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Esculturas pendentes mexicanas. Autoria anônima, acervo da Casa Santos Reis.

REIS MAGOS
História - Arte -Tradições
fontes e referências

Affonso M. Furtado da Silva


Autor
Affonso M. Furtado Silva

Acervo Documental
Adiléia Ferreira

Acervo Audiovisual e Multimídia


Aressa Egly Rios

Acervo Iconográfico
Ludmylla Bernardo Penna

Sistematização das Informações


Lúcia Beatriz Torres

Diagramação
Márcio Alvim de Almeida

Ilustração da capa
Leonardo Paiva

Arte Gráfica
Raphael Cavalcante

Revisão de texto
Moema Amazonas Schwartzman

Impressão
Gráfica e Editora Prensa

Edição, Distribuição e Vendas


LÉO CHRISTIANO EDITORIAL LTDA.

CAIXA POSTAL 25.026 / 20.552-970 - RIO - BRASIL


Tels.: (21) 2568-1979 / 2234-8594
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Silva, Affonso M. Furtado da.


S586 Reis magos : história, arte, tradições : fontes e referên-
cias / Affonso M. Furtado da Silva. – [Rio de Janeiro
: Leo Christiano Editorial, 2006].
236p. ; 28cm.

ISBN 8500000000

1. Reis Magos. I. Título.

CDD 232.923
Ao Menino – Deus.

Protagonista–Mor da História, Arte e Tradições.

Peregrinos também somos, na jornada para encontrá-lo.

(Inspirado no poema de Goethe)


“Allí, em Zamora, se ve la España que se va. Em su mercado se asiste al
más curioso museo de trajes populares a que puede asistirse em España.
Allí concurren campesinos y campesinas de tierras de Sayago, Aliste,
Alcañices, Sanabria, etc., cada uno com sus típicos y pintorescos trajes...

(...) Y todos estos trajes, todas estas prendas, amén de multitud de objetos
y enseres de formas curiosas, van perdiéndose sin que se recojan en un
museo etnográfico nacional, como se hace en otros paises que, más cui-
dadosos de su progreso, lo son también de sus tradiciones”.

Miguel de Unamuno. Salamanca, 1906.

(Transcrição do livro “La Zamora que se


vá” de Carlos Piñel)
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO, 11

INTRODUÇÃO, 13

ASPECTOS DA TEMÁTICA DO ACERVO, 18

TRADIÇÕES DE REIS NA PENÍNSULA IBÉRICA, 36

PRESENÇA DAS TRADIÇÕES DE REIS NO BRASIL, 46

DIMENSÕES E DESTAQUES DO ACERVO, 57

EXPRESSÕES DE AGRADECIMENTO, 60

OBSERVAÇÕES FINAIS, 62

FONTES E REFERÊNCIAS, 65

ADENDOS, 171

I - MARCO REFERENCIAL E RESUMO METODOLÓGICO, 173

II - REGISTROS HISTÓRICOS DAS TRADIÇÕES DE REIS NO BRASIL, 185

III - BIBLIOTECAS, MUSEUS E CENTROS DE CULTURA E DOCUMENTAÇÃO, 205

IV - COLABORADORES, 215

ANEXOS, 217
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APRESENTAÇÃO
APRESENTAÇÃO

No universo da cultura popular, os registros sobre grupos rituais vigentes no


Brasil apontam para a existência de um sem número deles, com sazonalidade, motivos e
regionalidade diversificados. Nos ciclos junino e natalino, da quaresma ou do carnaval,
surgem Cheganças, Pastoris, Pastores, Guerreiros, Ternos, Maracatus, Cambindas, Bumbas,
Cordões, Reisados e muitos outros. Tudo indica que surgiram de matrizes estrangeiras, que
se dispersaram pela imensidão da nova terra e, pela própria dinâmica da cultura, aqui soma-
ram influências, adquirindo novos contornos, criando estruturas específicas, reorganizando-
se.
O caso dos Reisados é bastante ilustrativo: o modelo europeu, composto por
cantores e dançarinos, apresentando autos fundamentados na temática natalina, aqui se
subdividiram em muitos outros, diversificaram os ciclos, inseriram outros temas, acresceram
personagens na composição da dramatização. Reis, fidalgos, pastores, soldados, palhaços,
animais encenam morte e ressurreição, embaixadas, lutas de espadas, situações do cotidia-
no, tensões vividas, compondo um conjunto de ações e reações decorrentes de um proces-
so dialético que sintetiza passado e presente, o que lhes confere um sentido de brasilidade
e, ao mesmo tempo, de contemporaneidade.
A vigência de Reisados, não só no Brasil como em outros países, compõe uma
teia surpreendente, conforme se percebe no material aqui relacionado. Vários locais euro-
peus – Alemanha, Espanha, Inglaterra, Itália, França, Portugal – e americanos – Argentina,
Estados Unidos, Guatemala, México, Peru, além do Brasil – devem a essa expressão de
cultura algumas páginas de suas histórias. A meu ver, é este o grande mérito desse docu-
mento. À semelhança dos Magos, o coordenador do projeto saiu em busca de pistas, aqui e
alhures, obstinadamente. Por muitos anos e sem a ajuda de qualquer cometa orientador,
empreendeu viagens peregrinas, visitou sítios de devoção, pesquisou instituições religiosas
e culturais, adquiriu bibliografia, transcreveu registros vigentes em memórias e, participante
da modernidade, navegou pelo mundo da virtualidade.
Espantoso também é se dar conta de que, num mundo tão individualista, existam
ainda indivíduos teimosamente generosos que se devotam a identificar, registrar e catalogar
material cultural, compondo um acervo que considero um dos mais completos sobre o tema.
Nós, estudiosos, agradecemos, ficando em débito com esse pesquisador.

Cáscia Frade

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INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Há cerca de dois milênios, o Evangelho de Mateus consagrava, no relato do
Capítulo 2, a jornada dos Magos do Oriente. Partiram de suas terras e, guiados pela luz de
uma estrela resplandecente, chegaram à gruta, em Belém, na Judéia, para adorar o filho de
Deus que havia nascido, ofertando-lhe régios presentes: Ouro, Incenso e Mirra. Esse texto
bíblico, o único entre os ditos canônicos, que faz
menção aos Magos, é de reconhecida brevidade,
uma vez que não especifica a categoria dos Magos,
seus nomes, número e os locais de procedência, no
Oriente.
Tempos depois, esse episódio veio a se
constituir na essência da celebração da Epifania,
festejada, desde sua origem, no Oriente, nos pri-
meiros séculos do cristianismo, no dia 6 de janeiro
de cada ano, também conhecido como dia de San-
tos Reis. A Epifania foi somente estabelecida em
definitivo no século IV, como uma das festas mais
solenes da liturgia cristã, significando que o Messi- Grupo “Sternsinger” - ilustração
as prometido veio não apenas para os judeus, mas do poema “Epiphanias” (Goethe)

também para todos os povos da humanidade.


O Concílio Vaticano II, realizado em quatro sessões, de 1962 a 1965, desvinculou,
no calendário eclesiástico, o dia de Reis da Epifania, fazendo esta coincidir, anualmente, com
o domingo que incidir no período de 2 a 8 de janeiro, inclusive. Com isso, o dia de Santos Reis
deixou de ser feriado em alguns países, inclusive Brasil e Portugal, desvanecendo, de certo
modo, o brilho das festividades que outrora se realizavam nessa data. Entretanto, na Espanha,
o dia de Reis, 6 de janeiro, permaneceu como ferido nacional.
O enigma que envolve essa narrativa bíblica, igualmente descrita em alguns
Evangelhos considerados apócrifos sobre: a origem e a natureza dos Magos, o significado da
Estrela, como também o valor simbólico das três dádivas ofertadas, tem ensejado nos
campos teológico, histórico, literário, iconográfico, astronômico, astrológico, e até no das
Ciências Ocultas, infindáveis reinterpretações, ao longo dos tempos.
Conhecida, em sua forma mais popular, como a “Adoração dos Reis Magos”, essa
passagem da Escritura Sagrada tem também servido de inspiração às mais variadas manifes-
tações nas letras e nas artes e contribuído para o desenvolvimento de tradições populares,
as mais diversas, algumas já tão distantes de suas matrizes primitivas.

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A idéia inicial deste trabalho de pesquisa, levantamento e obtenção de fontes e
referências sobre a história, arte e tradições populares, relativas aos Magos evangélicos -
ou simplesmente Magos, foi conhecer e registrar as festas e a situação dos grupos folclóri-
cos conhecidos como Folias, Companhias, Ternos, entre outros, de Reis, nos Estados da
Região Sudeste do Brasil, tendo em vista a reconhecida abrangência territorial desses gru-
pos. Ao mesmo tempo, o trabalho visou também certificar os meios que vêm sendo utilizados
na preservação desses grupos, organizados sob inspiração do catolicismo popular, para
cumprir uma missão de promessa ou devoção, em suas representações tradicionais que se
desenvolvem dentro do período natalino de 25 de dezembro a, via de regra, 6 de janeiro.
Dentro desse período, e principalmente fora, excluindo apenas o tempo quaresmal, um nú-
mero cada vez maior desses grupos toma parte nos denominados Encontros ou Festas de
Santos Reis, um evento folclórico coletivo e de confraternização entre os grupos participan-
tes.
O trabalho iniciou-se, de modo informal ainda, na Região Sudeste do Brasil, por
volta de 1992. A partir de 1994, organizou-se um programa de atividades, especificando os
dados e informações a levantar nas diversas viagens dirigidas às localidades, no âmbito das
microrregiões homogêneas, agrupadas de acordo com a composição estadual das mesorregiões
estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
A partir de 1996, de forma simplificada, o levantamento estendeu-se às demais
regiões geográficas do país, ampliando, assim, o marco de abrangência - de regional a
nacional. Afora as Folias de Reis, outros tipos de grupos de representação popular, integran-
tes do ciclo natalino, também passaram a fazer parte deste trabalho. Todo esse conjunto de
grupos é conhecido por Reisados.
Mestre Câmara Cascudo [1G], no Dicionário do Folclore Brasileiro, conceitua
o termo Reisado: “sem especificação maior refere-se sempre aos ranchos, ternos e grupos
que festejam o Natal e Reis. O Reisado pode ser apenas a cantoria como também possuir
enredo (...)”. Mais recentemente, o folclorista pernambucano Roberto Benjamin [1G], no seu
apropriado Pequeno Dicionário do Natal, anota o verbete Reisado como: “Formas dramá-
ticas do cotidiano ou de transposição para a forma dramática de romances, xácaras, formas
literárias populares tradicionais em verso”.
Para a inclusão desses novos grupos, recorreu-se ao estudo Tipologia dos
Reisados Brasileiros - Estudo preliminar, do folclorista mineiro Ulisses Passarelli [1B], no
qual o autor, minuciosamente, examina e identifica, por região, a expressiva família de
reisados, acima de 60 grupos, em todo o território nacional. Foram considerados dois tipos
de Reisados, ambos integrantes do ciclo do Natal e baseados nos costumes natalinos ibéri-
cos. O primeiro tipo [Grupo A], “grupos que se preservaram predominantemente religiosos”;

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no segundo tipo [Grupo B], não se verifica essa predominância. Nestes termos, além das
Folias de Reis, outros tipos de Reisados passaram a fazer parte do trabalho, como: Boi de
Janeiro, Boi de Mamão, Boi de Reis, Bumba-meu-boi [região nordeste oriental], Cavalo Mari-
nho, Companhias de Pastores, Guerreiros, Lapinhas, Mulinha de Ouro, Pastores, Pastorinhas,
Pastoris, Rancho de Reis, Reiadas, Reis de Boi, Reis de Careta, Reis de Congo, Reisados,
Ternos de Reis (versão da Bahia e do Sul), e outros tantos mais. A esse conjunto de
Reisados, com diferentes graus de influência dos Magos do Oriente, e também para que
possam ser referenciados aos seus congêneres de outros países, denominaremos, para
efeito de simplificação, Grupos de Reis.
O desenvolvimento do trabalho permitiu a construção de um acervo, de produ-
ção própria, compreendendo dados e informações de natureza documental, iconográfica,
audiovisual e multimídia, sobre as Festas e os Grupos de Reis participantes, no domínio das
mesorregiões da Região Sudeste, e englobando algumas cidades das outras regiões do país.
Complementarmente, foi ainda obtido outro conjunto equivalente junto aos pró-
prios Grupos de Reis, como também nas Bibliotecas, Centros/Casas de Culturas, Centros de
Memórias, Museus, entre outras entidades culturais, públicas e privadas, dos Estados e
Municípios pesquisados. As fontes e referências, obtidas nessas instituições, restringiram-se
às normas praticadas por cada entidade.
Não obstante, o objetivo e o escopo iniciais do trabalho foram redefinidos, à
medida que a pesquisa se desenvolvia, e se ampliava o volume do material obtido, requeren-
do uma segunda etapa, sobrepondo-se à primeira, que se estendeu de 1996 a 2005. Nesse
período, buscou-se constituir um marco referencial mais amplo, com dados e informações
relativos aos Magos, envolvendo outros países. Ademais, que circunscrevesse, desde os
primórdios, a origem, a história e outros aspetos artísticos e culturais, que desaguaram na
formação e evolução de um conjunto de rituais litúrgicos e paralitúrgicos, que chegaram aos
tempos atuais.
Como se sabe, essas tradições populares relativas aos Magos do Oriente, foram
trazidas ao Brasil pelos colonizadores ibéricos, mais diretamente portugueses, e empregadas
pelos jesuítas sob forma de canto, dança e representação, no processo de catequese e
ensino dos nativos e dos próprios colonos vindos de Portugal [Reinóis]. Assim, o escopo do
trabalho estendeu-se à Península Ibérica e, em seguida, abarcou também outros países
europeus, em especial, Alemanha, França, Itália e Inglaterra, onde, de acordo com referên-
cias disponíveis, essas manifestações relacionadas aos Magos eram mais que expressivas.
Países que tiveram marcante presença não somente no campo das artes, mas também
quanto às tradições populares que se formaram. Os Estados Unidos da América também
passaram a fazer parte do grupo de países selecionados.

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Nesse conjunto, não se poderia ainda deixar de incluir países latino-americanos
que, a exemplo do Brasil, tiveram um processo de catequese cristã similar. Foram escolhidos
o México, a Guatemala, o Peru e a Argentina.
Até três missões de trabalho foram realizadas nesses países, definindo o roteiro,
os contatos e o esquema de pesquisa a ser desenvolvido junto às Bibliotecas Nacionais,
Museus Antropológicos e de Tradições Populares, Universidades e em outras entidades
correlatas, públicas ou particulares, situadas nas capitais e em algumas cidades selecionadas.
Similarmente ao procedimento utilizado na fase precedente, as fontes e referências obtidas
nas organizações estrangeiras restringiram-se às respectivas normas adotadas para tal fim.
Contou-se ainda com numerosas doações, bem como aquisições e encomendas junto às
diversas redes de Livrarias Convencionais, de Livros Usados e através de Portais de Serviços
de Aquisição Bibliográfica, via Internet. O Adendo III relaciona todas as bibliotecas, museus
e centros de cultura e documentação, visitados por este trabalho de pesquisa, através de
seus endereços postais e eletrônicos, ordenados por países, estados e cidades.
A classificação adotada das fontes e referências levou em conta, por um lado,
cinco espécies de suporte que compõem o material do acervo:

1 - BIBLIOGRÁFICO
2 - HEMEROGRÁFICO
3 - ICONOGRÁFICO
4 - DOCUMENTOS ESPARSOS
5 – AUDIOVISUAL E MULTIMÍDIA

Por outro, sete categorias temáticas caracterizadas pelas seguintes palavras-


chaves:

A - ARTES VISUAIS: Escultura/Pintura/Iconografia


B - FESTAS E GRUPOS DE REIS
C – LITERATURA: Lendas/Teatro
D – LITURGIA E TEMPLOS DE SANTOS REIS
E - MÚSICA E INSTRUMENTOS MUSICAIS
F - ORIGEM E HISTÓRIA RELATIVAS AOS REIS MAGOS
G - TEMAS CORRELATOS

O conjunto de fontes e referências, assim constituído e classificado, passa a


denominar-se, daqui para frente, de Acervo. Todas as obras citadas ao longo deste traba-

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lho, que fazem parte do presente Acervo, serão indicadas por um código localizador, resul-
tante do processo classificatório, através da conjugação das cinco espécies de suporte e
das sete categorias temáticas acima indicadas. Por exemplo, [1B] significa: (1) - suporte
bibliográfico; (B) - categoria temática: Festas e Grupos de Reis. Uma descrição mais porme-
norizada não só do marco referencial, como também da metodologia utilizada neste trabalho,
consta no Adendo I.
Na continuação, abordaremos, de forma resumida, alguns aspectos gerais relacionados
aos temas mais relevantes que se depreendem deste Acervo a respeito da história, arte e
tradições que se formaram sob a influência dos Três Reis Magos. Nesse contexto, um enfoque
especial será dado às tradições populares na Península Ibérica e no Brasil. Complementa-se
esse quadro com informações sobre as dimensões e destaques do Acervo, seguindo-se do
tributo de gratidão e das observações finais.

Foto: Comissão Pernambucana de Folclore

Altar dos Reis Magos na Matriz de Santo Antônio (1753-1793),


Praça Independência - Recife/PE.

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Aspectos da Temática do Acerv
Temática Acervoo

No processo classificatório, diversas categorias temáticas de influência dos


Magos evangélicos foram selecionadas, cabendo então realçá-las, a partir das fontes e
referências que compõem o Acervo. Diante de um assunto extremamente fascinante, ao
mesmo tempo vasto e complexo, alvo de reconhecidas controvérsias, adverte-nos o
renomado historiador medievalista Franco Cardini [1F], professor universitário em Floren-
ça, sua terra natal, na sua obra La Stella e I Re: mito e storia dei Magi, ou ainda em
publicação espanhola Los Reyes Magos: Historia e Leyenda, a respeito dessa enorme
dificuldade. Assim se expressa Cardini: “(...) pôr em ordem sistemática e racional as diver-
sas teses e vozes em desacordo que circulam a propósito dos nomes, procedência dos
Magos, a natureza e o tipo de estrela e o significado das ofertas face à espessa documen-
tação já disponível”. Atentos a essas recomendações, esboçamos um encadeamento de
anotações que se depreendem da leitura do material do Acervo, dentro de uma linha de
exposição de cunho informativo, que nos pareceu mais apropriada aos objetivos deste
trabalho.
Consistente com a evolução histórica, buscou-se também pôr em relevo as obras
pesquisadas, levantadas e obtidas, bem como as manifestações que germinaram sob influ-
ência dos três Reis Magos, e que mais contribuíram para o desenvolvimento das tradições
populares, em particular, no Brasil.
Por primeiro, cabe mencionar, segundo alguns estudiosos, que, nos primórdios
do cristianismo, os Magos foram objeto de “meditação exegética”, por parte dos
apologistas [ou apologetas, entre os quais Justino e Tertuliano] e igualmente dos ditos
“Pais da Igreja”, tanto Oriental como Ocidental. Estes últimos foram responsáveis pela
formulação dos primeiros ritos e dogmas cristãos, cabendo destacar, entre outros:
Irineu [c115-c2002], Gregório [c325-c389], Ambrósio [c340-390], Jerônimo [c340-420],
Jõao Crisóstomo [c347-407], Agostinho [354-430], Alberto Magno [1193-1280] e To-
mas de Aquino [c1225-1274]. No seu tempo, expressaram-se através de escritos teo-
lógicos, em grego ou latim, em reflexão ao texto de Mateus, a respeito dos Magos do
Oriente.
Ainda sobre as primeiras manifestações relativas aos Magos, Gilbert Vezin [1F],
no excelente trabalho intitulado L’Adoration et le cycle des Mages: dans l’art chrétien
Primitif, discorre a respeito, afirmando que: “O tema da Adoração dos Magos foi o assunto
mais popular e mais freqüente que se expressou na Arte, no Oriente e no Ocidente”. Consta-
ta, ainda, que: “A primeira arte cristã emana da teologia, da liturgia e de toda uma literatura
cristã (salmos, sermãos, homilias)”.

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Os livros considerados apócrifos pela Igreja (não-canônicos), que tratam dos
Magos do Oriente, escritos a partir do século II, são, principalmente, os quatro seguintes e
os respectivos capítulos, largamente examinados em diversas obras do Acervo:
• Protoevangelho de São Tomé, Cap. XXI – Visita dos Magos
• Evangelho do Pseudo – Mateus, Cap. XVI – Visita dos Magos
• Evangelho Árabe da Infância, Cap. VII – Chegada dos Magos e Cap. VIII –Volta
dos Magos à sua Terra
• Evangelho Armênio da Infância, Cap. XI – De como os Magos Chegaram com
Presentes, para Adorar o Menino Jesus Recém-nascido.
Outro tema, relativo à narrativa bíblica dos Magos, que também emergiu nos
primeiros momentos, foi a identificação da Estrela com as profecias de Balaão, descritas no
“Livro dos Números”, Capítulos de 22 a 24, do Antigo Testamento.

Reis Magos consultam a


profecia de Balaão.
Xilografia de Erivaldo.

Desde os primeiros anos do cristianismo, as estórias e lendas a respeito dos


Magos tinham curso livre, o que levou o renomado historiador de artes francês Émile Mâle
[2C], nos alvores do século XX, fazer uma primorosa reflexão, ao escrever no artigo L’art
religieux de XII siècle, inserido no Gazette de Beaux Arts: “A imaginação popular cedo foi
aos evangelhos, tentando complementá-los, no que faltava. As lendas originaram nos mais
antigos séculos da cristandade. Elas nasceram do amor, de um tocante desejo de conhecer
mais Jesus e aqueles próximos (...). O povo achava os evangelhos muito sucintos (...).

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Nenhuma das cenas da infância de Cristo forneceu mais rico material para o povo que a
Adoração dos Magos. Suas misteriosas figuras, mostradas veladamente nos evangelhos,
despertavam ávida curiosidade nas pessoas”.
O ponto crucial, que motivou, a partir do século III, conflitos interreligiosos, dos
cristãos com os adeptos de religiões “misteriosas e esotéricas” vigentes á época, conforme
observa Cardini, centrava na questão de como justificar a natureza dos Magos, tradicional-
mente, ou ainda, suspeitamente considerados de caráter “demoníaco”. Havia ainda em voga
a filosofia ligada à cultura gnóstica e posições contraditórias no próprio seio da Igreja, como
a questão do Arianismo, corrente doutrinária, sustentada por Ário, em 318 d.C., contrária à
divindade de Cristo.
Sob a condução do Papa Leão I, o Grande, cujo papado se exerceu no período de
440 a 461 d.C, a Igreja estabeleceu um quadro mais claro quanto às questões e pendências
que reinavam na cristandade da época, inclusive sobre a origem dos Magos. Entrementes, a
realeza dos Magos, conotados como Reis Magos, já havia sido interpretada do ponto de
vista teológico, com base no Salmo 72, e nos Escritos de Isaias (Capítulo 60, versículo 6).
Ambos, elaborados entre os séculos X e VII a.C, preescrevem: o primeiro - “Os reis de Társis
e das Ilhas enviarão presentes, os reis de Sabá e Seba pagarão tributo (...)”; o outro -
“Caravanas de camelos te inundarão, dromedários de Madiã e Efá. Os Sabeus [de Sabá]
ocorrerão em massa, portando Ouro e Incenso, e proclamando as façanhas do Senhor”.
A propósito, o título de Reis, atribuído aos Magos
do Oriente, foi devido a Cesário [São Cesário], Bispo de
Arles, França, no século VI. No século seguinte, o citado
Papa Leão I assegurou, em seus “Sermões” sobre a cele-
bração da Epifania, que os Reis Magos eram em número
de três. Todavia, seus nomes foram, somente mais tarde,
estabelecidos, levando em conta duas fontes documen-
tais mais citadas. A primeira, intitulada “Excerpta latina
barbari”, obra anônima, custodiada na Biblioteca Nacional
de Paris [Manuscrito Nº 4884], e a outra, “Excerptiones
Patrum, Collectanea et Flores et Diversis”, atribuída ao monge
Venerável
beneditino inglês conhecido por Venerável Beda [675-735], Beda

considerado o “Pai da História Inglesa”, por ter escrito o fa-


moso livro sobre a história do país e da Igreja da Inglaterra, de acordo com o livro The Age
of Bede [1D].
Posteriormente, verificou-se, segundo alguns estudiosos do assunto, entre os
quais Franco Cardini, Madaleine Felix, Mario Bussagli, Paul Kaplan, Winifred Sturdevat, tra-

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tar-se de uma falsa autoria e, dessa forma, passou a ser conotada por Pseudo-Beda. Ambas
as fontes especificam os nomes e as características físicas dos Três Reis Magos, com
algumas diferenças. Em latim, Cardini transcreve e Anelli [1F] utiliza, como epígrafe, os
termos da segunda fonte, e os nomes dos Magos correspondem à forma latina que prevale-
ceu: “Primo fuisse dicitur Melchior, senex et canus (...). Segundus nomine Caspar iuvenis
imberbis(...). Tertius, fuscus integre barbatus Balthasar nomine”. Em tradução livre, “O
primeiro, denominado Melquior, idoso, de barba branca, ofereceu Ouro; o segundo, de nome
Gaspar, jovem e imberbe, deu Incenso; o terceiro, Baltazar, de cor escura e barba espessa,
deu a Mirra”.
Entre os escritos da Idade Média que se referem à origem e à história dos Magos
do Oriente, os mais antigos que circulavam pela cristandade eram, segundo Elizabeth Christern
[1F], os Manuscritos de Friedrich Wilhelm, intitulados “Zur Dreikönislegend”, compreedendo
duas “Lendas dos Três Reis”, abrigados no Museu de Filologia da Idade Média e do Renascimento
de Munique - Alemanha [Vol.II, 2º Caderno, página 146 e seguintes]; o outro, segundo
Franco Cardini, de autoria de Jacobo de Vorágine, Bispo de Gênova, intitula-se “Legenda
Aurea”, escrito entre 1280 e 1290, ambos não disponíveis no Acervo.
Entretanto, o mais referenciado manuscrito medieval sobre o tema é o “Historia
Trium Regum”, de Johannes (Johan) von Hildesheim. Anônimo a princípio, como era costume
da época entre escritores, pintores e escultores que não assinavam as suas obras, somente
mais tarde é que a autoria dessa obra veio a ser desvendada. Nascido na cidade alemã de
Hildesheim, monge carmelita, foi professor de Teologia [Bíblicus] em Paris e publicou sua obra
sob forma de manuscrito (MS), entre 1364 e 1375. Tinha a finalidade de elucidar a origem
histórica e sagrada dos Magos do Oriente, cujos restos mortais, como veremos adiante,
foram finalmente parar na cidade alemã de Colônia.
O manuscrito despertou vivo interesse de vez que “os Magos eram considerados
modelos para a soberania medieval, portanto, existem muitos registros de Imperadores e
Reis que visitavam a Catedral [de Colônia] e traziam preciosos presentes (donativos reais)”,
conforme é indicado em painel na Câmara de Tesouro da Catedral de Colônia (Domschatz).
Ou, ainda, como indica Christopher Wilson, no seu livro [não constante do Acervo] “The
Gotic Cathedral ”, que, na Idade Média, os Reis Magos evangélicos “eram considerados como
os primeiros Reis Cristãos”.
Johannes menciona, várias vezes, que retirou os dados e as informações de
relatos de viagens à Terra Santa, sermões, relatos orais, anotando-os em um livrinho, sem
revelar as fontes. Realizou também viagens à França, Itália, tendo inclusive visitado a Cúria
Romana. Assim, o documento se espalhou por toda a Europa, e traduziu-se em diversos
idiomas.

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Na Inglaterra, por exemplo, o tema mereceu notória importância, através do livro
The Three Kings of Cologne, no âmbito da importante coleção “Early English Text Society”,
escrito pelo próprio presidente dessa organização, C. Horstmann [1F], no ano de 1876. Esse
autor reconhece: “O grande número de MMS [manuscritos], comprova a grande popularida-
de do livro (...) .O <Historia Trium Regum > foi um gande sucesso”. Acrescenta, ainda:
“Nenhum dos manuscritos [MMS] existentes [na Inglaterra] contem o texto original. Quase
todos eles são do século XV (...). Esse livro, extremamente popular no seu tempo, de modo
que foi traduzido em diversos idiomas (...)”.
Resumidamente, o manuscrito de Johannes, entre outros aspectos considerados
fantasiosos, como as trinta moedas e a maçã de ouro ofertada ao Menino Deus, descreve a
identificação dos restos mortais dos Três Reis Magos, seus translados dos locais de sepulta-
mento no Oriente para a Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, no início do século IV,
por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, que o converteu ao cristianismo. Com o
“Edito de Milão”, firmado por Constantino no ano 312, estabeleceu-se um regime de tolerân-
cia do Império Romano para com o cristianismo, tornando, pouco mais tarde, em 380, religião
oficial. De Constantinopla, as relíquias foram transportadas para Milão por Eustórgio, primeiro
Bispo dessa cidade, de 325 a 352 [antecedendo a Ambrósio], que, por sua vez, sepultou-as
em um templo especialmente construído para esse fim. Eustórgio, de origem grega, havia
sido escolhido pelo próprio Constantino para governar Milão, obtendo do Imperador a licença
para a transladação dos restos mortais dos Magos.
Em 1158, Milão havia se capitulado frente ao exército alemão sob o comando do
Imperador Frederico I [1122-1190], conhecido também por Barba-roxa ou Barba–ruiva que,
mais tarde, comandou a Terceira Cruzada [1189-1192], em libertação da Terra Santa. Como
despojo de guerra, o Arcebispo de Colônia, Rainald von Dassel, que atuava como Chanceler
de Frederico I, solicitou ao Soberano, em 1164, que as Relíquias fossem retiradas do Templo
em Milão e levadas para a cidade alemã de Colônia. Mais tarde, nessa cidade, foram deposi-
tadas numa urna dourada, conhecida por “Relicário de Santos Reis”, grandiosa obra de
ouriversaria realizada pelo artista mais reputado nesse ofício, o francês Nicolas de Verdun,
no período de 1180 a 1220. Em Colônia, dois anos após o Papa Inocêncio IV [em função de
1243 a 1254] conceder, em 1247, indulgências aos peregrinos que afluíam àquela cidade
para venerar os Três Reis Magos, foi edificada uma Catedral Gótica, iniciada em 1248 e
somente concluída no ano de 1880.
Alguns escritores italianos, dentre os quais Raffaele Bagnoli [1D], em Festivitá e
Tradizione Popolari Milanesi; Albert Vallini [2D], em “Il Culto dei Re Magi nella Tradizione
Ambrosiana”; Ferdinando Reggiori [1D] em San`t Eustorgio Basilica dei Magi, Paolino
Spreafico [1D] em La Basilica di S. Eustorgio: Templo e Museo e Massimo Centini [1F] I Re

22
Dois ângulos diferentes (frontal e lateral) do
Relicário de Santos Reis abrigado na Catedral de
Colônia - Alemanha

Magi: religione, história, astrologia, leggenda nel camino de Gaspar, Mechiorre e Baldassare,
reportam mais detalhes sobre a perda das Relíquias dos Magos para a cidade de Colônia, e
suas conseqüências. Aludem, também, à criação, em 1347, de uma escola de arte “Scuola
dei beati Tre Magi”, de acordo com Centini, e os Cortejos dos Reis Magos, ocorridos a partir
do ano 1336, esses considerados o primeiro registro quanto à popularização do teatro
litúrgico referente aos Magos, assunto que será tratado mais adiante.
Registram a mudança do nome originário da Basílica dos Santos Reis Magos para
Basílica de Santo Eustógio, tomando o nome de seu fundador, uma vez que seus restos
mortais foram ali sepultados. Referem-se ainda à existência de um grandioso sarcófago de
pedra, em forma de tumba romana - que no passado acolhia as Relíquias, permanecendo no
altar dos Reis Magos nessa Basílica, posto que não foi transportado para Colônia. Fazem
menção também de que, na cobertura desse sarcófago, acha-se esculpida uma estrela com
a inscrição “Sepulcrum Trium Magorum”.

Desenho de Walter Gautschi da


Basílica de Santo Eustórgio que
abriga o Sarcófago dos Reis Magos

23
Os referidos autores descrevem as disputas e as tentativas frustradas que se
sucederam para o retorno das Relíquias a Milão, envolvendo personagens de prestígio da
época, como Pontífices, incluindo até o Rei da Espanha, Felipe II, que, para tal fim, expediu
um Decreto Imperial e pôs-se a favor do repatriamento do Relicário, uma vez que seu
império, à época, cobria quase toda a Europa ocidental, estendendo-se a outros continen-
tes. O retorno, de forma parcial, tornou-se realidade somente quando, no Congresso Eucarístico
de Colônia, em 1903, os Cardeais Andrea Ferrari, de Milão, e Antonio Fischer, de Colônia,
acordaram em restituir uma pequena parte das Relíquias [duas fíbulas e uma tíbia] que,
encerradas em uma urna, foram transladas para o altar dos Reis Magos, na Basílica de Santo
Eustógio, culminado numa celebração de paz ocorrida na Epifania de 1904, em Milão.
A história de Johannes sobre os Magos
passou a ser considerada uma belíssima estória ou
lenda: “Um grande sucesso na Idade Média. Estava
entre os primeiros livros para publicação, na recém–
inventada máquina de impressão”, escreve The Story
of Three Kings: Melchior, Balthazar and Jaspar [1F],
livro editado pelo Metropolitan Museum of Art, New
York, 1985, ou ainda como se expressam alguns au-
Ilustração antiga do livro
tores; “uma novela [Cardini]”, “uma saga [Villard].” “Historia Trium Regum”
O Acervo dispõe do escrito de Johannes
Hildescheim [1F], em livros ilustrados de edições recentes, nos cinco principais idiomas
europeus: alemão, espanhol, francês, inglês e italiano.
O texto de Johannes deixou suas marcas em diversas expressões artísticas e
culturais, como a influência nas artes visuais, fazendo surgir a presença de um Rei Mago
Negro, conforme anota o trabalho acadêmico, de Paul H.D Kaplan [1A], The Rise of the
Black Magus in Western Art: “(...) [Johannes] considera na sua obra, um dos Reis Magos
natural da Etiópia, acrescentando informações sobre sua fisionomia negra”. Outro texto, de
autoria de John Mandeville, “Travels”, escrito em 1360, citado por Kaplan, entre outros, faz
também breve menção a um Rei Negro, quando menciona que “um dos Três Reis era da
cidade de Sabá, na Etiópia”.
Quase todos os trabalhos posteriormente publicados, que retomam o tema sobre
os Reis Magos, fazem amplas referências e elogios à obra de Johannes von Hildescheim.
Outro importante tema relacionado aos Magos diz respeito aos dramas litúrgicos
medievais, mistérios ou ainda o chamado teatro hierático que, de certa maneira, influencia-
ram as obras da iconografia sacra. Nesse ponto, Marianne Elissagaray [1F], no livro La
Légende des Rois Mages, reporta, com muita simplicidade, observações sobre as primeiras

24
formas do teatro litúrgico medieval: “o culto na sua origem consistia na enunciação pura e
simples da palavra de Deus pelo padre em um sermão, mas nos dias de festas, (...) para
despertar mais interesse no auditório e tornar mais alegre a data, intentava desde cedo
animar o culto, dando-lhe uma forma dramática; colocando o Evangelho em diálogo,
interpolando para iniciar os tropos, frases muito simples ditas pelos padres”. Esses tropos,
como se sabe, “são amplificações verbais [às vezes de forma melódica] de algumas passa-
gens da liturgia, como introdução, interpelação ou conclusão, ou ainda uma combinação
dessas formas”, e estão na origem do teatro dramático medieval.
A obra clássica de Karl Young [1C], editada ao final do primeiro terço do século
XX, The Drama of The Medieval Church, dedica dois expressivos capítulos sobre a presen-
ça dos Magos, intitulados: “A vinda dos Magos”. Comentando as dramatizações natalinas
nas igrejas européias, o autor afirma de modo categórico: “Decididamente, despertava mais
atenção as representações dramáticas dos Magos na Epifania, 6 de janeiro (...) porque as
diversas versões [dos autos] sobre os Magos [Officium Stellae] encenavam, em breves
episódios, a visita dos pastores a Belém e, assim, já ampliavam as ações das peças Pastoris
[Officium Pastorum]”.
Outro renomado especialista em teatro medieval, Grace Frank [1D], no The
Medieval French Drama, justifica, em outra palavras, a preferência pela dramaturgia em
favor dos Magos Orientais: “(...) o Auto Pastoríl [Officium Pastorum], originalmente destina-
da ao Natal, logo se agregou as peças epifânicas, apresentadas em 6 de janeiro. Estas,
também chamadas <Officium Stellae>, ofereciam mais ricas oportunidades para dramatização,
caracterização e figurino; ademais, seu texto mais abrangente e diversificado, muitos dos
quais incluíam cenas envolvendo os pastores, são algumas vezes de considerável originali-
dade e perfeição literária”. Outras designações eram utilizadas para “Officium Stellae” como,
“Officium Regum Trium” e “Orde Stellae”, etc.
Posteriormente, conforme sugerido por Karl Young, o conceituado musicólogo
medievalista inglês, William L. Smoldon [1E], no livro The Music of the Medieval Church
Dramas, analisa, do ponto de vista musical, os Autos Litúrgicos Medievais compostos com
partituras, naturalmente. Smoldon pondera que esses Autos têm sido estudados com mais
ênfase na parte “textual” do que na “musical”; na verdade, muitos deles não são apenas
dramas, mas dramas musicais, “em outras palavras, Óperas [Magi-Herod music dramas]”.
O autor menciona também o “Officium Stellae” do século XI, considerado o mais
antigo encontrado, em 1070, na Catedral da cidade alemã Friesing, ao norte de Munique.
Nesse códice, constam registros de formas dramáticas provenientes do grande mosteiro de
St. Gall [São Galo], local onde, supõe-se, terem tido origem as formas primitivas dos dramas
litúrgicos medievais.

25
Como visto, na era medieval, eram compostas dramatizações litúrgicas, em latim,
a exemplo das celebrações das missas. Representados nas igrejas européias, alguns desses
Autos tornaram-se muito populares, valendo citar, entre os mais antigos, século XII, ence-
nados nas Catedrais de cidades francesas, como: em Limoges [Auto encenado no momento
do ofertório]; nas igrejas metropolitanas de Besançon [em conexão com o Evangelho]; e em
Rouen [Auto de abertura da missa].
Representações similares realizavam-se também em igrejas de outros países,
notadamente Alemanha, Itália, Espanha, etc. Segundo Cardini, na Itália, o teatro litúrgico
dedicado aos Magos desenvolveu-se um pouco mais tarde, séculos XIV e XV.
Dentre essas representações, destaca-se o “Auto de los Reyes Magos”, de autor
desconhecido, encontrado em 1775 na Catedral de Toledo, Espanha, sob forma de manus-
crito (Códice – Cax-6.8) em linguagem castelhana, hoje arquivado na Biblioteca Nacional
(Hh-115), em Madrid. O Auto é incompleto e de forma irregular, restando apenas 140 versos.
Esse Auto foi encontrado por Don Felipe Fernandes Vallejo, depois Arcerbispo de Santiago de
Compostela. A análise de sua composição realizada através da linguagem utilizada,
“castellanizada e influida por el dialecto mozárabe”, bem como levando em conta a “evolución
histórica-cultural del país”, indica que teria sido escrita no final do século XII. Por ter sido
escrita em idioma vernáculo da Espanha, diversos estudiosos desse país chegam mesmo a
classificar essa obra dramática como “la página más antigua del teatro español”.
O notável filólogo espanhol Ramón Menendez de Pidal [2C] veio a reconstituir, de
forma completa, eventuais falhas desse “fragmento dramático”, na publicação “Auto de los
Reyes Magos”, reproduzida pela Revista de Archivos, Bibliotecas Y Museos, Madrid, 1900.
Este documento consta do Acervo, entre outros tratando desse assunto, que, certamente,
influenciou, em grande escala, a produção de obras sobre os Reis Magos, em toda a Penín-
sula Ibérica.
Ainda a propósito desse Auto, outro estudioso do assunto, Eduardo de la Barra
[1C], em Estudios Críticos – Restauración del Mistério de Los Reyes Magos, 1898,
agrega: “O Rei Dom Alfoso X [O Sábio, Rei de Castela, 1252-1284], no documento, <Partidas
(ley 34, tit.VI, Part.I)>, fala desses mistérios, e se refere, entre outros, à Adoração dos Reis
Magos. Esses Três Reis e os Pastores eram personagens obrigatórios nas festas da Epifania,
como as Três Marias eram nas festas da Páscoa; portanto, é de se presumir que mais de
uma peça fosse composta para o mesmo tema, cingido à lenda”.
Estendendo-se um pouco mais sobre esse Auto, cabe acrescentar que, embora
muitos autores apontem uma influência francesa na sua estruturação [de antigos poemas
narrativos franceses], é de se notar sua originalidade do ponto de vista dramático. É o que
o pesquisador americano Winifred Sturdevant [1C] conclui na longa análise comparativa

26
realizada desse Auto em relação aos demais, na obra acadêmica The Mistério de los Reyes
Magos: Its position in the development of the Mediaeval Legend of the Three Kings, quando
afirma: “Na tradição teológica, as dádivas são ofertadas como símbolos da fé dos Reis
Magos na tríplice natureza de Cristo. No fragmento espanhol, ao contrário, os Reis decidem
utilizar os presentes para testar se o Recém-Nascido é Rei, Deus ou mortal”, em oposição à
tradição geral dos Autos litúrgicos, vigentes na época.
Retomando a obra de Johannes von Hildesheim, consta que Goethe descobriu em
1818, “por acaso”, esse manuscrito em latim; ele que, já em 1815, recomendava que a
Catedral de Colônia tivesse suas obras concluídas em definitivo. O próprio Goethe tomou a
iniciativa de sua divulgação, solicitando ao poeta Gustav Schwab, “uma personalidade que
demonstrou o entusiasmo necessário, que fizesse a tradução para a língua alemã de forma
adequada” - conta-nos o autor da Introdução do livro que viria a ser publicado, e que se
assina Michaeli. Lisonjeado com o pedido, Schwab não só fez a tradução, como também,
para atencedê-la, compôs um poema “de doze romanças”. A respeito disso, Goethe escreve,
em seu Diário de 19 de outubro de 1821, ressaltando as belas imagens que são “oferecidas
graciosamente à imaginação e à contemplação da verdade que se oculta sob essa lenda”.
Goethe, que já havia composto um poema sobre a Epifania, incluído no livro de George Barrie
[1C], solicitava que outro pequeno verso seu fosse incluído na edição da obra traduzida por
Schwab, impressa em 1821. Esse verso é transcrito abaixo, cuja versão ao português foi
realizada pela Equipe de Apoio.

“Quando algo acontece um dia, E assim deixem-se, muitos e muitos


Ouvimos falar nisto, mesmo bem mais tarde; Por este som alegrar
Sempre flutuando ao som do sino, Pois afinal somos todos ,
Quando este é tocado; Reis peregrinos, ao alvo querendo chegar”.

[Weimar, 1º de junho de 1821 Goethe]

Mais recentemente, em 1960, a vida de Johannes von Hildesheim e sua obra


sobre os Três Reis Magos receberam uma revisão crítica por parte de Elizabeth Christern
[1F], da Sociedade de Bibliofilia de Colônia. Utilizando novas fontes primárias, inclusive as
Cartas do Autor que se tornaram disponíveis, publicadas em 1957, foi possível elucidar
alguns pontos que permaneciam obscuros. Essa obra foi vertida para o português pela
Equipe de Apoio Técnico.
Assim, foi possível comprovar as relações de amizade que ligavam Johannes à
cidade de Colônia, fato apontado como provável por diversos autores. Outro ponto refere-

27
se a Florentius [Florenz] von Wevelinghoven, a quem a mencionada obra fora dedicada.
Este, após ter sido Cônego em Colônia, tornou-se Bispo da cidade alemã de München.
Christern comprovou que foi sob as ordens de Florenz que a obra foi editada, uma vez que
“ele [Florenz] estava consciente do tesouro que a Igreja e a cidade guardavam [os restos
mortais dos Três Reis Magos]”.
Seria interessante retroceder ao lúcido capítulo introdutório do citado trabalho
de Horstmann. Ao concluir o trabalho, ele confessa ter “debruçado por longo período à
análise do tema”. Elaborado com base nas principais referências italianas, francesas e ale-
mãs, até então publicadas, dele extraímos os seguintes trechos:

• “A formação de lendas estavam em contínuo progresso, especialmente após a


transladação das Relíquias [de Milão] para Colônia (...). O assunto dos Três Reis
tornou-se um dos temas favoritos da época [alta Idade Média], eles eram os
Santos mais populares da cristandade.” (sic)

• “Sua celebração era solenizada com incomum alegria e esplendor, com personi-
ficações dentro da igreja, com mascarados e representações [sic] fora”. Neste
ponto, o autor remete à nota de rodapé, e complementa: “Estas personalizações
que dramatizam a liturgia do dia, primeiro feito em latim em breves palavras da
Bíblia pelo Clérico, como parte do rito, mas gradualmente dilatando e se esten-
dendo para o laico, forma um dos primeiros elementos na história do teatro
medieval. (...) Essas peças eram freqüentes em Colônia, Hildesheim, Milão; e na
verdade em todos os lugares onde os Três Reis Santos eram especialmente
cultuados”.

• “Alguns detalhes [prováveis fontes utilizadas por Johannes von Hildesheim] ele
deve ter aprendido em Colônia (...) que desde as Cruzadas, tem sido o centro de
comércio com o Oriente, juntamente com Avignon e Roma (...) mas suas principais
fontes eram os livros de viagem, de freqüentes peregrinações à Terra Santa. Missi-
onários tinham mesmo penetrado no extremo Oriente e descreviam seus mistérios”.

Aspecto sem dúvida curioso, apontado por Horstmann, refere-se ao segundo


ítem, onde o autor menciona as festas da Epifania fora dos templos, com representações e
mascarados (sic), nitidamente de natureza profana. A propósito, Cardini faz idêntica obser-
vação. Respaldando-se na obra de L. Allegre, “Teatro Spettacollo nel medievo - 1988”,
escreve: “(...) aquelas singelas apresentações [dramatizações litúrgicas] há muito haviam

28
degenerado em orgias tumultuosas e desconexas. Talvez o que no fundo se pretendia não
era tanto a decadência dos costumes, mas um passo qualitativo de uma cerimônia litúrgica
ampliada, segundo as técnicas do <tropo>, uma autêntica representação teatral”. Em se-
guida, Cardini faz outra menção à reação da Igreja, frente a esses excessos de natureza
profana, que passaram a fazer parte das representações litúrgicas. Assim, surgiu um rigoro-
so decreto do Papa Inocêncio III [em função de 1198 a 1216] atacando os excessos e
alertando: “De vez em quando, têm lugar, nas próprias igrejas, espetáculos teatrais, e não
somente se introduzem com fins de escárnio, mascaradas monstruosas, como também nos
dias de festas que se seguem ao Natal”. Acrescente-se que Inocêncio III reconheceu a
Ordem religiosa fundada por Francisco de Assis, em 1210, sendo esta de grande significado
na disseminação do Cristianismo.
O próprio Rei Afonso X, na “Lei das Sete Partidas”, manifestou-se a esse respei-
to, ao mesmo tempo em que vedava o: “(...) jogo de escárnio no interior das igrejas,
consentia a representação do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo (...) e, outrossim,
de como os Três Reis Magos o vieram adorar”.
Ainda a esse propósito, Luiz Francisco Rabello [1G], na sua Breve História do
Teatro Português, escreve, com muita propriedade: “Foi de resto a interdição de jogos
[encenações] profanos no interior dos templos, aliado ao declínio do primado espiritual da
Igreja, que deu causa à secularização do teatro o qual, liberto dos formalismos rituais,
assumiu uma feição, predominantemente popular, de harmonia com as exigências do novo
público iletrado, a quem passou a dirigir-se”.
Inúmeros pintores e escultores, desde os tempos mais antigos da Europa, retra-
taram a cena da Adoração dos Reis Magos, conforme registram as obras de referências no
campo das artes visuais. Nas catacumbas de Roma, pouco antes da queda do Império
Romano do Ocidente [476 d.C.] frente aos povos germânicos. Em formas cada vez mais
aprimoradas de pinturas e esculturas ao longo da Idade Média, encerrada em 1453, com a
invasão de Constantinopla, centro do império Romano do Oriente, pelos Turcos Otomanos.
Na transição para a Idade Moderna, instaura-se a Renascença sob influência da civilização
greco-romana, com repercussões em todas as áreas culturais. Naquele período, as artes
produzidas, envolvendo os Reis Magos, alcançaram o apogeu, uma vez que quase todos os
grandes artistas do Renascimento, de diferentes nacionalidades, deixaram sua marca no
tocante à Adoração dos Reis Magos. Esse movimento se retraiu no decurso da Idade Moder-
na, finalizada com a Revolução Francesa, em 1789, e ainda mais, já entrando pela Idade
Contemporânea, alcançando os tempos atuais.
Raphael García Mahíques [1A], na obra La Adoración de los Magos: imagén de
la Epifania en el Arte de la Antiguedad, faz a seguinte anotação sobre a iconografia relativa

29
aos Magos, já no decurso do terceiro século: “Nas mais antigas representações [da cena
dos Magos], já aparece nas catacumbas, em disposição tradicional de três personagens
que, em atitude de avanço, aproxima-se do Menino, seguro por sua Mãe, para oferecer-Lhe
suas dádivas”. Trata-se de catacumbas na cidade de Roma; de Priscila <Mural da Cappella
Greca>, na primeira metade do século III e no cemitério dos Santos Pedro e Marcelino, na
<Cripta de la Madonna>, em fins do século III.
O World Painting INDEX, vol. II, de Patrícia Pate Havelin [1A], registra, igual-
mente, uma extensa lista de pintores e respectivos títulos das obras sobre os Magos, isso
sem levar em conta as incontáveis pinturas em livros religiosos (Missais, Livros de Hora,
Iluminuras), esculturas, altos–relevos, dípticos, trípticos, retábulos, detalhes de tapeçarias
e vitrais, que adornam conventos, mosteiros e outros templos do mundo cristão.
O Acervo dispõe de Arquivos Iconográficos
[3A] contendo boa parte das pinturas mais conheci-
das, através de reproduções em formato reduzido, e
estampadas em cartões postais natalinos. Nesse ar-
quivo, não poderia faltar a pintura de Giotto di Bondone
[1266-1337] sobre a Adoração dos Reis Magos na Ca-
pela dos “Scrovegni”, em Pádua - Itália, realizada en-
tre 1305 e 1310. Nessa obra, é representada, pela Adoração dos Magos. Obra
de Giotto di Bondone
primeira vez, a estrela dos Magos sob forma de come-
ta, poucos anos depois da passagem do Cometa Halley pelos céus da Europa [outubro de
1301]. Acrescente-se, ainda, a inclusão de catálogos de museus, de exposições e livros de
artes, editados em diferentes países. Neste rol, algumas obras se destacam: o livro de
Cristina Acidini Luchinat [1A] sobre Benozzo Gozzoli, exibindo suas famosas pinturas sobre
as Cavalgadas de cada um dos Três Reis Magos, que adornam a Capela dos Magos no Palácio
Médici-Riccardi, em Florença - Itália, bem como o livro ricamente ilustrado de Madeleine Félix
[1F], editado no limiar do terceiro milênio, Le Livre de Rois Mages. Seguindo a tradição de
sua compatriota Marianne Elissagaray [1F], a autora, ao lado do excelente trabalho
iconográfico, coloca-nos diante de novas informações, inclusive quanto às tradições popu-
lares em diversos países europeus e latino-americanos.
Ainda no campo das artes visuais, o Acervo dispõe de obras de valiosa riqueza
iconográfica [1A] a respeito dos Magos, centrando-se em catálogos editados nos países
europeus selecionados:

• Alemanha: Die Hieligen Drei Könige – Meisterwerke im Schnütgen Museum –


Köln;

30
• Inglaterra: We Three Kings: The Magi in Art and Legend – Buckinghamshire
County Museum;

• Itália: I Re Magi: Primi Pellegrini della storia – Fondazione Civiltá Bresciana.

A presença do Relicário do Santos Reis, em Colônia, a partir do ano 1164, moti-


vou a organização de “Confrarias dos Três Reis Magos”, no sentido de prover não somente
os recursos necessários à construção da Catedral, mas também custear obras de arte,
composições musicais, os serviços requeridos às celebrações litúrgicas, festas e apoio às
peregrinações que, anualmente, eram realizadas em veneração aos Santos Reis. Essas orga-
nizações se estenderam a outros países europeus, valendo destacar, as seguintes:

• “Fraternitas SS Trium Regum Zins”, em Colônia, Alemanha. No Capítulo X do


Artigo assinado por Jakob Torsy [1D] “Achthundert Jahre Dreikönigenverehrung
in Köln”, extraído do livro Achthundert Jahre Verebrung der Heiliger Drei Könige
in Köln, 1964, o autor descreve os primeiros passos na constituição da dessa
Confraria dos Três Reis Santos, com a doação de uma quantia ofertada, em
1298, pelo coloniense Heirich Sunere, quase um século e meio depois da chegada
das Relíquias a Colônia (1164);

• A Cavalaria [Chilvaric] da Ordem da Estrela, “Orde de L’ Etoile”, constituída na


França no tempo do Rei João, o Bom, em 1351;
Foto: Lúcia Beatriz

• “Confrérie des Trois Saints Rois”, fundada no


ano de 1671, junto ao mosteiro das “Dames
Chanoinesses de Berlaymont” em Bruxelas/Bélgi-
ca, a qual foi colocada sob a patronagem de Sua
Magestade a Rainha Marie Henriette, em 1870, de
acordo com o documento escrito por Victor Henry
[1F], La Dévotion aux saints Rois Mages;

• “Compagnia de Magi”, constituída no ano de


1417, em Florença, Itália;

Imagem de São Baltazar


• Passados mais alguns séculos, na América La- Festa de Reis na Igreja da
Lampadosa/Rio de Janeiro
tina, as Confrarias dos Reis Magos diversifica-

31
ram-se, através da veneração ao Rei Negro São Baltazar. “Na Argentina, [São
Baltazar] é padroeiro dos negros, e sua veneração se remonta a 1772, ano em
que o Arcebispo de Buenos Aires autorizou a criar a Confraria de São Baltazar
para os negros, mulatos e índios da cidade”, observa Norberto Pablo Círio [1B],
autor de diversos trabalhos sobre o tema, gentilmente cedidos ao Acervo. Ainda
segundo Círio, essa organização dos “afroargentinos” veio a se desativar no ano
de 1856, mantendo, todavia, o culto a São Baltazar, atualmente muito vivo na
Província de Corrientes. Esse culto se estendeu aos países vizinhos, algumas
regiões do Paraguai e, notamente na capital uruguaia, Montevideu, merecendo
de Gustavo Goldman [1B] um interessante estudo intitulado Candombe: salve
Baltasar!. Instituições similares foram constituídas no Brasil, no período colonial,
ao tempo dos Jesuítas, como a do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, onde, de
acordo com Serafim Leite [1G], em História da Companhia de Jesus, eram
apresentados o Auto de Anchieta “Numa Noite de Natal”.

Em relação às tradições populares, cabe ressaltar o conhecido processo de


“popularização“, se assim se pode chamar, dos Autos Litúrgicos medievais relacionados aos
Reis Magos, amplamente utilizados pela Igreja, no processo de evangelização da doutrina
cristã. Nesse sentido, já se mencionou a observação extraída do trabalho de Hortsmann
quanto à presença de solenidades laicas que, paralelamente,realizavam-se fora do espaço
sagrado das igrejas. Entretanto, conviria acrescentar outros fatos que também contribuíram
para o curso dessa popularização, no tocante aos ritos litúrgicos.
Em primeiro lugar, a cena da natividade do Menino de Jesus na manjedoura,
através da construção de figuras da história do nascimento de Cristo, isto é, o presépio
criado por Francisco de Assis, em Creccio, Umbria/Itália, no ano de 1223, o qual deu notável
impulso aos ensinamentos do cristianismo. Os presépios transpuseram as portas dos templos
cristãos e, no correr dos anos, espalharam-se pela cristandade, levados por franciscanos,
dominicanos, jesuítas, entre outras Ordens Reli-
giosas. Dessa forma, celebrações natalinas, que
também abrangem as tradições de Reis, passa-
ram a estar presentes nas casas mais humildes,
em zonas rurais e distantes dos aglomerados ur-
banos.
Émile Mâle [2C] já havia percebido
Cortejo dos Reis Magos chegando à
Basílica de Santo Eustórgio Milão - essa tendência de popularização, conforme ex-
Itália / 2002
posto no trabalho Les Rois Mages et le Drame

32
Liturgique, publicado em Paris, no “Gazette des Beaux-Arts”, ano de 1910, cujo texto é
disponível no Acervo. Analisando a evolução da “velha iconografia cristã, imutável até o
século XII”, Mâle põe em destaque a transformação da arte sob influência do teatro litúrgico
que, cada vez mais, “ganhava o gosto popular”. No século XII, começou a se transformar
sob influência do teatro. “No século XII como no XV, o drama teve na arte um grande
princípio de renovação”.
A seguir, faz a seguinte assertiva: “No século XIV, o drama dos Magos não se
representava somente nas igrejas, mas também em pleno ar livre”. Ilustra essa afirmação
com uma detalhada descrição do “magnifique cortège des Rois Mages”, organizado pelos
Dominicanos de Milão, Itália, em 6 de janeiro de 1336, conforme registrado por Muratori no
“Rerum Italic Scriptors” (Milan, 1728, t.XII, p.1018).
Verificou-se que a descrição desse cortejo deriva-se de uma crônica do milanês
Galvani Fiamma, coligida e publicada por Muratori.
Essa milenar tradição perdura em Milão até os tempos atuais, uma vez que
retornou, em 1962, após longo período desativada. Outras cidades da própria Itália e do
continente europeu passaram a realizar esses cortejos [dramas-espetáculos, como define
Cardini] levados por diversas Ordens Religiosas que se valiam das representações populares
de cunho religioso, para consubstanciar o ensinamento da doutrina cristã. Nos tempos
atuais, além de Milão, realizam eventos similares em: Florença, ainda na Itália; Sevilha, na
Espanha; Coimbra, em Portugal, entre outras mais.
Avançando pelos tempos atuais, a literatura e as artes, com menor intensidade,
não resistiram também ao fascínio dos Magos do Oriente, e as tradições ultrapassaram as
fronteiras tradicionais do mundo cristão europeu, foram transplantadas para outros países,
notadamente os países latino-americanos.
A título de informação, cabe registrar algumas obras de ficção. De Michel Tournier
[1C], Gaspard, Melchior y Balthazar, editado pela Gallimard-Paris; as de autoria de Van
Dicke [1C] sobre o “Quarto Rei Mago”, em diversas edições, também disponível no Acervo,
em livro, vídeo e CD, bem como uma novela brasileira intitulada Noite de Reis, editada pela
Livraria Globo. De autoria de Fernandes Bastos [1C], a referida novela consiste numa narra-
tiva histórica passada em Osório-RS, principal pólo dos Ternos de Reis, em terra gaúcha.
Quanto à produção poética relacionada aos Reis Magos, a lista é enorme. Desta-
camos o poema de T.S. Eliot [1C], considerado um “monólogo dramático”, intitulado Journey
of the Magi, datado de 1927.
Acrescente-se a essas anotações uma tradição popular típica das Festas de
Reis, proveniente da Argentina. Refere-se à festa que se realiza na Província de Corrientes,
em veneração ao Rei Negro, São Baltazar, relatadas no livro Los Cambá, el Cambacuá y

33
Cambaltazar, de Andrés Alberto Salas [1B], chegando a durar três dias, com procissões,
mascaradas, danças e bailes. Salas transcreve uma canção do compositor correntino Oswaldo
Sousa Cordero [1906-1986], dedicada a esses festejos, cuja letra dos primeiros versos é a
seguinte:

“Festejan los 6 de enero Por ser la de este santito


su función San Baltazar la junción de los cambá
el santo más candombero [sic] ya armarón el balecito
que se puede imaginar los del barrio camba-cuá”

Para finalizar, uma vez mais recorremos a Cardini: “Relegados à margem da <grande
arte>, os Reis Magos têm sobrevivido e conhecido uma situação afortunada, sem declives
no âmbito folclórico”. Em diversos escritos, o antropólogo francês Roger Bastide, que se
radicou no Brasil, apontava: “O folclore se tornou uma ciência justamente no momento em
que começou a desaparecer no Ocidente [Europa] e a desaparecer exatamente após as
transformações das estruturas econômicas”. A seguir, alude que data de 1850 o início do
processo de desaparecimento na França, em conseqüência do “maquinismo na agricultura”,
no capítulo introdutório do Livro de Souza Barros [1G], Arte, Folclore e Subdesenvolvi-
mento. Fenômeno semelhante ocorreu em outros países europeus, notadamente na Ingla-
terra, a mais afetada pela Revolução Industrial. A Revolução Industrial designa um conjunto
de transformações econômicas, sociais e tecnológicas que teve início na Inglaterra, na
segunda metade do século XVIII, reestruturando profun-
damente o parque fabril e os meios de produção, trans-
porte e comunicação, inclusive no que tange às relações
entre as sociedades humanas. Inicialmente, envolveu In-
glaterra, Holanda e França, ligadas pelo comércio maritmo
e exploração colonial e, posteriormente, estendeu-se a
outros países europeus e americanos como Alemanha,
Bélgica, Suíça, Dinamarca, Estados Unidos e Canadá, o
que determinou a progressiva extinção das tradições po-
pulares.
Ilustramos esta assertiva com as poucas tra-
dições que ainda hoje perduram, nos países da Europa
Ocidental, como: a “gallete des rois” [tipo de rosca doce],
Cartaz Grupo “Sternsinger “ - na França, como anotam Alain Françon Lesacher [1G] em
Alemanha
Fêtes et Traditions de France-Edit. Oest-France, e

34
Madeilene Félix [1F], na obra já citada. Na Alemanha, os
grupos “Sternsingers” [conhecidos como Cantores da Estre-
la] que remontam aos tempos da chegada das Relíquias dos
Três Reis Magos à Colônia. A partir da II Guerra Mundial,
essa tradição foi revigorada com ampla participação da ju-
ventude alemã nos Grupos de Sternsingers, centrado no pro-
jeto “Kindermissionwerk”. A renda, arrecadada nesse projeto
pela visita dos “Cantores da Estrela” às casas, passou a
destinar-se à “Obras da Infância Missioneira da Alemanha”.
No que tange à Itália, a tradição de Reis fica por conta da
“Befana”, uma velha fada equivalente ao Papai Noel, que se
participa das festas de entrega de presentes às crianças, Cartaz da Cavalgada dos
Reis Magos de Sevilha -
desde o Natal até o dia de Reis. Na Península Ibérica, obser- Espanha

va-se um quadro bem melhor, conforme se visualiza nas obras


sobre as Festas Populares na Espanha e em Portugal. Na Espanha, as “Cavalgatas de los
Reyes Magos” e as representações dramáticas, e os grupos de vilancicos, com a temática
dos Reis Magos, em diversas cidades desse país. Já em Portugal, os cantares de janeiras e
reis [janeireiros e reiseiros] espalhados por todo o país. Atualmente, são praticados, princi-
palmente, por numerosos grupos conhecidos como folclóricos e etnográficos, os quais pro-
cedem “a recolha dessa tradição”,
junto aos habitantes das aldeias. Os temas relativos à Espanha e Portugal serão
abordados com maiores detalhes na seção seguinte.

35
Tradições de R eis n
Reis naa P enínsula Ibérica
Península

O renomado antropólogo e historiador espanhol Julio Caro Baroja [1B], na obra


Los Pueblos de Espana – Vol I, põe em evidência as afinidades na formação histórica e
cultural de Portugal e Espanha, declarando: “Com nome de Lusitânia se conhece uma pro-
víncia do Império Romano e uma região da Espanha antiga que hoje é ocupada por Portugal”.
Os povos primitivos, ou seja, os autóctones, ditos iberos, passaram por sucessivas domina-
ções ao longo dos tempos, informa outro igualmente destacado antropólogo e historiador
português, J. P. Oliveira Martins [1G], na obra História da Civilização Ibérica. Em breves
notas, essas dominações e incorporações de contingente dos conquistadores sucederam-se
assim. Inicialmente, os celtas (século VI a.C.) seguem os cartagineses (segunda metade do
século III a.C.), os romanos, de 201 d.C. [fim da II Guerra Púnica] até o ano 414 d.C., com
as Invasões Bárbaras, que também se apoderaram da Península Ibérica [Visigodos]. Por
último, a Ocupação Árabe, no ano 711 d.C. até a Reconquista, sob o comando dos Reis
Católicos de Castela e Leão, Fernando e Isabel, e conseqüente expulsão dos muçulmanos de
Granada, em 1492.
Foi sob o Governo do Rei Afonso VI de Castela e Leão que, em 1097, estabele-
ceu-se o Condado Portucalense, em terras da Lusitânia, estendendo do Rio Minho ao Tejo,
confiado a um delegado [Conde] do Monarca. Cerca de meio século depois, em 1143, Afonso
Henriques, que havia assumido o governo do Condado, estabelece oficialmente sua indepen-
dência, criando o Reino de Portugal. Somente sob o Reinado de Afonso III, o quarto na
sucessão, com a posse da região do Algarve, consolidam-se as fronteiras do país, próximas
à configuração atual. Entretanto, em 1581, a dominação castelhana, com Felipe II, volta a
se impôr a Portugal, constituindo a União Ibérica, durando até 1640, quando se restaura, em
definitivo, a independência de Portugal.
A partir da Descoberta do Brasil, em 1500, inicia-se o processo emigratório oriun-
do da Península Ibérica, efetuando, sobretudo para o Brasil, com elevada proporção de
Portugal em relação à Espanha que, por seu turno, destinava-se, em maior peso, às suas
colônias latino-americanas. Precedentemente, enfatizou-se o “Auto de Los Reyes Magos”,
escrito no final do século XII, que marca a presença da Península Ibérica no cenário do
teatro litúrgico medieval.
No trabalho intitulado Religiosidad Popular Navideña en Castilla y Leon:
Manifestaciones de Caracter Dramático, datado de 1986, Jose Luis Alonso Ponga [1C], não
incluído entre os autores mais citados, aborda o tema das tradições popular-religiosas na
região à qual Portugal se vinculava [Condado Portucalense], até se tornar independente, no
ano de 1143. Destacamos algumas observações.

36
• “As “Corderadas”, “Pastoradas” e demais Au-
tos litúrgicos [do ciclo natalino] são abundan-
tes, precisamente em sua imagem plástica, e
que tanto se prestam a encenações nos ambi-
entes rurais”. Citando Antônio Viñayo, observa-
se a prática de colocar como pais do Menino
Deus a jovem mais bela e o jovem mais finório,
todos vestidos muito a caráter;

Ilustração antiga de Grupo de


Vilancicos - Espanha • “Paralelamente às representações dramáti-
cas, desenvolveu-se, pelo menos desde o sé-
culo XVI, o costume dos Vilancicos”. Prossegue: “Nos Vilancicos, intervêm,
muitas vezes, personagens, como os negros, os asturianos, galegos, ciganos,
etc que causam riso ao público”. Ainda nesse trabalho, preparado para a Junta
de Castela e Leão, o autor comenta, no capítulo inicial: “As representações
natalinas com a temática dos Reis Magos são abundantes na geografia espa-
nhola (…). Ademais, haveria de acrescentar que os relatos bíblicos, núcleo
central destas composições populares, têm sido poetizados e dramatizadas
desde a Idade Média (…)”;

• “Nas Províncias de Leão, Zamora, Palencia e Valadollid, o autor identifica 26


localidades, com encenação dessas peças, fazendo ainda uma citação, que envol-
verá Portugal neste tema: “Assim, pois, não é raro que a primeira obra do teatro
Castellano seja precisamente o “Auto de Los Reyes Magos”, nem é casual que
muitos autores cultos e profa-
nos tenham escrito loas,
entremeses, autos, romances,
poesias com a mesma
temática”. Continua adiante: “A
importância dessa temática, no
contexto da literatura, poder-
se-ia constatar, simplesmente
atentando quanto ao grande
número de escritores que a te-
nham utilizado, tão variados e Ilustração do Auto Pastoril de Gil Vicente -
Portugal
de épocas distintas”;

37
A seguir, faz citação deles, os quais se incluem, entre outros, Alfonso X, Gómes
Manrique, Juan del Enzima, Gil Vicente e Lopes de Vega. A presença de Gil Vicente decorre,
como se sabe, da sua formação no âmbito da escola dramática espanhola da época.
Portanto, verifica-se um longo hiato, no teatro espanhol, entre o “Auto de Los Reyes
Magos”, [século XII] e “esboços dramáticos de Gómes Manrique [século XV]”. Cabe notar,
ainda, que os Autos de Anchieta [1534-1597], “compostos sob inspiração vicentina”,
escrevem estudiosos portugueses, fizeram-se representar no século seguinte, no então
Brasil Colônia.
O Auto citado e atribuído a Gil Vicente, esclarece Osório Mateus [1C] em sua
obra intitulada Reis: “Reis - escrito em castelhano - é o terceiro Auto conhecido na
história do trabalho teatral de Vicente, depois da “Visitação” [auto mais conhecido por
Monólogo do Vaqueiro, apresentado nos Paços de Lisboa, em junho de 1502]. A Rainha
Leonor pede ao autor que lha representem no Natal [e, conseqüentemente, na festa
seguinte da Epifania, em 1503]”. Prossegue o autor: “Reis, o mais antigo auto para a
Epifania que hoje se conhece na história em Portugal”. Ainda segundo Mateus, supõe-se
que esse Auto, junto como o “Pastoril Castelhano”, feito a seguir, tenham sido encenados,
por recomendação da Rainha, ao Rei Venturoso, Dom Manuel, por ocasião de seu regresso
da peregrinação a Santiago de Compostela – Espanha, em ação de graças pelo descobri-
mento do caminho marítimo para a Índia, em 1498, e do Brasil, em 1500. Acrescenta,
ainda, que o texto do “Reis” foi mutilado pela censura. A esse respeito, outro especialista
em teatro vicentino, Sebastião Pestana [1C], no livro Auto dos Reis Magos, esclarece
que a Censura Inquisitorial “beliscou parte dos 352 versos agrupados, de modo que a
segunda edição ficou mutilada”.
Ainda no contexto espanhol, conviria reportar as expressões populares natalinas
na região da Galícia, fronteiriça do Norte de Portugal, expostas no trabalho: “Contribuición al
estudio de la Navidad en Galícia: Nadales, Aninovos, Xaneiras y Reyes”, de António Fraguas
Fraguas [2G], publicado pela Revista de Dialectologia Y Tradiciones Populares - Tomo
III, Madrid, de 1947. O autor declara: “Em algumas localidades, tem desaparecido o costume
de cantar os Natais e as Janeiras, todavia se conserva o Reis ou o “Aguinaldo”, em quase
toda a região”. Anota ainda que utilizavam, para tanto, os Vilancicos nas províncias galegas.
Em continuação, faz uma descrição da festa de Reis na Paróquia de Tomonte, em Cerdedo/
Província de Pontevedra: “O bando se constitui, às vezes, no dia 4 [de Janeiro] e começa
esse dia percorrendo os lugares da freguesia e das paróquias vizinhas; à frente do bando e
como chefes do mesmo vão dois indivíduos fantasiados, o velho e a velha [sic]. Levam
máscara e roupa cheia de remendos (…) levam duas vassouras com as quais varrem o lugar
onde dançam, mas sua principal missão é roubar alguma lingüiça e algum pedaço de presunto

38
nas cozinhas dos vizinhos de onde canta o bando (…). Em todas as localidades, o dinheiro
arrecadado se destina a uma festa com sua correspondente ceia”.
Os Vilancicos, importante gênero que, conforme mencionado, desenvolvia-se
paralelo às dramatizações e se estendia a toda a península, são tratados no Catálogo de
Villancicos de la Biblioteca Nacional - da Espanha, em dois volumes, Século XVII e Século
XVIII - XIX. Constante do Acervo [1G], o Catálogo define três tipos de Vilancicos: “Barro-
co”, “Popular Navideño” e “Profano”, com as seguintes características: “o Barroco, cultivado
no século XVII e XVIII, <cantata espanhola> composta por Maestro de Capela para as
festividades religiosas; o Profano, dos séculos XV e XVI, forma poética da lírica popular,
herdeiro de Zejel [de origem árabe, segundo Menendez de Pidal] e o Popular Natalino, típico
das festas de Natal”. O Catálogo esclarece ainda que os Vilancicos fazem parte da Literatura
de Cordel, acrescentando, adicionalmente, algumas interessantes observações:

• “Crença geral fez do Vilancico uma canção natalina popular alimentada por
essências folclóricas, transmitida de geração em geração, transplantada de po-
voado a povoado (...)”.

• “Uma das características dos Vilancicos, sobretudo os natalinos e de Reis, era


incluir personagens falando em diferentes jargões, o que implica que tinham um
importante componente cênico (...). Os mais numerosos eram o guineu, ou ne-
gro, e o asturiano (...)”.

• “A maioria dos Vilancicos do século XVII são romances com estribilho, além de
um marcante componente cênico”. Citando Mario Cruz Gracia de Enterria, que
assinala: “uma ampla variedade de formas de teatro menor incluída dentro dos
Vilancicos: colóquios de pastores, diálogos grotescos e “disparados”, entremeses
de figuras, bailados e danças (...).”

Sobre a estrutura musical dos Vilancicos, o Catálogo faz a seguinte citação do


trabalho de Miguel Querol Galvada, autor da obra “Villancicos polifonicos del siglo XVII”: “O
Vilancico é uma forma musical aberta em três pequenos períodos ou partes que se compõe:
o estribilho ou refrão, a quadra [copla] e a repetição do estribilho. Diga-se uma forma
musical aberta, quer dizer que o estribilho musical pode admitir ou acolher dois, três, quatro
versos ou quantos sejam <no século XVII tem estribilhos de até 30 versos> e com a
estrutura métrica e rima que se queira”. Prossegue: “Para o músico, o estribilho é simples-
mente o período musical que se repete obrigatoriamente depois de cantar a quadra”

39
Do total de Vilancicos Barrocos catalogados sobre festas, referentes ao século
XVII, cerca de 30% refere-se ao Natal, 20,6% a Reis, e 11,8% à Imaculada Conceição, e o
restante às diversas outras Festas Religiosas.
Com relação aos tipos mencionados como Populares de Natal - excluídos do
Catálogo - foram coligidos por Juan Hidalgo Montoya [1E] no trabalho Cancionero de
Navidad, incluindo versos e respectivas partituras. Selecionamos dois interessantes exem-
plos:
O primeiro, originário da Província de Leão - Espanha, compreende um Vilancico
de quatro quadras (coplas), seguidas do mesmo estribilho, e se intitula “Zumba, zúmbale al
pandero”. Observa-se que, durante o refrão, são realçados os instrumentos de percussão
do grupo de Vilancicos. O segundo, de Murcia, denomina-se “El Aguinaldo” que, como se
sabe, corresponde ao pedido de Reis – oferta – na tradição castelhana. De ambos se
apresentam a primeira estrofe e o estribilho, ou seja, o refrão.

“Zumba, zúmbale al pandero”

Estrofe 1
Esta noche nace un Ninõ
blanco rubio y colorado
que ha de ser el pastorito
para cuidar el ganado

Refrão
Zumba, zúmbale al pandero
al pandero y al rabel
toca toca la zabomba
dále dále al almirez.

“El Aguinaldo”

Estrofe 1 Refrão
Esta noche es Noche Buena Esta noche es Noche Buena
Y no és noche de dormir digamos con alegria
que ha nacido el Ninõ Deus viva la bote y el vino
Que nos viene redimir y la mata que los cria

40
Outro aspecto dos grupos de tradições espanholas são os mascarados, ampla-
mente estudados por Júlio Caro Baroja [1G], publicado em 1963, no artigo Mascaradas de
inverno en Espanha y otras partes. Vejamos alguns trechos, que julgamos pertinentes,
tirados desse documento.

• “A partir da véspera de Reis, ou de princípios do ano ou do Natal celebram-se,


em terras da região Basca da Espanha, Mascaradas de diversos tipos que finali-
zam na quaresma”;

• “Esse costume muito abrangente em todo o norte da Espanha, adquire, em


certas regiões, um aspecto especial.”

Em seguida, Baroja descreve mascarados de diversos povoados com seus atribu-


tos e apetrechos e seus respectivos apelidos. Dentre esses se destacam “el zangarrón de
Montamarta” e “los carochos de Riofrió de Aliste”, ambos na Província de Zamora. Esta, por
ser vizinha de Trás-os-Montes, em Portugal, foi estudada em detalhes por Francisco Pedro
Luis Pascual [1B], no documento El Ciclo de Navidad en tierras de Zamora. O autor
descreve uma grande variedade de mascarados dessa província, que participam das festas,
dividindo-se em dois grupos: os representantes do bem e da vida (+); como o Menino Deus,
o Soldado, o Galante, a Madame, etc , e os que simbolizam o mau (-), o “Carocho”, “Zangarrón”,
“Diablejos” e “Filandora”. O Acervo dispõe de algumas obras, bem como de arquivo fotográ-
fico, que ilustram as festas populares na Espanha, em especial as do ciclo natalino. Três
obras recentes ampliam a documentação disponível do Acervo sobre os mascarados espa-
nhóis e portugueses: Juan Francisco Blanco González [1B] com o livro Los Carochos: rito y
tradición en Aliste, Zamora, 2004, e António Pinelo Tiza [1B], em Inverno mágico: ritos e
mistérios transmontanos, Lisboa, 2004, e, mais recentemente, em co-autoria, Máscara
Ibérica, Lisboa, 2006.
No que concerne aos autos litúrgicos em Portugal, Luiz Francisco Rebello [1G],
na Breve História do Teatro Português, alude a não aceitar que “as manifestações místi-
cas da Idade Média”, religiosas ou profanas, não houvessem chegado ao extremo ocidental
da Península Ibérica. As Ordens Religiosas que se instalaram em Portugal, certamente,
“trouxeram consigo os mistérios (...). Como admitir que jograis e trovadores, que nas suas
deambulações por terras lusitanas não incluíssem no seu repertório a narração dialogada e
mimada de episódios burlescos ou inspiradas nas novelas de cavalaria e nos livros hagiográficos
que tão grande popularidade alcançaram noutros países (...)”. Referenciando José Matosa
[“Identificação de Um País” - Lisboa, 1985]: “A circulação de Jograis e Zegréis, que não

41
tinham fronteiras, tanto abrangia Castela e Galícia como Portugal, levando as suas histórias
a toda parte”.
Cabe ainda registrar, entre outras fontes, as observações de Antonio Manuel
Pires Cabral [1C], contidas no longo capítulo introdutório, no documento Reis Falados de
Carviçais - Cadernos Culturais IV, Vila Real, 1979. O autor afirma: “O aproveitamento do
tema da Natividade e da Epifania remonta a um antiquíssimo <Officium Pastorum>, e se
encontra documentado em várias literaturas européias”. Registra que o primeiro Auto de Reis
em Portugal é devido a Gil Vicente, esclarecendo ainda que: “Tudo aponta para uma tradição
[desses autos] bem implantada em todo o território português, em tempos antigos”.
O etnógrafo português Luís Chaves [1B], muito citado pelos seus trabalhos sobre
as tradições do Natal, aborda alguns aspectos interessantes, no livro [dedicado ao Dr. Leite
de Vasconcelos, <Mestre de nossa Etnografia>], Danças & Bailados, de 1944: “A maior
parte destas danças e bailados, por serem festivas e de regozijo, aplicaram–se às comemo-
rações religiosas locais (...). Assim, vieram a se constituir as danças religiosas”. Prossegue,
mais adiante: “As procissões tinham duas partes, e o conjunto era <a procissão>. A primeira
de caráter profano, ali, porém, disposta, porque, no decorrer dos séculos, sempre se consi-
derou honrar as cerimônias religiosas com toda espécie de manifestações vivas dos homens,
tudo servindo de homenagem, quando a intenção era essa de prestar (...). Era esta parte a
de valor etnográfico. A segunda parte era a litúrgica e dizia respeito às autoridades eclesi-
ásticas, a quem competia organizá-la”. Mais adiante, o autor aborda a preparação e organi-
zação da procissão por parte dos mesteres [oficiais
Fonte: Livro Festas e Tradições Portuguesas
mecânicos e outros ajudantes responsáveis pela for-
mação dos desfiles], arrematando: “(...) mas igual-
mente impendia na responsabilidade e brio deles
[mesteres], a apresentação de arranjos, danças e
folias (...) [sic]. Chaves faz ainda a seguinte referên-
cia ao uso das máscaras: “O professor Santos Júnior,
da Universidade do Porto, descreveu, em 1935, a Dan-
ça dos Pretos de Moncorvo [Trás–os -Montes]. To-
mou este nome, porque seus componentes figuram
com a cara pintada de preto [sic]. Sem alusão a afri-
canos, o hábito de pintar a cara é a dissimulação, que
se obtinha antigamente, e algures se faz por meio da
máscara”. Segue Chaves citando Santos Júnior: “Da
composição e da forma de irmandade [de Nossa Se- Mascarados Transmontanos -
Portugal
nhora do Rosário] como nas folias da Beira Baixa, per-

42
corriam [os componentes das Danças dos Pretos] as ruas da vila na véspera do Dia de Reis
(...)”. Concluindo: “Diziam versos em que predominam as loas ao Menino Jesus”.
A respeito de J. R. Santos Júnior [1B], sabe-se que produziu notáveis trabalhos
sobre os Caretos e Chocalheiros, na região de Trás-os–Montes, em Portugal, que fazem
parte deste Acervo. Em 1940, ele dá a conhecer um trabalho sobre o “Careto de Valverde,
o Chocalheiro do Vale do Porco e as suas Máscaras de Pau”. Neste, ele enfatiza: “<A Festa
dos Rapazes> é outro velho uso levado a efeito pelos moços solteiros de muitas aldeias do
Concelho de Bragança, os quais levavam a cara tapada com máscara de latão ou de casca
de árvore e muitas vezes simulam figuras de bois e bodes. O ilustre Abade de Baçal [Pe.
Francisco Manuel Alves], nas “Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança”, Vol. IX,
Porto, faz uma descrição da Festa dos Rapazes”. Sobre os Caretos de Valverde, Santos
Júnior escreve um curioso costume: “As saídas certas [do Careto] eram na véspera e no dia
do Natal, no dia de Ano Novo e no dia de Reis”. Relata, ainda, que o “Chocalheiro apresenta
estrita relação com o Careto, sendo ambos muito comuns em terras de Trás–os-Montes,
bem como da Galícia e Astúrias, na vizinha Espanha”.
Um registro, ainda a destacar, do eminente etnólogo português J. Leite de
Vasconcellos [1G], quando, num passado não muito distante, colocava em relevo as Janei-
ras e os Reis, na consagrada coleção Etnografia Portuguesa, em dez volumes. Desta,
extraímos o seguinte apontamento, uma vez que também retrata, com surpreendente fideli-
dade, diversos aspectos das Folias de Reis brasileiras, tais como: ritual, cantoria, instrumen-
tos musicais, gestual, entre outros.

“Quando, nas províncias do Norte, cantam-se os Reis em dia de Natal, Ano


Bom e dia de Reis, por aqui, <Concelho de Cadaval> [Ribatejo], cantam-se as
Janeiras. Juntam-se, ás vezes, mais de quarenta rapazes a pedir para a festa
de sua freguesia. Trazem uma guitarra, um pandeiro e algumas vezes uns
ferrinhos (...). Correm os lugares e as portas. Chegando, formam círculo,
com guitarra e o pandeiro no centro, e começam dois ou três a cantar, num
baixo profundo, umas cantigas que seguem num estilo antiqüíssimo, desu-
sado, e ininteligíveis ao cantar. Acabados os primeiros quatros compassos,
cai-lhe o resto da rapaziada, uns de baixo, outros de falsete, que fazem uma
inferneira, além das carantonhas visagens e trejeitos, abrindo muito a boca,
arregalando os olhos e deixando, no fim de cada cantiga, um rabo muito
comprido. Trazem sempre a bandeira do Santo para quem pedem”.

Comentários adicionais sobre esse texto é apresentado no documento “Notas


sobre Reis e Janeiras no Concelho de Cadaval”, de Paulo Ferreira Costa [2B].
A situação atual dos Grupos de Reis, em Portugal, é exposta no livro Festas e
Tradições Portuguesas [1B], publicado pelo do Círculo dos Leitores, obra ilustrada por
belas fotografias. O primeiro volume, referente ao mês de janeiro, foi editado no início de
2002, e do qual destacamos os seguintes tópicos:

43
• “Associados à quadra natalícia, vamos encontrar também as Janeiras e os Reis
que representam peditórios cantados na noite de Natal, de Ano Novo e de Reis.
(...) O costume celebrações dos Reis, espalhado ainda hoje por toda a Europa, em
países como Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, entre outros, continua a
celebrar-se, com os seus seculares cânticos de religiosidade popular e festiva”;

• “Formados por grupos de homens e mulheres, os janeireiros e reiseiros, acom-


panhados ou não por músicos, percorrem os lugares, de porta em porta, a pedir
oferendas em troca da entoação das <loas> ao Menino, das janeiras e dos Reis”;

• “Cantar os Reis, esperar os Reis, correr os Reis ou tirar os Reis são as denomi-
nações decorrentes das práticas da quadra que liga o Ano Novo ao dia de Reis.
(...) A diferença entre as janeiras e o tirar os Reis reside simplesmente na altera-
ção de alguns versos”;

• “Na Iha da Madeira, no dia de Reis, manda o preceito que se visitem os


presépios, ou lapinhas, erguidos dentro das casas”;

• “Em diversas localidades, aos cânticos entoados pelo Natal dá-se o nome de
natalinhas, natárias ou natarinhas. Aos que se cantam no dia de Ano Novo, o
nome de janeiras, enquanto os que se entoam no dia de Reis levam o nome de
reis, reisinhos ou reisadas. As pastoradas, ou ramos de Natal, são as <loas>,
<autos> ou <recitações> em louvor do Menino, cantadas ou representadas en-
tre o Natal e o Ano Novo”;

• “Por isso, nos Açores, os cânticos de 5 para 6 de janeiro têm o nome de Reis,
enquanto os que cantam na noite de 19 para 20 são chamados Sebastianas.
Estes cânticos apresentam uma articulação idêntica à dos Reis, residindo a dife-
rença apenas nos versos”.

Ainda com relação às tradições de Reis em Portugal, caberia mencionar o Corte-


jo, ou Espera dos Reis, e os Reis de São Sebastião, ambos seculares. Este último, em
extensão das Festas de Reis, estendendo-se do dia 06 a 20 de janeiro, dia consagrado ao
Santo Mártir.
Como se sabe, essa última tradição pode ser encontrada no Sudeste do Brasil,
particularmente na Zona da Mata, de Minas Gerais (grupos conhecidos como “Charolas de

44
São Sebastião”), mas também no Estado do Rio de Janeiro, como um prolongamento do ritual
das Folias de Reis, cantando em homenagem àquele Santo, até o dia que lhe é consagrado.
Em Portugal, também ocorrem Festas e Encontros de Grupos de Reis. No ano de
1977, foi constituída a Federação do Folclore Português - FFP, sediado na Vila de Arcozelo –
Distrito de Vila Nova de Gaia, separado do Porto pelo Rio Douro. Essa organização congrega
cerca de 450 Grupos/Ranchos Folclóricos e Etnográficos, assim conhecidos, no Continente e
nas Ilhas. Há também inúmeros grupos não federados. A programação anual dos eventos,
constante da “Lista de Acontecimentos”, divulgada por essa entidade, relaciona os “Canta-
res de Janeiras e Reis” a serem realizados nas diversas freguesias e aldeias, no transcurso
do mês de Janeiro.
Uma Festa de Reis de grande expressão é o conhecido “Encontro Geral” realizado
anualmente em meados de janeiro, no Distrito de Viseu, sob a coordenação do INATEL
[Instituto Nacional para oaproveitamento dos tempos livres dos Trabalhadores]. No evento
realizado em 20 de janeiro de 2002, reuniram-se trinta e sete grupos de “Cantares de
Janeiras e Reis”. Esses grupos, oriundos de diversas freguesias e aldeias do referido distrito,
possuem um variado repertório, não se restringindo apenas às tradições do ciclo natalino.
Dentre os grupos participantes, cujo historial e versos das cantorias de Reis constam do
livreto sobre o Encontro 2002 [1B], (o qual inclui também os cantares de Reis), seleciona-
mos as seguintes quadras, muito utilizadas nas cantorias dos reisados brasileiros.

“Os três reis do Oriente


Já chegaram a Belém
Visitar o Deus-Menino
Que a Nosa Senhora tem.

A cabana era estreita


Não cabiam todos três
Adoraram Deus- Menino
Cada um por sua Vez.

Ó da casa gente nobre!


Escutai e ouvirei
Da parte do Oriente
Chegados são os Três Reis.

Os três Reis do Oriente


Caminharam doze dias
Para irem adorar Cartaz do Encontro 2002 de Janeiras e Reis -
Viseu / Portugal
O verdadeiro Messias.”

45
Pr esença das T
Presença Trradições de Reis no Br
Reis asil
Brasil

No que concerne à transplantação dessas tradições populares da Península Ibé-


rica para o Brasil, caberia examinar, primeiramente, o fluxo migratório que se processou, em
particular, de Portugal para as terras da então Colônia, do descobrimento até o início do
Período Imperial. Reportaremos esse aspecto de forma resumida, baseando-nos em dois
autores clássicos especialistas em Demografia Portuguesa e na Hstoriografia Colonial Brasi-
leira, relativa ao Ciclo do Açúcar, do Ouro e do Café. O primeiro, José Carvalho Arroteia [1G]
A Emigração Portuguesa: suas Origens e Distribuição; o outro, Joel Serrão [1G], A Emi-
gração Portuguesa: Sondagem Histórica, mais conhecido como historiador. Arroteia assim
coloca a questão: “Isto [fenômeno emigratório de Portugal para o Brasil] aconteceu ainda
antes da intensa fase de exploração das minas de ouro e pedras preciosas, quando o
despovoamento do Reino parecia já evidente e se procurava impedir a emigração para o
Brasil através de medidas legislativas, ao que parece de fraca aceitação”.
De sua parte, Serrão escreve que, após a descoberta dos arquipélagos da Ma-
deira e Açores [em 1425], os portugueses iniciaram a colonização dessas ilhas e, somente
no século XVI, iniciaram a do Brasil, após seu descobrimento. Sobre o movimento emigratório
português, já no século XVIII, o autor escreve: “O mesmo veio a suceder no século seguinte
(XVIII), devido à intensificação da exploração de ouro e pedras preciosas, fazendo que
muita gente oriunda, principalmente do noroeste do país, embarcasse para o Brasil, (...) das
regiões de Entre-Douro e Minho [sic], as mais expostas pela densidade demográfica local e
pela facilidade de navegação ao expatrionamento”. Serrão informa ainda os Distritos portu-
gueses (que correspondem aos nossos Estados) que mais contribuíram para o êxodo emigratório
para o Brasil: Porto, Bragança, Vila Real, Viana do Castelo, todos entre o Douro e o Minho.
Na mesma proporção, o Distrito de Viseu, este na região das Beiras. A historiografia brasileira
reconhece essa grande predominância de migrantes originários das regiões norte de Portu-
gal: Minho, Trás-os-Montes e Porto, confirmando as assertivas de Arroteia e Serrão.
Gilberto Freyre [1G], por exemplo, no estudo Nordeste: Aspectos da Influência
da Cana sobre a Vida e as Paisagens do Nordeste Brasileiro, manifesta-se, por diversas
vezes, sobre a procedência de colonos do norte de Portugal. “O açúcar que trouxe para a
Nova Lusitânia, com Duarte Coelho, colonos tão sólidos do norte de Portugal”. Noutra parte:
“O negro e o mulato do extremo Nordeste <o mulato resultante de um branco, na sua maioria
do norte de Portugal> (...)”.
Alguns estudiosos clássicos da história e da cultura brasileira detiveram-se em
retratar a índole do povoador lusitano. Os colonos portugueses carregaram para o Brasil “a
viola, o pandeiro, suas trovas, cantigas e endechas”. Gilberto Freyre infere em atribuir-lhe

46
duas qualidades: aventura e rotina. Há, porém, uma tendência quase geral em reconhecer
seu apego aos “hábitos e tradições culturais e humanas” que mantinham e levavam para
onde se fixavam, conquanto “aceitavam os costumes e obras alheias sem se desfigurarem”.
Sabe-se que o povoamento do Brasil Colônia se deu, de forma mais nítida, com
implantação dos Governos Gerais, iniciada com a chegada de Tomé de Souza (1º Governador
Geral), à Bahia, em 1549, com a fundação de Salvador, uma vez que as anteriores Capitanias
Hereditárias não surtiram os efeitos desejados, à exceção de Pernambuco e São Vicente (no
atual Estado de São Paulo). Junto, veio uma missão jesuítica chefiada pelo Padre Manoel
Nóbrega. Em 1553, com a chegada do 2° Governador Geral Duarte da Costa, chegaram
outros jesuítas, inclusive Padre Anchieta. Os jesuítas instalaram-se em diversos aldeamentos
para trabalho de catequese e ensino, em povoados ao longo da costa brasileira. Alguns
desses povoados constituíam, no passado, Feitorias que serviram de base ao comércio do
pau-brasil. Dentre os aldeamentos jesuíticos, vale mencionar: Salvador, na Capitania da
Bahia (1549); São Vicente (1550); Olinda, em Pernambuco (1550); Reritiba e Reis Magos, no
Espírito Santo (1551); São Paulo de Piratininga (1553); Rio de Janeiro (1565), Paraíba
(1585), e Natal (1597).
Com os Governadores Gerais, Tomé de Souza (1559), Duarte da Costa (1553) e
Mem de Sá (1558), chegaram numerosos acompanhantes técnicos, auxiliares, artífices,
lavradores etc., além de partidas de mão-de-obra negra para desenvolver as atividades
econômicas da Colônia. Nesse período colonial, implantou-se o cultivo da cana-de-açúcar,
no Nordeste, com destaque para Pernambuco e área do Recôncavo da Bahia, posto que
essa região dispunha de excelentes condições, pela fertilidade da faixa litorânea e com a
proximidade com Portugal. Esse ciclo do açúcar estendeu-se de meados do século XVI ao
final do século XVII.
Os missionários jesuítas utilizavam, no trabalho de catequese e ensino, “peças
do folclore ibérico, canto gregoriano e música indígena, executada com seus chocalhos e
flautas”, assim escreve o historiador Hernani Silva Bueno [1G], no volume 7 da coleção
História do Brasil. Acrescente-se, ainda, os cortejos religioso-festivos que se realizavam
nesses aldeamentos por ocasião dos dias santificados e dos respectivos padroeiros; com
“representações, folias, danças e mascarados”. Assim registram o Padre Carlos Bressiani
[1G], no livro A Primeira Evangelização das Aldeias ao redor de Salvador, Bahia 1549-
1569, e Leite de Vasconcelos na transcrição etnográfica do “Peregrinos da América”, de
Nuno Marques Pereira. Esse tema é apresentado com mais detalhes no Adendo II, ítem I.2,
referentes a “Festas de Reis em conjunto com Procissões Peregrinatórias” e I.7, “Grupos de
Reis Peditório”. O Adendo II foi elaborado no sentido de evidenciar a presença das tradições
de Reis no Brasil, através de um elenco de registros históricos.

47
Inicialmente, um destaque histórico para a representação do Auto de Anchieta
“Pregação Universal ou Na Festa de Natal”, encenado na Igreja dos Jesuítas, em São Paulo
de Piratininga, no Natal de 1561, no Ano Novo e Dia de Reis, de 1562.
Três outros Registros Históricos, extraídos do Adendo III, igualmente marcantes
para a historiografia folclórica das Tradições de Reis no Brasil, sobressaem-se. Descre-
vem, com riqueza de detalhes, ao mesmo tempo indicando, as regiões brasileiras nas quais
se disseminaram, com maior influência, as tradições populares provenientes da Península
Ibérica.
• Registro de Nuno Marquês Pereira, no seu “Compêndio Narrativo do Peregrino
da América”, citado por Câmara Cascudo [1G], no verbete Reisado, inserido no
Dicionário de Folclore Brasileiro. O texto relata um grupo pedindo os Reis na
Bahia, na segunda década do século XVIII: “(...) uma noite dos Santos Reis
saíram estes [homens] com vários instrumentos pelas portas dos moradores de
uma vila cantando para lhes darem os Reis em prêmio que uns lhes davam dinhei-
ro e outros doces, frutas, etc.”. Examinando essa obra, como “fonte de investi-
gação etnográfica”, Leite de Vasconcelos, em artigo inserido na edição do referi-
do Compêndio, destaca a passagem em que se refere às comédias jesuíticas que
eram encenadas: “E a razam he por se meterem, entre elles muitos mascara-
dos, negros, mulatos e gente calceira e vadia [sic]”;

• Crônica de Frei Miguel do Sacramento Lopes da Gama [Padre Carapuceiro]


entitulada “A estúltice do Bumba-meu-boi”, escrita para o jornal o Carapuceiro,
do qual era o único redator, e publicado no Recife, em Pernambuco, no mês de
janeiro de 1840;

• Documento intitulado Tiradores de Reis, escrito por Severiano Nunes Cardozo


de Rezende [2B], redator do jornal “Arauto de Minas”, em São João Del Rei – MG,
edição de 8 de fevereiro de 1883, no folhetim da primeira página do periódico.
Esse registro da presença dessa tradição, fruto da pesquisa do folclorista Ulisses
Passarelli, retroage ao primeiro quartel deste século, uma vez que o autor faz
alusão de vivenciar essa manifestação folclórica desde a sua infância.

Ainda no contexto desses registros históricos, dois escritores brasileiros da ex-


pressão literária de Machado de Assis e José de Alencar, em suas Crônicas para o jornal da
época, manifestaram-se melancólicos diante do acentuado desaparecimento das tradições
de Reis na cidade do Rio de Janeiro.

48
Diante das considerações apresentadas, tudo indica que, no decorrer dos Governos
Gerais da Colônia, junto aos núcleos de povoamento mais consolidados, Salvador/vilas próximas
do Recôncavo, Olinda e, pouco depois, Recife, já sob o domínio holandês, Rio de Janeiro/Niterói
e São Vicente/São Paulo de Piratininga, moldaram-se as formas iniciais das tradições de Reis no
Brasil. Presépios, Lapinhas e Pastoris, seguindo-se de representações folclóricas derivadas,
como: Reisados, Rancho de Reis, Terno de Reis (versão baiana), Guerreiros etc.
Em conjunto com o desenvolvimen-
to canavieiro, surgiram as atividades pastoris,
já que o boi servia de alimentação e era im-
prescindível como força de tração para acionar
certos tipos de engenhos, além de transportar
a matéria-prima e a produção açucareira aos por-
tos de embarque para o exterior. Esse movimento
pastoril adentrou-se pelas Capitanias a partir de
Pernambuco e Bahia, alcançando os domínios de outras
que sobreviviam com dificuldades e abandono, em que
pese o processo de concessões de sesmarias. Atravessou
sertões, vertentes de bacias hidrográficas regionais, campos gerais, estendendo-se, pouco
a pouco, aos atuais Estados nordestinos, alcançando Piauí e Maranhão; ou seja, ampliando
as fronteiras agropastoris da região Nordeste da colônia. Com base nessa premissa, Capistrano
de Abreu, mestre da historiografia colonial brasileira, infere o ciclo do gado e do couro. Na
implantação e desenvolvimento da pecuária nordestina, associada ao ciclo do açúcar, diver-
sos estudiosos brasileiros encontram as condições propícias para o surgimento e difusão do
Bumba-meu-boi e seus variantes locais e regionais. No dizer de Hermilo Borba Filho [1B] “o
mais original dos espetáculos populares do Nordeste”. Quiçá, até mesmo do Brasil.
As descobertas das jazidas de ouro, nos “sertões” do atual Estado de Minas
Gerais, no último decênio do século XVII, marcam o início do Ciclo do Ouro. Isso motivou um
expressivo deslocamento de pessoas de todas as categorias, dos centros mais populosos da
Colônia, sobretudo de Salvador, Rio de Janeiro e, em menor proporção, de São Paulo, rumo
às regiões auríferas. Do mesmo modo, uma volumosa corrente emigratória d`além-mar [os
Reinóis] demandava ao Brasil, em busca de riqueza fácil e rápida.
O Historiador Rocha Pita [Sebastião Rocha Pitta, “História da América Portugue-
sa” – 1500 -1724, Editor Francisco Arthur da Silva – 2ª edição, Lisboa, 1880], contemporâ-
neo desses acontecimentos, assim se refere: “(...) com tão veemente atração, que muita
parte dos moradores de suas capitanias, principalmente da província da Bahia, correram a
buscá-lo [o ouro], levando os escravos que ocupavam em lavouras”. Continua o historiador:

49
“Do Minho, de Trás-os–Montes, [províncias tipicamente agrícolas do Reino] e das Beiras,
desciam caudais humanos que disputavam lugares nas naus, que, formando grandes com-
boios, partiam para o Brasil”.
Com efeito, a agricultura açucareira do Nordeste, que tivera seu máximo
florescimento no século XVII, entrou em longo período de estagnação face à crescente
concorrência do açúcar antilhano [Jamaica, Santo Domingo, Haití, etc]. Isso proporcionou
crises em diversos engenhos canavieiros do Nordeste, que passaram a vender seus escravos
às lavras de ouro, em Minas, onde se praticavam preços muito mais elevados que em outras
regiões. A esse respeito vale transcrever uma observação de Antonil [1G]: “(...) a concor-
rência da nova indústria mineradora do ouro, empolgando todas as atenções, atraindo todos
os negros importados da África por preços agora excessivos. Daí a enorme alta do gênero”.
O grande afluxo de gente que se estabeleceu no entorno das jazidas, em Minas
Gerais, disseminou-se em aglomerados humanos pelas montanhas e vales das zonas de extração
do ouro. O historiador mineiro, Augusto Lima Júnior, autor da obra “Capitania de Minas Gerais”,
evoca com detalhes os primórdios do povoamento na região do Ouro, resumido no seguinte:
“Mineradores e lavradores faziam construir suas casas junto às capelas de taipa nos arraiais e
povoados que se formavam nos arredores das minas. Aos sábados, vinham nelas pernoitar para,
no domingo, assistir à missa, participar de batizados e casamentos, fazer suas compras no
comércio que ali se estabelecia com mercadorias vindas da Bahia, Rio de Janeiro ou de São Paulo.
Uniam-se, desde logo, em irmandades para custear o culto e promoviam imponentes festividades
religiosas”. Às antigas capelas sucederam imponentes igrejas, símbolos da arte barroca mineira.
Observações semelhantes apresenta o historiador Sérgio Buarque de Holanda,
respaldado nas suas obras “História da Civilização Brasileira”, como também no “Raízes do
Brasil”, ao anotar traços marcantes da sociedade, que se formava nas zonas auríferas de
Minas Gerais, “sobre a profissão de comerciantes e de gentes de todos os ofícios”.
O aglomerado heterogêneo de povoamento inicial que se formou, ao longo das
bacias dos rios das Velhas e da Morte, mesclou-se cada vez mais e expandiu-se, dando
origem a alguns povoados que se transformaram em vilas e depois cidades, como as atuais
Sabará, Ouro Preto, Mariana, Caetés, São João del Rei, São José del Rei [atual Tiradentes],
dentre outras. Ao findar o período da mineração, essa região aurífera tornou-se o centro
mais populoso do país. Nesse segundo momento do período Colonial, no ambiente rural de
entorno das cidades históricas de Minas Gerais do ciclo do Ouro, fortalecido sobremodo pelo
incremento significativo de aporte imigratório proveniente da região norte de Portugal, em
especial de Trás-os-Montes, floresceram as Folias de Reis e suas expressões folclóricas
derivadas. Incorporaram-se às Folias de Reis os mascarados transmontanos, bem como os
advindos de terras da vizinha Espanha.

50
Xilogravura do artista Erivaldo Ferreira sobre Folia de Reis

A historiadora Maria Aparecida J. V. Gaeta [1G], no livro A Flor do Café e o


Caldo da Cana, registra a chegada de colonos portugueses na Comarca do Rio das Mortes
e seu posterior deslocamento para outras regiões. Baseando-se em José Ferreira Carrato
[“Igreja, Iluminismo e Escolas Mineiras Coloniais”, editora Nacional – São Paulo, 1968], a
autora escreve: “Assim uma imensa maioria de portugueses agricultores, a maior parte,
justamente, porque advindos das províncias tipicamente agrícolas do reino - Minho e Trás-
os-Montes - e que povoaram essa região das Gerais [refere-se à Comarca do Rio das
Mortes, no Sul das Gerais, cujo centro político-econômico era São João del Rei]. Continuan-
do: “Nem todos que aí chegaram procuraram, entretanto, as atividades mineratórias, prefe-
rindo uma ocupação mais estável, mais sedentária que as lavras (...) seus moradores [da
referida Comarca], na sua maioria, eram pessoas que se dedicavam à agricultura”. Mais
adiante: “Documentos [Carrato etc.] revelam que quase todos os moradores desta Comarca
eram de origem portuguesa”. Para concluir, a historiadora acentua: “Com o declínio da
mineração, moradores das Gerais, principalmente os da Comarca do Rio das Mortes, iniciaram
esse fluxo migratório [para o nordeste paulista] em busca de novas terras para a criação de
seu gado e plantio de suas lavouras”. Em resumo, com o esgotamento das jazidas de ouro e
diamantes, os mineiros iam tentar a sorte noutros setores, deslocando-se para terras mais
férteis: fluminenses, paulistas e para o oeste de Minas, atual triângulo mineiro. Daí, prosse-

51
guiram rumo à Goiás, aproveitando das oportunidades que, na época, lhes eram oferecidas.
A mão de obra escrava nordestina passou a ser também vendida às lavouras cafeeiras do
Sudeste.
Analogamente, passou-se no Estado do Rio de Janeiro, recebendo expressivo
contingente advindo das regiões auríferas. O historiador Humberto Machado [1G], no livro
“Escravos, Senhores & Café”, a esse respeito, acentua: “A difusão da cafeicultura no Vale
do Paraíba fluminense [refere-se à bacia do Rio Paraíba do Sul e seus afluentes em território
fluminense] foi produto também da fixação de antigos mineradores, os quais retornaram ao
litoral com seus escravos, após o declínio da mineração, no último quartel do século XVIII.
Eles se estabeleceram às margens dos “velhos caminhos do ouro”, que ligavam a região
mineira à cidade do Rio de Janeiro, desenvolvendo, de início, uma pequena agricultura de
gêneros alimentícios e, posteriormente, a lavoura cafeeira”.
No período Colonial, outras regiões brasileiras, em prolongamento às descobertas
de ouro e diamante em Minas Gerais, também receberam o influxo, porém em menor propor-
ção, de colonizadores portugueses nas atividades de exploração desses metais. Na Bahia,
na Serra Diamantina (Rio de Contas, 1718), Goiás (Vila Boa de Goiás, 1739) e Mato Grosso
(Cuiabá, 1727).
Com a finalidade de consolidar os limites das terras brasileiras, e sob o domínio
espanhol (União Ibérica), procedeu-se a ocupação de território da costa norte, alcançando
o Ceará (1603), seguindo Maranhão (1615) e também Belém (1615). Rumo ao Sul, a partir de
São Vicente, a ocupação se estende a Paranaguá (1648) e Curitiba (1668). Assegurando a
conquista territorial pela ocupação e defesa da Colônia, a Coroa Portuguesa destina, a partir
de 1750, um contingente de imigrantes do
arquipélago dos Açores para assentamen-
tos em povoados ao longo da costa da Re-
gião Sul. Assim, fixaram-se em Desterro (atu-
al Florianópolis), em 1675, e Laguna (1676);
e, anos mais tarde, na metade do século
seguinte, em vilas próximas à costa do Rio
Grande do Sul (Osório, Santo Antônio da
Patrulha, Gravataí Viamão etc). Esta incor-
poração territorial se deu pelo Tratado de
Madrid (1750), celebrado entre os Reinos
de Portugal e Espanha. Nessa faixa litorâ-
nea de Santa Catarina e Rio Grande do Sul,
Gravura sobre Ternos de Reis sulinos
de colonização Açoriana, desenvolveu-se o

52
Terno de Reis, versão sulina, amplamente estudado por Lílian
Argentina, Paixão Cortes, Doralécio Soares, entre outros.
Conviria ainda focalizar um aspecto interessante que
diz respeito às similaridades luso-brasileiras nas Folias de Reis e
à presença dos Palhaços e dos Mascarados. Conforme mencio-
nado, a mais antiga referência aos personagens mascarados, em
Portugal, é atribuída ao Padre Francisco Manoel Alves, conheci-
do por Abade de Baçal que, em 1910, publicou na “Illustração
Transmontana”, artigo intitulado “A Festa dos Rapazes”, descre-
vendo esta “usança transmontana” em diferentes aldeias. O Acer-
vo dispõe de um CD-ROM [5G] contendo a obra completa desse
notável pesquisador transmontano, da cidade de Baçal, inte-
grante do Distrito de Bragança. Essas festas se realizam anual-
mente, no dia 26 de dezembro, “Santo Estevão”, no dia de Natal,
Palhaço “Gigante” - Rio
Ano Bom e dia de Reis, estendendo-se até o Carnaval (Aldeia de de Janeiro / RJ

Quintela).
Passado meio século, o antropólogo português Jorge Dias [1G], desenvolveu
pesquisa específica sobre o comunitarismo agropastoril na pequena localidade de Rio de
Onor, no Nordeste Transmontano, divisa com a Espanha. Aí se realiza, todos os anos, no dia
de Reis, a Festa dos Rapazes, consistindo no “culto aos mortos e à vegetação, em conjunto
com o rito de puberdade”. De modo geral, essa festa é celebrada em outras aldeias
transmontanas a partir do dia de Santo Estevão, 26 de dezembro. Esse trabalho serviu de
referência ao folclorista paulista Rossini Tavares de Lima [1B], o qual pôs em destaque a
seguinte constatação de Jorge Dias [para estabelecer a origem das Folias de Reis no Brasil]:
“À noite a ceia e, depois, o baile [parte do ritual da Festa dos Rapazes]. Quando este
Foto: Affonso Furtado
termina, vão pelas portas cantar os Reis”.
Em seguida, observa Jorge Dias: “É curio-
so que, em Rio de Onor, deu-se a
sobreposição de dois ritos diferentes”. No
caso, a Festa dos Rapazes e a dos Reis,
ambos com utilização de máscaras. Con-
clui Dias: “Eles [os rapazes] confundiram-
nas e realizaram-nas no mesmo dia, como
se tratasse de uma única solenidade”.
Com base nessa pesquisa de Foto da localidade Rio de Onor
(Trás-os-Montes / Portugal)
Jorge Dias e nas festividades afro-cuba-

53
nas, que se realizam em Havana, no dia de Reis, com personagens mascarados, Rossini
[1B], no livro Folguedos Populares do Brasil, aduziu que as Folias de Reis brasileiras, com
Palhaços, “filiam-se às tradições de Reis de Rio de Onor”. Em artigo sobre o assunto, publi-
cado posteriormente em jornal [2B], Rossini retira a menção sobre a influência afro-cubana.
Em verdade, pratica-se esse acoplamento de rituais em outros povoados da região
Transmontana e da Espanha adjacente. Infere-se, portanto, que, nas aldeias brasileiras, pro-
vavelmente, passou-se algo semelhante ao Foto: Lúcia Beatriz

que Jorge Dias constatou na pequena comu-


nidade de Rio de Onor, ou seja, uma “superposição
de ritos”, nas festas do dia de Reis.
Nas vizinhas terras de Espanha,
passam-se cerimônias análogas, conforme
descritas por Julio Caro Baroja, o que ensejou
a Sebastião Pessanha [1G], no documento
Mascarados e máscaras populares de
Trás-os-Montes, a concluir: “(...) e assim Apresentação Folia do Mestre Torrada
em Terreiro de Umbanda - Valença / RJ
evidente que nem o Douro nem as serranias
que serram ao Norte, os nossos planaltos, nem a fronteira, que lhes é comum, constituíram
obstáculo intransponível para tão estanhos quanto arcaicos usos que confirmam a existên-
cia, em muitos casos, em toda a Península, de uma só cultura popular”.
Naturalmente, essas tradições que se transplantaram para o Brasil, sofrendo
gradativamente a influência local, pela incorporação dos elementos da cultura negra e
indígena através de hibridismos religiosos e culturais, ou seja, como preconizam diversos
folcloristas brasileiros: adquiriram a “cor local”.
Para concluir, põem-se em relevo duas manifestações populares associadas às
Festas de Reis brasileiras: os “Barquinhos Foto: Ulisses Passarelli

de Santos Reis” e uma “Reza de devoção”


aos Três Reis Santos, documentadas pelo
Acervo.
A primeira, uma criativa tradição
popular, associada às centenárias Festas de
Reis na cidade de Natal, capital do Estado
do Rio Grande do Norte. O dia 6 de janeiro é
feriado municipal, e as festas se realizam junto
à Igreja de Santos Reis, situada no bairro de
Barquinhos de Santos Reis - Natal / RN
mesmo nome. Os Barquinhos são “peças

54
artesanais feitas de papelão, cobertas de papel multicor, crepon e de seda, tendo em seu
interior castanhas, amendoins e confeitos. São vendidos pelos artesãos nos dias da Festa
de Santos Reis. O Folclorista potiguar, Deífilo Gurgel [1B], brinda-nos com um belíssimo
poema, a respeito dos Barcos de Santos Reis.

“Na festa de Santos Reis, São naus de papel de seda


Da cidade de Natal, carregadas de castanhas
Qualquer pessoa do povo, sonhando terras distantes
com modesto capital, de Portugal e de Espanha

pode, se assim lhe aprouver, herdeiras das velhas naus


transformar –se num instante, Catarinetas e Fragata,
no feliz proprietário veleiros de D.Sancha
dos barcos mais elegantes coberta de ouro e prata”

que alguém já pensou em ter,


para poder, algum dia,
fazer um longo cruzeiro
de Oropa, França e Bahia.

A segunda, uma fervorosa Reza de antiqüíssima tradição professada pelos


devotos, amiúde posta em prática pelas “vovós e titias” diante dos Três Reis Santos
afixados nas Bandeiras dos Grupos de Reis ou em suas imagens dispostas em oratórios e
altares.

EU TE SAÚDO REI GASPAR


DAÍ-ME DESSA SEMENTE PARA
QUE EU POSSA TER E POSSA DAR

EU TE SAÚDO REI BELCHIOR


DAÍ-ME DESSA SEMENTE PARA
QUE EU POSSA TER E POSSA DAR

EU TE SAÚDO REI BALTAZAR


DAÍ-ME DESSA SEMENTE PARA
QUE EU POSSA TER E POSSA DAR

55
Procedimento indicado em folheto pelos devotos de São Baltazar, na Igreja da
Lampadosa, no Rio de Janeiro: “Pegue 3 caroços de Romã; coloque 1 caroço de cada vez na
boca; para cada caroço diga uma frase e vá colocando em cima de um real de papel; enrole
e faça o pedido; enrole uma fita e guarde na carteira até o dia 06/01 do ano seguinte; traga
sete fitas de cores diferentes e o breve, e deposite aos pés de São Baltazar. Faça seu
pedido com fé e alcançará em pouco tempo”.

Carro Alegórico “Reisados” com os


Três Reis Magos - desfile da Mangueira
- Carnaval 2005 - Rio de Janeiro / RJ

56
Dimensões e Destaques do Acervo
Acervo

O Acervo resultante compõe-se de mais de 1800 fontes e referências. Se levar-


mos em conta que, mormente no suporte bibliográfico, alguns componentes do Acervo
reproduzem numerosas listas bibliográficas, esse total se elevaria consideravelmente. Um
ponderável material documental e audiovisual/multimídia tem sido coletado e classificado;
cerca de 800 unidades para cada espécie de suporte: bibliográfico e hemerográfico. Portan-
to, ambos são da mesma ordem de grandeza. Os audiovisuais/multimídia montam a 250
unidades.
A maioria dos suportes, como era de se esperar, refere-se ao tema da categoria
B (Festas e Grupos de Reis), que constitui o tema associado ao objetivo inicial e prioritário
deste trabalho, representando cerca de 50% do total levantado e coletado. Quanto aos
audiovisuais, quase em sua totalidade, referem-se a apresentações de Grupos de Reis no
Brasil e similares de Portugal, Espanha e Alemanha.
Ainda dentro dessa categoria temática, isto é, a B, ressalte-se o significativo
percentual dos hemerográficos, originários de
autores e veículos de informação e comuni-
cação de todo o país. Esse subconjunto de
hemerográficos permite visualizar a riqueza e
diversidade das tradições dos Grupos de Reis,
notadamente no Brasil, e como são entendi-
das pelos diferentes agentes culturais, regi-
onais e locais. Agregam-se ainda a esse
subconjunto as matérias provenientes da co- Matéria do Jornal “Diário de Natal”
sobre procissão dia de Reis
municação social de outros países conside-
rados.
Outro ponto digno de ressaltar são os livros editados regionalmente no Brasil, por
autores que integram os Grupos de Reis ou profundamente envolvidos com as respectivas
tradições, principalmente os Mestres Responsáveis e também os componentes desses gru-
pos folclóricos. Ainda com relação aos bibliográficos, nota-se, na área acadêmica, um cres-
cente interesse pela temática dos Reis Magos, resultando num expressivo número de disser-
tações produzidas.
A documentação pesquisada, levantada e coletada, proveniente de Portugal e
Espanha, países que procederam as tradições populares de Reis existentes no Brasil, como
também dos países europeus e latino-americanos, compreende obras inéditas, ou seja, até
então não disponíveis na bibliografia brasileira.

57
No que tange aos Países Ibéricos, sobressaem
obras que tratam das manifestações folclóricas do ciclo
do inverno, que corresponde ao natalino no Brasil. Com-
preendem festividades, grupos, personagens, inclusive
os mascarados, típicos de uma vasta região de Portugal
(Trás-os-Montes) e adjacências do norte da Espanha. Os
Mascarados vieram a se tornar símbolo de identidade cul-
tural da cidade de Bragança, havendo aí implantado um
museu temático, como também a Bienal MASCARARTE.
Conviria ainda focalizar algumas obras, consi-
deradas fundamentais, sobre a origem histórica da tradi-
ção relativa aos Reis Magos. Nesse grupo, estão presen-
tes fontes e referências de reconhecida importância, a Cartaz Mascararte 2005
exemplo da obra de Johannes von Hildeshein. Cerca de
três séculos após a publicação desta, veio a lume, em 1654, outra obra, buscando funda-
mentar, com maior rigor, o mesmo objetivo a que se tinha proposto Hildesheim, documentan-
do todas as fontes primárias então existentes: canônicas, apócrifas, litúrgicas, escritos dos
denominados “Pais da Igreja”, entre outros. Visava fazer frente ao movimento reformador da
Igreja, eclodido anteriormente e conduzido pelo teólogo alemão Luther Martin (1483-1546).
Refere-se à obra PRIMITIAE GENTIUM – HISTORIA SS TRIUM REGUM MAGORUM
EVANGELICORUM ET ENCOMIUM, escrita por conceituado teólogo jesuíta da época, o
coloniense R. P. Hermanno Crombach. Consubstanciada em dois volumes, compreende três
tomos (Encomiasticus, Exegeticus e Historicus, respectivamente). Parte desse documento
está disponível no Acervo [1F], valendo ressaltar que esse autor desdenha a obra de
Johannes, conforme assinala Horstmann. As informações desse livro podem ser obtidas
através de leituras de textos mais acessíveis, como, por exemplo, o citado livro de Madeleine
Félix [1F], Le livre des Rois Mages. Essa autora faz breve resenha de cada tomo, conside-
rando a obra uma “pesquisa monumental”, cuja tradução para o francês seria valiosa. Assim,
ela realça a “impressionante lista de milagres” atribuídos aos Santos Reis, como, por exem-
plo, a libertação de Granada, na Espanha da dominação dos Mouros, no tempo da Epifania de
1492.
Outra obra digna de registro, pela sua grande abrangência, refere-se à obra de
Hugo Kehrer [1C], Die Heilegen drei Könige in Literatur and Künst, editado em dois volu-
mes, Leipzig, 1908, tratando, naturalmente, de temas relacionados às artes e à literatura.
Um estudo veio a lume, buscando reexaminar o tema da origem e natureza dos
Magos, aprofundando ainda mais as fontes primárias, em especial no que concerne às

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religiões primitivas orientais, vigentes à época desses misteriosos personagens bíblicos, e
estórias e lendas que aí se formaram. Trata-se do trabalho realizado por Ugo Monneret de
Villard [1F], sob a égide do Vaticano, Studi y Testi, nº 163 – Le Leggend Orientali sui Magi
Evangeli, editado pela Biblioteca Apostólica Vaticana, em 1952.
Duas publicações, sobremodo acessíveis e abrangentes, são também disponí-
veis, como; Historia de los Reyes Magos [1F] de Adolfo Vila Valencia, e a do autor
brasileiro Malba Tahan [1C] [pseudônimo de Júlio Cesar Mello Sousa], intitulado A estrêla
dos Reis Magos na história e na poesia. Ambas incluem composições literárias, relativas
aos Reis Magos, de famosos poetas de cada país.
Já nos tempos atuais, surgiram dois trabalhos de investigação, sobremodo ilus-
trados, um procedente dos Estados Unidos de autoria de Richard C. Trexler [1F] The Journey
of the Magi: Meanings in History of a Christian Story, editada pela Princeton University
Press, New Jersey, em 1997; outro provindo da Alemanha, de Manfred Becker-Huberti [1D]
Die Heiligen Drei Könige: Geschichte, Legenden, und Bränche, Greven Verlag, Köln, 2005.
O primeiro se propõe a examinar a questão dos Magos sob o “ponto de vista sócio-político,
no contexto das sociedades cristãs”. O segundo desenvolve os temas clássicos, enrique-
cendo a parte das manifestações populares associadas aos Reis Magos, como os grupos
“Sternsingers”.
Para completar, o livro de Adrian Gilbert [1F], Los Reyes Magos, tradução espa-
nhola da edição inglesa “The Magi”, busca, segundo o autor, “a verdade oculta atrás da
lenda dos Reis Magos, de profundo mistério de tradição secreta dos Mestres da Sabedoria e
conhecimentos esotéricos”.
Atualmente, o Acervo encontra-se subdividido e abrigado em duas institui-
ções. O subconjunto documental (bibliográfico, hemerográfico, iconográfico, e também os
documentos esparsos) na Divisão de Folclore do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do
Estado do Rio de Janeiro – INEPAC (Rua da Ajuda nº 5, 10º andar, Centro, Rio de Janeiro),
enquanto o audiovisual e multimídia no Arquivo Sonoro e Visual da Biblioteca Amadeu Amaral
do Centro Nacional de Cultura Popular – CNPC (Rua do Catete n° 179, Catete, Rio de
Janeiro). Vide Adendo III.
Em continuidade aos trabalhos relativos ao Acervo constiuído, os próximos pas-
sos serão reaver e recompor uma pequena parcela de seus componentes que, por diversas
causas, extraviaram-se, danificaram, estão incompletos, entre outras. Um asterísco [*],
colocado ao final da referência dos títulos da listagem, indica ocorrência desse fato. Outro
passo será torná-lo mais fácil ao acesso público, através de CD-ROM e de consulta em
página específica do Acervo, via internet.

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Expr essões de Ag
Expressões Agrradecimento

Enterneceram-nos profundamente as inúmeras manifestações de colaboração,


incentivo e carinho, que recebemos ao longo do período de elaboração do presente trabalho.
Acrescentem-se as incontáveis doações feitas para compor este Acervo. Nesse sentido não
poderíamos, de forma alguma, deixar de consignar a expressão mais sincera de nossa grati-
dão e reconhecimento a um conjunto de pessoas e instituições.
No Adendo IV, consta a relação completa dos colaboradores institucionais e
particulares, que proporcionaram numerosas doações ao Acervo, apoio de assessoramento e
de natureza técnica, de inestimável contribuição à elaboração deste trabalho, por mais
singela que se possa considerar.
A um grupo de Representantes de Cristo: dois colonienses, Frei José Kroft [1920],
há muito radicado no Brasil, Pároco da Catedral de Miguel Pereira-RJ, provendo-nos com as
imprescindíveis recomendações junto ao Arcebispado de Colônia e a Dom Friedhelm Hofmann
[1942], ex-Bispo Auxiliar de Colônia - Alemanha, atualmente à frente do “Ördinariat” de
Würsburg, que, atendendo às citadas recomendações, facultou-nos todos os meios indis-
pensáveis para concretizar as atividades programadas.
Aos Reverendos: José Jansen [1921], natural de Gelderland (Holanda), recém
ordenado, veio exercer as lides do ministério eclesial no Brasil. Atualmente aposentado, foi,
sem dúvida, um pioneiro quanto à permissão concedida às Folias de Reis de adentrar as
igrejas sob sua responsabilidade, evento iniciado na Paróquia de Jales/SP, tendo nos doado
seu arquivo particular “pastoral – folclórico” para se incorporar neste Acervo. O outro,
Medoro de Sousa [1955], fluminense de Rio das Flores, Pároco da Catedral de Valença-RJ.
Incentivador de nosso trabalho, tem se distinguido por sua atuação e apoio junto ao Reisado
de Valença, projetando essa ação aos
demais Municípios vizinhos, resultan-
do, assim, na preservação desse
patrimônio da cultura popular da re-
gião. Valença congrega o maior núme-
ro de Folia de Reis do Estado e realiza,
há mais de 30 anos, o Encontro de
Santos Reis.

Padre José Jansen em celebração de


Missa de Santos Reis - Jales / SP

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Foto: Raphael Cavalcante

Padre Medoro de Sousa em celebração


de Missa de Santos Reis - Valença/RJ

Aos anônimos portadores dessa tradição popular, tão apreciada pelo povo brasi-
leiro, através de seus responsáveis e participantes vinculados aos inúmeros e variados
Grupos de Reis, agentes vitais na preservação desse gênero folclórico.
A ínsignes folcloristas brasileiros, remanescentes da geração que implantou os
estudos folclóricos no país, fazendo chegar, até as gerações atuais, esse patrimônio da
cultura popular: Altimar Pimentel (PB), Ático Vilas-Boas da Mota (BA), Braulio Nascimento
(RJ), Carlos Lima (MA), Deífilo Gurgel (RN), Doralécio Soares (SC), Saul Martins (MG) e
Vicente Sales (PA). Por extensão, aos colegas integrantes da Comissão Nacional de Folclore
(CNF), e das respectivas Comissões Estaduais afiliadas, perseverando na missão de valorizar
e de preservar, cada vez mais, o legado cultural recebido.
Reitera-se, uma vez mais, nossa gratidão às Equipes de assessoramento e técni-
ca, como também aos colaboradores individuais e de organizações associativas relacionadas
no citado Adendo IV, que se empenharam com denodo às atividades de elaboração deste
trabalho, ao longo de uma dúzia de anos.
Finalmente, a um grupo colaboradores que se mantém obscuro, seja por vontade
própria de não se identificar, ou seja devido à nossa imperdoável negligência de tê-los
olvidado.

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Observ ações FFin
Observações in ais
inais

Nenhuma pretensão nos leva a supor haver esgotado o assunto pesquisado,


levantado e obtido. Muito ao contrário, trata-se de um manacial ainda muito a explorar,
continuando a sensibilizar desde os mais simples componentes dos Grupos de Reis, passando
pelos artistas de diferentes áreas, pelos estudiosos e pesquisadores, chegando ao povo
que, no caso do Brasil, cada vez mais aprecia essa manifestação da cultura popular. Como
preconiza, uma vez mais, Cardini “uma história infinita”, no capítulo de conclusão do seu
mencionado livro.
Diversos campos de pesquisa permanecem totalmente ou quase inexplorados.
Adstrito ao Brasil, citaremos sete áreas potenciais de desenvolvimento de pesquisas, que
poderiam subsidiar inventários que venham a ser realizados, visando o registro dos Reisados
brasileiros, em conformidade com a legislação vigente do Patrimônio Imaterial.

• As estruturas musicais e os instrumentos utilizados nas toadas dos Grupos de


Reis, a nível local, regional, e até sua correlação com as outras possíveis raízes
externas ao país, associadas às variadíssimas formas poéticas dos versos, “a
versaria”, no dizer de alguns Mestres de Folia de Reis. Nesse campo, vale
mencionar a iniciativa de Mário de Andrade [1E], seguido por sua discípula
Oneida Alvarenga [1E]. Mais recentemente, Yara Moreira [2E] e Allberto Ikeda
[2B], focalizando os estilos musicais das Folias de Reis de Goiás, e Suzel Ana
Reily [1B], os de São Paulo;

• Iconografia brasileira relativa aos Reis Magos;

• Os sermões pronunciados, ao tempo da Epifania, com suas variadas interpreta-


ções teológicas a respeito do episódio dos Magos evangélicos, dos quais o Acer-
vo só dispõe do texto do Padre Antônio Vieira [1D], proferido na Capela Real da
Coroa Portuguesa, no ano 1662. Os autores franceses que abordam a temática
dos Reis Magos, como Madaleine Felix [1F], dão ênfase ao Sermão de Maurice de
Sully (1120-1196), famoso teólogo e Bispo de Paris, fundador da Catedral de
Notre Dame;

• A vasta arte popular-religiosa, ligada aos Grupos de Reis, compreendendo as


bandeiras, vestimentas, máscaras/capacetes, as alegorias usadas nas Festas de
Reis, como Arcos, Mastros, entre outros objetos;

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• As variadas formas de hibridismo que se agre-
gam aos Reisados, de natureza religiosa
(sincretismo) e cultural (indústria cultural etc.);

• Instrumentos de comunicação social utilizados


nas festas e pelos Grupos de Santos Reis: carta-
zes, convites de participação, certificados,
premiação, troféus etc.

• Contos, superstições e crenças ligados aos Grupo


de Reis e seus componentes, tema a nível de
pesquisa conduzido pelo folclorista José Carlos Folder do Museu Etnográfico
Zamora - Espanha
Rossato [1B], na região de Votuporanga/SP.

Esse universo das tradições populares brasileiras constitui um mostruário de


inconteste valor cultural que molda sobremaneira as identidades do povo brasileiro e que, na
concepção do grande pensador espanhol Miguel de Unamuno [1864-1963], conforme expresso
na Epígrafe deste livro, deve ser cultuado e preservado. Assim ocorreu na Espanha, que
instituiu um projeto de restauração e preservação de seu patrimônio artístico-cultural, atual-
mente estendido a Portugal e contando com apoio da Comunidade Européia. O Museu Etnográfico
de Castilla y Leon, sediado em Zamora, reclamado por Unamuno, há muito se tornou realidade.
A infinitude dos temas aqui tratados resumidamente nos remete à sabedoria do Mes-
tre de Reis Simplício (1921-2002), filho de lavradores mineiros que se transferiram para a cafeicul-
tura fluminense. Ainda jovem, deixou sua terra natal, Miracema-RJ, indo residir na cidade do Rio de
Janeiro, em busca de melhores perspectivas de vida, levando consigo seus conhecimentos do
Reisado. Logo filiou-se à centenária Folia de Reis Manjedoura da Mangueira que, ao final da
década de 1940, fora trazida pelos descendentes de seus fundadores de Laranjal-MG para o Rio
de Janeiro. Nessa folia iniciou-se como palhaço ascendendo ao Mestrado, cumprindo, assim, sua
sagrada missão. Em depoimento para este trabalho, ensina-nos com rara “simplicidade”:

“Reis, seo Affonso, agente tá sempre aprendendo, não acaba nunca”.

Contentamo-nos em haver contribuído, de alguma forma, para que essas tradi-


ções populares de influência dos Reis Magos que, apesar das contínuas e inevitáveis recria-
ções induzidas pela evolução sócioeconômica e ambiental da sociedade, preservem-se e
frutifiquem, cada vez mais, ao longo dos tempos vindouros.

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Fontes e Referências