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MARCOS

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Original em inglês:

New Testament Commentary: Mark

Author: William Hendriksen

TRADUTOR: CARLOS BIAGINI

Baker Book House

Grand Rapids, Michigan, 1979


Marcos (William Hendriksen) 2
CONTEÚDO

Abreviaturas

Introdução
I. Quem escreveu este evangelho?
II. Consideramos primeiro o “onde” e logo o “quando”
III. Por que foi escrito?
IV. Quais são suas características?
V. De que forma está organizado?

I. SEU COMEÇO OU INAUGURAÇÃO: Mc. 1:1–13

MARCOS 1
Mc. 1:1–8 - O ministério de João Batista
Mc. 1:9–11 - O batismo de Jesus
Mc. 1:12–13 - A tentação de Jesus no deserto

II. SEU DESENVOLVIMENTO OU CONTINUAÇÃO: Mc. 1:14–10:52

A. O GRANDE MINISTÉRIO NA GALILEIA: Mc. 1:14–45


Mc. 1:14, 15 - Começo do grande ministério na Galileia
Mc. 1:16–20 - A chamada de quatro pescadores
Mc. 1:21–28 - A cura de um homem com espírito imundo
Mc. 1:29–34 - A cura da sogra de Pedro e de muitos outros
Mc. 1:35–39 - A oração de Cristo antes do amanhecer; a
exclamação de Simão e a resposta de Cristo;
o ministério, a pregação de Cristo e a
expulsão de demônios por toda Galileia
Mc. 1:40–45 - A cura de um leproso
Marcos (William Hendriksen) 3
MARCOS 2
Mc. 2:1–12 - A cura de um paralítico
Mc. 2:13–17 - A chamada de Levi
Mc. 2:18–22 - A pergunta a respeito do jejum
Mc. 2:23–28 - O Filho do homem faz valer Sua autoridade
como Senhor até do sábado; arrancando
espigas no sábado
MARCOS 3
Mc. 3:1–6 - O Filho do Homem faz valer sua autoridade como
Senhor até do sábado; a mão seca
Mc. 3:7–12 - Jesus ensina e cura grandes multidões junto ao
mar
Mc. 3:13–19 - Eleição dos Doze
Mc. 3:20–30 - Foram os milagres de Cristo prova do domínio
ou da ruína de Belzebu?
Mc. 3:31–35 - A mãe e os irmãos de Jesus
MARCOS 4
Mc. 4:1–9 - Parábolas: Palavras introdutórias e a Parábola de
semeador
Mc. 4:10–12 - O propósito das parábolas
Mc. 4:13–20 - Explicação da parábola do semeador
Mc. 4:21–25 - Diversas declarações de Jesus
Mc. 4:26–29 - A parábola da semente que cresce em segredo
Mc. 4:30–32 - A parábola da semente de mostarda
Mc. 4:33–34 - O uso que Cristo faz das parábolas
Mc. 4:35–41 – Jesus acalma uma tempestade
MARCOS 5
Mc. 5:1–20 - Na terra dos gerasenos: a bondade em contraste
com a crueldade
Mc. 5:21–43 – Dois milagres: A restauração à vida da filha de
Jairo e A cura da mulher que tocou o manto de
Jesus
Marcos (William Hendriksen) 4
MARCOS 6
Mc. 6:1–6a - Jesus é rejeitado em Nazaré
Mc. 6:6b–13 - A missão encomendada aos Doze
Mc. 6:14–29 - A perversa festa de aniversário de Herodes e
A morte horripilante de João Batista
Mc. 6:30–44 - A alimentação dos cinco mil
Mc. 6:45–52 - Andando sobre a água
Mc. 6:53–56 - Curas em Genesaré
MARCOS 7
Mc. 7:1–23 - Contaminação cerimonial versus contaminação
verdadeira

B. O RETIRO E OS MINISTÉRIOS NA PEREIA: Mc. 7:24–37


Mc. 7:24–30 - A fé da mulher siro-fenícia é recompensada
Mc. 7:31–37 - A cura de um surdo-mudo
MARCOS 8 (8:1 – 9:1)
Mc. 8:1–10 – A alimentação dos quatro mil
Mc. 8:11–13 - Censura pela exigência de sinais
Mc. 8:14–21 - A levedura dos fariseus e de Herodes
Mc. 8:22–26 - A cura de um cego em Betsaida
Mc. 8:27–30 - A confissão de Pedro e a estrita ordem de Cristo
Mc. 8:31–9:1 - A primeira predição da paixão e da ressurreição
MARCOS 9 (9:2–50)
Mc. 9:2–13 - Transfiguração de Jesus no topo de um monte
Mc. 9:14–29 - Cura de um rapaz epilético
Mc. 9:30–32 - Segunda predição da paixão e a ressurreição
Mc. 9:33–37 - Quem é o maior?
Mc. 9:38–41 - Quem não é contra nós é por nós
Mc. 9:42–50 - Protejam os pequeninos e não cedam à tentação
MARCOS 10
Mc. 10:1–12 - Ensino a respeito do divórcio
Mc. 10:13–16 - Jesus e as crianças
Marcos (William Hendriksen) 5
Mc. 10:17–31 - O perigo das riquezas e a recompensa do
sacrifício
Mc. 10:32–34 - Terceira predição da paixão e da ressurreição
Mc. 10:35–45 - O pedido dos filhos de Zebedeu
Mc. 10:46–52 - A cura do cego Bartimeu em Jericó

III. SEU CLÍMAX OU CULMINAÇÃO - Mc. 11:1 – 16:8

A. A SEMANA DA PAIXÃO - Mc. 11:1 – 15:47

MARCOS 11
Mc. 11:1–11 - Entrada triunfal em Jerusalém
Mc. 11:12–14 - Maldição da figueira
Mc. 11:15–19 - Purificação do templo
Mc. 11:20–25 - A lição da figueira seca
Mc. 11:27–33 - A autoridade de Cristo: pergunta e contra
pergunta
MARCOS 12
Mc. 12:1–12 - A parábola dos lavradores maus e seus efeitos
Mc. 12:13–37 - Perguntas capciosas e respostas com autoridade.
Além disso, a pergunta de Cristo
Mc. 12:38–40 - Denúncia contra os escribas
Mc. 12:41–44 - A oferta de uma viúva
MARCOS 13 - Discurso de Cristo sobre os últimos tempos
Mc. 13:1–4 - A ocasião. Predição da destruição do templo
Mc. 13:5–13 - O começo dos ais ou dores de parto
Mc. 13:14–23 - A grande tribulação
Mc. 13:24–27 - A vinda do Filho do Homem
Mc. 13:28–31 - A lição da figueira
Mc. 13:32–37 - A necessidade de estar sempre preparado, à
vista da incerteza sobre o dia e a hora da
vinda de Cristo
Marcos (William Hendriksen) 6
MARCOS 14
Mc. 14:1, 2 - O propósito de Deus contra a confabulação
humana
Mc. 14:3–9 - A unção em Betânia
Mc. 14:10, 11 - O acordo entre Judas e os principais
sacerdotes
Mc. 14:12–21 - A Páscoa
Mc. 14:22–26 - A instituição da Ceia do Senhor
Mc. 14:27–31 - Jesus prediz a negação de Pedro
Mc. 14:32–42 - Getsêmani
Mc. 14:43–50 - A traição e arresto de Jesus
Mc. 14:51, 52 - O jovem que fugiu
Mc. 14:53–65 - O juízo diante do Sinédrio
Mc. 14:66–72 - A tríplice negação de Pedro

MARCOS 15
Mc. 15:1 - A decisão do Sinédrio de matar a Jesus. Jesus é
conduzido diante de Pilatos
Mc. 15:2–5 - Pilatos interroga Jesus
Mc. 15:6–15 - Jesus é sentenciado à morte
Mc. 15:16–20 - A zombaria
Mc. 15:21–32 - O Calvário: A crucificação de Jesus
Mc. 15:33–41 - O Calvário: A morte de Jesus
Mc. 15:42–47 - A sepultura de Jesus

B. A RESSURREIÇÃO
MARCOS 16
Mc. 16:1–8 - O Senhor ressuscitado; as mulheres surpreendidas

O PROBLEMA RELACIONADO COM MARCOS 16:9–20


BREVES NOTAS SOBRE O EPÍLOGO LONGO (Mc. 16:9–20)
Marcos (William Hendriksen) 7
Mc. 16:9–11 - A aparição de Cristo a Maria Madalena
Mc. 16:12, 13 - A aparição a dois de Seus discípulos
Mc. 16:14–18 - A Grande Comissão e os sinais
Mc. 16:19, 20 - A ascensão de Cristo

Bibliografia Seleta

Bibliografia Geral
Marcos (William Hendriksen) 8
ABREVIATURAS
A. Abreviaturas de livros

ARV American Standard Revised Version


AV Authorized Version (King James)
BAGD Bauer, Walter. A Greek-English Lexicon of the New Testament
and Other Early Christian Literature. Traduzido por W.F. Arndt,
F.W. Gingrich y F.W. Danker. Chicago: The University of Chicago
Press, 1979
BDF Blass, F; A. Debrunner y R.W. Funk. A Greek Grammar of the
New Testament and Other Early Christian Literature. Chicago: The
University of Chicago Press, 1961
BJ Biblia de Jerusalén. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1975
BP Biblia del Peregrino. Bilbao: Ediciones mensajero, 1993
CB La Biblia. La Casa de la Biblia. Salamanca: Sígueme, 1992
CI Sagrada Biblia. F. Cantera y M. Iglesias. Madrid: BAC, 1975
CNT W. Hendriksen, Comentário do Novo Testamento
GNT The Greek New Testament, editado por Kurt Aland, Matthew
Black, Bruce M. Metzger e Allen Wikgren, edição 1966.
HA Nuevo Testamento Hispano Americano. Sociedades Bíblicas en
América Latina
ISBE International Standard Bible Encyclopedia
LT La Biblia. J. Levoratti e A.B. Trusso. Madrid-Buenos Aires:
Ediciones Paulinas, 1990
MM Moulton, J. H. e G. Milligan. The Vocabulary of the Greek
Testament illustrated from the Papyri and Other Non-Literary
Sources. Grand Rapids: Eerdmans, 1930
NAS New American Standard Bible (New Testament)
NBE Nueva Biblia Española. A. Schökel e J. Mateos. Madrid:
Cristiandad, 1975
NC Sagrada Biblia. E. Nácar y A. Colunga. Madrid: BAC, 1965
Marcos (William Hendriksen) 9
NEB New English Bible
NTG Novum Testamentum Graece, editado por D. Eberhared Nestle,
y revisado por E. Nestle e Kurt Aland, 25ª. edição, 1963
NTT Nuevo Testamento Trilingüe. J. M. Bover e J. O’Callaghan.
Madrid: BAC, 1977
NVI Nova Versão Internacional
Robertson Robertson, A. T. A Grammar of the Greek New Testament
in the Light of Historical Research. Nashville: Broadman, 1934
RSV Revised Standard Version
SB Struck and Billerbeck, Kommentar zum Neuen Testament aus
Talmud und Midrasch
SH The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge
TDNT Kittel, G. y G. Friedrich. Theological Dictionary of the New
Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1964–1976
Thayer Thayer’s Greek-English Lexicon of the New Testament. Grand
Rapids: Zondervan, 1962.
VM Versión Moderna. Sociedades Bíblicas en América Latina
WDB Westminster Dictionary of the Bible
AHWB Atlas histórico Westminster de la Biblia. El Paso: CBP, 1971

B. Abreviaturas de Revistas

BTr Bible Translator


EQ Evangelical Quarterly
Exp The Expositor
JBL Journal of Biblical Literature
JR Journal of Religion
JSS Journal of Semitic Studies
TT Theologisch tijdschrift
WTJ Westminster Theological Journal
Marcos (William Hendriksen) 10
INTRODUÇÃO AO EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS
I. Quem escreveu este evangelho?

De acordo com o título e a tradição unânime, o nome do escritor é


Marcos. Por boas razões, supõe-se que cada vez que se menciona este
nome no Novo Testamento sempre se refere à mesma pessoa. É chamado
Marcos em At. 15:39; Cl. 4:10; Fm. 24; 2Tm. 4:11; 1Pe. 5:13. Para ser
mais exatos, este era seu nome no mundo romano de fala grega. Em
grego se escrevia Markos e em latim Marcus. Naturalmente que, sendo
judeu (Cl. 4:10, 11), Marcos era seu apelido; seu “outro nome. Seu nome
original ou judeu era João (At. 12:12, 25; 15:37).
O Novo Testamento não nos provê uma biografia completa deste
homem. A tradição contém coisas de valor, mas o que diz dele não é
consistente em todos os pontos. Não nos é dado uma resposta definida e
uniforme a perguntas tais como: Quando Marcos escreveu o seu
Evangelho, foi a influência de Pedro tão decisiva e predominante, que
Marcos veio a ser só um secretário do apóstolo: “Pedro ditando, Marcos
escrevendo”? Não seria muito mais razoável pensar que a influência de
Pedro foi moderada, sendo Marcos o verdadeiro escritor? Neste caso
Pedro seria a principal fonte de informação de Marcos, mas de modo
algum a única. Outras interrogantes: Terminou Marcos seu livro
enquanto Pedro ainda vivia ou ele p fez depois de sua morte? Era Marcos
o homem que Jesus descreveu como levando um cântaro de água (Mc.
14:13)? Esteve entre os setenta missionários (Lc. 10:1)? Era literalmente
de “dedos curtos”, ou tal descrição tem que ver só com seu Evangelho, o
qual carece de uma introdução e conclusão como as que encontramos
nos outros Evangelhos? Fundou Marcos a igreja de Alexandria? Morreu
de morte natural ou sofreu martírio?
A seguir esboçaremos os fatos da vida de Marcos dos quais
podemos estar seguros ou que ao menos possuem um elevado grau de
probabilidade:
Marcos (William Hendriksen) 11
Embora provável, não é totalmente seguro identificar a Marcos com
aquele “um jovem” cuja interessante história é relatada no Evangelho de
Marcos (Mc. 14:51, 52). O que se relata ocorreu na noite antes da
crucificação. Jesus e Seus discípulos saíam do cenáculo. Estava este
aposento em casa de Maria, mãe de Marcos, onde também ele vivia?
Sendo assim, temos a seguinte situação: eram provavelmente as 11 da
noite (veja-se CNT sobre Mt. 26:31) e este “um jovem” estava
dormindo. De repente despertou. Haveria já rendido seu coração ao
Salvador? Talvez sentiu o desejo de acompanhar a Jesus. O fato é que
tomou um lençol, envolveu-se nele e saiu correndo atrás do Mestre.
Quando o guarda do templo o detém, consegue escapar à custa de perder
o lençol que fica em poder daqueles que tentaram capturá-lo (cf. Gn.
39:12). Se esta reconstrução não resultar muito atrevida, significaria que
sendo Marcos ainda bastante jovem, foi um dos “seguidores” de Cristo,
assim como sua mãe. Não pertenceu ao grupo dos Doze, nem conversou
pessoalmente com Jesus. Bem como muitos outros eruditos, datamos o
incidente de Mc. 14:51, 52 a princípios de abril do ano 30 d.C. Para
maiores detalhes veja-se sobre Mr. 14:51, 52.
Jesus logo partiria desta terra ao céu, e Se preocupou em não deixar
os Seus discípulos sem um líder. Num sentido muito real, tal líder foi
Pedro (veja-se CNT sobre Mt. 16:18). Depois de Cristo subir ao céu,
Deus usou, na festa do Pentecostes, a comovedora mensagem de Pedro
para reunir a não menos de três mil “ovelhas” em seu redil (At. 2:41).
Não é provável que a pregação de Pedro também exercesse uma
poderosa influência sobre João Marcos? Veja-se 1Pe. 5:13.
Os anos 30 a 44 guardam silêncio. Nada diz a Escritura sobre o que
sucedeu com João Marcos, até que em Atos 12:12–17 encontramos um
incidente que pôde ter sido de grande importância para ele. Os fatos
ocorrem provavelmente no ano 44 d.C. É-nos dito que Pedro é libertado
milagrosamente da prisão, e que imediatamente vai “à casa de Maria,
mãe de João, cognominado Marcos” (v. 12). Esta Maria não é,
naturalmente, a mãe de Jesus, nem Maria Madalena, nem Maria de
Marcos (William Hendriksen) 12
Betânia, nem Maria, mãe de Tiago e de José. Trata-se de Maria, a
abastada mãe de Marcos. Sua casa tinha um corredor ou vestíbulo e
também um cenáculo grande o suficiente para reunir um bom número de
pessoas. Tinha pelo menos uma servente, Rode. Maria não só era rica,
mas também generosa. Entregava-se de todo coração à causa de Cristo e,
portanto, estava disposta a emprestar sua casa cada vez que a
comunidade cristã a necessitasse. João Marcos era filho de uma mãe
como essa. Embora não possamos ter certeza de que nessa oportunidade
João Marcos achava-se em Jerusalém, parece que foi assim, visto que se
diz definidamente que pouco tempo depois Paulo e Barnabé tomaram
consigo a “João, cognominado Marcos” (At. 12:25) e que partiram com
ele de Jerusalém a Antioquia. Supondo que Marcos esteve em Jerusalém
na oportunidade descrita em At. 12:12–17, o jovem deve sido ficado
profundamente impressionado pela forma tão maravilhosa em que Pedro
foi libertado da prisão. Como o texto é claro em dizer que “muitas
pessoas” se reuniram em casa de sua mãe “viúva”, podemos supor com
bastante certeza que Marcos conheceu várias das primeiras testemunhas
dos feitos centralizados em Jesus. Como já o indicamos, não se sabe até
que ponto Marcos tinha conhecido a Jesus, e a tradição antiga não é de
muita ajuda neste ponto. Não existe evidência sólida de que depois do
ano 44 d.C. tenha havido alguma relação estreita entre Marcos e Pedro.
A evidência de uma relação entre ambos só aparece no final da vida de
Pedro. Portanto, deixemos Marcos por um momento, mais tarde
voltaremos a ele.
Tampouco nos é entregue um relato biográfico sobre a influente
figura de Pedro. Não obstante, os Evangelhos e o livro de Atos nos
relatam vários eventos de sua vida. O que se relata em Atos 1–5 são fatos
ocorridos em Jerusalém entre os anos 30 e 32 (inclusive), provavelmente
em sucessão imediata. O apóstolo Paulo converteu-se no ano 34, e
passados três anos (37 d.C.), visita Pedro em Jerusalém (Gl 1:18). Por
esse tempo, os apóstolos enviam Pedro e João a Samaria, onde
fortalecem a fé dos seguidores de Cristo e repreendem Simão, o mago.
Marcos (William Hendriksen) 13
Logo voltam para Jerusalém (At. 8:14–25). Esta excursão é seguida logo
pela visita de Pedro a Lida e Jope (At. 9:32, 43). Atos 10 relata a muito
importante missão de Pedro em Cesareia. Esta foi a experiência que lhe
abriu os olhos para ver quão universal era a misericórdia de Deus.
Voltando a Jerusalém, Pedro defende seu proceder em Cesareia, pois o
criticaram, dizendo: “entraste em casa de homens incircuncisos e
comeste com eles” (At. 11:1–18). O livro de Atos não fala do reinado do
imperador Cláudio (41–54 d.C.) senão até chegar a At. 11:28. Em
consequência, é bem possível que a visita de Pedro a Cesareia e sua volta
a Jerusalém não se estendessem para além do ano 41d.C. O próximo
evento na vida de Pedro diz respeito ao seu encarceramento e
maravilhosa libertação. Já nos referimos a este fato, quando dissemos
que tudo o que passou deve ter sido algo muito significativo para
Marcos. Este evento parece insinuar o tempo em que ocorreu. Se esta
inferência for correta, o incidente deve ter ocorrido precisamente antes
da morte do rei Herodes Agripa I, no ano 44 (At. 12:23). Atos 15:7–11
provê mais uma referência quanto a Pedro. Esta passagem resume o
discurso que Pedro pronunciou diante do Sínodo de Jerusalém, que
geralmente é datado em torno do ano 50. Pedro deve ter viajado de
Jerusalém a Antioquia da Síria, justamente antes do começo da segunda
viagem missionária de Paulo, datada de 50/51–53/54. 1 Foi neste lugar e
tempo em que Paulo “repreendeu” a Pedro (Gl 2:11–21). Acaso ficou
Pedro por algum tempo na Ásia Menor ou mais tarde voltou para alguns
dos lugares desta região? Como quer que tenha sido, 1 Pedro faz
evidente seu interesse pelas igrejas da Ásia Menor.
Depois do capítulo 15 de Atos, Lucas não volta a mencionar Pedro.
Por certo, todo o Novo Testamento em geral guarda silêncio. É verdade
que se dizem coisas como a de que alguns coríntios preferiam a Cefas (=
Pedro) em prejuízo de Paulo (1Co. 1:12, 22), que Cefas costumava levar

1
Para a evidência que apoia todas estas datas, veja-se W. Hendriksen, Bible Survey, pp. 62, 64, 70, 71;
também CNT sobre o Gl 2:1.
Marcos (William Hendriksen) 14
sua esposa em suas viagens missionárias (1Co. 9:5) e que Jesus pouco
tempo depois de Sua ressurreição apareceu a tal apóstolo (1Co. 15:5).
Mas este tipo de afirmações não invalidam de modo algum o fato de que
o Novo Testamento não oferece indicação alguma sobre o paradeiro de
Pedro a partir dos anos 50/51 até o final de sua vida, que foi
possivelmente pelo ano 64 d.C. O próprio Senhor havia predito que
Pedro selaria seu testemunho com o martírio (Jo. 21:18, 19; veja-se CNT
sobre esta passagem; cf. 2Pe. 1:14; I Clemente V; Tertuliano, Antidote
for the Scorpion’s Sting XV; Orígenes, Contra Celso II. xIV; e Eusébio,
História Eclesiástica, III. i).
Portanto, a teoria de que Pedro reinou como Papa em Roma por
vinte e cinco anos, do ano 42 a 67, carece de base bíblica. É a igreja
Romana a que sustenta essa tradição. Na realidade, se essa tradição fosse
verídica, quando Paulo escreveu sua Epístola aos Romanos (em ou ao
redor do ano 58), Pedro teria sido achado no apogeu de seu reinado.
Entretanto, na extensa lista de saudações que Paulo dirige aos crentes de
Roma de maneira individual (Rm. 16:3–15), nem sequer menciona
Pedro.
Agora, com relação à presença de Pedro em Roma, não há razão
para escolher nenhum dos dois extremos. Por um lado, devemos
abandonar fantasias como a dos vinte e cinco anos de episcopado
romano de Pedro e a identificação de sua tumba. Por outro lado, o
mesmo se deve fazer com a declaração de que Pedro jamais tenha estado
em Roma. Como no ano 58, Paulo escreve aos Romanos “esforçando-
me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora
anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm. 15:20),
alguns concluem que Pedro jamais pôde ter estado em Roma antes do
ano 58. Este é um argumento, por certo, falacioso. A igreja de Roma
tinha sido fundada muito tempo atrás, conforme o indica claramente a
mesma epístola. Provavelmente a igreja originou-se quando os
“visitantes vindo de Roma; judeus e prosélitos” voltaram aos seus lares
Marcos (William Hendriksen) 15
com prazerosas novas, depois de terem ouvido o sermão que Pedro
pregou em Jerusalém para a festa do Pentecostes (At. 2:10b, 14ss).
Referente ao significado de Rm. 15:20, quando Paulo diz que quer
pregar o evangelho onde Cristo não seja conhecido, referia-se a Espanha,
lugar que desejava visitar via Roma (veja-se Rm. 15:24). De modo que
Pedro, a quem Jesus ao edificar Sua igreja tinha atribuído um papel de
muita importância (Mt. 16:18), bem pôde ter feito uma visita anterior a
Roma, especialmente em consideração aos judeus cristãos residentes ali.
Segundo já observamos, os relatos do Novo Testamento nos deixam
com uma lacuna de vários anos quanto à vida de Pedro. Nada nos é dito
sobre onde esteve durante os anos 33 a 36; 42 e 43; 45 a 49; ou 52 a 62.
Pelo que diz Colossenses 4:11 (cf. Fm. 23, 24), é evidente que não esteve
em Roma durante os anos da primeira prisão de Paulo (talvez 60 a 62),
porque Paulo certamente não teria escrito Colossenses 4:11b, se Pedro
tivesse estado em Roma por aquele tempo. Mas isto ainda deixa a
possibilidade de muitos anos a partir do ano 33, tempo durante o qual
pôde ter estado fortalecendo a igreja de Roma com sua presença,
orações, pregação e direção. Finalmente, isto nos leva à uma data
próxima no final da vida de Pedro e de Paulo, quando reaparece
novamente evidência de uma íntima relação entre a. Pedro e Marcos e b.
Paulo e Marcos. Falaremos disto mais adiante.
A última data que mencionamos em conexão com Marcos foi o ano
44 d.C. Nesse ano não achamos Marcos na companhia de Pedro, e sim
de Barnabé e Paulo. Lembrar-se-á que estes dois homens foram enviados
a Jerusalém numa missão de socorro, e que tinham levado Marcos
consigo a Antioquia da Síria. Quando impulsionada pelo Espírito Santo,
a igreja comissionou a Barnabé e a Paulo para começar o que logo se
chamou a primeira viagem missionária de Paulo (At. 13:1–3), estes
homens levaram Marcos como “auxiliar” (At. 13:5). É evidente que
Marcos estava subordinado aos outros dois. Era um assistente. Não se
diz o que é que incluía exatamente este papel. Naturalmente nos vêm à
mente várias tarefas; por exemplo, talvez seria uma espécie de
Marcos (William Hendriksen) 16
administrador que organizava os detalhes relacionados com o itinerário
de viagem, assegurando a provisão de alimentos e alojamentos, enviando
mensagens; e, sobretudo, servindo como catequista, quer dizer,
continuando com o que os outros dois tinham começado. Como
catequista relatava a história da peregrinação de Cristo na terra e Seu
final triunfante, sublinhando a mensagem central da vida e ensinos de
Cristo, perguntando e respondendo perguntas, etc. Se para aquele então
Marcos já tinha escrito seu Evangelho, maior razão para considerá-lo
como a pessoa indicada para levar a cabo a tarefa de mestre ou
catequista.
Existiam também outras razões para considerar Marcos como a
pessoa mais adequada como auxiliar. Não era o filho de uma mulher tão
hospitaleira como Maria? Não resulta natural supor que ao ser
comissionados a ir ajudar Jerusalém (At. 11:29, 30; cf. 12:25), Barnabé e
Paulo tivessem sido alojados na casa dela, tendo oportunidade de ter
comunhão tanto com a mãe como com o filho? Além disso, não era
Barnabé primo mais velho de Marcos (Cl. 4:10)? Não é possível que
Marcos e seus pais (quando seu pai era vivo) trasladaram-se de Chipre a
Jerusalém, o que era o caso de Barnabé (At. 4:36, 37)? Além disso, não
era João Marcos bilíngue e não eram acaso também bilíngues seus
superiores, ou ainda poliglotas?
Os três missionários cruzaram até o Chipre via Selêucia, o porto da
cidade de Antioquia sobre o rio Orontes (At. 13:14). Tendo pregado a
palavra de Deus nas sinagogas de Salamina, os missionários
atravessaram toda a ilha, até chegar a Pafos na costa sudoeste. Ali o
famoso mago Barjesus lhes opôs e sem êxito tratou de impedir que o
procônsul Sérgio Paulo escutasse o evangelho. O mago e falso profeta
foi castigado com a cegueira, e dali eles se dirigiram a Ásia Menor.
Então sucedeu algo inesperado: quando chegaram a Perge, na Panfília,
Marcos os abandonou e voltou para Jerusalém (At. 13:13; cf. 15:36–
41)! Isto pôde ter ocorrido no ano 47. Não nos é revelado qual pôde ter
sido a razão exata pela qual Marcos se apartou deles. Foi porque lhe
Marcos (William Hendriksen) 17
desagradou o fato de que seu primo Barnabé cedesse a Paulo a
liderança? Contraste-se “por intermédio de Barnabé e de Saulo” (At.
11:30; 12:25; 13:2, 7), com “Saulo, também chamado Paulo” (At. 13:9),
“Paulo” (At. 13:16), e “Paulo e Barnabé” (At. 13:43, 46, 50, etc.). Sentia
falta de seu lar? Sentia-se preocupado pela segurança de sua mãe? Tinha
receios pela oferta de salvação que se fazia a judeus e gentios sem
distinção?
Têm sido oferecidas todas estas respostas. Ou seria talvez as
dificuldades vinculadas ao o trabalho missionário numa terra estrangeira,
os rigores da região montanhosa, seus terrores e perigos? (cf. 2Co.
11:26). O autor do presente comentário pensa que se alguma destas
respostas é factível, a última é a mais razoável. De acordo com At.
15:38, Paulo considerou Marcos como um desertor, alguém cujo coração
se acovardou por causa do “trabalho” que era preciso enfrentar. E não
implica At. 15:40 que se a igreja tomou partido com alguém deles, fê-lo
ficando do lado de Paulo? Em todo caso, o relato inspirado não nos deixa
a impressão de que Marcos fosse totalmente inocente quando voltou para
casa, deixando Paulo e Barnabé em momentos difíceis.
Depois da primeira viagem missionária e da conferência de
Jerusalém, Barnabé teve a ideias de levar Marcos na segunda viagem,
mas Paulo recusou categoricamente aceitar a ideia. Assim que,
“Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre” (At.
15:39b). Depois de At. 15:39, Lucas não volta a mencionar a Marcos, e
nem mesmo ao querido Barnabé (15:25).
Isto significa que o livro de Atos (e na realidade, todo o Novo
Testamento), não entrega nenhuma informação a respeito de Marcos,
nem sequer implícita, em relação aos dois longos períodos que
respectivamente cobrem os anos 31 a 43 e 52 a 59. Simplesmente, não
sabemos onde esteve nem o que fazia. Os incidentes que temos descrito
pertencem inteiramente aos anos 30, 44–47, 50/51. E as únicas
referências até aqui são Mc. 14:51, 52 (provavelmente); At. 12:12, 25;
13:5, 13; 15:37–39.
Marcos (William Hendriksen) 18
Oferece a “tradição” extra-canônica alguma informação confiável a
respeito de Barnabé e Marcos depois que atracaram a ilha de Chipre?
Realmente não existe, porque o livro chamado Os Atos de Barnabé é
uma obra espúria. Este é um escrito atribuído a Marcos (!), embora foi
escrito com data muito posterior. Segundo este documento, depois que
Barnabé sofreu o martírio em Chipre, Marcos plantou a bandeira de
Cristo em Alexandria. Fontes do mesmo tipo afirmam que chegou a ser o
primeiro bispo da igreja de Alexandria — uma tradição bastante popular
—, posição que ocupou até o oitavo ano do reinado de Nero. Visto que
Nero governou de 54 a 68, seu oitavo ano seria o 61. Entretanto, os
renomados pais alexandrinos Clemente e Orígenes nada dizem
absolutamente a respeito de alguma atividade ou de sequer a presença de
Marcos em Alexandria.
Voltando agora às Escrituras, única fonte de confiança, a única
coisa que dão a entender claramente com relação a Barnabé são duas
coisas: Primeiro, o que nos informa mediante os relatos a respeito dos
primeiros anos (veja-se At. 4, 9, 11–15; e segundo Gálatas, que quando
Paulo escreveu 1 Coríntios 9:6 (ao redor do ano 57 d.C.), Barnabé, primo
mais velho de Marcos, obviamente ainda vivia. Por certo, o nome
“Barnabé” também se encontra em Colossenses 4:10, mas somente para
indicar sua relação com Marcos: eram primos.
Ao redor da data mencionada acima, ou seja, “o oitavo ano do
reinado de Nero”, ou talvez um ano depois, Paulo escreve as epístolas
conhecidas como Colossenses e Filemom. Um dos que o acompanham é
Marcos, quem havia tornado a ganhar a confiança de Paulo. Durante seu
primeiro encarceramento, o apóstolo faz um comentário a respeito dos
judeus: “Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de
Barnabé … Jesus, que se chama Justo, os quais são da circuncisão. Estes
unicamente são os meus cooperadores para o reino de Deus, os quais se
têm tornado a minha consolação” (Cl. 4:10, 11, TB; cf. Fm. 24; veja-se
CNT sobre estas passagens). Embora Paulo, em certo sentido, rejeitasse
Marcos (William Hendriksen) 19
Marcos em outro tempo, aqui Marcos aparece como um consolo para ele,
um colaborador valioso, altamente estimado e bem amado!
Pedro se achava em Roma, quando Paulo saiu da prisão e visitou
várias congregações de seu estendido domínio espiritual (veja-se CNT, 1
e 2 Timóteo e Tito, pp. 48, 49). Ali Pedro escreveu a carta que se
conhece como a “Primeira epístola de Pedro”, a qual se dirige aos
expatriados ou estrangeiros dispersos pelo Ponto, Galácia, Capadócia,
Ásia e Bitínia, escolhidos segundo a previsão de Deus o Pai (1Pe. 1:1,
2a). Ao despedir-se em sua carta, diz a todos: “Saúda-vos a igreja que
está em Babilônia, eleita convosco, e o mesmo faz meu filho Marcos”
(1Pe. 5:13, TB). A data é talvez ao redor do ano 63. Não pode ter sido
mais tarde que o ano 64, porque provavelmente foi no final desse ano
que Pedro sucumbiu, vítima da ira de Nero. Não nos é indicado o próprio
termo “meu filho” que a instrução e supervisão paternais de Pedro
vinham há muito tempo? Não é possível que mesmo antes de Pedro ter
escrito isto, tivesse havido frequentes contatos entre ele e João Marcos?
Não é verdade que Pedro era precisamente aquele que soube por
experiência própria que sempre há esperança para aqueles que de um
modo ou outro sucumbem à tentação de não ser totalmente leais a Cristo
e à Sua causa? Parece, pois, que a soberana graça de Deus usou a
“carinhosa tutela de Barnabé” (F. F. Bruce), a firme disciplina de Paulo e
a poderosa influência de Pedro, para triunfar sobre a vida de Marcos.
É claro, então, que durante alguns anos — provavelmente 61–63 ou
64 — o ministério de Marcos se desenvolveu em Roma, a capital do
mundo. Ao que parece, depois do martírio de Pedro, Marcos voltou a ser
assistente de Paulo. O apóstolo enviou Marcos e Timóteo para
realizarem uma excursão pelas igrejas da Ásia Menor. Possivelmente no
ano 66 e um pouco antes de sua morte, Paulo escreve a última epístola
que conhecemos de sua pena. Como Timóteo e Marcos ainda se
encontravam na Ásia Menor, Paulo escreve a Éfeso (veja-se CNT, 1 e 2
Timóteo e Tito, p. 53). Em sua carta diz a Timóteo “Toma contigo
Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério” (2Tm. 4:11b). Em
Marcos (William Hendriksen) 20
contraste com Demas, que foi aquele que o abandonou (2Tm. 4:10a),
Marcos voltou para Paulo!
Afinal de contas, quem foi Marcos? Não foi um grande líder, mas
antes, um seguidor. Não foi um perito arquiteto, e sim um auxiliar. Não
foi um homem irrepreensível, e sim aquele que teve que lutar para poder
vencer suas fraquezas; não era sedentário, e sim um viajante constante;
não era acima de tudo contemplativo, e sim um homem de ação, alguém
que se deleitou em descrever a Cristo em ação, para o bem da salvação
dos pecadores para a glória de Deus.
Embora seja verdade que Marcos escreveu o Evangelho mais breve
de todos, que nunca alcançou a popularidade dos outros três evangelistas
e que nunca é citado com a mesma frequência que aos outros, devemos
cuidar-nos contra tê-lo em pouco. Na igreja primitiva costumava-se
associar os quatro Evangelhos com quatro rostos: rosto de homem, de
leão, de bezerro e de águia. Estes eram os rostos dos seres viventes
descritos em Ezequiel 1:6, 10 (cf. Ap. 4:7). O rosto de “homem” com
frequência era associado (embora nem sempre) com Mateus; o “bezerro”
com Lucas, a “águia” com João. Quanto a Marcos, as autoridades não se
puseram de acordo. Embora todos descobriram neste Evangelho um
quadro verdadeiro de Cristo, ao lê-lo alguns lembravam o veloz voo da
águia, outros ao poderoso leão, outros ao homem humilde e outros ao
bezerro sacrifical. 2 Num sentido, todos estavam certos!
A seguir apresentamos a evidência que respalda a afirmação de que
Marcos realmente foi o escritor deste Evangelho, o mais breve.
Eusébio escreveu a começos do quarto século d.C. Em sua história
eclesiástica (Madri: BAC, 1973), II.xiv. 6–xv.2, declara: “Efetivamente,
pisando os pés [os de Simão, o mago] durante o império de Cláudio [41–
54 d.C.], a providência universal, santíssima e muito amante dos
homens, ia levando pela mão até Roma, como contra um tão grande
açoite da vida [quer dizer, contra Simão, o mago, quem tinha fugido a

2
Veja-se A. B. Swete, The Gospel according to St. Mark (Londres, 1913), pp. xxxvi–xxxviii.
Marcos (William Hendriksen) 21
Roma onde se erigiu uma estátua em sua honra] o firme e grande
apóstolo Pedro, porta-voz de todos os outros por causa de sua virtude.
Como nobre capitão de Deus, equipado com as armas divinas, Pedro
levava do Oriente aos homens do Ocidente a boa nova da própria luz, da
doutrina que salva as almas: a proclamação do reino dos céus.
“Assim é como, por habitar entre eles a doutrina divina, o poder de
Simão [o mago] extinguiu-se e se reduziu a nada em seguida, junto com
ele mesmo. Pelo contrário, o resplendor da religião brilhou de tal
maneira sobre as inteligências dos ouvintes de Pedro, que não ficavam
satisfeitos ouvindo-o uma vez, nem com o ensino não escrito da
pregação [querigma] divina, mas sim com todo tipo de exortações
importunavam a Marcos — de quem se diz que é o Evangelho e que era
companheiro de Pedro — para que lhes deixasse também um memorial
escrito da doutrina que pessoalmente lhes tinha irradiado, e não o
deixaram em paz até que o homem o acabou, e desta maneira se
converteram em causa do texto chamado Evangelho de Marcos.
“E dizem que o apóstolo, quando por revelação do Espírito soube o
que se fez, alegrou-se pela boa vontade daquelas pessoas e aprovou o
escrito para ser lido nas igrejas. Clemente cita o fato no livro VI de seus
Hypotyposeis, e o bispo do Hierápolis, chamado Papias, o apoia também
com seu testemunho. De Marcos faz menção Pedro em sua primeira
carta; dizem que esta a compôs na própria Roma e que ele mesmo
[Pedro] dá-o a entender nela ao chamar tal cidade, metaforicamente,
Babilônia, com estas palavras: Aquela que se encontra em Babilônia,
também eleita, vos saúda, como igualmente meu filho Marcos”.
Orígenes viveu um pouco antes (seu apogeu durante 210–250 d.C.).
Eusébio o cita como segue: “O segundo foi o Evangelho de Marcos,
quem o fez como Pedro o tinha indicado, o qual, em sua Carta católica,
proclama-o até como filho dele, com as seguintes palavras: Aquela que
se encontra em Babilônia, também eleita, vos saúda, como igualmente
meu filho Marcos” (op. cit., VI.xxv.5).
Marcos (William Hendriksen) 22
Podemos retroceder ainda mais, e mencionar Clemente de
Alexandria (em seu apogeu durante 190–200 d.C.), mestre de Orígenes.
Eusébio cita a obra de Clemente, Hypotyposeis, com estas palavras:
“Que o Evangelho de Marcos teve a seguinte origem: achando-se Pedro
em Roma, pregando publicamente a doutrina e explicando o Evangelho
pelo Espírito, os que estavam presentes — e eram muitos — exortaram a
Marcos, visto que o seguia desde fazia longo tempo e se lembrava do
que havia dito, a que o pusesse por escrito. Depois de o fazer, distribuiu
o Evangelho a quantos o pediam. E ao inteirar-se Pedro, nem o impediu
nem o estimulou” (VI.xiv.6, 7).
Tertuliano (em seu apogeu durante 193–216), em seu tratado
Contra Marcião, diz: “Pode dizer-se que o Evangelho que Marcos
publicou pertence a Pedro, cujo intérprete foi Marcos” (IV.5).
Irineu foi contemporâneo de Clemente de Alexandria e de
Tertuliano. Eusébio cita sua obra Contra as heresias III.i.1, dizendo: “…
Pedro e Paulo estavam em Roma, evangelizando e pondo os alicerces da
Igreja. Depois da morte destes [lit. depois da partida destes], Marcos, o
discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito, ele também, o
que Pedro tinha pregado” (V.viii.2, 3).
O Fragmento do Muratori consiste numa lista incompleta dos livros
do Novo Testamento. O fragmento está escrito num latim pobre e deve
seu nome ao cardeal L. A. Muratori (1672–1750), que o descobriu na
Biblioteca Ambrosiana de Milão. O fragmento pertence aos anos 180–
200 d.C. e tem bastante importância para a história do cânon do Novo
Testamento. Infelizmente é só um “fragmento” incompleto que perdeu o
que o original continha referente a Mateus. Contudo, definidamente dá
por sentada a existência e reconhecimento dos quatro Evangelhos. A
linha fragmentada que resta e que agora constitui o princípio da lista, diz
o seguinte com relação ao Evangelho de Marcos: “… no qual não
obstante se achava presente, e assim o colocou”. Em vista de todos os
outros testemunhos citados (Eusébio, Orígenes, Clemente de Alexandria,
Tertuliano, Irineu, etc.) seria muito precipitado sustentar que o autor
Marcos (William Hendriksen) 23
desta lista de livros não se estivesse referindo ao Evangelho segundo
Marcos.
Nos meados do segundo século d.C., Justino Mártir escreve: “E
quando se diz que a um dos apóstolos pôs o novo nome de Pedro e, além
disso, que a outros dois irmãos lhes pôs o nome do Boanerges, que
significa filhos do trovão, isto é um anúncio do fato de que, etc.”
(Dialogue with Trypho CVI). Isto mostra claramente que Justino tinha
lido o Evangelho segundo Marcos, porque é o único lugar onde se acha o
termo Boanerges, e onde, em imediata sucessão, menciona-se aquele que
a Simão, Tiago e João lhes acha posto outro nome (Mc. 3:16, 17).
É provável que já na primitiva data de 125 d.C., os quatro
Evangelhos estivessem reunidos numa coleção para seu uso nas igrejas,
indicando-se seus títulos. “Segundo Marcos” foi o título do mais breve
dos quatro.
Papias, discípulo do “presbítero João” (com toda probabilidade o
apóstolo João), parece ter nascido entre os anos 50 e 60 d.C., e ter
morrido pouco depois de mediados do segundo século. Ao investigar a
respeito da peregrinação de Cristo sobre este mundo, Papias se
interessava mais na “voz viva” ou testemunho oral dos primeiras
testemunhas que ainda viviam, que em documentos escritos (veja-se
Eusébio, op. cit., III.xxxix.1–4). Baseado, então, no que Papias diz ter
aprendido de João, Eusébio o cita um pouco mais adiante, dizendo:
“Marcos, intérprete que foi de Pedro, pôs cuidadosamente por escrito,
embora não em ordem, quanto lembrava do que o Senhor fez. Porque ele
não tinha ouvido o Senhor nem o tinha seguido, mas, como disse, a
Pedro mais tarde, o qual comunicava seus ensinos segundo as
necessidades [de seus ouvintes] e como quem faz uma composição das
sentenças do Senhor, mas de sorte que Marcos em nada errou [ou: não
fez mal] ao escrever algumas coisas tal como as lembrava. E é que pôs
toda sua preocupação numa só coisa: não descuidar nada de quanto tinha
ouvido nem enganar nisso no mínimo que fosse” (III.xxxix.15).
Marcos (William Hendriksen) 24
Portanto, não existe evidência que contradiga o veredito da
tradição, segundo a qual foi João Marcos, primo de Barnabé, quem
escreveu o mais breve dos amplamente reconhecidos quatro Evangelhos.
A evidência estende-se através de vários séculos, desde Eusébio até o
próprio Papias. Vem de todas as regiões: Ásia, África e Europa. Em
outras palavras, a tradição procede do Este (Papias de Hierápolis,
Eusébio de Cesareia), do sul (Clemente de Alexandria, Tertuliano de
Cartago), e do Oeste (Justino Mártir e o autor do Fragmento do Muratori,
de Roma). Às vezes uma testemunha representa duas regiões: o Este e o
Oeste (Irineu da Ásia Menor, Roma e Lyon); o Sul e o Este (Orígenes de
Alexandria e Cesareia). Ortodoxos e heterodoxos, textos gregos antigos e
versões anteriores acrescentam seu peso à mesma conclusão.
Não há dúvida de que há pontos nos quais a tradição varia. Por
exemplo, o papel preciso de Pedro em conexão com a composição do
Evangelho de Marcos ou a data em que o Evangelho foi escrito (a
respeito do qual, veja-se a seção II). Não obstante, todos as testemunhas
concordam em que a pregação de Pedro em Roma teve parte
significativa na produção desta obra. Embora seja razoável pensar que
Marcos tenha consultado várias fontes, tanto orais como escritas, a
tradição estabeleceu sem dúvida que ele foi o “intérprete de Pedro”.
Além disso, o conteúdo do livro confirma esta conclusão. Marcos
registra fielmente os pecados e fraquezas de Pedro, mas omite os
louvores que lhe são dados em outra parte (p. ex., em Mt. 16:17). Às
vezes Marcos menciona Pedro pelo nome (5:37; 11:21; 16:7), quando
Mateus não o faz. Além disso, o Evangelho de Marcos se caracteriza por
sua vivacidade, rapidez de movimento e atenção aos detalhes,
características que se associam facilmente com um Pedro ativo, vivaz e
entusiasta. Veja-se, p. ex., Mc. 1:16–31, 35–38; 5:1–20; 9:14–29; 14:27–
42, 54, 62–72. Em Mc. 1:36 menciona-se os discípulos com estas
palavras: “Simão e seus companheiros”.
Se a única coisa que tivéssemos fosse o Evangelho de Marcos, seria
impossível chegar à conclusão de que se escreveu como resultado (em
Marcos (William Hendriksen) 25
alto grau, ao menos) da pregação de Pedro. Por outro lado, a tradição
nos diz que, sem lugar a dúvida, esta foi a forma em que se escreveu.
Com base neste testemunho é possível, conforme se demonstrou, achar
no próprio Evangelho evidência que confirmam esta conclusão.

II. Consideremos primeiro o “onde” e logo o “quando”

O que se acaba de dizer quanto à relação do Evangelho de Marcos


com Pedro pode-se dizer com referência à sua conexão com Roma.
Embora em nenhum lugar o Evangelho indica ou prova de maneira
definida seu lugar de origem, há evidência interna que confirma as
declarações de Eusébio, Clemente de Alexandria, Irineu, etc. quanto a
que foi escrito em Roma e para os romanos.
O fato de que Marcos tenha traduzido ao grego termos e expressões
semitas como Boanerges (Mc. 3:17), talitá cumi (Mc. 5:41), corbã (Mc.
7:11), Efatá (Mc. 7:34), e Aba (Mc. 14:36), mostra que escrevia para
leitores que não eram judeus. Além disso, o escritor explica os costumes
dos judeus (Mc. 7:3, 4; 14:12; 15:42). Quanto à origem romana deste
Evangelho, observe-se como às vezes traduz do grego ao latim. Por
exemplo, Marcos menciona que as duas lepta (= moeda de cobre) que a
viúva pobre lançou na arca das ofertas eram equivalentes a um
quadrante romano (“quadrante”, Mc. 12:42), e que o aule (“palácio”)
onde os soldados levaram a Jesus era o pretório (residência oficial do
governador, Mc. 15:16).
Marcos é também o único Evangelho que nos informa que Simão
de Cirene era “pai de Alexandre e de Rufo” (Mc. 15:21), aqueles que
evidentemente era bem conhecidos em Roma (veja-se Rm. 16:13).

Marcos descreve a Cristo como um Rei ativo, enérgico, rápido em


Seus movimentos, batalhador, conquistador, um Vencedor sobre as
forças destruidoras da natureza, sobre as enfermidades, os demônios, e
até a morte. A forma em que Marcos fala de Cristo resultaria
Marcos (William Hendriksen) 26
especialmente interessante aos romanos, gente que por sua cobiça de
poder tinha subjugado o mundo. Marcos descreve um Rei que excede a
todo conquistador terrestre. Seu reino é muito mais extenso, sua
armadura muita mais efetiva, e seu governo imensamente mais
duradouro que qualquer que possa originar-se aqui embaixo. Além disso,
Suas vitórias são muito mais honrosas, porque concede aos conquistados
participação na glória de Suas conquistas. O Rei de Marcos é o Rei
Salvador. É o Vencedor que não Se deleita no sofrimento dos vencidos,
mas sofre em lugar deles e para conseguir seu bem-estar eterno (10:45).
Mais difícil é responder à pergunta: quando foi escrito este
Evangelho? Provavelmente é prudente dizer que deve ter sido composto
dentro do período que começa quinze anos antes de mediados do
primeiro século e que termina quinze anos depois de mediados do
primeiro século. Marcos era muito jovem para escrever seu Evangelho
antes do ano 35. Pedro deve ter morrido ao redor do ano 65, depois do
que já não teria podido aprovar “o escrito para ser lido nas igrejas”. 3
Começando com a última metade do período em questão —
portanto, os anos 50–65 — já temos demonstrado que ao redor do ano 63
Pedro e Marcos se achavam juntos em Roma. Em consequência, esta
parece a data ideal para a composição do Evangelho de Marcos. No
entanto, esta data não está isenta de dificuldades. Segundo já se expôs
(veja-se a seção sobre o problema sinótico na Introdução ao Evangelho
segundo Mateus, no CNT), Marcos provavelmente foi escrito antes de
Mateus, e Mateus antes de Lucas. O Evangelho de Lucas, por sua vez,
foi seguido por Atos. Esta cronologia faz com que surja a interrogante de
se não se estaria empurrando parte desta atividade literária muito perto

3
Segundo uma interpretação popular das palavras de Irineu citadas mais acima, Marcos escreveu o
seu Evangelho depois da morte de Pedro. Entretanto, Irineu confirma a quase unânime tradição de que
este Evangelho foi escrito em Roma pelo “intérprete de Pedro”. Além disso, existe muita controvérsia
quanto ao sentido das palavras de Irineu quanto a poder arrojar alguma luz sobre a data em que se
escreveu o Evangelho de Marcos. São muitas as perguntas que se levantam a respeito: Como é
possível que eles tenham fundado a igreja de Roma, ou é acaso que Irineu usa a expressão pondo os
alicerces num sentido pouco usual? O que quer dizer com “a partida destes”?
Marcos (William Hendriksen) 27
do terrível período da guerra dos judeus contra os romanos, com sua
sequela de amargas contendas entre os vários partidos existentes entre os
próprios judeus. Nem Lucas nem Atos indicam que estivesse ocorrendo
algo desta natureza quando estes livros foram escritos.
Sugeriu-se como data os últimos anos da década de cinquenta. O
resumo histórico que apresentamos sobre os eventos de importância nas
vidas de Pedro e de Marcos demonstrou que, pelo que à Escritura
concerne, não existe objeção à hipótese de que em algum momento entre
os anos 52 e 59, Pedro e Marcos tivessem estado juntos em Roma
(excetuando, segundo já se indicou, o ano 58, quando Pedro não se
achava naquela cidade).
Entretanto, tem-se dito que é possível fixar a data em que foi escrito
o Evangelho de Marcos entre os anos 35–50, ou ainda melhor 40–50,
distanciando-nos assim dos anos 50–65. As seguintes considerações
parecem favorecer este ponto de vista:
Primeiro, de acordo com a declaração de Eusébio que citamos mais
acima, foi durante o reinado de Cláudio (41–54 d. C.) que “a providência
universal … ia levando pela mão até Roma … o firme e grande apóstolo
Pedro” e que Marcos, “companheiro de Pedro”, escreveu um registro dos
ensinos de Pedro que chegou a ser o Evangelho segundo Marcos. O que
Marcos escreveu foi a pedido dos ouvintes de Pedro”.
Em segundo lugar, os unciais mais antigos (manuscritos com letras
maiúsculas) e os cursivos (manuscritos de escritura comum) têm
cabeçalhos que nos informam que o Evangelho segundo Marcos foi
escrito 10 ou 12 anos depois da ascensão de Cristo; portanto, entre os
anos 39 e 42.
Em terceiro lugar, o sacerdote espanhol O’Callaghan examinou um
pequeno fragmento de papiro encontrado na cova Nº. 7 perto de Qumran,
e afirma que tal papiro contém Mc. 6:52, 53. O papiro pertence ao
material ao qual se atribui uma data ao redor dos anos 50 d.C., o que
implicaria que o Evangelho foi composto numa data bastante anterior à
data do papiro (50 d.C.). Em consequência, uma data ao redor do
Marcos (William Hendriksen) 28
começo do reinado do imperador Cláudio poderia não estar longe da
realidade. Além disso, demonstrou-se que Pedro e Marcos bem puderam
ter passado algum tempo juntos em Roma naquele período.
A descoberta e identificação deste papiro que contém a passagem-
chave de Marcos, despertou grande interesse entre os estudiosos do
Novo Testamento. As observações que se fazem sobre este fato vão
desde “nada mudou” até “as probabilidades matemática de que o Dr.
O’Callaghan esteja certo são astronômicas”. Da minha parte, recomendo
a leitura dos excelentes artigos por William White, Jr., “O’Callaghan’s
Identifications: Confirmation and Its Consequences”, WTJ, 35 (Outono
1972): pp. 15–20, e “Notes on the Papyrus Fragments from Cave 7 at
Qumran”, WTJ, 35 (Inverno 1963), pp. 221–226.
Conclusão: Quando foi escrito Marcos 1:1 – 16:8? Resposta: em
algum momento entre os anos 40–65 d.C., com o peso da evidência
favorecendo agora a parte mais anterior deste período. Seria muito
precipitado falar de maneira mais definida. Nunca é sábio apressar
conclusões (Is. 28:16b). Referente a Mc. 16:9–20, veja-se o comentário
sobre essa seção.
Podría surgir la siguiente objeción: “Pero si el Evangelio fue escrito
en una fecha tan temprana, Marcos lo compuso cuando todavía era un
poco inmaduro espiritualmente, pues el acto de abandonar a sus
compañeros Pablo y Bernabé ocurrió tan sólo unos años después. ¿No es
verdad que esta situación rebajaría el aprecio que pudiéramos tenerle al
libro escrito por Marcos?”.
No entanto, se aplicarmos esta classe de crítica ao Evangelho
segundo Marcos, também deveríamos fazê-lo a todos os casos.
Estaríamos dispostos a rejeitar os primeiros Salmos de Davi porque
quando os escreveu seu pecado com Bate-Seba e seu subsequente
arrependimento encontravam-se a anos de distância? Olharemos com
desdém ao poderoso e eficaz sermão que Pedro pregou no Pentecostes
porque uns vinte anos mais tarde o homem que o pregou teve um
“comportamento imperdoável” em Antioquia (Gl 2:11–21)? Teremos
Marcos (William Hendriksen) 29
que descartar uma epístola escrita por um irmão do Senhor porque seu
autor teve que confessar que “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg.
3:2)? E lançaremos pela janela o livro de Apocalipse porque quando
João recebeu estas revelações ainda cometia erros em sua conduta
pessoal (Ap. 19:10; 22:8, 9)? Claro que não! O que se aplica a todos os
livros da Bíblia é válido também para Marcos: não atribuímos perfeição
aos homens que os escreveram, e sim atribuímos inspiração plenária ao
produto que, sob a direção do Espírito, eles nos deram.
Por conseguinte, devemos dar lugar à possibilidade de que este
Evangelho tenha sido escrito durante a primeira parte do período 40–65
d.C. Esta data anterior não é de modo nenhum segura. Veja-se P. Garnet,
“O’Callaghan’s Fragments: Our Earliest New Testament Texts?” EQ
XLV, Nº. 1 (janeiro-março 1973): pp. 6–12. Quando escreveu Marcos
este Evangelho? A resposta prudente seria “em alguma data entre o
período 40–65 d.C.”.

III. Por que foi escrito?

A primeira parte desta Introdução demonstrou que, segundo a


tradição, este Evangelho foi escrito em virtude de que os ouvintes de
Pedro em Roma insistiram em que lhes fosse dado um resumo da
pregação de Pedro. Entretanto, isto não significa que todo aquele que
estiver fora dos limites da capital romana tem sido proibido de ler este
livro. Segundo se vê claramente em Mc. 1:37; 10:45; 12:9; 13:10 (e até
em 16:15, seja ou não autêntico), o objetivo deste Evangelho foi alcançar
a todo mundo de fala grega: sua mensagem foi, é, e seguirá sendo de
significação universal.
Uma pergunta bem ao caso seria: Foi o propósito de Marcos só
prover informação ou queria também produzir transformação? Foi seu
propósito, como alguns sustentam, registrar um relato ou incentivar o
leitor a viver para a glória de Deus? Dito de outra forma, como via ele a
Jesus? Via-o só como um personagem interessante, cuja história e obras
Marcos (William Hendriksen) 30
poderosas precisam ser relatadas porque são fascinantes e porque
satisfazem a curiosidade das pessoas? Ou foi que, acima de tudo,
considerou Jesus como o poderoso e vitorioso Rei Salvador, diante de
quem todo ser humano deve render-se com fé sincera? Por certo que esta
última! Sempre se deve ter em mente que Marcos foi “o intérprete de
Pedro”. Agora, toda vez que Pedro pregava, também exortava ao
arrependimento. Sua pregação chegava ao seu clímax na exortação (At.
2:36–40; 10:43), a fim de que mediante o arrependimento e a fé os
homens fossem salvos, para a glória de Deus (At. 11:18). Se este foi o
propósito da pregação de Pedro, foi também de Marcos. Portanto, o
Evangelho de Marcos tem o duplo propósito de ser definidamente
doutrinal e inteiramente prático. Por certo que é uma narração, mas uma
narração com o mais nobre propósito (Mc. 10:45; 12:28–34; 16:16).
Agora, a disposição que tem alguém para render-se a Jesus depende
do que pense dEle. Em outras palavras, a fé sempre está relacionada com
a doutrina. Nem mesmo a narração se acha desprovida de implicações
doutrinais. Primeiro, a Cristologia implícita em todo o Evangelho de
Marcos é que Jesus é perfeitamente humano. O Senhor come (Mc. 2:16),
bebe (15:36), sente fome (11:12), toca as pessoas (1:41) e é tocado por
elas (5:27), entristece-se (3:5) e Se indigna (10:14). O cansaço O leva a
dormir, é despertado (4:38–39), pede que lhe provejam um barco para
que o povo não O aperte (3:9). Por algum tempo exerce um ofício, tem
mãe, irmãos e irmãs (6:3). Como homem, o Seu conhecimento é limitado
(13:32), de modo que se vira para ver quem O tocou (5:30), aproxima-Se
de uma figueira com a esperança de achar fruto amadurecido (11:13).
Possui corpo (15:43) e espírito humano (2:8). Até morre (15:37)!
Entretanto, o Evangelho de Marcos também O descreve como
perfeitamente divino. O “Filho do homem” (Mc. 2:10, 28; etc.) é
também o “Filho de Deus” (1:1; 3:11; etc.). Marcos descreve Alguém
que tem domínio supremo sobre as enfermidades, os demônios e a
morte. Como tal, cura todo tipo de enfermidades, expulsa demônios
(1:32–34), dá vista aos cegos, faz ouvir os surdos, etc. (8:22–26; 10:46,
Marcos (William Hendriksen) 31
52), purifica o leproso (1:40–45) e até levanta os mortos (5:21–24, 35–
43). Exerce poder sobre o reino da natureza em geral, visto que acalma
ventos e ondas (4:35–41), caminha sobre a água (6:48), faz com que uma
figueira se seque (11:13, 14, 20), e multiplica uns poucos pães, de modo
que milhares de pessoas satisfaçam sua fome (6:30–44; 8:1–10). Seu
conhecimento do futuro é tão específico e amplo, que prediz o que
acontecerá a Jerusalém, ao mundo, aos Seus discípulos (cap. 13) e a Si
mesmo (8:31; 9:9, 21; 10:32–34; 14:17–21). Sabe o que há no coração
dos homens (2:8; 12:15) e conhece suas circunstâncias (12:44). Sua
autoridade é tão sobressalente que pronuncia o perdão como somente
Deus e ninguém mais o pode fazer (2:1–12, especialmente versículos 5 e
6). O topo de Sua majestade revela-se em que depois de ser morto, volta
à vida (16:6)!
Pelo que acabamos de ver, devemos responder com um vigoroso
Sim à pergunta de se Marcos descreve a Jesus como objeto da fé. Desde
o começo e segundo a profecia, apresenta “Jesus Cristo o Filho de Deus”
como o Senhor cuja vinda é anunciada por um arauto que Lhe prepara o
caminho (Mc. 1:1–3).
Jesus é aquele a Quem os anjos servem (Mc. 1:13). Seu sangue é o
resgate oferecido a favor de muitos (10:45, cf. 14:24). Batiza com o
Espírito Santo (1:8), é o Senhor até do sábado (2:28), nomeia os Seus
próprios embaixadores (3:13–19), tem o legítimo direito de ser aceito
pela fé, incluindo os de “sua própria nação” (ideia implícita em Mc. 6:6).
Tem autoridade para mandar que os homens O sigam e O recebam (Mc.
8:34; 9:37), é Aquele a quem Davi chama “Senhor” (ideia implícita em
Mc. 12:37), e Aquele que virá outra vez na glória de Seu Pai (Mc. 8:38),
nas nuvens com grande poder e glória, quando enviar os Seus anjos
recolher os Seus escolhidos (Mc. 13:26, 27).
De acordo com este evangelista, Suas duas naturezas (humana e
divina) acham-se em perfeita harmonia. Ao estudar algumas passagens,
não se pode passar desapercebido este fato (Mc. 4:38, 39; 6:34, 41–43;
8:1–10; 14:32–41; etc.).
Marcos (William Hendriksen) 32
O anelo de Marcos é que os homens de todo lugar recebam a Jesus
Cristo, quem é o “Filho do homem” e o “Filho de Deus”, que recebam a
este Rei vitorioso como Salvador e Senhor.

IV. Quais são suas características?

As três características mais óbvias são as de brevidade, viveza e


ordem. Por brevidade entendemos que este Evangelho é muito mais
conciso que os outros. Na Bíblia que tenho diante de mim, Lucas cobre
aproximadamente 40 páginas, Mateus 37, João 29, e Marcos somente 23.
Lucas tem 1147 versículos, Mateus 1068, Marcos (1:1–16:8) tem só 661.
Marcos contém só uma parábola que não se acha em nenhum outro
lugar: a da semente que cresce em segredo (4:26–29). Além disso,
compartilha três parábolas com Mateus e Lucas: o semeador (Mc. 4:3–9,
18–23), a semente de mostarda (Mc. 4:30–32) e os lavradores maus (Mc.
12:1–9). Compare-se isto com as dez parábolas que são peculiares ao
Evangelho de Mateus, seis que compartilha com Lucas, e três com
Marcos e Lucas. Mateus tem dezenove parábolas no total. Lucas tem
dezoito parábolas que só ele registra. Se a este número for acrescentado
as outras nove já mencionadas, chegamos a um total de vinte e sete
parábolas que aparecem em Lucas. 4 Como Marcos omite parábolas que
são bastante extensas, a omissão faz com que este Evangelho seja
grandemente mais curto que os demais, mesmo quando o resto do
material tenha a mesma extensão.
Outro aspecto igualmente importante em relação a isto, é que
Marcos só registra um dos seis grandes discursos que se acham em
Mateus. Só relata o sexto discurso que trata das últimas coisas (Mt. 24 e
25; cf. Mc. 13), e ao fazê-lo, o faz com mais brevidade. Marcos só inclui

4
Não obstante, as parábolas podem ser catalogadas de maneira diferente. Veja-se CNT sobre Mateus,
pp. 29–32.
Marcos (William Hendriksen) 33
partes dos outros discursos, as que com frequência espalha por seu
Evangelho. Mas veja-se também Marcos 4.
Tudo isto significa que a brevidade de Marcos se relaciona
especialmente com as palavras de Jesus. Contudo, não são poucos os
versículos de Marcos que encerram tais palavras, visto que chegam a
278 (alguns versículos têm só uma ou duas delas). As palavras de Jesus
acham-se especialmente nos capítulos 2, 4, 7, 9, 10, e 12. Lucas tem 588
versículos que contêm palavras de Cristo, Mateus tem 640. Em
consequência, estas palavras cobrem o 60% dos 1068 versículos de
Mateus, 51% dos 1147 versículos de Lucas. Mas em Marcos cobrem só
o 42% de seus 661 versículos. Marcos é francamente o Evangelho da
ação. A omissão de tantos ditos de Jesus faz com que este curto
Evangelho possa reter uma série de histórias de milagres quase tão longa
como em Mateus, que é muito mais extenso. Cada um dos primeiros
onze capítulos de Marcos contém o relato de pelo menos um milagre
(Mc. 1:21–28, 29–31, 32–34, 39, 40–45; 2:1–11; 3:1–6; 4:35–41; 5:1–
20, 21–43; 6:30–44, 45–52, 53–56; 7:24–30, 31–37; 8:1–10, 22–26;
9:14–29; 10:46–52; e 11:12–14, 20, 21). Os que se registram em Mc.
7:31–37; 8:22–26 encontram-se unicamente em Marcos. Além disso, em
vários casos, o que se apresenta em Marcos é mais detalhado e gráfico
que o dos outros Sinóticos.
Isto nos conduz à segunda característica deste Evangelho, quer
dizer, a viveza. O estilo 5 de Marcos é faiscante. Não foi acaso intérprete
do vivaz, profundamente emotivo e animado Simão Pedro?
5
Para o vocabulário e estilo do original observe-se o seguinte:
a. H. B. Swete, op. cit., pp. 409–424 tem uma lista das palavras usadas no Evangelho de Marcos.
Em tal lista, as que vão precedidas por um asterisco não se usam em nenhum outro lugar do Novo
Testamento. Destas há aproximadamente 80, sem contar os nomes próprios.
b. Quanto ao estilo, em geral pode-se dizer que Marcos não só tem um estilo mais difuso, mas
também o mais vivo. Mateus tem um estilo mais sucinto e delicado. Lucas é o mais variado dos três
sinóticos.
c. O caráter gráfico da forma de escrever de Marcos se observa no seguinte: vê-se em suas
descrições do olhar de Cristo em várias ocasiões (Mc. 3:5, 34; 10:23; 11:11); nos atos e gestos de
Cristo (Mc. 8:33; 9:35, 36; 10:16, 32); na descrição das emoções e sentimentos do Senhor (Mc. 3:5;
Marcos (William Hendriksen) 34
Portanto, tendo estudado o Evangelho segundo Mateus, não se pode
passar por alto a Marcos pensando, “Este livro não contém quase nada
que não tenha sido dito pelo publicano convertido em escritor”. Por

6:34; 7:34; 8:12, 33; 10:14, 21; 11:12); e na descrição das pessoas que O rodeiam (Mc. 1:29, 36; 3:6,
22; 11:11, 21; 13:3; 14:65; 15:21; 16:7). Às vezes Marcos menciona o número de pessoas, animais,
etc. presentes. Nestas ocasiões os outros Evangelhos quase omitem estes detalhes ou os expressam de
maneira diferente (Mc. 5:13; 6:7, 40; 14:30). As indicações de lugar e tempo abundam neste
Evangelho (Mc. 1:16, 19, 21, 32, 35; 2:1, 13, 14; 3:1, 7, 13, 20; 4:1, 10, 35; 5:1, 20; 7:31; 12:41; 13:3;
14:68; 16:5, por dar só uns exemplos).
d. Outra das características que aumenta a viveza do estilo de Marcos é que com frequência muda o
tempo gramatical dos verbos que usa. Além disso, Marcos com frequência usa um tempo distinto ao
achado em Mateus e/ou Lucas. Exemplos: ἐγγίζουσιν (= “se aproximavam”, Mc. 11:1) versus ἤγγισεν
(= “ao aproximar-se”, Lc. 19:29); no mesmo versículo aparece ἀποστέλλει (= “ele envia”) versus
ἀπέστειλεν (= “ele enviou”). O mesmo sucede com φέρουσιν (= “levaram”, Mc. 11:7) versus ἤγαγον
(= “trouxeram”, Lc. 19:35); no mesmo versículo ἐπιβάλλουσιν (= “põem em cima”) versus
ἐπιρίψαντες (= “puseram em cima”, um verbo sinônimo). Em geral poderia dizer-se que em muitos
casos onde Marcos usa o tempo presente, Mateus e Lucas usam o aoristo ou o imperfeito. Veja-se J.
C. Hawkins, Horae Synopticae, pp. 143–153.
e. Outra diferença chamativa entre Marcos, por um lado, e Mateus e Lucas, por outro, é a
preferência que estes dois últimos têm pela partícula δέ contra a forte inclinação de Marcos pelo uso
de καί. É assim como nas passagens já citadas para mostrar as diferenças de estilo quanto aos tempo
verbais (Mc. 11:1–8, comparado com Lc. 19:29–35), Lucas usa καί cinco vezes para iniciar uma
cláusula ou frase, conquanto Marcos uma dúzia de vezes. Nestes mesmos sete versículos, Lucas usa δέ
três vezes (também uma vez no v. 36 e uma vez no v. 37), mas Marcos só uma vez (também uma vez
no v. 8). Sobre este ponto veja-se também Mc. 16:9–20.
f. Em conexão com o generoso uso que Marcos faz de καί deve mencionar-se também que é
característico que Mateus e Lucas com frequência coloquem um particípio onde Marcos usaria um
verbo finito com καί. Em tais casos, os dois favorecem a subordinação, enquanto Marcos a
coordenação. A respeito da influência semítica em Marcos veja-se Robertson, pp. 106, 118, 119, BDF
§ 321, 353. E veja-se Mc. 13:19, 20.
g. Uma característica que aumenta a faiscante forma de expressão de Marcos é o uso frequente do
advérbio εὑθύ: em seguida, imediatamente (umas quarenta vezes: Mc. 1:10, 12, 18, etc.). Também é
preciso mencionar o uso frequente do discurso direto (em lugar do indireto): “Silêncio! te acalme!”
(Mc. 4:39); “Sai deste homem, espírito maligno!” (Mc. 5:8); “Como te chamas?” (Mc. 5:9); “Manda-
nos aos porcos; deixe-nos entrar neles” (Mc. 5:12).
h. Em vista de tudo o que se mencionou, não é estranho que o estilo de Marcos seja enfaticamente
vernáculo. Eis aqui um homem comum que fala à gente comum, em sua maioria sem educação. Usa
um estilo que chama a atenção, uma linguagem que é ao mesmo tempo dele e deles. Não surpreende,
então, que faça uso frequente de diminutivos, tais como θυγάτριον (Mc. 5:23; 7:25); κοράσιον (Mc.
5:41, 42; 6:22, 28); κυνάριον (Mc. 7:27, 28). Marcos adora usar o duplo negativo popular (Mc. 1:44;
5:3; 16:8); não tem medo de empregar uma frase pleonástica (τότε ἐν ἐκειίνῃ τῇ ἡμέρᾳ, Mc. 2:20); e
adora os verbos compostos (Mc. 1:16, 36; 2:4; 5:5; 8:12; 9:12, 15, 36; 10:16; 12:17; 14:40; 16:4, etc.).
Marcos (William Hendriksen) 35
certo, se falarmos de material totalmente novo que não aparece de modo
algum em Mateus ou Lucas, existe muito pouco. Em geral mencionam-
se apenas 31 versículos de Marcos (Mc. 1:1; 2:27; 3:20, 21; 4:26–29;
7:3, 4; 7:32–37; 8:22–26; 9:29; 9:48, 49; 13:33–37; 14:51, 52). Por outro
lado, também é verdade que, em muitíssimas passagens ou parágrafos,
Marcos oferece alguns toques pitorescos que não se acham nos outros.
Não só se trata das passagens recém-mencionadas, porque estas
pinceladas que acrescentam vida ao relato se veem em outros lugares.
Eis aqui alguns exemplos: No deserto, onde Jesus foi tentado, o Senhor
“estava com as feras” (Mc. 1:13). A pregação de João Batista não foi só
negativa. Não só falou sobre arrependimento à concorrência, mas
também acrescentou: “crede no evangelho” (Mc. 1:15). Quando os
pescadores deixaram o seu pai no barco para seguir a Jesus, não o
deixaram recarregado de trabalho, mas o deixaram “com os empregados”
(Mc. 1:20). Ao curar a sogra de Pedro, Jesus não só a tocou, mas
também meigamente “tomou-a pela mão” (Mc. 1:31). Naquela tarde, ao
pôr do sol, “toda a cidade estava reunida à porta” da casa de Pedro (Mc.
1:33). “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar
deserto e ali orava”. Foi onde Pedro e seus companheiros O encontraram,
para lhe dizer que todos O buscavam (Mc. 1:35–37).
A casa onde Jesus proclamava a mensagem se encheu a ponto de
não poder conter mais quantidade de gente; melhor dito: “tantos que nem
mesmo junto à porta eles achavam lugar” (Mc. 2:2).
Num sábado, o Senhor Se encontrava numa sinagoga. Seus
inimigos O olhavam com olhos críticos para ver se nesse dia curaria a
um homem que tinha a mão seca. Nessa oportunidade, “Olhando-os ao
redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração” (Mc. 3:5).
Foi “ao anoitecer” quando os discípulos tomaram a Jesus “tal como
estava” e foram com Ele no barco (Mc. 4:35, 36). Logo “Jesus … estava
… dormindo sobre um travesseiro” (Mc. 4:38). Ele diz ao mar: “Acalma-
te, emudece!” (Mc. 4:39). Pergunta a seus discípulos, “Como é que não
tendes fé?” (Mc. 4:40).
Marcos (William Hendriksen) 36
Marcos relata a história da cura do endemoninhado gadareno com
muito mais detalhe que Mateus e Lucas. Marcos lhe dedica vinte
versículos (Mc. 5:1–20), Lucas quatorze (Lc. 8:26–39) e Mateus sete
(Mt. 8:28–34). Por exemplo, Marcos diz em seu relato que ninguém era
capaz de atá-lo, e acrescenta, “Andava sempre, de noite e de dia,
clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras”.
Os três Sinóticos nos informam que quando Jesus autorizou os
demônios, estes saíram do homem e entraram nos porcos. Ao ser
possessos, os animais se precipitaram barranco abaixo no mar. Marcos
acrescenta que eram “cerca de dois mil” (v. 13) porcos que se afogaram.
O que é certo com relação à cura do endemoninhado, também é válido
no caso da mulher que tocou o manto de Jesus: Não é Mateus (três
versículos, 9:20–22) nem Lucas (seis versículos, Lc. 8:43–48) aquele
que relata a história completa, mas sim Marcos (dez versículos, Mc.
5:25–34). Observe-se especialmente o que Marcos diz a respeito dos
médicos! (Mc. 5:25), o qual é omitido pelo “Dr.” Lucas (Lc. 8:43).
Outros detalhes registrados exclusivamente por Marcos encontram-se em
Mc. 5:29b, 30. Embora Marcos fosse o “intérprete de Pedro” não é
Marcos senão Lucas aquele que inclui a Pedro no relato (Lc. 8:45).
Jesus não pôde fazer “nenhum milagre” em sua própria aldeia (Mc.
6:5). Depois se informa que Herodias “E Herodias o odiava, querendo
matá-lo, e não podia. Porque Herodes temia a João …” (Mc. 6:19, 20).
Quando os apóstolos voltam de sua viagem missionário e informam a
Jesus, ele lhes diz: “Venham comigo vocês sozinhos a um lugar
tranquilo e descansem um pouco” (Mc. 6:30, 31). Em conexão com a
alimentação dos cinco mil, diz-se que a multidão reclinou-se em grupos
“de cem e de cinquenta” (Mc. 6:40; cf. Lc. 9:14). Depois Jesus envia os
discípulos a atravessar de barco à margem oposta. Mais tarde vê que os
discípulos faziam grandes esforços para “remar” (Mc. 6:48; cf. Mt.
14:24).
Jesus entrou “numa casa, queria que ninguém soubesse” (Mc. 7:24).
Quando a mulher siro-fenícia acudiu a Jesus não levou consigo a sua
Marcos (William Hendriksen) 37
filhinha que estava gravemente doente. A mulher roga ao Senhor que
tenha piedade dela e que a cure. Marcos deixa tudo isto claro dizendo
que a mulher “Voltando ela para casa, achou a menina sobre a cama,
pois o demônio a deixara” (Mc. 7:30).
Quando os fariseus discutem com Jesus e Lhe pedem que lhes
mostre um sinal do céu, Jesus “arrancou do íntimo do seu espírito um
gemido” (Mc. 8:12). Os discípulos “no barco, não tinham consigo senão
um só” pão (Mc. 8:14; cf. Mt. 16:5).
Os três discípulos (Pedro, Tiago, e João) discutiam entre si as
palavras de Jesus (Mc. 9:9), e perguntavam-se o que significaria “o
ressuscitar dentre os mortos” (Mc. 9:10). Estes mesmos discípulos,
depois de descer do monte da transfiguração, observaram uma grande
multidão que rodeava os outros discípulos e que “os escribas discutiam
com eles” (Mc. 9:14). Ao ver Jesus, a multidão foi “tomada de surpresa”
(Mc. 9:15). Marcos oferece uma descrição detalhada dos sintomas da
epilepsia e da forma em que o menino foi curado (Mc. 9:18–27). Este
evangelista registra também as notáveis palavras do pai do menino, “Eu
creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Mc. 9:24). Por essa data Jesus
não quis que se divulgasse que viajaria através dos lugares separados da
Galileia (Mc. 9:30). Jesus pergunta aos Seus discípulos o que discutiam
no caminho. Respondem-lhe com silêncio (Mc. 9:33, 34; cf. Mt. 18:1;
Lc. 9:46, 47a). Jesus tomou o garotinho “nos braços” (Mc. 9:36). Lucas
9:49, 50 entrega uma razão que explica por que, um exorcista alheio ao
grupo de Jesus, não devia ser proibido de seguir fazendo o que fazia. A
isto, Marcos acrescenta outra razão (Mc. 9:41; em contraste com Mt.
10:42).
O jovem rico corre até Jesus e se ajoelha diante dEle (Mc. 10:17).
“Jesus, fitando-o, o amou” (Mc. 10:21). Quando diz ao jovem o que tem
que fazer, este “retirou-se triste” (Mc. 10:22; cf. Mt. 19:22; Lc. 18:23).
Então Jesus “olhou ao redor” e, vendo que Seus discípulos estavam
surpreendidos, esclareceu o que havia dito a respeito da grande
dificuldade que experimentam os ricos em seus intentos para entrar no
Marcos (William Hendriksen) 38
reino de Deus (Mc. 10:23a, 24). O Mestre assegura aos que estão prontos
a sacrificar tudo por Ele, que receberão entre outras coisas “terrenas”,
embora tudo isto “com perseguições” (Mc. 10:30). A caminho de
Jerusalém “Jesus ia adiante dos seus discípulos. Estes se admiravam”
(Mc. 10:32; cf. Lc. 9:51b). Não foi só a mãe de Tiago e de João a que fez
um pedido egoísta (veja-se Mt. 20:20), mas também estes dois discípulos
(Mc. 10:35). O nome do cego que foi curado em Jericó era Bartimeu.
Não só era cego, mas também “mendigo” (Mc. 10:46). Marcos 10:49, 50
oferece vivos detalhes quanto à forma em que animaram Bartimeu e a
respeito de sua resposta.
Os discípulos acharam “o jumentinho preso, junto ao portão” (Mc.
11:4). Quando Cristo fez Sua entrada em Jerusalém, a multidão
exclamou: “Bendito o reino que vem …” (Mc. 11:10; cf. Mt. 21:9; Lc.
19:38). Referente à purificação do templo, Marcos diz: “Não permitia
que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo templo” (Mc. 11:16).
“Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!” (Mc.
12:29). O escriba respalda de todo coração o resumo que Cristo dá da lei,
o que motiva palavras de aprovação da parte de Cristo (Mc. 12:32–34).
“Mestre! Que pedras, que construções!” (Mc. 13:1; cf. Mt. 24:1; Lc.
21:5). “Pedro, Tiago, João e André lhe perguntaram em particular …”
(Mc. 13:3, é evidente que este detalhe ele recebeu de Pedro). “Um irmão
entregará à morte outro irmão, e o pai, ao filho …” (Mc. 13:12; mais
vívido que Mt. 24:10; Lc. 21:16). “Quando, pois, virdes o abominável da
desolação situado onde não deve estar” (Mc. 13:14).
Notemos os seguintes detalhes: Em conexão com a unção em
Betânia, Marcos relata que a mulher “quebrando o alabastro, derramou o
bálsamo …” (Mc. 14:3). Quanto às testemunhas que declararam contra
Cristo, quando este foi julgado diante do Sinédrio, diz-se que “os
depoimentos não eram coerentes” (Mc. 14:56). Quando Pedro nega a
Jesus, “e logo cantou o galo pela segunda vez …” (Mc. 14:72; cf. Mt.
26:74b, 75; Lc. 22:60).
Marcos (William Hendriksen) 39
O sedicioso Barrabás também tinha “cometido homicídio” (Mc.
15:7). A multidão pediu a Pilatos que soltasse um prisioneiro (Mc. 15:8).
Pilatos perguntou, “Que farei, então, deste a quem chamais o rei dos
judeus?” (Mc. 15:12; cf. Mt. 27:22). Simão de Cirene era “pai de
Alexandre e de Rufo” (Mc. 15:21; cf. Rm. 16:13). “Ao cair da tarde, por
ser o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado”, quando José de
Arimateia “se atreveu” a apresentar-se diante de Pilatos e lhe pedir o
corpo de Jesus (Mc. 15:42, 43; cf. Mt. 27:57, 58; Lc. 23:50–52; Jo.
19:38). O que Pilatos fez antes de lhe conceder esta petição, detalha-se
em Mc. 15:44.
Foi no dia sábado, depois do pôr do sol, quando Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago e Salomé, compraram especiarias para ungir o
corpo de Cristo (Mc. 16:1; cf. Mt. 28:1). “Diziam umas às outras: Quem
nos removerá a pedra da entrada do túmulo?” (Mc. 16:3). O anjo disse às
mulheres, “Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno” (Mc.
16:6). Depois lhes diz que vão dizer lhe aos discípulos “e a Pedro” (Mc.
16:7, outro recordatório da íntima relação existente entre Marcos e
Pedro; cf. Mt. 28:7). Mas “de medo, nada disseram a ninguém” (Mc.
16:8).
Por último, pareceria que, além de sua brevidade e viveza, o
Evangelho de Marcos é superior quanto à ordem cronológica. Desde
Marcos 1:1 a 6:13, os fatos que Marcos e Lucas relatam desenvolvem-se
de maneira notavelmente paralela. Lucas é o mais longo dos sinóticos,
assim que se em Lucas queríamos localizar um dos relatos de Marcos, só
devemos somar 3 (às vezes 4) capítulos ao número do capítulo onde
ocorre a narração de Marcos. Por exemplo, o relato da cura da sogra de
Pedro está no primeiro capítulo de Marcos (vv. 29–31). Se ao 1
somamos 3, atracamos o capítulo quatro de Lucas, onde se registra o
mesmo evento nos versículos 38–39. Veja-se CNT sobre Mateus pp. 14,
15. Não obstante, deve-se ter em mente que Lucas 7 não registra nenhum
paralelo com Marcos. Tampouco Marcos 7 se acha duplicado em Lucas.
Marcos (William Hendriksen) 40
Em contraste com Marcos, Lucas não se interessava na ordem
cronológica. Por exemplo, Lucas situa o rechaço que Cristo sofreu em
Nazaré no início de seu relato sobre o ministério de Jesus na Galileia,
apesar de que a própria história daquele rechaço (veja-se Lc. 4:23)
pressupõe que quando ocorreu, Jesus já tinha realizado considerável obra
na Galileia. Mateus (Mt. 13:53–58) e Marcos (Mc. 6:1–6) não relatam
este incidente, senão até ter chegado a quase a metade de seus
respectivos livros. De modo similar, ao chegar na metade de seu
Evangelho, Lucas faz várias indicações cronológicas tão indefinidas
(veja-se Lc. 11:1, 14, 29; 12:1, 13; 13:10, 18; 9:51 mas veja-se também
13:22; 17:11), que nos dá a entender claramente que, embora escreva
“ordenadamente” (Mc. 1:3), só busca uma distribuição cronológica
muito geral do material que dirige. Finalmente, quando Lucas coloca o
momento em que se identifica ao traidor (Mc. 22:21–23) depois da
instituição da Ceia do Senhor (Mc. 22:14–20; o que deve contrastar-se
com Mt. 26:20–29; Mc. 14:17–25; cf. Jo. 13:30), é óbvio que não
apresenta seu material em ordem cronológica. E por que teria que fazê-
lo? Lucas teve boas razões para relatar os fatos tal como o fez. Sua
narração ordenada de maneira temática é tão inspirada como o é o relato
de Marcos, que organiza seu material de uma forma muito mais
cronológica.
Quanto a Mateus, também é bastante claro que não procurou
apresentar os primeiros milagres na ordem em que ocorreram (cap. 8 e 9;
veja-se CNT sobre Mateus pp. 29–32). A maldição da figueira com a
respectiva lição que Jesus tirou do incidente, ocorreu parte na segunda-
feira da Semana de Paixão, e parte na terça-feira. Marcos chama a
atenção a este fato cronológico (Mc. 11:11, 12, 19, 20), mas Mateus o
ignora, pois deseja dar a conhecer toda a história de uma vez, num relato
coordenado e ininterrupto (Mt. 21:18–22). Naturalmente que tinha
razões justificadas para fazê-lo. Mas isto confirma a conclusão de que se
desejarmos uma ordem cronológica, devemos ir ao Evangelho de
Marcos, antes que a Mateus ou Lucas.
Marcos (William Hendriksen) 41
Algo muito significativo com relação a isto é o fato que em geral,
quando Mateus se afasta da ordem seguida por Marcos, Lucas o
conserva; e quando é Lucas aquele que se separa da ordem de Marcos,
Mateus o segue. Prova disto se oferece no CNT sobre Mateus, pp. 45–
48.
Pode ver-se que se dá uma clara relação entre Marcos e Mateus,
começando da história de João Batista (Mc. 6:14–29), para continuar
imediatamente na alimentação dos cinco mil (Mc. 6:30–44), e seguindo
até o final em ambos os Evangelhos (veja-se CNT sobre Mateus, p. 33,
34). Uma relação parecida existe entre Marcos e Lucas, começando do
relato em que Jesus recebe as crianças (Mc. 10:13–16) até o final de
ambos os livros (veja-se CNT sobre Mateus, p. 16).
Isto não quer dizer, entretanto, que cada seção de Marcos tem seu
paralelo em Mateus ou em Lucas ou em ambos. Marcos 6:14–16:8 pode-
se dividir em 62 perícopes ou seções que levam seu próprio título cada
uma. Dessas 62 seções, cinco não têm paralelo em Mateus (refiro-me às
seções de Mc. 7:31–37; 8:22–26; 9:38–41; 12:41–44; 14:51, 52). Das 42
seções em que Marcos 10:13–16:8 pode-se dividir, 8 não têm paralelo
claro em Lucas (as seções são Mc. 10:35–45; 11:12–14; 11:20–25;
11:28–34; 13:32–36; 14:3–9; 14:51, 52; 15:16–20. Com relação a Mc.
11:28–34, veja-se CNT sobre Mateus, p. 849, nota 763). Isto significa
que a maioria das seções de Marcos (de Mc. 10:13 em diante), têm
paralelo tanto em Mateus como em Lucas, desenvolvendo-se os três
relatos ao mesmo tempo.
Não se pretende que Marcos tenha sempre disposto as prováveis
seções básicas de seu Evangelho em estrita ordem cronológica. De vez
em quando as indicações de tempo são um tanto indefinidas (Mc. 10:13,
17; 12:1; 14:10). Por outro lado, Marcos não nos oferece um relato sobre
o Nascimento de Jesus. Tampouco cobre o primeiro nem o último
ministério na Judeia. Definidamente não foi o propósito de Marcos
apresentar uma “biografia” ou “vida de Cristo”. Tampouco tratou de
oferecer um resumo dos discursos de Cristo, apresentando-os na ordem
Marcos (William Hendriksen) 42
6
em que foram pronunciados. Tudo o que quer dizer é que, diferente de
Mateus e Lucas, a ênfase cronológica de Marcos nos proporciona uma
guia. Observe-se as muitas indicações definidas referente a tempo e lugar
(Mc. 10:32, 46; 11:1, 11, 12, 15, 19, 20, 27; 13:1, 3; 14:1, 3, 12, 17, 22,
26, 32, 43; 15:1, 22, 33, 42; 16:1, 2; estas, além das que se acham nos
primeiros nove capítulos).
Em conclusão, se buscarmos um evangelho que se caracterize por
ser breve, vívido e com ordem cronológica, nós o encontraremos
especialmente no Evangelho segundo Marcos! 7

V. De que forma está organizado?

O Evangelho segundo Marcos omite o nascimento de Jesus.


Entretanto, o primeiro capítulo expressa a verdade dAquele que afirma
“para isso é que eu vim” do céu (veja-se Mc. 1:38b). Jesus não apenas
nasceu, Ele veio do céu. Não existe uma boa razão para crer que Mc.
1:38 tenha outro significado básico que o de João. 6:38. Jesus veio do
céu com um propósito, e Marcos nos diz com toda clareza que seu
objetivo era “pregar” (Mc. 1:38), “chamar … pecadores” ao
arrependimento (Mc. 2:17), “dar sua vida em resgate por muitos” (Mc.
10:45). Isto é semelhante a “salvar o que se havia perdido” (Lc. 19:10);
“salvar os pecadores” (1Tm. 1:15). Paulo diz, “Jesus Cristo … se fez
pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos”
(2Co. 8:9).
O Pai “enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”
(1Jo. 4:14). Por isso, um bom título (veja-se Jo. 17:4b) para a história
que é narrada em qualquer dos Evangelhos seria:

6
Portanto, mesmo quando a citação de Papias (via Eusébio; veja-se mais acima, na p. 20) não é
inteiramente clara, pode-se dar-lhe uma interpretação que esteja em harmonia com os fatos.
7
A prioridade relativa do Evangelho de Marcos com relação a Mateus e a Lucas já foi analisada no
CNT sobre Mateus, pp. 44–50. Na mesma obra, veja-se também a seção dos três Evangelhos Sinóticos
sob o simbolismo de três rios, pp. 33–39.
Marcos (William Hendriksen) 43
A obra que lhe deste para fazer

As divisões gerais para os três Sinóticos poderiam ser as mesmas,


vale dizer, a obra (ou o trabalho):

I. Começada
II. Continuada
III. Consumada

Usando uma fraseologia levemente diferente:


I. Seu principio ou inauguração
II. Seu progresso ou continuação
III. Seu clímax ou consumação

Quanto às subdivisões de Marcos, sob cada um destes títulos gerais,


veja-se a tábua de Conteúdo e os esboços que se dão no começo de cada
capítulo.
Marcos (William Hendriksen) 44

I. SEU COMEÇO OU INAUGURAÇÃO:


Mc. 1:1–13
Marcos (William Hendriksen) 45
MARCOS 1
Mc. 1:1–8 - O ministério de João Batista
Cf. Mt. 3:1–12; Lc. 3:4–18; Jo. 1:6–8, 15–28

Embora em muitos aspectos os Evangelhos se assemelham entre si,8


cada um deles tem um ponto de partida diferente. Mateus começa sua
história com o relato da ascendência, concepção e nascimento de Jesus,
acrescentando como foi que Lhe puseram o nome de Jesus. Pelo
contrário, Lucas começa com uma dedicatória e com o relato do
nascimento de João Batista.
Por sua vez, João começa nos lembrando que “o Verbo” (= Cristo)
já existia “no princípio”, isto é, existia desde a eternidade. Esse Verbo Se
fez carne. Qual é o ponto de partida de Marcos e por que? Já se indicou
que Marcos apresenta a Cristo como Rei ativo, enérgico, rápido em suas
ações, guerreiro e conquistador. Agora, a chegada de um rei em geral é
precedida por um arauto, cuja função é lhe preparar o caminho e
proclamar sua vinda. Não surpreende, pois, que o Evangelho de Marcos
comece com uma descrição do arauto, para que aquele que estuda este
Evangelho fique impressionado desde o princípio com o caráter daquele
de quem se anuncia ou proclama.

1. Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.


Embora no original a palavra “principio” não é precedida de artigo,
também poderia ser traduzido “o princípio”. Contudo, mais importante é
o assunto de se as palavras “Principio (ou: o princípio) do evangelho de
Jesus Cristo, Filho de Deus” devem a. construir-se de maneira
independente, como o título de todo o Evangelho, ou se deveriam b.
considerar-se em estreita relação com o que vem imediatamente depois,
8
As referências que damos dos outros Evangelhos são só a modo de comparação, e não se indica o
grau ou quantidade de semelhança. Portanto, as referências dadas não querem dizer que em sua
totalidade Mc. 1:1–8 é paralelo ou similar ao que se diz nos outros evangelhos.
Marcos (William Hendriksen) 46
quer dizer, com “Conforme está escrito … Eis aí envio diante da tua face
o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho … Apareceu João
Batista …”. 9 Em defesa da teoria que toma as palavras como título de
todo o livro, argumenta-se que de acordo com Atos 1:1, Lucas também
considera seu “primeiro tratado” como o princípio do evangelho. Mas
pelo fato de que Marcos talvez não pensava escrever dois livros, é
duvidoso que esta analogia seja válida. Em deterioro da teoria do título,
os argumentos que apresentamos a seguir favorecem o vincular
estreitamente Marcos 1:1 com 1:2–4.
Primeiro, se Mar 1:1 tivesse tido o propósito de ser uma inscrição
ou título de todo o livro não teria sido mais natural escrever “O
evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”, em lugar de “Princípio do
evangelho …”?
Segundo, não é verdade que a palavra “como” (em “conforme está
escrito … ”) indica que o versículo 1 se acha estreitamente relacionado
com o que segue imediatamente (nos vv. 2–4) com referência às
profecias que se cumpriram em João Batista?
Terceiro, deve-se ter em mente que com toda probabilidade Marcos
foi “o intérprete de Pedro”. E quando Pedro proclamou as boas novas em

9
Em favor da primeira posição vem Vincent Taylor, The Gospel According to St. Mark (Londres,
1953), p. 152. Também J. A. C. Van Leeuwen, Het Evangelie naar Markus (Korte Verklaring,
Kampen, 1935), p. 20. Em favor da primeira posição estão também G.C. Morgan, The Gospel
According to Mark (Nova York, etc., 1927), p. 12; e R.C.H. Lenski, The Interpretation of St. Mark’s
and St. Luke’s Gospels (Columbus, 1934), p. 15 da primeira parte deste volume. Embora A. B. Bruce,
The Synoptic Gospels (The Expositor’s Greek Testament, vol. 1, Grand Rapids, sem data), p. 341,
defende a ideia de que as palavras em questão devem tomar-se como uma inscrição para todo o
Evangelho, também considera que se obtém bom sentido, se as conecta com os vv. 2, 3, ou com o v. 4.
E. P. Groenewald, Die Evangelie volgens Markus (Kommentaar op Die Bybel, Nuwe Testament, Vol.
11, Pretória, 1948), p. 21, também favorece a ideia da inscrição (“opskrif’); e assim o fazem muitos
outros.
É muito interessante o ponto de vista de C. R. Erdman, El evangelio de Marcos (Grand Rapids: TELL,
1974), quem concede a possibilidade de que a teoria do título seja correta (p. 22), mas depois liga a
frase com o que se diz de João Batista, (p. 23).
Daqui daí em diante, as citações destes autores se indicarão usando a abreviação conhecida Op. cit.
(opera citato), que quer dizer “na obra citada”.
Marcos (William Hendriksen) 47
casa de Cornélio, também conectou seu princípio com João Batista (At.
10:37). 10
Por último, acaso não é verdade que também Jesus declarou que foi
João Batista quem começou a proclamar que o governo real de Deus
tinha chegado em Seu Filho? (veja-se Lc. 16:16).
Com base em todas estas considerações, parece que o significado
mais lógico do versículo 1 é: “As boas novas a respeito de Jesus Cristo,
Filho de Deus, iniciaram-se com João Batista. Foi João quem, conforme
foi predito, preparou o caminho para o advento de Cristo”.
Houve um tempo em que a palavra euangelion (= evangelho) servia
para indicar a recompensa que se outorgava a quem trazia boas novas.
Mas gradualmente começou ser usado para apontar às próprias boas
novas. Este é obviamente seu significado aqui em Marcos 1:1. O
evangelho é a mensagem de salvação que se dirige a um mundo perdido
no pecado. A parte mais importante destas boas novas não é o que nós
temos que fazer, mas o que Deus já tem feito em Cristo. Uma explicação
mais ampla se encontrará no CNT sobre Filipenses, pp. 94–99.
Agora, este evangelho tem que ver com “Jesus Cristo, Filho de
Deus”. Tanto Marcos como João Batista (anunciado nos vv. 2 e 3) têm
em comum que sempre dirigem a atenção do povo não a eles mesmos,
mas ao Seu Senhor. É assim que Marcos nunca menciona-se a si mesmo
pelo nome, nem no princípio de seu escrito nem em nenhum outro lugar,
nem sequer em Mc. 14:51, 52. Quão parecida é sua humildade à de João
Batista (Jo. 3:30)! Marcos 1:1 dá ao Salvador um título eminente. Seu
nome é Jesus, porque efetivamente “ele salvará” (veja-se Mt. 1:21;
11:27–30; Jo. 14:6; At. 4:12). Ao nome pessoal Jesus se acrescenta o
nome oficial de Cristo, que é o equivalente grego da palavra hebraica
Messias, que significa Ungido (veja-se Is. 61:1; cf. Lc. 4:16–21). Indica
que o portador de tal título foi ungido pelo Espírito Santo. É a unção do
10
Tem-se assinalado que a pregação de Pedro, segundo se mostra em At. 10:34–43, era quase idêntica
à que encontramos no Evangelho de Marcos. Veja-se F. F. Bruce, Commentary on the book of Acts
(The New International Commentary on the New Testament, Grand Rapids, 1964), p. 226.
Marcos (William Hendriksen) 48
Espírito a que separa, comissiona, habilita e ordena a Cristo aos ofícios
de Profeta, Sacerdote e Rei, a fim de levar a cabo o trabalho de salvar o
Seu povo para a glória do Deus Triúno.
Depois de “Jesus Cristo”, acrescenta-se o título “o Filho de
Deus”. 11 Em seu Evangelho, Marcos não só aplica vez após vez este
título a Jesus (além de Mc. 1:1, veja-se também Mc. 3:11; 5:7; 9:7;
14:61, 62; 15:39), mas o título harmoniza com o fato de que através de
todo seu livro, Marcos constantemente atribui a Jesus qualidades e
atividades divinas, mostrando assim que o escritor considera que o
Salvador é efetivamente o Filho de Deus no pleno sentido trinitário (e o
resto das Escrituras confirma este fato. Cf. Is. 9:6; Mt. 28:18; Jo. 1:1–4;
8:58; 10:30, 33; 20:28; Rm. 9:5; Fp. 2:6; Cl. 1:16; 2:9; Hb. 1:8; Ap. 1:8).
Seria muito inconsistente que alguém dissesse que Jesus era sábio e bom,
para logo afirmar que não era Filho de Deus num sentido único, porque
se Jesus não era efetivamente Deus, então suas pretensões eram falsas, e
se eram falsas, de modo algum teria sido sábio e bom. A negação da
deidade de Jesus destrói os próprios alicerces sobre os quais se edifica a
esperança do cristão. 12
De maneira que, o princípio do evangelho — não o Evangelho de
Marcos, mas as boas novas — que fala de Jesus Cristo, o Filho de Deus,
ocorreram tal e
2. Conforme está escrito na profecia de Isaías: Eis aí envio
diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu
caminho.
Marcos nos diz que vai citar Isaías, e isto é o que faz precisamente,
mas não imediatamente. Primeiro, no versículo 2 Marcos cita Malaquias

11
Embora as palavras “Filho de Deus” estão omitidas no importantíssimo manuscrito Sinaítico (ou
Álef) e em outros manuscritos de menor importância, as palavras encontram-se no não menos valioso
uncial Vaticano (ou B) e também no códice Beza (D), e na realidade na grande massa dos
manuscritos” (A. T. Robertson). Parece não existir nenhuma razão sólida para as omitir na tradução.
12
A respeito do tema da negação da deidade de Cristo, veja-se também CNT sobre Mateus, p. 66–69.
Quanto ao debate entre J. R. Straton y C. F. Potter, Was Christ Both God and Man? (livro sobre os
debates entre o Straton e Potter, Nova York, 1924).
Marcos (William Hendriksen) 49
3:1; e logo, no versículo 3 cita Isaías 40:3. A primeira citação esclarece a
segunda. O leitor ou ouvinte primeiro medita no dito por Malaquias e
depois fixa sua atenção nas palavras de Isaías. Isto lhe permite entender
que a “voz” da qual fala a segunda citação não é uma abstração, mas
aponta ao “mensageiro” do Senhor.
Não é só Marcos aquele que usa este método de mencionar pelo
nome uma só de suas fontes, quando na realidade está usando mais de
uma. Mateus faz o mesmo, e com boas razões (veja-se CNT sobre Mt.
27:9, 10). Outro exemplo, 2 Crônicas 36:21 atribui a “Jeremias” palavras
tiradas de Levítico 26:34, 35 e de Jeremias 25:12 (cf. 29:10). Aos que
encontram um problema neste proceder, fazemos-lhes duas perguntas:
Primeira, que direito temos para impor nosso próprio método de citação
aos escritores das Bíblia? Segunda, se por implicação Marcos promete
dar-nos uma coisa (Mc. 1:2a), e logo nos dá duas — uma citação de
Malaquias 3:1 mais uma de Isaías 40:3 — por que nos queixamos?
Quanto às palavras citadas, “Eis aí envio diante da tua face o meu
mensageiro, o qual preparará” (cf. Mt. 11:10; Lc. 7:27), veja-se a
tradução que a LXX faz de Êxodo 23:10. 13 Isto é substancialmente o que
se acha no original hebraico de Malaquias 3:1. O significado de
Malaquias 3:1 é, com toda probabilidade, “Ponha atenção, eu o Senhor
envio o meu mensageiro, para que seja seu precursor, pois você é o
Messias”. Além disso, na análise final o precursor a quem se faz
referência opera num sentido espiritual. Sua tarefa é preparar os corações
dos homens para receberem o Messias. Deste modo, o precursor “aplaina
o caminho” para a primeira vinda do Messias. Mas já que Deus desce a
Seu povo nas duas vindas do Emanuel, fica claro que até a segunda
vinda de Cristo se acha incluída no contexto de Malaquias. Na realidade,
como era comum nos profetas, ainda não se faz uma clara distinção entre
os dois adventos do Senhor. Contudo, Marcos aplica a profecia

13
Entretanto, na segunda linha a LXX lê: “para que te guarde em teu caminho”.
Marcos (William Hendriksen) 50
especialmente à primeira vinda, segundo se demonstra claramente no
versículo 4 (veja-se Mt. 11:13, 14).
Antes de mencionar o nome do arauto e sem nenhuma palavra de
transição, Marcos cita Isaías 40:3, que diz:
3. voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas.
Estas mesmas palavras se acham em idêntica forma em Mateus 3:3
e em Lucas 3:4. Embora idênticas nos três Sinóticos, estas palavras
diferem da forma em que aparecem em Isaías 40:3, tanto no Antigo
Testamento hebraico como na tradução grega da LXX. Poderia explicar-
se a notável identidade que há entre Mateus, Marcos e Lucas, supondo
que Mateus, o ex-publicano, fez sua própria paráfrase das passagens do
Antigo Testamento que se cumpriram no Novo. Esta tradução junto com
outras notas, teria circulado extensamente antes de qualquer dos quatro
Evangelhos ser escrito. 14
Isaías 40:3–5 descreve simbolicamente a chegada do Senhor com o
fim de guiar a procissão dos judeus que voltariam jubilosamente à sua
pátria depois de longos anos de cativeiro. O caminho devia ser preparado
no deserto da Síria, no lance entre Babilônia e Palestina. Era preciso
preparar o caminho para a vinda do Senhor. Assim que a grande voz, um
arauto lhe diz ao povo:
“Preparai o caminho do SENHOR;
endireitai no ermo vereda a nosso Deus”.
Os quatro Evangelhos aplicam a figura do arauto a João Batista em
sua qualidade de arauto de Cristo. Quando o Batista diz “Eu sou a voz
…”, declara que está de acordo com esta interpretação (Jo. 1:23). O

14
Esta é a leitura do texto hebraico. Contudo, nos Evangelhos e no texto da LXX encontramos uma
leitura bastante diferente. Entendemos que a frase “no deserto” modifica a “voz do que clama”, e não
a “preparai o caminho”, como o exige no hebraico a acentuação massorética de Is. 40:3. A construção
tal como aparece no texto hebraico também se apoia no paralelismo: “no deserto preparai” está em
paralelismo com “endireitai … na solidão”. Entretanto, a diferença que vemos entre os Evangelhos e o
texto hebraico não é gravitante, porque é natural supor que aquele que clama no deserto, como porta-
voz dAquele que o envia, deseja que se aplaine o caminho no deserto.
Marcos (William Hendriksen) 51
próprio Jesus estava de acordo (Mt. 11:10). Os judeus voltaram para seu
país a fins do sexto século a.C., mas essa volta do cativeiro só foi um
tipo daquela libertação muito mais gloriosa que estava reservada para
todos os que recebem a Cristo como seu Salvador e Senhor. Em outras
palavras, o que Isaías diz a respeito da voz que clama, não teve seu
cumprimento pleno até que o arauto e o próprio Messias apareceram na
história. 15
Embora saibamos que Marcos refere-se a João Batista nos
versículos 2 e 3, não menciona seu nome até chegar ao versículo
4. Apareceu João Batista no deserto, pregando batismo …
O apropriado de que se aplique Isaías 40:3 à pessoa de João Batista
é evidente pelo seguinte: a. João pregava no deserto (Mc. 3:4); e b. a
tarefa que lhe tinha sido atribuído desde sua infância (Lc. 1:76, 77) e
mesmo antes (Lc. 1:17; Ml. 3:1), foi justamente a de ser arauto do
Messias, um que lhe prepararia o caminho. João devia ser a “voz” do
Senhor para o povo, tudo isto mas nada mais que isto (cf. Jo. 3:22–30).
Como tal, não só devia anunciar a vinda e presença de Cristo, mas sim
insistir com o povo a preparar o caminho do Senhor. Isto queria dizer
que, em virtude da graça e poder de Deus, deviam efetuar uma mudança
completa de suas mentes e corações. Deviam endireitar seus veredas,
isto é, deviam prover ao Senhor acesso livre aos seus corações e vidas.
Deviam endireitar todo o torcido, tudo o que não harmonizasse com a
santa vontade de Deus. Deviam tirar todos os obstáculos que tinham
amontoado no caminho; obstruções tais como a justiça própria e a
presumida complacência em si mesmos (“Temos por pai a Abraão”, Mt.
3:9), a cobiça, a crueldade, a calúnia, etc. (Lc. 3:13, 14).
João pregava no deserto” (Mc. 1:4), “o deserto da Judeia” (Mt. 3:1),
frase que indica as onduladas e más terras localizadas entre as agrestes

15
Não deve nos surpreender que o que se diz de Jeová no Antigo Testamento se refira a Cristo no
Novo. Para casos similares que mostram uma transição desde Jeová a Cristo, veja-se Êx. 13:21, cf.
1Co. 10:4; Sl 68:18, cf. Ef. 4:8; Sl 102:25–27, cf. Hb. 1:10–12; e Is. 6:1, cf. Jo. 12:41. É no Emanuel
que Jeová deve habitar com Seu povo.
Marcos (William Hendriksen) 52
colinas da Judeia pelo oeste, e o Mar Morto e o sob o Jordão pelo este,
estendendo-se rumo ao norte até chegar mais ou menos ao ponto onde o
rio Jaboque desemboca no Jordão. É na realidade uma desolação, uma
vasta extensão ondulante de terra estéril e com gesso, coberta de calhaus,
partes de pedras e rochas. Isoladamente se vê um ou outro matagal, com
serpentes que deslizam por baixo. Não obstante, segundo Mateus 3:5 (cf.
Jo. 1:28) é evidente que o território onde se desenvolvia a atividade de
João se estendia até a ribeira leste do Jordão. Marcos afirma que afinal
de contas, tanto na pregação de Isaías como na de João, “o deserto”
através do qual devia abrir-se caminho para o Senhor é o coração do
homem; coração que está sempre inclinado a todo o mal.
O que se enfatiza com relação a João é que batizava, que era o
Batista. Agora, o novo e surpreendente não era o fato de que batizava,
porque o povo já conhecia o batismo de prosélitos. O surpreendente era,
antes, que o rito que era sinal e selo (Rm. 4:11; cf. Cl. 2:11, 12) de uma
transformação fundamental de mente, coração, e vida fosse requerido até
dos filhos de Abraão! Também eles deviam converter-se, pois Marcos
prossegue: pregando batismo de arrependimento 16 .… Poderia dizer-se
também, “com miras à conversão” (Mt. 3:11). Para ser claros, um adulto
deve converter-se primeiro, antes de que possa receber devidamente o
batismo. Não obstante, também é verdade que por meio do batismo se
estimula poderosamente a conversão. Como poderia ter um efeito
diferente a devota reflexão na graça de Deus que adota, perdoa e
purifica?
A palavra que eu traduzi como “conversão” (nota 16) — traduzida
“arrependimento” na RA e em muitas outras traduções — indica uma
mudança radical da mente e do coração que resulta numa mudança
completa da vida (cf. 2Co. 7:8–10; 2Tm. 2:25). O arrependimento é
indubitavelmente um elemento básico da conversão. Tal conversão é

16
Hendriksen traduz: “batismo de conversão”. Ou: “volta de 180° quanto a mente e coração”. Veja-se
a explicação.
Marcos (William Hendriksen) 53
para remissão de pecados. Quando João batizava, chamava o povo a
confessar os seus pecados (Mt. 3:6). A lei de Deus, a consciência, o
lavamento com água, as palavras do Batista, tudo imprimia na pessoa a
necessidade de confessar-se e ser purificados de seus pecados. O entrar e
sair do Jordão lembrava-lhes que o antigo e pecaminoso “eu” devia ser
enterrado, para que os batizados fossem levantados à uma vida nova.
A palavra “remissão” significa perdão ou demissão. É uma
expressão muito alentadora que nos lembra passagens tais como Levítico
16 (os dois bodes); Salmo 103:12 (“como longe está o oriente do
ocidente”); Isaías 1:18 (“ainda que os vossos pecados sejam como a
escarlata …”); 44:22 (“Desfaço as tuas transgressões como a névoa …”);
55:6, 7 (“…é rico em perdoar”); e Miqueias 7:18 (“Quem, ó Deus, é
semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade e te esqueces da transgressão
…”). A importância deste favor divino, sem o qual é impossível obter a
vida eterna, enfatiza-se também em muitas passagens do Novo
Testamento (cf. Mc. 3:29; Lc. 24:47; At. 2:38; 5:31; 10:43; 13:34, 38;
19:4; 26:18; Ef. 1:7; Cl. 1:14). O próprio João Batista ensinou que para
tirar o pecado era necessário o derramamento do sangue do Cordeiro (Jo.
1:29). Isto estava em completa harmonia com o ensino de Cristo e dos
apóstolos, conforme o indica Marcos e outros escritores do Novo
Testamento (Mc. 10:45; cf. 14:24; Mt. 20:28; 26:28; Lc. 22:20; Jo. 6:53,
56; Rm. 3:25; Hb. 9:22; 1 P. 2:24; Ap. 1:5; 5:6, 9).
Embora Marcos nos informe que “João Batista veio”, não nos diz
quando foi sua primeira aparição pública. A indicação de Mateus quanto
a tempo é também muito indefinida (“naqueles dias”). Para uma
cronologia mais precisa veja-se Lucas 3:1, 2. Bem como Jesus (Lc.
3:23), João tinha uns trinta anos quando fez sua primeira aparição
pública. João era uns seis meses mais velho que Jesus (Lc. 1:26, 36), e o
Senhor provavelmente começou o Seu ministério mais ou menos no final
Marcos (William Hendriksen) 54
17
do ano 26 d.C. Parece que foi no verão daquele mesmo ano que João
Batista começou a pregar às multidões e a batizar.
5. Saíam a ter com ele toda a província da Judéia e todos os
habitantes de Jerusalém.
Multidões saíam para ver e ouvir João, quem não se apartava delas.
Não viviam como ermitão ou recluso. Estava disposto a que as multidões
viessem a ele para ouvi-lo. Na realidade queria servi-las. A este respeito
era diferente dos membros da comunidade de Qumran, daqueles que
ouvimos muito desde que foram descobertos os manuscritos do Mar
Morto. De maneira muito notória, estes homens viviam isolados do
mundo. Diferente deles, o Batista recebia as multidões, não só os
homens mas também as mulheres (Mt. 21:31, 32). Não tratava de ocultar
suas convicções.
Contudo, não é verdade que o relato deixa claro que havia uma
diferença entre ele e Jesus? É verdade que multidões — e na realidade
multidões ainda maiores (Jo. 3:25–30) — acudiriam a Jesus (Mc. 1:32;
2:1, 2, 13; 3:8; 4:1; 5:21; 6:33, 55, 56; 10:1). O Senhor também as
receberia com grande empatia, com coração aberto (9:36). Até chamaria
e convidaria as pessoas (Mc. 8:34; 10:13, 14, 49; cf. Mt. 11:28). Mas
muito mais, o Senhor tomaria a iniciativa e iria ao encontro do povo
(Mc. 1:38; Mt. 14:14). Acaso não tinha vindo do céu para buscar e salvar
os pecadores (Lc. 19:10)?
Quanto às multidões que saíram para ver e ouvir João, são descritas
em linguagem um pouco figurada. A expressão “a região” pode
considerar-se como uma sinédoque, uma figura mediante a qual um
objeto (neste caso, a multidão) é chamado pelo nome de outro com o
qual se acha intimamente associado (neste caso, a região). Como se diz
que a região “saía”, a outra alternativa é considerar o termo “região”
como uma personificação (cf. Sl 114:3, 4; Hc. 3:10). Ao menos uma

17
Para a evidência que apoia esta data, veja-se W. Hendriksen, Bible Survey (Grand Rapids, 1961),
pp. 59–62, 69.
Marcos (William Hendriksen) 55
coisa é clara, que “região” aponta aos habitantes (cf. Jr. 22:29), ou seja,
ao povo da Judeia. Isto harmoniza com “os habitantes de Jerusalém”.
Quanto a “toda” (“toda a região … toda o povo”), trata-se de uma
hipérbole, e como tal inteiramente legítima (cf. Jz. 7:12; 2Sm. 1:23; 1Rs.
14:23; Sl 6:6).
Mateus acrescenta, “e toda a província ao redor do Jordão”. Não
somente os habitantes da Judeia em geral, incluindo os de Jerusalém,
mas também os que viviam a ambos os lados do Jordão, acudiam a João.
Devem ter sido milhares e milhares de pessoas, uma multidão, logo
outra, ainda outra, e assim, etc. O Batista tampouco permanecia
exatamente no mesmo lugar, e sim começando dos arredores do Mar
Morto, parece ter seguido pelo vale do Jordão até chegar a “Betânia, do
outro lado do Jordão” (Jo. 1:28), e um pouco depois, a “Enom, perto de
Salim”. Isto quer dizer que cruzou o rio e chegou a um lugar do lado
ocidental que tinha sete fontes, um lugar de fácil acesso às pessoas de
quatro províncias: Galileia, Samaria, Decápolis, e Pereia (Jo. 3:23). Não
é estranho, então, que alguns dos primeiros discípulos de Cristo,
batizados evidentemente por João, vivessem na Galileia (Jo. 1:35–42).
Quanto às palavras e, confessando os seus pecados, eram batizados
por ele no rio Jordão, veja-se o comentário ao versículo 4.
Descreve-se o modo de vestir e de viver de João. Em palavras do
versículo
6. As vestes de João eram feitas de pelos de camelo; ele trazia
um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.
A vestimenta longa e solta de João, tecida com pelo de camelo,
lembra-nos o manto de Elias, embora haja certa diferença na descrição
(cf. Mt. 3:4 com 2Rs. 1:8). Esta roupa austera pôde haver-se considerado
como símbolo do ofício profético. Zacarias 13:4 (cf. 1Sam. 28:14)
parece assim indicar. De qualquer maneira, aquele traje tosco resultava
adequado para o deserto. Era durável e econômico. Jesus fez menção
especial do fato de que João não luzia roupa fina (Mt. 11:8). O cinturão
de couro grampeado à cintura, não só impedia que o vento levantasse ou
Marcos (William Hendriksen) 56
destroçasse o seu manto, mas servia para ajustá-lo e facilitar a ação. Com
relação a isto, veja-se CNT sobre Efésios 6:14.
O alimento de João era tão singelo como o era sua roupa. Mantinha-
se com gafanhotos e mel silvestre, evidentemente a comida que lhe era
possível achar no deserto. A classe de mel que encontrava de maneira
silvestre não apresenta problemas. Não servia só para adoçar (o açúcar
como nós o conhecemos era coisa raro), mas era um alimento. No
deserto era possível encontrar mel sob as rochas ou nas fendas das
rochas (Dt. 32:13). O papel que jogou o mel silvestre nas histórias de
Sansão (Jz. 14:8, 9, 18) e Jônatas (1Sm. 14:25, 26, 29) é muito
conhecido para entrar em explicações.
Mas gafanhotos! Com apenas pensar em comê-los a gente
estremece. Tirar-lhes as asas e as patas, assar ou cozer seus corpos,
acrescentar-lhe sal e …! Entretanto, é claro por Levítico 11:22 que o
Senhor permitiu — e assim estimulou — os israelitas a comer quatro
tipos de insetos que em nosso país chamaríamos “gafanhotos”. Hoje em
dia ainda há certas tribos da Arábia que os desfrutam. E por que não? A
declaração latino, De gustibus non disputandum est (“gosto não se
discute”), ainda está vigente. Os que gostam de camarões, almejas,
ostras, rãs, e caracóis não deveriam escandalizar-se se alguém gosta de
gafanhotos.
Entretanto, não é necessário pensar que o versículo 6 nos dá um
resumo completo da dieta do Batista. O ponto central que se quer
comunicar é que mediante sua forma de vida singela, evidente na
alimentação e o vestido, João tinha se constituído numa protesto vivo
contra toda forma de egocentrismo e autoindulgência. João atacava a
frivolidade, a indiferença e a falsa segurança com que muitas pessoas se
apressavam para sua destruição.
É verdade que tudo o que João podia fazer era exortar os seus
ouvintes para fazê-los sentir a urgente necessidade de conversão. Se
considerarmos o batismo como um símbolo da purificação que Deus
opera na vida da pessoa (Is. 1:16–18; Ez. 36:25), João só podia realizar o
Marcos (William Hendriksen) 57
rito exterior. Para que os batizados recebessem a essência do que o
batismo significa, requeria-se o poder e a graça de Um mais poderoso
que João. Portanto, não surpreende que Marcos prossiga:
7, 8. E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso
do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias
das sandálias. Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará
com o Espírito Santo.
Nestes versículos, Marcos nos informa que a dupla descrição
comparativa que João nos entrega a respeito de Jesus, indica a. que Jesus
é superior em majestade, “mais poderoso que eu” (v. 7), e b. que sua
atividade é igualmente superior (v. 8). O Batista creu necessário realçar
este contraste entre ele e seu Mestre, porque logo o povo começou a
perguntar-se se talvez não seria João o Cristo (Lc. 3:15; cf. Jo. 1:19, 20;
3:25–36). João 1:19–27 também relata que João rejeitou sem reserva tal
conceito, muito errôneo e repreensível. É verdade que Jesus nasceu
depois de João e que começou o Seu ministério público depois de João
(Lc. 1:26, 36; 3:23). Mas entre Cristo e João Batista existia uma
diferença qualitativa. A diferença entre o Infinito e o finito, entre o
Eterno e o temporal, entre a Luz original do sol e a refletida pela lua (cf.
Jo. 1:15–17).
A fim de sublinhar o contraste que havia entre ele e seu Senhor,
João usa uma ilustração tirada dos costumes de seu tempo. Quando um
amo chegava a casa esgotado de uma viagem e com suas sandálias
cheias do pó do caminho, o servo ou escravo trataria, por todos os meios
possíveis, fazê-lo sentir-se confortável. Naturalmente que este serviço
era também oferecido aos convidados de honra de seu amo. O não fazê-
lo teria levantado críticas muito justas (Lc. 8:44–46). No presente caso,
só fica em relevo o ato de desatar e tirar as poeirentas sandálias da
pessoa honrada. Com leves variações, o Novo Testamento registra em
essência a mesma figura. Quer se fale de desatar as correias das sandálias
(Lc. 3:16; Jo. 1:27), ou inclinar-se (só Marcos acrescenta este detalhe) e
desatar as correias (Mc. 1:7), desatar o calçado (At. 13:25), ou ainda tirar
Marcos (William Hendriksen) 58
as sandálias (Mt. 3:11), a ideia básica é que o subordinado se inclina a
fim de soltar as correias do calçado, levando-o logo para limpá-lo.
Quando o Batista diz que não é digno de desatar as correias das
sandálias de Jesus, está mostrando profunda e autêntica humildade. Isto
será melhor apreciado se tivermos presente que, de acordo com uma
antiga tradição judaica, a diferença entre um “discípulo” e um “servo”
(ou “escravo”) era que o discípulo estava pronto para realizar qualquer
serviço que um criado fizesse, exceto desatar as sandálias de seu mestre.
De modo que, o que aqui se implica são três etapas ascendentes de
humildade:
a. O discípulo está disposto para prestar quase qualquer serviço.
b. O escravo ou o mais humilde dos servos está disposto a prestar
qualquer serviço.
c. O Batista considera-se indigno de prestar o serviço de desatar as
correias do calçado de seu Mestre. Com relação a isto, veja-se CNT
sobre Filipenses 2:3, 5–8 e 1 Timóteo 1:15.
Além disso, João batizava com água, Jesus batizaria com o Espírito.
Jesus faria com que Seu Espírito e seus dons (At. 1:8) fossem
derramados sobre Seus seguidores (At. 2:17, 33), que caíssem sobre eles
(At. 10:44; 11:15). Agora, cada vez que se batiza alguém que foi tirado
das trevas à maravilhosa luz de Deus, o tal também é indubitavelmente
batizado com o Espírito Santo. Entretanto, segundo as palavras do
próprio Senhor Jesus Cristo (At. 1:5, 8), e lembradas pelo apóstolo Pedro
(At. 11:16), esta predição se cumpriu em sentido muito especial no
Pentecostes e na era que com esta data se iniciou. No Pentecostes, a
vinda do Espírito enriqueceu as mentes dos seguidores de Cristo com
uma iluminação sem precedentes (1Jo. 2:20). Suas vontades foram
fortalecidas como nunca antes com entusiasmo contagioso (At. 4:13, 19,
20, 33; 5:29) e seus corações foram inflamados de um afeto ardente que
não tinha precedente algum (At. 2:41–47; 3:6; 4:32).
Marcos (William Hendriksen) 59
Mc. 1:9–11 - O batismo de Jesus
Cf. Mt. 3:13–17; Lc. 3:21, 22; Jo. 1:32–34.

9. Naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galiléia e por João foi


batizado no rio Jordão.
Embora a regra é que Marcos descreva os eventos de maneira mais
detalhada que Mateus, às vezes sucede o contrário, como no presente
caso. Marcos dedica só três versículos a este fato e nada diz a respeito da
objeção que João levantou quando Jesus Se apresenta para ser batizado.
Lucas também omite este detalhe e usa só dois versículos para relatar a
história do batismo de Cristo. Para conhecer toda a história do batismo
de Cristo devemos acrescentar os cinco versículos de Mateus 3:13–17.
A frase de Marcos “naqueles dias”, provavelmente quer dizer “no
topo da atividade batismal de João” (cf. Lc. 3:21). Observe-se a seguinte
diferença: enquanto Mateus declara que em sua primeira aparição
pública, Jesus veio “da Galileia” (ao Jordão), Marcos é mais específico e
diz, “de Nazaré da Galileia”. É possível que Marcos proceda assim pelo
fato de estar escrevendo para os gentios, aqueles que poderia não estar
bem informadas a respeito da geografia da Palestina. Mas não se lhe
deve dar muita importância a isto. A frase “Nazaré da Galileia” também
se acha em Mateus (Mt. 21:11). Ao falar do batismo de Cristo, Mateus
não tinha necessidade de acrescentar “de Nazaré”, porque é onde deixou
a Jesus uns versículos antes (veja-se 2:22, 23, onde se menciona Nazaré
e Galileia). José, pai legal de Jesus, trabalhava como carpinteiro em
Nazaré (Mt. 13:55), e foi onde Jesus cresceu e chegou a ser um adulto,
sendo conhecido como “o carpinteiro” (Mc. 6:3). Aos trinta anos (Lc.
3:23), Jesus deixa Nazaré e empreende sua viagem rumo ao Jordão.
Em linguagem simples, Marcos declara que Jesus “por João foi
batizado no rio Jordão”. Terá sucedido que Jesus desceu até a margem
do rio Jordão, de modo que seus pés foram cobertos pela água, e que
logo João Batista derramou ou aspergiu água sobre a cabeça do Mestre?
Marcos (William Hendriksen) 60
A verdade é que ao Espírito Santo não teve por bem deixar-nos qualquer
detalhe sobre o modo do batismo.
Mas poderia surgir a seguinte inquietação: Sabemos que a água do
batismo simbolizava a necessidade de ser purificado da imundície, quer
dizer, do pecado. Agora, se Jesus não tinha pecado, como é possível que
Aquele que era sem pecado se submetesse ao batismo? Ofereceram-se
várias respostas. Talvez a mais simples poderia ser a melhor: Afinal de
contas, Jesus sim teve pecado, isto é, o nosso. Isaías 53:6 aponta em essa
direção, ao dizer: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas;
cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a
iniqüidade de nós todos”. Isto se confirma pelo seguinte fato: não muito
tempo depois, João viu vir Jesus e, então, disse aos que o escutavam,
“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo. 1:29). Por
conseguinte, ao que parece Jesus exigiu que João O batizasse, porque
tinha tomado a solene resolução de carregar a culpa daqueles pelos quais
havia de morrer. Num sentido, com o batismo Jesus cumpria parte da
tarefa de entregar Sua vida pelas ovelhas (cf. Mt. 20:28; Mc. 10:45; Jo.
10:11; 2Co. 5:21; 1Pe. 3:18). Por último, como o batismo simboliza
render a vida ao Senhor, teria feito sentido todos os outros batismos, se
Cristo não tivesse rendido sua vida? Foi o sacrifício do Salvador aquele
que estabeleceu a base para o perdão dos pecados, um perdão expresso e
selado pelo batismo em favor de todos os que confessam sinceramente
sua indignidade e decidem prosseguir sua futura viagem “de novidade de
vida”.
10, 11. Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito
descendo como pomba sobre ele. Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu
és o meu Filho amado, em ti me comprazo.
Aqui a Trindade Se revela de maneira gloriosa. Depois de ter sido
batizado, imediatamente assim que o Filho começa a sair da água, de
improviso os céus se abrem amplamente e o Espírito desce sobre Ele. O
próprio Jesus vê algo semelhante à uma pomba que, representando ao
Espírito, vai descendo diretamente sobre Ele. Embora nem todos os
Marcos (William Hendriksen) 61
intérpretes concordem, pensamos que o sujeito do verbo “viu” refere-se a
Jesus. 18 Ao submeter-se ao batismo, Jesus tinha confirmado Sua
promessa eterna de levar sobre si os pecados do mundo (Jo. 1:29).
Portanto, como se estivesse profundamente impressionado pela
disposição que Seu Filho tinha para levar o pecado, o Pai proclama, “Tu
és o meu Filho amado, em ti me comprazo”. De maneira comovedora se
expõe a doutrina da Santa Trindade em ação. Os três são Um e isso é o
que dá alento e consolo a todo crente.
Quanto a alguns detalhes, leve-se em conta as seguintes
observações:
Primeiro, surge a seguinte pergunta quanto ao Filho: Jesus era (e é)
divino. Portanto, era desnecessário que o Espírito Santo O ungisse e O
capacitasse para levar a cabo Sua obra?
Resposta: Em Sua encarnação, o Filho divino adotou a natureza
humana, a qual precisa ser fortalecida. Tendo sido capacitado pelo
Espírito, como Mediador divino e humano, foi capacitado a funcionar
em seu tríplice ofício de Profeta, Sacerdote, e Rei. É assim que obteria a
salvação do povo de Deus, para a glória do Deus Triúno. Com relação à
unção, veja-se também Salmo 45:7; Isaías 61:1ss.; 11:1, 2; Mateus
11:27; 28:18; Lucas 4:18; João 3:34; Atos 10:38.

18
Van Leeuwen, Op. cit., p. 25, favorece a ideia de que o sujeito de “viu” é João Batista. É verdade
que João viu tudo o que sucedeu (Jo. 1:32; cf. Mt. 3:16), mas em Mc. 1:10 “viu” pode muito bem
apontar o seu antecedente mais próximo: Jesus.
Quanto às outras passagens, é difícil pensar no próprio Jesus “vendo” o objeto à maneira de pomba
descendo sobre Si e permanecendo naquela posição por algum tempo. O fato de o próprio Jesus ver a
descida da “pomba” entende-se facilmente, como também o fato de que alguém que estivesse perto —
no caso presente João Batista e provavelmente outros — visse o objeto descer e posar-se sobre a
cabeça de Cristo. Portanto, parece que a. em Mt. 3:16 o sujeito de “viu o Espírito de Deus que descia
como pomba e que se posava sobre ele” (minha tradução) é João Batista (cf. Jo. 1:32); mas que b. em
Mc. 1:10 o sujeito de “viu” é o próprio Jesus. Esta dupla conclusão é confirmada pelo fato de que no
contexto de Mateus (Mt. 3:17) o Pai Se dirige a João, não a Jesus (“Este é meu Filho …”); conquanto
no contexto de Marcos (Mc. 1:11) o Pai Se dirija a Jesus, não a João (“Tu és o meu Filho …”).
Naturalmente que a diferença é de pouca importância. Por certo, o que aqui ocorreu era importante
não só para Jesus, mas também para João e para qualquer que tivesse estado presente.
Marcos (William Hendriksen) 62
Segundo, referente ao Espírito: “Por que foi a terceira pessoa da
Trindade representada à maneira de pomba?” Resposta: Talvez com o
propósito de dar a entender a pureza, bondade, serenidade e graça
características que identificam o Espírito Santo. Tanto a opinião popular
como as Escrituras (Sl 68:13; Ct. 6:9; Mt. 10:16) associam estas
qualidades com a pomba.
Sugeria a água do Jordão a necessidade de purificação?
Simbolizado na forma de uma pomba que repousava sobre o Filho, o
Espírito Santo muito bem poderia ter indicado que em Si mesmo e por Si
mesmo, Jesus era o habitado pelo Espírito puro e santo. Mas não apenas
isso, mas também bondoso e pacífico. Os pecados pelos quais devia
morrer não eram Seus próprios, e sim os que Lhe foram imputados.
Terceiro, referente ao Pai: A quem pertencia a voz que exclamou
“Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo? Não se diz quem é
aquele que fala 19 nem tampouco é necessário, porque a própria
fraseologia (“meu Filho Amado”) identifica ao que fala como o Pai.
Além disso, Jesus é o Amado do Pai não só em sua qualidade
messiânica oficial, mas também como Filho por geração eterna, como
Aquele que compartilha plenamente a essência divina junto ao Pai e o
Espírito (Jo. 1:14; 3:16; 10:17; 17:23). Não é possível que exista um
amor mais elevado que o amor que o Pai prodigaliza ao Filho. De acordo
com o adjetivo verbal (agapetos: amado) usado aqui, trata-se de um
amor profundamente enraizado, absolutamente íntegro, tão grande como
o é o coração do próprio Deus. É também tão inteligente e organizado
como o é a mente de Deus. É tenro, vasto, infinito! 20

19
Com relação ao tema da complacência ou boa vontade de Deus, de modo algum a presente
passagem é a única onde se omite o nome de quem a exerce; veja-se, p. ex., Lc. 2:14; Fp. 2:13; e Cl.
1:19, onde o contexto deixa claro a quem se refere. O texto de Ef. 1:3, 5 deixa muito claro de quem se
fala quando se menciona a complacência: “Bendito o Deus e Pai … nos predestinou para ele …
segundo o beneplácito de sua vontade” (CI).
20
Sobre a diferença entre ἀλαπάω e φιλέω e seus respectivos derivados, veja-se CNT sobre João, nota
458.
Marcos (William Hendriksen) 63
No original, as palavras “meu Filho Amado” estão construídas de
tal modo (literalmente “meu Filho, o Amado”), que com a repetição do
artigo se sublinha igualmente o substantivo “Filho” como o adjetivo
“Amado”. Na realidade, por meio de colocar o adjetivo depois do
substantivo e com o artigo definido repetido (“meu Filho, o Amado”),
obtém-se uma espécie de clímax. 21
Além de possuir todas as qualidades que já Lhe atribuímos, este
amor também é eterno, quer dizer, não tem tempo, eleva-se muito acima
das barreiras temporais. Embora alguns não concordem, consideramos
correta a tradução “em quem tenho complacência”. 22 No sereno retiro da
eternidade, o Filho era o objeto do inesgotável deleite do Pai (cf. Pv.
8:30). E embora mediante o batismo o Filho confirmasse o seu propósito
de derramar Seu sangue em favor de um mundo perdido em pecado, este
fato não diminui em nada aquele amor. Isto é o que o Pai está dizendo ao
Filho. Diz também a João … e a todos nós.
Esta é uma passagem cheia de consolo! Aqui não apenas o Filho e
João encontram consolo, e sim cada filho de Deus. Não se trata de que só
o Filho ama tanto os Seus seguidores que está preparado para sofrer por
eles as dores do inferno, mas sim o Espírito também coopera plenamente
fortalecendo-O para essa tarefa, e o Pai, em vez de olhar com desagrado
para Aquele que toma tal tarefa, acha-se tão agradado com Ele, que abre
os próprios céus para que na terra se ouça sua voz de prazerosa
aprovação. 23 Os três se acham igualmente interessados em nossa
salvação, e os três são Um.

21
Véase Robertson, pp. 369, 370.
22
Este é um excelente exemplo do aoristo atemporal. Veja-se Robertson, p. 837; assim também em
Mt. 17:5; Mc. 1:11 e Lc. 3:22.
23
A respeito do tema do batismo de Cristo, veja-se também: A. B. Bruce, “The Baptism of Jesus”,
Exp, 5ta. serie 7 (1898), pp. 187–201; e W. E. Bundy, “The Meaning of Jesus’ Baptism”, JR, 7 (1927),
pp. 56–71.
Marcos (William Hendriksen) 64
Mc. 1:12, 13 - A tentação de Jesus no deserto
Cf. Mt. 4:1–11; Lc. 4:1–13

Ao submeter-Se voluntariamente ao batismo, Jesus afirmou Sua


total disposição em realizar a tarefa que Lhe foi atribuída, ou seja, sofrer
e morrer em lugar do Seu povo. É, portanto, lógico que imediatamente
comece a aflição, que aqui toma a forma de uma tentação. Quando Adão
foi tentado, fracassou. Assim que Cristo, “o segundo Adão” (1Co. 15:45)
agora deve ser tentado. Para os que creem no Senhor, a vitória de Jesus
sobre o tentador anula as consequências que vieram pelo primeiro
pecado de Adão.
De que até o imaculado Jesus pudesse ser tentado, é um mistério
impossível de explicar de maneira perfeitamente clara. A única coisa que
podemos dizer é que Cristo foi tentado em Sua natureza humana, visto
que Deus não pode ser tentado (Tg. 1:13). Jesus não só era Deus, mas
também homem. Assim que, não deveria nos surpreender que depois de
um jejum de quarenta dias (Mc. 4:2 segundo Mateus e Lucas) o convite
para transformar as pedras em pão fosse tentadora. Por certo que isto não
soluciona todos os problemas, porque a escrutinadora e sensível mente
de Cristo deve ter discernido imediatamente que as proposições de
Satanás eram malignas. O assunto da tentação do Salvador está
encerrado em mistério. Mas não é verdade que o mesmo sucede com a
doutrina em geral?
De que Cristo realmente foi tentado ensina-se não somente aqui em
Marcos e as passagens paralelas, mas também em Hebreus 4:15, onde se
diz que Jesus “foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança,
mas sem pecado”, quer dizer, sem sucumbir ao pecado. Entretanto,
Hebreus 4:15 não pode significar que Jesus experimentou o mesmo
processo psicológico de ser tentado que experimenta o ser humano em
geral. No caso do homem, incluindo crentes, primeiro aparece a
tentadora voz ou o sussurro interno de Satanás que insiste com ele a
pecar. Mas também experimenta seu próprio desejo interno (“a
Marcos (William Hendriksen) 65
concupiscência”) que o empurra a ceder à tentação de aceitar a
insinuação do diabo. Assim que, no caso do homem, “seus próprios
maus desejos o arrastam e seduzem” (Tg. 1:14) ao pecado. No caso de
Cristo, o assunto foi diferente. Na tentação de Cristo, Satanás proveu o
estímulo externo, um estímulo que não teve sua origem na alma do
Senhor, mas foi a voz do Maligno. Mas o Senhor carecia da corrupção
ou estímulo interno que incita o pecador a cooperar com aquele que o
prova. Contudo, a tentação foi real. O Senhor sentiu a necessidade, teve
consciência de que Satanás o incitava a satisfazer essa necessidade,
soube que devia resistir ao tentador e lutou dentro do conflito.
Para um comentário mais completo de cada uma das tentações de
Jesus, veja-se CNT sobre Mateus 4:1–11 (veja-se também Lc. 4:1–13). O
relato que Marcos oferece da tentação é tão breve, que não convém
interpretar a apresentação de Mateus (muito mais completa e
cronológica) à luz de algumas primeiras impressões que se obtenham das
limitadas palavras de Marcos. Nem Marcos nem Lucas proveem uma
história que passo a passo ofereça um relato consecutivo. Por outro lado,
Mateus apresenta uma sequência histórica, como se entende claramente
por Mat. 4:2 (“depois”), 4:5, (“logo”), 10 (“então” em RA) e Mt. 4:11
(“Com isto, o deixou o diabo …”). O mesmo se pode deduzir pela
relação interna ou de pensamento que existe entre a primeira e a segunda
tentação.
É à luz destes fatos que prosseguimos com a exposição do relato de
Marcos no versículo:
12. E logo o Espírito o impeliu 24 para o deserto.
Considere-o seguinte:
“E logo …”. Não há intervalo entre a glória do batismo de Cristo
(“Tu és meu Filho Amado”) e as penalidades da tentação. Ocorria aqui o
mesmo que sucederia mais adiante em conexão com a transfiguração de
Cristo: Jesus é o Rei e, ao mesmo tempo, o Servo sofredor, pelo qual se

24
O: o enviou (para ir) ao deserto.
Marcos (William Hendriksen) 66
move de maneira repentina da plena luz às trevas, da sorriso
complacente do Pai ao engano depreciativo de Satanás.
“…o Espírito o impeliu”. Aqui outros traduzem “o empurrou” (CI,
NBE, cf. BJ), “tirou-o” (BP) ou algo similar. É verdade que o verbo que
se usa no original, com frequência significa lançar fora ou expulsar. De
fato, neste mesmo capítulo (Mc. 1), a palavra refere-se à expulsão de
demônios (Mc. 1:34, 39, 43). Jesus também lançou fora ou expulsou do
templo os mercadores (Mt. 21:12); e os lavradores maus lançaram o
herdeiro fora da vinha (Mt. 21:39). Entretanto, quando a palavra se
traduz assim, não é fácil separar dela a ideia de que se está usando uma
força externa a fim de empurrar um objeto relutante, mas esta não
poderia ser a conotação no caso do Senhor. Por conseguinte, seria
melhor traduzir: “o impeliu” (RA), encheu-o de desejo interno, moveu-o
a. Outra possibilidade é reconhecer o fato de que o mesmo verbo grego
usa-se também num sentido mais suave: libertar, enviar, levar (Jo. 10:4;
At. 16:37).
“… para o deserto”. Aqui surgiu a seguinte pergunta: Mas acaso
Jesus não estava no deserto quando foi batizado? Não era no deserto
onde João batizava (Mc. 1:4)? Sugeriu-se, então, que “o deserto” ao qual
foi levado Jesus era muito mais austero e inóspito que o mencionado no
versículo 4. Embora a presença de “feras” (v. 13) poderia dar apoio a
esta teoria, não seria mais razoável ver a solução em Lucas 4:1? Em
outras palavras, o significado poderia ser que Jesus foi levado do Jordão
para o deserto. É inútil tratar de adivinhar a localização precisa da região
desértica onde Cristo jejuou e foi tentado. Foi uma colina de pedra
calcária que há perto de Jericó? Ninguém sabe.
Há um fato que não deve ser esquecido: embora o deserto seja
espantoso, especialmente quando se permanece ali por quarenta dias sem
alimentos, ao mesmo tempo foi o lugar onde Jesus pôde desfrutar da
comunhão com Seu Pai celestial sem que nada o distraísse. Foi também
o lugar de preparação para o desempenho de sua tarefa como Mediador!
(cf. Mc. 1:35; Lc. 5:16.).
Marcos (William Hendriksen) 67
13. onde permaneceu quarenta dias …
Vem-nos à mente imediatamente a experiência de Moisés no monte
Horebe (Êx. 34:2, 28; Dt. 9:9, 18) e a de Elias no mesmo monte (1Rs.
19:8). Eles não apenas jejuaram, mas também Jesus. Somos informados
que Jesus estava sendo tentado por Satanás no deserto. O verbo que
aqui se traduz “tentado” pode ter um sentido favorável: pôr alguém à
prova, a fim de fortalecê-lo espiritualmente. Foi neste sentido que o
Senhor “tentou” Abraão (Gn. 22:1–19; Hb. 11:17; veja-se também Jo.
6:6). Mas como se acrescenta a frase “por Satanás”, fica claro que neste
caso o sentido é que o príncipe do mal fez todo o possível por seduzir
Jesus a pecar. Marcos diz, “tentado por Satanás”; Lucas, “pelo diabo”;
Mateus, “pelo diabo … o tentador”. A palavra grega diabolos significa:
diabo, caluniador, acusador (Jó 1:9; Zc. 3:1, 2; cf. Ap. 12:9, 10) e pela
influência da LXX também quer dizer: adversário (1Pe. 5:8), o que
estritamente falando é o significado de Satanás.
É evidente que Marcos cria na existência de um “príncipe do mal”
pessoal. 25 Assim creram também todos os outros escritores do Novo
Testamento: Mateus (Mat. 4:1, 3, 5, 8); Lucas (Lc. 4:2, 3, 6, 13; 8:12);
Pedro (At. 10:38; 1Pe. 5:8); Paulo (Rm. 16:20; Ef. 4:27; 6:11); o escritor
de Hebreus (Hb. 2:14); Tiago (Tg. 4:7); João (Jo 13:2, 27; 1Jo. 3:8, 10,
12; 5:18, 19; Ap. 12:9; 20:2, 7, 10); e Judas (Jd. 9). O mesmo se pode
dizer de Jesus (Mt. 6:13; 13:39; 25:41; Mc. 3:23, 26; 4:15; 8:33; Lc. 4:8;
10:18; 11:18; 13:6; 22:3, 31; Jo. 8:44). Poder-se-iam acrescentar outras
referências.
Devido ao fato de que Marcos descreve a Cristo como o Rei
vencedor, é apropriado que ele seja quem chama Satanás (=adversário) o
tentador. A batalha, então, vai ser entre o Rei e Seu adversário.
Muitos interpretam a cláusula “onde permaneceu quarenta dias,
sendo tentado por Satanás” como se queria dizer que Jesus foi tentado ao
longo de todos os quarenta dias. Inclusive se argumenta que o grego não

25
Entretanto, Marcos nunca usa o termo diabolos (=diabo), sempre usa Satanás.
Marcos (William Hendriksen) 68
permite nenhuma outra interpretação. Agora, quando se considera esta
cláusula isoladamente e sem considerar o relato de Mateus (que é muito
mais detalhado e cronológico), deve-se admitir que a linguagem que usa
o original admite que seja entendido nesse sentido. Ao mesmo tempo,
também se deve dizer que este não é o único ponto de vista possível. Às
vezes isto é reconhecido até pelos que favorecem a teoria de uma
tentação contínua de quarenta dias. 26 O argumento em defesa de uma
tentação de quarenta dias seria inexpugnável, se a cláusula lesse como
segue: “Quarenta dias esteve sendo tentado, estando no deserto”. Mas tal
como está, o original pode significar: “Quarenta dias esteve no deserto,
onde era tentado”. 27
Rejeitando a teoria dos quarenta dias de tentação e em favor da
segunda construção, pode-se argumentar que:
a. Mateus 4:2, 3, ensina claramente que a tentação por Satanás
começou no final dos quarenta dias de jejum.
b. O relato condensado de Marcos deve interpretar-se à luz do relato
amplo e cronológico que se acha em Mateus, não vice-versa.
Mas mesmo que se adotasse a teoria dos quarenta dias de tentação
contínua, deve-se tomar cuidado de não preencher este período de todo
tipo de produtos da imaginação. Deve ter-se em mente que se houve uma
série de tentações anteriores às três que conhecemos, as Escrituras não
dão nenhum detalhe a respeito.
Só Marcos entrega a seguinte descrição adicional do que sucedeu
enquanto Jesus estava no deserto: estava com as feras … O vale do
Jordão e o deserto adjacente eram conhecidos como guarida de hienas,
chacais, panteras e até leões, os que na antiguidade de maneira nenhuma
eram escassos na Palestina, 28 o que se faz evidente pelo fato de que o
26
Assim, por exemplo, A.B. Bruce afirma que Jesus foi tentado “presumivelmente o tempo todo” (Op.
cit., p. 343). O advérbio “presumivelmente” ou “provavelmente” deixa a porta aberta para uma
interpretação diferente!
27
O mesmo rege com relação a Lc. 4:1b, 2a, onde se deve preferir a tradução de NVI, RA, NBE, em
lugar da tradução que se encontra em LT, VM e CB.
28
Veja-se J.G. Wood, Story of the Bible Animals, Filadelfia, s.f., pp. 19–41.
Marcos (William Hendriksen) 69
Antigo Testamento mencionam leões em dois terços de seus livros. A
região onde Jesus jejuou e foi tentado era, portanto, um lugar
abandonado e perigoso. Um lugar diametralmente oposto ao paraíso
onde foi tentado o primeiro Adão. 29
Marcos conclui a descrição do que sucedeu a Jesus neste tempo
escrevendo: mas os anjos o serviam. A função destes “espíritos
dedicados ao serviço” (Hb. 1:14) é a de prestar serviço de diversas
maneiras (veja-se CNT sobre 1 e 2 Timóteo e Tito, pp. 209, 210). Em
conexão com a história da tentação, qual foi exatamente o momento em
que os anjos prestaram este serviço a Cristo? Neste caso a resposta se
acha outra vez no relato de Mateus, que é mais detalhado e mais
ordenado cronologicamente. Mateus diz: “Com isto, o deixou o diabo, e
eis que vieram anjos e o serviram” (Mt. 4:11). Os anjos O serviram
quando o diabo tinha sido totalmente vencido. O que este serviço
implicava exatamente não se menciona. Talvez o melhor é dizer que, em
geral, o Pai enviou os anjos para prover às necessidades de Seu Filho,
quaisquer que estas tenham sido. Parece razoável inferir que isto também
incluía provisão para o corpo. 30
Marcos não diz nada a respeito do triunfo de Cristo sobre Satanás.
Quanto a isto também dependemos de Mateus 4:1–11 (cf. Lc. 4:1–13).
Mas não sugere o ministério dos anjos que Cristo venceu? Não foram
enviados pelo Pai como recompensa por Sua obediência?

29
G.C. Morgan (Op. Cit., p. 27) imagina uma experiência como a de Francisco de Assis com os
pássaros, e afirma que os animais se reuniram ao redor de Jesus como seu amigo. Mas isto não está
em harmonia com o contexto, o qual enfatiza as dificuldades e as condições terríveis que rodeavam o
Senhor (observe-se as palavras “deserto”, “tentado”, e “feras”). É verdade que μet basicamente
significa entre, na companhia de, mas tal companhia de modo algum é sempre boa e amigável (Mt.
24:51; Lc. 12:46).
30
Alguns sustentam que Marcos tira a ideia das feras e anjos do Sl 91:11–13, onde a promessa de
vitória sobre o leão e o áspide vem imediatamente depois da proteção angélica. Véase S.E. Johnson, A
Commentary on the Gospel according to St. Mark (Londres, 1960), p. 41. Mas não é verdade que esta
analogia é um tanto forçada? O relato de Marcos não fala a respeito de proteção angélica nem de
vitória sobre as feras.
Marcos (William Hendriksen) 70
Nestes dois versículos observamos: a ação do Espírito Santo, a
obediência de Cristo, a presença de feras, a tentação de Satanás, e no
final o serviço que os anjos Lhe prestaram. O fundo do relato sugere a
ausência total de toda ajuda humana e o amor e cuidado providenciais
do Pai, quem enviou os Seus anjos para servi-Lo. A ausência de seres
humanos e a presença destes sete mostram a majestade da figura central:
Jesus Cristo, o grande Rei que ao mesmo tempo era o Servo sofredor.
Tendo obtido a vitória, agora o Senhor pode começar o Seu
ministério de pregar, ensinar, curar e expulsar demônios. Tudo isto O
conduzirá ao triunfo final sobre a morte, o qual obterá ao terceiro dia
com Sua gloriosa ressurreição. Uma seção de grande significado do
Evangelho de Marcos se fecha neste ponto.
Esta primeira seção de Marcos consiste de três parágrafos, os quais
tratam de três temas:
a. O ministério de João Batista (1:1–8),
b. o batismo de Jesus (1:9–11), e
c. a tentação de Jesus no deserto (1:12, 13).
Ministério de João. Tempo: A primeira parte do ministério de João
que aqui se considera, estendeu-se desde mediados do ano 26 d.C. até o
fim desse ano (ou pouco depois). Lugar: o deserto da Judeia e o rio
Jordão. O ministério de João dava cumprimento às profecias (Ml. 3:1 e
Is. 40:3; que Mc. 1:2, 3 cita nessa ordem). O Batista insiste com o povo a
passar por uma mudança espiritual, para que seus pecados sejam
perdoados. Também batizou, porque o batismo era sinal e selo deste
perdão. À luz dos versículos 2–4, o significado do versículo 1
(“Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”) pareceria ser:
“As boas novas a respeito de Jesus Cristo, Filho de Deus, começaram
com João Batista. Tal como foi predito, foi João quem preparou o
caminho para o advento de Cristo”. Sua pregação consistia em proclamar
a necessidade de uma genuína conversão e fé nAquele diante de quem
“nem sequer sou digno de me inclinar para desatar as correias de suas
sandálias”, dizia João. A fim de mostrar que ele, João Batista, era
Marcos (William Hendriksen) 71
incapaz de dar ao povo o que necessitava, acrescenta, “Eu vos batizei
com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”. Estas palavras de
João se cumpriam cada vez que um pecador passava das trevas à luz,
mas se cumpriram especialmente durante a dispensação que começou
com o derramamento do Espírito no Pentecostes.
A resposta ao ministério de João foi assombrosa: Da Judeia,
incluindo Jerusalém, grandes multidões saíam constantemente para
escutar a João. Muitos deles confessavam seus pecados e se batizavam
no rio Jordão. João Batista levava uma forma de vida simples, vestindo
roupa feita de pelo de camelo com um cinturão de couro ao redor de sua
cintura, comendo gafanhotos e mel silvestre. Isto como também o ardor e
franqueza com que chamava as pessoas, devem ter contribuído para
conseguir um resultado favorável, com o qual se preparava o caminho
para que a mensagem de Cristo entrasse nos corações e vidas do povo.
O batismo de Jesus. Tempo: provavelmente ao redor de dezembro
do ano 26 d.C. (ou pouco depois). Lugar: o rio Jordão, o lugar exato não
se conhece. Jesus inaugurou seu ministério solicitando ser batizado por
João. Depois de ser batizado, os céus se abriram e o Espírito Santo
desceu como pomba sobre Ele. Uma voz Lhe falou: “Tu és o meu Filho
amado, em ti me comprazo”.
É verdade que a água do batismo indicava a necessidade de tirar o
pecado. É um fato também que Jesus foi e é o Imaculado. Como então
pôde ser batizado? Resposta: afinal de contas, Ele sim tinha pecado, quer
dizer, o nosso (Is. 53:6; 2 Cor. 5:21).
A tentação de Jesus. Imediatamente depois do batismo, o Espírito
tirou Jesus do Jordão a O levou para o deserto. Ali passou quarenta dias
e foi tentado por Satanás. A região onde teve lugar a tentação era
desolada e perigosa; Jesus estava em meio das feras. Não obstante,
triunfou e foi recompensado, segundo se entende pelo fato de que os
anjos, enviados pelo Pai, O serviam.
Jesus Se submeteu de maneira voluntária ao rito do batismo e
também obedeceu livremente a vontade do Pai e a direção do Espírito
Marcos (William Hendriksen) 72
quando foi tentado por Satanás. Por tudo isto, Jesus, o segundo Adão,
cumpriu a lei que o primeiro Adão transgrediu. Mediante esta obediência
estava indicando claramente que tinha tomado sobre Si o pecado de
todos nós e que estava tirando “o pecado do mundo” (cf. Jo. 1:29). Por
conseguinte, estava preparado para começar Seu ministério de ensinar,
pregar, curar, expulsar demônios e, sobretudo, sofrer e morrer por todas
as “ovelhas” perdidas que poriam sua confiança nEle (veja-se Is. 53:6,
11; Jo. 10:11, 14, 15, 27, 28).
Marcos (William Hendriksen) 73

II. SEU DESENVOLVIMENTO OU


CONTINUAÇÃO: Mc. 1:14 – 10:52
Marcos (William Hendriksen) 74
A. O GRANDE MINISTÉRIO NA GALILEIA: Mc. 1:14-45

Mc. 1:14, 15 - Começo do grande ministério na Galileia


Cf. Mt. 3:2; 4:12; 11:2; 14:3–5; Mc. 6:17–20
Lc. 3:19, 20; 4:14, 15; Jo. 3:24; 4:1–3, 43, 44

14. Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia …
Começa aqui uma nova seção do Evangelho de Marcos. Por um
lado, temos o batismo e a tentação de Cristo (Mc. 1:9–13); por outro,
Sua chegada a Galileia (v. 14). Entre estes dois eventos pôde muito bem
ter passado mais ou menos um ano.31 Mas apesar da distância temporal,
o que o evangelista está prestes a narrar está ligado em sentido com o
ocorrido anteriormente. O que Marcos relata agora está estreitamente
relacionado com o que precede. A preparação e inauguração da obra que
o Pai tinha encomendado ao Filho para fazer tinha chegado ao seu termo.
O começo foi cumprido: João Batista, o arauto, tinha apresentado a
Cristo diante de Israel. Além disso, o próprio Jesus tinha pedido para ser
batizado, e Seu batismo confirmava sua decisão de tomar sobre os Seus
ombros o pecado do mundo. Por último, Jesus tinha demonstrado ser
digno, porque triunfou sobre Satanás no deserto. Isto O transformou em
representante de Seu povo, o segundo Adão que venceu onde o primeiro
Adão tinha fracassado. Portanto, agora nada podia impedi-Lo de realizar
a tarefa que lhe tinha sido atribuída e que voluntariamente assumiu.
O tempo em que Cristo partiu da Judeia para a Galileia (veja-se Jo.
4:1–3, 43) tinha certa relação com o encarceramento de João Batista. O
Mestre abandonou a Judeia e empreendeu viagem para a Galileia,
quando João foi detido (Mc. 1:14) e quando os fariseus, com quartel
31
Este cálculo se baseia no suposto de que a viagem a Galileia, com a qual Jesus começou o grande
ministério galileu que Marcos menciona aqui, é o mesmo de Jo. 4:3, 43. Em João esta viagem foi
seguida pouco depois pelo que provavelmente foi a segunda Páscoa do ministério público de Cristo
(Jo. 5:1). Em consequência, a festa da Páscoa do ano 28 d.C. foi precedida, um ano antes, pela
primeira Páscoa que se menciona em Jo. 2:13, 23. Veja-se também CNT sobre o Evangelho segundo
João, pp. 38, 39, 191, 200, 201; e meu Bible Survey, pp. 61, 62, 69.
Marcos (William Hendriksen) 75
general em Jerusalém, inteiraram-se de que Jesus ganhava e, mediante
Seus discípulos, batizava mais discípulos que João. O Senhor estava
consciente de que Sua grande popularidade nas regiões campestres da
Judeia traria tão intenso rancor da parte dos líderes religiosos dos judeus,
que no curso natural dos fatos este ódio causaria uma crise prematura.
Jesus entregaria voluntariamente Sua vida logo que chegasse o momento
assinalado para Sua morte (Jo. 10:11, 14, 15, 18; 13:1). Nesse momento,
e não antes, Ele teria que fazê-lo. Além disso, a Galileia também tinha
ovelhas perdidas que deviam ser trazidas ao redil.
Assim, Jesus veio para a Galileia pregando o evangelho de Deus,
quer dizer, apregoando ou proclamando as boas novas de salvação como
dom gratuito de Deus para os homens, uma salvação que do começo ao
fim é obra de Deus. Sem dúvida, todo verdadeiro servo de Deus dará a
conhecer o relato, mas Deus (em Cristo) ocupou-Se em prover os fatos
do relato que teria que ser contado. Foi Ele quem proveu o caminho da
salvação, fora do qual todo homem está eternamente perdido. Estas boas
novas, portanto, constituem com toda propriedade “o evangelho de
Deus”. Que melhor comentário poderíamos achar que a seguinte lista de
passagens: Jo. 3:16; Rm. 8:3, 32; 2Co. 5:20, 21; Gl 4:4, 5; Ef. 2:8–10;
Tt. 3:7?
15. dizendo: O tempo está cumprido, …” (cf. Gl 4:4; Ef. 1:10). O
tempo apropriado ou a oportunidade favorável 32 tinha chegado para o
cumprimento das promessas redentoras de Deus e para a promulgação do
evangelho. A hora para o cumprimento de Isaías 9:1, 2 33 tinha chegado.
Em consequência, Jesus diz: e o reino de Deus está próximo. Observe-
se “reino de Deus”, onde Mateus geralmente diz “reino dos céus”.
Basicamente o significado é o mesmo. Então, o que Jesus está dizendo é

32
Note-se que se diz: “καιρός está cumpridi”. Diferente de χρόνος, καιρός considera o tempo da
perspectiva da oportunidade que brinda e não simplesmente como um passo do passado ao presente e
ao futuro. Assim, καιρός não indica só duração. Veja-se R.C. Trench, Synonyms of the New Testament
(Grand Rapids, 1948), # lvii.
33
Veja-se CB, mas não se tome em conta a má tradução de Is. 9:1 que entrega Reina-valera 1909.
Marcos (William Hendriksen) 76
que o reinado de Deus começaria a fazer-se sentir nos corações e vidas
do povo de uma forma muita mais poderosa, como nunca antes. Havia
grandes bênçãos preparadas para todos aqueles que, pela soberana graça,
confessariam e abandonariam seus pecados, para começar a viver para a
glória de Deus.
Em sua conotação mais ampla, as expressões “o reino de Deus”, “o
reino dos céus” ou simplesmente “o reino” (esta última quando o
contexto deixa claro que se refere ao reino de Deus) indicam o reinado,
governo ou soberania de Deus, quando são reconhecidos-nos corações,
quando estão operações na vida do povo de Deus, quando levam a cabo a
completa salvação dos crentes, quando os converte em igreja e
finalmente num universo redimido. Passemos agora a ilustrar estes
quatro conceitos:
a. O reinado, governo ou soberania reconhecida de Deus. Este pode
ser o significado em Lucas 17:21, “O reino de Deus está dentro de vós”,
e é o significado em Mateus 6:10, “Venha o teu reino, seja feita a tua
vontade …”
b. Completa salvação, quer dizer, todas as bênçãos espirituais e
materiais para a alma e o corpo. Isto vem quando Deus é o Rei em
nossos corações, e é reconhecido e obedecido como tal. O contexto
mostra que este é o significado em Marcos 10:25, 26, “É mais fácil …
que um rico entre no reino de Deus. E … disseram, Então, quem pode
salvar-se? ”
c. A igreja: a comunidade de pessoas em cujos corações Deus é
reconhecido como Rei. Reino de Deus e igreja quando usados neste
sentido são quase equivalentes. Este é o significado em Mateus 16:18,
19, “… sobre esta rocha edificarei a minha igreja … te darei as chaves
do reino dos céus.”
d. O universo redimido: o novo céu e a nova terra com toda sua
glória; algo ainda futuro: a realização final do poder salvador de Deus.
Assim é em Mateus 25:34, “… herança o reino preparado para vós”.
Marcos (William Hendriksen) 77
Estes quatro significados de reino não estão separados nem alheios
um do outro. Todos procedem da ideia central do reino de Deus, sua
supremacia na esfera do poder salvador. O reino ou reinado (a palavra
grega tem ambos os significados) dos céus é como o desenvolvimento
gradual da semente de mostarda; portanto, presente e futuro (Mc. 4:26–
29). É presente: estude-se Mt. 5:3; 12:28; 19:14; Mc. 10:15; 12:34; Lc.
7:28; 17:20, 21; Jo. 3:3–5; 18:36. É futuro: estude-se Mt. 7:21, 22;
25:34; 26:29.
Jesus falou da obra de salvação como o reino ou reinado do céu, a
fim de indicar o caráter, origem e propósito sobrenatural de nossa
salvação. Nossa salvação começa no céu e deve redundar para a glória
do Pai que está no céu. Portanto, ao usar este termo Cristo defendeu
aquela verdade, tão preciosa para todos os crentes, que tudo está
subordinado à glória de Deus.
Em consequência, Mateus 4:14–16; 11:4, 5 e Lucas 4:18–21 seriam
um excelente comentário às palavras: “O tempo está cumprido, e o reino
de Deus está próximo”. É fácil entender por que Jesus diz “está
próximo”, porque quando estas palavras foram ditas o trabalho de Cristo
de pregar, ensinar, e curar na Galileia e seus arredores logo começava.
Jesus prossegue: arrependei-vos * e crede no evangelho. Compare-
o que disse João Batista: “Arrependei-vos, porque o reino dos céus está
próximo” (Mt. 3:2; veja-se também Mc. 1:4) com o que disse Jesus:
“arrependei-vos e crede no evangelho; arrependei-vos …”. O significado
é o mesmo. Na realidade, no Evangelho de Mateus as mesmas palavras
são atribuídas tanto a João (Mt. 3:2) como a Jesus (Mt. 4:17).
Basicamente, então, o evangelho de ambos era o mesmo. João foi fiel em
sua tarefa de preparar o caminho.
Algumas versões traduzem “arrependei-vos” (NVI, RA, RC, TB), o
que enfatiza só o aspecto negativo da mudança que se requer. Embora
esta tradução não seja a melhor, devemos reconhecer que, sem lugar a

*
Hendriksen traduz “convertei-vos,” segundo ele uma melhor tradução. – N. do Tradutor.
Marcos (William Hendriksen) 78
dúvida, também se pede arrependimento. Algumas vezes fica de relevo a
verdadeira tristeza pelo pecado e a sincera resolução de romper com a
antiga maldade (Lc. 3:13, 14). Mas a palavra usada no original 34 olhe
para frente, não só para trás. Significa “convertei-vos”, 35 submetam-se a
uma mudança radical de coração e de vida, uma volta total de vida. O
lado positivo da conversão se sublinha nas palavras que seguem “crede
no evangelho”. 36 Tal fé inclui conhecimento, assentimento, e confiança.
Em palavras do Catecismo de Heidelberg: “A verdadeira fé não é só um
conhecimento indefectível, pelo qual tenho por certo tudo o que o
Senhor nos revelou em Sua palavra, mas também uma verdadeira
confiança que o Espírito Santo infunde em meu coração pelo Evangelho,
dando-me a segurança de que não só a outros, mas também a mim
mesmo, Deus outorga a remissão de pecados, a justiça e a vida eterna, e
isso por pura graça e somente pelos méritos de Jesus Cristo”. Uma
pessoa aceita uma mensagem quando age de acordo com ela.

Mc. 1:16–20 - A chamada de quatro pescadores


Cf. Mt. 4:18–22; e para Mc. 1:17b e Mt. 4:19b, veja-se Lc. 5:10b 37

16-18. Caminhando junto ao mar da Galiléia, viu os irmãos


Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram
pescadores. Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei

34
O verbo aparece na forma de μετανοεῖτε, que é o imperativo presente, 2da., pes. pl. de μετανοέω. O
verbo ocorre cinco vezes em Mateus (Mt. 3:2; 4:1–17; 11:20, 21; 12:41), duas vezes em Marcos (Mar.
1:15; 6:12), nove vezes em Lucas, cinco vezes em Atos, uma vez em 2Co. 12:21, e onze vezes no
livro de Apocalipse. O substantivo cognato é μετάνοια e também ocorre com frequência, começando
em Mt. 3:8.
35
O correto é “convertei-vos” (CB, BJ, cf. LT). Cf. “voltem-se para Deus” (VP).
36
Não aceito o raciocínio de Lenski (Op. cit., pp. 43, 44) de que porque πιστεύετε segue a μετανοεῖτε,
o último verbo refere-se só à contrição. Uma palavra não perde tão facilmente seu significado básico.
Acrescenta-se πιστεύετε para pôr de relevo o aspecto positivo de μετάνοια.
37
Quanto a razões que mostram por que Lc. 5:1–11 não pode ser considerado em sua totalidade como
um verdadeiro paralelo de Mt. 4:18–22 e Mc. 1:16–20, veja-se CNT sobre Mt. 4:18–22.
Marcos (William Hendriksen) 79
pescadores de homens. Então, eles deixaram imediatamente as redes
e o seguiram. 38
O maravilhoso evangelho do reino não era somente para os homens
que viveram no tempo do ministério terrestre de Cristo, era para toda
época. Então não deve nos surpreender que no começo de Seu
ministério, Jesus escolhesse homens que, mediante seu testemunho oral e
escrito, perpetuassem Sua obra e proclamassem Sua mensagem. Não era
nada novo que um mestre tivesse, não só um público geral, mas também
um grupo de discípulos. Não teve discípulos Sócrates? Não os teve João
Batista? Os rabinos? Os discípulos de Cristo seriam os elos entre Ele e a
igreja. Pense-se, por exemplo, na importância que homens como Mateus,
João e Pedro tiveram na formação dos Evangelhos, que são nossa
principal fonte de informação a respeito de Jesus Cristo. Em
consequência, enquanto caminhava junto ao mar da Galileia, convida
certos homens para que sejam Seus seguidores.
Devemos entender, não obstante, que o chamado que Jesus
estendeu a estes quatro homens aqui em Mc. 1:18–22 não foi o primeiro
que receberam. Um ano antes, André e outro discípulo que não se
nomeia, muito possivelmente João, tinham recebido o convite de “vinde
e vede”. Nessa oportunidade foram ver onde Jesus vivia, e assim
chegaram a ser Seus seguidores espirituais. Foi André quem trouxe a
Jesus para seu irmão Simão. João provavelmente fez o mesmo com seu
irmão Tiago. Veja-se CNT sobre Jo. 1:35–41.
Assim que agora, um ano mais tarde, segundo Marcos 1:16–20
estes mesmos quatro discípulos se convertem em companheiros do

38
A fraseologia de Mc. 1:16–18 e Mt. 4:18–20 é quase idêntica. Só se notam diferenças de uso.
Assim, Marcos diz: “Caminhando junto ao”; Mateus: “Caminhando junto ao”; Marcos: “viu Simão e
André, seu irmão”; Mateus: “viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André”. Mateus usa o
substantivo “redes” enquanto que a forma verbal de Marcos implica o substantivo. Mateus diz: “…e
eu vos farei pescadores de homens”; Marcos: “…e eu farei que sejais pescadores de homens”. No v.
20 Mateus tem οἱ δε εὐθέως, enquanto que o versículo paralelo de Marcos (v. 18) diz: καὶ εὑθύς. Uma
semelhança tão estreita, embora com ligeiras diferenças, apoia a teoria de que a. existe conexão
literária entre Marcos e Mateus; b. Contudo, cada evangelista possui seu próprio estilo.
Marcos (William Hendriksen) 80
Senhor de uma forma mais permanente e mais que nunca se dão conta
que estão sendo treinados para o apostolado, quer dizer, para ser
“pescadores de homens”.
Os homens que Jesus escolheu como companheiros íntimos
precisavam ser treinados para o apostolado. Simão, o inconstante, deve
ser transformado em Pedro a rocha. Sucedia algo similar com relação a
todos. Não só no princípio, mas também certo tempo depois, os
discípulos manifestaram uma profunda carência de penetração espiritual
(Mc. 4:10, 13; 8:4, 16–21, 32, 33; 9:10–13; 10:10, 24–27); de fervente
compreensão (Mc. 6:35, 36; 10:13, 14); de humildade (Mc. 9:33, 34); de
espírito de perdão espontâneo e alegre (Mc. 10:41); de oração
perseverante (Mc. 9:28, 29); e de coragem inquebrantável (Mc. 14:50,
66–72). Em todo caso, requeria-se deles certa valentia para ser
seguidores de Cristo, pois deviam enfrentar a oposição de muitos,
incluindo a dos líderes religiosos. Para maiores detalhes quanto aos
Doze, veja-se sobre Mc. 3:16–19a.
Em conexão com isto, há um fato que não devemos passar por alto:
decidiram estar do lado de Jesus, o que realça a grandeza do Senhor, pois
é poderoso para influir sobre as mentes e os corações dos homens, de
modo que quando os chama, eles O seguem imediatamente. A amplitude
de Sua bondade e a magnitude de Seu poder se deixam ver também aqui.
Não é maravilhoso que estivesse disposto e que tivesse a habilidade de
tomar e transformar aqueles rudes pescadores sem educação,
prevalecendo sobre todos os preconceitos e superstições que tinham? O
Senhor os transformou em instrumentos para a salvação de muitos,
converteu-os em líderes que, mediante seus testemunhos, transtornaram
ao mundo inteiro.
Os quatro que se mencionam nos versículos 16–20 são:
Pedro, o impetuoso (Mt. 14:28–33; Mc. 8:32; 14:29–31, 47; Jo.
18:10), que chega a ser o líder dos Doze e que se menciona em primeiro
lugar em todas as listas dos apóstolos (Mt. 10:2–4; Mc. 3:16–19; Lc.
6:14–16; At. 1:13).
Marcos (William Hendriksen) 81
André, irmão de Pedro, aquele que sempre está trazendo pessoas a
Jesus (Jo. 1:40–42; 6:8, 9, cf. Mt. 14:18; Jo. 12:22).
Tiago, filho de Zebedeu, o primeiro dos Doze em levar a coroa de
mártir (At. 12:1, 2).
João, seu irmão, chamado “aquele a quem ele amava” (Jo. 13:23;
19:26; etc.). Indubitavelmente, o Senhor amava a todos “os seus”
intensamente (Jo. 13:1, 2), mas o apego e compreensão que havia entre
Jesus e João era mais tenro.
Há outros detalhes interessantes sobre os versículos 16–18. Quando
Jesus ia pelas ribeiras do mar da Galileia, vê a dois homens, a Simão e a
seu irmão André, lançando as redes ao mar. Quando essa rede é lançada
acima do ombro, ao cair na água se estende formando um círculo. Logo,
por causa dos partes de chumbo que leva, submerge rapidamente,
aprisionando os peixes. Estes dois irmãos estavam ocupados em seu
trabalho diário, porque eram pescadores.
“Eram pescadores”. Esta é a classe de pessoas que o Senhor
escolheu como fundamento da igreja (Ap. 21:14, 19, 20). Segundo as
normas do mundo não eram sábios, nem poderosos, nem nobres. Deus
escolheu a insensatez do mundo, para envergonhar os sábios (1Co. 1:26,
27).
É importante observar que quando o Senhor diz “Vinde após mim”,
exerce sua soberania sobre Simão e André. Mostra que tem o direito de
demandar deles serviço para o Seu reino. Devem estar prontos para
segui-Lo imediatamente à voz de Seu chamado.
Simão e André eram de Betsaida (Jo. 1:44), mas Simão (isto é,
Pedro) mudou-se recentemente a Cafarnaum (Mt. 4:13; 8:5, 14, 15; Mc.
1:21, 29, 30; Lc. 4:31, 33, 38). Estes homens já conheciam Jesus, porque
tinha transcorrido um ano do inesquecível acontecimento registrado em
João 1:35–42. Daí que quando Jesus lhes diz, “Vinde após mim, e eu vos
farei pescadores de homens”, eles deixaram imediatamente suas redes e
O seguiram, alentados pela promessa de seu Senhor de prepará-los para
Marcos (William Hendriksen) 82
uma tarefa superior à honrosa ocupação que agora tinham. Em lugar de
pescar peixes para servir à mesa, recrutariam aos homens para o reino.
Convém-nos observar que mediante a promessa “eu vos farei
pescadores de homens”, Jesus coloca Seu selo de aprovação sobre as
palavras do escritor inspirado de Provérbios, que diz: “Quem ganha
almas é sábio” (Pv. 11:30); confirma as palavras de Daniel 12:3 - “Os
que a muitos conduzirem à justiça, [resplandecerão] como as estrelas,
sempre e eternamente”; acrescenta sua própria autoridade a notável
declaração de Paulo, “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por
todos os modos, salvar alguns” (1Co. 9:22); e antecipa Seu próprio
convite glorioso: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt. 11:28).
Outros dois discípulos de Jesus receberam o mesmo mandamento e
a mesma promessa:
19, 20. Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu
irmão, que estavam no barco consertando as redes. E logo os chamou.
Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram
após Jesus.
Diferente de Pedro e André (vv. 16–18), estes dois não estavam
pescando. Não estavam com os outros dois irmãos, mas se encontravam
a certa distância. Tiago e João se achavam com seu pai no barco. Em vez
de pescar estavam remendando suas redes, preparando-se para a próxima
saída para pescar. Quando Jesus os vê, repete o que momentos antes fez
com relação aos outros dois: imediatamente os chamou para O seguirem.
Em consequência, também lhes pede para entrar em uma mais íntima
relação com Ele. Em outros termos, chama-os para que, mediante a
presença contínua de seu Mestre, comecem sua aprendizagem para o
apostolado.
Imediatamente deixam o seu pai e começam a seguir a Jesus.
Agora, embora a ação de segui-Lo já estava preparada pelo ocorrido um
ano atrás, tal ação não pode mencionar-se de passagem. Foi realmente
muito notável. No espírito de Mt. 13:55 e Jo. 1:47; 6:42, puderam ter
Marcos (William Hendriksen) 83
dito: “Não é este o filho do (já falecido?) carpinteiro da próxima Nazaré?
Acaso não é ele também um carpinteiro? Por que temos que ser seus
aprendizes”? Além disso, é preciso levar em conta uma teoria que muitos
sustentam e que não se pode rejeitar levianamente. Parece correto
afirmar que Salomé (mãe de Tiago e de João) era irmã da mãe de Jesus
(veja-se CNT sobre Jo. 19:25). Se isto for certo, eles poderiam ter
acrescentado: “E não são seus irmãos Tiago, José, Simão, e Judas? Não é
acaso apenas nosso primo? Por que temos que segui-Lo?”. O fato de que
não hajam dito nada semelhante, mas imediatamente tenham deixado a
seu pai para unir-se a Jesus, não só fala bem deles, mas também
especialmente exibe o caráter magnético e majestoso de seu Mestre!
Poderia surgir a pergunta “Não foi precipitada a ação destes
homens? Não era uma desconsideração para com seu pai (Zebedeu), o
abandoná-lo no meio do diário afã?”. Resposta: a. Não se exclui que
nesta etapa, na qual se dava uma crescente relação entre eles e seu
Mestre, Tiago e João ajudassem o seu pai de vez em quando, enquanto
Jesus tinha seu centro de operações em Cafarnaum. b. Marcos — não
Mateus — nos informa que Tiago e João deixaram seu pai no barco
“com os trabalhadores”. De modo que, cada vez que os filhos de
Zebedeu não podiam estar com seu pai, ele podia depender dos
trabalhadores para preencher o vazio. Tudo estava bem previsto. c.
Acima de todas estas considerações está o fato de que quando Jesus
chama, deve dar-se uma pronta obediência. É Jesus quem Se encarrega
dos “mas”. Ele tem a solução.
Quanto a Zebedeu, embora Marcos volte a mencionar em seu
Evangelho (Mc. 3:17; 10:35) que era o pai de Tiago e João, não se volta
a nomeá-lo como alguém dedicado à pesca. Morreu pouco depois? Será
esta a razão de por que não se atribui a Zebedeu nenhuma participação
na história que narra o pedido de seus filhos (Mc. 10:35) e da mãe deles
(Mt. 20:20)? Tudo isto é possível, mas o Evangelho de Marcos deixa
bem claro que não temos que concentrar nossa atenção em Zebedeu, em
sua esposa Salomé, nem em seus filhos Tiago e João, e sim no Senhor,
Marcos (William Hendriksen) 84
somente nEle. Nossa atenção deve ficar na majestade, poder, e amor de
Cristo.

Mc. 1:21–28 - A cura de um homem com espírito imundo


Cf. Lc. 4:31–37

Durante a tentação no deserto, Jesus derrotou Satanás (Mc. 1:12,


13; cf. Mt. 4:1–11). Agora, não nos surpreende que o príncipe do mal se
proponha fazer todo o possível para opor-se a Cristo e ao Seu reino.
Procura o Ungido entrar nos corações dos homens? Satanás envia os seus
servos, os demônios, para tomar controle desses corações. Na realidade,
tinha o costume de fazê-lo, mas agora o fazia mais do que nunca. Por
outro lado, isto fazia com que o Conquistador “expulsasse” estes
demônios. Assim atava, reprimia ou limitava severamente o poder do
“homem forte, Belzebu” (Mc. 3:22–27; cf. Mt. 12:22–29; Ap. 20:1–3).
Desta forma, os corações abririam-se para receber o evangelho. A
atividade missionária que já foi claramente predita (Mc. 1:17)
substituiria o engano satânico.
Depois de dois versículos introdutórios (Mc. 1:21, 22), Marcos
apresenta seu primeiro relato sobre a expulsão de demônios (vv. 23–28).
Lucas segue o mesmo procedimento: uma introdução em Mc. 4:31, 32,
seguida pelos versículos 33–37.
21. Depois, entraram em Cafarnaum, e, logo no sábado, foi ele
ensinar na sinagoga.
Agora se esclarece que a parte da margem pela qual Jesus
caminhava, quando chamou os quatro discípulos, achava-se perto de
Cafarnaum. Jesus tinha o costume de assistir à sinagoga (Lc. 4:16), e
logo se acostumou a ensinar nela (Jo. 18:20). O mesmo ocorre na
presente ocasião. Primeiro deve ter lido no hebraico a porção da lei
prescrita para essa ocasião, depois alguém a traduziu ao aramaico. Jesus
deve ter manifestado Seu desejo de falar e, tendo obtido a permissão para
Marcos (William Hendriksen) 85
fazê-lo, de pé leu uma porção dos profetas: logo Se assentou e explicou a
passagem lida aplicando-a às necessidades dos ouvintes.
22. Maravilhavam-se da sua doutrina …
Enquanto Jesus falava, o povo ficou pasmado. Estavam literalmente
“fora de si”, quer dizer, “aturdidos” pelo assombro e a admiração. Foi
uma condição que os manteve sobressaltados.
Quais foram algumas das razões que produziram tal reação no
auditório? Uma delas bem pôde ser que ele era um carpinteiro (Mc. 6:3)
e, entretanto, mostrava uma incrível sabedoria. Mas o que especialmente
os impressionou foi isto: porque os ensinava como quem tem
autoridade e não como os escribas (cf. Mt. 7:28b, 29). Considerem-se
os seguintes pontos de contraste entre o método de ensino de Cristo e o
dos escribas.
a. Ele falou a verdade (Jo. 14:6; 18:37), enquanto os sermões dos
escribas se caracterizavam por raciocínios evasivos (Mt. 5:21ss).
b. Ele ensinou coisas de tremendo significado, assuntos a respeito
da vida, a morte e a eternidade. Eles com frequência desperdiçavam o
tempo em assuntos corriqueiros (Mt. 23:23; Lc. 11:42).
c. Sua pregação tinha um sistema, pelo contrário o Talmude
demonstra que eles divagavam com frequência.
d. Ele despertava a curiosidade, fazendo uso abundante de
ilustrações (Mc. 4:2–9, 21, 24, 26–34; 9:36; 12:1–11). O ensino deles era
quase sempre árido e aborrecido.
e. Ele falava mostrando amor para com as pessoas, como aquele
que se preocupava do destino eterno de seus ouvintes, e os guiava ao Pai
e seu amor. Eles careciam de amor, o que passagens como Marcos 12:40
tornam evidente.
f. Finalmente, e isto é o mais importante, aqui diz especificamente
que Ele falava “com autoridade”, porque Sua mensagem vinha
diretamente do coração e a mente do Pai (Jo. 8:26). Sua mensagem
procedia da própria alma e das Escrituras. Pelo contrário, eles tomavam
ideias de fontes falíveis, um escriba citando a outro. Eles procuravam
Marcos (William Hendriksen) 86
tirar água de cisternas quebradas. Ele a tirava de Si mesmo, sendo Ele a
fonte de água viva (Jr. 2:13).
23a. Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem
possesso de espírito imundo.
Passagens como Marcos 1:32–34; 6:13 e Lucas 4:40, 41, provam
que é falso que os escritores do Novo Testamento agissem como todos
os povos primitivos, atribuindo todas as enfermidades e anormalidades
físicas a presença e ação dos espíritos malignos. Além disso, a evidência
assinala que é incorreto afirmar que a possessão demoníaca seja
simplesmente outro nome para a loucura. O fato é que o termo
“possessão demoníaca” descreve uma condição na qual um ser distinto e
maligno (Marcos: “espíritu inmundo”; Lc. 4:33 “possesso de um espírito
de demônio imundo”), alheio à pessoa possuída, toma controle dela. Para
detalhes mais amplos a respeito de possessão demoníaca, veja-se no
CNT sobre Mt. 9:32–34.
Muitos sustentam a teoria de que a possessão demoníaca persistiu
através dos séculos e que a temos presente hoje em dia. Orígenes (ativo
em 210–250 d. C.) afirmou que a pessoa podia expulsar demônios
invocando o nome de Jesus e o nome dos mártires (!).Durante a Idade
Média houve aqueles que asseguravam que o fazer o sinal da cruz era um
método eficaz para expulsá-los. Os que hoje defendem esta teoria,
apelam à citada obra de H.W. White, Demonism Verified and Analyzed.
O livrinho de W.P. Blatty, O Exorcista (novela de terror sobre possessão
demoníaca) foi altamente ponderado. Certo periódico informou de uma
expulsão demoníaca que foi o resultado de cinco horas de instrução
telefônica!
É evidente até à simples vista que em algumas destas pretendidas
expulsões, a superstição joga um papel de importância. Além disso, não
existe segurança alguma de que os que creem na possessão demoníaca
como algo que ocorre no presente sejam capazes cientificamente de
traçar uma clara distinção a. entre certas condições anormais da mente
(por exemplo, a dissociação) e a invasão que um demônio pode fazer de
Marcos (William Hendriksen) 87
alguma pessoa; e b. entre a influência demoníaca e possessão demoníaca.
Na Igreja Católica Romana, antes de que se permita um sacerdote passar
a realizar um exorcismo, é-lhe exigido que faça um cuidadoso exame,
para verificar se trata-se de um verdadeiro caso de possessão demoníaca.
E mesmo neste caso, deve receber autorização de seu bispo antes de
seguir adiante.
O já falecido Dr. J.D. Mulder, homem de alta reputação e com
vastos conhecimentos em teologia, medicina e prática psiquiátrica,
escreveu uma série de artigos sobre “Enfermidades mentais e possessão
demoníaca”. Nestes artigos escreveu o seguinte, “Trabalhei por seis anos
como missionário médico entre os navajos, tribo de índios
profundamente empapados pelo temor aos maus espíritos, a feitiçaria e
assuntos semelhantes. Ao mesmo tempo, os dez últimos anos estive em
contato diário com perturbados mentais de todo tipo … Entretanto, a
conversação diária com estes … pacientes e um estudo cuidadoso de
seus mais íntimos pensamentos, convenceram-me que, embora pudesse
haver influência demoníaca, estava sempre ausente o quadro de
possessão que o Novo Testamento apresenta. Em consequência, estou
totalmente de acordo com o professor Schultze, quando escreve:
‘Atrevo-me a sugerir que a possessão demoníaca foi um fenômeno
limitado quase exclusivamente (se não inteiramente) ao período de
manifestações divinas especiais durante a época da nascente igreja do
Novo Testamento’ ”. 39
Marcos prossegue:
23b, 24. Que temos nós contigo, 40 Jesus Nazareno?
Fazendo uso das cordas vocais do desventurado, o demônio
literalmente disse: “O que (há) entre nós e tu”, quer dizer, “O que temos
39
The Banner (revista publicada pela Igreja Cristã Reformada, Grand Rapids, Michigan, EUA),
edições de 24 de março e de 7 de abril, 1933. Depois de sua valiosa experiência como missionário
médico, o Dr. Mulder foi por muitos anos superintendente de Pine Rest Christian Hospital (Grand
Rapids), uma instituição para pessoas com problemas mentais.
40
A respeito de τί ἡμῖν καὶ σοί veja-se M. Smith, “Notes on Goodspeed’s ‘Problems of New
Testament Translation’ ”, JBL, 64 (1945), pp. 512, 513.
Marcos (William Hendriksen) 88
em comum?”; em outras palavras: “O que tens tu que ver conosco?”; em
consequência: “Por que nos incomodas?” (veja-se também Mc. 5:7; cf.
Mt. 8:29). Observe-se: “O que tens tu que ver conosco?”. Um demônio
fala por todos os outros, porque se dá conta que o que suceder com ele,
será a porção de todos os outros demônios.
Ao que está prestes a expulsá-lo, chama-o, literalmente, “Jesus
Nazareno”. O ter sido criado em Nazaré sugeria começos humildes e, no
caso do Messias apontava ao Seu estado de humilhação (Mt. 2:23). Além
disso, Natanael uma vez perguntou: “De Nazaré pode sair alguma coisa
boa?” (Jo. 1:46). Esta pergunta a fez movido pela rivalidade que havia
entre sua aldeia e a de Nazaré ou, com maior probabilidade, porque
pensava em nada bom quanto à categoria messiânica. Contudo, não
devemos pensar que cada vez que Jesus o chama “Nazareno” trata-O
com desdém. Na realidade até o próprio Jesus usa o termo com relação a
Si mesmo (At. 22:8). 41
A forma em que o demônio dirigiu-se ao Senhor, chamando-O
“Jesus Nazareno”, foi tão somente a designação pela qual era conhecido,
e não uma falta de respeito. Isto é claro pelas palavras que acrescenta:
“Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus! As
palavras “vieste”, dificilmente poderiam significar: “vieste de Nazaré”,
porque Jesus não precisava vir de Nazaré para esmagar o poder dos
emissários de Satanás. É melhor entender a expressão no sentido de
“vieste ao mundo do céu …”. Em consequência, o demônio pergunta se
aquele que tinha vindo para buscar e a salvar os perdidos (Lc. 19:10)
também devia destruir agora mesmo os demônios (cf. Mt. 8:29),
lançando-os ao abismo ou masmorra onde Satanás está preso (Ap. 20:3).
Quando o demônio declara “sei”, não está mentindo. Há certas
coisas que o príncipe do mal e seus servidores conhecem (veja-se Tg.
2:19). Além disso, parte deste conhecimento os faz tremer, eles enchem
41
O significado é o mesmo, seja que “Nazareno” se escreva Ναζαρηνός (a forma usada por Marcos;
veja-se além de Mc. 1:24; 10:47; 14:67; 16:6) ou Ναζαραῖος (a forma usada em Mt. 2:23; 26:71; Jo.
18:5, 7; 19:19). Lucas tem ambas as formas.
Marcos (William Hendriksen) 89
de temor. Sabem que para eles não há salvação, mas apenas um horrível
castigo. O demônio está pensando nesta terrível realidade, ao notar que
naquele instante se acha diante de Seu grande oponente, a quem
corretamente o chama “o Santo de Deus”. Sabe que a santidade não pode
tolerar o pecado. “… espírito imundo … Santo de Deus”. Que contraste!
(em conexão com “o Santo”, veja-se Lc. 4:34; Jo. 6:69; Ap. 3:7). Jesus
foi “santo”, não só no sentido de que não tinha pecado em Si mesmo,
que estava cheio de virtude e que era a causa de virtude em outros, mas
especificamente também no sentido de ter sido ungido e, portanto, posto
à parte, separado para a realização da mais excelsa tarefa (Is. 61:1–3; Lc.
4:18, 19; 19:10; Jo. 3:16; 10:36; 2Co. 5:21).
Quando os radicais negam a deidade de Cristo, exibem menos
entendimento que os demônios; porque estes a reconhecem
constantemente. Por certo que não o fazem no espírito correto, pois
substituem a reverência pelo descaramento; a alegria pela amargura; a
gratidão pela baixeza. Mas apesar de tudo, fazem-no. Chamam a Jesus
de “o Santo de Deus” (Mc. 1:24), “o Filho do Altíssimo” (Mc. 5:7), “o
Filho de Deus” (Mt. 8:29).
25. Mas Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te e sai desse
homem. Jesus não aceita o reconhecimento que vem de um demônio
inteiramente corrupto. Além disso, o demônio não tem direito algum a
entremeter-se (mas veja-se também sobre vv. 33, 34). De modo que,
Jesus lhe dá uma dupla ordem cortante e peremptória: “Cala-te e sai
desse homem.”. 42
O demônio obedece imediatamente, não podia fazer outra coisa.
Obedece, embora seja evidente que de muito má vontade:
26. Então, o espírito imundo, agitando-o violentamente e
bradando em alta voz, saiu dele.

42
Os verbos são φιμώθητι, que é um imperativo aoristo, voz passiva, 2ª. pes. sing. de φιμόω, “cala-
te”, “silêncio”, (cf. 4:39) e ἔξελθε que é o impera. aor. 2ª. pes. sing. de ἐξέρχομαι.
Marcos (William Hendriksen) 90
Aqui a Reina-Valera (1909) diz, “E o espírito imundo, lhe fazendo
pedaços”. Mas isto, além de estar em conflito com “saiu dele sem lhe
fazer mal” (Lc. 4:35), tampouco concorda com o fato de que se usa a
mesma palavra grega (Mc. 9:26; Lc. 9:39; e cf. Mc. 9:20; Lc. 9:42) em
conexão com um epilético (veja-se Mt. 17:15), em cujo caso não se fala
de lacerações, e sim de convulsões. Portanto, Marcos 1:26 não fala de
rasgadura. Em consequência, a tradução deve ser: “… provocou
convulsões no homem”. Logo, usando pela última vez as cordas vocais
do homem, o demônio saiu (literalmente): “gritando com um grande
grito”.
27. Todos ficaram espantados e diziam uns para os outros: —
Que quer dizer isso? É um novo ensinamento dado com autoridade.
Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem.
Aqui se relata como as pessoas reagiram diante de tudo o que tinha
ocorrido na sinagoga. A emoção que se descreve (“ficaram espantados”)
é sinônima ao expresso no versículo 22 (“ficaram muito admiradas”).
Quando os presentes começaram a perguntar-se uns aos outros “Que
quer dizer isso?”, referiam-se tanto ao ensino de Cristo quanto à
expulsão do demônio. Quanto ao primeiro, deram-se conta que tanto o
conteúdo como o método (veja-se sobre v. 22) do ensino que naquele
sábado tinham ouvido na sinagoga era diferente de tudo o que ouviram
antes nesse lugar. Quanto ao segundo, a mesma autoridade e poder que
Jesus exibiu em Seu ensino, foram mostrados também nas ordens que
deu aos demônios. De modo que, tiveram que render-se, sendo
totalmente incapazes de resistir. Deve notar-se que, embora o relato em
si fala de um só demônio, as pessoas em seguida tiram a conclusão
correta de que o que foi feito a um espírito imundo podia ser feito a
todos.
Os ouvintes não sabiam o que fazer com tudo isso. Estavam
profundamente impressionados com as palavras e as obras de Jesus.
Entre eles perguntavam-se quem era ele, mas não achavam resposta.
Marcos (William Hendriksen) 91
28. E a fama de Jesus se espalhou depressa por toda a região da
Galiléia.
Os acontecimentos daquele sábado na sinagoga foram tão
surpreendentes, que sem demora alguma cada um os contou ao seu
vizinho, e este a outro, etc. As notícias não se confinavam a Cafarnaum.
“Em questão de instantes”, por assim dizer, as novas se estenderam por
toda a Galileia, ou segundo a expressão de Lucas: “Os rumores … se
divulgavam por todos os lugares da região” (Lc. 4:37).

Mc. 1:29–34 - A cura da sogra de Pedro e de muitos outros


Cf. Mt. 8:14–17; Lc. 4:38–41

29. Logo depois, Jesus, Simão, André, Tiago e João saíram 43 da


sinagoga e foram até a casa de Simão e de André.
Da sinagoga foram diretamente à casa de Simão (Pedro). Disto não
há lugar a dúvidas (cf. Mt. 8:14; Lc. 4:38). Pedro estava casado, e sua
sogra vivia em sua casa. Marcos, entretanto, fala da casa de Simão e
André”. É evidente que André, irmão de Simão, vivia com eles na
mesma casa.
Contudo, há um problema com os sujeitos de “saíramu … foram”.
Segundo a leitura que se adote, os verbos gregos poderiam traduzir-se de
duas formas: “saíram … entraram” ou “saiu … entrou”. Sabemos que
Jesus tinha assistido à sinagoga, ali tinha ensinado e realizado um
milagre surpreendente (vv. 21–28). Sabemos também que Simão, André,
Tiago e João há pouco tinham sido chamados para ser pescadores de
homens (vv. 1–20) e que com Jesus tinham entrado em Cafarnaum. Não
é possível supor que eles assistiram aos cultos da sinagoga dessa cidade?
Agora, se esta hipótese for correta, não é lógico pensar que no versículo
29, os verbos gregos devem traduzir-se “saíram … entraram”, pois
apontam a Jesus e a estes quatro discípulos? Não obstante, se alguém der

43
De acordo com outra leitura variante: saíram … entraram.
Marcos (William Hendriksen) 92
outro olhar ao texto, notará que esta interpretação é impossível, porque
se diz que entraram na casa de Simão e André “com Tiago e João”. Entre
as soluções que se ofereceram, estas duas são as melhores:
a. Marcos foi o intérprete de Pedro, pelo que reproduz quase
literalmente o que escutou Pedro dizer num sermão ou discurso. A única
coisa que mudou foi a pessoa gramatical, da primeira à terceira pessoa.
Pedro teria dito algo assim: “E imediatamente, saímos [quer dizer, Jesus,
André e eu] da sinagoga e entramos com Tiago e João em minha casa”.
Se esta é a solução correta, os verbos devem traduzir-se: “saíram …
entraram” e se referem a Jesus, a Simão e André. 44
b. Em lugar de “saíram … entraram” a leitura variante lê “saiu …
entrou”. Esta leitura tem considerável apoio nos manuscritos 45 e é a que
se deve adotar. Neste caso os verbos apontam a Jesus. É Ele quem,
tomando consigo a Tiago e a João, entra em casa de Simão e André.
Qualquer que seja a interpretação, agora achamos a Jesus, Pedro,
André, João e Tiago em casa de Pedro e seu irmão.
30. A sogra de Simão achava-se acamada, com febre; e logo lhe
falaram a respeito dela.
Embora Mateus e Marcos dizem que a sogra de Pedro estava
“prostrada com febre” ou “estava de cama, com febre”, o médico Lucas
(cf. Cl. 4:14) diz-nos que “achava-se enferma, com febre muito alta” (Lc.
4:38) ou que “sofria um severo ataque de febre”. 46 Sem demora
informam a Jesus da situação, talvez chegando a casa ou mesmo antes.
Lucas nos diz que os discípulos — sem dúvida especialmente Pedro e
André — não só lhe falaram a respeito dela, mas também lhe pediram
que a ajudasse.

44
Esta solução é sugerida por Van Leeuwen, Op. cit., p. 33.
45
A leitura ἐξελθών ἦλθεν (“saiu … e entrou”) está apoiada pelo uncial B e, com uma ordem sintática
distinta, por D. Também a apoiam outros unciais e vários cursivos importantes. Adotam esta leitura
BP, CB, LT, BJ. Swete considera a tradução “saíram … e entraram” como “dificilmente passível”.
46
Veja-se A.T. Robertson, Luke the Historian in the Light of Research (Nova York, 1923), pp. 90–
102: “The Use of Medical Terms by Luke”. ἦν συνεχομένη πυρετῷ μεγάλῳ (Lc. 4:38).
Marcos (William Hendriksen) 93
31. Ele, aproximando-se da enferma e tomando-a pela mão, a
levantou [TB].
É muito interessante observar como os diferentes evangelistas
descrevem o que fez Jesus. Como lhe é característico, Mateus (Mt. 8:3,
15; 9:29; 17:7; 20:34) declara que Jesus “tocou” a mão dela. Que toque
mais tenro e poderoso! (veja-se CNT sobre Mt. 8:3). Tendo escutado
muitas vezes Pedro contar com emoção o que tinha sucedido, Marcos diz
de maneira muito gráfica: “tomando-a pela mão, a levantou”. O Dr.
Lucas menciona o que lhe deve haver chamado a atenção, quer dizer,
que a posição de Jesus, o grande Médico, era justamente a de um médico
típico: “Inclinando-se ele para ela para ela …” (Lc. 4:39). Não fez ele o
mesmo ao atender os seus pacientes? Lucas acrescenta: “repreendeu a
febre”. Jesus mandou a febre que a deixasse. Febre, ventos, ondas, para
Jesus não há diferença. Ele exerceu absoluto controle sobre todos eles.
De modo que aqui lhe fala com a febre como o faria com os indômitos
ventos e as tempestuosas ondas (no original usa-se o mesmo verbo em
cada caso; cf. Lc. 4:39 com Mc. 8:24).
Resultado: e a febre a deixou, passando ela a servi-los.
Jesus já a tinha levantado. Mas agora de repente “a febre a deixou”,
como o declaram os três evangelistas. Além disso, ela nem sequer disse:
“Foi-se a febre, mas me sinto totalmente esgotada”. Nada disso! Tão
somente um momento antes que Jesus a tomasse pela mão e
repreendesse a febre, suas bochechas estavam tintas, a pele quente, a
transpiração copiosa, a garganta seca (ou, segundo o tipo de febre, pôde
ter sofrido violentos calafrios). Um instante depois (veja-se Lc. 4:39, “e
logo se levantou …”) todo sintoma de febre tinha desaparecido
completamente. Não só tinha uma temperatura normal, mas também a
invadia tal impulso de energia que ela mesma insistia em levantar-se. Na
realidade, levantou-se e começou a realizar trabalhos de ativa anfitriã.
Começou a atender a todos os que se achavam presentes: a Jesus, Pedro,
André, Tiago, João, e talvez até a sua filha, se ela se achava presente; ou
Marcos (William Hendriksen) 94
talvez como hábil assistente, “mamãe” ajudava à “filha” nesta amostra
de hospitalidade.
As notícias a respeito da expulsão do demônio (vv. 23–26) e da
vitória sobre a terrível febre (vv. 29–31) estenderam-se tão rápido, que
no povoado de todos os arredores despertou a esperança de recuperação
para seus seres queridos. Resultado:
32. À tarde, ao cair do sol, trouxeram a Jesus todos os enfermos
e endemoninhados..
Mateus diz “Chegada a tarde” (Mt. 8:16), Lucas “ao pôr-se o sol”
(Lc. 4:40). Marcos usa o genitivo absoluto, literalmente “tendo chegado
a tarde”, ou “à tarde”. Também acrescenta: “ao cair do sol”.
De acordo com a forma hebraica de falar, havia duas tardes (veja-se
Êx. 12:6 no original). A primeira começava às 3 da tarde, a segunda às 6
da tarde. De modo que, quando Marcos diz “à tarde”, acrescentando
imediatamente “ao cair do sol”, o que quer dizer é que o povo esperou
que terminasse no sábado para trazer “todos os enfermos”; literalmente:
“todos os que estavam mal”. A isto se acrescenta “e endemoninhados”,
mostrando claramente que se faz uma distinção entre a. doentes que não
estavam endemoninhados, e b. indivíduos endemoninhados que puderam
ou não estar doentes fisicamente. Referente à possessão demoníaca veja-
se mais acima, sobre os versículos 23–26. O fato de que trouxeram uma
grande quantidade de pessoas a Jesus, fica claro pelo versículo:
33. Toda a cidade estava reunida à porta.
Poderia dizer-se que a casa de Pedro foi invadida. “Toda a cidade”
refere-se, naturalmente, a Cafarnaum (v. 21). Mateus (Mt. 8:16) e Lucas
(Lc. 4:40) também enfatizam o fato de que a multidão de doentes e
endemoninhados, junto com os que os traziam ou acompanhavam para
que Jesus aliviasse suas necessidades, era realmente grande.
Não terminava o poder de Cristo para curar, nem se esgotava Seu
amor e simpatia:
34. E ele curou muitos doentes de toda sorte de enfermidades;
também expeliu muitos demônios
Marcos (William Hendriksen) 95
Nesta parte Marcos é muito breve. À luz do contexto precedente,
Marcos dá a entender que Jesus curou a toda (veja-se v. 32; cf. Mt. 8:16;
Lc. 4:40) a grande quantidade (v. 34) de doentes que Lhe traziam, sem
importar a natureza de sua doença. Como é de esperar de um médico,
Lucas descreve a procissão de doentes que eram trazidos um por um a
Jesus. Por sua vez, o Senhor lhes prestava a devida atenção e
carinhosamente colocava as mãos sobre cada um para curar a todos (Lc.
4:40). Em harmonia com Mateus e Lucas, Marcos declara que Jesus
expulsava muitos demônios. Mateus acrescenta que Jesus expulsava os
demônios “com a palavra”, quer dizer, mediante uma ordem eficaz (Mt.
8:16).
Cuando Marcos agrega: não lhes permitindo que falassem,
porque sabiam quem ele era., isto não deve interpretar-se como
querendo dizer que os espíritos imundos nunca disseram nada. Lucas
explica o significado. Primeiro os demônios exclamaram, “Tu és o Filho
de Deus” (cf. mais acima sobre Mc. 1:24), mas imediatamente eram
repreendidos por Jesus, sendo assim impedidos de seguir falando mais a
respeito disto.
Agora, o que estes demônios diziam usando as cordas vocais dos
possessos era verdade. Na realidade “sabiam quem era Jesus”, vale dizer,
o Filho de Deus, o Messias esperado por tanto tempo. Do mesmo modo,
o que a menina endemoninhada de Atos 16:17 exclama era vedade; e tão
certo que suas palavras (“estes homens são servos do Deus Altíssimo, os
quais vos proclamam o caminho de salvação”) foram usadas como texto
do sermão de um serviço de ordenação, sob o título: “As palavras do
diabo!”. Entretanto, apresentam-se duas interrogantes. A primeira é: Por
que é que estes demônios proclamam com gritos esta verdade? Estavam
acaso fascinados com a irresistível personalidade de Cristo? 47 Ou , antes,
estavam motivados por um ímpio e sádico desejo de criar problemas a
Jesus? Tenhamos em conta que os demônios talvez saberiam que se a

47
Cf. H.N. Ridderbos, Zelfopenbaring en Zelfverberging (Kampen, 1946), p. 52.
Marcos (William Hendriksen) 96
multidão aceitasse prematuramente a verdade com referência à
identidade de Cristo, isto poderia terminar com o programa que Ele
traçou, levando-O à morte antes do que devia. Contudo, ainda não se deu
uma resposta indisputável. A segunda pergunta é: Por que Jesus lhes
mandava calar? Já se sugeriu uma possível resposta, mas veja-se também
sobre o versículo 44.
Enquanto Marcos e Lucas terminam seus parágrafos com esta
proibição dirigida aos demônios, Mateus (8:17) vê nas curas realizadas
pelo Mestre o cumprimento da profecia de Isaías 53:4, que diz:
“Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas
dores levou sobre si”.

Mc. 1:35–39 - A oração de Cristo antes do amanhecer; a exclamação


de Simão e a resposta de Cristo; o ministério, a pregação de Cristo e
a expulsão de demônios por toda Galileia.
Cf. Lc. 4:42, 44; e com Mc. 1:39 cf. Mt. 4:23–25

Jesus não só era divino, mas também humano, assim que depois de
um dia longo e exaustivo, sentiu a necessidade de orar. Deste modo,
35. Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar
deserto e ali orava.
Teria passado Jesus a noite em casa de Pedro, e ao levantar-se
aquele discípulo descobriu que seu mestre foi embora? Isto é possível,
mas não podemos estar seguros. O que sim sabemos é que “muito cedo
quando ainda era de noite”, isto é, quando ainda estava escuro 48 e quase
não começava a clarear a manhã (Lc. 4:42), Jesus Se levantou, saiu da
casa (a sua ou a de Pedro) e foi embora a um lugar solitário ou deserto, a
um retiro tranquilo. Ali derramou o Seu coração em oração a Seu Pai
celestial. Pôde muito bem ter sido em ação de graças pelas bênçãos já

48
Note-se πρωῒ ἔννμχα λίαν que literalmente seria “muito cedo na noite” (cf. Mar. 16:2).
Marcos (William Hendriksen) 97
recebidas e para Lhe pedir a força necessária para realizar a excursão
pela Galileia que estava prestes a começar.
Jesus atribuía grande importância à oração. Orou quando foi
batizado (Lc. 3:21); orou antes de escolher os Doze apóstolos (Lc. 6:12);
em conexão com e depois da alimentação milagrosa dos cinco mil (Mc.
6:41, 46; cf. Mt. 14:19, 23); quando estava prestes a fazer uma pergunta
importante aos Seus discípulos (Lc. 9:18); no monte onde foi
transfigurado (Lc. 9:28); justamente antes de estender o carinhoso
convite, “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados
…” (Mt. 11:25–30; Lc. 10:21); no momento antes de ensinar aos
discípulos a oração do Senhor (Lc. 11:1); na tumba de Lázaro (Jo. 11:14,
42); por Pedro, antes de O negar (Lc. 22:32); na noite da instituição da
Santa Ceia (Jo. 17; cf. 14:16); no Getsêmani (Mc. 14:32, 35, 36, 39; cf.
Mt. 26:39, 42, 44; Lc. 22:42); na cruz (Lc. 23:24; 49 Mc. 15:34; Mt.
27:46; Lc. 23:46); e depois de Sua ressurreição (Lc. 24:30). Estas
referências devem ser consideradas como exemplos de uma vida de
oração e ação de graças muita mais ampla.
Umas poucas citações escolhidas dos Evangelhos nos mostram
quão genuínas, íntimas, confiantes e desinteressadas eram as orações do
Senhor. Suas orações buscavam a glória de Deus.
“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste
estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó
Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt. 11:25, 26).
“Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre
me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que
creiam que tu me enviaste” (Jn. 11:41, 42).
“Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te
glorifique a ti …”. “Pai santo, guarda-os em teu nome …”. “É por eles
que eu rogo … para que eles sejam um …” (João 17, oração sacerdotal
de Cristo, por Ele, por Seus discípulos imediatos e pela igreja universal).

49
Dando por sentado que esta passagem é autêntica.
Marcos (William Hendriksen) 98
“Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja
como eu quero, e sim como tu queres … Meu Pai, se não é possível
passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt.
26:39–42 e seus paralelos em Marcos e Lucas).
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem …” “Pai, nas tuas
mãos entrego o meu espírito!” (Lc. 23:34, 46).
Jesus também inculcou a oração aos Seus seguidores (Mc. 9:29;
13:18, 33; 14:38; cf. Mt. 7:7–11; Lc. 18:1–8), e lhes mostrou como
deviam e como não deviam orar (Mt. 6:6–8). Em conexão com isto
também lhes ensinou o que conhecemos como “O Pai Nosso” (Mt. 6:9–
15).
Visto à luz deste contexto, o versículo 35 adquire significado.
36, 37. Procuravam-no diligentemente Simão e os que com ele
estavam. Tendo-o encontrado, lhe disseram: Todos te buscam.
Se Jesus passou a noite em casa de Simão, isto explicaria por que
Simão o menciona com tanta proeminência: “Simão e os que com ele
estavam”. Mas também é provável que, dada sua personalidade, Simão
(isto é, Pedro) fosse o líder do começo. “Os que com ele estavam”, fala-
se de André, Tiago e João? Com base nos versículos 16–20 pareceria
natural, mas também pôde ter havido outros (veja-se Jo. 1:43–45).
Estes homens buscavam Jesus diligente e ansiosamente. Estavam
decididos a encontrá-Lo. 50 Observe-se a expressão sinônima em 2Tm.
1:17: “(Onesíforo) me procurou solicitamente até me encontrar.” Assim
também, a busca teve êxito no caso de Simão e seus condiscípulos.
Acharam a Jesus. Sua intenção era trazer imediatamente a Cafarnaum,
onde “todos”, quer dizer, uma grande multidão — reunida talvez
novamente diante da casa de Pedro — buscava Jesus. Muito animados,
os discípulos fazem saber isto a Jesus.

50
O prefixo κατά é perfectivo. O verbo καταδιώκω usa-se com frequência em sentido hostil:
perseguir, caçar ou seguir o rastro, mas aqui tem a acepção de buscar, com a ansiosa determinação
de encontrar a Jesus a todo transe.
Marcos (William Hendriksen) 99
O resultado, porém, foi surpreendente. Jesus não permitirá que a
multidão ou mesmo os Seus discípulos Lhe digam para onde deve ir.
Além disso, em Seu grande amor deseja distribuir Seus favores entre
muitos. Cafarnaum O verá em outra ocasião, porque por um tempo será
Seu centro de operações. Mas não deseja limitar-se àquela única cidade.
Daí que segue:
38. Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações
vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu
vim. 51
O fato de Jesus dizer “vamos” indica que deseja que Seus
discípulos vão com Ele na excursão pelos povos e aldeias da Galileia.
Não os está treinando para o apostolado?
Jesus nada diz a respeito de realizar milagres nestes lugares. De que
realmente os fez é evidente pelo versículo 39b (cf. Mt. 4:23, 24), mas
toda a ênfase é posta na “pregação das boas novas” (Lc. 4:43). Os
milagres cumpriam um propósito subordinado; serviam para confirmar
Sua mensagem e mostrar quem era. Jesus acentua a livre proclamação
do amor de Deus revelado na salvação dos pecadores e refletido em suas
vidas. Sublinha a pregação que ensina que os seres humanos são salvos
sem que estejam obrigados a obedecer todas as regulações rabínicas, e
que proclama que o ser humano entra no reino somente com base no
sangue que devia ser derramado (cf. Mt. 11:28–30; Mc. 10:45). Por meio

51
O verbo é Αγωμεν que é um presente subj. at. 1ra. pes. pl. de ἄγω, cujo significado básico é trazer,
dirigir, conduzir, guiar, transportar. Deste sentido básico se deriva a ideia de transportar-se a si
mesmo, ou seja ir (para este uso intransitivo, veja-se Mc. 14:42; Jo. 11:7, 15, 16; 14:31). O advérbio
ἀλλαχοῦ (= a outro lugar) ocorre só aqui no Novo Testamento. Compare-se πανταχοῦ (= por todas as
partes) no v. 28. A palavra ἐχομένας é um particípio pres. médio, acus. pl. fem. de ἔχω, e significa
agarrando-se a, aferrando-se a, e assim dá-se a ideia de povos próximos, vizinhos (nos papiros οἱ
ἐχόμενοι são os vizinhos). A mesma palavra pode ter também um sentido temporal: seguindo
imediatamente, próximo (em tempo). Cf. Lc. 13:33; At. 13:44; 20:15.
A κωμόπολις é literalmente a aldeia (κώμη) cidade (πόλις); e em consequência, o povoado. Mas na
passagem paralela, Lucas usa a palavra cidades (Lc. 4:43).
Finalmente, κηρύξω aoristo subj. at. 1ra. pes. sing. de κηρύσσω; em consequência, “para que
anuncie como arauto, para que pregue, proclame”.
Marcos (William Hendriksen) 100
de tal pregação, Jesus cumpria o verdadeiro propósito pelo qual deixou o
céu e veio à terra. Portanto, prossegue desta maneira: pois para isso é
que eu vim. “Eu vim” não só de Nazaré, ou de Cafarnaum, mas
certamente do céu (cf. Jo. 1:11, 12; 6:38; 8:42; 13:3; 8:37).
39. Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles
e expelindo os demônios.
A lógica é clara, o “vamos a outros lugares” vem seguido de
“Então, foi por toda a Galiléia”; e “para que também pregue ali” vem
seguido por “pregando nas sinagogas e expulsando os demônios”
(referente à possessão demoníaca e ao exorcismo, veja-se o comentário a
1:21–28, 32–34; e CNT sobre Mt. 9:32).
É muito chamativa a expressão “por toda a Galileia”. Esta era a
Galileia com sua mescla de judeus e gentios. Embora não se mencionem
curas, estas se insinuam pela expulsão de demônios, porque com
frequência ambas estavam ligadas. E com relação a tais obras de
misericórdia, bem podemos supor que as distinções nacionalistas em
todo caso não triunfaram. O espírito do Mestre deixa ver-se com clareza
em passagens tais como Mt. 8:1–13; Mc. 7:24–30; Lc. 4:25–27. O
verdadeiramente era e é, “o Salvador do mundo” (Jo. 4:42; 1Jo. 4:14).
Não obstante, quando se faz menção específica de “pregar nas
sinagogas” faz-se referência a uma instituição judaica definida. Jesus
agiu seguindo a norma do “judeu primeiro, e também o grego” (Rm.
1:16).

A sinagoga nos tempos do Novo Testamento

Não sabemos exatamente em que período se originou a sinagoga,


mas se sabe que nos dias do Novo Testamento já era considerada uma
antiga instituição amplamente estendida (At. 15:21). Contudo, não foi
senão até os dias do cativeiro babilônico que a sinagoga chegou a ocupar
um lugar permanente na vida do povo judeu. Algumas autoridades creem
que não começou a existir senão até depois do cativeiro; portanto, talvez
Marcos (William Hendriksen) 101
surgiu em tempos de Esdras, quem fazia ênfase na importância e no
sagrado da lei de Deus. Como é, a destruição do templo e a grande
distância que havia entre o templo de Jerusalém e os lares de muitos,
fizeram necessária a construção de sinagogas. Brotaram em todas as
partes. Às vezes havia várias numa única cidade. De acordo com uma
declaração no Talmude de Jerusalém, no tempo da destruição de
Jerusalém (70 d.C.) havia 480 sinagogas em Jerusalém, o que,
naturalmente, é um exagero.
O que deu tanta importância à sinagoga é o fato de que
proporcionava muitos serviços. Acima de tudo era considerada como o
lugar onde se lia e explicava ao povo a santa lei de Deus. Quando isto se
fazia corretamente, trazia grandes bênçãos. Mas quando se fazia mau uso
deste privilégio, de maneira tal que a explicação da lei degenerava na
imposição de ordenanças rabínicas exageradamente detalhadas e além
das demandas de Deus, as bênçãos jamais se faziam presentes.
A existência simultânea de templo e sinagoga não criava nenhum
problema. Embora ambas eram um lugar para o ensino (Jo. 18:20), o
templo dava ênfase nas ofertas e a sinagoga no ensino. Prova de que o
templo e a sinagoga não eram rivais é que antes da destruição do templo
existia uma sinagoga na mesma colina do templo e Teodósio operava
numa dupla qualidade, como sacerdote no templo e como chefe da
sinagoga.
As sinagogas variavam de maneira e desenho. Geralmente sua
construção era de pedra. Até data muito recente pensou-se que não
sobrevivia nenhuma sinagoga do século primeiro. Sabia-se que o que
ficava da sinagoga de Cafarnaum (Tel Hum) era de data posterior,
embora o lugar bem pôde ter sido o mesmo que o da sinagoga onde Jesus
ensinou. 52 Mas sob a direção do arqueólogo Y. Yadin descobriu-se uma
sinagoga numa escavação sobre a rocha de Casa de campo, perto da

52
Para fotografias das ruínas das sinagogas de Cafarnaum do terceiro século, veja-se L. H.
Grollenberg, Atlas of the Bible (Nova York, etc., 1956), p. 126, lâminas 365–367.
Marcos (William Hendriksen) 102
53
margem ocidental da parte estreita do Mar Morto. É uma estrutura
retangular, cujo teto descansa sobre duas fileiras de colunas. Data do
tempo do segundo templo.
A importância da sinagoga estava em que, além de ser o lugar onde
eram celebrados os cultos regulares de adoração, servia também para
muitas outras coisas. Era o lugar onde alguém podia ir derramar seu
coração em oração e ação de graças. Era também uma escola primária,
tinha quartos que podiam ser usados para comunicar instrução à
juventude, ou tinha uma escola anexa. Com frequência era usada como
lugar de estudo do rabino. Às vezes o edifício provia alojamento para o
rabino e/ou estrangeiros que buscavam albergue.
Do ponto de vista do cristianismo, o mais importante de tudo era o
que se chamou “a liberdade da sinagoga”. O significado disto se vê no
breve resumo da ordem do culto que prevalecia. Provavelmente era
como segue:
1. Ação de graças ou “bênçãos” pronunciadas em conexão com
(antes e depois) o Shema: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o
único SENHOR. 5 Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt. 6:4, 5).
2. Oração, à qual a congregação respondia com um “Amém”.
3. Leitura de uma passagem do Pentateuco (no hebraico, seguido
pela tradução em aramaico).
4. Leitura de uma passagem dos profetas (traduzido de igual modo).
5. Sermão ou exortação.
6. A bênção pronunciada por um sacerdote, a qual a congregação
respondia: “Amém”. Quando não havia um sacerdote presente, a bênção
era substituída por uma oração final.
Até onde é possível rastrear esta liturgia nas Escrituras, como apoio
bíblico, veja-se as seguintes passagens: Nm. 6:22–27; Dt. 6:4, 5; 1Cr.

53
Para encontrar a localização veja-se E.G. Kraeling, Rand McNally Bible Atlas (Nova York, etc.
1956), p. 251.
Marcos (William Hendriksen) 103
16:36; Ne. 5:13; 8:6; Lc. 4:16–27; At. 13:15; e 1Cor. 14:16. Algumas
passagens do Talmude e outras fontes judaicas também são de valor, mas
por terem sido escritos numa data mais tardia não se pode confiar sempre
neles quanto a mostrar exatamente a forma em que os cultos se levavam
a cabo nos dias de Jesus e os apóstolos.
A “liberdade da sinagoga” queria dizer que qualquer pessoa
presente no culto (quer dizer, qualquer u que fosse considerado apto pelo
chefe ou chefes da sinagoga), tinha o privilégio e até era alentado a
proferir o sermão (veja-se Lc. 4:16, 17; At. 13:15). É fácil compreender
como este costume fez possível que Jesus, Paulo e outros cristãos
proclamassem o evangelho à congregação reunida. O sermão pregado
por Jesus na sinagoga de Nazaré acha-se resumido em Lucas 4:21–27; e
aquele que Paulo deu na sinagoga de Antioquia da Pisídia está registrado
em Atos 13:16–41. Jesus aproveitou amplamente este privilégio
(segundo se vê claramente em Mt. 4:23; 9:35; 13:54; Mc. 1:21; 6:2; Lc.
4:44; 13:10; Jo. 6:59; 18:20), o mesmo que Paulo (além de At. 13:15,
veja-se 9:20; 13:5; 14:1; 17:1, 10, 17; 18:4, 19) e Apolo (cf. At. 18:26).
Os prosélitos eram pessoas que tinham rejeitado a idolatria e imoralidade
do paganismo e tinham adotado o judaísmo como sua religião. Visto que
não só os judeus, mas também os prosélitos do mundo gentil assistiam às
sinagogas que estavam nas regiões onde Paulo realizava suas obras
missionárias, é evidente que a sinagoga foi usada por Deus como um dos
meios mais importantes e poderosos para a extensão do evangelho tanto
entre judeus como gentios!
A fim de entender melhor o que para Jesus significava pregar nas
sinagogas da Galileia (Mc. 1:39) ou em qualquer outro lugar, devemos
acrescentar alguns outros fatos. Como o indicam claramente algumas
ruínas existentes, as sinagogas davam para Jerusalém. Isto quer dizer que
foram construídas de tal modo que, quando o pregador dirigia-se à
congregação e quando, no final do serviço, os fiéis saíam da sinagoga,
faziam-no olhando à Cidade Santa. Assim que as sinagogas da Galileia
Marcos (William Hendriksen) 104
eram orientadas rumo ao sul; as do lado leste do Jordão, rumo ao oeste;
as do sul de Jerusalém, rumo ao norte; e as do oeste, rumo ao este.
Para Jesus isto significava que quando Ele pregava em qualquer
sinagoga, enquanto falava, Ele o fazia olhando rumo ao lugar onde havia
de ser crucificado. Para Ele era impossível não pensar na cruz! 54

Mc. 1:40–45 - A cura de um leproso


Cf. Mt. 8:2–4; Lc. 5:12–16

40. Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelhos: …


Precisamente quando e onde ocorreu o milagre relatado aqui não se
informa em nenhum lugar. Não obstante, é natural supor-se que foi
durante a excursão pela Galileia, a qual Marcos acaba de referir-se (v.
39). Em apoio a isto, considere-se também “Vamos a outros lugares, às
povoações vizinhas” (v. 38, cf. “a outras cidades”, Lc. 4:43), seguido
pela declaração de que a purificação do leproso ocorreu enquanto Jesus
estava “numa das cidades” (Lc. 5:12). Se esta conclusão for correta, esta
cura provavelmente ocorreu antes da chamada dos Doze ao apostolado
(Mc. 3:13–19; Lc. 6:12–16) e antes do Sermão da Montanha (Mt. 5:1–
8:1; Lc. 6:12–16). 55
Em conexão com “E um leproso lhe aproximou” há aqueles que
nega que as traduções “leproso” e “lepra” sejam corretas. Sustentam que
não se trata de lepra propriamente tal (enfermidade do Hansen) mas sim
de vitiligo, leucodermia, e/ou outro tipo de enfermidade da pele. Em

54
Para a disposição dos móveis, o lugar onde se sentavam os fiéis, a localização do leitor e o
pregador, etc., veja-se a ilustração em Zondervan’s Pictorial Dictionary (Grand Rapids, 1963), p. 819,
junto com o artigo de W.W. Wessel. Muito informativos são também os artigos de W. Schrage sobre
συναγωγή, etc., no TDNT, vol. 7, pp. 798–852. Veja-se também o excelente tratado de H. Mulder, De
Synagoge in de Nieuwtestamentische Tijd (Kampen, 1969).
55
Mt. 8:2 não está em conflito com este ponto de vista. Não faz referência ao tempo. Além disso, os
milagres registrados em Mt. 8:2–9:34 se acham ordenados por tema e não cronologicamente. Quanto a
um ponto de vista diferente quanto ao tempo em que ocorreu o limpamento do leproso, veja-se Lenski,
Op. cit., p. 57.
Marcos (William Hendriksen) 105
conexão com isto terei que citar ao Dr. L.S. Huizenga, quem estudou e
praticou tanto teologia como medicina. Baseado num estudo detalhado
de todo o material bíblico pertinente e em sua própria experiência com
leprosos, o Dr. Huizenga declara: “Creio que Moisés descreve uma
enfermidade definida, uma enfermidade que corresponde ao que hoje
chamamos lepra, embora os sintomas podem não ser os mesmos”
(Unclean! Unclean!, Grand Rapids, 1927, pp. 145, 146; veja-se seu
argumento completo em pp. 143–147). Há algo que deve ficar
perfeitamente claro: Jesus não menosprezou a ninguém pelo fato de ser
leproso, nem cego, surdo, etc. Veio ao mundo para ajudar, para curar e
para salvar. Alguns com severidade e sem amor julgavam que os
sofrimentos físicos provinham de algum pecado particular da pessoa
doente. Por exemplo, um leproso tinha por necessidade que ser uma
pessoa moralmente má. Cristo condenou categoricamente esta classe de
juízos (Lc. 13:1–5; Jo. 9:1–7).
Além disso, o ministério de cura de Cristo deve constituir um alento
para toda pessoa ou organização que verdadeiramente se envolve na
tarefa de prover ajuda e cuidado dos necessitados: os diáconos e as
diaconisas, operários e instituições de ajuda, missionários médicos,
enfermeiras, o voluntariado dos hospitais, etc. Disto não se deve inferir
que a responsabilidade de prestar ajuda e cuidado dos afligidos recai
somente em certos grupos e especialistas. Pelo contrário, é um dever que
corresponde a todos e, sem lugar a dúvida, a todo crente (Pv. 19:17; Mt.
10:8; 25:31–46; Mc. 9:41; 2Co. 8:8, 9; 9:7; Gl 6:10; Ef. 4:32–5:2; Fp.
4:17; 1Tm. 5 4). 56
Este leproso “aproximou-se dele [Jesus]” perto o bastante para ser
tocado pelo Mestre. Isto é surpreendente, especialmente à luz de Levítico
13:45, 46: “…habitará só; a sua habitação será fora do arraial”.
Compare-se com isto “saíram-lhe ao encontro dez leprosos, que ficaram
de longe” (Lc. 17:12). Este homem deve ter escutado bastante a respeito

56
Veja-se I. Van Dellen, The Ministry of Mercy (Grand Rapids, 1946).
Marcos (William Hendriksen) 106
das obras poderosas e misericordiosas de Cristo para compreender que
aqui havia Alguém a quem alguém podia aproximar-se com esperança.
Naturalmente que não sabia se a ajuda que desejava podia ser concedida
até a um homem “cheio de lepra” (Lc. 5:12). Mas não havia nada mau
em pedir. Ele o faz de maneira muito humilde: “de joelhos” (segundo
Marcos), logo inclina seu rosto ao solo (“prostrou-se com o rosto em
terra”, Lc. 5:12), e lhe suplica: “Se quiseres, podes purificar-me”. De
acordo com Mateus 8:2 ainda se dirige a Jesus como “Senhor”. Este
apelativo deve ter significado muito mais que “Sr.”. De outro modo, não
poderia ter feito a confissão que fez: “podes purificar-me”. Está seguro
de que Jesus tem este poder. Ao dizer “Se quiseres” não está seguro de
que haja este desejo em Jesus, mas submete-se à soberana disposição de
Cristo. Mas lhe roga e lhe implora que ele também possa ser objeto da
misericórdia e do poder curativo de Cristo.
41. Jesus, profundamente compadecido, … O único que
menciona isto é Marcos. Literalmente, a tradução deveria ser “tendo sido
comovido dentro de si” (em suas “vísceras”). Quanto a esta compaixão
ativa de Jesus, compaixão que se expressa em atos, veja-se também Mt.
9:36; 14:14; 15:32; 18:27; 20:34; Mc. 6:34; 8:2; Lc. 7:13. Entretanto,
não basta estudar somente as passagens em que aparece o mesmo verbo.
Veja-se também passagens de importância similar e que às vezes contêm
fraseologia sinônima, como por exemplo: “Ele tomou sobre si as nossas
enfermidades e as nossas dores levou sobre si” (Is. 53:4; Mt. 8:17; cf.
Mc. 2:16; 5:19, 34, 36, 43; 6:31, 37; 7:37; 9:23, 36, 37, 42; 10:14–16,
21, 43–45, 49; 11:25; 12:29–31, 34, 43, 44; 14:6–9, 22–24; 16:7).
Poderiam ser citadas passagens similares de Lucas e João. Ficamos
assombrados diante do grande número de vezes em que esta compaixão
de Jesus, esta ternura ou expressão de Seu coração em palavras e atos de
bondade, é mencionada Evangelhos. Constantemente está tomando a
condição dos afligidos como uma “preocupação muito pessoal”. Jesus
vivia em meio de um povo que dava grande ênfase a assuntos legais
corriqueiros, e nisto seus líderes eram peritos. No meio desta
Marcos (William Hendriksen) 107
superficialidade, Jesus sobressai como Aquele que põe ênfase “nos
assuntos importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt. 23:23).
As angústias das pessoas são Suas próprias angústias. Ama tenra e
intensamente os afligidos e Se mostra solícito para ajudá-los. 57
Estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! 58
Repetidamente e com fraseologia variada, os Evangelhos falam do toque
curativo das mãos de Jesus (cf. 7:33; Mt. 8:3, 15; 9:29; 17:7; 20:34; Lc.
5:13; 7:14; 22:51). Entretanto, às vezes é o doente quem toca a Jesus
(Mc. 3:10; 5:27–31; 6:56). De qualquer modo, os doentes foram curados.
Com relação ao poder curativo por meio do contato físico, é evidente que
do Salvador emanava poder curativo e se transmitia à pessoa que o
necessitava (Mc. 5:30; Lc. 8:46). Naturalmente que não era magia! O
poder curativo não se originava em Seus dedos ou em Sua roupa. Vinha
diretamente do Jesus divino e humano, da Sua vontade todo-poderosa e
do Seu coração imensamente bondoso. O toque de Jesus tinha poder
curativo porquanto Ele Se compadecia e “pode compadecer-se [agora] de
nossas fraquezas” (Hb. 4:15). Não deve passar desapercebido ao leitor
que, de acordo com Marcos 1:41, quando Jesus estendeu Sua mão para
tocar o leproso, Ele o fez “profundamente compadecido”. A necessidade
e fé do leproso achou resposta imediata no grande desejo que Jesus tinha
de o ajudar. Esta prontidão era tal que o poder e o amor se enlaçavam
entre si.

57
Aqui em Mc. 1:41, como também na lista de passagens que começam com Mt. 9:36, o verbo é
σπλαγχνίζομαι. Na presente passagem ocorre a forma σπλαγχνισθείς que é um particípio aor. nom.
sing. masc. Os antigos tinham o mesmo direito de falar figuradamente das vísceras (coração, fígado,
pulmões) como nós o temos de falar do coração. Paulo escreve (literalmente): “E o seu entranhável
afeto cresce mais e mais para convosco” (2Co. 7:15); “Porque foram refrescadas as vísceras dos
santos por meio de ti” (Fm. 7); “Refresca minhas vísceras em Cristo” (Fm. 20). Veja-se também CNT
sobre João 1:8, nota 39.
58
O verbo é καθαρίσθητι = um imperativo aor. pas. 2ª. pes. sing. de καθαρίζω. Usa-se o aoristo, não
porque se refira a um único ato. Poderia usar-se o aoristo, mesmo se estivesse falando de cem atos. O
assunto não é o número de ações (uma ou muitas), e sim o ponto de vista: o que Jesus ordena aqui é a
realização de um simples fato ou condição. Veja-se CNT sobre João 2:20, nota 64.
Marcos (William Hendriksen) 108
Diz-se às vezes que entre as palavras do leproso e as de Jesus houve
perfeita correspondência. Isto é verdade no sentido de que as duas
expressões não estão em conflito, mas que se acham em perfeita
harmonia, revelando até certa identidade em fraseologia. Mas também se
poderia dizer que as palavras do Senhor vão além da simples
“harmonia”. Indubitavelmente que as palavras do leproso “podes
purificar-me” acham eco na resposta de Jesus “Naturalmente que posso!”
implícita em Seu ato de cura. Mas as palavras do leproso, “se quiseres”,
são substituídas por aquele veloz e esplêndido “Quero”. Aqui ao
“querer” se acrescenta o “poder”, tira-se o “se” e se adiciona o “Quero,
fica limpo!” Tudo isto transforma uma condição de enfermidade
horrenda numa de saúde robusta.
42. No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo.
Lucas 5:13 indica que a lepra o deixou; Mt. 8:3 diz que ficou limpo;
Marcos menciona ambas as coisas. As curas realizadas por Jesus eram
completas e instantâneas. 59 A sogra de Pedro não teve que esperar até o
dia seguinte para ser curada de sua febre. O paralítico começa
imediatamente a caminhar, levando sua maca. A mão seca é restaurada
imediatamente. O endemoninhado que, momentos antes tinha agido
enlouquecido cortando-se com as pedras, é curado imediatamente e de
maneira total. O mesmo é dito com relação à mulher que tocou o manto
de Jesus. Até a filha de Jairo, que já estava morta, é imediatamente
restaurada à vida, de modo que se levanta e começa a caminhar. Que os
curandeiros de hoje imitem isto! Que curem toda enfermidade
imediatamente! Sim, que levantem mortos, porque se sua pretensão de
poder fazer o que Jesus fez e o que mandou os Seus apóstolos a fazer
está vigente hoje, deveriam ressuscitar também os mortos (Mt. 10:8).
Entretanto, mesmo aqui não tiveram êxito. 60 Na realidade, nem sequer
puderam desfazer-se da morte pela mera negação de sua existência. 61
59
É Mc. 8:23–25 uma refutação do que dizemos? Veja-se sobre essa passagem.
60
Sobre a cura pela fé, veja-se W. E. Biederwolf, Whipping Post Theology (Grand Rapids, 1934).
61
Veja-se A.A. Hoekema, The Four Major Cults (Grand Rapids, 1963), p. 188.
Marcos (William Hendriksen) 109
62
43, 44. Fazendo-lhe, então, veemente advertência, logo o despediu
44 e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao
sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para
servir de testemunho ao povo.
El verbo “advertindo-o severamente (RC)” é interessante.
Começando, talvez, pela ideia do bufo de um cavalo impaciente ou,
simplesmente de maneira geral pela ideia do ruído que se faria ao estar
enfurecido, é fácil ver quão pronto isto muda a “admoestar
severamente”, como se vê aqui e em Mt. 9:30. Também pode significar:
“censurou” ou “repreendeu”. Foi assim como os discípulos repreenderam
a Maria de Betânia, ao não compreender a linguagem de amor que se
expressava em sua generosidade (Mc. 14:5). Em João 11:33, 38 o
contexto dá a entender que o verbo tem um significado muito amplo:
“estremeceu-se em espírito e se comoveu”.
Jesus não quis que o homem divulgasse como e quem lhe tinha
purificado. Não nos foi revelado a razão (ou razões) desta proibição.
Uma talvez poderia ser que o Mestre desejava ser conhecido como
“aquele que traz as boas novas” e não como o “praticante de milagres”.
Antes de mais nada é a palavra, é a mensagem o que salva, quando o
Espírito Santo a aplica ao coração (veja-se Mc. 1:38). Além disso,
também quer evitar que um entusiasmo exagerado com relação a Jesus
como praticante de milagres, O leve à uma crise prematura. O Senhor vai
morrer pelo Seu povo. Mas a “hora” decretada para isto ainda não tinha
chegado. De modo que o homem foi enviado a ir a Jerusalém para
mostrar-se ao sacerdote. Isto incluía a obrigação de levar a oferta
requerida (Lc. 14:1–7). Esta oferta consistia em duas aves vivas, limpas.
Uma devia ser sacrificada. A outra ave devia ser banhada em seu sangue
e logo solta. O homem curado devia ser também aspergido com o sangue
da ave morta; não só uma vez, mas sete vezes. Finalmente era declarado
são. Ao ouvir os sacerdotes que Jesus era quem tinha curado este homem
62
ἐμβριμησάμενος es un participio aor. nom. sing. masc. de ἐμβριμάομαι. El verbo significa resoplar
(como un caballo). Probablemente imita algún sonido (onomatopeya).
Marcos (William Hendriksen) 110
de maneira tão completa e instantânea, teriam recebido um testemunho
irrefutável do poder e amor de Jesus. Dar-se-iam conta também que,
embora Ele condene as tradições humanas que tornavam nula a santa lei
de Deus, Jesus não era desobediente à lei.
45. Mas, tendo ele saído, começou a apregoar muitas coisas e a
divulgar o que acontecera; de sorte que Jesus já não podia entrar
publicamente na cidade, mas conservava-se fora em lugares desertos.
“…começou a apregoar”. É este “começou” (26 vezes em Marcos)
um auxiliar redundante?
O omitir o constantemente, não destruiria o estilo gráfico de
Marcos? (mas cf. 6:7, nota 233).
No versículo 40 vemos o leproso comportando-se muito
corretamente. No versículo 45, vemo-lo comportando-se muito mal.
Mediante esta ação de indesculpável desobediência privou a muitas
cidades das bênçãos que lhes teriam chegado, se Jesus tivesse podido
entrar nelas (cf. Lc. 11:52b). E de todas as partes iam ter com ele. A
obra de Jesus não foi totalmente interrompida. Os homens se dividem em
dois grupos: a. Os que esperam que o mensageiro venha a eles; b. Os que
saem a buscá-lo e a escutar quem traz a mensagem. Este último grupo
vem a Jesus de todos os arredores.
Não devemos pôr nossa atenção no leproso, e sim nAquele que
outorgou o favor e que esteve disposto a derramar tão inestimável
bênção sobre um homem tão indigno.

Resumo do Capítulo 1:14–45

O material que se acha sob este cabeçalho pode dividir-se como


segue:
a. O começo do grande ministério na Galileia (Mc. 1:14, 15). Por
um lado, temos o batismo e a tentação de Cristo; por outro, sua chegada
a Galileia. Entre estes dois eventos pôde ter transcorrido um ano, o qual
foi ocupado principalmente na Judeia. No final desse ano, sua
Marcos (William Hendriksen) 111
popularidade cresceu a tal grau, que não teria sido prudente permanecer
mais tempo em Jerusalém e seus arredores, visto que era o centro de
operações dos líderes religiosos judeus. João Batista tinha sido lançado
no cárcere. Mesmo antes que isso ocorresse, a multidão que seguia a
Jesus chegou a ser maior que a que seguia a João. Assim que, quando
João foi totalmente tirado do meio, era natural que Jesus fosse o único
líder respeitável que restava. Resultado: imensas multidões escutam o
Mestre e muitos creem nEle; aumenta a da parte de escribas, fariseus e
sacerdotes; Jesus decide trasladar-se para o norte, quer dizer, a Galileia.
Chegado lá, sua mensagem é: “O tempo está cumprido e o reino de Deus
está próximo”. Anunciou que o reino de Deus começaria a fazer-se sentir
de maneira muito mais poderosa que nunca nas vidas e corações dos
homens, com grandes bênçãos à disposição de muitos, especialmente
para os que se convertiam a Deus e criam no evangelho.
b. A chamada de quatro pescadores (vv. 16–20). Indo junto à
margem do mar da Galileia, Jesus chama Pedro e André, os quais se
achava pescando quando ouviram que Jesus lhes dizia: “V Vinde após
mim, e eu farei que sejais pescadores de homens”. Eles obedeceram
imediatamente. O mesmo fizeram também Tiago e João, os quais a curta
distância dos outros, estavam remendando suas redes. Deixaram seu pai
Zebedeu no barco com os trabalhadores e seguiram a Jesus. Embora já
conheciam a Jesus, os quatro começaram agora seu intenso treinamento
para o apostolado.
c. A cura de um homem com espírito imundo (vv. 21–28). Jesus
ensina na sinagoga de Cafarnaum. As pessoas estão maravilhadas pelo
conteúdo e método do ensino. Naquele sábado havia na sinagoga um
homem com espírito imundo. “Que temos contigo, Jesus Nazareno?”,
disse o demônio, fazendo uso das cordas vocais do homem. “Vieste
destruir-nos?”. O espírito imundo parecia temer que agora Jesus poderia
lançá-lo a ele e a seus companheiros (outros demônios), no lugar onde
Satanás se acha prisioneiro. Jesus ordenou o demônio a deixar o homem.
Derrubando o homem com convulsões e o levando a dar fortes chiados, o
Marcos (William Hendriksen) 112
demônio saiu dele. Reação da parte dos presentes na sinagoga ao ensino
de Cristo e a expulsão do demônio na sinagoga: assombro total.
Restringir o poder de Satanás (“amarrar o homem forte”) e abrir o
coração dos homens para a recepção do evangelho (“atividade
missionária”) são conceitos que nos Evangelhos e em todo lugar se
acham intimamente relacionados (p. ex., Ap. 20:1–3).
d. A cura da sogra de Simão e de muitos outros (vv. 29–34).
Achamos a Jesus, Pedro, André, Tiago e João em casa de Pedro. A sogra
de Simão (= Pedro) está prostrada com febre muito alta. Pediu-se a ajuda
do Mestre. Jesus “inclinando-se sobre ela” (Lucas), “tocou-a” (Mateus),
“chegando-se a ela, tomou-a pela mão e levantou-a” (Marcos).
Imediatamente a febre a deixou de maneira tão completa que começou a
atender aos convidados. A notícia do que Jesus fez na sinagoga e o que
fez depois, espalhou-se tão rápido que no fim do sábado o povo começou
a lhe trazer os que se achavam doentes e/ou possessos por demônios.
Jesus libertou a toda aquela gente de suas aflições. Mas Ele não permitiu
aos demônios que falassem. Por que não? Uma razão pôde ter sido que
não desejava ser conhecido principalmente como um praticante de
milagres. Desejava que se desse especial consideração a Suas palavras
antes que se maravilhassem diante de Suas obras.
e. A oração de Cristo antes do amanhecer, etc. (vv. 35–39). Depois
de um dia tão longo e exaustivo, Jesus sentiu a necessidade de buscar a
comunhão tranquila com seu Pai. Assim que muito cedo pela manhã
deixou a casa (de Pedro? a sua?) e Se dirigiu a um lugar solitário onde
orou. Os Evangelhos nos dizem que Jesus orou em muitas ocasiões, que
insistiu com Seus seguidores a orar, e ainda lhes ensinou a orar.
Entretanto, os momentos devocionais de Cristo foram interrompidos
pelas exclamações de Pedro (e seus companheiros): “Todos te buscam!”.
Pedro e os outros queriam levar Jesus imediatamente de volta a
Cafarnaum. Mas Jesus recusou. Desejava distribuir Seus favores entre as
pessoas de todos os povos e aldeias. Não queria possivelmente inculcar
aos habitantes de Cafarnaum que os que tinham recebido deveriam
Marcos (William Hendriksen) 113
começar a dar? “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de
que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim”, querendo dizer:
vim do céu à terra. A isto segue a pregação e expulsão de demônios
através da Galileia.
f. A cura de um leproso (vv. 40–45). Provavelmente, enquanto
Jesus fazia seu gira pela Galileia (mencionada no v. 39), um leproso vem
a Ele. Apesar do que diz Levítico 13:45, 46, o leproso se aproximou o
bastante para ser tocado por Jesus. Caindo de joelhos, rogou ao Mestre,
“Se quiseres, podes purificar-me”. O Evangelho de Marcos relata que o
coração de Jesus se compadeceu diante desse homem tão
angustiosamente aflito. Aquele que cura disse: “Quero, fica limpo!”. No
momento a lepra o deixou e ficou completamente são. Não só isso, mas
também Jesus procurou que a vida pública e religiosa daquele homem
em Israel fosse completamente restaurada. Com tal fim envia-o a
Jerusalém para que possa levar as ofertas estipuladas na lei mosaica, para
que seja declarado são e para que possa tomar seu lugar na sociedade
sem que ninguém se esquive dele. Esta mesma cura daria testemunho ao
sacerdócio com referência à grandeza de Cristo e Sua obediência à lei
divina. Por razões não declaradas, Jesus adverte homem que não
divulgue o que lhe havia sucedido: como e quem o havia curado. A
misericórdia de Jesus luz de maneira muito mais triunfante sobre o fundo
escuro da desobediência do leproso limpo.
Marcos (William Hendriksen) 114
MARCOS 2
Mc. 2:1–12 - A cura de um paralítico
Cf. Mt. 9:2–8; Lc. 5:17–26

Se o primeiro capítulo do Evangelho de Marcos for comparado com


o segundo capítulo, notar-se-á que há um contraste notável entre eles. O
primeiro é um capítulo de glória, o segundo de oposição. Por certo que
mesmo no primeiro capítulo Jesus achou oposição, mas esta veio da
parte de Satanás e de seus demônios (Mc. 1:13, 23–26, 32, 34, 39), não
da parte dos homens. O Espírito desce sobre Jesus (Mc. 1:10), o Pai O
chama “meu Filho amado” (Mc. 1:11), e o povo enche-se de assombro
diante de Suas palavras e obras (Mc. 1:27).
Quanto à esfera humana, a descrição dos conflitos começa nos
capítulos 2 (veja-se especialmente os vv. 6, 7, 16 e 24) e 3 (vv. 2, 6, e
22). A luta aumenta em intensidade. No princípio, os escribas só
“arrazoavam em seu coração” contra Jesus (Mc. 2:6, 7). Logo se
queixam dEle com Seus discípulos (Mc. 2:16). Depois se tornam mais
atrevidos e levam o protesto ao próprio Jesus; não ainda por causa do
que Ele faz, mas pelo que permite os seus discípulos fazer (Mc. 2:24).
Porém, no terceiro capítulo começam a planejar como destruí-Lo (v. 6),
e O acusam de estar em aliança com o diabo (v. 22).
Naturalmente que este era um conflito inevitável; enquanto Ele
enfatizava o amor, eles o legalismo; Ele a santa lei de Deus, eles a
tradição que anulava a lei de Deus; Ele a liberdade, eles a escravidão;
Ele a atitude interna, eles as obras externas. Como odiavam ter que Lhe
ceder o lugar de prestígio, sua influência sobre a multidão!
1. Dias depois, 63 entrou Jesus de novo em Cafarnaum, e logo
correu que ele estava em casa.

63
διʼ ἡμερῶν = “tendo intervindo entre meio (alguns) dias” ou “(alguns) dias havendo-se interposto”;
em consequência, “uns dias depois”. Robertson, pp. 580–584, tem uma interessante discussão sobre
Marcos (William Hendriksen) 115
Jesus retornou de sua viagem pela Galileia (Mc. 1:38, 39). Acha-se
de volta à “sua própria cidade” (Mt. 9:1). Está “em casa”, ou conforme
interpretam a frase alguns, “numa casa”. Com relação a isto, alguns
supõem que se trata da casa onde Jesus, sua mãe Maria, e outros
membros da família, vivem agora. Não obstante, deve-se tomar cuidado
para não entrar em conflito com Mateus 13:54–56 (cf. Lc. 4:16). Refere-
se a frase a uma casa que Ele mesmo possuía em Cafarnaum? Esta
possibilidade não pode ser descartada, e Mateus 8:20 (“… o Filho do
homem não tem onde recostar a cabeça”; veja-se CNT sobre esta
passagem) não se opõe necessariamente a este ponto de vista. Refere-se
à casa de Pedro, uma interpretação bastante popular? 64 Mas se Marcos
estivesse pensando na casa de Pedro, não teria entregue uma referência
mais definida? (veja-se Mc. 1:29). Poderia pensar-se na possibilidade de
que alguns amigos Lhe houvessem provido uma casa enquanto realizava
Sua obra nos arredores de Cafarnaum. Seja como for, num sentido
bastante real, Jesus a considerava como “sua casa”. E “todos” se
inteiraram de que estava em casa, porque a notícia se espalhou
velozmente. 65
2. Muitos afluíram para ali, tantos que nem mesmo junto à
porta eles achavam lugar.
À vista do assombro que tinham causado as palavras e obras de
Cristo (Mc. 1:21–34; 38–45), bem podemos entender por que a casa se

διά. O significado da raiz de διά é provavelmente δύο (= dois), que termina em “de dois em dois” ou
“entre”.
64
Veja-se Vincent Taylor Op. cit., p. 193; A. B. Bruce, Op. cit., p. 350; A. Edersheim, The Life and
Times of Jesus the Messiah (Nova York, 1897), vol. 1, p. 502. Por outro lado, Lenski definidamente
opõe-se a este ponto de vista, Op. cit., p. 62.
65
Provavelmente o melhor é considerar que ἠκού (lit. “foi ouvido”; trad. “correu-se a voz”) forma a
oração principal, e que ἰσελθῶν (“quando tinha entrado”) age como oração subordinada. Quanto a ὅτι
ἐν οἴκῳ ἐστίν (lit. “que está em casa”), existem duas possibilidades: a. considerar a frase como
discurso indireto, embora em tal caso nós usaríamos o tempo passado (“que estava em casa”); b.
considerar a ὅτι como recitativa, o qual se representaria em espanhol usando as aspas do discurso
direto (informou-se: “ele está em casa”). Quanto à última possibilidade, veja-se A. Plummer, The
Gospel according to Matthew (Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges. Cambridge,
1914), p. 80.
Marcos (William Hendriksen) 116
encheu de gente. Sem dúvida que um bom número dos amigos e
discípulos de Jesus se achavam presentes, com genuíno interesse na
verdade. Também deve ter havido muitos “olheiros” que ardiam de
curiosidade, tratando de ouvir o que Jesus diria e especialmente para ver
o que faria. Por último, os dissimulados rabinos (os fariseus e doutores
da lei, segundo Lc. 5:17) estavam cheios de inveja, intensamente
perturbados pela forma em que Jesus atraía as grandes multidões. Estas
pessoas “importantes” tinham vindo não só das aldeias da Galileia, mas
também até da Judeia e de Jerusalém! Resultado: não restava mais lugar,
nem mesmo junto à porta. Quando se entrava numa casa, o comum era
que a porta desse acesso direto à casa. Somente os mais acomodados
tinham um “portão” extra e um corredor de entrada. Nas casas mais
modestas, a “porta” dava acesso direto à rua. Mas nesta ocasião a entrada
estava obstruída. Tampouco havia polícia que abrisse caminho.
E anunciava-lhes a palavra. De maneira tão própria e única (veja-
se Mc. 1:22), Jesus trazia o evangelho aos Seus ouvintes (cf. Mc. 4:14ss.,
33; 16:20). Afinal de contas, para isto tinha vindo do céu à terra (Mc.
1:38), quer dizer, para trazer a mensagem de alegria, liberdade, salvação
plena e gratuita (cf. Lc. 4:17–22). Dos Seus lábios brotavam palavras de
graça, claras e singelas.
Mas produz-se uma interrupção, um ruído que vem de acima:
3. Alguns foram ter com ele, conduzindo um paralítico, levado
por quatro homens.
Este homem era, por certo, um desventurado. A enfermidade que
sofria caracteriza-se por uma extremada falta de energia e movimento, a
qual é causada geralmente pela incapacidade que possuem os músculos
para funcionar, devido a lesão nas áreas motoras do cérebro e/ou na
medula espinhal. Além das passagens paralelas em Mateus e Lucas,
veja-se também Mt. 4:24; 8:5–13; At. 8:7; 9:33. No presente caso,
qualquer que tenham sido as partes lesadas pela paralisia e o grau de
avanço da enfermidade, um fato fica claro: a pessoa afetada se achava
impossibilitada de mover-se por si mesma e precisava ser carregada por
Marcos (William Hendriksen) 117
outros. Quatro homens (parentes ou amigos?) ofereceram-lhe este
serviço, conforme o indica Marcos.
4. E, não podendo aproximar-se dele [Jesus], por causa da multidão,
descobriram o eirado no ponto correspondente ao em que ele estava e,
fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o doente.
Estas cinco pessoas mostravam uma coragem e engenho digno de
admiração. Mas a fé que tinham em Jesus era ainda mais admirável,
visto que dela emanava a confiança que tinham no êxito de sua
iniciativa. Se a casa onde a multidão se reuniu tinha uma escada exterior,
deve ter sido por aí que os quatro subiram ao teto com sua preciosa
carga. Se era a casa adjacente a que tinha a escada, primeiro deveriam ter
subido ao teto daquela casa, para logo cruzar de um eirado ao outro. De
uma forma ou outra, conseguiram colocar-se diretamente sobre o lugar
onde Jesus estava falando à multidão.
E agora como transpassar o teto! A cobertura exterior de uma casa
era geralmente plana. Tinha vigas com travessas recobertas com folha
seca, ramos, etc., sobre os quais se estendia uma grossa capa de barro ou
argila misturada com palha cortada e amassada a golpes. Este tipo de teto
não era difícil de “destelhar” (esta é a palavra usada no original: “eles
destelharam o teto”). 66
Depois de fazer uma abertura no teto, os quatro desceram a maca
sobre a qual estava deitado o paralítico (cf. a forma em que Paulo foi
baixado do muro em Damasco, At. 9:25; 2Co. 11:33). A “maca” era
certo tipo de leito usado pelos pobres, talvez um colchão delgado
enchido com palha. Sendo que eram quatro os homens que desceram a
maca, supomos que o fizeram amarrando cordas nos quatro cantos da
cama. Foi assim que o doente foi posto exatamente à frente de Jesus.
66
Cria-se uma dificuldade desnecessária, quando se imagina que a “telhas” (de Lucas 5:19) estavam
instaladas numa firme armação de quadros pequenos. Além disso, a abertura do teto não precisava ser
tão grande quanto a altura do homem! Mediante o manejo cuidadoso das cordas até um doente de
estatura normal pode ser baixado lentamente através de uma pequena abertura. “Tudo se consegue
quando se quer”. Referente à forma da construção de um teto, veja-se o artigo “House” na ISBE, vol.
3, p. 1437.
Marcos (William Hendriksen) 118
Baixando Sua vista, Jesus vê o paciente; e olhando para cima, observou
os quatro “amigos” que demonstraram ser “amigos de fato”.
Não se diz que do teto os quatro gritassem alguma coisa a Jesus.
Nenhum dos evangelistas nos conta tampouco que o próprio homem
doente tenha dito alguma coisa. No que concerne ao paralítico, é até
possível que a enfermidade o impedisse de falar. Mas embora nenhum
dos cinco falou, confiaram! E isto era o importante. Sua confiança
comoveu o próprio coração do Senhor; de modo que lemos:
5. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus
pecados estão perdoados.
O inferir disto que Jesus pensou que a causa de sua enfermidade
eram seus pecados, como se costuma fazer, 67 não tem base alguma,
embora seja verdade que entre os judeus era comum a crença de que “se
um indivíduo sofria uma grande aflição, devia-se a que era um grande
pecador” (Jó 4:7; 22:5–10; Lc. 13:4; Jo. 9:2). Com relação a crenças
similares entre os não judeus, veja-se At. 28:3, 4. Conforme o provam os
evangelhos, Jesus combateu este erro. Mas quanto a este paralítico, a
única coisa que efetivamente sabemos é que o Senhor teve uma grande
preocupação pelo seu pecado. Tampouco é informado se o próprio
homem cria que seu pecado era a causa desta enfermidade. Entretanto,
Jesus sabia que os pecados deste homem o afligiam intensamente. O
homem estava aflito pelas muitas formas em que suas atitudes,
pensamentos, palavras e atos tinham transgredido a vontade de Deus.
Segundo Mateus, Jesus Se dirige meigamente a este homem chamando-o
de filho. Segundo os três evangelistas, Jesus literalmente lhe diz: “os teus

67
Veja-se Vincent Taylor, Op. cit., p. 195; e J. Schmidt, The Gospel according to Mark (The
Regensburg New Testament, tradução ao inglês, 1968, Nova York), p. 59. W. Barclay argumenta em
seu muito interessante e educativo comentário, The Gospel of Mark (The Daily Study Bible,
Philadelphia, 1956), pp. 40, 41, que a paralisia pôde ter sido causada pela própria convicção de pecado
que o homem tinha. Mas o texto não sugere isto.
Marcos (William Hendriksen) 119
68
pecados estão perdoados,” pois a ordem das palavras no original faz
com que toda a ênfase recaia no amor perdoador.
Esta declaração de perdão não só foi de inestimável bênção para o
paralítico, mas também foi motivo de felicidade para seus benfeitores.
Sem dúvida que eles se alegraram na alegria que ele sentia. Ainda mais,
foi uma lição para todos os presentes. A todos ficou claro o fato de que
este Médico estimava mais as bênçãos espirituais que as materiais, e que
reclamava possuir “autoridade”, quer dizer, o direito e o poder para curar
não só o corpo mas também a alma.
Jesus jamais considerou o pecado com leviandade. Alguma vez
disse a alguém, “Tem algum complexo de culpa? Esquece-o”. Ao
contrário, considerou o pecado como um desvio indesculpável da santa
lei de Deus (Mc. 12:29, 30), como algo que tem o poder de afogar a alma
(Mc. 4:19; cf. Jo. 8:34) e como um assunto que tem que ver com o
coração e não só com os atos externos (Mc. 7:6, 7, 15–23). Mas também
ofereceu a única solução verdadeira. Compreendia muito bem que o
conselho “Livre-se de seu complexo de culpa, pois uma pequena
crueldade, promiscuidade ou infidelidade, não é nada mau”, não
soluciona nada senão cria mais problemas. Também sabia que ao ser
humano é totalmente impossível livrar-se do sentido de culpabilidade,
pretendendo compensar seus pecados com boas obras. Sabia que esta
filosofia conduziria unicamente a um trágico fracasso e a um espantoso
desespero. Em vez disso, Jesus tinha vindo proclamar e, acima de tudo,
prover a simples e única solução para o pecado, a saber, o perdão. E Ele
mesmo pôs a base para esta por meio da expiação que fez pelo pecado
(Mc. 10:45; 14:22–24, cf. Jo. 1:29). Portanto, ao dizer ao paralítico, “os
teus pecados estão perdoados”, não só comunica a este homem as novas
do perdão de Deus (como fez Natã ao penitente Davi, cf. 2Sm. 12:13), e
sim com autoridade cancela a dívida do paralítico. O Senhor apagou seus
68
Seja que, entre as variantes, adote-se ἀφίενται (presente ind. pas.) tanto para Mc. 2:5 como para Mt.
9:2, ou se prefira ἀφέωνται (perfeito ind. pas., cf. Lc. 5:20), o significado resulta mais ou menos o
mesmo: os pecados deste homem foram nesse momento permanentemente perdoados.
Marcos (William Hendriksen) 120
pecados completamente e para sempre (cf. Sl 103:12; Is. 1:18; 55:6, 7;
Jr. 31:34; Mq. 7:19; Jo. 1:9). Além disso, tal perdão nunca vem sozinho.
É sempre “perdão e algo mais”. Em Cristo, Deus dissipa a tenebrosidade
do inválido e o abraça com os braços de Seu amor protetor e adotivo (cf.
Rm. 5:1).
6, 7. Mas alguns dos escribas estavam assentados ali e arrazoavam
em seu coração: Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Quem
pode perdoar pecados, senão um, que é Deus?
Um poeta holandês chamou a culpa do homem “a raiz de todos os
problemas humanos”. Um psicólogo britânico chamou o sentido de
sentir-se perdoado “a força mais curativa do mundo”. E quão
frequentemente os especialistas nos informam que muitos pacientes
poderiam receber alta das instituições de enfermidades mentais, se tão só
pudessem convencer-se de que sua culpa foi apagada! Pensar-se-ia,
portanto, que todos aqueles que ouviram Jesus dizer ao paralítico, “Filho,
os teus pecados estão perdoados” unir-se-iam ao regozijo do homem
perdoado. Mas não foi assim, pois os escribas tinham vindo para ver se
podiam achar algum erro em Jesus. Em seus corações não havia lugar
para participar da alegria deste homem terrivelmente afetado, quem
nestes momentos escutava palavras de alento e alegria. De maneira
altamente depreciativa, estes inimigos dizem algo decididamente
desfavorável. Entretanto, não o dizem em voz alta, mas somente dentro
de seus corações. Mas os corações são muito importantes. Acaso não são
a fonte principal das inclinações, como também dos sentimentos e dos
pensamentos? Não é o coração do homem aquele que mostra o tipo de
pessoa que realmente é? (veja-se Mc. 3:5; 6:52; 7:14–23; 8:17; 11:23;
12:30, 33; Ef. 1:18; 3:17; Fp. 1:7; 1Tm. 1:5. Cf. Pv. 23:7).
Assim que, em seus corações os escribas dialogam, lançam
pensamentos e respondem. O que dizem é isto: “Por que fala assim este
homem? Está blasfemando!”. Adota para Si prerrogativas que só
pertencem a Deus. Isto O torna culpado de blasfêmia, quer dizer, de uma
irreverência insolente. Rouba a Deus a honra que a ninguém mais
Marcos (William Hendriksen) 121
pertence, porque: “Quem pode perdoar pecados, senão um, que é
Deus?”.
Os escribas tinham razão ao considerar a remissão de pecados uma
prerrogativa divina (Êx. 34:6, 7a; Sl 103:12; Is. 1:18; 43:25; 44:22; 55:6,
7; Jr. 31:34; Mq. 7:19). Claro que há um sentido em que nós também
perdoamos, quer dizer, quando de todo coração decidimos não tomar
vingança, e sim amar a quem nos ofendeu, promover seu bem-estar e
nunca mais trazer o assunto à memória (Mt. 6:12, 15; 18:21; Lc. 6:37;
Ef. 4:32; Cl. 3:13). Mas basicamente, segundo se descreveu, só Deus
perdoa. Só ele tem o poder de tirar a culpa e declarar que realmente foi
apagada. Mas agora o pensamento dos escribas chega à uma bifurcação
que lhes mostra dois caminhos: a. Jesus é o que por implicação pretende
ser, quer dizer, Deus; ou, b. Ele blasfema, no sentido de que sem direito
pretende para Si os atributos e prerrogativas da deidade. Os escribas
adotaram a posição b. e assim tomam a direção errada.
O contexto que segue implica que não só cometeram este trágico
erro, mas também o complementaram raciocinando mais ou menos como
segue: “É fácil dizer, ‘Teus pecados te são perdoados’, visto que
ninguém está em condições de provar o contrário. Ninguém pode olhar o
coração de seu próximo ou aproximar-se do trono do Todo-Poderoso, e
descobrir suas decisões judiciais quanto a quem recebe e quem não
recebe o perdão. Por outro lado, dizer a este homem, ‘Levanta-te e anda’
seria muito mais difícil, porque se não se produz a cura, o que é
provável, aqui estamos todos para presenciar sua vergonha”. Portanto, na
opinião deles, Jesus é um blasfemo e um impertinente.
O Mestre desfaz estas duas falsas conclusões por meio destas
palavras:
8-11. E Jesus, percebendo logo por seu espírito que eles assim
arrazoavam, disse-lhes: Por que arrazoais sobre estas coisas 69 em vosso
coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus

69
Ou: abrigais tais pensamentos.
Marcos (William Hendriksen) 122
pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que
saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar
pecados — disse ao paralítico: 70 “Te digo, te levante, toma sua maca e
vete a sua casa”.
Jesus percebeu o que estes escribas pensavam. Suas deliberações
secretas não foram desconhecidas para Jesus (cf. Mt. 17:25; Jo. 1:47, 48;
2:25; 21:17). Se não tivesse sido Deus, não Lhe teria sido possível
penetrar tão profundamente em seus corações e pensamentos secretos (Sl
139; Hb. 4:13). Jesus os repreende com sua pergunta: “Por que
raciocinais assim?”. O “diálogo” deles era perverso (cf. Mt. 9:4), porque
O acusavam falsamente. Eles eram os perversos. Acaso não tinham
vindo com o propósito de buscar a forma de destruí-Lo (cf. Mc. 3:6)?
Deveriam examinar seus próprios corações!
Quanto ao que é mais fácil, dizer ao paralítico, “Estão perdoados os
teus pecados” ou “Levanta-te, toma o teu leito e anda”, não requerem
ambas as coisas a mesma medida de poder onipotente? Segundo o
raciocínio dos escribas, para que Jesus pudesse lhes provar sua
autoridade” (seu direito e poder) na esfera do espiritual, devia operar um
milagre na esfera do físico. Então, que vejam este milagre!
De modo que, diz-lhe ao paralítico: “Levanta-te, toma o teu leito e
vai para tua casa”. A obediência a esta ordem provaria que o humilde
mas glorioso “Filho do homem” tem autoridade divina aqui na terra.
Portanto, antes que a porta da graça seja fechada, tem autoridade para
perdoar pecados.
Marcos usa pela primeira vez o termo “Filho do homem”. No total,
ocorre quatorze vezes neste Evangelho: duas vezes no começo (Mc.
2:10, 28), sete vezes no meio (Mc. 8:31, 38; 9:9, 12, 31; 10:33, 45) e
cinco vezes rumo ao fim (Mc. 13:26; 14:21; 14:41; 14:61). É a forma em

70
O fato de que Mc. 2:10 e seus pares (Mt. 9:6 e Lc. 5:24) mostrem um estilo tão parecido, incluindo
até o parêntese na metade da cláusula, assinala em direção de uma dependência literária. Veja-se a
discussão do problema sinótico no CNT sobre Mateus. Quanto a Mc. 2:8 “em vosso coração”, veja-se
sobre Mc. 8:12.
Marcos (William Hendriksen) 123
que Cristo Se designa a Si mesmo, encobrindo mais que revelando algo
de Si mesmo. Encobrindo especialmente para aqueles que não se acham
inteiramente familiarizados com o Antigo Testamento. O uso desta
expressão conduziu à pergunta: “Quem é esse Filho do Homem?” (Jo.
12:34). A frase caracteriza a Jesus como Aquele que sofre, como Aquele
que seria traído e sacrificado (Mc. 9:12; 14:21, 41); tudo isto em
conformidade com o decreto divino, voluntária e vicariamente (Mc.
10:45). Seu sacrifício voluntário em lugar de Seu povo seria
recompensado (Mc. 8:31; 9:31; 10:33, 34). Depois de Sua morte levanta-
Se novamente. Tendo partido desta terra, um dia voltará em glória,
sentado à destra do Todo-Poderoso (Mc. 14:62), cumprindo a profecia de
Dn. 7:13, 14. Tão intrinsecamente glorioso é Ele, que Sua glória se
remonta para trás, através de toda Sua vida terrestre. Na realidade
sempre foi — até em Seus sofrimentos — o glorioso Filho do homem.
Estando ainda na terra, tem o direito de perdoar pecados (Mc. 2:10) e é
Senhor de tudo, incluindo até o sábado (Mc. 2:28). Para mais a respeito
de este tema, veja-se CNT sobre Mt. 8:20.
O presente relato mostra com clareza a glória do Filho do homem.
Jesus lhe tinha ordenado ao paralítico que se levantasse, etc. Resultado:
12. Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito,
retirou-se à vista de todos.
O homem creu que Aquele que lhe ordenava levantar-se, tomar seu
leito e ir para casa também o capacitaria a obedecer a ordem. Assim que
“à vista de” todos os que olhavam, obedeceu imediatamente a tríplice
ordem e foi embora para casa (que, talvez, estivesse aí mesmo em
Cafarnaum?). Marcos narra o efeito que a gloriosa transformação que
experimentou este homem produziu naqueles que ouviram o que Jesus
disse e que viram o que aconteceu: a ponto de se admirarem todos e
darem glória a Deus, dizendo: Jamais vimos coisa assim! Marcos nos
fala a respeito do assombro de todos. Jamais em sua vida tinham
presenciado algo semelhante. De acordo com Mateus, a multidão “se
maravilhou”. Lucas em seu relato diz que todos “estavam sobressaltados
Marcos (William Hendriksen) 124
de assombro … e cheios de temor”, levando-os a exclamar, “Hoje vimos
maravilhas”.
Os três Evangelhos observam que a multidão glorificava a Deus:
“todos” (assim Marcos e Lucas) atribuem-lhe a Deus a honra e esplendor
que Lhe é devido. Como ocorre com frequência, este “todos” é muito
geral e não significa que os escribas zombadores e críticos houvessem de
repente experimentado uma mudança genuína de coração e mente.
Marcos 2:16, 24; 3:2, 6, 22 deixa claro que homens deste tipo seguiram
hostis e se endureceram cada vez mais. Não obstante, a resposta de
glorificar a Deus foi o suficientemente geral para justificar o uso da
palavra “todos”. E não há dúvida de que entre os muitos que O exaltaram
estavam alguns em quem as palavras e obras de Cristo tinham produzido
uma impressão permanente e salvadora. Provavelmente havia outros que
em seu entusiasmo pronunciavam também palavras de louvor ao
Altíssimo (cf. Dn. 4:34; 6:26, 27), mas cujos corações continuavam sem
o novo nascimento (cf. Mc. 7:6).

Mc. 2:13–17 - A chamada de Levi


Cf. Mt. 9:9–13; Lc. 5:27–32

Conforme o indica Mateus 9:9, depois da cura do paralítico veio a


chamada de Levi, o publicano.
13. De novo, saiu Jesus para junto do mar, e toda a multidão
vinha ao seu encontro, e ele os ensinava. Como ocorreu quando
chamou os primeiros quatro discípulos (Mc. 1:16), Jesus de novo
caminhava pela margem do mar da Galileia. Não nos deve surpreender
que ao sair da casa cheia de gente (Mc. 2:2), o Mestre dirigisse Seus
passos rumo à agradável e refrescante brisa da praia. Mas logo que a
multidão soube onde Se achava, começou a juntar-se outra vez ao Seu
redor, e este processo de aproximação de Jesus como centro de atração
continuou por algum tempo. Por sua vez, Ele não lhes pediu que fossem
embora, antes, começou a lhes ensinar, e aqui Ele é descrito no momento
Marcos (William Hendriksen) 125
que lhes fala. A cena nos lembra algo daquela descrita em Mc. 6:30–34.
Ali também Jesus, buscando repouso e refrigério para Ele e Seus
discípulos, afasta-Se das multidões só para as encontrar de novo reunidas
no lugar que tinha escolhido para seu descanso. Uma multidão ou pessoa
(Mc. 7:24) necessitada despertava sempre a compaixão de Jesus (veja-se
Mt. 9:36). Tendo terminado de ensinar, Jesus volta ao Seu passeio pela
praia.
14. Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na
coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu.
Marcos e Lucas chamam a este homem Levi (nome que se explica
em Gn. 29:34), mas ele se chama a si mesmo Mateus (Mt. 9:9ss.), que
significa “dom de Jeová”. Quando foi mudado seu nome de Levi a
Mateus? Foi Jesus quem lhe deu este novo nome quando o coletor de
impostos chegou a ser Seu discípulo, da mesma forma que o Senhor
mudou o nome de Simão a Cefas (= Pedro, Mc. 3:16; Jo. 1:42)? Também
é possível que desde o começo este novo discípulo tenha tido dois
nomes, o que também pôde ter ocorrido no caso de Tomé (Jo. 11:16) e
Bartolomeu (Mt. 10:3; Mc. 3:18; Lc. 6:14; At. 1:13; cf. Jo. 1:45–49;
21:2).
É difícil negar que Levi e Mateus sejam a mesma pessoa, conforme
o demonstra a comparação dos três relatos dos Sinóticos. Além disso,
Lucas chama “publicano” a Levi (Lc. 5:27), e na lista dos Doze (segundo
se vê em Mt. 10:3) menciona-se a “Mateus o publicano”.
O nome do pai era Alfeu, o qual não deve confundir-se (como se
costuma suceder) com o pai de Tiago, o menor, e de José, quem tinha o
mesmo nome (Mc. 3:18; cf. 15:40). Se outro membro dos Doze tivesse
sido irmão de Levi (ou Mateus), isto com certeza teria sido mencionado,
como foi no caso de Pedro e André, de Tiago e João.
Ao ir pela praia, Jesus vê Levi que estava sentado em (quer dizer,
em ou perto da entrada de) o posto da arrecadação, lugar onde se
cobravam os impostos de toda mercadoria que passava pela via
internacional entre a Síria e o Egito.
Marcos (William Hendriksen) 126
Levi era coletor de impostos ou “publicano”. Alguns romanos,
geralmente de posição equestre, pagavam grandes somas de dinheiro à
tesouraria romana, para que fossem nomeados para arrecadar o imposto
público sobre importações e exportações pertencentes a uma província.
Estes “empreiteiros”, como foram chamados, costumavam subarrendar o
privilégio a “publicanos chefes” como Zaqueu (Lc. 19:2), os quais por
sua vez designavam “publicanos” de menor posição para que efetuassem
a própria arrecadação.
O termo “publicano”, que o princípio provavelmente foi o
equivalente de “empreiteiro”, começou a usar-se num sentido secundário
para designar os cobradores de impostos de qualquer posição. Nesta
parte do Império Romano os principais postos de arrecadação se
achavam em Cesareia, Cafarnaum e Jericó.
Em geral, os publicanos cobrariam o que pudessem tirar grandes
somas do mercado. Isto lhes deu fama de chantagistas. Além disso, os
judeus consideravam os publicanos judeus como traidores. Eram tidos
como infiéis ao seu próprio povo e à sua religião. Acaso não estavam a
serviço do opressor estrangeiro? Afinal de contas, estavam servindo e
enriquecendo o imperador romano, a um pagão. A baixa estima em que
eram tidos vê-se em passagens tais como as seguintes: Mc. 2; 15, 16; cf.
Mt. 9:10, 11; 11:19; 21:31, 32; Lc. 5:30; 7:34; 15:1; 19:7. Os
“publicanos” e os “pecadores” eram mencionados juntos. Não obstante,
Jesus agora se volta para um odiado publicano, para fazê-lo um de Seus
discípulos.
Deve-se ter em mente que a estas alturas Jesus já tinha reunido em
torno de Si os seguintes discípulos: Simão e André, Tiago e João (Mc.
1:16–20); e de acordo com o Evangelho de João também a Filipe e
Natanael (Jo. 1:35–51). Não se indica se também outros teriam sido
chamados. Se não, então Levi (= Mateus) foi o sétimo discípulo de Jesus.
A chamada dos Doze como grupo ocorreu um pouco depois (cf. Mc.
2:13, 14 com 3:13–19; Lc. 5:27, 28 com 6:12–16), um pouco antes da
pregação do Sermão da Montanha (Lc. 6:17–49). Mateus não se
Marcos (William Hendriksen) 127
interessa na ordem cronológica, assim que registra tal sermão nos
capítulos 5–7 de seu Evangelho.
Quando Jesus lhe disse, “Segue-me”, Levi levantou-se
imediatamente e O seguiu. Em seu próprio Evangelho (bem como em
Marcos), Mateus entrega um registro sóbrio da forma imediata e decisiva
em que obedeceu a Jesus. Se quisermos mais detalhes que contem o
grande sacrifício que significou para ele seguir a Jesus, devemos dirigir-
nos a Lucas 5:28, onde se diz que Mateus “deixou tudo”. Abandonou seu
lucrativo negócio e confiou em que Deus proveria para suas
necessidades. É evidente que ao agir assim seu sacrifício foi maior que o
dos quatro mencionados em Marcos 1:1–20. A estas alturas ainda era
possível para Simão, André, Tiago e João dedicar-se a pescar de vez em
quando. Diferente de Mateus, cujo sacrifício foi total.
Sua generosidade e a veemência com a que seguiu a Jesus fizeram-
se evidentes pelo fato de que em sua casa honrou a Jesus com um
banquete.
Em resumo, vos Sinóticos descrevem ao Levi dá seguinte maneira:
Mateus, judeu coletor de impostos, ao serviço de Roma; e como tal
Aborrecido pelos judeus, especialmente pelos escribas. Entretanto,
foi humilde e hospitaleiro; veja-se especialmente Lc. 5:28, 29;
Talentoso e inspirado escritor, conhecedor do hebraico, o aramaico
e o grego; conhecia bem o Antigo Testamento, o qual cita com muita
frequência;
Ecumênico, no sentido de Mt. 28:19, refletia a mente de Cristo; e
Obediente ao seu Mestre, acudindo prontamente ao seu chamado.

Foi na casa de Levi onde Marcos apresenta Jesus como um


convidado:
15. Achando-se Jesus à mesa na casa de Levi, estavam
juntamente com ele e com seus discípulos muitos publicanos e
Marcos (William Hendriksen) 128
71
pecadores; porque estes eram em grande número e também o
seguiam.
Ele foi Levi quem, por certo, ofereceu o banquete em sua casa é
evidente por Lucas 5:29. O antecedente imediato (“e o seguiu”) no final
do versículo 14 estabelece que o sujeito de “à mesa” (v. 15) é Jesus.
Assim que, foi em casa de Levi onde Jesus estava reclinado. Ali também
muitos coletores de impostos e pecadores comiam junto com o Mestre e
Seus discípulos. Naquele tempo, para a pessoa comer ela se reclinava
sobre colchões, sofás ou divãs ao redor de mesas baixas, apoiados sobre
o cotovelo esquerdo. Pelo menos, esse era o costume durante uma festa.
Cf. Mc. 6:26; 14:18; 16:14; e veja-se CNT sobre Jo. 13:23.
Publicanos e pecadores! 72 Segundo a opinião dos fariseus, um
“pecador” era aquele que se negava a submeter-se à interpretação que os
fariseus davam da santa lei de Deus, a Torá. Nesse sentido até o próprio
Jesus e Seus discípulos eram pecadores, quer dizer, pecadores no sentido
em que os fariseus definiam essa palavra. Os fariseus exigiam que as
pessoas se submetesse a um rito de purificação religiosa no qual se
lavavam as mãos antes de comer, exigiam que guardassem certas leis
que eles tinham inventado com relação ao sábado. Mas ocorria que nem
o Mestre nem Seus seguidores se conduziam conforme este tipo de
interpretação rabínica da lei. Na realidade, não estamos longe da verdade
se dissermos que aos olhos dos fariseus todos os que não eram fariseus
eram “pecadores”: “Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita”
(Jo. 7:49). Portanto, certamente que os fariseus chamariam “pecador” a
uma pessoa que tivesse sido objeto da graça de Deus, a um verdadeiro
discípulo do Senhor Jesus Cristo.
No entanto, aqui devemos ter muito cuidado. Segundo seu uso nos
Evangelhos, o termo não deve ser interpretado de maneira muito
favorável, como se todos estes “pecadores” que se reclinavam junto a

71
Ou: “gente de má reputação”; e assim através dos Evangelhos. Veja-se a explicação.
72
Sobre ἁμαρτωλός, veja-se K. H. Rengstorf, TDNT, vol. 1, p. 328.
Marcos (William Hendriksen) 129
Jesus em casa de Mateus fossem “santos” (no sentido de ser gente
excepcionalmente virtuosa). Talvez o contrário estaria mais perto da
verdade. Os publicanos e pecadores não só violavam a interpretação
rabínica da lei de Deus, mas também a própria lei divina. Jesus não
justifica nem comuta sua forma de vida. Antes, os aborda como a
doentes que precisam ser curados (v. 17), como ovelhas perdidas que
devem ser achadas (Lc. 15:1–4; 19:10). Tinha vindo do céu para libertar
esta gente de seus pecados e misérias.
Mateus entende isto e honra a Jesus com um banquete. Abriga a
esperança, naturalmente, de que todos estes desprezados publicanos e
pecadores também cheguem a ser como ele, um seguidor espiritual de
Cristo.
Embora existam explicações divergentes das palavras que se acham
no final do v. 15, parece-me que se forem lidas à luz do contexto, não é
tão difícil de encontrar a explicação correta. A chave está na repetição da
palavra “muitos”. Observe-se: “…também estavam sentados à mesa com
Jesus e com seus discípulos muitos publicanos e pecadores, porque eram
muitos e o tinham seguido” [Mc. 2:15, RC]. O segundo muitos é
provavelmente uma espécie de resumo, e significa que os publicanos, e
em geral a gente que se pontuava de pecadora, eram muitos e tinham
começado a lhe seguir” (Bruce). A palavra “pois” pode ser explicada
desta forma: “Pode parecer estranho que muitos coletores de impostos e
pecadores, gente desprezada, estivessem reclinados à mesa com Jesus; e
não obstante, é a verdade: achavam-se reclinados com Ele porque tinham
começado a vê-Lo como um Amigo (cf. Mt. 11:19; Lc. 7:34), como
Alguém a quem começavam a seguir”. 73

73
A pontuação do texto — veja-se GNT — que sugere que o sujeito de καὶ ἠκολούθουν αὑτῷ está em
καὶ οἱ γραμματεῖς κτλ dá um sentido muito improvável, como se estes inimigos de Jesus estivessem
presentes no banquete, e como se tivessem começado a seguir ao Senhor! Vincent Taylor tem razão
em rejeitar esta construção, visto que se a expressão “começavam segui-lo” se interpreta
favoravelmente, está em conflito com o v. 16; e se for interpretada em sentido desfavorável,
respondemos que em vintena de casos em Marcos que se usa ἀκολευθέω, jamais usa o verbo em
sentido desfavorável.
Marcos (William Hendriksen) 130
16. Vendo os escribas dos fariseus que ele comia com os pecadores e
publicanos, perguntaram aos discípulos dele: Como é que ele come com os
publicanos e pecadores? [TB]
Assim como nem todo sacerdote era saduceu (veja-se em Jo. 1:24),
tampouco todo escriba era fariseu (cf. Lc. 5:30, “seus escribas”); porém
no presente caso somos informados definidamente que os críticos eram
escribas de profissão e que pertenciam à seita religiosa dos fariseus. 74
Estes escribas farisaicos estavam sempre preparados e desejosos de
encontrar falhas em Jesus, mas em geral não tinham a dignidade de
criticá-Lo face a face. É muito provável que estes escribas se
aproximaram dos discípulos quando o banquete tinha terminado e os
convidados saíam do lugar. Foi nesse momento que perguntaram, 75
“¿Como é que ele come com os publicanos e pecadores?” Acaso comer
com uma pessoa não implica uma amável camaradagem? (veja-se CNT
sobre Mt. 8:11). E acaso os rabinos não tinham estabelecido a regra, “Os
discípulos dos eruditos não devem reclinar-se à mesa na companhia dos
‘am hā-’āreç”? Eles usavam a expressão ‘am hā-’āreç para referir-se ao
“povo da terra”, ao “vulgo”, ao “povo que não conhece a lei” (veja-se Jo.
7:49).
Sua falta de compaixão e sua atitude santarrã (Lc. 18:9) não
permitia que estes críticos entendessem que há ocasiões quando a
camaradagem com publicanos e pecadores está perfeitamente em ordem,
e tão em ordem que seria impróprio evitar tal camaradagem. Ao
associar-se com esta gente de má reputação, Jesus saía ao encontro de
uma necessidade, tal como Ele mesmo o declara:

Por outro lado, Taylor (junto com Bolkestein, Groenewald e Van Leeuwen em seus comentários) crê
que o segundo “muitos” refere-se aos discípulos de Jesus, como se Marcos estivesse informando ao
leitor que por esse tempo Jesus já tinha outros discípulos, além dos mencionados em Mc. 1:16–20 (cf.
BP). Mas esta interpretação não faz justiça à repetição da palavra “muitos”. Em resumo, adiro-me à
estrutura e interpretação que encontramos em NVI, RA, NTT, CB, CI, BJ, LT.
74
Sobre os fariseus e os saduceus, sobre sua origem, o antagonismo que havia entre eles e sobre a
forma em que cooperaram para matar a Jesus, veja-se CNT sobre Mt. 3:7.
75
Aqui ὅτι é provavelmente uma elipse de τί ὅτι, o que significa “o que (é) isso?” e assim “por que?”.
Cf. Mt. 9:11 e Lc. 5:30 que têm διὰ τί, isto é “por causa do quê?” ou “por quê?”
Marcos (William Hendriksen) 131
17. Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não
precisam de médico, e sim os doentes.
Jesus tomou nota da crítica dos escribas. Assim que, Ele mesmo
lança neles a resposta precisa por meio do que pôde ter sido um
provérbio familiar. Quando Jesus intimava com pessoas de baixa
reputação, não o fazia acotovelando-se com eles como companheiro de
maldades. A Jesus não se podia aplicar o provérbio, “Dize-me com quem
comes e te direi quem és”. Antes, Sua intimidade era como a do médico
que, sem contaminar-se de modo nenhum com as enfermidades de seus
pacientes, aproxima-se deles a fim de lhes trazer cura! Além disso, eram
precisamente os fariseus os que deviam haver entendido isto. Não são
eles os que se consideravam sãos e que tinham os outros como doentes?
Se os publicanos e pecadores estão tão enfermo, não precisam ser
curados? Em que consiste o trabalho do médico, em curar sãos ou curar
doentes? Os doentes, naturalmente!
Jesus acrescenta: Não vim chamar justos, e sim pecadores. Isto é
o que basicamente se lê em Mateus e em Lucas. Contudo, em Mateus
estas palavras são precedidas por uma citação de Oseias 6:6 e
introduzidas pela conjunção “porque”. Em Lucas se acrescenta a frase
“(pecadores) ao arrependimento”.
A passagem deixa claro que o convite à salvação, plena e gratuita,
não se oferece aos “justos”, quer dizer, àqueles que se consideram
dignos, e sim aos que se consideram indignos e que estão em grande
necessidade. Foram os pecadores, os perdidos, os estraviados, os
mendigos, os sobrecarregados, os famintos e os sedentos a quem Jesus
veio para salvar (vejam-se também Mt. 5:6; 11:28–30; 22:9, 10; Lc.
14:21–23; cap. 15; 19:10; Jo. 7:37, 38). Isto está em harmonia com toda
a revelação especial, tanto no Antigo como no Novo Testamento (Is.
1:18; 45:22; 55:1, 6, 7; Jr. 35:15; Ez. 18:23; 33:11; Os. 6:1; 11:8; Rm.
8:23, 24; 2Co. 5:20; 1Tm. 1:15; Ap. 3:20; 22:17). É uma mensagem
cheia de alento e pertinente para todas as épocas!
Marcos (William Hendriksen) 132
Mc. 2:18–22 - A pergunta a respeito do jejum
Cf. Mt. 9:14–17; Lc. 5:33–39

18. Ora, os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando.


O relato de Marcos carece de toda referência específica quanto a
tempo ou ordem cronológica. 76 Isto é certo tanto desde o começo como
ao final do relato. Quanto a Mateus, não é totalmente seguro que a
palavra “então” ligue esta história com a que a precede imediatamente,
como se os dois eventos — o banquete de Mateus e a pergunta sobre o
jejum — seguissem um ao outro em sucessão imediata. 77 A conjunção
“e”, que Lucas usa (Lc. 5:33) não é mais definida que o “então” de
Mateus. Existe, entretanto, um dado cronológico que está claro. Acha-se
em Mateus 9:18 [TB]: “Enquanto assim lhes falava, veio um chefe da
sinagoga …”. A probabilidade é que, enquanto a chamada de Mateus e o
banquete ocorreram antes da eleição dos Doze e da pregação do Sermão
da Montanha (veja-se Mc. 3:13–19; Lc. 6:12–9), o assunto a respeito do
jejum (que veio seguido de perto pelo duplo milagre registrado em Mc.
5:25–43) ocorreu depois da eleição dos Doze e o Sermão da Montanha.
A lei de Deus sugere que se jejue uma vez por ano, ou seja, no dia
da expiação (Lv. 16:29–34; 23:26–32; Nm. 29:7–11; cf. At. 27:9). Com
o correr do tempo, os jejuns começaram a multiplicar-se (embora nem
sempre consistiam numa abstinência total de alimentos; veja-se o texto
em cada caso), e assim lemos a respeito deles em outras ocasiões
também: do nascer do sol até o seu ocaso (Jz. 20:26; 1Sm. 14:24; 2 S.
1:12; 3:35); durante sete dias (1Sm. 31:13), três semanas (Dn. 10:3);
quarenta dias (Êx. 34:2, 28; Dt. 9:9, 18; 1Rs. 19:8); no quinto e sétimo
mês (Zc. 7:3–5); e até no quarto, quinto, sétimo e décimo mês (Zc. 8:19).
76
Cf. N. B. Stonehouse, Origins of the Synoptic Gospels (Grand Rapids, 1963), p. 66.
77
Mateus usa o advérbio de tempo τότε umas noventa vezes. Entretanto, mesmo quando com
frequência indica sucessão cronológica, isto nem sempre significa necessariamente sucessão imediata.
“Então” quer dizer “depois”, mas sem indicar nada definido quanto ao tempo exato (Mt. 3:13; 12:22);
“então” também pode querer dizer “imediatamente depois” (Mt. 2:7; Jo. 13:27). Para outros usos,
veja-se qualquer bom Léxico; como p. ex., BAGD, p. 823.
Marcos (William Hendriksen) 133
O clímax chegou quando se começou a jejuar “duas vezes por
semana”, 78 o que motivou a jactância dos fariseus (Lc. 18:12).
Portanto, não surpreende que por alguma razão os fariseus se
achassem jejuando outra vez. Quando jejuavam luziam mal-humorados,
com seus rostos gastos a fim de que todo mundo visse que jejuavam.
Jesus condenou rotundamente esta maneira de jejuar (Mt. 6:16).
Mas por que se achavam jejuando também os discípulos de João?
Têm sido sugeridas várias razões. João fez sua primeira aparição pública
provavelmente no verão do ano 26 d.C. A fins do ano 27 foi
encarcerado. Jesus deve ter pregado o Sermão da Montanha em algum
momento entre a primavera e o verão do ano 28. Pouco tempo depois —
talvez no começo do ano 29 — João foi decapitado. Por conseguinte, não
é impossível que o jejum dos discípulos de João fosse uma forma de
expressar sua dor pelo encarceramento ou a morte de seu mestre. Não é
necessário crer que os fariseus e os discípulos de João estivessem
jejuando pela mesma razão. Contudo, deve admitir-se que também é
possível que ambos os grupos realmente estivessem jejuando pela
mesma razão. Devemos ter em mente que em certo sentido João era um
asceta (Mt. 11:18; Lc. 7:33). Enfatizava o pecado e a necessidade de
abandoná-lo. Assim que, não é inconcebível que ele tivesse favorecido o
jejum como expressão de luto pelo pecado, a mesma razão que os
fariseus provavelmente davam para a maioria de seus jejuns (cf. Mt.
6:16).
Vieram alguns 79 e lhe perguntaram [a Jesus]: Por que motivo
jejuam 80 os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus
discípulos não jejuam? Quanto a “vieram”, a pergunta é: “A que grupo
refere-se a terceira pessoa plural do vieram?”. Lucas 5:33 é tão
indefinido quanto Marcos 2:18. Em ambos os casos se poderia colocar

78
Jejuava-se na segundas-feira e quarta-feira, de acordo com a Didaquê. VIII.1.
79
Ou: e algumas pessoas vieram.
80
Ou: Por que estão jejuando os discípulos de João e os discípulos dos fariseus, mas os teus discípulos
não estão jejuando?”.
Marcos (William Hendriksen) 134
“vieram alguns” [RA] em lugar de “e vieram”. Se pensa-se num
antecedente definido, então Marcos 2:18 poderia estar falando dos
“escribas que eram fariseus” (literalmente, “os escribas dos fariseus”) do
v. 16; e Lucas 5:33 estaria apontando aos “fariseus e seus escribas” do v.
30. Entretanto, é muito duvidoso que em qualquer dos dois casos o
contexto esteja provendo um antecedente. Por outro lado, Mateus 9:14
estabelece claramente que os que perguntaram foram “os discípulos de
João”. Sendo que nessa oportunidade não só eles, mas também os
fariseus estavam jejuando, é concebível que o grupo dos que
perguntavam incluísse também aos fariseus.
Não é um problema que os que se descrevem como jejuando sejam
“os discípulos de João”. Mesmo depois do encarceramento de João seus
discípulos continuaram como um grupo separado que se distinguia dos
seguidores de Jesus. Existia, entretanto, uma relação de camaradagem e
cooperação entre os dois grupos, segundo se evidencia em passagens
como Mateus 11:2, 3; 14:12, e provavelmente até na passagem que agora
estudamos, Marcos 2:18. Mas surge um problema com relação à frase
“os discípulos dos fariseus” (veja-se também Lc. 5:33). Considerados
como grupo “os fariseus” não eram mestres propriamente ditos e,
portanto, não tinham discípulos. Não obstante, o problema poderia ser
mais aparente que real. Quando Marcos escreve “discípulos dos
fariseus”, pôde ter querido dizer “discípulos dos escribas que eram
fariseus”, como em Mc. 2:16. O ponto principal é que os discípulos de
João e presumivelmente os discípulos destes escribas fariseus estavam
jejuando, conforme o ensino e/ou o exemplo de seus líderes. Mateus 9:14
declara que os fariseus jejuavam “muitas vezes”. Por outro lado, os
discípulos de Cristo não participavam destes jejuns. A pergunta surgiu
devido a este notável contraste.
Em favor dos que levantaram a pergunta, deve-se dizer que não
passaram por alto a Jesus, mas que se dirigiram a Ele direta e
francamente. Além disso, embora havia certa crítica na pergunta que
Marcos (William Hendriksen) 135
levantaram, não se tratava de uma acusação velada mas mordaz, porém
de uma honesta pergunta que demandava informação.
Em todo caso, a pergunta não se justificava realmente, porque se
estes homens tivessem sido melhores estudantes das Escrituras teriam
sabido a. que o único jejum que com esforço da imaginação poderia
derivar-se da lei de Deus era aquele que se levava a cabo no dia da
expiação, e b. que de acordo com o ensino de Isaías 58:6, 7 e Zacarias
7:1–10, o que Deus demandava não era um jejum no sentido literal, e
sim amor para com Deus e a humanidade.
19. Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os
convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles?
Nos três sinóticos a pergunta se expressa de tal maneira que a
resposta tem que ser “Não”. Entretanto, Marcos faz com que a resposta
seja mais clara, informando que Jesus acrescentou: Durante o tempo em
que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Aqui Jesus compara
Sua bendita presença na terra com uma festa de bodas. Vez após vez a
Escritura compara a relação entre o Senhor e Seu povo, ou entre Cristo e
Sua igreja, com o amor que existe entre o marido e a esposa (Is. 50:1ss.;
54:1ss.; 62:5; Jr. 2:32; 31:32; Os. 2:1ss.; Mt. 25:1ss.; Jo. 3:29; 2Co. 11:2;
Ef. 5:32; Ap. 19:7; 21:9). Literalmente, o v. 19 fala dos filhos da
“câmara nupcial”, o que significa “os companheiros do noivo”. Estes
eram amigos do noivo. Permaneciam perto dele. Eram convidados à
bodas, estavam encarregados dos arranjos e deviam fazer todo o possível
para promover o êxito das festividades.
É como se Jesus dissesse: Os amigos do noivo jejuando enquanto
transcorre a festa! Que absurdo! Assim incongruente seria que os
discípulos do Senhor fizessem luto enquanto seu Mestre leva a cabo
obras de misericórdia e pronuncia belas palavras de vida. Que
incongruência!
Entretanto, Jesus acrescenta,
20. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse
tempo, jejuarão.
Marcos (William Hendriksen) 136
Esta é uma das primeiras predições da morte de Cristo na cruz. A
predição que indica que o noivo, Cristo, será tirado acha-se também nas
passagens paralelas (Mt. 9:15; Lc. 5:35). Lembra-nos imediatamente
Isaías. 53:8 [TB]: “Pela opressão e pelo juízo foi ele arrebatado”. É
notável como os Evangelhos apresentam o próprio Jesus citando ou
aludindo com frequência a algum texto de Isaías. 81 No Evangelho
segundo Marcos temos os seguintes textos:

Marcos cf. Isaías


4:12 6:9, 10
7:6, 7 29:13
11:17 56:7
12:1 5:1, 2
13:8 19:2
13:24, 25 13:10; 34:4

A presente passagem (Mc. 2:20) não é a única que contém ao


menos uma alusão a Isaías 53 (veja-se também Mc. 9:12; cf. Is. 53:3; e
Mc. 15:4, 5; cf. Is. 53:7). A expressão de Isaías “foi ele arrebatado”, o
que ocorre “pela opressão e pelo juízo”, refere-se, naturalmente, à uma
morte violenta; observe-se o contexto: “Angustiado … aflito … levado
ao matadouro … cortado [cf. Dn. 9:26] da terra dos viventes”. É natural
supor que aqui em Marcos o significado é parecido.
Mediante a expressão “virão dias”, que vem seguida da frase muito
chamativa “naquele dia” (contraste-se com a expressão menos definida
de Lucas: “naqueles dias”, e a completa omissão da parte de Mateus),
Jesus está dizendo que Sua morte violenta que se aproxima trará dias de
luto para Seus discípulos. Então, naquele tempo em particular (“naquele
dia”), será apropriado que jejuem como expressão de dor, o que
81
Entre as passagens bem conhecidas estão os que se acham em Mt. 11:5 (cf. Is. 35:5, 6); Lc. 4:18, 19
(cf. Is. 61:1, 2); e 22:37 (cf. Is. 53:12). Bem conhecida é a passagem a respeito do nascimento virginal
(Mt. 1:23; cf. Is. 7:14; 8:8), mas este texto é uma citação de Mateus, não de Cristo.
Marcos (William Hendriksen) 137
certamente ocorreu. João 16:1–22 assinala que o luto não duraria por
muito tempo.
Esta passagem é muito prático e está cheio de consolo,
especialmente para o dia de hoje. Isto se deve a que a verdade central
que Jesus revela aqui é que os que reconhecem a Cristo como seu Senhor
e Salvador, não devem ter uma atitude de tristeza, mas sim seu coração e
mente devem estar cheias de alegria. Se é verdade que a verdade de Deus
conosco” (Emanuel) significa alegria para os crentes, a realidade de
Deus em nós” (que é a situação em e depois do Pentecostes) desperta em
cada filho de Deus uma alegria inefável e cheia de glória. Cristo veio ao
mundo para brindar alegria abundante, e mediante Sua morte sacrifical
trouxe-nos salvação plena e gratuita (veja-se Lc. 2:10, “novas de grande
alegria”; Lc. 24:52 “eles … voltaram para Jerusalém com grande
alegria”; Jo. 15:11: “e sua alegria seja cumprida”; 17:13: “para que
tenham minha alegria cumprida em si mesmos”). Os apóstolos
aprenderam essa lição (Rm. 5:11; 15:13; Gl 5:22; toda a epístola aos
Filipenses; 1Pe. 1:8; 4:13; 1Jo. 1:4; 2Jo. 12).
Por meio de duas ilustrações tomadas da vida diária, Jesus deixa
claro quão inapropriado teria sido que os discípulos jejuassem agora,
como se com a vinda de Cristo lhes houvesse trazido uma grande
calamidade. Com Sua vinda Jesus trouxe cura aos doentes, libertação aos
endemoninhados, alivio aos afligidos, purificação aos leprosos, comida
aos famintos, restauração aos aleijados e, sobretudo, salvação aos
perdidos no pecado. Este nova ordem de coisas que não encaixa no
antigo molde do jejum ordenado por homens. A primeira figura é a que
segue:
Marcos (William Hendriksen) 138
82 83 84 85
21. Ninguém costura remendo de pano novo em veste
velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior
a rotura.
Se sobre uma veste velha coloca-se um remendo de lã firme ou
tecido novo, o resultado será que (especialmente se o objeto for molhado
e o remendo encolhe) o tecido velho onde se fez a costura se romperá.
Marcos diz que o tecido novo — firme e resistente — tirará do velho, e
isto tornará pior a ruptura. O remendo que devia solucionar um problema
termina criando um problema maior.
A segunda figura reforça a primeira:
22. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o
vinho romperá os odres; e tanto se perde o vinho como os odres. Mas
põe-se vinho novo em odres novos.
O que Jesus quer dizer é que a salvação que trazia não harmonizava
com jejuns que careciam de alegria. Os odres velhos não se adaptam ao
vinho novo que se ainda se acha em fermentação. Tal classe de vinho
romperia os odres, resultando na perda deles e do vinho. De igual
maneira, este é um vinho novo de redenção e riquezas para todo aquele
que esteja disposto a aceitar estas bênçãos, incluindo até os publicanos e
os pecadores. Por isso, este vinho deve deitar-se em odres novos, quer
dizer, em odres firmes e resistentes, 86 odres de gratidão, liberdade e
serviço espontâneo para a glória de Deus.
82
Marcos escreve ἐπεράπτει, “cose sobre”, onde Mateus e Lucas têm “põe sobre”. A palavra de
Marcos basicamente significa: dar pontos sobre. Cf. “rapsódia”, que é uma canção alinhavada, uma
poesia épica.
83
Em grego, a palavra ἐπίβλημα, algo colocado sobre, ou seja, um “emplastro”, ou “remendo”,
poderia também significar colcha, abrigo, manta, vendagem, etc. Quanto a “manta”, veja-se Is. 3:22
LXX.
84
O verbo básico é κνάπτω, carder ou pentear lã, preparar tecido. Então ἄγναφος (aqui ἀγνάφου,
genit. sing.) significa: não preparado; portanto “novo”.
85
A palavra ῥάκος (aqui ῥάκους, genit. sing.) indica uma parte de tecido. Às vezes refere-se a um
“trapo” (cf. Jr. 38:11 = LXX 45:11).
86
Note-se que aqui e no versículo precedente (“o novo do velho”), o original usa o adjetivo καινός,
“novo” com ênfase na qualidade; em contraste com νέος (como em “vinho novo”), que quer dizer
“novo” com referência ao tempo.
Marcos (William Hendriksen) 139
Mc. 2:23–28 - O Filho do Homem faz valer Sua autoridade como
Senhor até do sábado; arrancando espigas no sábado
Cf. Mt. 12:1–8; Lc. 6:1–5

Como já se indicou, o Evangelho de Mateus afirma de maneira


clara que a questão relacionada com o jejum foi seguida por um duplo
milagre: a. a volta à vida da filha de um chefe, e b. a cura da mulher que
tocou o manto de Jesus. Marcos e Lucas tendo dado a conhecer o
problema sobre o jejum, agora voltam o relógio para trás e relatam duas
controvérsias a respeito do sábado. Os três Sinóticos contam as duas
histórias em sucessão imediata: a história aproxima arrancar espigas no
sábado e a história a respeito da cura do homem da mão “seca” em outro
sábado. 87 Pelo fato de que nem Marcos nem Lucas indicam que haja
alguma relação cronológica entre a questão sobre o jejum e a história a
respeito de arrancar espigas no sábado, obviamente não existe conflito
cronológico algum.
Há muita incerteza quanto ao tempo exato em que ocorreram os
conflitos a respeito do sábado. Os quatro evangelhos contêm três destas
narrações, registrando acontecimentos que poderiam ter tido muito
estreita relação com referência ao tempo em que ocorreram. Muito digna
de consideração é a teoria que diz que os três episódios sucederam em
estreita sequência entre a primavera e meados do verão do ano 28 d.C.
(veja-se Jo. 5:1, 16; logo Mt. 12:1; finalmente, Lc. 6:11, 12). Penso que
poderiam ter sucedido na seguinte ordem: a. A cura no lago, ao redor do
tempo da Páscoa (Jo. 5:1–18), b. o arrancar espigas (Mt. 12:1–8; Mc.
2:23–28; Lc. 6:1–5), e c. a cura do homem com a mão seca (Mt. 12:9–
14; Mc. 3:1–6; Lc. 6:6–11). O último destes conflitos parece ter sido
seguido pela eleição dos Doze e a pregação do Sermão da Montanha
(veja-se Lc. 6:11–49; cf. Mc. 3:6, 13–19).

87
Não é muito acertada a forma em que aqui se fez a divisão de capítulos em Marcos (entre Mc. 2:28
e 3:1). Nem a Mateus (Mt. 12:1–14) nem a Lucas (Lc. 6:1–11) foi imposta esta estranha separação
daquilo que deveria ficar junto.
Marcos (William Hendriksen) 140
88
23. Ora, aconteceu atravessar Jesus, em dia de sábado, as
searas, e os discípulos, ao passarem, colhiam espigas.
Embora não se indique nenhuma relação cronológica entre este
parágrafo e o precedente, Marcos bem pôde ter tido em mente uma
relação lógica. Acaba de descrever a Jesus sublinhando o fato de que os
que vivem agora em Sua presença deveriam fazer festa em vez de luto,
alegrar-se em vez de lamentar-se. O evangelista passa agora a descrever
o Mestre no ato de mostrar que a alegria, não a tristeza, deveria ser a
característica da celebração do sábado.
Evidentemente o grão estava amadurecendo. Este processo variava
segundo a altura sobre o nível do mar em que estivessem os campos. O
processo ocorria durante um período que se estendia da primavera até
meados do verão. No quente vale do Jordão, na Palestina, a cevada
amadurecida no mês de abril; na Transjordânia e a região a leste do mar
da Galileia, o trigo se colhe em agosto. O texto não indica o tempo exato
em que Jesus e seus discípulos passaram pelos campos de grão em
espiga. O lugar é ainda mais indefinido que o tempo. A. T. Robertson
sugere que o evento teve lugar “provavelmente na Galileia vindo de
volta de Jerusalém”. Esta teoria pode ser tão boa como qualquer outra. 89
Mas não é mais que uma conjetura.
A tradução “campos de grão em espiga” se apoia fortemente no
contexto. Literal e etimologicamente a referência é simplesmente a “o
que foi semeado”. Entretanto, o contexto mostra que quando passavam
pelos campos, o tempo da colheita tinha chegado ou estava para chegar.
Mateus informa que os discípulos tinham fome (Mt. 12:1). Os
Sinóticos contam de forma variada o que fizeram para aliviar a fome.
Marcos declara que ao atravessar os campos, estes homens começaram a
arrancar 90 espigas de grão. Mateus acrescenta, “e comê-las”. O comer
está implícito em Mc. 2:26. Lucas é mais completo neste ponto que
88
A respeito de ἐγένετο αὑτὸν παραπορεύεσθαι, veja-se BAGD, p. 158, sob 3e.
89
Harmony of the Gospels (Nova York, 1930), p. 44.
90
O particípio τίλλοντες expressa a ideia central.
Marcos (William Hendriksen) 141
qualquer dos outros, e lê, “Seus discípulos arrancavam e comiam as
espigas de grão, esfregando-as entre as mãos”. O que faziam era
totalmente legítimo. Enquanto que o viajante não colocasse a foice nas
espigas do campo alheio, era-lhe permitido arrancar espigas (Dt. 23:25).
Não obstante, os que odiavam a Cristo e buscavam alguma desculpa
para condená-Lo, reagiram de maneira imediata e adversa, segundo se vê
pelo versículo
24. Advertiram-no os fariseus: Vê! Por que fazem o que não é
lícito aos sábados?
Aqui aparece uma partícula grega que deve ser traduzida de
maneira variada conforme o exija o contexto.91 No presente caso
desaprova fortemente a ação dos discípulos. Segundo o modo de ver dos
fariseus, essa ação demandava uma correção imediata; em consequência,
“Olhe” ou “Olhe agora”. Tanto em Marcos como em Lucas os fariseus
fazem uma pergunta: “Por que fazem o que não é lícito aos sábados?”.
Mas em Lucas a pergunta está dirigida a Jesus, “Por que fazem …?”. Em
ambos os casos a pergunta implica claramente uma acusação, uma
denúncia. O que Marcos sugere, Mateus 12:2 o diz claramente. Mateus
omite a forma de pergunta e nos informa da direta declaração dos
fariseus, “Seus discípulos fazem o que não está permitido no sábado”.
Tanto Jesus como Seus discípulos estão evidentemente implicados. Os
discípulos arrancando espigas e Jesus aprovando o que eles faziam. Por
isso, não existe aqui nenhuma discrepância real. A crítica dirigida contra
Jesus, era também contra todo o grupo
Os fariseus raciocinavam desta maneira: Acaso não está proibido
trabalhar no sábado (Êx. 20:8–11; 34:21; Dt. 5:12–15)? Não prepararam
os rabinos uma lista de trinta e nove trabalhos principais, cada um
subdividido em seis categorias menores, todas as quais estavam
proibidas no sábado? E, segundo a lista, não figurava o arrancar espigas
91
A palavra Ἴδε faz ressaltar tudo aquilo que introduz. A tradução nem sempre pode ser a mesma,
pois é o contexto o que determina seu sentido em cada caso: “Vê!” em Mc. 2:24; “Eis (ou: Eis aqui)”
em Mc. 3:34; 11:21; 16:6; “Olha!” em Mc. 13:1, 21 [TB]; “Vede” Mc. 15:35; “Vê” em Mc. 15:4.
Marcos (William Hendriksen) 142
92
de grão sob a categoria de colher? E aqui se achavam estes discípulos
ocupados nesta atividade vedada, e Jesus nada fazia a respeito!
Obviamente o que sucedia era que os inimigos de Cristo estavam
sepultando a verdadeira lei de Deus sob um sem-número de torpes
tradições feitas por homens (Mc. 7:8, 9, 12, 13; cf. Mt. 15:3, 6; 23:23,
24). A lei divina em nenhum sentido proibia o que nesse momento
faziam os discípulos.
25, 26. Mas ele lhes respondeu: Nunca lestes o que fez Davi, quando
se viu em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros? Como
entrou na Casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu os
pães da proposição, os quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes, e
deu também aos que estavam com ele?
“Nunca lestes?”. É como se dissesse, “Vocês se orgulham de ser os
que fazem valer a lei, e seus escribas se consideram tão versados nela
para poder ensinar a outros; entretanto, vocês não conhecem o fato de
que até esta mesma lei permitiu que suas restrições cerimoniais fossem
postas de lado em caso de necessidade (observe-se que as palavras entre
aspas, “o que fez Davi, quando se viu em necessidade” só se acham em
Marcos). Alguma vez leram a respeito de Davi e os pães da
proposição?”. A alusão é ao pão consagrado, ao “pão da presença”. No
hebraico é lehem happanîm (Êx. 25:30), que Lucas 6:4 traduz literal e
corretamente. Consistia em doze pães colocados sobre uma mesa de um
metro de comprimento por 45 cm. de largura e 70 cm. de altura. A mesa
estava coberta de ouro puro, rodeada de uma moldura de ouro e equipada
com quatro anéis de ouro, um anel em cada canto. Através destes anéis
passavam varas para poder transportá-la. A descrição desta peça do
mobiliário do tabernáculo acha-se em Êx. 25:23, 24. Nos tempos antigos
esta mesa estava no Lugar Santo, não muito longe do lugar da morada de
Deus: o Lugar Santíssimo. O pão era colocado em duas filas. Os doze
pães representavam as doze tribos de Israel e simbolizavam a comunhão

92
Veja-se Sabbath 7:2, 4; SB, vol. 1, pp. 615–618; e A.T. Robertson, The Pharisees and Jesus (Nova
York, 1920), pp. 87, 88.
Marcos (William Hendriksen) 143
constante do povo com seu Deus. É como se Deus convidasse os
israelitas para Sua mesa, e os consagrasse para Ele. Mediante esta oferta
dos pães da proposição, eles reconheciam com gratidão sua dívida para
com Ele.
Todos os sábados eram trocados se os pães por pães frescos (1Sm.
21:6). Os pães que se retiravam eram comidos pelos sacerdotes. Eram
“para Arão e seus filhos”, quer dizer, para o sacerdócio. Por certo que
não eram para todo o povo (Lv. 24:9). Entretanto, diz-se que “nos dias
do Abiatar, o sumo sacerdote” (veja-se mais abaixo), o faminto Davi
entrou na “casa de Deus” (veja-se Jz. 18:31; cf. 1Rs. 1:7, 24); entrou no
(átrio do) santuário em Nobe, que era o lugar sagrado onde se guardava a
arca (1Sm. 21:1; 22:9). Quando Davi entrou, deram-lhe deste pão
consagrado. Ele o compartilhou com seus companheiros que estavam
igualmente famintos. Todos comeram, mesmo quando segundo a lei
divina o pão tinha sido designado para os sacerdotes, e nada mais que
para eles. O importante é isto: se, quando surgiu a necessidade, Davi teve
direito a passar por alto uma provisão cerimonial divinamente ordenada,
Jesus, em condições semelhantes, não tinha o direito de deixar de lado as
regulações humanas inteiramente injustificadas? Não tinha mais direito o
eminente Antítipo, quer dizer, Jesus, o Ungido de Deus num sentido
muito mais elevado que Davi? Afinal de contas, as regulações rabínicas
eram em grande medida aplicações errôneas da santa lei de Deus. Isto
era a verdade no caso presente.
Muito se tem comentado a respeito do fato de que Marcos apresenta
Jesus dizendo que o evento em conexão com Davi e seus homens teve
lugar “nos dias — ou: nos tempos — de 93 Abiatar o sumo sacerdote”.
Mas ocorre que, segundo 1 Samuel 21:1, não Abiatar, mas sim
Aimeleque quem deu a Davi o pão sagrado.

93
A preposição ἐπί tem este significado às vezes. Cf. Mt. 1:11; Lc. 3:2; 4 27; At. 11:28, etc.
Marcos (William Hendriksen) 144
Soluções propostas

1. Tanto pai e filho levavam ambos os nomes: Aimeleque e Abiatar.


Cf. 1Sm. 22:20; 2Sm. 8:17. Na primeira destas passagens Abiatar é “um
dos filhos de Aimeleque”; na segundo (veja-se também 1Cr. 18:16)
Aimeleque é “o filho do Abiatar”. 94
Avaliação. Embora isto pareceça solucionar o problema, é duvidoso
que existisse este intercâmbio de nomes em escritos tão estritamente
relacionados, que no cânon hebraico eram um só livro. Para nós são 1
Samuel e 2 Samuel. Além disso, não é acaso possível que Aimeleque
tivesse tido um filho chamado Abiatar, quem por sua vez tivesse tido um
filho chamado Aimeleque?
2. O texto hebraico não está em ordem (observe-se o contraste entre
1Sm. 22:20 e 1Cr. 24:6). 95 A passagem do Novo Testamento (Mc. 2:26)
poderia ser a glosa de um copista. 96
Avaliação. Embora em nosso intento para solucionar o problema
deva dar lugar a qualquer solução que não atribua erro ao escritor
original, não se pôde provar que o texto hebraico não esteja em ordem
(cf. Avaliação 1), e as variantes no texto de Mc. 2:26 (veja-se Aparato
Crítico) não solucionam o problema.
3. A declaração de Marcos pode ser um erro primitivo. 97
Avaliação. Se isto significar que o próprio Marcos originou o erro,
ou que o aceitou como verdade e o repetiu, deve ser rejeitado. Ao
escrever seus livros divinamente inspirados os escritores não cometeram
erros.
4. Ambos, o pai Aimeleque e o filho Abiatar, achavam-se presentes
quando Davi foi a Nobe, e ambos deram o pão a Davi. Pouco depois o
94
Esta solução já foi proposta por alguns dos pais da igreja, e foi sugerida como uma possibilidade
por (entre outros) Lenski, Op. cit., p. 81; A. B. Bruce, Op. cit., p. 356; e A. T. Robertson, Word
Pictures in the New Testament, vol. 1, 1930, p. 273.
95
J. A. C. Van Leeuwen, Op. cit., p. 42; E. R. Groenewald, Op. cit., p. 65.
96
Esta é uma das duas solucione sugeridas pelo Vincent Taylor, Op. cit., p. 217.
97
A outra sugestão do Vincent Taylor, acha-se na mesma página que acima.
Marcos (William Hendriksen) 145
pai foi assassinado; o filho chegou a ser o sumo sacerdote e registrou os
fatos. 98
Avaliação. Embora seja impossível falar de alguma maneira
definitiva, a solução proposta é a melhor que encontrei. Em apoio dela
observe-se o seguinte:
Evidentemente toda uma família de sacerdotes cooperava em Nobe
(1Sm. 22:15). Quando o rei Saul ouviu que o seu inimigo Davi lhe
tinham dada dos pães da proposição e a espada de Golias, sua ira se
desencadeou principalmente contra Aimeleque. Entretanto, não
exclusivamente sobre ele senão contra todo o sacerdócio de Nobe (1Sm.
22:17). Oitenta e cinco sacerdotes foram assassinados. Abiatar escapou,
fugiu onde Davi estava (1Sm. 22:20) e chegou a ser o sumo sacerdote,
trabalhando subsequentemente como tal junto com Zadoque. Portanto, é
claro que o homem ao qual Mc. 2:26 chama “sumo sacerdote”
certamente estava vivo e ativo quando Davi entrou no átrio99 da casa de
Deus. A ação ocorria “em sua época”.
É verdade que no momento em que deu o pão a Davi e aos seus
homens e estes o comeram, Abiatar não era ainda o sumo sacerdote.
Entretanto, isto não prova que Marcos — realmente Jesus, porque
Marcos está registrando Suas palavras — estava errado quando disse “no
tempo do sumo sacerdote Abiatar”. Não é de modo algum raro designar
um lugar ou pessoa por um nome que ainda não lhe pertence senão até
tempo depois. Assim Gn. 12:8 menciona “Betel” embora nos dias de
Abraão ainda se chamava “Luz” (Gn. 28:19). Hoje em dia nós fazemos o
mesmo. Dizemos, “Sucedeu no Maine (Michigan)”, quando queremos
dizer, “Sucedeu em Berlim, que hoje em dia chama-se Maine”. Ou, “A
casa foi vendida ao pastor Aranguiz”, embora sabemos muito bem que
quando Aranguiz comprou a casa ainda não era pastor. As Escrituras

98
Esta é a sugestão alternativa de Lenski, Op. cit., p. 81.
99
1Sm. 21:1 pareceria sugerir que não avançou além disso.
Marcos (William Hendriksen) 146
contêm muitos exemplos de expressões abreviadas — veja-se CNT sobre
João, p. 219 — assim como também nossa conversação diária.
Portanto, a solução sugerida (4) pode ser a correta. A certeza é
impossível neste assunto.
É gratuito supor com os críticos que Mateus e Lucas omitiram o
dito por Marcos porque se deram conta de que era um erro. O fato é que
sob a guia do Espírito, cada escritor dos Evangelhos fez sua própria
seleção de materiais. Nem sempre é claro entender exatamente por que
certo material que se acha num Evangelho não aparece em outros. O fato
de que às vezes algumas das mais preciosas palavras de Cristo
encontram-se apenas num Evangelho acha-se demonstrado pela
passagem que segue e que só Marcos registra:
27. E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do
homem, e não o homem por causa do sábado.
Deus criou primeiro o homem, não o sábado (Gn. 1:26 – 2:3). Foi
instituído para ser bênção para o homem: para mantê-lo em boa saúde,
para fazê-lo útil e feliz, para fazê-lo santo, de modo que meditasse com
tranquilidade nas obras de seu Criador, para que possa “deleitar-se no
Senhor” (Is. 58:13, 14) e esperar com prazerosa antecipação o repouso
que resta para o povo de Deus (Hb. 4:9).
Os rabinos tinham criado muitos regulamentos minuciosos e às
vezes absurdos, restrições chatas e onerosas que incluíam a que proibia
matar a fome arrancando espigas no sábado. Desta forma, os rabinos
estavam transformando o sábado num cruel tirano e o homem em
escravo desse tirano … como se o propósito de Deus tivesse sido na
realidade fazer “o homem para o sábado”, em lugar do “sábado para o
homem”.
Jesus conclui dizendo:
28. De sorte que o Filho do Homem é senhor também do
sábado.
Quando Jesus disse, “O sábado foi estabelecido por causa do
homem”, afirmava que foi Deus quem o fez como é. Foi o Senhor e
Marcos (William Hendriksen) 147
nenhum outro que instituiu os princípios para a observância do sábado.
Toda autoridade foi dada ao Filho (Mt. 11:27, 28:18), quem é um com o
Pai (Jo. 10:30), em quem o Pai acha complacência (Mc. 1:11) e a quem o
Pai enviou ao mundo (Mc. 1:38; 9:37). Tudo isto faz com que a frase
“De sorte que” — ou: “Assim que”— dê um sentido excelente quando
vem seguida pelas palavras, “Senhor é o Filho do homem do sábado”
(ordem literal segundo o original). Maior é Ele que o templo (Mt. 12:6),
que Jonas (12:41), que Salomão (12:42) e deste modo também, que o
sábado!
Quanto a um estudo detalhado do termo “Filho do homem”, veja-se
sobre Mc. 2:10 e sobre Mateus 8:20. Naturalmente que se Jesus, como o
Filho do homem, é Senhor sobre tudo, não é então Senhor até do sábado?
Observe-se a palavra “também”, que neste relato encontra-se só em
Marcos. Como Senhor soberano, Ele tem autoridade para estabelecer
princípios que rejam esse dia. Em consequência, ninguém tem direito de
censurá-Lo quando permite aos Seus discípulos satisfazer sua fome
arrancando e comendo espigas!

Resumo do Capítulo 2

É quase impossível esquecer a ordem do conteúdo do Evangelho de


Marcos. Isto é evidente até do capítulo 1. A aparição e ministério de João
Batista, o batismo de Jesus por João e a tentação de Cristo se descrevem
na primeira parte deste capítulo (Mc. 1:1–13). Logo, depois de
transcorrer considerável tempo, Jesus chegou à Galileia com a
mensagem, “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo;
arrependei-vos e crede no evangelho”. Jesus chama os Seus primeiros
quatro discípulos e lhes promete fazê-los pescadores de homens. A
seguir se descreve um sábado muito ocupado na vida de nosso Senhor:
ensina no culto da sinagoga; também cura um endemoninhado.
Imediatamente depois entra em casa de Simão e André, e cura a sogra de
Simão. Portanto, Sua fama se propaga a tal ponto que depois do pôr do
Marcos (William Hendriksen) 148
sol (para nós o mesmo dia), cura a muitíssimos afligidos. Não é raro que
depois de um dia tão longo e fatigante sentisse a necessidade de um
longo período de comunhão com Seu Pai. Assim que, muito cedo no dia
seguinte, Simão e seus companheiros O encontram orando num lugar
solitário. Estão desejosos de levá-Lo imediatamente com eles a
Cafarnaum, pois Simão lhe diz: “Todos te buscam”. Entretanto, os
planos de Cristo são diferentes. Acompanhado pelos Seus discípulos, os
que nesta altura já se uniram a Ele, começa sua viagem pela Galileia.
Viaja de povoado em povoado, e de aldeia em aldeia, pregando nas
sinagogas e expulsando demônios. Nesta excursão também purifica um
leproso (Mc. 1:14–45).
É fácil memorizar o cap. 2. A excursão pela Galileia terminou.
Jesus volta a entrar em Cafarnaum. Numa casa repleta de gente
comunica bênção à alma e ao corpo de um paralítico (vv. 1–12). Do
ambiente sufocante e tenso (pensemos nos fariseus e seus sinistros
planos) da casa repleta e opressivamente apinhada, o Mestre sai a
caminhar pela refrescante brisa marinha da Galileia. Está à vista o posto
de Levi, o coletor de impostos. Esse “publicano” chega a ser discípulo de
Cristo e Lhe prepara um banquete. Muitos publicanos se acham
presentes. A associação íntima de Jesus com esta gente desprezível é
adversamente criticada por escribas fariseus. Eles escutam a divina
resposta, “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim
chamar justos, e sim pecadores”. Embora provavelmente não haja
estreita relação cronológica entre este banquete sob o hospitaleiro teto de
Levi e a questão sobre o jejum relatado a seguir, a transição lógica é
muito natural. Jesus assinala que os que têm o noivo consigo não
costumam a jejuar. Cristo dá uma dupla ilustração: um remendo de
tecido novo nunca fica bem sobre uma veste velha; e: o vinho novo não
se lança em odres velhos. Por meio destas ilustrações, Jesus faz ver que
para aqueles que O receberam a tristeza foi substituída pela alegria, o
temor pela liberdade. Também significa que se devia abandonar o antigo
temor e preocupação operados pelos regulamentos rabínicos. De modo
Marcos (William Hendriksen) 149
que, Marcos termina este capítulo com a narração de uma controvérsia a
respeito do sábado (arrancar espigas nesse dia), a qual vai seguida
imediatamente (Mc. 3:1–6) por outra seção similar (a mão seca). Tudo
está ordenado de maneira muito natural e em Marcos, em alto grau
cronológico.
As quatro seções do cap. 2 podem resumir-se como segue:
a. A cura de um paralítico (vv. 1–12). Tendo voltado para
Cafarnaum de sua gira pela Galileia, Jesus prega a palavra numa casa
repleta de gente. Um paralítico é baixado por quatro homens pelo teto
aos pés de Jesus. O compreensivo médico, tanto da alma como do corpo,
profundamente comovido pela fé dos cinco e percebendo que o que
principalmente afligia a esta desgraçada pessoa era sua culpabilidade aos
olhos de Deus, pronuncia Seu perdão pleno e gratuito. Os escribas
buscam como encontrar alguma falta em seu inimigo Jesus, e O acusam
de blasfêmia dentro de seus corações, porque pensam: “Quem pode
perdoar pecados, senão um, que é Deus?” Pronunciar perdão é muito
fácil. Que faça algo em favor do homem fisicamente aflito! Se for
incapaz de fazer isto, também é falsa Sua pretensão de abençoar a alma
daquele pobre homem. Este era seu raciocínio. De maneira instantânea e
completa, Jesus liberta o paralítico de sua enfermidade, e assim “o Filho
do homem” prova Sua pretensão diante do assombro de todos.
b. A chamada de Levi (= Mateus), o “publicano” ou coletor de
impostos (vv. 13–17). Caminhando pela praia, Jesus vê-se
imediatamente rodeado de uma grande multidão. Ensina-lhes e depois
chama Levi para ser um de Seus discípulos. O chamado, “Segue-me”, é
obedecido imediatamente. Não só isto, mas também o publicano
sacrifica sua lucrativa posição e até prepara um banquete em honra de
Jesus. Muitos publicanos estão presentes também. Os fariseus lançam a
uma pergunta aos discípulos: “Como é que ele come com os publicanos
e pecadores?” Ao responder às críticas dos fariseus, Jesus lhes lembra
que tinha vindo justamente para chamar os pecadores, não os
(pretendidos) justos.
Marcos (William Hendriksen) 150
c. A pergunta sobre o jejum (vv. 18–22). Uma vez os discípulos de
João Batista estavam jejuando, assim como os fariseus. Então
perguntaram a Jesus por que os Seus discípulos não jejuavam.
Respondeu-lhes que em sua qualidade de “companheiros do noivo” seria
muito impróprio e impossível que eles jejuassem. Entrega duas
ilustrações: não se coloca um remendo de tecido novo sobre uma veste
velha e gasta; o vinho novo não se lança em odres velhos, duros e
rígidos. Por meio destas ilustrações, Jesus sublinha a lição de que a nova
mensagem que traz é nova ao compará-la com o ensino velho e legalista
dos escribas. Esta nova mensagem requer uma recepção nova, de fé e
liberdade, não de temores e jejum.
d. O Filho do homem faz valer Sua autoridade como Senhor
também do sábado (vv. 23–28). Este mesmo espírito de fé e liberdade, de
alegria em lugar de tristeza, deve ser característico do sábado também.
Os discípulos estavam acossados pela fome e, por isso, foram arrancar
espigas. Quando os fariseus censuram a Jesus por permitir que Seus
discípulos arranquem (e comam) espigas naquela dia, responde-lhes que
o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado. Diz-lhes
que “o Filho do homem” é Senhor também do sábado. Em circunstâncias
normais teria sido pecado que Davi comesse dos pães da proposição.
Mas se em tempo de necessidade foi lícito para Davi passar por alto um
estatuto divino (veja-se Lv. 24:9; 1Sm. 21:1–6), não tinha o Senhor do
sábado o direito de deixar de lado uma regulação meramente humana?
Ainda não enfatizamos um aspecto muito significativo do capítulo
2. Resulta ser o capítulo no qual, quer direta ou indiretamente, Jesus
atribui a Si mesmo quatro nomes, títulos, designações ou descrições de
grande significado. Alguns dos capítulos restantes do Evangelho de
Marcos também realçam a glória do Filho por meio de apelativos que
Ele usa com referência a Si mesmo. Começando então, com o cap. 2
note-se os seguintes:
O Filho do homem (Mc. 2:10, 28; e veja-se sobre Mc. 2:10), o
Médico (Mc. 2:17), o Marido (Mc. 2:19–20), o Senhor até do sábado
Marcos (William Hendriksen) 151
(Mc. 2:28), aquele que ata a Belzebu, quer dizer, Satanás (Mc. 3:22, 23),
o Senhor (Mc. 5:19, 20; 11:3), o Profeta (Mc. 6:4), o Compassivo (Mc.
8:2; cf. 1:41), o Cristo (Mc. 8:29, 30), o Filho do Pai (Mc. 8:38), o
Resgate por muitos (Mc. 10:45), o Filho amado do dono da vinha (Mc.
12:6, 7), a Pedra desprezada que veio a ser a pedra angular (Mc. 12:10),
o Filho e Senhor de Davi (Mc. 12:35, 37), o Mestre (Mc. 14:14), o Pastor
(Mc. 14:27), o Filho do Bendito (Mc. 14:61, 62), o Rei dos judeus (Mc.
15:2).
Marcos (William Hendriksen) 152
MARCOS 3
Mc. 3:1–6 - O Filho do Homem faz valer sua autoridade como
Senhor até do sábado; a mão seca
Cf. Mt. 12:9–14; Lc. 6:6–11

Esta história acha-se nos três sinóticos (Mt. 12; Mc. 3; Lc. 6).
Todos relatam: a. que num sábado Jesus em algum lugar assistiu à
sinagoga (cf. “foi à igreja”) e viu um homem que tinha uma mão
paralisada; b. que também estavam presentes alguns fariseus com o fim
de achar motivos para acusar a Jesus; c. que o Senhor disse ao homem
que estendesse sua mão; d. que a obediência a este mandato deu como
resultado sua completa cura; e e. que os fariseus deliberaram sobre o que
se devia fazer nesta situação.
Nas distintas versões dos Evangelhos há uma variedade muito
interessante quanto a outros detalhes, mostrando que seus escritores não
eram meros copistas. Não existem contradições. Ao combinar os
diversos detalhes mencionados nas três apresentações, obtemos a
seguinte narração, vívida e dramática:
Um novo sábado começou. Jesus entra na sinagoga e começa a
ensinar (Lc. 6:6). No culto há um homem com uma mão seca ou
paralisada. Somos informados que é sua mão direita (Lc. 6:6; cf. Cl.
4:14). Os inimigos de Jesus, a saber, os fariseus — e escribas (Lc. 6:7)
— observam-no muito de perto (Mc. 3:2; Lc. 6:7), com o fim de Lhe
fazer uma acusação. Mas Jesus conhece seus pensamentos (Lc. 6:8), e
lhes induz a expressar o que estão pensando. Então perguntam: “É lícito
curar no sábado”? (Mt. 12:10). Jesus volta-se para o homem, dizendo
que se levante e que se aproxime (Mc. 3:3; Lc. 6:8). Jesus pergunta a
seus adversários, “É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal?
Salvar a vida ou tirá-la?” (Mc. 3:4a; Lc. 6:9). Como eles ficaram sem
responder, Jesus os olhe com indignação, entristecido pela dureza de
seus corações (Mc. 3:4b, 5a). E prossegue, “Qual dentre vós será o
Marcos (William Hendriksen) 153
homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado, esta cair numa cova, não
fará todo o esforço, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que
uma ovelha? Logo, é lícito, nos sábados, fazer o bem” (Mt. 12:11, 12).100
Jesus então lhe diz ao homem, “Estende a mão”. Tão completa foi a cura
que a mão (direita) ficou “sã como a outra” (Mt. 12:13). Seus
adversários estavam furiosos (Lc. 6:11). Quando abandonaram a
sinagoga (Mt. 12:14; Mc. 3:6), não só discutiram entre si o que deviam
fazer contra Jesus (Lc. 6:11b), mas também ficaram em contato com os
herodianos (Mc. 6:6a), para urdir um complô junto com eles. O
propósito era maligno: destruir a Jesus (Mt. 12:14; Mc. 3:6b).
Voltando para relato do texto de Marcos, lemos:
1. De novo, entrou Jesus na sinagoga e estava ali um homem
que tinha ressequida uma das mãos.
Não se informa onde estava localizada esta sinagoga. Tratava-se,
talvez, da que estava em Cafarnaum? Marcos e Lucas relatam esta
história em estreita relação com a da eleição dos Doze e a subida ao
monte (Mc. 3:13–19; Lc. 6:12–49). Este “monte” ou “colina” não estava
muito longe de Cafarnaum (Lc. 7:1; cf. Mt. 8:5), e, por isso, é bem
possível que se tratasse de uma sinagoga num lugar vizinho ao que Jesus
tinha como centro de atividades. Mas não podemos estar seguros.
Um homem com uma mão aleijada entra na sinagoga nesse sábado.
O Evangelho apócrifo segundo Hebreus diz que o homem era um
pedreiro, que solicitava de Jesus que lhe curasse para não ter que passar
sua vida mendigando. Seja como for, o ponto principal é que se trata de
um sábado. Naquele tempo havia diferenças de opinião entre os
discípulos de Shammai, que tinham uma interpretação muito estrita da
observância do sábado, e os de Hillel, cujo ponto de vista era mais
indulgente. Os mais rigorosos dominavam em Jerusalém, e os mais
tolerantes na Galileia. Não obstante, ambos os grupos apoiavam sem

100
Naturalmente que a resposta afirmativa à sua própria pergunta já estava implícita na própria
pergunta.
Marcos (William Hendriksen) 154
reserva a norma de que no sábado só se permitia curar se a vida de um
homem se achasse realmente em perigo. 101 Atrever-se-ia Jesus a opor-se
a esta regra que os fariseus consideravam como um princípio básico e
bem estabelecido que não devia violar-se?
É inútil especular sobre a causa que produziu a paralisação da mão
do homem. Há aqueles que pensam que a forma da palavra original
usada aqui em Mc. 3:1 (traduzida “seca” ou “paralisada”) indica que o
defeito da mão não era congênito, mas o resultado de uma enfermidade
ou acidente. 102 Isto talvez seja entrar em muitos detalhes. Poderia ser
assim, mas não se pode provar. Muito mais importante é o que segue no
versículo
2. E estavam observando a Jesus para ver se o curaria em dia
de sábado, a fim de o acusarem.
Em seu foro íntimo, os antagonistas desejavam que Jesus pisoteasse
esta norma com relação ao sábado Quais eram estes adversários?
Segundo Mateus 12:14 e Marcos 3:6 eram os fariseus; ao que Lucas
acrescenta “os escribas”. Olham a Jesus muito de perto e O observam
escrupulosamente com um propósito ímpio (veja-se também Lc. 14:1;
20:20). 103 Queriam ver se Jesus realmente curaria este homem no
sábado. Se assim o fizesse, eles estariam em condições de acusá-Lo por
realizar uma cura desnecessária nesse dia.
Jesus, entretanto, não se retrai do propósito de mostrar Sua bondade
a este homem:
3. E disse Jesus ao homem da mão ressequida: Vem para o
meio!
O Senhor toma claramente a iniciativa. Confronta-se todas as
maquinações secretas e dissimuladas que pudessem haver, e desafia a
101
Veja-se S. BK., Vol. I, pp. 622–629.
102
Assim, por exemplo, Swete, op. cit., p. 50; Robertson, Word Pictures, Vol. I, p. 275. Mas veja-se
Vincent Taylor, op cit., p. 221. A palavra ἐξηραμμένην é o particípio perf. passivo de ξηραίνω. Mt.
12:10 e Lc. 6:6 usam o adjetivo ξηρά. Mas também Marcos em 3:3.
103
Em data mais tardia, os judeus da cidade de Damasco vigiariam as portas da cidade “de dia e de
noite”, com os mesmos propósitos sinistros de impedir que Paulo escapasse (At. 9:24).
Marcos (William Hendriksen) 155
vigilância furtiva e os planos ocultos. Além disso, talvez desejava
despertar a compaixão da concorrência em favor daquela pessoa aleijada.
Assim que diz ao homem que se levante e fique onde todos possam vê-
lo.
4. Então, lhes perguntou: É lícito nos sábados fazer o bem ou
fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la?
Não eram os fariseus e os escribas os mesmos que sempre estavam
afirmando que eles sabiam o que era “permissível”, “lícito” e, portanto,
“justo”? Que deem então sua sábia opinião! Naturalmente que até uma
criança tivesse sabido qual devia ser a resposta a pergunta de Cristo. Se
for lícito fazer o bem — sobre isso veja-se também Lc. 6:9, 33, 35; 1Pe.
2:14, 15, 20; 3:6, 17; 4:19; 3Jo. 11 — qualquer dia comum da semana,
não tem que ser justo fazer o bem no sábado? Além disso, não sabiam
que o Antigo Testamento demandava e sublinhava que se devia fazer o
bem com relação a Deus (amá-Lo, servi-Lo e deleitar-se nEle) e com
relação ao próximo (alimentá-lo, vesti-lo e deixar de oprimi-lo)? E não
estava tudo isto num contexto de jejum e respeito ao sábado? Que
estranho resulta que aqueles críticos não lembrassem os claros e diáfanos
ensinos de Isaías 56:6; 58:6–14! Deus tinha insistido com Israel a usar o
sábado com o mesmo propósito com que Jesus o estava usando neste
momento e sempre. Não obstante, os que se supunham que eram peritos
na lei achavam falta nEle. Entretanto, Jesus foi ainda mais fundo e pôs
de manifesto a perversidade de Seus críticos de maneira inequívoca;
porque não só perguntou se no sábado estava permitido fazer o bem ou
salvar a vida, mas acrescentou, “… fazer o mal … matar?”
Evidentemente, se é impróprio fazer o mal ou matar nos outros seis dias
da semana, não será imensamente mais impróprio dedicar-se a essas
sinistras atividades no dia especificamente apartado para honrar a Deus e
mostrar misericórdia ao próximo? Não obstante, estes inimigos se
achavam precisamente ocupados em fazer o mal e matar naquele dia
santo! Com suas intenções já estavam danificando o Messias, ao enviado
pelo Pai. Estavam ocupados em planejar como matá-Lo! (veja-se o v. 6
Marcos (William Hendriksen) 156
como evidência; e cf. Mt. 5:21, 22; 1Jo. 3:15). Tomara que se tivessem
arrependido e confessado sua maldade naquele momento! Mas eles
ficaram em silêncio. 104
5. Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do
seu coração, disse ao homem: Estende a mão.
Marcos entrega uma descrição muito vivaz. Escreve como se
estivesse relatando as próprias palavras pronunciadas por uma
testemunha ocular, coisa que era o que, sem dúvida, estava fazendo,
visto que Pedro foi testemunha ocular. 105
Marcos declara que a forma em que Jesus olhou aos Seus críticos
foi “indignado”. Quanto a esta palavra “indignação” ou “ira” veja-se Mt.
3:7; Lc. 3:7; 21:23, Jo. 3:36; e as muitas referências à ira divina nas
epístolas e no Apocalipse. De maneira similar, mais adiante Jesus Se
indignaria ao notar que os discípulos tentavam impedir que lhe
trouxessem os pequeninos, para que Ele os tocasse (Mc. 10:14).
Não faz falta assinalar que nada mau havia em tal indignação, ou
em tão intensa aversão e desaprovação. Na realidade só se trata de uma
consequência necessária do amor. Segundo o relato de Marcos 3, os
fariseus apreciavam mais o ritualismo de fabricação humana que o
cuidado que Deus quer que tenhamos para com o ser humano. É evidente
que para eles era mais importante a rígida aderência à uma regra rabínica
que a felicidade de uma criatura humana. Por outro lado, Jesus Se
condoía desta pessoa aleijada. Daí que estivesse terrivelmente indignado
com aqueles ritualistas de tão duro coração. Mas mesmo assim, Sua
104
Note-se o tempo imperfeito ἐσιώπων.
105
A expressão usada por Marcos, καὶ περιβλεψάμενος αὑτούς, literalmente diz: “e havendo olhado
em redor a eles”. Esta expressão parece-se à que se encontra em Mc. 3:34 e 10:23 e que em ambos os
casos refere-se à forma em que Jesus olhou aos Seus discípulos. Em Mc. 5:32 a referência é ao olhar
que dirigiu à multidão ao seu redor para ver quem Lhe havia tocado; e em Mc. 11:11 descreve-se a
Jesus como olhando ao redor a tudo o que havia no templo. No monte da transfiguração, os discípulos
“havendo olhado em redor” não viram ninguém com eles senão a Jesus somente (Mc. 9:8). Com a
exceção de Mc. 5:32 (o imperfeito), Marcos sempre usa o particípio aoristo. Além do Evangelho de
Marcos, esta palavra e a vívida referência ao olhar de Cristo se acham somente em Lc. 6:10a, onde
Lucas imita Marcos, de quem provavelmente tomou tais palavras.
Marcos (William Hendriksen) 157
indignação estava temperada pela tristeza: estava profundamente triste
pelo endurecimento de seu coração, quer dizer, por sua estupidez,
insensibilidade e obstinação espiritual (cf. Rm. 11:25; Ef. 4:18). Estamos
certos ao dizer que Jesus “se compadeceu” inclusive daqueles rígidos
tradicionalistas? (cf. Lc. 23:24). Como quer que seja, é significativo que
segundo os tempos verbais usados no original, o olhar de indignação foi
momentâneo, conquanto a profunda tristeza foi contínua e duradoura. 106
Um frio silêncio se estendeu entre as filas dos críticos. Contendo a
respiração, outros também observam, perguntando-se o que sucederá
agora. O ambiente da sinagoga está carregado de nervosismo e
expectação. O homem da mão “seca” ainda está ali, de pé, à vista de toda
a concorrência. Jesus está prestes a levar a cabo o milagre que a situação
requer. Deve agir agora, não mais tarde. Porque se espera até o dia
seguinte, sua conduta se interpretará como sinal de que Ele admite que é
mau realizar atos de cura em dias de sábado (com exceção dos casos de
vida ou morte). Semelhante demora teria aumentado o erro. Isto não
devia ocorrer. Aquele era o momento preciso. Assim que, depois de
olhar fixamente ao seu redor, Jesus disse ao homem aleijado, “Estende
(ou: estira) a mão”. Ele obedece imediatamente: Estendeu-a, e a mão
lhe foi restaurada. A cura foi instantânea e completa (cf. 1Rs. 13:6).
Não fez falta alguma outro tratamento nem exames médicos. De uma
forma que resulta muito misteriosa para a compreensão de qualquer
mortal, o Salvador tinha concentrado Sua mente na situação deste pobre
homem, e mediante Seu poder e compaixão tinha desejado e realizado a
cura; e isto não se fez “em algum canto escuro” mas à vista de todos os
presentes.
Que efeito teve isto sobre os legalistas? Resposta:

106
Vários expositores creem que Mateus e Lucas omitiram a frase “com indignação” porque não
desejavam atribuir esta emoção a Jesus. Mas uma explicação mais razoável da diferença entre Marcos
e os outros dois evangelistas poderia ser a seguinte: que o relato de Marcos é o resultado da pregação
entusiasta e emotiva de Simão Pedro, o que faz com que Marcos seja em muitos casos o mais
detalhado e animado.
Marcos (William Hendriksen) 158
6. Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os
herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida.
Os fariseus não só abandonaram a sinagoga; fizeram-no mal-
humorados. Estavam furiosos (Lc. 6:11). O fato de que um aleijado
tivesse sido libertado de seu grave impedimento não lhes afetou no
mínimo que seja. Não se alegraram por este homem, nem lhes produziu
uma atitude amistosa para com Aquele que cura. O que os incomodou foi
que eles e seu tradicionalismo tivessem sofrido uma derrota humilhante
aos olhos de toda a concorrência. Que imensa diferença entre a
indignação de Cristo, totalmente desinteressado (Mc. 3:5) e seu
ressentimento totalmente egoísta! Além disso, como indica a palavra
“imediatamente”, aqueles homens não perderam tempo para planejar a
destruição de seu adversário. Imediatamente começaram suas intrigas,
escolhendo como sequazes — incrivelmente — os muito ímpios e
mundanos partidários de Herodes Antipas e sua família. Uma estranha
aliança entre os santarrões e os sacrílegos! (veja-se também 12:13 e Mt.
22:16).

Não obstante, um pouco de reflexão bem pode conduzir à conclusão


de que aquela ímpia associação não era tão estranha. A vida e os ensinos
de Jesus encerravam uma denúncia da mundanalidade, e, portanto, do
modo de vida que caracterizava os herodianos. Além disso, os
herodianos eram amantes da política do status quo, e não veriam com
bons olhos que grandes multidões seguissem a Cristo, porque isto
poderia conter em si a semente da rebelião e a revolução política. Assim
que, se os herodianos desejam estar incluídos no complô para levar a
cabo a destruição de Jesus, sua cooperação seria bem recebida e
apreciada pelos fariseus. Qualquer coisa era válida a fim de livrar-se de
Jesus!
Marcos (William Hendriksen) 159
Mc. 3:7–12 - Jesus ensina e cura grandes multidões junto ao mar
Cf. Mt. 12:15–21

7. Jesus retirou-se com os seus discípulos para o mar, e uma grande


multidão vinda da Galileia o seguia [NVI].
Até aqui Marcos mencionou quatro conflitos 107 — quer seja diretos
ou indiretos — entre Jesus e os fariseus (Mc. 2:6–11; 2:15–17; 2:23–28;
3:1–6). Os mais inflamados destes foram o primeiro, quando em seu foro
íntimo os adversários acusaram a Jesus de blasfêmia, e o quarto, quando
começaram a forjar a forma em que poderiam matá-Lo. Ao finalizar a
primeira confrontação, Jesus Se dirigiu à praia. Não temos que nos
surpreender, portanto, de que também agora, depois do quarto choque,
Ele Se retire para a praia. Em ambos os casos é do interior de um edifício
(casa repleta, sinagoga) de onde Se retira rumo à margem do mar; na
primeira vez, depois de curar a um paralítico; agora, depois de restaurar
uma mão paralisada. Devemos ter em mente também que o momento
para a confrontação decisiva com as autoridades religiosas ainda não
tinha chegado. Segundo o relógio do Pai, o Calvário se acha ainda a certa
distância. No momento, a praia se adapta melhor que a sinagoga ao
propósito do Mestre.
Os discípulos acompanham Jesus à praia. Pelo Evangelho de
Marcos sabemos que Simão, André, Tiago, João, e Mateus haviam aceito
a chamada para ser discípulos de Cristo (Mc. 1:16–20; 2:13, 14).
Segundo João 1:35–51, Filipe e Natanael também tinham sido
acrescentados ao grupo. Todos eles se achavam presentes com Jesus
neste momento? Algum outro? Os cinco que Marcos menciona, sem
Filipe e Natanael? O que quer que seja, é claro que os Doze não tinham
sido designados ainda como corpo apostólico. Visto que o ministério
galileu ainda prosseguia, não nos surpreende que uma grande multidão
da Galileia seguisse a Jesus. Deve ter-se em mente que já muitos

107
Mas alguns dizem “cinco”, porque incluiriam Mc. 2:18–22.
Marcos (William Hendriksen) 160
doentes, endemoninhados e aleijados tinham recebido a bênção do poder
e o amor de Cristo para curar, resgatar e restaurar (veja-se Mc. 1:29–34,
39–42; 2:1–12; 3:1–6). Tudo isto teria que continuar (veja-se vv. 10–12).
As boas novas relativas ao que estava sucedendo na Galileia
continuavam chegando a outros lugares, tanto dentro da nação como fora
dela:
8. Quando ouviram a respeito de tudo o que ele estava fazendo,
muitas pessoas procedentes da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia, das
regiões do outro lado do Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidom foram
atrás dele [NVI].
Os informes seguiam chegando, porque Cristo seguia fazendo Sua
obra. Assim que as pessoas vinham em grande número e de vários
lugares diferentes. Vinham da Judeia, o que incluía Jerusalém e a parte
sul. Também vinham da fronteira sul da Palestina, quer dizer, da
Idumeia, a qual tinha sido conquistada por João Hircano e cuja
população tinha sido forçada “a observar as leis dos judeus” (Josefo,
Antiguidades XIII. 257). Vinham também da região que está ao leste, do
outro lado do Jordão (chamada Transjordânia ou Pereia), a qual se
estendia de além de Macaeros ao sul, quase até Pella ao norte, região
“em sua maior parte deserta e agreste”, mas misturada com “trechos de
muito bom solo apto para todo cultivo” (Josefo, Guerra judaica III. 44–
47. Com relação a isto veja-se também 10:1; e cf. Mt. 4:15, 25; 19:1; Jo.
1:28; 3:26; 10:40). Vieram inclusive da Fenícia, a região ao redor de
Tiro e Sidom, contígua ao mediterrâneo, a noroeste da Galileia (cf. Mc.
7:24, 31; veja-se também 1Cr. 14:1; 22:4; Sl 45:12; 83:7; 87:4; Mt.
11:21, 22; At. 21:3–7). As pessoas vinham a Cristo de todos os lugares,
principalmente por causa de seus ininterruptos milagres, pois muitos
buscavam cura para eles e/ou seus familiares.
A magnitude daquela multidão e o grande desejo da gente de
aproximar-se o bastante para O tocar, causaram um problema:
9, 10. Então, recomendou a seus discípulos que sempre lhe
tivessem pronto um barquinho, por causa da multidão, a fim de não
Marcos (William Hendriksen) 161
o comprimirem. Pois curava a muitos, de modo que todos os que
padeciam de qualquer enfermidade se arrojavam a ele para o tocar.
Jesus já tinha curado a muitos. Por isso as pessoas estavam
convencidas de Seu poder e boa disposição para os libertar de seus
“açoites” ou enfermidades (cf. Mc. 5:29, 34; Lc. 7:21; e veja-se o
reconfortante Hb. 12:6). Portanto, não queriam esperar que Jesus os
tocasse, e se amontoavam (literalmente “caíam”) sobre Ele a fim de O
tocar. Quanto ao significado de um ou outro tocar veja-se em Mc. 1:41;
cf. 5:27–31; 6:56.
Portanto, como medida de segurança, Jesus disse a Seus discípulos
que tivessem um barco preparado. O texto original usa um diminutivo.
Marcos faz uso frequente dos diminutivos (veja-se nota 5). Aquele usado
aqui se traduz geralmente como “barquinho”. Não obstante, tais
diminutivos de modo algum implicam sempre pequenez quanto a
tamanho, embora no caso presente o bote era provavelmente pequeno.
Mas o “barquinho” de Mc. 3:9 pôde ter sido da mesma dimensão que o
barco de Mc. 4:1. 108 Neste caso é difícil determinar se a ênfase recai no
tamanho ou na familiaridade com o objeto indicado. Seja como for, se
Jesus o estimava conveniente, podia fazer uso de um barco ancorado a
certa distância da margem. Deste modo, não apenas protegeria a Si
mesmo, mas também poderia falar sem impedimentos às grandes
multidões que havia na praia. Jesus diz aos Seus discípulos que tal barco
“devia estar preparado”109 para Ele, a fim de que pudesse usá-lo se e

108
Bem como o grego (incluindo também o grego moderno), o alemão, o holandês, o francês e o
português têm vocábulos diminutivos simples. O idioma inglês, porém, é pobre em tais expressões.
Em muitos casos um diminutivo composto soaria estranho. Compare-a palavra grega (tanto koinê
como moderna) πλοιάριον com a francesa nacelle; a alemã Schifflein; a sul-africana schuitjie; a frísia
skipke; e as holandesas scheepje, bootje, schuitje. Embora tais diminutivos às vezes indicam pequenez
física, em outros contextos a ênfase recai na familiaridade, no afeto e no carinho. Compare o
português “filhinho” que às vezes se usa ao dirigir-se à uma pessoa de um metro e oitenta! Assim
também “garotinha” com frequência indica mais afeto íntimo que tamanho. (cf. “mãezinha”, “vovó”,
etc.).
109
προσκαρτερῇ = pres. subjuntivo, 3a. pes. sing. de προσκαρτερέω. Neste contexto o significado de
“devia estar preparada” ou “devia estar sempre à ordem” é bastante clara. Há uma grande diferença de
Marcos (William Hendriksen) 162
quando fosse necessário. Não se indica se o Senhor realmente chegou a
fazer uso do barquinho naquele caso, como o teria que fazer em Mc. 4:1.
A passagem a respeito deste “barquinho” não deve ser descartada
como se fosse algo que não tem significado prático, como se faz com
frequência. Pelo contrário, é extremamente prático. Mostra-nos que Jesus
não só era divino, mas também humano. Em seu estado de humilhação
fez um uso prudente das precauções e medidas de segurança contra
possíveis perigos. Ao fazer isto, não nos está ensinando uma lição que
todos faríamos muito bem em atender? Nem sempre se dá a importância
devida a este ensino. Pense-se, por exemplo, no estudante que se está
preparando para o ministério, mas que descuida o estudo das Escrituras
nos idiomas originais; ou no futuro e entusiasta “missionário” que prega
o evangelho em sua própria língua nativa num recanto muito transitado
de um país estrangeiro, o povo que não entende nem uma palavra do que
diz; ou num homem que não se cuida da previsão médica nem para ele
nem para sua família, porque (segundo ele) “confia totalmente em
Deus”. Por certo que não se deve sublinhar Mt. 6:19–34; Fp. 2:13; 4:6, 7,
às custas de Gn. 41:33–36; Is. 38:21; Mt. 4:7; 10:16, 23; Mc. 3:9; Lc.
14:28–32; 16:8, 9; Fp. 2:12. Quando Deus criou o corpo humano, dotou-
o de muitas defesas adicionais! No caso particular ao que se refere
Marcos 3:9, é bem possível que o mencionado barquinho não se
utilizasse. O importante é que estava ali, preparada e disponível. Aquele
barquinho nos ensina uma grande lição!
Jesus não só curou a toda aquela gente doente, mas também
expulsou demônios:
11. Também os espíritos imundos, 110 quando o viam,
prostravam-se diante dele e exclamavam: Tu és o Filho de Deus!

opinião com relação ao significado do mesmo verbo em outras passagens do Novo Testamento (At.
1:14; 2:42, 46; 6:4; 8:13; 10:7; Rm. 12:12; 13:6; Cl. 4:2), segundo se torna evidente quando se
consulta léxicos e comentários.
110
A descrição é muito gráfica. Note-se como ὅταν vem seguido pelo imperfeito ἐθεώρουν na cláusula
subordinada, indicando aqui repetição. Os verbos da cláusula principal também estão em tempo
imperfeito: “estavam (ou: seguiam) caindo” e “estavam (ou: seguiam) gritando”.
Marcos (William Hendriksen) 163
Referente à possessão demoníaca veja-se Mc. 1:23a. Estes espíritos
eram chamados “imundos” porque moral e espiritualmente são sujos,
ímpios por si só, e porque impulsionam aqueles em quem habitam a
cometer pecado. Diz-se aqui que os possessos pelos demônios caíam e
gritavam aos pés de Jesus. Não vale a pena dar resposta à opinião de que
quando os espíritos gritavam “Tu és o Filho de Deus”, usavam o termo
“Filho de Deus” no sentido de anjo (Gn. 6:2), ou Israel (Os. 11:1), ou
crente (Rm. 8:17). Evidentemente, ao gritar “Tu és o Filho de Deus”,
referiam-se a Jesus como Filho de Deus num sentido único, Filho de
Deus como ninguém jamais foi nem o será (cf. Mc. 1:24). Também se
deve rejeitar a ideia de que este ponto não é histórico, mas sim é
meramente uma expressão da teologia de Marcos.
12. Mas Jesus lhes advertia severamente que o não expusessem
à publicidade.
Mais literalmente, “Mas ele seguia lhes advertindo (ou: lhes
encarregando) 111 estritamente que não lhe dessem a conhecer”. Qual foi
exatamente a razão pela qual Jesus não permitiu aos demônios que
revelassem Sua identidade? Sugeriram-se várias respostas a respeito:
1. A pessoa e a obra do Salvador são tão santas e sublimes que não
seria próprio permitir a demônios depravados e sujos que as proclamem.
2. O título “Filho de Deus” implica ao menos que Jesus era o
Messias tão longamente esperado. Entretanto, a maioria do povo
concebia a pessoa do Messias num sentido nacionalista: Alguém que os
livraria do jugo opressor dos estrangeiros. De modo que, antes de
revelar-se publicamente como Messias ou de permitir que O
proclamassem em tal sentido, Jesus devia deixar claro primeiro a
natureza de Seu ofício Messiânico, quer dizer, o fato de que era
necessário que sofresse e morresse pelos pecados do Seu povo, etc. A

111
Note-se ἐπετίμα de ἐπιτιμάω. Aqui advertir; com μή: advertir que não; em consequência, proibir.
Frequentemente este verbo tem o significado de repreender (Mc. 1:25; 4:39; 8:32; etc.). Basicamente
o significado é adjudicar uma τιμή (pena) ἐπί (sobre). A palavra πολλά usa-se aqui como advérbio.
Veja-se também em Mc. 9:26.
Marcos (William Hendriksen) 164
hora para proclamar isto publicamente, ou para deixar que o
proclamassem, ainda não tinha chegado.
3. Os escribas diziam ao povo que Jesus e os demônios eram
aliados (Mc. 3:22). Portanto, se Jesus permitia aos demônios que O
proclamassem, não pareceria que Ele mesmo estava confirmando as
acusações destes escribas?
Qual destas explicações é a correta? Ou que combinação de
explicações? Ou talvez há outra? Simplesmente não o sabemos. As
possíveis explicações que se enumeraram mostram ao menos que não
devemos nos surpreender pela resistência de Cristo a que os demônios O
proclamassem “Filho de Deus”.

Mc. 3:13–19 - Eleição dos Doze


Cf. Mt. 10:1–4; Lc. 6:12–16

13. Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e


vieram para junto dele.
Mais uma vez, a transição é muito natural. Com tantos doentes para
curar, tantos endemoninhados para libertar e tanta necessidade de pregar
(veja-se Mc. 3:7–12, 14, 15), era natural que Jesus autorizasse a alguns
de Seus seguidores a compartilhar o trabalho que Ele mesmo realizava,
fazendo com que Seu próprio poder e compaixão também agisse neles.
Além disso, a hostilidade dos dirigentes religiosos tinha chegado a ser
tão intensa (Mc. 3:6) que a cooperação com eles era já impossível: o
povo de Deus tem que organizar-se separadamente. Além disso, desde o
começo do ministério terrestre de Cristo, estavam aguardando-O a morte
e (depois da ressurreição) Sua partida desta terra. Na realidade, tinha
vindo com o propósito expresso de dar Sua vida em resgate por muitos
(Mc. 10:45). Sentia, portanto, a necessidade de designar testemunhas
para reunir e guiar a igreja militante depois de Sua partida física, com a
colaboração deles e mediante Sua obra neles.
Marcos (William Hendriksen) 165
De modo que, Jesus subiu “ao monte”. Em Mateus (veja-se Mt. 8:1)
e em Lucas (Lc. 6:12, 17) a descrição tem tanto cor local, que parece
referir-se a uma elevação específica, sem importar se hoje a
chamaríamos “monte” ou “colina”. Daí que a tradução “o monte” parece
neste caso ser melhor que colinas”. 112 De qualquer maneira, é verdade
que nem aqui nem em Mateus 5:1, onde aparece a mesma expressão, é-
nos dito qual é o monte aludido. Para as pessoas daquele tempo era
provavelmente bem conhecido, de modo que entenderam exatamente o
que os escritores dos Evangelhos quiseram dizer com “o monte”. Parece
ser que foi nas cercanias de Cafarnaum. Para uma ampliação desta
questão, veja-se CNT sobre Mt. 5:1, 2. E quanto à uma introdução do
Sermão da Montanha pregado ali, veja-se o mesmo comentário, pp. 271–
274.
Tão importante considerava Jesus este nomeação dos Doze e a
pregação do sermão, que naquele mesmo monte passou toda a noite
anterior em oração (Lc. 6:12). Ato seguido, 113 chamou os que quis. Sua
vontade soberana prevalece. Eles O escolheram só depois que Ele os
escolheu a eles! A noite em que O traíram, disse aos Seus discípulos:
“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi
a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto …” (Jo. 15:16;
veja-se também 1Jo. 4:10, 19). Resultado: foram com Ele, deixando tudo
o que era preciso deixar. Na realidade, vários deles (Mc. 1:16–20; 2:13,
14; Jo. 1:35–51) já se tinham associado com Ele estreitamente, e outros
já eram Seus seguidores, embora num sentido mais geral (Lc. 6:13).
14, 15. Então, designou doze para estarem com ele e para os
enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios.

112
Assim também Lenski (“naturalmente, um monte concreto”) e esta ou outra tradução muito
semelhante em LT, BP (“montanha”), CB, CI, BJ, NC (“monte”), etc.
113
Embora não estejamos de acordo com aqueles expositores que atribuem um significado intensivo
ou enfático a αὑτός (“ele mesmo”), continua sendo verdade que os que tomaram a iniciativa não foram
os discípulos, mas sim Jesus.
Marcos (William Hendriksen) 166
É evidente que Marcos faz aqui um resumo. O conteúdo inteiro da
comissão acha-se em Mateus 10: trata-se da Comissão aos Doze, que
deve datar-se um pouco mais tarde. Estes doze discípulos, com toda
segurança deveriam estar na companhia de Cristo durante uma
temporada antes de que este os enviasse a proclamar as boas novas a
outros. Segundo o relato de Marcos, a tarefa para a qual Jesus designou
(cf. 1Rs. 12:31; At. 2:36; Hb. 3:2) a estes homens foi tríplice: associação
e educação, missão, e expulsão de demônios. Mateus acrescenta um
quarto ponto.
Associação e Educação. Designou-os, em primeiro lugar, para estar
uma temporada com seu Mestre, vendo-O e ouvindo-O, e aprendendo
tudo o que quis lhes ensinar. Para eles, tal relação significava uma
educação espiritual.
Missão. Em segundo lugar, e em estreita relação com o precedente,
a nomeação foi para ser arautos; quer dizer, para pregar. Os que recebem
devem transformar-se em doadores. Os discípulos devem converter-se
em apóstolos. Têm que promulgar a mensagem de salvação por meio de
Jesus Cristo. Num sentido foram investidos com Sua autoridade. Tão
real foi esta autoridade que Jesus chegou a dizer: “Quem vos recebe a
mim me recebe; e quem me recebe recebe aquele que me enviou” (Mt.
10:40). Cf. Mc. 6:11; Jo. 20:21–23. Primeiro foram enviados às ovelhas
perdidas da casa de Israel (Mt. 10:5, 6); logo, a todas as nações (Mt.
28:19), e a todo mundo (Mc. 16:15).
Expulsão de demônios. Em terceiro lugar, Jesus lhes designou para
114
ter autoridade (o direito e o poder) para expulsar demônios. Referente
à possessão demoníaca, veja-se Mc. 1:23.
Restabelecimento do corpo — tanto a cura como a ressurreição —
estavam incluídas, conforme vemos em Mateus 10:8.

114
Não é uma grande diferença que aqui se use o infinitivo (ἔχειν) em lugar de uma cláusula com ἵνα,
como ocorre nas duas orações precedentes.
Marcos (William Hendriksen) 167
16–19. Eis os doze que designou: Simão, a quem acrescentou o
nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais
deu o nome de Boanerges, que quer dizer: filhos do trovão; André,
Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu,
Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que foi quem o traiu.
O próprio mesmo de que Jesus designasse exatamente doze
homens, nem mais nem menos, indica que tinha em mente o novo Israel,
porque o antigo Israel também tinha doze tribos e doze patriarcas. O
novo Israel ia ser formado com pessoas reunidas dentre todas as nações,
judeus e gentios (cf. Mt. 8:10–12; 16:18; 28:19 Mc. 12:9; 16:15, 16; Lc.
4:25–27; Jo. 3:16; 10:16; Ap. 21:12, 14).
A lista dos nomes dos Doze acha-se quatro vezes no Novo
Testamento (Mt. 10:2–4; Mc. 3:16–19; Lc. 6:14–16; At. 1:13, 26). Em
Atos 1:15–26 é relatada a forma em que Judas Iscariotes foi substituído
por Matias. Com esta exceção, os doze nomes indicam indubitavelmente
as mesmas pessoas em cada uma destas quatro listas.
Com relação às três listas consignadas nos Sinóticos, observe-se o
seguinte: Teoricamente, se os doze nomes forem considerados como se
em cada lista se tratasse de três grupos de quatro, os que se mencionam
são os mesmos em cada grupo. Entretanto, nem sempre estão ordenados
em idêntica sequência. Diferente de Mateus e Lucas, no primeiro grupo
de quatro, Marcos separa os nomes dos dois irmãos Simão (= Pedro) e
André. A ordem de Marcos é: Simão, Tiago, João e André. O de Mateus
e Lucas é: Simão, André, Tiago e João. No segundo grupo a ordem de
Lucas coincide com a de Marcos: Filipe, Bartolomeu, Mateus e Tomé.
Neste grupo Mateus coloca Tomé antes que seu próprio nome: Filipe,
Bartolomeu, Tomé e Mateus. No grupo final, a ordem de Mateus é a
mesma que a de Marcos: Tiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão o zelote, e
Judas Iscariotes. Aqui Lucas, invertendo a ordem dos dois do centro,
tem: Tiago filho de Alfeu, Simão, o Zelote, Judas o (filho) de Tiago —
este Judas deve referir-se a Tadeu — e Judas Iscariotes.
Marcos (William Hendriksen) 168
Observe-se que Marcos não ordena os doze nomes em pares, como
o faz Mateus. Menciona-os todos numa lista ininterrupta. Não está muito
claro por que razão separou Marcos os nomes dos dois irmãos, Simão e
André. Sugestões: Talvez os nomes de Simão, Tiago e João mencionam-
se em imediata sucessão porque com frequência Jesus os escolheu
justamente a eles, e não o resto, para que O acompanhassem. Ou talvez
menciona a André em imediata relação com Filipe, porque entre eles
existia uma estreita relação (veja-se Jo. 12:21, 22). Ou separou os nomes
dos dois irmãos Simão e André, a fim de indicar que na família de Cristo
a relação espiritual era ainda mais importante que a física (veja-se este
mesmo capítulo, Mc. 3:31–35). Mas a verdade é que não sabemos por
que Marcos separou os nomes destes dois irmãos.
Seguindo a ordem de Marcos, digamos algo quanto a cada um dos
Doze:
Simão. Era filho de Jonas ou João. Era pescador de ofício, e com
seu irmão André viveu primeiro em Betsaida (Jo. 1:44) e depois em
Cafarnaum (Mc. 1:21, 29). Tanto Marcos como Lucas informam que foi
Jesus quem deu a Simão o novo nome de Pedro (para outros detalhes de
este fato veja-se Jo. 1:42). Este novo nome significa rocha, e não tem o
fim de descrever o que Simão era no momento em que foi chamado,
antes, fala do que pela graça devia vir a ser. No princípio e por algum
tempo, Simão foi tudo menos um modelo de estabilidade ou de
imperturbabilidade. Pelo contrário, Pedro sempre oscilava entre uma
posição e outra totalmente oposta. Mudava da confiança à dúvida (Mt.
14:28, 30); de confessar com toda segurança de que Jesus é o Cristo, a
repreender ao próprio Cristo (Mt. 16:16, 22); da veemente declaração de
lealdade, à negação abjeta (Mt. 26:33–35, 69–75; Mc. 14:29–31, 66–72;
Lc. 22:33, 54–62); de um “Não me lavarás os pés jamais”, a um “não só
meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo. 13:8, 9; veja-se também
Jo. 20:4, 6; Gl 2:11, 12). Não obstante, pela graça e o poder do Senhor,
Simão, o inconstante foi transformado num verdadeiro Pedro. Referente
ao papel de Pedro na igreja depois da ressurreição, veja-se CNT sobre
Marcos (William Hendriksen) 169
Mt. 16:13–20. Em consequência, quando nesta anterior data — porque
aqui Marcos reflete João 1:42 — Jesus deu a Simão seu novo nome, Ele
o fazia como um ato de amor, de um amor desejoso de passar por alto o
presente e inclusive o futuro próximo, e de olhar a um futuro longínquo.
Que maravilhosa e transformadora é a graça de nosso Senhor!
A tradição atribui a Pedro a autoria de dois livros do Novo
Testamento: 1 e 2 Pedro.
Como dissemos na Introdução, não em vão Marcos foi chamado “o
intérprete de Pedro”.
Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago. Marcos menciona
estes dois pescadores não só aqui e em Mc. 1:19, 20 (veja-se sobre essa
passagem), mas também mais adiante (Mc. 9:2; cf. 10:35–45). Também
há várias referências a eles nos outros Evangelhos. Provavelmente,
devido à sua natureza impetuosa, Jesus chamou estes dois irmãos de
Boanerges. Esta é uma palavra aramaica que Marcos, que é o único
evangelista que a registra, a traduz para seus leitores não judeus como
“filhos do trovão”. O nome hebraico seria benē reghesh. 115 O fato de que
ambos tivessem realmente uma natureza impetuosa talvez se possa
inferir de Lucas 9:54–56 (cf. Mc. 9:38). Tiago foi o primeiro dos Doze
em cingir a coroa de mártir (At. 12:2). Conquanto ele foi o primeiro em
chegar ao céu, seu irmão João com toda probabilidade foi o último que
ficou na terra. Com relação à vida e caráter de João, considerado por
muitos (creio que corretamente) como “o discípulo a quem Jesus amava”
(Jo. 13:23; 19:26; 20:2; 21:7, 20) veja-se CNT, Evangelho de São João,
pp. 19–22. A tradição atribui a João cinco livros do Novo Testamento:
seu Evangelho, três epístolas (1, 2, 3 João), e o livro do Apocalipse.
André. Este também era pescador, e levou o seu irmão Pedro a
Jesus (veja-se CNT sobre Jo. 1:41, 42). Quanto a outras referências sobre
André veja-se mais acima em Mc. 1:16, 17, 29; estude-se também

115
Todavía no se soluciona el enigma con respecto a las vocales en Boa, como parte de la expresión
Boanerges.
Marcos (William Hendriksen) 170
Marcos 13:3; João 6:8, 9; 12:22. Veja-se também a declaração a seguir a
respeito de Filipe.
Filipe. Foi, ao menos por um tempo, concidadão de Pedro e André,
quer dizer, também era de Betsaida. Depois de responder à chamada de
Jesus, achou Natanael, e lhe disse: “Achamos aquele de quem Moisés
escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno,
filho de José” (Jo. 1:45). Quando Jesus ia alimentar os cinco mil,
perguntou a Filipe, “Onde compraremos pães para lhes dar a comer?”.
Filipe respondeu-lhe: “Não lhes bastariam duzentos denários de pão,
para receber cada um o seu pedaço” (Jn. 6:5, 7). Aparentemente, Filipe
esquecia que o poder de Jesus ultrapassava toda possibilidade de cálculo.
Extrair deste incidente a conclusão de que Filipe era uma classe de
pessoa mais fria e calculista que os outros apóstolos, seria basear muito
em muito pouco. Em geral Filipe aparece nos Evangelhos sob uma luz
favorável. Assim, quando os gregos se aproximam dele com o pedido,
“Senhor, queremos ver a Jesus” (Jo. 12:21, 22), ele foi e o disse a André,
e ambos (André e Filipe) levaram o pedido a Jesus. Deve admitir-se que
Filipe nem sempre entendeu imediatamente o significado das palavras
profundas de Cristo — os outros as entenderam? — mas a seu favor deve
dizer-se que com perfeita sinceridade manifestou sua ignorância e pediu
maior informação, o que se vê também em João 14:8, “Senhor, mostra-
nos o Pai, e isso nos basta”; ao que recebeu a bela e reconfortante
resposta: “…Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo. 14:9).
Bartolomeu significa “filho de Tolmai”. Este é claramente o
Natanael do Evangelho de João (Jo. 1:45–49; 21:2). Foi ele quem disse a
Filipe, “De Nazaré pode vir algo bom?” Filipe lhe respondeu, “Vem e
vê”. Quando Jesus viu Natanael aproximando-se, disse, “Eis aqui um
verdadeiro israelita, em quem não há dolo”. Este discípulo-apóstolo era
uma das sete pessoas a quem o Cristo ressuscitado apareceu perto do mar
de Tiberíades. Dos outros seis só se menciona Simão Pedro, Tomé e os
filhos de Zebedeu.
Marcos (William Hendriksen) 171
Mateus. A respeito deste discípulo já comentamos de forma
detalhada (veja-se mais acima em Mc. 2:14–17).
Tomé. As referências com relação a este apóstolo se combinam para
indicar que a característica deste homem era o desânimo e a devoção.
Sempre o embargava o temor de perder o seu amado Mestre. Esperava o
mal e lhe era difícil crer nas boas notícias quando estas lhe chegavam.
Não obstante, com toda sua ternura e condescendente amor, o Salvador
apresentou-Se diante de Tomé depois da ressurreição, e foi Tomé quem
exclamou: “Senhor meu e Deus meu!” Para mais informação a respeito
de Tomé, veja-se CNT sobre João 11:16; 14:5; 20:24–28; 21:2.
Tiago, filho de Alfeu. Marcos (15:40) chama-o “Tiago, o menor”, o
que segundo a interpretação de alguns significa “Tiago, o pequeno em
estatura”. Não temos mais informação positiva a respeito dele. É
provável, entretanto, que fosse o mesmo discípulo ao que se refere Mt.
27:56; Mc. 16:1; e Lc. 24:10. Se isto é correto, o nome de sua mãe seria
Maria, uma das mulheres que acompanharam a Jesus e que se achavam
perto da cruz. (veja-se CNT sobre Jo. 19:25). Já se mostrou que o Alfeu,
que era pai de Mateus, provavelmente não deveria ser identificado com o
Alfeu, pai de Tiago, o menor (veja-se mais acima em 2:14).
Tadeu (chamado Lebeu em certos manuscritos de Mt. 10:3 e Mc.
3:18) com toda probabilidade é “Judas, não o Iscariotes” de Jo. 14:22
(veja-se sobre essa passagem; cf. At. 1:13). João 14 pareceria dizer que
seu desejo era que Jesus Se mostrasse ao mundo, significando
provavelmente: apresentar-Se em público.
Simón, Zelote. “Zelote” é um apelido aramaico que significa
fanático. Na realidade, Lucas também o chama “Simão, Zelote” (Lc.
6:15; At. 1:13). Com toda probabilidade é-lhe dado este nome aqui
porque tinha pertencido anteriormente ao partido dos zelotes, partido que
em seu ódio contra os governantes estrangeiros, que exigiam tributos,
não cessava de fomentar a rebelião contra o governo romano (veja-se
Josefo: Guerra Judaica II. 117, 118; Antiguidades XVIII. 1–10, 23. Cf.
At. 5:37).
Marcos (William Hendriksen) 172
Judas Iscariotes. Geralmente este nome se interpreta com o
significado de “Judas o homem de Queriote — ” lugar ao sul da Judeia.
(Alguns, entretanto, preferem a interpretação, “o homem da adaga”). Os
Evangelhos se referem a ele muitas vezes (Mt. 26:14, 25, 47; 27:3; Mc.
14:10, 43; Lc. 22:3, 47, 48; Jo. 6:71; 12:4; 13:2, 26, 29; 18:2–5). Às
vezes é descrito como “Judas, aquele que o traiu”, “Judas, um dos
Doze”, “o traidor”, “Judas, filho de Simão Iscariotes”, “Judas Iscariotes,
filho de Simão”, ou simplesmente “Judas”. Este homem, embora
totalmente responsável por seus próprios atos ímpios, foi instrumento do
diabo (Jo. 6:70, 71). As pessoas que não estavam de acordo com os
ensinamentos de Cristo, simplesmente se separavam do Senhor (Jo.
6:66), mas Judas permaneceu como se estivesse perfeitamente em
harmonia com Jesus. Era uma pessoa egoísta em sumo grau e não pôde
— ou, diremos melhor, não quis? — entender o gesto generoso e belo de
Maria de Betânia quando ungiu a Jesus (Jo. 12:1ss.). Era incapaz de
entender que a linguagem fundamental do amor é a generosidade.
Foi o diabo quem instigou Judas a trair a Jesus, quer dizer,
impulsionou-o a entregá-Lo em mãos do inimigo. Era ladrão; entretanto
foi a ele a quem foi confiada a bolsa do pequeno grupo, com resultado
previsível (Jo. 12:6). Pintores como Leonardo da Vinci registraram o
momento dramático da instituição da Ceia do Senhor (Mt. 26:20–25; Jo.
13:21–30) quando Jesus surpreendeu os Doze, dizendo: “Um de vós há
de me trair”. Embora Judas já tinha recebido dos principais sacerdotes as
trinta moedas de prata como recompensa pelo ato que tinha prometido
realizar (Mt. 26:14–16; Mc. 14:10, 11), teve a incrível audácia de dizer,
“Sou eu, Mestre?” Judas serviu de guia ao destacamento de soldados e à
equipe armada da polícia do templo que prenderam Jesus no jardim do
Getsêmani. Mediante um pérfido beijo dado ao seu Mestre, simulando
que ainda era um discípulo leal, este traidor apontou à polícia quem era
Jesus (Mt. 26:49, 50; Mc. 14:43–45; Lc. 22:47, 48). Quanto à forma em
que Judas se suicidou, veja-se sobre Mt. 27:3–5; e cf. At 1:18. Qual foi a
causa de que este discípulo privilegiado chegasse a ser o traidor de
Marcos (William Hendriksen) 173
Cristo? Foi acaso o orgulho ferido, a ambição frustrada, a profunda
cobiça, o temor de ser expulso da sinagoga (Jo. 9:22)? Sem dúvida
alguma, todas estas razões se achavam incluídas, mas não poderia ser a
razão fundamental o fato de que entre o coração totalmente egoísta de
Judas e o coração imensamente generoso de Jesus existia um abismo
imenso? Isto significaria que, ou Judas devia implorar ao Senhor que lhe
outorgasse a graça da regeneração e a renovação total, petição que o
traidor impiamente recusou fazer, ou devia oferecer sua cooperação para
desfazer-se de Jesus (vejam-se também Lc. 22:22; At. 2:23; 4:28). Uma
coisa é certa: A espantosa tragédia da vida de Judas é prova, não da
impotência de Cristo, mas da impenitência do traidor! Ai daquele
homem!
O que realça a grandeza de Jesus é que Ele tomou esta classe de
homens e os fundiu numa comunidade de surpreendente influência, que
não só demonstraria ser um valioso elo com o passado de Israel, mas
também o fundamento sólido do futuro da igreja. Sim, o Senhor realizou
um milagre múltiplo nestes homens, com todas suas falhas e fraquezas.
Mesmo quando prescindamos de Judas Iscariotes e nos concentremos
nos outros, impressiona-nos a majestade do Salvador, cujo magnético
poder, incomparável sabedoria, e inigualável amor eram tão
surpreendentes que foi capaz de reunir ao Seu redor, e unir numa família,
a homens de ambientes e temperamentos completamente diferentes, e às
vezes até opostos. Incluído neste pequeno grupo estava Pedro, o otimista
(Mt. 14:28; 26:33, 35), e também Tomé, o pessimista (Jo. 11:16; 20:24,
25); Simão, o ex-zelote que odiava os impostos e desejava derrocar o
governo romano, e também Mateus, que voluntariamente ofereceu seus
serviços como coletor de impostos ao próprio governo romano; Pedro,
João, e Mateus, destinados a adquirir renome através de seu escritos, e
também Tiago, o menor, que permanece nas sombras apesar de que
também ele cumpriu sua missão.
Jesus os atraiu com os laços de Sua ternura e inefável compaixão.
Amou-os ao máximo (Jo. 13:1), e na noite antes de ser traído e
Marcos (William Hendriksen) 174
crucificado encomendou-os ao Pai, dizendo: “Manifestei o teu nome aos
homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm
guardado a tua palavra … Pai santo, guarda-os em teu nome, que me
deste, para que eles sejam um, assim como nós … Não peço que os tires
do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como
também eu não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.
Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E
a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam
santificados na verdade” (Jo. 17:6–19, em parte).

Mc. 3:20–30 - Foram os milagres de Cristo prova do domínio ou da


ruína de Belzebu?
Cf. Mt. 12:22–32; Lc. 11:14–23; 12:10

A estas alturas, depois da chamada dos Doze, poderíamos ter


esperado algumas frases do Sermão da Montanha (cf. Lc. 6:12–49). Mas
visto que Marcos é predominantemente o Evangelho da ação — veja-se
o compartimento III. da Introdução — não se especializa em material
discursivo. 116
O relato de Marcos prossegue abruptamente:
20. Então, ele foi para casa. Não obstante, a multidão afluiu de
novo, de tal modo que nem podiam comer.
Não há indicações sobre quando sucedeu este incidente exatamente
(vv. 20, 21). Deve ter ocorrido em algum momento durante o Grande
Ministério Galileu, mas não há nenhum elo cronológico definido. Não
obstante, bem pode haver uma conexão lógica entre Marcos 3:20–30 e o

116
Marcos ha tomado algunas frases del Sermón del Monte y las ha esparcido por su evangelio:
Marcos cf. Mateo Marcos cf. Mateo
1:22 7:28, 29 9:43–47 5:29, 30
4:21 5:15 10:4 5:31
4:24 7:2 10:21 6:20
7:22 6:23 11:24 7:7
9:38 7:22 11:25 6:14
Marcos (William Hendriksen) 175
que passou antes, em Mc. 2:1–3:9. Marcos já relatou que a hostilidade
das autoridades religiosas tinha avançado até o ponto de planejar a morte
de Jesus (Mc. 3:6). Por outro lado, Jesus tinha estabelecido o
fundamento da igreja em sua manifestação neotestamentária mediante a
chamada dos Doze (cf. Mt. 16:18, 19; Ap. 21:14). Mas agora se adiciona
algo mais à aflição do Varão de dores. Já não é só que Seus inimigos (os
fariseus e escribas) incomodem-No, mas agora também Seus “amigos”
começam a Lhe causar dificuldades.
No sentido já explicado (veja-se Mc. 2:1), Jesus Se achava de novo
“em casa”, em Cafarnaum, seu quartel general. E tal como numa ocasião
anterior a multidão era tão grande que a entrada estava bloqueada (Mc.
2:4; cf. Mc. 1:33), assim também agora a multidão era tão enorme que
Jesus e Seus discípulos — observe-se “eles” — eram impedidos
inclusive de poder comer. 117
Resultado: 21. E, quando os parentes 118 de Jesus ouviram isto,
saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si. Quais eram
aquelas pessoas que pensaram que Jesus tinha perdido o juízo 119 e que,
portanto, queriam pô-Lo sob seu cuidado protetor? 120 A frase utilizada
no original para descrevê-los 121 é um tanto ambígua.
117
Literalmente: “comer pão”. Mas esta expressão foi-se desenvolvendo até tomar um significado
mais geral: “comer, comer uma comida”. Veja-se a LXX sobre Gn. 37:25; 2Sm. (= 2 Reis) 12:20; e
quanto ao Novo Testamento, cf. Mc. 7:2; Lc. 14:1.
118
Ou: os que estavam associados com ele. Veja-se o comentário.
119
O aoristo ἐξέστη pode ser considerado como atemporal.
120
κρατῆσαι aor. infin. de κρατέω. Este verbo é usado também com relação à detenção de João Batista
ordenada por Herodes (Mt. 14:3; Mc. 6:17); para o intento das autoridades religiosas de lançar mão
em Jesus (Mt. 21:46; 26:4; Mc. 12:12; 14:1); para a detenção em si de Jesus (Mt. 26:48, 50, 55, 57;
Mc. 14:44, 46, 51); para prender a Paulo (At. 24:6) e ao dragão (Ap. 20:2). Num sentido mais geral,
pode significar agarrar ou lançar mão a (uma ovelha com o fim de resgatá-la, Mt. 12:11; a um
devedor, com propósitos maus, 18:28; aos pés de Jesus, 28:9). Às vezes significa tomar da mão (num
contexto de cura, Mt. 9:25; Mc. 1:31; 9:27; ou aponta à restauração da vida. Mc. 5:41). Outros usos
gerais são: obter, sujeitar, apoiar, ter em mente, refrear, reter. Com uma variedade tão ampla de
significados a importância do contexto particular é evidente. No caso presente o significado
provavelmente é: mediante uma forte persuasão tomar a Jesus sob custódia protetora. Deve-se ter em
mente que os que desejavam fazer isto eram “amigos”, não inimigos.
121
σἱ παρ αὑτοῦ
Marcos (William Hendriksen) 176
Significa basicamente “os que estão do seu lado”. Aqueles que
favorecem a teoria de que se trata da família imediata de Jesus (quer
dizer, sua mãe Maria e seus irmãos), 122 afirmam que se deve levar em
conta as seguintes considerações:
a. A frase “os que estão do seu lado” significa “família” (pais e
outros parentes) em Provérbios 21:21 e numa passagem do escrito
apócrifo da Susana 33 (veja-se o contexto, v. 30).
b. João 7:5 diz: “Nem mesmo os seus irmãos criam nele (Jesus)”.
c. Em Marcos o contexto (os vv. 31–35), menciona “a mãe de Jesus
e seus irmãos”.
d. O ambiente de tensão no parágrafo final do capítulo é melhor
explicado supondo que foi a família imediata de Jesus a que originou —
ou ao menos deu crédito à opinião de que “está fora de si”.
Considerações como estas fazem com que em Marcos 3:21 algumas
traduções leiam “parentes” (RA, TB, BJ, NVI, CI) ou “familiares” (BP).
Por certo, a frase usada no original às vezes tem este significado, como
já se fez notar mais acima.
Embora a maioria das versões em português tenham adotado a
tradução “familiares”, ou “parentes”, algumas versões inglesas preferem
“amigos” (AV, ARV, RSV, Living Bible, R. Young). F.C. Grant 123
afirma: “A melhor tradução é provavelmente seus amigos”.
Mas qual seja a opinião que se tenha sobre a tradução “familiares”
ou “parentes”, parece que não é seguro concluir que a passagem (Mc.
3:21) tem que interpretar-se como se Maria e os irmãos de Jesus foram
os que chamaram Jesus de demente. Com relação aos argumentos usados
para apoiar esta teoria (veja-se a.-d. mais acima), observe-se o seguinte:
A respeito de a. É certo, mas também tem outros significados. Em 1
Macabeus 9:44; 11:73; 12:27; 13:52; 15:15 o significado é

122
Veja-se Vincent Taylor, op. cit., pp. 235–237; C. R. Erdman, op. cit., p. 65; H. B. Swete, op. cit., p.
63; M. H. Bolkestein, Het Evangelie naar Marcus, Nijkerk, 1966, pp. 88, 89; e muitos outros.
123
The Gospel according to St. Mark (The Interpreter’s Bible), Nova York e Nashville, 1951, Vol.
VII, p. 689.
Marcos (William Hendriksen) 177
provavelmente “seus homens”, “seus enviados”, “sua companhia”, “seus
aderentes ou seguidores”. Josefo, Antiguidades I. 193 reflete Gênesis
17:27, onde estão incluídos muitos mais que os que pertenciam à família
mais imediata de Abraão. Nos papiros, a expressão usada no original
também tem muitos significados diferentes, em concordância com o
contexto específico de cada caso individual (veja-se F. Field, Notes on
the Translation of the New Testament, Cambridge, 1899, p. 25. A
palavra pode significar vizinhos, agentes, amigos, etc.).
A respeito de b. É verdade que João 7:5 ensina que até os irmãos de
Jesus “não criam nele”, mas o contexto mostra claramente que eles não
O consideravam mentalmente desequilibrado. Teriam dito a Jesus
“Mostre-te ao mundo”, se o tivessem tido por louco? Se estes irmãos
estavam ou não incluídos em Jo. 3:21, não o sabemos. João 7:5 não é
prova de que o estavam.
A respeito de c. “Embora as palavras … ‘os seus’ podem significar
‘sua família’, é duvidoso que Marcos tivesse querido anunciar o
versículo 31 desta forma” (F. C. Grant). Não é de confiança a teoria que
afirma que os versículos 31–35 resumem a história começada no
versículo 21. Indubitavelmente que existe uma relação entre os
versículos 20–30, por um lado, e os versículos 31–35, por outro. Mas
essa relação é provavelmente de um caráter diferente. Vejam-se os vv.
31–35.
A respeito de d. Este ponto tem que ver tanto com os irmãos de
Jesus como com sua mãe. Referente aos irmãos, veja-se mais acima o
dito “a respeito de b.” Com relação a Maria: mesmo quando é verdade
que ela às vezes cometeu erros e que suas críticas e intentos de interferir-
nos planos de Cristo foram reprovados com firmeza (veja-se Lc. 2:49;
Jo. 2:4; e assim provavelmente também Mc. 3:31–35), entretanto não
temos razões para duvidar que a relação entre Maria e Jesus não fosse
sempre de ternura e respeito recíproco (Lc. 2:51; Jo. 2:5; 19:26, 27).
Deus revelou a Maria o que ocorreria com seu “filho primogênito” (veja-
se mais abaixo nos vv. 33–35), e não existe razão para crer que a fé que
Marcos (William Hendriksen) 178
Maria tinha nessa revelação desaparecesse até ao ponto de chegar a
considerar Jesus demente. São os que pensam de outro modo os que
devem provar que o assunto era de outra maneira. 124
Quais foram, então, aqueles “amigos” ou “associados” convencidos
de que Jesus tinha perdido o juízo? Simplesmente não o sabemos!
Puderam ter sido pessoas com quem Jesus foi criado em Nazaré,
incluindo possivelmente alguns parentes. Ou puderam ter sido “pessoas
com boa disposição para com Jesus, um círculo de discípulos um pouco
mais amplo”. 125 Muitas passagens mostram que houve um grupo assim e
que provavelmente incluía um grande número de pessoas (cf. Mt. 11:12;
Mc. 12:34; 14:3, 12–16, 51, 52; 15:43; Lc. 6:13, 17; 10:1; 23:50–56).
Qual pôde ter sido a razão para que estes “amigos”, “associados”,
ou “seguidores” considerassem que Jesus tinha chegado à demência? Há
muitas explicações que surgem espontaneamente.
Poderiam ter pensado: “Às vezes o Mestre age de forma muito
estranha; por exemplo, naquela vez quando todos os de Cafarnaum
desejavam que voltasse para a cidade, ele disse, ‘Vamos a outro lugar,
aos povos vizinhos’ (1:36–38). Além disso, sempre Se está opondo à
classe dirigente, representada pelos escribas e fariseus. Isto não é o que
geralmente fazem os que aspiram ser líderes. Outorga o perdão como se
Ele mesmo fosse Deus! (2:7) Por outro lado, relaciona-se muito com …
todo tipo de gente, pecadores e publicanos (2:15, 16). Que horror! Além
disso, Seu ensino, também, é estranho”. Quanto ao último, veja-se p. ex.
Mc. 2:17, 19, 27, 28. A estes textos mais adiante se acrescentariam
passagens tão desconcertantes como as que se acham em Mc. 8:34, 35;
9:43–50; 10:23, 24. Por causa destes e de outros ensinos semelhantes —
em boca de um carpinteiro! — não teria que sentir-se ofendida a gente de
Nazaré? (veja-se Mc. 6:3).

124
E. P. Groenewald, op. cit., p. 79, embora creia que os irmãos de Jesus se achavam entre os que O
consideravam mentalmente desequilibrado, não se atreve a atribuir esse mesmo sentimento a Maria!
125
Veja-se A. B. Bruce, op. cit. p. 360.
Marcos (William Hendriksen) 179
Devemos ter em mente tudo isto, e ainda mais, quando tratamos de
definir por que os amigos de Jesus O consideravam fora do normal uso
de Sua razão. Não obstante, talvez o contexto imediato nos dê a razão
principal pela qual estes amigos de Jesus chegaram a esta conclusão. O
contexto indica que a observação “está fora de si” foi causada pela boa
disposição de Cristo para ir de multidão em multidão, ensinando,
curando, expulsando demônios (Mc. 1:32–34, 2:2). No presente caso, a
Sua atividade entre uma tão grande multidão não Lhe deixava tempo
nem para comer (Mc. 3:20). Parece que o que ocasionou aquela
exclamação foi que, aos olhos de seus amigos, Jesus estava sendo
negligente com Sua própria necessidade de repouso, férias e renovação
física. Acrescente-se a este fato que quando Jesus outorgava vista aos
cegos, audição os surdos, saúde aos doentes, e liberdade aos
endemoninhados, Ele o fazia de todo coração! Ele Se compadecia como
nenhum ser humano se compadeceu jamais, antes ou depois dEle. “Em
toda angústia deles ele foi angustiado” (Is. 63:9). NEle se cumpriu a
profecia, “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as
nossas dores levou sobre si” (Is. 53:4). Acaso não é possível que tudo
isso tivesse feito Seus amigos pensar, “É exageradamente duro consigo
mesmo”, e dizer, “perdeu o equilíbrio mental; consome-lhe o fanatismo
religioso”?
Admitindo que este juízo fosse falso e injusto (não importa se fosse
bem-intencionado), não é acaso explicável a reação deles? Se inclusive
os Doze, que desfrutaram do benefício da estreita e constante comunhão
com Jesus, com frequência se confundiram (Lc. 9:45; 18:34; Jo. 12:16),
bem podemos imaginar que amigos menos íntimos de Jesus puderam
concluir que Sua conduta era estranha para as normas humanas normais.
Portanto, eles O viram como uma pessoa mentalmente extraviada.
Tempo mais tarde, os seguidores de Cristo também foram acusados de
loucura. Assim sucedeu a Paulo (At. 26:24). Francisco de Assis foi
chamado “o filho louco do Bernadone”, apesar de que sempre teve à sua
vista a vida e mandamentos de Jesus. Quando Martinho Lutero defendeu
Marcos (William Hendriksen) 180
a supremacia da Palavra de Deus acima das tradições dos homens,
inclusive alguns de seus primeiros simpatizantes o consideraram como
néscio e possuído pelo diabo (cf. 1Co. 1:18; 3:19).
Embora possamos supor que os “amigos” de Jesus buscavam o Seu
bem, os Seus inimigos, não:
22. Os escribas, que haviam descido de Jerusalém, diziam: Ele
está possesso de Belzebu. 126 E: É pelo maioral dos demônios que
expele os demônios.
Provavelmente o Sinédrio tinham enviado os escribas para espiar a
Jesus. Descendo de Jerusalém — que estava a 800 metros sobre o nível
do mar — foram até a Galileia, cujo grande lago está a 200 metros
abaixo do nível do mar. Entretanto, é possível que estes peritos da lei
considerassem sua descida em direção a Cafarnaum como uma descida
não só física, mas também ideológica, pelo fato de que Jerusalém era o
baluarte da ortodoxia judaica.
Chegaram ao lugar quando Jesus acabava de curar um
endemoninhado cego e mudo. Como consequência deste milagre
múltiplo, “Toda a multidão se admirava e dizia: É este, porventura, o
Filho de Davi?” (Mt. 12:22, 23; cf. Lc. 11:14). Marcos faz um paralelo
com Mateus 12:24–32 e Lucas 11:15–23, e continua a história deste
ponto. Em seus principais aspectos o relato é o mesmo em todos os
Sinóticos.127
126
Literalmente, “tem a Belzebu”.
127
Entretanto, Marcos acrescenta alguns poucos detalhes que não se acham (ou não se acham dessa
forma exata) nos outros Evangelhos: que os investigadores eram escribas (Mateus: fariseus); que Jesus
os convocou e lhes falou em parábolas; que lhes perguntou, “Como pode Satanás expulsar a
Satanás?”; e que lhes disse que qualquer que profira blasfêmia contra o Espírito Santo é culpado de
um pecado eterno. Além disso, a nota explicativa que se acha no final do relato de Marcos (v. 30) só
se encontra neste Evangelho. Por outro lado, Mateus e Lucas incluem detalhes que não estão em
Marcos. Ambos mostram que Jesus conhecia os pensamentos de Seus críticos; que lhes perguntou,
“Em virtude de quem expulsam vossos filhos aos demônios?” (seguido por uma cláusula que começa
com “portanto”); e que lhes disse, “Aquele que não é comigo, é contra mim …” e “Mas se pelo
Espírito” — Lucas: pelo dedo — “de Deus expulso demônios, certamente é chegado a vós o reino de
Deus”. Na realidade, através desta história há diferenças menores — veja-se especialmente Lc. 11:21,
22 — de modo que se vê muito claro que cada evangelista tem seu próprio estilo.
Marcos (William Hendriksen) 181
Os escribas não estavam dispostos a permitir que o povo
continuasse maravilhado, até o ponto de acariciar algumas ideias
messiânicas com relação a Jesus. Assim que dão uma explicação muito
conflitiva e diferente das expulsões de demônios e de outros milagres
que Jesus fazia. Está possuído por Belzebu, e expulsa demônios pelo
poder que lhe subministra o príncipe ou governante dos demônios!
Quando estes homens falam de Belzebu, em quem estavam
pensando? As opiniões diferem. No Antigo Testamento lemos a respeito
de Baal-Zebube = Beelzebub. Mas qualquer que tivesse sido a causa para
mudar o nome Beelzebub a Belzebu, 128 há um fato claro: Belzebu é
definitivamente o príncipe dos demônios. Belzebu é Satanás. Isto fica
provado se for comparado o versículo 22a com o versículo 22b e com o
versículo 23. Além disso, cf. Mt. 9:34 com 12:24; e 12:26 com 12:27.
Os escribas e fariseus lançaram uma acusação maligna contra Jesus.
Movia-os a inveja (cf. Mt. 27:18). Sentiam que começavam a perder sua
influência, e isto não o podiam suportar. Quão diferente foi a atitude de
João Batista! (Jo. 3:26, 30). O vergonhoso desta acusação faz-se também
evidente pelo fato de que considerassem Belzebu não como um espírito
imundo que exercia sua sinistra influência sobre Jesus desde fora, mas
que se afirmava que Belzebu estava dentro da alma de Jesus.
Literalmente diziam: tem um espírito imundo, quer dizer, está possuído
pelo demônio (Mc. 3:22, 30; cf. Jo. 8:48). A acusação, então, equivale a
isto: que Jesus estava possuído por Satanás, e que em aliança com

128
Em Ecrom adorava-se a Baal sob o nome de Baal-Zebube (2Rs. 1:2, 3, 6; na LXX trata-se de IV
Reis 1:2, 3, 6, βααλ μυῖαν) isto é, ao Senhor do mosquito grande, e por isso protetor contra esta peste.
O rei Acazias enviou mensageiros a consultar a Baal-Zebube sobre se ele se recuperaria dos resultados
de sua queda, mas foi-lhe dito que por causa desta deslealdade a Jeová morreria. As passagens do
Novo Testamento mudam Baal (= Beel) zebub a zebul. Agora, Beelzebu significa “senhor da
morada”. A razão desta mudança de letras não é clara. Pode ter sido nada mais que um acidente de
pronúncia popular. Outra explicação é que aqui pode haver um jogo de palavras, porque zebul
assemelha-se a zabel: esterco. Assim, os que desprezavam a Baal de Ecrom podiam, mediante uma
ligeira mudança na pronúncia, zombar dele, levando a ideia a que não era mais que um “senhor do
esterco”.
Marcos (William Hendriksen) 182
Satanás expulsava demônios por meio do poder derivado daquele
espírito imundo.
A resposta de Cristo vem nos versículos 23–30, e pode dividir-se
assim: a. refutação da acusação (vv. 23–26); b. explicação das expulsões
de demônios e outros milagres de Cristo (v. 27); c. exortação (vv. 28–
30).
Refutação, versículos:
23–26. Então, convocando-os Jesus, lhes disse, por meio de
parábolas: Como pode Satanás expelir a Satanás? Se um reino estiver
dividido contra si mesmo, tal reino não pode subsistir; se uma casa estiver
dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir. Se, pois, Satanás
se levantou contra si mesmo e está dividido, não pode subsistir, mas
perece. 129
Nos três relatos, a acusação dos antagonistas faz-se em terceira
pessoa. O que há em seus pensamentos se expressa às costas de Cristo.
De modo que, Jesus chama Seus caluniadores diante de sua presença,
para lhes dar a oportunidade de apresentar suas acusações diante
dAquele a quem ridicularizavam e para que escutem Sua refutação, se
assim o desejarem. É fácil entender por que não aproveitaram esta
oportunidade: não puderam responder à Sua refutação.
Jesus mostra que a acusação é ridícula, e o demonstra por meio de
parábolas. No presente contexto, o termo “parábolas” significa
“comparações ilustrativas breves”. Jesus diz que se a acusação fosse
verdade, Satanás estaria expulsando a Satanás. Como pode ser isso? Não
haviam os escribas descrito a Satanás como príncipe ou governante de
um reino? Usando os próprios termos deles e fazendo uso de
“parábolas”, Jesus lhes responde que se a acusação fosse verdadeira, o
governante estaria destruindo seu próprio reino; o príncipe seu próprio
principado. Primeiro estaria enviando a seus servidores (os demônios) a
produzir um descalabro no coração e vida dos homens, destruindo-os em

129
Literalmente: “mas tem um fim”, o que quer dizer: está condenado; seus dias estão contados.
Marcos (William Hendriksen) 183
corpo e alma, com frequência pouco a pouco. Mas depois Satanás estaria
proporcionando o poder necessário para derrotar os seus fiéis servos e
expulsá-los vergonhosamente das vidas dos homens. Isto seria um ato de
vil ingratidão para com seus demônios e uma estúpida ação suicida.
Nenhum reino pode manter-se dividido desta maneira contra si mesmo.
Sob semelhantes condições qualquer casa iria também à ruína. Se isto é
realmente o que Belzebu está fazendo, “Não pode permanecer em pé,
mas sim chegou a seu fim”, é o que Jesus diz literalmente.
Explicação. Depois de refutar a acusação dos fariseus, Jesus
apresenta a verdadeira explicação de Suas vitórias sobre os demônios e
seu senhor:
27. Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os
bens, sem primeiro amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa.
A pergunta retórica de Mateus 12:29 se transforma aqui numa
declaração positiva. Em ambos os casos se transluz a mesma ideia. Na
vida real o ladrão não recebe ajuda voluntária do dono da casa. Pelo
contrário, a fim de levar o que quer, o ladrão imobiliza ao dono da casa.
Depois disto a saqueia. Por meio de Seus atos e palavras, Jesus arrebata a
Satanás aqueles tesouros que este considera seus e sobre os quais esteve
exercendo seu sinistro controle (Lc. 13:16). O Senhor expulsa os servos
de Belzebu (aos demônios), e assim restaura aquilo que Satanás destruiu
nas almas e corpos dos seres humanos com sua atividade nefasta. Jesus
já começou a atar a Satanás por meio de Sua encarnação, Sua vitória
sobre a tentação do diabo no deserto, Sua autoridade diante dos
demônios e por meio de todas as Suas obras. Este é um processo de
imobilização ou limitação do poder do mal que se fortaleceu muito mais
mediante a vitória de Cristo na cruz (Cl. 2:15) e na ressurreição, a
ascensão, e a coroação (Ap. 12:5, 9–12). Jesus realizou, está realizando,
e realizará, não mediante o poder de Belzebu, naturalmente, mas pelo
poder do Espírito Santo (veja-se os vv. 28, 29). O diabo está sendo
despojando de todos os seus bens. O diabo ficará sem suas propriedades,
quer dizer, sem as almas e os corpos dos seres humanos que domina. Isto
Marcos (William Hendriksen) 184
ocorrerá não só mediante curas e expulsões de demônios, mas também
por meio de um poderoso programa missionário que primeiro alcançará
os judeus e logo às nações em geral (Jo. 12:31, 32; Rm. 1:16). Não é esta
a chave para entender Ap. 20:3? 130 Observe-se também como em Lucas
10:17, 18 a queda de Satanás como “um raio caído do céu” é relatada
com relação à volta e relatório dos setenta missionários.
Fica claro, então, que os milagres de Cristo, longe de ser prova do
domínio de Satanás, como se o maligno fosse o Grande Capacitador, são
pelo contrário uma profecia de sua inevitável destruição. Esse reino já se
está desmoronando e em seu lugar surge, de uma forma nova e
maravilhosa, o reino glorioso que existiu através dos tempos. E Belzebu,
com tudo o seu poder e atividade, nada pode fazer para impedi-lo,
porque está preso. A vinda e obra de Cristo reduziram seu poder
substancialmente.
Exortação.
28, 29. Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos
dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele
que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre,
visto que é réu de pecado eterno.
A seção paralela de Lucas (11:14–23) não contém esta séria
advertência; mas veja-se Lc. 12:10. Seu paralelo em Mateus 12:31, 32 é
muito parecido. 131
Jesus introduz sua exortação com um profundo e intenso: “Em
verdade vos digo”. Este “Em verdade” aparece aqui pela primeira vez no
Evangelho de Marcos. A palavra Amém é uma palavra hebraica que se

130
Veja-se meu livro: Más que vencedores: Una interpretación del libro de Apocalipsis (Grand
Rapids: TELL, 1970), pp. 228–231.
131
Há umas poucos variações que não afetam o essencial. Marcos diz “os filhos dos homens”, onde
Mateus diz “homens”, mas a expressão “filho do homem” pode ter o significado de “homem”. Veja-se
CNT sobre Mt. 8:20. Marcos [Mc. 3:28, RC] diz “todos os pecados serão perdoados aos filhos dos
homens, e toda sorte de blasfêmias”, onde Mateus diz, “todo pecado e blasfêmia”. Mateus especifica o
que em Marcos está implícito, quer dizer, que entre os pecados que se perdoam se acham aqueles que
se cometem contra “o Filho do Homem”.
Marcos (William Hendriksen) 185
refere em geral a ideias de fato e fidelidade. A palavra acompanha a
declarações que afirmam ou confirmam uma verdade solene. No Antigo
Testamento o único Amém encontra-se em Dt. 27:15, 16–26; 1Rs. 1:36;
1Cr. 16:36; Ne. 5:13; Sl 106:48; e Jr. 28:6. O duplo Amém se acha em
Nm. 5:22; Ne. 8:6; Sl 41:13; 72:19; e 89:52. No Novo Testamento a
palavra Amém é um acusativo adverbial, que combina as ideias de
veracidade e solenidade. A tradução “Em verdade vos digo” (RA), não
está errada, mas hoje em dia se considera um pouco arcaica. Há diversas
opiniões sobre se “Eu lhes asseguro” (NVI) contribui à mesma plenitude
de significado, ou se perdeu algo da força e solenidade geralmente
associada com “Em verdade”. Cada vez que esta palavra aparece no
Novo Testamento — e o leitor pode examinar isto por si mesmo por
meio de uma Concordância — não só introduz uma declaração que
expressa uma verdade ou fato (como, p. ex., 2 + 2 = 4), mas também
aponta a um fato importante e solene, um fato que em muitos casos
difere da opinião e expectação popular, ou que ao menos causa certa
surpresa. É por esta razão que eu adotei a tradução “Solenemente vos
declaro”. 132
As palavras que seguem a esta solene introdução afirmam que
“todas as coisas”, ou seja, todos os pecados, e especificamente neste
contexto, todas as blasfêmias serão perdoadas aos filhos dos homens. A
referência é, certamente, a todos os pecados dos quais os homens se
arrependam sinceramente. Isto se aplica também a Mt. 12:31; Lc. 12:10.
Claro que em nenhuma destas passagens menciona-se a condição do
arrependimento. Entretanto, é evidente que está implícito em Mc. 1:15;
2:17; 6:12; cf. Mt. 4:17; 12:41; Lc. 5:32; 13:3, 5; 15:7; 17:34. Veja-se
também Sl 32:1, 5; Pv. 28:13; Tg. 5:16; 1 Jo. 1:9. Esta regra é válida
também no que respeita àquele pecado tão odioso, quer dizer, a
blasfêmia. Mas é preciso levar em conta que às vezes as Escrituras usam
esta palavra num sentido mais amplo do qual nós lhe conferimos. Para

132
Cf. Williams: “Solenemente digo”.
Marcos (William Hendriksen) 186
nós a “blasfêmia” poderia definir-se como “irreverência desafiadora”.
Pensamos, por exemplo, em delitos tais como amaldiçoar a Deus ou
amaldiçoar o rei que reina pela graça de Deus, ou na degradação pertinaz
das coisas que se consideram santas, rebaixando-as ao plano do secular,
ou na pretensão de dar ao secular ou puramente humano a honra que
pertence só a Deus. Em grego, não obstante, a palavra “blasfêmia”
recebe também um sentido mais geral, ou seja, o uso de uma linguagem
insolente contra Deus ou contra o ser humano, o qual inclui a difamação,
o insulto, a afronta (Ef. 4:31; Cl. 3:8; 1Tm. 6:4). Em consequência,
quando Jesus nos assegura que “todas as coisas serão perdoadas aos
filhos dos homens, todos os seus pecados e qualquer blasfêmia que
proferirem”, está usando a palavra “blasfêmia” em seu sentido mais
geral. Entretanto, quando faz a exceção — “mas qualquer que proferir
blasfêmia contra o Espírito Santo não receberá perdão jamais” — está Se
referindo a um pecado que mesmo em nosso idioma seria considerado
como “blasfêmia” (cf. Mc. 2:7; Lc. 5:21; Jo. 10:30, 33; Ap. 13:1, 5, 6;
16:9, 11; 17:3).
Não obstante, para toda irreverência obstinada, exceto uma, há
perdão. Se assim não fosse, como teria sido possível perdoar o pecado de
Pedro (Mc. 14:71) e como teria podido restabelecê-lo (Jo. 21:15–17)?
Como se teria perdoado a Saulo (= Paulo) de Tarso (1Tm. 1:12–17)? Por
outro lado, para a “blasfêmia contra o Espírito Santo” não há perdão
jamais. Tal pessoa é culpada de “um pecado eterno”; quer dizer, seu
pecado jamais será apagado.
Ainda resta uma pergunta: Como devemos entender de que a
blasfêmia contra o Espírito Santo é imperdoável? Quanto aos outros
pecados, não importa quão ofensivos ou grosseiros sejam, há perdão para
eles. Houve perdão para Davi, quem cometeu adultério, foi desonesto e
mandou assassinar um homem (2Sm. 12:13; Sl 51; cf. Sl 32); também
foram perdoados os “muitos” pecados da mulher de Lucas 7; ao filho
pródigo se perdoou a vida libertina que levou (Lc. 15:13, 21–24); houve
perdão para a tríplice negação de Pedro acompanhada de maldições (Mt.
Marcos (William Hendriksen) 187
26:74, 75; Lc. 22:31, 32; Jo. 18:15–18, 25–27; 21:15–17) e para a
perseguição sem misericórdia que Paulo desatou contra os cristãos antes
de sua conversão (At. 9:1; 22:4; 26:9–11; 1Co. 15:9; Ef. 3:8; Fp. 3:6).
Mas para aquele que “fala contra o Espírito Santo” não há perdão.
Por que não? Aqui, como sempre quando o texto em si mesmo não
é imediatamente claro, o contexto deve ser nosso guia. O contexto nos
informa que os escribas atribuíam a Satanás as obras que o Espírito
Santo realizava por meio de Cristo. Além disso, cometiam esse pecado
de uma maneira obstinada e deliberada. Apesar de todas as evidências
em contrário, seguiam afirmando que Jesus expulsava demônios pelo
poder de Belzebu. Não só isto, mas além disso, também havia uma
progressão no pecado, conforme o demonstra claramente a comparação
de Mc. 2:7; 3:6; com 3:22. Agora, ser perdoado implica que o pecador
deve ter uma atitude de sincero arrependimento. Entre os escribas
mencionados aqui, não havia nem um ápice de tristeza genuína. Em
lugar de penitência havia endurecimento, em lugar de confissão, complô.
Deste modo, por sua própria dureza criminal e totalmente
indesculpável, condenavam-se a si mesmos. Seu pecado era
imperdoável, porque resistiam percorrer a senda que conduz ao perdão.
Para o ladrão, o adúltero, o homicida há esperança. A mensagem do
evangelho pode fazê-lo exclamar, “Ó Deus, tem misericórdia de mim,
pecador”. Mas quando um homem se endureceu, de modo que está
decidido a não prestar atenção alguma aos impulsos do Espírito, nem
sequer a escutar Seus rogos e advertências, colocou-se a si mesmo no
caminho que leva à perdição. Cometeu o pecado “de morte” (1Jo. 5:16;
veja-se também Hb. 6:4–8).
Todo aquele que estiver verdadeiramente arrependido, por muito
vergonhosas que tenham sido suas transgressões, não se deve desesperar
(Sl 103:12; Is. 1:18; 44:22; 55:6; Mq. 7:18–20; 1Jo. 1:9). Por outro lado,
não existe desculpa para ser indiferente, como se o relacionado com o
pecado imperdoável não fosse preocupação alguma para o membro
regular da igreja. A blasfêmia contra o Espírito Santo é o resultado de
Marcos (William Hendriksen) 188
um progresso gradual no pecado. Se a pessoa não se arrepender de
entristecer o Espírito (Ef. 4:30), ela começará a resistir ao Espírito (At.
7:51). Se persistir nesta conduta, a pessoa apaga o Espírito (1Ts. 5:19). A
verdadeira solução acha-se no Salmo 95:7b, 8a: “Hoje, se ouvirdes a sua
voz, não endureçais o coração.” (cf. Hb. 3:7, 8a).
Marcos agrega:
30. Isto, porque diziam: Está possesso de um espírito imundo.
Esta é uma dessas declarações explicativas achadas frequentemente
no Evangelho de Marcos (cf. Mc. 4:33, 34; 7:3, 4; 7:19b; 15:16). A
palavra “eles” (implícito) refere-se aos escribas, chamando a atenção ao
que estes homens diziam, segundo se registra no versículo 22. Não se
pode aceitar a ideia de que as palavras blasfemas, “Está possesso de um
espírito imundo” poderiam sugerir que aqueles inimigos de Jesus não
consideravam Belzebu como Satanás, mas antes, como algum outro
espírito imundo. Não é este o significado, como tampouco o é que João
4:24 pudesse dar a entender que Deus é meramente um entre muitos
espíritos, como se todos estivessem no mesmo nível. A identificação de
Belzebu = Satanás já ficou demonstrada. E, naturalmente, ele também é
um “espírito imundo”, o pior de todos.

Mc. 3:31–35 - A mãe e os irmãos de Jesus


Cf. Mt. 12:46–50; Lc. 8:19–21

31. Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do


lado de fora, mandaram chamá-lo.
Não foi revelado o motivo exato pelo qual a mãe e os irmãos de
Jesus apareceram em cena tratando de fazer contato com Ele. É provável,
entretanto, que os versículos 21, 22 projetem alguma luz sobre isto. Se
assim fosse, então a explicação mais benévola, e talvez a mais natural,
seria que os comentários perturbadores a respeito de Jesus — por
exemplo, que Seus adversários O consideravam endemoninhado e que
inclusive Seus amigos pensavam que tinha perdido o juízo — tinham
Marcos (William Hendriksen) 189
induzido a mãe de Jesus e os seus irmãos, por afeto natural, a tratar de
subtraí-lo dentre a multidão para Lhe proporcionar um retiro onde
pudesse repousar e recuperar-se fisicamente. Como já se assinalou, esta
interpretação não é aval ao que expositores afirmam que Maria e seus
outros filhos compartilhavam o ponto de vista dos “amigos” (v. 21),
pensando que Aquele ser tão querido estava ou ia caminho da demência.
Quanto à identidade destes irmãos de Jesus, a evidência favorece a
interpretação de que Jesus e estes homens eram fruto do mesmo ventre, o
de Maria. Os argumentos em apoio desta posição são os seguintes:
a. Em outros lugares também somos informados claramente que
Jesus tinha irmãos e irmãs, com os quais evidentemente Ele formava
uma só família (Mt. 12:46, 47; Mc. 6:3; Lc. 8:19, 20; Jo. 2:12; 7:3, 5, 10;
At. 1:14).
b. Lucas 2:7 nos informa que Jesus foi o “primogênito” de Maria.
Embora em si mesmo este segundo argumento não seja suficiente para
provar que Jesus tinha irmãos carnais, nascidos da mesma mãe, não
obstante, em combinação com o argumento a. a evidência chega a ser
quase concludente.
c. Por último, Mateus 1:25 deixa claro que primeiro Jesus veio ao
mundo, e que depois José e Maria entraram nas relações que usualmente
se associam com o casamento. Depois do nascimento de Jesus, José e
Maria tiveram filhos, que em consequência foram irmãos e irmãs de
Jesus. 133 Os nomes dos irmãos estão consignados em Marcos 6:3 (cf. Mt.
13:55). Tudo isto faz com que a obrigação de ter que apresentar provas
recaia totalmente sobre aqueles que negam estes fatos.
Tão grande era a aglomeração (v. 20; cf. Lc. 8:19) que foi
impossível que a família de Jesus chegasse até onde Ele estava. Assim
que enviaram a alguém para O chamar.

133
É claro, portanto, que a doutrina da “virgindade perpétua” de Maria não tem apoio no Novo
Testamento. Quanto a Ez. 44:2, “Esta porta estará fechada”, e Ct. 4:12, “Jardim fechado és tu, minha
irmã, noiva minha”, é muito difícil entender como podem ser usadas estas passagens do Antigo
Testamento para apoiar esta doutrina!
Marcos (William Hendriksen) 190
32. Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram:
Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura.
O quadro é muito vivo. Quase se pode ver e ouvir como a
mensagem vai passando da mãe e os irmãos de Jesus, a um mensageiro
determinado, e dele às pessoas sentadas mais perto do Mestre, e deles ao
próprio Jesus. De maneira muito natural e totalmente humana Jesus
recebe nesse momento a notícia de que Sua mãe e irmãos estão à Sua
procura e desejam que saia.
Jesus utiliza a interrupção para tirar um proveito dela. Sempre fez
isto com as interrupções. Interromperam-no enquanto orava (Mc. 1:35),
ao falar a uma multidão (Mc. 2:1ss.), dormindo num barco (Mc. 4:37ss.),
conversando com seus discípulos (Mc. 8:31ss.), ou viajando (Mc.
10:46ss.), e sempre soube como transformar uma interrupção num
trampolim para proclamar grandes ensinos ou para a realização de
alguma grande obra.
Assim sucedeu também aqui, segundo se vê nos versículos
33–35. Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e
meus irmãos? E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao
redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos
Embora a relação entre Jesus e Sua mãe era de uma tenra
preocupação, como já foi explicado com relação ao versículo 21, nunca
permitiu que ela O separasse de fazer o que sabia que Seu Pai celestial
desejava que fizesse, segundo já vimos (veja-se mais acima, no v. 21, em
“A respeito de d.”). Tampouco permitiu que Seus irmãos O desviassem
(veja-se Jo. 7:2ss.). Ao dizer, “Quem é minha mãe e (quem são) meus
irmãos?” ensina que o que vale para Ele vale para todos: todos devem
esforçar-se para fazer a vontade de Deus (cf. Mt. 10:37; Lc. 14:26).
Neste sentido, os laços físicos não são tão importantes como os
espirituais.
Marcos relata que enquanto Jesus respondia Sua própria pergunta,
olhava aos que estavam sentados — todos estavam provavelmente numa
casa — em círculo ao Seu redor.
Marcos (William Hendriksen) 191
Mateus acrescenta que estendeu Sua mão indicando os Seus
discípulos. Com este significativo olhar e gesto, o Mestre particularizou,
“Eis aqui minha mãe e meus irmãos”. Este “irmãos” não se deve
interpretar como se Jesus reconhecesse só os varões como membros de
Sua família espiritual. Provavelmente disse, “minha mãe e meus irmãos”
para corresponder a “tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua
procura”. É evidente que nenhuma pessoa fica excluída da família de
Cristo por causa de seu sexo, como o indicam as palavras que
imediatamente seguem: Portanto, qualquer que fizer a vontade de
Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.
Com toda probabilidade, tanto as palavras como o gesto de bondosa
inclusão, iam dirigidos primeiro aos Doze (embora dificilmente podiam
aplicar-se a Judas Iscariotes em sentido favorável). Ao que parece eles
estavam sentados mais perto de Jesus. Com sua resposta imediata ao
chamado de Jesus, sem lhes importar os sacrifícios exigidos (Mt. 19:27–
29; Lc. 5:28; 9:58; 14:26), os apóstolos tinham demonstrado que sua
intenção fundamental era indubitavelmente levar a cabo a vontade de
Deus em sua vida. Não é de estranhar, então, que Jesus assinalasse a eles
e publicamente reconhecesse que eles estavam incluídos em Sua família
espiritual. E, visto que a palavra “qualquer” é muito ampla, é indubitável
que também estavam incluídos outros “discípulos” além dos Doze.
Quanto a Maria, embora se deva reconhecer sua solicitude afetuosa,
também tem que admitir-se que se equivocava. Em certo sentido estava
repetindo aquela interferência pecaminosa manifestada numa ocasião
anterior (Jo. 2:3). Portanto, se com relação a Marcos 3:31–35 temos
razão ao falar de um ambiente de “tensão”, entendemos que o que
realmente produziu esta tensão foi esta interferência pecaminosa, e não a
suposta opinião de Maria e os irmãos de Jesus de que Jesus estava fora
de Si. Mas assim como naquela ocasião anterior Maria viu rapidamente
seu erro e foi fortalecida na fé (veja-se Jo. 2:5) pelas palavras de ternura
e a severa repreensão que Jesus lhe dirigiu (Jo. 2:4), no presente caso a
palavra do Salvador (Mc. 3:33–35) teve nela o mesmo efeito saudável. A
Marcos (William Hendriksen) 192
fé de Maria chegou a expressões belas como as que se acham em Lc.
1:38; 1:46–55; 2:19; e 2:51. Por isso, não há nenhuma razão para duvidar
que, em virtude da graça de Deus, a fé de Maria triunfou acima de todo
reverso temporal. Segundo Atos 1:14 é evidente que saiu realmente
vitoriosa. Os irmãos de Jesus compartilharam esta vitória (veja-se essa
mesma passagem).
Cristo fez uma afirmação muito generosa (Mc. 3:33–35), visto que
era óbvio que Seus discípulos não haviam de modo algum alcançado o
pináculo da perfeição espiritual. Por exemplo, os Doze eram homens de
“pequena fé”, e assim permaneceram por longo tempo (veja-se mais
acima, nos vv. 16–19). Entretanto, não Se envergonhou de chamá-los
“irmãos” (Hb. 2:11).
Observe-se o inclusivo de seu “qualquer” (que faz a vontade de
Deus). Abrange o negro e o branco, o vermelho, o moreno, o amarelo; o
varão e a fêmea; o velho e o jovem; o rico e o pobre; o servo e o livre; o
educado e o ignorante; o judeu e o gentio. Mas observe-se também a
exclusividade: estão incluídos aqueles, e só aqueles, que fazem a vontade
de Deus. A essência do que Deus requer entende-se facilmente pelo
exame das seguintes passagens do evangelho de Marcos: Mc. 4:9, 20, 21,
24; 5:19, 34; 6:31, 37; 8:34–38; 9:23, 35–37, 41; 10:9, 14, 29–31, 42–45;
11:22–26; 12:17, 29–31, 41–44; 13:5, 10, 11, 13, 23, 28, 29, 37; 14:6–9,
22–26, 38; 16:6, 7, 15.
Deve-se sublinhar, entretanto, que ninguém é capaz de “fazer a
vontade de Deus” exceto pelo poder e a graça soberana de Deus. Esta
não é somente uma doutrina paulina (Ef. 2:8; Fp. 2:12, 13), é também o
ensino de Cristo. Como nos diz Marcos, Deus — podemos dizer também
Jesus Cristo — é o grande capacitador (Mc. 1:17). O que salva é o poder
de Deus (Mc. 10:27) e o sacrifício vicário e expiatório de seu Filho Jesus
Cristo (Mc. 10:45; 14:24). Em última instância, o homem é incapaz em
si mesmo. Depende totalmente da misericórdia e da compaixão do
Senhor (5:19; 6:34; 8:2). Não é este o fato que explica a ênfase no ensino
Marcos (William Hendriksen) 193
de Cristo, segundo se reflete em Marcos, da necessidade de fé genuína e
oração perseverante? (Mc. 1:35; 5:36; 9:23, 29; 1:22–24).

Resumo do Capítulo 3

Este capítulo contém cinco seções que se podem resumir como


segue:
a. Continuação das controvérsias em torno do sábado (vv. 1–6).
Nesta seção o Filho do Homem continua fazendo valer Sua autoridade
como Senhor do sábado. A atenção aparta-se dos campos de trigo e se
concentra na sinagoga. Jesus toma parte ativa no culto do sábado (Lc.
6:6). Entre os adoradores há alguns fariseus, hostis a Jesus. Também está
presente um homem com uma mão seca. Os fariseus esperam que Jesus
busque curar este homem, com a intenção de poder acusá-Lo e destruir
Aquele que cura pelo delito de curar desnecessariamente num dia em
que, conforme as regras dos rabinos, não estava permitido. O que Jesus
ia fazer era justamente restabelecer aquela mão. A situação real, então,
era esta: os fariseus estavam tratando de fazer o mal, destruir. Jesus
procurava fazer o bem, restabelecer. De modo que, depois de pedir ao
homem que se pusesse de pé num lugar onde todos pudessem vê-lo,
Jesus, que tinha lido o pensamento de Seus adversários mesmo antes de
que o expressassem, perguntou-lhes, “É lícito no sábado fazer o bem ou
fazer o mal, salvar a vida ou matar?” A resposta foi um silêncio
persistente e mal-humorado. Com santa indignação Jesus olhou a cada
um deles alternadamente, até que completou o círculo. Logo ordenou ao
homem que estendesse sua mão. Não tocou a mão do homem, nem
tampouco disse, “Mão, recebe a cura”, nem nada disso. Não obstante, a
mão foi totalmente restabelecida imediatamente. Tão furiosos estavam os
fariseus que, abandonando a sinagoga, entraram em seguida em consulta
com os herodianos com a intenção de matar a Jesus.
b. Multidão heterogênea na praia (vv. 7–12). Numa ocasião
anterior, depois de ter curado o homem paralisado, Jesus se tinha
Marcos (William Hendriksen) 194
retirado à margem do Mar da Galileia (Mc. 2:1–13). Assim o faz agora
também, depois da cura da mão paralisada. Quanto mais curava, tanto
mais aumentava a multidão. De todas as partes da Palestina, e até de
fora, as pessoas iam a Ele, na maioria dos casos para que as curasse ou as
libertasse dos demônios que as dominavam. Tanto se aglomerou a
multidão ao redor de Jesus, que este ordenou aos Seus discípulos que
sempre tivessem preparado um barquinho para Ele, a fim de usá-lo em
qualquer momento de necessidade … lição válida em toda circunstância.
Quanto aos demônios, Jesus lhes proíbe, por razões próprias, que
revelem Sua identidade como “Filho de Deus”.
c. Eleição dos Doze (3:13–19). Entretanto, Jesus considerava as
multidões uma bênção e não uma moléstia. Não tinha vindo ao mundo
para buscar e salvar os perdidos? Portanto, nomeia os Doze a fim de que,
começando já então, mas especialmente depois de Sua partida da terra,
eles pudessem proclamar a mensagem de Cristo e realizar Suas obras de
graça.
d. Jesus contra Belzebu (3:20–30). Não só Seus inimigos (vv. 1–6,
22), mas inclusive Seus bem intencionados “amigos”, quer dizer, alguns
dos que num sentido ou outro estavam associados a Ele, começam a Lhe
produzir dificuldades. Quando observam que mesmo estando em casa,
por causa da aglomeração, nem Ele nem Seus discípulos tomavam
descanso para ir comer, declaram, “Está fora de si”, querendo dizer
talvez que Se está consumindo pelo “fanatismo religioso”. Embora estes
amigos bem intencionados estivessem errados, o juízo de Seus inimigos
jurados, os escribas, foi muito mais ímpio e cruel. Tinham tomado nota
das abundantes curas e expulsões de demônios, especialmente do
relatado em Mt. 12:22, 23; Lc. 11:14, e tinham descido de Jerusalém,
dizendo, “Está possuído por Belzebu”, e “É pelo príncipe dos demônios
que expulsa os demônios”. Sentiam-se amargurados ao ouvir falar a
respeito do entusiasmo da multidão, que começava a se perguntar se
talvez Jesus seria o Messias. Ele refuta Seus argumentos (“Como pode
Satanás expulsar a Satanás?”). Logo dá a verdadeira explicação de Seus
Marcos (William Hendriksen) 195
milagres (Ele atou o homem forte, Satanás = Belzebu, e portanto tem
autoridade e poder para tirar os seus bens: as almas e corpos dos
homens). Por último, solenemente lhes adverte que não há perdão para
os que permanecem até o fim em sua impenitência e endurecido coração.
e. A mãe e os irmãos de Jesus (3:31–35). Devido, possivelmente,
aos perturbadoras rumores a respeito de Cristo — que Seus adversários
O olhavam como endemoninhado e que inclusive alguns de Seus amigos
pensavam que se achava mentalmente extraviado — Sua mãe e Seus
irmãos tentaram pôr-se em contato com Ele, com a provável intenção, de
levá-lo com eles, separá-Lo da vista do público e Lhe proporcionar um
retiro para descansar e recuperar-se. Mas apesar do bem intencionado
deste propósito, isso equivalia a uma interferência pecaminosa no plano
preestabelecido das atividades de Cristo. A Maria e aos irmãos de Jesus
era preciso fazer entender que Seus passos não Se podiam determinar
pelos laços físicos, mas somente pela vontade de Deus. Daí que o
capítulo termine de uma maneira bela: “E, correndo o olhar pelos que
estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos.
Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e
mãe”.
Marcos (William Hendriksen) 196
MARCOS 4
Mc. 4:1–9 - Parábolas: Palavras introdutórias e a Parábola do
semeador
Cf. Mt. 13:1–9; Lc. 8:4–8

1. Voltou Jesus a ensinar à beira-mar. O significado é: De novo,


como o fez anteriormente (Mc. 2:13; 3:7). Refere-se à margem do Mar
da Galileia. Marcos não diz o momento exato em que se reatou o ensino
junto ao mar, mas veja-se Mateus 13:1. E reuniu-se numerosa
multidão a ele, de modo que entrou num barco, onde se assentou,
afastando-se da praia. E todo o povo estava à beira-mar, na praia.
Embora em algumas ocasiões anteriores a multidão era “grande” (Mc.
3:7; cf. 1:34; 2:2, 15; 3:8, 10), desta vez a multidão se descreve como
“numerosa”. 134 Resultado: Nesta ocasião sabemos (contraste-se com Mc.
3:9) que Jesus realmente entrou no barco, e que logo remaram a certa
distância da praia. Da terra a grande multidão olhava rumo ao mar 135
quer dizer, para Jesus, quem por Sua vez olhava à multidão.
De modo que, desta vez o Senhor usou um barco como púlpito. Este
ponto não se deve passar por alto levianamente. Um dos fatos
sobressalentes do ministério terrestre de Cristo é a rica variedade de
recursos que usou para alcançar os Seus ouvintes. Em muitas ocasiões
deve ter pregado e ensinado nos cultos regulares da sinagoga (Mc. 1:21,
39; 3:1; 6:2); e na Judeia também no templo (Jo. 18:20). Cria que a
pessoa devia assistir com regularidade ao culto de adoração (Lc. 4:16).
Isto indica que o costume de mudar a assistência à igreja por reuniões
em grupos pequenos não é boa, salvo em circunstâncias especiais que
surgem de doenças ou por força maior. Por outro lado, esta regularidade
não Lhe impediu de aproveitar outras oportunidades para anunciar as
134
Note-se, πλεῖστος superlativo de πολὑς. Este superlativo usa-se aqui em sentido elativo.
135
Embora πρὸς τὴν θάλασσαν pode traduzir-se, “junto ao mar”, não obstante “olhando ao mar” (cf.
Jo. 1:1) é também possível, e talvez preferível à vista da viveza característica de Marcos.
Marcos (William Hendriksen) 197
boas novas. Não Se limitava ao templo ou à sinagoga, mas Se dirigia às
multidões em qualquer lugar. Falou com o povo de um monte (Mt.
5:1ss), numa casa (Mc. 2:1ss), junto ao mar (4:1a), no deserto (8:1–4),
sentado num barco (4:1b) e inclusive a um grupo reunido num cemitério
(Jo. 11:38ss). Não havia “afetação” nem formalismo no Mestre. Sem
perder de vista os princípios — porque nunca houve pecado nEle (Jo.
8:46) — sempre Se adaptava às circunstâncias, ou as circunstâncias a Ele
(cf. 1Co. 9:19–22).
O mesmo se pode dizer com relação à Sua flexibilidade para
selecionar um auditório, ou permitir que um auditório O escolhesse
como pregador. Falou com qualquer pessoa que queria ouvi-Lo:
multidões, os Doze, indivíduos separadamente; publicanos e pecadores;
não só homens, mas também mulheres; não só judeus, mas também
gentios; aos pobres como também aos ricos. Proclamou as boas novas a
todos.
Finalmente, conforme indica a presente seção, em Suas pregações e
ensinos fez uso abundante de ilustrações e parábolas, quer dizer, de
“histórias terrestres com significado espiritual”. Na realidade, um estudo
das palavras e discursos de Cristo, revela que Seu estilo abrangeu uma
ampla gama de métodos para despertar o interesse. Não obstante, todas
as Suas palavras foram “de coração a coração”. Não houve sorrisos
artificiais, gestos estudados nem palavras estereotipadas. Tudo era
autêntico. “Jamais homem algum falou como este homem!” (Jo. 7:46). A
consequência foi que ordenou, comissionou, admoestou, exortou,
explicou, perguntou, consolou, refutou, e predisse.
Por isso, ninguém dirá de seu pastor “é óbvio que está perto de
Jesus”, se o contato espiritual que tal pastor tem com os seres humanos
(destinados à eternidade!) reduz-se à entrega de um ou dois sermões por
semana. O mesmo ocorre se tal pastor se limita a ler à sua congregação
sermões que não desafiam, que não contêm tenras admoestações,
ilustrações nem um clímax final. Se o pastor só entregar seu sermão e
depois se retira ao seu estudo durante o resto da semana, ninguém dirá
Marcos (William Hendriksen) 198
que conhece a Jesus (cf. At. 4:13). A mesma pergunta deve ser feita ao
“leigo” cujo coração não está cheio de um quente amor por Cristo e que
não escuta com ânsias a Palavra e cuja boca não conhece o que é
transbordar de louvor e testemunho.
2. Assim, lhes ensinava muitas coisas por parábolas. Marcos só
apresenta uma pequena seleção destas parábolas (vv. 2b–32); Mateus nos
entrega uma seleção muita mais ampla (quase todo o cap. 13). Isto não
quer dizer que o grupo de sete parábolas a respeito do reino que se
encontram em Mateus sejam o registro completo de todas as parábolas
que Jesus falou naquela ocasião. Marcos primeiro apresenta a parábola
do semeador, a da semente que cresce em segredo, e a da semente de
mostarda. Depois conclui seu relato sobre este tema dizendo, “Com
muitas parábolas lhes falava a palavra …” (vv. 33, 34); e muda então
para outro tema. Depois de no decorrer do seu doutrinamento, Marcos
informa que Jesus começou a primeira série de parábolas dizendo,
3. Ouvi: Eis que 136 saiu o semeador a semear.
A palavra introdutória “Ouvi”, serve para chamar a atenção dos
ouvintes, e neste sentido só se acha em Marcos, e não em Mateus nem
em Lucas. Logo usa a frase que literalmente diz: “Eis que” ou “Olhai”. A
palavra usada no original tem a particularidade de promover o mesmo
efeito de interesse que a nossa “uma vez” ou “em certa ocasião”. 137 No
caso que nos ocupa, o foco de atenção não é o fato de que o semeador
tenha saído a semear, mas a história completa.
Em lugar de “o semeador” sugeriu-se a tradução “um agricultor”.
Entretanto, ao seguir o relato com esse critério, quando chegamos ao
versículo 14 teríamos que dizer “o agricultor semeia a palavra”. Mas isto

136
Ou talvez “Eis aqui” ou “Olhai” (em lugar de “Certa vez” ou “Em certa ocasião”).
137
A primeira destas duas alternativas (“uma vez”) é a tradução proposta por Phillips e por Norlie; a
segunda (“em certa ocasião”), é a sugerida por J. A. Alexander, The Gospel According to Matthew
(Nova York, 1867), p. 353.
Marcos (William Hendriksen) 199
revela imediatamente o inadequado de tal tradução, porque não é um
agricultor aquele que semeia a palavra, e sim o Filho do Homem. 138
4. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho.
Era costume semear o trigo ou a cevada à mão. Mas os resultados
poderiam ser muito diferentes, dependendo do lugar onde caia a
semente. À medida que aquele homem semeava, era inevitável que parte
da semente caísse no caminho por onde ele passava ao cruzar o campo.
Visto que o lugar onde caiu não estava arado, e muitos o tinham pisado,
o solo estava muito duro para que uma semente o “penetrasse”. Assim
que ficava sobre a superfície, com o seguinte resultado: e vieram as aves
e a comeram. As aves agiram com rapidez e avareza. Tragaram a
semente e imediatamente foi parar no sistema digestivo; assim,
literalmente “elas (as aves) engoliram-na”.
5. Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo
nasceu, visto não ser profunda a terra.
É típico da Palestina ou Israel que grande parte de seu solo
cultivável se ache sobre uma capa rochosa. Em tal situação, em seu
processo de germinação, a semente tem só um caminho a seguir, quer
dizer, para cima. De modo que em lugar de arraigar-se primeiro
firmemente, a semente “brotou para cima imediatamente”.
6. Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz,
secou-se.
Por causa da falta de profundidade da terra, esta semente não pôde
lançar raiz; é por isso que quando o sol saiu, queimou-se segundo
Mateus e Marcos. Lucas 8:6 nos diz a causa intermediária que a levou a
secar-se: (porque não tinha raiz) esta semente “careceu de umidade”.
Razão havia para que se queimasse e morresse.

138
Além disso, o original usa duas palavras — σπείρων e σπεῖραι — derivadas da mesma raiz; na
realidade duas formas da mesma palavra. A primeira é um substantivo derivado de um gerúndio; a
segunda, um infinitivo aoristo. Por último, mas não sem importância, a transição da parábola a seu
significado real faz-se muito mais fácil mediante a tradução “semeador … a semear” que com
qualquer outra tradução.
Marcos (William Hendriksen) 200
7. Outra parte caiu entre os espinhos; e os espinhos cresceram e
a sufocaram, …
Aquela terra estava infestada de raízes de espinheiros. Pelo fato de
que geralmente o que cresce mais rápido é o indesejável, e que cada
parcela de terreno tinha só o espaço necessário para uma quantidade
determinada de vida vegetal, não é raro que a erva daninha, cujo
crescimento é mais rápido, logo começasse a afogar a vitalidade da
nobre espiga. Marcos explica o resultado como segue: e não deu fruto.
8. Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e
cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um.
Observe-se a mudança que faz Marcos do singular ao plural, da
semente coletiva às sementes individuais. Seria que neste caso o
evangelista (e Jesus antes dele) desejava dar ênfase especial à
diversidade da produção? Marcos descreve esta produção em ordem
ascendente: trinta, sessenta, cem; contraste-se com Mateus 13:8 (ordem
descendente). Descreve a cena mediante o uso do imperfeito (levavam,
produziam)!
A parábola conclui com uma sincera admoestação:
9. E acrescentou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Os
ouvidos têm que ser usados para ouvir, quer dizer, para escutar
atentamente e valorar o que alguém escuta. Através de todo o ensino de
Cristo, tanto na terra como do céu, seria difícil descobrir uma exortação
que Ele repetisse mais, de uma forma ou outra, que a do versículo 9
(veja-se também v. 23; cf. 8:18 tanto em Marcos como em Lucas; 13:9
tanto em Marcos como no Apocalipse; além disso Mt. 13:43; Lc. 8:8;
14:35; Ap. 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22). Esta repetição não deve nos
surpreender. Não é acaso a falta de receptividade a que conduz
diretamente o pecado imperdoável se se persistir nela? As consequências
da falta de interesse para ouvir, ou ouvir e não obedecer, dão-se a
conhecer mediante a explicação de Jesus sobre a parábola (vv. 13–20).
Marcos (William Hendriksen) 201
Mc. 4:10–12 - O propósito das parábolas
Cf. Mt. 13:10–17, 36; Lc. 8:9, 10

A admoestação, “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, não foi


desatendida.
10. Quando Jesus ficou só, os que estavam junto dele com os
doze o interrogaram a respeito das parábolas.
Jesus agora Se achava sozinho, no sentido de que Se tinha
despedido da multidão e ido para casa. Entretanto, não se achava
totalmente sozinho. Com Ele estavam os Doze. Mas observe-se: “os que
estavam junto dele junto com os Doze”. O significado parece ser que,
além dos doze discípulos já conhecidos, achavam-se também presentes
alguns que pertenciam ao grupo mais geral dos seguidores constantes.
Marcos descreve este grupo heterogêneo no momento em que perguntam
a Jesus a respeito das parábolas. É significativo o uso do plural. Marcos,
antes de nos dizer que Jesus ficou “só”, relata só uma parábola, a do
semeador; conquanto Mateus primeiro registra quatro parábolas: o
semeador, o joio, a semente de mostarda, e a levedura. Depois destas
quatro parábolas, Mateus informa (Mt 13:36) que Jesus Se despediu da
multidão e foi embora a casa (ou “entrou na casa”), onde os discípulos
Lhe faziam perguntas. Entretanto, se fixarmos a atenção nas palavras
que Marcos usa para referir-se às perguntas que os discípulos fizeram a
Jesus e a resposta que Ele lhes deu (Mc. 4:10–12), devemos voltar
novamente a Mateus 13, mas desta vez aos vv. 10–17, especialmente os
vv. 10, 11, 13–15. O relato de Lucas (8:9, 10) parece ser um breve
resumo.
Os que estavam com Jesus desejavam saber duas coisas: a. por que
fazia uso de parábolas para falar com as multidões (cf. Mt. 13:10), e b.
qual era o significado de uma parábola em particular; por exemplo, o do
joio (Mt. 13:36), ou (aqui em Mc. 4:13) a do semeador.
Marcos (William Hendriksen) 202
11. Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o
mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio
de parábolas.
A palavra “mistério” é muito interessante. Fora do cristianismo, no
âmbito pagão, referia-se a um ensino ou cerimônia secreta relativa ao
religioso, mas oculta para a gente comum, e conhecida (ou praticada) por
um grupo de iniciados. Na tradução grega de Daniel 2 na LXX, onde a
palavra aparece não menos de oito vezes (como singular nos vv. 18, 19,
27, 30 e 47b; e como plural nos vv. 28, 29, e 47a), refere-se a um
“segredo” que deve ser revelado, a um enigma que deve ser interpretado.
No livro de Apocalipse, onde aparece quatro vezes (Ap. 1:20; 10:7; 17:5,
7), a melhor maneira de explicá-lo seria talvez definindo-o como “o
significado simbólico” daquilo que necessitava explicação. A palavra
aparece vinte e uma vezes nas epístolas de Paulo (Rm. 11:25; 16:25;
1Co. 2:1, 7; 4:1; 13:2; 14:2; 15:51; Ef. 1:9; 3:3, 4, 9; 5:32; 6:19; Cl. 1:26,
27; 2:2; 4:3; 2Ts. 2:7; 1Tm. 3:9, 16). Aqui se pode definir como uma
pessoa ou verdade que teria permanecido desconhecida se Deus não a
tivesse revelado; um segredo revelado ou aberto. Assim por exemplo, se
não se tivesse dado a conhecer, não teríamos sabido que em toda época
há um remanescente de judeus (também de gentios) que será salvo, até
que enfim, mediante a fé em Jesus Cristo “todo Israel” será recolhido; e
que este processo continuará até a volta de Cristo, quando o número
completo de gentios destinados à salvação tenha sido recolhido também
(Rm. 11:25). Do mesmo modo, se não tivesse sido revelado, não
poderíamos saber que “nem todos dormiremos”, etc. (1Co. 15:51). Um
“mistério”, ou segredo revelado muito parecido é o próprio Cristo, com
toda Sua gloriosa riqueza, habitando realmente mediante Seu Espírito na
vida e coração de gentios e judeus, unidos num corpo, a igreja (Ef. 3:4–
6; Cl. 1:26, 27). E como teria sido possível descobrir, sem a revelação
divina, que um dia o espírito de iniquidade se encarnará no “homem de
iniquidade”? (2Ts. 2:7).
Marcos (William Hendriksen) 203
Assim que, em geral podemos definir um “mistério” bíblico como
um segredo divinamente revelado, como uma pessoa ou coisa que sem
revelação não teria sido descoberta. Esta definição serve muito bem para
o contexto da presente passagem do Evangelho de Marcos (4:11) e seus
paralelos (Mt. 13:11; Lc. 8:10), únicos casos nos Evangelhos onde se usa
este vocábulo. Aqui o mistério é a poderosa manifestação do reinado
(“reino”, “majestade”) de Deus na vida e coração dos humanos. Tal
reino, em relação à vinda de Cristo, foi acompanhado de poderosas obras
tanto no plano físico como no espiritual. Jesus declara que o Pai estava
revelando o mistério de que, sem dúvida alguma, era o próprio Deus e
não Satanás quem fazia todas estas obras poderosas. Este mistério tinha
sido “dado”, quer dizer, “graciosamente revelado” aos que estavam com
Jesus naquele momento; na realidade, era revelado a todos os que O
haviam recebido com fé genuína. Aos de fora (literalmente: “aos que
estão fora”) “tudo lhes vem em parábolas”; quer dizer, apresentava os
ensinos de Cristo por meio de parábolas. Pelo que segue é claro que
quando Jesus fala aqui a respeito “dos de fora” está pensando
especialmente nos endurecidos fariseus e seus seguidores, homens de
corações impenitentes (cf. Mt. 13:13, 15), porque prossegue:
12. Para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam
e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão
para eles.
Marcos resume desta forma a essência do texto citado por Cristo
(Is. 6:9, 10). Lucas 8:10 é mais breve. Uma declaração mais completa se
acha em Mateus 13:13–15. 139

139
O resumo de Marcos (cf. a tradução da LXX): “Para que vendo …, e ouvindo …”, preserva a
ênfase da subjacente construção hebraica de Is. 6:9, 10. Os plurais imperativos seguidos por
infinitivos absolutos no hebraico estão no grego de Marcos representados por particípios presentes
seguidos por subjuntivos. No hebraico toda a passagem (vv. 9, 10) consiste numa série de ordens
enfáticas, introduzidas por, “E disse: Anda e diga a este povo”. Logo segue: “Ouçam e ouçam, mas
não entendam, E vede e vede, mas não percebam [Ou: “Ouçam, por certo, mas não entendam, Vede
por certo, mas não percebam]. Engrossa o coração deste povo, e agrava seus ouvidos, e cega os seus
olhos; não seja que vejam com seus olhos, e ouçam com seus ouvidos, e entendam com seu coração,
Marcos (William Hendriksen) 204
Então, o que Jesus diz, é: “Para os de fora tudo vem em parábolas,
para que vejam e vejam, mas não percebam … não seja que se
convertam e sejam perdoados”. Mas, como pode ser isto possível? Não
resulta chocante? Pode ser verdade que o bondoso e misericordioso
Salvador, o mesmo que estendia constantemente tenros convites,
tomasse tanto trabalho para impedir que as pessoas percebessem e
entendessem a verdade? Pode-se dizer que realmente fizesse um esforço
para impedir que os homens se voltassem a Deus e fossem perdoados?
Fizeram-se várias tentativas para resolver este problema. Entre elas
estão as seguintes:
1. Afirma-se que se interpretarmos a partícula usada no grego como
querendo dizer “a fim de que” ou “de modo que”, estaríamos
interpretando mal o texto. 140 Ou se sugere que talvez o próprio Marcos
interpretou erroneamente a palavra aramaica que Jesus provavelmente
usou.
Resposta. Marcos representa a Jesus como dizendo não só “para
que” mas também “não seja que”. A combinação de que … não seja que
mostra que a partícula “para que” se interpreta melhor como indicando
propósito.
2. Esta expressão é uma versão falsa e inaceitável de uma
declaração genuína de Jesus. 141 Além disso, às vezes adiciona-se que em
vista de passagens tais como Mateus 11:28–30 e Apocalipse 3:20, Jesus
jamais pôde ter dito as palavras que se lhe atribuem em Marcos 4:11, 12.
Resposta. Não existe prova da teoria que considera esta expressão
como falsa e inaceitável. Além disso, é justo referir-se a Mateus 11:28–
30, mas esquecer o versículo 25, ou a Apocalipse 3:20 e deixar de lado o

convertam-se e sejam curados”. É evidente que Marcos abrevia, deixando fora toda referência a
“Engrossa o coração deste povo e agrava seus ouvidos …” Entretanto, retém, “… não seja que se
convertam e sejam perdoados”, uma forma legítima de dizer “… Não seja que se convertam e sejam
curados”.
140
Cf. A. T. Robertson, Word Pictures, Vol. I. p. 286. Sustenta que se a ἵνα (aqui em Mc. 4:12) de dá
o sentido causativo de ὅτι (em Mt. 13:13) o problema desaparece.
141
Véase Vincent Taylor, op. cit., p. 257
Marcos (William Hendriksen) 205
versículo 16? E por outro lado, acaso o resumo de Marcos não reflete
verdadeiramente o dito em Isaías. 6:9, 10?
3. Se as palavras de Cristo foram as que Marcos registra, devem ter
sido ditas em brincadeira. Evidentemente Jesus quis que Suas palavras
fossem tomadas exatamente em sentido oposto ao literal. Isto é claro
pelo fato de que Mateus muda diametralmente o significado da
declaração, fazendo com que Jesus diga “porque (em lugar de que)
vendo não veem …” 142
Resposta. Se aceitarmos que ao pronunciar o Mestre as palavras, “A
vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus” falava
seriamente, declarando o que conhecia como um fato, não como uma
brincadeira, então o que segue, tão estreitamente ligado a estas palavras,
deve ser considerado também como um fato. E quanto ao pretendido
conflito entre Mateus, por um lado, e Marcos e Lucas, por outro, por que
não podem ambos estar certo?
A verdadeira explicação, na opinião deste autor, é a seguinte: as
duas partículas, porque e para que (tanto se significarem “a fim de que”
— o que eu prefiro — ou “de modo que”) são corretas. Por escolha
própria, os fariseus impenitentes e seus seguidores recusaram ver e
ouvir. Por isso, é-lhes dito agora em parábolas, como castigo por seu
rechaço, “para que vendo, vejam e não percebam, e ouvindo, ouçam e
não entendam, não seja que se convertam e sejam perdoados”. Devem
“confrontar as consequências de sua própria cegueira e dureza” (Calvino
sobre esta passagem). 143 Deus tinha dado àquelas pessoas uma excelente
oportunidade. Deus é soberano para tirar o que o homem não quer
melhorar, e entenebrecer o coração de quem se nega a escutar. Endurece
os que se endureceram. Se Deus submeter inclusive o entenebrecido
pagão à concupiscência de seu próprio coração, por deter com injustiça a
verdade (Rm. 1:18, 26), não castigará com maior severidade o

142
Veja-se E. Trueblood, The Humor of Christ (Nova York, Evanston, Londres, 1964), pp. 91, 92.
143
Veja-se também H. B. Swete, op. cit., p. 76.
Marcos (William Hendriksen) 206
impenitente diante de quem a Luz do mundo está confirmando
constantemente a fidelidade de Sua mensagem? E se abençoar os que
aceitam o misterioso, não amaldiçoará os que rejeitam o evidente? É
claro, então, que Mateus 13:13 está em harmonia com Marcos 4:12. Na
realidade, o “porque” do primeiro ajuda a explicar o “para que” do
segundo.
Quando por decisão própria, e depois de repetidas ameaças e
promessas, a pessoa rejeita o Senhor e desdenha Suas mensagens, então
Ele lhes endurece, para que os que não quiseram arrepender-se, não
possam arrepender-se e ser perdoados (veja-se também CNT sobre Mt.
13:10–15 e Jo. 12:37–41).

Mc. 4:13–20 - Explicação da parábola do semeador


Cf. Mt. 13:18–23; Lc. 8:11–15

Marcos já nos disse que, depois de despedir das multidões, Jesus


ficou sozinho com os Doze e outros seguidores, e que este grupo
heterogêneo lhe fez perguntas a respeito das parábolas (4:10). Lucas, de
maneira mais específica, acrescenta que estes discípulos perguntaram a
Jesus o significado da parábola do semeador (Lc. 8:9). Isto explica o que
a seguir lemos em Marcos 4:
13. Então, lhes perguntou: Não entendeis esta parábola e como
compreendereis todas as parábolas?
Se não entenderem a parábola do semeador, como poderiam chegar
a compreender 144 qualquer parábola? Isto significa que o Mestre
desejava que escutassem cuidadosamente, de modo que também
pudessem captar o significado de outras parábolas. Logo Jesus passa a
explicar a parábola:

144
Os dois verbos empregados no original são οἶδα (aqui οἴδατε) e γινώσκω (aqui γινώσεσθε). O
primeiro indica conhecimento por intuição ou perspicácia; o segundo, reconhecimento, observação,
experiência, e/ou relações. Veja-se CNT sobre Jo. 1:10, 11, 31; 3:11; 8:28, 55; 16:30; 21:17.
Marcos (William Hendriksen) 207
145
14. O semeador semeia a palavra.
Esta é uma das passagens-chave para o entendimento desta história
ilustrativa. É preciso tê-lo sempre em conta. A presente parábola fixa
nossa atenção em dois objetos: no semeador e na semente. Não obstante,
esta parábola não identifica o semeador, porque sublinha mais a função
que cumprem os tipos de terreno que a função do semeador. Porém, na
parábola do joio somos informados de forma definitiva que o semeador é
o Filho do Homem (Mt. 13:37), a saber, é o próprio Jesus (Mt. 16:13–
15). Portanto, quanto ao semeador de Marcos 4:13–20, devemos dizer
que embora a parábola não identifique a Jesus em nenhum lugar, não há
razão para negar que se trate de Jesus, quem Se identifica a Si mesmo
como o Semeador. Mediante uma legítima prolongação da figura (veja-
se Mt. 10:40) podemos dizer que o Semeador não só é o próprio Jesus,
mas também qualquer pastor, missionário, evangelista, ou quem quer
que dê um testemunho sincero e que verdadeiramente proclame a
mensagem do Filho de Deus. Quanto à semente, já nos foi dito — e isto
se acha implícito no termo mesmo — que “o semeador” semeia a
semente (Mc. 4:3ss.). Assim que, quando Jesus agora diz, “O semeador
semeia a palavra”, a conclusão deve ser que a semente simboliza a
palavra, a mensagem que vem de Deus (veja-se também Mt. 13:19; Lc.
8:11).
Pode acrescentar-se a estes dois pontos um terceiro: a “terra” ou
“solo” sobre o qual cai a semente é claramente o coração do homem, ou,
se preferir-se, o próprio homem. Sem dúvida, isto é o que se indica em
Mateus 13:19a, “o que lhes foi semeado no coração”. Em cada um dos
quatro casos registrados na parábola, a “terra” (quer dizer o coração ou a
pessoa) é diferente. se poderia falar do coração insensível (Mc. 4:15), do
coração impulsivo (vv. 16, 17), do coração laborioso (vv. 18, 19), e do
coração bom, sensível, ou preparado (v. 20). Substitua-se a palavra
“coração” por “pessoa” e o significado fica essencialmente o mesmo. O

145
Ou: “a mensagem”; e assim por toda a parábola.
Marcos (William Hendriksen) 208
“coração” indica a “pessoa” ou o “ouvinte” tal como é no profundo de
seu ser. Portanto, o que segue é correto: “Qual é, então, a lição? O
Salvador nos deu a resposta em Sua própria interpretação da história. A
semente é a palavra de Deus, ou a palavra do reino; e o terreno são os
corações humanos. De modo que, reduzida a uma regra geral, o ensino
da parábola é que o resultado do ouvir o evangelho, sempre e em todo
lugar, depende da condição do coração daqueles a quem lhes apregoa. A
índole do ouvinte determina o efeito da palavra nele”. 146

Corações insensíveis
Jesus prossegue:
15. São estes os da beira do caminho, onde a palavra é semeada;
e, enquanto a ouvem, logo vem Satanás e tira a palavra semeada
neles.
Significado: as pessoas representadas pela semente semeada no
caminho (veja-se v. 4) são a classe de pessoas que deixam que Satanás, o
grande adversário (veja-se mais acima a respeito de 1:13), arrebate-lhes a
mensagem que foi semeado nelas. Jesus não pretende de modo algum
desculpar estas pessoas, como se só Satanás fosse o responsável pelo que
sucede com a mensagem divina que lhes foi entregue. O versículo 15 não
anula o versículo 9! Mas no versículo 15, diz-se que estes ouvintes
frívolos cooperam com o príncipe do mal, ao tratar com tanta
superficialidade a palavra de Deus.
Esta gente não faz nada com a mensagem, não a aproveitam para
seu próprio bem. Portanto, tendo ouvido a mensagem, qualquer efeito
favorável que pudesse ter produzido neles, fica “imediatamente”
aniquilado. Qual é a causa de sua reação negativa? Talvez má vontade
para com o mensageiro, ou possivelmente hostilidade a esta mensagem
em particular, ou simplesmente, que não querem ser incomodados (At.
24:25). O espírito de indiferença pode ter penetrado neles, talvez pouco a

146
W. M. Taylor, The Parables of Our Savior, Expounded and Illustrated (Nueva York, 1886), p. 22.
Marcos (William Hendriksen) 209
pouco, até chegar a ser total, chegando seu coração a ser tão duro como o
caminho sobre o qual se espalhou a semente da parábola.
O Senhor, falando com Ezequiel, deu a seguinte descrição dos que
ouviam o profeta: “Eis que tu és para eles como quem canta canções de
amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras,
mas não as põem por obra” (Ez. 33:32). Cf. Mt. 7:26.

Corações impulsivos
16, 17. Semelhantemente, são estes os semeados em solo rochoso, os
quais, ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria. Mas eles não têm
raiz em si mesmos, sendo, antes, de pouca duração; em lhes chegando a
angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam.
A descrição dos ouvintes de coração insensível é seguida pela dos
impulsivos.
Observe-se que neste caso particular, tanto Marcos como Mateus
fazem uso da palavra “imediatamente” duas vezes. Referimo-nos a
pessoas que agem sem refletir. Logo aceitam a palavra, inclusive com
alegria! E então, logo se apartam. São enganados, apanhados, pela
aflição e a perseguição. Isto é o que os induz a deixar o que no começo
tinham abraçado com tanto entusiasmo. 147 Se tivessem sido crentes
autênticos não teriam sido enganados de maneira definitiva.
Por causa da mensagem do evangelho, o crente pode achar-se no
meio da aflição, quer dizer, no meio de todo tipo de pressões externas
que vêm de um ambiente não cristão, ou em meio de perseguições e de
sofrimento real causado deliberadamente pelo inimigo. Quando tudo isto
ocorre por causa da mensagem, a perseverança é a marca do cristão
verdadeiro. Naturalmente que a perseverança que aqui se exalta
implicitamente deve ser genuína, deve praticar-se não por amor a nós

147
Note-se o verbo σκανδαλίζονται, que significa literalmente: “estão apanhados, induzidos ao
pecado”; portanto, “apartaram-se”. O σκάνδαλον é basicamente a ceva de uma armadilha ou laço. É o
palito que dispara a armadilha. Significados derivados: armadilha (Rm. 11:9); sedução, tentação (Mt.
18:7); causa de ofensa, pedra de tropeço (1Co. 1:23).
Marcos (William Hendriksen) 210
mesmos, mas por amor a Cristo. Deve ser uma atitude positiva a sofrer
por amor ao Senhor, a Sua palavra, a Seu povo, e a Sua causa. Quando
falta este amor, a paciência é inútil (veja-se 1Co. 13:3b). Quando está
presente, produz alegria de coração, segurança da salvação (veja-se Mt.
5:11, 12; Jo. 16:33; At. 5:41; Rm. 8:18, 31–39; Fp. 1:27–30; 1Pe. 4:14;
Ap. 2:9, 10).
Mas as pessoas simbolizadas pela semente que caiu em solo
rochoso (veja-se sobre vv. 5, 6) careciam dessa persistência. Nunca
levaram a sério os exemplos de Rute, Jônatas, Estêvão, e Paulo. A
palavra “lealdade” não existia em seu vocabulário.
Como exemplo deste tipo de “amigos” volúveis, não é lógico supor
que entre a multidão que gritava “Hosana” (Mc. 11:9, 10 e paralelos)
houve também alguns que poucos dias mais tarde gritaram, “Crucifica-o,
crucifica-o”? Deve ter-se em mente que os seguidores de Cristo sofreram
perseguição não só depois de Sua ressurreição (At. 4:3; 5:18; 6:11, 12;
7:54–60; 8:1; etc.), mas inclusive antes (como o demonstra
definitivamente Jo. 9:22, 34, e bem pode estar incluído também em Mt.
5:10–12; 10:23, 25, 28; Lc. 6:22; 12:4). Nem todos os afetados por tal
perseguição suportaram a prova. Para alguns, as palavras de 1 João 2:19
vêm ao caso: “Saíram de nós, mas realmente jamais pertenceram a nós”.
Quanto a crentes genuínos, veja-se João 10:27-28, “As minhas ovelhas
ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a
vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”.
Os que antes tinham sido meros aderentes externos, que nunca
foram seguidores genuínos porque sua profissão não brotava de
convicções internas (eram “sem raiz”), não entendiam que o verdadeiro
discipulado implica a entrega, a negação de si mesmo, o sacrifício, o
serviço e o sofrimento. Passavam por alto o fato de que o caminho que
leva ao céu é o caminho da cruz.
Marcos (William Hendriksen) 211
Corações apreensivos
18, 19. Os outros, os semeados entre os espinhos, são os que ouvem a
palavra, mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais
ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera.
Esta passagem descreve o caso de pessoas cujo coração assemelha-
se ao terreno infestado de raízes e plantas espinhosas. Um campo tão
“sujo” é uma séria ameaça para o crescimento de qualquer planta útil.
Igualmente, os corações cheios dos transportes laboriosos do dia,
obscurecidos por sonhos de riquezas, e (Marcos acrescenta) o desejo de
outras coisas, desbaratam toda influência benéfica que, não sendo assim,
poderia agir na recepção da mensagem do reino. Tais corações se acham
muito ocupados. Não têm tempo para a meditação serena e sincera da
palavra e a mensagem do Senhor. Se num coração como este tentasse
entrar alguma reflexão ou pensamento sério da Palavra de Deus, seria
imediatamente afogado.
Os cuidados se referem à ansiedade constante com relação a
atividades terrestres, aos assuntos que pertencem à época em se vive.
Estes cuidados enchem a mente e o coração de negras pretensões. Se
estas pessoas forem pobres, enganam-se pensando que seriam felizes se
fossem ricos.
Mas se forem ricos, enganam-se imaginando que, se fossem mais
ricos poderiam sentir-se satisfeitos, como se as riquezas materiais
pudessem de algum modo garantir a felicidade. Na realidade, o encanto
que emana das riquezas é um encanto enganoso.
Segundo Marcos, aos dois tipos de espinheiros já mencionados,
Jesus acrescenta um terceiro: os desejos de outras [ou: das demais]
coisas. Sob este cabeçalho não há dúvida que se inclui todos os outros
desejos maus. 148 Tais desejos ou cobiças são maus, a. porque o que se
deseja é mau; por exemplo, o desejar drogas perniciosas, ou relações
íntimas com a esposa de outro homem; b. porque mesmo quando o que
148
Para encontrar um estudo etimológico do termo ἐπιθυμια (note-se o plural aqui: ἐπιθυμίαι) veja-se
CNT sobre 1 e 2 Timóteo e Tito, nota 147.
Marcos (William Hendriksen) 212
alguém deseja ter ou fazer seja perfeitamente lícito, o desejo pode ser
excessivo; por exemplo, jogar futebol ou xadrez até o ponto de
descuidar tudo o mais. Mas Jesus Se referia especialmente aos prazeres
pecaminosos, o que parece deduzir-se do breve resumo de Lucas; “afãs e
riquezas e prazeres da vida” (Lc. 8:14). Assim interpretado, vemos que a
enumeração de Lucas corre paralelamente à de Marcos.
Indubitavelmente, quando Jesus Se referiu aos espinheiros que
afogaram a semente que começava a germinar, não excluiu nada do que
corresponde a esta categoria geral. Fica incluída qualquer coisa que
esteja dentro da esfera das posses, o poder (ou prestígio) e o prazer, que
destrói o efeito da boa semente da palavra. “Porque nada do que o
mundo oferece vem do Pai, mas do mundo mesmo. E isto é o que o
mundo oferece: os maus desejos da natureza humana, o desejo de possuir
o que agrada aos olhos, e o orgulho das riquezas” (1Jo. 2:16, VP).
Nos dias de Amós, as pessoas supostamente religiosas se
perguntavam: “Quando passará o mês, e venderemos o trigo; e a semana,
e abriremos os celeiros [ou: abriremos o mercado do trigo] do pão, e
esgotaremos a medida, e subiremos o preço, e falsearemos com engano a
balança …?” (Am. 8:5). O enganoso encanto das riquezas foi o
espinheiro que afogou todo o bem que a mensagem de Deus pôde ter
realizado. Abundam outros exemplos tanto das Escrituras como da vida
diária.
As pessoas aqui referidas não podem receber ricas bênçãos nem
tampouco podem ser elas mesmas bênção para outros. A palavra, quanto
a elas se refere, não pode produzir fruto. Não há problema algum no
semeador. Tampouco há problema algum na semente. É que nesta classe
de gente todo anda mal. Deveriam pedir ao Senhor que os livre dos
trabalhos em excesso corrosivos e sonhos mundanos e ilusórios, de modo
que a mensagem do reino possa começar a ter livre curso em seu coração
e vida. Então sua mente, resgatada dos trabalhos em excesso exaustivos e
das fantasias ilusórias, estará em condições de refletir com entendimento
Marcos (William Hendriksen) 213
sobre passagens tão preciosas como Pv. 30:7–9; Is. 26:3; Mt. 6:19–34;
19:23, 24; Lc. 12:6, 7, 13–34; 1Tm. 6:6–10; e Hb. 13:5, 6.

Corações sensíveis
20. Os que foram semeados em boa terra são aqueles que ouvem a
palavra e a recebem, frutificando a trinta, a sessenta e a cem por um.
Ao chegar a esta gente, a mensagem do reino cai em boa terra, a
classe de terra que não é nem dura, nem superficial nem apreensiva, mas
é receptiva e fértil.
Esta gente ouve porque quer ouvir. Meditam no que ouvem porque
têm confiança em que fala. E assim chegam a alcançar um certo grau de
entendimento genuíno. Levam a mensagem à prática e dão fruto: a
conversão, a fé, o amor, a alegria, a paz, a paciência, etc.
Até o Antigo Testamento sublinha a importância do fruto espiritual
como sinal do verdadeiro crente: Sl 1:1–3; 92:14; 104:13. Esta linha de
pensamento continua nos Evangelhos (Mt. 3:10; 7:17–20; 12:33–35; Lc.
3:8; Jo. 15) e no resto do Novo Testamento (At. 2:38; 16:31; Rm. 7:4; Gl
5:22; Ef. 5:9; Fp. 4:17; Cl. 1:6; Hb. 12:11; 13:15; Tg. 3:17, 18).
Não obstante, nem todos os cristãos experimentam o mesmo grau
de frutificação. Nem todos são igualmente penitentes, fiéis, leais,
valorosos, humildes, etc.; daí que nem todos sejam igualmente eficazes
em conduzir outros a Cristo. No caso de alguns crentes, a semente (a
mensagem) rende trinta por um, quer dizer, trinta vezes mais do que foi
semeado; em alguns sessenta, e em outros cem. Mateus tem a ordem
oposta (100, 60, 30). Quanto à fiel reprodução da mensagem de Cristo,
cada evangelista emprega seu próprio estilo; mas não há nenhuma
diferença essencial.
Considere-se Timóteo, Tito e Paulo: três eminentes homens de
Deus, nos quais a semente do evangelho tinha brotado e produzido fruto.
Depois de sua conversão, os três tiveram em comum uma invariável
lealdade à causa do evangelho, uma disposição para realizar as tarefas
difíceis do reino, e um amor pelas almas; um amor que brotava do amor
Marcos (William Hendriksen) 214
a Deus, o próprio Deus que os amou primeiro. Não obstante, havia
diferenças entre os três. Timóteo — um excelente cristão, por certo! (Fp.
2:19–23) — precisava ser estimulado. Era de caráter tímido. Aos
coríntios foi dito que quando Timóteo chegasse, se preocupassem de que
estivesse entre eles “sem temor” (1Co. 16:10; e veja-se também 2Tm.
2:22a). Tito, por outro lado, é homem que não somente pode receber
ordens, mas também pode agir por decisão própria (2Co. 8:16, 17). É um
homem de recursos, de iniciativa pessoal para uma boa causa. Achamos
nele algo da agressividade de Paulo. Entretanto, nem Timóteo nem Tito
se comparam com Paulo. Qualquer pessoa que ler 2 Coríntios 11:23–28
se convencerá disso. Paulo escreveu as palavras de 1 Coríntios 15:10
sem exagerar, atribuindo toda a glória a Deus.
A comparação que aqui fazemos entre Timóteo, Tito e Paulo não é
para insinuar que Timóteo produziu só trinta por um, Tito exatamente
sessenta, e Paulo cem. Só tem o propósito de dar uma certa evidência em
favor da verdade fundamental de que esta parte final da parábola deixa
estabelecido: que existem diferenças mesmo entre aqueles cuja vida é
espiritualmente frutífera. Que cada um faça o melhor que puder para
produzir muito fruto (Jo. 15:5). Mas sempre é preciso lembrar que, em
última instância, todo bom pensamento, disposição, palavra, ato, e
caráter têm sua fonte em Deus e em Sua soberana graça (Rm. 11:36;
1Co. 4:7), embora a parábola também sublinha que a disposição para
ouvir corretamente o evangelho depende da condição do coração
daqueles que recebem a Palavra, estabelecendo-se assim a
responsabilidade humana. Veja-se também a explicação da parábola da
semente que cresce em segredo (Mc. 4:26–29).

Mc. 4:21–25 - Diversas declarações de Jesus


Para o v. 21 cf. Mt. 5:15; Lc. 8:16; 11:33.
Para o v. 22 cf. Mt. 10:26; Lc. 8:17; 12:2
Para o v. 23 cf. Mt. 11:15; 13:9, 43; Mr. 4:9; Lc. 8:8, 18a; 14:35.
Para o v. 24a veja-se mais acima, sobre o v. 23.
Marcos (William Hendriksen) 215
Para o v. 24b cf. Mt. 7:2; Lc. 6:38.
Para o v. 25 cf. Mt. 13:12; 25:29; Lc. 8:18b; 19:26.

Neste parágrafo encontram-se vários ditos de Jesus que, segundo se


indica mais acima, também se consignam em outros lugares. É natural
pensar que Jesus repetisse algumas de suas famosas palavras.
A relação entre o versículo 21 e o precedente não é muito clara. O
mesmo sucede também com a relação dos versículos deste novo
parágrafo (21–25).
Isto não significa que as declarações são aqui agrupadas de maneira
artificial. Mas embora faremos um intento para mostrar sua coerência
interna, quer dizer, as relações de pensamento entre os diversos
versículos, deve-se admitir desde agora que não se pode alcançar uma
certeza absoluta em tal empenho.
21. Também lhes disse: Vem, porventura, a candeia para ser
posta debaixo do alqueire ou da cama? Não vem, antes, para ser
colocada no velador?
“Também lhes disse”. A quem? Provavelmente ao mesmo grupo do
versículo 10, e não ao público em geral. Compare o “também lhes disse”
dos versículos 21 e 24 com o “Disse ainda” do versículo 26 e “Disse
mais” do versículo 30. No segundo caso, Marcos volta para a ocasião em
que o Senhor falava desde um barco às multidões.
Na parábola do semeador, Jesus tinha sublinhado a necessidade de
dar fruto, que é o resultado da semente que cai em boa terra, quer dizer,
da palavra que penetra em corações bem preparados. Os corações férteis
se assemelham a lâmpadas luminosas. Se esta é a ideia correta quanto à
relação dos parágrafos, então Jesus está sublinhando a mesma verdade
fundamental por meio de uma figura diferente. O que faz é ensinar que o
coração e a vida devem ser frutíferos, que devem brilhar de maneira tal
que beneficiem a outros, para a glória de Deus.
Os Evangelhos nos informam das condições prevalecentes naquela
época, segundo as quais a conclusão que parece aqui a mais justificada é
Marcos (William Hendriksen) 216
que a ideia fundamental toma agora um rumo ligeiramente distinto. O
que é que faz com que o coração e a vida brilhem? Resposta: A palavra
de Deus fazendo valer sua influência dentro desses corações e vidas.
Essa palavra está simbolizada pela semente (Mt. 13:19; Mc. 4:14; Lc.
8:11); também por uma lâmpada (Sl 119:105). Essa palavra e essa
lâmpada era o que os rabinos estavam escondendo sob uma espessa
nuvem de tradições humanas (Mt. 15:3; cap. 23) e ações hipócritas (Mt.
6:1–18; 23:15). Essa palavra deve manifestar seu poder mais uma vez. A
lâmpada deve brilhar com toda a antiga pureza de sua luz, a fim de ser
uma bênção aos homens (veja-se Mt. 5:15, 16; Lc. 8:16b). Esta
interpretação ilumina o que Jesus diz sobre as consequências de pôr a
lâmpada debaixo do alqueire ou da cama, em lugar de sobre o castiçal.
Observe-se que se usa o artigo (“a ou “o”) diante do nome de cada
objeto mencionado. Isto não é raro, porque: a. a lâmpada, o alqueire, a
cama, e o castiçal eram objetos familiares de um lar galileu típico; b. nos
lares dos pobres possivelmente só havia uma lâmpada, só um alqueire,
etc.
Quanto à lâmpada, imagine um objeto de olaria à maneira de pires
fundo, que a um lado tem uma manga e que, no outro lado, leva uma
extensão como uma boquilha com uma abertura para a mecha. Havia
dois buracos em sua parte superior, um para pôr o azeite, o outro para o
ar. Claro que nem todas as lâmpadas eram iguais. Quanto aos diferentes
tipos, consulte-se uma enciclopédia; melhor ainda, visite-se algum
museu.
A pergunta que Jesus faz é dupla. Tanto o grego como a tradução 149
que apresentamos deixa claro que a primeira parte requer a resposta
“Não”; a segunda exige um “Sim” como resposta. Quem pensaria jamais

149
Veja-se também NAS, Williams, Beck, Lenski. Todas são excelentes. Algumas das outras não são
tão exatas ou não tão claras sobre esta passagem. Não fazem ressaltar tão claramente como o faz o
grego, que μή (aqui μήτι) requer a resposta “Não”, e que οὑ (aqui οὑχ) antecipa um “Sim”.
Marcos (William Hendriksen) 217
150
em acender uma lâmpada e logo pô-la debaixo de um alqueire? Ou
quem a poria debaixo da “cama”, que era uma espécie de colchonete que
quando não se usava era enrolado. Fazer tal coisa com uma lâmpada
seria absurdo. Uma lâmpada acesa deve estar no castiçal! Este castiçal
era em geral um objeto muito simples. Podia ser um suporte fixado na
coluna do centro da habitação (a coluna que sustentava a grande viga
transversal do teto plano), ou simplesmente uma pedra sobressalente da
parte interior da parede, ou uma parte de metal colocado visivelmente
para esse fim.
O sentido é, naturalmente, que os crentes também devem deixar sua
lâmpada brilhar. Devem deixar que a palavra de Deus tenha pleno
controle sobre sua própria vida: seu ser interior, suas disposições,
pensamentos, palavras, ensinos, escritos, e atos. Nunca devem calar-se,
mas devem testificar (veja-se Sl 66:16; 107:2; Mt. 5:16; 2Tm. 4:2; 1Jo.
2:12–14). Deus dispôs que o mistério revelado a Seus filhos devia ser
manifestado. Está escondido só para os que persistem em rejeitar sua
chamada. Assim, conquanto o ensino de Marcos 4:11, 12 não se
contradiz, agora a ênfase recai no que deve suceder em primeiro termo: o
semeador deve semear a semente; a lâmpada deve ser posta onde possa
brilhar; o mistério deve manifestar-se, não se deve encobrir.
Mas, seja manifestado ou encoberto, qualquer coisa que se faça com
ele, não passará desapercebida:
22. Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se
faz escondido, senão para ser revelado.
Os homens buscam encobrir as coisas, mas nisto sempre
fracassarão, porque Deus exibe tudo à luz. Um dia, tudo o que agora está
oculto será revelado (veja-se Ec. 12:14; Mt. 12:36; 13:43; 16:27; Lc.
8:17; 12:2; Rm. 2:6; Cl. 3:3, 4; Ap. 2:23; 20:12, 13).

150
Grego μόδιος do Latim modius, uma medida de capacidade = 16 sectarii, mais ou menos 8,75
litros.
Marcos (William Hendriksen) 218
Agora, esta é uma verdade que é com frequência passada por alto.
Os homens pensam que podem sair triunfantes com seus maus
pensamentos, planos, palavras e ações. Entretanto, Deus trará tudo isso à
luz. Não nos devemos surpreender de que, segundo o relato de Marcos,
Jesus prossiga dizendo:
23. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.
Este versículo é basicamente igual ao versículo 9, embora sua
forma varie levemente (v. 9: “Quem tem”; v. 23 “Se alguém tem”).
Portanto, veja-se o comentário ao v. 9.
Logo se acrescenta outro pensamento, embora muito relacionado:
24. Então, lhes disse: Atentai no que ouvis.
Os Evangelhos sublinham três coisas a respeito da responsabilidade
que se deve ouvir, e aqui (vv. 21–25) estas três coisas se enfatizam em
relação aos seguidores de Cristo:
a. Que devem escutar ou ouvir (Mc. 4:9, 23), destacando o ouvir em
oposição a recusar-se a ouvir;
b. O que devem ouvir (v. 24); o que devem ouvir em oposição ao
que não devem ouvir; e
c. Como devem ouvir (Lc. 8:18); atentamente, judiciosamente, em
oposição a como não se deve ouvir.
Com relação a “cuidado”, ou “ponham atenção”, “estejam em
guarda”, veja-se também Mc. 13:33; Lc. 8:18. Se uma pessoa tender a
fixar sua atenção no que não deveria ouvir — por exemplo, intrigas
maliciosas — sentir-se-á inclinada a julgar e a condenar a outros
temerariamente. Medirá equivocadamente as pessoas, condenando-as.
Deve ter em mente que: Com a medida com que tiverdes medido vos
medirão também, … Se a pessoa que se preocupa em medir é amável,
seu juízo será favorável, ela se deleitará em reconhecer méritos onde os
encontrar, e se alegrará em outorgar favores (veja-se Lc. 6:38). Por outro
lado, se tiver a atitude contrária, facilmente cairá no costume de julgar
severamente, sem bondade (veja-se Mt. 7:1–5; especialmente v. 2). Seja
como for, a medida que usar será a que outros usarão com ela. Se der
Marcos (William Hendriksen) 219
generosamente, receberá com mais generosidade: e ainda se vos
acrescentará. Isto nos lembra Mateus 6:33, onde o original usa o mesmo
verbo, 151 e tal como aqui, em sentido favorável: “todas as coisas lhes
serão acrescentadas”, quer dizer, “eles serão outorgadas como um dom
extra”.
Os dons de Deus sempre são muito generosos. Continuamente está
acrescentando dom sobre dom, favor sobre favor, bênção sobre bênção.
Não apenas dá “de” Suas riquezas — como o faria um multimilionário
ao dar umas moedas à beneficência — mas sim “conforme a” Suas
riquezas, as riquezas de Sua graça (Ef. 1:7). Deus comunica “graça sobre
graça” (Jo. 1:16). Não só perdoa, mas também perdoa abundantemente
(Is. 55:7). Deleita-se na misericórdia (Mq. 7:18). “E será que, antes que
clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Is.
65:24; cf. Dn. 9:20–23). Quando ama, ama o mundo; e quando dá, dá o
Seu Filho unigênito (Jo. 3:16). Aquele Filho, além disso, não só
intercede por Seu povo, mas também está “vivendo sempre para
interceder por eles” (Hb. 7:25). Na realidade, “Ele dá, e dá, e volta a
dar”.
“Mais ainda lhes será dado”. Quando o servo de Abraão pediu de
beber a Rebeca, ela não só apagou sua sede mas também, além disso,
deu de beber aos camelos (Gn. 24:13, 14, 18–20, 42–46).
Isto é só um pálido reflexo do que Deus, em Cristo, está fazendo
constantemente:
Não só outorga a Salomão seu desejo de sabedoria, mas também
além disso, promete-lhe riquezas e longos dias (1Rs. 3:9–15).
Não só acede à petição do centurião de curar a seu servo, mas
também além disso, pronuncia uma bênção sobre ele (Mt. 8:5–13).
Não só responde à súplica de Jairo, devolvendo a vida à sua filha,
mas também além disso, preocupa-se de que a filha receba algo de comer
(Mc. 5:21–24, 43).

151
προστεθήσεται, fut. indic. pas. 3ra. pes. sing. de προστίθημι.
Marcos (William Hendriksen) 220
O Cristo ressuscitado não só cumpre Sua promessa de encontrar-se
com os discípulos na Galileia (Mt. 26:32; 28:7, 16–20), mas além disso,
sai-lhes ao encontro e os abençoa estando ainda em Jerusalém (Lc.
24:33–48).
Não só perdoa ao pecador — como um governante pudesse
outorgar perdão — mas além disso o adota como filho e lhe concede paz,
santidade, alegria, segurança, liberdade de acesso, e o torna mais que
vencedor (Rm. 5–8).
Esta interpretação da cláusula final do versículo 24 vê-se apoiada
pelo que imediatamente segue no versículo
25. Pois ao que tem se lhe dará; e, ao que não tem, até o que tem
lhe será tirado.
Nos assuntos espirituais é impossível permanecer imóvel e quieto.
Uma pessoa ganha ou perde, avança ou retrocede. Ao que tem, ser-lhe-á
dado. Os discípulos (com exceção de Judas Iscariotes) haviam “aceito a
Jesus”. Referindo-se a eles, mais adiante Jesus diria ao Pai: “guardaram
sua palavra” (Jo. 17:6) e “Não são do mundo” (Mc. 17:16). É verdade
que esta fé era acompanhada de muita fraqueza, erros, e imperfeições.
Mas o começo já foi feito. Portanto, conforme a norma do céu, foi-lhes
assegurado que seguiriam progredindo, avançando em conhecimento,
amor, santidade, alegria, etc. e em todas as bênçãos do reino do céu,
porque a salvação é uma corrente cada vez mais profunda (Ez. 47:1–5).
Toda bênção é uma garantia de maior bênção futura, “Porque de sua
plenitude tomamos” (Jo. 1:16). A teoria segundo a qual Jesus (ou
Marcos) referia-se só a um aumento de conhecimento ou talvez de
percepção, é improvável. Certamente, esse discernimento está incluído,
porém nada existe no contexto que limite rigidamente as bênçãos que
aqui se prometem.
Por outro lado, ao que não tem, ser-lhe-á tirada inclusive a
aparência do conhecimento, desse entendimento superficial dos assuntos
espirituais, que em algum momento tivesse tido. Não temos uma
analogia disto na esfera do conhecimento, por baixo do nível
Marcos (William Hendriksen) 221
estritamente espiritual? Por exemplo, se uma pessoa aprender um pouco
de música, para tocar algumas melodias singelas, mas realmente não o
bastante para poder dizer, “domino este ou aquele instrumento”, e logo
deixa totalmente a prática, logo descobrirá que a pouca destreza que num
tempo teve, desvaneceu-se. Assim também no espiritual, o homem que
recusa fazer devido uso de seu único talento, até isto perderá (Mt. 25:24–
30).

Mc. 4:26–29 - Parábola da semente que cresce em segredo

Pelos versículos 33, 34 (cf. Mt. 13:31, 34) parece que quando Jesus
pronunciou as duas parábolas consignadas em Marcos 4:26–32 (como
também a de 4:3–9), estava falando com as multidões. Quer dizer,
Marcos volta aqui para a situação existente quando Jesus falou de dentro
de um barco às pessoas (v. 1).
Entre a parábola do semeador (a que tanta proeminência dá-se nos
sinóticos e que Marcos também relata antes que as demais, cf. vv. 3–9), e
a da semente que cresce em segredo (que se acha só em Marcos) 152 há
uma estreita relação. A primeira sublinha a responsabilidade humana: a
semente não pode brotar, crescer e dar fruto se não cair em boa terra.
Significado: a palavra ou mensagem de Deus, o evangelho, produz fruto

152
Alguns creem que tanto a parábola da semente que cresce em segredo como a parábola do joio, têm
uma só fonte comum e que foram originalmente uma. Esta teoria se baseia na circunstância de que
várias palavras são utilizadas em ambas as parábolas:
Marcos 4 Mateo 13
καθεύδω v. 27 v. 25
βλαστάω,-άνω v. 27 v. 26
πρῶτον v. 28 v. 30
χόρτος v. 28 v. 26
σῖτος v. 28 v. 30
καρπός v. 29 v. 26
θερισμός v. 29 v. 30
Mas pelo fato de que as duas parábolas estão baseadas no que sucede ou pode suceder ao semear-se os
campos, é natural que exista certo grau de semelhança verbal. Além disso, as histórias em si mesmas
são diferentes, e assim também as razões para relatá-las. A teoria é, portanto, inaceitável.
Marcos (William Hendriksen) 222
só quando o coração responde favoravelmente. Este é um aspecto da
verdade que não se deve descuidar jamais. Entretanto, às vezes sucede.
Por exemplo, um pregador pergunta à sua congregação, “O que pode
fazer uma pessoa para ser salva?” e logo cria um ambiente de incerteza
guardando silêncio alguns instantes … depois do qual prossegue, “eu
lhes direi isso: não pode fazer nada absolutamente! Deus faz tudo”. Não
deveria também mostrar a outro lado da moeda? Quando o carcereiro
perguntou, “Senhores, o que devo fazer para ser salvo?”, Paulo e Silas
não disseram, “Você não pode fazer nada”. O que disseram foi, “Crê no
Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At. 16:30, 31).
É verdade, não obstante, que o homem por si mesmo nada pode
fazer. Só mediante o poder que Deus comunica, o homem é capaz de
voltar-se a Ele com verdadeira fé. Não pode converter-se a menos que
em primeiro lugar seja regenerado (Jo. 3:3, 5; veja-se também Jr. 31:18;
1Co. 4:7; Ef. 2:8; Fp. 2:12, 13; 4:13). A presente parábola põe todo o
acento neste aspecto da verdade, ou seja, na soberania de Deus. Ensina
que assim como é Deus somente, e não o agricultor, quem entende
completamente e é, na realidade, o Autor do crescimento físico, assim
também só Deus, não o homem, entende perfeitamente e é o Autor do
crescimento espiritual, e do estabelecimento e progresso do reino de
Deus no coração, vida, e em outras esferas.
É por Sua vontade que a semente espiritual, a palavra ou mensagem
do evangelho, estabelece sua crescente e poderosa influência no coração
dos homens e assim também na sociedade em geral. Que consolo é este!
pois agora esperamos com paciência uma colheita cuja chegada é segura.
A vitória está assegurada: o plano de Deus deve ser, e será levado a
cabo.
Em consequência, a parábola deixa claro três ideias. Tão
estreitamente unidas estão que as três na realidade formam uma unidade.
São como segue:
1. Para o homem o crescimento é um mistério (vv. 26, 27).
2. A semente revela seu poder (v. 28).
Marcos (William Hendriksen) 223
3. A colheita significa vitória (v. 29).
Assim ocorre no reino da natureza; e assim também sucede no reino
da graça, porque o crescimento do reino é também um mistério. A
palavra do reino (cf. Mt. 13:19; 24:14) revela seu poder, que virá a ser
evidente no dia da colheita, o juízo final, que virá indubitavelmente no
tempo estabelecido.

1. Para o homem o crescimento é um mistério


26, 27. Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem
lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de
dia, e a semente germinasse e crescesse, 153 não sabendo ele como.
Jesus descreve outra vez “o reino de Deus” (veja-se sobre Mc.
1:15). Diz que o reinado de Deus sobre o coração e a vida, com a
conseguinte influência em todas as esferas, é misterioso quanto ao seu
crescimento. Com este reinado ocorre o mesmo que sucede com um
homem que lança semente num campo. Depois de lançar a semente à
terra, chega o entardecer. Para os judeus isto significava o começo de um
novo dia. Pouco depois e cansado pelo trabalho do dia, o homem vai
dormir, e segue dormindo até o amanhecer. Pela manhã ele se levanta.
Quanto à semente que tinha semeado no dia anterior, entende
perfeitamente que nada pode fazer a respeito. Não tem controle sobre o
processo de germinação e de crescimento. Quando a noite cai mais uma
vez, de novo vai dormir. Outra vez se levanta pela manhã. Esta rotina de
dormir e levantar-se, dormir e levantar-se, noite e dia, dia e noite, segue,
segue e segue.
Enquanto isso a semente está germinando e crescendo. O agricultor
não sabe exatamente como se realiza este crescimento. Tampouco sabe o
químico nem o especialista agrícola mais douto. Nunca puderam
compreender com exatidão como é que a semente pode transformar um

153
No original, a disseminação ou espalhamento da semente contempla-se como se fosse um só ato:
daí que se use o aoristo subjuntivo. Mas para os verbos “dormir”, “levantar-se”, “brotar” e “crescer”,
usa-se o presente subjuntivo, visto que estas supostas ações são vistos como processos contínuos.
Marcos (William Hendriksen) 224
pouquinho de terra — diremos “morta”? — em uma célula viva, e não
em qualquer célula, mas em células precisamente semelhantes às da
planta de onde se originou a semente.
A única coisa que o agricultor pode fazer é confiar. É claro que ele
tem que enterrar a semente, arrancar a erva daninha, lavrar a terra,
fertilizá-la, e talvez fazer um canal para levar água ao seu campo. Todas
estas coisas são importantes. Mas não pode fazer com que a semente
germine e cresça. Quanto a isto, a única coisa que pode fazer é dormir
noite após noite, e levantar-se novamente cada dia. O resto tem que ficar
tudo a cargo da semente; na realidade a cargo dAquele que criou a
semente, que a entende totalmente e que a ativa. O agricultor deve
confiar e orar. Deve esperar pacientemente.
No plano espiritual isto também é válido. Com relação ao
estabelecimento e crescimento do reino de Deus, o “não posso” e o
“ignoro” são tão verdadeiros como o é com relação à germinação e
desenvolvimento da semente física. Com relação a “não posso” veja-se
1Co. 3:6, “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento”.
Quanto ao ignoro” veja-se Jo. 3:8, “O vento sopra onde quer, ouves a sua
voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é
nascido do Espírito”.

2. A semente manifesta seu poder


28. A terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a
espiga, 154 e, por fim, o grão cheio 155 na espiga.
“Por si mesma” (literalmente: “automaticamente”) significa “sem
causa visível”, e “sem a contribuição da intervenção humana”. Isto nos
lembra a porta da cidade que se abriu diante de Pedro “por si mesma”
(At. 12:10, o único outro caso no Novo Testamento onde aparece esta
palavra).

154
Ou: a cabeça.
155
Ou: o fruto.
Marcos (William Hendriksen) 225
O segredo do crescimento, por assim dizer, foi confiado à terra.
Entretanto, este termo “terra” por metonímia deve aqui significar “a
semente enterrada na terra”. A esta semente Deus confiou o segredo, de
modo que ela agora, digamos assim, “sabe” exatamente o que tem que
fazer-se, quando e como.
Quanto ao homem, se depois de alguns dias de ter semeado vai ao
campo para lançar um olhar, não verá sinal algum de vida. Mas depois
de certo tempo ao olhar novamente, ficará surpreso ao ver muito muitos
plantinhas onde antes não havia nada visível. Então exclama, “Que poder
oculto havia em coisas tão pequenas!”
Assim é também no que respeita ao reino, o reino de Deus. Um
pastor fiel espalha a semente ano após ano. Explica, descreve, convida,
exorta, consola, adverte, insiste, faz visitas pastorais. Apesar de tudo, no
princípio o esforço parece inútil. Mas de repente, as brisas do Senhor
começam a soprar sobre os campos (corações) de sua congregação (cf.
Ct. 4:16). A palavra mostra seu poder. Tinha estado ativa antes, mas os
resultados não tinham sido muito evidentes. Mas agora, homens e
mulheres, velhos e jovens, cultos e analfabetos, ricos e pobres,
confessam com júbilo sua fé e a manifestam em sua vida. O Espírito está
operando poderosamente, sempre com relação à palavra e o evangelho.
Os crentes têm paz e segurança de salvação em seus corações. Põem o
olhar no futuro rumo à herança reservada para eles no céu.
Mas isto de modo algum é tudo. Estas pessoas se sentem
agradecidas. Portanto, compreendem que em todo lugar todas as coisas
devem ser feitas se para a glória de seu maravilhoso Deus (Sl 150; Jo.
17:1–4; Rm. 11:36; 1Co. 6:20; 10:31; Jd. 24, 25; Ap. 4:11; 5:12–14;
19:1–8). Também se põem a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para
ser instrumentos nas mãos de Deus para a salvação de outros. Precioso
encargo! (Pv. 11:30; Dn. 12:3; Mt. 11:28–30; 23:37; 1Co. 9:22). Além
disso, preocupam-se com que a vontade de Deus, tal como é revelada em
Sua palavra, seja reconhecida e obedecida em toda esfera: família, igreja,
governo (a todo nível), educação, arte, ciência, literatura, comércio,
Marcos (William Hendriksen) 226
indústria, etc., etc. Assim é como o reino de Deus chega a estabelecer-se
na terra.
Observe-se o desenvolvimento indicado aqui: da folha, à espiga, até
chegar ao grão cheio na espiga. 156 No mundo vegetal esta transição de
uma etapa a outra é tão gradual que verdadeiramente pode considerar-se
imperceptível. Tratemos de precisar o momento em que a folha se
transforma em espiga, ou esta produz uma fileira de grãos. Não se pode
fazer. Não obstante, embora imperceptível, o desenvolvimento também é
inevitável. Sob condições normais ninguém pode deter o crescimento.
Quem não viu lugares onde uma planta faz aparecer sua cabeça entre as
pedras de uma calçada ou um muro e às vezes inclusive através de um
encanamento?
Algo muito parecido sucede no caso do reino dos céus. Talvez não
seja possível descrever claramente o crescimento em santidade que
ocorre de um dia para outro; não é possível descrever tal progresso do
reinado de Deus na vida das pessoas. Não obstante, a verdade é que “O
caminho de justos é como a luz da aurora, que vai aumentando até ser
dia perfeito” (Pv. 4:18). Isto não só é verdade com relação à vida do
crente individual; é-o também no que respeita à influência do evangelho.
156
No original estes três substantivos são acusativos de χόρτος, στάχυς e σῖτος. O primeiro, fácil de
associar com pasto, erva, no Novo Testamento refere-se frequentemente à erva verde do campo (Mc.
6:39; cf. Mt. 14:19; Jo. 6:10; veja-se também Ap. 8:7; 9:4). Pode, entretanto, também referir-se às
flores silvestres (Mt. 6:30; Lc. 12:28; Tg. 1:10, 11). O paralelismo em 1Rs. 1:24 faz ressaltar este
significado de maneira chamativa. Aqui em Mc. 4:28 (cf. Mt. 13:26) a palavra aponta ao grão em sua
etapa inicial, quase de erva; portanto, grão verde, folha. Nós mesmos falamos da família das
gramíneas como a mais importante entre todas as famílias de plantas e que incluem cereais tais como:
arroz, trigo, cevada, milho, centeio, e aveia.
O segundo destes três substantivos refere-se à espiga ou a cabeça do grão, quer dizer, à parte da
planta que carrega o grão (cf. Mc. 2:23; também Mt. 12:1; Lc. 6:1). A raiz stac poderia ser uma
modificação desta (cf. ἵστημι), o que a relacionaria com o inglês to stand (pôr-se ou estar de pé). Isto
descreveria as espigas ou espigas de milho de grão como direitas, sobressalentes, proeminentes. Mas
esta etimologia é muito incerta. Paulo incluiu o Estaquis de Roma entre aqueles crentes a quem enviou
saudações (Rm. 16:9).
O terceiro substantivo é trigo, e em geral refere-se aqui ao grão amadurecido em sua espiga ou vagem.
Em outra literatura grega indica também aquilo que se faz com base ao grão; portanto, o pão. A
sitología é a ciência da dietética e a nutrição.
Marcos (William Hendriksen) 227
Através dos séculos, pouco a pouco, o reino se espalha de uma nação a
outra, e de forma crescente faz com que seu poder seja sintido em todas
as esferas da vida (veja-se CNT sobre Mt. 24:14). Isto revela claramente
o poder da palavra (Is. 40:6–8; 1Pe. 1:24, 25; Hb. 4:12).

3. A colheita significa vitória


29. E, quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice,
porque é chegada a ceifa. 157
Logo que (a condição de) o fruto o permita, 158 significa quando o
tempo apropriado chegue; então, e não antes.
A descrição da colheita ou tempo de colheita — a palavra usada no
original pode significar ambos — é muito dramática. Logo, sem demora
alguma, o homem (do v. 26)159 mete a foice, porque o momento que
estava esperando por fim chegou. Os agricultores que esperarem muito,
sofrerão perdas.
Assim sucede na natureza, e assim também no plano espiritual. A
cena que se descreve é verdadeiramente apocalíptica (veja-se Jl. 3:13;

157
Ou: o tempo da ceifa chegou.
158
παραδοῖ, aor. subj. de παραδίδωμι. Este verbo não tem aqui seu significado comum de entregar ou
passar algo de alto a baixo (ou inclusive de encarregar, encomendar). Antes, neste caso significa
permitir, admitir. Algo similar, porém não idêntico é o uso que se faz deste verbo em 1Pe. 2:23
(“cedeu”, “encomendou-se”).
159
Um bom número de expositores creem que o sujeito de “mete a foice” refere-se a Cristo. Os
argumentos a favor poderiam ser: a. de acordo com a própria explicação que Jesus dá à parábola do
joio (Mt. 13:37), o semeador nessa história é o Filho do Homem. Assim que, por que não também
nesta parábola? b. Em Ap. 14:14–16, aquele que dirige a foice é também o Filho do Homem. Assim
que, por que não aqui também?
Por outro lado, deveriam considerar-se também os seguintes pontos: a. Mc. 4:26 não diz “o
semeador”, mas sim simplesmente “um homem”. b. O fato que Jesus descreva a Si mesmo como
dormindo noite após noite e levantando-se dia após dia, soa algo estranho; e que diga que Ele mesmo
não sabe como brota e cresce a semente parece, por dizer o mínimo, como se tivesse sido introuzido
nesta parábola um elemento alheio à ideia central.
Em consequência, creio que o melhor procedimento seria não atribuir a Cristo cada uma das coisas
que se diz deste “homem” nesta parábola. Isto deixa, então, lugar para crer que o Filho do Homem
descrito em Apocalipse 14:14–16 simboliza indubitavelmente a Cristo, o Juiz e Vencedor. E a ação
descrita nessa passagem é a mesma que se indica aqui em Marcos 4:29.
Marcos (William Hendriksen) 228
Ap. 14:14–16). A lição é: a vitória é segura; a colheita aproxima-se e
certamente chegará no momento exato estabelecido no plano eterno de
Deus. Então o reino de Deus será revelado em todo seu esplendor (Ap.
11:15; 17:14).
“Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o
lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as
primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes e fortalecei o
vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima” (Tg. 5:7, 8).

Mc. 4:30–32 – A parábola da semente de mostarda


Cf. Mt. 13:31, 32; Lc. 13:18, 19

Ao tratar o problema sinótico (CNT sobre Mateus, Introdução II,


A), assinalávamos que uma das razões pelas quais Mateus, Marcos e
Lucas são tão parecidos quanto a conteúdo, poderia ser que entre eles há
uma relação literária. Quer dizer, tanto Mateus como Lucas
provavelmente usaram o Evangelho de Marcos; e os três usaram as
primeiras notas de Mateus; Lucas talvez usou também o Evangelho de
Mateus (p. 53). Vimos também que uma das razões para que os três
sejam tão diferentes pôde ter sido que ao usar as fontes (tanto orais como
escritas), cada evangelista exerceu seu próprio critério, guiado pelo
Espírito, manifestando seu próprio caráter, cultura e ambiente geral, e
tudo isto com vista à realização de seu próprio plano e propósito
específico (p. 54).

Uma ilustração tanto da variedade como da unidade, acha-se na


parábola da semente de mostarda.

Mateo 13 Marcos 4
v. 31 v. 30
Marcos (William Hendriksen) 229
Outra parábola lhes propôs, dizendo: Disse mais: A que assemelharemos
o reino de Deus? Ou com que
parábola o apresentaremos?

31
O reino dos céus é semelhante a um É como um grão de mostarda, que,
grão de mostarda, que um homem quando semeado, é a menor de
tomou e plantou no seu campo; todas as sementes sobre a terra;

v. 32 v. 32
o qual é, na verdade, a menor mas, uma vez semeada, cresce e se
de todas as sementes, torna maior do que todas as hortaliças
e, crescida, é maior do que as e deita grandes ramos, a ponto de as
as hortaliças, e se faz árvore, de aves do céu poderem aninhar-se à
modo que as aves do céu vêm sua sombra.
aninhar-se nos seus ramos.

O que variedade de expressão! Não obstante, não há discrepância


alguma! E a semelhança é tão surpreendente como a variedade.
Lucas 13 também contém esta parábola, como segue:

v. 18
E dizia: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei?
v. 19
É semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta; e
cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos.

Aqui tampouco há discrepância nem conflito entre Lucas e os


outros. Damo-nos conta, além disso, da grande semelhança que há entre
Lucas 13:18 e Marcos 4:30. Por outro lado, Mateus 13:31a é totalmente
diferente. É possível que Lucas, embora retendo seu próprio estilo,
tivesse à mão o Evangelho de Marcos quando escreveu? São também
Marcos (William Hendriksen) 230
muito parecidos Lucas 13:19 e Mateus 13:31b, 32. Lucas assemelha-se a
Mateus muito mais que a Marcos. Acaso fazia uso do que Mateus tinha
escrito, talvez suas notas ou talvez inclusive seu Evangelho? Embora
assim fosse, sobressai o fato de que em meio de uma agradável variedade
de apresentação, há igualmente uma grata harmonia. Na seleção de suas
fontes, orais e escritas, como em tudo o que pertence aos seus escritos,
cada evangelista era guiado pelo Espírito Santo, embora empregasse o
estilo adequado a seu propósito.
Na parábola do semeador (vv. 3–9, 13–20), a ênfase é posta na
responsabilidade humana; na da semente que cresce em segredo (vv.
26–29), é realçada a soberania divina. Quando estas duas operam
juntamente — fazendo com que o homem esteja ocupado em sua própria
salvação porque Deus opera dentro dele (Fp. 2:12, 13) — o resultado é o
crescimento abundante, segundo se mostra na parábola da semente de
mostarda.
Por certo, esta ideia de crescimento, êxito e boa colheita já se pôs
de relevo nas parábolas precedentes (vejam-se vv. 8, 20, 28, 29). Mas há
duas diferenças. Aqui, na parábola da semente de mostarda, a. este fato
recebe toda a ênfase; e b. sublinha-se ainda mais o fato que de pequenos
começos chegam a produzir-se grandes resultados. A ideia central da
nova parábola é esta: o reino de Deus, por pequeno e insignificante que
pareça em seus começos, seguirá crescendo e chegará a ser
progressivamente uma bênção para todos os que entrem nele. 160

30. Disse mais: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com


que parábola o apresentaremos?

160
Tem se interpretado o texto como querendo dizer que o grão de mostarda é o próprio Jesus, ou que
Jesus escolheu esta semente para ilustrar o que é o reino por causa do sabor picante que tem, ou que o
jardim onde a semente foi plantada representa Israel. Todo este tipo de interpretações estranhas devem
descartar-se por não ter base, e por ser especulações caprichosas que têm pouco ou nada que ver com
o verdadeiro significado da parábola. Com isto não queremos negar que Cristo e o reino são coisas
inseparáveis (cf. Rm. 8:31–39; Ap. 17:14).
Marcos (William Hendriksen) 231
161
O que aqui temos é uma pergunta retórica para despertar o
interesse. Observe-se a surpreendente semelhança que há, quanto a
forma, com uma dupla pergunta similar que se acha em Isaías 40:18 e
com a de Lucas 7:31.
Não foi uma pergunta que Jesus suscitasse por achar-se numa
situação difícil, como se estivesse confuso sobre qual seria sua seguinte
ilustração quanto ao reino e seu crescimento. Era um recurso usado pelos
rabinos para despertar a atenção da concorrência. De tão extrema
importância era para o Senhor o surpreendente e maravilhoso tema do
reino e seu crescimento, que desejava que todos escutassem atentamente.
Seus endurecidos inimigos seguiriam endurecidos; para falar a verdade,
endurecer-se-iam ainda mais (v. 12), mas embora a lição lhes passou de
largo, seria salvificamente aproveitada por outros.
Sob a figura simbólica de uma semente de mostarda, a parábola
descreve em primeiro lugar a pequenez do reino no começo da nova
dispensação:
31. É como um grão de mostarda, que, quando semeado, é a
menor de todas as sementes sobre a terra.
Entre as sementes que se semeiam no jardim (Lc. 13:19), a de
mostarda era geralmente a menor. Por isso, usa-se proverbialmente para
indicar tudo o que em seus começos é muito miúdo (Mt. 17:20; Lc.
17:6). De igual modo, nos dias da peregrinação de Cristo sobre a terra, o
reino de Deus esteve representado por uma pequena companhia de
verdadeiros crentes. Comparado com toda a população do império
romano, ou com todos os que habitavam a Palestina naquele então, ou
até com as grandes multidões que seguiam a Jesus por razões egoístas, o
verdadeiro “reino” de Cristo (veja-se 1:15) era realmente insignificante a
olhos humanos. Além disso, seu prestígio imediato era pequeno. Parecia
um pequeno rebanho de ovelhas indefesas: “Não temais, pequeno
rebanho …” (Lc. 12:32). Seu pastor foi “desprezado e rejeitado pelos

161
ὁμοιώσωμεν y θῶμεν são aoristos subjuntivos deliberativos.
Marcos (William Hendriksen) 232
homens” (Is. 53:3). Era como uma simples pedra (Dn. 2:34; cf. também
Lc. 17:17; Jo. 6:66; At. 28:22; 1Co. 1:26; Ap. 3:8).
Não obstante, aquele “pequeno rebanho” terá que converter-se na
multidão que ninguém pode contar que vemos em Apocalipse 7:9. A
“pedra” estava predestinada a converter-se num monte tão grande que
encheria toda a terra (Dn. 2:35).
32. Mas [a semente], uma vez semeada, cresce e se torna maior
do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves
do céu poderem aninhar-se 162 à sua sombra.
O broto que aparece na semente de mostarda cresce cada vez mais
até chegar a ser um arbusto, que por sua vez cresce e chega a maior
altura que todas as demais plantas que brotam das sementes semeadas no
jardim. Finalmente, tem toda a aparência de uma árvore e, falando de
forma algo imprecisa, poderia dizer-se que é uma árvore. Marcos
interpreta corretamente as palavras de Cristo, dizendo que deita ramos
tão grandes que as aves do céu podem aninhar ou proteger-se à sua
sombra. Até hoje esta espécie cresce vigorosamente na Palestina.
Alcança até três metros, e às vezes até mesmo cinco. No outono, quando
os ramos ficam rígidos, os pássaros de várias espécies acham nelas
abrigo contra as tormentas, repouso para seu cansaço, e sombra contra o
calor do sol. 163
De maneira similar, o reino de Deus, uma vez estabelecido,
estende-se e segue estendendo-se. Quanto aos pássaros que acham
resguardo à sombra da árvore (cf. Ez. 17:22–24; Dn. 4:10, 21), não
indica isto que o reino chega a ser uma bênção para os homens de todo
clima, raça, e nação? Na verdade,

162
Ou: acampar, repousar, viver.
163
As aves também acham deliciosas e pequenas sementes negras que tiram da vagem, mas este
detalhe não se inclui na parábola. Quanto a uma descrição muito interessante da ação dos pássaros
com relação à semente de mostarda, veja-se A. Pormelee, All the Birds of the Bible (Nova York,
1959), p. 250.
Marcos (William Hendriksen) 233
“Em torno do trono do Deus de Abraão
Milhares de filhos agora já estão”. 164
Anne H. Shepherd (Trad. adaptada)

Transcorridos quarenta anos depois da morte de Cristo, o evangelho


tinha alcançado todos os grandes centros culturais do mundo romano
conhecido, e além disso tinha chegado a muitos outros lugares afastados.
Desde então foi estendendo-se, ganhando homens de todas as raças, e
incluindo todas as esferas da vida. Assim sucede também hoje. E assim,
“De triunfo em triunfo, guiará as suas hostes”.
Portanto, para os que a escutaram, esta parábola diz: “Tenham
paciência, exerçam sua fé, perseverem na oração, e sigam trabalhando. O
programa de Deus não pode fracassar”. O mesmo diz aos que vieram
depois. Hoje ela está dizendo com maior força ainda, porque esta história
ilustrativa é na realidade uma profecia, e esta profecia já se cumpriu em
parte! Quanto ao relacionado com seu cumprimento veja-se CNT sobre
Mateus 24:14.
De humildes começos vieram grandes resultados (veja-se Sl.
118:22, 23; Is. 1:8, 9; 11:1ss.; 53:2, 3, 10–12; Ez. 17:22–24; Zc. 4:10). O
domínio da graça de Cristo, por muito desprezado que seja a princípio, e
por muito insignificante que pareça com os olhos humanos, segue para
frente “vencendo e para vencer” (Ap. 6:1, 2; 17:14). Esse reino se
estabelecerá de maneira cada vez mais extensa e firme. Fá-lo-á porque é
o reino de Deus!
O que aqui temos, então, é uma surpreendente ilustração dos versos:
“Do arroio surge o rio caudaloso,
da bolota, um carvalho muito frondoso”.
David Everet — Lines Written for a School Declamation.
(adaptação)

164
Uma ilustração chamativa acha-se em W. Barclay, op. cit., pp. 108–110.
Marcos (William Hendriksen) 234
Em tudo isto há uma importante lição implícita: Bem-aventurado
aquele que toma parte ativa em promover o crescimento do reino;
começando sempre por nossa casa (Mc. 5:19), mas sem nunca esquecer-
se de todo o mundo” (Mc. 16:15).

Mc. 4:33, 34 - O uso que Cristo faz das parábolas


Cf. Mt. 13:34, 35

33. E com muitas parábolas semelhantes lhes expunha a


palavra, conforme o permitia a capacidade dos ouvintes. Marcos nos
diz aqui que estas três parábolas são só uns exemplos de muitas que o
Senhor pronunciou. A tal ponto alcançou os Seus ouvintes por meio de
suas parábolas, que elas atraíram e mantiveram a atenção da multidão,
embora ainda nem todos as compreendiam bem. Isto está em harmonia
com o proferido nos versículos 11, 12.
34. E sem parábolas não lhes falava; … Isto significa
provavelmente que cada vez que Jesus falava com a multidão incluía em
Seu discurso uma parábola, ou inclusive mais de uma. Prossegue: tudo,
porém, explicava em particular aos seus próprios discípulos. O que
se diz aqui está totalmente em harmonia com o versículo 10 (veja-se
também Mt. 13:10, 36).
Não nos surpreende que este evangelista consigne um número
menor de parábolas que Mateus e Lucas. Segundo se indicou antes —
veja-se II e IV da Introdução — Marcos escrevia aos romanos, gente a
quem interessava a ação, o poder, a conquista. Por conseguinte,
descreve a Cristo como Rei ativo, enérgico, veloz na ação, Conquistador,
Vencedor sobre as forças destrutivas da natureza, sobre as enfermidades,
os demônios, a morte, e as trevas morais e espirituais, o Único e
exclusivo Libertador. Assim que, depois de relatar estas três parábolas,
Marcos agora se dirige rapidamente ao relato de uma ação que inspira
temor reverente.
Marcos (William Hendriksen) 235
Mc. 4:35–41 - Jesus acalma uma tempestade
Cf. Mt. 8:18, 23–27; Lc. 8:22–25

Ao combinar os três relatos obtemos a seguinte colação, na qual


indicamos em itálico o que só se encontra em Marcos. Estas diferenças,
graficamente ressaltadas, pelo que não se encontra em Mateus nem em
Lucas, confirmam a teoria de que Marcos ouviu o relato de uma
testemunha ocular, ou seja, de Pedro:
Ao entardecer (de um dia cheio de atividade, Mc. 4:1ss.), Jesus
ordenou aos Seus discípulos que fossem com Ele à margem oposta (a
oriental) do mar da Galileia. De modo que, deixando atrás a multidão,
levaram-nO no barco tal como estava. Havia outros barcos com ele.
Enquanto navegavam ele pegou no sono (Lc. 8:23a).
Desencadeou-se uma violenta tempestade, de modo que as ondas
alagavam o barco, e os homens estavam em perigo. Mas ele estava na
popa, dormindo sobre o travesseiro.
Eles despertaram e lhe disseram, Mestre “não te importa que
perecemos?” 165
Ele lhes disse, “Por que estais aterrorizados, ó homens de pequena
fé?” (Mt. 8:26).
Jesus levantou-se e repreendeu o vento e o mar (as ondas furiosas).
E disse ao mar, “Acalma-te, emudece!” Logo o vento se acalmou e as
rugidores cheire cessaram. Sobreveio uma grande calma.
Perguntou a seus discípulos, “Por que tendes medo? ¿ Como é que
não tendes fé?” “Onde está a vossa fé?” (Lc. 8:25).
Os homens estavam espantados, e diziam uns aos outros, “Quem —
ou: Que classe de pessoa — é esta, que até o vento e o mar lhe
obedecem?” … “que manda até aos ventos e às águas, e lhe obedecem?”

165
ἀπολλύμεθα. Os três evangelistas relatam o grito histérico, “perecemos”. Em Marcos, entretanto, a
expressão ocorre num contexto de recriminação.
Marcos (William Hendriksen) 236
Se omitirmos Mateus 8:26, e nos limitamos ao relato de Marcos,
temos seis parágrafos, ou seja:
Tema: Uma tempestade acalmada. Esboço: 1. embarcar ao
entardecer, 2. uma furiosa tempestade, 3. um clamor frenético, 4. um
milagre assombroso, 5. uma recriminação carinhosa, 6. um profundo
efeito.

1. Embarcar ao entardecer
35, 36. Naquele dia, sendo já tarde, 166 disse-lhes Jesus:
Passemos para a outra margem. 167 E eles, despedindo a multidão, o
levaram assim como estava, no barco; e outros barcos o seguiam.
Tinha sido um dia muito ocupado para Jesus. De um barco afastado
da praia, tinha estado falando em parábolas às multidões. Depois “em
casa” (ou: numa casa) havia comunicado ensino particular aos Seus
discípulos. Não é de surpreender-se que ao entardecer estivesse cansado
e esgotado.
De modo que volta para a praia, e diz aos Seus discípulos,
“Passemos para a outra margem”. Queria cruzar do agitado lado
ocidental (de Cafarnaum), ao lado oriental ou “país dos gadarenos”
(veja-se Mc. 5:1). Visto que não só era totalmente divino, mas também
totalmente humano, necessitava descanso. Devia afastar-se de toda
aquela gente: não somente lotavam a praia; rodeavam-nO inclusive com
outros barcos!
Marcos afirma que os discípulos levaram Jesus (com eles) no barco.
Ele tomou a iniciativa dando a ordem, “Passemos para a outra margem
…”. Mas os discípulos eram os marinheiros, os navegantes. 168 De modo

166
ὀψίας γενομένης, genitivo absoluto.
167
O verbo διέλθωμεν é um aor. subj. 1ª. pes. pl. hortativo de διέρχομαι.
168
Swete (op. cit., p. 88) opina que Mt. 8:23 e Lc. 8:22 “passaram por alto” o fato de que Jesus já se
achava a bordo (Mc. 4:1), mas esta opinião só se poderia sustentar se não for levado em conta que
segundo Mt. 13:36 (cf. Mc. 4:34b) Jesus tinha abandonado o barco e entrado na casa antes de
reembarcar.
Marcos (William Hendriksen) 237
que tomaram a Jesus “tal como estava” (cf. 2Rs. 7:7), cansado, esgotado,
necessitado de descanso e sono (veja-se v. 38, e cf. Lc. 8:23a).

2. Uma furiosa tempestade


37, 38. Ora, levantou-se grande temporal de vento, 169 e as ondas se
arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-
se de água. E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro.
No original, Marcos e Lucas explicam este distúrbio atmosférico
falando de um lailaps, isto é, um redemoinho (cf. Jó 38:1; Jo. 1:4) ou
uma tormenta que desata furiosas rajadas, uma temível borrasca. Mateus
o chama “uma grande sacudida” ou “maremoto”. Deve ter sido um
fenômeno violento, uma rugidora tempestade. Repentinamente este
lailaps se precipitou sobre o lago. 170
O mar da Galileia está situado a norte do vale do Jordão. Tem uns
vinte quilômetros de longitude por uns doze quilômetros de largura. Fica
a mais ou menos 210 metros sob o nível do Mediterrâneo. Seu leito é
uma depressão rodeada de colinas, especialmente no lado este com seus
escarpados verticais. É fácil de entender que quando as frias correntes de
ar se precipitam do monte Hermom (3000 metros), ou de outras regiões,
por entre as levantadas colinas e se chocam com o ar quente da concha
do lago, o ataque é extremamente impetuoso. Os fortes ventos açoitam o
mar com fúria, levantando grandes ondas que investem contra qualquer
barco que se encontre em suas águas. Neste caso, o pequeno barco de
pescadores, acossado pelas elevadas ondas, estava alagando e era
brinquedo dos enfurecidos elementos.
Ventos rugidores, ondas furiosas.… “Mas ele (Jesus) estava na
popa, sobre o travesseiro, dormindo”. Assim diz o original, colocando a
palavra “dormindo” no final da oração, criando assim um efeito
dramático, um contraste muito chamativo. A forma verbal “(estava) …

169
Ou: temível borrasca, redemoinho, furiosa tempestade.
170
Note-se a aliteração em Lc. 8:23: λαῖλαψ … λίμνην. E ainda mais importante é não passar por alto
κατέβη, “precipitou-se, caiu”.
Marcos (William Hendriksen) 238
dormindo” descreve a Jesus dormindo tranquilamente. Lucas 8:23 dá a
impressão de que Jesus pôs-se a dormir logo que (ou quase logo que) o
barco abandonou a praia. Logo se achava dormindo profundamente,
mostrando que devia estar cansadísimo, e dando a entender também que
Sua confiança no Pai celestial — Seu próprio Pai — nunca falhava. Nem
o rugir dos ventos, nem o embate e fragor das ondas, nem mesmo o girar
e descer do barco, que rapidamente fazia água, foram capazes de
despertá-Lo.
Não devemos imaginar que aquele dormir era como se a cabeça de
Jesus estivesse apoiada precisamente numa travesseiro muito suave.
Observe-se: “sobre o travesseiro”, não “sobre um travesseiro”. Talvez
havia uma “almofada” pertencente ao barco, a único a bordo. Ou
também pôde ter sido um descansa cabeças de couro; talvez inclusive de
madeira (uma parte do bote), em cujo caso “travesseiro” seria melhor
tradução que “almofada”. Conforme a sua etimologia, a palavra usada no
original só significa realmente que era algo “para a cabeça”, para seu
descanso; portanto, um travesseiro.

3. Um frenético clamor
38b. Eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa
que pereçamos?
Embora os relatos dos Evangelhos mantenham uma unidade básica,
as exclamações dos espavoridos discípulos são apresentadas de
diferentes maneiras. Mateus diz, “E vieram seus discípulos e
despertaram, dizendo: Senhor, salva-nos, que perecemos!”; Lucas,
“Mestre, Mestre, que perecemos!”; Marcos, “Mestre, 171 não te importa

171
Assim se traduz também Διδάσκαλε na VP, NBE, BJ, RV60, etc. Cf. alemão “Meister”, holandês
“Meester”. No caso presente, a atitude dos discípulos bem pôde ter sido uma combinação de terror,
reverência e recriminação. Que a reverência não estava totalmente ausente é evidente pelo uso que
Mateus faz da palavra κύριε e Lucas da palavra Επιστάτα para relatar a forma em que os discípulos se
dirigiram a Jesus. Portanto, para buscar o melhor equivalente em nosso idioma da palavra Διδάσκαλε
em Marcos, a tradução “Mestre” não se deve desprezar levianamente.
Marcos (William Hendriksen) 239
de que perecemos?”. É razoável supor que numa situação de tão terrível
desespero, os discípulos gritariam uns uma coisa, e outros outra.
É difícil atribuir qualquer outro significado à exclamação, “Mestre,
não te importa que pereçamos” exceto o de ser uma crítica adversa a
Jesus, como se tudo o que pudesse suceder aos Seus discípulos não Lhe
importasse. Honestamente, tão aguda observação não pode nem sequer
chamar-se com justiça uma recriminação “suave”. Não havia nada suave
nisto. Significava, “Temos tão pouco valor para ti? Com a morte nos
olhando de frente, como podes dormir? Não te importa que nos trague
este mar enfurecido?”.
Não obstante, antes de julgar estes homens tão duramente, devemos
ter em mente os seguintes fatos: a. Estavam totalmente atemorizados: em
semelhante situação até as pessoas que normalmente são leais e
valorosas dizem às vezes coisas que depois lamentam; e b. sua amargura
não se acha isenta de certo grau de confiança. Se isto não fosse verdade,
eles — alguns eram marinheiros de ofício — não se teriam dirigido a um
“carpinteiro” para que lhes socorresse. Sem dúvida que sua fé distava
muito de ser perfeita, mas até a “pequena fé” é fé, e tem esperança de
purificar-se e crescer.
Segundo Mateus, a chamada angustiosa dos discípulos despertou a
Jesus, quem lhes disse, “Por que sois tímidos, homens de pequena
fé?” 172 Ele não estava assustado. Ao contrário, achava-se em pleno
controle da tempestade, mesmo quando os ventos ainda rugiam e as
águas ferviam (veja-se CNT sobre Mt. 13:34, 35).

172
Alguns afirmam que Marcos e Lucas deram a verdadeira ordem dos acontecimentos, porém não
assim Mateus. Não vejo nenhuma razão para aceitar tal opinião. Nem Marcos nem Lucas estavam
presentes durante a tormenta, mas Mateus sim estava. Além disso, não é natural supor que aquela falta
de fé foi para Jesus um assunto tão importante, que considerou necessário referir-se a ela antes e
depois de realizar o milagre? E não é também verdade que os discípulos foram embargados pelo temor
duas vezes; primeiro por causa da tempestade, e segundo por causa da presença Daquele que acalmou
a tempestade? Veja-se Lc. 8:24, 25.
Marcos (William Hendriksen) 240
4. Um assombroso milagre
39. E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar:
Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança.
Segundo Mateus 8:26 Jesus levantou-se e “repreendeu os ventos e o
mar”. Segundo Lucas 8:24 “repreendeu o vento e a fúria das águas”. E
conforme a Marcos 4:39, “repreendeu o vento”, e disse ao mar que se
calasse. O verbo “repreendeu” 173 é o mesmo nos três casos. Há aqueles
que sustentam que este verbo sugere um objeto animado. Dizem que esta
inferência vê-se reforçada por Marcos 4:39, que se traduz então,
“Acalma, emudece!” Mas, começando por esta última, é preciso dizer
que uma palavra nem sempre retém sua conotação básica ou primária.
“Cala! Sossega!” é a melhor tradução de Marcos 4:39. Quanto à
expressão, “repreendeu”, deve ter-se em mente que Marcos não diz,
“Jesus repreendeu o demônio”, ou “os demônios”, ou “os espíritos maus
que estavam no vento”. Simplesmente diz, “repreendeu o vento”.
Pareceria, então, que se trata simplesmente de uma forma figurativa e
poética de falar (cf. Sl 19:5; 98:8; Is. 55:12; etc.). Assim ocorre também
em Lucas 4:39, onde somos informados que Jesus “repreendeu” a febre
que afligia a sogra de Pedro. O importante da expressão “repreendeu o
vento” (e seus paralelos nos outros Evangelhos) é que Jesus faz valer
Sua autoridade sobre os elementos da natureza, de modo que houve uma
profunda (literalmente “grande”) calma.
Marcos contém um paralelismo progressivo muito impressionante.
Jesus fala separadamente ao vento e ao mar. Ao vento repreende; ao mar
diz, “Acalma-te, emudece!” O resultado é indicado também
separadamente; o vento se acalmou e o mar sossegou.
O que chama especialmente a atenção é que não só se acalmou o
vento imediatamente, mas também o mesmo fizeram as águas. É bem
sabido que, em geral, depois que os ventos diminuem visivelmente, as
173
ἐπετίμησεν aor. indic. 3a. pes. sing. de ἐπιτιμάω. Tem o sentido de recriminação em passagens tais
como Mt. 8:26; 16:22; 17:18; 19:13; Mc. 4:39; Lc. 4:39; 9:42, 55; 19:39; 23:40; mas às vezes
significa advertir, dizer às pessoas que não façam algo, proibir (Mt. 12:16; 12:20; Mc. 3:12; Lc. 9:21).
Marcos (William Hendriksen) 241
ondas seguem rolando por algum tempo, elevando-se e desabando-se
como se não queriam seguir o exemplo das já dominadas correntes de ar
que há sobre elas. Mas neste caso os ventos e as ondas se sincronizam na
sublime sinfonia de um silêncio solene. Sobre as águas se posa algo
comparável à calma de um anoitecer sob um céu estrelado.
Repentinamente, a superfície do mar se tornou lisa como um espelho.

5. Uma carinhosa recriminação


40. Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que
não tendes fé?
Antes de prosseguir com a explicação deste versículo, devemos
assinalar que às vezes é preciso comentar não só o que a Escritura diz,
mas também o que omite. É preciso inferir que os discípulos tinham
acusado o Mestre de ser indiferente e de mostrar um coração
incomprensivo, de não preocupar-se por eles (v. 38). Não é maravilhoso
e muito consolador precaver-se do fato de que Jesus nunca os repreendeu
por essas palavras desagradáveis e desconsideradas: “Não te importa que
pereçamos”? Este é o próprio Senhor que mais adiante ia dar resposta às
negações de Pedro, acompanhadas de maldições. Sua resposta,
entretanto, não seria uma aguda repreensão, mas um olhar cheio de dor,
mas ao mesmo tempo cheio de amor; e posteriormente (depois da
ressurreição) um interrogatório penetrante, esquadrinhador, mas cheio de
bondade: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?… tu
me amas?… Tu me amas? [tens-me afeto?]”
Lucas 8:25 deixa bem claro que os discípulos estavam atemorizados
não só antes, mas também depois do milagre. Assustaram-se pela
tormenta. Mas logo se encheram de temor pela presença dAquele que de
forma tão repentina, completa e dramática tinha acalmado a tempestade
(veja-se casos similares de pavor provocado pelo conhecimento de estar
na presença da Majestade, em Is. 6:5 e Lc. 5:8). De modo que Jesus lhes
pergunta, “Por que tendes — não por que tinham — medo?” Como se
dissesse, não lhes ensinou este apaziguamento da tempestade e as ondas,
Marcos (William Hendriksen) 242
em resposta a seus histéricos clamores, que este seu Mestre não só é
muito poderoso, mas também muito amoroso? Portanto, não deveriam
responder com plena confiança, como a de uma criança?
O que Jesus realmente disse foi, “Ainda não tendes fé? (veja-se
também Mc. 8:17–21; 9:19). Eram “homens de pequena fé”, quer dizer,
homens muito tímidos para descansar no consolo e na confiança que
deveriam ter obtido da presença, promessas, poder e amor de seu Mestre
(Mt. 6:30; 8:26; 14:31; 16:8; Lc. 12:28); eram muito vacilantes para
perceber que o amoroso cuidado do Pai lhes era outorgado por meio do
Filho.
Ainda sem fé; quer dizer, sem fé apesar de tudo o que viram, ouvido
e experimentado? A partícula “ainda” não deve passar inadvertida. Ao
usá-la, Jesus lhes está ensinando que as experiências da vida acontecem
aos homens com um propósito determinado. Devem ser aproveitadas
para crescer em santificação. José entendeu isto (Gn. 50:19–21).
Também Davi (2Sm. 23:5; Sl 116); o homem cego de nascimento (Jo.
9:25; 30–33); e Paulo (1Co. 15:9, 10; Fp. 2:7–14; 4:11–13). Igualmente
Labão aprendeu algo por experiência, mas aplicou seu conhecimento de
forma egoísta (Gn. 30:27b).

6. Um profundo efeito
41. E eles, possuídos de grande temor, … Por causa de tudo o que
Jesus tinha revelado com relação a Si mesmo, mas provavelmente mais
por causa do poder que tinha manifestado, aqueles homens “temeram
(com) grande temor”, diz Marcos literalmente. 174 O “espanto” que aqui
se menciona era uma combinação de temor e reverência. Mateus 8:27 diz
que os homens “se maravilharam” (ou: assombraram)”. Lucas 8:25 fala
de temor e assombro. Os discípulos começam a notar: a grandeza de

174
Embora Marcos escreva para os romanos, ele mesmo é judeu, e o demonstra ao expressar-se no
estilo semítico típico (cf. 1 Macabeus 10:8; Jonas 1:10). A outra possibilidade é que esteja relatando
algo que extraiu que alguma fonte judaica, a qual lhe supriu deste detalhe da história. Marcos
conservou fielmente a fraseologia, mas traduziu o seu conteúdo ao grego. Cf. Lc. 2:9.
Marcos (William Hendriksen) 243
Jesus é muito mais sublime do que se tinham imaginado. Não só exerce
controle sobre as multidões que O escutam, as enfermidades, os
demônios, mas inclusive também sobre os ventos e as ondas: diziam uns
aos outros: 175 , 176 Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?
Grande parte do mal que existe no mundo pode ser corrigido. Há
mães que enxugam as lágrimas, técnicos que operam máquinas,
cirurgiões que eliminam tecidos doentes, conselheiros que solucionam
problemas familiares, etc. E quanto a modificar o clima? Naturalmente
que se fala muito disso, mas para agir sobre o clima é necessário o poder
divino. É Jesus quem manda sobre os elementos do clima, obtendo que
inclusive o vento e o mar Lhe obedeçam. 177
Parece-nos que, no momento ao menos, os discípulos se achavam
profundamente impressionados pelo poder, majestade e glória de seu
Mestre. “Quem é este então?” (Mc. 4:41; Lc. 8:25) perguntavam-se.
Segundo as expressões de Mateus 8:27 o significado seria: “Que classe
de pessoa é esta?” ou “Que homem é este?”
A resposta a esta pergunta não nos é dada aqui (veja-se também
Jonas 4:1; Marcos 12:37; cf. Mt. 22:45). A narração termina de forma
muito apropriada, fixando a atenção sobre a pessoa de Jesus Cristo, de
modo que todo aquele que a ler pode dar sua própria resposta, possa
professar sua própria fé, e acrescentar sua própria doxologia.

Resumo do Capítulo 4

As oito seções deste capítulo podem resumir-se como segue:


a. A parábola do semeador (vv. 1–9). Foi pronunciada antes de que
Jesus abandonasse um concorrido edifício, talvez uma casa ou sinagoga,
dirigindo-se à praia (Mc. 2:2, 13; 3:1, 7). Assim também aqui (Mc. 3:20;

175
Ou: começaram a dizer-se.
176
Note-se a mudança significativa do aor. ἀφοβήθησαν ao imperf. ἔλεγον.
177
Note-se o verbo no singular: ὑποκούει o vento e o mar aqui se consideram separadamente, como o
foram também no v. 39.
Marcos (William Hendriksen) 244
4:1; cf. Mt. 13:1). Nesta ocasião, a multidão que se tinha reunido ao
redor de Jesus era tão grande que Ele subiu a uma barco e se sentou nele,
afastando-Se um pouco da praia, olhando à multidão. Em Seu ensino
desde o mar, o Mestre fez uso generoso das parábolas. Na realidade, a
parte do livro que aqui se resume pode intitular-se o capítulo das
parábolas de Marcos, visto que seis de suas oito seções as relatam, ou ao
menos se referem a elas.
Em primeiro lugar, Jesus relata a parábola do semeador. “Escutai”,
diz o Mestre, e prossegue, “Em certa ocasião o semeador saiu a semear”.
A semente caiu em várias classes de terreno: duro, rochoso, infestado de
espinhos, e bom. Só o último dos quatro produziu uma colheita; a
semente produziu trinta, sessenta, e cem por um.
b. Propósito das parábolas (vv. 10–12). Depois, numa casa e a
pedido de um grupo de discípulos mais amplo que os Doze, Jesus explica
por que falava em parábolas; ou seja, para revelar a verdade aos que a
aceitam, e escondê-la dos que obstinadamente se opõem a ela, a fim de
que estes últimos “confrontem a culpa de sua própria cegueira e dureza”
(Calvino).
c. Explicação da parábola do semeador (vv. 13–20). Jesus mostra
que os quatro tipos de solo significam respectivamente: corações
insensíveis, impulsivos, apreensivos, e sensíveis. Só a última classe de
coração dá fruto. A “chave” real da parábola é o dever do homem de
responder devidamente à palavra ou mensagem do reino. A ênfase recai
definitivamente na responsabilidade humana (vejam-se 4:9, 23, 24;
8:18).
d. Diversas declarações de Jesus (vv. 21–25). Os corações férteis se
assemelham a lâmpadas que iluminam. A palavra do reino e a vida em
harmonia com ele, não devem ocultar-se, mas manifestar-se, imitando
assim a Deus que um dia revelará tudo o que os homens procuraram
esconder. Então (e em certo sentido incluso antes de então), à medida
que uma pessoa tenha usado para dar, será a medida em que vai receber;
com a exceção, entretanto, de que a obra de salvação é assunto de pura
Marcos (William Hendriksen) 245
graça: Deus sempre está outorgando um dom após outro. Por outro lado,
até aquela aparência de conhecimento, aquela superficial relação
espiritual que em outro tempo se teve, será tirada daquele que não possui
o maior dos tesouros por causa de sua própria falta de vontade para
escutar e levar a sério a mensagem.
e. A parábola da semente que cresce em segredo (vv. 26–29). Esta
parábola ressalta a soberania de Deus, que se apresenta com relação à
salvação do homem, e seu efeito em todas as esferas da vida. Jesus faz
ver que para o homem o crescimento é um mistério: a semente brota e
cresce “sem ele saber como”. Também significa que a semente manifesta
seu poder; “de si a terra produz frutos”; e que a colheita (ou: tempo da
colheita) significa vitória: “Logo que a (condição de) o grão o permita,
em seguida ele — o semeador, agora também ceifeiro — mete a foice
porque a ceifa chegou”. A verdade é que o poder para germinar e crescer
que se encerrou na semente foi outorgado por Deus. O homem nada pode
fazer depois de espalhar a semente. Só pode dormir e levantar-se, dormir
e levantar-se, mas a colheita está assegurada. O reino de Cristo, seu
majestoso reino, estender-se-á e um dia será manifestado em todo seu
esplendor.
f. A parábola da semente de mostarda (vv. 30–32). Quando o
homem se ocupa com sua salvação devido ao fato de que Deus está
operando dentro dele — vejam-se as duas parábolas precedentes —
então o crescimento abunda. Os grandes resultados vêm de pequenos
começos. Assim sucede com a mostarda, que no princípio é uma semente
muito pequena, e finalmente alcança uma grande altura e lança ramos tão
grandes que as aves do céu podem habitar à sua sombra. O mesmo
ocorre com o reinado de Deus em Cristo, que no começo só foi
reconhecido por um grupo muito pequeno, mas logo se estendeu e
continuará estendendo-se, até ser uma bênção aos homens de todas as
raças, e inclui todas as esferas da vida, para a glória de Deus.
g. O uso das parábolas (vv. 33, 34). Por meio de parábolas e
expressões parabólicas que Jesus incluía em todos os Seus discursos
Marcos (William Hendriksen) 246
públicos, alcançou a Seus ouvintes até o ponto que Suas historia
ilustrativas e figuras retóricas conseguiram atrair e fixar a atenção de
toda a concorrência. Quando Se achava em casa (ou: numa casa), só com
os Seus discípulos, costumava explicar-lhes tudo.
h. Uma tempestade acalmada (vv. 35–41). Marcos descreve
primeiro o embarque ao entardecer. Depois de um dia muito ocupado,
Jesus, a pedido Seu, sobe a bordo com Seus discípulos. O grupo dirige-se
rumo à margem (oriental) oposta. Levanta-se uma furiosa tempestade, os
ventos uivam, as ondas se estrelam e se precipitam sobre o barco, que
começa a alagar. Jesus, enquanto isso, está na popa, Sua cabeça apoiada
num travesseiro, dormindo profundamente. Ouvem-se gritos frenéticos,
“Mestre, não te importa que pereçamos?” Ocorre um assombroso
milagre: Jesus Se levanta, repreende o vento, e diz ao mar: “Acalma-te,
emudece!” O vento se apazigua. Sobrevém uma grande calma. Ao
chegar a este ponto, Marcos menciona a tenra e carinhosa recriminação
de Cristo (Mateus o faz inclusive antes): “Por que sois assim tímidos?!
Como é que não tendes fé?” Quer dizer, ainda depois de todos os
milagres que Me vistes realizar, das palavras que ouvistes de Meus
lábios, e da vida que vivi em vossa presença? Acaso toda esta
experiência não vos ensinou nada?
O Mestre nem sequer lhes repreende com dureza por se haverem
dirigido a Ele com aquela atitude de forte censura. Marcos relata o
profundo efeito do milagre com as seguintes palavras: “E eles, possuídos
de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o
mar lhe obedecem?”
Marcos (William Hendriksen) 247
MARCOS 5
Mc. 5:1–20 - Na terra dos gerasenos: A bondade em contraste com a
crueldade
Cf. Mt. 8:28–9:1; Lc. 8:2–39

A relação entre a história precedente (Mc. 4:35–41) e esta narração


(Mc. 5:1–20) é fácil de lembrar. Da descrição do mar enfurecido (Mc.
4:37), o evangelista passa para a de um homem feroz (Mc. 5:3–5).
Humanamente falando ambos eram indomáveis, mas Jesus dominou os
dois.
Era de noite quando o Senhor e Seus discípulos cruzaram o mar.
Atracaram à margem oriental, quer dizer, “fronteira da Galileia” (Lc.
8:26). Não é razoável supor que ao chegar ao versículo 14 ou 15 do
relato de Marcos, o evangelista relatasse o que sucedeu no dia seguinte?
As três narrações variam muito em amplitude e riqueza de
pormenores. Marcos contém maior número de detalhes. Segue-lhe
Lucas. O relato de Mateus é muito breve. O seguinte resumo é comum
para os três:
Jesus chega à margem oriental na companhia dos Doze, e de
repente sai-Lhe ao encontro um homem endemoninhado (ou: dois
endemoninhados, segundo Mateus). Ao ver Jesus, ele ou os
endemoninhados O abordam desta maneira: “Que tenho eu contigo,
Jesus, Filho do Deus Altíssimo?” Os demônios temem que Jesus tenha
vindo para os atormentar. Nas cercanias há uma vara de porcos pastando.
Precisamente antes de renunciar ao poder que tinham sobre o homem
(ou: os homens), os espíritos imundos pedem permissão para entrar nos
porcos. É-lhes concedido seu pedido, e o resultado é que toda a piara
agora endemoninhada, precipita-se no mar pelo penhasco, afogando-se.
Os que cuidavam dos animais voltam para a cidade e contam o sucedido.
O povo sai para ver Jesus, e Lhe rogam que abandone sua região.
Marcos (William Hendriksen) 248
Em cada um dos três Evangelhos acrescentam-se certos detalhes:
Mateus menciona que eram dois homens em vez de um, e que eram tão
violentos que era perigoso transitar por seu caminho. Também
acrescenta que temiam que Jesus tivesse vindo para torturá-los “antes do
tempo estabelecido”; e diz que a piara “pastava a certa distância” do
ponto onde teve lugar a confrontação de Jesus com os endemoninhados.
Por sua vez, Lucas acrescenta que o homem endemoninhado era
“da cidade” — aparentemente tinha vivido ali —; que por longo tempo
tinha andado despido; que os demônios faziam manifesta sua presença
no homem por meio de arrebatamentos de ira “que lhe vinham muitas
vezes”; que o tinham custodiado o homem e que os demônios levavam-
no ao deserto. Também nos é dito que os demônios rogavam a Jesus que
os mandasse “ao abismo”, e que o homem já libertado se achava sentado
“aos pés de Jesus” e que posteriormente proclamou “por toda a cidade” o
que o Senhor fez por ele.
Marcos explica com realismo que todos os esforços prévios para
subjugar o endemoninhado tinham fracassado; que de dia e de noite
gritava e se cortava com pedras; que aquele porta-voz dos demônios
queria que Jesus jurasse que não o atormentaria; que a piara era de uns
dois mil porcos; e que todos ficaram atônitos ao escutar o relato do
homem curado quando falava das grandes coisas que Deus fez por ele.
Finalmente, só Marcos e Lucas consignam a pergunta de Jesus, “Qual é
o teu nome?”, e registram a resposta a essa pergunta; assim como
também a petição que o homem curado e agradecido faz a Jesus, no
sentido de que lhe deixasse ir com Ele em suas viagens, e a resposta de
Jesus.
Voltando agora para Marcos 5:1–20, observamos que esta seção
pode ser dividida convenientemente em cinco breves parágrafos. Estes
cinco parágrafos enfocam respectivamente a atenção em: o homem; os
demônios; os porcos; os porqueiros; e Jesus.
Expresso de maneira mais ampla:
Marcos (William Hendriksen) 249
O homem infeliz encontra-se com Jesus. Descrição do homem (vv.
1–5).
Os demônios que controlam este homem. Sua confrontação com
Jesus. Identificação dos demônios e sua expulsão (vv. 6–10).
Os demônios precipitam os porcos pelos penhascos até o mar, onde
perecem (vv. 11–13).
Os porqueiros e o povo ao qual se informa. A petição do povo de
que Jesus abandone a região (vv. 14–17).
A petição do homem curado e a resposta de Jesus. Significado desta
resposta (vv. 18–20).
Além disso, o primeiro parágrafo descreve um homem que
necessita ajuda. Outros parágrafos (primeiro, segundo e quarto) mostram
que ninguém ajudou este desventurado, exceto Jesus. A crueldade
caracterizava os demônios, os porqueiros, e as pessoas em geral. Em
vivo contraste com esta atitude ressalta a bondade de Jesus, segundo se
descreve no segundo, terceiro (sim, também no terceiro!) e quinto
parágrafo.

1. O homem infeliz encontra-se com Jesus. Descrição do homem.


1. Entrementes, chegaram à outra margem do mar, à terra dos
gerasenos.
Segundo o CNT, o original diz gadarenos em Mateus 8:28,
gerasenos aqui em Marcos 5:1 e gergesenos em Lucas 8:26. Em cada
caso, as diversas leituras se reconhecem com uma nota de rodapé. Para
localizar o lugar onde Jesus atracou, resulta útil uma descrição como a
que se dá nos Evangelhos (Mt. 8:28, 32; Mc. 5:2, 13; Lc. 8:27, 33).
Sabemos que era uma região de covas usadas como sepulcros, e que uma
alta colina descia bruscamente até a própria margem da água. Esta
descrição não se ajusta a Gerasa, cidade situada a uns quarenta e oito
quilômetros ao sudeste do Mar da Galileia. Mas a descrição do lugar
coincide com Khersa, que muito bem poderia identificar-se com a cidade
onde habitavam os gerasenos. Podemos supor que a cidade de Gadara
Marcos (William Hendriksen) 250
era, por assim dizer, a capital de todo o distrito. Estava situada a uns
poucos quilômetros a sudeste do lago, embora chegava até a margem.
Então as diversas designações geográficas começam a adquirir sentido.
Além disso, Khersa estava situada na margem oriental, a uns dez
quilômetros diagonalmente (pelo lago) rumo a sudeste de Cafarnaum.
Em tal lugar existe efetivamente uma colina que desce abruptamente até
o mar. Também há muitas covas — visíveis até hoje — adequadas para
ser utilizadas como sepulcros. 178
2. Ao desembarcar, logo veio dos sepulcros, ao seu encontro, um
homem possesso de espírito imundo.
A confrontação de Jesus com este homem tem lugar perto da
própria margem, no preciso momento em que Jesus sai do barco. A
expressão “um homem possesso com espírito imundo” significa “um
endemoninhado”, coisa que é evidente em todo o relato (vejam-se
especialmente os vv. 8–12, e se afirma explicitamente nos relatos
paralelos de Mt. 8:28; Lc. 8:27). “Imundo” significa “perverso” (cf. Lc.
7:21; 8:2 com 4:33–36). Os espíritos imundos são moralmente sujos. São
malignos por si só, e são fonte de maldade e destruição para aqueles
sobre quem exerce controle. Para mais detalhes sobre possessão
demoníaca veja-se Mc. 1:23 e CNT sobre Mt. 9:32–34.
Não se sabe por que razão Mateus menciona dois endemoninhados,
enquanto Marcos e Lucas falam de um só, 179 mas nem hoje em dia
surpreende achar este tipo de diferenças num relatório como este. Tem
sido sugerido que o endemoninhado a quem Marcos e Lucas fazem
referência era o líder e porta-voz dos dois, mas isto não é mais que uma
hipótese. Deve notar-se, entretanto, que estes dois evangelistas não
afirmam que foi somente um endemoninhado que se encontrou com

178
Veja-se o artigo de A. M. Ross, “Gadara, Gadarenes”, no Zondervan Pictorial Bible Dictionary
(Grand Rapids: Zondervan,1963), p. 293; e J. L. Hurlbut e J. H. Vincent, A Bible Atlas (Nova York,
etc., 1940), p. 101.
179
Cf. também Mt. 20:29 (“dois homens cegos”) com Mc. 10:46 e Lc. 18:35.
Marcos (William Hendriksen) 251
Jesus naquele dia. Ninguém, portanto, tem direito de falar que Mateus
contradiz o dito por Marcos e Lucas.
O endemoninhado “veio ao encontro” de Jesus no momento em que
desembarcava; quer dizer, “imediatamente”, “logo”. Acrescente-se a este
fato, que nos versículos 3b–5 Marcos descreve este homem como uma
pessoa muito violenta (cf. Mt. 8:28), e tal inferência se justifica pela
forma impetuosa em que desdobrou sua ferocidade lançando-se sobre
Jesus. Parece que saindo dos sepulcros desceu como um raio para
encontrar-se com os recém-chegados.
E para cúmulo, despido! Veja-se Lc. 8:27.
Os sepulcros constituíam o “lar” deste homem, e são novamente
mencionados nos versículos 3 e 5. Na realidade, segundo se vê no
original, os versículos 3–5 devem ser considerados juntos, e dão uma
descrição muito realista desta pessoa “feroz”:
3–5. o qual vivia nos sepulcros, e nem mesmo com cadeias alguém
podia prendê-lo; porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e
cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões, despedaçados.
E ninguém podia subjugá-lo. Andava sempre, de noite e de dia, clamando
por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras.
Definitivamente trata-se aqui de um endemoninhado e não só de um
maníaco. O quadro que Marcos pinta é aterrador. Descreve a um homem
que é vítima da maldade demoníaca associada com a indiferença e a
impotência humanas. Mas enfim, a onipotência e bondade divinas vêm
em seu auxílio e sai triunfante. A bondade de Jesus contrasta
surpreendentemente com a insensibilidade cruel dos demônios e os
homens.
Como já se indicou, o homem que aqui se descreve tinha vivido na
cidade. Mas possuído por demônios, agora vivia entre “os sepulcros”.
Este termo refere-se provavelmente a câmaras mortuárias abandonadas,
escavadas nos lados dos escarpados. Habitualmente, de vez em quando,
durante a noite e o dia, seus gritos estridentes ressoavam pavorosamente
de caverna em caverna perto do rochoso litoral, enchendo de terror o
Marcos (William Hendriksen) 252
coração de qualquer viajante que se aventurasse a aproximar-se. A
maioria das pessoas evitava aqueles lugares (Mt. 8:28b). Além disso, em
meio de seus horríveis gritos, o endemoninhado aumentava seu mal
cortando seu corpo despido com as afiadas arestas das pedras quebradas.
Que atitude tinham para com ele os vizinhos? Parece que a única
coisa que lhes preocupava era sua própria segurança e proteção. Por esta
razão, sempre o estavam atando de pés e mãos. Mas não importa quantas
vezes recorressem a esta medida de proteção, nunca estavam tranquilos
porque ele rompia as correntes, e os correntes dos pés saltavam em
pedaços. Na realidade, ninguém absolutamente foi capaz de dominá-
lo. 180

180
Estes três versículos contêm vários pontos sobre vocabulário e gramática que merecem ser
mencionados:
O substantivo κατοίκησις (v. 3, acus. — ιν) só ocorre aqui no Novo Testamento. É o lugar onde a
gente “se instala”, é o lar ou habitação de uma pessoa. Sobre a base da palavra grega, cf. as palavras
vizinhança, paróquia.
εἰχεν ἐδύνατο, ἴσχυεν (vv. 3, 4). Estes imperfeitos mostram que Marcos está descrevendo a cena.
Descreve coisas de forma deliberada, e as concebe tal como se realmente estivessem ocorrendo. Com
relação a isto observe-se também a perífrase ἠν κράζων καὶ κατακόπτων (v. 5).
οὑδὲ … οὑδείς: doble negação, estilo popular; realmente tríplice, porque Marcos ainda acrescenta
οὑκέτι (v. 3). Em conjunto, isto nega com muita força a hipótese de que alguém fosse capaz de atar
este endemoninhado com segurança.
ἅλοσις “cadeia, grilhões” (cf. Lc. 8:29; At. 12:6, 7; 21:33; 28:30); a forma que se usa primeiro é o
dativo instrumental (sing. no v. 3; pl. no v. 4); logo no v. 4 aparece o acusativo pl. No v. 4, também
πέδη ocorre primeiro como dat. pl. instrumental, e logo como ac. pl. Para esta palavra cf. πούς, “pé”,
“pedal”.
Podemos talvez pensar num par de argolas de metal ao redor dos tornozelos cujos passadores se
amarravam com uma cadeia. Pôde ter sido qualquer tipo de “armadilha de ferro”. Mas veja-se
Robertson, Word Pictures, I, p. 295.
No começo do v. 4, διά aparece seguido de um acusativo (“efetivamente, por certo” ou “porque”), e
introduz a evidência da declaração anterior: o passado explica o presente. Procurou-se muitas vezes
atar o homem pelas mãos e pés mas sempre fracassou o intento.
Também no v. 4, δεδέσθαι (de δέω cf. Mc. 3:27 e muitas outras passagens do Novo Testamento, cf.
também “diadema”); διεσπάσθαι (de διασπάω; cf. At. 23:10; também a palavra inglesa “span”); e
συντετρίφθαι (de συντρίβω; cf. Mc. 14:13; também Mt. 12:20; Lc. 9:39; Jo. 19:36; note-se
“tribulação”) são infinitivos perfeitos. Indicam o que se fez no passado, mais o resultado: o homem
tinha sido preso, sendo deixado em condição imóvel. Do mesmo modo, as cadeias estavam quebradas
e os correntes despedaçadas, com o resultado de que os partes quebradas de cadeias e correntes, a
vista de todos, assinalavam a impossibilidade de ter ao endemoninhado dominado permanentemente.
Marcos (William Hendriksen) 253
2. Os demônios controlam este homem. Sua confrontação com
Jesus. Identificação dos demônios e sua expulsão.
6, 7. Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou, exclamando
com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?
Às vezes se argumenta que o versículo 6 contradiz o versículo 2.
Segundo o versículo 2, quando Jesus sai do barco o endemoninhado se
acha ali mesmo, enquanto segundo o versículo 6 ainda se encontra a
bastante distância. 181 Mas sem dúvida esta argumentação equivale a criar
um conflito onde não existe nenhum. É totalmente legítimo interpretar o
relato de Marcos como significando que antes que o barco chegasse à
margem, o endemoninhado “de longe” observou atentamente o barco
que se aproximava, depois se aproximou correndo, e saiu ao encontro de
Jesus no momento em que este descia do barco. 182
Talvez algo mais difícil de compreender seja a conduta do
endemoninhado. Aparentemente é muito contraditória: primeiro o vemos
lançando-se com ânimo hostil; logo cai aos pés de Jesus e O adora; para
mudar em seguida outra vez de atitude e lançar imediatamente um
sinistro grito. Se dissermos que, afinal de contas, o que se espera de um
endemoninhado é justamente uma conduta irracional, provavelmente só
entregamos uma solução pela metade. Também se deve assinalar que
quando este homem começou a correr rumo ao grupo formado por Jesus
e os apóstolos, ainda não tinha reconhecido o seu líder. Quando este
homem — na realidade os demônios que havia nele, representados por
seu porta-voz — reconheceu-O de uma forma que vai além do
entendimento humano, sua primeira reação diante da majestade de Cristo

No v. 5, διὰ παντός indica “a intervalos durante a noite e o dia”.


181
Veja-se Vincent Taylor, Op. cit., p. 280.
182
Outra objeção que se costuma levantar é esta: a expressão “de alguma distância” (ou: “de longe”) é
pouco significada, visto que Marcos as usa vez após vez (veja-se também Mc. 8:3; 11:13; 14:54;
15:40). Resposta: Isto de modo nenhum sugere que se trata de uma mera frase feita. Não só Mateus
(Mt. 26:58; 27:55) e Lucas (Lc. 16:23; 18:13; 22:54; 23:49) usam-na também, mas sim onde quer que
apareça em algum dos Evangelhos (e em qualquer outro lugar; veja-se Ap. 18:10, 15, 17) ajusta-se à
situação que se descreve. Sua utilização jamais pode ser chamada artificial.
Marcos (William Hendriksen) 254
183
foi de um temor reverencial que O induziu a prostrar-se. Mas logo o
demônio que falava em nome dos demais refletiu no fato de que Jesus
era, afinal de contas, seu grande Adversário, Aquele que tinha vindo à
terra com o propósito expresso de “destruir as obras do diabo” (1Jo. 3:8).
Então, fazendo uso dos órgãos vocais do desventurado, deu rédea solta a
seus sentimentos de ódio, frustração e desespero com uma exclamação:
“Por que me incomodas, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?”
A conduta deste endemoninhado é muito parecida com a que se
descreve em Mc. 1:23, 24. Note-se em ambos os casos o estridente e
encolerizado grito, a confissão da deidade de Cristo, e o temor de que
inclusive naquele mesmo momento Jesus tivesse o propósito de torturar
os seus infernais adversários (veja-se sobre Mc. 1:23, 24).
Embora às vezes os humanos fazem tudo o que podem para negar a
deidade de Cristo, não ocorre assim com os demônios; note-se o Mestre
recebe um título sublime da parte do porta-voz dos espíritos imundos que
habitavam naquele homem. Chama-o nada menos que Jesus, “Filho do
Deus Altíssimo”! Jesus era e é exatamente isto. Cf. Gn. 14:18, 19; Is.
6:3 (à luz de Jo. 12:41); Lc. 1; 32, 35, 76; 6:35; 8:28; Hb. 7:1.
É possível que imediatamente depois desta exclamação Jesus lhe
dissesse, mais de um vez, ao demônio que representava a outros: “Sai do
homem, espírito imundo” (veja-se sobre o v. 8). Em vez de obedecer
imediatamente, o demônio respondeu, “Conjuro-te por Deus que não
me atormentes!”. 184 A essência desta insolência se reflete de forma
mais suave na passagem de Lucas, “Rogo-te que não me atormentes”.
Isto significava: não nos ordenes ir “ao abismo” (Lc. 8:28, 31).
Mateus deixa passar em silêncio a petição do demônio para que
Cristo Se comprometesse mediante juramento. Mateus omite o
juramento em harmonia com Mt. 5:33–37 (veja-se CNT sobre essa
passagem). Mateus interpreta o chiado com o significado de, “vieste a
183
No presente caso, não é necessário interpretar a palavra usada no original no sentido amplo de
render adoração sincera e humilde (como em Mt. 2:2, 11).
184
O verbo vai seguido de dois acusativos, tanto aqui como em At. 19:13.
Marcos (William Hendriksen) 255
nos torturar antes do tempo?”. A esfera dos demônios sabe que ao chegar
o dia do juízo final, a liberdade relativa que desfrutam para percorrer o
mundo e o céu circundante (veja-se CNT sobre Ef. 2:2; 6:12) cessará
para sempre e está determinado para eles seu castigo final e mais terrível.
O representante que estava falando com Jesus compreende que nesse
mesmo instante se acha diante dAquele a quem o destinou ao juízo final,
e teme que naquele momento — “antes do tempo estabelecido” — Jesus
pudesse lançar ele e os seus companheiros “ao abismo” ou “masmorra”,
isto é, ao inferno, lugar onde Satanás está retido. As repetidas ordens de
Cristo de sair daquele homem tão terrivelmente atormentado, gerou e
intensificou aquele temor nestes espíritos imundos, segundo se afirma
claramente no versículo
8. Porque Jesus lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem!
O relato segue:
9. E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Por que razão Jesus Se
desentende da petição do demônio (v. 7b) e lhe pergunta seu nome?
Entre os comentaristas pode-se encontrar estas respostas:
a. Vários evitam totalmente solucionar este difícil enigma.
b. Outros 185 opinam que Jesus, bem como outros exorcistas, cria
que o conhecimento do nome do demônio encerrava o poder para
expulsá-lo. Imediatamente após conhecer o nome do demônio, seu poder
ficava destruído.
Objeção. Sem dúvida alguma que isto parece ser um intento de
reduzir o poder de Jesus ao de qualquer exorcista. Além disso, se a teoria
fosse certa, esperaríamos que nos demais casos de expulsão demoníaca
registrados nos Evangelhos teria havido referências a perguntas sobre o
nome do demônio.
c. Outros 186 afirmam com muita segurança que Jesus pergunta pelo
nome com o fim de que Seus discípulos etc. compreendessem que não se

185
Veja-se W. Barclay, Op. cit., p. 118; Vincent Taylor, Op. cit., p. 282.
186
R. C. H. Lenski, Op. cit., p. 132.
Marcos (William Hendriksen) 256
enfrentava a um só demônio mas muitíssimos. A resposta do demônio
revelaria que eram muitos.
d. Embora não possamos estar totalmente seguros, a melhor
resposta é a que sugerem de uma forma ou outra vários expositores. 187
Em suma, é a seguinte: Jesus deseja revelar ao homem endemoninhado a
gravidade de sua situação. A fim de libertá-lo dela, deseja tranquilizá-lo
e fortalecer a consciência de seu verdadeiro eu. Deseja arrancá-lo dessa
relação estreita — quase identificação — com o demônio (ou os
demônios) que por tanto tempo o tinha dominado.
Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos. A
resposta indica a profundidade da miséria do endemoninhado. Está sob o
controle não de um só demônio, porta-voz dos demais, mas de toda uma
legião! 188 Não devemos tomar a palavra “Legião” de maneira literal,
como se o pobre homem tivesse estado sob o controle de não menos que
6.000 demônios. Indubitavelmente que aqui o significado é figurado: um
número muito grande. É possível também que o termo “Legião” evoque
a visão de um exército invasor, de crueldade e destruição. Não estamos
diante de uma legião de anjos protetores (cf. Mt. 26:53: “mais de doze
legiões de anjos”). Enfrentamo-nos ao exército de terror e morte de
Satanás. O fato de que mais de um demônio possa às vezes possuir e
escravizar uma pessoa é evidente por outras passagens bíblicas (veja-se
Mt. 12:45 com Lc. 11:26; e Mc. 16:9 com Lc. 8:2).
10. E rogou-lhe [a Jesus] encarecidamente 189 que os não
mandasse 190 para fora do país.

187
Veja-se A. Cole, The Gospel According to St. Mark (Grand Rapids, 1961), p. 98; A. B. Bruce, Op.
cit., p. 372; C. R. Erdman, Op. cit., p. 82; N. Geldenhuys, Commentary on the Gospel of Luke (Grand
Rapids, 1951), p. 255.
188
A palavra latina legio foi absorvida pelo grego helênico e até pelo aramaico.
189
πολλά usa-se como advérbio: fervorosamente, vez após vez; usa-se aqui em conexão com um verbo
em tempo imperfeito; em consequência, rogou-lhe vez após vez; e talvez inclusive: seguiu lhe
rogando fervorosamente.
190
ἵνα μὴ … ἀποστείλῃ (aor. subj. at.) literalmente, “que ele não enviasse”.
Marcos (William Hendriksen) 257
Veja-se sobre o versículo 7. Entretanto, ao chegar a este ponto é
necessário acrescentar outro detalhe. Os demônios não só desejam
fervorosamente permanecer longe do abismo, mas também desejam
permanecer precisamente nesta região, porque é região de sepulcros,
esqueletos, abandono, morte e destruição. Aqui se sentem
“confortáveis”. Se costumamos a associar os anjos bons com lugares
onde prevalecem a ordem, a beleza e a plenitude de vida, não parece
natural, em harmonia com as Escrituras (Mt. 12:43), relacionar os anjos
do mal com regiões onde dominam a desordem, a desolação, o abandono
e a morte?

3. Os demônios precipitam os porcos pelos penhascos ao mar, onde


perecem.
Ao chegar a este ponto a história toma um novo rumo: adiciona-se
um novo elemento.
11, 12. Ora, pastava ali pelo monte uma grande manada de
porcos. E os espíritos imundos rogaram a Jesus, dizendo: Manda-
nos para os porcos, para que entremos neles.
Os demônios compreendem que não podem resistir a ordem que
Cristo lhes dá, de sair do endemoninhado. Devem deixá-lo, e é
exatamente o que vão fazer. Mas apresentam uma última petição
referente aos porcos que pastavam na ladeira da colina.
Note-se “ali pelo monte”. Isto deve significar “nas cercanias”. Se
situarmos esta vara de porcos muito perto da cena do enfrentamento de
Cristo com o endemoninhado, criamos um conflito entre Marcos 5:11 e
Mateus 8:30. Realmente não existe conflito, porque a frase “ali pelo
monte” dá espaço para a ideia de que a piara se achava “a certa
distância” de Jesus e do homem endemoninhado (ou: “homens”, segundo
Mateus).
Qual era a razão da petição dos demônios para entrar nos porcos?
Era simplesmente o desejo de destruir? Foi acaso a esperança sinistra de
que os donos da piara, ao ver sua propriedade destruída, se enchessem de
Marcos (William Hendriksen) 258
ira contra Jesus? A resposta não nos foi revelada. Mas cabe atender ao
fato de que os demônios percebem que sem a autorização de Cristo não
podem entrar nos porcos.
Continua:
13. Jesus o permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram
nos porcos; e a manada, que era cerca de dois mil, precipitou-se
despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram.
De modo que, no final, os espíritos imundos obedeceram realmente
a ordem de Cristo e arrojaram os grilhões. Em resposta ao seu pedido (v.
12), Jesus lhes deu permissão. De modo que saíram do homem e
entraram nos porcos. Resultado: a piara de dois mil se precipitou em
turba pelo despenhadeiro (Marcos gosta de mencionar cifras; veja-se a
Introdução IV, nota 5 c). Aqui Marcos muda bruscamente o tempo do
verbo. Até o momento deu a conhecer quatro eventos de forma breve,
quatro eventos sucintos: deu, saíram, entraram, precipitou-se. É como
se, em rápida sucessão, tivesse mostrado quatro fotos instantâneas. E
então nos mostra um filme em câmara lenta: de um em um vemos os
aproximadamente dois mil porcos afogando-se no mar, até que todos
morreram. 191
Duas interrogantes demandam nossa consideração. Primeiro, “Que
justificação ética houve para que Jesus permitisse que a estes animais
lhes sucedesse algo como isto?” Diremos que algum dia os porcos de
qualquer maneira teriam que morrer; assim que bem podiam morrer
agora? Acrescentaremos que a morte rápida por afogamento ou asfixia
era mais piedosa que a morte mais lenta por fogo ou por ataque de
bestas, ou por fome, ou pela mão de um torpe açougueiro, etc.? Não é
Rm. 9:20 a verdadeira resposta? “Mais antes, ó homem, quem é você
para que brigue com Deus?” Cf. Dn. 4:35.
Neste comentário se mencionou vez após vez o amor e o poder de
Deus em Cristo. E com toda razão, porque as próprias Escrituras

191
Note-se no original os quatro aoristos e o imperfeito no final.
Marcos (William Hendriksen) 259
mencionam repetidamente estas qualidades. Mas não menos importante,
por certo, são a santidade e a soberania de Deus. Ele é imaculado. Mais
ainda, Deus é santo e é a fonte da santidade de todos os que depositam
nEle sua confiança (cf. Is. 6:1–5). Além disso, não nos deve explicação
alguma de Seus atos. Nós devemos viver pela fé! (Hc. 2:4; Rm. 1:17; Gl
3:11. Veja-se também Jó 21:5; 40:4.). Herman Bavinck disse:
“Observamos ao nosso redor tantos fatos que parecem irrazoáveis, tanto
sofrimento imerecido, tantas calamidades inexplicáveis, tão desigual e
inexplicável distribuição dos destinos, e tão enorme contraste entre os
extremos da alegria e a tristeza, que todo aquele que reflita sobre estas
coisas vê-se forçado a escolher entre ver este universo como se fosse
governado pela cega vontade de uma deidade maligna, como o faz o
pessimismo, ou, com base nas Escrituras e por fé, descansar na absoluta
e soberana, mas entretanto — por incompreensível que seja — a sábia e
santa vontade dAquele que um dia fará com que a plena luz do céu
amanheça sobre estes mistérios da vida … No meio da terrível realidade,
o calvinismo não sai à frente com a solução, mas oferece este consolo:
que aconteça o que acontecer, é preciso reconhecer a vontade e a mão
reitora de um Deus onipotente, que ao mesmo tempo é um Pai
misericordioso. O calvinismo não oferece a solução, mas faz com que o
homem descanse nAquele que mora na luz inacessível, cujos juízos são
inescrutáveis e cujos caminhos são insondáveis”. 192
Esta mesma resposta serve para a segunda pergunta, ou seja, “Foi
justo que Jesus permitisse que os demônios destruíssem tantos bens,
quer dizer, privar seus proprietários de tão grande quantidade de
pertences materiais?” deve acrescentar-se também à reflexão
fundamental a respeito da soberania de Deus, que Jesus autorizou esta
perda para ajudar os proprietários. Mas isto lhes serviria de ajuda só se
estivessem dispostos a aprender a lição devidamente. Aqueles
proprietários e em geral o povo daquela comunidade eram egoístas. Em

192
The Doctrine of God (Grand Rapids, 1955), pp. 396, 397.
Marcos (William Hendriksen) 260
sua escala de valores, a aquisição, retenção e multiplicação das posses
materiais ocupavam um lugar muito mais alto que a libertação e
restauração de um homem sem liberdade, sem felicidade, sem amor, e
sem ninguém que se preocupasse com ele. O endemoninhado era um
escravo, desgraçado, odiado e abandonado. Como prova disso veja-se
sobre o v. 17. Daí que para eles era necessária esta lição. 193

4. Os porqueiros e o povo a quem se informa. Pedido do povo que


Jesus abandone a região.
14–16. Os porqueiros fugiram e o anunciaram na cidade e pelos
campos. Então, saiu o povo para ver o que sucedera. Indo ter com Jesus,
viram o endemoninhado,194 o que tivera a legião, assentado, vestido, em
perfeito juízo; 195 e temeram. Os que haviam presenciado os fatos
contaram-lhes o que acontecera ao endemoninhado e acerca dos porcos.
Os homens que tinham estado cuidando dos porcos devem ter
presenciado o encontro de Jesus com o endemoninhado. Também viram
esfumar-se a ferocidade daquele homem, e constataram como essa fúria
se trasladou, por assim dizer, aos porcos, o que causou que se perdesse
toda a piara na água. Os porqueiros concluíram corretamente de que foi
Jesus quem tinha ordenado e permitido que tudo isto sucedesse. Tinha
ordenado aos demônios que saíssem, e lhes tinha permitido entrar nos
porcos. Os que cuidavam dos porcos não eram os culpados da perda da
piara. Portanto, os porqueiros foram correndo aonde estava o povo.

193
Lenski segue um raciocínio totalmente diferente, Op. cit., pp. 133, 134. Conforme ele entende, os
donos dos porcos eram judeus. Jesus Se limitava ao Seu próprio povo e fez com que os animais
morressem porque para estes proprietários judeus era ilegal possuí-los.
Resposta. Esta linha de raciocínio injeta na história um elemento completamente estranho a ela. Além
disso, nem mesmo passagens tais como Mt. 10:5; 15:24, 26 podem interpretar-se corretamente como
se significassem que os não judeus estavam absolutamente excluídos do âmbito das simpatias e
atividades de Cristo. Veja-se Mt. 4:24; 8:5–13; Mc. 7:24–30; 15:21–28; Lc. 4:25–27; 6:17–19; 7:1–
10; Jo. 1:29; 3:16, 17; 4:42; 6:51; 8:12; 9:5; 10:16, 11:52; 12:32.
194
Para a explicação do gerúndio, veja-se sobre o v. 18.
195
ἱματισμένον καὶ σωφρονοῦντα: temos aqui um ptc. pf. pas. (“tinha chegado a estar — portanto,
ainda estava — vestido”) seguido pelo ptc. presente (“em seu são juízo”).
Marcos (William Hendriksen) 261
Queriam que os proprietários e todos os outros, no povoado e seus
arredores, na pequena aldeia e nas granjas, soubessem quem era e os que
não eram os culpados.
Marcos descreve às pessoas que foi ver o que tinha ocorrido.
Provavelmente foram à manhã seguinte. O que é que veem? Veem a
Jesus. Também observam atentamente o homem que tinha estado
endemoninhado. Não havia dúvida alguma. Era o mesmo homem.
Entretanto, agora já não corria colina abaixo, mas estava sentado, ali, aos
pés mesmos de Jesus. Já não estava despido (Lc. 8:27) e sim vestido. E
já não se comportava como um louco, gritando noite e dia, e cortando-se
com as afiadas arestas das pedras, mas estava em seu são juízo (cf. 2Co.
5:13).
O poder e a majestade de Jesus, o Autor de tudo isto, fez com que o
povo se atemorizasse. Esta reação esteve longe de acalmar-se quando ali
mesmo, no lugar onde tudo tinha acontecido, as testemunhas oculares,
porqueiros e discípulos, explicaram os detalhes da história: “o que tinha
sucedido com o endemoninhado e com os porcos”.
Qual deveria ter sido o resultado? A tristeza inicial pela perda dos
porcos teria sido natural. Mas os proprietários e todos os que de algum
modo se viram afetados por esta perda, deveriam ter falado mais ou
menos assim: “Agora compreendemos que a perda de nossos bens é um
preço insignificante comparado com a lição que aprendemos. Estes
porcos, simples propriedade material, era tudo para nós. Fomos egoístas.
Jamais nos sentimos preocupados com as necessidades de nosso vizinho,
este pobre miserável. Agora vemos as coisas de outro modo. Damo-nos
conta de que os valores humanos excedem em grande medida aos valores
materiais”. Não deveriam ter felicitado àquele homem que estava
assentado ali aos pés de Jesus? Não deveriam ter levado os seus doentes
e aleijados a Jesus para que também os curasse? Não é possível que o
povo de toda aquela região não tivesse ouvido falar daquele grande
Benfeitor! (veja-se Mt. 4:25). Não deviam ter procurado convencer a
Marcos (William Hendriksen) 262
Jesus que permanecesse um pouco mais com eles, a fim de comunicar
bênçãos para o corpo e a alma? Cf. Jo. 4:40.
Na realidade, sua reação foi muito diferente. De fato foi
diametralmente oposta. Jesus devia ir embora, e quanto antes melhor:
17. E entraram a rogar-lhe que se retirasse da terra deles.
Os três evangelistas relatam isto, e isso é essencial para a
compreensão da lição que aqui se comunica.
Aqueles homens tinham medo de Jesus. Além disso estavam
ressentidos com Ele. Não lhes tinha privado de seus bens? Não estava
perturbando seu regime habitual de vida particular?
Quantas vezes, inclusive em nosso tempo e época, não se repetiu
este mesmo incidente? As pessoas estão ansiosas para escutar a história
de Jesus e de Seu amor … sempre e quando não se insistir muito nas
implicações do evangelho na vida e conduta diárias, porque isto seria
desagradável e inquietante! (Mt. 18:23–35; 25:31–46; Jo. 13:14, 15;
2Co. 8:7–9; Ef. 4:32–5:2).

5. A petição do homem curado e a resposta de Jesus. Significado


desta resposta.
18. Ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora
endemoninhado 196 que o deixasse estar com ele.
Era uma petição muito natural. O homem desejava estar com seu
Benfeitor, com quem tinha uma dívida tão grande. Desejava lhe
emprestar qualquer serviço que solicitasse.

196
Note-se o ptc. aoristo δαιμονισφείς. Contraste-se isto com o gerúndio δαιμο νιζόμενον no v. 15.
Quando as pessos saíam para ver este homem, ainda estava muito presente diante deles o quadro de
uma pessoa realmente possuída pelo demônio. Não obstante, até então, Marcos usa o particípio
perfeito ἐσχηκότα, para assinalar que se tinha produzido uma mudança. Ao chegar ao v. 18, a história
estava numa nova etapa. Todos sabem agora que este homem já não é um endemoninhado. Daí que o
particípio aoristo vem muito ao caso aqui. Referente a uma explicação um pouco diferente a respeito
deste ponto gramatical, veja-se Robertson, p. 1117.
Marcos (William Hendriksen) 263
19. Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: Vai para
tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e
como teve compaixão de ti.
Há vários pontos que merecem nossa atenção:
a. Acedendo ao rogo dos demônios, Jesus lhes permitiu entrar nos
porcos, e acedendo à petição do povo, o Senhor abandonou a região. Não
desconcerta que agora rejeite a petição de um homem que se converteu
em seu fervoroso seguidor? Disto aprendemos que quando Deus permite
ao Seu povo ter tudo o que este quer, isso não é sempre uma bênção
completa. E quando recusa dizer que “sim” ao que Seu povo Lhe pede
com ardor, não é necessariamente um sinal de desaprovação.
b. A verdadeira atividade missionária começa em casa, porém não
termina ali. Começa de fato com nossa gente (At. 1:8; cf. Mt. 10:5, 6).
Não sugere isto que um verdadeiro membro da igreja deve estar pelo
menos tão preocupado em proporcionar uma completa educação cristã a
seus filhos, como o está em enviar missionários aos pagãos?
Esta última tarefa é indubitavelmente de muita importância, mas a
primeira deve ter prioridade.
c. Aquele homem recebeu a ordem de contar aos seus as grandes
coisas que “o Senhor” fez por ele. Conforme indica o versículo 20, o
homem sabia que o nome “o Senhor” se referia a Jesus. Em Lucas 8:39
muda-se a palavra “Deus” pela “Senhor”, e este homem volta a
interpretar a palavra “Deus” como referindo-se a Jesus (Lc. 8:39b). Isto
demonstra que, segundo a apreciação dos evangelistas e do ex-
endemoninhado, Jesus é o Senhor. Ele é Deus.
d. O termo “os teus” não tem aqui um sentido muito limitado (veja-
se v. 20), e ao mesmo tempo implica que o vizinho falará com vizinho.
Poderia dizer-se que a lição principal é esta: ao mandar o homem a ir aos
seus, Jesus exibe uma grande bondade, e isto não só com o ex-
endemoninhado, mas também com toda aquela comunidade que tão
vergonhosamente O tinha rejeitado. Eles tinham pedido a Ele que fosse
embora, mas em Seu grande amor, Ele não pôde desligar-se totalmente
Marcos (William Hendriksen) 264
deles. De modo que lhes envia um missionário, na realidade o melhor
tipo de missionário, um que podia falar por experiência própria. Veja-se
Sl 34:6; 66:16; 116; Jo. 9:25; 1Co. 15:9, 10; Gl 1:15, 16; Fp. 3:7–14;
1Tm. 1:15–17; 2 P. 1:16; 1 Jo. 1:1–4.
O homem obedeceu.
20. Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis 197 tudo o
que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam.
O homem curado fez exatamente o que o Senhor desejava que
fizesse. Foi embora para casa e ali relatou quão grandes coisas Jesus fez
por ele. Mas não ficou só nisso. Tão cheio se achava de alegria e
gratidão que muito logo incluiu na esfera de sua atividade missionária a
toda a cidade onde vivia (Lc. 8:39). Nem mesmo isto satisfez seu anelo
de atribuir a glória a Deus. Pouco depois pôs-se a dar testemunho da
bondade de Deus em toda Decápolis, conforme explica Marcos.
Esta “Decápolis” era uma confederação de dez cidades helênicas:
Citópolis (situada a oeste do rio Jordão); a leste do Jordão: Filadélfia,
Gerasa, Pela, Damasco, Canata, Diom, Abila, Gadara, e Hipos. Estas dez
cidades, num tempo particulares de sua liberdade pelos macabeus, foram
libertadas de seu jugo pelos romanos e lhes tinha concedido um alto grau
de governo próprio. Embora deviam pagar tributos e render serviço
militar a Roma, tinha permitido que formassem uma associação para o
bem do progresso comercial e da mútua defesa contra qualquer intrusão
da parte de judeus ou árabes. Tinham seu próprio exército, tribunais e
cunhagem de moedas. Por toda aquela região havia judeus espalhados,
mas em geral era território gentílico; como ficava de manifesto, por
exemplo, por seus numerosos anfiteatros gregos. 198
Todos estavam maravilhados. O povo que ouviu o testemunho deste
homem provavelmente seguiu maravilhada e louvando por bastante

197
As dez cidades.
198
Para material de consulta a respeito das dez cidades, veja-se especificamente Josefo, Guerra
Judaica, I. 155–58; II.466–468; III. 446; V. 341, 342, 410; Antiguidades XIV. 74.
Marcos (William Hendriksen) 265
199
tempo. Sem dúvida, alguns fizeram mais que maravilhar-se. Em
Decápolis também devia haver um “remanescente” de pessoas em cujo
coração e vida a palavra de Deus foi eficaz para a salvação, à glória de
Deus. Vejam-se Is. 55:11; Mt. 4:24, 25 e Mc. 7:31–37.

Mc. 5:21–43 – Dois milagres: A restauração à vida da filha de Jairo


e A cura da mulher que tocou o manto de Jesus
Cf. Mt. 9:18 26; Lc. 8:40 56

É quase impossível esquecer a transição da seção precedente (vv.


1–20) a esta (vv. 21–43). Desde aquela petição que equivalia a
“rogamos-te que vás embora daqui”, a história avança até uma petição
comovedora: “rogo-te que venhas” (contraste o v. 17 com o v. 23).
Quando Jesus foi solicitado a ir embora, Ele foi embora; quer dizer,
voltou a cruzar o mar e atracou à margem de Cafarnaum, onde o chefe de
uma sinagoga daquela cidade se achava em desesperada necessidade de
ajuda, porque sua filhinha estava prestes a morrer. De modo que, da
história sobre a milagrosa bênção derramada sobre um homem que
habitava em lugares de morte (v. 3) avançamos a outro de triunfo sobre a
própria morte (vv. 41, 42). Desde o momento em que onde todos ficam
maravilhados (v. 20) leva-nos imediatamente em que todos ficam
sobremaneira assombrados (v. 42).
Parece ser que ao Jesus chegar, os discípulos de João Batista O
estavam esperando com a pergunta a respeito do jejum (veja-se CNT
sobre Mateus 9:18). Enquanto ainda falava com eles, Jairo fez o seu
pedido.
Havia um grupo de anciãos que governava a sinagoga. Uma de suas
responsabilidades era manter a ordem nas reuniões. O homem que foi
ver a Jesus e a quem Mateus não menciona pelo nome, mas que Marcos
e Lucas chamam Jairo, era membro desse grupo. Visto que

199
Note-se o imperfeito ἐθαύμαζον, estavam num estado de assombro, maravilhavam-se.
Marcos (William Hendriksen) 266
provavelmente vivia em Cafarnaum, podemos supor que tinha ouvido
falar a respeito dos milagres realizados por Jesus, e que talvez inclusive
tenha presenciado algum.
O relato que Mateus faz do duplo milagre algo muito breve, só
ocupa nove versículos; o de Lucas abrange dezessete versículos; o de
Marcos vinte e três. Para mais informação a respeito da sinagoga, veja-se
mais acima em Mc. 1:39.
Mateus omite a petição do principal da sinagoga (veja-se Marcos e
Lucas) de que Jesus curasse a menina doente. Na realidade Mateus, em
seu breve resumo, deixa fora vários detalhes mencionados por um ou os
outros dois Sinóticos. Entretanto, é o único que diz que o principal pede
a Jesus que ponha Sua mão sobre a menina morta, acrescentando “e
viverá” (Mc. 9:18). Também, é o único que menciona os que tocavam
flautas na casa do luto (Mc. 9:23).
Marcos é o único que, em seu extenso relato, apresenta a Jairo
usando o termo carinhoso de “minha filhinha” (v. 23), e descreve uma
grande multidão que se “apinhava” ao redor ou “apertava” a Jesus (v.
24). Também é Marcos o único que conta que Jesus fez caso omisso da
mensagem que enviaram a Jairo, “Tua filha já morreu …” (vv. 35, 36), e
é aquele que ressalta o pranto e a lamentação das pessoas que faziam luto
(v. 38, 39), ao mesmo tempo que registra as palavras aramaicas que
Jesus disse à menina (v. 41), e acrescenta que a menina, tendo voltado à
vida, caminhava (v. 42).
Há vários detalhes que Marcos e Lucas compartilham, e que não se
acham em Mateus. Por exemplo, somos informados que o nome do
principal era Jairo (Mc. 5:22; Lc. 8:41), que Jairo fez sua primeira
petição antes que a menina tivesse morrido (Mt 5:23; Lc. 8:42), que ela
tinha uns doze anos de idade (Mc. 5:42; Lc. 8:42), que Pedro, Tiago,
João e também os pais da menina estavam com Jesus quando realizou o
milagre (Mc. 5:37, 40; Lc. 8:51), e que Jesus não queria que a notícia
deste milagre se propagasse (Mc. 5:43; Lc. 8:56).
Marcos (William Hendriksen) 267
Lucas é o único que informa que a menina era filha única (Lc.
8:42), e que Jesus efetivamente ouviu a notícia de sua morte, mas que
não lhe prestou atenção (Lc. 8:50).
Nos três relatos, a história da volta à vida da filha de Jairo vê-se
interrompida pela da cura da mulher que tocou o manto de Jesus.
Todo este material, segundo se apresenta aqui, dá lugar ao seguinte
esboço. Sob o tema general que já se indicou (Os dois milagres, etc.)
chegamos às seguintes subdivisões ou “pontos”:

1. Apresentação do primeiro milagre: vv. 21-24.


2. Interrupção do primeiro milagre pelo segundo milagre
a. fé oculta: vv. 25-28.
c. fé manifestada: vv. 30-34.
3. Realização do primeiro milagre
a. palavras de alento: vv. 35, 36
b. palavras de revelação: vv. 37–40a
c. palavras de amor e de poder: vv. 40b–42
d. palavras de tenra preocupação: v. 43

1. Apresentação do primeiro milagre


21–23. Tendo Jesus voltado no barco,200 para o outro lado, afluiu
para ele grande multidão; e ele estava junto do mar. Eis que se chegou a
ele um dos principais da sinagoga, chamado Jairo, e, vendo-o, prostrou-se
a seus pés e insistentemente lhe suplicou: Minha filhinha está à morte;
vem, impõe as mãos sobre ela, para que seja salva, e viverá.
Como em algumas ocasiões anteriores (Mc. 1:16; 2:13; 3:7; 4:1),
Jesus Se achava “junto ao mar”, perto de Cafarnaum, e como de costume
se achava rodeado de uma grande multidão. Foi então que Jairo caiu
prostrado aos Seus pés. Esta ação por si só foi uma manifestação de alto
respeito a Jesus. A fervorosa súplica [Mc. 5:23, TB]: “Minha filhinha

200
Existe um alto grau de apoio textual em favor de acrescentar a frase “no barco”.
Marcos (William Hendriksen) 268
está a expirar;” — literalmente: chegou à sua fase final — “suplico-te
que venhas pôr as mãos sobre ela, para que sare e viva”, foi uma
expressão de tenro afeto, intensa ansiedade e um alto grau de fé.
Tenro afeto! Jairo diz, “minha filhinha”. À idade de doze anos,
muitas crianças se sentem ofendidos se são chamados “filhinho(a)”. Mas
para seu pai a menina ainda era uma “garotinha”; com a ênfase posta,
não tanto em seus tenros anos, e sim na preciosidade que ela era aos seus
olhos.201
Intensa ansiedade! “Por favor, vem …”. Há obscuros
pressentimentos e ao mesmo tempo intenso desejo.
Um grau considerável de fé! Inclusive agora, com a morte às portas,
o homem crê na efetividade do toque das mãos de Jesus. Quanto a esse
toque, veja-se sobre Mc. 1:41. Note-se: “…para que sare e viva”. 202
Aquele principal da sinagoga deve ter visto e ouvido Jesus mais de uma
vez, ali mesmo em Cafarnaum, onde o Mestre tinha Seu centro de
operações e onde assistia à sinagoga, sempre que Lhe era possível. Jairo
bem pôde ter presenciado vários milagres. Mas surpreende que estando
sua querida e única filhinha tão perto da morte, o homem ainda abrigasse
esperança, e que até manifestasse um alto grau de fé.
Não nos surpreende ler:
24. Jesus foi com ele.
Não é Jesus, o Salvador não apenas da alma, mas também da pessoa
inteira, quer dizer, da alma e do corpo?
Entretanto, a seguir segue uma declaração muito ligada a
precedente, e que além disso introduz o que segue-nos versículos 25–34.

201
Como ocorre muitas vezes, o diminutivo é aqui predominantemente um termo de carinho. Veja-se
a Introdução IV, nota 5; também sobre 3:9, nota 108.
202
Quanto ao primeiro ἵνα do v. 23 (ἵνα ἐλθὼν ἐπιθῇς), há diversas opiniões. Talvez o melhor é
considerá-lo como uma maneira elíptica de usar um imperativo cortês; por isso, aqui seria “Por favor,
vem …” O segundo vai do mesmo versículo refere-se a um propósito: “para que” se salve e viva.
Aqui “ser salva” (assim diz literalmente), significa “ser restaurada à saúde”, portanto, “cure”.
Os verbos ἐπιθῇς (2ª. pes.); σωθῇ e ζήσῃ (ambos 3ª. pes.) são todos subj. aor. depois do primeiro ou
segundo ἵνα.
Marcos (William Hendriksen) 269
Trata-se de: e uma grande multidão, seguindo-o, o apertava. Isto não
era nada estranho (veja-se 3:9; 4:1). Mas o que dá mais significado à
situação presente é a. O próprio tamanho da multidão, junto com o fato
de que a multidão apertava a Jesus, fazendo com que o avanço à casa de
Jairo fosse dificultoso; b. A ação da mulher se explica pela presença da
multidão. Ela pensou que, por causa da enorme multidão, poderia fazer o
que se propunha e logo escapar desapercebida (cf. Lc. 8:47).

2. Interrupção do primeiro milagre pelo segundo milagre


a. fé oculta
Já se explicou que o que vincula as duas historia é a apinhada
multidão, que atrasa a realização do primeiro milagre e que, até certo
ponto, explica o que sucedeu com relação ao segundo. Dois versículos
consecutivos no Evangelho de Lucas (Lc 8:42, 43) proveem um elo: a
filha de Jairo tinha doze anos de idade; a mulher tinha sofrido por um
período de doze anos. Mas as duas narrações também podem ser
consideradas como uma, ou seja, o relato de um milagre interrompido e
em consequência também mais glorioso (Mc. 5:21–43 e seus paralelos).
Como outras vezes, Mateus é muito breve em seu relato da história
de Jesus e a mulher doente. Note-se seus três versículos (Mt. 9:20–22).
Lucas tem nove (Lc. 8:40–48) e Marcos, o Evangelho da ação, reparte
seus vívidos detalhes em dez versículos (Mc. 5:25–34).
Vale dizer aqui, como em qualquer outro lugar dos Evangelhos, que
nenhum dos relatos é a mera repetição do que se diz no outro. Cada
evangelista contribui com algo que os outros não mencionam. Por isso
não queríamos perder a referência de Mateus com relação à mulher
falando “dentro de si” (Mt. 9:21), ou a menção que faz de Jesus
voltando-se para a mulher e lhe dizendo, “Tem coragem” (ou: “Tem bom
ânimo”). Tampouco queríamos ficar sem a inteligente forma em que o
Dr. Lucas (Lc. 8:43b), sem contradizer a Marcos, evita um possível mal
entendido do que Marcos diz a respeito dos médicos daqueles dias (Mc.
5:26, “uma mulher … que tinha sofrido muito em mãos de muitos
Marcos (William Hendriksen) 270
médicos”). Lucas é o único que introduz a Pedro na história (Lc. 8:45). E
quanto a Marcos, pode dizer-se que nem Mateus nem mesmo Lucas
apresentam os detalhes de esta história tão vivazmente como o faz ele.
Veja-se especialmente Mc. 5:29–33. Por outro lado, Marcos nem sequer
menciona o bordo (ou: borlas) mas só a veste (Mc. 5:27, 28).
Compare-se com Mt. 9:20; Lc. 8:44.
25–27. Aconteceu que certa mulher, que, havia doze anos, vinha
sofrendo de uma hemorragia e muito padecera à mão de vários médicos,
tendo despendido tudo quanto possuía, sem, contudo, nada aproveitar,
antes, pelo contrário, indo a pior, tendo ouvido a fama de Jesus, vindo por
trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste.
Enquanto Jesus Se dirige à casa de Jairo, de repente se produz esta
interrupção. Durante seu ministério terrestre, Jesus foi interrompido
muitas vezes; por exemplo: enquanto falava com a multidão (Mc. 2:1ss.),
ou conversava com seus discípulos (Mc. 8:31ss.; 14:27ss.; Lc. 12:12ss.),
ou viajava (Mc. 10:46ss.), ou dormia (Mc. 4:38, 39), ou orava (Mc.
1:35ss.). Nenhuma destas intrusões o confundiu, nunca ficou
momentaneamente desorientado quanto ao que dizer ou o que fazer. Isto
demonstra que nos achamos diante do Filho do Homem que é ao mesmo
tempo o Filho de Deus! O que nós chamaríamos uma “interrupção” foi
para Ele um trampolim ou ponto de partida para pronunciar grandes
palavras, ou como aqui, para realizar uma obra maravilhosa, revelando
Seu poder, sabedoria e amor. O que para nós teria sido uma situação
penosa, para ele foi uma oportunidade preciosa.
Desta vez, quem O interrompe é uma mulher. Durante doze anos
tinha estado sofrendo hemorragias; literalmente ela tinha estado “em
(uma condição de) fluxo de sangue”. Há aqueles que creem que o fluxo
era constante. Outro opinião diz que através dos doze anos a periódica e
excessiva perda de sangue, a impedia de sentir-se forte e com saúde, e
que neste preciso instante estava novamente sofrendo por causa de uma
hemorragia.
Marcos (William Hendriksen) 271
Tinha sofrido muito às mãos de muitos médicos. Com relação à
forma desta expressão, veja-se Mateus 16:21. Um livro apócrifo declara,
“Fui aos médicos, mas não me aliviaram” (Tobias 2:10). Por outro lado,
leia-se a declaração de outro livro apócrifo: “Honre o médico conforme a
necessidade que dele tem, com a honra que se deve a ele, porque, por
certo, o Senhor o criou” (Eclesiástico 38:1). O versículo 3 do mesmo
capítulo fala da “destreza do médico” e afirma: “Pelos poderosos será
admirado”. Embora seja verdade que até hoje em dia os médicos às
vezes cometem erros, como sucede com outros profissionais, seria difícil
superestimar o valor de um médico capaz e dedicado ao seu trabalho. No
caso que aqui se relata, os resultados dos tratamentos não tinham sido
favoráveis. A saúde da pobre mulher deteriorou-se gradualmente, e isto
em parte por causa do mesmo cuidado (?) que os doutores lhe tinham
prodigalizado.
Isto não deve ser interpretado como se quisesse dar a entender que a
arte da cura em Israel fosse muito deficiente em comparação com o que
se praticava nas nações circundantes daquele tempo. É verdade que a
ciência médica, no sentido técnico da palavra, estava ainda em sua
infância. Não obstante, os judeus, ao menos em alguns importantes
aspectos, achavam-se à cabeça de todos os outros. Eles criam na eficácia
da oração ao único Deus que governa o céu e a terra e, portanto, também
sobre o corpo e a alma, e sobre a vida e a morte, a saúde e a enfermidade
(2Rs. 1; Sl 116; Is. 36). Foram-lhes dados os Dez Mandamentos, que
foram chamados “o código supremo de higiene mental”. A ordenança da
circuncisão também merece consideração com relação a isto.
Acrescente-se a isso a grande quantidade de regulações higiênicas que se
acham no Pentateuco, a ênfase na influência da mente sobre a saúde do
corpo (Pv. 17:22), as exortações contra as emoções carentes de amor (p.
ex., Êx. 23:4, 5; Pv. 15:17) com seu nocivo efeito sobre o bem-estar
físico, o repetido mandamento de confiar em Deus e deixar os afãs (Sl
91; 125; Is. 26:3, 4; 43:2). Tudo isto mostra que, com relação ao cuidado
Marcos (William Hendriksen) 272
do corpo e outras muitas coisas, Israel estava muito mais avançado que
outros povos. Veja-se também Êx. 15:26.
Entretanto, neste caso concreto os doutores não tinham tido êxito.
Por que? Pode ter sido que o fato de que esta mulher esteve indo de “um
médico a outro” tivesse tido algo que ver com o problema. Inclusive em
nosso tempo não se pode recomendar sem reserva o costume de algumas
pessoas de ir de um médico a outro, e depois a outro, e ainda a outros
mais, embora certamente pode haver alguns casos em que isto seja
necessário. Pareceria, entretanto, que a melhor resposta à pergunta de por
que esta mulher não se curava, é dada por alguém que era médico, ou
seja, Lucas, quem afirma claramente que esta era uma enfermidade
incurável, humanamente falando e à luz da terapêutica daqueles dias (Lc.
8:43).203
Quando finalmente a mulher decidiu ir a Jesus, já tinha gasto todo o
seu — diríamos “escasso” — dinheiro. Tinha perdido a saúde, a fortuna,
e por causa da natureza de seu mal, também sua posição na sociedade, e
especialmente na comunidade religiosa. Sua situação era tal que a
tornava cerimonialmente impura (Lv. 15:19ss.).
Pero había una última razón para la esperanza: ¡Jesús! Lo llamativo
es que todo tipo de gente iba a Jesús. No sólo acudían las personas
prominentes como Jairo, sino que también la gente común como esta
pobre mujer. Parece que presentían que su poder y compasión
responderían a las necesidades de toda clase social.
Não é raro, entretanto, que devido à sua enfermidade, aquela mulher
sentisse temor de apresentar-se em público. Ela não pretendia entrar em
contato físico com o próprio Jesus. Meramente tocaria seu manto, e
mesmo assim (veja-se Mateus e Lucas) só uma das quatro borlas de lã
203
Para mais detalhes sobre o tema general da história da arte de curar, especialmente em Israel, veja-
se W. H. Ogilvie, “Medicine and Surgery, History of”, artigo na Enciclopédia Britânica (Chicago,
Londres, etc. 1969), Vol. 15, pp 93–06; S. I. MacMillen, None of These Diseases (Westwood, N.J.,
1963); L. Finkelstein, The Jews, their History, Culture, and Religion (Nova York, 1949), Vol. II, pp.
1013–1021; I. Benzinger, “Diseases and the Healing Art”, artigo em SHERK, Vol. III, pp. 445–448; e
E. S. Tamer, The Astonishing History of the Medical Profession (Nova York, 1961).
Marcos (William Hendriksen) 273
que todo israelita devia levar nos quatro cantos do manto quadrado que
usavam (Nm. 15:38; cf. Dt. 22:12) para lembrar a lei de Deus (veja-se
também CNT sobre Mt. 23:5). 204 Naturalmente a forma mais fácil de
aproximar-se para ter contato físico com um manto, sem ser notado, seria
ir por trás e tocar a borla que se movia livremente pela parte de trás do
manto. Aquele que levava o manto posto, conforme cria ela, jamais
perceberia o que sucedia.
Assim que tendo ouvido os maravilhosos relatos a respeito de Jesus,
veio por trás e tocou a borla, 205 ou como Marcos o expressa, “sua veste”.
A razão de tocar o manto de Cristo dá-se no versículo
28. Porque, dizia: Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada.
A grandeza da fé desta mulher consistia em que cria que o poder de
Cristo para curar era tão assombroso, que até o mero contato com Suas
vestes produziria uma cura instantânea e completa. 206
É evidente que a fé desta mulher não era perfeita, pois cria que o
ato de tocar era necessário e que Jesus nunca Se daria conta disso. Mas
Ele, sim, o notou, e recompensou sua fé, restaurando sua saúde (v. 29), e
logo lhe deu uma oportunidade para mudar sua fé oculta” (Mt. 9:21) em
“fé manifestada” (Mc. 5:33), o que resultou numa maior fortaleza (5:34).

204
Cf. SB, IV, p. 277.
205
Nestes três versículos (25–27), Marcos usa não menos de sete particípios, os primeiros cinco com
função atributiva e para modificar à uma mulher”, e os dois últimos como predicativos e modificando
“tocou”. Os sete são:
οὖσα que estava (com fluxo de sangue), é ptc. presente de εἰμί. Cf. essência, parousia.
παθοῦσα tendo sofrido, aor. de πάσχω. Cf. patologia, paixão.
δαπανήσασα tendo gasto, aor. de δαπανάω.
(μηδέν) ὠφεληθεῖσα (nada) tendo aproveitado (que traduzimos: “em lugar de aliviar-se”), aor. pas. de
ὠφελέω. Cf. os mosquitos anofeles, pois não são benéficos.
ἐλθοῦσα vindo, aor. de ἔρχομαι. Cf. origem, prosélito.
ἀκούσασα tendo ouvido, aor., de ἀκούω. Cf. acústica.
ἐλθοῦσα tendo vindo (usado nos vv. 26 e 27, primeiro de maneira atributiva, logo predicativa).
206
Se há que ressaltar o tempo imperfeito do verbo grego (λέγω, aqui ἔλεγεν) — o que nem sempre é
o caso —, terei que traduzir “ela repetiu estas palavras vez após vez”. Referente ao verbo σώζω (aqui
σωθήσομαι) veja-se mais acima, nota 204.
Marcos (William Hendriksen) 274
b. fé recompensada
29. E logo se lhe estancou a hemorragia, e sentiu no corpo estar
curada do seu flagelo.
Literalmente, “e em seguida seca foi a fonte de seu sangue”. A
recuperação foi instantânea. Num instante a hemorragia cessou
completamente. A saúde e o vigor surgiam por todas as partes de seu
corpo. O “flagelo” ou a “enfermidade” que a tinha estado afligindo
desapareceu. Quanto à palavra que basicamente significa “açoite” ou
“látego” e que aqui se refere à enfermidade que a atormentava, veja-se
sobre Mc. 3:10. 207 Não só desapareceu seu problema, mas também ela
mesma notou e soube que tinha desaparecido.
O surpreendente é que, embora a fé desta mulher estivesse longe de
ser perfeita, não obstante o Senhor bondosamente a recompensou. Além
disso, a recompensa afetou não só o seu corpo, mas também a sua alma;
ou, dizendo-o de outra forma, não só foi recompensada sua fé, mas
também foi melhorada e elevada a um nível mais alto de
desenvolvimento, de modo que a fé oculta se transformou em:

c. fé manifestada
30. Jesus, reconhecendo imediatamente que dele saíra poder,
virando-se no meio da multidão, perguntou: Quem me tocou nas
vestes?
Jesus não ignorava o fato de que alguém O havia tocado, e isto não
de forma acidental mas intencionalmente, e não só com a mão, mas com
fé. Sabia que o poder que havia dentro dEle e que procedia dEle, tinha
respondido a essa fé.
O que Jesus queria agora era que se completasse o círculo, fosse
quem fosse aquele que O havia tocado. Que círculo? Aquele que se
indica em muitas passagens das Escrituras, incluindo, por exemplo, o
207
Em At. 22:24 a palavra μάστιξ usa-se no sentido mais literal de açoitar com um látego. Por um
momento pareceria que iam açoitar a Paulo, para descobrir o que crime havia supostamente encargo;
mas veja-se At. 22:25, 26, 29. Quanto ao sentido literal veja-se também Hb. 11:36.
Marcos (William Hendriksen) 275
Salmo 50:15: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me
glorificarás.”
Quando as bênçãos descem do céu, os que as receberam devem
responder em forma de ações de graças. Assim se completa o círculo
(veja-se também CNT sobre Efésios 1:3). À sua maneira, esta mulher
tinha invocado a Jesus. Ele a tinha resgatado, porém ela ainda não O
havia glorificado. Até esse momento era como os nove leprosos curados
de Lucas 17:17, 18: “Não eram dez os que foram curados? Onde estão os
nove? Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus,
senão este estrangeiro?”. Sem dúvida alguma ela tinha “crido em seu
coração”. Mas ainda não tinha “confessado com a boca” (Rm. 10:9).
Com o fim de fazer brotar esta resposta favorável, Jesus imediatamente
Se voltou para a multidão e perguntou, “Quem me tocou nas vestes?”
Ou, segundo o expressa Lucas, “Quem me tocou?” (Lc. 8:45),
significando “Quem me tocou intencionalmente?”
31. Responderam-lhe seus discípulos: Vês que a multidão te
aperta e dizes: Quem me tocou?
Os discípulos cometem novamente o muito repetido erro de
interpretar as palavras de Cristo em seu sentido literal mais rígido, como
se Jesus estivesse pensando num mero tocar físico.
Aqueles homens, e outros também, tinham o costume de aplicar a
regra da interpretação literal às palavras de Cristo, a mesma regra que em
certos setores do cristianismo ainda hoje em dia se recomenda tão
vivamente. As seguintes passagens mostram que essa regra, a menos que
seja essencialmente modificada, não é segura: Mc. 8:15, 16; Jo. 2:19–22;
3:3–5; 4:10–15; 6:52; 8:56 58; 11:11–13. Naturalmente que Jesus não
estava negando que O haviam tocado literalmente, mas Ele Se referia a
algo muito superior a isso, quer dizer, ao tocar com fé, ao toque
verdadeiramente eficaz, até o ponto em que, em resposta a isso, emanou
poder dEle.
Encabeçados por Pedro (Lc. 8:45), os discípulos respondem, “Vês
que a multidão te aperta e dizes: …”. Isto revela não só falta de
Marcos (William Hendriksen) 276
entendimento, mas também uma falta de respeito e de submissa
reverência que os discípulos deviam ter mostrado para com seu Mestre.
Quer dizer, aquela observação crítica era inconsiderada, de mau gosto,
crua e rude. Lembra-nos a de Mateus 16:22.
O Mestre mostrou sua grandeza ao não respondê-la.
32. Ele, porém, olhava ao redor para ver quem fizera isto.
Foi um olhar longa e escrutinadora. 208 Os comentaristas que se
preocuparam com esta questão diferem de maneira bastante ampla.
Há três interpretações principais. Segundo a primeira, Jesus já sabia
quem era a pessoa. Olhou em redor e repentinamente fixou os Seus olhos
sobre a mulher. 209
Agora, não se pode negar de que por Sua natureza divina Jesus era
onisciente. Tampouco se pode negar que essa natureza divina às vezes
comunicava à Sua natureza humana informação que, provavelmente, não
teria recebido sem sua assistência (veja-se Mt. 17:27; Jo. 1:47, 48). Não
obstante, isto não significa que a natureza humana de Cristo fosse
também por si só onisciente (veja-se Mt. 24:36; Mc. 11:13). Não é
Marcos 5:32 um texto similar? A expressão “Ele, porém, olhava ao redor
para ver”, certamente faz inaceitável a ideia de que Jesus já sabia quem
era a pessoa que O havia tocado. Para mais informação a respeito das
duas naturezas de Cristo no ensino de Marcos, veja-se a Introdução, III.
O original tem um particípio feminino, 210 de modo que se poderia
traduzir, “Mas ele olhava em redor para ver quem era a que fez isto”.
Sobre esta base, afirmou-se que Jesus pelo menos sabia que a pessoa que
O havia tocado era uma mulher. 211

208
Veja-se mais acima, nota 105.
209
Lenski, Op. cit., p. 142. Ele deduz esta informação do uso do tempo (“ele olhava em redor”)
seguido pelo aoristo ἰδεῖν. Embora concorde em muito do que este intérprete diz, não o posso seguir
no que agora afirma. Gramaticalmente περιεβλέπετο ἰδεῖν é uma só expressão: “ele seguiu olhando,
ou: estava olhando (para) ver. A expressão pode-se separar em dois períodos de tempo.
210
τὴν … ποιήσασαν.
211
A. B. Bruce, Op. cit., p. 375, oferece isto como uma possibilidade.
Marcos (William Hendriksen) 277
Mas não é mais razoável considerar que o particípio feminino vem
da mão de Marcos, o escritor do Evangelho, quem soube mais tarde a
respeito do caso?
Em vista de tudo o que foi dito, parece que a interpretação mais
natural seria que Jesus com Seu terno coração de Salvador, desejava
outorgar um favor adicional sobre quem quer que fosse a pessoa que O
havia tocado. “Seguiu olhando em redor para averiguar” (segundo A. T.
Robertson 212 ) quem era essa pessoa.
33. Então, a mulher, atemorizada e tremendo, cônscia do que
nela se operara, veio, prostrou-se diante dele e declarou-lhe toda a
verdade.
A mulher tinha ouvido que Jesus perguntava, “Quem me tocou nas
vestes?” Também tinha observado Seu penetrante olhar. Sabia “o que
tinha sucedido nela” em resposta ao seu ato de fé. Ela provavelmente
tinha ouvido também a resposta totalmente inadequada dos discípulos.
Sua consciência deve ter-lhe dito que era preciso responder com a
verdade à pergunta de Cristo, e que isto o devia fazer ela!
Entretanto não lhe era fácil fazer o que sentia que devia fazer.
Naquele tempo e naquele país, considerava-se impróprio que uma
mulher falasse em público. E ainda mais sobre um tema como este: a
enfermidade física concreta que a afligia. E o fato de que ela, em tal
situação, tivesse tocado deliberadamente ao Mestre, não faria com que o
que já era impróprio aos olhos dos presentes resultasse ainda mais grave?
Sim, e talvez aos olhos do próprio Jesus? Não a repreenderia talvez?
Podemos entender, então, por que confessou e também por que o
fez “temendo e tremendo” (assim literalmente; cf. 2Co. 7:15; Ef. 6:5; Fp.
2:12). Estava muito assustada, e todo o seu corpo tremia. Mas foi, e disse
toda a verdade, referindo-se provavelmente a todos os atos mencionados
nos versículos 25–29.
212
Word Pictures vol. I, p. 300. Na mesma sintonia também Taylor, Op. cit., p. 292; Schmid, Op. cit.,
p. 115; e Bolkestein, Op. cit.,p. 125. Por outro lado, A. B. Bruce, Op. cit., p. 375, e Swete, op. cit, p.
105, deixam lugar para qualquer das duas últimas interpretações.
Marcos (William Hendriksen) 278
O resultado não foi uma reprimenda, mas justamente o contrário,
segundo se vê pela primeira palavra que Jesus lhe disse, e também pelo
que segue.
34. E ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica
livre do teu mal.
Em muito carinho Jesus a chama “filha”, embora possivelmente não
fosse mais jovem que Ele. Mas Jesus fala como um pai à sua filha. Além
disso, louva-a por sua fé, apesar de que não era uma fé perfeita; e
embora conforme o indique o versículo 27, foi Ele mesmo quem,
mediante Suas maravilhosas palavras e atos anteriores, fez brotar essa fé.
Sua fé, embora não fosse a causa fundamental de sua cura, tinha sido o
conduto por meio do qual a cura foi realizada. A fé tinha sido o
instrumento usado pelo poder e o amor de Cristo para efetuar sua
recuperação (cf. Ef. 2:8). Resulta maravilhoso que Jesus não lhe diga
nada a respeito de Seu próprio poder e amor, que são a causa básica do
bem-estar atual dela, mas que faça menção especial da fé que sem Ele,
ela não teria podido possuir, nem lhe teria sido possível exercer. Além
disso, ao dizer, “A tua fé te curou” (TB), estava sublinhando que o que a
curou foi a resposta pessoal que Ele deu à fé pessoal dela, tirando assim
de sua mente qualquer vestígio de superstição, como se as vestes de
Jesus tivessem contribuído em algum grau para a cura.
Por meio destas palavras alentadoras, Jesus também abriu o
caminho para a reintegração total da mulher à vida social e religiosa, e à
comunhão com seus familiares. Agora ela podia ir e desenvolver o resto
de sua vida “em paz”, quer dizer, com o sorriso de Deus sobre ela e a
prazerosa convicção interna deste sorriso (cf. Is. 26:3; 43:1, 2; Rm. 5:1).
Provavelmente, nessa ordem alentadora, “vai-te em paz”, há algo
mais. É preciso levar em conta as palavras que seguem imediatamente:
“Fica — Sê e permanece — curada de sua enfermidade (literalmente: teu
açoite)”. Também é preciso lembrar que Jesus falou no idioma popular
que então usavam os judeus (o aramaico). Estas duas considerações nos
permitem inferir que aqui está implícito nada menos que o sentido
Marcos (William Hendriksen) 279
completo do hebraico Shalom, quer dizer, bem-estar tanto do corpo
como da alma.
Nenhum dos evangelistas indica a reação da mulher a estas palavras
bondosas do Salvador, mas não seria correto afirmar que sua alma se
sentiu inundada de alívio e de gratidão sem limites? Acaso não se encheu
com a classe de emoção que experimentou o inspirado compositor do
Salmo 116 (veja-se especialmente os vv. 12–19)? Jesus a tinha curado.
Ele lhe havia comunicado uma dupla bênção: tinha restaurado seu
corpo, o que a impulsionou a dar testemunho, de modo que a fé oculta se
transformou em fé manifestada. Agora lhe seria possível ser, e
indubitavelmente foi, uma bênção para outros, para glória de Deus.
Uns dias depois que certo pastor pregou sobre esta passagem das
Escrituras (Mc. 5:25–34 e paralelos), recebeu o seguinte poema de uma
dama que o tinha composto depois de ouvir o sermão:

“Quem me tocou?”
A voz do Mestre chegou aos seus ouvidos,
O coração dela marcou seus batimentos do coração,
Tremendo aproxima-se, seus olhos esconde.
“Fui eu, Mestre”, humilde responde.
Mas lhe diz, “Segue sem cuidado,
Hoje em dia pela graça tua fé te salvou”.
“Tu me tocaste?”
A voz do Mestre soou em meus ouvidos,
Ó, meu coração marca os batimentos do coração.
“Minha casa com todos tenho hoje visitado,
Mas Tu vieste e não me tocaste”.
Inclino hoje meu rosto, com vergonha é …
Disse-me, “Aproxima-Te mais na próxima vez”.
Marcos (William Hendriksen) 280
3. Realização do primeiro milagre
a. palavras de alento
35. Falava ele ainda, quando chegaram alguns da casa do chefe
da sinagoga, a quem disseram: Tua filha já morreu; por que ainda
incomodas o Mestre?
Talvez os mensageiros fossem parentes de Jairo, ou talvez seus
amigos. Em todo caso, não foram muito diplomáticos ao dar as
alarmantes novas. De forma bastante inconsiderada disseram, “Tua filha
morreu”. 213 Acrescentam, “Por que ainda incomodas 214 o Mestre?”
Segundo a apreciação destes parentes e/ou amigos, não existia nem
mesmo a mais remota possibilidade de que Jesus pudesse restabelecer
uma pessoa morta. Durante algum tempo houve esperança, ou seja,
enquanto a menina estava doente (muito doente, por certo), e enquanto
Jesus estava em caminho. Mas, então, produziu-se aquela trágica
interrupção (vv. 25–34). E agora esse sopro de esperança se esfumou.
“Para aquele que vive há esperança, para o morto, nenhuma” (Teócrito
— Idílios IV. 42). Entretanto, observe-se o que acontece:
36. Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, 215, 216 disse ao chefe
da sinagoga: Não temas, crê somente.
Embora Jesus tenha ouvido as palavras dos mensageiros (Lc. 8:50),
não lhes prestou atenção. Com majestosa calma recusou por completo
dar ouvido aos arautos da morte, aos mensageiros da desespero. E quis
que Jairo fizesse o mesmo.

213
ἀπέθανεν. Em geral, este aor. de ἀποθνήσκω traduz-se corretamente deste modo, embora em lugar
de “está morta” a tradução “morreu” (Beck) ou “morreu” (NAS) também é possível.
214
σδύλλεις. O significado original de σκύλλω é cortar, esfolar. A conotação modificada e mais fraca
que aqui se propõe, é incomodar, perturbar. Veja-se também CNT sobre Mt. 9:36.
215
Ou: desatendendo, não levando em conta.
216
Embora “alcançando para ouvir” também é possível, não obstante o significado “passando por
alto”, “não levando em conta”, “recusando levar em conta”, “não prestando atenção a”, é talvez o que
se deseja; porque:
a. Este é o significado da palavra παρακούω na LXX.
b. Também o é em Mt. 18:17, que é a única outra passagem do Novo Testamento onde aparece.
Marcos (William Hendriksen) 281
Jairo tinha medo. Não é fácil desfazer-se do temor. Há uma só
forma de fazê-lo, isto é, crendo firmemente na presença, promessas,
misericórdia, e poder de Deus em Cristo. Consiste em que o positivo
expulse o negativo (Rm. 12:21).
Através da história da redenção sempre foi assim. Quando parecia
que tudo estava perdido, os crentes depositaram sua confiança em Deus e
foram libertados (Sl 22:4; Is. 26:3, 4; 43:2). Foi assim na vida de Abraão
(Gn. 22:2; Tg. 2:22), Moisés (Êx. 14:10ss.; 32:10, 30–32), Davi (1Sm.
17:44–47; Sl 27), e Josafá (2Cr. 20:1, 2, 12), para mencionar só alguns
casos. Quanto maior foi a necessidade, tanto mais próximo o socorro.
Assim sucedeu também no caso de Jairo. As palavras de alento não
foram em vão. Tomou-as muito a sério (Mt. 9:18) e foi escutado.

b. palavras de revelação
37. Contudo, não permitiu que alguém o acompanhasse, senão
Pedro e os irmãos Tiago e João.
Ao reatar sua viagem rumo à casa de Jairo, a multidão deve ter
perguntado o que iria fazer, agora que a situação — segundo a opinião
da gente — era totalmente irremediável. Com autoridade, o Mestre se
despede de toda a multidão, incluindo os discípulos, com exceção de
Pedro, Tiago e João.
Os doze discípulos presenciaram sem nenhum impedimento quase
todos os acontecimentos relacionados com as atividades de Jesus na
terra. Entretanto, alguns desses acontecimentos sucederam na presença
de apenas três destes homens. Com relação ao por quê, só podemos fazer
conjeturas. Permitiu Jesus que só três discípulos entrassem na habitação
onde teve lugar a ressurreição da filha de Jairo, porque a presença de
todo o grupo não teria sido de acordo com o decoro necessário e poderia
ter perturbado a menina quando voltasse a abrir os olhos? Foi a agonia
do Mestre no Getsêmani tão sagrada que não podia ser presenciada por
mais de três discípulos (Mt. 26:37; Mc. 14:33), e foi por esta razão que
até então a “presenciaram” os três até um ponto limitado somente? E é
Marcos (William Hendriksen) 282
possível que a transfiguração pôde ter só três discípulos como
testemunhas oculares (Mt. 17:1; Mc. 9:2; Lc. 9:28), porque de outro
modo a proibição mencionada em Mateus 17:9 teria sido mais difícil de
cumprir? Não sabemos a ciência certa se estas eram as razões.
À vista de Mateus 16:16–19, não nos surpreende que Pedro
estivesse presente nos três eventos. É perfeitamente possível que a
afinidade espiritual de João com seu Mestre (era “o discípulo a quem
Jesus amava”, Jo. 13:23; 19:26; 20:2; 21:7, 10) fosse a razão de sua
inclusão neste círculo íntimo. Mas o que dizer de Tiago, o irmão de
João? Sem dúvida foi uma consideração especial da parte do Senhor para
com quem seria o primeiro dos Doze em selar seu testemunho com seu
sangue (At. 12:2). Foi-lhe outorgado o privilégio de ser incluído entre as
três testemunhas mais íntimas.
Estas são considerações que bem vale a pena levar em conta ao
tentar responder a pergunta, “Por que estes três?” Não obstante, deve
admitir-se francamente que o Senhor não revelou a resposta a esta
pergunta. É mais fácil entender por que era necessário que houvessem
testemunhas, ou seja, para que quando o tempo devido chegasse,
pudessem testificar à igreja com relação às coisas que tinham visto e
ouvido. Além disso, veja-se Dt. 19:15; Mt. 18:16; Jo. 8:17; 2Co. 13:1;
1Tm. 5:19.
38. Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço,
os que choravam e os que pranteavam muito.
Uma cena de confusão deu as boas-vindas a Jesus e aos três
discípulos quando entraram na casa do principal da sinagoga. Mateus
9:23 menciona a ruidosa multidão; Marcos, o ruído ou alvoroço. Era uma
multidão completamente desordenada.
Segundo o costume, o sepultamento era levado a cabo pouco depois
da morte, e por isso esta era a única oportunidade da multidão; e todos,
especialmente as carpideiras profissionais (cf. Jo. 9:17, 18) punham
grande empenho em cumprir seu trabalho, e talvez mais, pelo fato de que
um principal da sinagoga era um homem de muita importância! Ali havia
Marcos (William Hendriksen) 283
pranto, lamentos, gemidos e gemidos dos mais ruidosos. Davam alaridos
sem tentar refrear-se. E de vez em quando, ultrapassando os confusos
ruídos que saíam das gargantas dos lamentadores, podiam escutar-se as
agudas notas dos flautistas (Mt. 9:23).
39. Ao entrar, lhes disse: Por que estais em alvoroço e chorais?
A criança não está morta, mas dorme.
O que os lamentadores faziam estava totalmente fora de lugar, e isto
por duas razões: a. ao menos muitos deles não eram sinceros, segundo se
vê no versículo 40; e b. não havia razão aqui para pranto senão para
alegria, não para lamentar uma morte senão para celebrar um próximo
triunfo sobre a morte.
Naturalmente, não podemos condenar esta gente por não saber que
a vida devia triunfar sobre a morte. O que andava mal, na realidade, era
a. sua falta de sinceridade, e b. sua resistência a aceitar que o que Jesus
dizia a respeito da menina (que não estava morta mas dormindo) eram
palavras de revelação que mereciam uma solene reflexão, e não a
zombaria.
Jesus não queria dar a entender que a menina se achava em estado
de coma, e isto é claro pelas seguintes razões:
a. Lucas 8:53 nos diz que a multidão sabia que a menina estava
morta.
b. Lucas 8:55 afirma que, ao mandato de Jesus, “voltou-lhe o
espírito”. É evidente, portanto, que tinha havido uma separação de
espírito e corpo.
c. Em João 11:11 temos algo parecido. Jesus diz aos Seus
discípulos “Nosso amigo Lázaro dorme”. Mas no versículo 14 afirma,
“Lázaro morreu”.
Em ambos os casos o significado é que a morte não tem a última
palavra. Não é a morte, e sim a vida que vai triunfar afinal. Assim como
ao dormir natural segue o despertar, assim também aquela menina ia
despertar, sim, ia reviver.
40a. E riam-se dele.
Marcos (William Hendriksen) 284
Esta mesma expressão acha-se em Mateus 9:24 e em Lucas 8:53.
Provavelmente refere-se aos repetidos estalos de risadas zombeteiras
com objetivo de humilhar a Jesus. Parece que aqueles lamentadores
estavam dotados do duvidoso dom de mudar num instante do lúgubre
lamento à uma descontrolada risada Não é esta mesma risada uma
confirmação do fato de que a menina tinha morrido realmente? Não é
também um testemunho da autenticidade do resgate da menina das
garras da morte?

c. palavras de amor e de poder


40b–41. Tendo ele, porém, mandado sair a todos, tomou o pai e a
mãe da criança e os que vieram com ele e entrou onde ela estava.
Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi! , 217 que quer dizer: Menina, eu
te mando, levanta-te!
Jesus expulsou os zombadores autores da barafunda. Na habitação
onde jazia a menina morta, ficaram com Ele só os pais da menina e
Pedro, Tiago e João (veja-se o v. 37). O principal da sinagoga tinha
pedido ao Mestre que pusesse Suas mãos sobre a menina (v. 23).
Entretanto, Jesus faz algo ainda melhor, porque com autoridade, poder e
ternura toma a menina pela mão. Ao fazê-lo dirige-se a ela em sua
própria língua nativa (cf. CNT sobre Jo. 20:16), usando as mesmas
palavras com as quais provavelmente sua mãe despertou muitas vezes
pelas manhãs, ou seja, “Talitá cumi”. Para benefício dos leitores não
judeus, Marcos traduz isto livremente, “Menina, eu te mando, levanta-
te!.” 218
42. Imediatamente, a menina se levantou e pôs-se a andar; pois
tinha doze anos.
Imediatamente o espírito da menina volta para ela e se levanta.
Aparentemente começa a andar sem ajuda alguma. Agora que se achava
viva novamente, era natural que caminhasse, pois embora para seus pais
217
Ou: com base em outra leitura, “Talitha qumi (ou: cumi)”.
218
Filhinha … levanta-te” é tradução; “digo-te” é interpretação.
Marcos (William Hendriksen) 285
era a “garotinha” (v. 23, e veja-se também o v. 41), a única (Lc. 8:42),
ela sabia caminhar há anos, visto que já tinha doze anos de idade.
Marcos acrescenta provavelmente isto a fim de impedir que o leitor
interprete mal a carinhosa expressão “garotinha”.
Não nos surpreende ler: Então, ficaram todos sobremaneira
admirados; mais literalmente, “espantados com grande espanto”.
Momentos antes ela era um cadáver, imóvel, pálido. Agora está
caminhando, cheia de vida, saúde, e vigor. Portanto, o assombro dos
felicíssimos pais e dos três discípulos não conhece limites. E a este
assombro se deveram unir depois todos os que a viram.

d. palavras de tenra preocupação


43. Mas Jesus ordenou-lhes expressamente 219 que ninguém o
soubesse. 220
Quanto à possível razão ou razões do por quê desta proibição, veja-
se Mc. 1:44. Isto parece estar em conflito com o v. 19, onde Jesus ordena
que se faça o que aqui (v. 43) proíbe. Mas, afinal de contas, Decápolis,
com seu ambiente fortemente gentílico, não era Galileia. Embora a
Galileia estivesse muito mais submetida à influência dos gentios que a
Judeia (veja-se Mt. 4:15), era por sua vez muito mais judaica que
Decápolis. A Galileia estava cheia de fariseus, escribas, espiões, etc.
Indubitavelmente Jesus veio para a terra a fim de morrer, mas teria que
fazê-lo na hora predestinada, não antes.
As palavras de tenra preocupação são: e mandou que dessem de
comer à menina. Cf. Lc. 8:55. A proibição da primeira parte do

219
διεστείλατο aor. médio de διαστέλλω. Basicamente o verbo significa dividir ou distinguir.
Entretanto, em voz medeia, como aqui, desenvolve o sentido de emitir uma ordem; e com uma
partícula negativa (seja esta explícita ou implícita): proibir, ordenar não fazer isto ou aquilo, tomar
cuidado de. Veja-se também 7:36; 8:15; 9:9; cf. Mt. 16:20; At. 15:24; Hb. 12:20.
220
A partícula ἵνα vem seguida de γνοῖ, aor. subj. ativo de γινώσκω. Para formas similares, veja-se em
4:29; 8:37; e 14:10, 11.
Marcos (William Hendriksen) 286
versículo é seguida por um mandato ou exortação na segunda parte. 221
Jesus dá-se conta de que a menina, que por causa de sua fatal
enfermidade certamente não tinha comido durante algum tempo,
necessitava-o; e que os pais, extasiadas de alegria, poderiam passar por
alto esta necessidade. Por isso deu a ordem. 222
Este é um ponto muito importante. Não se deve deixar passar sem
lhe dar seu valor (cf. Is. 57:15). Primeiro Jesus triunfa sobre a morte;
logo acalma a fome, ou antes, impede que chegue a produzir-se. Seu
poder é insondável; e Sua compaixão não se pode medir.
Este é o mesmo Salvador que se prestou a sustentar a reputação de
um que duvidava (Mt. 11:1–19), e de aceitar as presunçosas condições
de outro (Jo. 20:24–29), que defendeu as viúvas (Lc. 18:1–8; 21:1–4),
ajudando-as em suas necessidades (Lc. 7:11–17), que tomou os pequenos
em seus braços e os abençoou (Mc. 10:16), que chorou pelos obstinados
habitantes de Jerusalém (Mt. 23:37–39), e que mostrou Sua bondade
para com uma mulher que era uma pecadora pública (Lc. 7:36–50).
Durante Sua própria e mais amarga agonia procurou um lar para Sua
mãe (Jo. 9:26, 27), a entrada ao paraíso para um ladrão (Lc. 23:43), e o
perdão para os Seus torturadores (Lc. 23:34). Inclusive depois de Sua
ressurreição é o mesmo Salvador de profunda ternura. Admiremos todo
Seu proceder com o homem que tão recentemente tinha renegado dEle!
(Mc. 16:7; Jo. 21:15–17). Este é o contexto em que se deveria ler a
preciosa passagem de Marcos 5:43b.

221
A que se deve que vários comentários nada dizem a respeito desta ordem tão reveladora? Outros só
se referem ao ponto gramatical, ou seja, que aqui achamos uma construção impessoal: Jesus não diz
que os pais eram os que deviam dar à menina algo de comer — por que teria ele que dizê-lo? Não se
acha implícito? —. Por meio do uso do infinitivo aor. pas. δοθῆναι, o que Jesus diz simplesmente é
que devia dar-lhe algo. Outros acrescentam que o próprio fato de que a menina estivesse em condições
de comer é prova de que não só se achava viva, mas também em boa saúde, ou prova de que a
ressurreição era verdadeira. Pelo lado favorável, alguns comentaristas — por exemplo, Lenski,
Robertson, e Taylor — procedem de melhor forma e afirmam claramente que o evangelista acrescenta
este detalhe a fim de revelar o maravilhoso cuidado de Jesus como grande Médico, e mostrar sua tenra
preocupação e compaixão. Isto é exatamente o essencial!
222
Um dos significados de εἶπεν (usado como aor. segundo de λέγω) é mandou, ordenou.
Marcos (William Hendriksen) 287
Ele é além disso, a Esperança dos desesperançados. Isto é o que
ensinou ao homem que não podia ser sujeito (Mc. 5:21); à mulher que
não tinha podido ser curada (vv. 25–34; Lc. 8:43); e ao pai a quem lhe
disseram que já não havia esperança (vv. 21–24; 35–43).

Resumo do Capítulo 5

O capítulo consiste em duas seções principais: os versículos 1–20


descrevem o endemoninhado gadareno, os versículos 21–43, um duplo
milagre: a. a restauração à vida da filha de Jairo; e b. A cura de uma
mulher que tocou o manto de Jesus.
Da história sobre o domínio da tempestade (4:35–41), Marcos
procede ao relato do milagre de dominar — , melhor que isso, restaurar
de maneira completa e maravilhosa — a um homem feroz, sem dúvida
um maníaco, mas acima de tudo e sobretudo, um endemoninhado.
O capítulo descreve a Jesus como a Esperança dos desesperançados.
Gradualmente se avança para com um emocionante clímax. 223 Descreve
um endemoninhado feroz e sem esperança; uma mulher
desesperadamente doente; e um pai angustiado até o desespero; em cada
caso estavam sem esperança “falando em termos humanos”. Mas agora,
observe-se o clímax, as pessoas em geral (vejam-se os vv. 3, 4) tinham
chegado a um ponto em que eram totalmente incapazes de sujeitar com
segurança o endemoninhado; a mulher não podia ser curada nem pelos
peritos (quer dizer, os médicos; veja-se o versículo 25; cf. Lc. 8:43); e,
naturalmente, nenhum poder do universo era capaz de levantar uma
menina dentre os mortos! Nem mesmo o Mestre? Nem mesmo o Mestre,
conforme pensavam todos. Observe-se a narração: “Falava ele ainda,
quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, a quem disseram:
Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre?”

223
Embora os três milagres do cap. 5 se introduzam nesta ordem: endemoninhado (v. 2), Jairo (v. 22),
mulher (v. 25), terminam neste ordem: endemoninhado (v. 20), mulher (v. 34), Jairo (v. 41–43).
Marcos (William Hendriksen) 288
Não obstante Cristo, em Sua majestade, poder, e compaixão,
triunfou sobre esta falta de esperança em cada um dos três casos:
expulsou os demônios e transformou o endemoninhado em missionário;
curou a mulher e aperfeiçoou sua fé, transformando-a de uma fé oculta
numa fé manifestada; e para maravilha de todos, não só fez voltar a
menina à vida, mas também até em Sua tenra bondade Ele Se preocupou
de que recebesse algo de comer!
A importância deste capítulo estriba em que não só se revela o
poder de Cristo, mas também Sua compaixão. Seu coração compassivo
fica a descoberto.
A lição principal, portanto é: “Entrega o seu coração ao
maravilhoso Salvador”.
Uma segunda lição é a seguinte:
“Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós
também” (Jo. 13:15).
“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em
amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós,
como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef. 5:1, 2).
Marcos (William Hendriksen) 289
MARCOS 6
Mc. 6:1–6a - Jesus é rejeitado em Nazaré
Cf. Mt. 13:53–58; Lc. 4:16–30 224

Com exceção dos fatos relatados em Mc. 5:17 e 5:40, a fé saiu


triunfante ao longo de todo o capítulo 5. Triunfou no caso do
endemoninhado curado, que deu testemunho disso (vv. 19, 20); da
mulher que tocou o manto de Cristo (28, 34), e de Jairo, que tomou
muito a sério a admoestação de Cristo, “Não temas, crê somente” (36; cf.
Mt. 9:18).
Mas embora o capítulo 5 possa ser chamado o capítulo da fé, o
presente capítulo merece o título de o capítulo sem fé. Nazaré carece de
fé. O mesmo sucede com Herodes, como também a muitos dos que
foram o objetivo de uma missão, e até em certo grau aos Doze (veja-se
os vv. 6, 11, 16, 52). Não obstante, a fé triunfa no final (vv. 53–56).
Os lamentadores (Mc. 5:40) “riram-se por debaixo” (no grego usa-
se um modismo), e o povo de Nazaré O olhe com desprezo (Mc. 6:3).
Jesus, impávido, multiplica Seus esforços em favor das boas novas. Não
só sai aos arredores ensinando pelas aldeias, mas também inclusive envia
os Seus discípulos a uma viagem missionária. Resultados? O “rei” ouve
a respeito de Jesus. Nazaré O critica? Sim, mas Herodes se encolhe de
temor, crendo que Jesus é João Batista que voltou à a vida. Foi Herodes
Antipas quem tinha ordenado a execução de João. A horripilante história
de sua decapitação se relata em Mc. 6:14–29.
Os Doze voltam de sua viagem missionária e com muito entusiasmo
informam ao seu Mestre. Jesus carinhosamente lhes diz “Vinde repousar
um pouco, à parte, num lugar deserto” (Mc. 6:31).

224
Com exceção da seção 2, dedicada a: A missão dos Doze (Mc. 6:6b–13; cf. Mt. 10:1, 5, 9–14),
Mateus 13:53–14:36 segue a mesma sequência de Marcos 6. Lucas 4:16–30 também segue de maneira
paralela às seções 2, 3, e 4 de Marcos 6. Mas as seções 5 e 6 — andando sobre as águas e as curas em
Genesaré — não se acham em Lucas.
Marcos (William Hendriksen) 290
Quanto aos resultados e acontecimentos posteriores, veja-se Mc.
6:32–56. Como Mateus se especializa nos discursos de Cristo, era de
esperar que dedicasse um capítulo inteiro à Missão dos Doze (cap. 10),
resumida em Marcos 6:6b–13 e em Lucas 9:1–6. Não existe acordo com
relação a por que o Evangelho de Lucas separa-se do que provavelmente
seja a sequência histórica. Lucas coloca a rejeição ocorrida em Nazaré na
primeira parte de seu Evangelho, quando relata o grande ministério na
Galileia, enquanto Mateus e Marcos lhe dão um lugar muito mais tardio.
Há aqueles que têm sugerido que houve duas rejeições em Nazaré. 225
Quanto ao resto, veja-se outros comentários sobre Lucas.
A continuação apresentamos as razões para crer que nos três
Evangelhos faz-se referência ao mesmo fato:
a. Os três Evangelhos têm o esboço geral da história: num sábado
Jesus entra na cidade onde fora criado. Ensina na sinagoga. Resultado:
assombro, crítica adversa, rechaço.
b. Em cada um dos três relatos a declaração pronunciado pelo
Senhor é essencialmente a mesma (Mt. 13:57; Mc. 6:4; Lc. 4:24).
c. O fundo histórico não cria dificuldades, visto que inclusive de
acordo com o relato de Lucas (veja-se Lc. 4:23), a rejeição de Cristo em
Nazaré não ocorreu no começo do ministério galileu mas muito depois.
A identificação dos fatos torna-se mais fácil porque, além do
sugerido em Lc. 4:23, não há referências cronológicas no relato de
Lucas. É evidente que, segundo Mateus 13:53, 54, a visita a Nazaré
ocorreu algum tempo depois de Jesus ter pronunciado Suas parábolas
sobre o reino, embora em nenhum lugar se indique quanto tempo depois.
Esta visita e rejeição tiveram lugar a fins de 28 d.C.? Esta possibilidade
deve ser considerada como aceitável.
Pelo que respeita a Marcos 6:1–6a (e seus paralelos em Mateus e
Lucas), estes são os detalhes que ali se registram e que não aparecem em
Mateus e Lucas: a. os discípulos de Jesus acompanham a Nazaré; b.

225
Robertson, Word Pictures I, p. 305; ao contrário: A. B. Bruce, Op cit., p. 377.
Marcos (William Hendriksen) 291
Jesus estava surpreso pela incredulidade do povo; e c. por causa desta
falta de fé não pôde realizar ali milagre algum. Com uma exceção, que
pôs suas mãos sobre uns poucos doentes e os curou.
Quanto a Mateus, além dos detalhes já indicados, seu relato
coincide em quase tudo com o de Marcos.
Lucas tem uma apresentação muita mais rica, usa 15 versículos para
relatar os fatos, enquanto Mateus só usa 6 e Marcos 5. Lucas nos
proporciona o texto e a essência do sermão de Cristo. Além de nos dizer
como O receberam, Lucas nos dá um relato muito mais completo (que
aquele que nos dão Mateus e Marcos) sobre a forma em que Jesus
respondeu às críticas, e sobre a hostil reação resultante.
1. Tendo Jesus partido dali, foi para a sua terra, e os seus
discípulos o acompanharam. 226
Algum tempo — não sabemos quanto — depois de abandonar
Cafarnaum, Jesus entrou em “sua terra”, quer dizer, o lugar onde fora
criado. A palavra que se utiliza no original e traduzida aqui por “sua
terra” significa basicamente “terra natal”, mas neste caso a explicação
“lugar onde tinha sido criado” é perfeitamente correta, segundo o prova
Lucas 4:16 (vejam-se também Mc. 6:4; Mt. 13:54, 57; Lc. 4:23, 24; Jo.
4:44. Cf. Hb. 11:14).
Embora Jesus tenha nascido em Belém (Mt. 2:5, 6; Lc. 2:4, 15; Jo.
1:45; 7:42; cf. Mt. 5:2), e durante grande parte de seu ministério público
teve seu centro de ação em Cafarnaum (Mt. 4:13), era e sempre foi
considerado como “Jesus de Nazaré” (Mt. 2:23; 21:11; 26:71; Mc. 1:24;
10:47; 14:67; 16:6; Lc. 18:37, etc.).
Resulta interessante observar que os Doze estão outra vez com seu
Mestre; contraste-se com Mc. 5:37. Há aqueles que interpretam isto no
sentido de que a visita a Nazaré não foi de natureza particular. Poderiam
ter razão.
Entretanto, embora assim tivesse sido, Marcos prossegue:

226
Ou: acompanharam.
Marcos (William Hendriksen) 292
2. Chegando o sábado, passou a ensinar na sinagoga; e muitos,
ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: Donde vêm a este estas
coisas? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais
maravilhas 227 por suas mãos?
Veja-se a declaração a respeito da sinagoga com relação a Mc. 1:39,
a seção dedicada especialmente a este assunto. Veja-se também sobre
Mc. 1:21ss. e 3:1. Por Lucas 4:17ss. sabemos que o “encarregado” da
sinagoga entregou a Jesus o rolo de Isaías. O texto que selecionou foi
Isaías 61:1, 2a; ou talvez esta porção de Isaías era a “haftará” (lição dos
profetas) para esse preciso sábado. Conforme relata Lucas, Isaías
predisse que na era vindoura o Espírito repousaria sobre o Ungido de
Deus, o qual proclamaria as boas novas aos pobres, liberdade aos
cativos, recuperação da vista aos cegos, liberdade aos oprimidos, “o ano
agradável do Senhor”.
Ao chegar a este ponto, assim continua este evangelista, Jesus
enrolou o pergaminho, devolveu-o ao encarregado, e estando todos os
olhos fixos nele, disse, “Hoje se cumpriu esta Escritura diante de vós”.
Afirmou que por meio dEle e Seu ministério, a notável promessa de
Isaías se estava cumprindo.
Em harmonia com Marcos, Lucas explica que a primeira reação da
parte da concorrência foi favorável. Jesus se tinha expressado com tal
convicção interna, vigor, autoridade, e graça que os que O conheciam
ficaram mudos de assombro.
Entretanto, esta reação favorável não durou muito. O entusiasmo
começou a transformar-se em crítica adversa. Claro, as palavras eram
maravilhosas, mas vindo dEle … dEle? Como poderia ser possível? De
onde obteve este homem … (se poderia traduzir: este tipo) … estas
coisas?”. Para o povo, as palavras do pregador eram totalmente
incongruentes com o homem que as pronunciava. Naturalmente, um

227
Ou: obras de poder; assim é também no v. 5 (aí no singular: obra de poder, milagre).
Marcos (William Hendriksen) 293
indivíduo comum, sem cultura, tal como “sabiam” (?) que era Jesus, não
correspondia revelar “esta classe” 228 de sabedoria!
Além disso, o que se podia dizer dos milagres ou “obras de poder”
que todos conheciam como obras “de suas mãos”, quer dizer, das quais
Ele era autor? O povo de Nazaré mal poderia negar os fatos. A distância
entre Nazaré e Cafarnaum era somente de uns trinta e três quilômetros, e
a congregação presente na sinagoga sabia que naquela cidade e em seus
arredores, Jesus, seu concidadão, tinha realizado muitas obras de poder
— pois isto é o que significa a palavra que se usa aqui para “milagres”
(veja-se Mc. 1:21–34; 40–45; 2:1–12; 3:1–6; 5:21–43). Mas de onde
procedia tudo isto? Cf. Mt. 11:28. Não lhes passava pela mente que Deus
pudesse ser a origem das palavras e também das obras de Jesus.
Além disso, se fez tudo aquilo em Cafarnaum — e eles não
rejeitaram os informes — então por que não fazia algo similar em
Nazaré? Que comece sua atuação! (veja-se Lc. 4:23). Acaso não devia
tudo isso à Sua própria cidade de origem? O evangelista Marcos põe
especial ênfase em: a. A procedência do ensino de Cristo, e b. A
natureza da sabedoria que inclusive O capacita a realizar milagres.
A reação depreciativa segue no versículo
3. Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José,
Judas e Simão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs?
Jesus o carpinteiro! Justino Mártir escreveu entre os anos 155 e 161
d.C., e em seu Diálogo com o Trifo LXXXVIII fala a respeito de Jesus
dizendo, “Ele costumava trabalhar como carpinteiro quando estava entre
os homens, fazendo arados e jugos”. A palavra “carpinteiro” usada no
original é tekton, relacionada com a nosso “técnico”. O verbo análogo
significa gerar, dar à luz, produzir. O tekton, em consequência, é
basicamente todo operário, qualquer que “produz”, “faz”, ou “cria” um
objeto. Poderia ser dito, todo “artesão” ou “construtor”, quer seja que os
materiais que usa consistam em madeira, pedra, metal, ou qualquer

228
Grego τίς = ποῖος.
Marcos (William Hendriksen) 294
outro. No caso presente devemos supor que o correto é “trabalhador da
madeira”, “carpinteiro” (veja-se a citação do Justino Mártir). Vale a pena
observar que aqui em Marcos, o próprio Jesus é chamado como “o
carpinteiro”, enquanto em Mateus 13:55 é chamado como “o filho do
carpinteiro”. Isto não deve ser considerado uma discrepância, visto que
bem pôde haver sido chamado das duas maneiras. Em tempos antigos, e
até relativamente recentes, ao escolher sua profissão, um filho seguia
com frequência os passos de seu pai.
O que os caluniadores queriam dizer era algo assim: “O que é que
um simples carpinteiro sabe a respeito de oratória e especialmente a
respeito de interpretação e cumprimento profético? Não é acaso o “filho
de Maria”? José nem sequer é mencionado, provavelmente porque por
aquele tempo já havia falecido.
Os irmãos de Jesus também são mencionados. Em primeiro lugar,
vem Tiago (cf. Mt. 13:55), um homem que depois de sua conversão
deveria ter proeminência na igreja primitiva cristã, especialmente em
Jerusalém (At. 12:17; 15:13–29; 21:18; 1Co. 15:7; Gl 1:19; 2:9, 12; Tg.
1:1; Jd. 1). Nada se sabe a respeito de José, mencionado a seguir
(chamado José também em Mt. 13:55), e que não se deve confundir com
o José de Marcos 15:40, 47. Segue-o Judas (cf. Mt. 13:55; Jd. 1); e
último de todos, Simão (cf. Mt. 13:55), tão desconhecido para nós como
José. Estes eram os irmãos de Jesus, nascidos da mesma mãe (veja-se
mais acima, sobre Mc. 3:31). No que respeita às irmãs, nunca são
mencionadas pelo nome. Supõe-se que se tinham casado e viviam então
com seus maridos em Nazaré.
“A familiaridade produziu menosprezo” quer dizer, o próprio fato
de que o povo de Nazaré conhecesse bem a família de Jesus, por ter-se
relacionado com eles por muito tempo, fez com que O olhassem de
forma depreciativa. O que se cria este carpinteiro? E escandalizavam-se
Marcos (William Hendriksen) 295
229
nele. Quer dizer, deixaram-se apanhar no pecado de O considerar uma
ofensa para eles.
4. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na
sua terra, entre os seus parentes e na sua casa.
Veja-se CNT sobre João 4:44, onde se acha substancialmente a
mesma expressão proverbial. Mas a palavra usada em João é patris, que
se refere ao país natal ou à “pátria” (quer dizer, Galileia), enquanto aqui
em Marcos 6:4 (e seu paralelo Mt. 13:57) usa-se uma palavra que se
refere ao povo onde foi criado, como é evidente pelo relato e por Lucas
4:16.
Poderiam ser dadas outras traduções, tais como: um profeta sempre
recebe honra exceto, etc., ou: nunca deixa de receber honra exceto, etc.,
ou: é sem honra só em, etc. Mas estas traduções não são exatas. Jesus
não disse que a um profeta é respeitado em todo lugar, exceto em seu
povo, entre os seus parentes, e em sua família. O que disse foi que onde
quer que um profeta recebe honra, certamente não será em sua própria
terra, etc.
Quanto à referência à sua família, esta deve ser interpretada à luz de
passagens como João 7:5 e Atos 1:14. Então se verá que no caso dos
irmãos de Cristo, a incredulidade se transformou mais adiante em fé,
pela graça de Deus.
Antes de deixar esta passagem deve-se assinalar que Jesus afirma
aqui implicitamente que Ele é verdadeiramente um profeta, com direito a
ser honrado como tal (cf. Dt. 18:15, 18; Mt. 21:11; Lc. 24:19; Jo. 9:17;
At. 3:22; 7:37).
O resultado do rechaço de Nazaré foi:
5. Ele não pôde fazer milagres em Nazaré, a não ser curar
alguns doentes, pondo as mãos sobre eles.
Os nazarenos tinham recebido mais luz e mais privilégios que os
gerasenos (Mc. 5:17), assim que ao rejeitar a Jesus, o povo de Nazaré

229
Para a palavra usada aqui no original, veja-se sobre Mr. 4:17, nota 147.
Marcos (William Hendriksen) 296
mostrou que neste aspecto eram piores que os gerasenos (Mc. 5:17).
Como O rejeitaram, não foram a Ele para que os curasse, nem levaram a
Ele os seus doentes. De modo que todos aqueles incrédulos e rebeldes
não receberam cura. Jesus não realizou nenhum milagre em favor deles.
Entretanto, pôs suas mãos sobre uns poucos doentes. Com relação à
expressão “doentes”, veja-se sobre o v. 13. Estes talvez foram a Ele, ou
pediram para serem levados. Dá-se por sentado que estes poucos foram
curados.
Agora, inclusive aqueles poucos podiam ter estado motivados por
considerações inferiores a uma fé autêntica, que às vezes é chamada “fé
salvadora”, ou talvez descrita melhor como “fé que pela graça de Deus
conduz à salvação”, a fé genuína a qual se faz referência em Jo. 3:16;
Rm. 5:1; Ef. 2:8, etc. Com base nas Escrituras, os teólogos falam de fé
histórica, fé temporal, fé em milagres, como também fé genuína que
conduz à salvação. 230 No caso presente bem pôde ter sido mera fé em
Jesus quanto autor de milagres. Em consequência, foi uma fé nos
milagres a que fez com que uns poucos fossem a Jesus para receber cura.
Mesmo assim, Jesus não costumava negar-se a curá-los (veja-se Lucas
17:17b). Por outro lado, se aqueles poucos eram verdadeiros crentes —
uma possibilidade que não deve descartar-se totalmente — então a
situação em Nazaré lembra a que em tempos posteriores existiu na igreja
de Sardes (veja-se Ap. 3:4. Cf. Is. 1:9; Jr. 31:7; Jl. 2:32; Lc. 12:32; Rm.
9:27; 11:5). A doutrina do “remanescente” percorre as Escrituras como
um fio de ouro. Mas qualquer pessoa que tivesse sido a situação daqueles
poucos, em seu conjunto os habitantes de Nazaré deram as costas a
Jesus. A grande maioria dos doentes ficou sem ser curado, e os
pecadores sem perdão.
Entretanto, a forma de expressar-se de Marcos difere algo da de
Mateus. Em Mateus 13:58 diz “E não fez ali muitos milagres, por causa
da incredulidade deles”. Marcos diz, “Ele não pôde fazer milagres em

230
Veja-se L. Berkhof, Teologia sistemática (Grand Rapids: TELL, 1969), pp. 600ss.
Marcos (William Hendriksen) 297
Nazaré”. Solução provável: não pôde realizar estes milagres porque, sob
tais circunstâncias de incredulidade e oposição, não os quis fazer. Em
lugar de fazer valer Seu grande poder para eliminar a oposição rebelde
do povo, respeitou a própria responsabilidade deles com relação a suas
atitudes e ações (cf. Mt. 24:37. Vejam-se também Lc. 22:22; At. 2:23).
A hostil atitude do povo a conduziu a uma ação hostil (Lc. 4:28, 29)
baseada na incredulidade. Isto suscitou na alma de Jesus o sentimento
que se descreve no versículo
6a. Admirou-se 231 da incredulidade deles.
Embora no original, o verbo assombrar-se ou admirar-se apareça
trinta vezes nos quatro Evangelhos, só em três casos usa-se com
referência a Jesus. Estes casos se referem a dois acontecimentos
distintos, um que aparece em Mt. 8:10 (cf. Lc. 7:9) e outro em Mc. 6:6.
Num caso Jesus se admira ou se assombra pela notável fé de um
centurião de origem gentílica. No caso daquele homem dificilmente
podia esperar-se tal fé, porque era muito menos privilegiado que os
judeus. Aqui em Nazaré, pelo contrário, Jesus está assombrado por causa
da falta de fé dos habitantes. Aqui se esperava que houvesse fé, porque
Nazaré era um povo da Galileia, a mesma Galileia que tinha sido tão
altamente privilegiada por meio do ministério de Jesus.
É muito difícil à mente humana entender a psicologia da alma
humana de Jesus. Por isso, antes de nos deter em detalhes relacionados
com esse tema, fixaremos nossa atenção no fato de que esta passagem
claramente revela a responsabilidade do homem por suas atitudes e
ações, com relação à luz que tenha recebido (Mt. 11:20–24; Lc. 12:47,
48; Rm. 2:12).

231
Ou: “maravilhava-se”, tempo imperfeito. Quanto ao verbo, veja-se sobre 5:20, nota 199.
Marcos (William Hendriksen) 298
Mc. 6:6b–13 - A missão encomendada aos Doze
Cf. Mt. 10:1, 5, 9–14; Lc. 9:1–6

6b, 7. Contudo, percorria as aldeias circunvizinhas, a ensinar.


Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois, dando-lhes
autoridade sobre os espíritos imundos.
Jesus nomeou os Doze depois de uma excursão de ensino pelas
aldeias da Galileia. Esta excursão docente e a nomeação daqueles doze
homens se combinam também em Mateus 9:35–10:4. A chamada como
tal, provavelmente ocorreu precisamente antes da pregação do Sermão
da Montanha (veja-se Lc. 6:12, 13, 17, 20). E a seguir (talvez algo mais
tarde, durante o mesmo verão do ano 28 d.C.?) o Mestre enviou estes
homens a obra missionária.
Note-se, “Passou a enviá-los”. Uma das interpretações deste passou
é que este trabalho era de natureza preliminar, a missão a Israel, seguida
pelo encargo de pregar o evangelho a todo mundo. Se Mateus 10:5, 6 for
contrastado com Mt. 18:19 (cf. Mt. 16:16; Lc. 24:47), este ponto de vista
poderia ter apoio. 232
Seja como for, um fato é claro: estes homens deviam ser
“apóstolos”, isto é, embaixadores oficiais de Cristo, homens revestidos
de autoridade para representar Àquele que os enviava. O fato de que
fossem doze homens, nem mais nem menos, os que receberam esta
encomenda, significa que o Senhor os designou para ser o núcleo do
novo Israel, porque o Israel da antiga dispensação também estava
representado por doze patriarcas. Cf. Ap. 21:12, 14.
Só Marcos relata que os discípulos foram enviados de “dois em
dois”. 233 Esta decisão por casais pode muito bem ser o que Mateus tinha

232
Entretanto, isto não é seguro. Este poderia ser um caso de uso pleonástico de ἄρχω. Veja-se
BAGD, p. 113. Também Vincent Taylor, Op. cit., p. 48, e mais acima sobre Mc. 1:45.
233
Embora a construção δύο δύο se considerasse um hebraísmo, não só aparece também em Esquilo e
Sófocles, mas também o moderno Novo Testamento Grego (Londres, 1943), conservou-o. Portanto,
esta repetição do número cardeal pode-se considerar como uma ilustração da coincidência entre a
Marcos (William Hendriksen) 299
em mente em Mt. 10:2–4 (veja-se CNT sobre essa passagem). Se for
perguntado por que de dois em dois, vêm-nos à mente imediatamente
várias considerações práticas tais como a. para ajudar-se e alentar-se um
ao outro (cf. Ec. 4:9) e b. para ser testemunhas válidas (Nm. 35:30; Dt.
19:15; Mt. 18:16; Jo. 8:17; 2Co. 13:1; 1Tm. 5:19; Hb. 10:28). Tempo
mais tarde observamos que Pedro e João oferecem seu testemunho unido
(At. 3:1; 4:1, 13, 19); que Barnabé e Saulo são enviados juntos em sua
viagem missionária (At. 13:1–3); e que depois Paulo e Silas juntos são
“encomendados pelos irmãos à graça do Senhor” (At. 15:40); e não
esqueçamos a Barnabé e Marcos! (At. 15:39).
Aos Doze foi dada autoridade sobre os espíritos imundos; quer
dizer, Jesus lhes comunicou o direito e o poder de expulsar estes
demônios do coração e vida dos homens. Cf. v. 13a; Mt. 10:1. Quanto a
maior informação a respeito da possessão demoníaca veja-se mais acima,
sobre Mc. 1:23; também CNT sobre Mt. 9:32–34.
Embora o resumo da missão que se consigna em Marcos 6:7, nada
se diz a respeito de pregar nem de curar doentes, estas duas funções
deviam ser incluídas na missão encomendada. A ordem de pregar está
incluída no versículo 11 (“nem vos ouvirem”) e no versículo 30 (“e lhe
relataram tudo quanto haviam feito e ensinado”); o mandato de curar os
doentes está indicado no versículo 13b. Não se sabe por que o relato do
encargo da missão não menciona a pregação e a cura. Alguns respondem
que o dom maior (autoridade para expulsar demônios) encerra o menor
(pregar e curar doentes). Esta resposta me chama a atenção por ser
menos que satisfatória, por mais de uma razão. Veja-se os versículos 12,
13. Com relação à frase “espíritos imundos” veja-se Mc. 5:2.

fraseologia vernácula de idiomas distintos. Sobre este ponto veja-se A. Deissmann, Light from the
Ancient East (tradução ao inglês, Nova York, 1927), pp. 122, 123.
Marcos (William Hendriksen) 300
234
8, 9. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto
um bordão; nem pão, nem alforje, nem dinheiro; que fossem
calçados de sandálias e não usassem duas túnicas. 235
Nesta viagem não levariam nada mais que o absolutamente
necessário. Por que? Porque Deus proveria. Os discípulos, agora também
apóstolos, deviam depositar sua confiança inteiramente nEle. Sem
dúvida que esta é a razão fundamental (veja-se Mt. 6:19–34; Mc. 8:19–
21; Lc. 22:35). A isto se pode acrescentar Mt. 10:10b, “digno é o
trabalhador do seu alimento”, que significa: A responsabilidade de
prover para quem prega o evangelho, recai sobre aqueles que o ouvem.
Isto também concorda com o ensino do Antigo e do Novo Testamento:
Dt. 25:4; 1Co. 9:7, 14; e veja-se também CNT sobre 1Ts. 2:9 e 1Tm.
5:18.
A lista das coisas a levar e (principalmente) não levar, consistia nos
seguintes artigos, na ordem que se mencionam aqui nos versículos 8 e 9:
Bordão. 236 No grego não bíblico refere-se às vezes a uma vara
mágica. Outros significados são: vara de pescar, raio de luz com
aparência de vara, etc. No Salmo 23:4 (LXX 22:4) a palavra faz
referência ao cajado de um pastor. Cf. Mt. 7:14. No Novo Testamento a
vara é às vezes um instrumento de castigo (1Co. 4:21), significado que
se relaciona facilmente com “a vara de ferro” de Ap. 2:27; 12:5; 19:15.
Logo temos também o cetro real (Hb. 1:8); a vara que dá suporte, para
apoiar-se nela (Hb. 11:21); e a vara de Arão que floresceu (Hb. 9:4).

234
Ou: para a viagem.
235
Quanto à construção gramatical dos vv. 8, 9, note-se que o ἵνα não indica propósito no v. 8, mas
sim é recitativo: “mandou-lhes que não levassem nada”. Em consequência: “Mandou-lhes não levar
nada”. O v. 9 (conforme ao melhor texto) transforma o ἵνα numa construção acusativa, com
πορεύεσθαι implícito: ἀλλὰ (πορεύεσθαι) ὑποδεδεμένους σανδάλια = “e sim (viajar) calçados com
sandálias”, o que se pode simplificar dizendo “e sim calçar sandálias” (veja-se Robertson, p. 441).
Este característico não se deve considerar estranho, visto que construções gramaticais heterogêneas de
caráter similar podem ser achadas em muitos idiomas fora do grego do Novo Testamento. A
conversação diária contribui com muitos exemplos.
236
As seis palavras usadas no original são: ῥάβδος, ἄρτος, πήρα, χαλκός, σανδάλιον, χιτών.
Marcos (William Hendriksen) 301
Mas aqui em Marcos 6:8 e seus paralelos, refere-se ao bordão do
viajante.
Pão. Aqui e em Lucas 9:3 esta palavra usa-se genericamente.
Alforje. Era um tipo de mochila ou bolsa “para o caminho” ou para
“viajar”. É uma bolsa que, antes de sair, a pessoa encheria com as
provisões necessárias para a viagem. Por causa do contexto, que parece
constituir uma espécie de clímax: “Não tomem convosco pão, nem
mesmo bolsa para levá-lo, na realidade, nem sequer dinheiro para
comprá-lo”, a ideia de que se refere à “bolsa de esmoleiro” (A.
Deissmann, Op. cit., p. 109) carece de possibilidades. Além disso, como
Mateus 10:10b indica claramente, Jesus não considera os apóstolos como
mendigos!
Dinheiro. A palavra que se utiliza no original tem o sentido básico
de cobre, latão, bronze. Em segundo lugar, pode-se referir a qualquer
coisa feita de algum destes metais. Veja-se 1Co. 13:1. Em consequência
pode-se referir também a moedas, troco; assim parece ser aqui em
Marcos 6:8; cf. 12:41. Note-se a expressão “nem dinheiro no cinto”
[RC]. Ao enrolar ou cingir um cinturão, de qualquer material, ao redor
do corpo com várias voltas, suas dobras serviriam admiravelmente como
“bolsos” para levar dinheiro ou outros valores. Até hoje em dia os que
saem ao estrangeiro com frequência levam dinheiro ou cheques
viajantes, etc., num cinturão por razões de segurança.
Sandália; aqui o plural sandálias. Em Mateus 10:10 usa-se um
sinônimo, com pouca ou nenhuma diferença quanto ao significado (veja-
se também Mt. 3:11; Mc. 1:7; Lc. 3:16; 10:4; 15:22; 22:35; At. 13:25).
Consistiam em solas planas feitas de madeira ou de couro, ou inclusive
de fibras vegetais entretecidas. Para impedir que caíssem eram sujeitas
com cintas ou cordões.
Túnica; aqui no plural duas túnicas. Era uma espécie de camiseta
longa que se usava tocando a pele. Chegava quase aos pés e tinha
aberturas para os braços (Cf. Mt. 5:40; 10:10; Lc. 3:11; 6:29; 9:3). Em
Marcos 14:63, o plural refere-se a roupa em geral.
Marcos (William Hendriksen) 302
Até aqui não parece haver grande dificuldade. Mas, conforme o
indica a seguinte tábua, parece haver discrepância ou conflito com
relação a dois artigos: o bordão e as sandálias.

Deviam levar o seguinte para a viagem?

Artigo Mt. 10:9, 10 Mc. 6:8, 9 Lc. 9:3


bordão Não Sim Não
Pão - Não Não
alforje Não Não Não
dinheiro Não Não Não
sandálias Não Sim -
duas túnicas Não Não Não

Parece que segundo Marcos, Jesus desejava que Seus discípulos


levassem um bordão; mas segundo Mateus e Lucas, disse-lhes que não o
levassem. Conforme Marcos, o Mestre desejava que levassem sandálias,
mas conforme Mateus (cf. Lc. 10:4 na missão dos setenta ou dos setenta
e dois) foi proibido.
Não se ofereceu uma solução que satisfaça universalmente.
Há escritores que aceitam discrepâncias ou contradições 237 e que
frequentemente se referem a distintas fontes, às vezes conflitivas, de
onde, segundo seu modo de ver, os escritores dos Evangelhos extraíram
seu material.
Outros — e há vários — evitam prudentemente todo o problema.
A solução de Calvino com relação ao bordão é que Mateus e Lucas
se referem à uma “vara” que poderia resultar incômoda, e por isso devia
deixar-se em casa, conquanto Marcos, embora use a mesma palavra,

237
Assim, por exemplo, M. H. Bolkesteyn, Vincent Taylor, R C. Grant, H. A. W. Meyer
(enfaticamente) em seus respectivos comentários sobre Marcos 6:8, 9. Para os títulos de seus livros,
veja-se a bibliografia.
Marcos (William Hendriksen) 303
pensa num “bordão” para apoio e alívio do viajante. Calvino não explica,
entretanto, por que nos dois relatos paralelos a mesma palavra pode ter
dois significados diferentes.
A solução, segundo a este intérprete, encontra-se provavelmente em
Mateus 10:9, 10: “Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de
cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas
túnicas, nem de sandálias, nem de bordão”. O que Mateus provavelmente
quer dizer é, “Não levem um par de sandálias de sobra”. Isto parece ser
ainda mais provável à vista do fato de que em seu Evangelho, a
referência às sandálias segue imediatamente à ordem contra levar duas
túnicas. Portanto, a advertência de não levar coisas de sobra
provavelmente se estende ao seguinte artigo, sandálias, e ao seguinte,
bordão. Se isto é correto, então o que Jesus diz também aqui em Marcos
é: não se deve levar uma túnica de sobra, nem sandálias de sobra, nem
bordão de sobra.238 O bordão que têm em suas mãos tem que ser o único
bordão que levem; as sandálias que usarão serão as que agora levam.
10. E recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa,
permanecei aí até vos retirardes do lugar [dessa cidade].

238
Seguem também esta linha S. Greijdanus, Het Heilig Evangelie naar de Beschrijving van Lucas
(Comentar op het Nieuwe Testament, Amsterdam, 1940), p. 403; Lenski, Op. cit., p. 152.
Os que zombam deste esforço e com frequência buscam a solução fazendo referência a supostas
fontes que continham material em conflitivo. Além de que algumas destas “fontes” ainda esperam ser
descobertas, não se pode ir a fontes desconhecidas como se isto fosse uma panaceia para a solução dos
problemas do Novo Testamento. Esta gente não se dá conta de que assim criam outros problemas. Por
exemplo, alguns argumentam que Mateus contém a declaração original. Se isto quer dizer que Jesus
tinha mandado a Seus discípulos que viajassem descalços, mas que Marcos (ao escrever a leitores de
cultura ocidental) admite sandálias para acomodar-se a eles, produz-se então o seguinte enigma:
a. A expressão “sacudir o pó dos pés” (Mt. 10:14; Mc. 6:11; Lc. 9:5, com ligeiras variações quanto a
palavras) deveria significar uma coisa em Mateus e Lucas, outra em Marcos.
b. Segundo a interpretação que eles fazem de Mateus, não se explica por que Jesus devia enviar aos
discípulos descalços, acrescentando mais problemas a seu trabalho.
c. Tampouco se explicou como a igreja primitiva permitiu que a (suposta) discrepância ficasse sem
resolver.
d. Além disso, nas Escrituras o estar descalço está associado a ideias totalmente diferentes (Êx. 3:5;
2Sm. 15:30; Is. 20:2; Ez. 24:17).
Marcos (William Hendriksen) 304
A forma em que os discípulos deviam decidir em que casa ficar é
indicado em Mateus 10:11. Era o dever dos ouvintes oferecer
hospitalidade, e com maior razão pelo fato de que os viajantes
enriqueciam as pessoas com a pérola de grande preço. E os visitantes
também deviam mostrar um espírito de cooperação. Não deviam ser tão
exigentes que, quando na casa algum detalhe não fosse de seu agrado,
saíssem imediatamente e entrassem em outra onde os confortos fossem
mais agradáveis e a comida mais saborosa. A extensão do evangelho tem
prioridade sobre os assuntos pessoais que nos agradam ou não nos
agradam. Portanto, os missionários — não só quando viajavam, mas
também provavelmente também ao alojar-se de dois em dois — deviam
permanecer no lar que foi tão bondoso ao lhes oferecer hospitalidade.
Uma lição muito prática!
11. Se nalgum lugar não vos receberem nem vos ouvirem, ao
sairdes dali, sacudi o pó 239 dos pés, 240 em testemunho contra eles.
Depois de viajar por território pagão, os judeus tinham por costume
sacudir o pó de suas sandálias e roupa antes de entrar na Terra Santa. 241
Temiam que, de não fazê-lo assim, os objetos leviticamente limpos de
sua pátria pudessem tornar-se imundos. O que Jesus diz aqui, portanto, é
que qualquer lugar, quer casa, aldeia, cidade ou casario, que recusasse
aceitar o evangelho deveria considerar-se imundo, como se fosse só
pagão. Portanto, tal foco de incredulidade devia ser tratado da mesma
forma. Paulo e Barnabé fizeram exatamente isto quando se organizou
contra eles uma perseguição no distrito judaico de Antioquia da Pisídia
(At. 13:50, 51). Sobre semelhante lugar repousa uma responsabilidade
colossal e uma pesada carga de culpa. Veja-se Mt. 10:15.
Os Evangelhos mostram certas variações ao registrar as palavras
que Cristo usa ao dar Suas instruções. Estas diferenças bastam para

239
Literalmente Mateus e Marcos falam de “sacudir fora”, Lucas, de “sacudir”. A diferença é
pequena.
240
Literalmente: “desde debaixo de seus pés”.
241
SB. I, p. 571.
Marcos (William Hendriksen) 305
mostrar que mesmo quando os escritores dos Evangelhos, com toda
probabilidade, usaram fontes escritas assim como orais, sempre se
mantêm como os escritores ou autores, e jamais meros copistas. Assim,
no original de Mateus (10:14) e Lucas (9:5) usa-se uma palavra para pó,
enquanto Marcos (6:11) usa outra, 242 mas em ambos os casos a tradução
correta é “pó”. Assim também, Mateus menciona “aquela casa ou
cidade”, Marcos “algum lugar”, Lucas “aquela cidade”, mas não há
diferença importante. Com relação a isto, Mateus nada diz a respeito de
um testemunho; mas veja-se Mt. 10:15. Marcos escreve sacudi o pó dos
pés, em testemunho contra eles”; Lucas: “em testemunho contra eles”.
Mas corretamente interpretado, o significado é o mesmo. Em cada caso a
ação simbólica, em obediência ao mandato de Cristo, é uma declaração
pública do desagrado divino que pesa sobre o lugar em que o evangelho
foi rejeitado. O testemunho dirigido “a” eles é portanto um testemunho
“contra” eles … para que se arrependam. Cf. Ap. 16:9.
É uma revelação da evidente desaprovação de Deus, porque os que
espalham as boas novas são Seus embaixadores e levam Sua palavra. De
modo que ao rejeitá-los, esta gente ímpia está rejeitando a Deus; ou, se
preferir-se, a Cristo.
12, 13. Então, saindo eles, pregavam ao povo que se
arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos
enfermos, ungindo-os com óleo.
Observe-se o seguinte:
a. Saindo eles, pregavam. Fizeram o papel de arautos. A pregação,
se o leitor é fiel ao significado original do termo, é a proclamação
fervorosa das novas iniciadas por Deus. Não é a especulação abstrata
sobre pontos de vista inventados pelo homem (veja-se também 14, 7, 14,
38, 45; CNT sobre 2Tm. 4:2).

242
Respectivamente κονιορτός (de κόνις y ὄρνυμι; em consequência, o que é agitado do solo; p.ej.,
por obra de um brioso corcel, cf. Lc. 10:11; At. 13:51; 22:23); e χούς a terra que se adere às vestes;
em Ap. 18:19 o pó que as pessoas intensamente tristes lançavam sobre sua cabeça.
Marcos (William Hendriksen) 306
b. Pregaram “pregavam ao povo que se arrependesse”
[convertesse]. Quanto ao significado do importante verbo que se usa no
original, veja-se sobre Mc. 1:15. Sem dúvida indica arrependimento, mas
a palavra tem um significado muito mais rico.
c. Em “pregavam”, o original usa um tempo verbal, e em
“expulsavam” e “ungiam” outro.243 Isto bem pode indicar que a tarefa
principal dos discípulos era pregar. Mas de vez em quando, com relação
à pregação e como confirmação aprovada e ordenada por Deus da
veracidade de sua mensagem e do genuíno caráter de seu chamado, estes
homens realizavam milagres de cura. 244
d. Expulsavam muitos demônios. Poderia dizer-se que tinham muito
êxito nesta atividade. Os discípulos nem sempre tinham êxito na
expulsão dos espíritos imundos, como se vê claramente em Mc. 9:18.
Além do poder outorgado por Deus, eles por si só não o tinham. Isto nos
ensina também por que a oração era de primordial importância, como
uma lição que aqueles homens precisavam aprender. Veja-se no v. 7 para
o relacionado com a possessão demoníaca e a expulsão de demônios.
e. “Ungiam com óleo …” [TB]
Em tempos bíblicos usava-se óleo de um tipo ou outro (com
frequência azeite de oliva) com distintos fins: como cosmético (Êx. 25:6;
Rt. 3:3; Lc. 7:46); como alimento, em lugar de manteiga (Nm. 11:8; Dt.
7:13; Pv. 21:17); para iluminação (Êx. 25:6; 27:20; Mt. 25:3, 4, 8); como
símbolo de graça e poder divinos na consagração de uma pessoa para um
ofício (Lv. 2:1ss.; Nm. 4:9ss.; Sl 89:20); com relação às ofertas (Ez.
45:14, 24; 46:4–7, 11, 14, 15); e com relação ao enterro (Mc. 14:3–38;
Jo. 12:3–8).
É evidente por Lucas 10:34, que o óleo era usado como remédio
físico; o bom samaritano lançou óleo e vinho sobre as feridas do homem
que tinha caído em mãos de ladrões.245 É um fato que no mundo antigo o
243
Note-se o aor. ἐκήρυξαν, e cf. com os imperfeitos ἐξέβαλλον e ἤλειφον.
244
Cf. H.B. Swete, Op. cit., p.119.
245
Quanto a Tg. 5:14, vejam-se comentários sobre esse livro.
Marcos (William Hendriksen) 307
óleo é usado extensamente como remédio. Não disse Galeno, o grande
doutor grego, “O óleo é o melhor dos remédios para curar as
enfermidades do corpo”?
A pergunta, então, é, “Segundo se menciona aqui em Marcos 6:13,
usaram os discípulos o óleo como remédio?” A resposta, segundo a
opinião deste intérprete é que provavelmente não o fizeram. Era com
toda probabilidade um símbolo da presença, graça e poder do Espírito
Santo.
Zacarias 4:1–6 deixa claro que o azeite se usou às vezes como
símbolo da fortificante presença e poder do Espírito. Neste sentido,
Mateus 25:2–4 também merece ser considerado. À luz de Êxodo 25:37 e
Zacarias 4:1–6, examine-se também Isaías 11:2 e Apocalipse 1:4, 12.
Agora, se isso for verdade, então a unção dos doentes com azeite
significava: “Deve esperar-se a cura de Deus e não de nós”. Significava
que “Seu Espírito pode curar o corpo e a alma”.
Outros expositores contribuíram com valiosas explicações sobre
este uso do azeite, como segue:
“O azeite é um símbolo bíblico da presença do Espírito, e assim a
própria unção é uma parábola ‘encenada’ da cura divina”. 246
“O azeite deve considerar-se aqui como sinal visível da energia e da
graça espiritual que lhes foi comunicado (aos apóstolos).247
“As curas eram sempre milagrosas e instantâneas: o azeite de oliva
jamais age de tal maneira”. 248
“A unção era um específico frequente … em tratamentos médicos
comuns, e isto sugeriria seu uso no simbolismo da cura sobrenatural”. 249
“Jesus e Seus discípulos curavam os doentes tocando-os e pelo
poder da palavra, e não por meio da aplicação de azeite”. 250
246
R. A. Cole, Op. cit, p. 109.
247
J. A. C. Van Leuwen, Op. cit., p. 75.
248
R. C. H. Lenski, Op. cit., p. 155.
249
E. P. Gould, The Gospel according to St. Mark (The International Critical Commentary, Nova
York, 1970), p. 108.
250
E. R. Groenewald, Op. cit., p. 140.
Marcos (William Hendriksen) 308
O fato de que: a. na opinião pública o azeite já tinha relação com a
cura, e b. segundo já se tem dito, era o símbolo da presença e o poder do
Espírito Santo, fez com que seu uso fosse compreensível, especialmente
durante o começo da proclamação do evangelho. Daí que o achamos
mencionado aqui, em que provavelmente era o evangelho mais cedo, e
em Tiago 5:14 (pela razão que seja) no que bem pôde ter sido a mais
anterior das epístolas canônicas. Ao transcorrer o tempo e incrementar o
conhecimento espiritual, o azeite deixa de mencionar-se. Aparentemente
já não se considerava necessário para o ensino. O sacramento católico
romano da extrema-unção nem sequer é sugerido aqui, porque esse rito é
administrado diante da possibilidade da morte iminente, enquanto a
unção mencionada aqui em Marcos 6:13 ocorre num contexto em que ao
doente lhe dão uma nova esperança de vida.
Jesus curava muitos doentes. A palavra que se utiliza no original se
acha também em Mateus 14:14; Marcos 6:5; 16:18; e 1 Coríntios 11:30,
e contempla os doentes em seu estado de impotência. São fracos e
frágeis, mas Jesus, mediante o Espírito, pode torná-los fortes.

Mc. 6:14–29 - A perversa festa de aniversário de Herodes e A morte


horripilante de João Batista
Cf. Mt. 14:1–12; Lc. 9:7–9

14, 15. Chegou isto aos ouvidos do rei Herodes, porque o nome de
Jesus já se tornara notório; e alguns 251 diziam: João Batista ressuscitou
dentre os mortos, e, por isso, nele operam forças miraculosas. Outros
diziam: É Elias; ainda outros: É profeta como um dos profetas.
Esta história é introduzida sem nenhuma referência temporal; quer
dizer, não temos informação sobre quanto tempo depois dos eventos já
relatados, chegaram a Herodes as notícias relativas aos poderes
milagrosos que tinha Jesus. Não obstante, podemos inferir das palavras

251
Há considerável apoio textual para a versão “ele (Herodes) dizia”.
Marcos (William Hendriksen) 309
“João Batista ressuscitou dentre os mortos” aqui chegamos a um período
que se estende para além da execução de João, a qual por sua vez,
ocorreu provavelmente meses depois do começo de seu encarceramento.
É provável que o assassinato do arauto de Cristo ocorresse em, ou perto
do começo do ano 29 d.C. 252
O “Herodes” ao qual se faz referência aqui e em todas as passagens
dos Evangelhos (exceto em Mateus 2:1–19 e Lucas 1:5, onde se refere a
seu pai, “Herodes, o Grande”, ou “Herodes I”) é aquele que foi
designado tetrarca sobre a Galileia e Pereia depois da morte de seu pai.
Este Herodes esteve no cargo desde ano 4 d.C. ao ano 39 d.C. Foi filho
de Herodes, o Grande e Maltace a samaritana. Embora nos Evangelhos
(e em At. 4:27; 13:1) seja chamado simplesmente “Herodes”, em outros
lugares (veja-se, por exemplo, Josefo, Guerra Judaica I. 562) é
frequentemente chamado “Antipas”. Portanto, pode-se chamá-lo
“Herodes Antipas”.
Marcos escreve: “Chegou isto aos ouvidos do rei Herodes …”. O
título de “rei” é usado aqui em sentido indefinido, muito geral ou
popular, porque tecnicamente falando este homem não era rei e jamais
chegaria a ser (veja-se o v. 28).
O que foi que Herodes ouviu? Sentimo-nos tentados a responder:
“Ouviu a respeito da missão que Cristo encomendou os Doze e da forma
em que se desenvolveram, porque este foi o tema da seção recém-
acabada”. Não obstante, como o contexto indica, a referência é mais
ampla e está centralizada no próprio Jesus, o que é evidente pelo fato de
que Marcos diz a seguir “porque o nome de Jesus já se tornara notório”.
A seção precedente do Evangelho de Marcos nos indicou que, à voz
de Cristo, inclusive os doentes sem esperança eram curados imediata e
completamente, os leprosos eram purificados, as tempestades eram
acalmadas, os demônios eram expulsos, e uma menina que tinha morrido
252
Veja-se uma análise das prováveis data em que ocorreram os diversos eventos do ministério de
Cristo no CNT, Evangelho segundo João, Introdução III, e pp. 200, 201; também mimha Bible Survey,
pp. 59–62.
Marcos (William Hendriksen) 310
voltou à vida. Por isso, não é de estranhar que o nome e a fama dAquele
que tinha realizado tudo isto se tornou bem conhecidos. O que, sim, é
algo estranho é que tivesse transcorrido tanto tempo sem que as notícias
tivessem chegado aos ouvidos de Herodes. Uma explicação possível
poderia ser que o palácio onde ele estava então, provavelmente
Macaerus, na margem oriental do mar Morto, fosse longe demais de
Cafarnaum para que as notícias lhe tivessem chegado antes.
O rei ouviu a respeito “dos poderes milagrosos” 253 de Jesus. Os
informes que lhe chegaram representavam três opiniões:
a. Algumas pessoas 254 estavam convencidas de que Jesus era João
Batista que tinha voltado à vida. Isto pode parecer estranho, visto que as
Escrituras em nenhum lugar atribuem milagres ao Batista. Mas é
provável que este grupo tivesse João em tão alta estima, que lhe
atribuíssem a capacidade de realizar milagres.
b. Outro grupo dizia, “É Elias”. Não havia predito Malaquias a volta
de Elias (Ml. 4:5) como precursor do Messias? (cf. Is. 40:3; e veja-se
mais sobre Mc. 1:1–3).
c. Mas o terceiro grupo, sem querer ser tão definido, estava
convencido de que Jesus era um dos grandes profetas do Antigo
Testamento.
Veja-se também em 8:28.
O rei — talvez depois de alguma vacilação, a que Lucas 9:7–9 faz
referência — aceitou a primeira destas três opiniões, o que é claro pelas
palavras do versículo
16. Herodes, porém, ouvindo isto, disse: É João, a quem eu
mandei decapitar, que ressurgiu.

253
Aqui o plural de δύναμις (cf. dinamite) tem um significado ligeiramente diferente ao que tem a
mesma palavra nos vv. 2 e 5. Nestes, a referência é ao milagre (ou: milagres) mesmo; aqui no v. 14 o
significado é “poderes milagrosos” ou “o poder para realizar milagres”.
254
Embora a leitura, “Ele (Herodes) dizia” tem bastante apoio, o que segue “mas outros …” … “e até
outros …”, favorece o texto em plural (ἔλεγον em lugar de ἔλεγεν) tanto para o v. 14 como também
(duas vezes) para o v. 15.
Marcos (William Hendriksen) 311
Esta foi a resposta de sua mórbida e febril imaginação, influenciada
por uma consciência culpada. Tal como Mateus mostra, isso foi o que
disse aos seus servos.
Herodes declarou: “O homem a quem eu decapitei … ressuscitou”,
e Marcos compreende que esta declaração requer explicação e
ampliação. Portanto, aqui passa a relatar a história do encarceramento e
execução de João Batista:
17, 18. Porque o mesmo Herodes, por causa de Herodias, mulher de
seu irmão Filipe (porquanto Herodes se casara com ela), mandara
prender a João e atá-lo no cárcere. Pois João lhe dizia: Não te é lícito
possuir a mulher de teu irmão.
Antes de entrar nos detalhes desta narração, viria bem ao caso uma
observação referente à contribuição de Marcos. Admiramos a brevidade
de Lucas e a reserva de Mateus. Na realidade, Lucas 9:7–9 apresenta o
que poderia ser uma etapa no marco histórico. Toca brevemente em
alguns pontos: a admissão de Herodes (“eu decapitei a João”), sua
confusão mental (“Quem, pois, é este, de quem ouço tais coisas?”), seu
anelo (“E procurava ver a Jesus”). Se compararmos Mt. 14:3–12 com o
relato de Lucas, podemos dizer que Mateus proporciona um resumo
completo dos eventos que conduzem à morte do Batista, com ênfase na
palavra completo; e se for comparado com o relato de Marcos, trata-se de
um resumo, com a ênfase na palavra resumo. Para conhecer a história de
forma mais detalhada devemos ir a Marcos (Mc. 6:17–29). Somente aqui
diz-se claramente o que em Mateus se insinua, quer dizer, que Herodes
se casou com Herodias, a esposa de seu irmão Filipe. Somente aqui se
informa sobre a ira de Herodias contra o Batista (“Herodias o odiava,
querendo matá-lo”), porque denunciou esta relação incestuosa e adúltera
em termos valentes e inconfundíveis.
Por acaso existe em todo o Novo Testamento uma só passagem que
retrate mais vivamente a raivosa tormenta na consciência de um
governante? Vejam-se os vv. 19b, 20. E quanto ao desenlace da
narração, comparem-se as cinco citações diretas (nos vv. 22b–25) com a
Marcos (William Hendriksen) 312
única citação direta de Mateus (Mt. 14:8). Indubitavelmente, cada
Evangelho tem uma beleza que lhe é própria. Todos são completamente
inspirados. Seria precipitado elogiar um Evangelho sobre outro. A
reserva de Mateus harmoniza tão bem com o propósito que o guia como
o é a afeição de Marcos pelos detalhes vivos, refletindo indubitavelmente
o ensino de uma testemunha ocular, o efervescente Pedro. Mas louvado
seja o Senhor por ter dado à igreja, em Sua sabedoria, não só Mateus,
Lucas e João, mas também o homem que como narrador de histórias
ocupa o primeiro lugar entre os quatro, ou seja, João Marcos!
“Porque, por ordem de Herodes, João tinha sido detido …”. se
poderia dizer também, “Porque, Herodes tinha ordenado — ou fez com
que João fosse detido, 255 preso, e lançado no cárcere”.
Tudo isto sucedeu “por causa de Herodias”. Quem era esta
Herodias? Era a filha de Aristóbulo, filho de Herodes o Grande e
Mariamne I. Herodias se casou com seu tio Herodes Filipe (que por sua
vez era meio-irmão do pai dela). Filipe era filho de Herodes, o Grande e
Mariamne II. Deste Herodes Filipe, Herodias teve uma filha, a qual em
Mc. 6:22 é chamada simplesmente “a filha de Herodias”, mas Josefo a
chama Salomé (Antiguidades XVIII. 136).
Agora, Herodes Antipas, numa visita que fez a Herodes Filipe,
apaixonou-se por Herodias. Para poder casar-se, os amantes ilícitos
combinaram em separar-se de seus respectivos cônjuges, Herodias se
separaria de Herodes Filipe, e Herodes Antipas da filha de Aretas, rei
dos árabes nabateus. Assim o fizeram. Quando João Batista se inteirou

255
Junto com muitas traduções, não é necessário reter a palavra “enviado”; por exemplo: “Porque
Herodes tendo enviado, prendeu João …”. Ou: “Porque este mesmo Herodes tendo enviado e detido a
João …”.
Primeiro, αὑτός aqui pode considerar-se pleonástico, meramente para voltar para o que se estava
dizendo (veja-se o v. 16). O idioma grego o usa onde usualmente nós não o usaríamos. E quanto a
“enviado”, no original os verbos com significado de enviar, quando se usam com relação a outros
verbos, com frequência indicam que uma pessoa realiza um ato por instrução de outra. Cf. Mt. 2:16,
“Tendo enviado a matar as crianças” = “Herodes fez matar as crianças”. Mt. 14:10, “Tendo enviado,
decapitou a João” = “Fez decapitar a João”. Veja-se também BAGD, p. 98.
Marcos (William Hendriksen) 313
disso, repreendeu a Herodes Antipas. Continuamente dizia a Herodes,
“Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão”. Havia boas razões para
esta repreensão, porque semelhante casamento além de incestuoso (Lv.
18:16; 20:21) não era também adúltero (Rm. 7:2, 3)?
Naturalmente que Herodias sabia muito bem que sempre que João
repreendia o Tetrarca, por implicação também estava denunciando o a
ela. De modo que para satisfazê-la, Herodes tinha detido, preso, e
lançado João no cárcere.
Mas Herodias não estava satisfeita com o encarceramento de João.
O que desejava intensamente era nada menos que o assassinato de João.
Mesmo estando na prisão, João Batista era chamado para apresentar-se
diante de seu “marido” vez após vez. Ela provavelmente temia que
Herodes sucumbisse diante do poder das palavras de João e quem sabe o
que poderia suceder se as palavras, “Não te é lícito possuir a mulher de
teu irmão” continuavam ressoando nos ouvidos do adúltero!
Entretanto, seu anelo de conseguir que seu marido terminasse com
João não teve êxito imediato:
19, 20. E Herodias o odiava, 256 querendo 257 matá-lo, e não podia.
Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo, e o
tinha em segurança. E, quando o ouvia, ficava perplexo, 258, 259 escutando-
o de boa mente.
Vários elementos conformavam o estado mental de Herodes,
segundo se descreve aqui:

256
Ou: guardava-lhe ressentimento.
257
O modismo grego ἐνεῖχεν αὑτῷ assemelha à nossa expressão “jurar-se o a um”.
258
De acordo com outra leitura: fez muitas coisas.
259
Embora tanto πολλὰ ἐποίει (“fazia muitas coisas”) como πολλὰ ἠπόρει (“ficava extremamente
perplexo”) têm amplo apoio textual, estou a favor de ἠπόρει, que está em harmonia mais estreita com
o contexto. O rei se achava evidentemente num apuro: sua consciência atirando de um lado; sua
esposa do outro. A psicologia da situação daria preferência a ἠπόρει sobre ἐποίει. Veja-se Vincent
Taylor, Op. cit., pp. 313, 314.
Marcos (William Hendriksen) 314
a. Desejo de estar em paz com Herodias. Por causa dela tinha
acorrentado João e o havia encerrado numa terrível, profunda, e calorosa
masmorra que formava parte do castelo-palácio em Macaerus.
b. Temor reverente na presença de João. Herodes sabia que João
não só era “inocente” de qualquer crime, mas também que era uma
pessoa muito excelente, “justa”, quer dizer, objeto da aprovação de
Deus, e “santa”, quer dizer, um homem de conduta irrepreensível,
separado e consagrado a Deus e ao Seu serviço.
c. Alegria cada vez que escutava a João. Poderia dizer-se: “O
governante admirava o seu acusador”. Esta admiração talvez se devia ao
fato de que João não era como os aduladores que usualmente se acham
na companhia dos governantes; aqui havia um homem que se atrevia a
falar o que pensava. Era a eloquência humana de João a que fazia com
que o tetrarca o escutasse com agrado? Era por isso que cuidava a
segurança de João, 260 a fim de que Herodias não pudesse danificá-lo?
d. Sentido de culpa. Herodes sabia muito bem que havia pecado
repudiando a sua própria esposa, roubando a mulher de seu irmão e
casando-se com ela, mantendo-a como sua esposa e fazendo com que o
acusador, João Batista fosse detido, preso, e posto no cárcere. Para
resumir, o homem sabia que estava sufocando a voz de sua consciência.
O resultado de tudo isto foi sua:
e. Perplexidade. Estava “extremamente perplexo”, “terrivelmente
perturbado”. Em seu muito interessante e instrutivo livro, Souls in the
Making (Nova York, 1930, p. 114), John G. Mackenzie afirma que “as
piores formas de desordem mental funcional brotam de uma consciência
reprimida”.
Também Davi, confuso após ter cometido pecados igualmente
escandalosos, incluindo o adultério, não só relata a experiência de achar-

260
Note-se a palavra συνετήρει. É o perfectivo de τηρέω, guardar. A forma composta pode significar
conservar, como em Mt. 9:17; “ambos se conservam”. Em Lc. 2:19 o significado é “entesourar” na
memória (literalmente “em seu coração”).
Marcos (William Hendriksen) 315
se em semelhante estado de sentido de horrível culpa, mas também
mostra a solução verdadeira:
Enquanto rebelde a culpa ocultava
Minha força morria por dura aflição,
Sua mão divina meu ser pressionava,
Fugia o repouso de meu coração.
Mas eu compreendendo minha grande rebelião,
Deixei de ocultar e assim de fingir,
E já confessando minha vil transgressão,
Deu-me perdão, voltou meu viver.
Tradução adaptada do Salmo 32, estrofe 5, que se encontra no
Psalter Hymnal (edição centenária) da Igreja Cristã Reformada (Grand
Rapids, 1959).
Mas Herodes Antipas recusou seguir o exemplo da humilde
confissão que fez Davi. Pelo contrário, endureceu-se e como
consequência não prosperou (Pv. 28:13). O próprio fato de que este
assassino não se arrependesse nem sequer depois de ouvir falar a respeito
de Jesus, mostra quão longe se apartou da caminho da justiça e da
verdade. Na realidade, nunca decidiu andar por aquele caminho. Negros
pressentimentos obscureciam sua mente quando com relação aos
rumores a respeito de Jesus, exclamou, “É João, a quem eu mandei
decapitar, que ressurgiu”. Quando enfim o desejo de Herodes de ver
Jesus (Lc. 9:9b) cumpriu-se, menosprezou e escarneceu Aquele que
sofreu em silêncio (Lc. 23:8–12). Quanto ao que sucedeu a Herodes
depois, veja-se sobre o v. 28.
Segundo o descrito até os versículos 17–20, Herodias tinha
fracassado em persuadir a Herodes para que matasse João Batista. Mas,
enfim, chegou o que ela deveu considerar seu “dia de sorte”:
21–23. E, chegando um dia favorável, em que Herodes no seu
aniversário natalício dera um banquete aos seus dignitários, aos oficiais
militares e aos principais da Galiléia, entrou a filha de Herodias e,
dançando, agradou a Herodes e aos seus convivas. Então, disse o rei à
Marcos (William Hendriksen) 316
jovem: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Se pedires
mesmo que seja a metade do meu reino, eu ta darei. 261
O dia do aniversário de Herodes era “oportuno” ou “adequado”
porque se prestava de maneira perfeita para o propósito que Herodias
tinha em mente, ou seja, ajustar contas com João Batista e assegurar-se
de que não seria rejeitada. Esta era sua “oportunidade” de ouro.
O “jantar” que prepararam para aquele dia de celebração era,
naturalmente, de natureza festiva; portanto poderia ser chamado um
“banquete”. Segundo Marcos, os convidados eram de três classes: a. Os
“altos oficiais civis”, de forma mais literal os grandes ou magnatas; b.
Os “quiliarcas”, assim diz literalmente; seu significado básico é aquele
que está a cargo de mil homens, mas o sentido mais geral de “tribunos
militares ou comandantes” é provavelmente aquele que devemos
recolher; e c. “os principais homens da Galileia”, certamente aqueles
amigos de Herodes socialmente proeminentes mas sem posição oficial
no civil nem no militar.
Se o que sucedeu neste banquete foi similar ao descrito em Ester
1:10, 11, Salomé entrou e dançou “estando o coração do rei alegre do
vinho”, e por conseguinte rumo ao final do banquete.
Podemos imaginar a forma erótica e insinuante em que a seminua
moça dançou. E seu padrasto era um Herodes típico, segundo seu próprio
casamento — se assim pode chamar-se — com Herodias o prova. Os

261
Note-se o seguinte:
a. O original tem dois genitivos absolutos: o primeiro é temporal: γενομένης ἡμέρας εὑκαίρου,
“tendo chegado um dia oportuno”; o segundo é circunstancial: εἰσελθούσης τῆς θυγατρὸς αὑτῆς τῆς
‘Ηρωδιάδος καὶ ὀρχησαμένης, “a filha de Herodias mesma tendo entrado e dançado”.
b. O plural τοῖς γενεσίοις αὑτοῦ significa “no dia das festividades de seu aniversário”; em
consequência, “em seu aniversário”. O plural idiomático pode ser devido às muitas atividades de
semelhante dia. Cf. CNT sobre Mt. 22:2.
c. Quanto a αὑτοῦ ou αὑτῆς do v. 22, se se aceitar sem reparos a regra de que entre duas leituras que
têm apoio igualmente forte, deve-se aceitar a mais difícil, αὑτοῦ deve ser então a preferida. A moça,
de acordo com isto, é a filha de Herodes Antipas. Seu nome é Herodias. Mas, conforme assinalaram
muitos comentaristas, isto é contrário ao contexto. Portanto, junto com a maioria dos tradutores e
expositores adoto o texto αὑτῆς contra o texto adotado pelo CNT.
Marcos (William Hendriksen) 317
convidados seriam homens do mesmo tipo. Não é de estranhar que tanto
o “rei” como os convidados ficassem encantados. Olhavam-na com
deleite voluptuoso.
Terminada a dança, impulsivamente Herodes diz à moça: “Pede-me
o que quiseres, e eu to darei”. Como ela vacilou, ele rapidamente repetiu
sua promessa, desta vez sob juramento: “Se pedires mesmo que seja a
metade do meu reino, eu ta darei.”
Provavelmente não é aconselhável interpretar a frase “mesmo que
seja a metade do meu reino” de forma muito literal. A verdade é que o
tetrarca não era rei de modo algum e, portanto, não tinha reino que dar.
Mas esta frase — cf. Et. 5:3; 7:2 — provavelmente deve interpretar-se de
forma proverbial. Era um tipo de hipérbole, de modo que o que Herodes
realmente quis dizer foi algo assim, “Eu te darei qualquer coisa que me
pedires, não importa o que me custar”.
24, 25. Saindo ela, perguntou a sua mãe: Que pedirei? Esta
respondeu: A cabeça de João Batista. No mesmo instante, voltando
apressadamente para junto do rei, disse: Quero que, sem demora, me dês
num prato a cabeça de João Batista.
A intriga se desenvolve tal como se a própria Herodias não só
tivesse planejado cada detalhe, mas também inclusive como se ela
tivesse estado movendo também todos os fios. Suas esperanças mais
acariciadas quanto ao que poderia suceder se sua filha dançava, viram-se
totalmente realizadas.
Naturalmente, a mãe da moça não estava comendo com os homens;
mas rapidamente ouviu o sucedido. O relatório de Salomé à sua mãe
conclui com a pergunta, “O que lhe peço?” 262 Bruscamente sua mãe
responde, “A cabeça de João Batista”.

262
Há alguns (por exemplo Lenski, Op. cit., p. 162) que sublinham a distinção entre a. a ordem
alentadora do “rei”: aor. imper. ativo αἴτησον do v. 22 (note-se também o aor. subj. ativo no v. 23:
αἰτήσῃς e b. a pergunta da moça: aor. subj. voz média τί αἰτήσωμαι do v. 24, que então se traduz, “O
que pedirei para mim mesma?”. Embora esta distinção possa ser válida, de maneira nenhuma é certa;
veja-se Tg. 4:2, 3 onde o mesmo verbo usa-se em ambas as vozes, mas com muito pouca diferença de
Marcos (William Hendriksen) 318
Sem perder um instante, a filha, com passos impacientes, volta ao
generoso e dissoluto governador, e ultrapassa a sua mãe em insolência
descarada e imaginativa. Diz sem consideração alguma, “Quero que, sem
demora, 263 me dês num prato 264 a cabeça de João Batista”. Ela a queria
aqui (Mt. 14:8) e sem demora (Mc. 6:25). Este é o desejo da filha. É
também o desejo da mãe. Mãe e filha formam um dueto perfeito … de
crueldade! Aqui e agora deve-se cometer o assassinato, porque não deve
haver para João oportunidade de escapar, nem oportunidade tampouco
para que o “rei” escape do laço em que ele mesmo se enredou.
26–28. Entristeceu-se profundamente o rei; mas, por causa do
juramento e dos que estavam com ele à mesa, não lha quis negar. E,
enviando logo o executor, mandou que lhe trouxessem a cabeça de João.
Ele foi, e o decapitou no cárcere, e, trazendo a cabeça num prato, a
entregou à jovem, e esta, por sua vez, a sua mãe.
O rei estava “angustiado”, diz Mateus (Mt. 14:9); “entristeceu-se
profundamente” ou “profundamente triste” diz Marcos. Poderia
perguntar-se: “Quais eram as razões destes tormentos emocionais?”. Para
responder, os seguintes pontos merecem uma consideração:
a. Herodes sempre tinha estimado a João, e muito o inquietava a
ideia de matá-lo. Sua consciência lhe dizia (veja-se v. 20) que assassinar
a João, que não só era inocente, mas também justo e santo, era um crime
terrível. 265

significado, se é que existe alguma. ᾐτήσατο aquí en 15:43 es aor. ind. voz media, 3a. pers. sing. del
verbo αἰτεω.
263
ἐξαυιῆς = ἐξαυτῆς τ. ὥρας, nesta mesmíssima hora (ou: momento), quer dizer, o mais breve
possível.
264
“numa bandeja” também em Mt. 14:8. O substantivo πίναξ pode-se traduzir também “prato”; cf.
“tábua de pinheiro”. Em grego πίναξ significa um tabuleiro ou mesa.
265
Calvino aborda o problema da aparente contradição entre Mateus 14:5 (“E, querendo matá-lo,
temia o povo …”) e Marcos 6:19, 20 (“E Herodias o odiava, querendo matá-lo, e não podia. Porque
Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo, e o tinha em segurança”) da seguinte
maneira: “A primeira passagem diz que Herodes estava desejoso de perpetrar o horrível assassinato,
mas se refreava devido ao seu temor ao povo; enquanto que a segunda passagem culpa só a Herodias
desta crueldade”. Sua solução: Embora desde o começo a própria Herodias desejava que João fosse
assassinado, Herodes sentia-se refreado por sua consciência (quer dizer, por “seus escrúpulos
Marcos (William Hendriksen) 319
b. Estava consciente de que o povo em geral tinha João por profeta.
Portanto, devia perguntar-se, “O que pensará o povo de mim, se
conceder a Salomé seu grande desejo?” (veja-se Mt. 14:5).
c. Também devia notar que sua esposa o havia apanhado com
astúcia naquela situação difícil e que ela, afinal de contas, sair-se-ia bem
dessa situação.
Poderia aduzir-se que a forma de sair desta complicação teria sido
dizer a Salomé, “Eu prometi te favorecer com um presente; não prometi
cometer um crime”. Ou talvez, “Eu te fiz a promessa de um presente a ti,
não à tua mãe”. A melhor forma de escapar é a de Lv. 5:4–6.
Mas o obstinado orgulho de Herodes, seu temor de ficar mal diante
de seus camaradas, os convidados que tinham ouvido sua promessa
respaldada com juramento, impediu-o de dizer: “Como, pois, faria eu
este grande mal e pecaria contra Deus?” (Gn. 39:9). O orgulho conseguiu
vencer qualquer outra consideração, incluindo a voz da consciência. De
modo que ordenou a um de seus guardas, a um verdugo, 266 que lhe
trouxesse a cabeça de João. Como a prisão onde João estava era com
toda probabilidade parte do palácio de Macaerus (assim também segundo
Josefo, Antiguidades XVIII. 119), o verdugo não teve que ir muito longe.
Decapitou João e, conforme o pedido, levou à jovem a cabeça de João
numa bandeja, e ela a deu à sua mãe.
Quanto aos resultados dos perversos atos de Herodes (rejeitando a
sua própria esposa, casando-se com Herodias e assassinando a João),
note-se o seguinte:

religiosos”) “de cometer esta atrocidade tão cruel contra um profeta de Deus”. Entretanto, depois,
“desfez-se deste temor de Deus, como resultado da insistente pressão de Herodias”. Mas inclusive
mais tarde, “conteve-se por uma nova razão, quer dizer, temeu que se produzisse uma revolta popular
em seu próprio prejuízo”. Veja-se João Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists,
Matthew, Mark, and Luke, (trad. de Commentarius in Harmoniam Evangelicam, Opera Omnia, Grand
Rapids, 1949ss.), Vol. II, pp. 222, 223. daqui em adiante se fará referência a este comentário como,
Harmony de Calvino.
266
O original serve-se de uma palavra latina: “speculator” (cf. speculor: vigiar, espiar), basicamente
um espião ou explorador, mas às vezes significa verdugo — veja-se Sêneca, On Benefits III, 25.
Quanto a ἀποστείλας (v. 27) veja-se sobre o v. 17, nota 257.
Marcos (William Hendriksen) 320
a. O crescente descontentamento de muitos judeus.
b. A ira do rei Aretas, pai da esposa rejeitada por Herodes.
Aretas se sentiu profundamente ofendido pelo que Herodes fez à
sua filha. Portanto, declarou-lhe a guerra e “na batalha que se livrou todo
o exército de Herodes foi destruído” (Josefo, Antiguidades XVIII, 114,
116, 119, para os pontos a. e b.).
c. Desterro.
Mais tarde, Herodes Antipas deixou persuadir-se por Herodias para
ir a Roma a fim de ser elevado à posição de rei, a mesma posição que se
tinha concedido ao seu irmão Herodes Agripa I. Entretanto, quando este
último informou ao imperador Calígula a respeito do complô que o
aspirante tramava contra ele, a consequência para o conspirador foi o
desterro perpétuo a Lyon, na Gália.
A história de João Batista conclui da seguinte maneira:

29. Os discípulos de João, logo que souberam disto, vieram,


levaram-lhe o corpo e o depositaram no túmulo.
Quanto aos discípulos de João, veja-se sobre Mc. 2:18; também
CNT sobre Mt. 11:1–3, e em Jo. 3:25, 36.
Por Mateus 11:2ss., sabemos que a estes homens tinha sido
permitido visitar seu mestre no cárcere. Não é estranho, então, que lhes
fosse permitido dar enterro honroso ao seu corpo decapitado.
O que aconteceu com os discípulos de João? Por João 1:35, 40 é
evidente que alguns dos primeiros discípulos de Cristo tinham sido
anteriormente discípulos de João. Muitos dos outros discípulos de João
Batista devem ter seguido o mesmo exemplo. Também eles tinham
chegado a ser seguidores de Jesus, que era exatamente o que João,
estando ainda vivo, desejava que fizessem (Jo. 3:22–30). A conclusão
que se pode tirar de Mateus 14:12 (“depois, foram e o anunciaram a
Jesus”) é que naquele momento também seus discípulos tinham relações
amistosas com Jesus; na realidade, creram nEle. Embora seja verdade
que mais de vinte anos mais tarde houve em Éfeso — portanto, muito
Marcos (William Hendriksen) 321
longe da Palestina — certos seguidores de Jesus, incluindo inclusive a
Apolo, que “conheciam só o batismo de João” (At. 18:24, 25; 19:1–5), e
que não tinham ouvido a respeito do derramamento do Espírito Santo, é
um fato também que quando aqueles homens receberam mais instrução,
estiveram preparados imediatamente para receber o batismo cristão.
Por conseguinte, não pode existir dúvida de que foi João quem
verdadeiramente preparou do caminho para Cristo, tal como havia
predito ele (Mt. 11:11–13; 17:10–13; Mc. 1:1–3, 7, 8; 9:11–13; Jo. 1:29–
34). Em Atos 19:4, Paulo sugere o mesmo.
Quanto a João Batista e o movimento de Qumran, veja-se CNT
sobre Mateus, p. 529.

Mc. 6:30–44 - A alimentação dos cinco mil


cf. Mt. 14:13–21; Lc. 9:10–17; Jo. 6:1–14

Os quatro evangelistas relatam este acontecimento: as semelhanças


e as diferenças estão resumidas nas páginas que seguem.

1. Descrição das circunstâncias

30. Voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram


tudo quanto haviam feito e ensinado.
Depois de realizar sua viagem missionária (vv. 7–13), os Doze se
acham reunidos ao redor de Jesus. Como em Mc. 3:14, aqui Marcos
chama estes homens de “apóstolos”. Devem ser considerados como
instrumentos por meio dos quais o próprio Jesus está realizando Sua obra
na terra. São os Seus embaixadores oficiais, a quem comissiona para
levar a cabo certas tarefas específicas: pregar, curar e expulsar demônios.
Aquele que os rejeita, rejeita o próprio Cristo (Mt. 10:40; Lc. 10:16; Jo.
13:20). É nesta qualidade de “apóstolos” que eles desenvolveram seu
trabalho na excursão que aqui termina. Portanto, o termo “apóstolos”
(também em Mc. 3:14) é perfeitamente adequado.
Marcos (William Hendriksen) 322
O relatório que estes homens apresentaram a Jesus ao voltar, deve
ter sido emocionante: “informaram-lhe tudo o que tinham feito e tudo o
que tinham ensinado”, assim é literalmente.
Nos últimos meses tinham estado sucedendo muitas coisas: Tinham
assassinado cruelmente a João. Seu corpo decapitado tinha sido
sepultado. Jesus tinha sido informado disto. Herodes perturbou-se
grandemente quando ouviu a respeito dos milagres de Cristo. Iam e
vinham todo tipo de rumores quanto à identidade de Jesus. O “rei” tinha
admitido um destes rumores como verdadeiro e dizia, “É João, a quem
eu mandei decapitar, que ressurgiu”. Os discípulos-apóstoles tinham sido
enviados à uma viagem missionária e já tinham voltado.
Tudo isto tinha tomado tempo. Não é de estranhar, portanto, que o
milagre da alimentação dos cinco mil, descrito aqui em Mc. 6:30–44
(especialmente nos vv. 35–44) ocorresse quando a Páscoa estava
próxima, provavelmente em abril do ano 29 d.C. como é claro por João
6:4. O grande ministério galileu que provavelmente se estendeu desde
dezembro do ano 27 d.C. até mais ou menos abril do 29 d.C. estava
chegando ao seu final.

A alimentação dos cinco mil


Mt. 14:13–21 Mr. 6:30–40 Lc. 9:10–17 Jn. 6:1–14
Jesus ouve o Jesus ouve o
1. Indicam-se as relatório da relatório dos Doze, Parecido com “Depois destas
circunstâncias Morte de João. ao retornar eles de Marcos. coisas”.
sua viagem
missionária.
Retira-se Convida os Doze a Jesus (implícito:
(implícito: com acompanhá-lo a Jesus leva os com seus
2. A necessidade os seus um lugar solitário, Seus discípulos a discípulos) dirige-
de repouso discípulos) a um para descansar. Betsaida. se ao outro lado do
lugar solitário. Vê-os saindo num mar de Tiberíades.
barco.
As multidões O As multidões Jesus já chegou, e
3. A interrupção seguem a pé caminham Parecido com de uma colina vê
do repouso desde os depressa pela Mateo. multidão que se
povoados parte superior do aproxima. A
lago para estar Páscoa se
Marcos (William Hendriksen) 323
com Jesus. aproxima.
Jesus, tendo já O tenro Pastor, Jesus recebe as
4. A compaixão chegado, sai de tendo saído, pessoas, fala-lhes
manifestada seu retiro, é compadece-se do a respeito do Não se aparece
movido pela povo, as ovelhas, reino de Deus, e com João.
compaixão e cura e lhes ensina. cura seus doentes.
os doentes.
Aproxima-se o Jesus conversa
fim do dia, o com Filipe e
5. Antecipa-se a povo necessita André a respeito
fome alimento. Parecido com Parecido com de como
Os discípulos Mateus. Mateus e Marcos. alimentar as
querem que Jesus pessoas. O rapaz
despeça as com cinco pães
pessoas, para que de cevada e dois
possam comprar peixes.
alimento.
6. As ordens Jesus aos Parecido com Parecido com Jesus disse,
emitidas discípulos: Mateus. Mateus e Marcos. “Fazei recostar às
Adições Ligeiras pessoas”. E havia
a. aos discípulos “Dai-lhes vós de principais: variações: muita erva
comer”. Eles: a. Pergunta dos a. Discípulos a naquele lugar. E
“Tudo o que discípulos, Jesus, “Não se recostaram
temos aqui é “Compraremos temos mais que como em número
cinco pães e dois pão com duzentos cinco pães e dois de cinco mil
peixes”. denários?” peixes a menos homens.
que vamos
b. às pessoas Então ordena b. Jesús ordena as comprar pão para
às pessoas sentar- pessoas a sentar toda esta gente”.
se na grama. “em grupos”. Lucas acrescenta:
c. Reclinam-se Porque havia uns
em grupos de cinco mil
cem e de homens.
cinquenta. b. Jesus aos
discípulos:
“Fazei-os
sentar em grupos
de cinquenta en
cinquenta”.
Jesus toma os Parecido com
cinco pães e os Mateus. Parecido com
dois peixes, dá Marcos Parecido com Mateus e Marcos,
7. Realiza-se um graças, parte os acrescenta, “e ele Mateus. exceto pelo fato
milagre pães e os dá aos dividiu os dois de que os
discípulos, peixes com todos discípulos não se
Marcos (William Hendriksen) 324
aqueles que os eles”. mencionam como
distribui entre a os que
multidão. Todos distribuem.
comem até saciar-
se.

Recolhem-se Parecido com Jesus manda Seus


doze cestos de Mateus. discípulos recolher
pedaços. Havia Exceções: os pedaços que
8. Recolhe-se o cinco mil a. Além dos sobravam, para que
Lucas é breve: e
nada se perca.
que sobrou homens, sem pedaços de pão, eles recolheram o Resultado: doze
contar as Marcos menciona que sobrou, doze cestos cheios.
mulheres nem as também os cestos de Reação do povo: a.
crianças. (pedaços de) pedaços. “Este realmente é o
peixes que foram profeta que havia
recolhidos. de vir ao mundo”.
b. Omite toda b. queriam tomar a
menção de Jesus à força para
fazê-lo rei. Ele Se
mulheres e
retira para o monte.
crianças.

2. Necessidade de repouso
31, 32. E ele lhes disse: Vinde repousar um pouco, à parte, num
lugar deserto; porque eles não tinham tempo nem para comer, visto
serem numerosos os que iam e vinham. Então, foram sós no barco 267 para
um lugar solitário.
Jamais dará resultado trabalhar sem descanso. Não funciona estar
ocupado sem nunca tirar férias, realizando todas as árduas tarefas do
ministério ou a obra missionária, e sem deter-se para repousar, para
analisar com calma, para orar e meditar. Também Jesus, por causa de
Sua natureza humana e do grande peso que tinha tomado sobre seus
ombros, necessitava períodos de retiro (Mc. 1:35). E estando inteiramente
consciente das necessidades de Seus discípulos, convidou-os a ir com
Ele a um lugar afastado, isolado, onde pudessem “descansar”. 268

267
Ou: de navio.
268
ἀναπαύσασθε aor. imper. med. 2ª. pes. plur. de ἀναπαύω. Cf. um significado algo similar deste
verbo em Mt. 11:28; 26:45; Mc. 14:41; Lc. 12:19; 1Co. 16:18; 2Co. 7:13; e Fm. 7.
Marcos (William Hendriksen) 325
O que fazia com que esta fosse uma necessidade muito urgente, era
que havia pessoas que constantemente iam e vinham, e que esta multidão
turbulenta e exigente tornava impossível inclusive encontrar tempo para
comer. Resultado: “sozinhos”, quer dizer, Jesus, os Doze, e ninguém
mais, partiram para um lugar nos arredores de Betsaida Júlias (veja-se
Lc. 9:10 e CNT sobre Jo. 6:1). Cruzaram a parte nordeste do mar “no
barco”. Era este o barco mencionado em Mc. 3:9; 4:1; 5:2? Ou é este um
caso onde o artigo grego não deve ser traduzido, de modo que a tradução
correta seja “em barco”, em lugar de “no barco”? A passagem paralela
de Mateus 14:13 pareceria favorecer o último ponto de vista, mas os dois
casos são possíveis e podem ser citadas excelentes traduções com ambas
as opiniões.

3. Interrupção do repouso
33. Muitos, porém, os viram partir e, reconhecendo-os, correram
para lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram antes deles 269 .
Muitas pessoas da região de Cafarnaum não só viram o barco, mas
também, além disso, reconheceram os seus ocupantes. Chegaram à
conclusão correta, quer dizer, que Jesus Se afastava deles. Isto não era o
que desejavam, de modo algum. O que fazer em tal situação? Segui-los
em outros barcos — os quais se mencionam em Mc. 4:36; cf. Jo. 6:23,
24? Por alguma razão, naquele momento concreto os outros barcos não
estavam disponíveis.
De modo que em vez de esperar até que estivessem à disposição,
em seu afã para ver Jesus, aquela gente começou a correr pela margem
norte do lago. Para eles a distância total era de uns dezesseis
quilômetros. A trajetória reta em barco era uma distância de uns seis
quilômetros. Quem atracou primeiro ao porto que estava a pouca
distância do ponto onde o rio Jordão, que vem do norte, desemboca no
mar da Galileia? O pequeno grupo (Jesus e os Doze) ou a multidão?

269
Ou: deixaram-nos atrás, avantajaram-nos; ou: lhes adiantaram.
Marcos (William Hendriksen) 326
Segundo a maioria das traduções, a multidão foi a primeira em
chegar. Com ligeiras variações quanto às palavras, o versículo 33b em
geral se traduz: “Eles correram a pé de todas as cidades e chegaram ali
antes que eles (quer dizer, antes que Jesus e os Doze)”. Cf. VP, CI, NVI,
RA.
Por certo que nem todos os tradutores e expositores estão satisfeitos
com esta tradução.
Os seguintes fatos merecem ser considerados:
a. Embora a maioria dos tradutores baseiam sua versão 270 num texto
que é provavelmente o correto, existe certo grau de dúvida.
b. Mesmo quando aceitemos tal texto (como provavelmente
deveríamos fazê-lo), Marcos 6:33 seria a única passagem do Novo
Testamento em que o verbo em questão significa “chegou primeiro (ou:
antes)”. O verbo aparece com diversos significados em outras passagens:
Mt. 26:39; Mc. 14:35; Lc. 1:17; 22:47; At. 12:10, 13; 20:5, 13; 2Co. 9:5.
c. Com um ponto de partida e de chegada igual para ambos, e
considerando que o trajeto para o barco era de uns seis quilômetros em
linha reta, conquanto para os que iam a pé era um arco de uns dezesseis
quilômetros, o barco naturalmente chegaria primeiro. Isto é válido
especialmente no caso presente por causa de certas limitações adicionais
para os que viajavam a pé: (1) deviam cruzar o Jordão e o difícil terreno
contíguo, e (2) havia também mulheres e crianças (Mt. 14:21).
Naturalmente, é possível que os navegantes tivessem que fazer frente a
condições climatológicas desfavoráveis, mas nada disto diz o texto.
d. Se Marcos tivesse querido dizer que a multidão tinha chegado
primeiro, não teria usado uma linguagem mais clara para expressar este
pensamento? Veja-se p. ex., Jo. 20:4, “Mas o outro discípulo correu mais
depressa que Pedro, e chegou … primeiro.”

270
καὶ προῆλθον αὑτούς.
Marcos (William Hendriksen) 327
b. Mesmo quando aceitemos tal texto (como provavelmente
deveríamos fazê-lo), Marcos 6:33 seria a única passagem do Novo
Testamento em que o verbo em questão significa “chegou primeiro (ou:
antes)”. O verbo aparece com diversos significados em outras passagens:
Mt. 26:39; Mc. 14:35; Lc. 1:17; 22:47; At. 12:10, 13; 20:5, 13; 2Co. 9:5.
c. Com um ponto de partida e de chegada igual para ambos, e
considerando que o trajeto para o barco era de uns seis quilômetros em
linha reta, conquanto para os que iam a pé era um arco de uns dezesseis
quilômetros, o barco naturalmente chegaria primeiro. Isto é válido
especialmente no caso presente por causa de certas limitações adicionais
para os que viajavam a pé: (1) deviam cruzar o Jordão e o difícil terreno
contíguo, e (2) havia também mulheres e crianças (Mt. 14:21).
Naturalmente, é possível que os navegantes tivessem que fazer frente a
condições climatológicas desfavoráveis, mas nada disto diz o texto.
d. Se Marcos tivesse querido dizer que a multidão tinha chegado
primeiro, não teria usado uma linguagem mais clara para expressar este
pensamento? Veja-se p. ex., Jo. 20:4, “Mas o outro discípulo correu mais
depressa que Pedro, e chegou … primeiro.”
Se for adotada a tradução “e (as pessoas) chegaram ali antes deles”
ou “chegaram primeiro”, é difícil ver como se pode evitar a conclusão de
que Marcos 6:33 contradiz a Mateus 14:13, 14; Lucas 9:11; e João 6:3,
5. Mateus, Lucas e João, os três, descrevem a Jesus desembarcando antes
da chegada da grande multidão. Esta O segue depois. Ele chega ali e
sobe à colina, permanece sozinho com Seus discípulos por um curto
tempo, e logo vê a uma multidão na margem e sai ao seu encontro.
Não é de estranhar, portanto, que se tenham sugerido outras
traduções: “e (os caminhantes) se adiantaram” (NBE). Assim traduzido,
não existe problema. O que Marcos diz deve receber inteira justificação.
É, além disso, muito compreensível. Por causa de seu anelo por estar
Marcos (William Hendriksen) 328
271
com Jesus, a multidão começa a correr para lugar, tão rápido, que por
um momento realmente ultrapassa o barco em velocidade, e talvez vai
mais adiantada que ele. Mas isto não significa necessariamente que a
multidão chegasse ali antes que Jesus e os Doze.
Um fato digno de especial atenção é o seguinte: Em grande parte o
Mestre e Seus discípulos não obtêm o repouso ou descanso que
buscavam. Descansaram um pouco, porque Jesus e os Doze parecem ter
estado juntos por um curto tempo, embora esta trégua viu-se muito
diminuída.
Como reage Jesus diante da interrupção de Seu descanso? A
resposta se acha em:

4. Manifestação de compaixão
34. Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e
compadeceu-se deles, 272 porque eram como ovelhas que não têm
pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas.
Os que no versículo 33 traduz “chegaram antes que eles” tem o
mérito de ser consistentes, visto que no versículo 34 traduzem, “Ao
desembarcar”, ou “E saindo do barco”. O particípio usado no original 273
deriva-se de um verbo que basicamente significa “sair” ou “vir”. Usa-se
numa grande variedade de contextos: saindo da casa (Mt. 9:31ss.; cf. Jo.
11:31), da sinagoga (12:14), da presença do rei (18:28), do palácio do
sumo sacerdote (26:75), de uma pessoa (Mc. 5: 8), da tumba (Jo. 11:44),
para mencionar só uns poucos. Em Marcos 5:2 e 6:54 usa-se em conexão
com saindo do barco, desembarcando. Entretanto, nas passagens recém
mencionadas, menciona-se o barco claramente na mesma cláusula. A
presente situação é diferente: nem em todo o versículo 34, nem mesmo
no versículo precedente fala-se de um barco. Entretanto, no versículo 32

271
ἐκαῖ, quer dizer, “lá” no sentido de “com aquele lugar”. A palavra modifica a συνέδ ραμον; no a
προῆλθον, como em várias traduções.
272
Ou: comoveu-se em suas vísceras por eles.
273
ἐξελθών, ptc. aor. nom. s. masc. de ἐξέρχομαι.
Marcos (William Hendriksen) 329
faz-se referência a um barco. Isto pode dar apoio àqueles que no
versículo 34 favorecem a tradução “E saindo do barco”.
Um método mais seguro para chegar à interpretação correta de
“tendo saído” conforme se usa aqui, seria descobrir o que significa o
mesmo verbo na passagem paralela, Mateus 14:14. Ali, conforme
demonstra o contexto imediato, significa que Jesus saiu de seu lugar de
retiro na ladeira de uma colina. 274 Outra passagem que arroja luz é João
6:3–5, “Então Jesus subiu a um monte, e se sentou ali com seus
discípulos … Quando elevou Jesus os olhos, e viu que vinha a ele uma
grande multidão, ele …”
Portanto, fica claro que foi daquele repouso tranquilo de onde Jesus
saiu quando viu que a grande multidão que tinha chegado à praia
começava a dirigir-se até Ele. Com que fim saiu? Para repreender àquela
gente? Saiu para lhes dizer, “viemos aqui para descansar, aliviar nossas
tensões, recuperar as forças; assim que por favor vão para casa, porque
estamos cansados; visitem-nos outro dia”? Ao contrário, saiu para os
receber, porque Se compadeceu deles. Veja-se o que se diz a respeito de
esta expressão em Mc. 1:41. 275
Mentalmente sonda suas tristezas. Ele os compreende. Em seu
coração leva suas cargas. Ama-os. Com Sua vontade lhes tira as aflições.
Cura-os. Para Ele a compaixão não é só uma emoção, é um tenro
sentimento que se transforma em ação efetiva. Não é uma mera emoção
mas uma ação; melhor ainda, toda uma série de ações. Ensina-lhes, cura-
os, alimenta-os.
Vê estas pessoas como ovelhas sem pastor. Para entender o que isto
significa deveria ler-se 1 Reis 22:17; logo o Salmo 23; depois Mateus
9:36; e depois João 10. Veja-se também CNT sobre estas passagens.

274
Assim também F.J.A. Hort e B. F. Westcott, The New Testament in the Original Greek (Cambridge
e Londres, 1882), p. 99; cf. Lenski, Op. cit., p. 166.
275
Aqui em Mc. 6:34, a forma é ἐσπλαγχνίσθη, aor. ind. pas. 3ª. pes. sing. de σπλαγχνίζομαι. Veja-se
também CNT sobre Filipenses, nota 39.
Marcos (William Hendriksen) 330
Nenhum animal é tão dependente como uma ovelha. Sem alguém
que a guie, a ovelha começa a vagar, perde-se, converte-se em comida
para lobos, etc. Sem alguém que a apascente, passa fome. Jesus sabia
que com o povo ocorria o mesmo: seus dirigentes não lhes ofereciam
uma direção segura. Não lhes davam comida para alimentar suas almas.
A mente dos supostos dirigentes estava muito ocupada com sutilezas
legalistas a respeito de restrições sabáticas, jejuns, filactérios, borlas,
etc., para preocupar-se com as almas.
Assim que Jesus começa a lhes ensinar muitas coisas. Belas
palavras de vida saem de Seus lábios. Fala-lhes a respeito do
maravilhoso reino de Deus (Lc. 9:11), de um reino no qual a confiança,
como a de uma criança, no soberano cuidado de Deus traz paz (Mt.
6:24–34), o amor é a lei (Mt. 6:43–48), e a verdade está no trono (Jo.
14:6; 18:37).

5. Previsão da fome
35, 36. Em declinando a tarde, 276 vieram os discípulos a Jesus e lhe
disseram: É deserto este lugar, e já avançada a hora; despede-os para
que, passando pelos campos ao redor e pelas aldeias, 277 comprem para si
o que comer.
Jesus não só curava os doentes (Mt. 14:14), mas também Se
dedicou a ensinar às pessoas. Toda esta atividade deve ter ocupado uma
quantidade de tempo considerável. Pouco depois de sair Jesus do lugar
em que estava, perguntou a Filipe, para o provar: “Onde compraremos
pães para lhes dar a comer?”. Filipe respondeu: “Não lhes bastariam
duzentos denários de pão, para receber cada um o seu pedaço”. Assim
que Filipe teve que confrontar o problema, e André também. Jesus sabia
exatamente em todo momento o que ia fazer (Jo. 6:5–9). Mas os
discípulos estavam confusos com relação à solução, e isto apesar de

276
Ou: visto que já estava muito avançado o dia. Assim também em 35b.
277
Ou: aos campos e povoados aldeãos.
Marcos (William Hendriksen) 331
todos os milagres que já tinham presenciado. E agora, embora o sol
ainda não se punha, o dia estava muito avançado, quer dizer, “o dia
chegava a seu fim”. 278 Por meio destes milagres e ensinos, o Senhor
cativava intensamente as vastas multidões que nem sequer àquela hora
tinham intenções de ir embora. Para que fossem era preciso despedi-los.
É assim como os discípulos fazem notar ao seu Mestre que o lugar era
deserto solitária e a hora avançada.
“É deserto este lugar,”, dizem-lhe. Quer dizer, isto não é uma
cidade com lugares próximos onde se possa comprar alimento; é uma
região desolada. Para ir a qualquer das aldeias circundantes em busca de
pão é preciso tempo. Além disso, “o dia chega ao seu fim”. Em
consequência, aconselham a Jesus que despeça imediatamente as pessoas
para que possam ir às granjas e aldeias para comprar alimento.

6. As instruções
A resposta de Cristo foi impressionante:
37a. Porém ele lhes respondeu: Dai-lhes vós mesmos de comer.
O que queria dizer Jesus ao mandar, “Dai-lhes vós mesmos de
comer”? Talvez é impossível dar uma resposta totalmente satisfatória a
esta interrogante. Entretanto, podem-se assinalar alguns pontos:
a. Jesus quer dizer que os discípulos não deveriam desentender-se
das responsabilidades tão rapidamente. Com frequência sentiam-se
inclinados a fazer isto mesmo e dizer simplesmente, “despede-os” (aqui
no v. 36), “Despede-a” (à mulher siro-fenícia, Mt. 15:23). Inclusive
“repreenderam” os que traziam as crianças pequenas a Jesus para que as
tocasse (Mc. 10:13; veja-se também Lc. 9:49, 50). Seu lema com muita
frequência era: “Não incomodem o Mestre e não nos incomodem”. À luz
destes textos pode-se dizer confiantemente que Jesus queria lembrar aos
seus discípulos que a solução não consiste em tratar de livrar-se das

278
Literalmente (gen. absoluto) “grande parte das horas do dia já transcorridas”. As palavras se
repetem no v. 35b.
Marcos (William Hendriksen) 332
pessoas necessitadas. Certamente, não é esta a forma que Deus faz as
coisas (Mt. 5:43–48; 11:25–30; Lc. 6:27–38; Jo. 3:16).
b. Jesus quer que peçam, busquem e chamem (Mt. 7:7, 8); em
outras palavras, que reclamem a promessa que Deus lhes tem feito, e se
dirijam a Ele, porque Ele pode remediar toda necessidade. Aquele que
proveu o vinho quando acabou (Jo. 2:1–11), não pode acaso prover
também o pão?
c. Tendo em conta que “pão”, segundo o uso do termo neste relato
(vejam-se os vv. 38, 41), ao mesmo tempo que se refere àquilo que
remedeia a necessidade física, é também símbolo de Jesus como o Pão
da vida (Jo. 6:35–48), não está também dizendo a estes “pescadores de
homens” que eles devem ser o meio nas mãos de Deus para remediar as
necessidades espirituais das pessoas?
Continua:
37b. Disseram-lhe: Iremos comprar duzentos denários de pão
para lhes dar de comer?
Segundo João 6:7, foi a Filipe, um dos Doze, quem primeiro teve
esta ideia. Entretanto, depois de tê-la considerado e depois de inclusive
tê-la mencionado aos outros discípulos, ele também a desprezou
imediatamente por ser pouco prática. Isto se vê claro porque diz a Jesus:
“Não lhes bastariam duzentos denários de pão, para receber cada um o
seu pedaço”. Não obstante, quanto ao grupo, aqueles homens não
queriam desprezar totalmente a ideia. De modo que perguntaram a Jesus,
“Iremos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?”.
O denário de prata era, talvez, a moeda romana mais usada no
tempo do Novo Testamento.
Literalmente, o nome denário significa “que contém dez”. Foi
chamado assim com relação ao asse, uma moeda de bronze cujo valor
era 1/10 de um denário. Entretanto, não é correto dizer, como se observa
em muitos comentários, que o denário equivale a 16, 17 ou inclusive 20
centavos de dólar (EUA), e que os discípulos, ao mencionar duzentos
denários, pensavam numa soma total equivalente a 32, 34, ou 40 dólares.
Marcos (William Hendriksen) 333
O valor do dólar e do humilde centavo flutua constantemente. É melhor,
portanto, assinalar com base na Escritura (Mt. 20:2, 9, 13), que um
denário representava o salário que se pagava a um operário pelo trabalho
de um dia; em consequência, duzentos denários equivalem à
remuneração que um homem recebia por duzentos dias de trabalho. O
que os discípulos perguntam 279 a Jesus, então, é se àquela hora tão
avançada do dia deviam sair e tentar comprar a enorme quantidade de
pão necessária para aquela grande multidão. Supondo que fosse possível
obtê-lo e carregá-lo de volta para alimentar aquelas bocas famintas,
tinham acaso nesse momento uma soma tão grande de dinheiro? Mas de
que outro modo poderiam cumprir a ordem do Mestre, “Dai-lhes vós de
comer”?
Jesus não os repreende nesse momento por sua falta de fé, nem
responde à sua pergunta concreta.
38. E ele lhes disse: Quantos pães tendes? Ide ver! E, sabendo-o
eles, responderam: Cinco pães e dois peixes.
A resposta dos discípulos não foi de fé, e sim quase de desespero.
Isto se deixa ver especialmente na fraseologia da resposta registrada em
Mateus: “Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes” (Mt. 14:17).
Evidentemente, estes homens não tinham captado o significado da
exortação, “Dai-lhes vós de comer”.
João 6:8, 9 dá mais detalhes: “Um de seus discípulos, chamado
André, irmão de Simão Pedro, informou a Jesus: Está aí um rapaz que
tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas isto que é para tanta
gente?”.
O Senhor ia fortalecer sua fé mediante um milagre inesquecível. À
modo de preparação dirige-se à multidão:

279
Note-se ἀγωράσωμεν, um aor. subj. deliberativo ativo: “Compraremos?” Também o subj. δώσωμεν
seria mais comum que o fut. indic. δώσομεν, embora a evidência externa se divide quase em partes
iguais e há uma estreita afinidade entre o subj. e o fut. indicativo. Note-se também δηναρίων
διακοσίων, gen. de preço.
Marcos (William Hendriksen) 334
39, 40. Então, Jesus lhes ordenou que todos se assentassem, em
grupos, sobre a relva verde. E o fizeram, repartindo-se em grupos de
cem em cem e de cinquenta em cinquenta.
Jesus ordenou a toda a multidão que se reclinasse na ladeira da
colina, coberta de erva, “em grupos”; literalmente, “symposium
symposium” … 280 Um “symposium”, como a própria palavra sugere, foi
originalmente um “beber juntos”, ou “festa para beber” (cf. poção). A
palavra derivou a um sentido secundário: festa de qualquer tipo. Com
frequência, porém não necessariamente, tal festa caracterizava-se Pelo
ato de comer e beber juntos, música e canções. Até hoje temos nossos
“simpósios” onde alguns oradores expressam seus pontos de vista a
respeito de vários aspectos de um tema determinado de antemão. A
antologia de tais pontos de vista pode também chamar um “simposium”.
Entretanto em Marcos 6:39, o significado é simplesmente uma festa
social, companhia; daí que se traduza “em grupos”.
A ordem era fácil de obedecer, visto que por aquela época do ano as
ladeiras da colina deviam estar cobertas de erva. Marcos diz que a
multidão reclinou-se “em grupos”, ou possivelmente também “prado por
prado”, se é que ainda tem algo de força o sentido básico da frase usada
no original, 281 o que não é muito provável. Entretanto, seja como for, ali
estava aquela colorida multidão de pessoas, vestidas com suas
chamativas vestimentas de vivas e alegres cores, reclinadas sob a
abóbada azul do céu, sobre a erva, com o mar da Galileia a pouca
distância.
Ao falar (literalmente) de “montão a montão”, ou de “por montões
de cem e de cinquenta” está-se querendo dizer, em cem filas de
cinquenta cada uma? Sendo assim, estaria em concordância com o
versículo 44 (“eram cinco mil homens”). Em ambos os casos (v. 40 e v.
44) não se contam as “mulheres e crianças” (Mt. 12:41). Ou talvez quer
280
Embora não necessariamente um semitismo, este tipo de construção (distribuição expressa por
repetição) é de uso semítico. Veja-se também sobre o v. 7 mais acima: “de dois em dois”.
281
πρασιαὶ πρασιαί.
Marcos (William Hendriksen) 335
dizer que alguns grupos eram de cem pessoas, e outros de cinquenta? Em
todo caso, o agrupamento era muito prático. Fez com que a distribuição
do pão e dos peixes, e a recontagem das pessoas fossem mais fáceis.

7. Realização do milagre
41. Tomando ele os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao
céu, os abençoou; e, partindo os pães, deu-os aos discípulos para que os
distribuíssem; e por todos repartiu também os dois peixes.
Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes. Olhou ao céu.
Quanto a este ato de levantar os olhos ao céu em oração, vejam-se
também Sl 25:15; 121:1; 123:1, 2; 141:8; 145:15; Jo. 11:41; 17:1; 1Tm.
2:8. 282 Olhando ao céu, Jesus “abençoou”; assim diz literalmente. O
mesmo verbo se acha também nos paralelos sinóticos (Mt. 14:19; Lc.
9:16). João, por outro lado, diz “tendo dado graças” (Jo. 6:11). Solução:
“abençoou” neste caso significa “deu graças”, e pode traduzir-se assim.
Quando uma pessoa abençoa ou louva a Deus não está acaso dando-
lhe graças? 283 Era costume dos judeus dar graças a Deus antes de
começar uma comida. Entretanto, como é evidente pelos Evangelhos que
nosso Senhor nunca falou como os escribas, mas Suas palavras se
caracterizaram sempre por seu frescor e originalidade (cf. Mt. 7:29), bem
podemos crer que Sua oração foi também assim nesta ocasião.
Então Jesus começou a partir os pães em pedaços de tamanho
adequado para comer. Literalmente diz, “mantinha-se dando-os” 284 aos
Seus discípulos, os quais os levaram (em canastras reunidas aqui e ali
dentre a multidão?) à multidão. O procedimento usado com os peixes foi
algo parecido. Marcos diz, “e por todos repartiu ... os dois peixes”.
A impressionante beleza do relato vê-se realçada pelo fato de que só
se usam umas poucas e singelas palavras para relatar o milagre da

282
A questão das posturas para orar é tratada com mais detalhe no CNT sobre 1 e 2 Timóteo e Tito,
pp. 107–109.
283
Em tempo presente, ind. 1ª. pes. sing. Os dois verbos são εὑλογέω y εὑχαριοτέω.
284
Pretérito impf. ἐδίδου aqui e também em Lc. 9:16. Contraste-se Mt. 14:19 “deu”.
Marcos (William Hendriksen) 336
multiplicação dos fragmentos. Poderia dizer-se que o milagre está
implícito mais que expresso explicitamente.
42. Todos comeram e se fartaram. Em que momento exatamente
foram o pão e os peixes multiplicados? “Em suas mãos?”.
Provavelmente, mas nem mesmo isto se afirma. A única coisa que
realmente sabemos é que houve abundância de pão e peixes — na
realidade, bastante e muito mais — para todos. Em algum momento
entre o partir (ou divisão) e a recepção dos pedaços da parte do povo,
deve ter ocorrido o milagre. Todos comeram e se “fartaram”, quer dizer,
“receberam quanto quiseram”, “ficaram totalmente satisfeitos”. 285

8. Recolhe-se o que sobrou


43, 44. E ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão
e de peixe. Os que comeram dos pães eram cinco mil homens.
A contaminação é irresponsabilidade: o que não se pode comer não
deve atirar-se em qualquer parte. Espalhar desperdícios é pecaminoso;
desperdiçar é imperdoável. O que não se pode comer deve-se recolher.
Segundo Marcos, isto se aplica não só ao pão, mas também ao peixe.
Tão grande foi o milagre que Marcos peca por modéstia quando diz
que os cinco pães e os peixes foram mais que suficientes para dar de
comer a cinco mil homens, pois nem sequer menciona o número das
“mulheres e crianças” (Mt. 12:41); embora estes também tenham
285
ἐχορτάσθησαν aor. pas. 3ª. pes. plur. de χορτάζω. Embora este verbo usava-se ao princípio com
relação à alimentação e engorda de animais (de cujo significado se observa um eco em: “e todas as
aves se saciaram da carne deles”, Ap. 19:21), e começou-se a aplicar aos homens principais pelos
poetas cômicos, gradualmente perdeu seu sentido ofensivo. Aqui usa-se simplesmente como sinônimo
de ter o bastante, ficar plenamente satisfeito. Cf. Mt. 14:20; 15:33, 37; Mc. 7:27; 8:4, 8; Lc. 6:21;
9:17; 15:16; 16:21; Jo. 6:26; Fp. 4:12; Tg. 2:16.
Jesus viu seus discípulos “atormentados ao remar”; ou literalmente, torturados ἐν τῷ ἐλαύνειν. O
pres. infinitivo at. usa-se aqui como substantivo verbal: “no (ato de) remar”. O verbo ἐλαύνω lembra-
nos nosso termo afim elástico. Um elástico tem força de tensão: devolve a força. Mediante a força
elástica do arco curvado, a corda, ao soltar-se expele ou lança a flecha. Assim os remadores mediante
o movimento que imprimem aos remos empurram o barco, remam (Mc. 6:48; Jo. 6:19). Os ventos
impulsionam os navios (Tg. 3:4) ou as nuvens (2Rs 2:17). Os demônios impeliram um
endemoninhado ao deserto (Lc. 8:29).
Marcos (William Hendriksen) 337
desfrutado da dádiva que Jesus havia provido de forma tão milagrosa e
abundante.
Como em outros lugares, aqui Jesus se revela como o Salvador
perfeito; Aquele que provê tanto para o corpo como para a alma (cf. Mc.
8:19–21; Jo. 6:35, 48). É Aquele que já se apregoa no Antigo
Testamento (1Rs. 17:16; 2Rs. 4:43, 44; veja-se também Jo. 6:14; cf. Dt.
18:15–18; e Jo. 6:32). A O tragédia foi que o ponto de vista das massas
era terrestre, errôneo e materialista com relação a este Libertador, como
se vê claramente em João 6:15.
O estudo detalhado das massas que com frequência rodeavam a
Jesus, e de Sua atitude para com elas, arroja luz sobre a profundidade de
Seu amor e Sua tenra misericórdia (veja-se Mc. 6:34; 8:2; cf. Mt. 9:36;
etc.). Mas embora se possa admitir que o Senhor teve períodos de
“popularidade”, e que nos Evangelhos o que se sublinha não é a
hostilidade das multidões, e sim a dos dirigentes, entretanto, não deve
supor-se que a relação entre Jesus e Seus ouvintes foi sempre amistosa.
Às vezes o povo Lhe pediu que fosse embora (Mc. 5:17) ou se
escandalizou dele (Mc. 6:3). Às vezes o abandonaram (Jo. 6:66). Em
geral, por considerações egoístas (Jo. 6:26), mal-entendiam a Ele e Sua
missão (Jo. 6:15). Enfim, os dirigentes do povo convenceram a multidão
para pedir Sua morte na cruz (Mc. 15:11–14).
Em contraste com tudo isto observamos que Jesus jamais empregou
Seu poder para realizar milagres com fins destrutivos, nem para ferir
pessoas, mas antes, sempre para socorrê-las. Alimentou os que padeciam
fome, curou os doentes, teve compaixão e ensinou os desviados e buscou
os perdidos. Foi assim que, quando Se viu constrangido a pronunciar a
queda de Jerusalém, fê-lo com o coração entristecido (Mt. 23:37–39).
Não nos deve surpreender, então, que aqueles que deixam que
aquele amor tão espontâneo, profundo, e desinteressado fique sem
resposta, entesouram para si maior castigo. Ao falar a respeito do amor
profundo e tenro de Cristo, não se deve descuidar este “outro aspecto”,
do qual os Evangelhos proporcionam abundante evidência (cf. Mc. 7:1–
Marcos (William Hendriksen) 338
13; 8:15, 31; 9:19, 31; 10:33, 34; 11:12–18, 20, 21; 12:1–12; 13:2; cf.
Mt. 7:24–27; 11:20–24; 21:12–16; 21:23–22:14; 23; 25:41–46; etc.). Aos
que dão as costas ao amor do Pastor espera-os a “ira do Cordeiro” (Ap.
6:16)!

Mc. 6:45–52 - Andando sobre a água


Cf. Mt. 14:22–33; Jo. 6:15–21

Ao comparar o relato de Marcos com o de Mateus (Mt. 14:22–33),


o que mais nos chama a atenção é a semelhança que há entre os dois. Em
ambos os relatos Jesus ordena aos Seus discípulos a entrarem no barco e
cruzar ao outro lado. Ele vai sozinho a um monte a orar. No mar um
forte vento lhes impede o avanço. À quarta vigília da noite Jesus vai até
eles. Caminha sobre a água apesar das ondas. Os homens não O
reconhecem e O tomam por um fantasma; aterrorizados dão fortes gritos.
Imediatamente Jesus Se dirige a eles com palavras consoladoras: “Tende
bom ânimo! Sou eu. Não temais!”. Sobe ao barco e o vento se calma. Os
discípulos estão sobressaltados de assombro (Marcos) e louvor (Mateus).
A história não se acha em Lucas, mas está em João (Jo. 6:15–21).
Embora este evangelista a relate à sua maneira, em seus pontos
essenciais os três relatos (Mateus, Marcos, João) coincidem. Entretanto,
sem entrar em conflito uns com os outros, cada Evangelho faz sua
própria contribuição. Mateus é aquele que descreve a tormenta de forma
mais vivaz. É também o único que narra a história da aventura de Pedro
sobre as águas, e afirma que no final de todo o acontecimento os
discípulos confessam que Jesus é o “Filho de Deus” (Mt. 14:33).
João menciona a razão, ou uma das razões pela qual Jesus Se retirou
ao monte. Foi o fato de que o povo tentasse tomá-Lo pela força para O
fazer rei (Jo. 6:15). Diz que os discípulos iam em direção a Cafarnaum
(Jo. 6:17). Interpretado de forma geral, isto não entra em conflito com
Marcos 6:45, 53. É João quem nos diz que alguém que mais tarde Se
revela como Jesus apareceu aos navegantes, depois de avançar como
Marcos (William Hendriksen) 339
“vinte e cinco ou trinta estádios”. Quando souberam quem era, eles O
receberam no barco, depois do que atracaram em seguida. Como se deve
explicar que nem João nem Marcos repetem a história de Mateus que se
refere a Pedro (14:28–31)? Apesar de que se têm feito muitas conjeturas,
não o podemos determinar.
Marcos faz sua própria contribuição. Jesus enviou os Seus
discípulos a Betsaida e Genesaré. O barco se achava “no meio do mar”
quando estalou a tempestade. Jesus viu os discípulos “fazer grandes
esforços com os remos” e “estava para passá-los de largo”. Falou “com
eles”. O milagre deixou os discípulos “sobremaneira assombrados”. A
razão: seus corações estavam endurecidos, e por isso não captaram o
significado pleno do milagre da multiplicação dos pães.

1. Os discípulos sem Jesus


45. Logo a seguir, compeliu Jesus os seus discípulos a embarcar
e passar adiante para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia
a multidão.
Jesus Se despediu da multidão. Enquanto 286 fazia isto mandou os
Seus discípulos que fossem no barco diante dEle à margem ocidental do
lago.
Por que Se despediu da multidão? Ao menos, os seguintes pontos
merecem uma cuidadosa consideração na elaboração de uma resposta:
a. Já era tarde, e a maioria das pessoas estava longe de seus lares.
b. O povo não queria nem tinha intenção de abandonar a Jesus.
c. Queriam “vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem
rei” (Jo. 6:15), e isto era justamente o que Jesus não queria (veja-se Jo.
18:36).

286
Note-se ?ως seguido presentemente indic. = “enquanto” (com aor. subj. = “até”). Veja-se E. D.
Burton, Syntax of the Moods and Tenses in New Testament Greek (Chicago, 1900), pp. 126–128,
especialmente os parágrafos 321, 325, e 328. Mas esta regra é flexível, veja-se a nota 723 do presente
comentário.
Marcos (William Hendriksen) 340
d. Jesus desejava reservar algo de tempo para ter comunhão pessoal
com Seu Pai celestial.
Quanto à pergunta de por que Jesus Se despediu de Seus discípulos,
a explicação adequada seria o ponto d., quer dizer, a necessidade de
comunhão particular. Além disso, com relação ao ponto c., Jesus sabia
que Seus discípulos não estavam livres de esperanças messiânicas
errôneas (cf. At. 1:6).
Podemos supor, portanto, que para Ele estava claro que não
convinha que Seus discípulos fossem influenciados pelo clamor da
multidão.
Marcos faz referência a Betsaida, a qual evidentemente estava no
lado ocidental do lago, igual à planície de Genesaré ao sul de Cafarnaum
(cf. Mc. 6:53; Jo. 6:17). Para mais detalhes a respeito das duas Betsaidas,
veja-se CNT sobre Jo. 6:1, 16–21.
46. E, tendo-os despedido, subiu ao monte para orar.
Um livro muito agradável e ao mesmo tempo proveitoso é o de R.
E. Speer, The Principles of Jesus Applied to Some Questions of Today
(Nova York, Chicago, Toronto, 1902). Neste livro o escritor assinala que
o propósito que Cristo teve ao vir a este mundo foi, em parte, “para
deslocar o legalismo pelo espírito de uma vida verdadeira; substituir
regulamentos por princípios” (p. 10). Agora, a oração pertence à própria
essência desta “vida verdadeira”. Em uma das passagens de seu livro,
Speer nos ajuda a entender melhor Marcos 6:46, quando assinala que a
oração era o verdadeiro hálito de Cristo, quer dizer, “oração livre de
egoísmo (Lc. 22:32), oração de perdão (Lc. 23:34), oração fervente (Lc.
22:44), e oração submissa (Mt. 11:26; 26:39, 54)” (p. 20).
A cena de Jesus orando no monte por Si mesmo e também por
outros, incluindo Seus discípulos, segundo Seu costume (cf. Jo. 17), não
deve separar-se da cena dos discípulos no tempestuoso mar.
47. Ao cair da tarde, estava o barco no meio do mar, e ele,
sozinho em terra.
Marcos (William Hendriksen) 341
“No meio do mar.” O Evangelho de João nos informa que o barco
tinha avançado vinte e cinco ou trinta estádios, isto é, uns cinco ou seis
quilômetros. Agora, se a distância entre Betsaida Júlia (ponto onde os
discípulos iniciaram sua viagem de volta, Lc. 9:10) e Betsaida da
Galileia (lugar de desembarque, Mc. 6:45; cf. 12:21) era de uns oito
quilômetros, aqueles homens se achavam seriamente “no meio do mar”.
Então, ao chegar a noite, levantou-se uma tempestade. João diz, “E
o mar começava a empolar-se, agitado por vento rijo que soprava”.
Mateus acrescenta, “Entretanto, o barco já estava longe, a muitos
estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário”.
Mais que descrever a tormenta, Marcos a pressupõe (v. 48). Mas assim
como os outros, sublinha a hora em que ocorre o episódio: de noite, na
escuridão; e sublinha o lugar, no meio do mar, e a ausência de Jesus;
“Ele estava sozinho em terra”, mas em terra ocupado em orar (v. 46).
Comparemos as duas cenas: a. A oração de Cristo que incluía uma
intercessão, e b. a situação perigosa (humanamente falando) dos
discípulos! Resultado: a situação não era absolutamente perigosa, porque
lá no monte, a oração de Cristo supunha a petição de que a vida de Seus
discípulos fosse preservada a fim de que pudessem cumprir sua missão.
Não tem este quadro combinado muitas aplicações consoladoras para
toda circunstância difícil e angustiosa, e inclusive para toda “crise”? E
por acaso existiu jamais um período da história da igreja em que não
tenha havido alguma crise?

2. Os discípulos junto ao Jesus desconhecido


48. E, vendo-os em dificuldade a remar, porque o vento lhes era
contrário, por volta da quarta vigília da noite, veio ter com eles, andando
por sobre o mar.
Mateus 14:24 afirma que o barco era “torturado”, “açoitado” ou
“acossado” pelas ondas. Marcos usa aqui o mesmo particípio com
relação aos discípulos. Jesus os viu que estavam sendo “acossados”
Marcos (William Hendriksen) 342
enquanto remavam. Tanto Marcos (Mc. 6:48) como João (Jo. 6:19)
fazem referência à atividade de remar. 287
Foi então quando Jesus, em cumprimento de Sua promessa
(implícita no v. 45), aproximou-se deles. A hora era “como à quarta
vigília da noite” (cf. 13:35). Aquela vigília abrangia das 3 até as 6 da
madrugada. Note-se a palavra “como”. Pôde ter sido às 3, um pouco
mais cedo, ou talvez um pouco mais tarde.
Apesar da escuridão, Jesus vê que com grande dificuldade Seus
discípulos fazem avançar a embarcação. E apesar de a água ser
inadequada para caminhar, Jesus caminha sobre ela. E apesar das
tempestuosas ondas e esmagadores ventos que lhe acossam de frente,
sem vacilar prossegue com passo firme rumo ao barco. Não até chegar
ao próprio barco, senão até um ponto próximo ao seu lado; porque
Marcos escreve, e queria tomar-lhes a dianteira. Alguns têm
interpretado isso no sentido de que a intenção do Mestre era encontrar-se
com Seus discípulos, não nesses momentos, mas um pouco mais tarde,
quando tivessem chegado à outra margem. Mas à vista das palavras
“veio ter com eles” provavelmente é preferível uma interpretação
diferente; quer dizer, chegou a um lugar perto do barco dispondo-se logo
a seguir adiante dele, dando-lhes assim bondosamente a oportunidade de
convidá-Lo a subir a bordo. Sem aquela gostosa bem-vinda da parte
deles, teria passado adiante.
Este é um ponto importante. A divina disposição dos eventos não
elimina de modo nenhum as ações humanas. A eleição não é
incompatível com o esforço (veja-se Fp. 2:12, 13; 2Ts. 2:13). Talvez
Jesus pensou: “Darei a eles a oportunidade de Me convidar a subir
bordo; e se não o fizerem passarei de largo”. Não apoia João 6:21 esta
interpretação do pensamento de Jesus? Em Lucas 24:28 veja-se uma
ação de Jesus um tanto parecida.

287
Contraste-se Lenski, Op. cit., 172.
Marcos (William Hendriksen) 343
A forma surpreendente em que aqui se desdobram os atributos de
nosso Senhor merece um estudo especial. Temos em primeiro lugar Seu
conhecimento. O contexto precedente (veja-se os vv. 46, 47) dá a
impressão de que, enquanto Jesus ainda Se achava “em terra” viu estes
discípulos através da escuridão ou apesar dela! Veja-se mais detalhes a
respeito da estreita relação existente entre a natureza humana e divina de
Cristo, entre Seu conhecimento e Sua onisciência, mais acima em
Marcos 5:32; também Introdução III. E estudem-se passagens tais como
Mt. 17:27; 21:19; 24:36; Mc. 2:8; 5:30; 11:13; Jo. 1:47, 48; 2:23–25.
Em segundo lugar, considere-se seu poder. Marcos já relatou vários
acontecimentos com relação à forma tão notória em que este poder
manifestou-se (Mc. 1:25–27, 31–34, 39–42; 2:8–12; 3:5, 10, 11, 4:39;
5:9–13, 34, 41, 42). Agora, aqui em Mc. 6:48, Aquele que acalmou as
ondas (Mc. 4:39) demonstra que também é capaz de fazer com que lhe
sirvam de caminho para seus pés. Veja-se Jó 9:8.
Fizeram-se intentos de evitar esta conclusão e de mudar a expressão
“andando sobre o mar” por “andando junto ao mar”. No contexto
presente, isto não se ajusta. Se a expressão exatamente igual do versículo
precedente (Mc. 6:47) significa que Jesus estava sozinho “em terra”, no
versículo 48 deve significar que realmente andou “sobre o mar”.
Não seria correto nos referir ao conhecimento e ao poder do Mestre
e esquecer do seu amor, segundo se revela aqui. Aqueles homens
angustiados de modo nenhum eram perfeitos, e isso se observa nos
versículos 49 (eram supersticiosos) e 52 (em certo sentido seu coração
estava endurecido). Não obstante, a compaixão de Jesus é tão tenra, seu
afeto tão paternal, que não existe nem escuridão nem tempestade nem
ondas que possam mantê-Lo afastado daqueles que Lhe são muito, sim,
muito queridos. Quando necessitam dEle, Ele deseja estar com eles. 288

288
A palavra βασανιζομένους (cf. 5:7; Lc. 8:28) é um ptc. pres. pl. ac. (depois de ἰδών) de βασανίζω.
Veja-se a forma afim em Mt. 14:24 (ptc. pas. pres. nom. sing.). Mateus usa também este verbo com
referência ao “servo” do centurião que estava “gravemente atormentado” (8:6); e cf. “vieste aqui para
nos atormentar antes de tempo?” (8:29). A palavra usa-se igualmente com relação a Ló, o qual era
Marcos (William Hendriksen) 344
49, 50a. Pois todos ficaram aterrados à vista dele. Mas logo lhes
falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! E subiu para o
barco para estar com eles, e o vento cessou. Ficaram entre si
atônitos.
Com o barco em direção a sudoeste, os remadores deviam estar
olhando rumo ao nordeste. Talvez da lua precedente à Páscoa, que
aparecia intermitentemente por entre as negras nuvens, deu-lhes algo de
luz para ver não muito longe o que pareceria um homem que vinha até
eles da parte de Betsaida Júlia. Pensaram que aquela figura misteriosa
não podia ser um homem verdadeiro, porque um ser humano não pode
caminhar sobre a água! Disto os navegantes estavam seguros. Não se
davam conta de quão errados estavam. Assim que, sobressaltados de
pavor, pensaram que o que viam era um fantasma. 289
Herodes Antipas não era de modo algum a única pessoa
supersticiosa que se menciona no Novo Testamento (Mc. 6:14). Os
discípulos também estavam ainda sob a influência de crenças irracionais
fortemente arraigadas. Cf. At. 13:15.
Também hoje em dia há pessoas, incluindo membros de igrejas, que
consultam os médium para averiguar o que sucederá no mercado de
valores; e aqueles que, se num dia 13 um gato negro cruza o seu
caminho, encolhem-se de horror; e se espantam se devem passar logo
sob uma escada para chegar à habitação Nº. 13 — supondo que ainda
exista tal habitação! — e ao chegar ali se derrama uma boa quantidade
de sal. E de modo algum fariam nada disso se o seu horóscopo lhes
indicasse que esse dia para eles é dia de “má sorte”!

“aflito” ou “vexado” pelas ações licenciosas de seus vizinhos ímpios (2Pe 2:8); ao qual pode-se
acrescentar os casos de seu uso no Ap. 9:5; 11:10; 12:2; 14:10; 20:10. Jesus veio para curar aos
afligidos por “tormentos” (Mt. 4:24; cf. Lc. 16:23, 28). O substantivo βάσανος (cf. a palavra
“basanita”) indica: a. basicamente, uma pedra de toque para provar ouro e outros metais; b. o
instrumento de tortura pelo qual eram provados os escravos, quer dizer, forçados a revelar a verdade;
e c. tormento ou dor aguda.
289
Como exceção, note-se aqui que é Mateus quem usa o estilo direto, “É um espírito”, enquanto que
Marcos se expressa de forma indireta. Veja-se Introdução IV, nota 5 g.
Marcos (William Hendriksen) 345
Quão pequena era a fé dos Doze! Estavam olhando o Seu Senhor e
Salvador, mas creram que o que estava à sua vista era um infernal
espectro que andava rondando, que era um “fantasma” ou um “espírito”.
Que cada um faça sua própria aplicação!
Assim que clamaram (literalmente “chiaram”). Todos estavam
“mortos de medo”, usando uma expressão popular. Marcos informa que
todos eles O viram e “tremiam”, estavam “aterrorizados”.
Em todo o grupo não havia um só discípulo, nem sequer Pedro, com
a valentia necessária para comunicar coragem aos seus companheiros.
Veja-se também a passagem paralela de Mt. 14:26.
O verbo que se usa no original para indicar esta condição de pânico
e alarme 290 é muito descritivo. Em Mateus 2:3 usa-se para descrever o
espanto que sentiu Herodes, o Grande quando ouviu a respeito do
nascimento de um “rei dos judeus”. Em voz ativa significa agitar,
revolver, turvar, inquietar como quando se fala do rei do Egito,
semelhante a um monstro marinheiro que move as águas com seus pés e
as suja (LXX Ez. 32:2). Figurativamente refere-se, em voz ativa, a
transtornar o coração e a mente lançando-os a confusão e alarme; e em
voz passiva a estar aterrorizado e atemorizado.291 Aqui em Mc. 6:50a e
Mt. 14:26 há um quadro de homens fortemente em comoção que no meio
da escuridão e a tormenta lançam um forte e frenético grito de terror e
medo, porque um espectro tenta persegui-los com fins maléficos.
O que se deve fazer com semelhantes temores? Tempo depois,
durante a noite memorável da instituição da Santa Ceia, Jesus, falando
com Seus discípulos no cenáculo, deu a resposta. Usando o mesmo verbo
— “ser turbado” — disse em frases que têm uma cadência rítmica, uma
ternura calmante e consoladora: “Não se turbe o vosso coração; credes
em Deus, crede também em mim” (Jo. 14:1).

290
ἐταράχθησαν aor. ind. pas. 3ª. pes. plur. de ταράσσω.
291
Em Marcos o verbo ocorre nesta passagem unicamente. Além de Mt. 2:3; 14:26, acha-se também
em Lc. 1:12; 24:38; várias vezes em João (Jo. 11:33; 12:27; 13:21; 14:1, 27); em At. 15:24; 17:8, 13;
Gl 1:7; 5:10; e em 1Rs. 3:14.
Marcos (William Hendriksen) 346
3. Os discípulos com Jesus, a quem agora reconhecem, porque lhes
fala.
50b. Mas logo lhes falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não
temais! [ou: deixai de ter medo].
A resposta de Jesus é imediata. De forma amigável e afetuosa
começa a falar “com” eles. Diz-lhes exatamente o que necessitam para
apagar esse medo nascido da superstição. Segundo a informação que
temos no Novo Testamento, com uma só exceção, a única coisa que diz
“Tende bom ânimo” ou “Tende coragem” é Jesus. Além de Mc. 6:50,
veja-se também Mc. 10:49 (a única exceção); 292 Mt. 9:2, 22; 14:27; Jo.
16:33; e At. 23:11. “Sou eu”, diz Jesus; querendo dizer, o Mestre em
pessoa, o mesmo que os escolheu para ser Seus discípulos, que os guiou
passo a passo, e que já lhes deu tantas provas de Seu poder e amor. Em
consequência acrescenta, “Não temam”. Os discípulos devem deixar sua
atitude pacata; antes, devem cobrar ânimo e encher-se de alegria.
Quando Jesus pronunciou as palavras, “Tende bom ânimo! Sou eu.
Não temais!”, talvez deixou momentaneamente aturdidos os Seus
discípulos. Mas o atordoamento inicial deu passo à uma surpresa muito
jubiloso. Para outras surpresas semelhantes veja-se Gn. 13:14–18; 15:1ss.;
17:1–21; 18:1–8; 22:10b–19; 26:23–25; 28:10–22; 45:1ss.; Êx. 3:1–12; 14:15;
33:14; 34:6, 7; 40:34, 35; Js. 5:13ss.; 10:12–14; 1Rs. 18:38–40; Is. 37:36; Jr.
39:16–18 (cf. 38:7–13; Mt. 28:1–10; Mc. 16:1–8; Lc. 24:30–32; Jo. 20:21; At.
2:1; 4:31; 12:7ss. E veja-se especialmente 1Co. 2:9 (cf. 1Rs. 10:6, 7).
51. E subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou.
Ficaram entre si atônitos.
O episódio relacionado com Pedro (Mt. 14:28–31) teve lugar
provavelmente perto deste momento. Ao subir Jesus ao barco para estar

292
E mesmo esta não deve ser considerada necessariamente como uma exceção, porque é a reação dos
amigos à ordem de Cristo de que o cego seja chamado. É quase como se Jesus, por boca destes
amigos, estivesse dizendo ao cego, “Tenha ânimo”. As palavras de Paulo em At. 27:22, 25 se
aproximam às que com tanta frequência disse o Senhor; mas a. no original o apóstolo usa um verbo
diferente; e b. faz-se eco, embora de todo coração, das palavras do céu ditas por um anjo.
Marcos (William Hendriksen) 347
com Seus discípulos, Sua presença consoladora apagou os vestígios de
seu pânico supersticioso inicial. E quando amainou a tormenta nos
corações, o mesmo sucedeu com a tormenta física: “o vento se
apaziguou”, como tinha sucedido também numa ocasião anterior (4:39).
Resultado: os discípulos ficaram grandemente assombrados. Qual
tinha sido a causa de sua inquietação histérica fazia uns instantes, e qual
a causa de seu confusão assombro agora? Resposta:
52. porque não haviam compreendido o milagre dos pães; antes,
o seu coração estava endurecido.
Se tivessem compreendido plenamente o significado da alimentação
milagrosa (Mc. 6:35–44), teriam entendido que isso significava o poder
de Cristo para dobrar o universo material à sua vontade, incluindo não só
o produto da terra (pão), mas também as ondas do mar e os ventos
impetuosos. O problema estava em seus corações: Na realidade, seus
corações estavam endurecidos.
Na Escritura, o coração é a sede dos sentimentos e da fé, como
também a fonte das palavras e das ações (Mt. 12:34; 15:19; 22:37; Jo.
14:1; Rm. 10:10; Ef. 1:18). É a raiz da vida intelectual, emocional e
volitiva do homem, é o núcleo e centro da existência humana, seu ser
mais íntimo. “Dele emana a vida” (Pv. 4:23). “O homem olhe o que está
diante de seus olhos, mas o Senhor olha para o coração” (1Sm. 16:7).
Quando Marcos diz que o coração destes discípulos estava “endurecido”,
significa provavelmente que a estupidez dos Doze, sua incapacidade para
deduzir as conclusões necessárias dos milagres de Jesus, era o resultado
de sua negligência pecaminosa, por não refletir e meditar naquelas
maravilhosas obras e no Autor delas. O assombro não os impediu de cair
imersos numa espécie de torpor ou preguiça espiritual, apesar de que, em
seu regozijo, estes discípulos chegassem inclusive a reconhecer a
deidade de seu Mestre, como sucedeu também nesta mesma ocasião (Mt.
14:33); em outras palavras, não imaginaram perguntar-se o que daquele
Ser divino poderia esperar-se. Vez após vez foi necessário despertar de
sua letargia espiritual. Por outro lado, esta dureza de coração não deve
Marcos (William Hendriksen) 348
confundir-se com a insensibilidade e indiferença dos escribas e fariseus.
Tal atitude era o resultado da incredulidade e do ódio. Pelo contrário, os
discípulos (menos Judas), eram homens de fé … embora de pequena fé.
A lição que a Escritura ensina é que a fé deveria ser desperta o
bastante para deduzir conclusões corretas de premissas solidamente
estabelecidas (Mt. 6:26–30; Lc. 11:13; Rm. 8:31, 32), embora isto nem
sempre é tomado a sério.

Mc. 6:53–56 - Curas em Genesaré


Cf. Mt. 14:3–36

53. Estando já no outro lado, chegaram a terra, em Genesaré, onde


aportaram. Com base em João 6:17; alguns intérpretes pensam que o
vento tinha impedido o navio de atracar em Cafarnaum ou inclusive em
Betsaida (Mc. 6:45) e que o havia obrigado a buscar um lugar de
ancoragem um pouco mais ao sul. Entretanto, isto não é seguro.
“Genesaré” é o nome de uma planície fértil e muito povoada ao sul de
Cafarnaum. Mede uns cinco quilômetros de longitude ao longo do mar
da Galileia (também chamado lago de Genesaré, Lc. 5:1), e 2
quilômetros de largura desde a margem do lago. Segundo Josefo (Guerra
Judaica, III. 516–521) sua beleza e fertilidade naturais eram
sobressalentes; e diz: “Não existe planta que seja rejeitada por este solo
fértil”, quer dizer, a terra não se recusa a produzir. Segundo este autor
cresciam na planície castanhas, palmas, figos, azeitonas e uvas. Tão alta
reputação tinham os frutos de Genesaré entre os rabinos, que não se
permitia sua comercialização em Jerusalém durante as festividades para
evitar que alguma pessoa se sentisse tentada a assistir às festas
meramente para degustá-los. Foi onde o pequeno grupo decidiu lançar
âncoras. 293

293
Note-se προσωρμίσθησαν aor. ind. pas. 3ª. pes. plur. de προσορμίζω; de _ρμος = ancoradouro ou
fundeadouro. Era un lugar donde se encontraban el mar y la tierra; cf. “horizonte” donde el cielo y el
mar — o tierra — parecen encontrarse.
Marcos (William Hendriksen) 349
Desde aquele embarcadouro, Jesus devia prosseguir até a próxima
Cafarnaum (Jo. 6:17, 24, 25), mas não sem antes haver abençoado as
pessoas daquela região com Sua bondosa presença, segundo se mostra
nos seguintes versículos:
54, 55. Saindo eles do barco, logo o povo reconheceu Jesus; e,
percorrendo toda aquela região, traziam em leitos os enfermos, para onde
ouviam que ele estava.
É claro que nos versículos 54–56, Marcos é muito mais vivo e
detalhado que Mateus em 14:35, 36. Nem bem Jesus desembarca, e a
multidão O reconhece imediatamente. A estas alturas já era conhecido
bem como Aquele que cura. Tinha havido curas individuais
sobressalentes (Mc. 1:23–31, 40–45; 2:1–12; 3:1–5; cap. 5) e também
curas em massa (Mc. 1:32–34; 3:7–12). Assim que, não estranha que as
notícias de sua chegada se difundiram rapidamente. As pessoas corriam
para propagar as boas notícias. Resultado: de todas as partes dos
arredores as pessoas levavam os doentes a Jesus.
Levavam-nos em macas, provavelmente eram colchonetes cheios de
palha (veja-se sobre 2:4). A qualquer lugar onde se dizia que Jesus
estava, levavam-lhe doentes de todo tipo. 294 Vinham de todas as partes, e
iam a qualquer lugar onde Jesus estivesse.
56. Onde quer que ele entrasse nas aldeias, cidades ou campos,
punham os enfermos nas praças, rogando-lhe que os deixasse tocar ao
menos na orla 295 da sua veste; e quantos a tocavam 296 saíam curados. 297
294
Note-se το_ς κακ_ς _χοντας: “todos os que tinham mal” = todos os que estavam doentes (cf. 1:32,
34; 2:17); _που _κουον, imper. iterativo: “onde ouviriam”; _τι _στίν: “que ele está”, onde diríamos
“que ele estava”. Depois de tempos secundários o grego geralmente retém o tempo do discurso. Veja-
se Robertson, p. 1029.
295
Ou: franja.
296
Ou: tocá-la.
297
Notem-se os seguintes pontos, principalmente de caráter gramatical:
a. _που _ν _ισεπορεύετο: No Novo Testamento, este tipo de orações com o optativo se substitui pelo
indicativo com _ν. Veja-se E. D. Burton, Op. cit., pp. 124, 125, parágr. 315.
b. Os verbos que indicam entravam … punham … rogavam … eram curados, estão todos em
imperfeito iterativo. Talvez se poderiam traduzir: “entrariam … poriam … rogariam … seriam
curados”. Entretanto, não é sempre necessário nem recomendável traduzir cada expressão desta
Marcos (William Hendriksen) 350
Que ministério tão enriquecedor foi este! Talvez houve também
ensino, mas no caso de ser assim, nada se diz a respeito. O que se
sublinha são as curas. Isto sucedeu nas aldeias, povos e campos (cf. 5:14;
6:6). Sucedia que muitos que tinham seres queridos doentes os levavam
à praça do mercado, com a esperança de que Jesus possivelmente
passasse por aqueles lugares. A palavra praça de mercado pode,
entretanto, referir-se também a uma praça ou espaço aberto em alguma
aldeia muito pequena para ter uma praça de mercado oficial.

Tanta fé tinham aquelas pessoas no poder curativo e compaixão do


Salvador que — como no caso da mulher descrita em Mc. 5:27–30, e
veja-se especialmente Mt. 9:20, 21 — estavam convencidas de que se
fosse permitido que o doente tão somente tocasse a borla (bordo ou
franja) do manto do Mestre, produzir-se-ia instantaneamente a cura.
Marcos nem sequer se preocupa de nos informar se esta permissão foi
concedida. No caso de Jesus é dado por sentado! E todos os que O
tocaram (ou: “tocaram-na”, em todo caso o significado é o mesmo)
foram instantânea e completamente curados. Os Evangelhos nos ensinam
que Jesus curava as pessoas por meio de um toque ou deixando que O
tocassem. Há outros detalhes mais acima, com relação a Marcos 1:41.

A hinologia não deixou passar desapercebido o ministério de Jesus


na planície de Genesaré. Veja-se as linhas escritas por E. H. Plumptre no
belo hino “O Teu braço, Ó Senhor, nos tempos antigos”:

forma. P. ex., “seriam curados” poderia ser interpretado erroneamente como “iam a ser curados”. Mas
o escritor queria dizer que eram curados de forma definitiva ali mesmo. Daí que neste caso a tradução
“e quantos lhe tocavam eram curados” é provavelmente a melhor, especialmente ao considerar que
_που _ν ε_σεπορεύετο (= onde quer que entrava) é indefinido, conquanto _σοι _ν _χαντο (aor., =
quantos lhe tocavam) é definido. Em cada caso particular o toque momentâneo foi seguido de cura, e
estas curas aconteceram vez após vez.
c. κ_ν significa “se tão somente”.
d. Os verbos de tocar tomam o genitivo como complemento; daí κρασπέδου (= franja, borla).
Marcos (William Hendriksen) 351
Vem, Senhor, hoje de perto abençoar,
Como antigamente mostravas Teu poder,
Onde quer que seja, e junto ao leito de dor
Como nas praias de Genesaré.
(Tradução livre)

Resumo do capítulo 6

Um sábado Jesus ensina na sinagoga de Nazaré, onde fora criado. A


concorrência fica assombrada por Sua sabedoria. Entretanto, depois de
refletir um pouco mais, as pessoas não pode entender como estas
palavras de sabedoria podem sair dos lábios de alguém que se criou entre
eles, de alguém conhecido como “o carpinteiro”. Conhecem os Seus
irmãos intimamente, podem mencioná-los inclusive pelo nome. Suas
irmãs ainda vivem entre eles. Qual é, então, a origem de suas palavras?
Além disso, como pode ser possível que lhe sejam atribuídos milagres
feitos com Suas mãos e que alguns dos presentes na concorrência talvez
os presenciaram? Um carpinteiro de Nazaré falando palavras de
sabedoria e realizando milagres? Impossível! Escandalizavam-se nEle.
Jesus diz: “Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus
parentes e na sua casa”. Num ambiente tão hostil só pôde curar a uns
poucos doentes (vv. 1–6a).
Com frequência ocorre que entre mortais comuns e correntes
aqueles que são rejeitados admitem o fracasso e abandonam sua
intenção. Não assim Jesus. Ao contrário, intensifica os Seus esforços
evangelizadores. Leva a cabo uma campanha pessoal, “Contudo,
percorria as aldeias circunvizinhas, a ensinar”, e envia os Seus discípulos
numa viagem missionária. Além do ensino, realiza muitos milagres —
curas, expulsão de demônios — (6b–13). O resultado é duplo.
Primeiro, o governante Herodes Antipas, ouve a respeito de Jesus.
Sua consciência é despertada. Diz “É João, a quem eu mandei decapitar,
que ressurgiu”. Com relação a isto Marcos relata a história da festa
Marcos (William Hendriksen) 352
perversa de aniversário de Herodes e a horripilante morte de João Batista
(vv. 14-29).
Segundo, os discípulos retornam de sua viagem missionária, e
necessitam descanso. O assassinato de João Batista talvez teve neles um
efeito intranquilizador. O próprio Jesus sente a necessidade de íntima
comunhão com Seu Pai. De modo que fala com Seus discípulos assim,
“Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto” — ou tranquilo.
Numa barco se dirigem a Betsaida Júlia. Quando os galileus os veem
partir vão pressurosos a pé, dando uma volta até chegar à parte norte do
lago para estar com Jesus. Ao ver esta grande multidão, seu coração se
compadece deles, porque são como ovelhas sem pastor. Assim que, do
Seu lugar de retiro sai ao encontro deles e começa a ensinar-lhes muitas
coisas. Ao anoitecer, em vez de despedir a multidão faminta, realiza o
milagre de fazer com que cinco pães e dois peixes alcancem para cinco
mil homens. São recolhidos doze cestos cheios de restos depois que cada
um comeu o suficiente. Isto não deve ter convencido os Doze que
Aquele que exerce controle sobre os ingredientes que formam o pão tem
poder também para fazer com que ao seu mandato, obedeçam-lhe
também os ingredientes de uma tormenta: o vento impetuoso e ondas
(vv. 30–44)?
Não obstante, o que sucede? Depois de Se despedir da multidão e
ordenar aos Seus discípulos a voltarem para lado oposto do lago, Jesus,
ainda em terra, dirige-Se a um monte para orar. Quando da terra vê os
Doze, esforçando-se com os remos devido ao forte vento, aproxima-Se
deles caminhando sobre o mar. Crendo que veem um fantasma,
começam a gritar. Ele os calma dizendo: “Tende bom ânimo! Sou eu.
Não temais! (ou: deixem de ter medo)”. Ele Se teria adiantado ao barco,
mas eles Lhe pedem que suba a bordo. Quando sobe ao barco, o vento
cessa. Os Doze ficam sobressaltados de profundo assombro. Se seu
coração tivesse estado mais inclinado a refletir nas implicações da
multiplicação milagrosa dos pães, não teriam estado nem tão
aterrorizados, nem tão surpreendidos e assombrados (vv. 45–52).
Marcos (William Hendriksen) 353
Quando Jesus e os Doze atracaram à fértil planície de Genesaré,
aqueles que reconheceram o Mestre começaram a espalhar a notícia. De
maneira que começaram a levar-Lhe os doentes onde quer que Ele
estivesse. Aqueles que tocaram só o bordo de seu manto, recebiam cura
completamente e para sempre (vv. 53–56).
Marcos (William Hendriksen) 354
MARCOS 7
Mc. 7:1–23 - Contaminação cerimonial versus contaminação
verdadeira
Cf. Mt. 15:1–20

No final de Marcos 6 e Mateus 14 descreve-se a Jesus na planície


de Genesaré, ocupado ativamente em curar os doentes. É provável que
dali, Ele e os Doze prosseguissem até Cafarnaum (Jo. 6:17, 24, 25, 59)
onde pronunciou o discurso a respeito do Pão da vida. Isto pôde ter
ocorrido ao redor do mesmo tempo e lugar em que ocorreu o descrito em
Marcos 7:1–23. Veja-se também sobre o v. 17.
É evidente (veja-se especialmente os vv. 1, 5, 6ss) que o que aqui se
descreve é outra inflamada confrontação entre Jesus e os dirigentes
religiosos dos judeus.
Entre os muitos e duros enfrentamentos desta classe, há vários,
como bem pode ser o presente, em que Seus críticos inimigos parecem
esperá-Lo impacientemente no lado ocidental do mar da Galileia ou do
Jordão, preparados para o ataque. Além de Marcos 7:1–23 veja-se
também Mc. 5:21, 22 (em conexão com Mt. 9:18); 8:10, 11; 9:2, 14.
Mais tarde, depois de Jesus cruzar pela última vez da margem leste do
Jordão à margem oeste, seria produzida a série de ataques que
culminaram com a crucificação de Cristo nas subúrbios das muralhas de
Jerusalém (Hb. 13:12).
Tanto o episódio relacionado com a contaminação cerimonial em
contraposição à verdadeira, como o discurso de Jesus registrado em João
6, tiveram como resultado que fosse rejeitado (Mt. 15:12; Jo. 6:66). A
crucificação já se divisa. Teria lugar um ano mais tarde. O Grande
ministério galileu, cujo relato começou em Marcos 1:14, pode ser
considerado como chegando a seu fim em Mc. 7:23.
Marcos (William Hendriksen) 355
Se Marcos 7 for tomado como uma unidade, notamos que não se
acha duplicado em Lucas (do mesmo modo que Lucas 7 não tem
paralelo em Marcos). Marcos 7 trata de três temas:
a. Os escribas e fariseus interrogam a Jesus a respeito da
contaminação.
b. A fé da mulher siro-fenícia é recompensada.
c. Um surdo-mudo recupera a fala e a audição.
7:1, 2. Ora, reuniram-se a Jesus os fariseus e alguns escribas,
vindos de Jerusalém. E, vendo que alguns dos discípulos dele
comiam pão com as mãos impuras, 298 isto é, por lavar.
O começo da cláusula pode significar: a. que tanto fariseus como
alguns escribas tinham vindo de Jerusalém; ou b. que os fariseus eram da
localidade, galileus, mas que os escribas eram de Jerusalém. 299 Mas a
passagem paralela de Mateus 15:1, pareceria inclinar-se em favor de a.
É adequado falar aqui da profissão dos escribas e da seita dos
fariseus. Os escribas eram os doutores na lei. Estudavam, interpretavam
e ensinavam a lei, quer dizer, o Antigo Testamento. Com mais exatidão,
comunicavam à sua própria geração as tradições que de geração em
geração tinham sido transmitidas com relação à interpretação e aplicação
da lei, tradições que tinham tido sua origem no ensino dos veneráveis
rabinos de antigamente. Os fariseus eram aqueles israelitas que faziam
crer em todos que eles, os separatistas, viviam ou ao menos faziam um
grande esforço para viver de acordo com o ensino dos escribas.
Naturalmente, muitos escribas eram também fariseus. Veja-se CNT
sobre Mateus, pp. 214–216; e mais acima sobre Mc. 1:22; 2:6, 16; e
3:22.
A maioria dos fariseus e escribas odiavam a Jesus porque a. Ele Se
atribuía prerrogativas divinas; b. Ele não honrava suas tradições com
relação ao sábado, jejuns, abluções, etc.; c. Ele se associava com

298
Ou: cerimonialmente imundo.
299
Vincent Taylor, Op. cit., p. 334, adota a alternativa b.
Marcos (William Hendriksen) 356
publicanos e pecadores; d. Ele exercia o que eles consideravam uma
perniciosa influência sobre o povo; e e. Ele era o oposto deles.
Este último ponto necessita uma maior ênfase. Os inimigos de
Cristo certamente percebiam em seus corações que Jesus era
imensamente mais nobre que eles. Sua humildade (Lc. 22:27)
contrastava notavelmente com a pomposidade deles (Mt. 23:5–7); sua
sinceridade (Jo. 8:46), com a hipocrisia deles (Mc. 7:6); sua compaixão
(Mc. 6:34), com a crueldade deles (Mt. 23:14). Em grande medida, a
“religião” deles era uma atividade em interesse próprio (Mt. 6:2, 5, 16);
o ministério de Jesus era um sacrifício para o bem dos demais (Mc.
10:45) e para a glória do Pai (Jo. 17:1–14). Estavam conscientes alguns
destes inimigos de que Jesus conhecia seu verdadeiro caráter, e que os
tinha “fichados”?
O que quer que seja, aqui estão, chegados de Jerusalém, o centro da
“ortodoxia judaica. Sem dúvida, tinham ido ali por mandato do Sinédrio.
Seu propósito era certamente achar uma base para apresentar acusações
contra Jesus, a fim de matá-Lo (veja-se Mc. 3:6; 11:18). Indica
possivelmente a referência a “alguns escribas” que estes escribas em
particular tinham sido escolhidos por ser doutores em assuntos que
pudessem ser causa de controvérsia com Jesus? Isto é bem possível
embora não absolutamente certo.
O comitê de espiões logo se viu recompensado. Observemos que
alguns — somente alguns, nem sequer todos — dos Doze comiam 300
com mãos “contaminadas”, quer dizer, com mãos que não se tinham
lavado conforme o ritual e, portanto, não estavam “cerimonialmente
limpas”. É possível que se os espiões tivessem esperado um pouco mais
teriam notado que não só alguns deles, mas também todo o grupo dos
Doze tinha este costume, e na realidade também Jesus (veja-se Lc.
11:38). 301
300
Veja-se mais acima, sobre 3:20, nota 120.
301
R. C. Trench, Op. cit., parágrafo xlv, demonstrou que conquanto πλύνω refere-se ao lavamento de
coisas inanimadas — redes (Lc. 5:2), vestimentas (Ap. 7:14)—, e λούω aponta para banhar todo o
Marcos (William Hendriksen) 357
A nota explicativa “com as mãos impuras, isto é, por lavar” foi
acrescentada para permitir que os leitores não judeus, a quem foi dirigido
este Evangelho principalmente, entendessem do que se falava. O mesmo
pode ser dito com certeza em relação com a passagem entre parêntese:
versículos
3, 4. (Os fariseus e todos os judeus não comem sem lavar as mãos
cerimonialmente, 302 apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos.
Quando chegam da rua, não comem sem antes se lavarem. 303 E observam
muitas outras tradições, 304 tais como o lavar 305 de copos, jarros e vasilhas
de metal. 306 ) [NVI]
Deve notar-se os seguintes pontos:
a. “Os fariseus e todos os judeus”. Aqui, a palavra “todos”, como
sucede com frequência nas Escrituras e até na conversação diária de hoje
em dia, usa-se de maneira livre; veja-se sobre Mc. 1:5 (“Saíam a ter com
ele toda a província da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém”). O
significado é “muitíssimos”, “o povo em geral”.
b. “… sem lavar as mãos ceremonialmente” (NVI; RA:
“cuidadosamente”). As leituras variam entre “com o punho”; “com
frequência”; e a ausência total de um advérbio.307 Muitos consideram

corpo (At. 9:27; 2Pe. 2:22; Ap. 1:5), νίπτω geralmente faz referência ao limpamento de uma parte do
corpo: mãos (Mc. 7:3), pés (Jo. 13:5), cara (Mt. 6:17), olhos (Jo. 9:7). Além disso, Trench cita Lv.
15:11 (na lXX) como um exemplo que nos mostra as três palavras juntas, cada uma com o significado
que corretamente lhe corresponde. Agora, aqui em Mc. 7:2 usa-se um derivado de νίπτω, refiro-me ao
adjetivo _νίπτοις (dat. pl.), e no v. 3 aparece a forma verbal νίψωνται (aor. subj. med. 3a. pers. pl.).
Estou de acordo. Mas ao examinar o hebraico encontramos que em Lv. 15:11, Brown-Driver-Briggs
traduzem shataf como enxaguar ou lavar. As versões VP, BP, CI, CB, BJ, NBE, RV60 traduzem
lavar. A versão inglesa AV traduz como segue: “E todo aquele a quem tocar aquele que tem fluxo, e
não enxaguar com água suas mãas”. O texto refere-se a um “enxágue” ou “lavagem cerimonial”, e
não à lavagem das mãos numa bacia. Este é sem dúvida também o significado aqui em Mc. 7:2. Para
maiores detalhes a respeito disto, veja-se CNT sobre Mt. 15:1, 2.
302
“cuidadosamente” [RA] é incerto; o termo grego é um tanto obscuro.
303
Literalmente: se não se batizarem.
304
E não tão somente, “Há muitas outras tradições que guardam”.
305
Literalmente: batismos.
306
Outra leitura [RA] acrescenta “camas”.
307
Alguns manuscritos leem πυγμ_, outros πυγνά e outros omitem ambas as leituras.
Marcos (William Hendriksen) 358
que a primeira destas alternativas é a correta. Se for assim, a
interpretação não é totalmente certa. Significaria isto “girando o punho
na palma da outra mão?”. Uma citação de um opúsculo talmúdico 308 nos
puede ser útil: “as mãos se tornam imundas e se limpam até a altura da
pulso. Como? Se a água foi entornada sobre as mãos até chegar aos
pulsos e se torna a lançar água nas mãos mais acima da pulso e a água é
novamente jogada nas mãos, estas não obstante ficam limpas”. Em todo
caso, parece justificada a conclusão de que aqui se está falando de uma
cuidadosa ablução ou lavamento.
c. “… apegando-se — ou: sujeitando-se 309 — à tradição dos
anciãos” [RA[.Os escribas e seus numerosos seguidores defendiam com
denodo o cumprimento estrito das regras estabelecidas pelos
proeminentes rabinos de antigamente. Aquelas regras tinham sido
“transmitidas” — a palavra mesma “tradição” significa “o que foi
irradiado” — de uma geração a outra, e agora os escribas as estavam
transmitindo de novo à sua própria geração. Na realidade, muitas e
minuciosas estipulações cerimoniais, com relação a centenas de
assuntos, transmitiam-se como se a própria salvação dependesse da
obediência total a elas. Assim também estes judeus estritos negavam-se a
comer a menos que primeiro tivessem submetido suas mãos ao já
indicado minucioso lavamento ritual.
d. “…e, quando voltam do mercado …” [RC]. O mercado era o
centro de reunião para muitas pessoas e naturalmente era considerado
como um lugar especialmente poluente. Um judeu podia roçar um
gentio! Portanto, ao voltar de semelhante lugar, os judeus não se
atreviam a comer a menos que primeiro se submetessem a tudo o que a
tradição exigia com relação ao lavamento das mãos.
e. “não comem sem lavar as mãos cerimonialmente”. Aqui, como
em b. mais acima, há uma variedade de leituras. Qual era o texto

308
The Babylonian Talmud: Seder Tohoroth (Londres, 1948), p. 552.
309
Para o verbo usado no original, veja-se mais acima sobre Mc. 3:31, nota 122.
Marcos (William Hendriksen) 359
autêntico: “sem lavar as mãos cerimonialmente” ou “a menos que se
asperjam cerimonialmente”? 310 Com toda probabilidade o primeiro é o
correto: “sem lavar …” Literalmente diz: “a menos que se batizem”, ou
simplesmente: “se não se batizarem”. Certamente que o mero
aspergimento das mãos não teria deixado satisfeitos os rabinos. O que se
exigia parecia ser nada menos que um minucioso lavamento ou limpeza
cerimonial. 311
O “batismo” ao qual se faz referência nesta passagem não deve
interpretar-se como uma imersão de todo o corpo, e isso é evidente pela
passagem de Lucas 11:38 [TB], onde se usa uma forma do mesmo verbo,
batizar: “Vendo isto o fariseu, estranhou não se ter ele [Jesus] lavado
(lit. batizado) antes de almoçar”. É muito difícil imaginar que o fariseu
pretendesse que Jesus se submetesse a um banho completo que incluísse
sua imersão total! A referência é, naturalmente, à limpeza ritual das
mãos antes da refeição. Assim também aqui em Marcos 7:4. O texto
precedente proporciona a chave para a interpretação: o batismo
cerimonial ou lavamento do versículo 4 refere-se ao lavamento das mãos
do versículo 3.
f. Marcos acrescenta que os judeus tinham sido ensinados a
observar muitas outras tradições; tais como “batismos” ou lavamentos
cerimoniais de copos, jarros, 312 e panelas (ou: utensílios de bronze).
5. Interpelaram-no os fariseus e os escribas: Por que não andam
os teus discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas
comem com as mãos por lavar?
Tanto fariseus como escribas fazem a pergunta de maneira formal.
Bem como em Mc. 2:23, 24, responsabilizavam a Jesus pelo que os
discípulos faziam. Afinal de contas, seu propósito era matar a Ele.

310
Os verbos gregos (aor. subj. med. 3ª. pes. pl.) são respectivamente βαπτίσωνται e _αντίσωνται.
311
Sobre a opinião contrária, veja-se Vincent Taylor, Op. cit., p. 336.
312
A palavra ξέστης é considerada por muitos como uma palavra tirada do Latim, uma deformação de
sextario. O sextario é basicamente uma vasilha para líquidos que contém meio litro; em sentido
secundário, um jarro de qualquer tamanho.
Marcos (William Hendriksen) 360
O problema daqueles homens era que constantemente insistiam nas
normas estabelecidas por homens. Pior ainda, faziam-no às custas da
honra que deviam à lei divina. Eram devotos do ritualismo vazio, como
se este os pudesse salvar!
6, 7. Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós,
hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o
seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas
que são preceitos de homens. 313
Em Sua resposta Jesus Se refere especialmente a duas passagens do
Antigo Testamento: a. Isaías 29:13, e b. Êxodo 20:12 (e textos
similares). Mateus (Mt. 15:4–9) cita Êxodo 20:12 primeiro, seguido por
uma referência à passagem de Isaías. Marcos inverte esta ordem. A
vantagem desta variedade de apresentação é que assim é dada igual
importância a ambas as passagens; poderia dizer-se: à lei e aos profetas,
aos profetas e à lei. Basicamente, a resposta é a mesma em ambos os
Evangelhos.
É claro que Marcos — na realidade o próprio Jesus citado por
Marcos — não quis dizer necessariamente que Isaías 314 estava pensando
especificamente nos fariseus e escribas dos dias de Jesus. O que
provavelmente quis dizer é que o que o profeta escreveu quanto às
pessoas de seus próprios dias, estava ainda vigente, porque as pessoas a
quem se acusa, tanto dos tempos de Isaías como de Jesus, honravam a
Deus de lábios, conquanto seu coração estava longe dEle. A história
volta a repetir-se.

313
Esta passagem apoia a ideia de que o texto grego de Mateus não é simplesmente a tradução de
algum original aramaico. Este ponto de vista é discutido no CNT sobre Mateus, pp. 99, 100.
314
Tal como se encontra em Mateus e Marcos, a citação assemelha-se muita mais à tradução de Isaías
29:13 que aparece na Septuaginta, que ao original hebraico. O hebraico original diz: “Porquanto este
povo aproxima-se de mim com sua boca, e com seus lábios me honra, mas afastou seu coração de
mim, e seu temor para comigo (não é mais que) um preceito adquirido dos homens, portanto …”. Pelo
contrário, a Septuaginta diz: “Este povo aproxima-se de mim (e) com os seus lábios me honra, mas
seu coração está longe de mim. Mas em vão me honram, ensinando preceitos de homens e (suas)
doutrinas”. A ideia central é a mesma em ambos.
Marcos (William Hendriksen) 361
Jesus chama estes homens de “hipócritas”. Em Marcos este termo
aparece unicamente nesta passagem (mas veja-se também Mc. 12:15),
embora se ache três vezes em Lucas e frequentemente em Mateus,
especialmente em dois dos discursos de Cristo (o Sermão da Montanha,
caps. 5–7; e os Sete Ais, cap. 23). A palavra hipócritas não aparece no
Antigo Testamento. A NTLH a registra em uma passagem (Sl 26:4), mas
não é a tradução correta. Contudo, a ideia como tal, sim se encontra (Sl
10:7; Pv. 26:24, 26).
O hipócrita é uma pessoa que esconde ou tenta esconder suas
verdadeiras intenções sob (hypo) uma máscara de pretensa virtude.
Segundo a passagem que estamos estudando, honram a Deus com os
lábios mas o seu coração (veja-se sobre Mc. 6:52) está longe dEle. As
duas últimas linhas do versículo 7 afirmam, além disso, que com o
pretexto de ensinar doutrinas de origem divina, está realmente ensinando
“preceitos de homens”. Ensinam regras e normas escrupulosas e
caprichosas dispostas por antigos rabinos legalistas — meros homens! —
que fiavam muito fino, e que as transmitiam de uma geração a outra
(veja-se Mt. 6:2, 5, 16; 23:23–28).
Assim também nesta ocasião, estes “piedosos” (?) críticos
pretendiam estar muito preocupados com algo que diziam ser a infração
de um estatuto divino (?) que lhes tinha sido irradiado. O que realmente
queriam era aniquilar o Filho do próprio Deus. Um hipócrita, então, é
enganoso, fraudulento, falso, uma serpente escondida entre matagais, um
lobo vestido de ovelha. Pretende ser o que não é.
Naturalmente que sua “adoração” a Deus é vã, totalmente inútil; e
isto por duas razões: a. porque sua ênfase é errônea; e b. porque a atitude
de seu coração é falsa, conforme o indica Jesus ao dizer:
8. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição
dos homens.
Os fariseus e escribas eram culpados de colocar simples tradições
humanas acima da revelação divina, as regras humanas acima dos
mandamentos dados por Deus. Os rabinos tinham dividido a lei mosaica
Marcos (William Hendriksen) 362
(ou: Torah) em 613 decretos, 365 dos quais eram considerados
proibições e 248 instruções positivas. Logo, com relação a cada decreto,
fazendo distinções arbitrárias entre o que consideravam “permitido” e
“não permitido”, tinham tentado regular cada detalhe da conduta dos
judeus: seus sábados, viagens, comidas, jejuns, abluções, comércio,
relações com os de fora, etc., etc. Mateus 23:16–18 entrega um exemplo
de seus muito minuciosos raciocínios casuísticos. Há muitas outras
interessantes ilustrações em A. T. Robertson, The Pharisees and Jesus,
especialmente nas pp. 44, 45, 93ss. Assim, preocupando-se só por
múltiplos decretos e pelo número interminável de aplicações para as
situações específicas da vida diária, tinham amontoado preceito sobre
preceito (cf. Is. 28:10, 13) até que enfim muitos dos escribas e fariseus
terminaram eclipsando totalmente a unidade e o propósito da santa lei de
Deus (veja-se Dt. 6:4; logo Lv. 19:18; Mq. 6:8; cf. Mc. 12:28–34).
Em consequência, Jesus acusa os Seus oponentes de ter abandonado
o mandamento de Deus para aferrar-se às tradições dos homens. Se além
de Jesus, alguém tivesse expresso esta ferino crítica contra os dirigentes
religiosos daqueles dias, talvez nos tivéssemos sentido inclinados a
pensar que a afirmação era um tanto exagerada. Teríamos dito: Não pode
ser que estes fariseus e escribas realmente tivessem sua lei oral em mais
alta estima que a lei escrita do Antigo Testamento. Não parece este um
juízo muito duro? A resposta é: de maneira nenhuma. Na realidade,
existe evidência em apoio da asseveração de que os próprios rabinos
defendiam este critério. Diziam, “O opor-se à palavra dos escribas é
digno de maior castigo que opor-se à palavra da Bíblia” (veja-se a obra
de Robertson, p. 130, a que se tem feito referência no parágrafo
precedente). Provavelmente raciocinavam assim: historicamente a lei
oral precedeu à escrita; portanto a lei oral tem precedência. É claro,
então, que os oponentes não estavam em posição de provar que o que
Jesus dizia não era verdade.
Como se deve explicar que Jesus discrepasse do critério de
subordinar o mandamento escrito de Deus à tradição oral? Por um lado, é
Marcos (William Hendriksen) 363
óbvio que a palavra oral é menos duradoura que a palavra escrita, pois
está mais sujeita a mudanças ao passar de uma geração a outra. Por
outro, o mandamento veio do Deus Santo, em consequência, é infalível,
mas a tradição, sendo uma tradição de interpretação originada por
homens pecadores é, portanto, falível. No presente caso, segundo já se
explicou, era geralmente perversa, extraviada e corrompida.
Seria totalmente errôneo tirar a conclusão de que Jesus se opunha à
tradição, que desejava rejeitar todo o antigo constituindo-se assim num
revolucionário. Passagens tais como Mateus 5:17, 18; 23:1–3; Marcos
10:5–9 provam que não era assim. Antes, estava contra qualquer ensino
humano que estivesse em conflito com a lei divina. Era “um antiquado”
no bom sentido da palavra, porque retrocedeu para além da imperfeita e
desviadora tradição até que achou a revelação e mandamento original de
Seu Pai.
Nesta passagem Jesus Se refere ao mandamento de Deus. Talvez
usou o singular porque se referia ao preceito que estava prestes a citar (v.
10). Entretanto, o singular pode ser genérico, um só mandamento
representando a toda a categoria. 315
9. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para
guardardes 316 a vossa própria tradição.
Num sentido, Jesus repete o versículo 8. Entretanto, a pontada é
ainda mais ardente, o desmascaramento mais assustador. “Que bonita a

315
Nos Sinóticos, um _ντολή refere-se às vezes a um mandamento do Decálogo (veja-se Mc. 7:9, 10;
cf. Mt. 15:3, 4). Mas em Lc. 23:56, a palavra pode ter uma referência mais ampla. Não só veja-se Êx.
20:10 mas também 12:16 (cf. Mt. 19:17; Mc. 10:19; Lc. 18:20). Em Mc. 10:5, o termo usado no
original refere-se a uma ata de divórcio. No contexto presente (Mc. 7:10), o quinto mandamento vem
seguido imediatamente por uma proibição mosaica relacionada, que não é parte dos Dez
Mandamentos. E em Mc. 12:28–31, o escriba poderia estar usando _ντολή para referir-se inicialmente
a qualquer mandamento da lei mosaica. Em tal passagem, Jesus lhe responde ao escriba usando
_ντολή para resumir cada uma das tábuas da lei. Quanto ao uso do termo _ντολή no Evangelho de
João, veja-se CNT sobre João. 13:34. Para um excelente artigo a respeito de esta palavra e seus
cognatos, veja-se G. Schrenk, TDNT, vol. II, pp. 544–556.
316
Segundo outra versão, que tem muito apoio: para poder observar (ou: guardar, vigiar, preservar,
reter).
Marcos (William Hendriksen) 364
forma!” é uma ironia. Equivale a dizer: “Têm uma boa maneira para
deixar de lado …”. Note-se “vossa tradição” (cf. o v. 8). Estes homens
querem fazer-se deuses. Deixam a Deus de lado para estabelecer-se eles
mesmos. Estão anulando um mandamento infalível a fim de confirmar
sua própria tradição, fraca e miserável. 317 Que perversidade!
Sim, que perversidade! Mas também que estultícia! Imaginemos um
homem que em meio de uma violenta tempestade encontrou um lugar de
refúgio no topo de uma rocha alta (cf. Sl 18:2; 27:5; 92:15; 119:114,
117, 165), onde está inteiramente a salvo, mas que de repente salta,
buscando proteção, para agarrar-se de um cano que vê deslizar-se sobre a
água. Que grande insensatez! Cf. Jr. 2:13.
Com o fim de ilustrar e provar este ponto, Jesus prossegue:
10. Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem
maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.
“Moisés disse”. Segundo o versículo 13, é evidente que Jesus
considera o dito por Moisés como a própria palavra de Deus. Em
consequência, não existe diferença real entre Mateus 15:4 (“Porque Deus
disse”) e Marcos 7:10 (“Porque Moisés disse”).
Quanto ao mandamento de dar honra ao pai e à mãe, veja-se Êx.
20:12; Dt. 5:16; Pv. 1:8; 6:20–22; cf. Ml. 1:6; Mt. 19:19; Mc. 7:10–13;
10:19; Ef. 6:1; Cl. 3:20. Honrar ao pai e à mãe é muito mais que lhes
obedecer, especialmente se esta obediência se interpreta meramente em
sentido externo. O que está em primeiro plano no requerimento de os
honrar é a atitude interna do filho para com seus pais. Toda obediência
egoísta, obediência forçada ou sob terror fica imediatamente eliminada.
Honrar implica amar, ter um alto conceito, mostrar um espírito de
respeito e consideração. Esta honra deve-se outorgar a ambos os pais,
porque no que respeita ao filho os dois têm igual autoridade.

317
Ainda se se substitui τηρήσητε por στήσητε, o resultado é quase o mesmo: rejeitam o um para
obedecer o outro.
Marcos (William Hendriksen) 365
Em Êxodo 21:27; Levítico 20:9 pronuncia-se a pena de morte para
aqueles que amaldiçoam ao pai ou à mãe, mas vejam-se também Êx.
21:15; Dt. 21:18–21 e Pv. 30:17.
O que fizeram estes fariseus e escribas com este claro e explícito
ensino da Palavra de Deus? A resposta é dada nos versículos
11, 12. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua
mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o
Senhor, então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou
de sua mãe. 318
Os críticos de Cristo, embora altamente estimados pelo povo em
geral, eram culpados de fazer confusões deliberadas e truques
detestáveis. Fizeram da santa lei de Deus uma zombaria. O mandamento
com relação ao dever dos filhos para com seus pais era muito claro. Mas
os fariseus e escribas ensinavam os filhos que existia uma forma de
evitar a pesada carga de ter que honrar os seus pais provendo-os de
sustento. Se um filho tinha algo que seus pais necessitavam, o filho
somente devia dizer, “é Corbã!”. Para seus leitores não judeus, Marcos
acrescenta o equivalente grego doron, dom ou oferta; quer dizer, um
dom ou oferta sagrada, algo separado para Deus, isto é, para usos
sagrados. O ensino farisaico baseado na tradição 319 afirmava que se um

318
Mateus e Marcos diferem levemente na forma em que apresentam esta declaração do Senhor. Note-
se o seguinte:
Mt. 15:5, 6a - “Qualquer que diga (é) um dom … certamente não tem que honrar o seu pai.”
Mc. 7:11, 12 - “Se qualquer um disser a seu pai ou a sua mãe, (é) Corbã, quer dizer, (é) um dom …,
então vós já não lhe é permitido fazer coisa alguma por seu pai ou mãe.”
A frase de Marcos (“Mas vós dizeis … então vós já não”) é um claro exemplo de anacoluto. A RA e
outras versões retêm o anacoluto. Para maior clareza, outros o evitam modificando o texto. Por
exemplo, a NVI lê: “Vocês, pelo contrário, ensinam que um filho pode dizer ao seu pai … Nesse caso,
o tal filho já não está obrigado …”. Não posso aceitar aqui o raciocínio de Lenski (Op. cit., pp. 183–
185). Acaso não prova sua própria tradução (p. 183), que há uma mudança na construção gramatical?
Uma forma de explicar este anacoluto é ter em mente que se acha em harmonia com o estilo popular
de Marcos. Além disso, é possível que Marcos não tenha relatado tudo o que disse Jesus. Um fiel
relatório não implica necessariamente sempre um relato completo (cf. Mt. 15:19 com Mc. 7:21, 22.
Veja-se Jo. 21:25).
319
Véase SB, vol. 1, pp. 71ss.
Marcos (William Hendriksen) 366
filho fizesse esta declaração e lhe desse uma aplicação ampla (“qualquer
em favor de …”), ficava livre da obrigação de honrar os seus pais. Na
realidade, segundo o expressa Marcos, é dispensado da permissão para
ajudar os pais.
É inclusive possível que também seja correta uma interpretação
mais ampla. Se assim fosse, o filho estaria dizendo: “Qualquer coisa com
que eu possa te beneficiar, seja agora ou no futuro, eu, aqui e nesta hora,
declaro que deve ser considerado como oferta”. A forma em que Marcos
conclui, “então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai
ou de sua mãe”, poderia apoiar esta interpretação.
Seja qual for a interpretação adequada, tratava-se de um exemplo da
irresponsável sofisma dos fariseus, da ímpia maquinação para despojar
os pais da honra e sustento devido a eles. Além disso, o que se tirava dos
pais por este procedimento não era absolutamente necessário que se
oferecesse a Deus. Aquele que exclamava, “é Corbã!” podia
simplesmente guardá-lo para si.
Não é estranho que Jesus repita de maneira enfática o que havia
dito anteriormente (cf. vv. 8, 9):
13. invalidando a palavra de Deus pela vossa própria
tradição 320 que vós mesmos transmitistes.
Estes “hipócritas” não só (v. 6) passavam por alto a palavra de
Deus, mas a invalidavam. Tiravam do quinto mandamento sua obrigada
autoridade, como implica o original. 321 Por outro lado, estavam
transmitindo sua perversa tradição! Além disso, era assim não só com o
presente caso, como se os fariseus e escribas estivessem anulando
somente este único mandamento. Não, Jesus acrescenta imediatamente: e
fazeis muitas outras coisas semelhantes. O que disse a respeito da
320
Note-se _ “por meio de” (ou inclusive talvez “em favor de”). O que devia ser um acusativo é
atraído ao caso do seu antecedente, o dativo τ_ παραδόσει.
321
_κυρο_ντες ptc. pres. nom. pl. masc. de _κυρόω, “privar de autoridade, fazer nulo, anular, ab-
rogar”. No Novo Testamento usa-se só em Mc. 7:13 (paralelo, Mt. 15:6); e Gl 3:17 (“a lei não o ab-
roga”). Cf. κύριος, “alguém com autoridade, senhor, amo, dono”; κυρόω “comunicar autoridade”, ou:
“dar validez”.
Marcos (William Hendriksen) 367
forma em que os fariseus tratavam o quinto mandamento era só uma
ilustração. Era uma amostra do que sucedia constantemente.
Entronizavam a tradição de forma regular; destronavam a Palavra de
Deus!
Indubitavelmente trata-se de um tema muito prático, digno de ser
aplicado em toda época. Não é o princípio objetivo do protestantismo “A
Bíblia é a única regra infalível de fé e prática”? E não está isso em
oposição à forma em que a igreja romana coordena a Escritura e a
tradição eclesiástica como se fossem as regras conjuntas de fé? Não é
verdade que esta última posição com frequência degenera no fato de
colocar a tradição acima da Escritura? E ainda hoje, não é necessário
fazer o maior esforço possível para evitar que as decisões e
interpretações subjetivas comecem a interferir com a exegese imparcial
da Palavra de Deus?
Existe uma surpreendente semelhança entre Marcos 7:14–23 e sua
passagem paralela de Mateus 15:10–20. as diferenças principais são as
seguintes:
a. Marcos não registra a pergunta dos discípulos (“Sabes que os
fariseus, ouvindo a tua palavra, se escandalizaram?”) e a resposta de
Jesus que se acham em Mateus 15:12–14.
b. Segundo Mateus 15:15 foi Pedro quem pediu a Jesus que
explicasse “a parábola”. Marcos simplesmente diz “os discípulos”.
Entretanto, Marcos informa que a pergunta foi feita depois de Jesus ter
deixado as pessoas e entrado na casa, coisa que Mateus omite.
c. A informação de Marcos (Mc. 7:19b), “E, assim, considerou ele
puros todos os alimentos”, não se acha em Mateus.
d. Conquanto Mateus (depois de um termo introdutório) apresenta
uma lista de 6 coisas más que procedem de dentro e que contaminam o
homem (15:19), Marcos (Mc. 7:21, 22) menciona 12. No caso de que
“enganos”, em Marcos, equivalha a “falsos testemunhos”, em Mateus,
então os 6 pecados que Mateus menciona aparecem na lista de Marcos só
com leves mudanças verbais. Estas coisas são as números 5, 6, 8, 9, 11, e
Marcos (William Hendriksen) 368
12 da lista de Marcos, que aparecem portanto de perto da metade até o
final da enumeração do evangelista (veja-se o gráfico mais adiante). Em
consequência, não parece ser ilógica a inferência de que Mateus, com a
lista de Marcos diante de si, estava abreviando.
14, 15. Convocando ele, de novo, a multidão, disse-lhes: Ouvi-me,
todos, e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa
contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina. 322
Pareceria que justamente antes da chegada do comitê formado por
fariseus e escribas, Jesus tinha estado falando às pessoas. Então,
provavelmente por respeito à delegação que tinha vindo para interrogar a
Jesus, as pessoas se retiraram a certa distância. Mas agora, depois que os
críticos se retiraram ou foram despedidos, o Senhor convida as pessoas a
aproximar-se dEle novamente. Quem não detecta o som solene do
Antigo Testamento nas palavras, “Ouvi-me, todos vós, e entendei” (cf.
Sl 49:1; 50:7; 81:8)? Jesus, no começo do reatamento de Sua mensagem,
sublinha que o que vai dizer é algo muito importante. Vez após vez os
Evangelhos O descrevem como o Salvador compassivo, como Aquele
que Se sente profundamente doído porque os dirigentes estão desviando
o povo simples (vejam-se Mt. 9:36; 11:28–30; Mc. 6:34).
O que Jesus deseja imprimir na multidão tem que ver com a
depreciativa pergunta dos fariseus e escribas (veja-se o v. 5): “Por que
não andam os teus discípulos de conformidade com a tradição dos
anciãos, mas comem com as mãos por lavar?”. A hipótese destas críticas
era: as mãos sem lavar contaminam o alimento e, portanto, também ao
que come. Segundo a opinião deles, a contaminação agia de fora para
dentro. Jesus faz ver que o contrário é o certo. Não é o que entra no
homem, e sim o que sai dele, é o que tem poder para contaminá-lo. Note-
se o uso que Marcos faz do plural. Segundo seu relato, Jesus fala a
respeito das coisas que “saem do homem” como as coisas que o
“contaminam”. Agora, é verdade que em grego o plural pode com
322
Não há suficiente evidência textual para lhe acrescentar ao v. 16 a seguinte oração, “Se alguém tem
ouvidos para ouvir, ouça”.
Marcos (William Hendriksen) 369
frequência ser traduzido corretamente pelo singular em nosso idioma.
Entretanto, no caso presente, à vista da extensa lista de coisas que
contaminam (vejam-se os vv. 21, 22), provavelmente é melhor reter o
plural inclusive na tradução. O que Jesus diz, portanto, é que a
contaminação real não é a física, mas sim a moral e espiritual. A
contaminação, em outras palavras, origina-se no coração. Em nossos
dias, em que tanto se fala e até também algo está-se fazendo a respeito
dos vários tipos de contaminação física, quer dizer, contaminação que
age de fora para dentro, a advertência de Cristo contra a contaminação de
dentro é, sem dúvida, muito necessária.
17. Quando entrou em casa, 323 deixando a multidão, os seus
discípulos o interrogaram acerca da parábola.
Finalmente Jesus está sozinho com Seus discípulos. Entrou em Sua
casa. É verdade que em lugar de “fui para casa” são possíveis também as
traduções “e entrou numa casa”, ou “entrou”. Não é possível estar
completamente seguros a respeito do significado desta frase no original.
Entretanto, segundo se mostrou, as referências de Mc. 2:1 e 3:20 são
provavelmente à casa de Jesus em Cafarnaum. Veja-se o comentário
sobre estas passagens. Podemos supor então, que os eventos relatados
em Mc. 7:1–23 ocorreram em alguma parte de Cafarnaum ou perto de
onde Jesus teve Seu centro de ação durante Seu grande ministério
galileu.
Aqui, então, em casa de Jesus em Cafarnaum, Seus discípulos, com
(segundo informa Mateus) Pedro como porta-voz, pedem a seu Mestre
uma explicação desta “parábola”. É evidente que o termo “parábola”
usa-se aqui no sentido de um tal conciso, um mashal ou provérbio.
Refere-se ao aforismo do versículo 15.
18, 19a. Então, lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não
compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode

323
Ou: tinha entrado (em casa).
Marcos (William Hendriksen) 370
contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para
lugar escuso?
Parece que Jesus dissesse, “Que outros — como os fariseus e
escribas e o povo em geral — não captem Meu ensino não Me estranha,
mas que vós, que estivestes comigo por tanto tempo e em tão estreita
relação, sejam tão fechados, parece-me indesculpável” (cf. Jo. 14:9). Os
Doze não se davam conta de que tudo o que entra no homem de fora é,
por fim, eliminado do corpo? E, sendo que em sua trajetória pelo corpo
entra no estômago, mas jamais em seu coração, que é o núcleo e centro
de todo seu ser (veja-se em 6:52), como pode tornar o homem poluído,
impuro ou corrupto?
19b. Às palavras de Jesus, Marcos acrescenta sua própria
observação. É a interpretação que o inspirado evangelista dá à expressão
de Jesus quanto à contaminação cerimonial versus a contaminação
verdadeira. E, assim, considerou ele puros todos os alimentos.
Na realidade o original não diz mais que: “declarando (ou: fazendo,
pronunciando) limpos todos os alimentos”. 324 Isto levantou a pergunta
sobre quem ou o que é que torna “limpos” os alimentos. Conforme o
veem alguns, é a latrina ou “lugar escuso” o que faz isto. 325 Com a
maioria dos expositores, parece-me que o que Marcos quer dizer é que
Jesus declarou todos os alimentos limpos mediante o princípio que
estabeleceu no versículo 15. As razões são como seguem:
a. É muito difícil compreender como uma latrina pode fazer ou
declarar todos os alimentos limpos.
b. A última vez que Marcos mencionou a Jesus pelo nome foi em
Mc. 6:30, mas por meio de um pronome (independente ou implícito de
alguma maneira verbal), fez referência a Jesus vez após vez (Mc. 6:31,

324
Com βρ_ματα cf. ambrosia: o alimento imaginário dos deuses gregos e romanos; também
ambrosial, “delicioso”.
325
Veja-se Lenski, Op. cit., pp. 188, 189. Mas Swete, Op. cit., p. 152, assinala com razão que tal
ponto de vista quase não merece consideração.
Marcos (William Hendriksen) 371
34, 35, 37, etc., e assim também em Mc. 7:1, 5, 6, 9, 14, 17, 18). Não é
natural supor que a referência do v. 19b é também a Jesus?
c. Se a opinião, amplamente apoiada, de que Marcos foi “intérprete
de Pedro” (veja-se Introdução, I) é correta, podemos supor então que a
própria experiência de Pedro registrada em Atos 10:9–16 e 11:1–18 (a
visão do lençol que descia com todo tipo de animais imundos) foi
incluída em sua pregação e relacionada com a expressão de Jesus que se
ordena em Marcos 7:15. Bem podemos crer que Marcos lembrou e
adotou a conclusão de Pedro como convicção própria, segundo nos é dito
em Marcos 7:19b. Não achamos acaso um eco de “assim (Jesus)
declarou limpos todos os alimentos” em Atos 10:15 (cf. 11:9), “O que
Deus limpou, não o chames comum (ou: imundo)”?
d. Se for Jesus quem declarou limpos todos os alimentos, então a
lógica é clara, porque em Marcos 7:15 é Ele quem declara que tudo o
que entra de fora no homem não pode contaminá-lo. Portanto, todos os
alimentos, incluindo a carne dos animais cerimonialmente “imundos”,
são em princípio não poluentes. Os intérpretes podem diferir quanto ao
momento exato em que, conforme à vontade de Deus, efetuou-se a
abolição das leis cerimoniais referentes ao limpo e ao impuro. Teve lugar
justamente agora, no momento em que Jesus pronunciou estas palavras?
Foi na crucificação de Jesus? (veja-se Cl. 2:14). Ou no dia do
Pentecostes? Qualquer que seja a resposta, a verdade é que, em
princípio, todos os alimentos foram declarados limpos nesta ocasião.
Depois de deixar claro o que não contamina, Jesus passa a afirmar
então (cf. v. 15b mais acima) o que realmente contamina uma pessoa.
Somente que desta vez combina todas as coisas poluentes dos versículos
15b, 21–23 num só pacote,
20. E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina.
E o amplia acrescentando:
21, 22. Porque de dentro, do coração dos homens, é que
procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios,
Marcos (William Hendriksen) 372
326
os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a
blasfêmia, a soberba, a loucura.
Depois do dito a respeito do coração em Mc. 6:52, não é estranho
que Jesus o descreva aqui como a fonte dos sentimentos, aspirações,
pensamentos e ações humanas; no caso presente, de toda sua verdadeira
corrupção moral e espiritual.
Os termos 327 que Jesus usou desta vez para descrever os corruptivos
vícios que contaminam o homem, no Novo Testamento são distribuídos
como se vê no gráfico que damos mais abaixo.
É impossível detectar um agrupamento detalhado ponto por ponto.
Neste sentido, a passagem paralela do Mateus 15:19 É diferente. Ali,
depois da designação introdutória “más intenções”, e começando com
“homicídios”, a distribuição segue mais ou menos a sequência da
segunda tábua do Decálogo. Mas aqui em Marcos (Mc. 7:21, 22) tudo o
que com segurança podemos dizer é que primeiro ocorre o que se pode
considerar um cabeçalho: “as más intenções” 328 (ou: “sistemas”,
“maquinações”). Depois os primeiros 6 pecados estão no plural, e os
326
Literalmente: olho maligno.
327
Indo a palavras cognatas do idioma espanhol, pode-se descobrir imediatamente a maioria dos
significados gregos originais. Entretanto, para poder descobrir o significado exato de cada termo, é
necessário uma cuidadosa exegese — incluindo em cada caso o estudo do contexto e das passagens
paralelos. O estudo de cognatos e da derivação das palavras é muito útil. Entretanto, não é o mais
importante. Por exemplo, βλασφημία sugere “blasfêmia”; mas há muitos casos em que “blasfêmia”
não seria a tradução correta da palavra grega. Tendo presente esta advertência note-se o seguinte:
διαλογισμός diálogo
κακός cacofonia (som áspero, desagradável)
πορνεία pornografia (fotos que despertam desejos sexuais)
κλοπή cleptomaníaco (ladrão habitual)
φόνος pernicioso (mortífero, sanguinário)
πονηρία ações que revelam maldade moral e espiritual
_φθαλμός oftalmologista (médico de olhos)
βλασφημία blasfêmia
_φροσύνη carece dos órgãos próximos ao diafragma; em consequência, sem coração (e mente),
néscio.
Há outras palavras que também são fáceis de analisar; p. ex., πλεονεξία é o desejo pecaminoso de
sempre possuir cada vez mais; _περηφανία é pretender colocar-se sobre (_πέρ) outros.
328
Ο_ διαλογισμο_ ο_ κακοί = “as (ou: aquelas) maquinações, os perversos (ou: maus) planos”.
Marcos (William Hendriksen) 373
últimos 6 se conservam no singular. Os primeiros 6 descrevem ações
perversas; os 6 últimos os perversos impulsos e palavras que estão
relacionadas com tais ações afins.
Outras listas de vícios podem ser achadas em Rm. 1:18–32; 13:13;
1Co. 5:9–11; 6:9, 10; 2Co. 12:20; Gl 5:19–21; Ef. 4:19; 5:3–5; Cl. 3:5–9;
1Ts. 2:3; 4:3–7; 1Tm. 1:9, 10; 6:4, 5; 2Tim. 3:2–5; Tt. 3:3, 9, 10; 1Pe.
4:3; Ap. 21:8; 22:15.
Dizer que a lista de Marcos é paulina porque 8 dos 12 pontos se
acham também nas epístolas de Paulo (veja-se gráfico) é ir longe demais.
Não seria, antes, algo muito estranho se em mais de doze listas de vícios
que menciona Paulo não estivesse incluída a maioria de vícios
mencionados aqui em Marcos 7:21, 22? Além disso, naqueles dias, e
mesmo antes, tais listas de vícios eram populares. O livro apócrifo A
Sabedoria de Salomão 14:25ss. inclui os vícios 2, 3, 4, 7, e 8 da lista que
se acha em Marcos 7:21, 22. Os rolos do Mar Morto contêm também
listas semelhantes. 329 E a lista dos 12 vícios atribuída a Cristo aqui não
se parece muito com nenhuma lista dos escritos de Paulo (ou de Pedro,
etc.). Deve ter sido a própria lista de Cristo, reproduzida por Marcos e
abreviada por Mateus.

οἱ διαλογισμ οί οἱ κακοί (= intrigas ou más intenções.): Mc. 7:21; Cf. Mt.


15:19.
1. πορνεῖαι (= pecados sexuais ou atos imorais): Mc. 7:21; Cf. Mt. 5:32,
15:19, 19:9; Jo. 8:41; At. 15:20, 29; 21:25; 1Co. 5:1 (2); 6:13, 18; 2Co.
12:21; Gl 5:19; Ef. 5:3; Cl. 3:5; 1Ts. 4:3; Ap. 2:12; 9:21; 14:8; 17:2, 4;
18:3; 19:2.
2. κλοπαί (= furtos): Mc. 7:21; Mt. 15:19; Ap. 9:21.
3. φόνοι (= homicídios): Mc. 7:21; 15:7; Mt. 15:19; Lc. 23:19, 25; At. 9:1;
Rm. 1:29; Hb. 11:37; Ap. 9:21.
4. μοιχεῖαι (= adultérios): Mc. 7:22; Mt. 15:19; Jo. 8:3 330 .

329
Veja-se M. Burrows, The Dead Sea Scrolls (Nova York, 1956), pp. 375, 386, 387.
330
A respeito de João 8:3 (μοιχεία), veja-se CNT sobre João.
Marcos (William Hendriksen) 374
5. Πλεονεξία (= cobiças): Mc. 7:22; Mt. 15:19; Lc. 12:15; Rm. 1:29; 2Co 9:5;
Ef. 4:19; 5:3; Cl. 3:5; 1Ts. 2:5; 2Pe. 2:3, 14.
6. πονηρίαι (= atos iníquos): Mc; 7:22; Mt. 22:18; Lc. 11:39; At. 3:26; Rm.
1:29; 1Co. 5:8; Ef. 6:12.
7. δόλος (= engano): Mc. 7:22; 14:1; Mt. 26:4; Jo. 1:47; At. 13:10; Rm. 1:29;
2Co. 12:16; 1Ts. 2:3; 1Pe. 2:1, 22; 3:10.
8. ἀσέλγεια (=luxúria): Mc. 7:22; Rm. 13:13; 2Co. 12:12; Gl 5:19; Ef. 4:19;
1Pe. 4:3; 2Pe. 2:2, 7, 18; Jd. 4.
9. ὀφθαλμὸς πονηρός (= inveja; literalmente: olho sinistro): Mc. 7:22; Mt.
20:15;
10. βλασφημία (= fala abusiva ou calúnia): Mc. 3:28; 7:22; 14:64; Mt.
12:31(2); 15:19; 26:65; Lc. 5:21; Jo. 10:33; Ef. 4:31; Cl. 3:8; 1Tm. 6:4; Jd.
9. Ap. 2:9; 13:1, 5; 17:3.
11. ὑπερηφανία (= arrogância): Mc. 7:22.
12. ἀφροσύνη (= insensatez): Mc. 7:22; 2Co. 11:1, 17, 21.

Quanto aos vícios separadamente observe-se o seguinte:


O termo introdutório “más intenções” (“intrigas” ou
“maquinações”) é literalmente “aqueles maus diálogos (internos)”. Uma
pessoa frequentemente desenvolve diálogos mentais (veja-se Sl 14:1;
39:1; 116:11; Dn. 5:29, 30; Ob. 3; Mc. 2:6, 7; 5:28; Lc. 12:17ss.; 15:17–
19; 16:3, 4; Ap. 18:7). Dos textos recém mencionados entre parêntese,
três deles (Sl 39:1; Mc. 5:28; Lc. 15:17–19) apresentam um “diálogo”
(ou “reflexão”) pode-se descrever como bom. Um (Lc. 16:3, 4) é metade
bom e metade mau, conforme o mostra o contexto. Todos os outros
casos são maus. Isto também é válido nos casos em que se usa a mesma
palavra “diálogo” ou “dialogar”. Em quase todos os casos (Lc. 2:35 é
uma possível exceção) as reflexões ou raciocínios internos são de
natureza definidamente pecaminosa. Além de Mt. 15:19; Mc. 7:2, veja-
se Lc. 5:22; 6:8; 9:46, 47; 24:38; Rm. 1:21; 14:1; 1Co. 3:20; Fp. 2:14;
1Tm. 2:8; Tg. 2:4. Não obstante, o que uma pessoa fala dentro de seu
coração é provavelmente ainda mais importante que o que diz a viva voz
(Pv. 23:7).
Marcos (William Hendriksen) 375
Uma das razões por que tais diálogos são tão importantes é que
provocam ações e estimulam impulsos internos. Também se revelam em
palavras faladas. Estes vários vícios se enumeram agora por meio de
exemplos: 6 no plural, seguidos de 6 no singular; 6 tipos de ações,
seguidas de 6 que representam móveis, tendências (ou estados) do
coração (veja-se os números 7, 8, 9, 11, 12 no gráfico) e da palavra (nº.
10). O contexto presente mostra Jesus no ato de descrever o que
corrompe ou contamina uma pessoa, e os doze pecados que menciona
são sem exceção de caráter perverso.
Os primeiros seis são os seguintes:
Pecados sexuais ou atos imorais. Em seu sentido mais amplo, o
termo que aqui se usa aponta a pecados sexuais em geral, à conduta
sexual ilícita de todo tipo, seja dentro ou fora dos laços matrimoniais.
Em geral o pecado acontece fora do laço matrimonial, mas nem sempre.
Em Mt. 5:32; 19:9 refere-se à infidelidade matrimonial. Em Jo. 8:41
fala-se de relações sexuais ilegais. Em At. 15:20, 29; 21:25 poderia
haver uma referência especial ao casamento dentro dos graus de
afinidade ou consanguinidade proibidos (veja-se Lv. 18:6ss.). Paulo usa
a palavra muitas vezes (veja-se o gráfico). Cobre uma ampla posição de
atos sexuais pecaminosos. Também hoje em dia devemos chamar a
atenção a esta larga banda de desmandos. Só precisamos mencionar
coisas tais como violações, mostrar e/ou ler literatura pornográfica,
relações sexuais pré-conjugais, contar ou ouvir com entusiasmo
conversas indecentes, etc.
Furtos. Conforme o mostra o gráfico, a palavra aparece muito
poucas vezes no Novo Testamento, mas com frequência se faz referência
a este pecado (veja-se CNT sobre Ef. 4:28; Tt. 2:9, 10; Fm. 18–20).
Muitos escravos tinham o costume de roubar. Mesmo depois de sua
conversão era preciso exortá-los para que não voltassem para seus maus
caminhos.
Não se deveria hoje admoestar os que furtam nas tendas? E os
folgazões no trabalho? E os que esbanjam o que Deus lhes deu? E os que
Marcos (William Hendriksen) 376
omitem intencionalmente dar a César o que é de César? E quando um
governo ou alguma de suas agências faz mau uso do dinheiro dos
contribuintes, não é também uma forma de roubar? E o que diremos de
reter as coisas que são de Deus?
Homicídios. Não sabemos com certeza por que se mencionam os
homicídios com relação aos pecados precedentes. Pode ser que haja
alguma razão para isto. Acaso não se cometem homicídios no próprio
cenário onde ocorrem os atos imorais e os roubos?
Horrorizamo-nos diante do assassinato das crianças perpetrado por
Herodes. Não reclama vingança ao céu o sangue de milhares de fetos que
em nosso tempo são assassinados (o aborto)? Pode harmonizar-se isto de
algum modo com as Escrituras? Leia-se Êx. 20:13; Lv. 18:21; 20:2ss.;
2Rs. 23:10; Jr. 32:35; Êx. 16:21; Am. 1:13; Mt. 7:12; Ef. 4:32; 5:1, 2.
Adultérios. Consiste na violação dos votos matrimoniais. Isto ocorre
quando um homem casado voluntariamente tem relações sexuais com
uma mulher que não é sua esposa; ou quando uma mulher casada
voluntariamente tem relações sexuais com outro que não seja seu
marido.
Deve deixar-se claro, entretanto, que Jesus aguçou o fio de cada
mandamento. Ensinou que o ódio é homicídio (Mt. 5:21, 22), e que o
olhar lascivo de um homem casado para outra mulher é adultério (Mt.
5:28).
Tem-se dito que uma das razões da queda do império romano foi
que a mulher se casava para poder divorciar-se, e que se divorciava para
poder casar-se. E o que dizer da situação de hoje?
Cobiças. Não sabemos bem a razão da sequência “adultérios,
cobiças”, mas se nos propuséssemos achar alguma relação teríamos que
pensar em primeiro lugar na apropriação voraz em matérias de sexo, em
prejuízo de outros: “Não cobiçarás … a mulher de teu próximo”. Mas
Êx. 20:17 e Mc. 7:22 são o bastante amplos para incluir toda forma de
avareza (cf. Lc. 12:15).
Marcos (William Hendriksen) 377
Quando pecaminosamente os anciãos de Israel pediram um rei, foi-
lhes dito que este rei tomaria … tomaria … tomaria … tomaria …
tomaria … (1Sm. 8:11–17). Deus, em Cristo, dá e dá e dá e volta a dar
sem fim (Jo. 1:16; 3:16; 5:26; 17:22; Rm. 8:32; Gl 1:4; 2:20; Ef. 1:22,
5:25; 1Tm. 2:6; Tt. 2:14; 1Jo. 5:10; etc.). Os verdadeiros seguidores de
Cristo não são avaros ou ambiciosos (veja-se 2Co. 8:8, 9).
Atos iníquos. Isto bem poderia ser a soma de todas as manifestações
da maldade, tanto as já mencionadas como também outras.
Os seis pecados restantes são:
Engano. Esta é a primeira das seis atitudes ou impulsos
pecaminosos que se mencionaram. Os atos já enumerados estão
estreitamente relacionados com essas ímpias tendências da natureza
humana.
Onde Marcos diz engano, Mateus menciona falsos testemunhos. Os
dirigentes dos judeus planejavam usar o engano para levar a cabo a
morte de Cristo (Mc. 14:1). Conforme 2 Coríntios 12:16 os inimigos de
Paulo acusaram o apóstolo de engano. Insinuavam possivelmente que o
apóstolo queria apropriar-se de algo do dinheiro que tinha sido doado
para os pobres de Jerusalém? Claro que isto estava muito longe dos
pensamentos de Paulo (cf. 1Ts. 2:3). É evidente por João 1:47, que o
engano é algo muito comum. Uma bela passagem é 1 Pedro 3:10.
Luxúria. Outras formas para designar esta mesma tendência
pecaminosa são: lascívia, dissolução. Note-se no gráfico as muitas
referências a esta inclinação pecaminosa na natureza humana. Este termo
sublinha a falta de autocontrole que caracteriza a pessoa que dá livre
curso aos seus impulsos perversos. Fez-se notar que não foi a lava, e sim
a luxúria o que sepultou a cidade do Herculano. E os afrescos achados
em meio das ruínas de Pompeia mostram que esta cidade não era muito
melhor.
Inveja. O grego literalmente diz: “olho maligno”, e o verdadeiro
paralelo não é Mt. 6:23, e sim Mt. 20:15; “É o teu olho …?” significa
“Tem você inveja porque sou bom (generoso)?”. Sempre que se trata de
Marcos (William Hendriksen) 378
diferenciar o ciúme da inveja, definem-se o ciúme como o temor de
perder o que se possui, e a inveja como o desagrado de ver que alguém
possui algo que a gente não tem.
Um dos vícios que mais destrói a alma é a inveja. Não é acaso “o
primogênito do inferno”, “podridão dos ossos” (Pv. 14:30)? Nossa
palavra inveja em português vem do latim invideo, que significa “olhar
contra”, quer dizer, olhar mal a outra pessoa por causa dos bens que
possui. Como dissemos, é interessante notar que em Marcos 7:22, o
original grego expressa esta ideia literalmente, porque seu significado
básico é “olho sinistro”, o olho que olha a outra pessoa com desagrado,
cheio de má vontade e irritação.
Foi a inveja o que causou o assassinato de Abel; o que lançou José a
um poço; o que fez com que Coré, Datã e Abirão se rebelassem contra
Moisés e Arão; o que fez Saul perseguir Davi; o que alentou as amargas
palavras que o “irmão mais velho” (na parábola do filho pródigo) dirigiu
a seu pai, e o que crucificou a Cristo. O amor nunca tem inveja.
Continuando, o texto deixa o tema das tendências pecaminosas,
para referir-se à perversa obra da língua:
Linguagem abusiva ou calúnia. A palavra usada no original é
blasfêmia (veja-se mais acima, sobre 3:28). Em Marcos 7:22, o vocábulo
aparece entre “inveja” e “arrogância”, o que indica que provavelmente
tem relação com a difamação da reputação, com o desprezo, a calúnia, a
linguagem depreciativa e insolente dirigida contra outra pessoa, quer se
dirija à pessoa diretamente ou a suas costas.
Às vezes a vida nos traz amarguras.
A carga aflitiva se torna severa;
Não tente então fazê-la mais dura,
Não dê a palavra que o ódio prospera.
Sela seus lábios, prudente e com zelo,
Não brotem palavras que causam dor,
Abunda naquelas que levam consolo,
Que são louvor, que infundem valor.
(Adaptação) Effie Wells Loucks
Marcos (William Hendriksen) 379
Arrogância. É a tendência maligna de pretender ser melhor, mais
capaz, superior a outros. É uma tendência universal do coração humano e
o é por natureza. Os governantes das nações de todos os tempos fizeram-
se réus deste pecado (Mt. 20:25; Lc. 22:25).
Note-se a linguagem arrogante de um deles, segundo se relata em
Isaías 14:13, 14. Leia-se também Is. 37:8–13. Mas este mal também
carcomia os escribas e fariseus (Mt. 23:5–12; Mc. 12:38, 39; e
especialmente leia-se Lc. 18:11, 12). E até os discípulos tiveram que
lutar contra este pecado (Mt. 18:1–6; 20:20–27; Mc. 10:35–44; Lc. 9:46–
48). Em contraste com tudo isto, considerem-se as palavras de Jesus (Mt.
20:28; Mc. 10:45; Lc. 22:27; Jo. 13:14, 15).
Insensatez é o termo que provavelmente resume as cinco tendências
e palavras precedentes, do mesmo modo que “atos iníquos” resume as
ações que a precederem (cf. Mt. 25:2).
Jesus fecha esta seção ao dizer,
23. Todas estas maldades salen de dentro y contaminan al
hombre.
Em Marcos 6:52 (veja-se ali) vimos que o conceito bíblico de
“coração” aponta ao centro de onde flui toda a vida humana. Agora, se
os vícios mencionados em Marcos 7:21, 22 procedem do coração do
homem, não há dúvida que estes contaminarão toda sua vida intelectual,
emocional e volitiva. O que se deve fazer, portanto, é orar para que lhe
seja dado um coração novo, transformado, e não deveríamos nos
preocupar muito do assunto das mãos sem lavar. A corrupção verdadeira
é a moral e espiritual, não a física.
Davi o expressa de forma muito bela: “Cria em mim, ó Deus um
coração limpo, e renova um espírito reto dentro de mim”.
Marcos (William Hendriksen) 380
Resumo do Capítulo 7:1–23

Veja-se também CNT sobre Mateus, p. 649. Até aqui Marcos


descreveu cinco enfrentamentos entre Jesus e os dirigentes. Estes O
haviam acusado de atribuir-Se prerrogativas divinas (Mc. 2:7), de
relacionar-Se intimamente com gente “pecadora” (Mc. 2:16), de permitir
os Seus discípulos profanar o sábado (Mc. 2:24), de que Ele mesmo não
guardava o sábado (Mc. 3:2, 6) e de expulsar demônios pelo poder do
príncipe dos demônios (Mc. 3:22).
A presente (sexta) confrontação gira em torno da pergunta básica,
“É a tradição humana ou a Palavra de Deus, a regra da fé e a prática?”
A ocasião produziu-se quando chegaram a Galileia provavelmente
(Cafarnaum?) alguns fariseus e escribas residentes em Jerusalém.
Deviam espiar a Jesus. Perguntaram-lhe: “Por que não andam os teus
discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas comem com
as mãos por lavar?” Ele lhes respondeu: “Jeitosamente rejeitais o
preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição”. E para
demonstrá-lo fez com que visse como eles se opunham a que se
obedecesse o quinto mandamento. As pessoas em geral e os Seus
discípulos, receberam explicação depois que a verdadeira corrupção não
vem de fora, e sim do interior do coração do homem.
Marcos (William Hendriksen) 381
B. O RETIRO E OS MINISTÉRIOS NA PEREIA: Mc. 7:24–37

Mc. 7:24–30 - A fé da mulher siro-fenícia é recompensada


Cf. Mt. 15:21–28

Incluindo Marcos, o tema dos Sinóticos pode-se resumir como A


obra que lhe desta para fazer. A primeira divisão deste tema é Seu
Começo ou Inauguração (Mc. 1:1–13). A segunda é Seu Progresso ou
Continuação (Mc. 1:14–10:52). Na seção anterior terminamos o Grande
Ministério na Galileia (Mc. 1:14–7:23), que é a primeira subdivisão
desta segunda.
Agora começamos a segunda subdivisão, O retiro e os Ministérios
na Pereia (Mc. 7:24), a qual prossegue até Mc. 10:52 inclusive. No CNT
sobre Mateus (pp. 16–19) encontram-se as razões que respaldam este
esboço e também uma breve descrição do conteúdo principal de suas
divisões e subdivisões. As possíveis datas (impossível precisá-las) são as
seguintes: o Ministério do Retiro pôde ter ocorrido de abril a outubro de
29 d.C.; o Ministério da Pereia de dezembro de 29 d.C. a abril de 30 d.C.
Quanto a este último ministério intermediário na Judeia, de outubro a
dezembro, veja-se especialmente CNT sobre Jo. 7:2–10:39. De Marcos
7:24 até o final do capítulo 9 é-nos informado dos eventos que ocorreram
durante o Ministério do Retiro. Não se dá uma transição abrupta ou
radical entre o ministério precedente e o presente, mas antes, é uma
questão de matiz. Por exemplo, durante o longo período que, em grande
parte, Jesus passou em Cafarnaum e arredores (Mc. 1:14–7:23), Ele Se
achava com frequência rodeado de multidões. Nesta oportunidade (Mc.
7:24–9:50) tampouco evita as multidões (Mc. 8:1; 9:14), mas inclusive
às vezes as convida a vir a Ele (Mc. 8:34). Não obstante, há uma
diferença de matiz: em geral agora já não é visto na companhia de
multidões, mas com Seus discípulos. Está instruindo-os (Mc. 8:1; 14:21,
27–33; 9:28, 29, 31–50). Tem plena consciência de que a cruz não pode
estar muito longe. Em consequência, expõe aos Doze os ensinos a
Marcos (William Hendriksen) 382
respeito da cruz (Mc. 8:31; 9:31). Isto continua também no Ministério na
Pereia (Mc. 10:33, 34). A fim de poder comunicar esta importante
informação de maneira eficaz, Jesus busca lugares de retiro longe dos
centros de atividade. Passa muito tempo em território
predominantemente gentílico.
Se recebemos permissão para certa liberdade quanto a algumas
localidades um tanto incertas, pode ser útil o mapa que mostra o
Ministério do Retiro de Cristo (Mc. 7:24–9:50). Talvez pôde haver
viagens que não se mencionam nos Evangelhos (cf. Jo. 20:30, 31;
21:25). Quatorze seções de Marcos cobrem os eventos que ocorreram
durante este período nos seguintes lugares:
1. A região de Tiro (Mc. 7:24–30)
2. Decápolis (Mc. 7:31–37)
3. Decápolis (Mc. 8:1–10)
4. Dalmanuta (Mc. 8:11–13)
5. Mar da Galileia entre a Dalmanuta e Betsaida (Mc. 8:14–21)
6. Betsaida (Mc. 8:22–26)
7. Cesareia de Filipe (Mc. 8:27–30)
8. Cesareia de Filipe (Mc. 8:31–9:1)
9. Monte da transfiguração e arredores (Mc. 9:2–13)
10. Monte da transfiguração e arredores (Mc. 9:14–29)
11. Caminho para Cafarnaum (Mc. 9:30–32)
12, 13, 14. Cafarnaum (Mc. 9:33–37; 9:38–41; 9:42–50
respectivamente)
Marcos 7:24–30 e Mateus 15:21–28 relatam essencialmente a
mesma história. Além disso, o espaço que se dedica ao relato é mais ou
menos o mesmo, só que Marcos tem umas poucas palavras menos. Em
ambos os relatos, Jesus deixou o lugar de Sua residência —
possivelmente Cafarnaum — e chega às cercanias de Tiro. Ali uma
mulher não judia daquela região clama-O, pedindo ajuda porque sua
filha está possuída por um demônio. A mãe da menina é muito insistente
em sua demanda. Jesus não lhe concede imediatamente seu desejo. Diz-
Marcos (William Hendriksen) 383
lhe: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”. Elá
responde: “Mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas
das crianças”. Jesus elogia sua fé e lhe concede sua petição.
Cada um destes dois evangelistas faz sua própria contribuição a esta
história, mas não se produz conflito algum. Cada um usa seu próprio
estilo e apresenta os eventos de acordo com as necessidades de seus
leitores. Mateus identifica a mulher como cananeia. Os judeus que liam o
Evangelho de Mateus tinham ouvido muito a respeito desta gente ímpia
(Gn. 12:6; 13:7; 38:2; e veja-se especialmente Js. 9:1ss.; 11:3ss.). Os
cananeus causaram muitos problemas nos dias de Josué e inclusive mais
tarde. O quê? Também para eles há salvação? O relato de Mateus é algo
mais dramático que o de Marcos. A mulher chama Jesus “Senhor, Filho
de Davi”, e lhe roga “tem compaixão”. Embora desde o princípio ela
identifica sua tristeza com a de sua filha (“Tem compaixão de mim!
Minha filha …”), o processo de identificação aumenta em intensidade,
chegando a seu clímax quando a mãe deixa de mencionar a filha, e
simplesmente exclama: “Senhor, socorre-me!”. Segundo Mateus, a
mulher fala com Jesus três vezes separadamente, e cada vez o
evangelista reproduz suas palavras em discurso direto. Marcos reproduz
só duas de suas linhas, e só uma vez por meio de discurso direto. Mateus
introduz os discípulos. Como é característico deles, pedem a Jesus que a
despeça. Marcos nunca menciona os discípulos em seu relato. Mateus
diz que, no princípio, Jesus não respondeu a suplicante mulher, e que
depois lhe disse: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de
Israel.” À vista da gente a quem Marcos escreve, não nos surpreende que
Marcos não registre esse detalhe.
Marcos faz sua própria e valiosa contribuição. Embora ele mesmo
não fosse um apóstolo, com toda segurança tinha ouvido Pedro relatar a
história. Para mostrar quão “famoso” tinha chegado a ser Jesus naquele
momento, Marcos informa que, embora ao chegar à região de Tiro, o
Mestre entrasse numa casa, buscando privacidade, “não pôde ocultar-se”.
Marcos informa também que a mulher era grega, quer dizer, gentia de
Marcos (William Hendriksen) 384
nascimento, com antecedentes pagãos e de nacionalidade siro-fenícia.
Estes pequenos detalhes eram apreciados pelos leitores gentios para
quem Marcos escreveu este Evangelho. Este evangelista mostra mais
claramente que Mateus, que quando Jesus compara a situação da mulher
com a dos cachorrinhos, não queria com isto fechar completamente a
porta de sua esperança. Estava deixando-a claramente entreaberta (veja-
se sobre o v. 27a). Marcos, também diferente de Mateus, relata inclusive
o que sucedeu depois que a mãe voltou para sua casa: achou a menina
deitada em cama e que o demônio a tinha deixado.
24. Levantando-se, partiu dali 331 a para as terras de Tiro.
Também pode-se traduzir, “Deixou aquele lugar e foi embora a (ou:
entrou em) a região de Tiro”. 332 A diferença é pequena.
Esta é a antiga cidade de Tiro, cujos reis formaram uma aliança com
Davi e Salomão. Tiro proveu Israel de madeira e de hábeis artesãos,
enquanto que Israel enviou a Hirão, e a governantes posteriores, o trigo
que o povo de Tiro necessitava (1Rs. 5; At. 12:20). Foi Tiro que
introduziu o culto a Baal em Israel. Era uma ilha fortificada no
Mediterrâneo a muito pouca distância da costa (veja-se Is. 23; Ez. 26–
28). Estava situada ao sul de Sidom e ao norte do Carmelo. Alexandre
Magno a tomou e construiu uma ponte para chegar a ela.
profetizou-se que a gente de Tiro e seus arredores participaria
algum dia das bênçãos da era messiânica (Sl 87:4). Esta profecia
começou a cumprir-se quando a gente destes arredores foi a Galileia para

331
Ou: deixou aquele lugar e foi embora, etc.
332
O fato que _ναστάς poderia ser neste caso um particípio redundante dá apoio a esta alternativa.
Veja-se Vincent Taylor, Op. cit., p. 183, 348. Segundo seu parecer, 1:35 e 2:14 pertencem à mesma
classe. Isto é discutível, porque nestes dois casos a pessoa assinalada pelo particípio tinha estado
deitada (1:35) ou sentada (2:14), de modo que teria sido natural que se levantasse. Em 7:24 isto pode
ser também verdade. Jesus pôde ter estado sentado ensinando, o que à vista do v. 17 é uma boa
possibilidade, especialmente se há uma estreita relação cronológica entre o parágrafo precedente e
7:24ss. Mas visto que este ponto não pode demonstrar-se, talvez é melhor deixar lugar aqui para
qualquer das duas traduções.
Marcos (William Hendriksen) 385
ouvir Jesus e ser curados de suas doenças (Mt. 4:24, 25; Lc. 6:17). Nesta
ocasião é Jesus quem vai a eles.
Tendo entrado numa casa, queria que ninguém o soubesse.
Tinha a visita de Jesus um propósito missionário? Os expositores
diferem em suas conclusões:
a. Jesus não pensava em realizar um trabalho missionário naquele
lugar. Herodes Antipas tinha más intenções contra Jesus (Mc. 6:14, 16;
cf. Lc. 13:31). Os dirigentes judeus tramavam Sua morte. Muitas pessoas
O tinham deixado. Os Doze necessitavam instrução. O que fazia falta era
descanso e tranquilidade. De modo que entra numa casa. De algum
amigo? Não, ao que parece, de um estranho, com a esperança de obter
algum repouso sem interrupções, a fim de ter conversações confidenciais
com os Doze. 333
b. Jesus foi na direção noroeste aos limites da Fenícia em busca de
“um campo missionário mais frutífero”. 334
c. É inútil especular. 335
d. O desejo de Jesus era permanecer oculto por algum tempo. 336
Pode ser que haja algo de fato em todas estas respostas. Quanto à
resposta a., já se mostrou que ao menos um dos propósitos do Ministério
do Retiro era indubitavelmente instruir os Doze, prepará-los para o que
viria: Sua morte na cruz, Sua ressurreição. Quanto a b., é-nos difícil
imaginar o Cristo compassivo viajando toda essa distancia até a Fenícia
sem incluir em Seus planos outorgar uma bênção a seus habitantes.
Referente a c., é sem dúvida verdade que não se deu uma completa
e definitiva resposta a respeito. E para d., talvez Calvino tenha algo de
razão. É provável que Jesus desejasse estar a sós com Seus discípulos só
“no momento”, para seguir depois — veja-se b. — com a atividade
missionária (vejam-se vv. 34–38).

333
Veja-se A. B. Bruce, Op. cit., p. 390.
334
J. W. Russel, ed. Teacher’s New Testament with Notes and Helps (Grand Rapids, 1959), p. 102.
335
M. H. Bolkestein, Op. cit., p. 158.
336
João Calvino, Harmony, vol. II, p. 262.
Marcos (William Hendriksen) 386
“Mas não pôde esconder-se”. Sobre esta passagem têm sido
pregados muitos sermões. Por exemplo, usou-se o texto para dizer que
quando Cristo entra no coração de uma pessoa, logo se fará manifesto
por meio de palavras, ações e atitudes. Ou tem-se dito que toda tentativa
por relegar a Cristo a segundo plano vai rumo ao fracasso. Uma geração
poderá esquecer-se totalmente dEle, mas a seguinte O redescobrirá, etc.
Embora tudo isto seja de valor, tais pensamentos têm muito pouca
relação com a passagem em seu presente contexto. No momento, só é
necessário assinalar que devido ao fato de que alguns — talvez muitos
— fenícios tinham feito já contato com Jesus e/ou tinham ouvido a
respeito de Jesus, era-lhe impossível permanecer oculto por muito
tempo. É por isso que não durou muito este período de repouso ou retiro.
Ele mesmo, por causa de Seu grande amor pelos pecadores, permitiu que
conseguissem “descobri-Lo”. Aqui se repete o de Mc. 6:34.
25, 26. Porque uma mulher, cuja filhinha estava possessa de
espírito imundo, tendo ouvido a respeito dele, veio e prostrou-se-lhe
aos pés. Esta mulher era grega, de origem siro-fenícia, e rogava-lhe
que expelisse de sua filha o demônio.
Aparece em cena uma mulher. Não se diz uma palavra a respeito de
seu marido. Talvez era viúva, o que nos lembra um milagre realizado
séculos atrás nesta mesma região, milagre que alegrou o coração de outra
viúva (1Rs. 17). O que quer que seja, o fato é que uma das qualidades
que sobressai vez após vez nos Evangelhos, é a bondade de Cristo para
com as mulheres, incluindo por certo também as viúvas (Mc. 12:4–44;
cf. Lc. 21:1–4; veja-se também Lc. 7:11–18; cf. Sl 146:9; Pv. 15:25; Is.
1:17).
Agora, esta mulher era oprimida por uma grande tristeza. Tinha
uma filha 337 — Marcos meigamente diz “filhinha” 338 — a qual amava

337
Notem-se _ς … α_τ_ς, o que é perfeitamente natural ao tratar-se de um estilo vivo, o da
conversação, o estilo de Marcos.
338
Sobre diminutivos, veja-se Introdução IV, nota 5 h; veja-se também sobre 3:9, nota 108.
Marcos (William Hendriksen) 387
muito. Mas esta menina estava endemoninhada. Já tratamos a possessão
demoníaca, veja-se sobre 1:23; também CNT sobre Mt. 9:32–34.
Havia alguma esperança para esta mulher e para esta menina? Não
estaria fechada a porta da esperança para esta mãe por causa de sua raça?
Era grega, quer dizer, gentia de nascimento, uma mulher com
antecedentes pagãos. Era siro-fenícia, quer dizer, de nacionalidade
Fenícia, cujas principais cidades eram Tiro e Sidom. Diz-se “Siro-
Fenícia” porque pertencia à província da Síria, e para distingui-la de
Líbia-Fenícia na costa da África do norte.
Ela foi imediatamente e caiu aos Seus pés. Este ato de prostrar-se
era amostra de sua humildade, reverência, submissão, e ansiedade (cf.
5:22). Ela pediu vez após vez, importunando a Jesus para que libertasse
sua querida filhinha do demônio, daquele espírito imundo.
27. Mas Jesus lhe disse: Deixa primeiro que se fartem os filhos,
porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos
cachorrinhos.
No plano de Deus estava estabelecido que as bênçãos centralizadas
em Cristo teriam que ser oferecidas primeiro aos “filhos”, quer dizer, aos
judeus. A oportunidade de fartar-se com este alimento 339 era oferecida
primeiro a eles, logo aos gentios (cf. Mt. 22:1–10; At. 13:44–48; 18:6;
Rm. 1:17). Essa era a norma. Todo desvio importante desta norma
equivalia a tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Por certo
que os cães — mesmo os de companhia — não podem esperar ser
tratados como a filhos. A mulher devia saber disso a fim de compreender
que se seu desejo chegasse a ser concedido, sê-lo-ia pela via de exceção
e, portanto, seria um assinalado privilégio.
Era esta norma um tanto, sem exceções, ou era flexível? Eis aqui o
problema. Se era rígida e devia ser literalmente aplicada a todos aqueles
que não deviam sua descendência física a Abraão, então “apagadas —
apagadas as luzes — apagadas todas” (com o perdão de E. A. Poe), e

339
Sobre o verbo χορ