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DISCIPLINA DE PORTUGUÊS
10º ano

A propósito dos processos de formação de palavras

1. Leia o seguinte texto de Mia Couto e descubra os neologismos nele presentes.

Escrevências desinventosas

Estava já eu predisposto a escrever mais uma crónica quando recebo a ordem: não
se pode inventar palavra. Não sou homem de argumento e, por isso, me deixei. Siga-se o
código e calendário das palavras, a gramatical e dicionárica língua. Mas ainda, a ordem
era perguntosa: "já não há respeito pela língua-materna?"
Não é que eu tivesse intenção de inventar palavras. Até porque acho que palavra
descobre-se, não se inventa. Mas a ordem me deixou desesfeliz. Primeiro: porquê meter
a mãe no assunto? Por acaso sou filho de língua, eu? Se nasci, mesmo inicialmente, foi de
duplo serviço genético, obra inteira. Segundo: sou um homem obeditoso aos mandos.
Resumo-me: sou um obeditado. Quando escrevo olho a frase como se ela estivesse de
balalaica, respeitosa. É uma escrita disciplinada: levanta-se para tomar palavra, no início
das orações. Maiusculiza-se deferente. E, em cada pausa, se ajoelha nas vírgulas. Nunca
ponho três pontos que é para não pecar de insinuência. Escrita assim, penteada e
engomada, nem sexo tem. Agora acusar-me de inventeiro, isso é que não. Porque sei
muito bem o perigo da imagináutica. Ás duas por triz basta uma simples letra para
alterar tudo. Um pequeno «d» muda o esperto em desperto. Um simples «f» vira o útil
em fútil. E outros tantíssimos, infindáveis exemplos
Afinal de contas, quem imagina é porque não se conforma com o real estado da
realidade. E nós devemos estar para a realidade como o tijolo está para a parede: a linha
certa, a aresta medida. Entijole-se o homem com tendência a imaginescências.
Voltando à língua fria: não será que o português não está já feito, completo, made
in e tudo? Porquê esta mania de usar os caminhos, levantando poeira sem a devida
direcção? Estrada civilizada é a que tem polícia, sirenes serenando os trânsitos. Caso
senão, intransitam-se as vias, cada um conduzindo mais por desejo que por obediência.
Estraga-se a decência, o puro sangue do idioma. E porquê? Por causa dessas
contribuições dispérsicas que chegam à língua sem atestado nem guia de marcha. Devia
exigir-se, à entrada da língua um boletim de inspecção. E montavam-se postos de
controlo, vigilanciosos.
Se forem criados tais posto eu mesmo me voluntario. Uma espécie de milícia da
língua, com braçadeira, a mandar parar falantes e escreventes. A revistar-lhes o
vocabulário, a inspeccionar-lhes o saco da gramática.
-Vem de onde essa palavra?
E mesmo antes da resposta, eu, arrogancioso:
-Não pode passar. Deixa ficar tudo aqui no posto.
Os queixosos, nas cartas dos leitores, reclamando. E eu, abusando dos abusos,
rindo-me deles. Mas não me divertindo de alma inteira, não. Porque a vida é uma grande
fábrica de imagineiros e há muita estrada para poucos postos vigilentos.
Mas, em escrevendo «deter gente» eu me lembro de «detergente». Sim, escrevo
sério. Um produto que lavasse a língua de sujidades e impurezas. Pegava-se no idioma,
lavava-se bem, desinfectava-se. Depois, para não apodrecer, guardava-se no gelo,
frigorificado.
Porque isto de falar ou escrever tem de ser dentro das margens. Como um rio
manso e leve, tão educado que não acorde poeiras do fundo. Um rio que passe com essa
eterna transparência que, verdade autografada, só a morte possui. Seja então a pureza
pela morte trazida e por ela conservada.

Mia Couto, Cronicando