Você está na página 1de 2

As nove divisões da alma

Guga Lopes

A mumificação é um dos aspectos mais conhecidos dentre os legados deixados pela cultura
Kemética para a sociedade atual, a função desta prática dá-se pela preservação do corpo do
morto para, assim, outras partes dos corpos da pessoa manter-se funcionando. Estas partes
são referentes às divisões da alma que os egípcios tinham dentro da sua mitologia.

Alguns desses corpos espirituais aparecem apenas depois do processo de morte, então é bom
ressaltar que temos grande parte dessas divisões, mas algumas são desenvolvidas mais tarde.

Esse conceito foi estabelecido, segundo a egiptóloga Rosalie David, no Antigo Império, isto é,
na época em que ocorreu a unificação dos dois reinos, empreendida pelo faraó Menés e que
se estendeu até pouco antes de 2181 A.E.C.

As divisões são:

1. Khat – O corpo físico. Era creditado que a matéria morta da pessoa era o elo entre a
alma dela e o mundo terreno, assim, as oferendas para os mortos eram realizados
dentro das tumbas, para que elas sejam diretamente recebidas pela alma da pessoa
morta.
2. Ba – A alma eterna. A parte espiritual que sempre existiu e sempre existirá. Os
keméticos costumavam ilustrar o Ba como um pássaro com a cabeça da pessoa que o
possui. Para eles o Ba tinha a capacidade de voar entre os reinos do oeste e do leste
(isto é, dos mortos, o Duat, e o mundo dos vivos) e alguns acreditam que assim o Ba
pode escolher um Khat novo para reencarnar, criando assim, um novo Ka. Após a
morte, o Ba voava sobre o corpo do morto para levar as oferendas até o Ka da pessoa,
no Duat.
3. Ka – A alma pessoal. A parte espiritual que existe em ti nesta vida. Foi criada no
momento em que a pessoa nasce, sendo assim, sua personalidade desta vida. Após a
morte o Ka (junto com o Ib) é julgado no salão das duas Ma’atis, se ela passa pelo
julgamento ela se torna um Akh, se não passar é devorada por Ammit e deixa de
existir.
4. Ib – O receptáculo do Ka no Khat; O Coração. É a coleção metafórica de todas as
intenções, ações e pensamentos da pessoa, sendo então o que define seu caráter. É o
corpo espiritual do coração físico (hat) que será botado na balança contra uma pena
de Ma’at na hora do julgamento. Nos processos de mumificação era colocado sobre o
coração físico um amuleto de escaravelho enfeitiçado para que o coração não se vire
contra a alma da pessoa.
5. Shwt/Sheut – A sombra física causada pelo Khat. Os antigos acreditavam ser parte
diretamente ligada ao Ka ou ao Ib, sendo assim, podendo ser manipulada por Heka
(magia). Para eles o Sheut era uma proteção da alma para o corpo, tanto físico quanto
espiritual e acompanhava a alma quando o corpo morria, transformando-se em Sahu.
6. Akh (plural Akhu) - “O abençoado” ou “O brilhante”. O Ka que passava pelo
julgamento no salão das duas Ma’atis tornava-se um Akh, se unindo a outros Akhu
dentre o Duat, tornando-se, assim, eternamente uma estrela no céu entre os deuses.
Os Akhu tem a capacidade de se aproximar da Terra para auxiliar os homens,
principalmente aqueles da sua própria linhagem, e aterrorizar seus inimigos.
7. Sekhem – O poder. A força vital presente em cada um dos corpos (ou também uma
força que se estende entre todos). Ele é também um conduto para realizar Heka.
Atualmente isso pode ser interpretado como a Aura da pessoa.
8. Sahu – “Glória”; O corpo espiritual do Sheut. Após a morte, a sombra da pessoa passa
a ir para o reino espiritual na forma de Sahu. É dito que após o julgamento, se a pessoa
passasse por ele, o Sahu tinha a capacidade de viajar entre os mundos, proteger os
corpos astrais ou assombrar os homens vivos, sendo assim, o Sahu podia ser percebido
por alguns no mundo físico. Inclusive no Médio Império foi encontrada em uma tumba
a carta de um homem para o Sahu de sua esposa que o assombrava.
9. Ren – O nome. O nome secreto dito pelos deuses no momento que foi criado o seu Ba.
Os keméticos acreditavam que, caso a pessoa tivesse conhecimento do seu Ren, era
preciso mantê-lo seguro, pois assim, se mais alguém o soubesse, a pessoa poderia ter
domínio e poder sobre você. O nome em vida da pessoa também tinha grande
importância: quando ela morria, o seu nome era repetido diversas vezes nos escritos
em sua tumba para que ele pudesse ser eternizado e relido diversas vezes, enquanto
os nomes dos inimigos eram escritos e logo em seguida retirados das escritas.

Para um resumo e maior entendimento a egiptóloga Tamara L. Siuda e Nisut (AUS) da


Ortodoxia Kemética traz um diagrama interessante:

 Corpo físico: Khat e Ib


Khat contém o Ba, Ka e Shuet

 Corpo morto: Khat e Ib


Ba deixa o Khat e está livre para fazer o que desejar
Ka e Shuet vão para o Julgamento
Após um bom julgamento: Ka se torna um Akh, Shuet se torna um Sahu

 Todos os corpos contém Sekhem a todo momento


 Todos os corpos são criados e unidos pelo Ren