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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE (UNI-BH)

HENRIQUE FREDERICO DA CRUZ

NOSTALGIA NO FUTEBOL
Exaltação ao futebol do passado nas colunas de Roberto Assaf
publicadas em O Lance!

Belo Horizonte
2010
2

HENRIQUE FREDERICO DA CRUZ

NOSTALGIA NO FUTEBOL
Exaltação ao futebol do passado nas colunas de Roberto Assaf
publicadas em O Lance!

Monografia apresentada ao Centro Universitário de Belo


Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção
do título de bacharel em Comunicação Social, com
habilitação Jornalismo.
Orientador: Fabrício Marques

Belo Horizonte
2010
3

EPÍGRAFE

“Muitas vezes, uma só hora é a representação de uma vida


inteira” (MACHADO DE ASSIS).
4

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO............................................................................................................4

2 O FUTEBOL NO BRASIL E O JORNALISMO ESPORTIVO..............................8


2.2 O futebol como característica da identidade nacional...............................................14
2.3 O jornalismo esportivo no Brasil.............................................................................. 18
2.3.1 O jornal O Lance!...................................................................................................24

3 GÊNEROS TEXTUAIS: AS DIFERENÇAS ENTRE CRÔNICA E COLUNA 28


3.1 Os gêneros textuais................................................................................................... 28
3.1.2 Os gêneros jornalísticos..........................................................................................29
3.3 Crônica: um gênero entre a literatura e o jornalismo................................................31
3.3.1 O cronista esportivo no Brasil................................................................................33
3.4 Coluna.......................................................................................................................34
3.5 O conceito de nostalgia..............................................................................................36

4 ANÁLISE DAS COLUNAS DE ROBERTO ASSAF NO JORNAL O LANCE! 38


4.1 Metodologia de pesquisa.......................................................................................... 38
4.1.1 Pesquisa bibliográfica.............................................................................................38
4.2 Objeto de estudo....................................................................................................... 40
Tabela de colunas........................................................................................................... 42
4.3 Análise...................................................................................................................... 45

5 CONCLUSÃO............................................................................................................ 53

Referências Bibliográficas............................................................................................55
5

1 INTRODUÇÃO

A visão de futebol, no jornalismo esportivos brasileiro, particularmente no que se refere


às referências do passado é o tema da presente pesquisa. Para tanto, o estudo se constitui
em verificar se existe nostalgia no tratamento do futebol dos cronistas esportivos, a
partir do exemplo do jornalista Robert Assaf , colunista do jornal O Lance!.

Seguindo este exemplo, podemos verificar no jornalismo esportivo uma de suas


características mais marcantes e que o acompanha desde os primórdios: a nostalgia no
futebol. Não é difícil encontrar um jornalista comentando na televisão, opinando na
rádio ou escrevendo nos jornais e revista sobre a superioridade do futebol praticado no
passado em relação ao presente momento.

Esta proposta de pesquisa possui relevância para o campo da Comunicação Social e


para a prática do jornalismo esportivo, uma vez que se propõe verificar se haveria um
sentimento de nostalgia ao descrever o futebol. Esse esporte é muito visado na
sociedade brasileira e é um campo de pesquisa relevante para o jornalista. Em termos
de comunicação, muitos veículos que dedicam espaço para o futebol, fazem com que o
jornalismo esportivo seja um campo de pesquisa e de trabalho extremamente para os
profissionais de comunicação.

Dentro da cobertura jornalística esportiva, o profissional de comunicação tem a


possibilidade de trabalhar com um texto mais opinativo e literário, principalmente
através da crônica. A escolha de um cronista do jornal O Lance!, se deu pelo fato do
diário ser o principal veículo sobre esportes do Brasil.

Muitos dizem que o Brasil é o país do futebol ou que os melhores jogadores saíram
daqui. Não há como separar o futebol da imagem do povo brasileiro. Com certeza, as
cinco conquistas da Copa do Mundo, contribuíram para consolidar mundialmente essa
imagem.

Em uma observação empírica preliminar pode-se observar na imprensa esportiva


brasileira, em todos os tempos, essa emissão de juízos de valor e de julgamento do
futebol atual a partir das referências do passado em relação ao futebol-arte. Tanto que o
6

ícone da crônica esportiva do país, Nelson Rodrigues, muitas vezes critica jornalistas
esportivos, comentaristas e até mesmo torcedores por exaltarem o futebol do passado.

Entretanto, o saudosismo daquele futebol considerado arte genuína e que teria emergido
da mistura de um povo simples e alegre é, repetidamente, ativada e renovada em nossa
memória. O brasileiro quer sempre um novo Pelé ou então uma seleção tão competitiva
e dominante como a de 1970.

O presente e o passado do futebol coexistem nas narrativas que constroem a mitologia


deste esporte, principalmente no Brasil. Os jornalistas brasileiros costumam relembrar e
comparar os feitos do passado de times e jogadores, como por exemplo, a Seleção de
1970, o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico, o milésimo gol
de Pelé etc. E muitas vezes citam esses exemplos para falar e descrever o futebol do
presente.

Os craques de 1970 e alguns jogadores de outras gerações são acionados pelos jornais
para recriar a imagem do futebol-arte. As imagens veiculadas remetem à ginga, à
improvisação e aos dribles, uma forma totalmente particular de se jogar futebol.

Não é difícil encontrar uma crônica ou uma notícia qualquer ressaltando a qualidade
técnica dos jogadores do passado. No rádio ou em programa da TV essa questão
também é levantada e os comentaristas observam a diferença técnica entre o futebol do
passado e o praticado no presente. Para eles, o futebol do passado é clássico, enquanto
que o praticado no presente é físico, ao qual sobressai apenas a força física e o conjunto.

O primeiro capítulo deste trabalho compreende do surgimento do futebol em nosso país


e ao seu desenvolvimento. Em seguida é retratada a relevância desse esporte e a sua
importância na cultura brasileira. Já no segundo capítulo é elaborado um estudo para
evidenciar as diferenças entre dois gêneros jornalísticos: a crônica e a coluna. Por fim,
o terceiro capítulo é dedicado à análise das colunas.
7

2 O FUTEBOL NO BRASIL E O JORNALISMO ESPORTIVO

2.1 O surgimento do esporte no Brasil

Oficialmente, o futebol no Brasil começou em 1894, quando as primeiras duas bolas


chegaram ao país por intermédio de Charles Miller, um brasileiro que estudou na
Inglaterra, segundo Witter (1996). Contudo, o autor ressalta que há informações de que,
antes disso, já se praticava futebol no país. Os primeiros jogos teriam sido disputados
nos litorais de Pernambuco e de Santos, em São Paulo, por marinheiros ingleses e por
brasileiros residentes nesses locais. Mas segundo o autor, essas informações são difíceis
de serem comprovadas.

Conforme Oricchio (2006), no ano seguinte foi realizada a primeira partida oficialmente
reconhecida no Brasil, na Várzea do Carmo, em São Paulo. De acordo com alguns
historiadores, assim nascia o futebol brasileiro. O autor observa que já se praticava
futebol no Brasil quando Charles Miller voltou da Inglaterra trazendo o esporte.
Oricchio acredita que a introdução do futebol no país é imprecisa, uma vez que existem
inúmeras versões, como a da chegada no Rio de Janeiro de marinheiros ingleses com
uma bola em 1872, ou do primeiro jogo que teria sido disputado em São Paulo, no ano
de 1894, numa partida realizada entre operários. Mas ele ressalta que a versão mais
aceita é a atribuição do surgimento do futebol no Brasil a Charles Miller, trazendo duas
bolas de uma viagem que fizera à Inglaterra.

Inicialmente, o esporte no Brasil começou com os filhos de famílias com posses, a elite
em formação no final do século XIX e início do século XX, conta Witter (1996). O
autor diz ainda que eram necessários recursos para adquirir as chuteiras e dividir as
despesas com a compra de bolas e dos uniformes. Era material importado de outros
países e que não custava barato. Por isso, inicialmente, era um esporte praticado
somente por rapazes ricos.

Segundo Mário Filho (2003), no início do século, o esporte era praticado quase que,
exclusivamente, por funcionários de fábricas inglesas em seus respectivos clubes, de
acordo com Mário Filho (2003). Neste período, o futebol dividia as atenções com outro
esporte: o cricket, tanto que dois dos primeiros clubes cariocas tinham essa modalidade
8

em seu nome. O Paissandu Cricket Club e Rio Cricket And Athletic Association. Esses
dois times, inclusive, só aceitavam ingleses e filhos de ingleses nas equipes. Porém, o
cricket não despertava o interesse dos brasileiros, ao contrário do futebol.

O The Bangu Athletic Club, apesar de ser inglês, foi o primeiro clube cariocas que abriu
as portas para os brasileiros, que já passaram a ter fascínio pelo futebol. Principalmente
os jovens da elite metropolitana que conviviam com os ingleses, como relata Mário
Filho (2003).

Aos poucos, poucos o futebol foi se popularizando e chegando as camadas mais pobres,
assim como negros, que deram uma nova dimensão a este esporte. De acordo com
Witter (1996), o público começava a freqüentar os campos onde eram disputadas as
partidas, tanto em confrontos nacionais quanto internacionais. Assim, o esporte ia se
tornando gradualmente mais popular. Não tinha a divulgação e a acolhida dos esportes
considerados nobres. Mas começava a ocupar um espaço importante na vida esportiva
do país, para não mais cedê-lo a qualquer outra modalidade esportiva. Consolidava-se
ano a ano, a platéia e o número de jogadores aumentavam e a importância do futebol
como recreação e evento tornava-se evidente.

Com o interesse cada vez mais crescente dos brasileiros pelo futebol, foram surgindo os
chamados grandes clubes, segundo Mário Filho (2003). O autor afirma que Fluminense
e Botafogo foram os primeiros e foram fundados por famílias tradicionais da elite
carioca. E, logo no início, houve a distinção dos times, pela localização dos clubes. Por
exemplo, Fluminense e Botafogo eram considerados “grandes clubes” por estarem
localizados na zona sul e serem frequentados pelas famílias tradicionais. Por sua vez, o
Bangu foi considerado um “clube pequeno” por ter a sede na zona norte e ter entre os
associados a população dos morros e mais simples.

Mário Filho (2003) destaca que os chamados times grandes levavam o público para as
arquibancadas, que na época custavam dois mil réis1. Já o público dos times pequenos
preferia ir aos jogos na geral, onde o preço não passava de dez tostões.

1
Moeda do Brasil na época.
9

No entanto, o futebol não era um esporte que mobilizava massas. Na primeira década
do século passado, o remo era a modalidade que reunia multidões. Os organizadores do
futebol tinham a precaução de não marcar partidas no mesmo dia das regatas, uma vez
que perderiam público para o remo, como ressalta Mário Filho (2003).

As duas primeiras décadas do século XX foram as da consolidação do esporte em nosso


país. Witter (1996) conta ainda que nesse período aconteceram os primeiros amistosos
entre clubes de cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo. O primeiro torneio
internacional envolvendo a seleção brasileira foi em 1919. O Brasil sagrou-se campeão
sul-americano vencendo o Uruguai por 1 a 0. Os times nessa época jogavam com cinco
atacantes, três no meio de campo, dois zagueiros e o goleiro.

Witter (1996) afirma que na seleção de 1919, cujo sucesso foi um grande incentivo para
o futebol no Brasil, todos eram jogadores amadores. A profissionalização somente seria
discutida alguns anos depois. Segundo o autor, enquanto o jogo era praticado de forma
genuinamente amadora, nos clubes de elite, não havia preconceito contra seus
praticantes.

Tanto é que o Flamengo, um clube tradicionalmente do remo, relutou muito em fazer


um time de futebol, de acordo com Mário Filho (2003). Mesmo recebendo uma equipe
quase completa de campeões do Fluminense, que se mostrou interessado em sair do
bairro das Laranjeiras e partir para o clube rubro-negro. No entanto, o Flamengo só
aceitou fazer o time se o futebol combinasse com o remo.

O surgimento do time de futebol do Flamengo serviu para consolidar o crescimento do


esporte. Rapidamente, o clube se popularizou com títulos e trouxe torcedores para a
agremiação esportiva, conforme diz Mário Filho (2003). Gradativamente, o remo foi
perdendo espaço para o futebol.

“A regata não atrapalhava mais. Muitas moças preferindo ver um match do que uma regata.
Os clubes de futebol, por isso, não precisavam mais saber, com antecedência, quando ia haver
uma regata. Para transferir um jogo. Os clubes de remo, sim. Um bom match de futebol
estragava as regatas” (MÁRIO FILHO, 2003, p.58).
10

Com a popularização do futebol, os negros passaram a ter mais espaço no esporte. No


entanto, apesar dos times passarem a aceitá-los, os negros buscavam se parecer com os
brancos. Os negros e os mulatos passavam pó-de-arroz na tentativa de mascarar a cor
da pele, observa Mário Filho (2003).

Era o momento que Carlos Roberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso
mesmo, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar
ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha,
emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz (MÁRIO FILHO, 2003, p. 60).

Com a presença do negro, ressalta Mário Filho (2003), o futebol passou a ter uma
essência brasileira. Não tinha aquela fórmula ou robotização dos ingleses. O esporte
passou a transpirar alegria e ter a ginga, tão peculiar no jogo vistoso dos brasileiros. O
futebol lento e burocrático deu lugar ao drible, à agilidade e ficou mais bonito.

Segundo Mário Filho (2003), o Brasil passou a ter um ídolo negro, Arthur Friedenreich.
Um mestiço rico, filho de pai alemão e mãe negra. Mulato dos olhos verdes,
Friedenreich era o último a entrar no campo pelo time e o mais aplaudido. A demora se
justificava pelo fato de ele tentar amaciar o cabelo e tentar se parecer com os brancos.

A popularidade de Friedenreich se devia, talvez, mais pelo fato de ele ser mulato,
embora não quisesse ser mulato, do que pelo fato de ele ter marcado a vitória dos
brasileiros sobre o Uruguai em 1919. O povo, descobrindo, de repente , que o
futebol devia ser de todas as cores, futebol sem classes, tudo misturado, bem
brasileiro (MÁRIO FILHO, 2003, p. 69).

O sucesso de Friedenreich democratizou o futebol no Brasil. Uma democratização lenta


e gradual, principalmente nos clubes da zona sul do Rio de Janeiro e nas outras
agremiações pelo Brasil.

Segundo Coelho (2003), no início do século passado, o Rio de Janeiro pulsava e


impulsionava o Brasil. E, na então capital do país, os jornais dedicavam muito espaço
para o futebol, mais do que em qualquer outra cidade. O autor afirma que os jogos dos
grandes times da época, aos poucos foram ganhando destaque. Até que o Vasco, em
1923, venceu a Segunda Divisão apostando na presença dos negros em seu elenco.
11

Era a popularização que faltava. Os negros entravam de vez no futebol, tomavam a


ponta do esporte. O Vasco foi campeão pela primeira vez2 em 1924, apesar da
oposição dos outros grandes, que sonhavam tirá-lo da disputa alegando que o clube
dos portugueses e negros não possuía estádio à altura de disputar a Primeira divisão
(COELHO, 2003, p. 9).

O Vasco foi o primeiro clube a ter um jogador negro no Rio de Janeiro e, ao conquistar
o campeonato estadual, os outros times se mexeram e fundaram um novo campeonato.
Os clubes de elite como Flamengo, Fluminense, Botafogo e América, resolveram fazer
sua própria liga denominada Associação Metropolitana de Esportes Athleticos
(AMEA), no qual mantinha sérias apurações sobre a genealogia e condição social dos
atletas que disputavam por suas equipes.

Os jogadores negros que atuavam nos clubes de elite tinham vergonha de suas raízes,
alguns engomavam o cabelo, outros passavam “pó de arroz” 3no rosto e alguns negavam
à raça.

O sucesso do Vasco foi abrindo as portas para os negros daquela época. Assim o
Flamengo conquistou uma grande simpatia nacional ao trazer os ídolos da época:
Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Fausto. Porém essa popularidade iria decair
após o fiasco da Copa de 50.

Em 1925, o futebol já era o esporte nacional, de acordo com Coelho (2003). O Brasil
havia sido bicampeão sul-americano em 1919 e 1922, além de faltar apenas cinco anos
para a primeira Copa do Mundo, que seria realizada no Uruguai.

A primeira entidade fundada com o objetivo de organizar o futebol (e outros esportes)


no Brasil, em 8 de junho de 1914, foi a Federação Brasileira de Sports, de acordo com
Witter (1996). Em 1916, passou a se chamar Confederação Brasileira de Desportes.
Regulamentou e dirigiu as modalidades esportivas do país e organizou competições
nacionais. Aos poucos, cada esporte foi fundando uma confederação própria, até a
criação da própria Confederação Brasileira de Futebol, que rege até hoje o futebol
brasileiro.

2
Campeão da primeira divisão do Campeonato Carioca.
3
Tipo de maquiagem para clarear a pele.
12

Oricchio (2006) observa que o futebol não parava de evoluir e ganhar popularidade ao
longo das décadas e que nosso país boleiro divertia-se com seus belos times,
campeonatos com estádios cheios, torcidas apaixonadas e o desejo de se vencer uma
copa do mundo.

Witter (1996) ressalta que quase todos os seres humanos desse mundo conhecem
algumas das regras que regem o jogo dentro de campo. O autor ressalta a inclusão de
termos futebolísticos no uso cotidiano das pessoas, como “jogo de cintura”, “pisou na
bola”, “na marca do pênalti”, etc. para mostrar a importância que o futebol possui,
sendo discutido por todas as classes sociais, por ser um fenômeno muito mais que um
simples esporte.

Na década de 1920 começava-se a debater a questão da profissionalização dos


jogadores, segundo Witter (1996). Essa discussão ganharia força no final da década e
passaria a ser objeto de discussão e implantação nos anos trinta. Muitos clubes resistiam
à idéia de profissionalizar o futebol, inclusive a própria Confederação Brasileira de
Futebol, inicialmente.

Segundo Coelho (2003), pagar os jogadores de futebol provocou grandes polêmicas. O


autor cita que em 1929, o Paulistano, clube que tinha conquistado o maior número de
estudais de São Paulo, até então, decidiu não continuar a manter equipes de futebol.

Ainda tratando dos fatos históricos, Witter (1996) conta que a Segunda Guerra Mundial,
deflagrada em 1939, interromperia a seqüência dos campeonatos mundiais. As
transações envolvendo jogadores de futebol comprovaram que o regime profissional,
implantado em 1933, estava vitorioso. Era como que um período de preparação para a
nova fase que se delineava logo após o fim da guerra com os preparativos para o
Campeonato Mundial de 1950. Entre os anos de 1950-1970 houve alterações acentuadas
na vida dos jogadores, na prática do futebol e na preparação dos atletas.

Witter (1996) observa que, a partir de 1970, a evolução do profissionalismo se acentuou


no futebol, e o grande sucesso desse esporte consolidou-se com as disputas das copas do
mundo, onde o Brasil participou de todas elas.
13

Segundo constatação de Witter (1996), o futebol não se situa à margem dos grandes
problemas da sociedade e nem se constitui de um espaço reservado. E sim, de um
evento que gera interesses econômicos consideráveis, que produz ideologias que se
confrontam e que causa a manifestação política nacional e internacional. Para o autor, o
futebol é um espelho dos problemas do nosso tempo.

2.2 O futebol como característica da identidade nacional

Segundo Mário Filho (2003), com o interesse cada vez mais crescente dos brasileiros
pelo futebol, surgiram os chamados grandes clubes. Fluminense e Botafogo foram os
primeiros e foram fundados por famílias tradicionais da elite carioca. E, logo no início,
houve a distinção dos times, pela localização dos clubes. Por exemplo, Fluminense e
Botafogo eram considerados “grandes clubes” por estarem localizados na zona sul e
serem frequentados pelas famílias tradicionais. Por sua vez, o Bangu foi considerado
um “clube pequeno” por ter a sede na zona norte e ter entre os associados a população
dos morros e mais simples.

Os chamados times grandes levavam o público para as arquibancadas, cujos ingressos


na época custavam dois mil réis4. Já o público dos times pequenos preferia ir aos jogos
na geral, onde o preço não passava de dez tostões, segundo Mário Filho (2003).

No entanto, o futebol não era um esporte que mobilizava massas. Na primeira década
do século passado, o remo era a modalidade que reunia multidões. Os organizadores do
futebol tinham a precaução de não marcar partidas no mesmo dia das regatas, uma vez
que perderiam público para o remo.

Tanto é que o Flamengo, um clube tradicionalmente do remo, relutou muito em fazer


um time de futebol. Mesmo recebendo uma equipe quase completa de campeões do
Fluminense, que se mostrou interessado em sair do bairro das Laranjeiras e partir para o
clube rubro-negro. Contudo, o Flamengo só aceitou fazer o time se o futebol
combinasse com o remo.

4
Moeda do Brasil na época.
14

O surgimento do Flamengo no futebol serviu para consolidar o crescimento do esporte.


Rapidamente, o clube se popularizou com os títulos e trouxe torcedores para a
agremiação esportiva. Gradativamente, o remo foi perdendo espaço para o futebol.

A regata não atrapalhava mais. Muitas moças preferindo ver um match do que uma
regata. Os clubes de futebol, por isso, não precisavam mais saber, com
antecedência, quando ia haver uma regata para transferir um jogo. Os clubes de
remo, sim. Um bom match de futebol estragava as regatas”. (MÁRIO FILHO, 2003,
p.58)

Por sua vez, o antropólogo Roberto DaMatta (2006) diz que o futebol, nos primeiros
anos do século XX, fazia parte de um movimento modernizador que provocava duas
reações bem diferentes na população, de amor e ódio. O autor cita alguns escritores que
fizeram campanha contra o futebol. Caso do escritor Lima Barreto que, inclusive,
fundou uma liga denominada “Liga Brasileira contra o Futebol”. De acordo com
DaMatta (2006), Barreto, um nacionalista exacerbado, acreditava que o futebol era uma
“estrangeirice” e sua adoção significava imitar os conceitos vindo da Europa.

Entretanto, algumas personalidades se mostraram a favor do esporte bretão. DaMatta


(2006) cita algumas pessoas que defenderam o futebol no início da sua implantação no
Brasil foram o barão do Rio Branco e os escritores Coelho Neto e Olavo Billac,
descreviam que o esporte como exemplo do bom uso do corpo, além de ser um
instrumento de serviço à pátria.

O antropólogo atenta ao leitor sobre a identificação do futebol com a cultura nacional.


De acordo com o autor, existe um ditado que no Brasil só existem três coisas sérias: a
cachaça, o jogo de bicho e o futebol. DaMatta (2006) explica a curiosidade destas três
identidades nacionais, já que são compostas por uma bebida alcoólica, uma loteria
socialmente aprovada e legalmente clandestina e um esporte nascido na Inglaterra, mas
que se popularizou em terras tupiniquins.

Segundo DaMatta (2006), o esporte, de uma forma geral, tem duas funções no mundo
moderno. A primeira é a disciplina das massas que ele ensina, fazendo com que todos
cheguem ao horário determinado, e paguem a sua entrada em uma lógica contratual pré-
15

determinada. A segunda função é a sua ligação com a paz, o chamado Fair play na
vitória ou na derrota.

DaMatta (2006) salienta que, dessas três instituições (futebol, cachaça e jogo do bicho),
o futebol é a mais moderna e chegou ao Brasil por meio de um processo de difusão
cultural. Segundo o antropólogo, o futebol ajudou a consolidar a vida esportiva
nacional, através do seu universo de competição e ascensão social em detrimento ao
ambiente duro e penalizante para a maioria dos brasileiros.

Para DaMatta (2006), o fato de o futebol ter chegado do maior império daquela época, a
Inglaterra, e por constar entre as listas da nação mais civilizadas do velho continente, foi
bem recebido pela sociedade brasileira, principalmente pelas elites, que viam o Brasil
como um país atrasado em relação às grandes potências.

Conforme Ramos (1984), o futebol é um aparelho de dominação do governo, já que


possui em seu universo as condições econômicas, políticas e sociais. Segundo o autor,
os políticos usam essas características para que a população esqueça os problemas do
país, como saúde, economia, educação e inflação. O autor também cita o nazismo
alemão e o fascismo italiano como governos que tentaram ligar suas imagens ao esporte.

Ramos (1984) explica que a posição social das pessoas poderia ser modificada através
do futebol, pelo talento e atuações nos estádios. Já DaMatta (2006) observa que o
sucesso do futebol brasileiro fez com que houvesse uma nova tese sobre a identidade
nacional. O autor ressalta que esse esporte se transformou no principal instrumento para
redefinir as possibilidades e as capacidades do Brasil.

Já DaMatta (2006) afirma que o futebol se transformou em uma fonte de amor do


brasileiro com o país, principalmente com as conquistas das Copas do Mundo. Para o
autor, o futebol fez com que os brasileiros acreditassem na possibilidade de uma ordem
moral baseada na igualdade, fornecendo subsídios para a articulação da identidade
social do país. O autor analisa que o futebol demonstra uma característica de poder
agregar valores culturais locais, assim como fez no Brasil.
16

Segundo DaMatta (2006), o futebol é um extraordinário código de integração social que


ajuda uma sociedade, como a brasileira, tão segmentada e dividida internamente, a
afirmar-se quanto ao seu patriotismo.

[...] a sua capacidade de proporcionar ao povo, sobretudo ao povo pobre, enganado,


mal-servido pelos poderes públicos – povo destituído de bens e, pior que isso, de
visibilidade social e cívica -, a experiência da vitória e do êxito. (DAMATTA, 2006,
p. 164).

É através do futebol que o povo brasileiro pôde juntar os símbolos do Estado: a


bandeira, o hino e o verde e amarelo, símbolos antes restritos à elite e aos militares, no
entendimento de DaMatta (2006). De acordo com o autor, foi através do esporte bretão
que se estruturou o patriotismo da população brasileira.

DaMatta (2006) ressalta que o futebol instituiu a malandragem como arte de


sobrevivência e o jogo de cintura como uma característica do brasileiro. O autor ressalta
o estilo único de jogar futebol do brasileiro, com muita técnica e força, além de honrar
as 17 regras que normatizam o esporte.

O fato de o futebol ter entrado em conflito com alguns valores da sociedade tradicional
é um dos pontos analisados por DaMatta (2006). Segundo o autor, os brasileiros
estavam acostumados a jogar e não a competir. A sociedade teve que aprender a separar
as regras das competições e da própria partida para apreciar o esporte.

Roberto Ramos (1984) revela três hipóteses em seu trabalho sobre a influência do
esporte na população brasileira. A primeira delas é que o futebol é um aparelho
ideológico do Estado. Segundo o autor, o futebol é um esporte ideológico, não
permitindo hierarquia e reprimindo o conflito de classes pacificamente, não havendo
distinção nas classes sociais das pessoas que o acompanham. Para comprovar a sua
teoria ele usa exemplos do envolvimento do ex-presidente da Republica Emílio
Garrastazu Médici no momento mais autoritário e repressivo do país, além de
publicidades do governo associadas ao esporte e dados sobre o investimento da TV
Globo para a Copa do Mundo de 1982.
17

A segunda hipótese é que o futebol mascara a realidade. Segundo o autor, o futebol


diminui a compreensão das condições sociais das pessoas, pois preenche espaços
consideráveis na vida dos brasileiros. Os meios de comunicação são ferramentas
fundamentais na introdução de uma sociedade de gols, vitórias e campeonatos no
cotidiano. Para o autor, o futebol mostra dois sentimentos: o sucesso ou fracasso. Essa
teoria é baseada no título da Copa Libertadores da América, conquistada pelo Grêmio
em 1983. O autor analisa os jornais Zero Hora e Jornal da Tarde de Porto Alegre, nos
dias subsequentes à conquista.

A terceira hipótese formulada por Roberto Ramos (1984) é a de que o futebol


compactua o capitalismo, pois consegue mobilizar e dividir a classe trabalhadora em
vários times do Brasil. De acordo com o autor, o futebol ocupa o espaço dos brasileiros
com a ajuda dos meios de comunicação.

Através de uma análise detalhada nos principais meios de comunicação, o autor mostra
como os números dedicados a outras editoriais, como por exemplo, política e economia,
são quase que insignificantes em relação ao futebol. Roberto Ramos (1984) revela o
valor e o espaço atribuídos ao futebol em detrimentos dessas editorias.

Atualmente, Roberto Ramos (1984) afirma que o futebol é um grande mercado, que
produz e vende espetáculos, em busca de lucros. Segundo o autor, o futebol proporciona
grandes transações para os donos do capital e atua como poderoso aparelho ideológico
do Estado, auxiliado pelos meios de comunicação.

2.3 O jornalismo esportivo no Brasil

A história do jornalismo esportivo no Brasil é ainda pouco explorada pelos


pesquisadores da área da comunicação. Segundo Silva (2006), apenas nos últimos anos
o assunto é encontrado em textos de próprios jornalistas da área. No entanto, o autor
ressalta que praticamente todos os estudos direcionam para o fato de o jornalismo
esportivo no país ter começado com Mário Filho no fim da década de 1920.

Stycer (2009) compartilha desta opinião e afirma que os principais pesquisadores da


comunicação no país, ignoram o surgimento da imprensa esportiva nas duas primeiras
18

décadas do século XX. Ele cita Nelson Werneck Sodré 5e Juarez Bahia6, autores que
falam do surgimento da imprensa no Brasil, mas que dedicam pouco espaço em seus
trabalhos sobre o assunto. O autor observa que o primeiro apenas destaca as datas de
nascimento de alguns jornais esportivos da época, enquanto que o segundo dedica um
capítulo sobre o tema, mas com pouca profundidade.

Para aquelas pessoas que se interessam pelos primeiros momentos do jornalismo


esportivo no país, as principais informações disponíveis se encontraram em papéis
secundários ou acessórios nos estudos de historiadores, sociólogos, antropólogos,
professores de literatura e jornalistas sobre o início do futebol no Brasil, observa Stycer
(2009).

Silva (2006) corrobora com esta opinião e ressalta que o jornalismo esportivo dos
primeiros anos do século passado tem recebido pouca atenção. Para ele, na maior parte
das vezes, o foco dos trabalhos recai em períodos posteriores, as quais Mário Filho e os
cronistas que narraram as três primeiras conquistas mundiais do Brasil ganham a maior
parte da pesquisa.

Por isso o jornalismo esportivo daquele período tem recebido um tratamento


extremamente superficial, tautológico e, em certos casos, até mesmo contraditório e
mistificador. Fala-se sempre no pequeno interesse jornalístico despertado pelo
futebol, na linguagem empolada e repleta de anglicismos, na incógnita pobre e
marcada por fotos de jogadores e dirigentes em poses sérias, nos textos
eventualmente publicados em nomes consagrados da literatura como Olavo Bilac,
João do Rio, Coelho Netto, Lima Barreto etc (Silva: 2006: p. 32).

Para Stycer (2009), há um grande preconceito dentro do jornalismo esportivo em


relação a quem estuda esse ramo. Um grande desafio, por exemplo, é diminuir essa
barreira entre a academia e a prática. Em seu livro, o autor afirma ter conseguido
discutir o assunto com quem estuda, mas teve grande dificuldade em discutir com quem
atua no jornalismo esportivo. Na opinião de Stycer, diminuindo essa barreira entre a
academia e a prática profissional, vários problemas seriam resolvidos.

Stycer (2009) tenta mostrar que o jornalismo esportivo é de alguma forma uma
especialidade com menos prestígio dentro do jornalismo do que outros ramos como

5
Nelson Werneck Sodré, História da imprensa no Brasil, 1999.
6
Juarez Bahia. Jornal, história e técnica, 1990.
19

economia, política e entretenimento. Para sustentar sua afirmação, Stycer enumerou


alguns problemas enfrentados pelo jornalismo esportivo brasileiro, como por exemplo,
baixos salários, dificuldades de promoção, falta de interesse dos profissionais da área
em conhecer outras editorias, e certa rejeição às mulheres atuarem nesse ambiente de
trabalho.

Já Mário Filho (2003) afirma que, os jornais na primeira década do século passado, só
servem como base para estatísticas e resultados dos jogos. O autor afirma que só a partir
da década de 1910, o futebol passou a ser transformado em assunto jornalístico pelos
veículos de comunicação.

Uma das primeiras publicações esportivas no Brasil foi o Fanfulha, que surgiu em São
Paulo, na década de 1910. De acordo com Coelho (2003), o jornal visava atender ao
povo italiano, imigrantes que cresciam a cada dia na capital paulista. Segundo o autor,
o Fanfulha não era um jornal voltado para as elites e não formava opinião. A publicação
trazia relatos de páginas inteiras e informava as fichas de todos os jogos do Palmeiras,
antigo Palestra Itália, em um tempo que o futebol ainda não cativava multidões.

Conforme Stycer (2009), os jornais reforçavam o caráter elitista dos primeiros


momentos do futebol. Citando Leonardo Affonso de Miranda Pereira7, ele relata que os
jornais cariocas preocupavam-se menos com as partidas de futebol e mais o evento
social que girava em torno delas. Segundo o pesquisador, os jornais utilizavam fotos dos
atletas e lances das partidas, mas também imagens da plateia, destacando os rapazes
elegantes e as moças bem vestidas.

Com a profissionalização do futebol na década de 1930, Stycer (2009) ressalta que


também houve um avanço no jornalismo esportivo. O autor revela que o número de
publicações esportivas saltou de cinco, em 1912, para 58, em 1930. Neste período
surgem duas publicações que por 50 anos seriam o sinônimo de imprensa esportiva
brasileira: o Jornal dos Sports e o Gazeta Esportiva.

7
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do Rio de Janeiro, 1902 –
1938.
20

O Jornal dos Sports surgiu em 13 de março de 1931 e cinco anos depois adotou uma
marca que mantém até os dias atuais, a cor rosa em sua capa, copiada do jornal italiano
La Gazeta dello Sport. Em outubro de 1936, a publicação foi adquirida por Mário Filho
em sociedade com Roberto Marinho, então co-proprietário e diretor do O Globo, de
acordo com Stycer (2006).

Já o Gazeta Esportiva surgiu de um suplemento esportivo do jornal A Gazeta, e fazia o


acompanhamento diário de todos os times da cidade de São Paulo. Segundo Stycer
(2009), a grande novidade da publicação era o volume de informações, que, de acordo
com o autor, passou de 12 páginas nos primeiros anos para 72 na década de 1970.

De acordo com Stycer (2009), o jornalismo esportivo se desenvolveu ao mesmo tempo


da popularização do futebol. O autor ressalta que desde o início foi uma editoria menos
relevante do jornalismo e atraía profissionais com menos habilidades e ambições do que
os redatores políticos ou literários. Stycer cita um depoimento do jornalista esportivo e
historiador Adriano Neiva sobre o profissional desta área no início do século XX.

As funções não eram fixas nem, muito menos, compensadoramente remuneradas. A


maioria dos “cronistas” trabalhava de graça, só para ter o ensejo de escrever em
jornal, já que essa era a sua inclinação, e para poder, principalmente, defender o seu
clube, porque, naquele tempo, tal como hoje, o“cronista” tinha seu clube preferido,
com a diferença de que, antes, àquela época, ninguém fazia segredo disso. Pelo
contrário: eram comuns os escudos à lapela dos “cronistas” e indispensável a sua
presença nas comemorações dos triunfos. O redator profissional, mas que fazia da
imprensa um simples “bico”, tanto podia ser “cronista” de esportes no domingo,
como redator policial na segunda-feira, crítico teatral na terça, repórter de rua na
quarta, observador político na quinta ou – o que não era raro – tudo isso ao mesmo
tempo... Não havia especialização. . (STYCER, 2009, p.172).

Entretanto, foi a partir da década de 1930, a imprensa esportiva no Brasil toma outra
dimensão, com Mário Filho e Nelson Rodrigues. De acordo com Coelho (2003), as
crônicas de Nelson Rodrigues e Mário Filho tinham vida própria e nem poderiam ser
chamadas de jornalismo. O autor comenta um pouco sobre o estilo e a importância
destes dois cronistas.

Crônicas recheadas de drama e poesia enriqueciam as páginas dos jornais em que


Nelson Rodigues e Mário Filho escreviam. (...) Essas crônicas motivavam os
torcedores a ir ao estádio para o jogo seguinte e, especialmente, ver o seu ídolo em
campo. A dramaticidade servia para aumentar a idolatria em relação a este ou
àquele jogador. Seres mortais alçados da noite para o dia à condição de semideuses.
(Coelho: 2003: p. 17).
21

Segundo Stycer (2009), para entender a trajetória de Mário Filho e Nelson Rodrigues,
que eram irmãos, é preciso falar brevemente do pai deles, Mario Rodrigues, um
pernambucano que fez muito sucesso na imprensa no Rio de Janeiro nas décadas de
1910 e 1920. Formado em direito, Mario Rodrigues nunca exerceu a profissão e, desde
cedo, dedicou-se ao jornalismo e à política.

Seguindo a evolução do jornalismo esportivo brasileiro, Stycer (2009), afirma que as


décadas de 1940, 1950 e 1960, períodos em que o Jornal do Sports e a Gazeta
Esportiva, se tornam referências, a imprensa brasileira passa por uma série de mudanças
técnicas. O autor afirma que os jornais considerados mais importantes e de prestígio,
vão se distanciar mais claramente dos jornais populares ao incorporarem o modelo da
liberdade de imprensa e objetividade adotadas pelo jornalismo norte-americano, no
início do século XX.

Fazendo uma comparação com o atual modelo do jornalismo esportivo no Brasil com o
do passado, Coelho (2003) afirma que os principais jornalistas esportivos de cada época
se referem aos jogadores de forma diferenciada e isso cria distorções que ficam difíceis
de ser corrigidas. O autor cita o exemplo do zagueiro Bellini, capitão do primeiro título
do Brasil em 1958. Segundo Coelho (2003), Bellini era um zagueiro que se notabilizava
por jogar sério, dar bicos para os lados e errar pouco. No entanto, ele ficou marcado na
imprensa pela sua aparência física e por ter eternizado o gesto de erguer a taça acima da
cabeça. Nelson Rodrigues e Mário Filho, de acordo com Coelho (2003), produziram
crônicas cheias de emoção e celebraram Bellini como um zagueiro de classe, elegante e
um verdadeiro mito do futebol brasileiro.

Em contraponto ao exemplo de Bellini, Coelho (2003) trata do caso da Seleção


Brasileira tetracampeã em 1994. O Brasil vivia um jejum de 24 anos sem títulos
mundiais e, desde que Pelé anunciou a sua aposentadoria da Seleção, nunca mais o
Brasil chegou à final da Copa do Mundo. Em 1994, a Seleção dirigida pelo técnico
Carlos Alberto Parreira era famosa pelo estilo pragmático. Segundo Coelho (2003), o
treinador orientava os atletas a tocarem a bola pacientemente, sem pressa, até que
surgisse a chance de fazer o gol. A imprensa da época afirmava que Parreira tinha um
22

estilo “europeu” e Parreira contra-argumentava que o Brasil jogava com a bola no chão,
com uma linha de defesa de quatro jogadores, com destaque para o trabalho técnico.

Para Coelho (2003), faltou paciência para a imprensa avaliar o trabalho do volante
Dunga, capitão do tetracampeonato em 1994. Dunga havia deixado a Copa anterior
como o símbolo de uma geração fracassada. Em 1990, o Brasil teve a pior colocação em
mundiais desde a campanha de 1966, quando caiu na primeira fase.

Depois do mundial de 1990, Dunga só voltou a ser convocado em 1993 e, mesmo


assim, o técnico Carlos Alberto Parreira foi muito criticado. Na final da Copa de 1994,
Dunga cobrou o último pênalti antes da batida do atacante italiano Roberto Baggio e
poucas pessoas lembram-se disso. Dunga, que foi o capitão da Seleção nesse mundial,
passou a ser reconhecido como líder da equipe, mas segundo Coelho (2003), jamais
mereceu o tratamento de lenda do futebol mundial.

Outro exemplo citado por Coelho (2003) é o tratamento dado pela imprensa para
Ronaldo no mundial de 2002. Segundo o autor, poucos jogadores na história do futebol
mereceram tanto tratamento de lenda quanto o camisa nove da Seleção do penta. Coelho
(2003) lembra dos problemas que Ronaldo teve na final da Copa de 1998, quando
sofreu uma convulsão, momentos antes da partida. Logo em seguida, em 1999, Ronaldo
sofreu uma contusão no joelho direito, que precisou de uma cirurgia para corrigir o
problema. O atacante teve que ficar parado durante quatro meses.

No ano seguinte, no retorno de Ronaldo aos gramados, o time dele, Internazionale de


Milão, enfrentava o Lazio na decisão da Copa da Itália. O atacante atuou por seis
minutos e caiu sozinho, em uma cena que rodou o mundo. Ronaldo havia rompido o
tendão patelar do joelho direito. O jogador teve que ficar dois anos em tratamento e
voltou a atuar em um amistoso promovido por ele próprio, em agosto de 2001. Nos
meses seguintes, Ronaldo entrou e saiu da equipe no Campeonato Italiano. Em nove
jogos o “Fenômeno” marcou sete gols, uma média altíssima para um atacante.

Com a recuperação de Ronaldo, o técnico Luiz Felipe Scolari, técnico do Brasil em


2002, decidiu levá-lo para a Copa. Ronaldo conquistou o quinto título do Brasil, foi o
artilheiro da Seleção com oito gols e o melhor brasileiro do torneio.
23

Ronaldo mereceu o apelido de ‘Fenômeno’ e foi extremamente elogiado. Mas


ninguém escreveu uma única crônica sobre a incrível proeza de Ronaldo. Toda a
imprensa estampou os feitos do Fenômeno, em relatos repletos de realidade!
Realidade demais para história tão irreal. (COELHO, 2003, p.22).

Coelho (2003) ressalta que faltou dramaticidade nos relatos sobre o tetra e o
pentacampeonato que acompanharam as conquistas de 1958, 1962 e 1970. Para o autor,
a noção de realidade que o jornalismo esportivo carrega nos tempos atuais, faz com que
a cobertura esportiva seja tão brilhante como qualquer outra área do jornalismo.
Entretanto, o autor adverte que, muitas vezes, tal cobertura exige mais do que a noção
de realidade.

Na segunda metade da década de 1990, a internet trouxe uma nova dimensão para o
jornalismo esportivo no Brasil. Segundo Coelho (2003), o fenômeno já havia acontecido
nos Estados Unidos e na Europa, anos antes, mas os sites ainda não eram difundidos a
ponto de se tornarem negócios.

A partir desta configuração, como destaca Coelho (2003), site dos mais variados
assuntos pipocavam e tiravam gente das redações mais importantes do país. O autor
observa que muitos profissionais acreditavam que, com esta nova opção, os jornalistas
passariam a ser remunerados corretamente. Porém, essa realidade durou pouco, menos
de um ano. Em 2001, vários sites anunciaram falência e muitos jornalistas ficaram
desempregados.

Segundo Coelho (2003), uma grande editoria de esportes costumava ter 30 pessoas na
metade de 1990. Este número serviu de base para o surgimento da redação do jornal O
Lance!. O autor ressalta que a estabilidade no setor voltou em 2002 e afirma que quem
tinha de continuar investindo continua até hoje.

2.3.1 O jornal O Lance!

O diário esportivo O Lance! é obra do economista carioca Walter de Mattos Júnior que
fez carreira como diretor financeiro do jornal popular O Dia do Rio de Janeiro, que era
de propriedade do seu sogro, de acordo com Stycer (2009).
24

Segundo Coelho (2003), várias publicações esportivas da Europa e da América Latina


serviram de exemplo para Walter de Mattos Júnior criar O Lance!. O empresário viajou
ao redor do mundo para conhecer o fenômeno dos diários esportivos. Um dos primeiros
países visitados foi a Itália, onde desde 1927 existe o La Gazzetta dello Sport, que no
final da década de 1990 vendia aproximadamente 500 mil exemplares.

Mas Coelho (2003) ressalta que a viagem à Espanha foi o passo mais importante de
Walter de Mattos Júnior. O autor afirma que o jornal Marca passou por uma profunda
reformulação no início da década de 1990 e passou a vender de poucos milhares de
exemplares a mais de 450 mil jornais por dia.

Coelho (2003) afirma que o Marca é impresso em cinco cidades espanholas: Madri,
Barcelona, Sevilla, La Coruña, e Valência. Em cada praça, o jornal possuía um
conteúdo diferente, destacando os principais times de cada região.

Depois, o empresário seguiu para França, para conhecer o diário esportivo mais famoso
do mundo, o L’Equipe e passou em Portugal para conferir o reformulado A Bola, como
observa Coelho (2003). Na Argentina, Walter de Mattos Júnior ficou muito interessado
pelo Olé, criado em 1996 para ser o braço esportivo do Clarín no país vizinho.

O Lance! foi lançado no Brasil no dia 25 de outubro de 1997 através de uma experiência
jornalística e empresarial peculiar no universo da imprensa brasileira, segundo Stycer
(2009). O autor afirmar que o jornal se tornou o primeiro projeto de mídia financiada
integralmente por investidores profissionais ligados ao mercado financeiro e não por
empresas familiares.

De acordo com Stycer (2009), O Lance! se estabeleceu em duas sedes, no Rio de


Janeiro e em São Paulo, com a intenção de alcançar todo o território nacional,
diferentemente da maioria dos outros diários do Brasil, que possuem circulação e
alcance apenas regional.

O jornal apostou em um projeto editorial ousado, como destaca Coelho (2003),


seguindo o exemplo dos diários Marca e Olé, O Lance! preferiu utilizar o formato
25

tablóide, pouco utilizado no jornalismo brasileiro até então. Além disso, como ressalta
Stycer (2009), O Lance! era o único jornal do Brasil publicado inteiramente em cores.

Dois anos depois, O Lance! já era o diário esportivo mais vendido do país, como relata
Stycer (2009), ultrapassando Gazeta Esportiva e Jornal dos Sports. Inicialmente, o
jornal buscou conquistar o público das classes A e B.

Dentro da lógica do futebol-empresa, que orienta o seu nascimento, o Lance! vai


sair em busca de um leitor jovem, de classe media, com alto poder de consumo. A
esses leitores-consumidores serão oferecidas, semanalmente, páginas com dicas
para o consumo de produtos esportivos, além de uma série de artifícios jornalísticos
que aproximarão de uma revista em quadrinhos, infantilizada. (Stycer, 2009, p.54).

Buscando o diferencial, o Lance! apostou em uma mescla de jornalismo e humor. O


jornal criou uma seção fixa, denominada “Fala, Doente”, presente desde a primeira
edição da publicação. Neste espaço, cada grande clube brasileiro tem um jornalista, que
representa o torcedor apaixonado, sem qualquer racionalidade, que comenta aspectos
importantes do time, de acordo com Stycer (2009).

Stycer (2009) ressalta que o tom lúdico e ficcional começa na escolha do nome do
colunista da seção, que procura clichês sobre o torcedor de cada time. Dentre alguns
exemplos podemos citar “Celestino Raposo” e “Reinado Cantagalo” torcedores do
Cruzeiro e Atlético-MG, respectivamente.

Segundo Stycer (2009), o “Fala Doente” não tinha profissionais fixo para escrevê-la.
Geralmente, os jornalistas mais velhos é que escrevem as colunas, mas rapidamente a
tarefa passou para quem estivesse livre na hora do fechamento do jornal ou tinha uma
ideia engraçada.

Essa adaptação buscava a captação do leitor-torcedor, como explica Stycer (2009).


Segundo o autor, o jornal deveria ser um lugar onde o público encontrasse informações
e seções diferentes, que surpreendesse o leitor pelo enforque original, “humano”, dado a
notícia do seu clube. É a busca pelo prazer do torcedor, não ao seu sofrimento.
26

O Lance! surgiu com a ideia de um jornal para cima, enfocando sempre o lado bom dos
clubes, mesmo na derrotas, segundo Stycer (2009). o autor afirma que essa influência
surgiu em observação ao jornal argentino Olé.

Outra grande sacada do Lance!, segundo Stycer (2009), foram as promoções. O jornal
fez vários tipos de promoções para fisgar os leitores mais jovens. Nos primeiros anos, o
Lance! fez ações de marketing premiando o seu público com bolas, mochilas e camisas
de clubes.

Ao completar oito anos de vida, no final de 2005, o Lance! comemorava o fato de ser
um dos dez jornais mais vendidos em banca no país, com uma circulação diária, média,
de 128 mil exemplares.
27

3 GÊNEROS TEXTUAIS: AS DIFERENÇAS ENTRE CRÔNICA E COLUNA

3.1 OS GÊNEROS TEXTUAIS

Os gêneros textuais são discutidos desde a Grécia antiga com Aristóteles e Platão e
foram classificados pela primeira vez em poesia épica, poesia dramática e poesia lírica.
Segundo Seixas (2009), Platão no livro II da República criou uma divisão de poesia
mimética ou dramática, não mimética ou lírica e mista ou épica.

Contudo, Seixas (2009) ressalta que Aristóteles foi o primeiro a desenvolver um estudo
profundo sobre a existência dos gêneros. A autora afirma que o filósofo realizou uma
analise dos gêneros retóricos no livro I da Arte Retórica e este estudo se transformou na
principal referência para todas as teorias genéricas da literatura. Para o filósofo, a
Retórica é um conjunto de conhecimentos de categorias e regras do qual apenas uma
parte diz respeito aos aspectos lingüísticos. Posteriormente, segundo a autora, Platão
voltou a classificar os gêneros literários, a partir do conceito de mimesis8, que, para ele,
era a representação da natureza. A nova definição foi dividida em dramático, narrativo e
misto. O filósofo acreditava que os gêneros pré-existiam aos autores, e cada segmento
possuía suas regras próprias que deviam ser obedecidas rigorosamente, não havendo,
portanto, influência de um gênero sobre o outro. Porém, no século XIX os autores
românticos romperam os limites dos gêneros imutáveis, e adotaram os gêneros
comunicativos, resultando na criação de novos segmentos como o drama.

Os gêneros textuais são fenômenos históricos, vinculados à vida cultural e social, além
de ser fruto de trabalho coletivo e contribuem para ordenar e estabilizar as atividades
comunicativas do dia-a-dia. São entidades sócio-discursivas e formas de ação social
incontornáveis em qualquer situação comunicativa. Porém, mesmo apresentando alto
poder interpretativo das ações humanas em qualquer contexto discursivo, os gêneros
não são instrumentos estanques e enriquecedores da ação criativa. Caracterizam-se
como eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos. Surgem
emparelhados a necessidades e atividades sócio-culturais, bem como na relação com
inovações tecnológicas, o que é facilmente perceptível ao se considerar a quantidade de

8
Tanto Platão quanto Aristóteles acreditavam que a mimesis é a imitação da natureza pelo homem. .
28

gêneros textuais hoje existentes em relação a sociedades anteriores à comunicação


escrita. (DIONÍSIO; MACHADO; BEZERRA, 2005).

Uma observação histórica do surgimento dos gêneros revela que, numa primeira fase,
povos de cultura essencialmente oral desenvolveram um conjunto limitado da questão.
Após a invenção da escrita alfabética por volta do século VII A.C., multiplicam-se os
gêneros, surgindo os típicos da escrita. Numa terceira fase, a partir da idade média, os
gêneros expandiram através da cultura impressa para, na fase intermediária de
industrialização iniciada no século XVIII, dar início a uma grande ampliação do tema.
(DIONÍSIO; MACHADO; BEZERRA, 2005).

3.1.2 OS GÊNEROS JORNALÍSTICOS

Os estudos sobre os gêneros textuais no campo do jornalismo foram intensificados na


década de 1950, na Europa. Desde o princípio das pesquisas, houve a preocupação de
distinguir os gêneros jornalísticos dos literários.

Segundo Marques de Melo (2003) a primeira subdivisão entre gêneros jornalísticos foi
elaborada no século XVIII pelo editor inglês Samuel Buckeley, que separou os news e
os comments, no Daily Courant. A imprensa norte-americana, por sua vez utilizou-se
em principio de dois gêneros os comments e a story.

Para Melo (2003), os gêneros jornalísticos assumem as características de cada país, o


que provoca alterações nas categorias. Dessa forma, essas divisões sofrem alterações
devido a diferenças culturais e de cada língua.

No Brasil, o estudo para a categorização dos gêneros jornalísticos começou a ser


pesquisada por Luiz Beltrão através da realidade do país. Inicialmente, Beltrão (1980)
divide o jornalismo em três categorias: informativo, interpretativo e opinativo.

De acordo com Beltrão (1980), o jornalismo informativo tem exclusivamente a função


de informar um fato de interesse relevante para a sociedade. O autor subdivide esta
categoria em quatro: a notícia, a reportagem, a história de interesse humano e a
informação pela imagem.
29

O gênero interpretativo tem a função de ampliar a informação dada pela notícia,


recuperando sua historicidade e impactos provocados na sociedade. Beltrão (1980) o
chama de reportagem em profundidade.

Já o jornalismo opinativo tem a função de difundir opiniões, de acordo com Beltrão


(1980). Esses textos têm objetivo persuasivo e compreendem o editorial, o artigo, a
crônica, a opinião ilustrada e a opinião do leitor.

Entretanto, na década de 1980, Melo (2003) prosseguiu o estudo e identificou apenas


dois gêneros jornalísticos na imprensa diária brasileira: o informativo e o opinativo.
Para ele, a imprensa brasileira além de proporcionar a informação pura ao leitor,
procurava trazer informações de especialistas, intelectuais e do próprio público para que
pudesse enriquecer o leitor, e, por outro lado, legitimar a imprensa.

Segundo a classificação de Melo (2003), no jornalismo opinativo se encontra a nota, a


notícia, a reportagem e a entrevista. Já para no jornalismo interpretativo o autor afirma
que compreende o editorial, o comentário, o artigo, a resenha, a coluna, a crônica, a
caricatura e a carta.

Atualmente, de acordo com José Marques de Melo9, existem cinco tipos de gêneros
jornalísticos: informativo, opinativo, interpretativo, diversional e utilitário. Segundo o
pesquisador, as principais preocupações atuais, de estudiosos migraram das
classificações da para as questões conceituais, os critérios de classificação, as
condicionantes do gênero, a mistura dos gêneros digitais entre outros.

O gênero (jornalístico) é funcional. Durante muito tempo, se informava e se opinava,


e a partir do século XX, passamos a ter algumas variações, depois da segunda guerra
mundial, passamos a ter a necessidade de interpretar - interpretar no sentido de
explicar, educar. Recentemente, dois novos gêneros adquiriram autonomia: o gênero
diversional, com a segunda metade do século XX com a predominância do
entretenimento da mídia, o jornalismo teve que se alterar, introduzir estruturas de
informação, que informa divertindo, informa dando prazer. E agora na passagem
desse século, o jornalismo utilitário. Temos toda uma série de informações que já
estavam presentes no século XVIII, mas que agora se tornam essenciais porque as
pessoas vêem jornal para tomar decisão. Vejo, na verdade, a existência de 5 gêneros
que são autônomos, mas se hibridizam.10

9
Entrevista disponível em http://www.generosjornalisticos.com/2008/05/o-que-jornalismo-possvel-
entender.html no dia 07/04/2010
10
Disponível em entrevista no site http://www.generosjornalisticos.com/2008/05/o-que-jornalismo-
possvel-entender.html 07/04/2010
30

3.3 Crônica: um gênero entre a literatura e o jornalismo

A Crônica é um gênero bastante comum no jornalismo brasileiro. Muitos estudiosos


destacam que a crônica é um gênero criado no Brasil. Sá (1992) afirma que a carta de
Pero Vaz de Caminha a el-rei de Portugal D. Manuel é o primeiro registro da paisagem
brasileira por um escritor. Segundo o autor, é o marco inicial da estruturação que do
pensamento dos descobridores sobre a realidade tupiniquim, através de um ângulo
brasileiro, apesar de ser descrita na linguagem lusitana. O autor ressalta que Pero Vaz de
Caminha descreve em seu texto tudo que ele registra no contato direto com os índios e
seus costumes, o choque de culturas e alguns fatos insignificantes e banais da
tripulação.

Para Sá (1992), carta de Caminha constituiu o essencial da crônica, registrar o


circunstancial. De acordo com o autor, a história da literatura brasileira se inicia com o
descobrimento, ou seja, em uma crônica.

A crônica é a forma de expressão do escritor sobre fatos, ideias e estados psicológicos


pessoais e coletivos, segundo Beltrão (1980). Para o autor, como os demais gêneros
jornalísticos, a crônica está ligada aos acontecimentos atuais e do dia-a-dia.

A crônica hoje se enquadra como gênero literário de assunto livre, de registro de


pequenos fatos do cotidiano sobre política, arte, esporte e variados temas. Por se tratar
de assuntos considerados menos importantes e por ser um texto limitado espacialmente
nas edições dos jornais nas colunas ou em artigos opinativos, a crônica é tida como um
gênero menor, o que, talvez, seja essa característica que permita ao cronista analisar “as
pequenas coisas que as grandes vistas não percebem. (COSTA; NETO; SOARES,
2007).

O cronista faz uso de citações de personalidades e fatos históricos. Inserido em um


contexto que possibilita o uso do recurso “ficção”, busca soluções criativas na sua
imaginação, sem comunicar agressividade. (COSTA; NETO; SOARES, 2007).

Já Melo (2003) destaca que a crônica é o embrião da reportagem, um texto onde a


narrativa circunstanciada sobre os fatos observados pelos jornalistas em um
31

determinado espaço de tempo. Citando Martínez Albertos11, o autor afirma que a


crônica tem uma origem eminentemente latina e diz que esse gênero assume caráter
tipicamente informativo, mesclado, porém de elementos valorativos que revelam a
percepção pessoal do redator.

A crônica tal como a conhecemos hoje no Brasil, nasceu nos rodapés dos jornais
franceses do século XIX com o objetivo de entreter os leitores. Nestes espaços,
começaram a aparecer textos que diferiam do caráter jornalístico do conteúdo
editorial.12

Melo (2003) cita Afrânio Coutinho13 para afirmar que é como folhetim que a crônica no
jornalismo brasileiro. Segundo o autor, o folhetim começou em 1852 com Francisco
Otaviano no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Depois dele, grandes nomes da
literatura brasileira seguiram este caminho, como Machado de Assis, José de Alencar,
Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompéia, Coelho Neto etc.

Contudo, segundo Melo (2003), o folhetim não tinha as características que conhecemos
hoje da crônica. Era uma seção de jornal dedicada a assuntos variados e com
comentários. Para ilustrar, o autor faz uma analogia entre o folhetim brasileiro com as
colunas dos jornais norte-americanos, no final do século passado.

Atualmente, a crônica se enquadra como gênero literário de assunto livre, de registro de


pequenos fatos do cotidiano sobre política, arte, esporte e variados temas. Por se tratar
de assuntos considerados menos importantes e por ser um texto limitado espacialmente
nas edições dos jornais nas colunas ou em artigos opinativos, a crônica é tida como um
gênero menor, o que, talvez, seja essa característica que permita ao cronista analisar as
pequenas coisas que as grandes vistas não percebem14.

11
MARTÍNEZ ALBERTOS, José Luis. Redacción Periodística.
12
Moisés, 1982, p.246
13
Coutinho, Afrânio. Ensaio e crônica.
14
Lucena, 2003, p. 162.
32

3.3.1 O cronista esportivo no Brasil

O cronista esportivo é um autor que vê a bola, o estádio, os jogadores, o juiz, os


bandeirinhas, o público, os locutores e os críticos, como elementos de um drama, uma
tragédia, que se desenrola no gramado. (COSTA; NETO; SOARES, 2007). Desta
maneira, são retratados os jornalistas que trabalham com esporte em nosso país.

Essa é uma curiosidade do jornalismo esportivo brasileiro e todos os profissionais da


área são chamados de cronistas esportivos, inclusive colunistas e os repórteres.
Entretanto, com o sucesso de Nelson Rodrigues e outros como Mário Filho e Armando
Nogueira, a expressão cronista esportivo se popularizou e todo jornalista esportivo no
Brasil é também chamado de cronista esportivo. Podemos deduzir que é nesta época que
surgiu a expressão.

Para Melo (1985), a caracterização das colunas na imprensa brasileira dá margens a


esta ambigüidade. Segundo o autor, há uma tendência de se chamar de coluna toda
seção fixa de jornais e revistas. Por isso, muitas vezes o conceito de coluna abrange a
crônica, o comentário e a resenha.

O cronista faz uso de citações de personalidades e fatos históricos. Inserido em um


contexto que possibilita o uso do recurso “ficção”, busca soluções criativas na sua
imaginação, sem comunicar agressividade. A crônica transita entre o ficcional e o não
ficcional, ela também o faz entre o literário e o jornalístico. Pensamos que a crônica
esportiva pes mais para o lado jornalístico, analisando os fatos recorrentes, porém com o
adicional da liberdade do cronista em transformar a notícia. (COSTA; NETO;
SOARES, 2007).

O futebol faz parte do nosso país. Integra a memória coletiva e está presente no
cotidiano da enorme maioria da população. É difícil pensar neste esporte sem associá-lo
ao Brasil. Arte e paixão se confundem no futebol brasileiro. São seus emblemas e
dínamos. Não há, certamente, assunto capaz de despertar mais polêmica e gerar, ao
mesmo tempo, tanta discórdia e convergência. (SOUZA; RITO; LEITÃO 1998).
33

3.4 Coluna

No Brasil, têm-se o costume de chamar toda seção fixa de um jornal ou revista de


coluna. Sendo assim, a coluna seria composta por outros gêneros textuais como a
crônica, o comentário e a resenha. Melo (2005) destaca que a coluna originou-se dentro
da diagramação vertical, pela qual as matérias eram dispostas de cima para baixo,
passando, se necessário, à coluna vizinha. A coluna é a seção especializada do jornal ou
revista, publicada com regularidade.

A coluna surgiu na imprensa norte-americana, quando o jornal passou a ser mais


informativo e menos doutrinário, segundo Fraser Bond15. Para Melo (2003), o público
começou a desejar matérias que escapassem do anonimato redatorial e tivessem
personalidade. No Brasil, o colunismo floresceu na década de 50 com o jornalista
Ibrahin Sued foi a figura que dinamizou o colunismo brasileiro mostrando a importância
de seu conteúdo.

Segundo Melo (2003), atualmente, a coluna cumpre uma função que era do jornalismo
impresso antes do aparecimento do rádio e da televisão, o furo. Neste espaço, os
colunistas procuram trazer fatos novos, idéias e julgamentos em primeira mão.
Inicialmente, o colunismo restringia-se a assuntos relacionados com os ambientes da
alta sociedade, hoje se alastra para todas as áreas cobertas pelos jornais diários. Os
principais tipos de coluna na imprensa brasileira são: social, política, econômica,
policial, esportiva, de livros, cinema, televisão e música. Segundo o autor, pela própria
natureza das mensagens que circula, a coluna não se presta à rapidez dos veículos
eletrônicos, que exigem precisão nos fatos divulgados. Por isso, o colunismo permanece
restrito aos veículos impressos.

Melo (2003) ressalta que, originalmente a coluna é uma matéria cuja extensão não
ultrapassa mil palavras, coincidindo com a medida da coluna do jornal standard. Depois
começou a variar, reduzindo-se para 800 ou até para 500 palavras.

15
Introdução ao jornalismo. 2ª edição, Rio de Janeiro, Agir, 1978 (cap.13 – colunas,
colunistas).
34

Melo (2003) ressalta que, tendo berço o jornalismo norte-americano, as colunas


aparecem naquele país em quatro categorias: padrão, miscelânea, mexericos e sobre os
bastidores da política.

A coluna de mexericos trata de pessoas, especialmente da alta sociedade e


personalidades famosas, de acordo com Melo (2003).

A coluna padrão, segundo Marques (2003), é aquela que dedica a assuntos editorias de
menor importância, reservando pouco mais de um parágrafo para as informações. Já as
colunas que combinam prosa e verso e que não se prendem a nenhum assunto são
chamadas miscelânea.

Além desses tipos, Melo (2003) apenas cita uma categorização sugerida por Fraser
Bond sobre as colunas: editorial assinada (no Brasil, chamada de comunitária), de verso
e de leitores.

Segundo Melo (2003), aparentemente a coluna tem caráter informativo, registrando


apenas o que está acontecendo na sociedade. Contudo,o autor ressalta que, na prática, é
uma seção que emite juízos de valor, com sutileza ou de modo ostensivo. Para o autor,
o próprio fato de selecionar os acontecimentos e as personalidades revela o seu caráter
opinativo.

Outra característica da coluna, de acordo com Melo (2003), é a sua fisionomia


levemente persuasiva. O autor ressalta que a coluna não se limita apenas na emissão de
opinião e conduz os que formam opinião pública veiculando versões dos fatos que lhe
darão contorno definitivo.

Citando Edgar Morin, Melo (2003) afirma que o colunismo nutre-se de um fenômeno
social chamado “olimpismo moderno16”. É o traço a cultura de massa que, segundo o
autor, dá sentido a esse gênero jornalístico onde a futilidade, a frivolidade e o mau gosto
se entrelaçam.

16
Segundo Morin, as personalidades são retratadas como deuses do Olímpio.
35

Originalmente, as colunas eram redigidas por uma pessoa, segundo Melo (2003).
Contudo, para realizar um trabalho tão vasto que implica em captar a dinâmica da vida
social e cultural, o colunista necessita contar com um amplo relacionamento e
facilidades para perceber e registrar fatos que estão acontecendo. Por isso, ele conta
com uma equipe de repórteres que o ajudam a cobrir os últimos acontecimentos e saber
o que divulgar.

3.5 O conceito de nostalgia

Isabel Ferin (2009) destaca que nostalgia deriva etimologicamente do grego nostos, que
significa retorno a casa, e algia, que é uma ocasião de dor prolongada. Por muito tempo
o termo foi utilizado na medicina no diagnóstico de uma doença que possui os sintomas
de melancolia provocada muitas vezes por um distanciamento do lar. Em situações mais
extremas, essa doença poderia levar à anorexia e ao suicídio.

Foi a partir dos séculos XIX e XX que o vocábulo libertou-se da medicina e entrou na
literatura e no cotidiano das pessoas para significar um sentimento de recordação do
passado perdido, como ressalta Ferin (2009). Segundo a autora, a reinvenção de sentido
demonstra, ainda, um deslocamento do vocábulo da esfera física para o domínio
temporal, do presente para o passado.

De acordo com Ferin (2009), múltiplos usos metafóricos e cruzamentos de sentidos do


conceito de nostalgia tornam-se uma ferramenta crítica para interrogar a articulação do
passado com o presente e os processos de memória que levam ao apagamento ou à
sobrevalorização de determinadas vivências do passado no presente.

Seguindo essa linha, Ferin (2009) salienta que o conceito transforma em um


instrumento para avaliar como as representações do passado são recriadas no presente e
como a saudade, real ou imaginada, motivada pelo afastamento de um passado,
construído e ou idealizado, pode intervir nas representações coletivas da memória.

Para Ferin (2009), os meios de comunicação de massa, sobretudo aqueles que estão
fundados na imagem, como o cinema, a fotografia e a televisão, contribuíram de forma
definitiva para a expansão do conceito e do sentimento de nostalgia, na medida em que,
36

em conformidade com os ritmos da sociedade capitalista, incutem uma crescente


velocidade ao consumo do tempo, passado, presente e futuro.
37

4 ANÁLISE DAS COLUNAS DE ROBERTO ASSAF NO JORNAL O LANCE!

4.1 Metodologia de pesquisa

Esta monografia, como já foi citado anteriormente, tem o objetivo de analisar a coluna
do jornalista Roberto Assaf, publicada semanalmente no Diário Esportivo Lance!. O
objetivo é analisar se haveria uma exaltação do futebol do passado nas crônicas de
Roberto Assaf publicados no jornal o Lance!. O material foi colhido na publicação
entre os meses de agosto e dezembro de 2009, o qual foi o período do segundo turno do
Campeonato Brasileiro. O motivo desta escolha foi o desenrolar do segundo turno do
Campeonato Brasileiro vigente nesse período. Ao todo são 22 colunas, as quais serão
usadas nove. Utilizarei as edições do jornal O Lance! dos dias 01/09, 08/09, 15/09,
22/09, 29/09, 20/09, 24/09, 15/12 e 29/12.

As outras colunas foram descartadas pelo fato de elas não estarem relacionadas com o
tema proposto do estudo. Elas retratam principalmente o momento do Campeonato
Brasileiro em exercício.

A análise tem a proposta de verificar as principais personalidades do futebol citadas


pelo jornalista, as suas referências em relação ao passado, as principais comparações
com o futebol praticado atualmente e o realizado no passado e os principais times e
seleções citados pelo autor.

4.1.1 Pesquisa bibliográfica

A pesquisa bibliográfica foi elaborada por meio da seleção de livros, capítulos e artigos
científicos relacionados a temas como futebol, saudosismo, crônicas e nostalgia no
futebol, jornalismo esportivo e sociologia do esporte.

O projeto tem o objetivo de investigar uma impressão pessoal, já que é notável um


discurso saudosista dos cronistas esportivos contemporâneos. Mas, ao se ler o livro A
sombras das chuteiras imortais de Nelson Rodrigues, é verificável que essa
particularidade acompanha a imprensa esportiva brasileira há muitos anos. Na Copa de
1958, por exemplo, o ex-jogador, um dos maiores de todos os tempos, e comentarista de
38

uma rádio Leônidas da Silva (conhecido como Diamante Negro) é criticado por Nelson
Rodrigues por ter chamado Pelé, então com 17 anos, de perna-de-pau. Atualmente, Pelé
é considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos e um dos ícones do esporte
no século XX.

Com pouco mais de 80 anos de organização, o futebol já era, na metade do século XX, o
esporte mais popular do planeta. No Brasil, a hegemonia aconteceu a partir dos anos 20.
E essa popularidade tem uma significação: das várzeas aos estádios, joga-se onde der.
Das bolas de meias às bolas desenvolvidas cientificamente para dar o máximo de
potência ao chute do atleta, joga-se com o que der. As regras são simples e adaptam-se a
qualquer circunstância. Democrático, o futebol está ao alcance de todos e ganhou as
ruas e o povo, transformando-se em um dos fenômenos culturais que marcam a vida
brasileira e mundial neste século. (SOUZA; RITO; LEITÃO, 1998).

Entretanto, no início do século XX, o futebol era praticado quase que exclusivamente
por funcionários de fábricas inglesas em seus respectivos clubes no Brasil. Neste
período, o futebol dividia as atenções com outro esporte, o cricket: tanto que dois dos
primeiros clubes cariocas tinham essa modalidade em seu nome, o Paissandu Cricket
Club e Rio Cricket And Athletic Association. Esses dois times, inclusive, só aceitavam
ingleses e filhos de ingleses nas equipes. Porém, o cricket não despertava o interesse
dos brasileiros, ao contrário do futebol. (MÁRIO FILHO, 2003).

Por ser um esporte dominado por ingleses e ter atraído, inicialmente, os jovens de
famílias tradicionais do Rio de Janeiro, Mário Filho (2003) afirma que nesta época,
surgiram os primeiros saudosistas, aqueles que lembravam a época onde só os brancos
praticavam a modalidade.

Nelson Rodrigues foi um marco na imprensa esportiva do Brasil. Se a crônica é um


gênero da literatura marcado pelo cotidiano, Nelson Rodrigues elevou esse mesmo
gênero à categoria da ficção. O futebol é utilizado pelos cronistas esportivos como uma
possibilidade de descrever e discutir o estilo e as características do povo brasileiro.
39

O cronista esportivo é um autor que vê a bola, o estádio, os jogadores, o juiz, os


bandeirinhas, o público, os locutores e os críticos, como elementos de um drama, uma
tragédia, que se desenrola no gramado. (COSTA; NETO; SOARES, 2007).

Mário Filho, um dos maiores cronistas esportivos do Brasil, em seu livro. O negro no
futebol brasileiro buscou no negro brasileiro um jeito de transformar o futebol duro e
violento dos europeus em uma arte, alegre e feliz.

Roberto Ramos em Futebol: ideologia do poder mostra a importância do futebol nos


meios de comunicações, através de dados e análises.

O antropólogo Roberto DaMatta no livro A bola corre mais que os homens faz um
estudo sobre a identificação do futebol com a cultura nacional.

4.2 Objeto de estudo

A coluna de Roberto Assaf no jornal o Lance! é publicada toda a terça-feira na página


três da publicação, em que sete colunista se revezam por semana, um a cada dia. Na
página, além da coluna temos uma charge, um top 10 das matérias mais lidas do Portal
Lancenet do dia anterior, uma seção destinada a fotos - que mostra o lado pitoresco do
esporte ou uma beldade esportiva feminina - e um indicador de luzes, com as seguintes
cores: vermelho (desempenho ruim), amarelo (desempenho razoável) e verde (bom
desempenho).

Roberto Assaf é um dos cronistas esportivos mais respeitados do Brasil. Formou-se em


Jornalismo pela Faculdade Hélio Alonso (FACHA), do Rio de Janeiro, em 1983.
Trabalhou no Jornal dos Sports, Última Hora, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil. Na
televisão, ele teve participação eventual na mesa-redonda Debate Esportivo, da TVE,
entre 1997 e 2001. Roberto Assaf também participou do programa semanal Loucos por
futebol exibido pela ESPN Brasil entre 2002 e 2003. O jornalista esteve nas Copas do
Mundo de 1978, na Argentina, e 1982, na Espanha. Atualmente, é comentarista do canal
Sportv, cronista do jornal Lance! e professor de Jornalismo da Faculdade Hélio Alonso
(FACHA) no Rio de Janeiro. Roberto Assaf tem 13 livros publicados, sendo 12 sobre
futebol.
40

O diário esportivo O Lance! é obra do economista carioca Walter de Mattos Júnior que
fez carreira como diretor financeiro do jornal popular O Dia do Rio de Janeiro, que era
de propriedade do seu sogro, de acordo com Stycer (2009). Segundo Coelho (2003),
várias publicações esportivas da Europa e da América Latina serviram de exemplo para
Walter de Mattos Júnior criar O Lance!. O empresário viajou ao redor do mundo para
conhecer o fenômeno dos diários esportivos. Um dos primeiros países visitados foi a
Itália, onde desde 1927 existe o La Gazzetta dello Sport, que no final da década de 1990
vendia aproximadamente 500 mil exemplares. Atualmente, o Lance! comemora o fato
de ser um dos dez jornais mais vendidos em banca no país, com uma circulação diária,
média, de 128 mil exemplares.

O Lance! surgiu com a ideia de um jornal para cima, enfocando sempre o lado bom dos
clubes, mesmo na derrotas, segundo Stycer (2009). o autor afirma que essa influência
surgiu em observação ao jornal argentino Olé.

Roberto Assaf é um jornalista que tem o estilo de trabalho ligado à história do futebol.
No jornal O Lance!, o cronista esportivo também escreve sobre a história de grandes
jogos, conquistas do passado e times que marcaram época no futebol brasileiro e
mundial, em um espaço denominado o Baú do Assaf. Essa coluna vai ao jornal às
sextas-feiras.

Portanto, o objetivo deste estudo é dividido em cinco partes. Inicialmente a intenção é


analisar qual é a visão de Roberto Assaf sobre o futebol do passado e o atual, assim
como delimitar o pape do futebol na sociedade brasileira. Em relação ao texto é
pretendido verificar quais são os recursos textuais como a coluna é escrita e os seus
elementos, além de elencar as principais personalidades contemporâneas e do passado
do futebol, instituições e momentos abordados nas colunas do autor. Por fim, serão
levantadas as características do jornalismo esportivo, impresso e do texto da coluna.
41

TABELA DE COLUNAS

Título Data Tema


1 Corja, bando 04/08/2009 O tema desta
de velhaco e coluna é o
malfeitores comando nosso
futebol
2 Rival frágil e 11/08/2009 Pequena
com história análise sobre a
curiosa Estônia, que
seria adversário
do Brasil em
amistoso
3 O dono do 18/08/2009 Retratado
teatro não quer como o público
público é maltratado
nos estádios do
Brasil
4 Reconhece a 25/08/2009 Coluna sobre a
queda e não queda do
desanima Vasco à série B
e a sua boa
campanha no
campeonato de
acesso
5 Jogo entre 01/09/2009 Coluna que
aluno e mestre precede o jogo
entre Argentina
x Brasil pelas
eliminatórias
da Copa do
Mundo
6 Kaká entre as 08/09/2009 Aponta que da
feras da atual geração
Seleção do futebol
brasileiro,
apenas Kaká e
Júlio César
teriam vaga na
Seleção
Brasileira de
1970
7 Os craques sem 15/09/2009 Listagens de
Copa do alguns grandes
Mundo jogadores que
não tiveram a
oportunidade
de disputar
42

uma Copa do
Mundo
8 Linha tênue 22/09/2009 Coluna fazendo
entre rei e um
súdito comparativo
entre o jogador
e o técnico
Maradona
9 Quero meu 29/09/2009 Autor volta à
futebol de volta infância para
falar da atual
situação do
Fluminense no
Campeonato
Brasileiro de
2009
10 Assalto, agora, 06/10/2009 Dedicada ao
não cabe mais anúncio do Rio
de Janeiro
como sede das
Olimpíadas em
2016
Retrata os
11 Convocar ou 13/10/2009 dilemas de um
não, eis a treinador da
questão Seleção
12 Cair para a 20/10/2009 As
série B? Estou desvantagens
fora de cair para a
Série B são
explicadas pelo
autor
13 Faltou bom 27/10/2009 Clássico entre
senso para o Flamengo e
clássico Fluminense na
Copa Sul-
Americana é
retratada
14 Semana de 03/11/2009 Coluna que
Botafogo e aborda o
Fluminense clássico mais
antigo do
futebol carioca
15 São cinco na 10/11/2009 Dedicada aos
dança da cinco primeiros
cadeira colocados no
Brasileirão 09
e suas chances
ao título
16 Alçapão é 17/11/2009 Fala sobre os
43

conceito de campos
pequeno considerados
grandes
caldeirões
17 Torcer contra o 24/11/2009 Coluna que
meu time? fala sobre a
Jamais paixão por um
time
18 Ninguém 01/12/2009 Ressalta que o
ganha de futebol é um
véspera esporte que o
resultado se
cria dentro do
gramado
19 Não existe 08/12/2009 Fala o que um
receita infalível time precisa
para ser
campeão
20 Quando a 15/12/2009 Fala sobre as
derrota é dupla críticas ao
título de
campeão
Brasileiro
conquistado
pelo Flamengo
21 Sugestão aos 22/12/2009 Novamente, os
donos do dirigentes do
futebol futebol são
abordados
nesta coluna
22 Um duelo 29/12/2009 Fala sobre a
Brasil x final do
Barcelona mundial inter-
clubes de 2009
e o poderio
econômico dos
times europeus
44

4.3 Análise

1º de setembro de 2009

Intitulado “Jogo entre aluno e mestre”, esta coluna precede a partida válida pelas
eliminatórias da Copa do Mundo, entre Argentina x Brasil, realizado em Rosário, na
Argentina. Para falar de um dos maiores clássicos do futebol mundial, Roberto Assaf
traz em seu texto o passado do confronto.

O colunista faz um histórico para o leitor, relembrando a década de 1940, quando a


Argentina tinha ampla supremacia no clássico, principalmente por ter por base o time do
River Plate, grande esquadrão Sul-Americana da época. Roberto Assaf “Pergunte ao
seu avô sobre o ataque formado por Muñoz, Moreno, Pedernera, La Bruna e Lostau”
(ASSAF, 2009).

Assaf destaca que o futebol argentino na década de 1940 era muito mais desenvolvido
do que o brasileiro. Ele conta que em fevereiro de 1941, Flamengo e Fluminense
excursionaram na Argentina e os dois times levaram derrotas históricas, que fizeram
com que o governo do Brasil instituiu o Conselho Nacional do Desporto, que procurou
adotar as regras da FIFA. Roberto Assaf ressalta que a partir daí, os técnicos e jogadores
brasileiros passara a seguir as principais evoluções técnicas do futebol mundial

Podemos verificar esta tese nas palavras de Hélio Alcântara (2006), que ressalta a
exposição dos atletas bem-sucedidos na mídia está sempre ligada à fama, à aquisição
das mulheres mais bonitas e fortunas de dinheiro, aumentando o sonho dos garotos em
serem jogadores de futebol. “É como se as crianças-adolescentes entendessem que os
‘Ronaldos’, ‘Kakás’ e ‘Robinhos’ representassem o verdadeiro cenário do futebol
profissional” (ALCÂNTARA, 2006).

Personalidades citadas: Muñoz, Moreno, Pedernera, La Bruna, Lostau (todos são ex-
jogadores argentinos da década de 1940), Getúlio Vargas (Ex-Presidente do Brasil),
Flávio Costa e Ondino Viera (ex-treinadores da década de 1950).
45

8 de setembro de 2009

Ao falar do atual momento do Brasil nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010,
Roberto Assaf exalta a Seleção Brasileira tricampeã mundial de 1970 que, na opinião
dele, foi o maior esquadrão futebolístico de todos os tempos. O título da coluna é Kaká
entre as feras da Seleção.

Roberto Assaf faz uma analogia entre o futebol das seleções brasileiras de 1970 e 2009.
No seu ponto de vista, apenas dois jogadores da atual geração teria espaço no time de
Pelé, Tostão, Jairzinho etc. O colunista aponta Júlio César e Kaká como os únicos em
condição de pleitear uma vaga no time de Mário Jorge Lobo Zagallo. “Sem saudosismo,
jamais haverá outro ataque formado por Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino,
além de Paulo César como reserva” (ASSAF, 2009).

Esta coluna apresenta o intertítulo “A última”, que faz uma comparação entre as
Seleções Argentinas de 1970 e 2009. Em 1970 foi a última vez que a Argentina não se
classificou para a Copa do Mundo por ter empatado em casa contra o Peru por 2 x 2,
mesmo tendo uma geração de grandes jogadores como Perfumo, Marzolini, Basile e
Yazalde. No momento em que a crônica foi escrita, os argentinos tinham grandes
chances de não ir ao Mundial da África Sul em 2010, apesar de contar com valores do
porte de Messi, Tevez, Agüero e Verón, por ter tido alguns tropeços nas eliminatórias.

Podemos notar em Coelho (2003), a característica descrita acima, quando o autor fala
do jornalismo esportivo praticado no Brasil, atualmente. O escritor ressalta que os
principais jornalistas esportivos de cada época se referem aos jogadores de forma
diferenciada e isso cria distorções que ficam difíceis de ser corrigidas. O autor cita o
exemplo do zagueiro Bellini, capitão do primeiro título do Brasil em 1958. Segundo
Coelho (2003), Bellini era um zagueiro que se notabilizava por jogar sério, dar bicos
para os lados e errar pouco. No entanto, ele ficou marcado na imprensa pela sua
aparência física e por ter eternizado o gesto de erguer a taça acima da cabeça. Nelson
Rodrigues e Mário Filho, de acordo com Coelho (2003), produziram crônicas cheias de
emoção e celebraram Bellini como um zagueiro de classe, elegante e um verdadeiro
mito do futebol brasileiro.
46

Ou seja, apesar de, nesta coluna, Roberto Assaf falar que não há saudosismo em sua
colocação, podemos perceber claramente que, na opinião dele, o futebol praticado na
década de 1970 é muito superior ao praticado atualmente.

Podemos notar certo tom patriótico no discurso de Roberto Assaf, que pode ser
explicado na tese de Roberto DaMatta. O antropólogo afirma que o papel do futebol na
sociedade se transformou em uma fonte de amor do brasileiro com o país,
principalmente com as conquistas das Copas do Mundo. Para o autor, o futebol fez com
que os brasileiros acreditassem na possibilidade de uma ordem moral baseada na
igualdade, fornecendo subsídios para a articulação da identidade social do país. O autor
analisa que o futebol demonstra uma característica de poder agregar valores culturais
locais, assim como fez no Brasil.

Personalidades citadas: Kaká, Júlio Sérgio, Pelé, Jairzinho, Gérson, Rivellino e


Tostão, Paulo César Caju, Félix, Perfumo, Cejas, Marzolini, Basile, Brindisi, Yazalde,
Verón, Messi e Tévez.

15 de setembro de 2009

Roberto Assaf utiliza o tema e o título de “Os craques sem Copa do Mundo”, que retrata
os grandes jogadores que não tiveram a oportunidade de disputar a competição mais
importante do futebol.

Nesta coluna podemos notar o sentimento de nostalgia do autor, já que ele utiliza apenas
um exemplo de jogador da atualidade para ilustrar a sua tese, o armador galês Ryan
Giggs, que joga no Manchester United da Inglaterra. Em contrapartida, Roberto Assaf
utiliza 16 atletas do passado. “Dos nossos craques, podemos citar. Heleno de Freitas,
Evaristo e Dirceu Lopes, cada qual em sua época. Da Argentina, Adolfo Pedernera e
José Manuel Moreno, da brilhante geração da década de 1940, quando não houve Copa”
(ASSAF, 2009).

Com apenas um jogador contemporâneo citado nesta coluna, podemos notar o que
Coelho (2003) destaca em seu estudo. Segundo o autor, os principais jornalistas
esportivos de cada época se referem aos jogadores de forma diferenciada e isso cria
47

distorções que ficam difíceis de ser corrigidas. O autor cita o exemplo do zagueiro
Bellini, capitão do primeiro título do Brasil em 1958. Segundo Coelho (2003), Bellini
era um zagueiro que se notabilizava por jogar sério, dar bicos para os lados e errar
pouco. No entanto, ele ficou marcado na imprensa pela sua aparência física e por ter
eternizado o gesto de erguer a taça acima da cabeça. Nelson Rodrigues e Mário Filho,
de acordo com Coelho (2003), produziram crônicas cheias de emoção e celebraram
Bellini como um zagueiro de classe, elegante e um verdadeiro mito do futebol
brasileiro.

Personalidades citadas: Heleno de Freitas, Evaristo de Macedo, Dirceu Lopes, Adolfo


Pedernera, Jose Manuel Moreno, George Best, George Weah, Ryan Giggs, Eric
Cantona, Arsênio Erico, Gunnar Nordhal, Alberto Spencer, Ian Rush, Jarí Litmanen,
Ladislao Kubala, Di Stéfano e Didi (que, apesar de ter disputado Copas do Mundo, é
citado pela rivalidade com Di Stéfano).

Times citados: Seleção da Libéria do final da década de 1990, Seleção Alemão da


década de 1930, Seleção Argentina da década de 1940, Manchester United-ING atual,
Independiente-ARG da década de 1940, Milan-ITA da década de 1950, Peñarol-URU
década de 1960, Liverpool-ING das décadas de 1980 e 1990, Ajax-HOL de 1995,
Irlanda do Norte das décadas de 1950 a 1980.

22 de setembro de 2009

Em “Linha tênue entre Rei e Súdito”, Roberto Assaf trata da situação do ex-craque
argentino Diego Maradona, que assumiu o comando técnico daquele país. Comentando
sobre os primeiros resultados ruins de Maradona à frente da Seleção Ambiceleste,
Roberto Assaf retoma o conceito do mítico camisa 10, que fez sucesso, principalmente
na Copa do Mundo de 1986.

“Diego talvez ainda não tenha sido definitivamente execrado porque suas façanhas na
Copa do México, em 1986, permanecem vivas na memória dos compatriotas. Ou quem
sabe porque os argentinos continuam respeitando os deuses do futebol, esses seres
invisíveis” (ASSAF, 2009).
48

Nesta coluna podemos perceber a importância que o autor dar ao futebol ao colocar
Diego Maradona no mesmo patamar de figuras históricas da Argentina como Carlos
Gardel, Evita Perón, Che Guevara e Jorge Luis Borges.

Desta forma, os jogadores se transformam em referência para a população. O seu papel


no futebol, como também na sociedade, serve de modelo para as pessoas. Qualquer
atitude do atleta, seja dentro de campo ou nas ruas, ganha grande repercussão. “Como
toda cultura, a cultura de massa produz seus heróis, seus semideuses, embora ela se
fundamente naquilo que é exatamente a composição do sagrado: o espetáculo, a
estética”. (MORIN, 1997, p.109).

Personalidade citada: Diego Armando Maradona, Carlos Gardel, Evita Perón, Che
Guevara e Jorge Luis Borges.

Time citado: Seleções Argentina de 1986 e 2009.

29 de setembro de 2009

Uma semana depois de retratar Diego Maradona em sua coluna, Roberto Assaf traz toda
a sua nostalgia em relação ao passado em “Quero meu futebol de volta”, na qual ele
recria a sua infância e paralelamente faz um traço com o futebol do Rio de Janeiro.

A coluna tem como base a desorganização do Fluminense, que na época corria sério
risco de cair para a Série B do Campeonato Brasileiro. Apesar de figurar por muitas
rodadas na zona de rebaixamento, o tricolor carioca conseguiu se livrar do descenso nas
últimas rodadas da competição.

Em seu texto Roberto Assaf recorda da sua infância e ao mesmo tempo aborda o
futebol. De acordo com Ferin (2009), os múltiplos usos metafóricos e cruzamentos de
sentidos do conceito de nostalgia tornam-se uma ferramenta crítica para interrogar a
articulação do passado com o presente e os processos de memória que levam ao
apagamento ou à sobrevalorização de determinadas vivências do passado no presente.
49

Passei boa parte da infância e da adolescência, compreendida aí entre os 10 e 16


anos, me fartando de ver futebol bem de pertinho. A Gávea ficava a 15 minutos a
pé da minha casa. General Severiano e Laranjeiras a 25 minutos de ônibus circular.
Havia muitos jogos dos campeonatos das divisões de base e profissionais
disputados nas tardes dos dias de semana, nos anos 60 e 70, naqueles estadinhos
(ASSAF, 2009).

Personalidades citadas: Não houve

Times citados: Fluminense de 2009, Fluminense das décadas de 1960 e 1970,


Flamengo das décadas de 1960 e 1970 e Botafogo das décadas de 1960 e 1970.

15 de dezembro de 2009

Após um hiato de mais quase dois meses sem dar ênfase à nostalgia, Robert Assaf volta
a citar acontecimentos do passado para tentar explicar o que acontece no presente. Para
abordar o título do Campeonato Brasileiro de 2009 conquistado pelo Flamengo, o
colunista compara a campanha do time carioca com o que aconteceu com o São Paulo,
em 1977. Na ocasião, o time paulista sagrou-se campeão Brasileiro nos pênaltis diante
do Atlético-MG, equipe que não foi derrota naquela edição do Brasileirão.

Em 1977, que é um exemplo clássico, o Atlético-MG chegou à decisão com notória


superioridade de números sobre o São Paulo: somou mais pontos (49 a 40), teve
mais vitórias (17 a 13), menos derrotas (0 a 4) e saldo de gols superior (39 a 25).
Mas acabou perdendo o título no pênaltis”(ASSAF, 2009).

Uma característica que podemos notar nesta coluna é a paixão do torcedor do Flamengo
Roberto Assaf. O autor defende o time carioca das criticas recebidas pela conquista do
Brasileirão de 2009.

Neste exemplo, podemos verificar a importância dada para o futebol no Brasil, como já
foi citado em DaMatta (2006). O antropólogo atenta sobre a identificação do futebol
com a cultura nacional. De acordo com o autor, existe um ditado que no Brasil só
existem três coisas sérias: a cachaça, o jogo de bicho e o futebol. DaMatta (2006)
explica a curiosidade destas três identidades nacionais, já que são compostas por uma
bebida alcoólica, uma loteria socialmente aprovada e legalmente clandestina e um
esporte nascido na Inglaterra, mas que se popularizou em terras tupiniquins.
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Segundo o antropólogo, o futebol ajudou a consolidar a vida esportiva nacional, através


do seu universo de competição e ascensão social em detrimento ao ambiente duro e
penalizante para a maioria dos brasileiros.

Conforme podemos perceber na análise de Ramos (1984), o futebol pode ser um


aparelho de dominação do governo, já que possui em seu universo as condições
econômicas, políticas e sociais. Segundo o autor, os políticos usam essas características
para que a população esqueça os problemas do país, como saúde, economia, educação e
inflação. O autor também cita o nazismo alemão e o fascismo italiano como governos
que tentaram ligar suas imagens ao esporte.

Ramos (1984) explica que a posição social das pessoas poderia ser modificada através
do futebol, pelo talento e atuações nos estádios. Já DaMatta (2006) observa que o
sucesso do futebol brasileiro fez com que houvesse uma nova tese sobre a identidade
nacional. O autor ressalta que esse esporte se transformou no principal instrumento para
redefinir as possibilidades e as capacidades do Brasil.

Personalidades citadas: Não houve

Times citados: Flamengo de 2009, Atlético-MG de 1997 e São Paulo de 1977

29 de dezembro de 2009

A última coluna analisada não faz uma relação expressa ao passado, mas, ao mesmo
tempo, mostra que o futebol não é tão romântico como antigamente, principalmente do
ponto de vista econômico.

Roberto Assaf fala do último Mundial Interclubes da FIFA, disputado em dezembro e


vencido pelo Barcelona-ESP. Em 2009, o time catalão foi uma das equipes mais
vitoriosas da história, tendo vencido no mesmo ano os seis títulos que disputou.

Apesar do poderio econômico dos times europeus, Roberto Assaf cita alguns dos times
brasileiros que se destacaram nos últimos anos, e ressalta que eles fariam um bom papel
se disputasse o mundial contra os principais clubes do velho continente. “Pois é.
Embora os intocáveis estejam nas mãos deles, nós continuamos a assustá-los. Só falta
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um pouco de ousadia para brigar com os poderosos nos mercados que ainda podemos
explorar” (ASSAF, 2009).

Personalidades citadas: Luis Felipe Scolari

Times citados: Barcelona e Seleção Brasileira de 2009, São Paulo de 2005, Grêmio de
2007, Fluminense de 2008 e Cruzeiro de 2009.
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5 CONCLUSÃO

O futebol é um esporte integrado à cultura brasileira e presente no dia a dia de toda a


população. Todos os dias os meios de comunicação de massa dão espaço para um
universo de 190 milhões de treinadores. Por tantas pessoas acharem que possuem
conhecimento sobre esta prática esportiva, temos tantas posições contraditórias.

Em nove análises de colunas do jornalista Roberto Assaf no jornal O Lance!, de um


universo de 22 edições, foi proposta a verificação de uma presença nostálgica no texto
do autor, que não esconde do seu leitor que prefere a época chamada romântica do
futebol.

Na concepção de Roberto Assaf (e de várias outras pessoas) o futebol de antigamente


era praticado por jogadores dotados de uma capacidade técnica acima, enquanto que os
atletas contemporâneos utilizam da força para sobressair neste esporte.

Apesar de não esconder a sua preferência pelo futebol praticado no passado, Roberto
Assaf adota uma postura defensiva e chega a citar na coluna do dia 8 de setembro de
2009 que não é saudosista, porém, ressalta que nunca mais na história haverá um ataque
formado por Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino e Gérson, além de Paulo César Caju,
recordando assim a escalação da Seleção Brasileira de 1970, considerado pó muitos o
maior esquadrão de futebol de todos os tempos.

Outra coluna que podemos evidenciar o saudosismo de Roberto Assaf é na edição do


Lance!, na qual o autor, para destacar os craques que nunca disputaram uma Copa do
Mundo, a competição mais importante do futebol, cita 16 ex-jogadores do passado
contra apenas um jogador da atualidade.

É lógico que não podemos esquecer os craques e do belo futebol que era praticado no
passado. Mas subestimar os jogadores e a forma que esse esporte é praticado em nossa
época é um erro grave e muito comum no nosso jornalismo.
Em ano de Copa do Mundo, o sentimento nostálgico e saudosista é muito percebido nos
media. Muitos comparam o futebol da atual Seleção Brasileira com o dos esquadrões
que vestiram a camisa amarela em outras épocas.
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Por isso, ser saudosista, parece ser pré-requisito para ter sucesso na imprensa esportiva
brasileira. A nova geração precisou crescer ouvindo que o futebol não é o mesmo que se
jogava antes e que a comparação de qualquer jogador ou equipe de hoje com craques do
passado seria um absurdo por ofender a qualidade muito superior do jogo antigo.

Este trabalho é apenas o início de um projeto em que o autor se propõe pesquisar esse
tema. Em um estudo posterior será feito com uma bibliografia maior e com uma
margem de tempo maior.
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