Você está na página 1de 16
DL G8. UN2001 +L 95642 MARIA DE FATIMA FELIX CARVALHO A RAZAO POETICA UMA LEITURA DA CRITICA DA RACIONALIDADE EM MARIA ZAMBRANO. FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 2000 Introdugao Eu no concebo a minha vida sem o exilio que vivi. Maria Zambrano (“Amo mi exilio” in ABC, 28 de Agosto de 1989) No dia 29 de Janeiro de 1939, Marfa Zambrano atravessava a fronteira espanhola; era o inicio de um exilio que duraria mais de 45 anos vividos entre México, Cuba, Franga, Italia e Sufga. A autora s6 regressaria a Espanha em Novembro de 1984. No exilio “recai em pleno sobre 0 exilado toda a ambiguidade da condigAio humene”', por isso representa uma dimensdo paradoxal de existéncia: uma nudez em que a “vida inteira” se revela ¢ dé.a pensar, E que vida pode ser a nossa se nio esta abragada, como os amantes de pedra de Rodin, 4 razdo? Esta pergunta inquietava a nossa autora ¢ o seu filosofar ¢ a procura de uma resposta que reconcilie razio'e vida. ‘A intengio que preside a nossa investigagio e a conduz prende-se com essa questo © com a tesposta da filésofa de Malaga. Procuraremos esclarecer come perspectiva Zambrano os limites do racionalismo ¢ dilucidar a sua proposta de critica e superagdo da racionalidade ocidental, alicergada na compreensio do homem ¢ num outro modelo de racionalidade que reconcilie vida e razo. Iremos procurar clarificar a opgao da autora, por uma nova forma de razio a que chamaré “postica”. A raziio austera, solitéria, simbolizada por O Pensador de Rodin, a clareza e distingaio do pensamento racional contrapée-se, como uma sombra a opacidade da nossa existéncia no mundo, Ao pensamento “que apenas a si mesmo se pensa, resiste a estranheza da natureza, da vida, do corpo humano, numa palavra, do outro enquanto 'M, Zambrano, “Caria sobre el exilio” (1961) in La razén en ia sombra, antologia del pensamiento de M. Zambrano, Siruela, Madrid, 1993, p.38t outro”, De facto, irredutivel As construgées sistematicas de uma razfio hegeménica, « vida seclama um novo modelo de razio, Nas filosofias do final do século XIX e inicio do século XXX, a desconfianga na raz@o absoluta e transparente instala-se. Husserl procura dar um novo solo firme raziio filoséfica, convida 4 recuperagiio das “proprias coisas”, funda as ‘bases da fenomenologia que outros autores canalizariam em diversas direcctes, reconhecendo que o sujeito cognoscente est4 imerso numa realidade de mudanga. A autocritica da raziio tornou-se problema legitimo da filosofia, depois de Kant ¢ poderemos considerar que petsegue a filosofia contemporénea, uma “critica total da raziio” ¢ que somos hoje conftontados com diferentes racionalidades que abandonam a ideia da sua unidade. Maria Zambrano comparte com outros pensadores contemporaneos o constatar dos limites do racionalismo ocidental desde Plato, mas particularmente no seu coutorno moderno. Orientou a sua reflextio filoséfica de dentincia dos limites dessa razio hegeménica para teméticas como a da vida poética, destacando em que sentido se opde € se complementa a filosofia. B caracteristico desta autora, desde os seus textos iniciais, enearar o problema filoséfico como algo muito distinto de um problema técnico: a filosofia € um acontecimento radical na vida humana, por isso concebe os temas filosdficos nfo tanto como problemas mas mais como mistérios. Estamos em presenga de um pensamento cuja obra é muito ampla e disperse, por isso, convém situd-lo. nossa preocupagdo, ao longo do trabalho, situar esse pensamento que € “sempre o discorrer de uma serpenteante espiral”? e atender a sua progressiva evolugdo, Nesse sentido, iremos aqui introdurir umas quantas notas acerca dos periodos da produgéo filoséfica da nossa autora, que nos ajudario a enquadrar a sua * MB. Pereira, “Hermenéutica ¢ desconstrugio”, in Revista Filasdfica de Coimbra, vol.3, n°6, 1994, p.230. 3 CE J.M, Sanz, La rasén en ia sombra (1993) p.XUI.