Você está na página 1de 11

Amerika

Mémoires, identités, territoires

8 | 2013 :
Violences, génocides, guerres, homicides, féminicides, crimes, meurtres,
représentations esthétiques
Thématique

Testemunho, trauma e
identidade em Que bom te ver
viva, de Lúcia Murat
LIZANDRO CARLOS CALEGARI

Résumés
Português English
Este trabalho visa a analisar o testemunho de sobreviventes das torturas do regime militar
brasileiro (1964-1985), no filme Que bom te ver viva (1989), de Lúcia Murat, sob a ótica do
trauma. A partir da análise de testemunhos de oitos ex-presas, procuraram-se estabelecer
algumas relações entre o trauma que marca o depoimento dessas vítimas e a questão da
identidade. Nesse sentido, pretende-se traçar uma linha de reflexão cujo intuito é mostrar que
os testemunhos têm relevância política, ética e social e contribuem na reparação da identidade
individual e coletiva de um grupo que viveu num momento específico da história do Brasil. A
ideia que se defende é a de que as memórias do passado não podem ser apagadas para que se
retramem os traumas vividos por uma geração a fim de que se possa reestabelecer, de forma
mais plena, a democracia do país.

This work undertakes to analyze from the point of view of trauma theory the testimony of
survivors of torture from the 1964-85 military dictatorship in Brazil, starting from Lucia
Murat’s film Que bom te ver viva (1989). Basing ourselves on the analysis of testimony from
eight ex-prisoners, we established some relationships between the trauma that characterizes
the testimony of the victims and the question of identity. Thus, our goal is to demonstrate that
the witnesses have political, ethical, and social relevance, and that they contribute to repairing
the individual and collective identity of a group that lived at a specific moment in the history of
Brazil. As a consequence, the memories of the past must not be deleted so that trauma
experienced by a generation may be reviewed for the construction of a more democratic
country.
Entrées d’index
Keywords : testimony, trauma, identity, military dictatorship
Palavras chaves : testemunho, trauma, identidade, ditadura militar
Géographique : Brasil

Texte intégral
1 Elie Wiesel, um dos estudiosos a teorizar sobre os relatos de experiência de vítimas
de guerra, afirmou que, se os gregos inventaram a tragédia ; os romanos, a epístola ; a
Renascença, o soneto ; então a geração do século XX criou uma nova literatura,
« aquela do testemunho »1. Bem como expõe o autor, o testemunho tornou-se algo
importante e fundamental para a compreensão desse período que, segundo alguns
críticos, foi considerado o mais destrutível da história da humanidade, algo que levou
Eric Hobsbawm a chamá-lo de a « era dos extremos »2, e Cathy Caruth a defini-lo como
a « era das catástrofes »3. A meu ver, uma denominação que poderia ser colocada ao
lado dessas duas é a « era do trauma ». O nazi-fascismo, o comunismo alemão, as
ditaduras socialistas e hispano-americanas moldaram as políticas contemporâneas e
problematizaram as relações entre indivíduo e sociedade. Em nenhum outro período, o
homem esteve submetido a tantos eventos cuja intensidade pudesse abalar a sua
integridade de modo a atingir ou mesmo a modificar a sua subjetividade.
2 O caso brasileiro, aliás, é extremamente revelador neste sentido. O país mergulhou,
em 1964, num compacto processo ditatorial subsequentemente a uma guindada de
inspirações democráticas. Entre aquele ano e 1985, assistiu-se às mais diferentes
pressões impostas pelo poder. O governo introjetou-se nos rumos do país num clima de
autoritarismo com o fito de diluir qualquer obstáculo de caráter antagônico a seus
interesses. Assim, a brutalidade cometida pela classe dirigente gravitava em torno das
contestações armadas por meio de torturas, execuções e perseguições variadas ; perda
dos direitos políticos entre professores, prefeitos e governadores ; e, dentre outros, a
montagem do aparelho repressivo. O controle de informações, a rigor, conferia à
Ditadura Militar uma postura antiliberal. O rádio, a imprensa, as obras literárias, o
cinema e o teatro passaram a sofrer fortes censuras.
3 Em praticamente vinte anos de regime militar, aproximadamente uma centena de
diferentes modos de tortura – mediante agressões físicas, pressão psicológica e
utilização dos mais variados instrumentos – foi aplicada em pessoas suspeitas de
atividades políticas subversivas. A tortura procurava não apenas produzir no corpo da
vítima uma dor que a fizesse entrar em conflito com o próprio espírito e pronunciar o
discurso que, ao favorecer o desempenho do sistema repressivo, significasse sua
sentença condenatória, ela visava a imprimir às pessoas a destruição moral pela
ruptura dos limites emocionais. Com isso, esses indivíduos ficavam marcados por
sequelas físicas e psicológicas, e perdiam, muitas vezes, por determinado tempo, os
sentidos e as noções espaciais e temporais. Em virtude de tais acontecimentos, depois e
mesmo durante tal período, surgem pessoas traumatizadas dispostas a relatar suas
experiências, algo que passou a ser chamado de « testemunho ».
4 Uma observação importante a ser feita aqui diz respeito ao fato de que, para se ter
um relato testemunhal, não basta que a vítima apenas narre a sua experiência. É
imprescindível a presença de um ouvinte. De acordo com Dori Laub4, é necessário que
a vítima recorra à terapia como forma de externalizar a sua dor, o que deve ser feito na
presença de alguém, no caso, um ouvinte em quem a vítima possa confiar para que dê
suporte nos momentos críticos da rememoração. Portanto, aquele que ouve também é
testemunho da história do outro, já que o trauma não é uma experiência corriqueira e
passível de fácil compreensão e assimilação. A pessoa traumatizada precisa de uma
iniciação de modo que ela se sinta com o mínimo de condições para dar forma ao seu
relato, qualquer que seja. Por ser atemporal, a intensidade da dor proporcionada pelo
trauma não diminui nem passa a pertencer ao passado ; é algo sempre presente, da
ordem do dia.
5 Consciente de tais particularidades, Joana D’Arc Ferraz5 define três formas de
testemunhar. Segundo a autora, a primeira delas ocorre quando o indivíduo produz sua
própria leitura sobre o evento traumático. A segunda diz respeito à produção
testemunhal feita a partir de entrevistas calcadas na metodologia proposta pela história
oral. Por fim, a terceira maneira tange ao testemunho em terceira pessoa, quando um
relata, através do outro, a experiência dolorosa pertencente a uma vítima. Partindo-se
desses casos, pode-se afirmar que se tem uma ampliação do conceito de testemunho, o
que implica uma crítica à objetividade do pesquisador/ouvinte. Não só isso, essa
revisão de conceitos é importante porque, agora, no momento presente, as novas
gerações surgem como as grandes questionadoras da memória construída oficialmente.
É justamente essa geração nascida após a ditadura que vem colocar em xeque a história
oficial. Neste caso, é inegável a importância política e ética dos testemunhos orais
daqueles que viveram nos porões da ditadura.
6 Logo que a Ditadura Militar foi instaurada, as vertentes culturais brasileiras sofreram
um abalo. O golpe de 1964 pegou de surpresa muitos setores da sociedade de modo que
a produção artística, num primeiro momento, ficou estagnada. Aos poucos, começaram
a aparecer escritores, músicos, diretores de cinema e de teatro que, por meio de suas
obras, denunciavam o período autoritário em curso. O mais interessante, no entanto, é
que, mesmo depois de mais 20 anos de término oficial do regime militar, ainda vinham
a público filmes que tematizavam aqueles terríveis anos de chumbo. É o caso de
Araguaya : a conspiração do silêncio (2004), de Ronaldo Duque, Cabra cega (2005),
de Tony Venturi, Batismo de sangue (2006), de Helvécio Ratton, O ano em que meus
pais saíram de férias (2006), de Cao Hamburger, e Zuzu Angel (2006), de Sérgio
Rezende, só para citar alguns exemplos. Três parecem ser os motivos básicos que
justificam o surgimento de tais películas muitos anos depois do fim da ditadura.
7 Primeiramente, porque muitos eventos associados à Ditadura Militar continuam
obscuros, exigindo maiores esclarecimentos para melhor compreensão. Sabe-se de
maneira geral o que se sucedeu ao longo daqueles anos no Brasil, mas não se sabe o que
de fato se passou nos cárceres onde muitos ficaram confinados por longos períodos.
Muitos arquivos não foram abertos, e esta é uma necessidade urgente para se
reestabelecer ou avaliar a democracia no país. Em segundo lugar, em razão da
necessidade de não se deixar o passado se perder. Por mais doloroso que seja, o ato de
lembrar envolve um componente político, ou seja, ele se coloca contra o esquecimento
e, o que é o principal nisso tudo, trabalha no sentido de evitar a repetição do que já
aconteceu. Por fim, em virtude de que o trauma originado dos episódios violentos não
foi convincentemente assimilado, algo que exige um retorno ao ocorrido. De acordo
com Márcio Seligmann-Silva, « os traumatismos sofridos foram além da capacidade de
elaboração dos sobreviventes e vieram a marcar a geração seguinte »6. Ou seja, os
familiares das vítimas, também atingidos pelo trauma, reclamam justiça pelos atos
bárbaros cometidos contra seus entes queridos. Aqui, portanto, haveria uma relação
entre o trauma e a necessidade de narração das experiências agônicas.
8 Ainda conforme Seligmann-Silva, o testemunho consiste numa necessidade
elementar, pois dela depende a sobrevida daquele que atravessou uma situação radical
de violência, isto é, o testemunho apresenta-se como condição de sobrevivência.
Segundo o autor, « [n]arrar o trauma, portanto, tem em primeiro lugar este sentido
primário de desejo de renascer »7. No entanto, chama atenção o crítico, esse
testemunho nunca é total, ele « só existe sob o signo de seu colapso e de sua
impossibilidade »8, ou seja, é parcial e limitado. Devido a essas características, de
acordo com o estudioso, episódios de extrema violência só podem ser narrados quando
a vítima faz uso da imaginação e, nesse caso, a « narrativa testemunhal, que se quer
‘primeira’, atestação, fonte original da realidade, mesmo esta narrativa é descartada por
muitos historiadores [...] como sendo fonte não fidedigna para o historiador »9. Dito
em outros termos, o testemunho apenas adquire sentido com a sua contraparte
estruturante, o « falso-testemunho »10. Assim, no caso da América Latina e, em
particular, do Brasil, sobretudo depois dos anos 1960, « o conceito de testemunho
adquiriu uma centralidade enorme no contexto de resistência às ditaduras que
assolaram o continente »11.
9 Muitas das características que definem o testemunho podem ser observadas no filme
Que bom te ver vida (1989), dirigido por Lúcia Murat. Ex-militante estudantil, a
cineasta foi presa em 1971, passou pelo ritual da tortura física, psicológica e sexual,
sendo libertada em 1974. Misto de documentário e ficção, essa película apresenta
depoimentos dados por oito ex-presas políticas brasileiras que viveram situações de
tortura durante a Ditadura Militar. Alinhavados por esses relatos, têm-se também os
delírios e as fantasias de uma personagem anônima interpretada pela atriz Irene
Ravache. Com descrição e enumeração de sevícias, o filme aborda o preço que essas
mulheres pagaram e ainda pagam por terem sobrevivido à experiência da tortura.
Trata-se, pois, de uma das raras obras que se centra na perspectiva feminina da tortura,
tentando expor as violências sexuais e mesmo os abortos oriundos dessa brutalidade.
10 A proposta deste trabalho é analisar os relatos apresentados por essas mulheres que
foram vítimas das atrocidades do regime militar à luz da teoria do trauma. O objetivo
principal consiste em estabelecer uma relação entre testemunho, trauma e identidade.
Dito em outras palavras, pretende-se traçar um linha de reflexão cujo intuito é mostrar
que os testemunhos têm relevância política, ética e social e contribuem na reparação da
identidade individual e coletiva de um grupo que viveu num momento específico da
história do Brasil. Em última instância, quer-se argumentar no sentido de que não se
pode esquecer os traumas vividos pela sociedade, pois de sua lembrança e recordação
depende o futuro de um país. Assim, o documento fílmico é concebido como um espaço
que viabiliza a dimensão testemunhal, visando, dentro outros objetivos, ao rearranjo da
memória coletiva e da identidade de um indivíduo e mesmo de um grupo ou geração.
Aliás, segundo Michael Pollak, o filme-testemunho é o melhor suporte para captar as
lembranças e as memórias, é « um instrumento poderoso para os rearranjos da
memória coletiva e, através da televisão, da memória nacional »12.
11 Em Que bom te ver viva, as oito mulheres que participaram da película dando seus
testemunhos foram : Maria do Carmo Brito, Estrela Bohadana, Maria Luiza G. Rosa,
Rosalinda Santa Cruz, Criméia de Almeida, Regina Toscano, Jessie Jane e uma vítima
anônima que não quis se identificar. Nessa produção, Lúcia Murat optou por gravar os
depoimentos das ex-presas em vídeo, com enquadramento semelhante ao de retrato 3 x
4. Ao longo do filme, surgem também manchetes e notícias de jornal trazendo
informações a respeito da situação política do Brasil. O que é comum em todos os
casos, diz respeito ao fato de essas personagens gesticularem muito, não prenderem seu
olhar num ponto fixo enquanto falam em frente à câmara, fazerem pausas durante seus
relatos e se emocionarem com suas próprias histórias. Talvez o caso mais nítido dessa
incapacidade de verbalizar o ocorrido fica por conta da personagem que não quis se
identificar. Ela foi uma militante guerrilheira, ficou quatro anos na clandestinidade e
quatro anos na cadeia. Depois que foi libertada, passou a viver numa comunidade
mística. Por não querer ser identificada, redigiu uma carta em que diz o seguinte :

Este é o depoimento que eu posso fazer. Se você quiser usá-lo anonimamente, tem a minha
autorização. Mas, de maneira alguma, eu quero participar de algo [que] seja dramático,
emocional, sentimental, de indignação, revolta, ou denúncia, pois são coisas contagiosas, que
empanam a serenidade e o equilíbrio. [...] Para construir, para criar, só com muita serenidade,
equilíbrio e compaixão. Por nós próprios e por todos os homens, que todos nós possamos ser
felizes.

12 O que se observa, neste depoimento, é que a vítima não consegue superar o seu
trauma, sendo incapaz de encontrar, em sua vida, um ponto de equilíbrio entre a dor
extrema formulada no passado e a sensação de prazer proporcionada pela liberdade no
momento presente de sua fala. Nada disso acontece por acaso. Segundo Sigmund
Freud13, o trauma é uma ferida na memória, uma excitação vinda de fora
suficientemente poderosa capaz de atravessar o escudo protetor do aparelho psíquico.
Essa ferida, não cicatrizada, causaria, portanto, um sofrimento repetido do evento.
Conforme complementa Seligmann-Silva, na situação testemunhal, « o tempo passado
é tempo presente », de modo que o trauma é caracterizado « por ser uma memória de
um passado que não passa »14. Afora isso, o fato de a ex-presa preferir manter-se no
anonimato revela a sua incapacidade de reestabelecer a sua identidade. Nesse caso, o
trauma cortou a vida da vítima em duas partes, antes e depois, « só que aquele que
respira depois não é o mesmo de antes. Um morreu, outro ficou em seu lugar »15.
« Aquele ‘que voltou a nascer’ é um lesado, um sonâmbulo que carrega os restos
mortais daquele que não voltará mais »16. Portanto, impossibilitada de conciliar o
passado ao presente, sente-se como se não tivesse valor algum, sente-se como se não
fosse uma pessoa e sim um objeto.
13 Tão importante quanto o estudo do conteúdo das memórias, é a opção da vítima pelo
silêncio. Os não-ditos têm motivos bastante complexos de serem analisados. Muitas
vezes, lembranças traumatizantes ou traumatizadas esperam anos pelo momento
propício para serem expressas. Logo, o silêncio encobre um imperativo ético de forma
que se deve respeitar a vontade de silêncio do outro. De qualquer forma, segundo
Pollak, existem duas razões principais para esse silêncio : uma de ordem política e
outra de ordem pessoal. No primeiro caso, conforme o autor, « o longo silêncio sobre o
passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil
impotente opõe ao excesso de discursos oficiais »17. Em âmbito pessoal, o crítico explica
que, em face das lembranças traumatizantes, « o silêncio parece se impor a todos
aqueles que querem evitar culpar as vítimas »18. Em determinadas situações, essas
vítimas não encontram espaço na sociedade para seu testemunho e, por não
encontrarem possibilidade de amenizar a sua dor ou de transformá-la em fala, acabam
preferindo o silêncio.
14 Ainda em relação a esse último caso, convém esclarecer que muitas vítimas, apesar
do desejo de contar para as gerações futuras as suas experiências, optam por calar-se,
pois, em algumas circunstâncias, os familiares se revoltam com o teor dos relatos. Foi o
que aconteceu com Estrela Bohadana, Militante da Organização Clandestina POC,
presa e torturada em 1969, no Rio de Janeiro, e, em 1971, em São Paulo :

Eu tenho um filho de 10 anos e um que vai fazer 15. Mas, o que eu sinto, nos dois, é que,
embora, quer dizer, o fato de eu ter sido presa, de eu ter sido torturada, incomode, crie uma
certa revolta, eles preferem que eu não fale. Eu sinto que é um assunto que incomoda tanto,
que é melhor que se esqueça. Então, eu acho que eles, de alguma forma, reivindicam que eu
esqueça... talvez para que eles não entrem em contato com uma coisa tão dolorosa.

15 Além dos familiares dessas vítimas, em muitos casos, é a sociedade quem não quer
ouvir os seus relatos. Rosalinda Santa Cruz, militante da esquerda armada, presa e
torturada duas vezes, reclama desta falta de interlocutores :

Quando a gente fala dessas coisas, parece que estamos falando de uma coisa velha, do passado,
parece que a gente é rancorosa [...]. Eu já ouvi muitas vezes as pessoas falarem isso, eu me
senti como que as pessoas me olhando assim : mas como é ? Não dá para passar uma
borracha ? Lá vem de novo falar em tortura ! Que coisa mais antiga ! Esquece ! Eu acho que as
pessoas que não passaram por isso, não tiveram uma pessoa querida, um irmão, um pai
desaparecido, não podem imaginar a imensidão da dor, da revolta, e não podem imaginar o
quanto isso é importante para a humanidade.

16 Apesar de as oito mulheres terem enfrentado situações de tortura semelhantes,


convém chamar a atenção para a singularidade do testemunho, ou seja, todo
testemunho é único e insubstituível. Como frisa Shoshana Felman, uma vez que o
testemunho não pode ser substituído, repetido ou relatado por outro sem perder sua
função como testemunho, « o fardo da testemunha – apesar de seu alinhamento a
outras testemunhas – é radicalmente único, não intercambiável e um fardo
solitário »19. A exemplo do testemunho, que nunca é total, a reintegração da
personalidade torna-se impossível. O sobrevivente sabe que sua vida se tornara tão
fragmentada, que ele se sente incapaz de juntá-la novamente. Tais características são
observadas no relato da ex-militante Maria Luiza G. Rosa, médica sanitarista, presa e
torturada quatro vezes em 1970 :

É impossível discutir [sobre a tortura], então, dá uma sensação de solidão e, nessa terceira
prisão, quando eu tentava discutir com os companheiros, e que ninguém queria discutir isso, e
quando eu fui presa e aconteceu de novo essa coisa terrível [...], eu fui extremamente
censurada de novo, mas também passa, porque as pessoas também não conseguem segurar
por muito tempo, esquece, esquece inteiramente que te censuraram, porque é uma coisa que as
pessoas não seguram, né ? Não seguram porque não têm coragem de discutir, não tem
coragem de enfrentar a discussão, porque é uma coisa longe da vida das pessoas... acho que só
fica para quem viveu [...].

17 A última frase transcrita enfatiza a singularidade do testemunho, fazendo com que a


experiência de dor nunca seja intercambiável, e isso ocorre porque ele carrega consigo
algo de excepcional. Outro detalhe que se filia ao trauma tem a ver com a
impossibilidade de verbalização do ocorrido, algo que remete para a parcialidade e a
limitação do relato testemunhal : « É impossível discutir sobre a tortura ». Como
consequência, tem-se o desamparo, a solidão e o sentimento de abandono da vítima.
Apesar de não ser correspondida, nota-se que a então presidiária procura estabelecer
contato com seus companheiros. Muitos prisioneiros, aliás, nessa situação, depois de
voltarem para casa, sentiram necessidade de narrar o que lhes havia acontecido. Essa
incapacidade de silenciar a experiência repousa, na maioria das vezes, no desejo
(pessoal) de alcançar uma maior lucidez sobre algum problema incômodo, enfim,
propor um sentido para algo fragmentado. Isso justificaria o aparecimento de um
grande número de obras literárias sobre o assunto depois do término da Ditadura
Militar em 1985.
18 O trauma, conforme descrição proposta por Cathy Caruth, é « a resposta a um evento
ou eventos violentos inesperados ou arrebatadores, que não são inteiramente
compreendidos quando acontecem, mas retornam mais tarde em flashbacks, pesadelos
e outros fenômenos repetitivos »20. Dito em outros termos, o trauma não vem sozinho.
Ele vem acompanhado por uma série de sintomas como pesadelo, delírio de
perseguição, depressão melancólica, desejo de morte, regressão ao comportamento
infantil, desintegração da personalidade, incapacidade de relacionamento e lapsos de
memória. Alguns desses sintomas foram observados em Maria do Carmo Brito, presa
em 1970 e torturada durante dois meses. Sua mãe, que a acompanhou em sua
militância, revela o seguinte :

No princípio, a vida dela foi muito difícil. Ela tinha pesadelos incríveis, alucinações, sofreu
muito. Um médico no Chile chegou a me dizer que, se ela tivesse perdido uma mão, um dedo,
seria fácil, porque a gente viria o problema, mas não : o que ela perdeu, foram células
cerebrais... isso dificultou muito, em princípio, a vida dela. Felizmente, ela superou tudo isso, e
hoje ela educa muito bem os seus filhos e, sobretudo, ela guarda uma grande coerência de vida.

19 Comportamento semelhante teve Regina Toscano, Militante da Organização


Guerrilheira MR-8. Seu segundo marido conta que, numa noite, a memória de sua
esposa veio à tona « sem freio e sem censura ». Ela leu um romance de Fernando
Gabeira que narrava os acontecimentos da época. Em seguida, enquanto dormia,
balbuciava em convulsão, dizendo : « filho-da-puta, filho-da-puta, filho-da-puta », uma
referência clara aos seus torturadores. Considerando esses casos, conforme explica
Caruth, o indivíduo traumatizado é incapaz de lembrar de todo o conteúdo reprimido,
mesmo quando o psicanalista desenvolve estratégias para ajudá-lo. Por não recordar
que sua experiência é parte do passado, está fadado a repetir o conteúdo reprimido.
Assim, os sonhos o jogam de volta à situação do trauma, com o intuito de fazer com que
ele complete a tarefa ainda não realizada. Conforme a autora, seguindo a teoria
freudiana, o sujeito sonha porque não consegue enfrentar a consciência da morte
quando está em vigília. O sobrevivente, então, é incapaz de ver o horror e estar
acordado ao mesmo tempo.
20 Pelo fato de a vítima ser incapaz de recordar ou atribuir significado a toda a
experiência do passado, o conteúdo reprimido volta a se manifestar em circunstâncias
específicas. Como escrevem Laplanche e Pontalis, « o que permaneceu incompreendido
retorna ; como uma alma penada, não tem repouso até encontrar resolução e
libertação »21. Em Que bom te ver viva, quatro ex-presas dizem ter apresentado tal
comportamento. Estrela Bohadana afirma ter medo de lagartixas. Estas lhe fazem
lembrar os vários insetos utilizados nas práticas de tortura. Criméia de Almeida, por
sua vez, não pode pensar na possibilidade de engravidar. Ela teve um filho na prisão,
então, para ela, é inconcebível uma nova gravidez. Maria do Carmo Brito é capaz de
adoecer com a sua própria imaginação. Ela conta que, certa vez, seu marido e seus
filhos foram tomar banho numa cachoeira e, na ocasião, armou-se uma forte
tempestade. Ela os imaginou sendo atingidos por um raio e, com isso, começou a
vomitar. Com certeza, tais sintomas são sequelas das torturas. Outro caso acometeu
Rosalinda Santa Cruz, que teve um irmão desaparecido em 1974. Sua obsessão por
encontrá-lo deixou feridas profundas nela :

Eu comecei a ver Fernando na rua, a ver em cada rapaz moreno, rapaz daquela idade... eu, às
vezes, seguia pessoas na rua achando que era Fernando, né ?... E, um dia, eu vinha de carro de
Três de Maio, olhei para um ponto de ônibus e havia alguns jovens, né ?, e eu olhei e vi
Fernando, naquele ponto de ônibus, parado... Eu desci do carro correndo e me abracei com o
rapaz, e, quando eu olhei, ele estava olhando para mim, e eu senti o olhar de Fernando, só que
ele não me reconhecia... E eu comecei a chorar abraçada no rapaz numa verdadeira crise de
choro, e eu olhei novamente para o rosto dele e não era Fernando.

21 Essa impossibilidade de reagir, de mudar o mundo, leva os torturados a


desenvolverem um sentimento de culpa, culpa por estarem vivos. Conforme
Seligmann-Silva, « o sobrevivente vive o sentimento paradoxal da culpa da
sobrevivência. [...] A indizibilidade do testemunho ganha com este aspecto um peso
inaudito »22. Muitos sobreviventes desses tipos de horror sentem-se culpados, porque,
para eles estarem vivos, outros precisaram ser mortos. No caso de Rosalinda, cujo
irmão encontra-se desaparecido, ela não consegue entender por que ele se foi e ela não :
« [u]ma das coisas com que eu não me conformava com a morte do Fernando foi o de
eu estar viva, né ?, ter sobrevivido, ter sobrevivido para mim era um peso, ‘por que eu
sobrevivi e ele não ?’« Esse inconformismo fazia com que ela se sentisse humilhada,
destruída, sem autoestima, enfim, melancólica. Afora isso, nesse particular, a ex-presa
reclama da falta do corpo do irmão :

quando a gente perde uma pessoa muito amada, muito querida, [...] a única forma de a gente
aceitar a morte é ter o corpo, é poder enterrar e dizer tenho essa dor que precisa ser superada e
vencida, porque ela é concreta, ela existe. E como não existia o corpo, existia sempre a
esperança de vida.

22 O depoimento ilustra a necessidade e a importância do lugar do corpo quando se está


versando acerca de assuntos relativos aos desaparecidos dos massacres oficiais. Nesse
caso, não se trata de se atribuir a esse corpo uma dimensão abstrata, mas sim concreta.
Os familiares das vítimas são dotados de uma necessidade e de uma convicção de
querer. O seu interesse repousa sobre a exigência de « um túmulo identificável », uma
possibilidade de reconhecimento do ente querido. Enfim, o corpo ganha existência e
reconhecimento no momento em que se tira do desaparecido a sua volatilidade, a sua
distância abstrata e a sua ausência remota23. Enfim, trata-se de recuperar algo perdido,
extraindo-se dele elementos que auxiliem na recomposição de uma memória e de uma
história que denuncie a versão oficial.
23 Considerando-se o que foi dito até então, a pergunta que se faz é a seguinte : qual a
relação que se pode estabelecer entre testemunho, trauma e identidade ? Não se tem
apenas uma resposta a essa indagação. Partindo-se da ideia de identidade individual,
pode-se dizer que, através do testemunho, é possível que a vítima encontre um caminho
para se autoestruturar. Muitas pessoas que sobreviveram a violência nos cárceres
encontram-se desestruturadas emocionalmente. No filme Que bom te ver viva, a
propósito, uma das personagens, Estrela Bohadana, alega : « Eu acho que, para mim, a
maior vitória é essa busca, esse desejo de me reintegrar internamente, juntar os meus
pedacinhos internos ». O testemunho oral, nas devidas condições, culminaria no alívio
da carga traumática. Walter Benjamin24, num pequeno texto intitulado « Conto e
cura », trabalha com a hipótese de que a narração formaria o clima propício e a
condição mais favorável de muitas curas. Claude Lévi-Strauss25 desenvolve argumento
similar. Para o antropólogo, se o ouvinte propiciar circunstâncias favoráveis para o
relato de seu paciente, este passa a simbolizar a sua dor e a integrá-la num sistema
conhecido, algo que resultaria na cura ou no alívio dessa dor. Hayden White26, por sua
vez, chama a atenção para a necessidade de a vítima « retramar » o seu discurso.
Devido ao excesso de real que acometeu o traumatizado, este « supertramou » o seu
discurso e não consegue se desprender dele. Logo, o relato – no caso, o testemunho –
seria um meio através do qual a vítima procuraria reestabelecer a sua identidade
distorcida e fragmentada. Como complementa Pollak, « [a]través desse trabalho de
reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar e suas relações com os
outros »27.
24 Essa mesma ordem de argumentos serviria para se avaliar a identidade de um grupo
ou de uma geração que atravessou um período truculento da história nacional. A
exemplo das oito mulheres que participaram do filme de Lúcia Murat, outras vítimas se
agregariam a elas e a muitos outros no intuito de solidarizarem suas aflições e seus
medos no intuito de superar seus traumas. Isso porque a experiência compartilhada da
dor opera a passagem do trauma interno individual para a experiência coletiva. Nesse
caso, os familiares das vítimas e mesmo seus entes mais próximos teriam uma
compreensão maior do ocorrido, assumindo uma postura mais ética e compreensiva
para com aqueles à sua volta. Assim, se houver uma aderência maior entre não-vítimas
e vítimas, essas últimas não sofreriam tanto diante da ausência de interlocutores de
modo que, por um lado, se sentiriam mais seguras, algo que contribuiria na firmação de
sua identidade pessoal, por outro, mobilizariam a sociedade para andar junto delas, o
que, de certa forma, moldaria a identidade de um grupo. Ou seja, não se teria mais um
grupo dividido, mas uma geração coesa e consciente da necessidade de encontrar um
ponto de equilíbrio entre o passado e o presente.
25 Por fim, se se pensar em identidade nacional – e esta é uma questão de maior
complexidade –, convém levar em conta que os testemunhos são chaves para se avaliar
uma outra história, a história não-oficial, a história dos marginalizados, dos excluídos e
dos perseguidos. Como reforça Pollak, « [e]ssas características de todas as histórias de
vida sugerem que estas últimas devem ser consideradas como instrumento de
reconstrução da identidade, e não apenas como relatos factuais »28. Ou seja, a
experiência comum de sofrimento cria um sentido de solidariedade entre vítimas,
impulsionando na mobilização de ações políticas e sociais. Nesse caso, a sociedade
reclamaria por justiça, exigiria o sepultamento dos corpos de seus familiares
desaparecidos, condenaria os culpados, e impediria o avanço do autoritarismo ainda
presente nas estruturas da sociedade brasileira. Entretanto, tudo isso só é possível se
houver um trabalho de reconstrução de lembranças, pois toda identidade e memória
social passam pelo relacionamento com os antepassados. Dito em outros termos, se não
se der a devida importância para os testemunhos, para as vítimas, para os excluídos,
enfim, se a história destes grupos marginalizados não for confrontada com a história
oficial, perpetuará um país caracterizado pelo uma identidade autoritária.
Bibliographie
Filmografia
Ano em que meus pais saíram de férias, O. Direção de Cao Hamburger. Brasil, Buena Vista
International Distribuidora, 110 min., son., color., drama, 2006.
Araguaya : a conspiração do silêncio. Direção de Ronaldo Duque. Brasil, Paris Filmes
Distribuidora, 105 min., son., color., drama, 2004.
Batismo de sangue. Direção de Helvécio Ratton. Brasil, Downtown Filmes Distribuidora, 110
min., son., color., drama, 2007.
Bom te ver viva, Que. Direção de Lúcia Murat. Brasil, Embrafilme Distribuidora, 100 min.,
son., color., semidocumentário, 1989.
Cabra cega. Direção de Tony Venturi. Brasil, Europra Filmes Distribuidora, 107 min., son.,
color., drama, 2005.
Zuzu Angel. Direção de Sergio Rezende. Brasil, Warner Bros. Distribuidora, 110 min., son.,
color., drama, 2006.
Bibliografia
Benjamin, Walter. Conto e cura. In : Benjamin, Walter. Rua de mão única. Trad. Rubens
Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo : Brasiliense, 1987. vol. II.
Braunstein, Néstor. Sobrevivendo ao trauma. Trad. Marylink Kupferberg. s. d. Disponível em
< http : //nestorbraunstein.com/escritos/index>. Acesso em : 21. out. 2010.
Caruth, Cathy (Ed.). Trauma : Explorations in Memory. Baltimore : Johns Hopkins University
Press, 1995.
Caruth, Cathy. Modalidades do despertar traumático (Freud, Lacan e a ética da memória). In :
Nestrovski, Arthur ; Seligmann-SILVA, Márcio (Orgs.). Catástrofe e representação. São
Paulo : Escuta, 2000.
Felman, Shoshana. Educação e crise ou as vicissitudes do ensinar. In : Nestrovski, Arthur ;
Seligmann-Silva, Márcio (Orgs.). Catástrofe e representação. São Paulo : Escuta, 2000.
Ferraz, Joana D’Arc. A memória insone : os testemunhos sobre a ditatura brasileira. In :
Vários. Os deserdados : dimensões das desigualdades sociais. Rio de Janeiro : LEDDES-UERJ,
2007.
Freud, Sigmund. Além do princípio de prazer. In : Freud, Sigmund. Obras psicológicas
completas. Trad. Jayme Salomão e Christiano M. Oiticica. Rio de Janeiro : Imago, 1976.
vol. XVIII.
Ginzburg, Jaime. Memória da ditadura em Caio Fernando Abreu e Luís Fenando Verissimo. O
Eixo e a Roda, Minas Gerais, v. 15, p. 43-54, 2007.
Hobsbawm, Eric. A era dos extremos : o breve século XX (1914-1991). Trad. Marcos Santarrita.
2. ed. São Paulo : Companhia das Letras, 1995.
Laub, Dori. Bearing Witness, or the Vicissitudes of Listening. In : Laub, Dori ; Felman,
Shoshana. Testemony : Crises of Witnessing in Literature, Psychoanalysis and History. New
York / London : Routledge, 1992.
Lévi-Strauss, Claude. A eficácia simbólica. In : Lévi-Strauss, Claude. Antropologia estrutural.
Trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. 6. ed. Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, 2003.
Pollak, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n.
3, p. 3-15, 1989.
Seligmann-Silva, Márcio. Narrar o trauma : a questão dos testemunhos de catástrofes
históricas. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 20, n. 1, p. 65-82, 2008.
DOI : 10.1590/S0103-56652008000100005
Seligmann-Silva, Márcio. O local da cultura : ensaios sobre memória, arte, literatura e
tradução. São Paulo : Ed. 34, 2005.
Weisel, Elie. Dimensions of the Holocaust. Evanton : Northwestern University Press, 1977.
White, Hayden. O texto histórico como artefato literário. In : White, Hayden. Trópicos do
discurso : ensaios sobre a crítica da cultura. Trad. Alípio Correia de França Neto. São Paulo :
Edusp, 1994.

Notes
1 Weisel, Elie. Dimensions of the Holocaust. Evanton: Northwesthern University Press, 1977.
p. 9.
2 Hobsbawm, Eric. A era dos extremos : o breve século XX (1914-1991). Trad. Marcos
Santarrita. 2. ed. São Paulo : Companhia das Letras, 1955.
3 Caruth, Cathy (Ed.). Trauma: Explorations in Memory. Baltimore: Johns Hopkins
University Press, 1995.
4 Laub, Dori. Bearing Witness, or the Vicissitudes of Listening. In : Laub, Dori ; Felman,
Shoshana. Testemony: Crises of Witnessing in Literature, Psychoanalysis and History. New
York / London: Routledge, 1992.
5 Ferraz, Joana D’Arc. A memória insone : os testemunhos sobre a ditadura brasileira. In :
Vários. Os deserdados : dimensões das desigualdades sociais. Rio de Janeiro : LEDDES-UERJ,
2007.
6 Seligmann-Silva, Márcio. O local da cultura : ensaios sobre memória, arte, literatura e
tradução. São Paulo : Ed. 34, p. 2005. p. 69.
7 Seligmann-Silva, Márcio. Narrar o trauma : a questão dos testemunhos de catástrofes
históricas. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 20, n. 1, p. 65-82, 2008. p. 66.
8 Id., Ibid., p. 67.
9 Id., Ibid., p. 71.
10 Id., Ibid., p. 71.
11 Id., Ibid., p. 74.
12 Pollak, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2,
n. 3, p. 3-15, 1989. p. 12.
13 Freud, Sigmund. Além do princípio de prazer. In : Freud, Sigmund. Obras psicológicas
completas. v. XVIII. Trad. Jayme Salomão e Christiano M. Oiticica. Rio de Janeiro : Imago,
1976. p. 45.
14 Seligmann-Silva, Márcio. Narrar o trauma : a questão dos testemunhos de catástrofes
históricas. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 20, n. 1, p. 65-82, 2008. p. 69.
15 Braunstein, Néstor. Sobrevivendo ao trauma. Trad. Marylink Kupferberg. s. d. Disponível
em <http : //nestorbraunstein.com/escritos/index>. Acesso em : 21. out. 2010.
16 Id., Ibid., s. d.
17 Pollak, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2,
n. 3, p. 3-15, 1989. p. 5.
18 Id., Ibid., p. 6.
19 Felman, Shoshana. Educação e crise ou as vicissitudes do ensinar. In : Nestrovski, Arthur ;
Seligmann-Silva, Márcio (Orgs.). Catástrofe e representação. São Paulo : Escuta, 2000. p. 15.
20 Caruth, Cathy. Modalidades do despertar traumático (Freud, Lacan e a ética da memória).
In : Nestrovski, Arthur ; Seligmann-Silva, Márcio (Orgs.). Catástrofe e representação. São
Paulo : Escuta, 2000. p. 111.
21 Apud Seligmann-Silva, Márcio. O local da cultura : ensaios sobre memória, arte, literatura
e tradução. São Paulo : Ed. 34, 2005. p. 73.
22 Seligmann-Silva, Márcio. Narrar o trauma : a questão dos testemunhos de catástrofes
históricas. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 20, n. 1, p. 65-82, 2008. p. 75.
23 cf. Ginzburg, Jaime. Memória da ditadura em Caio Fernando Abreu e Luís Fenando
Verissimo. O Eixo e a Roda, Minas Gerais, v. 15, p. 43-54, 2007. p. 49.
24 Benjamin, Walter. Conto e cura. In : Benjamin, Walter. Rua de mão única. Trad. Rubens
Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo : Brasiliense, 1987. vol. II. p. 269.
25 Lévi-Strauss, Claude. A eficácia simbólica. In : Lévi-Strauss, Claude. Antropologia
estrutural. Trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. 6. ed. Rio de Janeiro : Tempo
Brasileiro, 2003.
26 White, Hayden. O texto histórico como artefato literário. In : White, Hayden. Trópicos do
discurso : ensaios sobre a crítica da cultura. Trad. Alípio Correia de França Neto. São Paulo :
Edusp, 1994.
27 Pollak, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2,
n. 3, p. 3-15, 1989. p. 14.
28 Id., Ibid., p. 14.
Pour citer cet article
Référence électronique
Lizandro Carlos Calegari, « Testemunho, trauma e identidade em Que bom te ver viva, de
Lúcia Murat », Amerika [En ligne], 8 | 2013, mis en ligne le 10 juillet 2013, consulté le 23
novembre 2017. URL : http://amerika.revues.org/4054 ; DOI : 10.4000/amerika.4054

Auteur
Lizandro Carlos Calegari
Doutor em Letras.
Professor da Graduação e do Mestrado em Literatura Comparada da Universidade Regional
Integrada do Alto Uruguai e das Missões, campus de Frederico Westphalen (URI-FW), RS,
Brasil.
lizandro.calegari@yahoo.com.br

Droits d’auteur
© Tous droits réservés

Interesses relacionados