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A criança pré-verbal

A compreensão a respeito do desenvolvimento musical tem passado por uma revolução desde o desenvolvimento de métodos experimentais para a análise da cognição de bebês muito novos, que ainda são incapazes de falar ou de seguir instruções. Por exemplo, pesquisadores podem mensurar mudanças sutis no movimento do corpo (como movimentos da cabeça ou dos olhos, e a velocidade de sucção) ou em processos internos (como o batimento cardíaco) que demonstram a consciência do bebê em relação a certa mudança. Temos hoje muitas demonstrações de que a percepção musical da criança é muito mais sofisticada do que o comportamento exterior tende a sugerir. Somente experimentos cuidadosamente elaborados podem revelar a extensão completa de tais habilidades perceptivas, as quais normalmente passariam desapercebidas mesmo pelos pais mais observadores.

Técnicas inovadoras têm sido capazes de demonstrar que a sensibilidade e o aprendizado musicais existem antes do nascimento. Por exemplo, crianças recém- nascidas respondem com mais atenção à peças musicais que foram repetidamente tocadas por suas mães antes do nascimento, do que a melodias novas (Hepper, 1991). Isto significa que, antes de nascerem, os bebês já haviam absorvido e armazenado informações bastante específicas sobre a música no seu entorno. Isto é possível devido ao fato que o sistema auditivo parece já estar totalmente desenvolvido ao final do quarto mês de gestação (Lecanuet, 1996).

Com relação aos meses logo após o nascimento, pesquisadores mostraram que bebês de 5 meses já se encontram mais sensíveis a padrões ou contornos melódicos, e não tanto às alturas em si mesmas (veja Trehub & Trainor, 1993, para uma resenha). Observou- se que, ao transpor um padrão melódico conhecido da criança em três semitons (acima ou abaixo), houve relativamente pouca resposta da criança. Mas, quando o padrão em si foi modificado, isto provocou uma resposta intensa da criança. Ou seja, já aos 5 meses os bebês dão relativamente pouca importância às alturas absolutas quando ouvem uma melodia. O que é mais importante para elas é o conjunto invariável de contornos e intervalos que distingue uma melodia de outra. Neste sentido, os bebês demonstram uma “inteligência” musical que é demonstrada por crianças mais velhas e até mesmo por adultos.

Bebês também parecem ser sensíveis a certos aspectos da estrutura musical. Jusczyk e Krumhansl (1993) mostraram que os bebês preferem melodias tonais nas quais pausas são introduzidas ao final das frases, do que as mesmas melodias com pausas que ocorrem em outros momentos. Trainor e Trehub (1993) treinaram bebês de 9 meses a responderem a mudanças de intensidade em uma série de fragmentos melódicos repetidos. Os bebês eram recompensados caso virassem sua cabeça em pelo menos 45 graus à esquerda ao ouvir uma elevação da intensidade. A recompensa era uma breve iluminação de quatro luzes e um conjunto de brinquedos mecânicos. Isso porque pesquisas anteriores mostraram que a oportunidade de visualizar objetos interessantes em movimento é recompensador para bebês nessa faixa etária. A Figura 1 mostra um exemplo de um ambiente experimental típico para testar a percepção infantil.

O teste foi realizado com o uso de um padrão de 5 notas em repetição. O padrão subjacente poderia ser tanto (1) uma tríade maior (p.ex., dó-mi-sol-mi-dó) ou (2) uma tríade aumentada (p.ex., dó-mi-sol#-mi-dó). Cada repetição desse padrão começou sobre uma altura distinta, o que significa que somente a informação de alturas relativas foi disponibilizada ao bebê. Um “teste de alteração” ocorreu quando a terceira nota do padrão foi abaixada em um semitom; assim, (1) se tornaria dó-mi-fá#-mi-dó, e (2) se tornaria dó-mi-sol-mi-dó. O experimento foi realizado tanto com bebês como com adultos (os adultos, por sua vez, sinalizavam a mudança elevando suas mãos). Registrou-se então a proporção de testes nos quais os participantes detectavam corretamente uma mudança. A Figura 2 mostra as pontuações percentuais dos adultos e dos bebês, informadas separadamente para as tríades maiores e para as tríades aumentadas. O experimento mostrou que adultos e bebês tiveram um desempenho muito similar. Ambos os grupos se deram bem com as tríades maiores, mas tiveram desempenho inferior com as tríades aumentadas.

Os autores concluíram que há certa característica nas tríades maiores que permite aos bebês (e aos adultos) processá-las e armazená-las de forma mais eficiente. Um intervalo de quinta maior é mais consonante (apresenta uma razão de frequências mais simples) que um intervalo de quinta aumentada. Isso também ocorre com frequência na música. Bebês de nove meses demonstram uma capacidade surpreendentemente similar à dos adultos de fazer uso dessas características. Estes, e outros estudos similares, mostram que em muitos aspectos os bebês humanos estão “pré-afinados” para a música, sendo

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capazes de extrair informações que são fundamentais para a percepção e a memorização das sequências melódicas e rítmicas que constituem uma música.

capazes de extrair informações que são fundamentais para a percepção e a memorização das sequências melódicas

Figura 1. Diagrama esquemático de um ambiente experimental típico para testar as capacidades perceptivas das crianças. A criança (C) senta no colo de sua mãe (M) e escuta um estímulo de um alto-falante (S). O pesquisador (E) observa a criança. Uma vez que a criança perca o interesse no novo estímulo e se habitue (painel superior), o estímulo muda (painel intermediário). Um interesse renovado no estímulo alterado é recompensado com luzes ou um brinquedo (painel inferior), e uma nova série é iniciada.

capazes de extrair informações que são fundamentais para a percepção e a memorização das sequências melódicas

Figura 2. Percentual de performances corretas para bebês e adultos no experimento de Trainor e Trehub (1993). As barras mostram o desempenho para o acorde maior e para o acorde aumentado. (Fonte: L. J. Trainor & S. E. Trehub: “What Mediates Infants’ and Adults’ Superior Processing of the Major over the Augmented Triad?” em:

Music Perception, nº 11, 1993, p. 190, Figure 1).

Bebês não são simples receptores passivos de informação musical. O uso precoce de suas vozes também demonstra suas capacidades musicais. Muito antes de serem capazes de produzir palavras e melodias reconhecíveis, os bebês experimentam com suas vozes, jogando com elementos que serão posteriormente incorporados na fala e no canto. Esta atividade é denominada balbuciação, e inclui atos como murmúrios, gritos, e a repetição de padrões específicos de alturas e combinações de consoantes-vogais (p.ex., “da-da-da”). Grande parte dessa experimentação toma lugar no contexto das interações entre o bebê e o seu cuidador (geralmente a mãe). A interação de adultos com os bebês gera alterações em suas vocalizações de formas bem específicas. Esta “fala direcionada a bebês” é mais rítmica e cantada que a fala normal, faz uso de arquétipos afetivos, e imita características específicas da vocalização das crianças a fim de atrair a atenção delas (Papousek, 1996). A imitação é de duas vias: bebês também imitam as alturas e contornos melódicos que elas ouvem na fala dos adultos (Kessen et al, 1979). Algumas dessas habilidades já são aparentes muito antes dos 6 meses de idade. Os bebês prestam muito mais atenção nas suas mães quando elas cantam do que quando elas falam um determinado texto (Trehub, 2003). Quando as mães cantam para

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