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Professores e alpinistas

Márcio Carneiro de Albuquerque


Professor IFPE, Campus Abreu e Lima

Ensinar é uma arte; aprender, uma necessidade humana. Tais frases são banais e
inespecíficas. Afinal, necessário é dizer sobre como tal arte se efetiva e sobre quais
alicerces. De fato, muitos já refletiram sobre este tema. Um dos princípios
determinantes desta equação, ensinar e aprender, é que para ensinar é necessário saber
mais e melhor sobre algum quinhão da existência que se quer compartilhar; para
aprender, por outro lado, é preciso humildade.
Embora estas coisas possam parecer norteadas por uma vertente pedagógica
tradicional e por isso caduca, penso que trazem consigo um sopro de sabedoria milenar
desde muito admitida seja por modos de vida antiquíssimos, seja pelo cotidiano de
relações afetivas e de cuidado.
A lógica que subjaz tal afirmação recaí sobre o fato inquestionável de que um
alpinista experiente deve guiar iniciantes através dos segredos da montanha. Incide
sobre o fato de que, a princípio e mesmo que se equivoquem, professores sabem, ou
deveriam saber, o que estão fazendo quando entram em uma sala de aula. Eles são, ou
deveriam ser alpinistas experientes; a revelia do que um relativismo educacional pujante
apregoa. Neste ponto, a hesitação, a dúvida, a demagogia, as intermináveis assembleias
de iniciantes para discutir os melhores atalhos de montanha, as múltiplas e infinitas
opiniões de qual a melhor forma de laçar cordas e dar nós: nada frutificam, nada
produzem. Apenas destituem ou enfraquecem as decisões de alpinista que todo
professor na urgência de seus afazeres deve tomar. Por consequência fragiliza-se o lócus
de aprendizagem.
Sobre o aprender, apenas humildade. Sem ela fica difícil. A etiologia da palavra
remete ao latim: humus, que significa terra. Estar sobre a terra, pisá-la, saber-se da terra,
saber-se mortal, saber-se ignorante do cosmos por estar aprisionado ao chão. Para
elevar-se, ficar na ponta dos dedos, para contemplar a vertigem do conhecimento, e,
portanto aprender, há de saber o aprendiz que o húmus é o seu lugar por excelência.
Muitos lhe dizem algo diferente: que eles podem subir montanhas por conta própria e
por caminhos e modos quaisquer. Premissa enganosa travestida de empoderamento.
Neste sentido, se desejamos construir escolas melhores, deveríamos começar
pelo consenso de que os saberes docentes são oriundos de uma prática e formação
profissionais a serem sempre valoradas no espaço escolar. Quanto a professores e
alpinistas, ambos um dia caminharam sobre planícies, ou seja, estiveram e sempre estão
em contato com o chão de onde partem. Para os mesmos diria apenas: sempre amarre as
cordas como julgar necessário; aperte e desaperte os nós ao longo do caminho.