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Escândalo

Ada Martin
Sinopse
Era a quarta temporada de Lady Annabelle Weymouth e ela não conseguiu
encontrar um marido, mas a verdade era que não conseguia esquecer Robert
Wilts, conde de Dain e, desta vez, a temporada seria radicalmente diferente
porque ele estava procurando uma esposa. As pressões fizeram com que
Robert tivesse que se casasse imediatamente e, apesar de preferir escolher uma
mulher que apreciasse, não estava disposto a prolongar desnecessariamente a
situação.
Annabelle sabia que Robert não gostaria de casar com ela, ainda mais se
tivesse conhecimento de seus segredos, mas ela não tinha nada a perder, assim
como provocar um escândalo? Seria o conde de Dain tão diferente dos outros
homens?

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Ao Sergio, por acreditar sempre em mim.
A Montse, que me ajudou a consegui-lo.
A minha mãe, por tudo.

~4~
O início da temporada é iminente! Estão preparadas, damas da cidade?
Antes que o tafetá e a música de orquestra não deixem espaço a nada mais, aqui
vai nossa última fofoca:
Parece que este ano o esquivo lorde D. (alto, bonito, loiro, rude, herdeiro do
marquesado de L… Não tem fuga!) permanecerá em Londres durante a temporada.
Terá descoberto nosso admirado Lorde Campestre o prazer da vida londrina?
Ou é, ao fim!, a busca de condessa o que o joga em nossos braços esta temporada?
Em qualquer caso, aqui o conselho de lady Indiscreta: deixem em branco o carnê de
baile, ensaiem quedas de olhos e leiam algum tratado sobre técnica agrícola.
Parece o modo mais seguro de chamar a atenção deste insólito lorde.
E, quem sabe, talvez, cativá-lo…

Extrato do panfleto de lady Indiscreta

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Capítulo 1

Londres, finais de maio de 1851

O verão tinha chegado muito cedo. Um calor impróprio da época


castigava Londres, convertendo as ruas em desertos no meio da tarde e os
vendedores de gelo em homens afortunados.
Para desgraça de Annabelle Weymouth, o ritmo da temporada social
não se viu reduzido nem um pouco. As aristocratas não iam deixar que algo
tão vulgar como o clima interferisse em seus planos.
Incomodada, agitou-se de novo, fazendo que a delicada cadeira de salão
rangesse sob seu peso. Como se sua feminilidade necessitasse outro insulto! Já
suava como um camponês ao sol e o lenço que passava uma e outra vez pela
fronte não conseguia aliviá-la absolutamente.
Desejou ter atendido a sua mãe por essa vez. A viscondessa viúva lhe
tinha ordenado levar um leque e, em um estúpido ato de rebeldia, tinha-o
esquecido de propósito em cima da cama.
Arrependia-se desde que tinha posto os pés no abarrotado salão de
baile.
A orquestra, oculta por uma série de adornos florais bem dispostos,
tocava naquele momento uma peça animada. Os assentos para as damas
tinham sido colocados junto às paredes, do outro lado do salão.
O baile tinha sido anunciado sem jantar seguindo a moda francesa, mas
apesar disso garçons uniformizados circulavam entre os convidados com

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bandejas de aperitivos e bebidas.
Sobre eles flutuavam centenas de velas acesas que outorgavam ao
ambiente uma iluminação cálida. Ou, ao menos, essa devia ter sido a intenção
da anfitriã. Certamente a boa mulher não tinha contado com que o calor das
chamas, somado ao da multidão, converteria sua festa em um coquetel às
portas do inferno.
Annabelle contemplava o animado salão com a mesma emoção a que
assistiria a uma sessão do parlamento.
Levava várias horas naquele tedioso evento e o único bem que tinha
conseguido, era perder de vista sua mãe. E, sem dúvida, a viscondessa não
demoraria para voltar, arrastando atrás dela algum avoado jovem com a ideia
de apresentar-lhe.
Como se após quatro fatídicas temporadas sociais Annabelle não
conhecesse já todos e cada um dos filhos e filhas, primos, sobrinhos,
cunhados e plantas de jardim de todas as famílias aristocráticas do país.
A ponto de completar vinte e quatro anos, não entendia como podia
sua mãe manter viva a esperança. De verdade acreditava que encontraria
marido? Era tão absurdo que, se fazê-lo não fosse arriscar-se a horas de
recriminações maternas, riria.
Durante suas duas primeiras temporadas tinha sido convidada a muitos
eventos, dançava com regularidade e tinha feito muitos amigos. Mas, depois
da terceira, só algumas anfitriãs especialmente boas lhe conseguiam par.
Durante o mês que transcorria desde o início de sua quarta — e,
esperava, última — temporada social, não tinha obtido nenhum convite para
dançar.
De fato, se fosse sincera consigo mesma, nem sequer tinha sido olhada
com interesse por algum cavalheiro, tornando-se invisível por vários
momentos.
Depois de quatro anos exibindo-se como um cavalo bem treinado na

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feira, sem conseguir uma só proposta de matrimônio, não entendia o que
esperava sua mãe que acontecesse. Estavam gastando um dinheiro que não
tinham, ao manter um nível de vida que não ia contribuir-lhes em nada.
Deteve seus pensamentos antes que estes deslizassem naquela direção.
Uma dama jamais pensava em dinheiro.
Claro que uma dama, supunha Annabelle, tinha tanto dinheiro que não
sentia a necessidade de pensar nisso, além de um pai, um irmão ou um marido
que se encarregasse de lutar com aquela questão tão mundana.
O que demonstrava que havia muito pouco de verdadeira dama nela. E
tampouco dizia muito de seu irmão como chefe de família. Quase bufou ao
pensá-lo. Seu irmão tinha quase tanto jeito de líder, como ela de bailarina
russa.
Tentando desfazer-se de seu funesto estado de ânimo, concentrou-se
em quantos bailarinos naquele momento executavam uma dança e a alma lhe
caiu aos pés. Ele também estava ali essa noite. E, é obvio, dançava com outra.
Sabia que devia afastar o olhar. Concentrar-se em analisar as molduras
de corte barroco do teto ou a simetria das estátuas que decoravam as paredes.
Uma dama bem educada o faria.
Não conseguiu, como sempre que o conde de Dain estava na
dependência, Annabelle não pôde fazer outra coisa senão olhá-lo.
Robert Wilts era mais alto que a maioria dos homens e seu cabelo loiro
reluzia sob as luzes do salão. Nunca tinha visto em outra pessoa um cabelo
como aquele: entre o dourado e o castanho mais claro, nem encaracolado,
nem liso, cada onda sempre colocada em seu lugar.
Tinha um semblante harmonioso e clássico, nariz perfeito e mandíbula
proeminente, masculina. O tipo de rosto que Annabelle imaginava mais
próprio de um deus grego que de um nobre britânico.
Embora da distância não podia vê-los, rememorou seus olhos, agudos e
imponentes, de um tom verde pálido quase irreal. Só uma vez havia sentido

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aquele olhar sobre ela e a lembrança a tinha acompanhado, indelével, durante
quatro anos.
A jaqueta azul anil que ele vestia naquela noite se esticou enquanto
executava com correção um dos passos da dança, emoldurando umas bem
formada costas e um bonito…
Sentiu uma comichão muito imprópria de uma dama e, acalorada, teve
que recorrer de novo ao lenço.
Desde que no princípio daquela temporada tinha ficado patente que
Robert procurava esposa, Annabelle ia de sufoco em sufoco. De ter que
suportar sua presença só um par de vezes ao ano, tinha passado a encontrar-se
com ele em cada baile, cada lanche, na ópera ou no Hyde Park.
As belezas da temporada, estimuladas por suas mães, mantinham uma
violenta guerra silenciosa para serem as escolhidas. Lá onde estava Dain, um
grupo de jovenzinhas vestidas de rosa ou branco o perseguiam, e em que pese
a sua resolução de não fazê-lo, Annabelle tinha seguido com paixão quase
doentia cada notícia sobre ele que conseguia escutar. Os últimos rumores
indicavam que já estava decidido. Esperava-se um compromisso iminente,
embora o nome da candidata ainda fosse um mistério.
— Se continua olhando-o de semelhante maneira lasciva, provocará um
escândalo e terão que os casar imediatamente.
Elevou o olhar sobressaltado e sorriu ao comprovar que lady Lydia
Blount se aproximava dela. Os olhos de sua amiga brilhavam de diversão.
Formosa era a única palavra que fazia justiça a Lydia. Os cachos loiros
tinham sido recolhidos em um elaborado penteado que destacava a brancura
de sua tez e ressaltava seus olhos azuis. O vestido, um modelo recatado de cor
rosa pálido, assentava-lhe à perfeição, acentuando sua figura graciosa.
Annabelle não compreendia por que sua amiga tinha ido parar na lista
das solteironas.
Tinha sido uma beleza em seu auge na primeira temporada. Annabelle a

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recordava rodeada de pretendentes, dançando todos os bailes nas festas. Com
seu encanto natural, uma reputação impecável e sendo a terceira filha do
marquês do Derby, o que lhe assegurava um nada desdenhável dote, ninguém
teria pensado que não realizaria um bom matrimônio.
Mas ali estava, dois anos depois, compartilhando banco e confidências
com Annabelle. Era todo um mistério.
— Só me distraio contemplando os bailarinos, Didi — afirmou,
utilizando o carinhoso diminutivo familiar —. Deveria estar orgulhosa de
mim. Durante um segundo pensei na possibilidade de sair sozinha ao jardim e
provocar um ataque de histeria em minha mãe, mas desprezei a ideia em
detrimento desta aceitável e aborrecida atividade. Não se pode dizer que eu
não seja uma dama respeitável.
— Não acredito que o modo que olha ao Dain seja absolutamente
respeitável — assegurou Lydia, sentando-se a seu lado com esforço. Annabelle
a viu levar uma mão à cintura.
— O que se passa?
— Minha mãe tirou outros dois centímetros do espartilho —
sussurrou, tentando sem sucesso tomar ar —. E este calor não ajuda em nada
a minha respiração. Se não me casar logo, não acredito que sobreviva até o
outono.
— Se não encontrar marido não será pelo diâmetro de sua cintura. Mas
bem se deve à falta de inteligência dos candidatos.
— Isso mesmo penso eu, mas prefiro morrer asfixiada a tratar de
explicar a minha mãe.
Annabelle riu, embora não pudesse evitar comparar a figura esbelta de
Lydia com a sua própria.
Pese ao férreo controle alimentício a que estava submetida, continuava
possuindo um corpo de curvas muito terminantes. Exibia uma dianteira tão
abundante que estava condenada a vestir sempre cor escura, a menos que

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quisesse parecer indecorosa.
Não conseguia dissimular nem um pouco aquela protuberância, apesar
de usar decotes vários palmos mais altos do que ditava a moda e levar o
espartilho tão apertado que mal conseguia encher de ar os pulmões.
Somado a seus quadris, mal escondidos inclusive sob a ampla saia, tinha
a inconfundível silhueta de um relógio de areia, muito pouco parecido ao
estilo etéreo que estava na moda.
Mesmo assim, sabia que não era pouco atraente. Teria podido ser
bonita se os atributos que possuía tivessem sido acompanhados de algum
elemento extraordinário. Uns olhos azuis como o mar, por exemplo, ou um
cabelo da cor do ouro. Havia mulheres com um sorriso tão vibrante que era
impossível deixar de as olhar.
Annabelle não era uma delas.
Seu cabelo marrom chocolate e seus olhos de um tom similar a
condenavam a ser mais uma entre muitas. Nem feia, nem bonita. Como estava
acostumada a dizer sua mãe, medíocre.
— Oh, não! — Exclamou Lydia de repente. Annabelle seguiu a direção
de seu olhar e gemeu baixo.
Do outro lado da sala, o espigado conde do Gregers lhes dedicava uma
sentida reverência.
Percival Hill era um homem de físico desagradável, muito alto e
anguloso, e seu caráter era ainda pior. Herdeiro de um marquesado, parecia
pensar que qualquer um com um título inferior ao seu tinha nascido para
servi-lo. Sua prepotência era enorme.
— Acaso tornou a propô-lo? — Perguntou baixando a voz.
— Ontem esteve em casa para falar com meu pai — confessou Lydia
com pesar —. aumentou a oferta: está disposto a perdoar meu dote e comprar
uma casa na cidade no momento em que tenhamos um filho. Varão, é obvio.
— Que romântico!

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— Não brinque. Levo vinte e quatro horas escutando os gritos de
minha mãe. Não acredita que prefira uma vida de mísero celibato a me
converter em marquesa. Passa o dia elogiando as qualidades de seu adorado
sobrinho.
— Estou de acordo com sua mãe — brincou Annabelle —. Quem não
quereria passar toda a vida escutando ao Percy falar de si mesmo?
— Somos primos, pelo amor de Deus! — Quase gritou Lydia.
Annabelle não pôde conter a risada ante o arrebatamento, e após ouvi-
la, sua amiga riu também. A insistente persistência de Gregers resultava quase
hilariante.
— O que pensa fazer? — perguntou sem conter seu desfruto.
— Não sei. — Lydia negou tristemente com a cabeça —. Só espero que
se canse antes que minha mãe consiga convencer meu pai.
— Não acredito que isso aconteça — duvidou Annabelle. O marquês
de Derby adorava a sua filha e não acreditava que fosse capaz de obrigá-la a
casar-se contra sua vontade.
— Há dois anos teria te dado razão — disse Lydia com pesar —. Agora
não sei. Sou a única filha solteira que resta a meu pai e, dá igual quantas vezes
o explique, nunca compreenderá que realmente eu gosto do celibato. Pensa
que trato de convencer a mim mesma de que assim serei feliz. Eu sei que
serei!
Annabelle entendia o temor de Lydia.
Ser obrigada a contrair matrimônio era ruim. Obrigá-la a aceitar um
marido ao que nunca respeitaria era uma abominação.
Em que pese a sua intenção de não fazê-lo, seu olhar procurou o conde
de Dain entre a multidão. Girava com domínio sobre a pista de dança. Era um
bom bailarino e, sem dúvida, sua parceira estava desfrutando da experiência.
Annabelle reconheceu a sua acompanhante. Lady Pomona Swift era,
provavelmente, a dama mais correta que Londres tinha conhecido.

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Tratou de não soltar um bufo.
— Crê que a escolherá a ela? — Perguntou com fingido desinteresse.
Esta vez foi Lydia que seguiu a direção de seu olhar.
— Dain e Pomona? — Meditou uns instantes, analisando os bailarinos
—. Fazem um bom casal.
— Como sabe? Nunca falou com o Dain.
— Ambos são loiros — sentenciou Lydia encolhendo os ombros.
Annabelle pôs-se a rir.
— Uma sólida base para um matrimônio.
— Acredito que não demorará muito em decidir-se — prognosticou
Lydia, franzindo a testa pensativa —. Segundo Lady Indiscreta, nos últimos
anos veio pouco a Londres, e agora já leva quase um mês aqui. Asseguro que
está desejando voltar para casa.
Annabelle também acreditava. E o golpe de desilusão que sentiu ao
pensá-lo foi desconhecido e absurdo. O que importava a ela se ele partia,
ficava ou aprendia a jogar whist? Ele não era seu problema. Faria bem em
recordá-lo.
Era uma garota sensata que jamais se deixou levar pelos pensamentos
românticos que afetavam outras mulheres. Não sabia o que tinha aquele
homem que a fazia comportar-se de uma maneira tão imprópria.
Observou-o girar ao ritmo da música com Pomona entre os braços e
teve que reconhecer que faziam um bonito casal. Não só porque eram loiros.
Também possuíam um tipo de elegância natural que ia além da roupa que
usavam ou o modo que se comportavam. Havia uma certa classe neles, um
saber ser, que ela nunca tinha tido ou sabido imitar.
— Não fique triste, Annabelle — lhe sussurrou Lydia, perspicaz —,
sempre pode ficar com o Gregers quando entender que comigo não tem nada
que fazer.
As gargalhadas de ambas fizeram que algumas damas se voltassem para

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as olhar com reprovação, mas não se importou. Começava a desfrutar do
baile.

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Capítulo 2

Robert observou a dama enquanto esta se afastava e pensou que devia


fazer o mesmo. Se olhava para alguma daquelas mulheres cinco segundos a
mais do que o necessário, no dia seguinte toda Londres saberia. No referente
à aristocracia, devia andar com pés de chumbo.
Deu a volta e atravessou o salão sem uma meta fixa. Supôs que a
condessa de Greenville se sentiria satisfeita pelo êxito de sua festa. Todos os
que eram alguém em Londres, ou queriam sê-lo, estavam ali naquela noite. As
matronas cochichavam, os almofadinhas revoavam ao redor das damas
casadouras que não se encontravam dançando e os homens formavam grupos
discretos longe da orquestra, com toda probabilidade para falar de negócios
sem interrupções.
Sua irmã Elizabeth lhe tinha proibido utilizar os bailes para falar de
negócios. Segundo ela, se começasse a falar de trabalho esqueceria qual era o
verdadeiro propósito de sua presença. Robert tinha acedido entre dentes, mas
sabia que sua irmã tinha razão.
Um garçom passou junto a ele e aproveitou para tomar uma taça.
Possivelmente o líquido ambarino o ajudaria a suportar a curiosidade que
despertava a seu redor. O rumor de que permaneceria em Londres durante a
temporada o tinha convertido em foco de todas os olhares.
Sabia o que os motivava. Nos anos precedentes tinha tido a vida social
mais restrita e necessária e, se durante suas escassas estadias em Londres tinha
assistido a algum evento, seu único propósito tinha sido fechar acordos

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comerciais.
Era a primeira vez que tratava de desfrutar da temporada social e a
experiência não estava sendo boa, aborrecia-se. Tinha saudades do seu lar, das
terras do norte, com suas jornadas de trabalho produtivo e extenuante. Sentia
falta do ar frio, do aroma da terra molhada e, sobretudo sentia falta de sentir-
se útil.
Não via a hora de conseguir uma esposa, fazer sua proposta e sair dali.
Deixou a taça vazia na bandeja de um dos garçons e se encaminhou à
porta que dava ao jardim. O ar frio da noite e a relativa solidão aliviariam sua
saudade durante um momento.
Uma imponente balaustrada de pedra rodeava a escada que descia até o
jardim. Abaixo, dezenas de casais passeavam pelos atalhos iluminados,
perdendo-se entre os canteiros e procurando a intimidade que outorgavam as
grandes sebes.
Não desceu, embora desejasse fazê-lo. O último que precisava era
algum incômodo momento no jardim. Em troca, dirigiu-se à esquina mais
afastada da porta e apoiou as mãos no corrimão. A música do salão chegava
amortecida, longínqua, e o ar fresco da noite era agradável em contraste com
o quente interior.
Fechou os olhos e tentou fingir que não estava ali. Odiava essa cidade,
tão suja e cheia de gente. Não havia nada que o atraísse naquele bulício. As
pessoas que abarrotavam o salão lhe pareciam seres distantes, preocupados
com coisas que não lhe importavam absolutamente. Não entendia aquela
forma de atuar, tão superficial, nem compreendia a rígida maneira de
relacionar-se. Apesar de ser nobre de nascimento, não se sentia entre iguais.
Sua mente evocou um lugar que também cheirava a flores, a terra
úmida e a bosque. Seu lugar no mundo. Jurou que não demoraria para voltar.
Londres, e a gente de Londres, não era para ele. Northumberland o esperava.

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— Annabelle aonde vai? — O sussurro veemente de Lydia a
sobressaltou.
Pôs-se de pé quase sem dar-se conta.
— Vou dar um passeio — respondeu de forma automática, afastando o
olhar com rapidez da porta do jardim e devolvendo-o a sua amiga.
Não conseguiu enganá-la nem por um segundo. Os olhos azuis que a
observavam se entrecerraram, acusadores.
— Logo depois de Dain desaparecer por esse mesmo caminho?
— Dain? Não tinha me dado conta! Aqui faz muito calor e tenho
certeza de que no jardim corre um ar delicioso.
— Não pode ir sozinha ao jardim!
Annabelle lhe dedicou um sorriso cândido.
— Sozinha, não. Contigo entretanto…
Como se tivesse sido convocado pelo dom da má oportunidade, um
pigarro às suas costas as fez voltarem-se. Lydia se levantou de um salto.
— Boa noite, milady. — O acento afetado e o tom pomposo flutuaram
para elas, acompanhado de um bafo de perfume que fez Annabelle pigarrear a
dois metros de distância.
O conde de Gregers as olhava com fixidez.
Ou, mais concretamente, comia Lydia com os olhos, de uma forma tão
grosseira como inquietante, enquanto ignorava Annabelle de forma
deliberada.
— Vão a alguma parte? — Perguntou, arrastando as palavras. Seu tom
condescendente era tão desagradável como seu aspecto.
— Não, milorde. — Annabelle se sentou de repente —. Levava muito
tempo quieta e precisava me estirar. Nada mais.
Gregers a olhou com franco desagrado. Era evidente que para ele, o
fato de que uma mulher mencionasse uma necessidade — incluso uma tão
corriqueira como evitar o colapso muscular —, era de uma baixeza

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imperdoável.
— Estupendo, então — disse voltando a centrar sua atenção em Lydia
—. Desejo convidá-la a compartilhar comigo a próximo dança.
— Milorde, sem dúvida me adula, mas seria descortês da minha parte
deixar Annabelle sem companhia.
— Sua amiga não se incomodará que eu a roube de seu lado uns
minutos. De fato, estaria sendo egoísta se a privasse voluntariamente do
prazer da dança. Ou acaso me engano, lady Annabelle?
Annabelle esfregou as mãos, nervosa. Embora soubesse a recusa que o
conde provocava em Lydia, não havia nenhuma forma educada de evitar a sua
amiga o mau momento.
— Não serei eu que a retenha — se viu obrigada a dizer finalmente.
Lydia assentiu, resignada, enquanto alisava incessantemente com as
mãos seu traje de baile.
— Logo serão uns minutos — assegurou ensimesmada. Annabelle não
soube se o dizia a ela ou a si mesma.
— Passa-o bem! — Despediu-se fingindo um ânimo que não sentia, e
manteve estático o sorriso até que Lydia lhe deu as costas a caminho da pista
de dança, seguida por Gregers.
Como atraída por um ímã invisível, sua vista vagou para as portas
abertas do jardim e sua mente evocou a magnífica figura do conde de Dain
desaparecendo entre elas.
Que mal faria passear um pouco? E, se casualmente se encontrasse com
o conde, não seria um descuido imperdoável de sua parte não saudá-lo?
Decidida, ficou de pé e se encaminhou para o exterior.

Dain se sobressaltou contra sua vontade quando uma voz masculina o


interpelou das sombras:
— Parece que se diverte.

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— O que faz você aqui? — Perguntou com surpresa, virando-se por
conta do recém-chegado.
Adam East, duque do Allendale, encolheu os ombros com indiferença.
Era um homem alto e magro, de cabelo escuro e olhos claros. Poderia ter sido
um bom partido se seu comportamento dissoluto não o tivesse convertido em
um pária aos olhos da sociedade.
Era um nobre caído em desgraça, ele sabia e desfrutava disso.
Encontrá-lo em um salão de baile era tão estranho como ver nevar em agosto.
— Com essas maneiras jamais conseguiremos te casar. — O homem
lhe dedicou um fingido olhar de horror.
— Falas como Elizabeth — apontou Robert.
— Adula-me. Sua bela irmã é a personificação da sabedoria.
— É curioso, ela não tem um conceito tão elevado de ti.
Adam lhe dedicou seu meio sorriso característico, apoiando-se no
corrimão com gesto indolente.
— Outra razão mais para admirá-la.
Adam e ele eram bons amigos desde que se conheceram em seu
primeiro dia em Eton, muitos anos atrás. E o tempo não tinha diminuído o
mútuo afeto. Apesar de Adam ser um urbano nato e ele quase não sair de suas
terras, mantinham uma fluida correspondência.
Com o tempo, Allendale se tinha convertido em um homem muito
diferente do moço simpático e extrovertido que tinha sido em sua juventude,
mas Robert conhecia bem o motivo daquela mudança e, possivelmente por
isso, era mais permissivo ante os gostos extravagantes de seu amigo que o
resto da sociedade.
— Então, nenhuma candidata ainda? — Perguntou Adam, analisando
sua expressão.
Robert quase bufou.
— Nenhuma que mereça a pena.

~ 19 ~
— Há uma boa seleção este ano.
— O que sabe você de damas casadouras? — Perguntou trocistamente
Robert.
Adam o ignorou.
— Quase todas são atraentes e qualquer uma proporcionaria um bom
matrimônio. Terrível na cama, sem dúvida, mas respeitável.
Não se surpreendeu ante a falta de tato. Allendale era conhecido por
dizer as coisas tal como as pensava. O que geralmente queria dizer sem
educação.
— Nenhuma delas é o que estou procurando.
— Acreditei te haver escutado dizer que não seria muito exigente com
as candidatas.
Alguns meses atrás, quando a pressão de seu pai para que casasse se
tornou insustentável, Robert supusera que seria fácil.
Seu condado não tinha problemas econômicos, por isso não necessitava
uma herdeira. Nos últimos anos as coisas tinham ido tão bem que, de fato,
poderia prescindir totalmente do dote, no caso de que escolhesse uma
candidata com dificuldades econômicas.
E, embora desejasse uma esposa que pertencesse a seu círculo social, a
pureza do sangue dela não era um tema que lhe tirasse o sono. Em resumo,
tinha pensado que sendo tão pouco exigente seria factível achar logo a
adequada.
Mas após semanas de bailes, festas e lanches, conversas insossas e
damas que se confundiam umas com outras em sua mente, começava a pensar
que aquela empreitada não seria tão singela como tinha planejado.
E tudo porque não conseguia gostar de nenhuma daquelas mulheres.
Sempre tinha sido um homem passional e suas escassas, mas bem
selecionadas amantes, podiam dar mostras disso. Gostava das mulheres,
quanto mais nuas melhor. Então, por que nenhuma conseguia impressioná-lo

~ 20 ~
nem um pouco?
Em que pese que às vezes seu amigo resultava um incômodo, Adam era
o mais parecido a um irmão que tinha, por isso se permitiu ser sincero com
ele.
— Nunca tinha reparado em quão aborrecidas eram as damas.
— Não tinha reparado? — Perguntou Adam, rendendo-se.
Robert encolheu os ombros.
— A única referência feminina de minha vida foi Elizabeth. Suponho
que acreditei que todas as mulheres eram como ela — respondeu, recordando
a sua descarada irmã mais velha. Mas levo semanas aqui e as únicas que
conheci não parecem fazer nada por si mesmas, riem bobamente e só falam
de vestidos e danças. — Deu outro gole na sua taça, frustrado —. Suponho
que escolherei qualquer uma delas cedo ou tarde. Estou cada vez mais
cansado de toda esta tolice e apenas quero voltar para o norte.
— Assegure-se de escolher bem ou o lamentará cada dia.
Robert torceu o ombro.
— Escolheria qualquer uma que me provocasse algo, pode estar seguro,
mas se não tiver a sorte de encontrá-la, escolherei aquela com que possa fazer
um bom matrimônio e farei minha proposta. A última dama com que dancei
esta noite tinha uns olhos muito bonitos e parecia um pouco menos parva que
as demais. A filha do Montford, lady Penélope.
A gargalhada de Adam foi sincera.
— Refere-se a lady Pomona?
— Como quer que memorize seus títulos, seus nomes e suas caras? Se
me parecem todas iguais! Até estaria disposto a afirmar que todas levam o
mesmo vestido em diferente cor.
— É possível que necessite um pouco mais de vontade se quer
conquistar a uma dama.
Robert grunhiu ante o comentário.

~ 21 ~
— Não quero conquistar ninguém. Nem sequer sei bem por onde
começaria a fazê-lo. Todas parecem iguais de frente e pouco receptivas. Temo
que, se tento pegar alguma pela mão, rebente em soluços e tenha que me casar
com ela para evitar um escândalo.
— Nem todas são assim. Pode estar certo.
— Você teve sorte — assegurou, apurando sua taça —. Isso não prova
nada.
Inclusive na penumbra, pôde ver a momentânea careta de dor que
contraiu o rosto de Adam.
— A isso chama sorte?
Robert quis flagelar-se. Não, é obvio que não. O que Adam tinha tido
era o oposto da sorte.
— Sinto muito, Allendale, eu…
O outro lhe tirou importância com um gesto de mão.
— Não tem que se desculpar, meu amigo. Sabe que dificilmente guardo
rancor.
— Mesmo assim, devia ser mais comedido em minhas palavras.
Adam depositou uma de suas grandes mãos no ombro do Robert e
pressionou de forma tranquilizadora.
— De fato, acredito que sim me ofendeste gravemente, e exijo uma
satisfação. Robert o escrutinou com o olhar e seus piores temores se viram
confirmados quando Adam disse: te perdoarei se vier comigo ao clube esta
noite.
Amaldiçoou baixinho.
— Sabe que me aborreço nesses lugares!
Adam sorriu, maligno.
— Claro que sei.

Ao outro lado da escada, escondida na escuridão e fingindo observar

~ 22 ~
com interesse o jardim, Annabelle tinha escutado cada palavra da conversação,
enquanto seu coração dançava de euforia. Sempre soubera que ele era
diferente! De algum modo, sabia. Havia algo nele que o fazia diferente e ali
estava a prova: as damas de Londres não eram o que desejava como esposa.
Aborreciam-no!
Embora os comentários lhe tivessem parecido um pouco ofensivos
para o gênero feminino, não podia deixar de pensar que tinha razão. Salvando
a Lydia, ela mesma não suportava suas congêneres.
Robert queria uma mulher de verdade; era uma notícia tão boa que
poderia dançar de felicidade. Não se conformaria escolhendo a mais bonita ou
a mais educada, ao menos não de entrada. Queria uma mulher que mostrasse
paixão.
E não havia ninguém em Londres mais apaixonada que Annabelle. Não
lhe gritava sempre sua mãe que era muito veemente? Quantas vezes lhe tinha
reprovado não ser igual às demais? Possivelmente tinha chegado o momento
de demonstrar até que ponto tinha razão a viscondessa.
Sabia que ele não se casaria com ela. Embora o deslumbrasse, algo
difícil de imaginar, seu segredo sempre permaneceria entre os dois. Não, ela
não seria a futura condessa de Dain, mas poderia ser a mulher de quem ele
gostasse? Além dos títulos e das formas, mais à frente do protocolo, o correto,
o incorreto e a opinião da sociedade, poderia ser ela?
Retornou ao salão com cuidado para que não a vissem e suspirou
impaciente ao não ver Lydia. Partira já sua amiga? Esperava que não, precisava
traçar um plano, e logo.
Sentia-se levitar a vários palmos do chão, mais viva do que recordava
jamais ter estado. Aquele homem… era realmente especial.

~ 23 ~
Capítulo 3

Há algo mais aborrecido que um homem que alguma vez quebre as regras?
Provavelmente sim: a mulher com que se case.
Extrato do panfleto de lady Indiscreta.

No dia seguinte, Robert despertou com ressaca e de mau humor. Não


estava acostumado a beber nem a deitar-se tarde. A mistura lhe tinha
produzido uma palpitante dor de cabeça e uma vontade crescente de
estrangular Adam.
Sentado na mesa do café da manhã, amaldiçoou a luz que entrava em
torrentes pela janela. Enquanto tomava com nojo uma taça de café, jurou que
jamais voltaria a ir com seu amigo a nenhuma parte. E muito menos ao clube
Davis, pensou com uma careta chateada.
Sob a fachada de um clube para o uso de cavalheiros, na realidade era
mais que um clube de classe alta, situado em uma boa rua, mas onde um
homem podia ver aflorar seus mais baixos instintos. Tabaco, jogo, mulheres e
álcool. Para alguns de seus semelhantes, o Davis era sem dúvida o paraíso.
Pese à dor de cabeça e a névoa que empanava as lembranças da noite
anterior, estava seguro de ter perdido uma considerável quantidade de
dinheiro naquele antro. Quase podia afirmar que inclusive tinha pedido um
crédito de jogo, algo impróprio dele.
Anotou mentalmente que devia mandar Gibbs pagar antes que a notícia
de sua morosidade se estendesse por toda Londres.

~ 24 ~
Terminou o café da manhã e se arrastou sem ânimo até o gabinete,
situado a uma distância ridiculamente grande.
Quando tinha decidido participar da temporada em Londres, sua
primeira ideia tinha sido alugar uma casa própria, mas seu pai se havia oposto
de forma cortante. Sua casa da cidade estava vazia, disse, e o apropriado era
que seu herdeiro a usasse.
Assim, para não contrariar o homem que mais admirava no mundo,
Robert se via confinado naquela mansão muito grande para ele sozinho,
rodeado de lembranças de sua infância.
A biblioteca era um dos poucos lugares que gostava daquela casa. Era
um cômodo amplo e luminoso, com uma imponente chaminé que recordava
sempre acesa. Várias estantes altas, cheias de livros, eram prova da afeição do
marquês de Laurens pela leitura.
Robert tinha passado muitas horas de sua infância jogando sobre o
tapete do gabinete ou lendo no amplo divã. Recordava seu pai inclinado
durante horas, trabalhando sobre a mesa de mogno que presidia a habitação.
Supunha que sua mãe, que nunca aparecia nas lembranças, teria estado muito
ocupada arrastando o bom nome da família pela lama junto a algum de seus
múltiplos amantes.
Torceu o ombro e tratou de desfazer-se daqueles pensamentos. Não
tinha sentido remoer o passado. A marquesa tinha morrido algum tempo atrás
e Robert tinha tido pouco contato com ela em seus últimos anos de vida.
Mas apesar da idade que tinha e do tempo transcorrido, ao pensar no
abandono de sua mãe ainda se sentia como se voltasse a ter cinco anos.
E odiava aquela sensação.
Percorreu o gabinete, agradavelmente menos iluminado que a salinha
do café da manhã, e tomou assento atrás do escritório. Permitiu-se fechar os
olhos uns segundos, rezando para que o mal-estar que o atacava decrescesse.
Um par de golpes na porta o fizeram grunhir.

~ 25 ~
— Quem? — Espetou de mau humor.
Seu mordomo entrou na estadia, imperturbável.
— Perdoe, milorde. — Gibbs, um homem de meia idade e aspecto
severo, era seu mordomo desde que ficara a cargo do condado há dez anos
atrás, ― chegaram os convites para os próximos atos sociais.
— Os deixe sobre a mesa — respondeu, assinalando o amplo
escritório.
Gibbs fez o que lhe pedia e depois desapareceu com discrição.
Robert baixou a vista. Os convites, diminutos envelopes em diferentes
tons de beje, formavam um ordenado montinho sobre a bandeja. Não se
incomodou em olhar para o que o convidavam. Devia aceitar todos, sabia, e
só o pensamento lhe provocava um considerável torpor.
O que realmente queria era voltar para o norte. Tinha recebido um
relatório de seu administrador lhe informando de alguns problemas entre os
trabalhadores.
Sabia que não era muito habitual entre os pares do reino desempenhar
o papel de latifundiário. A maior parte deles se sentavam em sua casa da
cidade e esperavam que os benefícios caíssem do céu. Robert não era assim.
Gostava de sentir-se útil. Trabalhar a terra, aprender a melhorá-la, vê-la
prosperar. Era sua maneira de realizar-se.
Sem esquecer todas as bocas que dependiam de quão boas fossem as
colheitas e o preço que se conseguisse pelos produtos no mercado. Era uma
carga enorme que às vezes o afligia, mas, sobre todas as coisas, era sua
responsabilidade. Estava impaciente por voltar para o lugar onde o
necessitavam.
Um novo toque na porta interrompeu seus pensamentos. Nem sequer
se incomodou em responder.
Gibbs voltou a aparecer com expressão pétrea.
— Milorde, a condessa de Blessing solicita ser recebida.

~ 26 ~
— Manda-a entrar — respondeu, contendo um gemido enquanto
ficava em pé.
Amava a sua irmã, mas sabia que o motivo da visita de Elizabeth não ia
gostar. Seu temor se fez realidade um minuto depois quando uma mulher
miúda de andar enérgico irrompeu no escritório.
Ninguém que não os conhecesse poderia ter intuído o parentesco, salvo
pelos olhos. Robert era magro, alto e loiro, enquanto Elizabeth era roliça,
baixa e morena. Mas ambos possuíam os inconfundíveis olhos verdes da
família Wilts. Dado o caráter libertino de sua mãe, era uma verdadeira sorte, já
que tinham evitado mais de um desagradável rumor.
— Acredito que encontramos a candidata perfeita! — Anunciou sua
irmã detendo-se frente a ele para beijá-lo na bochecha.
Embora há dez anos ostentasse um dos títulos nobiliários mais antigos
do Império, a formalidade não constituía parte do caráter de Elizabeth.
— Não me diga — disse Robert, sarcástico, convidando-a a sentar-se
com um gesto —. Quando? E, mais importante ainda, onde estava eu quando
isso ocorreu?
Elizabeth se arrumou para fulminá-lo com o olhar enquanto tomava
assento frente a ele.
— Como já te disse antes que toda esta confusão começasse, se quiser
minha ajuda terá que se mostrar cortês. Uma vez na vida não te matará.
— Eu não estou tão seguro disso, mas tentarei.
Sua irmã ignorou o comentário.
— Ontem, no baile, não pude evitar me fixar no bom casal que fazem
lady Pomona e você. Estive indagando por aí, muito discretamente, é obvio, e
acredito que ela é nossa melhor candidata. — Fez uma pausa para tomar ar
antes de acrescentar, sonhadora —: E não pode negar que é muito bela. Uma
beldade! Tão loira e perfeita, teremos uns bebês preciosos!
— Teremos? — Perguntou divertido.

~ 27 ~
— Terá que me permitir mimar meus sobrinhos, Robert. Sabe que
Edgar e eu não tivemos a fortuna de ter filhos.
— Ainda — a interrompeu com firmeza.
Elizabeth lhe dedicou um olhar agradecido.
— Depois de dez anos de matrimônio, começo a pensar que nunca
acontecerá. — Por um segundo, um véu de tristeza empanou seus olhos
verdes —. Mas não importa, em breve teremos vários pequenos Wilts
brincando e correndo ao nosso redor!
Robert tratou de centrar-se nas notícias de sua irmã. Com Elizabeth
sempre era assim, a informação chegava de forma caótica, em rajadas.
— Qual de todas era Pomona?
— A antepenúltima com quem dançou. Levava um vestido rosa. Como
pode não recordá-la?
— Nem sequer você me pode descrever com detalhes! — Defendeu-se
—. Refere-se à filha do Montford?
— Essa mesma!
— Tinha um sorriso bonito.
Do outro lado da mesa, Elizabeth fez um grande esforço para não
fechar os olhos.
— Também tem uma beleza natural muito admirável, foi educada nas
artes nobres, toca violino e piano, e domina o francês. Para não falar de sua
família. Sua linhagem é irrepreensível e seu irmão é soldado.
— Duncan? Conheço-o, fomos juntos a Eton.
— E o que te parece convertê-lo em cunhado?
Robert refletiu durante um momento.
— Está bem. Pomona me pareceu educada e elegante. Acredito que
papai gostará.
— Robert, por Deus! quem vai se casar é você!
— Sério, Elizabeth? Durante um momento pensei que estávamos

~ 28 ~
procurando algemar você.
O olhar que lhe dirigiu sua irmã fez que Robert agradecesse a maciça
mesa que se interpunha entre eles.
— Por que está tão certa de que me aceitará como marido? —
Perguntou, tratando de a distrair —. Até onde eu sei, posso parecer repulsivo
à dama em questão.
— Não pode dizê-lo a sério! Se por acaso ainda não se deu conta, um
conde herdeiro de um marquesado, com dinheiro, educação e uma reputação
irrepreensível, não é algo que abunde estes dias em Londres.
— Possivelmente eu seja inreprovável — se viu obrigado a dizer —,
mas não se pode dizer o mesmo de todos os membros de nossa família. A
aristocracia tem boa memória para algumas transgressões. Sobretudo
tratando-se de coisas escandalosas.
A menção das indiscrições da mãe de ambos fez com que Elizabeth
franzisse os lábios.
— Faz muito tempo isso, Robert. Muitos anos. Ninguém se lembra
mais.
«Eu sim», quis dizer. Sua irmã, entretanto, pareceu ler seu pensamento.
— Tem que aprender a perdoá-la. Não pode viver com isso.
— Jamais vou perdoar o que fez a papai — resmungou Robert com
fúria —. O que nos fez .
— Robert, te amo, mas às vezes sua teimosia me dá vontade de te
sacudir. Deixa o passado para trás. Esquece que eu me casei com um conde e
te posso assegurar que ninguém se atreveu a dizer nada de mau de nossa
família então, e ninguém o fará agora. Além disso — acrescentou com
picardia —, é a segunda temporada de lady Pomona. O conde do Montford
deve estar desesperado.
— Então me aceitarão porque sou seu último recurso. Sinto-me
adulado.

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— Acaso não pode tomar nada a sério?
— Sabe de sobra que me tomo muito a sério, mas neste caso me sinto
fora de meu elemento. Me faça escolher entre diferentes tipos de abono e te
asseguro que saberei te dar uma boa recomendação. Damas casadouras? Nem
sequer sei o que estou procurando. — Ao ver que ia interrompê-lo , pediu-lhe
que aguardasse com um gesto —. Agora bem, sua opinião é o que mais
valorizo. Se pensa que lady Pomona será uma boa esposa para mim, estou de
acordo.
Os olhos da Elizabeth se iluminaram quando compreendeu o que o seu
irmão queria dizer.
— Se o disser a sério inclusive passarei por cima de sua mal educada
referência ao abono.
Robert assentiu, solene.
— Começarei as gestões imediatamente. Esta mesma tarde visitarei seu
pai.
— Não! — Exclamou Elizabeth.
— Por que não? — Olhou-a, confundido.
— Não sabe nada disto, verdade?
— Acabo de te dizer — resmungou, carrancudo.
— Se ontem dançava com todas as garotas e esta tarde te declara, como
convencerá a família de que estás seguro sobre o compromisso?
— Porque estou!
Elizabeth o olhou com doçura.
— O conde é um homem orgulhoso — explicou —. Não conseguirá
nada limitando-se a assinalar a sua filha com o dedo e pedir sua mão em
matrimônio. Não está comprando uma égua, Robert. Deixa que eu me
encarregue. Estenderei o rumor de que já te decidiste e que Pomona é a
candidata. A partir de agora, tenta te mostrar solícito nos bailes.
Robert quase gemeu.

~ 30 ~
— Bailes?
— É obvio que sim, deve ir aos mesmos que ela e te assegurar de lhe
prestar atenção exclusiva. O rumor correrá tão rápido que, quando se declarar,
toda Londres estará convencida de que foi amor à primeira vista. Sobre tudo,
seus futuros sogros.
— O que tem que ver amor em tudo isto? — Inquiriu incomodado.
Sua irmã encolheu os ombros.
— A alta sociedade gosta de fingir que se une por motivos menos
prosaicos que os títulos ou o dinheiro.
Robert meditou na decisão que acabava de tomar. Nem nervos nem
emoção
— Lady Pomona, condessa de Dain — suspirou Elizabeth, alheia a
seus pensamentos. A via tão satisfeita consigo mesma que Robert não pôde
evitar acrescentar:
— Não podiam ter-lhe dado um nome mais feio?
— Oh, se cale!

~ 31 ~
Capítulo 4

A mulher que nunca corre riscos vive uma larga vida.


Ou, ao menos, isso lhe parecerá.
Extrato do panfleto de lady Indiscreta.

Annabelle percorria seu dormitório uma e outra vez, agitada.


A habitação, de inconfundível toque infantil, não a tranquilizava
absolutamente. Cada um daqueles móveis, cortinas e até a roupa de cama
tinham sido escolhidos por sua mãe. Inclusive as peças de aquisição mais
recentes, pagas por ela com seu próprio dinheiro, tinham sido compradas sem
sua aprovação.
Jamais tinha gostado daquela habitação, mas naquele dia estava
realmente desesperada por sair dali.
O tempo tinha passado com exasperante lentidão toda a semana e
agora que por fim o momento estava perto, as horas se eternizavam no
relógio. Sentia borboletas no estômago e algo, dentro dela, que identificou
como pânico.
Ainda estava em tempo de voltar atrás, recordou-se, mas desprezou a
ideia imediatamente. A decisão estava tomada, e a levaria a cabo com todas as
suas consequências.
A parte lógica de seu cérebro lhe indicava que ia cometer uma estupidez
sem nenhuma justificativa válida. Poria sua reputação em jogo e se arriscaria a
ficar em ridículo para nada.
Como podia estar segura de que Dain fosse diferente?
~ 32 ~
De fato, não conhecia o conde o suficiente para saber como reagiria.
Podia simplesmente confiar em que, no pior dos casos, ele calasse? E se
incitava um escândalo e ficasse arruinada frente à sociedade? Sua mãe nunca a
perdoaria.
Obrigou-se a serenar-se. Nada de mau aconteceria. Com toda
probabilidade o conde de Dain não cairia fulminado de amor a seus pés, por
mais arrojo que ela mostrasse, mas afinal, ele estava a ponto de casar-se.
A grandiosidade daquele pensamento a golpeou.
Ele ia pertencer a outra. E então admirá-lo já não seria correto. Teria
que esquecer-se dele e limitar-se a sua desinteressante vida de solteirona.
Se não fizesse algo naquela noite talvez nunca tivesse a oportunidade.
De verdade queria viver sem saber o que se sentia? Annabelle estava segura de
que não. Corresse o risco que corresse, estava decidida.
Tombou na cama, sentindo como o coração palpitava com rapidez no
peito, ia fazê-lo. Sorriu, presa dos nervos e de emoção.
Recordava com absoluta precisão o momento que tinha visto Robert
pela primeira vez, quatro anos atrás.
Annabelle tinha estado nervosa, de um modo similar a como estava
aquela mesma tarde, enquanto se dirigiam ao baile. Era seu segundo ato
oficial, de adulta, e a emoção ameaçava transbordar. Uma semana antes, em
seu primeiro ato oficial, tinha descoberto com surpresa que adorava ser uma
dama.
Adorava Londres, adorava os bailes, a música, os vestidos elegantes e a
galanteria dos cavalheiros. Sentia-se em uma nuvem, longe de sua mãe, entre
suas iguais, Annabelle tinha tido a oportunidade de conhecer garotas como
ela. Moças alegres e amáveis que a tinham acolhido como uma igual. Talvez
não tivessem uma conversação muito estimulante, mas eram simpáticas.
O salão dos duques de Severn tinha brilhado aquela noite. A duquesa
era uma anfitriã famosa e todos os anos conseguia superar-se. Annabelle tinha

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encontrado as suas amigas e rido com elas. Alguns rapazes a tinham
convidado para dançar e começava a sentir-se realmente bem quando o
homem mais impressionante que alguma tinha visto entrou em seu campo de
visão.
Logo que conseguiu esboçar uma leve saudação quando foram
formalmente apresentados, e quando ele se inclinou ante ela e solicitou uma
dança quase desmaiou. A cotovelada de uma de suas amigas a tirara da
paralisia e, antes de dar-se conta, os fortes braços do conde a rodeavam e a
faziam girar com garbo sob o atento olhar da aristocracia londrina.
Uma só dança. Isso era tudo o que Annabelle tinha compartilhado com
Robert e, anos depois, ainda sentia a emoção e o desejo profundo que tinha
despertado nela. Recordava de forma nítida a sensação dos braços dele
rodeando-a, a segurança que sentiu em seu abraço. O erótico da dança.
Durante anos tinha tratado de entender o que tinha passado pela cabeça
de Robert aquela noite, por que tinha se aproximado dela, forçando a
apresentação? Por que a tinha tirado para dançar?
Apesar de transgredir uma das normas sociais mais básicas, tinham
falado durante toda a dança. Lhe tinha perguntado se desfrutava da temporada
social. Tinha-a feito rir, lhe contando uma divertida anedota sobre um
professor de dança que tinha tido quando jovem. Foi encantador e eloquente.
Annabelle tinha desfrutado da sensação de ter cativado a atenção de um
homem tão magnífico. Tinha-lhe contado que estava entusiasmada e que tudo
era muito melhor do que esperara.
Aquela foi a primeira vez que falou com o conde. E também a última.
Ele tinha sido um perfeito cavalheiro, desdobrando ante a inexperiente
Annabelle todo o potencial de sua masculinidade. E ela tinha caído em sua
rede como um passarinho.
Pela primeira vez em sua vida, permitiu-se fantasiar com coisas típicas
de damas. Tinha sonhado com casamentos, com ducados e meninos de olhos

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impossíveis. E tinha desejado tudo.
Mas, como se tratasse de um sonho, Robert desapareceu do baile logo
depois e nunca mais pareceu mostrar interesse nela.
Não a visitou na manhã seguinte, para decepção de sua mãe. Recordava
também de forma vívida a sensação de seus braços rodeando-a, tampouco
tinha esquecido as inflamadas recriminações da viscondessa. Passaram várias
semanas até que voltou a encontrar-se com ele em um baile e, então, ela havia
tornado a ser uma daquelas damas sem nome.
Apesar da desilusão, Annabelle não tinha podido fugir da fascinação
que o conde lhe provocava. Desde esse momento, se ele estava no salão de
baile, ela não podia fixar-se em ninguém mais; se estava ausente, tinha
saudades de sua presença e todos os cavalheiros lhe pareciam desinteressantes
em comparação.
E agora, depois de tanto tempo, ia cometer uma loucura que a
aproximaria dele.
Em parte, reprovava-se por ter demorado tanto tempo. Em seu foro
íntimo, tinha desejado aproximar-se dele desde o começo. Por que tinha
esperado até o final?
Embora morreria antes de confessá-lo em voz alta, a realidade era que
parte dela tinha guardado a absurda esperança de que o conde voltasse. Cada
vez que ele entrava em um baile, algo odioso e inocente em Annabelle se
revolvia de entusiasmo, e esperava o momento em que ele a procurasse com o
olhar entre a multidão.
— Estúpida imaginação — murmurou, despeitada.
Um forte golpe a sobressaltou. Sentou-se na cama e acomodou o
vestido e o penteado. A governanta, a robusta senhora Prudence, apareceu na
porta.
— Lady Lydia Blount está aqui, senhora.
— Diz-lhe que suba.

~ 35 ~
Vários minutos depois, Lydia entrou em seu dormitório embelezada
com um belo conjunto de passeio azul escuro e os cachos loiros recolhidos a
um lado da cabeça.
Annabelle a olhou com admiração.
— Como pode ficar bem com um penteado tão ridículo?
— Isso é um elogio? — Riu a recém chegada.
— Sabe que sim. — Fez-se a um lado na cama, lhe fazendo espaço —.
Vem. Quero te pedir algo.
— O que é tão importante para que te saltem todas as normas de
cortesia existentes e não me ofereça nenhuma triste xícara de chá? —
Queixou-se Lydia, lhe dedicando uma careta antes de obedecer.
Annabelle respirou fundo e se armou de coragem.
— Necessito que me ajude a procurar um vestido adequado para esta
noite.
Lydia a contemplou inexpressiva um instante. Depois, pareceu chegar a
uma conclusão nada agradável e franziu o cenho com suspicacia.
— Ainda com isso? Deveria tirar essa ideia da cabeça!
— Crê que não tento? — Exclamou, exasperada —. Mas não encontro
nenhuma razão válida para não fazê-lo. O que pior pode acontecer?
Tinha tratado de lançar uma pergunta retórica, mas Lydia parecia havê-
la estado esperando. Até tomou ar antes de lançar sua alegação por escrito:
— Acaso tenho que lhe recordar isso, poderia sofrer uma terrível
humilhação. Todo mundo saberá! Será pega pelas intrigas da sociedade, sua
reputação ficará arruinada. Para não falar do escândalo. — A voz foi
apagando até converter-se em um sussurro —. E, sobretudo, podem te fazer
mal.
Annabelle sorriu. Pelo olhar preocupado que lhe dirigia, sabia que a
Lydia importava muito pouco o escândalo social. Pensou em quão afortunada
era por ter alguém como ela.

~ 36 ~
Agarrou a mão de sua amiga e lhe deu um apertão reconfortante.
— Não vai acontecer nada disso, Didi, pode estar tranquila. Será uma
aventura. Ninguém saberá nunca.
— Então, por que se arrisca?
Suspirou, procurando as palavras adequadas para expressar o que
sentia.
— Porque devo fazê-lo! Eu não sou tão otimista como minha mãe.
Perdi a esperança de me casar algum dia e ter uma família própria.
— Isso não é verdade! Se de verdade queria se casar não custaria muito
encontrar um bom homem. É sua obsessão com o Dain que lhe impede isso.
Se pudesse se esquecer dele…
— Esta é minha quarta temporada em sociedade e nem sequer tive
muito êxito na primeira! Não tem nada que ver com o Dain. Nenhum homem
se mostrou interessado e, com sinceridade, parece-me bem. Como sabe, antes
de morrer, meu pai me deixou um pequeno fideicomisso, suficiente para
manter uma vida cômoda e não ter que me preocupar com o dinheiro embora
não me case. — Omitiu falar que seu fundo reduziu grandemente depois que
seu irmão perdeu toda a fortuna familiar, pouco depois de herdá-la —. E dado
meu caráter, é provável que seja melhor que não me case. Condenaria um
homem a me fazer sofrer para sempre. — Ambas sorriram, sabedoras de que
ao menos essa parte era verdade —. Tem razão em que jamais encontrei
interessante nenhum outro, mas não posso evitar me sentir como me sinto.
Dain é o único que realmente desejei alguma vez. O único que me provoca
desejo. Nem sequer entendo por que, mas faz muito que deixei de lutar contra
esta estúpida sensação.
— E isso é motivo suficiente para que se arrisque a cometer uma
loucura?
— Sim! Tenho que me arriscar Didi, acaso não o vê? Não posso viver
toda minha vida me perguntando o que teria acontecido. Não posso me sentar

~ 37 ~
em salões de baile daqui à eternidade para ser martirizada pela ideia do que
teria ocorrido se tivesse sido um pouco mais valente.
Lydia parecia tratar de compreender seu ponto de vista. Finalmente
suspirou.
— Está bem — concedeu, dirigindo-se para o guarda roupa de
Annabelle —. Escolhamos esse vestido. O que lhe parece o que levou uma
vez à ópera? O azul ressalta o tom de sua pele.
— Acha que poderia me pentear? Prudence só sabe pentear de um
modo: com coque.
Lydia riu.
— Posso tentar, embora não prometa nada. Jamais penteei alguém.
Annabelle poderia ter saltado de alegria. Com Didi ajudando-a, nada
podia correr mal.

~ 38 ~
Capítulo 5

Uma dama sempre deve estar preparada para responder com elegância a uma
proposta de matrimônio.
Sobretudo se o primeiro pensamento atrás dela é:
«nem o sonhe, cretino».
Extrato do panfleto de Lady Indiscreta

Transgredindo as ordens diretas de Elizabeth, tinha decidido declarar-se


a Pomona naquela mesma noite. Sua irmã poderia saber muito de protocolo e
cortejos, mas não tinha nem ideia de como seduzir uma mulher.
Para sorte de ambos, ele sim. Uma vez que tivesse beijado Pomona sob
a luz da lua, a garota cairia rendida a seus pés e seria um ponto a seu favor
quando enfrentasse seu pai.
Enquanto voltava a dançar com ela, analisou a sua futura esposa. Era
uma garota formosa. Verdadeiramente bela, de fato. Tinha uns lindos olhos
amendoados do tom azul das turquesas, um rosto fino e um bonito cabelo
loiro. Mostrava um aspecto cândido, mas não fugia de seu olhar. Robert
estava acostumado a impressionar homens adultos que, frequentemente,
sentiam-se intimidados por sua posição social. Mas aquela mulher lhe sorria
com doçura e tinha uma graça natural para falar muito sem parecer aborrecida.
Sua irmã tinha razão ao dizer que a beleza sutil da garota era notável e
suas aptidões sociais a prova de toda dúvida. Seria uma condessa perfeita.
A dança terminou com uma pirueta e Robert se apressou a inclinar-se
frente a ela.

~ 39 ~
— Sempre é um prazer ser seu par, milorde.
— O sentimento é mútuo, lady Pomona.
— Se me desculpar, concedi a dança seguinte.
Robert compreendeu que ela pensava ir-se e lhe bloqueou o passo,
colocando seu corpo frente ao dela.
Estavam mais perto do que o correto, mas não lhe importou. Deu-se
conta de que ela era realmente baixa.
— Lady Pomona, um segundo, por favor — pigarreou —. Ouvi dizer
que os jardins dos Winchester são espetaculares. Perguntava-me se gostaria de
descobri-los comigo.
— Temo que não o entendo, milorde.
Obrigou-se a clarear a garganta e pensar. Do lugar de onde ele vinha, se
alguém tinha que dizer algo, simplesmente o dizia. Todos aqueles ardis sociais
para se comunicar sem se expressar de todo o deixavam louco.
— Eu gostaria de manter uma conversação a sós com você, se fosse
possível. Quero lhe fazer uma proposição.
Os olhos da garota se abriram desmesuradamente e Robert se deu
conta de várias coisas. A primeira, que desta vez ela tinha entendido
perfeitamente o que ele queria dizer.
E, a segunda, que longe de achar-se emocionada, um véu de pânico
havia tomado por completo seus olhos de cor turquesa.
— De verdade? — Atinou a perguntar, boquiaberta —. por quê?
Robert se sentiu incômodo ante sua incredulidade. Uma vez mais, sua
irmã tinha tido razão ao lhe indicar que esperasse. Pomona era uma dama.
Não aceitaria nada menos que um galanteio adequado.
— Certamente, lady Pomona, meus sentimentos por você… —
Começou a explicar, mas calou ao dar-se conta de que não podia dizer nada
mais sem mentir. Sentindo que se colocou a si mesmo em uma armadilha,
tentou de novo —. Realmente acredito que deveríamos passear. Só você e eu.

~ 40 ~
Possivelmente à luz da lua eu possa encontrar as palavras que procuro.
— Milorde, deve saber que é uma imensa honra para mim, infelizmente
reservei as duas danças seguintes.
O mal-estar de Robert aumentou ao comprovar como um cavalheiro
entrava na pista e olhava a seu redor. Quando cravou os olhos em Pomona e
começou a andar para eles soube que não lhe ficava muito tempo.
E, maldita fosse, não lhe ia escapar com tanta facilidade.
— É obvio, não espero que você falte a sua palavra por minha causa.
— Fez uma pausa para dirigir ao jovem um olhar evidente —. Entretanto, eu
sim darei esse passeio pelo exterior. Tenho pensado voltar logo para minhas
terras, assim pode ser que esta seja a última vez que possa desfrutar da noite
londrina. Espero que uma vez que seu carnê de baile se desocupe, possa me
conceder a honra de sua companhia. Esperarei encantado… Esta noite.
Robert abandonou o salão, ofuscado. Não é que tivesse algum
sentimento por Pomona absolutamente, mas não deveria ela ter se sentido um
pouco mais adulada? Não teria sido mais correto que se desculpasse ante
quem quer que tivesse a seguinte dança e o tivesse acompanhado ao jardim?
Não se supunha que as damas casadouras estavam desesperadas para
encontrar marido?
Durante um segundo, meditou profundamente a ideia de abandonar o
baile. Entretanto, teve que recordar o motivo pelo que aquilo era necessário.
Necessitava uma esposa e conseguiria uma logo. Daria a Pomona o benefício
da dúvida. Se ela não se apresentava, passaria a outra candidata.
O jardim era bonito e cuidado e três minutos depois de caminhar por
ele, compreendeu com horror que os Winchester tinham se rendido à absurda
moda de converter parte dele em uma réplica em miniatura do labirinto de
Minos.
Maldita fosse a alta sociedade e suas ideias estranhas. Aquilo só
mostrava uma alarmante quantidade de tempo livre, pensou, retrocedendo

~ 41 ~
sobre seus passos, com o que longe de encontrar a saída, só conseguiu entrar
mais entre as altas paredes de sebes.
Percorreu alguns metros mais até que o som da água o surpreendeu.
Uma bonita fonte de pedra coroava aquela zona, relaxou-se, certamente aquilo
seria o centro. Seria mais fácil sair dali sabendo a que altura se encontrava.
Virou-se, disposto a partir. E então a viu.
Não é que fosse muito difícil precaver-se de sua presença. Ela estava
parada a vários metros dele, oculta à sombra das sebes. Robert teve a
impressão de que não lhe era familiar.
Não era, certamente, nenhuma das moças com as que tinha tido
entendimento nos últimos dias. Aquela era mais volumosa que qualquer uma
delas. Além disso, levava um vestido escuro muito diferente dos rosas e
brancos das damas casamenteiras.
Sentiu um gosto amargo na boca ao compreender que só havia um
motivo pelo qual uma dama escaparia de um baile para entrar só na noite. Sem
dúvida teria um encontro clandestino com seu amante.
Quis lhe perguntar se estava casada, se tinha filhos. Se pensava neles
antes de cometer semelhante imoralidade. O golpe de fúria que sentiu foi tão
profundo que teve que recordar-se que o que fizesse aquela mulher não era
assunto dele.
— Temo que você também foi vítima do labirinto dos Winchester —
obrigou-se a dizer com estudada falta de interesse, tentando controlar a ira
que sentia.
Esperava que entendesse a mensagem implícita e tivesse a decência
suficiente de sair dali sem envergonhá-los ainda mais aos dois.
A figura caminhou para ele e a luz da lua lhe iluminou o rosto. Apesar
de sua cólera, não pôde deixar de pensar que era bonita. Analisou o penteado
elegante dela, muito sério para seu gosto, as altas maçãs do rosto e a curva
generosa de seus seios, evidentes apesar do vestido.

~ 42 ~
Em algum lugar daquele labirinto havia um homem muito afortunado.
— Temo que não me perdi, lorde Dain.
A surpresa deixou Robert paralisado uns segundos.
— Você sabe meu nome. Tenho que supor que eu conheço o seu?
— É evidente que não, milorde, ou não estaríamos mantendo esta
conversação.
— Então, milady, é hora de que solucionemos isso. Não lhe parece? —
Avançou para a dama, se deteve muito perto de propósito, e deu-se conta de
que se equivocou. Ela não era bonita, era linda. Inclusive à escassa luz da lua
pôde ver as sardas que descansavam graciosamente sobre seu nariz e a
grossura apetecível de seus lábios.
Apesar de sua horrível memória para os nomes, era bom recordando
rostos. Entretanto, a ela não conseguia localizá-la. Acaso não seria uma dama?
Uma viúva de províncias, talvez?
Robert fez uma reverência formal frente à mulher.
— Robert Wilts, conde do Dain. A seu serviço.
A mulher o olhou aniquilada durante uns segundos. Depois imitou sua
reverência.
— Lady Annabelle Weymouth.
— Weymouth — refletiu ele —. Como o visconde?
— O visconde Weymouth é meu irmão.
Robert assentiu em silêncio.
— Conheci seu pai. Era um cavalheiro respeitável — assegurou, quase
cuspindo a última palavra —. Assim tem um irmão. Sem dúvida a esta altura
se perguntará por você. Talvez devesse voltar a entrar.
— Ainda não.
Olhou-a sem compreender. Antes que pudesse intuir a que se
propunha, a jovem cortou a escassa distância que os separava, ficou nas
pontas dos pés e o beijou.

~ 43 ~
Seus corpos não se tocavam, ela não o rodeou com os braços, logo foi
um simples contato de seus lábios. Era evidente que, apesar de seu
comportamento descarado, a garota não tinha muita experiência. A posição de
sua boca não era a correta e mantinha os lábios firmemente apertados contra
os dele.
Por reflexo, Robert inclinou a cabeça e suas bocas encontraram o
ângulo perfeito. Sem saber como, encontrou-se respondendo com
entusiasmo.
Fazia muito tempo que não beijava a uma mulher e quase não podia
recordar quando foi a última vez que uma o tinha beijado.
A garota era cálida e exuberante, e não pôde evitar a tentação de apertar
seu corpo contra o dela enquanto sua boca tomava o controle. Tomou a
cabeça com as mãos, segurando-a firmemente no lugar, e deslizou a língua
pelo lábio inferior da jovem, convertendo o beijo em um pouco mais íntimo.
Sentiu que ela tratava de afastar-se, provavelmente assustada por sua
veemência, mas não o permitiu. Depositou uma série de beijos ardentes sobre
seu lábio interior.
Era ele quem tinha sofrido o assalto e seria ele quem lhe poria fim.
Suavizou a pressão, roçando com seus lábios uma e outra vez, até que a jovem
suspirou e murmurou algo ininteligível. Robert aproveitou para lhe deslizar a
língua na boca, instando-a a abrir os lábios.
Quando o fez, a umidade que encontrou do outro lado o fez gemer.
Enquanto sua boca tomava, acariciou-lhe as costas com as mãos e deixou que
estas deslizassem para baixo através do vestido. Rodeou com doçura a firme
curva de seus glúteos, atraindo-a firmemente para si. Sentiu como um triunfo
quando os braços da jovem o rodearam, lhe devolvendo o abraço.
Sua ereção palpitou, expetante, e Robert, perdendo todo o controle,
afogou um gemido enquanto aprofundava o beijo...
O pigarro soou tão alto e potente como um tiro na calada da noite.

~ 44 ~
Contra sua vontade, interrompeu o beijo e olhou sobre a cabeça da jovem
para a entrada do labirinto.
Robert se considerava um homem inteligente, mas naquele momento
lhe custou um minuto discernir o que estava vendo. Finalmente, compreendeu
que, embora tarde, Pomona tinha decidido aceitar seu convite e dar um
passeio. E, por algum motivo desconhecido para ele, tinha-o feito extensivo a
sua augusta mãe.
Só assim podia explicar que ambas as mulheres se encontrassem ali,
contemplando horrorizadas como ele compartilhava um excitante abraço com
uma dama no jardim dos Winchester.
Enquanto a condessa de Montford parecia a ponto de desmaiar e
Pomona tapava a boca com as mãos, Robert girou a cabeça lentamente para
cravar o olhar na mulher que tinha provocado tudo aquilo.
Duas ideias atravessaram sua mente de forma simultânea: parecia que
finalmente tinha encontrado esposa. E não seria lady Pomona Swift.

~ 45 ~
Capítulo 6

Não há nada mais estimulante que um bom beijo. Salvo, talvez, um bom escândalo.
Extrato do panfleto de lady Indiscreta

Annabelle contemplou com estupor às duas mulheres, enquanto a


emoção em que tinha estado inundada se diluía a seu redor.
Foi consciente do corpo do conde ainda apertado contra o seu, da
pesada mão em suas costas e a umidade de seus lábios. A gravidade da
situação em que se achava a deixou momentaneamente sem respiração.
Baralhou suas opções, tratando de analisá-lo com frieza.
A condessa e sua filha pensariam é obvio, que lorde Dain a tinha
seduzido no jardim. Podia tentar confessar que não tinha sido assim. Que fora
ela que o tinha beijado, mas, inclusive caso acreditassem, aquilo só
contribuiria para aumentar o escândalo.
Toda Londres saberia. Sua reputação ficaria arruinada para sempre.
Seria separada da sociedade, não seria recebida em salões nem convidada a
bailes e seu nome, se é que alguma vez voltava a ser pronunciado, seria entre
sussurros e olhares condescendentes.
Sua mãe jamais a perdoaria.
Quase podia sentir já sobre ela os olhos da viscondessa e as
recriminações com que teria que aprender a conviver. Que tipo de dama se
equilibrava sobre um homem no meio da noite?
Nem sequer ela podia responder a essa pergunta.

~ 46 ~
Não obstante, embora não servisse de nada, decidiu ser sincera. Abriu a
boca para explicar seu indecoroso comportamento, mas a ensurdecedora voz
da condessa afogou seu murmúrio.
— Lorde Dain! — Gritou com um tom histérico na voz —. Jamais
teria imaginado que você seria capaz de… — Calou abruptamente. A ideia de
pôr em palavras o que pensava pareceu ser muito para ela.
— Do quê, condessa? — Perguntou Dain com frieza, moveu-se para
enfrentar às visitantes, cobrindo a metade de Annabelle com seu corpo.
Permanecia o suficiente perto para que ela notasse a tensão que se desprendeu
dele. Sabia que seria mais prudente afastar-se, mas uma parte irracional de seu
cérebro se negava a fazê-lo —. O único de que posso me confessar culpado é
de não resistir a tentação de roubar um beijo da minha noiva à luz da lua.
Poucos homens poderiam me condenar por isso.
Annabelle abriu a boca. E logo a fechou.
— Do que você está falando? — Gritou a condessa —. Você não tem
noiva! Faz meia hora convidou a minha filha a passear por estes jardins, sem
dúvida com o sujo propósito de seduzi-la.
Dain dirigiu um olhar tão glacial a Pomona que Annabelle se
surpreendeu de que os arbustos que havia atrás dela não congelassem em
resposta.
— Temo que sua filha interpretou mal algum inocente comentário de
minha parte — disse Dain, depreciativo —. Nunca tive um real interesse nela
e muito menos quando esta mesma tarde a honorável Annabelle me concedeu
o privilégio de aceitar converter-se em minha condessa.
A condessa de Montford se ruborizou de maneira tão violenta que foi
visível inclusive a débil luz da lua. Passeou um olhar desdenhoso entre Dain e
ela.
Ao lado de sua mãe, Pomona ficara rígida. Annabelle tentou não fixar o
olhar em seu belo rosto. De todas as pessoas que poderiam havê-los

~ 47 ~
descoberto, tinha que ser ela. A perfeita, perfeita Pomona.
Uma mulher como ela jamais compreenderia as ações de Annabelle.
Tinha sido criada para ser uma dama, mas ao contrário da própria Annabelle,
Pomona realmente o era. Seu cabelo estava sempre perfeito, sua escolha de
vestuário era impecável e, provavelmente, desmaiava antes de beijar um
homem na escuridão. Era o tipo de mulher incapaz de protagonizar um
escândalo, embora o tentasse com todas suas forças.
Ao contrário, Annabelle parecia ter sido concebida para isso.
Quando pensou que nada podia surpreendê-la aquela noite, descobriu
que os olhos azuis da jovem se encheram de lágrimas.
Então as implicações das palavras da condessa caíram sobre ela. Dain
tinha convidado Pomona a passear por aquele jardim. Era a ela a quem
esperava.
Compreendeu que sua simples travessura tinha provocado um furacão
cujas consequências logo começaria a vislumbrar.
Havia só uma maneira válida de que sua reputação sobrevivesse aquela
noite e lorde Dain o tinha compreendido muito antes dela. Anunciar um
compromisso salvaria a situação de ambos.
Embora fosse reprovável, a sociedade fazia vista grossa ante os
escarcéus amorosos dos jovens, sempre que mediasse um sério compromisso
entre eles e matrimônio iminente.
Dain se estava comportando como o cavalheiro que era, anunciando
seu compromisso, inclusive frente à mulher pela qual realmente estava
interessado.
Annabelle se perguntou se se amavam. Se existia algo profundo entre
os dois que tivesse passado desapercebido a suas horas de observação.
Possivelmente Dain tinha dançado com outras garotas para despistar os olhos
curiosos. Talvez sempre tivesse tido a intenção de casar-se com Pomona. A
beijaria daquele modo quase visceral? Não, disse-se a si mesma, porque ao

~ 48 ~
contrário dela, Pomona não teria que lhe roubar os beijos. Ele os daria de boa
vontade.
Annabelle sentiu o golpe do ciúmes em seu interior e se obrigou a
reprimi-los com todas suas forças. Eram seus sentimentos impróprios pelo
conde que tinham provocado aquela situação em primeiro lugar. Desejou não
ter cedido a seus impulsos.
Não podia fazer nada. Embora sua reputação não lhe importasse, a dele
também se veria arrastada pela lama se a alta sociedade londrina pensasse que
não se comportou como devia.
E, se fosse totalmente sincera consigo mesma, quem acreditaria que ela
tinha seduzido lorde Dain?
A única solução possível apareceu ante ela tão fulgurante que esteve a
ponto de esbofetear-se por ter demorado tanto em achá-la. Deixou-se levar
pelo dramático do momento e tinha perdido de vista a perspectiva.
Por muito implacável que fosse a sociedade quanto à moralidade de
seus jovens, ninguém ia força-la a casar com lorde Dain naquele mesmo
momento. Um compromisso dava lugar a um noivado e, às vezes, os noivos
decidiam que não estavam feitos um para o outro.
Os passos a dar estavam claros. Um compromisso não era um
matrimônio. Um compromisso podia-se quebrar.
Parte de seu plano passava por não levantar nenhuma suspeita.
Decidida, fingiu sorrir com entusiasmo e rezou para que seu tom de voz não a
traísse.
— Não é incrível? — Ouviu-se dizer com uma voz fina que não
reconheceu como própria —. O marquês e meu pai eram amigos na
juventude. Conheci ao Dain toda minha vida, mas jamais me imaginei
convertida em sua condessa. Ainda recordo compridos verões e os jogos que
compartilhamos. Quem ia dizer então que com o passar do tempo seus
sentimentos por mim ficariam tão profundos! — Forçou-se a olhar ao conde

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nos olhos. O olhar gelado dele quase a fez voltar a guardar silêncio —. É tão
arrumado e galante e saibam que, até que nosso compromisso fosse efetivo,
não tínhamos tido a sorte de compartilhar nem uns minutos a sós.
— E temo que, esta única vez, não fui um cavalheiro — disse o conde
com doçura, surpreendendo-a tanto que a expressão de sua cara quase
estragava tudo —. Temo que devo me desculpar, lady Annabelle. Minhas
ações são imperdoáveis.
— Sim que o são! — Acrescentou a condessa, com rancor —. Jamais
tinha imaginado algo semelhante de você, Dain. Não é o que se espera do
filho do marquês de Laurens. Sua mãe, entretanto, sim tinha essas…
tendências. Ao final, possivelmente não seja tão surpreendente depois de
tudo.
Annabelle estava tão perto dele que viu como a bochecha do conde
palpitava pela fúria.
— Tem razão — disse ele —. Minha conduta foi indesculpável. E mais,
temo que só há uma maneira de arrumá-lo. Se desculparem a rabugice, lhes
agradeceria que acompanhassem a minha prometida de volta ao salão. Eu
devo tomar algumas medidas urgentes.
— Questões? — Perguntou Annabelle sem poder evitá-lo.
— Querida, sei que queria um compromisso longo, mas temo que devo
me fazer responsável por meus atos — respondeu Dain com um tom de voz
aveludado que a aterrorizou —. Seu irmão está no baile? Eu gostaria de falar
com ele imediatamente.
Atônita, logo que começou a compreender o que lhe tinha perguntado,
um bufo a fez girar a cabeça em direção à condessa.
— No baile? — Perguntou com ironia —. Querido, se realmente está
perguntando isso, temo que esteve mais afastado da sociedade do que você
mesmo imagina. Será impossível achar ao visconde Weymouth em nenhum
outro lugar que num clube de jogo, um botequim portuário ou saberá Deus

~ 50 ~
que outro sórdido lugar. Certamente, jamais entre os aqui presente.
Annabelle se sentiu avermelhar inclusive sob a luz escassa da lua. Não
teve nenhum impulso por proteger a honra de seu irmão. Finalmente, o que ia
dizer? Com toda probabilidade a condessa tinha razão.
Mesmo assim, não pôde deixar de sentir-se incomodada. Albert jamais
tinha tido com ela uma mostra de afeto e, embora compartilhassem a casa,
apenas se viam um ao outro, mas mesmo assim, a alta sociedade atuava como
se Annabelle e sua mãe fossem cúmplices e participassem do extravagante
estilo de vida de seu irmão.
Era realmente frustrante ser julgada pelos atos de outra pessoa.
— Sem dúvida a condessa tem razão — disse com indiferença —. A
esta hora, só poderá encontrar meu irmão em algum clube. Com sorte, sóbrio.
— Obrigado.
Quando Robert começou a afastar-se, Annabelle quase correu atrás dele
para detê-lo enquanto um pânico inidentificável a invadia.
— Aonde vai, milorde?
O conde deteve-se e voltou-se para ela.
— Vou falar imediatamente com seu irmão. — O sorriso do conde foi
matreiro —. Certamente que se alegrará por nós quando lhe comunicar que
nos casaremos amanhã pela manhã.
Foi como se o mundo se abrisse sob seus pés. Viu o brilho
determinado no olhar do Dain e foi consciente de que havia algumas falhas
em seu plano. Não lhe tinha ocorrido que ele queria casar-se imediatamente.
Robert se desfez de seu braço e se afastou a grandes passadas,
deixando-a a sós com o olhar reprovador da condessa e a turvada presença da
filha desta. Quis detê-lo, mas não encontrou as palavras necessárias para fazê-
lo.
Pensou que tudo era um pesadelo. Só teria que despertar e sua vida
voltaria a ser monótona, segura e previsível. E por desconto, não teria

~ 51 ~
arruinado a vida do único homem que lhe tinha importado alguma vez.

~ 52 ~
Capítulo 7

Robert estava tão zangado que parou quando achou a saída do labirinto
apenas via por onde caminhava. O correto teria sido acompanhar ele mesmo a
lady Annabelle de volta ao salão, mas, por uma vez, seguir a etiqueta não
estava em seus planos. Tinha gasto toda sua civilidade em fazer o correto com
aquela dama.
Deixou-se enrolar pelo truque mais velho do mundo. Uma dama bonita
e jovem de aspecto inocente, um jardim escuro e candura fingida. Deveria ter
visto os sinais de advertência a léguas de distância.
Tinha caído na armadilha como um jovem cordeiro. Agora estava
comprometido com uma completa desconhecida. Uma caça fortunas, sem
dúvida.
O salão de baile parecia ter enchido na sua ausência. Entre o mar de
trajes de cores das damas, divisou a sua irmã na esquina oposta, mantendo
uma animada conversação com um grupo de matronas. Dirigiu-se para ela
com toda pressa e ignorando o olhar de estupor das damas, agarrou Elizabeth
pelo cotovelo.
— Se me desculparem, senhoras, devo lhes roubar a condessa uns
minutos.
— Agora? — Uma sobrancelha escura se elevou sobre os olhos verdes,
idênticos aos seus.
— Agora — respondeu Robert com um tom de voz que não admitia
réplica.

~ 53 ~
Deu uma olhada ao redor, procurando um lugar onde pudesse manter
uma conversação discreta. Frustrado, deu-se conta de que só existia um.
Encaminhou-se para a pista de baile e Elizabeth o seguiu obediente. Uma vez
ali, fulminou-o com o olhar enquanto se colocava entre seus braços.
— Pelo amor de Deus, Robert — lhe sussurrou, hostil —. O que te
aconteceu? Sabe bem que não é correto que dancemos juntos. E sua maneira
de me arrastar até aqui… Jamais tinha visto te comportares de um modo tão
grosseiro!
A boca do Robert se curvou sem humor.
— Nunca me tinha visto comprometido.
— O quê?
Apesar da música que tinha começado a tocar suplantasse o grito de
Elizabeth, alguns bailarinos os olharam com curiosidade.
— Há aproximadamente dez minutos pedi a uma dama que seja minha
esposa — explicou Robert, lacônico —. Tudo faz pensar que ela aceitará
minha proposta.
— Robert! Disse-te que esperasse! O que pensarão de ti? Lady Pomona
é uma garota pura e inocente, de boa família. Não se aborda uma dama bem
educada e lhe propõe matrimônio sem mais.
Robert girou ao ritmo da música e se preparou para o que viria.
— Então é uma sorte que não o tenha pedido a lady Pomona, ou não?
Nunca tinha visto sua irmã Elizabeth ficar sem palavras. Em uma
situação um pouco menos tensa, teria rido.
— O que quer dizer? Não te vi dançar com a Pomona faz uns minutos?
Depois os dois desapareceram, supus que juntos!
— Lady Pomona estava ali, sim, mas temo que ela não é minha noiva.
— Por Deus, Robert, caso não fale com mais claridade vou provocar
um escândalo te esbofeteando em público!
— Poderia fazê-lo e, ainda assim, só seria o segundo escândalo

~ 54 ~
relacionado a nossa família que se comentaria amanhã.
O rosto da Elizabeth se contraiu em uma careta estupefata.
— Está-me dizendo…
— Estou te dizendo que, esta noite, comprometi a honra de uma
jovem. É obvio, estou disposto a fazer o correto e me casarei com a garota
imediatamente.
A mente da Elizabeth devia ebulir em perguntas. Entretanto, o único
sua irmã atinou dizer foi:
— Quem?
— Lady Annabelle Weymouth.
— Quem?!
— Era filha do visconde Weymouth. Estou certo que o recorda.
— Elijah Weymouth? O amigo de papai? — Então Elizabeth pareceu
entender o resto da confissão — Comprometeste em um baile a filha de um
visconde? Como?
Robert abriu a boca para confessar as degradantes circunstâncias de seu
compromisso, mas se viu compelido a fechá-la de novo. A cena no labirinto
era muito íntima. Era bastante humilhante ter tido que compartilhá-la com
Pomona e sua pomposa mãe.
— Beijei-a — explicou simplesmente.
— Beijou-a — repetiu Elizabeth, como se quisesse convencer-se de que
o que acabava de escutar era certo — a beijou.
— Necessito sua ajuda. Não sei o que fazer a seguir.
— Casar-se com ela, é obvio, o quanto antes.
Robert a olhou, exasperado.
— Isso já sei, mas, seria possível um compromisso longo?
Embora tomado de fúria tinha ameaçado a sua noiva com um
matrimônio imediato, o certo é que a ideia não o atraía absolutamente. Queria
conhecer, ao menos um pouco, à mulher com quem compartilharia o resto de

~ 55 ~
sua vida.
Além disso, sem dúvida um noivado diminuiria o escândalo. Se
demonstrassem que não tinham nenhuma pressa para casar, os rumores
acalmaram antes.
Elizabeth torceu o cenho, reflexiva.
— Quem os encontrou? Se essa pessoa estiver disposta a guardar
silêncio durante um tempo, possivelmente sim.
— Não contaria com isso. Foram a condessa de Montford e sua filha.
Elizabeth gemeu.
— Então não tem tempo a perder. Como suponho que sabe, a única
solução possível é assegurar que já estavam comprometidos. Nesse caso,
poderão desfrutar de uma ou duas semanas de noivado antes de fazer o
correto e te casar com ela.
— Disse à condessa que o estávamos. Não acredito que tenha
acreditado, mas isso não é meu assunto. Tenho que falar com o irmão de
Annabelle.
— Acha que se negará?
— Não entendo como.
A dança terminou. Robert beijou a sua irmã na mão.
— Elizabeth, me perdoe, coloquei-te nesta confusão de candidatas a
possíveis esposas e no final para nada.
Sua irmã lhe sorriu como só uma irmã mais velha poderia fazê-lo nessa
situação.
— Não tem do que preocupar-se. Sabe que eu adoro casamentos.
Estarei feliz cases com quem cases.
Robert conteve o impulso de beijar a sua irmã na bochecha. Já existia
suficiente escândalo relacionado com sua família naquela noite. Virou-se para
ir-se, mas um pensamento repentino o deteve.
— Quando minha noiva voltar para o baile…

~ 56 ~
Não teve que terminar. Sua irmã assentiu, sorrindo.
— É obvio que sim. Me encarregarei dela. Estou desejando conhecer a
mulher capaz de prender meu irmão com um simples beijo.
Eu também, pensou Robert enquanto se afastava.

~ 57 ~
Capítulo 8

Passavam várias horas da meia-noite quando Robert retornou por fim a


casa.
No exterior desencadeou-se uma violenta tempestade e, embora tivesse
viajado a maior parte da noite em carruagem, tinha o cabelo úmido e o casaco
molhado.
Despediu-se de seu mordomo com um gesto da mão. Gibbs levava
suficientes anos com ele para entender quando não estava de bom humor.
Subiu diretamente a seu dormitório. O lugar quente e aprazível lhe deu as
boas-vindas, lhe devolvendo um pouco da calma que tinha perdido.
— Boa noite, milorde.
— Não vou necessitar-te, Patrick — falou ao seu ajudante de câmara,
agradecendo que o moço não insistisse e o deixasse sozinho.
Com gestos furiosos se desfez da jaqueta, desatou o nó da gravata e
dirigiu-se à jarra de porcelana. A água fria lhe molhou as bochechas e o
cabelo, limpando-o.
Não tinha encontrado o irmão da garota no clube, nem tampouco na
direção de sua casa que lhe indicaram. Era como se o visconde tivesse sido
tragado da terra justo naquela noite.
De caminho a sua casa, deu-se conta de que cedo ou tarde teria notícias
do visconde. No final, era o mais interessado em exigir que Robert se
comportasse de maneira honorável.
Sentia-se tão agitado que sabia que seria impossível dormir, por isso

~ 58 ~
saiu da habitação e vagou sem rumo pela casa, e deu-se conta de que todos os
corredores estavam iluminados.
Devia dizer a Gibbs que aquele esbanjamento era desnecessário. Não
tinham problemas de dinheiro, mas iluminar uma casa de vinte e quatro
habitações que só ele usava era um enorme esbanjamento.
Não o tinham educado para isso, pensou com surpresa enquanto se
fixava na carregada decoração do corredor, com mesas e cadeiras em toda
parte. Não estava acostumado aqueles luxos.
Tinha nascido naquela casa trinta e dois anos atrás e vivido nela durante
sete ou oito junto a sua mãe. Logo não recordava nada dela, salvo o fato de
que gostava das coisas caras e sempre estava perfeitamente vestida.
Quando o escandaloso estilo de vida da condessa saiu à luz, seu pai se
encerrou no campo, afastando seus filhos dos rumores.
E Northumberland era muito diferente de Londres. Durante anos, o
marquês tinha inculcado a seu filho a ideia de que para conseguir algo tinha
que trabalhar nisso. Com o tempo, Robert tinha se dado conta de que seu pai
não só tinha fugido da cidade, como também se afastara de tudo o que
representava.
Sua irmã e ele tinham recebido uma educação diferente e, em muitos
aspectos, divergente à de outros filhos da nobreza. Estava agradecido por isso.
Não gostaria de ser um indolente preguiçoso como os que pululavam pelos
bailes.
Os campos deviam ser trabalhados, os agricultores devidamente
motivados. Ficava com o dinheiro justo para viver com comodidade e investia
o resto na terra, sempre à vanguarda dos avanços e das técnicas agrícolas. Era
a única maneira de que o dinheiro não se delapidasse facilmente.
E ali estava, apanhado em uma casa que era o paradigma da
superficialidade.
Girou ao final do corredor e a conhecida zona fez que lhe desse um

~ 59 ~
tombo o coração. Quase tinha esquecido a galeria dos retratos.
A porta se abriu com um estalo. A única luz naquela habitação era a que
entrava pelas janelas altas. A emprestade tinha passado e uma lua crescente
brilhava no céu.
Os passos de Robert ressonaram no chão de mármore.
Oito gerações de Wilts lhe deram a séria bem-vinda da parede. Aquela
tinha sido outra moda passageira da sociedade londrina. Resgatar os quadros
dos antepassados e colocá-los em uma habitação da casa que, na posteridade,
usava-se para tomar o chá. Era uma forma sutil de vangloriar a linhagem.
Possivelmente porque um momento antes tinha estado pensando nela,
seus olhos vagaram até a mulher altiva e ruiva cujo retrato ocupava um
destacado lugar de honra.
O retrato de sua mãe era uma chama no meio da noite. A mulher se
parecia muito com Elizabeth, salvo pelo cabelo chamejante e os amendoados
olhos escuros.
A marquesa sorria no retrato de forma recatada, mas o pintor tinha
conseguido captar um brilho sensual em seus olhos. As maçãs do rosto
rosadas e os lábios úmidos formavam um contraste demolidor. A inocência e
a perversão, envolta em seda cor lavanda.
Enquanto o contemplava, não lhe coube nenhuma dúvida de que quem
quer que fora o homem que tinha captado aquela imagem da marquesa sabia
de sua natureza passional. Talvez inclusive a tivesse experimentado na própria
carne.
O pensamento o enojou e o fez afastar o olhar.
— Perdoe, milorde.
Voltou-se, sobressaltado. Gibbs estava parado na porta da galeria dos
retratos, sustentando entre as mãos um candeeiro.
— O que aconteceu?
Nos anos que levava trabalhando para ele, Robert nunca tinha visto

~ 60 ~
Gibbs perder a compostura, mas naquele momento o velho mordomo parecia
francamente irritado.
— Tem uma visita.
— É Elizabeth? — Perguntou Robert, chegando à única conclusão
lógica —. Aconteceu algo a minha irmã?
— Não, milorde. É uma dama.
— Quem…
— Sou eu, milorde — anunciou a figura envolta em seda azul escura
que se materializou atrás do mordomo.
Pelo olhar surpreendido deste, Robert supôs que não se deu conta de
que a dama o tinha seguido do vestíbulo.
— Está bem, Gibbs. Pode retirar-se. Eu acompanharei a jovem à saída.
Se o velho mordomo tinha alguma objeção, não a expôs. Limitou-se a
passar o candeeiro à mulher e, depois de dobrar-se formalmente, abandonou a
galeria, fechando a porta a suas costas.
Robert analisou Annabelle Weymouth, consciente de que aquela
desconhecida era a mulher com a que compartilharia o resto de sua vida.
E gostou do que viu.
Era uma moça baixa, bem entrada nos vinte. Levava um vestido
passado de moda e muito recatado para ser um vestido de festa, ainda assim,
suas curvas o enchiam de um modo interessante. Só o recatado decote
merecia ser investigado já com profundidade.
— Boa noite, lady Annabelle. É a segunda vez que me surpreende esta
noite.

Annabelle tragou saliva. O olhar dos olhos dele era predador.


Tinha um aspecto feroz. O fogo do candeeiro tirava reflexos de seu
cabelo dourado, que parecia despenteado, como se o conde passasse as mãos
repetidamente por ele.

~ 61 ~
Sem a jaqueta posta, com o laço da gravata pendurando ao redor de seu
pescoço e a camisa arregaçada, era uma imagem do conde muito diferente a
que estava acostumada. Longe do esmero que sempre mostrava em público,
Robert parecia mais rude. Mais real.
De repente, o momento lhe pareceu muito muito íntimo.
— Boa noite, lorde Dain. — Obrigou-se a dizer com educação,
enquanto realizava uma reverência. Teve que conter o impulso de sair dali e
voltar para sua casa.
Ele se limitou a olhá-la fixamente.
Annabelle pigarreou, tratando de encontrar as palavras adequadas.
— Certamente lhe surpreende minha visita em hora tão inoportuna.
E com este tempo, pensou, sacudindo com a mão uma mecha de
cabelo empapado que se colava à fronte.
O conde seguiu seu gesto com o olhar, e Annabelle conteve um gemido
ao pensar que com toda probabilidade apresentava um aspecto ridículo ali de
pé, jorrando água frente ao homem que, horas antes, tinha beijado na
escuridão.
Toda a situação tinha um toque de surrealismo. Simplesmente, essas
coisas não aconteciam na vida. Ao menos, não na dela.
— Começo a compreender que o dom da oportunidade não é uma de
suas virtudes. — A voz do Dain era sombria e rouca.
— Sou consciente disso, milorde, e o lamento.
— Sente ter chegado a minha casa de madrugada ou sente me ter
beijado no jardim dos Winchester?
As duas coisas, quis dizer. Mas havia algo em seus olhos verdes que
impedia que lhe mentisse. Simplesmente, não podia. Se mentia, ele saberia. E
o certo era que, embora vivesse mil anos, jamais podia arrepender-se de havê-
lo beijado.
— Sinto importuná-lo a esta hora tão pouco adequada, mas considero

~ 62 ~
que é vital que falemos antes que seja muito tarde — explicou, odiando o tom
hesitante de sua voz. consolou-se pensando que o quanto antes expusesse
seus argumentos, mais cedo poderia voltar para casa.
O conde se limitou a olhá-la. Incapaz de aguentar seu escrutínio,
afastou o olhar dele e fixou a atenção na parede da sala. Então, pela primeira
vez, ficou consciente dos quadros.
Deu um passo ao interior e a luz iluminou os rostos morenos de muitos
homens e algumas mulheres. Quase todos os homens pareciam homens
saudáveis e arrumados, de cabelo loiro e olhos verdes. Não lhe coube
nenhuma dúvida de que eram os antepassados do conde.
Dain, atento como um falcão, ficou consciente de sua curiosidade.
— São os Wilts. Esta é a casa de meu pai. É tradição que se conservem
nela os retratos dos marqueses, assim como suas esposas e alguns de seus
filhos.
Annabelle se surpreendeu pela explicação.
Lhe sorriu sem humor.
— Esta noite conseguiu um retrato nesta parede.
— Não era minha intenção lhe causar problemas.
— E qual era, exatamente, sua intenção? — A voz dele soou mais
rouca pelo aborrecimento. Um estremecimento a percorreu por completo,
mas não soube identificar se se devia ao medo ou a alguma outra emoção que
não podia classificar.
A pergunta seguinte de Dain fez com que todas as sensações cálidas
morressem:
— Está grávida?
— O quê?! Não!
Lhe dedicou outro daqueles sorrisos sem humor, inclinados, que
Annabelle começava a odiar com todas as suas forças.
— Que espera que pense de você? Não a conhecia antes desta noite e,

~ 63 ~
depois, sem que mediasse nenhum tipo de contato entre nós dois, me beija em
um jardim, com duzentas pessoas no outro lado de um sebe. É evidente que
queria que nos descobrissem e isso me leva a pensar em seus motivos. Se não
está grávida, possivelmente necessita de dinheiro?
— Minha intenção não foi que nos descobrissem! — Balbuciou
Annabelle —. Pensei que no labirinto estaríamos a salvo!
Robert se aproximou dela. O tecido fino da camisa se pegava a seu
peito e marcava seus ombros.
Sem pretendê-lo, encontrou-se rememorando a forma em que ele a
tinha beijado. O calor de seu corpo a tinha surpreendido. Não tinha
imaginado que ele seria tão quente ao tato, inclusive através da roupa.
Podia sentir ainda os lábios do Dain pressionando sua boca.
Suspirou sem poder evitá-lo. Ele era muito arrumado para seu bem e
para sua concentração. Se continuava olhando-o assim não diria nada do que
tinha ido dizer. Afastou a vista do homem diante dela e se obrigou a
concentrar-se.
— Além disso, vim lhe dizer que não é necessário que se case comigo.
— Sério? — Perguntou ele, sobressaltando-a por sua proximidade.
— Sim, é obvio. Fui eu quem o beijou, e é injusto que tenha que pagar
por uma falta que cometi sozinha.
— Para que esse beijo se produzisse foram necessárias duas bocas. A
sua. A minha. Necessita que o recorde?
O calor percorreu Annabelle. «Não pense no beijo, não pense no
beijo», repetiu-se, agitada.
Ele se aproximou mais e Annabelle se obrigou a elevar a cabeça para
olhá-lo.
— Não tenho intenção de me casar, nem agora nem nunca — se
escutou dizer sob o escrutínio de seu olhar —. E o que aconteceu esta noite
não vai mudar isso. Minha reputação não é algo tão importante para obrigá-lo

~ 64 ~
a fazer o correto. Posso viver sem ela, me acredite, mas não posso viver atada
a um homem que nunca quis casar-se comigo.
O olhar de Dain vagou dela ao quadro que havia justo a seu lado, o de
uma mulher ruiva de beleza considerável, perguntou-se vagamente quem seria
e que parentesco teria com ele.
Esse era seu problema com respeito ao Dain, refletiu afligida. Sentia a
transbordante necessidade de saber tudo dele. Como era sua família, que
aspecto teria ao despertar pelas manhãs, qual seria o sabor de sua boca.
— Está dizendo que não quer casar-se comigo? — Perguntou o conde.
— Não, não quero, nem o vejo necessário tampouco. Entendo que o
coloquei em uma confusão e que sua proposta era a única maneira de sair
dela. Mas, como lhe digo, não é necessário. Minha reputação não importa a
ninguém.
— E minha reputação? — Perguntou o conde com voz glacial.
Annabelle se surpreendeu. Tinha estado segura de que ele se sentiria aliviado
quando lhe comunicasse a notícia —. Acaso está pensando nela?
— Claro que sim! Por que acha que estou aqui? — Annabelle não pôde
evitar se desesperar um pouco. Tinha pensado que sua visita alegraria Dain,
mas por algum motivo ele parecia mais zangado do que um momento antes
—. Bastará que finjamos durante um tempo. Um mês, por exemplo.
— Fingir?
— Podemos fingir o compromisso. Sei que é um problema e o lamento
profundamente. Eu gostaria que as normas sociais não fossem tão restritas a
respeito — se encontrou desvairando —. Quem pensaria que é um crime tão
terrível? Eu beijo você e então você tem que casar-se comigo pelas boas ou
pelas más. É normal o que chegou a pensar de mim, concluindo, não me
conhece! Por isso vim lhe dizer que podemos mentir. Fingir o compromisso é
uma solução factível.
— Não pode falar a sério.

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— Ponhamos que, durante um mês, estaremos comprometidos.
Teremos que assistir a alguns atos e nos deixar ver em outros. Não se
preocupe, embora não tenha praticado muito ultimamente, sou uma boa
bailarina e minha conversação não é de todo insubstancial. Sempre que não
queira falar de moda, claro. Sou um desastre para isso. — Ao ver o olhar de
reprovação de Dain se deu conta de que se desviou do tema —. Dentro de
um tempo prudente, você porá fim ao compromisso e cada um seguirá seu
caminho. É obvio, não importa que enganemos a toda Londres. Por exemplo,
você pode falar com lady Pomona e lhe explicar nosso acordo. Ela é uma
dama tão perfeita que asseguro que o entenderá.
— Lady Pomona? — Perguntou ele, visivelmente surpreso.
Annabelle lhe tirou importância com um gesto de mão.
— Não tem problema que mantenha essa farsa comigo. Não o direi a
ninguém, mas eu sei que a esperava no labirinto. E, a menos que lhe resulte
interessante sua conversação, coisa que duvido, só me ocorre um motivo para
tal entrevista.
Annabelle calou, repentinamente consciente de ter insultado à mulher
que ele queria. Esperou que não se ofendesse ou, pior, que tratasse de
contradizê-la.
Não estava preparada para suportar um bate-papo sobre as virtudes de
lady Pomona Swift.
Por sorte, Dain guardou silêncio, reflexivo.
— E o que acontecerá com você quando eu terminar o compromisso?
— Perguntou.
Annabelle lhe dedicou um sorriso resplandecente, consciente de que ele
começava a ver as virtudes de seu plano.
— A princípio possivelmente haverá alguns comentários — tratou de
lhe tirar importância com um gesto de mão —, mas no fundo não sentirá
saudades de ninguém. Como já lhe disse, não tenho intenção de me casar,

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assim minha vida continuará como é agora. E a sua, também.
— Como acredita que poderei romper o compromisso sem provocar
um escândalo ainda maior que o que tratamos de evitar? Acredita que as
pessoas não se darão conta de que não nos casamos?
— A alta sociedade tem pouca memória. Você assegura em público que
nos casaremos, isso sossegará os rumores, e assim que nos dermos conta
alguma marquesa terá sido surpreendida na cama com alguém que não é seu
marido e nos terá liberado do escândalo.
Robert contemplou aniquilado à mulher que seria sua esposa. Porque,
dava igual quão absurdas explicações lhe ocorressem, casaria com ele. Era o
único modo válido de fazer as coisas. Dain não mentia, nem sequer para
escapar de uma armadilha do destino.
Além disso, enquanto ela divagava — como gostava de vê-la falar! —
Ele tinha se visto francamente subjugado pela forma de coração de seu lábio
superior. Embora já o tivesse desfrutado naquela noite, não via a hora de
voltar a passar sua língua por aquele lugar concreto.
Olhou-a longamente, refletindo. Surpreendeu-se pensando que a queria.
Queria-a nua em sua cama e isso era mais do que podia dizer de alguma das
damas que tinha conhecido durante aquela interminável estadia em Londres.
E não estava só no seu físico agradável, também parecia uma mulher loquaz e
suficiente valente para beijar um desconhecido em um labirinto.
Seu olhar vagou uma vez mais até o retrato de sua mãe. E se terminava
sendo tão passional como aquela? disse-se que, naquele caso, se divorciaria.
Ele jamais suportaria o que tinha suportado seu pai.
Sem poder evitá-lo, cortou a pequena distância que os separava.
Annabelle ofegou pela surpresa e seu quente fôlego lhe fez cócegas na
bochecha, lhe provocando uma ereção instantânea.
— Aceitarei seu absurdo plano — disse, finalmente —. Com uma
condição.

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— Como queira, milorde.
— Não diga a ninguém que este não é um compromisso real.
Ela meditou durante uns instantes.
— Não posso — afirmou, surpreendendo-o.
— Por que não?
— Não posso mentir a minha melhor amiga. Nunca me perdoaria.
Robert se conteve para não fechar os olhos. Que desse o primeiro salto
quem compreendesse às mulheres.
— Está bem, pode dizer a sua melhor amiga, se me jurar por sua honra
que é discreta.
— De acordo, então. Quer que nos demos a mão?
— A mão?
— Para selar o acordo, milorde.
Robert não pôde evitar lhe sorrir. Ela estava muito perto e sua presença
era doce, tentadora.
— Tenho uma ideia melhor.
Ela leu nos olhos dele o que ia fazer um segundo antes de que o fizesse,
e quis negar-se. Não podia permitir que ele pensasse que não tinha virtude e,
depois daquela noite, era muito provável que aquela fosse a sua ideia.
Queria negar-se, mas era muito. O aroma de Dain, seu calor e aquela
proximidade, que lhe permitia ver quão espetacular era realmente a cor de
seus olhos, derrubaram sua débil recusa. Queria o ter mais perto.
Ele esteve sobre ela tão ligeiro que Annabelle nem sequer pôde piscar.
A boca de Dain tomou a sua duramente, com um beijo seco e rápido,
possessivo, muito afastado da ternura que tinha demonstrado no labirinto.
Hipnotizada pelo contato, Annabelle elevou as mãos para os ombros
dele, justo no momento em que sua boca se retirava.
Baixou-as, envergonhada por sua conduta. Acaso não tinha nenhum
tipo de autocontrole no que se referia a ele?

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Vou gostar de estar comprometido. — Escutou-o dizer.
Annabelle pensou que, para ela, aquilo ia ser uma tortura.

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Capítulo 9

Toda dama deseja protagonizar os dias de seu cavalheiro especial.


Acreditem, queridas, é muito mais satisfatório ocupar suas noites.
Extrato do panfleto de lady Indiscreta.

Pela segunda noite consecutiva, Robert não pôde pregar olho, embora
ao contrário da anterior, não foi a bebida que perturbou seu descanso. Deitou-
se tarde e com a cabeça cheia de pensamentos sobre sua noiva, e o sono
demorou para visitá-lo.
Depois de surpreender a si mesmo beijando-a de novo na galeria,
custou-lhe a ajuda de Deus ser um cavalheiro. Ela estava ali, cálida e úmida,
em seus braços e em sua casa, apenas a uns poucos passos de seu dormitório.
Teria sido muito fácil convencê-la. Havia algo na forma em que se
derretia contra ele que o fazia sentir-se seguro de seu poder sobre ela. Só no
último momento uma fibra de prudência o fez deter-se. Lamentando-o,
acompanhou-a até sua casa. O passeio na carruagem tinha sido tenso e pouco
tinham falado apenas algumas palavras.
Ao voltar, foi diretamente à cama, com a intenção de que um profundo
e reparador sono pusesse em ordem seus pensamentos. Nada mais longe da
realidade.
Quando por fim conseguiu dormir, sonhou que ele e Annabelle
protagonizavam situações muito mais comprometedoras que um beijo.
Despertou excitado e confuso, com a cabeça lhe palpitando de dor.

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Não era o único.
Ainda tombado na cama, surpreendeu-se pela reação de seu corpo. Caiu
na conta de que fazia muito tempo que não ficava com uma mulher. Primeiro
as terras tinham absorvido seu tempo, e depois aquela caótica busca de uma
condessa.
Enquanto se levantava e realizava as abluções matinais, surpreendeu-se
desejando que o mês que o aguardava passasse logo. Logo teria a sua mulher
na cama e ambos partiriam para o norte.
Robert se dirigiu à sala do café da manhã, dando-se conta a cada passo
que aquela manhã já era tarde. Criadas em excesso trabalhavam na limpeza do
piso superior e se surpreenderam ao vê-lo. Regularmente, quando
começavam com as tarefas, ele levava várias horas trabalhando em seu
gabinete.
Robert as saudou com um gesto formal de cabeça e ignorou as olhadas
curiosas das garotas enquanto descia a longa escada e entrava na ensolarada
sala do café da manhã. Nem sequer sabia o nome da maioria e não lhe
importava. Elizabeth tinha se encarregado de as contratar e passava por sua
casa com regularidade para assegurar-se de que cumpriam bem sua função.
Aquele era outro bom motivo para casar-se com celeridade. Não podia
deixar que sua irmã continuasse carregando a tarefa de cuidar de sua casa e,
em várias ocasiões, do próprio Robert.
— Bom dia!, Gibbs — Saudou seu mordomo, que o esperava ao lado
das travessas.
— Bom dia!, milorde.
Robert se sentou à mesa. Um eficiente lacaio colocou diante dele um
prato com seu café da manhã e uma fumegante xícara de café. Cravou um dos
ovos distraidamente, enquanto a lembrança da noite anterior o invadia.
Pouco entendia aquele desejo súbito e repentino que lhe provocava.
Era uma garota bonita, mas Robert tinha estado com mulheres muito mais

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chamativas que não tinham conseguido acendê-lo daquela maneira.
Os olhos castanhos e o cabelo cor chocolate de Annabelle dificilmente
podiam considerar-se destacáveis. Seu rosto era comum, embora havia algo
muito feminino em suas maçãs do rosto e na forma de sua mandíbula. E o
sorriso que tinha dirigido a Robert fazia que algo, dentro dele, estremecesse
um pouco.
Sua boca era, sem dúvida, decadente.
Não tinha resistido a ela. Duas vezes. A primeira vez podia atribuir sua
reação à surpresa, mas o que tinha passado por sua mente para beijá-la pela
segunda vez?
Pouco podia explicar a si mesmo.
Objetivamente, ela não era do tipo de dama pelas quais um homem
perdia a cabeça. De fato, Robert sabia que não era o tipo de homem que se
tornava louco por uma mulher.
Entretanto, levava dez horas imaginando-a nua.
Quando sentiu que o tecido da calça começava a lhe apertar, obrigou-se
a recordar que se achava na sala do café da manhã, que seu mordomo e um
dos lacaios se encontravam a poucos passos dele e que existiam temas mais
importantes no que pensar àquela manhã.
Forçou o seu obstruído cérebro a centrar-se.
— Esta manhã será ocupada — disse a seu mordomo, pigarreando
levemente —. Esperamos a visita do visconde Weymouth em qualquer
momento.
— O receberá em seu escritório, senhor?
— Sim, e procura que ninguém nos incomode. Tenho um assunto
delicado que tratar com o visconde. Além disso, também é muito provável
que minha querida irmã nos honre com sua presença.
— Virá lady Elizabeth à hora do chá? Posso pedir à cozinheira que
prepare algo de seu agrado.

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— Se a conheço bem, virá tão rápido como possam suas pernas.
O olhar de surpresa de Gibbs ficou eclipsado pelo som de chamada na
porta principal. O mordomo se inclinou com formalidade e saiu da sala com
ligeireza.
Um minuto depois, estava de volta com notícias.
— O visconde Weymouth chegou, milorde. Espera-o em seu escritório.
— Obrigado Gibbs — disse Robert, colocando a um lado o
guardanapo e ficando em pé.
Enquanto se dirigia a seu escritório, preparou-se mentalmente para a
batalha que o aguardava. Se era sincero, entenderia que o homem estivesse
muito zangado.
Se alguém tivesse posto a virtude de Elizabeth em causa espalhada por
toda Londres, lhe custaria muito manter as mãos afastadas do tipo em
questão.
Esperava, não obstante, que sua proposição de matrimônio e seu título
lhe evitassem uma briga física. Não acreditava que brigar com seu futuro
cunhado iria iniciar a vida de casado com o pé direito.
Entrou em seu escritório e se surpreendeu ao ver o homem que o
aguardava. Se não se identificasse como o irmão de Annabelle teria sido
impossível estabelecer o parentesco.
Embora sua noiva não fosse uma mulher magra, seu atrativo físico
estava muito longe da flagrante obesidade de seu irmão. O visconde
Weymouth era um tipo desagradável, com diminutos olhos escuros que,
somados ao nariz bulboso e a papada, conferiam-lhe aspecto suino.
Esperava-o sentado em uma das cadeiras do gabinete, mas, não sem
dificuldade, ficou em pé ao vê-lo.
Robert se aproximou dele e lhe estendeu a mão.
— Bom dia, visconde. Sou Robert Wilts, conde de Dain.
— Robert, é obvio! — Exclamou o homem, lhe devolvendo a saudação

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com uma mão suarenta e um amplo sorriso nos lábios —. Sou Albert
Weymouth.
— Conhecemo-nos? — Perguntou, confuso ante o tom de
familiaridade do homem.
— Parece-me que não, embora pelo que escutei logo seremos família
— respondeu o homem, lhe dedicando uma piscada.
Robert se sentou atrás da mesa e indicou ao homem que fizesse o
mesmo.
— Alegra-me que tenha vindo ver-me. Ontem à noite foi impossível
localizá-lo.
— Isso pretendia! — Soltou o visconde com uma gargalhada — Ontem
à noite estivemos sozinhos eu, umas garotas bem dispostas e uns jogos de
dados. Recomendo-lhe a experiência!
Robert olhou ao homem por cima da mesa com crescente desagrado.
— Sem dúvida sabe por que lhe pedi que viesse.
— Como não! Toda Londres fala já a estas horas de como você
desonrou a minha irmã.
Robert ignorou o ofensivo comentário.
— Então, sem dúvida, escutou também que pedi à sua irmã que seja
minha esposa.
— Acredite-me, esse é o único motivo pelo que não o desafio a um
duelo agora mesmo.
Robert não acreditou nem por um segundo. O visconde exsudava
felicidade.
— Não serão necessários os extremos. Ontem falei com sua irmã e
aceitou minha proposta. Se você não tiver nenhum impedimento, casarei com
ela em um mês.
Os olhinhos do visconde se cravaram nele e, pela primeira vez, Robert
viu fúria neles.

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— Um mês?
— Parece-lhe muito rápido?
— Um mês?! Deveria casar-se com ela imediatamente!
— Sua irmã não quer um matrimônio precipitado. Ontem mesmo se
negou a isso em minha presença.
— Quando, Dain? — Perguntou Weymouth com rancor —. Antes ou
depois de que a babasse em público?
Robert apelou para toda a paciência que ficava, que não era muita. O
visconde Weymouth era o motivo de que os nobres não lhe caíssem em graça.
Displicente, prepotente e superficial. Quatro frases e já detestava àquele
homem.
— Deixe-me que lhe explique como funcionam as coisas, Weymouth
— explicou, acalmado —. Me casarei com sua irmã quando eu quiser, onde eu
quiser e como eu quiser. E não tem muito a respeito sobre o que opinar. Quis
falar com você porque sou um homem de bem e pensei que o bem-estar de
sua irmã lhe importava. Vejo que me enganei.
O tom frio de sua voz intimidou ao homem, que pareceu recuperar a
compostura.
— É obvio que me importa, por isso advogava porque se casassem
imediatamente. Sua reputação…
— Sua reputação está a salvo. Você confirmará nossa história de que
existia um compromisso prévio. E eu dei minha palavra de que me casarei
com ela e o farei. Em um mês será minha condessa e ninguém voltará a falar
nunca do que aconteceu ontem à noite.
— Está bem, Dain. Que seja como você queira. — O homem elevou as
mãos, conciliador —. Agora, com respeito ao dote, temo que devo lhe dar
más notícias.
— Não me diga — murmurou Robert com sarcasmo, mas o visconde
não o ouviu.

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— Annabelle possui um fideicomisso que meu pai lhe legou. — A raiva
foi quase evidente no visconde. Mais que falar, cuspia as palavras.
«Interessante», pensou Robert —. Desde a morte de meu pai pode dispor dele
como entender. Entretanto, não é uma grande soma, apenas uns quantos
milhares de libras.
— Não se preocupe com o dinheiro, Weymouth. Não necessito uma
esposa rica.
Os olhinhos suínos do visconde brilharam com avareza.
— A questão é que não se trata apenas do tema do dote. Annabelle terá
que assistir a bailes e entrevistas sociais. E precisará de vestidos novos. Tudo
isso requer um dinheiro que não temos.
— Acreditei que havia dito que Annabelle tinha seu próprio dinheiro.
Certamente pode fazer frente a esses gastos.
O visconde avermelhou a olhos vistos.
— Verá, ultimamente as coisas não foram muito bem. Annabelle
insistiu que usasse sua atribuição mensal para pagar os gastos correntes.
«Filho da puta», pensou Robert olhando o visconde com rancor. Um
homem que não só não podia manter as mulheres a seu cargo, mas sim
desprezava o dinheiro delas era mais do que podia suportar aquela manhã.
— É obvio, Weymouth. Pode contar com isso — afirmou, ignorando o
olhar de satisfação que apareceu nos olhos do visconde —. Me encarregarei
dos gastos de minha futura esposa, de seu vestuário, assim como de algo que
necessite em relação ao nosso futuro matrimônio. — Robert quase saboreou a
satisfação do visconde —. Até que esteja casado com ela. — Cravou um olhar
de advertência em Albert —. Depois, minha esposa viverá em minha casa,
onde me assegurarei de que não lhe falte nada. Você e a viscondessa viúva
poderão vir de visita.
Soube pela expressão consternada do visconde que tinha entendido
claramente a mensagem e que não era o que esperava escutar.

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Se Albert Weymouth pensava que poderia utilizar a sua irmã para lhe
tirar dinheiro estava muito enganado.
Aproveitando o momento, Robert ficou em pé e obrigou o visconde a
fazer o mesmo. Desta vez não se incomodou em lhe estender a mão. O
visconde não estava satisfeito, podia vê-lo na forma em que contraia o
sobrecenho.
Enquanto o via afastar-se não pôde evitar perguntar-se no que estava se
colocando.

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Capítulo 10

Annabelle contemplou sua imagem no espelho e esteve a ponto de


choramingar de frustração.
O vestido que usaria no baile tinha sido um presente especial de sua
mãe em sua primeira temporada social. A viscondessa viúva tinha insistido
tanto que o pusesse aquela noite que finalmente tinha cedido.
Enquanto analisava o reflexo de corpo inteiro que o espelho lhe dirigia,
arrependeu-se do ato de não haver-se oposto com mais força.
Por desgraça, era sua mãe quem tinha escolhido aquele modelo e para
lady Ofélia não havia nada mais ofensivo que uma senhorita que mostrasse
muita pele em público.
O vestido cumpria à perfeição seu objetivo, cobrindo Annabelle tão
completamente como se em vez de um vestido de baile levasse uma mortalha.
As mangas abauladas cobriam seus ombros e mais umas estúpidas luvas de
encaixe ocupavam seus braços até bem acima do cotovelo. O pescoço alto lhe
irritava a zona sob as bochechas. O tom, de um arroxeado escuro quase
negro, longe de favorecer suas feições, destacava a palidez de sua pele e o
tosco de seu cabelo.
Annabelle sabia que aquele vestido ganharia mais de um olhar
reprovador. Nem sequer uma viúva saindo do luto usaria um vestido como
aquele.
Se por acaso não fosse o suficiente, era evidente que tinha engordado
um pouco desde sua estréia em sociedade. O espartilho do vestido apertava

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tanto, que quase não podia respirar dentro dele.
«Maldita seja Madame Doolittle e seus pastelzinhos de nata!», pensou
pela quinta vez consecutiva, enquanto mexia inutilmente no corpete, tentando
conseguir que o ar entrasse em seus pulmões.
E maldito fosse Dain, disse-se, presa de um ataque de fúria repentino.
Se não fosse tão condenadamente atraente não teria cometido a loucura de
beijá-lo, nada daquilo teria acontecido e, naquele momento, poderia vestir um
de seus singelos e cômodos vestidos de baile, tão gastos pelo uso que inclusive
tinham perdido um pouco a cor.
Mas, é obvio, ele era a encarnação de muito pecado, com aqueles olhos
verdes hipnóticos que a levavam a fazer coisas que não queria… Bom, que
queria sim, mas que não devia fazer.
E ali estava, com aspecto de ter sido engolida por aquele vestido, tão
apertado que lhe dava medo mover-se de maneira brusca, para que alguma
costura abrisse. Ou pior, que o espartilho cumprisse a ameaça que tinha
estado formulando desde que o tinha vestido e lhe quebrasse alguma costela.
Frustrada, obrigou-se a relaxar e respirar.
Só seria a noiva de Dain umas semanas mais, um mês no máximo, e
depois sua vida voltaria a ser como antes. Ainda não tinha começado e já
estava desejando que aquilo terminasse.
Tinha aprendido a viver sua vida sem chamar a atenção, a anódina filha
de um visconde, sempre em segundo plano, jamais protagonista. Sempre havia
sentido que, se chamava muito a atenção, alguém faria perguntas.
E a terrível verdade sairia à luz.
Odiava que a atenção da alta nobreza se centrasse nela. A expectativa a
fazia sentir-se insegura, como quando tinha quinze anos e o olhar crítico de
sua mãe analisava todos e cada um de seus movimentos, esperando um
engano.
Tinha aprendido a viver com a recriminação contínua de uma mãe que

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a culpava de seus próprios enganos, mas jamais enfrentou a sociedade.
Simplesmente eram muitos, muito cruéis e muito desocupados. Saber-se o
centro da atenção a mortificava.
A imagem do espelho pareceu rir dela quando uma das mechas
castanhas de seu cabelo se soltou do penteado e lhe açoitou a bochecha.
Annabelle tratou de recolocá-lo e o movimento fez que o vestido rangesse,
ameaçador.
Uma parte dela queria arrancar aquele objeto e escolher um que a
favorecesse de verdade.
Não é que houvesse muito onde escolher, certamente, mas certamente
que entre todos seus vestidos antigos poderia achar algum que conseguisse
destacar o branco de sua pele, centrasse a atenção no decote ou lhe fizesse a
cintura mais magra. Qualquer um com uma cor que não a fizesse parecer uma
chorosa em exercício seria uma melhora.
Os olhos castanhos do espelho a olharam, avaliadores, e teve que
confessar, ao menos a si mesma, que só existia um motivo pelo que queria
estar bela aquela noite: queria que Dain a desejasse.
Desejava ver admiração nos olhos do conde.
E aquele, recordou-se com convicção, era outro bom motivo para levar
o horrendo vestido à festa.
A prova de que seu compromisso não era, e nunca seria, verdadeiro.
Porque nenhuma noiva do conde de Dain poderia levar um traje tão
desacertado. A mulher que se casaria com ele algum dia seria um exemplo de
modelo, de impecável linhagem e aparência. A dama perfeita.
«Você nem sequer é uma verdadeira dama», murmurou uma voz
malévola em sua cabeça.
O oposto de lady Pomona, obrigou-se a recordar-se, tão favorecida
com aqueles vestidos em tons pastéis que lhe davam um aspecto cadavérico.
Esse seria o tipo de mulher com o que Dain se casaria. Uma dama de

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maneiras e cabelo perfeitos, parecidos com os dele.
O seu era uma farsa, algo caduco que estava destinado a terminar.
Levaria aquele vestido como um aviso. Sabia que não podia permitir-se
esquecer, nem sequer durante um segundo, que seu compromisso era ilusório.
Porque se conhecia muito bem.
Tinha passado quatro longos anos de sua vida desejando que a atenção
do conde de Dain se centrasse nela. E, agora que a tinha, não confiava que sua
lógica se mantivesse firme.
Eles dois jamais poderiam ficar juntos, sua parte racional sabia, mas
quando Dain estava perto a lógica morria esmagada pelas sensações.
Se se permitia perder isso de vista, logo se encontraria escrutinando
cada detalhe, procurando provas de que o milagre estava a ponto de
acontecer.
E quando nada acontecesse e tudo terminasse da forma que tinha que
terminar, seriam seus sentimentos os machucados.
Annabelle estava decidida que aquilo não acontecesse.
Protegeria seu coração, porque quando Dain passasse a ser uma
lembrança, seria a única que teria.

Uns golpes suaves na porta a tiraram de seus pensamentos. Não teve


tempo de responder antes que esta abrisse.
Lady Ofélia, viscondessa viúva do Weymouth, entrou na sala
embelezada com um pomposo vestido negro que lhe dava aspecto de corvo.
Magra e enxuta, o luto não fazia mais que ressaltar os traços afiados de seu
rosto.
Dirigiu um olhar assombrado a sua filha.
— Está muito bela.
— Obrigada, mãe — respondeu educadamente, fingindo que o tom de
surpresa de sua mãe não a tinha incomodado.

~ 81 ~
Ante seu absoluto pasmo, a viscondessa entrou no quarto e se dirigiu
para ela. Tomou as mãos de sua filha entre as suas e as apertou. Era um gesto
simples de confiança entre mãe e filha que não chamaria a atenção. Salvo
porque, que Annabelle recordasse, era a primeira vez que sua mãe a tocava em
anos.
— Esta é uma noite tão especial! — Disse-lhe, com uma emoção na
voz que Annabelle também nunca tinha ouvido.
Então se deu conta de que o que motivava o estranho comportamento
de sua mãe era seu compromisso.
Seu falso compromisso.
Sentia mentir a sua mãe. Annabelle era uma pessoa sincera, pouco dada
a ardis, e o peso daquela mentira a incomodava. Tinha estado tentada a lhe
contar a verdade, mas o caráter da viscondessa não se adequava a
confidências. E tinha prometido a Dain. Assim, finalmente, tinha decidido
deixar que os acontecimentos seguissem seu curso.
Sua mãe jamais a perdoaria. Dava igual o que acontecesse ou o que
Dain dissesse, para ela a culpa daquela ruptura seria de Annabelle.
Causava-lhe alguma pena comprovar o pouco que importava a opinião
de sua mãe. Mas, ao criar-se entre contínuas recriminações, muitas das quais
dificilmente eram culpa dela, tinha aprendido a ignorá-las. Para seu próprio
bem.
Só esperava que, quando aquela farsa terminasse, se convencesse de que
sua única filha jamais se casaria. Possivelmente então se centraria em que
Albert conseguisse uma nova viscondessa e Annabelle poderia começar a
desfrutar de sua vida.
— O conde já chegou? — Perguntou a sua mãe, nervosa.
Dain tinha enviado uma nota aquela manhã convidando-a a assistir com
ele o baile dos Montford. Annabelle tinha aceitado a contra gosto. De entre
todos os eventos sociais, deviam assistir precisamente aquele.

~ 82 ~
Ignorava se Dain tinha posto Pomona ao corrente de seu acordo, mas
duvidava que esta tivesse posto ao corrente a sua mãe, a condessa de
Montford. Estava certa de que aquela horrível mulher era a artífice dos
rumores, cada vez mais exagerados, que já circulavam por Londres.
«Só será um mês», recordou-se.
O anúncio oficial de seu compromisso se fez público naquela mesma
manhã. Era um bom momento para deixar-se ver junto a Dain. Logo
sossegariam os rumores e, quando o escândalo passasse, poderiam dar um
discreto fim àquela farsa.
Lady Ofélia negou com a cabeça.
— Ainda não, mas espero que não demore muito. Albert quer falar
com ele antes de que partamos e eu não quero chegar muito tarde.
Annabelle dirigiu a sua mãe um olhar horrorizado que, por sorte, a
viscondessa não percebeu.
— Que assuntos tem que tratar Albert com o Dain?
— Annabelle, Albert e o conde serão irmãos dentro de muito pouco —
respondeu a viscondessa, olhando-a com condescendência —. Estou segura
de que têm muito do que falar. O conde pode ajudar Albert com algum
negócio lucrativo, concluindo tem mais experiência que seu pobre irmão.
Annabelle se conteve para não fechar os olhos.
Só havia duas coisas que interessavam a seu irmão: o jogo e as
mulheres. Dado que o conde não poderia lhe proporcionar o segundo, estava
certa de que todo o interesse de seu irmão residia em começar a fazer rentável
a seu futuro irmão político.
— Duvido muito que Albert queira falar de negócios, mãe.
— Algum dia será marquesa. E seu irmão, embora só seja visconde,
pode aproveitar o fato de que o conde seja seu cunhado. Já verá como não
demora para fazer bons negócios. Albert só necessita alguém que o anime a
isso. Será um grande aristocrata.

~ 83 ~
As aspirações de grandeza de sua mãe eram muito para ela.
O pai de lady Ofélia tinha sido conde e se esperou que ela se casasse
bem, possivelmente com um duque ou um marquês. Entretanto, tinha
terminado contraindo matrimônio com um simples visconde de província,
não muito rico nem influente.
A mulher nunca tinha tratado de dissimular que aborrecia a falta de
ambição de seu marido. Quando o visconde ainda vivia, os desplantes de lady
Ofélia eram contínuos.
Desde pequena, tinha pressionado Annabelle para que caçasse um bom
partido, pensando que assim recuperaria o lugar que legitimamente lhe
correspondia.
Por desgraça, logo tinha ficado patente que Annabelle não tinha a graça
natural de sua mãe. Tinha sido uma constante fonte de decepções para ela
desde sua estréia em sociedade. Para lady Ofélia, o compromisso com o conde
era a única coisa de valor que Annabelle fizera na vida.
— Estou pronta — anunciou esta, agarrando a bolsa de mão e
dirigindo-se decidida para a porta. Se conseguia descer antes de que chegasse
o conde possivelmente evitaria que seu irmão fizesse ridículo ante Dain.
— Ainda não. — Ante sua absoluta incredulidade, a viscondessa se
sentou com cuidado na borda da cama e deu um par de batidas a seu lado.
Se Annabelle não conhecesse melhor a sua mãe teria pensado que
queria manter uma conversação com ela.
— Se o desejar, a esperarei abaixo.
— Annabelle, sente-se a meu lado. Há algo que devemos falar.
A curiosidade a invadiu. Não recordava que sua mãe lhe houvesse dito
nunca nada que não fosse uma recriminação.
— Fiz algo mau? — Perguntou, desorientada, embora o que realmente
queria perguntar era o que tinha feito mal desta vez?
— É obvio que não, querida — disse lady Ofélia, com aquele tom de

~ 84 ~
voz tão meloso que começava a lhe dar calafrios —. Acredito que é o
momento de que mantenhamos uma importante conversa. Em pouco tempo
será uma mulher casada e quero me assegurar de que, em sua inocência, não
faça nada que contrarie lorde Dain.
Annabelle abriu a boca e logo a fechou. Não, sua mãe não podia estar
falando de…
— As relações íntimas — continuou a viscondessa, alheia ao
desconforto de sua filha —, são algo muito importante na vida da mulher.
Não é algo agradável, certamente, mas nossa missão como esposas é suportá-
lo. Te eduquei para que leve a cabo suas tarefas com honra, Annabelle, e esta
será a mais importante das tuas de agora em diante.
Enquanto a viscondessa continuava sua instrução, Annabelle, sentiu-se
corar da cabeça aos pés, tratou de não escutar a sua mãe, mas a voz era muito
aguda para ignorá-la.
Fazia muito que conhecia os fundamentos do que acontecia entre um
homem e uma mulher, apesar de não ter estado nem sequer perto de descobri-
lo por si mesma. As conversações entre as assíduas das cadeiras das
solteironas podiam chegar a ser muito instrutiva às vezes.
— Mas há algo mais — acrescentou a viscondessa continuando seu
discurso, baixando tanto a voz que Annabelle teve que inclinar-se para ouvi-la.
Sua mãe não a olhava quando acrescentou —. Alguns homens, e temo que
Dain é um deles, requerem de certos favores mais frequentemente que outros.
Agora que já estão noivos, é provável que tenha que se encarregar deles
inclusive antes do esperado.
Annabelle olhou a sua mãe entre estupefata e mortificada. Acaso
acabava de dizer o que ela tinha escutado?
Supôs que para sua correta mãe não contrariar o conde de Dain era
mais importante que a virtude de sua única filha. Obrigou-se a permanecer
serena, pensando que, no final, só ela sabia que o compromisso era uma farsa.

~ 85 ~
— Se tiver sorte, serão poucas vezes — prosseguiu a mulher, sem
perceber o mal-estar evidente de sua filha —. Uma vez que fique grávida o
conde recorrerá a sua amante. E, depois de um par de filhos, talvez não deva
te encarregar mais disso pessoalmente.
Embora publicamente estivesse mal visto, eram muitos os homens que
recorriam a entendimentos com esse tipo de mulheres. Era um pouco aceito
por todos pois, como sua mãe acabava de dizer, algumas esposas
consideravam uma bênção o fato de que seus maridos se desafogassem em
outra parte.
Olhou para lady Ofélia com certa estupefação. Sua mãe falava como se
as relações intimas lhe parecessem algo repugnante.
«Mas só as matrimoniais, verdade, mãe?» teria querido perguntar.
A viscondessa tinha instalado uma terrível ideia em sua mente. Teria
lorde Dain uma amante?
Lady Ofélia interpretou mal o olhar necessitado nos olhos de Annabelle
e lhe deu um par de tapinhas consoladores na mão.
— Deve cumprir sua obrigação com valentia. Ele não esperará outra
coisa. E será breve. Apenas o recordará.
Sua mãe não tinha do que preocupar-se. Annabelle duvidava que o
conde esperasse nada dela.
A chamada da donzela anunciando que lorde Dain acabava de chegar a
salvou de ter que responder.
Enquanto ficava em pé e acompanhava sua mãe ao exterior,
surpreendeu-se pensando que uma parte dela, aquela a que tratava de
domesticar sem êxito, desejava averiguar se a viscondessa tinha razão.
Se os beijos compartilhados eram uma amostra do que poderia sentir
em uma hipotética noite de casamento com Dain, duvidava muito que as
palavras de sua mãe fossem certas.
Seria um ato que teria que suportar com ele? Algo que sofrer?

~ 86 ~
O calor que percorria seu corpo lhe indicava que não.

~ 87 ~
Capítulo 11

Quando chegaram ao baile dos Montford, a maioria dos convidados já


estava ali. Annabelle sentia como sua mão enluvada tremia sobre o braço do
conde. Só esperava que ele não o notasse.
Olhadelas, desde dissimuladas até francas, cravaram-se neles enquanto
avançavam. Os sussurros se estenderam pela sala, subindo de tom à sua
passagem, fazendo que Annabelle corasse e cravasse a vista no chão.
Pouco a ajudou que o conde parasse bruscamente quando acabavam de
transpor as portas do salão e, sem cerimônia alguma, se separasse dela. Olhou-
o, aniquilada por seu comportamento, enquanto o murmúrio crescia a seu
redor até fazer-se ensurdecedor.
— Se me desculparem, tenho que atender uns assuntos, mas não
demorarei muito — disse Dain inclinando-se formalmente —. Espero que me
reserve alguma dança.
Olhou-o, entre confusa e doída. Não podia acreditar que ele a deixasse
naquele momento. E o que era aquilo sobre danças? Ele devia saber que ela
não estava acostumada a ser convidada a dançar.
Inclinou a cabeça com cortesia em um gesto fútil, dado que o conde já
tinha dado a volta e desaparecido no meio da multidão. Viu-se obrigada a
sorrir com cortesia a duas senhoras que a olhavam com mal dissimulado
interesse.
A seu lado, lady Ofélia lhe dedicou um olhar reprovador e preparou-se
para um sermão de sua mãe. Estava segura de que, de algum modo, o

~ 88 ~
desplante do conde era culpa dela.
A chegada repentina de Lydia a salvou.
— Annabelle! — Interpelou-a, muito excitada. Depois pareceu
precaver-se da presença da viscondessa e se dirigiu a ela com um movimento
formal de cabeça —. Perdoe minhas maneiras, lady Ofélia, não queria
interromper.
A mãe de Annabelle dedicou a Lydia um olhar de adoração absoluta.
Para ela, Lydia era o protótipo exato do que uma dama devia ser: bela,
educada e, sobretudo, calada. Não entendia por que tinha sido castigada com
uma filha como Annabelle, tão diferente em tudo.
— Não há nada que perdoar — respondeu a viscondessa, em um tom
afetuoso que jamais dirigia a sua filha —. Sabe que sempre é bem-vinda a
nosso lado.
Lydia sorriu de uma maneira forçada, embora só Annabelle se desse
conta.
— Se nos desculpar, preciso falar com sua filha uns minutos.
Voltaremos em breve.
— É obvio, querida. Os jovens sempre mostrando tanto entusiasmo.
Certamente têm muito do que falar. Annabelle fale com a Lydia — lhe
ordenou, como se ela não tivesse estado justamente ao lado de sua amiga,
inteirando-se de toda a conversação.
— Claro, mãe — assentiu, agradecida por poder afastar-se dela um
momento. Agarrou Lydia pela mão e cruzou a multidão em direção… Não
sabia aonde se dirigia, assim que se voltou para interrogar a sua amiga,
encolhendo os ombros —. Para onde vamos?
Lydia a conduziu para a parte posterior, onde o salão dava acesso às
escadas.
— Atrás dessas portas há um corredor. Acredito que ao fundo está a
sala do café da manhã. Ali poderemos falar sem que ninguém nos interrompa.

~ 89 ~
Enquanto a seguia, Annabelle a olhou com curiosidade.
— Como é que conhece tão bem a casa? Acaso vêm de visita?
— Não tinha estado aqui nunca antes desta noite, mas levo uma hora
dando voltas por esse salão. Já conheço todas as saídas.
Annabelle notou o tom angustiado de sua amiga e soube que algo a
preocupava. Apertou o passo, ignorando os olhares de curiosidade que
algumas pessoas lhes dirigiam.
Tal como Lydia havia dito, fora do salão de baile um comprido
corredor dava acesso a vários cômodos. Enquanto se dirigiam ao único com a
porta aberta, Annabelle se encontrou comparando aquela mansão com seu
modesto lar. Não havia dúvida alguma que o pai de Pomona não sofria dos
vícios que possuía seu irmão.
Entraram em uma sala decorada em tons pastéis. Um jogo de mesa e
cadeiras, de cor mogno e aspecto robusto, ocupava o centro da sala. Uma
enorme janela situada justamente em frente fez pensar a Annabelle em quão
agradável deveria ser iniciar o dia em um lugar como aquele, sendo banhada
pela luz do sol.
Annabelle entrou e Lydia passou por trás dela, fechando a porta a suas
costas.
— O que passou? — Perguntou à sua amiga, tomando assento junto à
mesa.
Lydia a imitou.
— Gregers.
Conteve um gemido. O pretendente de sua amiga começava a tornar-se
insuportável.
— O que fez agora?
— Ele, nada. Ao menos, não diretamente. Ontem meu pai me chamou
a seu escritório. Diz que não entende por que me oponho com tanto ímpeto a
um matrimônio com o Gregers, quando a minha mãe o aprova.

~ 90 ~
— Seu pai sabe como é ele na realidade?
Lydia esboçou uma careta de chateação.
— Só sabe o que lhe conta minha mãe, e para ela seu sobrinho é
perfeito. Um par do reino e de sua própria família! Não veria a verdade
embora a mordesse em um pé.
— O que te disse seu pai? Pediu-te que te casasse com ele?
— Não, ainda não, mas acredita que estou enganada em minha
apreciação e que só há um modo de que mude de opinião: quer que passe um
tempo com ele.
— Com o Percy?
Lydia fechou os olhos.
— Papai diz que assim entenderei que é um bom partido, tal como diz
minha mãe, e aceitarei me casar com ele.
Annabelle quase suspirou de alívio. Tinha esperado algo muito pior.
Pôs sua mão sobre a de Lydia, consoladoramente.
— Bom, só terão que passar um tempo juntos. Possivelmente depois
possa convencer seu pai de que não seria um bom marido.
— Duvido muito. Minha mãe irá a nossas entrevistas como
acompanhante e, é obvio, contará a meu pai mais maravilhas do Gregers.
Depois de tomar o chá com o conde durante um tempo, argumentará que o
ofenderemos terrivelmente se não aceitar me casar com ele e meu pai
terminará cedendo para não escutá-la mais. Será um milagre se não me casar
antes de você.
Aquela frase fez que Annabelle se engasgasse.
Nos últimos dias as coisas tinham acontecido tão rápido que apenas
tinha podido mandar uma mensagem escrita a Lydia. E nela não pôde lhe
confiar mais que parte da verdade, pois temia que caísse em mãos erradas. Os
serviçais raramente eram discretos.
— Com respeito a isso… — começou a dizer.

~ 91 ~
— Oh!, é obvio! — Interrompeu-a Lydia, entusiasmada — Eu aqui te
entretendo com meus problemas sem importância quando você tem
autênticas notícias sobre as que falar!
— Não há tanto do que falar — lhe subtraiu importância Annabelle.
— Como não? Vai se casar com um conde! E não com um qualquer, a
não ser com o Dain. — O olhar sonhador de Lydia se cravou nela —. me
conte, como é estar comprometida com um dos homens mais arrumados de
Londres?
Annabelle meditou uns segundos.
— Um horror — disse no final com franqueza, provocando que Lydia
a olhasse como se estivesse louca.
— Por que diz isso?
— Lydia, antes que continue, tem que saber que Dain e eu não estamos
comprometidos de verdade.
— Como que não? Se seu compromisso foi anunciado no jornal! Todo
mundo fala disso.
— Sei. — Interrompeu-a Annabelle —. Mas é falso, tudo falso.
— Não te entendo.
Annabelle tomou ar e narrou a sua amiga tudo o acontecido.
Teve que suportar com resignação o olhar ressabiado de Lydia ao lhe
contar como tinham sido descobertos beijando-se no labirinto. Ao chegar à
narração de como tinha ido a casa do conde em plena noite, sua amiga voltou
a interrompê-la.
— Annabelle! Ficou louca?
— Parece que sim. Não sabe como lamento não me ter dado conta.
Tudo isto não teria acontecido se não tivesse decidido tomar o assunto em
minhas mãos. Agora mesmo estaríamos no baile, desfrutando e rindo.
— E vendo Dain dançar com outras — terminou Lydia,
reflexivamente.

~ 92 ~
— Que interessa? Ele nunca será meu.
— Então, não vai casar? — A expressão de Lydia era desolada.
— Como poderia fazer algo assim ao Dain? — Negou com a cabeça —
. O convenci que fingíssemos um compromisso até que o escândalo passasse.
E quando Londres esquecer, anunciará que decidiu não se casar comigo, e
cada um voltará para seu canto. Provavelmente Dain se case com outra antes
que acabe o ano.
Annabelle evitou lhe dizer que, quase com certeza, essa outra seria lady
Pomona. Nem sequer suportava pensá-lo.
— Há algo que não entendo — refletiu Lydia —. Se quando foram
descobertos, Dain se mostrou disposto a casar-se contigo, por que lhe deu
uma via de escapatória? Ele ia casar-se contigo!
Annabelle se levantou de um salto, incapaz de permanecer sentada, e
perambulou alterada pela habitação.
— Por compromisso, Lydia, porque não tinha mais remédio para salvar
sua honra! Não porque me quisesse de verdade! Não podia permitir que Dain
se visse ligado a mim somente porque fui suficientemente estúpida para pô-lo
em apuros.
Lydia a olhou, consternada.
— Ama-o de verdade?
— Não sei! Apenas o conheço. Acredito que não, como vou amar
alguém com quem apenas falei? — Raciocinou Annabelle. Entretanto, queria
ser sincera com sua amiga —. Mas quando o vejo sinto algo diferente, aqui —
disse, colocando a mão à altura de seu estômago —. Cada vez que o olho me
dá um tombo no coração. Se ele estiver em uma sala não posso ignorá-lo. E
seus beijos fazem que me sinta…
— Sim?
— Não pode imaginar o que é. Sentir seu corpo junto ao meu. —
Annabelle se ruborizou e calou —. Pouco sei como vou sobreviver a este

~ 93 ~
compromisso.
Lydia se levantou e a abraçou.
— Não se preocupe, Annabelle. Eu te ajudarei. Não deixarei que o
conde lhe quebre o coração.
— Obrigada, Didi — murmurou Annabelle, abraçando sua amiga. Com
gesto impaciente secou as lágrimas que ameaçavam descer por seu rosto —. E
o que vamos fazer com o teu? Temos que te tirar de cima esse Gregers!
Lydia encolheu os ombros.
— Não acredito que haja muito que possa fazer a respeito. Quando
meu pai me ordenar, terei que me casar com ele.
O olhar de Annabelle se iluminou.
— Não poderá se casar se já estiver casada!
Lydia a olhou, aniquilada. Depois pôs-se a rir.
— E com quem vou casar?
— Não sei, mas a partir desde momento estamos à caça de marido.
Tem que existir alguém mais adequado que Gregers para ti.
Pela primeira vez essa noite, os olhos da Lydia brilharam, divertidos.
— Não acredito que isso seja muito difícil.
Rindo, ambas as amigas abandonaram seu refúgio e retornaram o
caminho para o salão.
Não chegaram muito longe. Uma sombra apareceu do nada, lhes
cortando o passo.
Annabelle cravou o olhar na recém chegada e tragou saliva. Lady
Pomona Swift, mais espetacular do que nunca, estava parada ante elas no
corredor.
O vestido daquele dia era de um branco imaculado que, a qualquer
outra mulher, teria assentado terrivelmente mal. A Pomona a fazia parecer um
anjo. A luz tirava brilhos de seu cabelo vermelho, e seus traços inocentes lhe
davam a pureza de uma noviça.

~ 94 ~
Só não era porque seus olhos jorravam fogo.
O olhar que dirigiu a Annabelle estava carregado de intenção.
— Escondes-te em minha salinha do café da manhã? — Perguntou
com voz gelada —. Já te abandonou o conde?
Annabelle apercebeu-se que Dain não tinha explicado a Pomona as
circunstâncias de seu compromisso. O faria ela mesma, pensou, mas o próprio
conde lhe tinha ordenado que não o fizesse.
Sentiu como a seu lado Lydia se esticava e lhe pôs uma mão no braço.
Tampouco gostava de Pomona, mas podia entender seu aborrecimento.
Provavelmente, ela e Robert tinham algo.
Aquele pensamento a enfureceu, mas tratou de controlá-lo.
— Lorde Dain é livre para ir onde lhe agrade — respondeu com
aprumo.
— Só espero que os jardins de meu pai não lhe pareçam tão admiráveis
como os de lorde Winchester. Ou seja que outra dama pense em aproximar-se
esta noite.
— Como se atreve? — Gritou Lydia a seu lado.
— Lydia, por favor, se tranquilize. Lady Pomona está zangada porque
acredita que Dain ia propor matrimônio a ela em vez de a mim.
— É que ia me propor isso sim, chiou Pomona com voz aguda,
perdendo pela primeira vez a compostura. Avançou um dedo ameaçador para
Annabelle —. De fato, ainda não estão casados e ninguém explica por quê!
Toda Londres sabe que aquele beijo foi um deslize, ninguém espera que se
case contigo!
Annabelle ficou tensa e deixou de lhe importar o que Pomona sentia.
Se lorde Dain queria aquela mulher, que arrumasse ele as coisas.
— Quando me casar, a convidarei às bodas, Pomona. Não se preocupe.
— Então ocuparei o lugar de honra de suas bodas imaginária.
E, sem mais, a mulher deu a volta e retornou ao salão.

~ 95 ~
Lydia tomou a mão de Annabelle e a apertou.
— Sabe que quando o compromisso se romper terá que aguentá-la —
murmurou sua amiga.
— Sei, só espero que Dain não se case com ela. Não poderia suportá-
lo.

~ 96 ~
Capítulo 12

Robert tinha ido diretamente procurar por uma bebida. Era o único
modo de conseguir concentrar-se, depois daquele passeio na carruagem que
quase tinha acabado com ele.
Com cada balanço do veículo pelas ruas de Londres o corpo de sua
noiva se agitava também, lhe provocando uma dor surda na virilha e
pensamentos cada vez mais impuros.
Nem sequer a viscondessa viúva, sentada junto a sua filha como um
corvo em seu galho, tinha conseguido conter sua libido.
Quase gemeu ao recordá-lo.
Deveria ter feito uma ideia do que ia acontecer no momento em que
tinha posto os olhos sobre Annabelle.
Seu único pensamento coerente foi que ela tinha feito de propósito.
Devia saber o efeito que provocava nele, e tinha decidido explorá-lo.
O vestido que levava se ajustava a seu corpo como uma segunda pele.
Pôde apreciar a presença de suas curvas sob o tecido. Entretanto, o veludo
escuro a cobria quase totalmente, deixando à vista apenas uma porção de seu
pescoço. Era uma contradição desesperadora.
Durante um segundo, Robert quis arrancar o vestido ou, no mínimo,
passar as mãos pela curvatura de seus seios, tão aprisionados sob o grosso
tecido que forçavam as costuras.
Obrigou-se a afastar o olhar do peito de sua noiva enquanto esta
realizava uma reverência ante ele e era apresentado formalmente a sua mãe, a

~ 97 ~
viscondessa viúva.
Robert tinha completado os formalismos em estado de transe e ainda
continuava desorientado. Sabia que não tinha sido muito educado despedir-se
dela ao entrar no salão, mas era isso ou arrastá-la de novo à carruagem. Esta
vez, sozinhos.
Aproximou-se de uma das grandes janelas que decoravam a sala e deu
um gole na taça que segurava na mão. Desta posição podia contemplar o
jardim dos Montford. Se tudo tivesse seguido o rumo esboçado, era provável
que aquela altura tivesse sido considerado já genro naquela casa.
Em troca, seu escandaloso compromisso tinha dado lugar a olhares de
soslaio por parte dos nobres que o rodeavam e esporádicas felicitações que
ignorava sistematicamente.
Um exagerado pigarro a suas costas o fez fechar os olhos.
Diga-me Allendale, o que perdeu este ano na temporada social? —
Perguntou com sarcasmo, voltando-se para fulminar o seu melhor amigo com
o olhar —. Você, que só reconhece que é duque para que lhe permitam o
acesso a seu clube de cavalheiros.
Aquela noite Allendale tinha decidido jogar aos dandis. A jaqueta, de
um tom azul pálido, faria babar e agradar qualquer almofadinha. O lenço
mostrava um laço tão intrincado que, sem dúvida, faria suar sangue ao
ajudante de câmara do duque. Completava o traje uma nada discreta calça beje
e uns sapatos surpreendentemente brilhantes.
Só o conde de Allendale podia luzir um traje como aquele e continuar
exsudando masculinidade.
Com elegância, ignorou o sarcasmo de Dain e lhe dedicou um daqueles
sorrisos que deixavam loucas as damas.
— Acredito que devo te felicitar por seu iminente casamento.
— Morda a língua.
— Não é um pouco rápido para que te amargure a ideia?

~ 98 ~
— O que me azeda o caráter agora mesmo não é meu compromisso, a
não ser sua presença.
— Como é que não está casado ainda? — Perguntou Adam com
interesse, ignorando deliberadamente as palavras de Dain —. Tinha ouvido
dizer que seria questão de horas.
— Minha noiva é uma mulher peculiar.
— Já vejo.
O olhar ameaçador de Dain só provocou outra gargalhada em Adam.
Era evidente que o conde de Allendale achava extremamente divertida toda
aquela situação.
Robert decidiu desviar a atenção para um tema sobre o que tinha mais
interesse. Olhou a seu redor para comprovar que possuíam certa intimidade.
O salão de baile era ruidoso. A música da orquestra e as animadas
conversações faziam impossível escutar nada a uma distância de mais de dois
passos.
— Conhece o Weymouth?
— O visconde?
— O mesmo — assentiu Robert —. É o irmão de minha noiva.
— Cruzamo-nos um par de vezes — respondeu Allendale,
evasivamente —. A quem sim tive a honra de conhecer faz uns anos foi à
própria lady Annabelle.
Aquilo surpreendeu Dain, que olhou a seu amigo com interesse.
— Foi apresentada em sociedade na mesma temporada que minha
esposa — respondeu Adam, respondendo à pergunta implícita —. Se fizeram
amigas, assim durante nosso noivado dancei um par de vezes com ela.
Surpreendeu-me escutar o seu compromisso porque pensei que teria se casado
havia muito tempo. Sempre me pareceu uma mulher muito interessante e,
acredite, não era o único em pensá-lo. Em sua primeira temporada teve
muitos pretendentes, é toda uma surpresa que não acabasse com nenhum.

~ 99 ~
Aquilo pegou Robert despreparado. Fez-se à ideia de que ele era o
único recurso de sua prometida. Saber que tinha havido outros era uma
desagradável surpresa.
— Algum se declarou? — Perguntou, embora nem ele mesmo sabia
por que necessitava essa informação.
— Não que eu saiba, mas sabe que essas coisas, normalmente, fazem-se
de forma discreta.
Dain ignorou o sarcasmo.
— O que sabe de sua família? — Sondou, ignorando a sensação que se
hospedou em seu estômago.
Adam franziu o sobrecenho, reflexivo.
— Conheci seu pai; suponho que você também. O visconde foi um
homem respeitável.
— Era amigo de meu pai — assentiu Robert —. Perderam o contato
quando nos mudamos a viver no norte. Recordo a um homem erudito, muito
pouco dado a eventos sociais.
— É uma pena que seu filho não siga seus passos.
Embora sua conversação com o irmão de Annabelle tivesse sido breve,
Albert Weymouth lhe tinha dado tão má impressão que não teve que
perguntar a seu amigo a que se referia.
— Como de mau?
— Bastante mau — disse Adam, pensativo —. O antigo visconde não
era mau nas finanças e, antes dele, seu pai já tinha deixado a família em uma
situação cômoda. À morte dos dois o patrimônio era considerável, Robert
recordou as palavras de Albert sobre o fideicomisso de Annabelle e assentiu.
— Isso tinha ouvido.
— Não acredito que reste muito desse patrimônio — acrescentou
Adam, embora Robert tivesse a sensação de que ocultava algo —. Weymouth
e eu não somos exatamente amigos, mas digamos que compartilhamos

~ 100 ~
algumas afeições.
Robert não perguntou. Depois da morte de Laura, três anos atrás, seu
amigo tinha ficado em um profundo poço de desespero, que tinha pensado
que jamais recuperaria.
E embora o tenha feito, o Adam que sobreviveu quase não se parecia
com o que tinha sido.
Guardava um lado sombrio sobre o que Robert preferia não conhecer.
Era uma espécie de pacto não escrito entre os dois, e o único que fazia que
sua amizade ainda funcionasse. Adam não queria contar e Robert preferia não
saber.
— Acredita que será perigoso para ela?
Adam franziu o sobrecenho.
— Para Annabelle? Duvido. Não sei que relação guarda com o
visconde, mas nunca me deu a impressão de que fossem muito próximos.
Para ti, em troca, sim será uma enorme moléstia.
— Dinheiro?
— Entre outras coisas. É muito provável que necessite recursos, mas
com segurança tampouco lhe importará o brilho que tornar-se teu parente vai
dar a seu próprio título.
— Certamente, não é prato de bom gosto — concordou Robert,
consciente de repente do embrulho no que estava se colocando.
Se tivesse seguido com seu plano original, naquele momento estaria a
ponto de tornar-se parente de uma distinta família de sobrenome
irrepreensível.
Como se pudesse ler seus pensamentos, o olhar cinza de Adam o
atravessou.
— Espero que recorde que, por desgraça, não escolhemos a nossa
família. Sua noiva sem dúvida teve má sorte, mas dificilmente pode culpá-la
por isso — disse —. É uma moça inocente.

~ 101 ~
Robert demorou uns segundos em interiorizar a crítica velada nas
palavras do Adam.
— Crê que a seduzi — concluiu ao fim. Não era uma pergunta.
— Não foi isso o que aconteceu?
Robert não respondeu. Ainda não tinha falado a ninguém a verdade do
acontecido entre ele e Annabelle, nem sequer a sua irmã Elizabeth.
— Se me desculpa — tentou evadir-se, apurando a taça —. Devo
procurar a minha noiva e a resgatar das garras dos leões.
— Está fugindo, Dain? — Perguntou Adam, surpreso —. Impróprio
de ti. Quase tanto como seduzir jovenzinhas.
— Ela me seduziu — confessou Robert, tão baixo que dificilmente foi
audível.
Adam, o maldito, sim o ouviu.
— Seduziu-te? — Quase gritou. Quando Robert o fulminou com o
olhar entendeu a ameaça e baixou o tom —. Quer dizer que foi ela que te
beijou? É algo incrível. A Annabelle que eu recordo era uma garota muito
cândida. É difícil imaginar essas inclinações.
— Pois me acredite, o fez. Não pode imaginar minha surpresa quando
se aproximou e me beijou. Nem sequer a conhecia até esse momento mas, o
que ia fazer?
— E a condessa de Montford te encontrou, digamos, com as mãos na
massa.
A diversão de Adam era evidente.
— Se algo disto se sabe… — ameaçou Robert.
— Por quem me toma? Nada sairá de minha boca enquanto alguém
possa me escutar. Entretanto, acredito que vou me divertir.
— Alegra-me que minha desgraça satisfaça a alguém — murmurou
Robert com rancor.
— Vamos, vamos, homem. Finalmente tem o que queria. — Robert o

~ 102 ~
olhou com suspicacia —. Não queria uma dama que não te aborrecesse? Pois
parece que Annabelle cumpre suas expectativas de sobra.
Robert se despediu de Adam com a gargalhada deste último vibrando
em seus ouvidos. O humor especial de seu amigo às vezes era um pouco
aborrecido.
Procurou Annabelle com o olhar, repentinamente desesperado por
encontrar-se em sua companhia. A anterior conversa com Allendale havia
trazido de volta a curiosidade. Não entendia o impulso que tinha motivado o
comportamento de sua noiva.
Voltava a vê-la, uma e outra vez, aproximando-se na escuridão,
posando sua boca sobre a dele em um casto beijo. Por que tinha feito isso?
Em um primeiro momento tinha pensado que seu comportamento
correspondia a um plano perverso esboçado por uma dama desesperada.
Entretanto, aquela estranha farsa de seu compromisso, unido à inocência que
rodeava a sua noiva começavam a ofuscá-lo.
Por que, dentre todos os homens de Londres, ela o tinha escolhido?
Até que não respondesse a essa pergunta não dormiria tranquilo.
Deu-se conta de que nos últimos dias, pela primeira vez desde que
tinha chegado a Londres, não se sentia enfastiado. O mistério que era
Annabelle tinha conseguido neutralizar o tédio que a temporada social lhe
provocava.
Amaldiçoando que Adam tivesse razão, dirigiu-se decidido para ela.
Possivelmente logo poderia encontrar resposta a várias de suas
perguntas.

~ 103 ~
Capítulo 13

Annabelle afastou o olhar de Lydia, que se dirigia para a pista de dança


precedida de Gregers como um cordeirinho seguiria ao pastor para o
sacrifício, a tempo para ver Robert atravessar o salão em sua direção, com
aquele passo seguro e decidido que o caracterizava.
Apertou os dentes, zangada.
Meia hora suportando olhadas inquisidoras a tinham posto de péssimo
humor. Se ele não tivesse ido, a essas horas já teriam deixado de ser motivo de
interesse. Seu estranho comportamento só tinha acrescentado chamas de
curiosidade.
Sabia que aquele não era um compromisso de verdade e que era pouco
provável que o conde se prestasse a desempenhar o papel de eterno
apaixonado, mas acaso era muito pedir um mínimo de cortesia?
— Rogo-lhe que me desculpe, lady Annabelle. Não era minha intenção
deixá-la desatendida durante tanto tempo precisamente hoje.
— Pouco notei sua ausência, milorde.
O sorriso que Dain lhe indicou que não acreditava em nenhuma de suas
palavras.
— Entretanto, por fim encontro-me a sua inteira disposição, sem nada
mais que fazer durante o resto da noite que dançar com você, falar com você
ou passear com você. Deixarei que decida.
Annabelle o olhou estupefata. Ele parecia falar a sério.
— Seriamente pretende converter-se em minha sombra o resto do

~ 104 ~
baile? — Perguntou, alarmada —. Provocaremos um escândalo.
O homem se inclinou levemente para ela. Foi um movimento tênue,
apenas perceptível, mas o corpo de Annabelle vibrou pela proximidade.
— Então é uma sorte que sejamos um casal escandaloso, não vê? —
Seu fôlego, quente, acariciou-lhe a bochecha.
A sombra de um novo rumor pairou sobre ela e teve que recordar que
tinha decidido não dar à alta sociedade nenhum motivo a mais para que se
fixassem nela. Tragou sua frustração e pôs uma de suas enluvadas mãos sobre
o braço de Robert, deixando que este a arrastasse para a orquestra.
Nem sequer se ruborizou quando o conde a fez tomar posição e
começar a mover-se antes de que a música terminasse. O correto teria sido
aguardar junto aos bailarinos que a orquestra iniciasse uma nova melodia mas,
nos últimos dias, o correto e o adequado pareciam não coincidir.
A mão de Robert logo acariciava sua cintura, mas Annabelle sentia suas
carícias por toda a pele. Depressa outros bailarinos, a rígida etiqueta e
inclusive a música da orquestra ocuparam um segundo lugar.
Só estavam ela e o conde de Dain, girando no compasso, como se toda
sua vida tivesse aguardado por aquele momento.
— Gosta de dançar. — A intenção de Annabelle não tinha sido falar
em voz alta, mas supôs que o tinha feito quando o conde de Dain perguntou:
— Por que o diz?
— Acabo de cair em conta de que, desde que chegou a Londres, quase
não o vi quieto. Não recordo havê-lo visto passeando ou conversando.
— Tinha um propósito.
Annabelle lhe subtraiu importância com a mão.
— Tolices. Poderia ter cortejado às damas do mesmo modo as
convidando a passear pelo salão ou simplesmente conversando com elas. De
fato, me atreveria a dizer que uma conversação prolongada seria mais benéfica
para o cortejo que uma dúzia de danças onde apenas se intercalam duas

~ 105 ~
palavras.
— Nós estamos falando agora.
— Sim, e você está me olhando como se preferisse que não o fizesse.
O silêncio caiu entre os dois. Annabelle pensou que o conde não lhe
responderia. Dedicou-se a desfrutar da proximidade de seu corpo e do fato de
que era um grande bailarino, dirigindo-a com leveza sobre a pista, fazendo-a
girar justo nos momentos exatos.
Surpreendeu-se ouvi-lo dizer:
— Tem razão. Eu gosto de dançar.
— Por quê? — Perguntou sem poder evitá-lo. Outra vez aquela
necessidade de saber tudo dele.
— É uma boa maneira de conhecer as pessoas. — Annabelle o olhou,
franzindo o sobrecenho —. No lugar de onde venho há muitas festas. O
princípio da colheita, o aniversário da fundação do povo… Em todos os
casos, dança-se. Desde pequeno assistia com meu pai e minha irmã. São bailes
singelos, diferentes a estes. Quando cheguei a Londres dava conta de que
podia saber muito das pessoas simplesmente dançando com elas.
— Que coisas pode dizer de uma pessoa sua forma de dançar? —
perguntou com curiosidade.
— Por exemplo, uma jovem muito reta, mais preocupada em seguir os
passos que em desfrutar da música, terá um comportamento similar fora da
pista de baile. Será correta e educada até o extremo, embora essa correção lhe
impeça de desfrutar das coisas boas da vida.
Annabelle, que já se enganara três vezes, conteve-se para não lhe
perguntar o que lhe havia dito dela sua forma de dançar. Dain pareceu ler a
dúvida em seus olhos.
— A você, entretanto, não lhe importa nada se enganar.
Inclinou-se para ela e estavam notavelmente mais perto do que era
correto. Notou o quente fôlego dele na bochecha e não pôde evitar um

~ 106 ~
calafrio. Não podia ver seus olhos, mas pensou que era melhor assim. Estava
certa de que naquele momento poderiam lhe atravessar a alma.
Apenas por a olhar, ele notou como tinha aumentado a temperatura de
seu corpo, o ritmo frenético de seu coração e aquele martelar constante que
sentia na virilha.
— E o que lhe diz isso de meu caráter? — Perguntou contendo o
fôlego.
— Diz-me que é uma mulher passional. Quer que a beije, agora
mesmo, aqui mesmo, embora provoquemos um novo escândalo. Sua forma
de dançar é tão insinuante que, se continuar apertando-se desse modo contra
mim, a agradarei.
Annabelle se retirou de um salto e Robert riu com vontade.
— Tranquila, lady Annabelle, seu segredo está a salvo comigo.

Robert cravou o olhar em sua noiva como se a visse pela primeira vez
e, em certo sentido, assim era. Começava a compreender que não ia casar-se
com uma mulher comum.
A curta distância pôde apreciar com nitidez os detalhes de seu rosto.
Annabelle possuía umas adoráveis manchinhas escuras sobre o nariz. Centrou
a atenção nelas, resistindo ao ridículo impulso de as acariciar.
Era a viva imagem da inocência. Não obstante, seu comportamento era
tão desavergonhado como o da mais descarada cortesã.
Não acreditava que existisse uma pessoa mais contraditória que sua
noiva. Sentia a fragilidade de Annabelle em seus braços, seu delicado fôlego
no pescoço e aquelas mechas castanhas que teimavam em escapar de seu
apertado penteado.
Um raio de desejo o fulminou, fazendo que perdesse por um momento
o compasso da dança.
Os olhos divertidos de Annabelle se cravaram nos seus e um sorriso se

~ 107 ~
formou em seus lábios.
O silêncio se instaurou entre eles. Robert meditava o que dizer a seguir,
quando Annabelle o rompeu.
— Diz-se que está muito orgulhoso de sua terra, milorde. Deve ser um
lugar esplêndido.
Pela primeira vez em sua vida, Robert não queria falar de Warkworth.
Interessava-lhe mais a mulher que girava em seus braços.
— Minha propriedade se encontra muito perto do lugar de Warkworth
— comentou a contra gosto —. No Northumberland. É o condado situado
mais ao norte. Limita em grande parte com as estepes escoceses.
Os olhos de Annabelle se abriram pela surpresa.
— Não é perigoso?
— Antes sim, e muito. Essa foi a razão de que concedessem a terra e o
título ao primeiro conde de Dain. Necessitavam um bravo guerreiro capaz de
combater as selvagens hordas escocesas.
— Vá, não o imaginava descendente de guerreiros, milorde.
— Bravos guerreiros — particularizou ele, ofendido pela maneira como
ela tinha analisado sua estrutura corporal antes de fazer o comentário —. E
por que não? Acredito que não se pode dizer que seja de constituição doentia.
Annabelle riu uma risada doce e musical.
— Não, acredito que não podemos. Ainda assim, é difícil imaginá-lo
enfrentando a ousados guerreiros escoceses embelezados somente com kilts.
Parece muito civilizado.
— Às vezes as aparências enganam — murmurou Robert com os
dentes apertados.
Seu corpo clamava, dominado por um instinto tão primitivo e selvagem
que a inocência da mulher quase o fez rir. Civilizado? Pouco podia considerar-
se assim o fato de que queria arrastá-la até o jardim e possui-la ali mesmo,
sobre as margaridas dos Montford.

~ 108 ~
Precisava-se ser de uma massa especial para enfrentar aos escoceses —
disse, tratando de recuperar a compostura —. Um século depois outro
antepassado de meu tataravô lutou na batalha de Neville Cross e foi
recompensado por seu valor com o marquesado de Laurens. O título de
conde ficou reservado para o herdeiro.
— Assim que seu pai ainda vive.
— Efetivamente. Vive e goza de boa saúde, embora há uns anos eu me
encarrego de tudo relacionado com a terra. Decidiu, segundo suas próprias
palavras, desfrutar da velhice, e eu estou de acordo em que o faça. Já
trabalhou o suficiente.
— Você o aprecia.
— Muito. É um bom homem. — «Você gostará dele quando o
conhecer» quis dizer, mas se conteve a tempo. Annabelle ainda supunha que
seu compromisso era uma farsa. Robert não a faria participe de seus planos
até que estivesse seguro de que ela não o recusaria. Parecia uma mulher
imprevisível e não estava disposto a lhe dar a possibilidade de livrar-se dele.
— Meu pai também o era — a escutou dizer. Um véu aflito se instalou
em seus olhos castanhos.
— Era um bom pai?
Os olhos da mulher brilharam.
— O melhor. Muito mais do que alguém jamais saberá.
O tom sussurrado dela e a pena que se instalou em sua expressão
fizeram Robert mover-se. Ao diabo as convenções sociais. Queria um
momento a sós com ela. Queria fazer com que seus olhos voltassem a brilhar
de alegria e malícia. E sabia exatamente como fazê-lo.
— Acompanhe-me — lhe sussurrou.
— Onde? — Perguntou ela com alarme.
— É uma forma muito pouco correta de aspirar a um matrimônio
negando-se a cumprir os desejos de seu futuro marido.

~ 109 ~
A ira palpitou nela, desbancando a tristeza.
— Necessita que lhe recorde que este compromisso é uma farsa?
Robert não pôde resistir a tentação de jogar com ela.
— E quem é a culpada disso? O mínimo que poderia fazer é cumprir
meus desejos enquanto esta horrível tortura dure.
Ela mordeu o lábio inferior, pensativa. A carne vermelha, inflamada,
atraiu sua atenção. Teve que usar toda sua força de vontade para não inclinar-
se sobre ela e apanhá-la com seus próprios dentes.
— Lamento muito havê-lo posto nesta situação, mas acredito que já me
desculpei o suficiente com você. Isso não lhe dá direito a me manipular como
se fosse sua propriedade. — Os olhos castanhos dela ardiam. Aquele
arrebatamento de ira, tão impróprio de uma dama, era refrescante —. Agora,
se me desculpar, acredito que me esgotei de tanto dançar. Boa noite, lorde
Dain.
E, sem mais, partiu, deixando-o abandonado na pista de dança como
um cachorrinho no bosque. Olhou-a ir rebolando os quadris com uma mescla
de exasperação e diversão pulando dentro dele.
Aquela era uma mulher esplêndida e admirava seu caráter…, mas isso
não significava que ia deixá-la sair por cima. Quanto antes compreendesse
quem mandava naquela relação, melhor para ambos.

~ 110 ~
Capítulo 14

― Seguiu-a decidido. Com um par de passadas, ficou a seu lado e a


agarrou sutilmente no cotovelo.
— Temo que não se livrará tão rapidamente de mim, lady Annabelle.
Os olhos escuros dela o olharam, interrogantes. Apertando seu agarre
sobre ela, Dain a incentivou a andar mais rápido.
Annabelle soltou uma exclamação afogada quando compreendeu que
não abandonavam o salão de baile a caminho dos jardins, onde era
perfeitamente correto sair e refrescar-se.
Deixaram a casa dos Montford pela porta principal, embora por sorte
nenhum convidado se achava no vestíbulo naquele momento. Quando
transpuseram a porta de entrada, Robert se deteve.
O ar frio da noite fez que recuperasse o controle e se deu conta do
impetuoso de seus atos. Estava pouco acostumado a seguir seus impulsos.
Annabelle não parecia assustada, a não ser confusa, e Robert se alegrou.
Queria que sentisse um mínimo do caos emocional que o invadia.
— Aonde vamos? — Perguntou, olhando curiosa a seu redor, enquanto
desciam a escada da mansão.
Isso mesmo queria saber Robert.
Os carros dos convidados à festa se amontoavam na rua, sob um
espesso manto de névoa. Era difícil perceber o que acontecia a poucos passos.
Sem propósito concreto, mais que o de não ficar parado na metade da escada,
encaminhou-se para eles seguido de Annabelle.

~ 111 ~
Alguns choferes dormitavam nas boléias, mas a maioria deles, assim
como os lacaios, não se achavam presente. Robert supôs que, como estava
acostumado a ser habitual, estariam amontoados no calor da cozinha dos
Montford, protegendo-se do frio exterior enquanto faziam hora para partir.
Quando sua carruagem, estacionada entre muitas outras, apareceu em
seu ângulo de visão teve claro o que fazer a seguir. O fato de que seu chofer
não estivesse ali o fez sorrir com malícia. Não havia ninguém ao redor e, um
olhar rápido sobre o ombro, lhe indicou que tampouco tinham seguido seus
passos.
— Parte, milorde? — Perguntou ela, confusa, ao distinguir seu brasão
gravado na portinhola.
Robert abriu a porta e lhe estendeu a mão. Annabelle o olhou com
desconfiança.
— Só quero manter uma tranquila conversação, Annabelle, e temo que
o salão é muito ruidoso para meu gosto.
A mulher assentiu e deixou que a ajudasse a subir à carruagem.
Robert subiu atrás dela e prendeu o candeeiro interior. Com gesto
enérgico, correu as cortinas das janelas. Não queria que a luz se percebesse do
exterior. Finalmente, tomou assento frente a sua noiva.
O vestido dela atraiu sua atenção.
— Entendo que nosso compromisso não é uma alegria para você —
disse Robert —, mas não podia ter dissimulado um pouco? Estou certo que
alguma amiga viúva poderia lhe haver emprestado algo mais alegre.
Annabelle não pareceu ofendida por suas palavras. Em lugar disso
elevou o queixo, orgulhosa.
— Temo que isto é o mais resgatável que havia em meu armário.
Acredite-me, meus pulmões estão de acordo com você. Acredito que, depois
desta noite, jamais voltarei a respirar com normalidade.
Robert sentiu como seu corpo se contraía. O espaço era tão reduzido

~ 112 ~
que podia perceber o tênue perfume de sua noiva. A escuridão que os
envolvia criava uma falsa sensação de intimidade.
Soube que o fato de que seus passos o tivessem guiado até ali, com
Annabelle, não era uma simples casualidade. Inconscientemente, levava
pensando nisso toda a maldita noite.
— Sabe? — Escutou-se dizer com voz rouca —. Talvez possa ajudá-la.
Sentou-se junto a ela, rodeando-a com seus braços e deixou que uma de
suas mãos vagasse através do flanco, em direção a seu quadril. Annabelle ficou
tensa ante a carícia.
— O que faz? — Perguntou alarmada.
Robert não pôde deixar de sorrir. O aroma de Annabelle era
embriagador, uma mescla explosiva de baunilha e limão. Doce, tentador.
— Você manifestou um desconforto. Seria um horrível noivo se não
fizesse tudo de minha parte para aliviá-la. — Inclinou-se, tratando de captar
mais daquela fragrância.
— É um falso noivo.
— Por que se empenha em recordá-lo? Acaso acredita que, se não o
expuser a cada cinco segundos, o esquecerá? — Segurou-lhe o queixo com os
dedos, obrigando-a a olhá-lo — Diga-me Annabelle, de verdade acredita que
há algo de falso nisto?
Sem tempo para deixá-la pensar, inclinou-se um pouco mais, mas em
vez de beijar os rosados lábios que se abriam espetantes, surpreendeu-a
descendo para a lisa superfície de seu pescoço. Annabelle ofegou ante o
contato. Aproveitou para deslizar a mão por suas costas.
Notou sob seus dedos as faixas que fechavam o monstruoso vestido e
não pôde resistir o impulso de enredá-los nelas.
Repetiu o beijo, percorrendo com os lábios a curva de sua mandíbula.
— Acredito que não está funcionando — disse Annabelle. Sua voz
soava afogada —. Cada vez me custa mais respirar.

~ 113 ~
— Não me diga — murmurou contra sua pele.
Respondendo a seu desejo, Annabelle girou a cabeça em sua direção e
finalmente a beijou na boca. Foi intenso, pleno e úmido. Robert a forçou a
separar os lábios e se afundou nela, tragando o murmúrio de surpresa.
A mão que mantinha nas costas de Annabelle começou a desatar as
faixas do vestido. Nem sequer sabia que o estava fazendo; a boca dela o
torturava, fresca e espetante, e Robert se perdeu nela, relegando qualquer
pensamento cordato ao fundo de sua mente.
Notou como as mãos de Annabelle lhe devolviam o abraço,
envolvendo-o com cuidado. Desesperado por sentir seu contato sobre a pele,
deu um puxão firme em sua gravata, quebrando o alfinete que a tinha mantido
no lugar. Não se importou. Agarrou uma das delicadas mãos de sua noiva e a
colocou em seu próprio pescoço, lhe indicando sem palavras o que queria que
fizesse.
Annabelle entendeu a sutil mensagem e seus dedos começaram um
enloquecedor caminho pela camisa de Robert, trabalhando sobre os botões de
tartaruga marinha.
Em resposta, intensificou seu trabalho nas costas dela; quando sentiu
sob seus dedos os laços mais finos do espartilho e sorriu com antecipação.
Annabelle parecia não notar que estava perdendo a roupa. Devolvia-lhe
o beijo com um entusiasmo próximo ao desespero. Obrigou-se a diminuir o
ritmo, movendo os lábios com lentidão, lhe indicando sem palavras que
fizesse o mesmo, e ela o seguiu no movimento.
Seus lábios se acariciaram brandamente, em um gesto terno que o fez
arder. Annabelle aprendia rápido e, de repente, Robert não podia pensar em
nada mais que não fossem as coisas que queria lhe ensinar.
As fitas do espartilho não resistiram mais que as do vestido e logo pôde
roçar com seus dedos a pele quase nua de suas costas, só protegida por uma
larga regata de linho, tão fina que apenas era percetível.

~ 114 ~
A mulher se agitou entre seus braços.
— O que faz?
— Beijar-te — murmurou Robert, voltando a pôr seus lábios sobre os
dela.
Annabelle se debateu durante uns segundos, mas finalmente voltou a
inundar-se no beijo. Robert aproveitou para acariciar com sutileza a suavidade
de sua pele.
O centro de suas calças ameaçou abrir, mas o ignorou. Uma parte dele
morria por sentir Annabelle mais intensamente, a outra teria permanecido ali
para sempre, só acariciando sua pele e recebendo seus beijos.
— Robert, não podemos fazer isto — murmurou ela, retirando sua
boca. Ainda o abraçava com força.
— Não faremos nada que não queira fazer, Annabelle, prometo-lhe
isso. Como sabe, sou um perfeito cavalheiro, verdade?
A mão que acariciava suas costas com círculos lentos pareceu
tranquilizá-la. Robert aproveitou para deixar que o vestido se deslizasse um
pouco por seus braços, desnudando uma grande porção de seu peito.
Apressou-se a beijar com reverência aquela pele sedosa que acaba de
descobrir.
— Por que alguém se incomodou em inventar os vestidos de pescoço
alto? — Perguntou, molesto, enquanto se recreava na calidez de sua pele e no
seu tato sedoso.
Annabelle sorriu.
— Suponho que queriam evitar que as paixões se inflamassem.
— Acredite-me, o efeito que provoca é justamente o contrário — disse
Robert, perdendo um pouco o controle e elevando as mãos para acariciar
brandamente os peitos de Annabelle através do tecido do vestido —. Levo
toda a noite querendo fazer isto.
Segurou os pesados seios entre suas mãos, apertando leve e docemente.

~ 115 ~
Annabelle suspirou com força. Robert procurou recusa em seu olhar, mas o
único que encontrou foi paixão. Com gesto lento, dando a ela oportunidade
de negar-se, fez que o vestido e o espartilho descessem, deixando somente a
fina regata de linho entre ele e seus peitos.
Aspirou, tratando de serenar o ritmo agitado de seu coração. Inclusive
na débil luz da carruagem podia precisar as auréolas de seus seios, círculos
escuros sobre sua cremosa pele. Os mamilos de Annabelle se elevavam,
espetantes, sob o fino linho da regata.
Não pôde conter o impulso de inclinar-se e beijá-los, umedecendo o
tecido através do qual se projetavam.
— Robert — sussurrou Annabelle.
Dain sentiu os dedos dela acariciando seu cabelo e soube que ia perder
o controle. Precisava senti-la nua e úmida sobre sua pele. Conhecer o interior
de seu corpo. Se não afundasse logo nela enlouqueceria.
Tudo o resto desapareceu: a carruagem, a rua, o baile dos Montford a
só uns passos de distância. Annabelle era tudo no que podia pensar.
Deslizou uma mão pela torneada perna de sua noiva, procurando
freneticamente a abertura de sua saia. Suspirou com força quando a
inquisidora intrusa achou seu tornozelo. Acariciou a sedosa pele e subiu a
mão, deslizando-a por seu joelho…
Umas vozes imperiosas junto à carruagem romperam a magia do
momento.
Annabelle abriu os olhos, horrorizada.
— Podem nos descobrir — acusou, recuperando de repente a
prudência. Lutou torpemente, tratando de colocar o vestido em seu lugar.
Robert se forçou a separar-se dela. A imagem de sua noiva o chocou.
O vestido e o corpete de Annabelle se enrolavam em sua cintura. Uma
multidão de pequenos cachos escuros tinham escapado de seu penteado e
tinha as bochechas rosadas e os lábios inflamados por seus beijos.

~ 116 ~
Ele jamais se comportara de um modo tão indigno com nenhuma
mulher.
Tratou de lhe subtrair culpa recordando-se mentalmente que ia casar
com ela mas, internamente, sabia que se aproveitara da inocência de
Annabelle.
Ajudou-a a colocar suas roupas. Sua mão se atrasou um pouco mais
sobre a cremosa pele dela, desejando-a desesperadamente.
— Vais necessitar roupa nova — disse, tratando de fixar a atenção em
algo que não fosse ela.
Annabelle ainda tratava de recuperar o fôlego.
— Acredito que estou de acordo. Sua técnica para aliviar meu
desconforto é muito escandalosa, inclusive para mim.
Toda a tensão acumulada quebrou em Robert, que não pôde evitar
soltar uma gargalhada estrondosa. Para sua surpresa, Annabelle o seguiu,
rindo nervosamente.
Não pôde evitar o impulso de inclinar-se e beijar as suaves sardas do
nariz de sua noiva.
— Vai às compras e pede que me enviem as faturas. Estarei encantado
de me fazer encarregado.
Embora não esperasse que ela saltasse de entusiasmo, tinha acreditado
que seu generoso oferecimento conseguiria, ao menos, um sorriso. Annabelle,
entretanto, limitou-se a olhá-lo com pânico nos olhos.
— Não farei tal coisa!
Robert a olhou, aniquilado.
— Por que não?
A mulher ficou em pé o mais dignamente que pôde.
Tinha perdido suas luvas e seu penteado mostrava o inconfundível
rastro da paixão.
— Sei que meu comportamento não foi de todo irreprovável mas,

~ 117 ~
infelizmente, milorde, acredito que chegou a uma horrível conclusão sobre
minha pessoa.
Robert entendeu por fim o que acontecia. Annabelle pensava que
tentava comprar seus beijos, como se tratasse de sua amante.
— Lady Annabelle, sinto se tiver interpretado mal minhas ações. Juro-
lhe que não duvido de sua virtude.
— Como não o faria? — Exclamou ela, mortificada —. Beijo-o na
escuridão, me apresento em sua casa de madrugada e agora isto.
Robert viu lágrimas nos olhos castanhos dela e uma ternura
desconhecida o invadiu. Aproximou-se dela e rodeou seu rosto com suas
mãos, obrigando-a a olhá-lo. Acariciou com o polegar a bela curva de sua
mandíbula.
— Eu nunca pensei que você não tinha virtude.
— Estaria em seu direito.
— Diga-me, alguma vez deixou que um cavalheiro a beijasse em sua
carruagem? — Lamentou a pergunta no momento que a fez.
— É obvio que não — disse ela. Robert soltou o ar que tinha estado
contendo —. Não tinha beijado ninguém até que o beijei, no labirinto.
A confissão pegou Robert despreparado. Recordou a inocência dela e a
hesitação que ainda apresentava. É obvio que não. Ela era uma jovem
inocente, muito valente para seu bem.
Quis lhe perguntar por que ele, por que então, mas se conteve. Primeiro
devia sossegar seus medos:
— Lady Annabelle, se alguém teve um comportamento indecoroso,
esse fui eu. Queria beijá-la e não me importei em manchar sua honra para
obtê-lo. Se não estivéssemos já comprometidos, me declararia. — Aquelas
palavras a fizeram sorrir —. Quero que compre roupa nova porque realmente
me preocupa sua saúde. — «E porque morro por ver-te embelezada com um
vestido de decote vertiginoso» —. Quero que desfrute comprando roupa e me

~ 118 ~
envie a nota promissória, porque isso é o mínimo que um homem pode fazer
por sua futura esposa.
— Mas você não é… — Começou a protestar ela. Pôs-lhe um dedo
nos lábios, sossegando-a.
— Se não voltar a insistir na ideia de nosso falso compromisso, o
considerarei um pagamento adequado por seus vestidos.
Annabelle borbulhou e finalmente rompeu a rir.
— Está bem, milorde.
Robert a contemplou, tão bela e tão ingênua. Olhou seus carnudos
lábios, inflamados por seus beijos, e a ideia de que só ele os tinha beijado, fez
que o invadisse um instinto primitivo. Quando seu corpo começou a reagir,
soube que tinha que sair dali e afastar-se daquela mulher.
— Vamos — apressou —. Te acompanharei de volta ao baile.
Perguntou-se se sua prudência sobreviveria ao mês que ainda viria.

~ 119 ~
Capítulo 15

O dia amanheceu ensolarado. Annabelle abriu as cortinas de seu quarto,


recreando-se nos raios do sol que entravam pela janela. Desde que um ano
atrás tinha prescindido de sua donzela se via obrigada a realizar tarefas que
nenhuma outra dama executava por si mesma. Entretanto, desfrutava delas.
Havia certa alegria em despertar só pelas manhãs, sem que a voz da
criada quebrasse a paz do quarto. Estava acostumada a realizar seu asseio
muito cedo, quando o resto da casa ainda dormia.
Sentou-se na cômoda frente ao espelho e tirou da gaveta o pequeno
pente de madrepérola que guardava como um tesouro. Seu pai lhe tinha
presenteado aquele objeto precioso anos atrás e, apesar dos sacrifícios que a
família tinha suportado nos últimos anos, tinha conseguido mantê-lo.
Surpreendeu-se ante o reflexo que o espelho lhe devolvia. A moça de
cabelo alvoroçado e olhos castanhos parecia a mesma do dia anterior, mas
sabia que se tratava de um engano.
Ela já não era a mesma pessoa.
Deslizou o pente pelas sedosas mechas de seu cabelo enquanto sua
mente evocava a lembrança de um olhar verde quase impossível. Ter
compartilhado semelhante intimidade com o conde de Dain lhe parecia
inverosímil, mas seu corpo ainda guardava a lembrança nítida de seus beijos.
Tinha acontecido, e tinha acontecido a ela. Logo que podia acreditá-lo.
Certamente para ele não tinha significado nada, pensou, tentando ser
objetiva, mas para ela tinha significado tudo. Tinha provocado que um sentido

~ 120 ~
pouco conhecido despertasse em seu interior, algo que se parecia muito ao
desejo. Queria voltar a experimentar o vivido… Não, disse-se com um
suspiro, queria mais do que o vivido. Queria tudo.
Agitou o sino para avisar ao serviço de que estava acordada. Depois da
morte de seu pai, seu irmão tinha deixado de pagar aos empregados e, quando
ela se ofereceu a fazê-lo com seu próprio dinheiro, já era muito tarde. Todos,
salvo o velho mordomo, a cozinheira e a governanta, procuraram outros
patrões mais confiáveis aos quais servir.
Desde então, Annabelle tinha prescindido de donzela, embora
continuasse necessitando auxílio para vestir-se. A governanta era uma senhora
rígida que acompanhava a sua mãe desde que esta se casou com o visconde.
Annabelle não teria chorado sua ausência. Prudence era quase tão severa e
estrita como a própria viscondessa.
Uns minutos depois, a mulher entrou com passo majestoso no
cômodo. Às vezes, Annabelle pensava que tinha mais maneiras de dama que
ela mesma.
— Bom dia! Prudence.
— Bom dia! milady.
Annabelle se dirigiu para a cama. O vestido que tinha decidido usar
jazia onde o tinha deixado, estirado sobre ela. Junto a ele descansava o
espartilho. Retirou a bata e deixou que a mulher deslizasse o espartilho por
seus ombros, até ajustá-lo em seu lugar.
Deu-lhe as costas para permitir que atasse as fitas, tentando
vigorosamente não pensar nas mãos que tinham desatado aqueles laços na
noite anterior. Quase não podia acreditar que o conde tivesse sido capaz de
lhe desabotoar o espartilho e o vestido para depois recompor o traje com
inusitada habilidade.
Inclusive tinha refeito o destroçado penteado dela, lhe permitindo
voltar ao baile sem que ninguém percebesse que algo extraordinário tinha

~ 121 ~
acontecido.
— Qual vestido usará esta manhã, milady?
Dado que o vestido se achava estendido na cama a poucos passos delas,
Annabelle considerou que era uma pergunta idiota.
— Tem-no aí mesmo, Prudence. O vestido azul de passeio e as luvas
bejes. Ainda não decidi o chapéu.
— A senhora sua mãe deixou dito antes de ir-se que deveria colocar o
vestido de passeio escuro, milady. Insistiu em que seria o adequado.
Annabelle tratou de não fechar os olhos, enquanto o fechamento do
espartilho lhe cortava de repente a respiração. É obvio que sua mãe tinha
deixado ordens estritas do que devia fazer. Certamente também havia uma
ordem sobre o que devia comer, que atividades seria correto que fizesse e,
inclusive, o que devia sentir aquela manhã.
«Sinto-o mãe, hoje não», pensou, alegre.
— Alegro-me, Prudence. Porei o vestido azul, se for tão amável em me
ajudar.
Enquanto se dirigia para a cama, a mulher lhe dedicou um olhar
reprovador que Annabelle ignorou.
Um momento interminável depois, estava preparada. Recusou com
firmeza o oferecimento de Prudence de lhe arrumar o cabelo e suspirou de
alívio quando a mulher saiu por fim do quarto.
Recolheu ela mesma o cabelo. Teria gostado de levar o penteado que
parecia fazer furor nos salões: um coque alto com cachos que caíam sobre as
têmporas, acentuando as maçãs do rosto. Em troca, teve que conformar-se
com um coque simples e esperar que o chapéu o cobrisse.
Quando estava preparada, desceu à sala, onde já estava servido o café
da manhã. Aquela manhã comeria sozinha.
O visconde não estava acostumado a aparecer antes do meio-dia e a
viscondessa tinha saído.

~ 122 ~
Annabelle não pôde deixar de sentir-se aliviada pela partida de sua mãe.
Aquele era o dia em que devia ir à costureira para encarregar-se do novo
vestuário, presente de Dain, e não suportava a ideia de ir com ela. Se o tivesse
feito teria acabado com um guarda-roupa pior do que o que já tinha,
provavelmente em tons beje, cinza ou ocre.
Por sorte, lady Ofélia tinha sido convidada a um prestigioso café da
manhã na casa da duquesa de Cheshire, uma honra à que por nada no mundo
teria renunciado. Os frutos de seu compromisso com o conde se faziam notar.
As mulheres que semanas antes não teriam convidado sua mãe duas vezes,
agora brigavam por convidá-la a eventos, desesperadas por saber mais sobre o
casal da moda.
Suspirou, sabendo que aquilo terminaria mal. Sua mãe acreditava ter
recuperado a posição que lhe correspondia por nascimento e a queda ia ser
dura.
Entretanto, naquela manhã Annabelle não podia evitar alegrar-se. Lydia
iria com ela à costureira pelo que ambas desfrutariam das compras.
Como se a tivesse convocado com o pensamento, sua amiga apareceu
na porta.
— Como entraste? — Perguntou Annabelle, surpreendida, levantando-
se para beijar a sua amiga na bochecha.
— Prudence saía no momento em que eu chegava — respondeu Lydia,
lhe devolvendo a saudação —. Acredito que não ia muito contente.
— E quando o está? Por favor, se sirva de algo para comer e me
acompanhe — pediu Annabelle, retomando seu café da manhã.
— Agradeço-lhe isso, mas só tomarei um café. Além disso, há coisas
importantes que devemos falar e não quero fazê-lo te enchendo os miolos.
Annabelle riu bobamente ante a imagem.
— O que é tão importante?
— Isso é… isto! — Disse Lydia com emoção, lhe mostrando os

~ 123 ~
quadros de papel que tinha mantido aprisionados no punho até o momento.
Ao ver a cor amarelada das folhas, Annabelle soube imediatamente do
que se tratava e respondeu com a mesma alegria.
— O novo panfleto? Já o leu?
— Olhei-o por alto, mas vim correndo lhe mostrar. Acabaram de
trazer.
— Não o esperava até metade do mês, pelo menos — refletiu
Annabelle.
— Parece que este mês lady Indiscreta se deu muita pressa. Pergunto-
me por que — comentou Lydia lhe piscando um olho.
— Crê que falará de meu compromisso com o Dain?
— É a fofoca de toda Londres! Se lady Indiscreta não falar de ti do que
vai falar? Do tempo?
O panfleto de lady Indiscreta eram apenas umas folhas impressas em
papel amarelo. Nas primeiras colunas se relatavam, sempre em tom descarado,
os últimos acontecimentos acontecidos em Londres — quanto mais
escandalosos, melhor.
As últimas colunas se destinavam ao popular Conselho de lady
Indiscreta, onde a misteriosa mulher consignava sábios — e satíricos —
avisos, principalmente destinados às damas casadouras, mas em algumas
ocasiões, também dirigidos às vítimas destas: os inocentes homens solteiros da
alta sociedade.
O panfleto tornou-se muito popular desde sua aparição quase dois anos
atrás.
A princípio, só o rumor de que existia tinha originado uma grande
espera. Durante muito tempo, Annabelle tinha escutado cochichos sobre seus
conteúdos nos bailes e, finalmente, alguns meses atrás, Lydia tinha conseguido
arranjar um exemplar do ansiado folhetim.
Lady Indiscreta se apresentava como uma dama, uma delas, por isso sua

~ 124 ~
popularidade tinha alcançado cotas insuspeitadas em pouco tempo. Entre a
fofoca da nobreza havia ideias para todos os gostos. Alguns pensavam que
não se tratava dos escritos de uma dama na realidade, mas sim de alguma
cortesã bem situada, que adoecia do gosto de amassar a nobreza da qual,
provavelmente, vivia. Outros pensavam que se tratava de alguma dama viúva,
amargurada e solitária, que desfrutava fazendo públicas as vivencias de outras.
Annabelle não tinha um critério muito formado a respeito. Só sabia
que, se lady Indiscreta existia, lhe teria encantado ser amiga dela. O senso de
humor da escritora era sensacional.
— Vamos, não me faça sofrer — pediu —. Lê-o!
— Estimadas amigas — entoou Lydia por fim —, temo que traga notícias
nefastas para nossas damas casadouras e é que um compromisso sempre o é. A anódina lady
A. conseguiu atar em curto tempo ao semental mais admirado desta temporada: nosso
sempre arrumado e, igualmente soporífero, lorde D. Depois de contemplar à dama em
concreto, esta que vos fala deve confessar que as virtudes com as que conseguiu tão enorme
prêmio passam desapercebidas ao resto dos mortais. — Lydia se interrompeu
bruscamente —. Vá! Não é muito adulador para ti.
— É lady Indiscreta! — Exclamou Annabelle com um sorriso —. Sabe
que sempre é igual a cruel. Por isso nós gostamos!
— Esperava que contigo fizesse uma exceção.
— Olha-o pelo lado positivo, lady Indiscreta fala de mim! Quem ia
dizer isso há um mês?
— Isso é muito certo.
— E pensa que, provavelmente, também protagonizarei o folheto do
mês que vem. Pois então Dain terá posto fim a nosso compromisso e voltarei
a ser notícia — explicou —. Espero que seja mais indulgente comigo quando
Dain voltar a estar no mercado.
Lydia lhe dedicou um olhar sagaz por cima das páginas.
— Annabelle, por que está tão certa de que Dain não se casará contigo?

~ 125 ~
Não é essa a impressão que causa.
— É pura aparência. Já te disse que Dain não quer que ninguém saiba
que nosso compromisso é falso. É um bom ator — lhe subtraiu importância
Annabelle.
— Eu não estou tão certa disso. Dain procurava esposa, agora tem uma
noiva, por que não ia casar contigo? É uma mulher extraordinária.
Annabelle a olhou com carinho.
— Você nunca veria nada mau em mim, Didi, mas estou certa de que
Dain, sim o faz. É um conde que será marquês. Não sou o que procura em
uma futura esposa.
— Como você queira, mas duvido. Se Dain for embora, verá que será
pouco inteligente e entenderá que não poderia encontrar uma condessa
melhor — acrescentou Lydia, teimosa —. Estou disposta a apostar que, se
dentro de um mês lady Indiscreta falar de ti, será por seu iminente
matrimônio.
— Pode fantasiar o que quiser, mas te asseguro que não acontecerá.
Lorde Dain e eu separaremos nossos caminhos muito em breve.
Lydia a olhou, exasperada, e voltou a atenção para o folheto que tinha
em suas mãos.
— Quer que continue lendo? Acredito que vi mencionada lady P.
— É obvio que sim! Se aconteceu algo gracioso a Pomona quero sabê-
lo — assentiu Annabelle, mas parte da magia se evaporou.
Embora não tivesse acreditado nem por um momento nas palavras de
Lydia, o certo é que uma ideia peregrina passara todo o dia lhe dando voltas
na cabeça. Havia algo que queria fazer, que precisava fazer, mas não sabia se
teria o valor suficiente para fazê-lo.
Sim, sim teria, disse-se com firmeza.
Se de todas maneiras ia voltar a protagonizar um escândalo, preferia
fazê-lo um pouco mais agradável que a ruptura de seu compromisso. E sabia

~ 126 ~
exatamente do que se tratava.
Era tão imoral que, só de imaginá-lo, sentiu-se corar.
Enquanto a voz da Lydia continuava a narração, começou a idealizar
um plano para seduzir, esta vez por completo, ao extraordinário conde de
Dain.

~ 127 ~
Capítulo 16

A luz do poente penetrava pelas janelas do gabinete. Tinha sido um dia


aprazível, muito adequado para passear, ver e deixar-se ver, o tipo de clima
estável que não abundava naquela cidade.
Sentado em seu lugar de trabalho, Robert não era consciente da
benevolência do clima. Um músculo de sua mandíbula palpitava, ameaçador, e
isso nunca era bom sinal.
Segurava entre os dedos uma nota de papel manuscrita. Um
ornamentado D de cor azul, consignada em um dos extremos, indicava que
era uma missiva procedente do clube de cavalheiros Davis. Abaixo dela, de
forma muito correta, solicitava ao conde pagar a soma que endividava em dito
local o quanto antes. Do contrário, deveria enfrentar a humilhação de que sua
dívida seria feita pública.
Do outro lado da mesa, o conde de Allendale agitava sua taça de
conhaque pensativamente.
— Deve tratar-se de um engano — disse pela segunda vez.
Tinha chegado a casa de Dain quase ao mesmo tempo que a nota.
— Mandarei uma mensagem ao clube, mas não acredito que se trate
disso — asseverou Dain —. Crê que não terão comprovado os dados várias
vezes antes de me enviar uma nota como esta? Teriam que estar muito loucos
para despachar por engano esta nota, e Davis sempre me pareceu um homem
muito sensato.
— Há alguma possibilidade de que realmente tenha gasto essa soma de

~ 128 ~
dinheiro no clube?
— É obvio que não — murmurou Robert, ofendido. Doía-lhe a
cabeça. Soltou a nota e esfregou o lugar, esperando aliviar a tensão com o
gesto —. Abri essa a última vez que estive no Davis. A outra noite, contigo.
— Lembro-me — disse Allendale com um sorriso —. Estava bastante
bêbado, mas não para perder essa soma em uma só noite.
Robert elevou o olhar e o cravou em Adam, que bebia tranquilamente
uma taça às quatro da tarde. Alegrou-se que seu amigo o conhecesse o
suficiente para acreditar que ele não era o responsável.
Perguntava-se se o resto da sociedade seria tão benevolente.
— Acredito que sei quem pode haver tomado a liberdade de usar meu
nome — disse por fim —. Embora necessitarei sua ajuda para comprovar se
estou certo.
— Quer que faça de detetive para ti? Acaso acredita que não tenho
nada mais que fazer na vida?
Robert arqueou uma sobrancelha.
— Não tem. Além disso, já passa a vida nesses clubes, não te peço nada
extraordinário.
Adam meditou uns segundos e depois encolheu os ombros.
— Tem razão. O que quer saber?
— Preciso averiguar se o visconde Weymouth é membro do clube
Davis e se o visita com frequência — disse Robert.
Adam assobiou baixinho.
— Acredita que se atreveria? Ainda não está casado com sua irmã,
poderia trocar de opinião.
— Deixei muito claro ao visconde que não obteria nada de mim
diretamente. Possivelmente pensou que estava bem tomar algo por sua conta.
— Ainda assim me parece uma temeridade de sua parte. Vi duelos por
menos que isto.

~ 129 ~
Robert sorriu sem humor.
— Não me dê ideias. Há poucas coisas que gostasse mais neste
momento que partir a cara do Weymouth.
— E por que não o faz? Esta áspera artimanha te dá direito a isso e
muito mais — disse Adam, avaliando-o com o olhar —. Ninguém te culparia
se decidisse romper o compromisso com sua irmã por isso.
Para sua absoluta surpresa, Robert experimentou algo que não tinha
sentido em trinta e dois anos: ruborizou-se.
— Isso já não é possível, Adam. Me casarei com Annabelle em um par
de semanas.
— Sim, mas…
— Allendale! — Interrompeu-o Robert, olhando-o com intenção —.
Te disse que não é possível.
Adam o olhou aniquilado uns segundos, depois começou a rir.
— Meu deus, deitaste-te com ela!
Robert ficou em pé como uma mola.
— Não vou permitir que ninguém ponha em dúvida a honra de minha
noiva — espetou —. Nem sequer você.
Adam elevou as mãos num gesto universal de rendição e o olhou,
estupefato.
— Vá, homem, quem diria.
Robert voltou a sentar-se. Sabia que tinha reagido exageradamente ante
as palavras de seu amigo.
Em realidade, era com ele mesmo com quem estava zangado. Tinha
tratado Annabelle sem respeito nenhum, como a uma vulgar prostituta
recolhida no East End.
— O único motivo pelo qual ainda não estamos casados é que temo
provocar outro escândalo fazendo-o de forma tão repentina — disse
finalmente, tenso.

~ 130 ~
— Todos se perguntariam qual é o motivo da pressa — lhe deu a razão
Adam.
Levantou-se para servir-se de outra taça e Robert aproveitou que seu
amigo não o fitava para acrescentar:
— Não me deitei com ela.
— Mas tentaste — aventurou Adam, voltando a sentar-se ante ele. O
silêncio de Robert lhe deu razão —. Sabia! Com essa fachada puritana e na
realidade é tão libertino como os demais.
— Não é uma fachada e não sou nenhum libertino. Annabelle é minha
noiva e em breve será minha esposa. Não brinco de correr atrás de todas as
mulheres de Londres; só de uma.
Adam suspirou retomando a conversação anterior.
— Pois temo que tem um problema. Se casar com ela de todas as
maneiras, o que pensa fazer com o irmãozinho? Não irá pagar, verdade?
Robert meditou uns instantes.
— Necessito da informação do clube.
— Irei esta mesma noite — asseverou Adam —. Certamente que Davis
está tão interessado como você em esclarecer logo este assunto.
— Não farei nada até que o averigúe.
— E depois?
— Depois, possivelmente terei que explicar alguns costumes ao
visconde.

Annabelle nunca tinha passado tão bem uma tarde na costureira.


Quando ela e a viscondessa precisavam de vestidos, estavam acostumadas a ir
a uma matrona de seu próprio bairro, que costurava no salão de sua casa
ajudada por suas filhas.
A senhora Satcher era a costureira da aristocracia. Se vangloriava que
tinha chegado a confeccionar alguns vestidos para a própria rainha Vitória. A

~ 131 ~
irmã do conde de Dain era uma cliente habitual e lhe tinha conseguido a
entrevista.
Surpreendeu-se ao entrar. A oficina estava composta por uma habitação
quase tão grande como seu salão. Várias portas se abriam em sucessivas
salinhas onde as damas eram atendidas de forma individual.
Uma simpática moça francesa as recebeu quando entraram. Lydia, que
frequentava o estabelecimento, saudou-a por seu nome, que a Annabelle soou
impronunciável. Fizeram-nas passar a uma das salas privadas, onde a senhora
Satcher não demorou para unir-se.
— Lady Lydia, que honra tê-la conosco — exclamou ao entrar, com
um acento francês tão marcado que Annabelle suspeitou que não era natural
—. Esta temporada a vimos muito pouco por aqui. Espero que não tenha ido
à concorrência.
Didi ruborizou violentamente e afastou o olhar. Annabelle sabia a
causa. Embora Lydia fosse filha de um marquês, poucos pais gastavam
dinheiro no vestuário de suas filhas depois das duas primeiras temporadas
sociais. Considerava-se um desperdício vão e mais quando, como Lydia, já
tinham uma proposta firme de matrimônio. Era melhor reservar os recursos
para outros investimentos.
— Lamento senhora Satcher, mas os vestidos do ano passado são tão
esplêndidos que ainda não me cansei deles.
Annabelle pôde ver a dúvida nos olhos da costureira, mas parte do
negócio da mulher consistia em dizer aos nobres o que queriam ouvir, por
isso se limitou a assentir e voltar a cabeça em sua direção.
— E você deve ser a famosa lady Annabelle Weymouth. Recebi muito
boas referências de sua pessoa — disse a mulher em tom conspirador, lhe
piscando um olho —. A condessa é uma boa cliente, como antes foi sua mãe.
— Você foi a costureira da marquesa? — Perguntou Annabelle,
curiosa. Sabia muito pouco da mãe de Dain.

~ 132 ~
— Oh!, sim. Vesti à marquesa de Laurens durante muitos anos, desde
que era condessa de Dain — disse a mulher com evidente orgulho —. Era
uma mulher linda, preciosa de verdade. As pessoas paravam para olhá-la na
rua e não as culpo, poucas vezes se via uma beleza tão exótica.
Annabelle recordou o retrato da chamativa mulher ruiva que ocupava
um lugar de honra na galeria de Dain.
— Não me cabe dúvida de que o era — disse educadamente.
— Mas que caráter tinha! — Exclamou a senhora Satcher. Era evidente
que a mulher adorava falar —. Em uma visita, por engano, dei-lhe a escolher
um brocado que já tinha sido reservado previamente por outra dama. Quando
o comuniquei foi às nuvens e saiu daqui feito uma fúria. Pensei que jamais
voltaria a vê-la mas, uma semana depois, entrou pela porta como se não
importasse tal coisa, perguntando pelas novidades que tinham chegado de
Paris. Era uma mulher de temperamento forte, mas também volúvel. — A
mulher se interrompeu bruscamente e pareceu precaver-se de com quem
estava falando. Incômoda, apressou-se a adicionar —. A filha, entretanto, é
uma pessoa muito doce e tremendamente encantadora. É impossível não
adorá-la.
Annabelle tinha compartilhado alguns momentos com a irmã de seu
noivo nos dias anteriores e não podia estar mais de acordo.
— Oh!, Elizabeth é a melhor! Foi muito amável de sua parte me
conseguir uma entrevista com a melhor costureira de Londres — sorriu
Annabelle, dedicando à confundida mulher um olhar de simpatia.
Teria gostado de saber mais coisas da mãe do Dain, mas sabia que não
era correto falar dela com a senhora Satcher.
— Bem, passemos ao assunto que nos traz até aqui — disse a
costureira —. Por favor, tomem assento. Uma de minhas garotas lhes
mostrará os tecidos disponíveis e depois escolheremos os desenhos.
Recebemos ordens muito precisas do conde de Dain.

~ 133 ~
Esticou-se. Tinha estado de acordo em deixar que ele pagasse seu
guarda-roupa porque entendia que poderia envergonhá-lo, mas durante uns
instantes tinha tido a ilusão de poder decidir por ela mesma uma vez. Ao que
parecia não ia ser assim.
— Que ordens? — Perguntou, temendo a resposta.
— O conde quer que escolha o que queira, na quantidade que deseje,
sempre o que for suficiente. Também quer que escolha os complementos que
precise.
— Isso é tudo? — Perguntou, assombrada.
A senhora Satcher consultou suas notas. Sobre a pilha, Annabelle pôde
ver fugazmente uma nota manuscrita com o selo do condado de Dain em uma
ponta.
— O conde de Dain proíbe que se faça algum vestido de baile com
pescoço alto. — A mulher se interrompeu, surpreendida —. Que tolice!
Quem leva pescoço alto em um baile?
Annabelle calou, contendo a risada. Tal como havia esperado a tarde foi
longa, mas muito, muito divertida.

~ 134 ~
Capítulo 17

É um desejo comum entre as damas desejar um grande amor.


Cuidado com o que desejam: poderia fazer-se realidade.
Extrato do panfleto de lady Indiscreta.

Dez dias depois, Annabelle soube que tinha um problema. Cada tarde,
Robert ia a procurá-la para um passeio pela cidade. Tinham estabelecido uma
rotina.
A imagem de Robert como homem sério e reservado se diluiu depois
do primeiro daqueles encontros. Para sua surpresa, falaram durante horas.
Deu-se conta de que Dain era um homem reflexivo, que escutava com
atenção cada palavra que lhe diziam. Mas isso não o convertia em um homem
aborrecido. Justamente o contrário, podiam falar de quase qualquer tema,
livros, óperas, filosofia ou arte.
E estava se apaixonando. A obsessão que tinha sentido por ele durante
anos estava mudando, convertendo-se em uma avaliação pelo homem real.
Foi evidente para ela quando, numa daquelas tardes, enquanto o sol
ficava sobre Londres, surpreendeu-se desejando voltar a beijá-lo. Queria que a
olhasse daquele modo intenso, como se não existisse ninguém mais no
mundo. Um olhar que não tinha visto em seu rosto desde o último beijo que
compartilharam, no baile dos Montford.
E não queria somente um beijo. Queria tudo o que ele pudesse lhe
oferecer.

~ 135 ~
Tinha um problema.
«Mas também uma solução», pensou com determinação.
O primeiro desenho da senhora Satcher tinha chegado uns dias atrás.
Era um vestido de baile realizado em seda de uma cor verde nada discreta. De
fato, era um tom similar aos olhos de seu falso noivo e, ao vê-lo, perguntou-se
se, inconscientemente, não o teria escolhido por isso. A costureira tinha uma
fama merecida. Era uma obra de arte.
Ansiosa por arrumar-se, tinha começado a preparar-se para o baile da
noite com várias horas de adiantamento. Contemplava sua imagem no espelho
aniquilada, sem acreditar que a mulher imponente que a observava fosse ela.
O vestido tinha sido desenhado na moda francesa. As mangas, de um
tom rosado de encaixe, eram apenas duas tiras fofas sobre seus ombros.
Sujeitavam um corpete de decote tão profundo que sabia que sua mãe gritaria
alto assim que o visse.
Passou os dedos sobre o suave tecido do corpete, reverenciando-o.
Justo debaixo dos quadris, a seda se abria em grandes dobras que caíam até o
chão, formando uma brilhante cascata de cor esmeralda.
Annabelle não pôde evitar o impulso de girar, rindo bobamente. A saia
formava redemoinhos a seu redor com graça. A luz tirava brilhos da seda
verde, fazendo-a brilhar.
Tinha completado o traje com umas belas luvas de encaixe negro e,
inclusive, tinha deixado que Prudence a penteasse. Teve que reconhecer que,
pese o gesto mal-humorado que manteve em todo o tempo — e que,
Annabelle supunha, tinha a ver com o decote do vestido —, a governanta
tinha feito um bom trabalho.
Os cachos escuros lhe acariciavam as têmporas, ressaltando seus traços
e fazendo que a pele resplandecesse em contraste. O resto do cabelo tinha
sido recolhido em um apertado coque e enfeitado com flores naturais de cor
pálida.

~ 136 ~
Annabelle nunca havia se sentido tão atraente.
Levava dois dias pensando que quando chegasse o momento estaria
nervosa e duvidava se seguiria adiante com sua missão. Nada mais longe da
realidade. Fazia horas que escrutinava sem cessar o relógio, impaciente para
que Dain chegasse a procurá-la.
O sorriso vacilou em seus lábios quando se deu conta de que aquela era
a última noite que o conde a recolheria. Annabelle ia lhe pedir que rompesse
oficialmente o compromisso pela manhã. Sabia que era o melhor, mas não
deixava de ser doloroso.
Aquela seria a última noite que passaria com ele. Se permitiria não
pensar e só sentir. Queria viver plenamente aquela felicidade que a invadia, e
desfrutar da emoção do momento. E da paixão que sabia que a aguardava.
Depois daquela noite não haveria nada mais. A vida voltaria a ser a
monótona rotina que tinha sido sempre.
Não estava disposta a deixar que aquilo a deprimisse. Era ridículo sentir
pelo que aconteceria. Além disso, quando chegasse o momento, não tinha por
que permanecer em Londres, vivendo a humilhação de ser recusada em
público.
Pediria a sua mãe que a deixasse ir para o campo, para casa de sua tia
Cláudia. A irmã de seu pai era uma mulher encantadora que sempre tinha
querido a Annabelle como a uma filha. Escreviam-se com frequência e
pensava lhe perguntar na próxima carta se a acolheria até o final da
temporada. Estava certa de que sua mãe se alegraria de deixá-la ir. Uma vez
que Dain pusesse fim ao compromisso, se a viscondessa voltasse a lhe falar
consideraria um milagre.
Animou-se ante a ideia. Uns meses no campo lhe serviriam para limpar-
se e deixar para trás aquele caos que tinha sido a temporada. Ali teria tempo
para pensar o que faria com o resto de sua vida. Sempre tinha desejado viajar
e possivelmente, uma vez que não tivesse reputação que guardar, poderia fazê-

~ 137 ~
lo com liberdade.
Talvez pudesse convencer a tia Cláudia que ficasse com ela. O único
filho da tia, Justin, já era um homem feito que não necessitava que sua mãe
cuidasse dele. Ganhava muito bem a vida como empresário, dedicado a
negócios navais. Certamente, inclusive poderia lhes facilitar viajar com sua
companhia.
Emocionada pela ideia de que sua vida estava a ponto de mudar,
Annabelle colocou bem as luvas e tomou a bolsa, disposta a esperar Dain na
entrada.
Não tinha nem ideia de como ia conseguir seduzir ao conde de Dain,
mas o que viveu com ele em sua carruagem estava ainda muito presente em
sua mente. Não era tola, sabia que Robert era um homem e, por motivos
inexplicáveis para ela, parecia desejá-la. Esperava que isso fosse suficiente para
fazer que o conde esquecesse do decoro, ao menos por essa noite.
Decidida, saiu de seu quarto e fechou a porta a suas costas. Caminhou
pelo corredor mal iluminado e desceu quase tropeçando na escada até o
saguão.
Acabava de pôr um pé no tapete que o cobria, quando uns golpes
fortes ressonaram na porta principal. Annabelle se sobressaltou. Era muito
cedo para que o conde já estivesse ali.
Olhou a seu redor, esperando que alguém aparecesse para abrir a porta,
mas alguns segundos depois foi evidente que ninguém acudiria.
Provavelmente Prudence se encontrava no quarto da viscondessa, de onde era
impossível ouvir o ruído e o velho mordomo era ruim de ouvido. Suspirando,
Annabelle se aproximou e abriu a porta.
— Oh!, Meu deus! — Gritou, horrorizada.
Lydia se achava na soleira, mas em um primeiro momento não a
reconheceu. Tinha a cara torcida, dando um aspecto grotesco a suas feições.
Um círculo arroxeado lhe percorria o olho direito, tão inflamado que não

~ 138 ~
podia abri-lo. Havia sangue na comissura dos lábios e enormes manchas
escuras, do tamanho de moedas, rodeando-lhe o pescoço como um sinistro
colar. Levava um vestido de montar azul escuro puído e sujo.
Annabelle olhou a seu redor, mas não encontrou ninguém. Tampouco
viu carruagens ou cavalos, por isso supôs que Lydia tinha chegado a pé
sozinha.
— Didi! O que te passou?
— Annabelle, necessito…
Annabelle a fez entrar, fechou a porta e, rodeando sua amiga com o
braço, levou-a quase a arrastando até a biblioteca vazia. Antes de fechar a
porta escrutinou o exterior, mas ninguém parecia saber da chegada da Lydia.
Enquanto fazia que se sentasse em uma das poltronas mais próxima ao fogo
se deu conta de que sua amiga tremia como uma folha ao vento.
— Tem frio? — Perguntou, dirigindo-se rápido até a chaminé apagada.
— Não — sussurrou Lydia, fazendo-a deter-se —. Por favor,
Annabelle. Por favor.
Annabelle voltou junto a ela, sentou-se no braço da poltrona e a
abraçou. Lydia parecia menor do que era na realidade, como uma menina que
procura consolo.
Permaneceram abraçadas durante um longo momento. Annabelle
acariciava o cabelo loiro de sua amiga, murmurando palavras tranquilizadoras,
enquanto seu cérebro procurava coerência em tudo aquilo.
Em um dado momento Lydia começou a chorar lentamente,
empapando com suas lágrimas o vestido de baile de Annabelle, mas isso não
lhe importou.
Um tempo mais tarde, Lydia elevou a cabeça.
— Obrigada — murmurou, tratando de secar as lágrimas que
deslizavam por seu magoado rosto. Annabelle se deu conta de que também
tinha arranhões nas mãos.

~ 139 ~
Analisou a expressão de sua amiga. Parecia mais calma, mas algo no
fundo de seus olhos continuava não estando bem. O rosto tinha inchado
ainda mais e o sangue ressecado formava um halo junto a sua boca.
— O que passou? — Perguntou, enquanto um frio glacial a acometia
por dentro —. Quem te fez mal?
— Foi Gregers — murmurou Lydia tão baixinho que se Annabelle não
tivesse junto a ela não a teria escutado.
Abriu os olhos de par em par. A ideia de que alguém tinha feito mal
deliberadamente a sua amiga, a golpeando com um objeto, a fez abrir a boca
em busca de ar. Olhando-a, não ficava mais remédio que acreditar que isso era
o que tinha ocorrido.
— Bateu-te? — Perguntou, levantando-se de um salto, incapaz de
controlar seus pensamentos.
Lydia pareceu encolher-se ainda mais sob suas palavras. Annabelle
escrutinou sua expressão.
— Lydia, ele… Te fez algo mais? — As palavras lhe obstruíram na
garganta, enquanto suplicava com todo seu ser que Lydia respondesse que
não.
Lydia guardou silêncio durante o que pareceram horas, enquanto
Annabelle rezava em voz baixa.
— Não, não me fez nada mais — disse finalmente, mas Annabelle
soube que não estava sendo sincera.
— O que passou? Acredite que pode me contar.
Sua amiga assentiu.
— Poderia beber algo, por favor?
— Claro! — Tinha estado tão emocionada pela situação que não lhe
tinha ocorrido —. Quer água? Ou posso preparar chá.
— Tem algo mais forte?
— É obvio.

~ 140 ~
Aproximou-se do escritório de seu irmão, do outro lado da habitação.
Rebuscou uma das gavetas até encontrar o que necessitava. Tirou a garrafa de
conhaque que seu irmão guardava para os momentos especiais e colocou um
pouco em um dos copos que o visconde mantinha alinhados na mesa. Voltou
para o lado de sua amiga e se sentou junto a ela. Estendeu-lhe o copo e Lydia
bebeu, agradecida, fazendo uma careta quando o álcool lhe roçou a ferida do
lábio.
— Quer que ponha ataduras? Posso te tratar isso.
Lydia negou com a cabeça.
— Não tenho muito tempo, Annabelle. Tenho que ir.
— Ir? Do que está falando? Diga-me o que se passou, Lydia, por favor.
— Esta tarde fui convidada a tomar o chá na casa do Gregers.
Annabelle começou a compreender.
— Não ia sua mãe contigo?
— Sim, mas na metade do lanche, não sei como, começaram a falar de
equitação. Minha mãe lhe disse que eu sempre tinha gostado de montar, mas
que meu cavalo se achava em nossa residência de verão e não dispúnhamos de
quadras na cidade. Gregers vive nos subúrbios. Em uma casa imensa com um
jardim privado. É uma espécie de bosque, acredito, muito afastado da casa
principal e muito denso. Ante as palavras de minha mãe, convidou-me a dar
um passeio a cavalo.
Annabelle mordeu o lábio, intuindo o que vinha.
— Não pude recusá-lo — continuou Lydia —. Teria sido muito mal
educada, e minha mãe insistiu muito. Tive que ir com ele. Montei uma égua
castrada enquanto ele montava seu semental. Insistiu em me mostrar o
entorno de sua propriedade. Nem sequer sei se existiu de verdade. Quando
chegamos ao bosque me fez descer do cavalo à força, não havia ninguém ao
redor e ele… ele…
— O que te fez?

~ 141 ~
— Disse-me que íamos casar, que tu tinhas lhe dado uma ideia.
— Eu?! Como pude lhe dar nada a esse malnascido? Nem sequer
recordo ter mantido uma verdadeira conversação com ele.
— Disse que sua maneira de caçar ao conde o inspirou, que pensou que
se tinha funcionado contigo também funcionaria com ele — explicou Lydia.
— Quer dizer que pensava te comprometer?
— Vai dizer a todos que me seduziu e eu consenti — assentiu Lydia —.
Disse que nos casaríamos em dois dias, que não poderia dizer não. Será
minha palavra contra a dele.
— O que aconteceu depois? — Perguntou Annabelle, embora uma
parte dela não queria sabê-lo.
— Beijou-me, pôs essa lesma da sua boca na minha e me apertou
contra ele. Eu o recusei, mas era mais forte que eu. Então começou a me
bater. Esbofeteou-me com força e acredito que me deu um murro.
— Fez-te mal? O que te dói?
— A cara, somente. Pude escapar e montar no cavalo, mas o seu era
mais veloz. Assim em lugar de voltar para a casa principal simplesmente fugi.
Quando levava um momento cavalgando, a égua fez um mau movimento e eu
caí. Dava-me conta de que Gregers já não me seguia, mas não sabia onde
estava. Vi casas e me dirigi a elas e, ao chegar, resultaram-me familiares. Não
sei quanto tempo andei por este bairro, até que reconheci sua casa.
— Oh!, Lydia — exclamou Annabelle, agradecendo aos céus que a
tivessem levado até ali. Nem sequer podia pensar no que teria acontecido se
não.
— Tenho que ir — disse Lydia, ficando em pé com dificuldade.
Annabelle a olhou estupefata.
— Aonde?
— Tenho que fugir. A esta altura Gregers já terá contado a minha mãe
sua horrível mentira e ela acreditará. Me obrigarão a casar com ele assim que

~ 142 ~
ponha os pé em minha casa.
— Não pode ir sem mais! — Annabelle compreendia a gravidade da
situação, mas não acreditava que Lydia estivesse pensando com claridade —.
É uma dama, não tem dinheiro nem lugar aonde ir. Poderia te acontecer algo
horrível.
Uma labareda de puro fogo iluminou o olhar de Lydia.
— Já me aconteceu algo horrível! E não vou deixar que volte a
acontecer. Prefiro morrer na rua.
Annabelle analisou durante uns segundos a expressão feroz de sua
amiga e soube o que tinha que fazer. Porque, se tivesse sido o contrário, Lydia
teria feito por ela.
— De acordo. Iremos.
— Nós?
— Crê que vou deixar que parta sozinha? Teremos mais possibilidades
juntas — sua voz soou mais decidida do que se sentia na realidade.
Lydia negou veementemente com a cabeça.
— Não posso deixar que arruíne assim sua vida. Não posso permitir
isso. Eu tenho que partir, mas você não. Vais casar com o Dain e será muito
feliz. Não posso deixar que prejudique seu futuro.
— De onde tira essas ideias? O meu noivado com o Dain ia acabar esta
mesma noite. Quanto a meu futuro, ainda o tenho frente a mim, igual a você
o teu. Não vamos morrer esta noite.
— E como o evitaremos? Você mesma acaba de dizer que não
sobreviveremos.
Annabelle a olhou, decidida.
— Tenho um plano.

~ 143 ~
Capítulo 18

Robert desatou o nó da gravata e deixou que o lenço caísse a ambos os


lados de seu torso. Tirou a jaqueta, desabotoando os primeiros botões da
camisa antes de acomodar-se no assento frente ao fogo.
O relógio da biblioteca bateu meia noite e o som o fez apertar os dentes
com raiva.
Uma festa solitária não era o que tinha planejado, mas ali estava,
contemplando o fogo e resistindo ao impulso de servir-se de outra taça.
Um momento antes tinha feito uma bola com a mensagem de
Annabelle e a tinha atirado às chamas. Apenas umas linhas rabiscadas em tinta
sobre um cartão. O papel tinha estado úmido pela chuva quando o mordomo
o entregara.
Sua noiva se encontrava indisposta e se desculpava do e não ir ao baile
com ele. Era uma mensagem razoável e educada que o tinha decepcionado até
limites insuspeitados.
Enquanto contemplava o crepitar das chamas, vexado, deu-se conta de
quanto desejava ver sua noiva pessoalmente. Acostumou-se a sua presença, a
seu senso de humor. Começava a considerá-la sua amiga: com o passar do dia,
surpreendia-se pensando nas coisas que queria lhe perguntar quando a visse.
Se descobria algo curioso ou interessante, imediatamente pensava em sua
reação quando o contasse. Seu humor era faiscante e riu mais na última
semana e meia que nos dois anos anteriores.
Deviam deixar de jogar aquele jogo, disse-se, frustrado. Não tinha

~ 144 ~
sentido depender da oportunidade para ver Annabelle, quando ela ia
converter-se em sua esposa. Queria que se casassem e partissem para o norte.
Imaginando-a se acostumando ao lugar onde tinha crescido provocava
algo quente em seu interior. Tranquilizou-se pensando que tinha boa avaliação
de Annabelle. Gostava de sua companhia, isso era tudo.
De fato, se fosse por ele, usaria a licença especial que tinha conseguido
no dia que se comprometeu com ela e que ainda conservava, só no caso de
necessidade. Embora não tivesse tornado a beijá-la, não ignorava que a
tentação era muito grande.
Não podia dizer quando a vontade de casar com ela tinha passado da
frieza de querer conseguir o quanto antes uma esposa, a desejá-la por ela
mesma.
Uns tênues golpes na porta o tiraram de seus pensamentos.
Elevou a vista. Gibbs aguardava na porta.
— Sim? — Perguntou Robert.
— O duque do Allendale está aqui.
— Diz que entre.
Uns segundos depois, Adam entrou na habitação. Era evidente que a
chuva era virulenta. Duvidava muito que seu amigo tivesse feito todo o trajeto
em outro lugar que não fora sua carruagem e, ainda assim, sua roupa jorrava
água.
— Pequena noite de cão — saudou Allendale, entrando no estúdio e
sacudindo-se como um cachorro.
— Vem do clube?
— Agora mesmo. Vim diretamente dali.
As palavras não o tranquilizaram.
— Fala — disse, serenamente.
— Primeiro me servirei de uma taça desse incrível uísque que tem —
disse Allendale, dirigindo-se à licoreira. A Robert não coube nenhuma dúvida

~ 145 ~
de que seu amigo procurava a maneira de lhe dizer o que sabia.
— Solta-o sem mais, Allendale — lhe disse —. Estou cansado deste
assunto. Descobriu algo sobre o visconde, suponho.
Seu amigo cruzou o estúdio e se sentou frente a ele. Assentiu com a
cabeça.
— Está metido até o pescoço, temo.
— Estava ali esta noite?
— Não, por isso pude escutar que já não o deixam jogar no Davis.
Conforme ouvi, a última vez que tentou, Davis em pessoa o colocou na rua. E
não deve ir muito melhor em outros clubes. Ao que parece ficou sem
recursos.
— Sem o fundo de Annabelle, quererá dizer — disse Robert,
mastigando as palavras com ira.
— Guarde um pouco desse saco cheio para o que tenho para te dizer.
— Dispara.
— Quando se comprometeu com sua irmã, já devia uma soma
considerável no Davis e, suponho, também em outras casas de jogo
clandestino. — Allendale fez uma pausa para saborear um gole de uísque —.
Muitos então lhe proibiram jogar, assim começou a usar seu nome.
— Quer dizer que me anotava as dívidas — colaborou Robert.
— Em alguns lugares, como no Davis, sim. Em outros simplesmente se
fez passar por ti. Dado que duvido que alguma vez em sua vida tenha entrado
em algum desses clubes não foi muito difícil. Só eu e alguns mais poderíamos
ter percebido o engano, mas cuidou de não o fazer diante de nós.
— Quer dizer, que nesses lugares pensam de verdade que lhes devo
dinheiro.
Allendale assentiu com a cabeça.
— Quando você tampouco pagou, enviaram-lhe a nota. Não acharia
estranho que recebesse outras similares nos próximos dias.

~ 146 ~
Robert ficou de pé tão rápido que a cadeira cambaleou e esteve a ponto
de cair.
— Aonde vai? — Perguntou Allendale, surpreso.
— Deixo-te adivinhar — resmungou Robert enquanto colocava a
jaqueta que tirou umas horas antes.
— Se for ver o Weymouth, acompanho-te — disse Allendale ficando
de pé também. Ante o olhar suspicaz de Robert, acrescentou —: faz muito
tempo que não desfruto de uma boa briga.

Depois de meia hora de passeio na carruagem sob a chuva, chegaram


por fim a casa de Annabelle. Robert sorriu com satisfação ao observar a luz
que se filtrava pelas janelas. Observou que a carruagem do visconde se achava
diante dele, por isso devia encontrar-se ali.
Dirigiu-se à casa, seguido a poucos passos por Adam e golpeou com
fúria a porta. Escutou passos apressados do outro lado e, um segundo depois,
uma senhora de meia idade e aspecto sério abriu. Não a tinha visto antes, mas
por seu aspecto interpretou que se tratava da criada da viscondessa, ou da
governanta.
— Vim ver o visconde Weymouth.
A mulher assentiu com seriedade e se colocou a um lado.
— Encontra-se em seu escritório, milorde.
— Não tem necessidade que nos acompanhe, conheço o caminho —
disse Robert, cruzando o vestíbulo seguido de Adam e entrando sem avisar no
pequeno estúdio.
A cena o chocou. Tinha esperado encontrar Weymouth, mas não
pensava que este se achasse acompanhado. A viscondessa viúva estava
sentada, rígida como um pau, em uma das cadeiras do estúdio. Dedicou-lhe
um olhar surpreendido do qual Robert não se precaveu.
O visconde se levantou de um salto ao vê-lo entrar. Sua grande papada

~ 147 ~
vibrou pelo movimento.
— Como soube? — Exclamou, visivelmente alterado, cravando nele
seus olhos suínos.
— Tenho minhas fontes — se obrigou a dizer, dirigindo um olhar
curioso à viscondessa. Estaria a mulher a par das atividades de seu filho?
— E, sabem suas fontes onde está minha irmã?
Sentiu como um jarro de água gelada se derramasse sobre ele.
— Onde está Annabelle? — Perguntou com voz glacial.
O visconde soltou uma gargalhada histérica.
— Acredita que se soubesse estaríamos mantendo esta estúpida
conversação? Minha odiosa irmãzinha desapareceu.
Todo pensamento coerente abandonou Robert, lhe deixando só uma
opressão no peito que não soube identificar. Forçou-se a pensar que o que
sentia era normal. Tinha certa afeição por Annabelle e algo mau poderia lhe
haver ocorrido, era natural que se preocupasse.
— Não está com a Lydia?
A viscondessa torceu o rosto.
— Foi o primeiro lugar onde a procurámos. Temo que lady Lydia
decidiu desaparecer junto com a minha filha.
— Quer dizer que Annabelle não foi sozinha?
— Assim é, milorde. Ao que parece, lady Lydia decidiu escapar quando
ia se anunciar seu compromisso, embora só Deus sabe por que essa moça não
queria casar-se com um marquês. E, temo, arrastou a minha filha com ela em
sua loucura.
— Deixaram alguma nota? Podem encontrar-se em casa de outra
amiga? — Perguntou Adam, encarregando-se da situação. Robert inclusive
tinha esquecido a presença de seu amigo.
— Annabelle não tem mais amigas. Não acredito que a estas horas se
encontrem ainda em Londres — disse a viscondessa. Sua voz não mostrava

~ 148 ~
inflexão alguma, como se em vez do desaparecimento de sua única filha
falassem do mau tempo ou de um baile particularmente aborrecido.
— Têm alguma ideia de onde podem estar? — Perguntou Adam.
O visconde entrecerrou seus olhos em um gesto de meditação.
— Há vários lugares aos que poderiam ir.
— Onde? — Inquiriu Robert, cortante.
O visconde o olhou com suspicacia.
— Mandei que me preparassem a carruagem. Partirei imediatamente.
Acredite-me, quando a encontrar perderá a vontade de escapar para sempre.
Robert não foi consciente de seus atos, um momento antes olhava ao
visconde do outro lado da mesa; um instante depois tinha passado o
obstáculo, agarrado ao idiota pela lapela da jaqueta e aproximado seu rosto ao
dele, ameaçadoramente.
O fôlego de álcool do visconde lhe deu náusea.
— Escute-me, se alguma vez voltar a ameaçá-la em minha presença, o
matarei — espetou —. Eu procurarei a minha noiva. Diga-me onde acredita
que está.
— Há uma… cabana… de caça. Annabelle a adora.
— O mais certo é que se encontre com sua querida tia Cláudia — o
interrompeu a viscondessa, que não parecia haver-se alterado pela ameaça de
Dain ao seu primogênito —. Vive a um par de horas daqui, no Essex. É uma
mulher vulgar e sem classe que desonrou toda sua família casando-se com um
plebeu, mas sempre exerceu uma fascinação atroz sobre Annabelle. Sem
dúvida seria o primeiro lugar ao que recorresse.
Robert se obrigou a soltar o visconde, que lutava para recuperar o
fôlego. Cravou o olhar na fria aristocrata que falava do desaparecimento de
sua filha como se se tratasse de um problema sem importância.
— Dê-me as indicações — exigiu —. Eu procurarei Annabelle.
Logo que o visconde terminou de falar, Robert deu a volta sem

~ 149 ~
despedir-se e se dirigiu com rapidez à porta, seguido a poucos passos por
Adam.
— Irei contigo — disse seu amigo.
— Necessito que alerte a polícia. Se Annabelle não estiver com sua tia
vamos necessitar toda a ajuda que possam emprestar.
— Estará ali.
Robert assentiu com brutalidade e se lançou para sua carruagem
tratando de ignorar os pensamentos fatalistas que cruzavam sua mente. Fazia
horas que as mulheres tinham desaparecido e Londres não era um lugar
seguro para duas damas sozinhas.
Precisava encontrar Annabelle.

~ 150 ~
Capítulo 19

A chuva as pegara de surpresa à saída de Londres.


Annabelle lançou um olhar preocupado a Lydia, que se sustentava com
muita dificuldade sobre o cavalo. Apesar da capa que a cobria totalmente,
podia ver os nódulos brancos de sua amiga aferrando as rédeas.
Suspirou, esgotada. Ficava um longo caminho para diante.
Possivelmente teriam que cavalgar toda a noite sob a chuva e sentia como as
forças ameaçavam abandoná-la.
Tinha a sensação irreal de achar-se imersa em um pesadelo. Umas horas
atrás vestia o vestido de baile mais bonito de sua vida e ali se achava agora, na
metade de um caminho enlameado, usando roupa de homem que era grande.
Felicitava-se por haver-se dado conta de que, se queriam sair de Londres, não
poderiam fazê-lo como damas. Nem sequer como mulheres estariam seguras
se as pessoas se davam conta de que viajavam sozinhas. Com essa intenção,
dirigiu-se ao quarto de seu irmão e rebuscou em suas gavetas ante o olhar
incrédulo de Lydia.
Finalmente, em uma arca, encontrou roupa que fazia anos que Albert
não usava. Estava certa de que não sentiria falta delas. Tirou um par de calças,
camisas e sobrecasaca. Quando descobriu, no fundo do baú, duas velhas capas
de couro marrom esteve a ponto de gritar de felicidade. Eram capas de
viagem, forradas para proteger do frio, com um capuz tão grande que poderia
as ocultar por completo. E tão antigas que ninguém repararia em sua falta.
Estava a ponto de fechar a arca quando sua mão roçou algo frio e duro.

~ 151 ~
Annabelle olhou para baixo e descobriu a arma. Era uma pistola tão pequena
que quase parecia de brinquedo. Tomou e descobriu com surpresa que se
amoldava à perfeição a sua mão. Sem pensar colocou-a entre os objetos e
abandonou o quarto seguida de Lydia.
Despojaram-se de seus vestidos. Annabelle saiu do vestido de seda
verde tentando não olhá-lo, deixando o mesmo feito um farrapo sobre o chão.
Estava a ponto de chorar, e não queria dar a Lydia mais motivos de
preocupação.
Depois, entre os protestos de Lydia, tinha colocado sobre a cama todo
o dinheiro que guardava no quarto.
Desde que tinha ficado patente que Albert não a deixaria dispor do
dinheiro de seu fideicomisso que chegava a cada mês, tinha escondido cada
penique que caía em suas mãos. Tinha-o feito consciente de que a qualquer
momento seu irmão poderia apostar todo o dinheiro e perdê-lo, as deixando
sem nada para comer.
Nesse momento se alegrou de sua previsão, pois sair de Londres
sozinhas era uma temeridade, mas fazê-lo sem dinheiro era impossível.
Uma vez que estavam vestidas, Annabelle guiou Lydia até a cozinha,
cuidando de não fazer ruído que pudesse alertar a sua mãe e a Prudence, que
continuavam no piso superior. Conseguiram um pouco de pão, fruta e alguns
mantimentos frios que poderiam consumir pelo caminho.
Depois, tinham saído à rua e andado durante várias léguas antes de
conseguir uma carruagem de aluguel que as tinha levado até a casa de cavalos
mais próxima, nos subúrbios da cidade.
Fingindo ser um homem, Annabelle tinha adquirido dois cavalos por
quase a metade do dinheiro que levava consigo. Sabia que era um absurdo,
mas não podia regatear naquele momento delicado. Se o dono do negócio se
desse conta de que fazia o trato com duas damas estariam perdidas.
Quando por fim puderam continuar em marcha, Annabelle suspirou,

~ 152 ~
aliviada.
Os cavalos eram tão adoentados percebeu logo que avançavam, mas
sabia que um de mais qualidade chamaria poderosamente a atenção no
caminho e não queriam isso.
Vestidas de homem e com o cabelo e os rostos ocultos pelas capas,
ninguém dirigiria mais de duas olhadas às figuras que saíam da cidade,
montadas em montarias de tão pouca qualidade que não ficava nenhuma
dúvida de que não eram homens ricos.
O céu trovejou e uma cascata de água gelada se precipitou sobre suas
cabeças. O caminho ia ser duro. Mentalmente, Annabelle rezava para que o
traje fosse suficiente. Se alguém as incomodava pelo caminho só teria sua
pequena pistola para defender-se, e nem sequer estava segura de saber como
se acionava aquela maldita arma.
— Didi, encontra-se bem? — Perguntou por cima do ruído da água.
— Um pouco molhada.
Annabelle esteve a ponto de rir ante o eufemismo.
— Se seguirmos este caminho chegaremos ao Essex ao amanhecer — a
animou.
Encontrariam ao menos duas posadas pelo caminho. Recordava-as das
vezes que tinha acompanhado seu pai a casa de sua tia Cláudia, mas embora
todo seu corpo clamasse por um jantar quente e roupa seca, não acreditava
que fosse seguro aproximar-se delas. Dentro da estalagem teriam que tirar o
chapéu, e já tinha sido bastante difícil despistar ao dono da casa de cavalos
com a capa posta.
Se as pessoas que transitavam pelo caminho soubessem que eram duas
mulheres sozinhas, viajando vestidas de homem por aqueles caminhos,
estariam perdidas.
— Annabelle.
— O que aconteceu?

~ 153 ~
— Obrigada.
Sentiu um nó na garganta. Lydia tinha passado a pior tarde de sua vida
e ainda assim se sentia agradecida. Sentiu a necessidade de dizer algo
tranquilizador.
— Tia Cláudia se ocupará de nós, não tem do que se preocupar.
— E seu primo? Não se oporá a que nos dê refúgio?
Aquela era uma possibilidade em que Annabelle não queria pensar.
Quase não tinha visto Justin nos últimos anos e o pouco que sabia dele o
tinha contado sua tia Cláudia que, obviamente, não era muito imparcial sobre
seu único filho.
— Estou segura de que é um bom moço — disse por fim —. Nos
ajudará.
— Poderá fazer pouco quando meu pai souber onde estou — disse
Lydia com um fio de voz —. Tem todo o direito legal de vir me buscar e sabe.
— Crê que poderia negociar com ele? — Aventurou Annabelle —.
Possivelmente se lhe mandar uma carta lhe contando o que aconteceu,
acreditaria em ti e não nesse asqueroso.
— Meu pai me ama, estou segura, mas é um homem e eles pensam que
as mulheres são um pouco parvas. Certamente acreditará que me assustei por
meu iminente matrimônio ou algo assim e me casará com o Gregers
igualmente.
— Mas como vai passar por cima de seu rosto? Essas feridas provam
algo. Eu e tia Cláudia atestaremos a seu favor.
— Acredita que Gregers não o terá pensado? Certamente dirá que caí
do cavalo.
Era certo, era improvável que o homem não tivesse pensado naquela
possibilidade.
— Não se preocupe — disse Annabelle —. Algo nos ocorrerá.
Esperava de verdade que assim fosse. Muito temia que as leis eram

~ 154 ~
injustas para as mulheres. O marquês de Derby poderia obrigar a sua filha a
voltar para o seu lado e, inclusive, casá-la com o asqueroso Gregers. Quisesse
Lydia ou não.
Annabelle não queria pensar no que sua amiga faria se fosse forçada a
aceitá-lo. Havia-o dito alto e claro: preferia estar morta que casada com aquele
homem.
Tremeu, obrigando-se a afastar aqueles funestos pensamentos de sua
cabeça. Lhes ocorreria algo, estava segura.
Sem saber por que, sua mente evocou o rosto do conde de Dain e
Annabelle agitou a cabeça, tratando de afastá-lo de seus pensamentos. Foi em
vão.
Embora não tivesse acreditado que iria casar-se com ele nem por um
momento, o fato de fugir daquele modo punha um fim efetivo a seu
compromisso. Era provável que naquele mesmo momento, em Londres, o
conde se encontrasse redigindo a notícia para o periódico.
Notou que seus olhos se enchiam de lágrimas e piscou, desesperada
para as afastar. Não podia permitir-se titubear. Lydia a necessitava. Haveria
tempo para lamentar no futuro.
Sentiu, mais que ouviu, a carruagem que se aproximava a suas costas.
Olhou Lydia e se deu conta de que sua amiga a tinha escutado também. Tinha
parado na borda do caminho e Annabelle a imitou, obrigando seu baio a
manter-se afastado. Colocou a capa, cobrindo-se ainda mais efetivamente com
ela. Esperava que o carro as ultrapassasse e seguisse seu caminho.
Sentiu que a terra se abria sob seus pés quando o sentiu deter-se a seu
lado. Annabelle apertou com decisão os dedos sobre a culatra fria da pistola,
dentro da capa, e se arriscou a olhar o veículo.
Lhe caiu a alma aos pés. Apesar da chuva e o impossível da situação
não lhe restou nenhuma dúvida de quem as olhava com cara de poucos
amigos da boléia do carro não era outro que o conde de Dain. O olhar verde

~ 155 ~
de Robert refulgia na escuridão.
— Boa noite, senhoritas. Possivelmente deveriam ter cuidado com o
clima antes de arriscar-se a dar um passeio, não acham? Subam, as levarei. —
Não era uma petição, e Annabelle soube que estavam perdidas.

~ 156 ~
Capítulo 20

Quando a estalagem apareceu ante eles, Annabelle conteve o fôlego. O


edifício se manteve imutável através dos anos e, enquanto a olhava, quase
pôde ver seu pai de pé junto à porta, sorrindo-lhe com afabilidade.
Era uma casa grande e antiga, com aspecto de levar séculos ocupando o
mesmo lugar. Só o enorme estábulo na parte de trás parecia uma construção
recente.
No piso de baixo, uma porta de madeira dava entrada a um grande
salão, que as pessoas da área utilizavam como botequim. Sempre que viajava
com seu pai eram conduzidos a parte de trás, onde uns pequenos cômodos
faziam as vezes de salões privados para os hóspedes nobres. Os dormitórios
se achavam no primeiro andar.
Robert deteve a carruagem ante a porta fechada. O estrondo do salão
chegava amortecido até ali.
— Esperem aqui — lhes grunhiu.
As mulheres seguiram a ordem com presteza, agradecidas por poder
escapar daquela prisão de rodas. Refugiadas sob o beiral da entrada, viram
como o conde conduzia a carruagem a caminho do estábulo, com os cavalos
que Annabelle tinha comprado amarrados na parte de trás.
Desde que uma hora antes Dain lhes tinha ordenado com voz glacial
que subissem na carruagem não tinham falado mais do que duas palavras.
Lydia parecia ausente.
Seguia as ordens de forma automática, como se sua mente se

~ 157 ~
encontrasse muito longe dali. Annabelle se sentia triste por sua amiga e o
evidente aborrecimento de Dain a havia deixado furiosa.
Ele não tinha direito de mostrar-se aborrecido. Nem sequer entendia o
que estava fazendo ali. Estava certa de que sua escapada daquela noite tinha
posto fim a seu falso compromisso, por isso já não existia nada entre os dois.
Valorizou as escassas opções que tinham. Era uma loucura pensar que
poderiam chegar a pé a qualquer lugar e, embora pudessem recuperar os
cavalos, Dain já as tinha encontrado uma vez com insultante facilidade.
Estava segura de que seu irmão tinha mandado Dain atrás delas e quis
esbofetear-se por ser tão óbvia. É obvio que sabiam que ela procuraria refúgio
na casa de sua tia Cláudia. Annabelle não tinha ninguém mais a quem recorrer.
E sua família sabia. Tinha posto em perigo Lydia para nada. Toda a
tensão, toda a angústia rompeu-se nela e teve que segurar-se para não começar
a chorar.
Sentia a roupa úmida e incômoda sobre a pele. Queria refugiar-se em
uma cama morna e simplesmente dormir até que aquele dia desaparecesse,
convertido no pesadelo que estava certa que era.
Tomou a mão de sua amiga e a apertou, lhe mostrando consolo. Lydia
nem sequer pareceu perceber o contato. A luz que saía do interior lhe
permitiu contemplar seu rosto inchado. Sentiu como a ira se fazia mais intensa
em seu interior.
De maneira nenhuma ia permitir que aquele monstro voltasse a pôr as
mãos em cima dela. Embora tivesse que se arrastar ante Dain e suplicar
clemência.
Tinha que convencê-lo de que as deixasse partir, refletiu.
O conde não era seu irmão nem seu pai e, uma vez quebrado o
compromisso, voltavam a ser dois estranhos sem nada em comum. Tão
escandaloso fora seu comportamento que o risco que corresse já não era
problema dele.

~ 158 ~
Ao pensá-lo, recuperou o ânimo.
Dain envolvera-se naquela perseguição sem dúvida contra sua vontade.
Era normal que não estivesse de bom humor depois de passar horas ensopado
pela fria chuva. Se conseguia que não as enviasse de volta a Londres de forma
imediata, era provável que, à luz do sol, se sentisse mais benevolente com elas.
Devia convencê-lo a descansar naquela estalagem.
Uma cama quente, boa comida e um pouco de vinho melhorariam o
humor do conde. Não parecia uma pessoa injusta. Possivelmente haveria
alguma possibilidade de apelar a sua bondade.
Com renovada coragem, Annabelle se obrigou a serenar. Nada estava
perdido ainda.

Robert poderia ter ficado com as mulheres na estalagem e deixado que


o moço das cavalariças, que já se aproximava dele, ficasse a cargo dos animais,
mas necessitava de um momento a sós. Não estava acostumado à sensação de
deixar-se levar por suas emoções.
Ver Annabelle vestida de homem, ensopada, na metade de um caminho
enlameado, era uma imagem de pesadelo que sabia que jamais esqueceria. O
risco em que ela se tinha colocado fez-se mais real ao vê-la, fazendo que a
fúria estalasse sob sua pele.
Depois de retirar a sela dos cavalos, deu uma gorjeta ao cavalariço e
voltou para a estalagem. As duas mulheres o esperavam na penumbra.
Vistas assim, com calças e capas de viagem, ninguém teria suspeitado
que não eram o que pareciam. Aquilo era inclusive pior. Se o irmão de
Annabelle não lhe houvesse dito exatamente onde encontrá-las, nunca teria
dado com elas.
Aquela possibilidade fez que se lhe formasse um nó na garganta.
O olhar dela o desafiou quando chegou até elas. Lydia permanecia
oculta sob a capa.

~ 159 ~
— Suba o capuz – disse bruscamente.
A mulher o olhou friamente durante uns intermináveis segundos, mas
acatou sua ordem.
Abriu a porta para elas.
O interior da estalagem era quente e cheirava muito bem, a comida
recém feita. Era um bom contraste com o frio exterior, o que explicava as
mesas repletas de camponeses em diversos níveis de embriaguez.
Ao observar a roupa de seu visitante — as mulheres haviam se afastado
para o lado logo que entraram e ninguém parecia ter reparado nelas — a
proprietária da estalagem se aproximou com rapidez, movendo seu enorme
traseiro.
— Uma noite horrível para viajar, milorde. Alegra-me que procure
refúgio em nossa humilde casa — disse ao chegar junto a ele. Robert supôs
que dava tratamento de nobre a todos os cavalheiros que passavam por seu
estabelecimento com a esperança de que algum o fosse ou, ao menos, se
sentisse adulado.
— Eu gostaria de dispor de intimidade para o jantar, se fosse possível.
Meus acompanhantes e eu não queremos ser incomodados.
A mulher girou ao redor ante as palavras de Dain, até reparar nas
figuras molhadas em que não reparara.
— É obvio, milorde. Minha filha Dana os acompanhará a um dos
salões na parte traseira. Passarão a noite conosco?
— Não, só o jantar, se for tão amável.
Uma moça bonita de não mais de quinze anos se aproximou a um sinal
de sua mãe e os conduziu por entre as mesas até o corredor na parte de trás.
Abriu a primeira porta da direita e se colocou de lado para permitir que
entrassem.
O cômodo era pequeno e singelo. Um bom fogo iluminava a chaminé.
Frente a ele, cômodas poltronas convidavam a sentar-se. No centro da sala,

~ 160 ~
uma maciça mesa de jantar e várias cadeiras esperavam a suculenta comida do
jantar.
— Espere meu sinal para servir a comida — indicou Robert —. Temos
alguns assuntos que tratar antes.
A jovem assentiu antes de abandonar a habitação e fechar a porta a suas
costas.
Um silêncio sepulcral se instalou entre os três ocupantes.
— Se não se desfizerem logo dessa roupa molhada terão uma
pneumonia — Robert rompeu o silêncio, aborrecido, repetindo-se que só o
fazia porque as ver ensopadas e tiritando de frio o incomodava. Não lhe
importava absolutamente se ambas eram tão parvas para adoecer e morrer.
Nada absolutamente.
— E o que poremos, milorde? Sem dúvida não esperará que jantemos
nuas. — A voz de Annabelle chegou desafiante debaixo de seu capuz. Robert
apertou os dentes.
— Pedirei roupa a dona da pousada. Não acredito que nenhuma das
duas tenha um número muito diferente ao da jovem Dana. — Fez uma pausa,
avaliando o traje de suas acompanhantes —. Sempre e quando o fato de ter
que usar roupa feminina não as contrarie. Talvez possa pedir ao moço do
estábulo que lhes empreste suas calças.
Embora pretendesse ser sarcástico, Annabelle se desfez do capuz de
sua capa e lhe dedicou um brilhante sorriso.
— Sei que brinca, milorde, mas ainda assim estou tentada a aceitar sua
oferta. Descobri que a roupa masculina é surpreendentemente cômoda.
Tirou a capa e a colocou com cuidado em um dos assentos frente ao
fogo. Robert conteve o fôlego. O masculino conjunto de jaqueta, camisa e
calça se ajustava a seu corpo pela umidade, destacando suas formas de
maneira indecorosa.
Teve que utilizar toda sua força de vontade para não alargar a mão e

~ 161 ~
tocar um daqueles cachos de cabelo molhado. O alívio de tê-la diante, sã e
salva e contestadora, estendeu-se por seu corpo com o efeito quente de um
bom brandy.
Desfez-se de sua própria capa molhada, agradecendo a temperatura da
habitação.
Centrou a atenção na figura imóvel que se escondia junto à porta
fechada, como se quisesse fugir a qualquer momento.
— Vamos, lady Lydia. Prometo-lhe que não contarei a seu noivo sobre
seu traje.
— Não lhe fale assim! — Exclamou Annabelle, interpondo-se entre os
dois como se temesse que o conde lhe arrebatasse a capa à força.
Annabelle ofegava, fora de si. Olhou-a, confuso pela exagerada reação.
Não teve tempo de perguntar, a mulher se voltou para sua amiga e,
ignorando-o, falou-lhe com o tom suave com o que se dirigiria a uma criança.
— Didi? Tem que tirar a capa. Está ensopada, vais adoecer. Não tem
que preocupar-se pela presença de Dain. — Girou a cabeça para fulminá-lo
com o olhar, como se fosse um criminoso —. Está claro que o conde só vê o
que quer ver.
Ia protestar quando Lydia se moveu. Elevou as mãos com extremo
cuidado e desatou as fitas da capa, que caiu a seus pés sem que fizesse a
menor ameaça para detê-la. Vestia um traje similar ao de Annabelle, mas em
um primeiro momento Robert não se deu conta.
Tudo o que pôde contemplar foi a magoada cara da dama. A mulher
lhe dedicou um assustado olhar com o único olho que podia manter aberto.
— Por todos os demônios, o que aconteceu? — Exigiu saber, mas a
única coisa que conseguiu foi que a mulher afastasse o olhar, tremendo de
forma violenta.
Convencido de que não conseguiria tirar nada dela, voltou sua atenção
para Annabelle, que continuava fulminando-o com o olhar.

~ 162 ~
— Não estranharia nada que fosse o mesmo homem que o enviou em
nossa busca — indicou ela com cinismo.
— Temo que se engana. Vim porque você é minha noiva.
Annabelle o olhou com desconfiança.
— Não o enviou meu irmão ou o pai de Lydia?
— Falei com seu irmão — confessou a contra gosto —. Ele deu as
indicações para achá-la. E não, não falei com o pai de Lydia, foi ele que fez
isso? — Perguntou esperando que não fosse o caso. Sabia que alguns pais
aplicavam autênticas surras a seus filhos, assim como alguns maridos que
arremetiam contra suas esposas. Para ele, nenhum homem capaz de provocar
o dano que refletia o rosto de Lydia era merecedor de chamar-se tal.
— Foi o conde de Gregers — confessou Annabelle.
— Seu noivo? — Surpreendeu-se Robert.
— Não é meu noivo! — Grasnou Lydia. Robert viu a transformação
fugaz da mulher. O medo tinha dado lugar momentâneo à ira. Alegrou-se por
ela, sabia que era melhor assim. Da raiva era possível desprender-se, do medo,
não —. Jamais serei sua esposa! Jamais!
Annabelle abraçou Lydia, que continuava tremendo. Com lentidão,
conduziu-a para o assento mais próximo ao fogo, murmurando palavras
consoladoras.
Annabelle voltou junto a ele e tomou assento na mesa. Imitou-a. O
rosto de sua noiva estava contraído pela pena, dor e cansaço.
— Conte-me o que aconteceu — pediu.
Annabelle lhe dedicou um olhar suspicaz, como se avaliasse se seria
capaz de entendê-la. Parecia muito jovem. Quis rodeá-la com seus braços e
obrigá-la a apoiar a cabeça em seu ombro.
Com voz sussurrante, em uma fútil tentativa para que Lydia escutasse o
menos possível, Annabelle narrou a Robert os acontecimentos daquela tarde.
Quando finalizou, olhava sua noiva com outros olhos. Por cima do

~ 163 ~
medo ou da ira que sua partida lhe tinha provocado, pôde perceber com
claridade a lealdade e o valor dela.
Um sentimento parecido a orgulho se agitou dentro dele.
Recordou que houve um tempo, quando Adam perdeu Laura, em que a
queda de seu amigo foi tão profunda que teria dado algo para poder resgatá-
lo. Mas ele não tinha podido fazer nada por Adam, enquanto Annabelle tinha
arriscado tudo por Lydia.
Sua noiva era uma mulher sensacional.
— Admira-me — obrigou-se a dizer, tragando o nó que se tinha
formado na garganta —. Não muitas damas teriam arriscado tudo, inclusive
sua vida, por uma amiga.
— Ela é tudo o que tenho — murmurou Annabelle e Robert intuiu que
estava abrindo-se ante ele —. Faz quatro anos, eu não tinha nenhuma amiga.
Minhas relações sociais se limitavam a minha mãe, meu irmão ou minha tia
Cláudia. Então tive que me apresentar em sociedade e foi um horror.
— Tão mal?
Annabelle esboçou um sorriso vacilante.
— A princípio eu adorava. Os trajes bonitos, os bailes, as pessoas…
Logo se tornou um pesadelo. Minha mãe esperava muito de mim. Queria que
fosse a sensação da temporada. Acredito que se enganava a si mesma.
Quando não houve propostas de matrimônio, começou a vislumbrar que eu
não seria o êxito que ela tinha previsto e ficou mais exigente.
Robert quis contradizê-la, lhe dizer que ele tampouco entendia por que
não tinha sido um êxito, mas se conteve. Na realidade, sim sabia. Ele mesmo a
tinha passado por cima em sua busca de esposa.
Annabelle não tinha as qualidades superficiais que a alta sociedade
valorizava. Não tinha um cabelo precioso ou uns olhos chamativos. O que a
fazia especial estava dentro dela: a lealdade, o valor, o arrojo… Era difícil
mostrar isso em um salão de baile.

~ 164 ~
— Dois anos depois, conheci a Lydia — prosseguiu a mulher, alheia a
seus pensamentos —. Ficamos amigas imediatamente. Entendíamo-nos.
Quando minha mãe me expunha em público ou me envergonhava, Lydia
sempre saía em minha defesa. Quando esquecia os passos de dança ou não
sabia como continuar uma conversação, ela sempre estava ali. Foi como
minha irmã todo este tempo. Simplesmente, não podia deixar que terminasse
com alguém como Gregers. — Fez uma pausa e baixou mais a voz, de forma
que só Robert a ouvisse —. Gregers é um monstro e ela é tão doce. Não
aguentará. Se a obrigarem a casar-se com ele, murchará e morrerá. Estou
segura de que a perderei.
Sem poder conter-se, estirou o braço e tomou a mão de Annabelle. Ela
o olhou, surpreendida pelo contato, mas não a retirou. Longe disso, devolveu-
lhe o apertão. Robert aproveitou para acariciar sua pele suave.
— Sabe que seu pai pode obrigá-la a casar. — Não queria que ela
tivesse ilusões —. Neste momento devem estar procurando-a e, se for como
diz, é muito provável que lhe exijam que se case assim que a encontrem.
— Sei — suspirou, Annabelle. Depois girou a cabeça e contemplou o
perfil de Lydia. Uma lágrima solitária deslizou por sua bochecha —. Preciso te
pedir um favor.
Robert a olhou, temendo o pior. O único que podia fazer por Lydia era
falar com o pai da jovem e tratar de convencê-lo que tipo de pessoa era
Gregers.
Mas se sua noiva lhe pedia que fizesse uma loucura, era provável que
tentasse agradá-la. Aquele pensamento o incomodou.
— Passemos a noite aqui — o surpreendeu Annabelle —. Não acredito
que Lydia possa suportar o caminho de volta a Londres, embora seja em
carruagem, nem terá a coragem para enfrentar seu destino agora. Sei que é
abusar de sua confiança, mas o rogo. Durmamos aqui e regressemos amanhã.
Meditou as palavras dela durante uns segundos, depois assentiu. Pensar

~ 165 ~
nela tão perto dele, dormindo em quartos contíguos, o fez desejar coisas que
não podia ter. Tinha tido tanto medo… Desejava apertá-la entre seus braços
até convencer-se de que estava sã e salva, com ele.
Mas se controlaria. Passariam a noite ali e partiriam pela manhã. E se
casariam logo. Devia convencer Annabelle de que seu compromisso não ia
diminuir o escândalo de sua fuga. Deviam casar-se o quanto antes.
— De acordo. Solicitarei dois quartos e um pouco de roupa seca —
propôs Robert.
Se vontade, retirou sua mão da dela e ficou em pé. A voz de Annabelle
o deteve.
— Nunca esquecerei disto, milorde. Estou em dívida com você.
Robert assentiu de forma solene e saiu do cômodo, mas quando fechou
a porta a suas costas, sorria.

~ 166 ~
Capítulo 21

Jantaram em silêncio. A um lado da mesa, Lydia comia como um


passarinho, com o olhar perdido no vazio. Nem sequer parecia ser consciente
de que tinha companhia.
Annabelle a observava com preocupação. Longe de melhorar, as feridas
dela pareciam mais terríveis naquele momento. A bochecha golpeada tinha
adquirido a cor das ameixas amadurecidas e, de um lado da boca, o sangue
tinha formado uma desagradável crosta.
A camisa masculina deixava à vista uma ampla porção do pescoço.
Fixou-se nos círculos escuros, muito destacados sobre a pele clara de Lydia.
Não lhe coube dúvida alguma que era a marca dos dedos de Gregers.
Baixou o garfo que segurava na mão. Tinha perdido o apetite.
O tempo se alargou de forma insofrível, até que Dain depositou com
cuidado os talheres sobre seu prato e se levantou. Annabelle e Lydia o
seguiram em silêncio.
Annabelle esperava que Dana aparecesse para as escoltar, mas foi o
próprio conde que as acompanhou até a porta de sua habitação.
Para sua surpresa, Lydia pareceu emergir daquele estado de transe em
que tinha estado imersa e se inclinou com um gesto formal ante Dain.
— Muito obrigada pelo jantar, milorde — disse, educada, como se
aquele tivesse sido mais um baile.
— Foi um prazer — respondeu Robert, visivelmente surpreso,
inclinando-se por sua vez.

~ 167 ~
Lydia passou junto a eles e desapareceu atrás da porta.
Annabelle supôs que devia segui-la, mas não se moveu. Deu-se conta
de que ficaram sozinhos no meio do corredor e, de repente, a presença do
conde lhe pareceu muito real.
Fixou-se pela primeira vez que ele levava um traje muito elegante para
viajar e intuiu que não trocara de roupa. Sem lugar a dúvidas, era a
indumentária com a que teria ido ao baile. Só lhe faltava o lenço.
Por sua mente cruzou a ideia de que, se tudo tivesse ido como ela tinha
planejado em princípio, naquele momento talvez se encontrasse desabotoando
aquela camisa.
Ansiou, mais que tudo, ter podido dançar com ele naquela noite, talvez
por uma última vez. Tinha desejado beijá-lo só mais uma vez.
A cavalgada sob a chuva lhe tinha alvoroçado o cabelo, que parecia
mais escuro pela umidade. Sentiu o impulso de passar as mãos por ele, como
tinha feito uma vez, em sua carruagem.
Era provável que, depois daquela noite, voltassem a ser dois
desconhecidos. Nunca mais poderia tocá-lo, nem beijá-lo, nem dançar com
ele.
Sentiu uma dor profunda ao pensá-lo.
— Ordenei que subam roupa seca e água para o asseio — disse ele com
voz inexpressiva.
— Obrigada, milorde.
— Estarei no quarto do lado — acrescentou, indicando a porta
contínua, a mais próxima às escadas —. É improvável que ninguém as
incomode, mas se tiverem algum problema, grite. A ouvirei.
— Obrigada.
Estavam tão perto que se surpreendeu pensando que, se ficasse nas
pontas dos pés, poderia beijá-lo.
Recordou a excitação que tinha sentido ao fazê-lo pela primeira vez, às

~ 168 ~
escuras naquele labirinto. Deu um passo para diante.
— Partiremos amanhã ao amanhecer. — Robert cravou nela seus olhos
verdes. Sério, indecifrável —. Estaremos em Londres no meio da manhã.
As palavras não pronunciadas flutuaram entre os dois. Ele entregaria a
Lydia a seu pai e, indiretamente, seria o causador de seu horrível casamento.
Talvez nunca voltasse a vê-lo.
A magia se quebrou.
Annabelle sentiu como se a tivesse esbofeteado. Obrigou-se a realizar
uma reverência ante ele, muito furiosa para dizer algo mais. Ele aceitou com
um rígido movimento de cabeça.
Raivosa, entrou na habitação e fechou a porta com um golpe surdo a
suas costas, deixando Dain plantado na metade do corredor.
A habitação era modesta mas cálida e limpa. Uma grande cama ocupava
o centro do quarto. Um escritório em um canto e duas poltronas frente à
chaminé completavam o mobiliário.
Lydia tinha se sentado em uma, frente ao fogo quente. Imitou-a e
tomou assento na outra.
— Partiremos pela manhã? — Perguntou sua amiga em voz baixa.
Assentiu sem forças, sentindo-se derrotada.
Notou a mão de Lydia apertando as suas.
— Não culpe Dain. Sabe que não pode fazer outra coisa.
Em seu íntimo, sabia, mas aquela situação era tão injusta que tinha
vontade de gritar.
— Poderia deixar que fôssemos e dizer as nossas famílias que não nos
encontrou — murmurou com rancor, embora soubesse que só propô-lo já era
uma loucura.
— E arriscar-se a enfrentar a ira de meu pai? Sem ter em conta o
escândalo que provocaria se alguém soubesse que foi nosso cúmplice. Que
motivos teria para correr semelhante risco?

~ 169 ~
Aquilo era o que mais lhe doía. Em seu coração, tinha esperado que
Dain sentisse por ela algum tipo de estima. Algo, por pouco que fosse, que
fizesse que ele quisesse ajudá-la.
Enganou-se. E a indiferença dele doía.
— E o que vamos fazer, Lydia?
— Nada. — A voz de sua amiga era calma —. Me casarei com o
Gregers.
— Não! Não o permitirei!
Lydia lhe dedicou um sorriso torto.
— Já fez muito. — encolheu os ombros —. Parece ser o destino.
Possivelmente nos enganámos com o Gregers, possivelmente não será mau
marido.
Annabelle fechou os olhos. Um sutil golpe na porta interrompeu seu
protesto. Era Dana. A jovem lhes dedicou um olhar curioso, e Annabelle
compreendeu que estava se perguntando porque duas damas viajavam
vestidas de cavalheiros.
— Trouxe algumas roupas para que usem amanhã — disse,
depositando sobre a cama dois velhos vestidos —. Também trouxe isto —.
Annabelle se surpreendeu ao ver duas camisolas confeccionadas com gosto e
batas também —. São de minha mãe, de quando se casou. São antigas, mas
espero que lhes sirvam.
Annabelle agradeceu a moça as roupas e quase suspirou de prazer
quando lhe disse que voltaria em uns minutos com água quente.
Annabelle ajudou Lydia a assear-se e depois ela fez o mesmo. Tal como
Dana tinha indicado, as camisolas eram antigas e gastas pelo uso, mas estavam
limpas, eram suaves e agradeceu não ter que dormir com a roupa que usaria
no dia seguinte.
Lydia dormiu imediatamente. Supôs que as emoções do dia tinham sido
muito para ela. Contemplou-a dormir na penumbra, enquanto sua mente

~ 170 ~
trabalhava a toda velocidade. O cansaço parecia haver-se evaporado.
Finalmente, armou-se de coragem e saiu da cama. Sabia o que tinha que
fazer. Não podia deixar que chegasse a manhã e esperar que Dain fosse
benevolente. Não podia deixar tudo ao acaso.
Cuidando de não fazer ruído, colocou a bata sobre os ombros. Abriu a
porta de sua habitação e escrutinou o corredor deserto.
Descalça, percorreu os poucos metros que separavam sua habitação da
de Dain e golpeou a porta. Depois pensou melhor. Não ia lhe dar a opção de
enviá-la de volta a seu quarto. Girou a fechadura e entrou.
Fechou a porta a suas costas, tendo a sensação de que se colocou na
boca do lobo.

~ 171 ~
Capítulo 22

Robert não ouviu os golpes suaves na porta. Estava sentado no


pequeno escritório do quarto, redigindo as cartas que enviaria pela manhã.
Meditava se devia escrever uma a seu pai — e o que lhe dizer — quando a
porta abriu de repente. Elevou a cabeça e viu Annabelle parada a poucos
metros dele. Chegou à rápida conclusão de que estava sonhando.
Embora soubesse que nem em sonhos teria tido o atrevimento de
imaginá-la assim.
A regata branca de linho fina deixava vislumbrar boa parte de seu
delicioso conteúdo e a bata aberta só conseguia destacar ainda mais a
maravilhosa curva de seus peitos.
O cabelo solto lhe caía em cachos sobre os ombros, acariciando seu
pescoço e suas costas.
Estava tão bela que doía olhá-la.
Seu corpo reagiu com violência e teve que permanecer sentado,
transgredindo todas as normas existentes de protocolo.
Quase sorriu ante o ridículo pensamento.
Que ele soubesse não existia nenhum preceito que indicasse como
devia se comportar um cavalheiro se uma jovem solteira irrompia em seu
quarto. De camisola.
— Boa noite, milady, perdeu-se?
Annabelle lhe dedicou um olhar surpreendido, como se fosse ele quem
tivesse entrado em seu quarto e não o contrário.

~ 172 ~
— Não, milorde, sabia perfeitamente aonde me dirigia.
Como se quisesse reafirmar esse fato, deu um par de passos à frente,
afastando-se da porta.
— E o faz com algum propósito concreto ou só tinha vontade de
passear? — Viu-se obrigado a perguntar —. É algo admirável. Qualquer um
diria que, depois de percorrer a cavalo várias léguas de Londres, agradeceria o
conforto de seu dormitório.
A mulher lhe dedicou um olhar inexpressivo.
— Preciso falar com você.
— E não podia esperar até amanhã?
— É evidente que não.
Robert não podia pensar. Pouco podia entender, nada mais que o fato
de que a mulher que levava dias desejando desesperadamente estava ali, a
poucos passos dele, escassamente vestida e sem intenção de ir a nenhuma
parte.
— Então, por favor, sente-se junto ao fogo. Temo que essa roupa que
leva não é muito quente.
Annabelle se aproximou da chaminé acesa com ar distraído. Olhava
com curiosidade a seu redor, embora Robert intuísse que todas as habitações
da estalagem estavam decoradas com a mesma sobriedade.
Não se sentou, limitou-se a ficar de pé em frente à luz, olhando-o
fixamente.
A luz do fogo a iluminava por trás, tornando perfeitamente visível a
curva de seu quadril.
Robert se agitou na cadeira do escritório.
— Vim falar da Lydia — a ouviu dizer.
— Encontra-se bem?
— Sim, ou ao menos isso acredito. Agora dorme.
Assentiu, satisfeito.

~ 173 ~
— Sei que o que vou lhe pedir é muito — prosseguiu Annabelle —. E
entendo a difícil posição em que o ponho ao fazê-lo, mas você é minha única
esperança.
Daquilo gostou. Ainda não estavam casados e ela já procurava a
segurança que lhe oferecia.
— O que necessita de mim?
— Não entregue Lydia — pediu com voz suplicante —. Já viu o tipo
de homem com o que querem casá-la. E isso é somente o princípio. Sabíamos
que era um ser desprezível, embora nunca imaginei que fosse capaz de fazer
algo assim. A primeira vez que pediu Lydia em matrimônio investigamos…
— Investigaram? — Conteve um estremecimento ao imaginar a sua
noiva farejando por Londres.
— Lydia tem uma criada muito fiel — explicou Annabelle —.
Conseguiu falar com um dos criados da casa do Gregers.
— O que descobriu?
Annabelle se ruborizou e afastou o olhar.
— Não me sinto cômoda falando deste tema com você.
Robert ia objetar que, entretanto, não parecia ter nenhuma dificuldade
em permanecer indecorosamente vestida na sua presença, mas pensou melhor.
Não queria que ela se fosse.
Levantou-se e se aproximou da chaminé.
— Não seja tonta — lhe disse —. Sabe que pode confiar em mim.
Annabelle lhe dirigiu um olhar agradecido.
— Escutamos que Gregers é assíduo a certos clubes.
— De jogo?
— E de outros.
— Refere-se a bordéis — disse com naturalidade, amando a maneira
em que ela se ruborizava —. Sinto ser eu quem destrói sua inocência, mas
temo que não é algo muito incomum.

~ 174 ~
— Não sou tão inocente como imagina, milorde. O caso é que Gregers
não se limitava a deitar-se com essas pobres garotas. Às vezes as levava a sua
casa, razão pela qual os criados estão sabendo de suas práticas. — Annabelle
baixou a voz até convertê-la em um sussurro —. Nos contaram que
desfrutava magoando-as. Depois de estar com ele, algumas dessas moças nem
sequer podiam ficar em pé. Depois de ver Lydia hoje, não fica nenhuma
dúvida de que o que nos contaram é certo.
A Robert tampouco, e começou a preocupar-se. Um homem capaz de
fazer isso à mulher que queria como esposa seria capaz de tudo. E Annabelle
se colocou no meio, sem dúvida provocando sua ira.
Teria que ter controlado o tal Gregers.
— O que quer de mim, Annabelle?
— Embora Lydia seja mais forte do que parece à primeira vista, não
acredito que o suporte. Um matrimônio com o Gregers quebrará sua vontade,
estou segura.
Robert refletiu. Em pouco tempo seria sua esposa e Lydia
indubitavelmente era importante para ela.
— O que posso fazer eu?
— Não entregue Lydia a seu pai. Não nos obrigue a voltar para
Londres.
Robert já tinha contemplado aquela possibilidade. Sobre o escritório, a
poucos passos deles, aguardavam algumas cartas para pôr em ordem seus
assuntos, a fim de partir diretamente a sua casa do norte dali na manhã
seguinte.
Meditou uns instantes, embora a decisão já estivesse tomada.
— Está bem.
Foi tão rápido que não a viu vir. Annabelle se equilibrou sobre ele e
ficou nas pontas dos pés para beijá-lo na bochecha.
— Oh!, Robert! Não sei como te agradecer.

~ 175 ~
— Ocorre-me uma maneira — murmurou ele, aproveitando para lhe
rodear a cintura com as mãos. Atraiu-a com firmeza contra seu corpo.
Roçou com seus lábios a boca de Annabelle em um beijo casto. Ela o
deixava louco. Encontrou-se respirando a baforadas a fragrância única de seu
perfume. Voltou a beijá-la, deleitando-se com a suavidade de sua boca.
Sua intenção tinha sido afastar-se. Não confiava o suficiente em si
mesmo. Não com ela tão perto e nua, em uma situação tão íntima.
Permitiu-se um último beijo antes de fazer o correto e afastar-se dela…
Annabelle reagiu. Rodeou-o com os braços e o apertou contra seu
pecaminoso corpo. Sua boca se tornou frenética sobre a dele.
E Robert respondeu, como podia não fazê-lo? Aquela mulher lhe
inflamava o sangue. Tinha-o enfeitiçado com um simples beijo. Tinha ficado
preso em seu feitiço. Durante dias não tinha pensado em nada que não fosse
ela, seu sorriso, seus beijos e seu descaramento.
Aprofundou o beijo e forçou Annabelle a abrir os lábios. Ela o agradou,
enquanto acariciava com os dedos a nuca de Robert, lhe provocando um
estremecimento.
Uma parte dele repetia que ela era inocente e, provavelmente, não tinha
nem ideia do que estava fazendo.
Entretanto, seu instinto mais primitivo queria possui-la naquele mesmo
instante. Ela seria sua cedo ou tarde, para que esperar?
Obrigou-se a ser razoável. Com as últimas fibras de prudência,
conseguiu afastar-se dela.
— Annabelle, para — disse, lhe pondo as mãos sobre os ombros e
afastando-a de si. Perder o contato de seu corpo quase o fez claudicar —. Não
podemos fazer isto.
— Por que não?
Robert a olhou, confuso. Os olhos da mulher brilhavam, banhados de
inconfundível paixão. Ofegava sem dissimulação e tinha os lábios inflamados

~ 176 ~
por seus beijos. Sob o sutil tecido da camisola, os mamilos dela marcavam,
impudicos.
Ela o desejava. A surpresa o impactou.
— Não é correto — murmurou em uma última tentativa de resgatar
sua boa educação.
— Claro que sim — disse Annabelle, livrando-se de seu agarre e
voltando a apertar-se contra ele —. Somente hoje. Por favor.
A súplica na voz dela bastou para eliminar todas suas reservas.
Beijou com fúria a mulher que seria sua esposa. Ela gemeu sob seus
lábios. Acariciou com as mãos a curva de seu quadril e sua cintura em sentido
ascendente, ansioso por notar o peso de seus peitos.
A última vez que os tinha acariciado, entre eles se interpunha um
espartilho. Agora, sob a fina musselina, pôde notar seus mamilos endurecidos
pelo desejo.
— Quer isto — murmurou sobre seus lábios.
— Quero tudo.
Notou as mãos femininas procurando freneticamente os botões de sua
camisa e se afastou um pouco para olhá-la trabalhar. Seus finos dedos o
despiram com lentidão. Obrigou-se a ser paciente, aguentando o impulso de
desfazer-se ele mesmo da camisa.
Vê-la descobrir sua pele pouco a pouco era uma das coisas mais
eróticas que tinha contemplado, e ao mesmo tempo, uma das mais
frustrantes. Ela mordia os lábios de forma obscena.
Tremeu de antecipação quando Annabelle se desfez do último botão e
retirou a camisa, roçando brevemente seus ombros no processo. O ofego
entrecortado dela o fez sorrir.
— Toque-me — a apressou. Tomou uma das pequenas mãos e a
beijou antes de depositá-la sobre seu peito. Annabelle o acariciou, lentamente
a princípio, com mais confiança depois.

~ 177 ~
Suas mãos desceram por seu peito provocando um furacão de
sensações. Quando pôs a mão sobre o botão de suas calças, Robert a obrigou
a parar.
— Ainda não — murmurou, e ante o protesto dela voltou a beijá-la,
divertido por sua impaciência —. Agora você.
Prometendo-se ser mais paciente da próxima vez, elevou a camisola da
mulher e a deixou cair ao chão, junto a sua camisa.
Deu um passo atrás para observá-la. Era linda. Suas curvas, definidas e
plenas ameaçaram fazê-lo perder o controle. Tinha uns peitos grandes e
abundantes, pesados, que morria por sentir contra ele. A curva de seu quadril
era suficiente para deixá-lo louco.
Demorou uns segundos para compreender que Annabelle o olhava,
ruborizada, e tentava freneticamente tapar-se. Toda a paixão tinha
desaparecido de sua expressão e Robert se amaldiçoou por ser muito ansioso.
Abriu os braços e ela se refugiou neles.
— É linda — lhe sussurrou ao ouvido.
— De verdade acha isso?
— Acaso duvida? — Robert se apertou contra ela, de modo que era
impossível que não notasse a ereção apertada entre os dois —. Quis fazer isto
desde que me beijou pela primeira vez. Quis te despir ali mesmo, no estúpido
labirinto dos Winchester.
A boca de Annabelle se abriu pela surpresa e Robert aproveitou para
beijá-la com paixão, penetrando-a com a língua. Sentiu como relaxava em seus
braços e aproveitou para explorá-la a fundo, percorrendo com as mãos a pele
nua, lhe acariciando os braços, as costas e as nádegas em uma lenta carícia.
Por Deus, toda ela era suave e cheirava a baunilha.
Afastou sua boca dela e deixou um rastro de beijos quentes na curva de
sua mandíbula. A mulher ofegou e inclinou a cabeça, lhe permitindo um
melhor acesso.

~ 178 ~
Quando tomou o lóbulo da orelha entre os dentes, Annabelle lhe
cravou as unhas nas costas. O golpe de dor o fez ofegar. Não podia esperar
mais. Elevou-a nos braços, ignorando a exclamação de surpresa dela e a levou
até a cama.
Depositou-a com suavidade sobre o colchão, detendo-se um tempo
imprescindível para beijá-la antes de afastar-se para ocupar-se de suas próprias
roupas. Annabelle se elevou sobre os cotovelos para observá-lo e seus peitos
vibraram pelo movimento.
Era um convite à luxúria. Vislumbrou o triângulo de cachos escuros
que guardavam o paraíso e tragou saliva.
Aos puxões, tirou as botas e as deixou cair ao chão sem cuidado,
desesperado para voltar junto a ela.
Começou a desabotoar a calça. Então se deu conta que Annabelle o
observava com curiosidade e tornou mais lentos os movimentos. Centrou a
atenção em seu olhar escuro, nublado pela paixão. Ela não o olhava no rosto.
Tinha a vista fixa na pele nua que ele ia descobrindo.
Robert jamais tinha achado erótico despir-se para uma mulher antes,
mas essa vez o fez. Desabotoou lentamente os botões da calça, desfrutando
do interesse de Annabelle.
O olhar de sua noiva, uma mescla de curiosidade e paixão, difícil de
combinar, queimava-o como fogo sobre a pele. Quando se desfez por fim das
calças a ouviu conter o fôlego.
Com rapidez, tombou-se junto a ela na cama.
— Não nos tapamos? — Perguntou ela. Pareceu-lhe divertido que se
fixasse nessas coisas.
— Tem frio? — Inquiriu Robert, rodeando-a com seus braços e
apertando-a contra seu corpo nu.
— Não… bom, um pouco.
— Não se preocupe, eu me encarrego.

~ 179 ~
Abraçou-a, desfrutando da enloquecedora sensação de senti-la junto a
ele. Tinha esperado sentir desejo e paixão, mas nada o tinha preparado para o
golpe de ternura que experimentou. Ela era perfeita, suave e delicada, e uma
parte dele quis continuar explorando sua pele com lentidão por toda a
eternidade.
Beijou os peitos que o haviam tornado louco, desfrutando dos gemidos
de gozo de Annabelle. Alegrou-se de que não tentasse dissimular seu óbvio
prazer.
Acariciou com a língua úmida o mamilo endurecido e grunhiu de
satisfação ao senti-la contorcer-se em baixo dele. Quando elevou os quadris e
se apertou contra seu corpo, viu-se obrigado a afastar-se, tentando manter o
controle.
Annabelle estendeu a mão e o tocou.
Apesar de apenas o roçar, sentiu a pele arder sob seu contato. Colocou-
se de costas, dando livre acesso à mão inquisidora. Ela se apoiou sobre um
cotovelo e se inclinou sobre ele.
Acariciou-lhe um ombro e seguiu descendo por seu peito, acariciando o
leve pêlo que o cobria. Esta vez, quando a mão dela desceu por seu quadril,
Robert não a deteve.
Annabelle tinha uma meta fixa. Movida pela curiosidade, deslizou a
mão até a zona em que o pêlo dourado se fazia mais espesso.
— Posso? — Perguntou com voz afogada.
Robert a olhou. Tinha as bochechas ruborizadas e os lábios
entreabertos. Seus olhos mostravam uma expressão decidida. A valentia dela o
surpreendia.
Annabelle não era das damas que ficavam quietas, esperando. Ela
queria correr o risco.
— Pode fazer o que quiser — murmurou Robert, lhe beijando o
pescoço —. Quer me tocar?

~ 180 ~
A mão de Annabelle desceu um pouco mais. Seu pênis se agitou como
se quisesse chamar a atenção da garota. Sorriu ao pensá-lo. O sorriso se
converteu em um ofego quando os dedos de sua noiva o rodearam.
— É muito grande.
— Você sim sabe o que dizer a um homem — respondeu, divertido.
Robert a olhou e algo dentro dele se quebrou um pouco. Ali, nua,
tocando-o, era a mulher mais formosa que jamais tinha visto.
E havia algo mais.
Também era divertida, decidida e imensamente valente.
Retirou a mão de sua noiva com um movimento brusco e ignorou o
murmúrio de protesto dela.
Colocou-se sobre ela, forçando-a com seu corpo a abrir as pernas.
Deixou que um de seus dedos deslizasse sobre o triângulo de cachos, temendo
estar sendo muito impetuoso.
A umidade que encontrou ali o fez gemer.
— Annabelle — murmurou, inclinando-se para beijá-la na boca. Isso
vai doer-te um pouco.
Sorriu-lhe.
— Duvido.
Robert se sentiu cativado por seu sorriso. Lentamente, colocou-se entre
a união das pernas dela, decidido a ir devagar.
Não tinha contado com a umidade cálida dela, nem que Annabelle
escolhesse aquele preciso momento para investigar, agitando-se debaixo dele.
— Fique quieta — lhe suplicou no limite do controle. Ela não pareceu
escutá-lo. Elevou os quadris e gemeu, desesperada, quando a parte mais
sensível de seu corpo encontrou a dureza de Robert. Intensificou o
movimento, fazendo com que o conde perdesse o controle.
Beijou-a com paixão enquanto a penetrava. Ela era estreita e úmida, tão
cálida que durante um segundo pensou que se humilharia naquele momento.

~ 181 ~
Deixou que seu corpo deslizasse dentro dela, bebendo o grito de dor de
Annabelle.
Profundamente nela, esperou.
Ela o olhava muito séria.
— Quer que me retire? — Viu-se obrigado a perguntar, embora
duvidasse ser capaz de semelhante proeza.
— Doerá mais?
— Não. Já aconteceu o pior.
— Dedicou-lhe um sorriso tão brilhante que Robert sentiu que todo
seu ser se esquentava.
— Então seria bastante estúpido parar agora, não?
Robert gemeu. Deslizou para fora com lentidão, amando a sensação
dela rodeando-o. Annabelle o abraçava, movendo-se contra ele.
Deixou-a explorar tudo o que pôde, desfrutando dos movimentos cada
vez mais audazes dela. Depois, tomou o controle. Penetrou-a com força,
beijando-a no processo. Annabelle aprendeu a lhe seguir o ritmo.
Ela se elevava para recebê-lo e gemia em seu ouvido. O som estava a
ponto de deixá-lo louco de paixão. De repente o controle se esfumou, tudo o
que podia ver e tocar era ela.
Balançaram-se juntos, cada vez mais forte e mais rápido, até que o
prazer foi tão grande que esqueceu de tudo o resto. Sentiu que Annabelle
gemia em baixo dele e foi muito. Deixou-se ir enquanto ela o abraçava
ferozmente contra seu corpo.

~ 182 ~
Capítulo 23

Não sejam iludidas: nenhum homem comprará a vaca se tiver o leite grátis.
Extrato do panfleto da Lady Indiscreta

Annabelle abriu os olhos quando os primeiros raios de luz atravessaram


as débeis cortinas. Demorou um momento em compreender onde se
encontrava. Ao notar o corpo quente de Robert junto ao dela recordou as
horas anteriores.
Sair da cama de Robert foi uma das coisas mais difíceis que tinha tido
que fazer na vida. Teria dado algo para poder permanecer junto a ele.
Vestiu-se sem fazer ruído. Não queria arriscar-se a que Dain
despertasse enquanto ainda se encontrava em seu quarto.
Sabia que ele se arrependeria. Era nobre até a medula. Diabos, se tinha
se sentido na obrigação de comprometer-se com ela depois de um simples
beijo! Que loucura lhe ocorreria depois do que tinham feito?
No mínimo, quereria desculpar-se, e Annabelle não se acreditava capaz
de suportá-lo. Tinha sido feliz em seus braços, não pensava permitir que a
realidade danificasse tudo.
A débil luz que penetrava na habitação era suficiente para apreciar seus
traços. Cedeu ao impulso de contemplá-lo um instante. Dormindo parecia
jovem e inocente, quase vulnerável.
Sabia que a euforia que sentia naquele instante se esfumaria, dando
lugar à solidão. Estava preparada para isso. Não obstante, tinha merecido a

~ 183 ~
pena, pensou, enquanto saía e fechava a porta com cuidado.
Estar com Robert tinha sido melhor do que ela teria imaginado. Nunca
tinha pensado que poderia sentir-se assim, frágil e forte ao mesmo tempo.
Jamais esqueceria nenhum dos instantes que tinha passado a seu lado, mas não
permitiria que a emoção do momento a fizesse perder a razão. A vida
continuava e tinha outras coisas no que pensar.
Lydia era o mais importante.
Sua amiga parecia dormir quando abriu a porta do dormitório.
— De onde sai? Estava preocupada contigo!
Annabelle deu um salto, sentindo-se como uma menina que pegam em
falta. Dirigiu-se à cama e tomou assento sobre o edredom, cruzando as pernas
de maneira muito pouco elegante. Doíam-lhe lugares de seu corpo que não
sabia que podiam doer.
— Acreditaria que fui dar um passeio?
— Nem por um segundo.
— Tomei o café da manhã cedo?
— De bata?
Annabelle suspirou.
— Passei a noite com o Robert.
Lydia se elevou de repente na cama. Seu rosto mostrava muito melhor
aspecto e o sorriso que exibia naquele momento, mescla de assombro e
alegria, contribuía para tal efeito.
— Meu Deus! — Gritou.
— Shhhh!
— Meu Deus! — Tratou de sussurrar, mas o efeito foi simplesmente
ridículo —. O que significa isso? Vão casar?
— É obvio que não. Só foi uma noite. Embora eu tenha uma boa
notícia para ti. Robert não enviará para Londres, nos deixará ir.
— Sem dúvida não iremos a Londres. Ao menos, você, não.

~ 184 ~
— Conheço-te, não se iluda. De verdade, só foi uma noite, não teve
nenhuma importância.
— Como pode dizer isso? Você o ama! E agora estou certa de que ele
te ama.
Lydia saiu da cama com agilidade e abriu as cortinas do quarto,
interpretando um cômico bailado de alegria.
Annabelle não pôde mais que rir.
— Está melhor.
Lydia lhe devolveu o sorriso.
— Como não vou estar? Vais casar-te com o Dain e ser muito feliz…
— Por que tem tanta ilusão? — Perguntou Annabelle, dando por
perdida a batalha da prudência.
Lydia voltou junto a ela e se sentou na cama, a seu lado.
— Não sei o que acontecerá comigo no futuro. Saber que você será
feliz é suficiente para mim.
Olhou-a, emocionada.
— Serei feliz com minha vida, pode estar segura. E você também o
será, já o verá. Encontraremos uma solução. — Aproximou-se da roupa que
tinha preparado para usar —. Sabe que minha tia Cláudia tem um só filho,
Justin. Meu tio era comerciante e, quando morreu, deixou-lhe sua pequena
empresa de transporte marítimo. Justin a converteu em um grande império.
Por isso sei, vai muito bem. — Dedicou a Lydia um olhar enviesado, temendo
sua reação —. Certamente contratam secretárias em sua companhia. Posso lhe
pedir trabalho.
Os olhos azuis de Lydia se abriram de par em par pela surpresa.
— Trabalhar? Annabelle!
— O único que interessa a meu irmão de mim é o dinheiro do
fideicomisso que recebo pessoalmente cada mês. Se não fosse por isso, faz
muito que teria que ter procurado trabalho como instrutora ou aceito me casar

~ 185 ~
com um de seus nojentos amigos para pagar alguma dívida.
— Annabelle, não diga isso. Seu irmão a ama. Estou certa.
A fé de Lydia nas pessoas a comoveu até o mais profundo.
— Não, não é assim e, certamente, está bem. Eu tampouco lhe guardo
muito afeto. Se quiser meu dinheiro, bem, deixarei que fique. Ganharei meu
próprio dinheiro honestamente e o gastarei como quero.
— Mas Dain… — tratou de argumentar Lydia.
— Dain é somente uma lembrança agradável que sempre conservarei
— disse, resoluta, embora enquanto falava as palavras se cravavam como
dardos em seu coração. — E agora — continuou forçando um sorriso —,
será melhor nos prepararmos para partir o quanto antes possível.
Antes de dormir, tinham colocado os vestidos emprestados por Dana
nas poltronas frente à chaminé. Dirigiu-se para eles e os contemplou com
novos olhos.
— Dificilmente vamos chegar em casa de minha tia vestidas assim —
raciocinou —. Me pergunto se deveríamos pedir a Dana que nos trouxesse
umas calças secas. Foi muito bom estarmos vestidas de homens. E, embora o
disse para incomodar Dain, realmente são objetos muito cômodos.
Uns golpes na porta evitaram que Lydia respondesse.
— Quem será a estas horas? — Perguntou Annabelle, encaminhando-
se para abrir.
Lydia lhe dedicou um olhar exasperado.
— Meu deus, Annabelle, é tão inteligente para algumas coisas e tão
burra para outras…
Não entendeu o que sua amiga queria dizer até que abriu.
Corou até a raiz do cabelo quando Dain apareceu do outro lado. O
conde levava posta a roupa da noite anterior e parecia muito acordado. Não
pôde deixar de notar que tinha o cabelo revolto.
Eram seus dedos os que lhe tinham dado aquele aspecto. O

~ 186 ~
pensamento fez que um calor úmido lhe percorresse a parte baixa do ventre.
— Bom dia!, lady Annabelle.
Apesar do formal da expressão, a ternura de seu olhar fez que lhe
afrouxassem os joelhos.
— Bom dia!, milorde. Levanta-se cedo.
O sorriso de Dain se intensificou.
— Foi uma noite reparadora.
A presença de Lydia se fez notada a poucos passos de Annabelle e
Robert voltou a atenção para ela.
— Bom dia!, lady Lydia. Espero que se encontre melhor.
— Assim é. Obrigada, milorde.
— Se me desculpar, vou roubar a sua amiga uns minutos.
— É obvio, milorde. Está em seu direito.
Quis negar-se, sabendo o que a esperava longe da Lydia, mas não viu
maneira de fazê-lo sem parecer descortês.
Afligida, saiu ao exterior. O corredor da estalagem continuava deserto.
Alegrou-se ao observar que tinha esquecido que ainda se achava de camisola.
O que acontecia a sua decência nos últimos tempos? Sua mãe morreria
enfartada se alguma vez soubesse da metade de suas aventuras nas últimas
semanas.
Cruzou a bata sobre o peito em uma tentativa inútil para parecer
apresentável e seguiu Robert, que aguardava junto à porta aberta de seu
quarto. Entrou em silencio no espaço que tinha abandonado poucos minutos
antes, tentando com esforço não olhar os lençóis revoltos da cama.
Supôs que seria sem sentido indicar a Robert que a situação era
inapropriada.
Alheio a seus pensamentos, o conde fechou a porta a suas costas e
percorreu a distância que os separava. Inclinou-se sobre ela e a beijou na boca.
Havia algo viciante em seus lábios. Com um suspiro, apoiou-se contra

~ 187 ~
ele e desfrutou da sensação de proximidade.
— Assim está melhor — disse o conde um segundo depois, lhe
dedicando um brilhante sorriso.
Parecia de bom humor essa manhã. Nunca o tinha visto tão sorridente
e, apesar de saber que tinha dormido muito pouco, não parecia realmente
cansado. Começou a pensar que possivelmente se precipitou em suas
conclusões.
Talvez Dain não se arrependesse do acontecido. Talvez tivesse
entendido que Annabelle era uma pessoa adulta, que tinha decidido entregar-
se a ele voluntariamente e que nada em todo o processo era reprovável.
— Não deveria fazer isso, milorde. Não é correto.
Uma coisa era Annabelle se entregar a ele. Outra, muito diferente, era
que ele se acreditasse com direito a beijá-la à menor oportunidade.
E mais tendo em conta o efeito perturbador que seus beijos lhe
provocavam.
Robert pareceu sentir saudades.
— Será correto em pouco tempo — a atraiu para si com firmeza.
Annabelle se deixou ir, mas quando ele se inclinou para voltar a beijá-la,
entendeu o que acabava de dizer.
Separou-se dele.
— Não será correto nunca.
— Claro que sim. Assim que nos casemos.
Annabelle fez um esforço para não fechar os olhos. Ele entendia que o
acontecido na noite anterior tinha sido uma decisão livre de ambos? Ha!
Maldito troglodita…
— Robert, não vamos nos casar — raciocinou, tentando manter um
tom neutro na voz.
O conde a olhou como se lhe tivesse falado em outro idioma.
— É obvio que sim. Levo os papéis comigo, foi um golpe de sorte que

~ 188 ~
decidisse agarrá-los antes de partir em sua busca. Mas não se preocupe —
acrescentou, interpretando mal o olhar de pânico dela —. Faremos uma
pequena recepção para celebrá-lo assim que tenhamos chegado em casa.
Possivelmente sua família possa vir de Londres. Será um bom momento para
que conheça nossos vizinhos…
Robert continuou falando, mas já Annabelle não o escutava. Por sua
mente passavam as cenas do futuro que lhe estava descrevendo.
O casamento. A celebração. As festas com os vizinhos, convertida na
anfitriã da casa de Dain.
A vida junto dele.
— Não, não! — Disse, possivelmente mais alto do que tinha
pretendido. Robert calou —. Não podemos nos casar. De maneira nenhuma.
— Possivelmente deveria tê-lo feito antes de te colocar em minha
cama.
As palavras lhe doeram, embora estivesse segura de que Dain não as
dizia com maldade. Simplesmente, era um homem pouco acostumado a ser
contrariado. Mas, naquele assunto, tinha encontrado a fôrma de seu sapato:
Annabelle não se renderia. Dava igual quanto o desejasse porque, na realidade,
ela o amava.
E aquela era a verdadeira razão pela qual não poderia ser sua mulher.
Surpreendeu-se pensando que, talvez, se não o amasse, tivesse calado seu
segredo. Mas não com o Dain. A ele, nunca poderia fazer isso.
— Você o disse. Meti-me em sua cama. Ninguém me obrigou, não me
seduziu. Não vou me casar contigo somente porque seu estúpido código de
cavalheiro diz que tenho que fazê-lo.
— Casará comigo porque estou lhe pedindo — argumentou isso com
voz fria. Seus olhos verdes a percorreram com lentidão —. O que fizemos
pode ter consequências. Suponho que pensaste nisso.
Annabelle ficou em branco. Não, é obvio que não tinha pensado nisso.

~ 189 ~
Realmente, não tinha pensado muito em nada.
— Saberemos se houve em pouco tempo, podemos esperar e depois
decidir…
— Não vamos esperar!
Aguentara-lhe o olhar, furiosos, durante segundos intermináveis.
Robert claudicou primeiro, suspirou e se aproximou dela.
— Annabelle, é minha noiva. Fizemos amor. Maldição, quero fazer isso
outra vez agora mesmo!
A sinceridade na voz dele e seu olhar carregado de intenção a
abrandaram um pouco.
— Escandalizaríamos a Lydia.
Robert voltou a tomá-la entre seus braços. Deixou-o abraçá-la, embora
permanecesse rígida a seu lado.
— Não há nenhum motivo válido pelo qual não devamos nos casar —
continuou ele.
Annabelle mordeu os lábios. Queria ser sincera. Contar-lhe exatamente
por que motivo não podia casar-se com ele.
— Você não me ama — disse em troca, sentindo-se miserável e
covarde. Não podia justificar-se com ele. Não estava preparada para sua
reação quando soubesse da verdade. E se a odiava? A olharia com desprezo
do mesmo modo que o tinha feito seu irmão desde que soube, muitíssimos
anos atrás?
Os olhos verdes de Dain a escrutinaram, inexpressivos.
— Eu não acredito no amor — explicou ele. Annabelle tentou ignorar
a pontada de desilusão que sentiu no peito —. E você é uma dama inteligente,
sem dúvida tampouco pode acreditar que exista essa absurda emoção da que
falam os poetas. O amor não é mais que paixão mal entendida ou obsessão,
não sei. Possivelmente se trata de simples e plena loucura. Sem dúvida não é
algo que queira em minha vida. Meu pai acreditou amar a minha mãe e viveu

~ 190 ~
um pesadelo. Eu não cometerei o mesmo engano.
Annabelle o olhou com uma pena infinita, enquanto as palavras
impregnavam em seu coração.
E se deu conta de que ela sim o amava. Com todo seu coração.
Amara com loucura àquele homem orgulhoso no mesmo instante em
que tinha posto seus olhos nele. Amava seus fortes princípios, o calor que
seus olhos mostravam quando falava de sua terra, sua determinação. Amava a
forma que seu olhar a fazia sentir-se especial, única. Diferente.
Maldição, apaixonou-se por ele.
— Então, milorde, não há nada mais que dizer — atalhou, escapando
de seu abraço e retrocedendo para a porta.
— Acaso você sente algo por mim?
Tinha caído em sua própria armadilha. Se dizia que não, mentiria-lhe.
Se confessava, ele o usaria contra ela, obrigando-a a cometer essa absurda
loucura do matrimônio.
— Não quero um casamento por compromisso, Robert — esquivou a
pergunta.
— Não será um casamento de compromisso!
— Ah, não?
— É obvio que não. Eu gosto de você, Annabelle. Parece-me divertida
e fascinante. Jamais tinha conhecido uma mulher como você, tão vivaz. Não
tem medo de arriscar-se pelo que acredita e é tão leal!
Annabelle não pôde evitar que suas palavras a enchessem de calor.
— Case-se comigo — continuou ele —. Possivelmente não te posso
oferecer amor, mas posso te dar tudo o resto.
«Não quero nada mais».
— Não é suficiente.
Voltou-se para ir. Mover-se custou um enorme esforço. Sentia a alma
partida em pedaços.

~ 191 ~
A voz de Dain a paralisou na porta:
— Ainda necessita minha ajuda.
Voltou-se, desejando que ele não houvesse dito isso.
— O que quer dizer?
Surpreendeu-se ante a transformação. Já não falava com o conde
aborrecido de Londres, nem com o amante apaixonado com quem tinha
compartilhado a cama. Falava com o lorde latifundiário, o homem tão
apegado à terra que estava disposto a romper todas as convenções sociais e
assim a fazer produtiva. O homem que tinha aprendido, desde pequeno, que
quando queria algo tinha que lutar por isso. Com todas as armas a seu alcance
que fosse necessário.
Todo rastro de calidez tinha desaparecido dele.
— É uma garota prática. Pediu-me minha ajuda para solucionar o
problema da Lydia e lhe devo isso.
— Milorde, sem dúvida não está sugerindo…
— Deve-me um favor — espetou ele, gélido.
Annabelle abriu os olhos em pânico.
— Não vou casar contigo por isso.
— Então, muito me temo que não tem nenhuma possibilidade.
— Prometeu que nos ajudaria.
— Prometi-te que não levaria Lydia de volta a Londres e não o farei,
mas acaso pensaste que eu fui o único que enviaram em sua busca? Pode
romper nosso compromisso agora e terão que partir sozinhas, ou pode aceitar
minha proposta e deixar que as escolte, a ti e a Lydia, até Northumberland.
O silêncio se tornou gelado entre os dois enquanto algo dentro de
Annabelle se quebrava e morria.
Pensou em lhe dizer a verdade. Confessar, ali mesmo, o horrível
segredo que carregava sobre os ombros. Devia lhe dizer exatamente por que
não poderia casar-se com ele. Por que nunca tinha podido.

~ 192 ~
Por que o tinha contemplado dançar um ano atrás outro, tinha seguido
suas aventuras nos jornais e desesperou por um olhar dele, sabendo que nunca
o poderia ter.
Mas as palavras nasceram e morreram em seus lábios. Algo dentro dela
se negava a acreditar que Robert seria tão ruim para negar-se a ajudá-las, mas
de verdade ia arriscar-se?
Sabia, porque tinha vivido muitos anos junto a seu irmão, quão mal
podia reagir um homem quando não obtinha o que queria.
O que fazer? Todo seu ser se agitou pelo dilema.
Robert desequilibrou a balança ao aproximar-se dela.
— Vamos, Annabelle. — Seus olhos tinham voltado à expressão
risonha daquela manhã e sua voz voltava a ter o tom rouco e pausado de
sempre —. Seja razoável, casarmos é uma boa opção. Eu necessito uma
esposa, você necessita um marido. Poderá ajudar muito mais a Lydia sendo
condessa, e sabe. Serei um bom marido. Todos ganhamos algo.
Exceto ela, pensou Annabelle. Ela perdia seu coração.
— De acordo, milorde.

~ 193 ~
Capítulo 24

A carruagem sacolejava. Fora, na boléia, Robert assobiava uma melodia


que lhe exasperava. O fazia tão alto e o fazia por tanto tempo que começava a
pensar que só tinha um objetivo: tirá-la do sério.
Annabelle apertou as mãos até cravar as unhas nas palmas. Odiava-o.
Oh! Deus, como o odiava.
— Não é verdade.
A voz a fez afastar o olhar do teto da carruagem e centrá-lo em Lydia.
Sentada frente a ela, sua amiga lhe sorria de forma angelical.
— O que disse?
— Não o odeia. Nem sequer te cai mal.
Annabelle entrecerrou os olhos.
— Falei em voz alta?
— Não precisava. Olha para cima com tanta intensidade que me
surpreende que seu traseiro não esteja envolto em chamas agora mesmo. E
isso seria uma pena.
— Didi! — Repreendeu-a escandalizada, mas a imagem mental fez que
começasse a rir de forma descontrolada. Parte da tensão que carregava
desapareceu —. Vamos nos casar.
Não houve mostras de surpresa.
— Claro que casarão. Disse-lhe isso esta manhã.
Annabelle mordeu o lábio inferior, pensativa.
— Não quero fazê-lo.

~ 194 ~
— Isso não é certo. Sim, quer se casar com ele.
— Mas não assim! — Explodiu —. O amo, compreende?
Para sua surpresa, Lydia pôs-se a rir.
— O que é tão engraçado? — Perguntou de mau humor.
— Acaso crê que isso é um segredo? Leva anos apaixonada por ele!
Deveria ver como se ilumina seu rosto quando Dain aparece.
— Sou tão transparente?
— Só para mim.
Annabelle suspirou, frustrada.
— Como é possível que o ame? Ninguém se apaixona assim, sem
conhecer a outra pessoa.
— Por que não? Eu nunca me apaixonei, mas teria querido que fosse
assim. Duas almas encontrando-se e reconhecendo-se. Sabendo no primeiro
instante que nasceram um para o outro.
Annabelle conteve uma careta.
— Desde quando é poeta?
— A partir de agora, conforme parece. — Lydia encolheu os ombros.
Levava um vestido que ficara grande e seu rosto ainda mostrava os
sinais da surra, mas parecia voltar a ser a mulher dinâmica e divertida que
Annabelle conhecia.
E o devia a Dain, reconheceu para si mesma.
Poucos homens teriam aceitado as ajudar. Lydia era uma fugitiva
procurada por seu pai e, se Gregers se saísse bem, também por seu flamejante
noivo. E a própria Annabelle tinha escapado da casa de seu irmão.
— No que pensa? — Perguntou Lydia.
— Robert não acredita no amor.
— Como é possível não acreditar no amor? — Os olhos azuis se
abriram muito —. Seria como não acreditar na chuva ou no sol!
Tocou a Annabelle encolher os ombros.

~ 195 ~
— Diz que é uma emoção própria de trovadores e se sente superior
algo assim.
Lydia riu.
— Certamente o conde de Dain não sabe do que está falando. Como
vai evitar apaixonar-se?
— Você crê que as pessoas podem mudar?
Sua amiga lhe sorriu com doçura.
— Claro que sim. As pessoas mudam constantemente. Só necessitam
do estímulo adequado.
Annabelle assentiu em silêncio, não de todo convencida. Passeou o
olhar pela carruagem, pensando. Dain tinha sido muito claro sobre o que
pensava do amor, mas acaso não tinha estado a própria Annabelle muito
segura de não amá-lo até que a verdade a tinha golpeado com força?
Por que não poderia acontecer o mesmo a Dain?
«Te odiará assim que saiba de seu segredo», martelou uma maligna voz
interior.
— O que crê que acontecerá quando souber da verdade? — Perguntou
antes de poder evitá-lo.
Seu amiga suspirou.
— Não há modo de saber. Deve ter fé em seu noivo.
Confiar.
Era mais fácil dizê-lo que fazê-lo, mas estava disposta a tentá-lo.
Annabelle deu de ombros. Nunca tinha deixado que o destino decidisse
nada. Simplesmente, não era das que se sentavam e esperavam. Não tinha
deixado ao acaso seu primeiro beijo e tampouco deixaria ao acaso sua futura
felicidade. Se existia a mínima possibilidade de que Dain e ela tivessem um
futuro juntos, não a estragaria esperando que o tempo pusesse as coisas em
seu lugar. Tomaria a iniciativa.
Seus olhos se centraram na cesta colocada sob o assento de Lydia.

~ 196 ~
Assentiu para si mesma. Ser amável era uma boa forma de começar.

A Robert a viagem estava parecendo muito longa. Geralmente não


usava carruagem quando ia a sua casa do norte, mas sim realizava o trajeto a
cavalo, o que lhe permitia sair do caminho principal em alguns lances e
percorrê-lo pelos atalhos paralelos, desfrutando da natureza agreste, tão
diferente à aborrecida campina que rodeava Londres.
Gostava de montar e era um bom cavaleiro. Nunca tinha demorado
mais de duas jornadas em alcançar as terras do condado de Northumberland.
Depois de três dias de interminável viagem, quando as primeiras
elevações montanhosas lhe indicaram que se aproximavam de seu destino
estava desesperado para chegar.
Conduzir o carro era um trabalho tedioso e solitário, e prometeu subir
o salário de seu chofer assim que voltasse para Londres. Tinha chovido boa
parte do caminho e estava cansado de notar a roupa úmida sobre a pele.
Um tamborilar rítmico sob seus pés o fez conter uma maldição. Deteve
a carruagem junto ao caminho e esperou. Era a quarta parada desde que
haviam partido da estalagem pela manhã, apenas cinco ou seis horas antes.
Se aquelas duas mulheres continuassem precisando ter momentos de
intimidade feminina cada poucos quilômetros jamais chegariam a seu destino.
A portinhola da carruagem se abriu e fechou com estrépito. Girou a
tempo de ver como sua noiva emergia por um lado. Quando se deu conta de
que ela tentava subir à boléia se inclinou para ajudá-la.
Annabelle se deixou cair a seu lado, ofegante. Levava consigo a cesta
com a comida que tinham comprado na estalagem anterior.
— Vá, tinha-te visto fazê-lo tantas vezes que pensei que era mais fácil!
— disse, tratando de recuperar o fôlego.
Fazia três dias tinha começado a agradá-lo, inclusive na presença de
Lydia, e gostava da mudança. Era a prova de que não teriam um casamento

~ 197 ~
como o de seus pais. Seu pai tinha chamado lady Laurens a sua mãe até o dia
de sua morte.
Sentiu como seu mau humor se esfumava. Faltava muito pouco para o
casamento.
Notou calor entre as pernas e a familiar pressão nas calças, uma
moléstia que levava dias sofrendo com frequência.
As duas noites anteriores, Annabelle tinha compartilhado quarto com
Lydia e ele tinha tido que aguentar a frustração. Tinha dormido pouco e mal.
As lembranças da única noite que tinham ficado juntos se agitavam
constantemente em sua mente.
Por sorte, Annabelle não notou seu manifesto desconforto. Estava
ocupada colocando as coisas que tinha subido com ela. Tirou da cesta uma
manta de viagem e a colocou sobre os joelhos de ambos.
— Faz muito frio — respondeu ela ante seu olhar interrogativo.
Retirou o capuz da capa e tinha as bochechas avermelhadas pelo ar gelado.
Robert dedicou um rápido olhar de interesse à cesta que tinha colocado
entre os dois.
— É hora de comer — foi toda a explicação que obteve.
Maravilhou-se pela mudança de atitude dela. Apesar de tratá-lo com
mais familiaridade, mostrou-se fria com ele desde sua última conversação a
sós. Fazia que se amaldiçoasse mil vezes por quão mal tinha conduzido todo o
assunto do casamento.
— Quer que nos detenhamos? — Perguntou tratando de mostrar-se
cortês.
— Não, continua. Se continuarmos parando jamais chegaremos — lhe
disse acusadoramente, como se tivesse sido Robert o culpado do constante
atraso.
Atiçou os cavalos e os pôs a caminho. A estrada corria entre planos
limpos, minimizando o risco de emboscada. Tratou de tranquilizar-se. Apenas

~ 198 ~
tinham cruzado com algumas pessoas naquele dia, a maioria camponeses que
iam ao moinho próximo e alguns viajantes a cavalo.
Esperava chegar a seu destino antes que caísse a noite. Notava a culatra
do revolver pressionando-o na cintura de um modo consolador. A
responsabilidade de proteger às duas damas pesava sobre ele como uma laje.
Virou-se para Annabelle no momento em que ela cortava com os dedos
um pedaço do que parecia ser bolo de maçã. Antes de entender o que
pretendia, alargou o braço para ele e o meteu em sua boca.
Robert mastigou, surpreso. Annabelle riu ante sua expressão.
— Tem que se alimentar.
Sentiu que algo quente se estendia dentro dele. Compreendeu que
gostava da companhia de sua futura esposa e, ainda mais, gostava que ela se
preocupasse com ele.
— Como se encontra Lydia?
— Dorme.
O olhar preocupado de Annabelle não lhe passou desapercebido.
— Está bem? — Perguntou-lhe.
— As feridas quase curaram por completo.
— Mas há algo que te inquieta.
Annabelle meditou uns segundos. Cortou distraidamente outra parte de
bolo, esta vez para ela. Depois repetiu o gesto e o ofereceu a Robert, que o
tomou com sutileza entre os lábios.
— Há algo estranho nela — disse, por fim —. Parece feliz e
despreocupada, talvez muito. Às vezes, quando a olho, dá-me a impressão de
que algo mudou, mas não sei o quê.
— Deve estar preocupada com sua situação, embora o dissimule —
aventurou Robert.
Annabelle mastigou em silêncio outra parte de bolo.
Robert tinha enviado quatro cartas da estalagem onde passaram a

~ 199 ~
primeira noite.
Na primeira, pedia a seu pai que organizasse seu casamento com
Annabelle. Tinha sido deliberadamente escasso em detalhes e sabia que lhe
devia uma boa explicação, quando chegassem a seu destino.
A segunda e terceira, similares, foram dirigidas a Elizabeth e a Adam. A
ambos tinha detalhado a situação e a este último tinha pedido para explicar à
família de Annabelle o ocorrido. Não tinha esquecido a suja jogada de seu
futuro cunhado, um tema que teria que resolver cedo ou tarde.
Na quarta carta, a mais difícil de escrever, Robert tinha informado ao
pai de Lydia que levava a sua filha ao norte, como dama de companhia de sua
noiva. Tinha escolhido cuidadosamente as palavras, mas sabia que serviria de
pouco. Se se fazia pública sua descarada intromissão nos assuntos de outro
homem ia provocar um escândalo.
Teria querido expor ao homem suas reservas sobre o matrimônio de
sua filha, mas não lhe parecia que fosse muito correto fazê-lo por carta.
Esperava que seu pai, velho conhecido do marquês, o ajudasse com todo
aquele assunto.
Esteve tentado em contar a Annabelle suas ações, mas não queria que
sua futura esposa albergasse esperanças vãs.
De momento, Lydia estaria a salvo com eles, e em casa de seu pai
ninguém poria reparos à situação. Tinham ganho tempo para sua causa,
embora ainda continuasse tendo uma difícil solução.
— Sei que está preocupada — disse Annabelle —, eu também o estou,
mas não é somente isso. Há algo mais.
— Dê-lhe tempo. Tudo é muito recente e só ela sabe quão mau foi o
que teve que passar.
— Ao menos não está em Londres — acrescentou ela, firme, e a
recriminação em sua voz lhe doeu.
Sabia que não tinha atuado bem ao empurrá-la a casar-se com ele

~ 200 ~
utilizando a sua amiga como desculpa. De fato, esperava sinceramente que,
quando a coisa se acalmasse e estivessem casados, Annabelle entendesse que
só o tinha feito para que ela fosse razoável. Jamais teria sido capaz de
empurrar Lydia à jaula dos leões.
— Annabelle, eu…
Ela sacudiu a cabeça e lhe indicou com um gesto da mão que deixasse
estar.
— Não é por isso pelo que subi aqui. — Leu sinceridade em seus olhos
castanhos e, durante um segundo, aquele olhar o apanhou.
— Por que subiste?
Annabelle tomou outra parte de bolo entre os dedos e o aproximou dos
lábios de Dain. Ele se aproveitou. Lambeu os dedos dela, recordando
nitidamente o que o tinham feito sentir.
Teve que fazer um esforço para engolir o bolo.
— É muito belo — disse Annabelle e o coração de Dain deu um salto
absurdo ao pensar que falava dele.
Depois se fixou que ela falava da paisagem e ruborizou violentamente.
Obrigou-se a afastar o olhar do dela.
— Alegra-me que aprecie.
— É muito diferente de Londres. Entendo porque pouco estiveste ali
nestes quatro anos.
Aquilo o surpreendeu.
— Como sabe que não fui a Londres?
Annabelle tomou a parte de bolo que ficava e o ofereceu. Depois
sacudiu as mãos e se inclinou para fechar a cesta e deixá-la a seus pés.
— Realmente tem muito má memória.
— Insiste nisso desde que te conheci. Pode-se saber o que é tão
importante que esqueci?
— Não recorda. — Um véu de verdadeiro desencanto nublou sua vista

~ 201 ~
por um momento e Dain quis flagelar-se por esquecer o que se supunha que
tinha esquecido.
— Explique-me isso por favor.
— Há quatro anos fomos apresentados em um baile.
Robert não se alterou. Supunha que tinham sido apresentados em
algum momento do passado, embora por mais que o tentasse não conseguia
recordar quando.
— Quem nos apresentou? — Perguntou, tratando de fazer uma ideia.
O sorriso de Annabelle se ampliou.
— Lorde Adam East, duque de Allendale. Um homem soberbo.
Durante uns segundos a mente de Robert ficou em branco. Depois,
recordou que, ao felicitá-lo por seu compromisso, Adam lhe havia dito que
conhecia Annabelle desde anos antes.
E tinha esquecido de lhe dizer que ele mesmo os tinha apresentado? Ia
fazer com que seu amigo sentisse semelhante descuido.
— No que pensa? Te enrugou o cenho — disse ela, elevando a mão e
acariciando com suavidade a fronte de Robert. Este aspirou bruscamente,
surpreso pelo contato. Foi má ideia. O aroma das maçãs se mesclava com sua
exótica mistura pessoal, tornando quase irresistíveis a vontade de lambê-la.
Desejou beijar a gema daquele dedo. E depois continuar por todo o
comprido braço. Meter-se sob a capa dela e fazê-la entrar em calor de outra
maneira.
Apertou os punhos sobre as rédeas até magoar.
— Temo que Allendale esqueceu de mencioná-lo.
— Não o tenha em conta, suponho que não gosta de recordar aquela
época.
Robert pensou na época em que Adam tinha conhecido Laura. Durante
os meses do cortejo de Allendale ele se havia sentido desconjurado. De
repente seu companheiro de farras estava mais interessado em assistir a bailes

~ 202 ~
e recitais. Provavelmente fora a única época de sua vida em que tinha sido um
homem superficial.
Então sim recordou.
— Foi você! — Espetou acusadoramente, embora seu tom de voz só
conseguiu que sua noiva risse —. Foi aquela garota.
— Vejo que se lembra. Dançou comigo no baile dos Winchester, faz
quatro anos. E devo dizer que não se comportou como um cavalheiro. Parecia
tão interessado que, ao dia seguinte, minha mãe me fez levantar às sete da
manhã e suportar um penteado que durou três horas.
Robert sorriu, imaginando que tinha feito que a viscondessa limpasse a
melhor baixela. Recordava a moça risonha com quem tinha dançado. Era uma
doce flor, não muito diferente de todas as demais. Passou toda a valsa falando
com emoção de Londres, da temporada e dos bailes. Tinha-lhe parecido
superficial e inculta, e seu modo rígido de dançar lhe indicou que fora do salão
seria exatamente igual. Tinha sido cortês com ela, talvez muito, mas quando o
baile terminou a tinha apagado de seus pensamentos.
Pouco depois desse dia, deu-se conta de que não era feito para Londres
e tinha retornado a seu lar.
Não estava certo por que a tinha escolhido então, mas estava claro que
Annabelle tinha mudado muito em quatro anos. Se seu olhar tivesse sido tão
resolvido então, possivelmente ele teria feito boas as expectativas da
viscondessa e teria ido tomar o chá no dia seguinte.
— Mudei. Pareceu lhe ler o pensamento —. Já não sou a dama que era.
Nem sequer tenho claro que seja uma dama.
— Alegro-me — disse sinceramente. Annabelle o olhou, aniquilada —.
Foi muito bela faz quatro anos, mas agora é espetacular.
Perdido no olhar dela, Robert fez com que os cavalos fossem mais
devagar, agradecendo na alma que os velhos animais quase não necessitassem
guia. Não estava seguro de poder governar nada naquele momento.

~ 203 ~
— Robert, há algo que devo te dizer.
Viu desespero em seus olhos e o cavalheiro dentro dele o empurrou a
fazer o correto.
— Annabelle, se tanto te repugna a ideia de ser minha esposa, não te
obrigarei a isso. Não devolverei a Lydia a seu pai nem direi ao marquês onde
pode encontrá-la. Ambas terão meu amparo e me assegurarei…
Um dedo da mulher em seus lábios o calou de forma efetiva.
— Não há nada no mundo que deseje mais do que ser sua esposa —
afirmou ela, tomando-o de surpresa. Havia sinceridade em sua voz e lágrimas?
—. Entretanto, temo que quando te disser o segredo não quererá se casar
comigo. Só espero que não me odeie.
— Intriga-me. Não acredito que haja nada no mundo que me faça
desistir em meu empenho.
— Milorde, eu…
Não pôde evitá-lo. Beijou-a. Queria que ela entendesse que ele jamais
dava sua palavra em vão. Tinha prometido tomá-la por esposa e isso faria, não
importava o que ela tivesse a dizer.
Desfrutou do contato. Os lábios de Annabelle eram carnudos e se
abriram sob seus desejos. Abraçou-a com força, desfrutando do aroma de
baunilha e lima dela. Era doce e embriagador. Queria tê-la nua sob seu corpo
e lamber cada centímetro de sua pele.
O som de uns cascos de cavalo aproximando-se a toda velocidade fez
que ambos girassem a cabeça, a tempo de ver como um belo puro sangue
espanhol de cor negra se equilibrava sobre a carruagem.
A menos de dez metros, o cavaleiro conseguiu domar ao animal e este
se deteve com uma tensa sacudida, ofegando e soltando babas pela boca.
Robert não pôde menos que amaldiçoar com toda sua alma o sentido
de oportunidade do duque de Allendale.

~ 204 ~
Capítulo 25

Pela expressão divertida no rosto de Allendale, a Annabelle não coube


nenhuma dúvida de que tinha visto com perfeição o que ambos faziam na
boléia.
Sentiu-se corar até a raiz dos cabelos. Tinha certeza que, até por volta
de umas semanas, não recordava haver-se ruborizado jamais, mas desde que
Dain tinha entrado em sua vida parecia seu estado natural.
— Parece que desfrutam da viagem — disse o recém-chegado como
saudação.
A seu lado, Dain grunhiu.
— Temo que não sabe acatar ordens, Allendale. Acreditei te haver dito
que ficasse em Londres.
— Permanecer encerrado na cidade quando todo o divertimento está
acontecendo no campo? — Adam abriu muito os olhos —. De verdade
esperava que obedecesse?
O conde resmungou algo incompreensível.
Embora o duque de Allendale lhe tenha causado sempre boa
impressão, face aos rumores sobre ele que eram sempre a fofoca de Londres,
naquele momento Annabelle não se alegrou absolutamente de sua presença.
Pediu a Dain que detivesse a carruagem.
— Quero comprovar como se encontra Lydia.
— Ah, sim. A fugitiva. Toda Londres fala disso — comentou Adam,
aproximando seu cavalo da carruagem, embora as cortinas fechadas lhe

~ 205 ~
impedissem a visão —. Não tem que descer se não o deseja, lady Annabelle.
Não falarei com ninguém sobre a incorreta situação em que os achei.
O modo superficial de falar do duque de Allendale começava a
incomodá-la. Dirigiu um rápido olhar ao homem a cavalo.
Tinha-o conhecido na mesma temporada que ele a Laura, com a qual se
casaria somente dois meses depois. Recordava-o como um homem viril e
generoso que, inclusive depois de casar-se, estava acostumado a prestar-se a
dançar com as amigas de sua mulher nas festas e fazia o possível para as
ajudar a conhecer os cavalheiros solteiros. Adam era uma companhia tão
corrente que todas estavam um pouco apaixonadas por ele. Era alegre,
francamente divertido e um pouco irreverente. Junto a seu físico atraente
formava uma combinação explosiva.
É obvio, todo mundo sabia que só tinha olhos para sua esposa. Sua
felicidade conjugal era comentada entre cochichos invejosos. Era impossível
passar por cima dos olhares de adoração que ambos se dirigiam.
Deu-se conta de que agora era muito diferente. Parecia ter envelhecido
dez anos, embora apenas tivesse acontecido há quatro, tinha perdido muito
peso e as maçãs do rosto enxuto destacavam seu rosto. Um sorriso cínico
parecia coroar todas e cada uma de suas frases.
Continuava sendo um homem atraente, mas estava claro que Laura
levou parte de sua alma com ela à tumba. Sentiu uma pena entristecedora ao
pensar no homem que Adam tinha sido.
— Não se preocupe comigo, milorde. Preciso comprovar como se
encontra minha amiga, a fugitiva — acrescentou com cinismo, sem poder
evitá-lo —. Por favor, Robert.
Obediente, o conde deteve de novo a carruagem e se inclinou para
ajudá-la a descer. Os olhos verdes de Dain ardiam um pouco com algo
parecido à fúria. E também algo mais, algo sombrio e perigoso que fez com
que o coração de Annabelle bombeasse mais depressa.

~ 206 ~
Robert esperou até que Annabelle tivesse entrado na carruagem para
voltar-se para Adam, que parecia ter um interesse inusitado em suas unhas,
apesar de levar as luvas postas.
— Como vão as coisas em Londres? — Perguntou, resistindo o
impulso de descer e pegar a seu melhor amigo.
— Estranhamente tranquilas. O marquês de Derby não tem feito
nenhum movimento, embora suponha que não demorará. Não poderá manter
a fuga de sua filha em silencio durante muito mais tempo.
— E Weymouth?
— Fui visitar a ele e à viscondessa como me pedia em sua missiva faz
uns dias. Comuniquei-lhes que tinha encontrado a Annabelle e fingi não saber
nada da Lydia. Dei-lhes minha palavra de que te casaria com a garota assim
que tivesse uma oportunidade.
— Acredito que isso adoraram.
— A viscondessa sim, pode estar certo. Durante um segundo inclusive
temi que sorrisse — disse Adam esboçando uma careta de horror —. Mas
acredito que a seu futuro cunhado não lhe cai muito bem.
— O que te faz pensar isso?
— Sou bom interpretando pessoas — argumentou com insuportável
prepotência —. E pude vê-lo em seus olhos. Terá que andar com cuidado.
— Crê que tratará de impedir o casamento?
— Duvido-o. Tem muitos problemas dos que ocupar-se em Londres.
— E, ante o olhar interrogador de Robert, pôs os olhos em alvo —. Core o
rumor de que deve muito dinheiro.
— No Davis?
— E em alguns outros. E acredite, no mundo dos clubes de jogo, um
verdadeiro antro como Davis é quase o Palácio de Buckingham. Pode
imaginar os métodos de outros, mas te asseguro que enviar cartas lacradas não
está entre eles. Se seu futuro cunhado sair de Londres, essa gente suporá que

~ 207 ~
está fugindo.
— E o caçarão.
— A menos que desapareça antes — finalizou Adam —. Acredito que,
finalmente, terá que se encarregar do problema de seu cunhado se não quiser
que sua esposa sofra.
— Sabe alguém onde nos dirigimos?
Seu amigo lhe dedicou um sorriso forçado.
— Toda Londres, querido. E dado quão aborrecida está sendo a
temporada, não me estranharia que todos decidissem visitar em massa ao
venerável marquês de Laurens. — Assinalou o interior da carruagem —. Case-
se logo com ela ou não terá lugar onde acomodá-los a todos.
Robert não pensou duas vezes, incentivou os cavalos e os pôs a
caminho.

~ 208 ~
Capítulo 26

Lydia despertou no momento em que a carruagem entrava, estralando,


na rua principal de Warkworth Town.
— Chegamos já? — Perguntou bocejando e estirando-se com
dissimulação.
— Acredito que sim — lhe respondeu Annabelle com o nariz pego ao
guichê —. Oh, vem ver isto! É um povo adorável.
Lydia se acomodou a seu lado e juntas contemplaram a rua principal,
tão larga que parecia uma avenida, e as casas de pedra que se levantavam dos
lados. A Annabelle não custou muito imaginar o Warkworth medieval, com os
senhores escoceses passeando em kilts por aqueles lugares.
— Sim que é — lhe deu razão Lydia —. Crê que Robert nos permitirá
visitá-lo depois do casamento?
O casamento. Annabelle tremeu ante a perspectiva.
Não teve que responder, o eco de vozes masculinas chegou até elas,
fazendo que Lydia empalidecesse em seu assento.
— Tranquila — lhe sussurrou ao ver a expressão de sua amiga —. Só é
lorde Adam East, um amigo de Dain.
— O duque de Allendale?
Annabelle se surpreendeu.
— Conhece-o?
— Vi-o um par de vezes — murmurou, mas Annabelle se fixou em
suas bochechas avermelhadas.

~ 209 ~
— Você gosta dele! — Exclamou, entre divertida e horrorizada.
— É obvio que não! — Acrescentou Lydia —. Só que me parece
interessante. Sabe as coisas que se dizem dele em Londres?
Annabelle assentiu. Teria que ter vivido debaixo de uma pedra para não
conhecer a reputação de Allendale.
— Já sabe como são os rumores. — Encolheu os ombros —. Poderiam
ser exagerados.
Embora intuía que não o eram. Havia algo na pessoa em que Adam se
converteu que não conseguia gostar, mas não lhe parecia adequado falar mal
de um amigo de Robert.
Voltou a encolher os ombros.
— Há algo estranho nele. Parece amável de forma natural e, depois,
quando fala… É como se não quisesse sê-lo.
Lydia abriu os olhos, assombrada.
— Por que ia fazer isso?
— Não tenho nem ideia.
— Crê que ele saberá o que está acontecendo em Londres? —
Perguntou Lydia.
— Sem dúvida nenhuma.
— Nesse caso deveria lhe perguntar.
O rosto de Lydia refletiu inquietação.
— Preocupa-se com os rumores?
— Preocupa-me o que pense meu pai — sussurrou, dirigindo o olhar
fora da carruagem.
Annabelle percorreu a sua amiga com o olhar. Ali estava de novo, a
sensação de que algo tinha mudado nela, embora por fora tudo continuasse
exatamente igual.
Agitou a cabeça, afastando de si aqueles estranhos pensamentos.
Concentrou-se no estalo continuado da carruagem e no modo em que esta

~ 210 ~
reduzia a velocidade.
Quando voltou a inclinar-se para olhar pela janela, conteve o fôlego.
Warkworth Manor, a casa do conde de Dain, era tão imponente que
teve que olhá-la fixamente durante vários segundos para assegurar-se de que
não se tratava de uma assombração.
O castelo tinha sido construído no topo de uma colina. Um caminho
serpenteava e ascendia trabalhosamente por ela.
— Meu Deus! Essa será sua casa? — Perguntou Lydia, aniquilada, e
soube que estava pensando o mesmo que ela: que as casas de campo que
tinham visto até esta data empalideciam em comparação.
Annabelle sabia por quê.
— Os condes de Dain não construíram esta casa como lugar de férias
— explicou, recordando o que Robert lhe tinha contado no baile dos
Montford —. É uma antiga fortaleza medieval.
— Aí é onde vive o pai de Dain?
— Não, existem duas casas. Uma pertencente ao marquesado de
Laurens, onde vive o pai, e esta, que é a do Dain. Não tinha nem ideia de que
seria assim — acrescentou para si mesma.
Enquanto subiam pela colina, obtiveram uma visão inesquecível do
castelo. Este parecia estar formado por um edifício central de pedra mais
escura e corte quadrado que, se Annabelle não tinha esquecido por completo
suas aulas de história, devia tratar-se da construção mais antiga. A ambos os
lados se acrescentaram duas alas mais modernas, em um tom de pedra mais
pálido.
O complexo resultante era imponente e feroz. O cinza da pedra
contrastava com a verde planície onde assentava. Perguntou-se que aspecto
teria na primavera, quando as flores crescessem no prado que o rodeava.
Não era difícil imaginar como teria sido Warworth Minor quando foi
construída. Quase era possível evocar aos grandes senhores feudais que a

~ 211 ~
tinham habitado treinando para a batalha naqueles prados.
As pequenas janelas disseminadas por toda a construção a faziam
pensar em jovens damas bordando tapeçarias atrás delas.
A carruagem se balançou um pouco e ambas se amontoaram no guichê
para olhar ao exterior. Embora a muralha que em outro tempo devia rodear o
castelo tivesse desaparecido, os condes de Dain tinham conservado o fosso e
a ponte sobre o mesmo.
Não teve muito tempo para assombrar-se. Poucos minutos depois a
carruagem se deteve.
— Está nervosa? — Inquiriu Lydia em um sussurro.
Limitou-se a assentir com a cabeça.
A porta se abriu e viu seu noivo. Não tinha bom aspecto. Parecia
cansado e com olheiras, e a roupa que levava estava enrugada. O ar tinha lhe
alvoroçado o cabelo.
Sabia que elas duas não mostravam melhor aspecto. Nas estalagens em
que tinham parado pelo caminho tinham conseguido alguma roupa e se lavar,
mas depois de dias de dura viagem estava disposta a matar por um banho em
melhores condições e uma peça de roupa que não ficasse nem grande nem
pequena.
Lydia desceu primeiro da carruagem, ajudada por Robert, e Annabelle
escutou seu gemido afogado. Um segundo depois, quando a seguiu ao
exterior, entendeu por quê.
Muito tarde, recordou que Robert tinha avisado de sua chegada.
O serviço completo aguardava a chegada da futura senhora de
Warkworth Manor. Annabelle teria apreciado o gesto se não fosse porque,
com as toucas recém engomadas e o traje de servir de gala, os serventes
pareciam muito mais elegantes que ela. E muito mais limpos.
Suspirando, ia dirigir-se a saudá-los quando se fixou nas duas figuras
plantadas a poucos metros da carruagem. O duque de Allendale desceu então

~ 212 ~
do cavalo e se dirigiu diretamente para elas. O mesmo fez Robert.
Annabelle o seguiu, sentindo-se empalidecer.
Se alguma vez lhe houvessem dito que ia conhecer o marquês de
Laurens, vestida com a roupa velha de uma taberneira teria rido bastante.
Quase tanto como se alguém a tivesse avisado de que esse homem, alto,
sereno e de rosto sério, seria seu sogro.
Tinha se encontrado com Elizabeth em alguns bailes, por isso quando
esta lhe sorriu afavelmente se dirigiu para ela com o louco desejo de refugiar-
se atrás de suas saias.
Sua futura cunhada granjeou sua simpatia no mesmo momento em que
a conheceu, mas naquele instante a quis um pouco menos: o conjunto de
passeio em seda azul turquesa que trazia — com luvas e chapéu combinando
— deixava à altura do betume o maltrapilho vestido dela.
A seu lado, um homem enorme observava a comitiva com ar grave.
Não teve que esperar para ver como Robert se adiantava e estreitava a
mão do cavalheiro para supor que se tratava do marquês de Laurens.
A semelhança com seu filho era assombrosa. Apesar dos anos de
diferença, ambos tinham o mesmo cabelo dourado escuro — o do marquês,
entremeado de prata —, a mesma expressão solene e os mesmos olhos verdes.
— Elizabeth, como demônios chegaste até aqui antes de nós? É quase
impossível! — Saudou Robert a sua irmã, inclinando-se para lhe dar um beijo
na bochecha.
Annabelle se surpreendeu. Não mostrar afeto em público era uma regra
sagrada da aristocracia. Perguntou-se se as coisas se fariam de forma diferente
no norte.
— Nada no mundo faria que eu perdesse o casamento de meu
irmãozinho — argumentava Elizabeth então.
— Mas como o fez? — Voltou a perguntar Dain, sem deixar-se
enganar pelo tom afetuoso de sua irmã. Depois olhou a seu redor e

~ 213 ~
entrecerrou os olhos, pensativo — Onde está seu marido?
— Dormindo — reconheceu então Elizabeth entre dentes.
Robert rompeu a rir.
— Quanto tempo demoraste para chegar? Três dias?
— Dois.
— Será possível que tenha vindo de Londres diretamente sem
descansar? É uma fofoqueira exímia!
— Robert, não martirize a sua irmã — se interpôs o marquês —. E faça
o favor de me apresentar.
— É obvio, senhor. Tenho a honra de lhe apresentar a lady Lydia
Blount. Uma mulher encantadora.
— Não me cabe nenhuma dúvida a respeito — disse o marquês,
inclinando-se com formalidade ante a jovem.
Lydia respondeu com uma reverência perfeita. Certamente, aquela
mulher tinha uma classe inata.
— E minha noiva, lady Annabelle Weymouth.
A aludida se inclinou em uma reverência.
— Milorde.
O marquês lhe respondeu com um solene gesto de cabeça… antes de
equilibrar-se e estreitá-la em um apertado abraço de urso.
— Moça! — Exclamou afetuosamente —. Quase tinha perdido a fé em
que este bruto que tenho por filho conseguisse uma esposa adequada. Mas ao
ver-te, devo reconhecer que meu herdeiro foi muito esperto. Sem dúvida,
estava esperando por você.
Pelo olhar espantado que lhe dirigiram seus filhos, Annabelle intuiu que
aquele comportamento não era frequente em seu progenitor.
— Milorde — respondeu, afogada pela cálida sensação de aprovação…
E o apertado abraço.
Laurens se retirou. O sorriso pleno que lhe dedicou fez que a

~ 214 ~
semelhança com o seu filho se acentuasse.
— Sempre pensei que meu filho se casaria com uma dessas moscas
mortas que pululam por Londres, sabe? — Disse fingindo estremecer de
horror — Alegra-me muitíssimo que não tenha sido o caso.
A Annabelle aquele homem caiu nas graças imediatamente.
— Como sabe que eu não sou uma delas?
O marquês lhe dedicou um olhar incrivelmente parecido com o de seu
filho.
— A última missiva que recebi de Londres, faz duas semanas, falava de
um compromisso apressado com uma moça desconhecida para mim. E aqui
está hoje, poucos dias depois. Nenhuma outra dama teria feito que meu
Robert perdesse desse modo a cabeça. Soberbo!
Annabelle riu.
— Se tivermos terminado com as apresentações, possivelmente
poderíamos entrar… — Tratou de cortar Robert de mau humor.
— Isso é porque ainda não sabe tudo, papai — arremeteu Elizabeth
com sorriso inocente, ignorando a seu irmão —. Durante o jantar, deveria
pedir a Annabelle que te conte como conseguiu comprometer-se com seu
filho.
Annabelle abriu os olhos, aflita, mas o olhar risonho do marquês
eliminou suas reservas. Não havia troça nas palavras de Elizabeth, a não ser
franca diversão. Saber que tinha ido parar em uma família tão pouco dada aos
protocolos sociais como ela mesma, lhe elevou o ânimo.
Seu noivo parecia ter ficado com todo o decoro da família, o que só o
tornava ainda mais divertido.
— Poderia ser que fosse uma conduta escandalosa? — Perguntou o
marquês, ensaiando com êxito um olhar carrancudo. O brilho de seus olhos
desmentia sua expressão.
— Certamente, milorde — se apressou a corroborar —. Da mais

~ 215 ~
escandalosa.
— Arrumado a que meu irreprovável filho não sabia onde meter-se.
— Bom, já está bem! — cortou Dain —. Annabelle, sei que foi uma
viagem pesada e provavelmente não tem vontade de nada mais além de
dormir, mas pedi a meu pai que organizasse nosso casamento para esta mesma
tarde. Temo que as circunstâncias especiais da união o fazem necessário.
— É obvio, milorde — respondeu, analisando o semblante de seu
noivo. A cara de Dain não mostrava nenhuma emoção. Aquilo esfriou sua
alegria —. Estarei pronta quando queira.
O marquês de Laurens se adiantou e ofereceu o braço a Annabelle.
— Se me fizer a honra de me acompanhar ao interior, eu gostaria de
trocar umas palavras com você.
— É obvio, cavalheiro.
Tomou o braço do homem e o seguiu ao interior.
— Lady Annabelle, lamento muitíssimo que sua família não se encontre
presente — lhe disse assim que se afastaram um pouco dos outros —. Sinto
particularmente que seu irmão não se encontre conosco para entregá-la no
altar — «Eu não», pensou Annabelle —. Em outros tempos, fui um bom
amigo de seu pai. Ele esteve comigo nos piores momentos de minha vida e
sempre o agradeci.
— Sei que o afeto era mútuo, senhor.
— Seria uma enorme honra para mim acompanhar sua filha ao altar.
Annabelle sentiu como lhe formava um nó na garganta.
— Me sentirei muito honrada, milorde.
— Por favor, me chame Robert. Desde este momento é para mim mais
uma filha.
Annabelle sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas, mas não queria
sucumbir à tristeza. Fazendo um esforço, sorriu ao marquês e disse:
— Não crê que será um pouco confuso? — Assinalou a seu noivo —.

~ 216 ~
Como vou chamá-lo então?
— Pode usar seu segundo nome.
Robert, a suas costas, conteve um gemido. Annabelle o olhou com
curiosidade um instante e depois voltou a atenção para seu futuro sogro.
— Qual é seu segundo nome?
— Ninguém tem fome? — Perguntou Robert a voz em seu pescoço,
mas não pôde sossegar a voz do marquês dizendo:
— Seu segundo nome é Theodore. Robert Theodore Oswald Charles
Wilts. — Fez uma pausa —. O escolheu sua mãe argumentando que era um
nome elegante. Eu aceitei porque me pareceu, sobre tudo, conciso.
Um coro de risadas seguiu às palavras do marquês.
— Acredito que o chamarei Theo — refletiu em voz alta, provocando
que a hilariedade aumentasse.
A chegada de uma carruagem sossegou as vozes. Robert o olhou uns
instantes e depois voltou a vista para seu pai.
— O pastor Sutton? — Gemeu.
O marquês de Laurens encolheu os ombros.
— É o pároco da aldeia. Teria sido uma terrível humilhação pedir a
outro.
Mas era evidente que, para Robert, qualquer outro teria sido preferível.
— O que aconteceu? — Perguntou Annabelle a Elizabeth, que se tinha
aproximado deles, em voz baixa. Lydia se inclinou para escutar também.
— O pastor Sutton é famoso por ser muito estrito sobre as doutrinas
da fé — sussurrou a mulher —. Considera a meu irmão um libertino desde
que soube que tinha uma amante em Londres. — Fez uma pausa,
repentinamente violenta, e a olhou, como se temesse ter falado muito.
Annabelle lhe sorriu com confiança.
— Formou um escândalo? — Perguntou, divertida.
— Oh! sim, apresentou-se em Warkworth Major e pediu uma audiência

~ 217 ~
com meu pai. Como não conseguiu grande coisa, dedicou todo um mês de
sermões aos pecados da carne e a luxúria. O povo inteiro soube do assunto da
amante de Robert. Ainda hoje dirige uma pregação semanal com o único fim
de salvar a alma corrupta de meu irmão.
Annabelle quase riu ao imaginar a indignação de seu robusto noivo ante
a divulgação daquele pecado venal.
— Por que vem em carruagem?
Elizabeth sorriu de forma enigmática.
— O pastor Sutton jamais viaja sem a senhora Sutton.
Annabelle começou a entendê-lo. Tinha conhecido suficientes esposas
de clérigos para saber do que falava sua futura cunhada.
— Ela é pior que ele?
— Muito, muito pior. Não vai a nenhuma parte sem seu frasquinho de
sais e está acostumada a recorrer a eles sempre que alguém diz algo muito
vulgar… o que costuma a acontecer com assombrosa frequência segundo seu
critério.
Annabelle dirigiu uma breve olhada ao rosto decomposto de Robert e
ampliou seu sorriso.

~ 218 ~
Capítulo 27

Nunca havia se sentido tão mal. Estava tão nervosa que tremia dentro
do traje emprestado por Elizabeth. Uma parte dela sabia que devia sair
correndo, gritar, impedir aquele casamento. Mas seu corpo se negava a mover-
se e, contra todo seu bom julgamento, seu coração saltava de felicidade.
Seu noivo parecia espetacular. Tomara um banho e o cabelo loiro caía
em perfeitas ondas sobre suas têmporas. O traje azul que vestia destacava a
cor de seus olhos e a forma perfeita de suas costas. Annabelle sabia de
primeira mão que aquela perfeita silhueta não era obra do bom ofício de
nenhum alfaiate.
Uma onda de calor a percorreu por inteiro.
Tinha reservas, sim, mas quando os olhos de seu futuro esposo se
cravavam nela, estas diminuíram um pouco. Robert sentia algo por ela. Seu
próprio pai o havia dito: de outro modo, nunca teria tido um comportamento
tão alheio a sua natureza.
Sim, possivelmente não a amava, mas o faria. Ela seria uma boa esposa
e juntos formariam um bom casal.
E quanto a seu segredo, estava tão farta de carregar com um peso que
não era seu. Ela não tinha feito nada de mal. De verdade devia sacrificar sua
futura felicidade pelos enganos de outros? Devia ter sido sincera com o
Robert antes do casamento, mas prometeu sê-lo logo.
Depois de tudo, possivelmente havia esperança para eles.
O pastor Sutton testou a garganta e Annabelle se deu conta de que

~ 219 ~
tinha permanecido muito tempo olhando fixamente seu noivo. Com um
sorriso, voltou-se para o pároco. O olhou de lado e viu como Robert arqueava
uma sobrancelha antes de o fazer ele próprio.
O cenho do pastor ficou mais profundo. Era evidente que Robert não
era sua pessoa favorita no mundo.
— Irmãos, reunimo-nos aqui hoje para unir em santo matrimônio a
duas almas bondosas. — Annabelle fez um esforço por conter a risada ante a
expressão beatífica de seu noivo —. O casamento é a união de duas pessoas
no amor. É solene e duradouro, imperecível. Os que se unem em matrimônio,
estão destinados a compartilhar suas vidas para sempre.
Ao escutar as palavras do pastor, Annabelle perdeu a hilariedade. Nos
últimos anos, acabara por assumir que nunca se casaria. Agora, de pé no altar,
deu-se conta de que não tinha conhecido nenhum homem com o que tivesse
querido compartilhar sua vida. Só Robert.
Ele respeitava seu caráter, não tentava dominá-la nem oprimi-la.
Tratava-a como a uma pessoa responsável por seus atos, não como a uma
menina ou a uma desencaminhada.
E o amava por isso.
Um calafrio de espera a percorreu por inteiro:
— Lady Annabelle, aceita como legítimo marido…
O golpe da porta da capela ao abrir a fez saltar, girou e sentiu que todo
o ar abandonava seus pulmões. O sorriso maligno de seu irmão lhe disse tudo
o que precisava saber.
Ele tinha chegado a tempo para destruir tudo.

Robert olhou seu futuro cunhado com uma irritação próxima do ódio.
O sorriso deste o fez franzir o sobrecenho.
— Lorde Weymouth, me alegro que tenha podido chegar ao casamento
de sua irmã. Se quiser tomar assento…

~ 220 ~
Mas o homem fingiu não havê-lo ouvido e avançou pelo corredor da
capela. Seu rosto mostrava um estranho sorriso sem alegria e seus olhos duros
estavam fixos nos noivos. Adam se levantou do banco da primeira fila onde
tinha estado sentado e fez ameaça de interceptar Albert, mas Robert o deteve
com uma quase imperceptível negação de cabeça.
Não queria dar àquele indivíduo a satisfação de estragar o casamento de
Annabelle.
— Temo que não haverá casamento, milorde.
— Desculpe?
O sorriso do visconde se ampliou ao percorrer sua irmã com o olhar.
— Lindo vestido. Terá que devolvê-lo antes que partamos. Temo não
ter dinheiro suficiente para alugar uma carruagem. Faremos a viagem de volta
a cavalo.
— Não vou a nenhuma parte — exclamou Annabelle com firmeza e
Robert sentiu que a tensão de seu peito se afrouxava um tanto.
— É obvio que o fará — espetou seu irmão —. Não permito que se
case com ele. Não há discussão possível.
Enquanto falava, aproximou-se deles. Em um gesto reflexo, Robert se
colocou diante de Annabelle. Albert lhe dedicou um sorriso maligno, como se
lhe parecesse engraçado sua tentativa de apoio.
— Ela é livre de tomar a decisão que queira.
— Não, não o é. Eu sou o chefe de sua família.
— Nenhuma lei te dá o direito de lhe proibir que se case! — Gritou
uma voz feminina e fez que a cabeça de todos os pressente se virassem em
direção a Lydia, que tinha se posto de pé e olhava a Albert jogando fogo pelos
olhos.
— Oh!, olhem a quem temos aqui. Assim que a puta do Gregers
decidiu dar as caras.
Adam esteve sobre o Albert tão rápido que ninguém pôde reagir.

~ 221 ~
Elevou o visconde com assombrosa facilidade e o empurrou para a porta. O
gordo homem tropeçou em seus próprios pés e caiu de costas com um golpe
surdo.
O sorriso falso se evaporou de seu rosto ao contemplar o olhar de fúria
de Adam. Tratou inutilmente de ficar em pé, mas pouco pôde mover seu
enorme corpo. O duque de Allendale se inclinou sobre ele e o puxou pelas
lapelas do casaco.
— Sabe? Não tenho muita afeição pelos homens capazes de insultar a
uma dama. Possivelmente poderemos manter uma agradável conversação a
respeito no exterior.
De forma assombrosa, conseguiu pôr em pé ao visconde retirando-o de
sua jaqueta e o empurrou sem cautela alguma para a porta. Não chegaram
muito longe, o visconde se rebelou entre as mãos de Adam e gritou:
— Algum dia me agradecerá isto, Dain. Se eu não tivesse vindo hoje
aqui haveria cometido um terrível engano.
— Do que está falando? — Inquiriu Robert, enojado.
— Minha irmã não é quem diz ser.
Robert olhou a Annabelle e viu que ficou branca. Ia perguntar o que lhe
acontecia quando a voz afogada do visconde encheu a capela:
— Meu pai não era seu pai! É uma bastarda!

~ 222 ~
Capítulo 28

Annabelle cravou o olhar em Robert esperando sua fúria e seu ódio,


mas só pôde ver interrogação em seus olhos verdes.
— Sinto muito, Robert — sussurrou, sentindo como grossas lágrimas
desciam por suas bochechas —. Ia lhe dizer isso, mas…
Calou porque sabia que não tinha nenhuma desculpa. Deveria ter sido
sincera com ele muito antes, no momento em que Dain tinha insinuado pela
primeira vez que se casariam. Deveria ter sido franca.
Entretanto, deixou-se levar por seus próprios desejos. Tinha sido
egoísta e ruim. Ela o amava e, em seu afã para não ter que separar-se dele,
quase o tinha condenado a uma vida de ódio e desprezo.
— Por favor, me perdoe — murmurou antes de sair correndo, incapaz
de permanecer junto a ele nem um minuto mais.
Recolheu o vestido e simplesmente correu, sem ter nem ideia de onde
se dirigia. Só sabia que não podia enfrentar a vergonha de seus atos.
Não soube quanto tempo tinha passado quando se encontrou com o
lago. A beleza da paisagem a fez deter-se. Derrotada, deixou-se cair junto a
uma das árvores da borda.
No que tinha pensado? A vergonha a afogava. Tinha estado a ponto de
confessar a verdade ao Robert quando Adam os interrompeu. Por que não
tinha falado com ele depois? Podia tratar de convencer a si mesma de que a
tinham obrigado a casar, mas sabia que não era verdade.
Tinha sido egoísta. Amava Robert, mas isso pouco era uma justificativa.

~ 223 ~
Inclusive tornava tudo pior. Mais terrível. Se o amava, como poderia ter-se
casado com ele e converter-se em uma carga?
A voz de Lydia a tirou de seus pensamentos um pouco depois. Sua
amiga apareceu pelo caminho, consternada.
— Annabelle! Onde estiveste? Estávamos preocupados contigo.
— Sinto muito, não me sentia capaz de enfrentar ao Dain neste
momento.
— Enfrentar ao Dain? Do que está falando?
— Humilhei-o frente a seu pai e sua irmã. Deveria ter sido sincera com
ele e agora é tarde.
— Annabelle, duvido muito que a opinião do Dain tenha mudado
absolutamente. E, se o tiver feito, é para ter piedade de ti por ter que suportar
semelhante irmão durante toda sua vida.
— Quero ir para Londres, Lydia.
— Annabelle! — Lydia se ajoelhou frente a ela e a obrigou a olhá-la —.
Não permitirei que fuja. Por Deus, é a pessoa mais valente que conheço. Você
não sai correndo sem mais! Dain está na biblioteca com seu irmão. Vá ali e
fala com esse homem.
— O que vou lhe dizer?
— Isso é algo que terá que averiguar.

~ 224 ~
Capítulo 29

Robert punha à prova seu autocontrole. A só presença do visconde lhe


provocava uma vontade irresistível de cruzar a biblioteca e fazer com que se
arrependesse por ter constrangido daquele modo Annabelle. Diabos, queria
lhe dar uma surra e depois assegurar-se de que abandonava sua propriedade
para não voltar a pôr os pés nela. Jamais.
Entretanto, limitou-se a olhar ao homem inexpressivamente do outro
lado da sala, enquanto uma criada servia ao recém-chegado uma taça de
brandy.
Imaginou levantando-se e estampando a taça de cristal naquele seboso
rosto. Quase sorriu ante o prazenteiro pensamento.
Ao parecer inconsciente de seu estado de ânimo, o visconde continuava
falando.
— Como compreenderá, não podia deixar que se casasse com ela —
sentenciou entre sonoros sorvos —. Pelo amor de Deus, nem sequer sabemos
quem é seu pai. Meu pai a acolheu e a tratou como a uma filha… Um homem
débil, meu pai. Eu não o teria feito.
«É obvio que não», pensou Robert.
— É filha de sua mãe, entretanto — argumentou, só para desfrutar do
intenso rubor que apareceu na face do homem —. Seja quem for seu pai, ela
continua sendo sua irmã.
— Meio-irmã — corrigiu o visconde, tenso, no momento em que a
porta da biblioteca se abriu.

~ 225 ~
Robert ficou de pé de um salto e se aproximou de Annabelle. A mulher
entrou com passo inseguro. Seu rosto estava pálido e seus olhos vermelhos e
inchados mostravam às claras que tinha estado chorando. Apertou os punhos,
contendo o impulso de descarregar sua frustração contra o visconde.
Embora nada gostasse mais do que desfazer-se daquele mal nascido,
continuava sendo o irmão de sua noiva e não tinha o direito a interpor-se
entre os dois.
Primeiro, precisava saber o que pensava Annabelle.
— Estava preocupado com você. Me alegro que se reúna conosco.
— É obvio, milorde, eu… Lamento tudo o que lhe tenho feito passar.
Você se arriscou por mim e eu... Sim, lamento-o muitíssimo.
De que demônios estava falando aquela mulher?
— O que é que lamenta, Annabelle? — Perguntou, esquecendo que
havia pessoas presentes.
— Sinto não ter sido sincera. Devia ter contado meu segredo muito
antes. — Seus olhos escuros mostravam uma tristeza profunda —. Não devia
pensar que tínhamos um futuro juntos nem sequer durante um segundo.
Muitíssimo menos deixar que me levasse até o altar. Não tinha direito de te
mentir dessa maneira.
Annabelle se engasgou com as últimas palavras. Já estava, havia-o dito,
e isso era o mais próximo a uma despedida que podia lhe outorgar a Robert
sem romper a chorar.
Enquanto percorria com o olhar o perfil do homem e tratava de gravar
a fogo em sua mente o tom exato de seus olhos, tirou o chapéu pensando que
nunca como nesse momento se deu conta da potência de seu amor por ele.
Tinha tratado de analisar com a razão um sentimento que era
claramente irracional. E o quê, se apenas o conhecia? E que só tinha
compartilhado fugazes momentos? Sabia que queria o resto da eternidade para
estar a seu lado, para conhecê-lo, cada parte dele. Isso era amor.

~ 226 ~
Por desgraça, amava-o o suficiente para saber que não podia tê-lo. Não
seria justo para ele, em nenhum sentido.
Ele se aproximou, quebrando a distância que os separava. Sua força,
seu calor, o aroma único e indecifrável que emanava dele a rodeou,
calidamente. Fechou os olhos, contendo o impulso de esquecer que seu irmão
estava presente.
Se o fazia correria a seus braços e o beijaria e nem o próprio diabo
poderia separá-la nunca mais de seu lado.
— Annabelle, me olhe.
Começou a negar com a cabeça, mas os dedos firmes dele acariciaram
brandamente seu queixo, lhe elevando a cabeça.
— Não tínhamos um futuro juntos. Ainda o temos.
— É impossível. Não com isto entre nós.
— Ainda é a mulher incrível que decidiu que queria me beijar e o fez.
— Sentiu como corava e escutou o pigarro incômodo de seu irmão, mas
Robert prosseguiu imperturbável —. Seduz-me, comove-me. Seu valor, sua
fidelidade… Sabe quantas damas teriam se arriscado do modo que você fez
pela Lydia? É única. E será minha esposa.
A gargalhada histérica do visconde rompeu a magia do momento.
Annabelle se desenvencilhou de seus braços e Robert se voltou para o odioso
indivíduo, tão perto de perder o controle que se surpreendeu que o outro não
retrocedesse.
— Temo que não pode fazer isso, milorde — disse o homem sem
ocultar a satisfação que lhe produziam suas próprias palavras —. Se casar com
ela, toda Londres saberá de sua condição de bastarda. O garanto.
— Está me ameaçando?
— É obvio que não, milorde, como poderia? Mas um segredo desse
calibre cedo ou tarde sai à luz. Pode ser que tenha acabado nossa sorte.
Entende o que lhe digo?

~ 227 ~
— O que entendo — disse Robert, andando para o homem letalmente
tranquilo —, é que você é um dos seres mais indignos que tive a desgraça de
conhecer. Está utilizando sua irmã, alguém a quem deveria querer proteger,
para conseguir o quê? Dinheiro? — Quando o visconde não respondeu,
olhou-o com desprezo. É a razão de toda esta asquerosa farsa, não é certo?
Necessita dinheiro —. O visconde se limitou a olhá-lo com seus olhos suínos.
Às suas costas, Robert sentiu como Annabelle continha o fôlego. Quis acabar
com aquela situação o antes possível —. Está bem. Pagarei e você deixará em
paz a sua irmã. E se alguém em Londres…
A mão de Annabelle em seu braço o surpreendeu. Calou e se virou para
olhá-la.
— Não lhe dará dinheiro — disse com voz firme.
— Mas Annabelle…
— Não o fará, porque é mentira.
— Perdão?
Os olhos castanhos dela se entrecerraram.
— Ele não dirá nada em Londres.
— É obvio que o farei! — Gritou, ofendido, o visconde.
— Não, não o fará. — Voltou-se e cravou em Robert um olhar
decidido —. Somente há uma coisa que ele ama mais que o dinheiro: a nossa
mãe. É por isso que manteve silêncio todos estes anos. Quando seu pai
morreu e me deixou um fideicomisso, pôde fazer públicas as circunstâncias de
meu nascimento para ficar com o dinheiro, mas calou. Nunca fará nada que
danifique o nome de nossa mãe.
O visconde pareceu compreender que o dinheiro se esfumava de seu
futuro e tratou de rir com desprezo, embora o único som que abandonou seus
lábios foi um grunhido.
— Pode estar certa de que o farei! Toda Londres saberá que é uma
bastarda!

~ 228 ~
— Nunca seria capaz! Porque, se o fizesse, toda Londres saberia
também que nossa mãe é uma qualquer, que a digna lady Ofélia não é mais
que uma rameira que se deixou perverter por algum moço sujo dos
estábulos…
— Não fale dela assim! — Chiou o visconde, vermelho de ira.
Mas Robert compreendeu o que tinha feito Annabelle. A reação irada
do visconde era a prova. Se era capaz de saltar assim para defender a sua mãe,
jamais a lançaria aos leões de Londres.
Sorriu a Annabelle, impressionado com sua inteligência.
— Tudo esclarecido então — disse, voltando-se e oferecendo o braço a
Annabelle —. Se nos desculpar, temos um casamento que celebrar.
— Ele jamais te amará! — Gritou o visconde —. Como poderia? É tão
pouca coisa! Logo procurará uma amante. Toda Londres rirá de ti!
Annabelle elevou a fronte com dignidade e saiu da habitação junto a
Robert, sentindo que sua mão tremia sobre o braço do conde.
Na capela a receberam caras de preocupação. Olhadelas tensas
analisaram o modo que Robert a escoltava e todos pareceram suspirar de
alivio ao mesmo tempo. Elizabeth correu para ela para abraçá-la com carinho
e até Adam lhe dedicou um sorriso sincero — o primeiro que lhe tinha dado
— do fundo da igreja.
O marquês de Laurens se aproximou com gesto tranquilo.
— O que lhes parece se começarmos de novo? — Estendeu um braço
para ela —. Filho, se coloque em seu lugar e deixa que te entregue à fantástica
mulher que será sua esposa. Embora, desta vez, tenta não escapar.
Todos riram, fazendo que parte da tensão se evaporasse e o ambiente
tomou um tom festivo que não tinha tido até então.
Sentiu que lágrimas lhe caíam pelas bochechas e o casamento logo era
uma parte dela. Pela primeira vez em sua vida sentiu o calor único e
incomparável que proporciona uma família. Sua família. Junto ao Dain.

~ 229 ~
Caminhou pelo corredor da igreja sentindo que levitava sobre o chão.

~ 230 ~
Capítulo 30

Robert deu voltas pela habitação, saboreando o brandy que tinha


pedido que lhe subissem.
A porta que comunicava os dormitórios se abriu a suas costas.
Voltou-se e viu Annabelle de pé na soleira. Parecia reluzir. Alguém,
provavelmente Elizabeth, tinha-lhe conseguido uma camisola de tule. Anotou
mentalmente que devia agradecer a sua irmã.
Deu-se conta de que estava descalça e um golpe de ternura o percorreu.
— Estava a ponto de te visitar. — Soltou a taça no aparador e
caminhou para ela.
Resistiu ao impulso de beijá-la. Ela ainda estava parada na separação de
ambos os dormitórios, como se decidisse se iria entrar.
— Temia que não o fizesse.
— Quer uma taça?
A mulher o seguiu, embora o olhasse com desconfiança.
— Guarda licor em seu quarto?
— Só esta noite.
Ela assentiu em silêncio e Robert voltou até o móvel para lhe servir
uma pequena taça de brandy e encher a sua.
Depositou uma taça em sua mão, deixando que seus dedos a roçassem
brevemente. Tinha as mãos geladas e o percorreu o louco impulso de abraçá-
la e lhe dar calor.
Louco impulso? Era sua esposa, tinha todo o direito de fazê-lo.

~ 231 ~
Mas ela mantinha distância, mais séria e inacessível do que jamais a
tinha visto.
Teve uma ideia.
— Vem comigo. — Indicou, agarrando sua mão e arrastando-a de volta
a seu próprio quarto. As donzelas tinham recolhido as cortinas de ambos os
lados da enorme janela, mas, como supunha, a janela permanecia fechada.
Aproximou-se e manipulou o fechamento. A suas costas, Annabelle
deixou escapar um murmúrio afogado quando abriu, descobrindo que na
realidade era uma porta que dava acesso a um terraço.
— Tem medo de altura? — Perguntou Robert, saindo ao exterior.
Annabelle negou com a cabeça e saiu junto com ele. O balcão não era
mais que um pequeno peitoril um pouco maior do que o normal rodeado por
um muro baixo. Ambos se apertaram contra a parede posterior, sentindo a
pedra de Warkworth Manor nas costas e a luz da lua e as estrelas sobre eles.
Era uma sensação mágica.
— Annabelle, o que aconteceu?
A mulher deu um gole na sua taça de brandy, como se procurasse
coragem.
— Ouvi o que disse na capela aos outros, sobre meu nascimento, mas
me pergunto se meditou o suficiente.
Robert tinha sido muito concreto em seus votos matrimoniais.
— Pensei em cada palavra. Tomei-te como esposa ante Deus e ante os
homens. As circunstâncias de seu nascimento não me importam.
Ela o olhou com um brilho de ira.
— Então é evidente que não está pensando com claridade.
— Como diz?
— Não sou filha de meu pai. Não sou nobre.
— Não sabe. Seu pai biológico poderia ser nobre também.
— Que diferença há? Sou uma bastarda. Meu pai poderia ser o rei da

~ 232 ~
Inglaterra e isso não me faria mais digna.
A Robert incomodou que ela falasse de si mesma como se as
circunstâncias de seu nascimento fossem completamente culpa dela.
— Annabelle, me olhe — lhe ordenou, tomando-a delicadamente pelos
ombros —. Minha mãe era uma mulher nobre, filha de um conde cuja
linhagem remontava à época de Ricardo Coração de Leão. Sua linhagem era
irrepreensível.
— Essa é sua maneira de me consolar?
— Cale-se e escute — lhe pediu brandamente —. Era uma dama
perfeita. Dava as melhores festas, os melhores bailes, sabia amenizar um serão
e todos a consideravam um perfeito exemplo a seguir. Meu pai caiu rendido a
seus pés; ela era tudo o que ele desejava. — Fez uma pausa e tomou ar antes
de lhe abrir seu coração —. Minha mãe foi infiel a meu pai repetidamente e
sem discrição alguma. Sei que alguns matrimônios da alta sociedade
funcionam assim. A diferença neste caso é que meu pai amava a minha mãe e
lhe rompeu o coração uma e outra vez.
— O que quer dizer?
— Eu mesmo poderia ser bastardo, Annabelle.
— É evidente que não o é. Parece-se muito com seu pai.
Robert assentiu com a cabeça.
— Sei, mas isso não faz com que a possibilidade não existisse. O que
quero te dizer é que minha mãe foi uma perfeita dama de linhagem
irrepreensível e isso não a converteu em boa esposa ou mãe.
No silêncio que se estendeu entre os dois, Annabelle o analisou,
reflexiva.
— Crê que eu o serei?
Lhe sorriu com ternura.
— Se não o pensasse, não teria me casado contigo.
Beijou-a.

~ 233 ~
— Mas nossos filhos não serão…
— Nossos filhos serão amados. — Era o mais importante. Seus filhos
não cresceriam com uma mãe fria, incapaz de mostrar amor. De repente,
imaginou a sua esposa levando nos braços uma criatura mescla de ambos.
Teve que fazer um esforço para continuar falando —. Sabe como é ter uma
mãe que é mais dama que mãe?
— Sim, sei — murmurou ela —. Minha mãe jamais me abraçou.
— Brinca? Minha mãe pensava que qualquer amostra de afeto me
converteria em um ser pusilânime incapaz de dar honra ao sobrenome.
Bastante estrito para uma mulher que, ao mesmo tempo, deitava-se com o
chofer.
— Oh!, Robert — se compadeceu ela.
Diminuiu sua importância com um gesto da mão.
— Tive a meu pai. E Elizabeth sempre foi uma perfeita mãe em
miniatura. — Olhou-a intensamente —. Você, em troca, não teve a ninguém.
— Isso não é verdade. Tive a meu pai.
Robert abriu os olhos pela surpresa.
— O visconde?
— Ele me amava.
— Ele sabia…?
Deixou a pergunta no ar ao ver que ela assentia. O reduzido espaço do
terraço de repente lhe parecia muito cansativo. Entrou no quarto, deixou a
taça vazia sobre a penteadeira e tomou assento aos pés da larga cama.
Ele a seguiu, embora permanecesse afastado, como se compreendesse
sua necessidade de espaço.
Queria arrancar tudo fora. Ele merecia conhecer a verdade.
— Que eu não era filha dele? Sim, sempre soube. Meu pai… — se
interrompeu bruscamente —. Quero dizer o visconde de Weymouth.
— Seu pai — afirmou com determinação Robert.

~ 234 ~
Annabelle sorriu.
— Apaixonou-se por minha mãe a primeira vez em que a viu, mas ela
tinha aspirações muito altas. Um visconde com uma renda modesta não lhe
interessava absolutamente. Quando lhe propôs matrimônio, ela o recusou.
Uns meses depois, para surpresa de meu pai, ela voltou para ele. Era seu
último recurso. Contou-lhe que tinha sido seduzida e que estava grávida. Ele
não duvidou, casou-se com minha mãe para me dar um sobrenome. Nem
sequer houve rumores sobre meu nascimento. E ele me amava, nunca o
dissimulou. Não acredito que a alguém da aristocracia lhe tenha passado
jamais pela cabeça que não era meu verdadeiro pai.
As lágrimas corriam pelas bochechas de Annabelle.
— Era um bom homem. — Robert se sentou a seu lado na cama e
pegou sua mão.
— O melhor. Sabe? Comprou uma cabana, nos subúrbios de Londres,
e todos os fins de semana íamos juntos caçar. Quando cresci me dei conta de
que seu único propósito tinha sido me afastar da crueldade de minha mãe,
embora fosse só umas horas por semana. Quando morreu, Albert a herdou e
deixou que se deteriorasse — acrescentou com pena na voz —. Meu pai me
deixou um fideicomisso porque sabia como era meu irmão, apesar de ele ser
filho dele. — Annabelle fez uma pausa para limpar as lágrimas que se
amontoavam em seus olhos —. Assim já vê. Não estive realmente sozinha.
Também tive a minha tia Cláudia. Era irmã de meu pai e também sabia a
verdade, mas me amou de igual modo. E, quando meu pai morreu, tive a
Lydia.
Robert entendia melhor agora essa amizade. Recusada por sua mãe e
seu irmão, Annabelle tinha encontrado em sua amiga a irmã que necessitava e
o carinho familiar que lhe negavam.
— Protegeremos a Lydia — assegurou, porque sabia que era
importante para ela —. Meu pai e Allendale a apoiarão publicamente. Contará

~ 235 ~
com o resguardo de Elizabeth como condessa. E com o nosso.
— Não sei como lhe agradecer .
Robert sorriu ao recordar a última vez que ela havia dito aquelas
mesmas palavras. Pelo modo que Annabelle lhe devolveu o sorriso, soube que
ela também se lembrava.
Amaldiçoou-se por sua insensibilidade. Sua esposa tinha tido um dia
exaustivo. Possivelmente não era muito cavalheiresco de sua parte esperar
mais dela.
— Acredito que deveria voltar para meu quarto — disse sem vontade.
Não chegou a levantar-se. Annabelle se inclinou para ele e o beijou
docemente nos lábios. Apesar de ser um beijo casto, o contato de ambas as
peles eletrizou-se pela proximidade. O corpo de Robert ardeu como se um
vulcão acabasse de fazer uma erupção em seu peito.
— É nossa noite de núpcias — disse ela contra sua boca.
— Annabelle, não temos que fazer isto. — Maldito fosse seu lado
cavalheiresco!
Como se soubesse de seu dilema, sua esposa sorriu e ficou de pé.
— Claro que sim — disse um segundo antes de deslizar a bata por seus
ombros. Aniquilado, viu como levantava lentamente a borda de sua camisola e
a elevava com parcimônia, revelando pouco a pouco seu corpo nu.
Diabos! Como era possível que ela soubesse exatamente o que fazer
para torná-lo louco?
Percorreu com o olhar a pele que morria por tocar. A bela curva dos
joelhos, suas pernas perfeitamente torneadas. Conteve o fôlego quando o
tecido revelou o ventre e depois seus pesados seios. Não pôde conter-se mais.
Estava junto a ela em um piscar de olhos e a ajudou a se desfazer da
camisola passando-a pela cabeça. Beijou-a com força na boca, amando o
modo que seu corpo se apertava contra ele. Por Deus, ela sabia tão bem.
Poderia passar horas exatamente assim, saboreando sua boca. Queria perder-

~ 236 ~
se nela até que fosse o único podia ver, cheirar e sentir.
Com a mesma urgência desesperada, Annabelle elevou as mãos e o
ajudou a liberar-se de sua roupa. Robert se inclinou para tirar as botas e a
escutou rir.
— O que aconteceu? — Perguntou confuso.
— Nada, milorde, só que nunca o tinha visto mover-se com tanta
urgência.
Robert riu com vontade.
— O que vem a seguir, entretanto, não vai ser rápido — lhe prometeu.
A última vez tinha perdido o controle e estava seguro de que sua
virginal esposa ainda não conhecia os prazeres que podiam achar-se no leito.
Sorriu para si mesmo. Antes de que acabasse a noite, Annabelle seria um
pouco menos inocente.
Robert terminou de despir-se, sentou-se na borda da cama e fez que ela
fizesse o mesmo sobre ele. Senti-la nua era o paraíso e seu corpo reagiu de
forma selvagem. As sedosas coxas de Annabelle se apertavam contra sua
ereção, provocando uma fricção gloriosa.
Obrigou-se a beijá-la muito devagar, deleitando-se com cada curva de
sua boca. Amava o modo como correspondia e esteve certo, nesse momento,
de que jamais se cansaria de beijar a sua esposa.

Annabelle notava a pele quente de Robert contra seu próprio corpo e


se surpreendia de não sentir vergonha. Mas o certo era que, apertada na curva
de seus braços, claro que não podia pensar em nada. Ele a beijava com
deliberada lentidão.
— Deite-se —. O escutou dizer e esteve mais que disposta a cumprir
sua ordem. Robert colocou seu quente corpo sobre o seu. Por instinto, abriu
as pernas para recebê-lo. Pensou que perderia a consciência.
Notava o lugar exato em que se uniam seus corpos. Robert se apertava

~ 237 ~
sem conter-se contra ela, deixando-a louca pelo atrito. Seus lábios
abandonaram sua boca e foram descendo deixando um rastro quente e
surpreendentemente lento.
A língua de Robert rodeou seu mamilo e Annabelle gritou sem poder
evitá-lo. Sentiu-se corar por sua reação, mas a risada profunda de Robert
evitou que sentisse vergonha. Ele repetiu o gesto, alternando lambidas e
suaves beijos, primeiro em um seio e depois no outro, até que Annabelle
começou a agitar-se debaixo dele.
Elevou os quadris e grunhiu de satisfação ao escutar o seu marido ficar
sem fôlego. Por Deus, aquela fricção era a glória. Não tinha claro o que estava
acontecendo, ou se era correto o que estava fazendo, mas seu corpo tinha
tomado o controle e não teve forma de parar.
Escutou Robert sussurrar em seu ouvido.
— Espera, Annabelle. Quero fazê-lo lento.
— Pois eu não — murmurou, frustrada, tentando atraí-lo ainda mais
para seu corpo.
Seu marido riu em seu ouvido. Tirou suas mãos e as elevou sobre sua
cabeça, as pressionando contra o colchão.
O olhar de seus olhos verdes a deixou paralisada. Sentiu o momento
exato que começava a afundar-se nela e fechou os olhos, tratando de
concentrar-se na incrível sensação.
— Não, preciosa, abra os olhos para mim. Quero ver-te enquanto te
possuo.
As palavras ardentes provocaram uma cascata úmida no lugar onde
seus corpos se uniam. Abriu os olhos e quase soluçou de prazer. Robert
deslizou dentro dela com facilidade. Viu-o ofegar e esticar-se, e desfrutou ao
saber que era o seu corpo que provocava aquelas sensações nele.
Começou a mover-se contra ela. Cada novo impulso a levava mais
perto do paraíso. Perdeu o controle à medida que ia para ele, atraindo-o com

~ 238 ~
força para ela, lhe cravando as unhas nas costas. Embora tivesse querido, não
poderia ter se reprimido. Tudo era muito intenso, tão inesperado. Nada a
tinha preparado para o modo que se sentia.
Escutou gemidos e não soube se era ela que os produzia.
Robert ofegava com força. Beijou-a com paixão na boca e, sem romper
sua união, deitou-se de costas, arrastando-a com ele. Annabelle se acomodou
escarranchada sobre os quadris de seu marido. Além da razão, não teve que
perguntar o que desejava.
Começou a mover-se para cima e para baixo impulsionada por seu
próprio desejo e guiada pelas mãos de Robert, afundadas em seus quadris.
Saboreou a cálida sensação de senti-lo em seu interior. Sem deter-se, inclinou-
se para beijá-lo com paixão.
Ambos perderam o controle. Annabelle começou a mover-se mais e
mais rápido. Robert se elevava para afundar-se nela, mais profundo cada vez,
uma e outra vez, até que sentiu que algo úmido se desencadeava dentro dela.
Em meio à luxúria, foi consciente de que seu marido era a viva imagem
do êxtase. Tinha o cabelo revolto, os olhos verdes entrecerrados pela paixão e
ofegava de forma selvagem. Sentiu que as palavras escapavam dela sem que
pudesse impedi-lo.
— Amo-te – confessou —. Te amo.
Seu cérebro embotado pelo prazer foi consciente da careta de horror
no rosto de Robert, mas o pensamento ficou sepultado por uma cascata de
emoções.
Sentiu como seu corpo se fragmentava em mil pedaços e pensou que
morreria de prazer. Abaixo dela, Robert se convulsionou em sua própria
liberação, aferrando-se com força a seus quadris e intensificando o ritmo.
Quando tudo terminou, Annabelle se deixou cair nos braços de seu
marido. Todo o calor abandonou seu corpo de repente, substituído por um
frio úmido. O silêncio caiu sobre eles, opressivo, só interrompido pelo

~ 239 ~
trabalhoso som de suas respirações.
A mescla de emoções deu lugar à desesperança. Tinha-lhe aberto seu
corpo e seu coração e só tinha obtido paixão física em troca.
Arriscou-se e tinha perdido.
Teria que aprender a viver com isso.
Lágrimas de arrependimento escorregaram por suas bochechas e caíram
sobre o peito nu de seu amante.
— Annabelle?
A voz de Robert chegou desde muito longe, tirando-a do poço de
pensamentos escuros em que se achava imersa.
— O quê?
— Está bem?
Ele ainda a abraçava. Escapou de seu abraço e, desesperada procurou
algo com o que cobrir-se.
Sentia desejo de sair correndo, mas para fazê-lo devia abandonar a
segurança do lençol. Não queria mostrar seu corpo nu ante ele. Já tinha
despido sua alma.
Limitou-se a afastar-se dele tudo o que pôde.
Olhou-o. Era a viva imagem da satisfação. Tinha o cabelo revolto e
uma grande careta de deleite no rosto. Sentiu como a fúria a invadia.
— Não tem nada que dizer? — Percebeu a recriminação em sua
própria voz, mas não pôde evitá-lo.
Robert a olhou, surpreso.
— Acreditei que a natureza de nossa relação tinha ficado clara desde o
começo. Lamento que albergue alguma esperança a respeito. Sem dúvida, de
alguma forma, esquece esses tolos sentimentos que acredita ter, e teremos um
matrimônio feliz e frutífero.
Annabelle afastou com fúria o lençol que a cobria e ficou de pé. Cruzou
com rapidez a habitação, embora lhe parecesse que tinha percorrido léguas

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antes de achar sua bata, feita uma bola sobre o tapete. A pôs e se apressou em
fechá-la, desejando que fosse mais opaca.
— Aonde vai?
— Ao meu quarto — espetou, girando-se para enfrentar a voz
especulativa.
O sorriso de seu marido lhe gelou o sangue nas veias.
— Este é o e seu quarto — disse Robert, jocoso.
Annabelle sentiu a ira lhe palpitar através das veias. Nunca tinha se
considerado uma pessoa violenta, mas naquele momento queria ter podido
esbofetear aquele rosto amado até fazê-lo sentir uma parte da dor intensa que
ela experimentava.
— Então vai-te — exclamou mais alto do que tinha pretendido.
Suas palavras afogaram a hilaridade de Robert.
— Como diz? — Perguntou em tom glacial.
— Quero que saia do meu quarto.
— É minha casa. Não penso ir a nenhum lugar.
— Perfeito. Então dormirei em sua cama. Sozinha. E amanhã terá que
resistir aos murmúrios dos criados sobre por que os condes de Dain não
parecem saber onde ficam seus próprios quartos.
Robert olhou-a durante alguns segundos, como se refletisse sobre as
vantagens de provocar um novo escândalo. Finalmente se levantou.
Annabelle afastou o olhar enquanto seu marido se vestia.
Antes de sair, ele se virou.
— Não vou me sentir culpado por isso — disse, fazendo um gesto
com a mão que abrangia a ela e à cama —. Deixei muito claro que tipo de
união seria a nossa. Se alguém não cumpriu o combinado, essa é você. Espero
que se arrume logo e deixe de se comportar como uma menina pequena.
E, sem mais, partiu.
Annabelle esperou até que a porta dupla do quarto se fechou para

~ 241 ~
correr até sua cama e deixar descarregar o pesar que a ameaçava afogar.
Chorou até adormecer, rodeada pelo aroma de seu marido nos lençóis.

~ 242 ~
Capítulo 31

Robert saiu pela porta de trás e percorreu o jardim à luz da lua. Apesar
de seus turvos sentimentos, não pôde deixar de alegrar-se por voltar a estar
em casa. Amava aquela terra. Havia algo especial no manto de pontinhos
luminosos sobre sua cabeça.
Respirou fundo, tratando de temperar os nervos. Quem entendia às
mulheres?, perguntou-se com angústia. Em um momento pareciam felizes e,
no seguinte, tudo tinha acabado.
Negava-se a sentir-se culpado pelo que tinha acontecido, apesar do nó
que tinha no estômago. Negava-se porque tinha sido muito claro com
Annabelle desde o começo.
Ele tinha visto seu pai sofrendo por amor. E a Adam, ao que a
obsessão por Laura quase lhe custara a vida quando a perdeu. Não, ele jamais
confundiria os nobres sentimentos que lhe provocava Annabelle com aquele
ridículo conto de amor.
Tinha carinho pela sua esposa e gostava dela como mulher, física e
intelectualmente. Mas, amor? Aquilo que os outros chamavam amor não era
mais que obsessão, pura e dura obsessão.
Permaneceu de pé sob as estrelas durante o que pareceram horas. Tinha
as mãos e o nariz gelados, mas não queria voltar a entrar. Não queria enfrentar
o caos de suas reações, nem à multidão de sentimentos diferentes e,
frequentemente, contraditórios que sua esposa o fazia sentir.
Adam saiu dentre as sombras, sobressaltando-o ligeiramente.

~ 243 ~
— Não pode dormir, né? O casamento tem o costume de ter esse
efeito.
Robert se limitou a encolher os ombros. Enquanto Adam se colocava a
seu lado, baralhou a possibilidade de justificar-se com seu amigo. Tinha más
experiências naquele campo, mas era a única pessoa a quem podia pedir
conselho sobre algo assim.
— Ela me ama.
— Sim, o casamento também tem o costume de ter esse efeito.
Robert o olhou, exasperado.
— Acaso para ti tudo é uma brincadeira?
Adam optou por ignorar o sarcasmo.
— Qualquer homem em sua circunstância estaria abrindo o melhor de
seus licores para celebrá-lo — respondeu, exalando uma baforada de fumaça.
— Está me troçando? — Disse Robert com os dentes apertados —.
Ela quer coisas que eu não posso lhe dar.
— É difícil de acreditar. Ao que parece você é tudo o que ela quer.
— Esse é o problema — disse Robert com frieza —. Eu não a amo.
— Crê que não está apaixonado por ela. — Piscou confuso ante o tom
de raiva contida na voz de Adam.
— Não estou apaixonado por ela — assegurou.
— Como pode dizer isso? Essa mulher te absorveu o cérebro desde
que a viu pela primeira vez. Jamais tinha te visto te comportar de um modo
tão impróprio de ti. Isso tem que significar algo. Diabos, seguiu-a de
Londres…
— Não significa nada. E se me desculpa acredito que voltarei para a
casa principal.
Virou-se para ir, mas a voz de seu amigo o deteve.
— O que crê que é o amor? — Gritou-lhe Adam —. Crê que escutas
uma música celestial e um coro de anjos e lhe indicam que ela é a adequada?

~ 244 ~
O amor é algo mais sutil que isso, pedaço de néscio. O amor é querer
despertar com sua esposa cada manhã. É o modo como ela faz que seu
coração palpite mais rápido só te tocando, ou sorrindo, ou, que demônios,
simplesmente existindo. — Sua voz tornou-se mais grave —. E, quando a
perde, sabe que nunca mais vai voltar a se sentir assim… Sente que a vida te
abandona. Respira, caminha, mas não está vivo e é consciente de que nunca
voltará a está-lo. Nunca mais. — Robert conteve o fôlego ante o olhar vazio
de Adam —. Vi sua cara quando olha a sua esposa. Mentes a ti mesmo
condenadamente se crê que não está apaixonado — finalizou Adam —. Não
sei que porcaria esperava, mas isso, exclusivamente isso, é o amor. Assim volta
para sua esposa, te arraste ante ela e lhe diga que é um maldito estúpido e que
a ama. Porque se não o faz, juro por Deus que te levarei ali à força. Embora
provavelmente primeiro te parta a cara.
Robert apertou os punhos com força.
— Pensa bem a quem ameaça sob meu teto, Allendale.
Frustrado, deu as costas a seu amigo e quase correu escada acima.
Dirigiu-se com rapidez para seu dormitório, mas algo o impulsionou a deter-
se junto à porta de sua mulher. Sentiu uma absurda opressão no peito. Não
queria incomodá-la, mas tinha que averiguar se estava bem.
Avançou na penumbra, agradecendo a lua cheia e a claridade que se
derramava dentro do dormitório. Percebeu a desordem da cama, o caos que
sua paixão tinha provocado, e teve que fazer um esforço para concentrar-se
no presente.
Onde estava sua esposa? A cama e o dormitório se achavam vazios.
Com o coração pulsando na garganta, dirigiu-se a seu próprio dormitório, mas
antes de olhar soube que ela tampouco estava ali. Seu corpo congelou como
se o tivessem submergido em água fria.
Mais tarde pensaria que, nesse momento, seu corpo reagiu a algo
distinto à lógica. Porque a razão lhe tinha indicado que a casa era muito

~ 245 ~
grande e Annabelle poderia encontrar-se em qualquer canto dela. Na cozinha,
por exemplo, servindo-se de um pedaço do bolo de casamento. Ou na
biblioteca, tratando de encontrar o sono entre as páginas de um livro. Talvez
depois do desgosto tivesse decidido conversar sobre o casamento com a
Lydia.
Existiam mil explicações plausíveis para sua ausência.
Mas, naquele momento, de algum modo que escapava a sua razão,
Robert soube que sua esposa já não se achava em Warkworth Manor.
Sentou-se aos pés da cama que com tanto cuidado tinha posto em
desfazer e, pela primeira vez, desejou ter a capacidade para fazer que o tempo
retrocedesse.
Aquele pensamento o acompanharia, como uma sombra, as semanas
seguintes.

~ 246 ~
Capítulo 32

Adam retornou com notícias pouco depois da alvorada. Do momento


em que um Robert histérico tinha saído do dormitório de sua esposa, os
acontecimentos foram muito rapidamente. Uma hora depois ficou evidente
que a condessa não se achava na casa nem nos arredores.
Todo mundo tinha passado a noite em claro, procurando-a. Elizabeth e
o marquês de Laurens, acompanhados por Lydia, que se negou a permanecer
na casa principal, tinham guiado grupos de camponeses que a procuraram no
lago e nas ladeiras das colinas.
Robert tinha partido com um grupo de homens a cavalo para percorrer
os arredores e Adam tinha decidido procurar informação no povoado e nos
botequins dos arredores.
Desmontou frente à mansão, onde bulia uma atividade frenética apesar
da hora e lançou as rédeas ao moço do estábulo que já se aproximava dele.
— O conde está no interior?
— Acaba de chegar, senhor.
— Alguma noticia de… — começou a perguntar, mas o menino negou
com a cabeça. Parecia pesaroso. Era evidente, e o tinha sido visto durante
toda a noite, era que o conde do Dain possuía a lealdade de seus homens.
Todos os habitantes do vale não tinham duvidado nem por um segundo em
responder à chamada.
— Está bem, menino. Alimenta-o e escova-o. Teve uma noite longa.
Entrou apressado na casa e se dirigiu ao estúdio de Robert. O conde

~ 247 ~
passeava pela habitação, despenteado e com um olhar vazio que lhe era
horrivelmente familiar. Discutia aos gritos com seu pai, que parecia quase tão
afetado quanto ele.
— Procuramos em todos os caminhos! — Tratava de raciocinar o
marquês.
— Tem que estar em um deles! Não procuramos bem!
No sofá junto à janela, Elizabeth e seu marido se apertavam a ambos os
lados de Lydia. Nenhuma das damas chorava, o que dizia muito de sua
integridade, embora a preocupação se refletisse em seus rostos.
A amiga de Annabelle se levantou de um salto ao vê-lo entrar e quase
correu para seus braços.
— Traz notícias?
Aquilo fez com que Robert calasse abruptamente e centrasse nele sua
atenção.
— Na estalagem do povoado não sabem nada — disse rapidamente,
sem permitir que albergassem falsas esperanças. Entrou e se desfez de sua
jaqueta —. Ninguém viu ontem nada estranho no caminho e nenhum de seus
hóspedes tinha partido de forma suspeita.
— Quando partiu o visconde de Weymouth? — Perguntou Robert
com voz tensa.
O pai de Robert olhou a seu filho com horror:
— O irmão de Annabelle? Não pensará sinceramente…
— É obvio que penso! Joguei a esse homem de minha casa ontem e
todos vimos o tipo de afeição que sente por sua irmã.
Adam, que já tinha aventado essa possibilidade, negou com a cabeça.
— O visconde partiu ontem no meio da tarde, muito antes que
Annabelle desaparecesse.
— Está seguro? — O desespero brilhava nos olhos verdes de Robert,
opacos pela preocupação.

~ 248 ~
— Estou seguro. A dona da pousada me assegurou que só tinha
abrigado dois homens nobres nos últimos dias. Nenhum deles deu seu título,
mas segundo ela era evidente que o eram pela roupa e o modo de falar. O
primeiro deles, um homem obeso, partiu pouco depois do chá. O outro,
depois do jantar.
— É possível que confundisse o irmão de Annabelle com o outro
homem?
— Perguntei expressamente pelo outro nobre. Disse-me que partiu
após a meia-noite, mas, pela descrição que me deu, é impossível que os
confundisse. O segundo nobre era alto, muito magro. Ao parecer foi muito
desagradável com as garotas da estalagem, por isso ela recordava muito bem o
alívio que sentiu quando partiu.
— Gregers!
O grito de Lydia fez que todos na sala se voltassem para olhá-la.
— O que diz, pequena? — Perguntou-lhe Elizabeth com doçura.
— Era Gregers! O homem da estalagem. O outro nobre. Ele levou a
Annabelle!
Robert empalideceu ainda mais enquanto Adam centrava a atenção na
moça.
— Essa é uma acusação muito dura, lady Lydia.
— Estou certa de que era Gregers! Esse homem odeia Annabelle,
nunca gostou dela. Se pensar que me ajudou a escapar asseguro que quer lhe
fazer dano!
Enquanto um pequeno caos se desatava na habitação, com Elizabeth e
seu marido tratando de tranquilizar Lydia, e o marquês de Laurens tratando de
inteirar-se de quem era aquele homem, Adam olhou Robert por cima da mesa.
— É possível? — Perguntou em um sussurro.
— Acredito que só há um modo de averiguá-lo. Terá que encontrar
Gregers.

~ 249 ~
Capítulo 33

Duas semanas mais tarde

A luz se filtrava entre as cortinas corridas do dormitório. Robert,


tombado na cama, olhava fixamente a franja amarela que deslizava pelo chão
em sincronia com o sol. Logo se tornaria alaranjada e depois rosada, antes de
desaparecer finalmente.
Quando chegasse esse momento, esperava estar o suficiente bêbado
para não a ver.
Porque aquela maldita franja de luz se ocupava em levar o registro dos
dias que ele mesmo tinha deixado de contar muito tempo atrás. Uma nova
noite significava um novo dia sem Annabelle. E sem nenhuma notícia.
Doze dias atrás tinha chegado a Londres de madrugada, depois de
quase rebentar a dois cavalos pelo caminho. Tinha-o feito junto a Adam,
enquanto sua irmã e seu cunhado os seguiam a um passo mais humano.
Tinha mandado Adam para casa lhe mentindo descaradamente.
Não se sentia orgulhoso disso, mas tinha necessitado fazer aquilo
sozinho. Tinha convencido Adam de que visitaria o conde de Gregers no dia
seguinte, quando estivesse acordado e mais lúcido, e pudesse negociar com
ele. Não entendia por que seu amigo tinha acreditado.
Possivelmente não o tinha feito e só tinha fingido para respeitar seu
desejo de enfrentar sozinho o homem que lhe tinha arrebatado a sua mulher.
Durante as longas horas do caminho, Robert tinha chegado a

~ 250 ~
convencer-se de que Lydia tinha razão e tinha sido o conde, motivado pela
vingança, que tinha raptado a sua esposa.
Quando chegou à mansão deste, ardia em uma ira tão violenta, que o
treinado mordomo quase voltou a lhe fechar a porta na cara.
Deveria havê-lo feito.
Ao ser informado que Gregers tinha abandonado Londres em direção
ao Continente tinha perdido a pouca prudência que ficava. Quase tinha
matado o pobre homem antes que outros serventes pudessem intervir para
jogá-lo dali.
A dor, a desolação e a raiva tomaram conta de Robert.
Durante algumas horas, tinha pensado que se encontraria com
Annabelle em Londres. Possivelmente Gregers a tinha sequestrado para
vingar-se dele por ajudar Lydia a escapar. Talvez quisesse fazer que sentisse o
mesmo que ele.
A partida do conde deixava para trás um milhão de interrogações para
as quais não tinha, nem queria, resposta. Tinha estado comprometido no
sequestro de Annabelle? Seria sua partida mera casualidade?
Adam tinha confirmado que o conde de Gregers tinha partido, sozinho,
para o continente, no dia em que eles chegaram a Londres.
E, se Gregers não estava comprometido, onde estava Annabelle?
A busca em Northumberland não tinha dado melhores resultados. O
pai de Robert enviava informações escritas que tinham deixado de mostrar
esperanças dias atrás. Mais ou menos ao mesmo tempo, Robert tinha
começado a procurar refúgio no fundo da garrafa.
Fazia dias que não saía da mansão e a ira se alternava com o
embotamento pelo álcool. Umas horas atrás, tinha despedido todo o serviço
com a ordem de que desaparecessem de sua vista pelo menos vinte e quatro
horas. Não suportava nem um segundo mais os passos apressados das
donzelas pelos corredores, nem a meia dúzia de vezes que Gibbs encontrava

~ 251 ~
alguma desculpa para incomodar seu retiro etílico.
Devia ter dormido, porque despertou quando a franja de luz já tinha
desaparecido de todo. A princípio não soube o que o havia devolvido à vida.
Depois escutou o som ensurdecedor de algo golpeando a porta de entrada.
Seu primeiro pensamento foi que era Annabelle. Recordou o dia que ela
penetrou em sua casa na metade da noite e voou pelas escadas, sem
incomodar-se de colocar sapatos e com a camisa mal abotoada sobre o peito.
Abriu a porta de um puxão e quase ofegou pela absurda imagem. Do
outro lado aguardava uma mulher, mas não era sua Annabelle. A dama
desconhecida o olhava com curiosidade, protegida atrás de um moderno
chapéu, combinando com um elegante traje de veludo azul.
— Sim? — Perguntou como um estúpido.
— O conde de Dain?
— O mesmo.
Para sua completa surpresa, a mulher estendeu uma mão para ele. Não
do modo que o faziam as damas, com a palma para baixo para que a roçasse
com seus lábios, mas no modo de saudação masculina.
— Meu nome é Roslin Davis. Temos que falar de negócios.
Demorou vários segundos em entender o que a mulher havia dito e
alguns mais em colocar-se de lado para permitir que entrasse. Como em uma
nebulosa, escoltou-a para o salão, agradecendo que os empregados tivessem
ignorado sua ordem para apagar todas as luzes antes de partirem. Sentia-se
enjoado e confuso, e tratou de recordar quanto licor tinha ingerido antes de
cair inconsciente, mas foi impossível.
Elevou uma mão para colocar bem o cabelo e então se deu conta que
estava em mangas de camisa. E descalço. Quantos dias desde que se lavou
pela última vez? Nem sequer queria responder a essa pergunta.
— E bem, senhorita Davis. O que a traz aqui? — Perguntou quando se
convenceu de que a mulher não era uma visão provocada pelo álcool.

~ 252 ~
Não se incomodou em lhe oferecer um chá. A cozinheira tinha saído
junto aos outros e, na condição em que ele se achava, nem sequer poderia
descer a escada até ali.
Sem esperar convite, a dama se sentou com retidão em um dos sofás da
sala.
— Temo que cometemos com você um terrível engano. — Embora
falasse com educada correção, era evidente que estava confusa. Percorria uma
e outra vez Robert com o olhar, como se não pudesse acreditar que ele fosse o
homem com quem tinha ido falar.
Bom, ele tampouco o teria acreditado.
— Do que está falando? — Interrompeu-a. Não tinha tempo, nem
vontade, de ser cortês.
A mulher elevou as sobrancelhas ante seu tom, mas não se acovardou.
— Da carta, é obvio. O duque de Allendale veio faz umas semanas e
explicou a meu pai que tinha gasto aquelas somas no clube, as inscrevendo em
seu nome. Pouco depois comprovamos que efetivamente o problema residia
no visconde de Weymouth, com o que já solucionamos as coisas. Só restava
lhe mostrar nosso mais absoluto pesar pela terrível confusão. O teríamos feito
antes, mas não se encontrava na cidade.
— Estive no campo — se escutou dizer com voz alheia.
— Espero que tenha desfrutado, milorde. — Aqueles olhos
inquisidores continuavam avaliando-o, escrutinadores.
Robert a olhou, incrédulo.
— Brinca comigo, senhorita Davis?
— Não, é obvio que não, milorde. Por que pensa tal coisa?
— A esta altura, estou certo de que toda Londres sabe que minha
esposa desapareceu.
Os olhos da mulher se abriram de repente com espanto.
— Meu deus! Não tinha nem ideia. Jamais teria vindo incomodá-lo em

~ 253 ~
um momento tão delicado.
A mulher se levantou com uma revoada de veludo escuro e se dirigiu à
saída. Depois, deteve-se e se voltou para Robert.
— Lamento-o muitíssimo milorde. Logo posso compreender quão
horrível deve ser perder a pessoa amada.
— Eu não… — começou a dizer, mas calou. É obvio que amava a sua
esposa. Como não se deu conta antes? Recordou o brilhante sorriso de
Annabelle, o aroma embriagador de seu corpo e o modo perfeito em que se
ajustava ao seu.
É obvio que a amava. Só lamentava não ter tido mais tempo para dar-se
conta, para desfrutar da sensação de amar e saber-se correspondido.
Sentiu que um nó se formava na garganta e lutou contra ele.
— Obrigado, senhorita Davis.
— Se houver algo que meu pai ou eu possamos fazer, algo que
necessite ou meios ao seu dispor…
Robert assentiu. Inclusive em sua dor, teve que admirar a discrição da
senhorita Roslin Davis.
— Transmita meu agradecimento a seu pai — disse, enquanto voltava a
abrir a porta para que saísse —. E não se preocupe com a confusão. Ao final
não foi sua culpa.
— Alegro-me que pense assim, milorde. E lamento sinceramente ter
perturbado seu descanso.
Robert se despediu da mulher com um gesto e começava a fechar a
porta quando um pensamento fugaz cruzou sua mente.
— Senhorita Davis?
A aludida se virou.
— Sim, milorde?
— Foi dito que solucionaram as coisas com meu cunhado, o visconde
de Weymouth. Posso perguntar como exatamente?

~ 254 ~
Roslin mordiscou os lábios, como se meditasse sobre a
confidencialidade dos negócios de seu pai. Finalmente, assentiu.
— O visconde veio faz uns dias para falar com meu pai. Disse algo de
uns negócios que por fim estavam dando seus frutos e prometeu pagar a
dívida em pouco tempo.
Robert assentiu, pensativo.
— É elevada essa soma?
— Muito custosa, milorde.
Robert se despediu da mulher e sua mente retornou a questões mais
vitais. Perguntou-se se ficaria licor na casa, embora temesse muito que tivesse
esgotado o estoque. A perspectiva de passar a noite sóbrio, ruminando seus
odiosos pensamentos, o fez deter-se na metade do vestíbulo.
Não teve tempo de lamentar-se.
A porta voltou a ser golpeada, embora desta vez reconheceu os golpes
rítmicos. Desceu sem vontade e cruzou o vestíbulo de novo.
— Boa tarde, Allendale.
— É o ser com pior aspecto do planeta, companheiro.
— Obrigado.
Ficou de lado para deixá-lo passar.
— Acabo de receber uma visita bem incomum — disse sem saber por
quê. Certamente não tinha nenhum interesse em manter uma conversação
formal com Adam.
— Devo adivinhar ou será mais concreto?
— A senhorita Davis veio me pedir desculpas por haver se deixado
confundir por meu cunhado — olhou Adam, que ria entre dentes —. Nem
sequer sabia que esse homem tinha uma filha.
— Roslin geralmente permanece na parte de trás. Que tenha vindo ela
em lugar de seu pai é uma cortesia para ti. Dado que não é um dos habituais
do clube, sem dúvida Davis pensou que não apreciaria que o dono de uma

~ 255 ~
casa de jogo clandestino passeasse por sua sala de estar.
Robert não tinha pensado nisso. De fato, não tinha pensado em nada.
Tudo lhe parecia excessivamente desinteressante, como se contemplasse sua
própria vida através de um cristal.
— Te ofereceria algo para beber, mas temo que não ficou uma gota de
álcool em toda a casa.
Adam o analisou dos pés à cabeça.
— Não há nenhuma dúvida.
A ira, como um animal faminto, despertou rugindo.
— Se preocupe com seus próprios assuntos, Allendale!
— Você é meu condenado assunto!
— Não é meu pai. Se tanto te incomodo, saia da minha maldita casa e
não volte.
— Perdoo-te a grosseria porque sei que não está passando por um bom
momento.
— O pormenorizado lorde Allendale! — Sabia que era injusto com seu
amigo e nem sequer entendia o motivo pelo qual estava gritando, mas
precisava jogar fora parte da angústia que lhe corroía a alma —. O homem
que se orgulha de continuar procurando a minha esposa inclusive depois que
lhe disse que o deixasse!
— Não vou deixar de procurar Annabelle enquanto exista uma
possibilidade…
— Do quê?! De encontrá-la morta? Deixa-me velar meus próprios
fantasmas, Allendale. Ninguém te deu vela neste enterro!
Adam o olhou com frieza.
— Acreditava-te mais valente, Robert.
O aludido ia responder quando a porta soou pela terceira vez aquela
tarde. Maldição! A julgar pela afluência de público não deveria ter dado dia
livre ao serviçais.

~ 256 ~
Abriu a porta de um puxão e se surpreendeu ao ver um menino jovem
e mal vestido.
— Per... Perdão — balbuciou —. Não encontrei a porta de serviço.
Robert o olhou sem entender, até que viu o papel que o moço agarrava
firmemente em seu punho.
— Traz uma mensagem?
O menino assentiu. Por ato reflexo apalpou os bolsos, até que recordou
sua indumentária. Adam se adiantou e deu ao menino uma moeda brilhante.
Este entregou a missiva a Robert e desapareceu correndo.
Viu-o afastar-se antes de entrar e voltar a fechar a porta.
— Um convite a uma festa? — Perguntou Adam, entre surpreso e
horrorizado.
Robert abriu a nota sem vontade. Fosse o que fosse, não lhe importava.
As sete palavras escritas em tinta negra lhe paralisaram o coração.
Permaneceu aniquilado, percorrendo uma e outra vez os traços irregulares,
sem conseguir acreditar no que estava vendo.
Adam percebeu que algo ia terrivelmente mal. Quase correu até seu
lado e lhe arrebatou o papel das mãos.
— Quanto vale uma condessa? Espere nossas instruções. — Leu em
voz alta —. Malditos filhos da puta! Que maldito miserável é capaz de
sequestrar a uma jovem inocente por dinheiro? E por que demoraram tanto
para comunicá-lo?
Mas Robert não o escutava. A primeira pergunta de Adam fazia eco em
sua mente. Voltou a ver Roslin Davis diante dele.
«Disse algo de uns negócios que por fim estavam dando frutos e
prometeu pagar a soma devida em pouco tempo.»
O visconde de Weymouth ia pagar sua dívida.
A lucidez chegou de um nada, golpeando-o com força.
— Ele a tem, Adam! — Gritou, histérico, enquanto se lançava escada

~ 257 ~
acima em direção a seu dormitório —. Faz selarem dois cavalos!
— Aonde demônios vamos?
— Já sei onde está Annabelle!

~ 258 ~
Capítulo 34

Annabelle recostou a cabeça contra a parede imunda. Sentia o cabelo


sujo sobre os ombros e tratou de recrear, mentalmente, a sensação da água
limpa derramando-se sobre ele. No banho que tinha tomado em Warkworth
Manor antes de seu casamento tinha usado um sabão feito de violetas. O
aroma tinha desaparecido muito tempo atrás, mas se concentrava o suficiente,
ainda era capaz de evocá-lo.
No outro lado da cabana, seus sequestradores discutiam aos gritos. Não
teve que prestar atenção para saber que o tema central era o dinheiro. Outra
vez.
Por algum motivo, o dinheiro sempre parecia ser o problema quando se
tratava de Albert.
Se era sincera consigo mesma, não tinha sido surpresa ao saber que seu
irmão se encontrava atrás daquele assunto. Albert sempre tinha sido capaz de
algo por dinheiro. Mas, embora tenha tratado de indagar, ainda não entendia
como pensava tirar proveito de seu sequestro.
Levava dias tratando de sondar a Bill, o bruto cockney que a vigiava,
quando seu irmão não estava presente. Era um homem tosco no início tinha
tido medo. Depois tinha ficado patente que não queria lhe fazer mal. Seu
irmão tinha pago uma boa soma para vigiá-la e esperava receber outra ainda
maior quando aquela loucura terminasse. Mesmo assim, Bill era tão silencioso
que quase parecia mudo, e fazia dias que Annabelle tinha perdido a esperança
de lhe tirar alguma informação.

~ 259 ~
Albert só tinha estado três vezes na cabana. Na noite em que a
sequestraram partiu depois de deixá-los ali. Tinha aparecido com provisões
uma semana depois e não tinha tornado a vê-lo até àquela mesma tarde,
quando tinha aparecido muito mais alterado que das outras vezes. Por isso
Annabelle tinha entendido, algo não estava saindo como devia.
— O maldito lorde não quer me receber! — Escutou dizer seu irmão.
Apoiou a cabeça sobre os joelhos, fingindo que dormia, e prestou
atenção.
— E que tie’ que ver esse ricaço? — O acento fechado de Bill encheu a
habitação —. Tie’ que pedir o dinheiro e ponto.
Albert bufou como sempre fazia quando se incomodava.
— O que saberá você, caipira ignorante! Primeiro tenho que mostrar ao
maldito conde, quão arrependido estou por haver me comportado tão mal em
seu casamento. De outro modo, cedo ou tarde suspeitará de mim.
Albert pretendia chantagear Robert? A solução era tão óbvia que não
pôde acreditar que tivesse demorado tantos dias em dar-se conta. É obvio que
aquilo era o que seu irmão pretendia!
Ao mesmo tempo, chegou à conclusão de que só existia um modo de
que o plano tivesse êxito: seu irmão pensava matá-la. Jamais a deixaria voltar
para Robert. Não sairia viva da cabana.
Ficou de pé com esforço. Seu irmão não confiava nela. Um grilhão de
aço preso ao tornozelo a encadeava à parede.
— Bill, por favor. Poderia vigiar o exterior enquanto falo com meu
irmão?
Muitos dias atrás tinha compreendido que era muito fácil manipular o
homem sendo amável com ele. Bill sabia dirigir os insultos e as ameaças, mas
corava de pudor se Annabelle dizia ‘por favor’ ou ‘obrigada’.
Albert viu com estupor como o homem que tinha contratado, e ao que
pensava leal, abandonava a cabana para cumprir sua ordem. Voltou para ela

~ 260 ~
seus olhos suínos:
— Não tenho que perguntar como conseguiste que te obedeça. —
Dirigiu um olhar zombador para a camisola estragada de Annabelle, a mesma
que tinha posto na noite em que a raptaram —. Somente tem uma coisa com
a que negociar e a estou vendo.
— Esses recursos são mais típicos de sua mãe, querido. Eu não me
deito com qualquer um.
Apesar de ser um homem obeso, Albert podia mover-se com
assombrosa rapidez.
— Não fale assim dela! — Chiou, equilibrando-se sobre Annabelle e
esbofeteando-a com vontade.
Não ficou quieta. Tratou de lhe devolver o golpe e, quando os enormes
braços de seu irmão a bloquearam, o atingiu com uma pernada que o fez
afastar-se, coxeando. Annabelle puxou o grilhão, mas só conseguiu que o
metal lhe cravasse na pele, já rasgada.
— É um maldito imbecil! — Gritou-lhe, furiosa —. De verdade pensa
que Robert não averiguará o que fez?
— É obvio que não o fará. Que motivos teria para duvidar de mim?
Annabelle resistiu ao impulso de fechar os olhos.
— Se opôs a nosso casamento, recorda? Pediu-lhe dinheiro para manter
em segredo meu nascimento. Crê que meu marido é estúpido? É obvio que o
fará!
— Engana-se. Jamais saberá o que aconteceu. Estou representando
muito bem meu papel, irmãzinha. Estive em Londres quase todas as noites
desta semana. Qualquer um que tenha me visto, sabe da minha angústia e
minha preocupação por ti — sorriu, satisfeito —. Inclusive fui visitar esse
gastador ao que chama de marido para me oferecer a ajudar em sua busca,
mas não fui recebido em nenhuma das ocasiões. — Fez uma pausa e
entrecerrou os olhos com ira —. Se o maldito o tivesse feito! Poderia ter

~ 261 ~
interpretado meu papel de irmão sentido de uma vez por todas e acabar com
isto de uma vez.
— Robert não acreditará. Não acreditará nenhuma palavra do que diga.
— Ou ao menos isso esperava. Com toda sua alma.
— Menospreza o que a dor pode fazer a um homem. Perder a sua
amada esposa…
— Robert não me ama!
— É obvio que te ama! Só um homem apaixonado passaria por cima
do fato de que é bastarda. — Voltou a aproximar-se dela com cautela —. Se
só tivesse calado a boca no dia de suas bodas. Eu teria conseguido meu
dinheiro e você agora estaria na cama, com seu marido. Nada disto tinha que
acontecer!
Annabelle viu diante dela a única oportunidade que ficava.
— Albert, isto não é necessário — se obrigou a soar calma —. me
libere e voltemos para Londres. Diremos que me assustei devido ao meu
apressado casamento e fugi. Já o fiz uma vez, todo mundo acreditará. Direi
que me convenceste a voltar para o lado de meu marido. Robert estará tão
agradecido que sem dúvida pagará suas dívidas!
— Toma-me por um burro, irmã?
— Não, é obvio que não! É uma pessoa realmente inteligente. Sabe que
isto é uma loucura. Embora agora consiga o dinheiro, o que acontecerá da
próxima vez que o necessite? — Annabelle viu a dúvida brilhar nos olhos de
seu irmão e conteve o fôlego. Conhecia-o. Sabia que se já não a tinha matado
era porque não estava realmente seguro de seu plano —. Vamos, Albert. Isto
tem que acabar.
Seu irmão assentiu com a cabeça e saiu rapidamente da cabana.
Annabelle não podia acreditar que tivesse sido tão fácil. Seria possível que o
tivesse convencido? Maldição, deveria ter tratado de manipular a seu irmão
muito antes.

~ 262 ~
Albert voltou a entrar na cabana. A porta se fechou quase com
violência do exterior.
Soube que algo ia espantosamente mal no momento em que ele entrou
em seu campo de visão.
— Sabe? — Murmurou o visconde —. Não fui muito preparado.
— Desde que nasceu? Não, a verdade é que não.
Ele se aproximou dela, espreitando-a. A luz da lua se refletia no metal
da faca.
— Não tenho que esperar cobrar o resgate para te matar. Quem vai
saber? Fui tremendamente tolo. Poderia ter acabado contigo faz dias. Teria
economizado tantas moléstias!
— Mas não o tinha feito Albert, você não quer fazer isto. —
Retrocedeu à medida que seu irmão avançava, mas logo seu corpo chocou
contra as pranchas da parede. Fechou os olhos e apertou as palmas contra a
madeira a modo de despedida. Seu pai lhe tinha construído aquela cabana para
afastá-la da crueldade de sua mãe e de seu irmão. O que era adequado para ser
o cenário do último ato.
— Claro que quero fazê-lo! — Gritou seu irmão, tão perto que
Annabelle podia cheirar sua fetidez a álcool e imundície —. Deveria havê-lo
feito faz anos. Maldição, se só fosse um pouco mais valente! Às vezes o
pensava, quando íamos ao lago, que teria sido tão fácil. Foi uma menina tão
pequena para sua idade. Poderia acabar contigo então.
— Por que, Albert? — As lágrimas começaram a escapar de seus olhos
fechados —. por que me odeia tanto?
— Como não te odiar? Você destruiu a vida de nossa mãe. Se não fosse
por ti, não teria que conformar-se com um sujo visconde.
Annabelle abriu os olhos, aniquilada. Seu irmão estava tão perto que
podia perceber o tom esverdeado de seus olhos. Recordou com dor, que os
olhos de seu pai tinham a mesma cor.

~ 263 ~
— Seu pai era um homem maravilhoso e um pai incrível — murmurou
com incredulidade —. Não poderia ter tido um pai melhor.
— Foi contigo, cadela! Jamais teve para mim nenhuma palavra de
carinho. Você foi seu sol e suas estrelas! A perfeita, perfeita Annabelle! —
bramou com raiva —. Maldita seja, você nem sequer era filha dele. Por que
não podia te odiar, como o faz mamãe?
Annabelle recordou sua infância com outros olhos. Era certo que o
visconde sempre tinha sido muito duro com o Albert e não era nenhum
segredo que ela era sua favorita. Então pensou que seu padrasto tratava de
compensar a gélida indiferença de sua mãe, mas agora compreendia o que
tinha vivido Albert, sempre relegado a um segundo plano.
Compreendeu um pouco melhor a fúria de seu irmão, a raiva.
— Nossa mãe, entretanto, sempre amou a ti — tratou de consolá-lo —.
Eu nunca fui para ela mais que uma enorme decepção.
A cara de seu irmão se transformou pela ira.
— Ela tampouco me ama! Sou filho de um visconde, jamais chegarei a
ser nada. Não sou o filho que queria ter e tudo é culpa tua. — Deu um passo
mais para Annabelle —. Tudo se arruinou com seu nascimento. A vida de
nossa mãe. A minha. Tudo se arrumará com a sua morte.
Leu nos olhos desumanos de seu irmão que tinha chegado ao fim e se
preparou para lutar.

~ 264 ~
Capítulo 35

A viscondessa tinha sido dura, mas finalmente claudicou. Robert jamais


tinha estado tão perto de agredir a uma mulher.
— Digo-lhe que se engana! — Tinha gritado, histérica —. Annabelle
fugiu de você, provavelmente com seu amante! Meu filho não tem nada a ver!
Àquela altura, Robert estava mais que disposto a utilizar a força física
para persuadi-la. Só a presença de Adam tinha evitado que o sangue chegasse
ao final.
— Então não terá nenhum interesse particular em nos ocultar onde se
encontra a cabana de caça que seu marido construiu para Annabelle, não é
certo? — Perguntou Allendale, enquanto Robert concentrava todas suas
energias em não perder o controle —. E, antes de que responda, por favor
seja consciente de que cedo ou tarde acharemos o maldito lugar. Se seu filho
não tiver nada que ver, será melhor que fale, ou toda Londres saberá amanhã
dos estranhos vícios do visconde de Weymouth.
A viscondessa tinha falado e, pouco depois, Robert e Adam instigavam
a seus cavalos. A cabana não se encontrava muito longe de Londres, mas o
caminho parecia eterno. Pareceu-lhe que passaram séculos até que por fim se
aproximaram o suficiente para comprovar que saía fumaça da chaminé e que
uma tênue luz brilhava no interior.
— Há um guarda — murmurou Adam a sua direita, assinalando ao
homem sentado nos degraus da entrada.
— Está dormindo? — Perguntou com incredulidade.

~ 265 ~
Adam assentiu.
— Ao que parece existe uma lei pela qual, se for um caipira, só pode
contratar a outros caipiras.
Aproximaram-se com tanto cuidado que o homem não chegou a vê-los.
Robert viu como Adam tirava a arma oculta no bolso de seu casaco e o fez ele
próprio. Perguntava-se se seria capaz de matar o homem a sangue frio, mas
Adam solucionou o problema golpeando ao homem com a culatra do
revólver. O tipo caiu inconsciente no chão.
Aproximaram-se ainda mais da porta, tratando de perceber se aquele
era o único homem que o visconde tinha levado com ele.
A voz de Annabelle fez os olhos de Robert se encherem de lágrimas de
alívio. Estava viva. Deus, tinha pensado que jamais voltaria a escutá-la. Não
entendeu o que dizia, mas escutou a angústia em sua voz.
Fez um gesto a Adam, lhe indicando que iria entrar. Seu amigo assentiu
com a cabeça.
— Tudo se arruinou com seu nascimento. — A voz do visconde
encheu a noite. A ameaça era quase tangível —. A vida de nossa mãe. A
minha. Tudo se arrumará com sua morte.
— Albert, por favor! Sou sua irmã! Não, não!
Os gritos histéricos de Annabelle fizeram com que perdesse todo
cuidado. Chutou com força a porta e correu em direção à voz, só para deter-se
instantes depois.
Albert se encontrava de costas para eles, na parede mais afastada da
cabana e atrás dele podia intuir a forma menor de Annabelle. Nenhum dos
dois se movia.
Apontou a arma para o imenso corpo do visconde, mas não disparou.
Seu olhar foi absorvido pelo rio de sangue que salpicava o chão sob os pés
dos irmãos.
Reagindo com rapidez, Adam passou ao seu lado e correu para o

~ 266 ~
visconde. Como em uma encenação, Robert viu como empurrava com força o
corpo do homem, separando-o de Annabelle. Pensou em fechar os olhos.
Não queria ver o rosto sem vida de sua esposa. Mas o visconde de Weymouth
não reagiu ao puxão de Adam. Todo seu corpo cambaleou e depois caiu ao
chão com um golpe seco.
Durante uns instantes, não soube exatamente o que estava
contemplando. Depois, seu cérebro, parado pelo pânico, começou a processar
as imagens. Apertada contra a parede de madeira da cabana, como se não
confiasse em suas pernas para sustentá-la, Annabelle olhava o corpo inerte de
seu irmão com expressão desolada. Estava pálida, suja e gasta, e o sangue
empapava a parte dianteira de sua camisola.
Em sua mão ensanguentada brilhava uma faca de caça.
Robert ficou de pé tão rápido que sentiu como se o chão tremesse sob
os seus pés. Não lhe importou. Equilibrou-se sobre sua mulher, retirou a arma
de sua mão gelada, e a apertou em um abraço tão forte que pensou que jamais
poderia deixá-la ir.
Escutou o murmúrio afogado de Annabelle contra seu peito.
— Vieste me buscar, Robert. Vieste me buscar.
— Está ferida?
Annabelle negou com a cabeça, ainda no círculo de seus braços.
Forçou-se a afastá-la o suficiente para olhar o seu rosto. Adam tinha
desaparecido e supôs que estava às suas costas, comprovando as feridas do
visconde.
Olhou a sua esposa nos olhos e sentiu que o mundo desaparecia a seu
redor. Aqueles belos olhos castanhos. Por volta de menos de um mês a tinha
abraçado pela primeira vez, era então uma completa desconhecida, mas, de
algum modo, seu corpo e seu coração a tinham reconhecido.
— Amo-te, Annabelle. meu Deus, quanto te amo!
— Eu também te amo! Oh!, Robert!

~ 267 ~
Voltou a abraçá-la, beijou-a, murmurou palavras tranquilizadoras em
seu ouvido e repetiu todo o processo novamente. Annabelle tremia em seus
braços e Robert pensou na maneira mais rápida de tirá-la dali.
Um pigarro às suas costas o fez reagir. Voltou-se em parte para Adam,
procurando que sua mulher não visse nada.
— Está morto — murmurou baixinho o duque de Allendale, mas pela
repentina tensão nos ombros de sua esposa, soube que o tinha ouvido.
— Não é tua culpa, Annabelle — murmurou com ênfase —. Não foi
tua culpa!
— Ele queria me matar. Tinha uma faca. aproximou-se, mas eu fui mais
rápida. Lutamos e… Não pensei… meu Deus, não pensei, só quis lhe tirar a
faca, só queria…
Robert a apertou com mais força entre seus lábios. A sensação agridoce
se estendeu por seu peito. Tinha chegado muito tarde e sempre o lamentaria,
mas tinha a sua esposa entre os braços e isso era o único que contava.
Aprenderiam a viver com os horrores daquela noite. Não amanhã, nem no
seguinte, mas algum dia olhariam para trás e só recordariam a sorte de estarem
juntos. Por fim.
Graças a Deus, o duque de Allendale prometeu encarregar-se de tudo e,
poucos minutos depois, Robert montou Annabelle junto a ele no cavalo e
partiu a galope. Sua esposa o abraçava com força e ele descansou o queixo em
seu cabelo, saboreando sua proximidade.
— Cheiro mal — escutou dizer a Annabelle em um sussurro.
Sorriu.
— Eu não devo cheirar melhor.
Sua esposa lutou para elevar o olhar. Havia dúvida em sua expressão.
— E que desculpa tem você?
— Minha esposa tinha desaparecido. Não tive um humor muito bom
nas últimas semanas. — Riu um pouco ao recordar —. De fato, nem sequer

~ 268 ~
estive amigável.
— Sentiste saudades? — Parecia haver dúvida em sua voz.
— Isso nem sequer se aproxima do que tenho sentido. Aquela noite
voltei para seu dormitório e, ao ver que não estava, simplesmente soube.
— Foi Gregers.
Todo o corpo de Robert se esticou ante o nome.
— Lydia suspeitou dele imediatamente.
— Estava certa. Meu irmão sabia que não devia estar por perto quando
acontecesse, assim confabulou com o Gregers para que fosse ele quem me
sequestrasse. Quando o vi na porta do quarto, pensei que tinha ido lá pela
Lydia. — estremeceu. Robert a beijou —. Quis gritar, mas não tive tempo.
Apertou-me um trapo úmido contra a boca e acredito que perdi a consciência.
Quando despertei estava na cabana de meu pai e Albert estava ali.
— Lydia suspeitou dele imediatamente, mas quando cheguei a Londres
informaram que tinha partido para o continente. Supus que tínhamos seguido
uma pista falsa.
Annabelle negou com a cabeça, de causar pena.
— Pobre Lydia, começo a compreender o horror que deve ter sofrido
em suas mãos. Crê que voltará?
— Espero realmente que deixe-se seduzir pelos prazeres do continente,
embora não quero que guarde falsas esperanças. Existe a possibilidade de que
decida voltar e, face ao que sabemos, não temos nenhum modo de implicá-lo.
— E o que acontecerá com… com meu irmão?
— Adam se encarregará de que descubram seu corpo esta mesma noite.
As más companhias e a fama de Weymouth farão que ninguém se surpreenda
por sua morte violenta. — Sentiu Annabelle tremer em seus braços e a
apertou mais contra si, impotente, desejando possuir o poder para fazê-la
esquecer —. Annabelle, sinto muitíssimo tudo o que aconteceu. Apesar de
meus próprios sentimentos, o visconde era seu irmão. Lamento que o tenha

~ 269 ~
perdido assim.
Sua esposa se elevou com esforço para beijá-lo docemente na
bochecha.
— Não, não o era. Do mesmo modo que o homem que deixou grávida
a minha mãe nunca foi e nunca será meu pai. Tive um pai magnífico e não tive
nenhum irmão, dá-me igual o que indiquem as regras da biologia. — Fez uma
pausa, como se refletisse sobre o acontecido —. Você é um bom irmão.
Elizabeth sempre teve sua afeição e sabe que a apoiará, sem importar o que
acontecer. Em toda sua vida, Albert jamais pôs os sentimentos de ninguém
sobre os seus próprios. Deixou-se enganar pelo ódio entre meus pais. Não me
alegro de que tenha morrido, mas não posso chorar a perda de um irmão que
nunca senti que tinha.
Em um intento para aliviar o tom da conversação, Robert perguntou:
— Quem herdará o título?
Annabelle meditou um instante.
— Suponho que o título e o pouco que fique da fortuna familiar
pertencem agora a meu primo Justin.
— É um bom homem?
— Isso acredito. — Sem dúvida agitada pelos nervos e emoções da
noite, começou a rir —. Sabe? Minha mãe jamais suportou a minha tia
Cláudia. Não vai aceitar muito bem que seu filho herde o título. Estou
disposta a apostar que terá um ataque de nervos.
Robert sorriu em silêncio. Sem dúvida a viscondessa não era a sua
pessoa favorita no mundo e agradecia que não houvesse muita paz em seu
futuro. Era uma pequena vingança, mas lhe valeria.

~ 270 ~
Capítulo 36

Robert se despediu de Annabelle na porta de seu quarto, embora todo


seu corpo clamava por ficar a seu lado e tomá-la uma vez mais entre seus
braços. Teve que fazer um esforço ao perceber os círculos escuros abaixo dos
olhos de sua esposa e a puída camisola que tinha tido dias melhores.
— Ordenei que lhe subam água para um banho. — Sem poder resistir a
acariciá-la uma vez mais, separou-lhe do rosto uma mecha de cabelo sujo —.
Se sentirá muito melhor depois de tomá-lo.
Sentiu-se como um estúpido. Não só tinha passado duas semanas
retidas contra sua vontade, mas sim também tinha tido a desventura de ter que
acabar com a vida de um homem em defesa própria. É obvio que um simples
banho não ia lhe fazer sentir melhor.
— Obrigado, milorde. Estarei pronta para o jantar.
— Não prefere jantar em seu dormitório?
Annabelle piscou ante a frieza no tom de seu marido. Embora, devido
ao cansaço, não se sentia tão mal como deveria, teria preferido que ele ficasse
a seu lado e lhe fizesse companhia.
— Claro — ouviu-se responder com voz rouca. — Acho que é melhor,
sim.
Entrou no dormitório e, pela primeira vez desde que pronunciou seus
votos, deu-se conta de que era a condessa de Dain. Tinha sido sequestrada
apenas umas horas depois da cerimônia e, durante o cativeiro, a angústia tinha
eclipsado tudo o resto.

~ 271 ~
Agora, ao entrar em um cômodo tão grande como o salão da casa onde
tinha crescido, foi consciente pela primeira vez do enorme passo que tinha
dado. Sua vida ia mudar para sempre.
E Robert a amava.
Recordar essas palavras saindo de seus lábios a encheu de uma alegria
sem igual. O homem que ela queria a amava. O amor correspondido era uma
sensação sem igual. Fazia você sentir forças para derrotar gigantes se fosse
necessário. Sentia-se exultante, poderosa…
Olhou a banheira vazia do outro lado do dormitório e se perguntou
quanto tempo demoraria para enchê-la. Queria voltar a ver Robert de novo.
Queria abraçá-lo e beijá-lo e lhe pedir que ficasse com ela. Recordou o
semblante sério de seu marido ao despedir-se na porta de seu dormitório e
então caiu em si. Seu estupidamente galante marido! Sem dúvida tinha
pensado que ela necessitaria tempo a sós.
Enganava-se. Tinha estado sozinha toda a vida. Agora queria estar com
ele. Decidiu que não podia esperar nem um minuto mais.

Depois de despedir-se de sua esposa, Robert continuou até seu


dormitório. Tinha ordenado que subissem também água para ele.
O alívio que sentia por voltar a ter Annabelle em casa era
inqualificável. Entretanto, aborrecia-se das experiências pelas quais ela tinha
passado. Sabia que, em que pese a sua integridade, seria difícil para ela superar
tudo o que tinha acontecido.
Esperava que o tempo e as boas lembranças substituíssem algum dia as
más.
Indicou a seu lacaio que se banharia sozinho e se desfez com presteza
da roupa. Quando entrou na água quente, reconheceu a utilidade dos
caprichos de sua mãe. Sem dúvida nenhum outro lorde de Londres possuía
duas magníficas tinas do tamanho de um homem. Era uma extravagância que

~ 272 ~
naquele momento agradeceu.
Ato contínuo imaginou a sua mulher do outro lado da parede, entrando
em uma banheira exatamente igual àquela e todo seu corpo se contorceu de
desejo. Morria por senti-la de novo. E esta vez tinha sido sincero sobre o que
guardava seu coração. Nada se interporia entre eles dois.
Fechou os olhos e se forçou a permanecer exatamente onde estava, sua
esposa não necessitava que a incomodasse naqueles momentos com seus
desejos desconjurados.
— Robert?
Abriu os olhos de repente e quase ofegou.
Sua mulher envolvida em uma macia toalha… E não levava nada mais
em baixo.
— Annabelle, aconteceu algo?
— Nada absolutamente — disse ela, entrando no dormitório.
Os olhos lhe saíram das órbitas quando, deliberadamente, deixou que a
toalha deslizasse até seus pés. Com movimentos fluidos elevou a perna pela
borda da banheira e se sentou ante ele, apoiando suas costas contra o peito de
Robert.
Este a abraçou, desfrutando da sensação de tê-la de novo em seus
braços.
— Dava-te medo te banhar sozinha?
— Se tivesse conhecido o tamanho da banheira te teria advertido que
não sei nadar.
Com uma risada, apertou-a contra ele.
— Amo-te — sussurrou de novo junto a sua orelha.
— Sei, milorde, não deixa de repeti-lo! — Depois sua voz soou séria —
. Eu também te amo. Muitíssimo.
Robert notou o momento em que os sentimentos dela mudaram.
Tinha-o estado esperando. Era normal que, depois do choque, Annabelle

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flutuasse durante um tempo entre a euforia e o medo, a angústia e a alegria.
Beijou-a na nuca.
— Deixa que ajude a te banhar.
Foi um prazer enorme poder cuidar dela. Havia-se sentido impotente
durante muito tempo. Inclusive embora a tivesse encontrado, ela salvou-se a si
mesma. Dedicou-se a sua pele com uma concentração inaudita, desfrutando
dos gemidos de prazer de Annabelle ao derramar água sobre sua cabeça.
Deslizou o sabonete entre suas mãos e, depois este sobre o corpo e o cabelo
dela, formando espuma. Amava o modo em que sua pele reagia ao contato,
esquentando-se.
Não passou muito tempo até que Annabelle se mexeu em seus braços e
lutou até acomodar-se escarranchada sobre ele. Seus peitos o roçaram de um
modo provocador.
— Sua vez — disse ela, sorridente.
Procedeu a repetir o processo, agora sobre a pele dele. Riu como uma
menina ao derramar a água sobre sua cabeça.
Segundos depois, Robert compreendeu que o estava seduzindo. O
modo em que sua pele se roçava contra ele, a forma em que suas mãos lhe
acariciavam o cabelo. Quando ela se inclinou e o beijou levemente nos lábios,
Robert respondeu com ardor.
— Senti tanto a sua falta — murmurou contra seus lábios.
Annabelle aprofundou o beijo. Amou a forma em que sua boca se abriu
para ele, lhe permitindo livre acesso. Acoplavam-se tão bem. Desde aquele
primeiro beijo que parecia tão longínquo. Tinha lhe pertencido desde então.
Sentou-se com mais confiança sobre ele, pressionando-se contra sua
ereção. Robert ofegou e Annabelle riu em resposta.
— E pensar que queria uma dama — murmurou descarada sobre seus
lábios.
— Não queria uma dama. — Decidiu lhe seguir o jogo. Rodeou com as

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mãos o quadril feminino e a atraiu para ele enquanto se elevava para possui-la.
Queria exatamente a ti.
Entrou nela com facilidade e ambos gemeram ao uníssono.
— Não te importa que pareça atraída ao escândalo?
— Querida, essa é somente uma das razões pelas quais te amo. Minha
adorável, valente e leal lady Escândalo.

FIM

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