apenas uma das partes do
contrato. O fato da pessoa querer resilir o contrato, não quer dizer que ela está cometendo um
ato ilícito, mas um ato autorizado pela Lei ou pelo próprio contrato, sendo um direito potestativo
que ela tem; mas ela ainda pode ter que pagar a multa resilitória disso, sofrendo as consequências
dessa vontade unilateral, essa liberdade, pois ninguém é obrigado a ficar vinculado a um contrato.

Teremos contratos que é da própria essência dele a resilição unilateral. Então, contratos
que são contratos de confiança (intuito persona), quando se quebra a confiança, pôde-se resilir
(ex.: contrato de depósito, de comodato, mútuo). Contrato por prazo indeterminado, é da própria
essência do contrato se extinguir, porque ele não pode ser eterno.

‣Notificação da extinção do contrato (resilição unilateral):

• Denúncia cheia

• Denúncia vazia

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Você pode exercer o seu direito, mas mediante a notificação da outra parte, podendo ser
denúncia cheia ou vazia. A denúncia cheia é motivada, porque a Lei impõe a motivação. Se não a
tiver, não há como extinguir o vínculo jurídico (ex.: arts. 4º, parte final, e 47, ambos da Lei de
Locações - Lei 8245/91).

A denúncia vazia é aquela que não há como necessidade a motivação do ato (ex.: art. 8º,
da Lei de Locações).

Observamos que a Lei e alguns contratos em espécie dão um nome iuris específico para
a resilição unilateral. Então podemos ter também a resilição unilateral como um gênero, da qual
são as espécies: a revogação, a renúncia, o resgate e a Redibição (esta última para Marco Aurélio
Bezerra de Melo).

‣Resilição unilateral (gênero):

• Revogação

• Renúncia

• Resgate

• Redibição

Resilição Unilateral por Revogação

A Lei autoriza a retratação de uma das partes. O contrato de doação, por exemplo, pode
ter o encargo e se o donatário praticar algum ato que está arrolado na Lei que o qualifique como
indigno, o doador pode revogar a doação, ou seja, uma vontade unilateral de extinguir o contrato
(art. 555, do CC).

Outro exemplo é o contrato de mandato, sendo um contrato fundado na confiança. Se o


mandante perde a confiança no mandatário, ele revoga o mandato, extinguindo o contrato (art.
682, I, primeira parte, do CC).

Resilição Unilateral por Renúncia

A renúncia se dá quando a parte abdica de um direito que ela possui em relação ao


contrato e consequentemente extingue o contrato. O contrato de mútuo (emprestar o dinheiro)
terá que pagar na data do vencimento, mas eu renuncio o direito de crédito, há uma vontade
unilateral que extingue o contrato.

Outros exemplo é o mandatário que recebe os poderes do mandante para praticar o ato
em nome do mandante, quebrou a confiança no mandante: ele pode renunciar os poderes que
lhe foram conferidos (art. 682, I, segunda parte, do CC).

Resilição Unilateral por Resgate

Ele é inerente aos contratos de enfiteuse (só permanece hoje para contratos de terreno
da Marinha, não mais para particulares (se mantendo em vigor os contratos praticados na época
do CC/16) – ou seja, terá o domínio útil perpétuo sobre a coisa, não a propriedade, pois o terreno
é do órgão público). Se por ventura o órgão público quiser resgatar, ele dará cabo pelo resgate
(art. 693, CC/16).

71
Resilição Unilateral por Redibição

A redibição é quando a coisa tem um defeito oculto, tendo as possibilidades do


adquirente o abatimento no preço ou extinguir o contrato. Quando ele resolve extinguir o
contrato, é a vontade unilateral, conhecida com o nome iuris de redibição – utilizada pelo
doutrinador Marco Aurélio Bezerra de Melo.

Observe que essas espécies são próprias de contratos por prazo indeterminado, que a
qualquer momento uma das partes pode manifestar a vontade de extinguí-lo. Só que existem
alguns contratos em que um dos contratantes realiza na coisa investimentos consideráveis e a
partir deles procura obter um retorno, um lucro. Então, se houver um contrato que discorreu
pouco tempo e quando iria começar a ter o retorno do lucro, uma das partes resolve extinguir o
contrato. A multa não terá reflexo perante o que se indenizaria. Exemplo seria o contrato de
superfície (direitos reais), que a pessoa tem um terreno sem uso, mas o investidor não tem
dinheiro para comprar o terreno, então fazem um contrato de superfície: ele cede a superfície
para o investidor construir e plantar por um determinado tempo. Quando chegar ao final, essa
construção e plantação ingressa na titularidade do dono do solo.

Só que esse contrato de superfície pode ser por prazo determinado ou indeterminado
(art. 21, do Estatuto da Cidade). Então, no exemplo, se faz por prazo indeterminado. Passa poucos
anos (normalmente são contratos de 40 anos) e chega a notificação da pessoa querendo resilir o
contrato unilateralmente. Então, veio a Lei e protegeu esse tipo de negociação (art. 473,
parágrafo único, CC), fazendo com que o magistrado dirija o contrato para a sua finalidade e dê
um prazo para o retorno de seu investimento.

Observe que o legislador, em alguns contratos tabulados, proíbe essa resilição unilateral:
quando essa resilição ferir princípios que atinjam a dignidade do sujeito.

Ex.: contrato de plano de saúde, não pode a operadora do plano querer de forma unilateral
rescindir o contrato. A única vontade unilateral não pode ser motivo para rescindir o contrato, só
se tiver algum outro motivo, como a inadimplência (art. 13, inciso II e III, da Lei 9.656/98 - Lei do
Plano de Saúde).

 RESOLUÇÃO

A resolução se dá quando estivermos diante do inadimplemento. Então, verificado o


inadimplemento contratual, abre-se para a outra parte a possibilidade de resolver o contrato,
porque não se tem mais o interesse no objeto da prestação.

Ex.: se tinha que entregar o vestido de noiva e não entregou na data pactuada, não é mora, é
extinção do vínculo jurídico. Então você vai resolver esse contrato.

Cláusula Resolutiva

Isso se dá pela famosa cláusula resolutiva, que pode ser expressa ou tácita (art. 474, CC).
Se há no contrato previsão de uma cláusula resolutiva por inadimplemento, ela opera de pleno
direito. Ela pode fazer menção à prestação específica daquele contrato ou um contrato como um
todo.

72
Se há a cláusula resolutiva no contrato, ela já é de conhecimento de ambas as partes, e
assim o sendo, não precisa extinguir o contrato, a princípio, pela via do Judiciário, ele extingue-
se de pleno direito, bastando executar a cláusula.

Agora, por mais que esteja previsto no contrato e gere o direito potestativo de uma das
partes, esse direito deve ser coordenado pela boa-fé. Então, será qualquer inadimplemento que
dará o direito de resolução do vínculo jurídico? Não.

Ex.: a coisa deteriorada, por um arranhão pequeno no carro, não faz com que se perca a sua
finalidade ou tenha uma perda econômica, que geraria um direito à resolução do contrato –
direito informativo de resolução. Logo, deve ser praticado com ressalva, porque senão estaria
perto de abuso de direito, visto que isso não é capaz de fazer a coisa perder sua finalidade ou ter
uma depreciação econômica. Então, uma indenização é mais razoável do que a resolução do
vínculo jurídico. Isso para que na alienação seja entregue o valor do carro com o abatimento de
uma pequena indenização, porque o dano é pequeno, não dando a possibilidade do direito de
resolução nesse caso, para poder manter o vínculo jurídico intacto.

Então, esse direito informativo de resolução, que está expresso na cláusula resolutiva
deve ser praticado com base na boa-fé objetiva sob pena de abuso de direito – Teoria do
Adimplemento Substancial, praticado pelo STJ.

Ex.: carnê de 48 meses do automóvel, faltando 4 prestações, não tem porque entrar com busca
e apreensão, levar o veículo em leilão e com o produto da venda quitar essas 4 parcelas e entregar
a diferença ao pretenso adquirente. Então, você não extinguia o contrato, porque você entendia
que tinha um adimplemento substancial e que o banco que fosse cobrar essas parcelas em
aberto, mas buscar o carro já não era mais possível, por conta do adimplemento substancial.

Só que o STJ mudou de posicionamento depois desse case dos carnês, falando que como
a Lei Fiduciária não fala nada sobre Adimplemento Substancial (só que isso é construção
doutrinária da boa-fé), entendeu que não cabe mais essa questão. Então, hoje, mesmo faltando
só quatro parcelas, extingue-se o contrato em razão do inadimplemento, em razão da cláusula
resolutiva que está ali expressa.

Alguns contratos há uma disparidade entre os contratantes, seja ela econômica ou


jurídica que, por mais que exista uma cláusula resolutiva expressa (cabendo ao magistrado
analisar), ela por si só não opera de plano seus efeitos, ou seja, ela não é auto-executável.

Ex.: art. 14, do Decreto 58/37, que diz que você tem o terreno não loteado e há uma disparidade
de relação de quem está alienando e comprando, devendo notificar o adquirente para purgar a
mora sob pena de extinção e não de simplesmente extinguir o contrato por inadimplemento.

Ex.: os contratos de aquisição de bem móvel com cláusula de reserva de domínio, por mais que
tenha essa cláusula (onde alienante reserve para si a propriedade), se o adquirente não pagar
para si as prestações, é necessário notificar o devedor para que ele purgue a mora sob pena de,
assim não fazendo, executar a cláusula de reserva de domínio e extinguir o contrato.

Ex.: o art. 53 e 54, §2º, ambos do CDC também, que por mais que haja uma cláusula resolutiva
expressa, ela não opera de plano seus efeitos, por ser considerada uma cláusula abusiva,
justamente por haver essa relação de vulnerabilidade do consumidor (REsp 1.337902).

73
A cláusula resolutiva tácita é da essência de todos os contratos (art. 474, segunda parte,
do CC), visto que há um inadimplemento e não há motivos para se manter esse vínculo jurídico,
seja em qualquer tipo de contrato. Logo, o inadimplemento extingue o vínculo jurídico, a
diferença é que quando ela está expressa, ela opera de pleno direito, já na tácita não. É necessário
que a parte ingresse em juízo, demonstre o inadimplemento e o magistrado concorde após o
contraditório e a ampla defesa para que seja extinguido o contrato.

Se houve culpa nesse inadimplemento, pode-se pensar em perdas e danos (art. 475,
parte final, do CC).

Exceção de Contrato Não Cumprido

Agora, só se pode aduzir o inadimplemento da outra se cumpriu com a sua parte no


contrato, senão a outra parte pode alegar exceção de contrato não cumprido (art. 476, CC) – que
impõe um contrato bilateral, devendo as prestações serem recíprocas e interdependentes.

Se forem prestações sucessivas, onde consegue-se observar que um deva cumprir


primeiro que o outro, aquele que primeiro deve cumprir, não tem como alegar a exceção de
contrato não cumprido.

Ex.: pessoa contratou um empreiteiro para construir a casa e ficou acordado no contrato que ele
proprietário vai comprar os materiais para realizar a obra. Aí vira o contratante e reclama que
não começou a obra e o empreiteiro vai dizer que ele ainda não comprou os materiais. Só o
empreiteiro pode alegar exceção de contrato não cumprido, não o contratante, porque ele que
antes tem que cumprir a sua prestação.

Em algumas situações, a Lei impõe quem primeiro deve cumprir. Em tese, em um


contrato de compra e venda, por exemplo, determina quem primeiro deve praticar o ato (art.
491, CC) – primeiro paga e depois recebe, por causa da segurança jurídica do ato.

Exceção de Inseguridade

Temos também a Exceção de Inseguridade (art. 477, CC) – as partes estão em contrato
comutativo, só que uma das partes sofre, no curso do contrato, uma perda econômica que faz
crer que aquele contrato não será cumprido. Então ela precisa se assegurar de que a outra parte,
mesmo desfalcada economicamente, vai exercer a sua obrigação com aquele vínculo jurídico.
Então, ela pode pleitear ao magistrado duas situações:

‣ requerer novas garantias do contrato para que ela possa exercer a sua
obrigação; ou

‣retardar o cumprimento de sua própria prestação, até que a outra cumpra com
a dela.

74
Vejam que essa exceção de Inseguridade não gerará extinção do contrato, vencimento
antecipado, nem execução das garantias já previstas. Ela só possui como finalidade tão somente
retardar o cumprimento de obrigações de uma das partes ou exigir novas garantias para o
cumprimento. Ou seja, buscar assegurar-se diante da situação precária que a outra se encontra
por motivo superveniente.

 Resolução por Onerosidade Excessiva (art. 478 e segs, do CC)


Aqui temos um contrato de trato sucessivo, um contrato que se prolonga no tempo e
quanto mais longo for, maior são as possibilidades de ocorrer um evento extraordinário
imprevisível que venha a causar uma desproporção de prestações, quebrando a comutatividade
desse contrato.

Então, a parte que sofre esse prejuízo em razão desse evento extraordinário imprevisível
poderá alegar, para extinguir o contrato, a exceção por onerosidade excessiva. Porque se mantido
o vínculo contratual, essa parte sofrerá perdas acentuadas, cumprindo-se com a boa-fé e com a
função social que se espera do vínculo jurídico.

 Requisitos

Claro que para a parte arguir, deve ser preenchido alguns requisitos previstos em Lei:

(i) contrato de trato sucessivo, porque se for um contrato instantâneo, ele ali já concluiu
seus efeitos. Então, cabe a parte arguir a lesão no contrato instantâneo (art. 157, CC), mas no
contrato de trato sucessivo, aí se tem o evento superveniente, imprevisível e extraordinário que
gera a desproporção e consequente lesão;

(ii) onerosidade excessiva. Em razão do evento extraordinário e imprevisível, uma das


partes experimenta uma prestação excessivamente onerosa, desproporcional àquilo idealizado
no momento da formação do vínculo, e a qual a parte não assumiu o risco. Só que o dispositivo
atrela essa arguição a um aferimento econômico acentuado da outra parte, ou seja, um ganho
econômico acentuado da outra parte. Ele estabelece um pêndulo entre ônus e bônus, ao ganho
econômico da outra parte. Só que nem sempre se vislumbra que há uma vantagem extraordinária
para outra, mas pode se arguir pro questão de função social do contrato.

(iii) o acontecimento futuro extraordinário e imprevisível deve ser observado sempre no


plano de análise objetivo e não subjetivo para aquela contratação. Então, tem que vir um evento
extraordinário imprevisível que foge da normalidade daquele contrato em um plano objetivo.

Ex.: um terremoto no Brasil. Não tem terremoto no Brasil, mas naquele dia teve e destruiu toda
a lavoura. Ele terá que plantar o tomate novamente, ter todo esse ônus; ou, se não der tempo,
terá que comprar esse tomate em outro produtor, o que irá lhe gerar uma onerosidade excessiva.
Por outro lado, o comprador está lá, só esperando, e vai pagar o mesmo preço. Ele não aferiu
nenhum ganho extraordinário. Então, nem sempre o pêndulo da onerosidade excessiva estará
presente no lucro, mas a parte pode arguir a onerosidade, por causa da função social do contrato.

Esse é um conceito jurídico indeterminado clássico, cabendo ao magistrado no caso


concreto analisar se aquele evento é extraordinário e imprevisível, à luz de critérios objetivos
(Enunciado 366, CJF). “Tem-se por fato extraordinário e imprevisível aquele que não está
envolvido objetivamente pelos riscos da própria contratação”, então é uma análise objetiva, não
subjetiva, não passando pela análise das partes envolvida.

75
Marco Aurelio amplia um pouco mais esse conceito (Enunciado 175, CJF), porque pode
ser que o fato é previsível, mas o resultado que é imprevisível e extraordinário. Então, não está
na causa, mas no resultado.

Ex.: a geada. Pessoa fez uma plantação no Sul. É normal ter geada. Então, objetivamente
analisando, aquilo não é um fato imprevisível para os envolvidos. Já se é no Nordeste, aí sim foge
do risco natural. Só que, naquele ano no Sul, a geada foi de tal monta que os resultados da
colheita foram completamente imprevisíveis, ou seja, ninguém estava prevendo que o resultado
iria ser tão ruim como foi. Então, poderia alegar a resolução por onerosidade excessiva.

Professor Orlando Gomes entendia que o devedor, a parte lesada, não poderia alegar em
defesa a onerosidade excessiva, porque ele está inadimplente, em mora; e o credor ingressa com
a demanda para pleitear aquelas verbas, vindo a outra parte dizer que há uma onerosidade
excessiva, pedindo a resolução em defesa.

Só que alguns outros entendem que deve ser analisado o comportamento desse lesado
para verificar se ele pode arguir em defesa essa onerosidade. Logo, antes de alegar a onerosidade,
deve-se verificar o comportamento das partes a luz desse evento.

Ex.: o lesado notificou extrajudicialmente a outra parte narrando a onerosidade excessiva e a


outra parte não deu bola. E agora ingressou com a demanda. Em defesa ele dirá que notificou o
cara alegando a onerosidade excessiva, mas ele ficou inerte.

‣Requisitos:

• Contrato de trato sucessivo

• Onerosidade excessiva

• Acontecimento futuro extraordinário e imprevisível

Observações sobre a desproporção:


‣as prestações que essa parte já experimentou em onerosidade excessiva e com
elas arcou, por uma questão de segurança jurídica, não pode ser questionadas mais da outra
parte (art. 478, in fine, do CC).

Então, tudo antes que aconteceu da citação é válido e eficaz, não cabendo pleitear
valores anteriores à citação, até porque as partes devem mitigar seus próprios prejuízos, devendo
ter entrado com a demanda o quanto antes.

‣o caput fala da resolução por onerosidade excessiva, mas nem sempre essa é a
vontade, porque vigora o principio da continuidade dos contratos. Então se for possível corrigir a
contratação para uma normalidade, nada impede a manutenção do vínculo jurídico ser mantido
(art. 317 e 479, CC).

Então pode se chegar a um dirigível, no sentido de manutenção do vínculo jurídico. Claro


que competirá a outra parte alegar que não tem mais interesse em corrigir, em manter o vínculo
jurídico, porque não tem como mais igualar as prestações (Enunciado 176, CJF).

‣em contratos aleatórios, onde não há a paridade de prestações, o risco podendo


ocorrer e a parte ter que pagar integralmente o preço que foi previamente pactuado.

76
Alguns autores entendem que não poderia ser resolvido pela onerosidade excessiva, uma
vez que é da essência desses contratos o risco e a desproporção.

Uma segunda corrente (majoritária) entende pela possibilidade. Primeiro porque o


dispositivo fala dos “contratos de execução continuada e diferida”, em nenhum momento falando
dos comutativos ou aleatório. Então pode, por essa literalidade ser aplicada aos contratos
aleatórios. Segundo, pode ser que o evento extraordinário e imprevisível não esteja atrelado ao
risco assumido, mas a alguma outra situação, alguma outra cláusula contratual, por exemplo
(Enunciado 440 e 366, CJF).

Ex.: você tem um contrato de parceria agrícola (art. 96, da Lei 4.504/64). Aqui tem alguém que
cede o seu sítio ou fazenda para o agricultor e essa pessoa vai plantar e vai um percentual do
lucro dessa plantação para o dono do solo. Pode ser que um fato previsível atinja essa lavoura,
ou seja, é um risco natural. Mas esses contratos de parceria agrícola tem um prazo de 3 anos para
acabar. Só que a onerosidade excessiva não está no risco, mas no prazo que as partes firmaram.
Se você manter esse contrato de 3 anos, vai gerar a onerosidade excessiva.

Aula 11- Dia 12/09/2018

 CONTRATOS EM ESPÉCIE:

I- Contrato de Compra e Venda: art. 481 e ss.

Trata-se de um contrato corriqueiro, comum e por isso muito estudado.

A compra e venda incide, necessariamente, sobre uma coisa. O objeto, portanto, da


compra e venda é uma coisa.

Obs¹: desse modo, serviço não é compra e venda e sim um outro tipo de contrato.

Conceito:

Na compra e venda, uma das partes se compromete a transferir a propriedade de uma


coisa à outra que, em contrapartida, se compromete ao pagamento de um preço a ela
correspondente.

Características do Contrato de compra e venda:

a) Trata-se de um contrato bilateral/Sinalagmático: Uma vez que produz efeitos


(direitos e obrigações) para ambos dos contratantes;
b) Contrato Consensual: a manifestação de vontade, por si só, cria vínculo jurídico
e essa manifestação é direcionada para o preço e para a coisa.

Obs¹: é um contrato, que na sua regra, dispensa solenidades. Contudo, dependendo do que está
em jogo, a lei impõe determinadas formalidades. Ex: Contrato de bem imóvel com mais de 30
salários há necessidade de escritura pública, se tiver abaixo, um instrumento particular. Art. 108
CC;

77
c) Contrato Oneroso: o vendedor irá se desfazer desse patrimônio que irá ao credor
por meio do pagamento.

Obs¹: Enquanto não tiver ocorrido tradição, a coisa perece para o dono “Res Perit Dominus”.
Contudo, há uma exceção presente no artigo 503 do CC, além dos vícios redibitórios e evicção.

d) Contrato Comutativo: Presente nos contratos, gera prestações equivalentes. O


preço deve corresponder ao valor daquela coisa. As relações são paritárias e, se
por ventura, houver uma desproporção entre o valor e o objeto no momento da
formação do vínculo, este terá o ônus da prova para alegar lesão (art.156) ou
estado de perigo (art.157) para tentar anular esse contrato de compra e venda;

Obs¹.: Enunciados 150 e 290 CJF

Se essa desproporção for dentro do curso do contrato, poderá a parte alegar resolução por
onerosidade excessiva.

e) Contrato aleatório: Há possibilidade ser um contrato aleatório. Não se sabe de


plano o quanto de lucro ou prejuízo as partes vão experimentar no vínculo
jurídico. Não há comutatividade em decorrência da possibilidade de ser um
contrato aleatório. Nesse caso, não poderá a parte alegar lesão quando assina
contrato aleatório, uma vez que não se trata um contrato comutativo e as partes
assumiram o risco. Ex: art.458 (“Emptio Spei”10 e “Emptio Rei Sperstde”11) c/c
483 CC.

Efeitos da Compra e Venda: Art. 481 CC

Dar-se-á a transferência da propriedade somente com a Tradição.

Elementos da Compra e venda:

I) Consentimento: Contrato decorre da manifestação de vontade entre as partes que


acordam no termo e na coisa. Desse modo, há de ser feita análise da capacidade.
Não basta capacidade de Direito, há de ter capacidade de fato. Não havendo
capacidade de fato, aquele que pretende contratar necessita estar assistido ou
representado.
Pode ser que não basta capacidade de fato para realizar ato da vida civil e necessite
também que esteja legitimado para tanto, por questões de segurança jurídica. Ex:
Tutor e Curador. Essa legitimidade precisar respeitar determinadas regras para
sejam consideradas válidas. Art. 496; (Pensamento do professor é de que se tem
que analisar também o prejuízo, devendo ser preço vil.); art. 499; Art.1647, Art.
497;

II) Coisa: Todo e qualquer bem pode ser objeto de compra e venda. Pode ser atual ou
futura, uma vez que que a tradição que realiza a transferência do bem.

10
Venda da esperança: A existência da coisa. Se, por ventura, a coisa não existir e as partes assumirem o
risco quanto a existência, deverá pagar o preço integral.
11
Venda da coisa esperada: Se as partes assumiram o risco da quantidade. Se não tiver a quantidade
esperada, o comprador compra o preço integral.

78
Obs¹: Cabe ressaltar que o próprio bem de terceiro pode ser objeto de contrato de compra e
venda.

III) Preço: Não havendo preço, não é contrato de compra e venda. Cumpre ressalta
que esse preço, necessariamente, é em pecúnia (dinheiro). Se por ventura, for
dado outro objeto como forma de pagamento, não será compra e venda e sim
troca ou permuta. Deve ser preço sério, paritário, sob pena da parte lesada poder
alegar lesão, simulação ou estado de perigo e, diante disso, esse preço deve ser de
pleno conhecido pelos envolvidos. Contudo, evidentemente, a lei também
trabalha com a possibilidade de oscilação do preço (Art.486 e 487 “preço por
cotação”).

Art. 484: Técnicas de venda que busca instigar a compra: amostra, protótipo e modelo.

a) Amostra: pequena porção daquilo que se pretende alienar.


b) Protótipo: é uma unidade que se encontra em exposição do bem que se pretende vender.
c) Modelo: demonstração do objeto em tamanho reduzido.

Deve se trabalhar com base com o principio da simetria adequada, ou seja, o produto
deve corresponder exatamente a amostra, protótipo e modelo, uma vez que gerou ao adquirente
a confiança que teriam as mesmas características, sob pena de inadimplemento.

Obs¹: com relação aos bens imóveis há uma regra presente no artigo 500.

Venda por medida de extensão (Ad mensuram): o que interessa para o adquirente é a
dimensão que aquela coisa apresenta, a sua metragem. Ex: terreno de 500m², apartamento de
180m².

Obs¹: Art. 500 CC.

Venda conforme a própria coisa(Ad Corpus): o que prepondera é a coisa em si, conforme
foi enunciada. Ex: Sítio piaui.

Venda em condomínio: art. 504 CC. Trata-se no artigo de bem indivisível. Se fosse divisível, cabe
interessada vende sua parte e os que continuarem mantém o condomínio.

Art. 504 §único: a regra de preferencia é em relação a terceiros e não entre os condôminos.
Enunciado 623,CJF.

Obs.: Ver 545 CJF c/c art.179.

 CONTRATO DE DOAÇÃO: Art. 538 e ss.

Conceito:

Trata-se de um negócio jurídico na qual uma pessoa (doador) transfere, gratuitamente,


do seu patrimônio para o de outrem (donatário) bens ou vantagens em caráter, a princípio,
definitivo.

Classificação:

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a) Contrato unilateral: somente visualizamos efeitos desse contrato para o doador
que deverá transferir a coisa para o donatário.
b) Contrato gratuito: Não há contraprestação em favor do doador, há um
empobrecimento em favor do alheio.
c) Contrato solene: Deve ser escrito. (Esse contrato deve ser interpretado
restritivamente).

Obs.: o que pode acontecer com doador que realiza uma promessa de doação que não tenha sido
formalizado? Donatário pode exigir o cumprimento da obrigação? Contrato de doação é um
contrato consensual, de modo em que, o consenso, por si só, forma o vínculo jurídico.
Evidentemente que embora haja liberalidade, tem de ter o aceite do donatário.

Formas de consentimento do donatário: Expresso (onde a pessoa de maneira clara sinaliza o


aceite); Tácito (Comportamento do donatário favorável a doação); Presumido (Art. 539 – é
previsto na lei); Ficção Jurídica (art.543 CC – quando a doação é feita a um incapaz).

Desse modo, pode-se afirmar que por ser tratar de um contrato consensual, produz
efeitos a partir do consenso entre as partes, a realização da promessa da doação , mesmo que as
partes não tenham formalizado esse contrato.

A exceção a isso está presente no artigo 541.

Promessa de doação: Exigível ou não?

1° Corrente: Majoritária, trata-se de uma liberalidade, não há contraprestação, não tendo como
se exigir a entrega da coisa.

2° Corrente: STF trabalha com essa também. Quando essa promessa for feita em um divórcio em
favor da prole, entende-se que nesse caso há a obrigação da transmissão desses bens.

3° Corrente: Entende que esse contrato de promessa de doação produz efeitos entre as partes,
mas o descumprimento tem a solução de qualquer contrato obrigacional, perdas e danos.

4° Corrente: Minoritária. Entende que essa promessa é válida, produz efeitos, mas ainda é
executável.

Elementos da doação:

Elemento subjetivo (transita no “animus donandi” – animo de doar, de se empobrecer


em favor do alheio-) e elemento objetivo (analisar se houve esse desfalque patrimonial daquele
que doa e acréscimo patrimonial para o donatário. Não havendo essa diminuição de patrimônio
e acréscimo do outro, não será doação).

Diferença de Presente e a doação?

No presente não há animus donandi, não há empobrecimento daquele que doa. Outra diferença
importante é em relação aos tributos. Uma vez que há tributação no caso da doação.

Modalidades de doação: Art.540 e ss.

I) Meritória: Há a doação porque visualiza méritos para receber aquele objeto.

Obs¹: realizada a doação, entregue o objeto e há o descobrimento de algum falso motivo é


possível anular o negócio. Art. 140 CC.

80
II) Remuneratórias: Art.540 CC. O doador pretende remunerar o donatário. Como não
teve oportunidade de fazer isso no primeiro momento, deseja realizar agora por
meio da doação.

III) Modal: Art.540 CC parte final: é aquela em que há encargo. Se o donatário não
cumprir com o encargo, a doação poderá ser revogada, contudo, ele já é proprietário
e possuidor da coisa. No caso do donatário já tiver vendido esse objeto para terceiro,
de boa-fé, essa revogação gerará efeitos somente interpartes, no caso perdas e
danos. A partir de ou gravada do 540 c/c 136 c/c 1360 CC.

Modalidades da doação em decorrência da qualidade do donatário:

I) Doação ao nascituro: art. 542. Só produzirá efeitos se nascido com vida, uma vez
que adotamos a teoria da concepção e para ser válida precisa de autorização do
representante legal.
II) Doação ao absolutamente incapaz: art. 543.
III) Doação de ascendentes a descendentes: art. 544 c/c 1845 e 202 CC.
IV) Doação feita em contemplação do casamento: art. 546.

Entidade futura: art. 554 CC. Trata-se de pessoa jurídica atual ou futura.

Obs¹: Doação com cláusula de reversão: aqui o doador quis beneficiar somente o donatário. Se
ele vier a falecer, por exemplo, o objeto volta ao patrimônio do doador. Em caso de comoriência,
professor não sabe, acredita que não reverte porque não há mais beneficiar o doador porque
morreu em conjunto, não teria mais que se falar em reversão e por isso, ficaria com os
descendentes do donatário e não para o descendentes do doador.

Obs.:1251 (fideicomisso).

Vedações a doação: 548-550

Ver informativo 433 STJ.

Ver art.2007 CC.

81
Aula 12- 18/09

DIREITOS REAIS

 Posse (art. 1196 e ss, CC)

Posse é uma situação de fato, na qual uma pessoa, independentemente de ser


proprietária da coisa, exerce sobre ela poderes ostensivos, no sentido de usar e gozar, à luz do
que dispõe o art. 1196, CC.

Savigny, em 1803, sustenta que para que houvesse a posse, deveria haver o corpus (poder
de influência sobre a coisa) e o animus domini (intenção de ser proprietário da coisa). Esta teoria
recebeu o nome de subjetiva, pois trabalhava com a intenção da pessoa de ser proprietária do
bem.

Porém, essa teoria perde força, muito por conta do elemento anímico, pela dificuldade
de sua comprovação, além de resultar na redução do campo de defesa da posse, que não poderia
ser realizada por locatários, por exemplo, já que não seriam possuidores da coisa.

Essa teoria é criticada por Ihering, que, em 1810, desenvolve a Teoria Objetiva da posse.
Ihering retira dessa análise o animus domini e o corpus deixa de ser um poder de influência e
passa a ser um comportamento de proprietário, ao dar uma destinação econômica à coisa. Dada
uma destinação econômica, tem-se a visibilidade do domínio, e terceiros, diante dessa
visibilidade do domínio, conseguem de forma objetiva analisar se a pessoa é possuidora ou não.

A partir do uso e gozo que se tem a visibilidade do domínio. O possuidor age como se
fosse proprietário, independentemente da análise da vontade de se torná-lo.

Porém, essa Teoria Objetiva sofre críticas por doutrinas mais modernas. Nem sempre a
posse ocorrerá em conjunto com a propriedade.

Essa Teoria Objetiva possibilitou o chamado desmembramento possessório, que


desmembra a posse em direta (exercida por aquele que está no controle material da coisa, a
partir de uma relação jurídica estabelecida com o proprietário ou com o possuidor) e indireta (é
aquela que é mantida àquele que cede a coisa ao terceiro, mas que mantém consigo dois dos 4
poderes inerentes ao domínio, que são os de dispor e o de reaver).

Esse direito de ser possuidor é oriundo de relação jurídica de direito real ou pessoal. Essa
posse que se origina de uma relação jurídica é chamada de posse civil, também originária da
própria lei, quando transfere direitos e obrigações. Logo, não é preciso ingressar na coisa para
ser possuidor.

A posse do art. 1196, CC é a posse fática/natural, que não se confunde com a posse civil
(art. 1197, CC).

Segundo Ihering, detenção é a posse degradada/diminuída pela lei. Logo, a detenção é


encontrada na própria lei.

A primeira hipótese é a do fâmulo/servidor da posse (art. 1198, CC). Trata-se daquele que
exerce serviços domésticos.

82
A segunda hipótese é a do art. 1208, CC. O possuidor não perde o poder de influência
sobre a coisa.

Outra hipótese de detenção diz respeito aos bens públicos. Quem está em bem público
é mero detentor.

Há 3 ações possessórias previstas em nosso ordenamento jurídico (art. 1210, CC):


interdito proibitório (é uma ação preventiva, frente a uma grave ameaça), ação de manutenção
na posse (quando o uso da coisa não foi perdido, mas está sendo perturbado) e a reintegração
de posse (quando ocorre a perda da posse, buscando-se recuperá-la).

Essas ações são consideradas fungíveis, pois estas situações podem se alterar muito
rapidamente.

Vale ressaltar que o art. 1210, §1º, CC permite a autoexecutoriedade, realizando a


própria defesa da posse.

Uma primeira corrente sustenta que a autoexecutoriedade é exceção no ordenamento


jurídica, devendo ser interpretada restritivamente, podendo somente o possuidor exercer o
desforço imediato.

Uma segunda doutrina (majoritária) sustenta que o desforço imediato é da essência da


detenção oriunda do fâmulo da posse, onde há dever de conservação da posse. Logo, o servidor
da posse (ex: caseiro) pode exercer o desforço imediato.

 Vícios da posse:

Para qualificar a pessoa como possuidora, pouco importa se o ingresso na posse foi lícito
ou ilícito. Em sendo possuidor, há proteção pelo ordenamento jurídico.

Há os vícios objetivos (art. 1200, CC) e subjetivos (art. 1201, CC) da posse.

Nos vícios objetivos, estuda-se como se deu o ingresso na coisa, como a posse foi
externamente conquistada. Ou seja, se o ingresso se deu de maneira justa ou injusta.

Já nos vícios subjetivos, se analisa o comportamento da pessoa no momento em que


ingressa na coisa, ou seja, se analisa se está de boa ou má fé.

Com relação aos vícios objetivos, a posse injusta é aquela adquirida mediante atos de
violência, clandestinidade ou precariedade.

A posse violenta é aquela adquirida por atos materiais de violência (constrangimento


físico ou grave ameaça, oriunda de ato de coação). Como o vício é objetivo, não se analisam os
motivos que levaram à violência ou contra quem esta foi destinada, mas analisa-se se o ato é
ilícito ou não.

Com relação ao vício subjetivo, há a crença de que não se lesa direito alheio.

Obs.: art. 1203, CC.

Frutos são substâncias que se renovam constantemente em razão de forças internas da


própria coisa. Os frutos podem ser naturais (a origem de renovação se dá por forças da natureza),

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industriais (a renovação se dá por força humana) ou civis (são rendimentos que a coisa
periodicamente produz).

Quanto ao estado da coisa, classificam-se os frutos em pendentes (estão unidos ao bem),


frutos colhidos/percebidos (aqueles que já foram retirados da coisa) e frutos percipiendos
(deveriam ter sido colhidos, mas não foram).

Os produtos não se renovam; uma vez retirados, a tendência é a extinção (ex: exploração
de petróleo).

Aula 13, 21.09.2018

DIREITO DE PROPRIEDADE

 Conceito: direito real que confere ao seu titular um poder sobre determinada
coisa através dos atributos de uso, gozo, fruição, disposição e reivindicação. Art.
1.228, CC. É direito fundamental, estando previsto no art. 5º, XXII, CF.

LIMITES AO DIREITO DE PROPRIEDADE:


LIMITES EXTRÍNSECOS: ex: direitos reais de vizinhança representam limitações extrínsecas
ao direito de propriedade. Você é proprietário, mas não pode exercer esse direito como
bem entender, tem que respeitar o prédio vizinho (imóvel, mas pode até ser um terreno
em que não tenha nada). O art. 1.277, CC, diz que o proprietário de um prédio não pode
causas interferências nocivas à segurança, ao sossego e à saúde dos prédios vizinhos. Isso
já é uma limitação extrínseca do direito de propriedade.
Existem outras formas, como a intervenção do Estado na propriedade privada. A
administração pública te várias formas de fazer isso: desapropriação, ocupação, limitação
administrativa. De certa forma, limitam o direito de propriedade (possibilidade de usar,
fruir e dispor do bem).

LIMITES INTRÍNSECOS: limitações que nascem no próprio âmago do direito de


propriedade, decorrem do direito de propriedade em si. Ela nasce do Princípio da Função
Social da Propriedade: ele limita o exercício desse direito.
O art. 5º, XXII, CF, traz a propriedade como direito fundamental, mas, ao mesmo
tempo, no inciso XXIII, a CF diz que a propriedade deverá ser exercida de acordo com a
função social, ou seja, no exercício do meu direito de propriedade tenho que atentar aos
anseios da sociedade.
Ex: o que se pode fazer com propriedade de um imóvel? Exercer moradia, montar
estabelecimento, etc. Se deixar o imóvel abandonado ou exercer atividades ilícitas não é
respeitar a função social.
Função social da propriedade também é mencionada no art. 170, CF; arts. 183,
184, CF; arts. 5º, 7º, 8º, Lei 10.257/01 (Estatuto da Cidade).
Se você deixar um imóvel seu abandonado, você não dá função social a ele, mas
isso não faz com que você o perca. Porém, se alguém invadir aquele imóvel, exercer a
posse no prazo previsto em lei, adquirirá a propriedade por usucapião. Alguém pode
adquirir por dar uma função social melhor, no prazo previsto em lei.

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 DESAPROPRIAÇÃO SANÇÃO: Pode até acontecer de se perder o imóvel por não
dar função social a ele, segundo o exemplo a seguir.
Ex: imóvel abandonado no Centro do RJ, tem lá agora um terreno baldio. Aqui é área
urbana, poderia ter estacionamento, etc. A Prefeitura faz ordenação urbana, há um plano
diretor. Ela pode determinar, verificando o imóvel inutilizando, que o proprietário utilize
o imóvel ou parcelamento do solo urbano (se imóvel for muito grande). O município,
atento ao fato de que há imóvel em área urbana, cuja função social não está sendo
utilizada, pode determinar a edificação compulsória (construir um prédio, uma casa), ou
seja, dar uma função social a ele. Se o individuo não cumprir a determinação de edificação
compulsória dada pela prefeitura no prazo, nesse caso, a Prefeitura pode instituir, de
acordo com o art. 7º, Lei 10.257/01, o IPTU progressivo no tempo, como forma de
coerção para que o indivíduo cumpra a determinação. Passados 5 anos de IPTU
progressivo no tempo, se o individuo continuar sem utilizar o imóvel, aí sim a Prefeitura
pode promover a desapropriação do bem.
Quando o Estado desapropria um imóvel, qual a finalidade? Para atender ao
interesse público. Às vezes, porém, há a desapropriação sanção: desapropriação para
punir o indivíduo que não deu função social, que não cumpriu a determinação.
Indenização em títulos da dívida pública em favor do particular pela desapropriação.
Contudo, se houver dívida de IPTU progressivo no tempo, haverá compensação de
valores.

 FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA PROPRIEDADE: Art. 1.228, p. 1º, CC.


Traz a função socioambiental da propriedade. Código trouxe regra de direito
ambiental, pois o proprietário deve exercer sua propriedade de modo a respeitar o meio
ambiente. Fala-se em desenvolvimento sustentável, preservação do meio ambiente para
as futuras gerações.
STJ entende que o dever de reparar o dano ambiental é uma obrigação propter rem,
ou seja, se eu comprar uma propriedade na qual foi praticado dano ambiental
anteriormente, posso ser obrigado a reparar, pois é obrigação do titular do bem (cabendo
direito de regresso em favor de quem cometeu o dano).
O dever de replantar é permanente no caso de desmatamento, não havendo nem
que se falar em prazo prescricional.

 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA e ABUSO DO DIREITO:


O direito de propriedade, portanto, tem limitações extrínsecas e intrínsecas, mas
há outro princípio que limita o direito de propriedade: o da boa-fé objetiva. Deve-se
respeitar o comportamento ético esperado de todos em sociedade. Quando se tem um
direito, sobretudo o direito de propriedade, deve-se manter um comportamento ético,
probo. Isso nos faz pensar que não se pode abusar do direito de propriedade.
O abuso de direito, previsto no art. 187 CC, diz que também comete ato ilícito
aquele que, no exercício de um direito, exceder os limites impostos pela boa-fé, pela
função social, etc. É uma ANÁLISE OBJETIVA: basta exceder os limites para cometer abuso
de direito. O CC poderia ter explicado melhor, segundo o professor.

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 ATO EMULATIVO:

O art. 1.228, p. 2º, traz uma modalidade específica de ABUSO DE DIREITO: ATO
EMULATIVO. Exige-se, aqui, a análise da INTENÇÃO: ANÁLISE SUBJETIVA. Por isso que não
utilizamos, pois o abuso de direito é objetivo. O ato emulativo decorre do exercício de
um direito que não traz qualquer comodidade ou utilidade para o seu titular e é animado
pela intenção de prejudicar outrem.
Ex: proprietário de casa pintou demônio no próprio muro apenas para incomodar vizinho
evangélico.

ATRIBUTOS DO DIREITO DE PROPRIEDADE


São extraídos do caput do art. 1.228, CC.

1) ATRIBUTO DE USO:
Uso dentro dos limites impostos pelo ordenamento jurídico, pela boa-fé e pela função
social. Pode ser:
 USO DIRETO: significa dizer que o proprietário tem a posse direta da coisa, está
usando o bem diretamente.
 USO INDIRETO: significa dizer que o proprietário cedeu a sua posse para outrem
e essa pessoa terá a posse direta; consequentemente, o proprietário terá o uso
indireto.
OBS: O USO da propriedade é do PROPRIETÁRIO. Portanto, NÃO CONFUNDIR USO COM
POSSE!
O aluguel também é uma forma de uso. Quem aluga o imóvel também está
usando (uso indireto). Da mesma forma, quem deixa o imóvel fechado por anos,
inutilizando, também está usando. Pode não estar dando função social, mas está usando.

 PROPRIEDADE PLENA X PROPRIEDADE LIMITADA ou RESTRITA:

Propriedade plena é aquela na qual o proprietário conserva com ele todos os atributos
do direito de propriedade. Já a propriedade limitada ou restrita é uma situação na qual o
proprietário NÃO reúne todos os atributos do direito de propriedade porque recai sobre
o bem um ônus real, como, por exemplo, um direito real sobre coisa alheia.
Ex: se minha mãe doar apartamento para mim, serei o proprietário do imóvel. Então,
tenho propriedade plena. Porém, se a doação for com reserva de usufruto: recebi o
imóvel, mas ela é usufrutuária. Significa dizer que há agora 2 direitos reais recaindo sobre
o mesmo bem: eu tenho o direito de propriedade e ela terá o direito real sobre coisa
alheia; ela terá direito de usar e fruir do bem.
Logo, nesse imóvel, que está registrado em meu nome no RGI, ela quem poderá
morar. Também poderá alugar se quiser e receber os frutos, pois ela tem direito de usar
e fruir do bem. Já eu, não tenho esses atributos. Até mesmo eu, se quiser ser locatário,
terei de pagar aluguel a ela.
Só tenho o direito de dispor e reivindicar. Logo, posso vender, por exemplo, sem a
anuência dela. Porém, na prática, ninguém irá querer comprar um imóvel com reserva
de usufruto, pois o comprador não poderá usar e fruir do bem, apenas o usufrutuário.

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Quando há direito real sobre coisa alheia recaindo sobre bem, trata-se de
propriedade limitada ou restrita. No exemplo acima, sou nu-proprietário, pois fui despido
dos atributos de usar e fruir.

 Elasticidade do direito de propriedade: o direito de propriedade pode se contrair


ou se expandir no que tange aos seus atributos.

Quando alugo meu apartamento a alguém, haverá posse direta e indireta, pois a
posse está desdobrada: há uma cisão. Se o locatário devolver o imóvel, passo a ser o
possuidor pleno, não havendo que se falar mais em posse direta e indireta.

2) ATRIBUTO DE GOZO OU FRUIÇÃO:


O proprietário pode gozar ou fruir do bem, ou seja, pode extrair o benefício
econômico da coisa. Há possibilidade de perceber os frutos. Isso fica claro no aluguel, na
extração dos frutos naturais do bem, como uma plantação.
Apesar de não ser tecnicamente correto dizer isso, o simples fato de usar o bem gera
um beneficio econômico. Por exemplo, se eu moro no meu apartamento, estou, no
mínimo, economizando um aluguel.

3) ATRIBUTO DE DISPOSIÇÃO:
Além de poder ser total ou parcial, existem 2 formas de dispor do bem:
 DISPOSIÇÃO MATERIAL: dispor materialmente da coisa é, por exemplo,
abandonar ou destruir o bem. O proprietário é quem pode fazer isso com seu
próprio bem. Às vezes, a disposição pode ser involuntária.
 DISPOSIÇÃO JURÍDICA: é a alienação do bem. Só o proprietário ou quem tenha o
atributo de dispor pode alienar o bem. Se eu constituir uma hipoteca em favor de
instituição financeira, ela poderá dispor do bem.
Alienar: celebrar contrato de compra e venda, doação, permuta, hipoteca, etc.

 CLÁUSULA DE REVERSÃO:
Ex: contrato de doação com Fulano, mas está incluída clausula de reversão: caso
o donatário (quem recebe) venha a falecer antes de mim, o bem retorna para mim.
Porém, o donatário vendeu esse apartamento. Poderia ter feito isso? Sim, pois ele é
proprietário do bem. Porém, se ele morrer antes de mim, como há cláusula de reversão,
posso pedir o apartamento de volta para o comprador. Então, quem compra imóvel
doado com cláusula de reversão poderá ter problemas.

4) ATRIBUTO DE REIVINDICAÇÃO:
A lei, na parte final do art. 1.228, CC, diz que o proprietário pode reivindicar a coisa
com quem quer que injusta a possua ou detenha.

 POSSE X DETENÇÃO:
Ontologicamente, na essência, não há diferença. Possuidor é quem externa os
poderes inerentes á propriedade; o detentor também. Porém, o detentor o é porque a
lei quer, pois tem tudo para ser possuidor. Eles são iguais, mas a lei desqualifica o
detentor.
Art. 1.196, CC: possuidor

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Art. 1.198, CC: detentor (fâmulo da posse)

 POSSE JUSTA X POSSE INJUSTA:


Posse injusta é aquela do art. 1.201: quando o possuidor adquire a coisa através da
violência, da clandestinidade e da precariedade. São os 3 vícios objetivos da posse.
Mesmo que eu não tenha adquirido com violência, se anteriormente, foi adquirida com
violência, é posse injusta. Enquanto estiver ocorrendo a violência, a clandestinidade, não
há posse, há detenção (art. 1.208, CC).
Ex: imagine uma senhora de 70 anos em casa, toca a campainha, ela abre a porta, e
homem dá um soco nela, amarra-a no porão e passa a viver na casa dela. Ele não é
proprietário, ele é mero detentor, pois ainda não cessou a violência. Até que um dia ele
mata a senhora e a enterra no quintal. Assim, cessada a violência, ele passa a ser possuidor
injusto, pois adquiriu a coisa com violência, clandestinidade e precariedade, mas já
cessou.
Precariedade: nasce do inadimplemento da obrigação de restituir o bem. Por
exemplo, quando o comodatário deixa de devolver o bem. Então, instaurar-se-á a posse
precária. Não poderá ocorrer usucapião na posse precária.
Usucapião: tem que ser posse mansa e pacífica e haver animus domini (intenção
jurídica de ser dono). No caso de aluguel, não há animus domini: locatário pode até
sonhar em ser dono, mas não tem intenção jurídica de sê-lo, pois eventualmente terá
que restituir o bem ao locador.

- Quem injustamente possui o bem é possuidor injusto? Depende, NEM SEMPRE. Claro
que o possuidor injusto injustamente possui o bem, mas existem pessoas que
injustamente possuem o bem, mas não têm posse injusta.
Ex: tenho uma casa em Araras e há 10 anos ninguém aparece na casa vizinha.
Então, começo a fazer obras na casa, que está toda quebrada, e invado. Não há violência,
nem clandestinidade (pois estou fazendo tudo às claras), nem precariedade. Eu
injustamente possuo o bem. O esbulho nem sempre decorre da posse violência,
clandestina ou precária. Não há embasamento jurídico.

A lei, na parte final do art. 1.228, CC, diz que o proprietário pode reivindicar o bem
de quem injustamente a possua ou detenha. Aqui não se trata do detentor do art. 1.198,
CC, que é o servidor da posse (caseiro, motorista, pessoas que estão cumprindo ordens).
Senão, a sentença em ação reivindicatória terá efeitos com relação a pessoas que não
são partes. Trata-se do detentor autônomo: aquele que adquire a coisa mediante
violência, clandestinidade, precariedade e ainda não tiver cessado a violência, etc.
O que caseiro teria que fazer, caso fosse citado? Art. 339, NCPC: réu, ao alegar sua
ilegitimidade, tem que indicar o sujeito passivo da relação jurídica, sob pena de arcar com
despesas processuais e de indenizar o autor pelos prejuízos decorrentes da falta de
indicação (antiga nomeação à autoria).
Essa ação reivindicatória tem prazo para ser exercida? NÃO há prazo para o
proprietário exercer o direito de reivindicar a coisa: é imprescritível. Salvo raríssimas
exceções, o proprietário não conseguirá reaver a coisa, mesmo se estando de boa-fé. Se
alguém ocupar o bem, possuir como seu, sem oposição e sem interrupção, no prazo da
usucapião, torna-se proprietário do bem. Se alguém usucapiu o bem, NÃO PODE MAIS
EXERCER AÇÃO REIVINDICATÓRIA.

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CARACTERÍSTICAS

 Direito de propriedade é DIREITO ABSOLUTO


Absoluto no sentido de ser erga omnes. Como em qualquer direito real, o sujeito passivo
é indeterminado.
 Em regra, é PLENO e EXCLUSIVO: art. 1.213, CC. Não é sempre exclusivo, pois há
possibilidade de condomínio (2 ou mais pessoas donas do mesmo bem).
 Em regra, é PERPÉTUO: quer dizer que esse direito não irá se extinguir pelo
simples não uso, pela transferência (troca de titulares); enquanto existir a coisa,
haverá o direito de propriedade sobre ela.
Porém, temos que analisar a possibilidade da chamada PROPRIEDADE TEMPORÁRIA, que
tem 2 espécies:
 PROPRIEDADE RESOLÚVEL: propriedade que está sujeita a uma cláusula resolutiva
qualquer, ou seja, está sujeita a uma condição que, se vier a ser implementada,
irá resolver a propriedade nas mãos de algum dos titulares. Previsto no art. 1.359,
CC.
Ex: art. 547, CC: doação com cláusula de reversão: donatário já recebe propriedade com
condição: se for implementado o evento futuro e incerto, a propriedade volta para o
doador. Se alguém comprar esse bem com cláusula de reversão, posso buscar o bem nas
mãos desse comprador. A propriedade se resolve nas mãos de quem quer que esteja.
 PROPRIEDADE REVOGÁVEL (ad tempus): art. 1.360 c.c. art. 563, CC. Aquela que
está sujeita a um motivo resolutivo superveniente.
Ex: art. 557, CC: revogação da doação por ingratidão. Doei apartamento para Bruna e,
depois de 1 ano, ela começa a me ofender nas redes sociais, atentando contra minha
honra. Ela está cometendo ato de ingratidão. No momento em que ela
supervenientemente começa a ofender minha honra, nasce uma situação de revogação
da doação. Apareceu motivo resolutivo superveniente. Eu, doador, posso ingressar com
ação de revogação da doação e recuperar o bem.
Se eu entro com ação de revogação da doação e Bruna se defende, dizendo que
já vendeu o apartamento para Carol, Carol não poderá ser afetada pelo que Bruna fez
depois que ganhou o bem, pois, ao tempo da doação, não havia nenhum gravame sobre
ele. Não posso recuperar sobre terceiro de boa-fé. Posso pleitear reparação em face de
Bruna referente ao valor do bem doado.
Na propriedade resolúvel, há uma condição que já existe e, se for implementada,
perde-se a propriedade. Já na revogável, perde-se a propriedade quando acontece algo
depois que o bem está nas mãos do proprietário.

- RETORNO DO AUSENTE: os herdeiros do ausente serão proprietários dos bens


recebidos, mas é propriedade temporária, pois pode o ausente retornar durante 10 anos.
Art. 39, CC.
> A propriedade dos bens do ausente que os herdeiros recebem, durante esses
10 anos, é propriedade resolúvel ou revogável? Depende.
Alguns autores dizem que é resolúvel, pois os herdeiros já sabem que há a
condição resolutiva. Outros dizem que é revogável ou ad tempus porque, na verdade, o
fato retorno do ausente é uma situação superveniente.

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Se o herdeiro do ausente vender esse bem que ele recebeu e o ausente retornar,
o ausente NÃO recupera o bem, pois não pode atingir terceiros. O herdeiro terá que
pagar o valor referente à venda ao ausente.

Ao falarmos em propriedade, falamos de um direito elástico, que pode se contrair


e se expandir, na medida em que se podem inserir gravames no direito de propriedade.
Há uma questão que existe desde o Direito Romano: Art. 1.229, CC: a propriedade do
solo abrange o espaço aéreo e o subsolo. O proprietário, portanto, é proprietário do ‘céu
ao inferno’.

FORMAS DE AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE:

Como se pode adquirir uma propriedade imóvel no Brasil? Com registro no RGI.
Segunda forma: usucapião. A sentença tem que ser registrada, mas a propriedade é
adquirida tão logo são preenchidos os requisitos da usucapião. Outra forma de aquisição
é a acessão (natural ou artificial). Essas 3 hipóteses estão previstas em lei. Porém, há
outra que não está expressa no Código Civil, que é a sucessão hereditária. Segundo o
droit de saisine, a propriedade se transfere aos herdeiros no momento da morte.
Arts. 1.260 a 1.274, CC: formas aquisição de bem móvel.
A doutrina diz que deveria ser “comistão”, e não comissão; é erro de grafia do
Código. Na confusão, podemos ter uma situação em que há mistura de líquidos, não
podendo mais separá-los de maneira evidente (não se considerando processos químicos).
Ex: mistura de álcool com água. Quem será o dono daquilo que se formou? Subsiste o
indiviso todo, cabendo a cada um dos donos o quinhão proporcional.
Já a adjunção é a mistura de sólido, na qual se consegue identificar a mistura, mas
não é possível a separação.

 AQUISIÇÃO ORIGINÁRIA: aquisição em que não há a transferência do antigo para


o novo dono. O bem é adquirido sem qualquer ônus, como acontece na
usucapião.
Ex: Indivíduo preenche todos os requisitos para usucapião da propriedade; imóvel já é
dele. E se nesse imóvel, antigo proprietário tivesse constituído hipoteca sobre o bem?
DESAPARECE ESSE ÔNUS, pois é forma de aquisição originária. A instituição financeira
deveria ter se preocupado com isso e interpelado o possuidor.
Todas as causas suspensivas (arts. 197 a 199, CC) e interruptivas (art. 202, CC) do
prazo prescricional também se aplicam ao prazo da usucapião, por força do art. 1.244,
CC.
Ex. 2: usucapião especial urbana: 5 anos. Indivíduo começou a ocupar imóvel, mas sem
pagar condomínio. Nesse 1 ano, o proprietário estava pagando o condomínio e passou a
parar de pagar. Durante 2º e 3º anos de ocupação, ninguém pagou condomínio. Quando
faltavam 2 anos para que o indivíduo possuidor do apartamento usucapir, ele passou a
pagar, ou seja, pagou pelo 4º e 5º anos. Quando ele adquirir o bem por usucapião, ele
terá que pagar as cotas condominiais, pois se trata de obrigação propter rem. O mesmo
se aplica ao IPTU. Só pode registrar a sentença de usucapião se o IPTU estiver pago.

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 AQUISIÇÃO DERIVADA: aquela em que há transferência, seja por contrato, seja por
causa mortis, do antigo para o novo dono. Os ônus que recaem sobre aquele bem
acompanham a coisa, pelo atributo da ambulatoriedade dos direitos reais.
Ex: compro imóvel em leilão (arrematação em hasta pública). Há transferência do antigo
para o novo dono, logo, é forma de aquisição derivada. Os gravames acompanham o bem.
Antes de se arrematar bem em hasta pública, pode se pedir para analisar os documentos
dele.

ASPECTOS RELACIONADOS À FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE:

Com relação às ACESSÕES ARTIFICIAIS, temos 2 tipos:


 PLANTAÇÕES: art. 1.255, CC. Está ligado ao princípio da gravitação jurídica. Se eu
fiz acessão em terreno de outrem, perco para o dono do solo. Princípio da
superficie solus cedicti, como também chama a doutrina.
 CONSTRUÇÕES: quem planta ou constrói em terreno de outro, perde para o dono
do solo.

Tem que se verificar se foi feita acessão de boa ou má-fé.


Ex: José invadiu terreno, sabe que não é dele, e construiu um casebre. Perde para o dono
do solo e não terá direito de ser indenizado, pois está de má-fé. Art. 1.255, CC.
Ex. 2: venda a non domino: José comprou terreno de quem não era dono e construiu casa
lá. PERDE a casa para o verdadeiro dono do terreno, mas será indenizado, pois estava de
boa-fé.

 ACESSÃO INVERTIDA:
Ex: José comprou terreno de quem não era dono e construiu prédio. Perde para o dono
do solo. Mas aqui se aplica o art. 1.255, p.ú., CC: ACESSÃO INVERTIDA: como a construção
ou plantação ultrapassa em muito o valor do solo, é o dono do solo que irá perder para
quem fez a acessão, mediante indenização. Tem que estar de boa-fé, ter ultrapassado
em muito o valor do terreno e pagar uma indenização pelo terreno.

Existe outra situação que deve ser analisada: DESAPROPRIAÇÃO JUDICIAL DO


INTERESSE PRIVADO.
Desapropriação é uma forma de intervenção do Estado na sociedade. Quando
falamos em desapropriação judicial, trata-se daquela feita pelo Judiciário. Está prevista
no art. 1.228, §§4º e 5º, CC.
Ex: proprietário ingressa com ação reivindicatória dizendo que é dono de um terreno,
mas há condomínio de luxo instalado ali. Essas pessoas podem pleitear em defesa a
desapropriação judicial do interesse privado, para conseguirem permanecer no local, (já
que realizaram obras, moram lá) mediante pagamento de indenização. NÃO é a mesma
coisa que acessão invertida.

Art. 10, Estatuto da Cidade: usucapião coletivo: parece com exemplo acima, mas, nesse
caso, tem que ser por pessoas de baixa renda.

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Há entendimento de que, se a população for de baixa renda, na desapropriação
judicial do interesse privado, o Estado é que teria que pagar a indenização ao dono do
terreno.
Entende a jurisprudência, ainda, que a desapropriação judicial do interesse
privado não precisa ser apenas matéria de defesa, podendo as pessoas ingressarem com
essa ação.

 Questão importante:
Casa de propriedade de João, mas Carlos, de má-fé (sabendo que bem não é dele), passa
a ocupar esse imóvel. Art. 1.238, p.ú.: Carlos tem expectativa de adquirir por usucapião
em 10 anos. Ele já está lá há 8 anos. João morreu quando faltavam apenas 2 anos para
completar o prazo de usucapião e deixou um filho de 6 anos de idade. Em quanto tempo
Carlos se tornará proprietário do imóvel? As causas suspensivas e interruptivas do prazo
prescricional também se aplicam ao prazo da usucapião. Logo, ficará o prazo da
usucapião suspenso por 10 anos, até que o filho de João complete 16 anos.

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