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Submarinos Nucleares: Descomissionamento

SUMÁRIO: Este artigo define a atividade de


Descomissionamento de Submarinos Nucleares
abordando os riscos inerentes à essa atividade, que
já causaram e ainda causam enormes danos em
países, como a Russia, que desconsideraram um
planejamento antecipado para a atividade e estão
pagando o preço dessa negligência em termos de
ameaças à população e ao meio ambiente de seu
próprio território e de países vizinhos. O artigo
também apresenta uma sugestão de iniciativa
imediata levando em conta que o fato dessa
atividade no Brasil ser necessária somente daqui a
cerca de 35 anos não é motivo para que se
negligencie sua implantação imediatamente, tendo
em vista que os processos envolvidos são de decisão
e implementação complexas e demoradas,
especialmente, em nosso país. A Marinha Brasileira,
aparentemente, não está focada nesse aspecto e o
Congresso Nacional precisa começar a discutir está
questão JÁ, propondo alterações no projeto do
Estaleiro e Base Naval (EBN), que está previsto no
recente acordo com os franceses.

Desde que comecei a escrever na MPHP sobre a intenção da Marinha Brasileira de


construir Submarinos Nucleares eu mantinha uma posição muito crítica pautada em
aspectos da mentalidade brasileira que eu considerava ainda não preparada em
termos procedurais e éticos para penetrar mais a fundo ainda na aventura nuclear.

É verdade, que desde 1998 quando escrevi meu primeiro artigo sobre o tema até
2010 quando publiquei “Estratégia Nacional de Defesa – Marinha”, eu flexibilizei
minha posição respaldado no sucesso do programa de propulsão nuclear, no
orgulho nacional gerados pelas realizações da Marinha Brasileira nesta área e
principalmente por mudanças na situação geopolítica em que hoje se enquadra o
Brasil.

No entanto, jamais deixei de flexibilizar um aspecto que ainda me parece esquecido


pelas nossas autoridades Navais, de Defesa e Regulatórias, ou seja, o planejamento
e previsão técnico/orçamentária para a fase que se segue ao término da vida útil
dos reatores navais, o Descomissionamento.

Para definir esse termo precisamos estar cientes de que um navio de propulsão
nuclear não sai simplesmente do serviço ativo como os navios convencionais que
depois da recuperação daquilo que é aproveitável o navio é simplesmente cortado
para ser vendido como ferro-velho. O navio de propulsão nuclear exige para sua
desativação um processo denominado Descomissionamento, que consiste numa
sequencia de operações cujo objetivo é o armazenamento seguro do material
nuclear radioativo e a deposição adequada do vaso do reator e da sucata irradiada,
reciclando (quando possível) o resto do casco e acessórios.

Em últimas palavras, meu apoio à construção de submarinos nucleares pelo Brasil


está condicionado ao tratamento antecipado da questão do descomissionamento.
Os exemplos atuais da Marinha Russa que desconsiderou esta questão estão
presentes e requerendo apoio mundial das demais potências nucleares para a
solução de um problema grave de navios nucleares desativados estocados que sem
um programa adequado de descomissionamento tiveram reatores danificados,
liberando radioatividade, despejados no mar de Karas, fato já reconhecido
internacionalmente pelas autoridades russas.

Este problema, embora mais agudo na Rússia, também está presente nos EUA e
em menor escala na França e no Reino Unido. O descomissionamento de reatores
navais nucleares coloca desafios específicos que determinam implicações para o
processo de deposição nuclear como um todo. Devido à confidencialidade envolvida
nos sistemas de armas e ao nível de enriquecimento dos combustíveis nucleares
contidos nos reatores navais, suas deposições frequentemente guardam mais
similaridade com os sistemas de armas do que com os reatores civis.

Como se sabe, os reatores nucleares utilizam urânio com enriquecimento industrial


do isótopo U-235, material físsil, já que o U-238 encontrado na natureza, não é
físsil e dispõe de baixo nível (0,7%) de enriquecimento do isótopo U-235. Por
exemplo, o enriquecimento dos reatores a água pressurizada variam desde 21
porcento de U-235 nos submarinos russos de primeira e segunda geração para 45
porcento na terceira geração. O Urânio nos reatores resfriados a metal líquido é
provavelmente enriquecido a valores maiores do que 90 porcento, ou grau de
armamento nuclear.

No caso do projeto do submarino nuclear brasileiro nós não temos informação


oficial liberada sobre o nível de enriquecimento, mas um raciocínio lógico nos faz
crer que operacionalizando um submarino nuclear 60 anos depois de o primeiro
submarino nuclear ter sido colocado em operação no mundo, a Marinha Brasileira
não iria projetá-lo com capacidade operacional compatível com 60 anos atrás. Maior
enriquecimento permite uma redução do tamanho do reator bem como períodos
maiores entre o carregamento do núcleo, aumentando a operacionalidade do
submarino. No entanto, como o gerenciamento do urânio é hoje mais inteligente,
conseguindo-se que o urânio fique mais tempo gerando energia, um submarino
utilizando combustível nuclear com 20% de enriquecimento pode hoje exercer o
mesmo papel operacional que um submarino mais antigo utilizando 45%.

Em contraste, a maioria dos reatores comerciais utilizam combustível enriquecido a


cerca de 4 porcento de U-235. Evidentemente, como outros reatores nucleares, os
reatores navais geram uma variedade de produtos de rejeitos que têm sua
deposição bastante problemática. Em particular o descomissionamento de um
submarino de propulsão nuclear libera:

• Combustível Nuclear queimado que requer tanto armazenamento


preliminar como deposição definitiva;

• Rejeitos líquidos do circuito refrigerante primário, filtros e tanques


blindados no compartimento do reator que precisam ser drenados,
tratados e seus rejeitos estocados.

• Rejeitos nucleares sólidos, consistindo do núcleo do reator bem como as


superfícies irradiadas na vizinhança do núcleo, e produtos de corrosão
radioativa (principalmente cobalto-60) que requerem estocagem
provisória e posteriormente desmontagem e armazenamento definitivo.

No caso particular da Rússia, a competição pela escassez de recursos suplantou o


processo colocando em perigo tanto a população local como o meio ambiente. O
problema se tornou de tal magnitude que a Rússia tinha 180 submarinos fora de
serviço em 1996. Com a taxa anual que vem sendo aplicada para o
descomissionamento desses submarinos ainda teremos submarinos aguardando o
processo por pelo menos mais 20 anos. Enorme cooperação internacional tem sido
acionada pelos EUA e países vizinhos como a Noruega, diretamente interessada na
solução do problema.
Todo o problema da Marinha Russa pode ser lido em outro artigo da MPHP
denominado “O Veneno do Corporativismo” aonde tratamos também da vontade
brasileira de empregar submarinos nucleares. Nesse artigo, como explicamos no
início, éramos mais radicalmente contra essa opção.

Os E.U.A. já descomissionaram, até 2007, cerca de 105 navios entre submarinos e


outras classes de navios. O custo do descomissionamento de um submarino nuclear
sem armamento balístico está na ordem de US$ 36,5 milhões por submarino, a
preços de 1995. Na figura abaixo “Inactivation Cost” incluem a retirada do
combustível queimado, drenagem de líquidos radioativos e empacotamento e
soterramento do reator. “Scrapping Cost” são os custos de corte da sucata já
descontado o material reciclável.

Países como a França e o Reino Unido e a própria Rússia ainda armazenam os


reatores flutuando, já separados dos submarinos, enquanto aguardam colocação
em estocagem seca. A França costuma deixar seus reatores em estocagem seca
provisória por 15 a 20 anos até estocar permanentemente.

Nos E.U.A. após a retirada dos elementos combustíveis e drenagem dos líquidos
radioativos que é realizado no “Puget Sound Naval Shypyard” o reator é
empacotado entre duas anteparas do próprio submarino e selado para transporte
através do rio Columbia para a “Hanford Reservation” também no estado de
Washington aonde será enterrado numa profundidade de 5m.

Se tomarmos o custo de descomissionamento nos EUA, mostrado na tabela


anterior, tendo como base o ano de 1995, e os transferirmos para custos em 2010
chegaríamos a US$ 52 milhões. Agora, se transferirmos esses custos para serem
despendidos no Brasil, considerando um custo Brasil de 1,36, chegaremos a um
valor aproximado de US$ 72 milhões em 2010, um valor que considero muito
elevado e deve ter sido distorcido pelos altíssimos custos norte-americanos. Já
dados mais recentes vindos da Rússia situam os custos, para uma unidade, em US$
10 milhões. No Brasil, provavelmente, esses custos ficarão mais perto dos custos
russos do que dos americanos, embora mais altos e por enquanto, apenas ainda
um palpite, eu o colocaria no dobro, pois embora nossa carga tributária seja
comparável à da Rússia em termos do PIB nossa infra-estrutura em quase todos os
aspectos perde bastante para os números russos. Portanto, imaginar-se US$ 20
milhões para esse custo talvez não seja exagerado.
Na primeira figura anterior, uma barcaça transporta o reator selado para ser
enterrado em Hanford enquanto na que se segue o reator está sendo preparado
para ser enterrado. Abaixo uma visão geral do futuro Estaleiro e Base Naval da
Marinha do Brasil, na Ilha da Madeira, município de Itaguaí, RJ.
Como se percebe o descomissionamento é uma operação complexa e de elevado
custo e alguns países como a Rússia estão pagando um preço ainda maior, com
flagrante risco de sua população de do meio ambiente, por não terem se
preocupado com a questão no tempo devido.

O Brasil não tem o direito de se aventurar na propulsão nuclear sem tomar as


medidas que o planejamento da atividade de descomissionamento exige. Estamos
em pela vigência de um acordo com a França que nos fornecerá tecnologia para
construção de submarinos nucleares em de uma base também incluída no mesmo
acordo. É o momento de incluirmos no projeto recursos técnicos e orçamentários
para que esta atividade possa vir a ser realizada dentro de 35 anos. O Acordo com
a França, que na verdade não tem muito a oferecer neste campo, não contempla
qualquer cooperação na parte nuclear do submarino.

Da mesma forma que os americanos que desmontam e enterram seus reatores em


sítios próximos dentro do mesmo estado da federação podemos estabelecer um
projeto similar na região de Itaguaí onde será localizada a Base. Um dos prédios,
destinado ao procedimento de troca do reator do navio nuclear ou do combustível,
será alto, equivalente a 16 andares, como pode ser visto em uma das fotos
artísticas da futura base, poderá ser utilizado no descomissionamento.

Seria lógico prever essas atividades na mesma Base de Itaguaí aonde serão
construídos e mantidos os submarinos nucleares, pois além de aproveitar o vultoso
investimento concentraríamos atividades nucleares de risco em um só local.
Através de conversas informais posso informar que o Ministério Público Federal,
ofício do meio-ambiente, compartilha dessa mesma idéia.

Se cumpridos os cronogramas é de se esperar que outros submarinos se sigam aos


três primeiros previstos inicialmente, de forma que em 2050 já possamos ter cerca
de 10 unidades para descomissionar se nada for feito até lá.

É uma ilusão o tempo que aparentemente ainda temos até ser necessário o
primeiro descomissionamento, pois os processos a serem cumpridos são
complexos, exigem licenças especiais que como sabemos demandam muito tempo
e discussões que podem inclusive exigir audiências públicas.

Aparentemente, nem a Marinha, nem o Ministério da Defesa nem a Comissão


Nacional de Energia Nuclear (CNEN) estão preocupados com a questão. A Marinha
parece desconhecer inteiramente o problema embora exista a palavra
descomissionamento no Acordo com a França, para determinar que a
responsabilidade é unicamente da parte brasileira.

Abaixo uma foto do Submarino tipo Scorpene que servirá de base para o submarino
nuclear brasileiro.

Teoricamente e de acordo com a Lei no 7.781, de 27 de junho de 1989 a Marinha


se submete às Normas da CNEN e do Ministério do meio Ambiente, e
recentemente apresentou o RIMA visando emissão de Licença de Prévia (LP) que,
na verdade, apenas atesta a viabilidade ambiental do empreendimento não sendo
uma licença para iniciar a construção do Estaleiro e Base Naval (EBN) de
Submarinos que a Marinha pretende construir em Itaguaí.

Não existe dentro do RIMA nenhuma previsão para descomissionamento dos


submarinos após a vida útil das embarcações. O que leva a crer uma de duas
hipóteses:

1) Não será feito nessa Base, ou o mais provável;

2) Não existe ainda previsão tanto técnica como orçamentária.

A 2ª hipótese infere algo mais problemático ainda:

A possibilidade de não existir a noção exata, tanto pela Marinha como CNEN e MD,
de como fazer essa atividade e por isso contam com a perigosa estratégia de dar
tempo ao tempo, já que a primeiro descomissionamento se daria ao redor de 2050
ou talvez alguns anos antes.

A Rússia negligenciou a questão e hoje enfrenta um problema de escala global e


mundial que está exigindo ajuda internacional, mas mesmo assim não terá o
problema resolvido nos próximos 20 anos.

Pode-se argumentar que o problema brasileiro é menor, visto que jamais


chegaremos a curto prazo no número de submarinos desativados da Marinha
Russa. No entanto, deve se lembrar que um só descomissionamento mal
gerenciado ou deixado por fazer encerra riscos potenciais suficientes para causar
um enorme dano à população e ao meio ambiente.

Uma indagação a autoridades da Marinha sobre o descomissionamento teve como


resposta que serão seguidos os procedimentos da CNEN. No entanto, a CNEN não
apresenta na relação de suas normas expostas em seu site oficial qualquer norma
ou procedimento para fiscalizar ou regular atividades de descomissionamento de
reatores navais embora inclua entre suas normas em desenvolvimento a NN-9.01
Descomissionamento de Instalações. Ao indagar o setor de Normas da CNEN
sobre o assunto fomos muito bem recebidos pela responsável que nos informou que
este assunto estava começando a ser discutido e que seriam formados grupos de
trabalho para discussão e elaboração. Foi inclusive aventada a possibilidade de
sermos convidados para esse grupo. Quanto à construção do reator de propulsão a
partir do reator Multipropósito, estão sendo utilizadas as normas existentes da
CNEN.

É preciso então aproveitar o momento levantar essa questão de forma ampla


convidando o Congresso Nacional a discutir visando provisões técnicas e
orçamentárias para que não sejamos surpreendidos por um futuro que não tarda às
nossas portas.

Este pode ser um bom tema para ser colocado no debate presidencial de 2010.
Será que a candidata do governo tem respostas?