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textos homenagem

Nelson
Rodrigues
e o mito
do futebol
Luiz Zanin

A
contece algo curio- Da mesma forma, sabemos quando se trata
so em relação à de uma contrafação. Nelson é inimitável.
obra de ref lexão Nesse estilo, predomina uma figura de
futebolística de linguagem, a hipérbole, que em qualquer
Nelson Rodrigues. outro autor pareceria ridículo, mas, em Nel-
Primeiro, ele é o son, soa de forma magnífica. Como acordes
nosso patrono, de sinfônicos. Assim, Nelson não diz que a
todos nós, que tentamos escrever sobre fu- derrota do Brasil para o Uruguai na Copa
tebol no Brasil. Mas, apesar de ser nosso de 1950 foi terrível, porque soaria fraco. Ele
patrono, ou seja, aquele que estilisticamente diz que a derrota foi uma tragédia pior que
mais bem se expressou, e com mais pro- Canudos. Mais: foi a nossa Hiroshima. Le-
fundidade, não podemos nos dar ao luxo de mos essas frases e elas produzem um efeito
imitá-lo. Sob pena de cairmos no ridículo. cômico, pelo destempero. Mas também nos
Por outro lado, não podemos nos furtar à encantam por seu sabor. E pela verdade que
sua influência. Ou seja, Nelson nos coloca entrevemos em meio a um exagero que tem
numa saia justa permanente. Não pode- função expressiva. Além das hipérboles,
mos segui-lo de maneira cega e nem po- marcam o estilo de Nelson o uso inesperado
demos fazer de conta que não existiu. Ele de adjetivos (deslocamento próximo ao da
pode (e deve) ser fonte de inspiração, mas função poética) e o ar mítico, transcendente,
LUIZ ZANIN nunca devemos mimetizá-lo. Isso em fun- que envolve seus relatos, tirando-os assim do
é colunista e crítico
de cinema do jornal ção de uma “assinatura” reconhecidamente ramerrão referencial e pedestre da crônica
O Estado de S. Paulo forte, isto é, um estilo que se reconhece de esportiva e colocando-os em patamar supe-
e autor de, entre
outros, Fome pronto, lendo-se poucas frases. Sabemos de rior. Por isso esses textos nos conduzem, a
de Bola – Cinema
e Futebol no Brasil cara que é Nelson, mesmo que eventual- nós que não vivenciamos o trauma, para o
(Imprensa Oficial). mente não conheçamos o texto em questão. centro da tragédia que foi a perda da copa

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Alexandre Camanho

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realizada no Brasil. Para além do estilo (mas cional que nada, absolutamente nada, pode
ele está sempre lá), a derrota para o Uruguai curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos
fornece a Nelson a matriz através da qual digo: menos a dor de cotovelo que nos ficou
ele usará o futebol como mediação para dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão
compreender o país e o homem brasileiro. pequeno possa causar uma dor tão grande. O
Suas crônicas sobre 1950 generalizam tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-
para o homem brasileiro o que teria acon- -ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos
tecido naquela célebre partida. Recordemos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título.
os fatos. O Brasil precisava apenas de um Eu disse ‘arrancou’ como poderia dizer: –
empate para se sagrar campeão. Todos já ‘extraiu’ de nós o título como se fosse um
o davam como vencedor, por antecipação. dente”. Mais adiante: “E, hoje, se negamos
Num Maracanã lotado (fala-se em mais de o escrete de 58, não tenhamos dúvida: – é
200 mil pessoas), a seleção marcou o primei- ainda a frustração de 50 que funciona. Gos-
ro gol, mas sofreu o empate e, por fim, o gol taríamos talvez de acreditar na seleção. Mas
de Gigghia, que deu o título aos uruguaios. o que nos trava é o seguinte: – o pânico de
Nesse jogo cercado de mitos, existe um uma nova e irremediável desilusão”.
nunca comprovado – o tapa que o uruguaio A crônica data de maio de 1958, pouco
Obdulio Varella teria dado no brasileiro Bi- tempo antes de o Brasil embarcar para a Sué-
gode, deixando-o desmoralizado para o resto cia em busca daquela que seria a sua primei-
do jogo. Alguns falam apenas em ameaça de ra conquista de uma copa. Desacreditada, a
tapa, um mero gesto de agressão. Intimida- seleção saiu do país debaixo de vaias.
do, Bigode, que era o marcador de Gigghia, Nelson tinha um pressuposto – o futebol
deixou-o penetrar na defesa brasileira e dis- brasileiro seria o melhor do mundo e vence-
parar no canto esquerdo baixo do goleiro ria sempre que o complexo de vira-latas não
Barbosa – o outro bode expiatório da derrota. prejudicasse seu desempenho. Nacionalista,
Ambos negros, aliás. traçava um raciocínio pendular entre o fute-
Esse título perdido foi (e talvez ainda bol e a nação brasileira como um todo. Papel
seja, em parte) objeto de ruminação inces- especial nessa equação, a seleção brasileira
sante. Vários livros foram escritos sobre o que ele, em expressão tornada lugar-comum,
tema, entre eles o clássico Anatomia de uma batizou de “a pátria de chuteiras”. A seleção
Derrota, de Paulo Perdigão, e Dossiê 50, de seria a imagem do país em campo. Leva-
Geneton Moraes Neto, tentando interpretar ria para o gramado as nossas virtudes e os
a derrota que veio no lugar da vitória dada nossos defeitos. A nossa inventividade, mas,
como certa. Nelson não escreveu livro a também, o tão temido “complexo”.
respeito. Mas abordou o jogo em inúmeras Essa formação sociopsíquica, digamos
crônicas. Mesmo porque essa partida seria assim, se deveria mais à nossa formação
expressão suprema de um dos seus conceitos de caráter do que a influências externas.
mais famosos – o complexo de vira-latas do Desse modo, o próprio brasileiro seria o
brasileiro. Seu sentimento de inferioridade responsável último por suas inibições. E
e a humildade reverencial diante dos estran- vencer essas inibições estaria perfeitamen-
geiros, seres que ele considera superiores. te ao seu alcance. Dependia apenas de ele
Na crônica que tem exatamente esse tí- deixar de ser esse “Narciso às avessas, que
tulo, “Complexo de Vira-latas” (Manchete cospe em sua própria imagem”. Daí que as
Esportiva, 31/5/1958), Nelson escreve: “Eis Copas do Mundo se transformassem em
a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso campos de batalha simbólicos, nos quais,
futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. de quatro em quatro anos, se decidia uma
A derrota frente aos uruguaios, na última ba- questão nacional a ser formulada da seguin-
talha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, te maneira: como nos colocamos diante do
qualquer brasileiro. Foi uma humilhação na- mundo? Somos uma nação original e pode-

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rosa, ou uns vira-latas complexados, sem União Soviética. Jogo emblemático, pois se
qualquer contribuição a dar à humanidade? temia o “futebol científico” da antiga URSS,
Duas observações podem ser feitas a esse considerado imbatível. “Amigos: a desinte-
respeito: gração da defesa russa começou exatamen-
te na primeira vez em que Garrincha tocou
1) O ritual das copas, com seus hinos, ban- na bola. Eu imagino o espanto imenso dos
deiras, etc., autoriza essa leitura nacionalista russos diante desse garoto de pernas tortas,
dos jogos. As partidas, e a disputa em si, se- que vinha subverter todas as concepções do
riam embates bélicos sublimados no campo futebol europeu. Como marcar o imarcável?
lúdico. Um jogo não é apenas um jogo, mas Como apalpar o impalpável? Na sua indig-
uma luta entre duas identidades nacionais. nação impotente, o adversário olhava Gar-
Uma seleção forte expressaria uma nação rincha, as pernas tortas de Garrincha e con-
forte, mas, dialeticamente, uma seleção ven- cluía: – ‘isso não existe’”. À ciência aplicada
cedora tornaria ainda mais forte a nação que ao esporte, ao método implacável atribuído
representa. Daí a concepção embutida nas ao selecionado soviético, o Brasil respondia,
crônicas de Nelson do poder transformador na figura do seu ponta-direita genial, com as
do futebol. Uma vitória na Copa poderia nos forças da intuição, da magia, da invenção.
levantar dos porões do mundo subdesenvol- Em outro jogo, Brasil 1 x 0 País de Gales,
vido e levar-nos ao destino de grandeza que o personagem é outro. Pelé, o garoto de 17
seria o nosso. anos, que marca o gol da vitória em joga-
2) A busca do estilo futebolístico autentica- da genial. “Como esquecer que foi Pelé, um
mente brasileiro pode ser entendida não ape- garoto de cor, dos seus 17 anos, quem nos
nas como uma fixação de Nelson Rodrigues, arrancou, ontem, de nossa agonia e nossa
mas como desdobramento de uma série de morte?… E o bonito é que esse menino não
ideias presentes em nossa cultura pelo menos se abala, nem se entrega. Possui a sanidade
desde o modernismo. São teses recorrentes, mental de um Garrincha. Ao contrário do
que vêm desde a antropofagia oswaldiana, brasileiro em geral, suscetível de se apavo-
passando pelas ideias mais recentes da for- rar em face dos títulos do inimigo, ele não
mação da literatura brasileira, de Antonio acredita em nada. Ninguém é melhor do
Candido, e do cinema nacional, de Paulo que ele. Tivesse jogado contra a Inglaterra e
Emilio Salles Gomes. A ideia de que temos creiam: – havia de driblar até a rainha Vitó-
uma cultura a construir. ria” (Manchete Esportiva, 24/6/1958).
Por fim, a crônica que fala da vitória do
Desse modo, o futebol expressaria e fa- Brasil sobre a Suécia, por 5 a 2, na parti-
ria parte desse esforço de formação de uma da final, não poderia ter outro título senão
identidade nacional. A sua vitalidade interna este: “O Triunfo do Homem”. Esse homem é
e a dos nossos campeonatos, em particular a Didi, considerado o melhor jogador da Copa
do Campeonato Carioca, que Nelson acom- e comandante da vitória sobre os donos da
panhava de perto, já atestavam a originalida- casa. “Quando o rei Gustavo da Suécia veio
de e a força dessa modalidade cultural que apertar-lhe a mão, eu imaginei ao ouvir no
é o futebol. Bastava comprovar esse poderio rádio a descrição da cena: – dois reis! Pois
no cenário internacional, até como forma de Didi, como sempre tenho dito aqui, lembra
exorcizar o trauma que fora perder uma copa um rei ou príncipe etíope de rancho”.
dentro do próprio país. Na crônica seguinte (Manchete Esporti-
Por isso, a Copa de 1958, na Suécia, tem va, 12/7/1958) o título triunfante: “É Chato
valor estratégico para Nelson. E ele a acom- Ser Brasileiro!”. Numa de suas hipérboles
panha, jogo a jogo, em suas colunas. Em “A costumeiras, Nelson garante que o título
Descoberta de Garrincha” (Manchete Espor- mundial havia até curado um dos maiores
tiva, 21/6/1958) fala do célebre Brasil 2 x 0 males do país, o analfabetismo. “A partir do

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momento em que o rei Gustavo da Suécia trumentalização militar da façanha da sele-


veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, ção pôde ser observada aqui mesmo, no Bra-
todo mundo aqui sofreu uma alfabetização sil, durante a ditadura. Em especial, ao longo
súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se da Copa de 1970, acompanhada com atenção
escreve com ‘x’ iam ler a vitória no jornal”. pelo general Médici, torcedor do Grêmio e da
E, adiante: “Já ninguém tem mais vergonha seleção. Sua imagem, com o radinho de pilha
de sua condição nacional. E as moças, na rua, colado ao ouvido, foi espertamente divulgada
as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais, pela assessoria de comunicação como forma
andam pelas calçadas com um charme de de mostrar a ligação do bom general com
Joana D’Arc. O povo já não se julga mais um as preferências populares. Enquanto isso,
vira-latas. Sim, amigos: – o brasileiro tem de a tortura grassava nos porões do regime.
si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na Mas a verdade é que, mesmo nos governos
generosa totalidade de suas imensas virtudes democráticos, jamais uma seleção brasileira
pessoais e humanas”. vitoriosa deixou de ser recebida pelo ocupante
Houve cobertura semelhante por ocasião da Presidência da República. Já que o futebol
da Copa do Chile, na qual o Brasil conse- é visto como fator de aglutinação nacional,
guiu o bicampeonato. Cabe um registro da convém cortejá-lo em suas horas melhores.
crônica comemorativa: “Eis a verdade: – a Assim, em 2002, alguém que jamais bateu
Rússia e os Estados Unidos começaram a ser um escanteio, o sociólogo Fernando Henrique
o passado. Foi a vitória do escrete e mais: – Cardoso, recebeu no Planalto a equipe vito-
foi a vitória do homem brasileiro, ele sim, o riosa na Coreia e no Japão e teve de rir (ama-
maior homem do mundo. Hoje o Brasil tem relo) diante das cambalhotas que o volante
a potencialidade criadora de uma nação de Vampeta resolveu dar na rampa do palácio.
napoleões” (O Globo, 18/6/1962). Nelson, apesar do otimismo incurável,
Por risível que nos pareça nacionalismo reconhecia que as conquistas contra o com-
tão exacerbado, ele tem o mérito de desven- plexo de inferioridade eram provisórias, e
dar a visão de mundo de Nelson Rodrigues: teriam de ser renovadas em vitórias suces-
através da vitória nesse campo simbólico es- sivas. Caso contrário, sempre haveria o pe-
pecífico, que é o do futebol, a nação inteira rigo de uma recaída. Foi assim em 1966, na
poderia se afirmar no concerto internacional. copa perdida na Inglaterra, quando o Brasil
Tinha o futebol, em sua versão maior, a do es- já era bicampeão. Às crônicas ufanistas nas
crete, esse poder regenerador, capaz de curar vitórias, seguiu-se o luto fechado na derrota.
as mazelas ancestrais do complexo de infe- Antes, na vitória sobre a Bulgária, Nelson
rioridade e abrir o caminho para um destino afirmara que “até o espectro diáfano de Ma-
pressentido como gigantesco pelo cronista. ria Stuart” assistira ao magnífico desempe-
Esse pedestal em que o futebol é coloca- nho de Pelé. Mas, depois da desclassificação
do não é bem uma idiossincrasia de Nelson diante de Portugal, veio a crônica intitulada
Rodrigues. Através dos tempos, podemos “A Vergonha”. “Amigos, eis 80 milhões de
comprovar a importância simbólica dos es- brasileiros numa humilhação feroz. Eu diria
portes, traço que aparece com maior nitidez que a vergonha de 50 foi mais amena, mais
em regimes autoritários. Assim, Benito Mus- cordial. Naquela ocasião, não tínhamos o bi-
solini conclamava a Squadra Azzurra, na campeonato. Ainda não se instalara em nos-
Copa de 1938, a “Vincere o morire” (“Ven- so futebol o mito Pelé. Ah, o brasileiro de 50
cer ou morrer”). Hitler atribuiu importância era um humilde de babar na gravata. Quando
aos jogos olímpicos realizados na Alemanha passava a carrocinha de cachorro, cada um
em 1936, justamente quando foi humilhado de nós tinha medo de ser laçado também”.
pelo desempenho magnífico do negro Jesse Para sorte de Nelson (e nossa também)
Owens, na olimpíada que deveria ser a da ele pôde assistir a mais uma conquista, tal-
consagração da superioridade ariana. A ins- vez a mais bela e definitiva, a da Copa do

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México, em 1970. Na crônica que se seguiu O que não quer dizer que deixe de haver al-
à vitória de 4 a 1 sobre a Itália, e que signi- guma coisa de concentradamente brasileiro
ficou a posse definitiva da Taça Jules Rimet, no jogo de Domingos como existe alguma
escreveu: “Amigos, foi a mais bela vitória do coisa de concentradamente brasileiro na li-
futebol em todos os tempos… Desde o Pa- teratura de Machado” (Freyre, 2003, p. 25).
raíso jamais houve um futebol como o nos-
so”. E, na frase final: “Graças a esse escrete, Há, então, em Nelson, o desejo de en-
o brasileiro não tem mais vergonha de ser contrar a essência nacional em nosso es-
patriota. Somos 90 milhões de brasileiros, porte mais popular que, segundo ele, seria
de esporas e penacho, como os Dragões de praticado no Brasil da forma mais original
Pedro Américo”. e, evidentemente, mais bela e criativa. Mas é
Maravilhoso. Mas toda conquista, por também uma, digamos assim, essência idea-
mais épica, é provisória porque existe uma lizada e que, por milagre, poderia operar a
labilidade essencial no temperamento brasi- generalização do estilo praticado em campo
leiro. Ora ele é o melhor do mundo, ora não para o modo de ser de toda uma nação. Como
vale nada. Há algo de datado em alguns des- se, através do futebol, o homem brasileiro
ses textos, mas de profundamente enraizado pudesse encontrar-se consigo mesmo. Com o
na cultura da época, em especial na busca melhor de si. O futebol é quase um projeto ci-
essencialista do caráter nacional. Remontam, vilizatório, embora nunca se apresente como
de forma alusiva e talvez mesmo inconscien- inteiriço, ou ingênuo, como se poderia pensar.
te, às tentativas de interpretação do homem Se, como vimos, o complexo de vira-latas
brasileiro presentes no pensamento socio- recua ou mesmo desaparece nas vitórias, e
lógico dos anos 1930 e origem de clássicos ressurge como espectro nas derrotas, nem
como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de mesmo essa outra idealização, que é o povo
Holanda, e Casa Grande & Senzala, de Gil- brasileiro, aparece como um todo homogê-
berto Freyre. No campo específico do fute- neo. Talvez apenas o “escrete” possa unir, e
bol, Freyre escreveu um célebre prefácio a O ainda assim por tempo determinado, pessoas
Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, tão extravagantemente diversas. Todos os ti-
irmão de Nelson Rodrigues. Há esse parágra- pos, ou protótipos, criados por Nelson, talvez
fo clássico, nesse livro, igualmente clássico, pudessem se juntar num fugaz momento de
que teve sua primeira edição em 1947: glória da seleção. Da estudante de psicolo-
gia da PUC à grã-fina de narinas de cadáver.
“O desenvolvimento do futebol, não num es- Da freira de passeata ao amigo imaginário
porte igual aos outros, mas numa verdadeira de Nelson, que só toma vinhos estrangeiros.
instituição brasileira, tornou possível a subli- Todos, nessa contrição devida ao escrete, se
mação de vários daqueles elementos irracio- tornam, ainda que fugazmente, brasileiros
nais de nossa formação social e de cultura. A “da cabeça aos sapatos”. Até mesmo a grã-
capoeiragem e o samba, por exemplo, estão -fina das narinas de cadáver, aquela que, ao
presentes de tal forma no estilo brasileiro de chegar ao estádio, pergunta quem é a bola,
jogar futebol que de um jogador um tanto até ela se entrega ao encanto de um gol de
álgido como Domingos (da Guia), admirável Jairzinho: “E a alma da rua voou pelos ares.
no seu modo de jogar mas quase sem floreios – Eu via a grã-fina das narinas de cadáver cair
os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – de joelhos, no meio da rua, e estrebuchar
um crítico da argúcia de Mário Filho pode como uma víbora agonizante”.
dizer que ele está para o nosso futebol como Entre as copas, seu laboratório privilegia-
Machado de Assis para a nossa literatura, isto do para a psicologia do brasileiro e as ques-
é, na situação de inglês desgarrado entre tro- tões de identidade nacional, Nelson Rodri-
picais. Em moderna linguagem sociológica, gues se ocupava dos clubes. Em especial do
na situação de um apolíneo entre dionisíacos. Campeonato Carioca e seus clubes, e do seu

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amado Fluminense. Ocasionalmente, Nelson forte da torcida. O objeto maior, claro, era o
falava de outros clubes do Brasil, em especial seu Fluminense: “O Fluminense nasceu com
do Santos Futebol Clube, o time da moda a vocação da eternidade. Tudo pode passar,
no início dos anos 60. Chegou a dedicar-lhe só o Tricolor não passará, jamais”. E tratava
uma crônica intitulada “O Mais Carioca dos do seu grande rival, o Flamengo, em termos
Times”. Nela, sustentava que apenas a fata- complementares: “Há um parentesco óbvio
lidade fizera a equipe de Pelé nascer na Vila entre o Flu e o Fla. E como este se gerou
Belmiro. Seu lugar seria o Rio e, seu hábitat, no ressentimento, eu disse que os dois são
o Maracanã. Numa época em que o time da os irmãos Karamazov do futebol brasileiro”.
Vila andara perdendo de todo mundo, Nelson Criava personagens para explicar os aca-
soltara o diagnóstico: era excesso de viagens. sos e sua influência no desfecho dos jogos.
O time desambientara-se do Brasil e perdera O Sobrenatural de Almeida era expressão
seu elã. Recomendava-lhe como terapia uma desse impalpável, que derrota os analistas
temporada jogando no Rio. Exclusivamente de táticas e estratégias. Tudo pode ir água
no Maracanã. abaixo num erro crasso de zagueiro, ou no
Nelson dedica ainda uma crônica ma- morrinho artilheiro que engana o goleiro.
ravilhosa a Pelé, que se tornaria, depois da O contrário era o Gravatinha, que salvava o
conquista da seleção em 1958, um persona- Fluminense das situações mais dramáticas
gem nacional (e mundial) e habitué de seus e inverossímeis. O homem de teatro criava
textos (o do milésimo gol é de antologia). assim uma dramaturgia do jogo, em que,
Chamava-o de “o divino crioulo”, epíteto que além dos personagens principais e secundá-
hoje talvez não fosse possível. “A Realeza de rios reais (jogadores, juízes, torcidas), havia
Pelé” (Manchete Esportiva, 8/3/1958) foi es- esses fantasmas que erram pelos estádios e
crita quando o jogador era apenas uma jovem transformam partidas previsíveis em desfe-
promessa. Nelson já lhe adivinha o destino. chos improváveis.
Dizia que a realeza do garoto era, antes de Existe um trecho de crônica que, ao meu
tudo, um “estado de alma”. “Quando ele apa- ver, define de modo sucinto a maneira como
nha a bola, e dribla um adversário, é como Nelson via o futebol. Chama-se “O Divino
quem enxota, quem escorraça um plebeu ig- Delinquente” e é dedicada a Almir Pernam-
naro e piolhento. E o meu personagem tem buquinho, que substituiu Pelé, contundido, na
uma tal sensação de superioridade que não partida Santos 1 x 0 Milan, no Maracanã,
faz cerimônias. Já lhe perguntaram – ‘quem que valeu ao time da Vila Belmiro o bicam-
é o maior meia do mundo’. Ele responde, com peonato mundial de clubes. Em sua nota de
a ênfase das certezas eternas: – ‘Eu’. Insisti- rodapé explicativa, Ruy Castro, organizador
ram: – ‘Qual é o maior ponta do mundo?’. E das crônicas de Nelson Rodrigues (1993), es-
Pelé: – ‘Eu’.” Essa autoconfiança, de um rei clarece: “Almir acertou Amarildo no primei-
ainda nos cueiros, não deixava de impres- ro minuto de jogo, tirou de campo o goleiro
sionar o cronista para quem a falta dessa Balzarini e cavou o pênalti, cobrado por Dal-
qualidade seria o principal fator inibitório mo, que tornaria o Santos bicampeão mun-
do brasileiro. dial de clubes”. Na crônica, Nelson filosofa
Nelson louvava os craques como Pelé, sobre a violência em campo (“Como vamos
Garrincha, Nilton Santos, Castilho, Almir exigir, de um jogo de futebol, a cerimônia, a
Pernambuquinho, técnicos como Yustrich e polidez, a correção de uma sessão da Câmara
João Saldanha, e até dirigentes, como Car- dos Comuns?”).
lito Rocha, do Botafogo. Vários deles foram Mas o melhor vem depois: “Se o jogo fos-
“personagens da semana”, mote de sua colu- se só a bola, está certo. Mas há o ser humano
na durante anos. Nelson via o futebol em seus por trás da bola, e digo mais: – a bola é um
protagonistas e, nos clubes, a encarnação do reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que
amor, da paixão pela camisa, este que é ponto procuramos no futebol é o drama, é a tragé-

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dia, é o horror, é a compaixão. E o lindo, o 1912 e 1980, escreveu sobre futebol pratica-
sublime na vitória do Santos é que atrás dela mente durante toda a vida adulta. Em O Pro-
há o homem brasileiro, com o seu peito largo, feta Tricolor (Rodrigues, 2002), a primeira
lustroso, homérico” (O Globo, 19/11/1963). crônica data de 1929. A última, de dezembro
Como nota Marcelino Rodrigues da Silva de 1980, com Nelson praticamente à morte,
(1998) em O Mundo do Futebol nas Crôni- ditando a coluna para que seu filho, Nelsi-
cas de Nelson Rodrigues, nho, batesse à máquina. Era uma crônica
sobre o Fluminense campeão e saiu em O
“Esse trecho é uma alusão à teoria clássica do Globo, 2/12/1980. Nelson morreu no dia 21
drama, estabelecida por Aristóteles na Poéti- do mesmo mês.
ca, segundo a qual a tragédia tem por fim sus- Mas essa longa trajetória em convívio
citar o ‘terror’ e a ‘piedade’, levando à puri- com o futebol não nos deve fazer esquecer
ficação dessas emoções pela catarse. Através que o Nelson cronista teve a sorte de pegar a
dessa relação com o drama, Nelson projeta época de ouro desse esporte entre nós. Desde
no futebol uma dimensão de representação: a Copa de 1938, com as atuações de Leônidas
o futebol é um teatro no qual se encena o da Silva e Domingos da Guia, já se tinha a im-
destino trágico ou épico do homem; as ações pressão de que no Brasil se praticava o melhor
dos atores da cena futebolística valem pelas futebol do mundo. Faltava-lhe o título máxi-
ações de outros agentes; a vitória do San- mo, o batismo internacional de uma Copa
tos vale pela vitória do homem brasileiro”. do Mundo, torneio que começara em 1930.
Em 1950, o Brasil organiza a Copa em casa e
Vendo o futebol no plano da dramaturgia prepara-se para vencê-la. Mas há a tragédia
clássica, não admira que o estilo de Nelson da derrota para o Uruguai, no Maracanã, com
seja virtualmente inimitável. Ele mobiliza todas as suas ressonâncias míticas. Essa der-
recursos linguísticos adequados a colocar o rota é como uma morte, e a morte pode ser
jogo num patamar mítico, como se as dispu- um ato fundador e um reinício. A partir dela,
tas fossem decididas não num prosaico está- nasce o moderno futebol brasileiro, e Nelson
dio de futebol, mas numa antiga arena grega. o acompanha com atenção e paixão, vendo no
O Maracanã seria o suprassumo desses tea- jogo a expressão ambígua da alma nacional.
tros, o templo sagrado no qual se encenam a Tem o privilégio de ver o nascimento da
tragédia, a redenção e a catarse das massas. dupla Pelé e Garrincha e a conquista do título
Se existe um templo da pátria, esse é o Ma- em 1958, na Suécia. Seria o início de uma
racanã, cujo nome oficial, aliás, homenageia longa hegemonia brasileira (interrompida em
Mário Filho, irmão de Nelson. 1966 por desmandos de administração) e que
Com esses textos, escritos no dia a dia culminaria na conquista do tri, no México,
dos jornais, Nelson contribuiu, decisivamen- ápice da carreira de Pelé, que havia come-
te, para a criação de uma mística, a do futebol çado lá atrás, na primeira vitória. Esse é o
brasileiro como melhor do mundo, o mais bo- ouro em pó de que Nelson dispõe para tra-
nito, aquele jogado da maneira a mais artísti- balhar, que vinha desde os fiascos históricos
ca, com suas gingas, suas fintas, suas jogadas em 1950 e 1954, até a redenção em 1958 e a
de efeito, hibridadas na herança afro-brasi- consolidação do mito, nos anos seguintes. “O
leira da capoeira e do samba, de acordo com melhor futebol do mundo”, dogma que até há
Gilberto Freyre, e que pudera “arredondar” pouco nos alimentava e ao qual temos tanta
o jogo quadrado e cheio de arestas dos ingle- dificuldade em renunciar. Nelson é bastante
ses. Aquele futebol que, livre de suas inibi- responsável por isso. Foi ele, diretamente ou
ções mentais, seria virtualmente imbatível. por vias transversas, quem nos incutiu essa fé
Provavelmente, foi decisivo para o esta- inexpugnável no futebol-arte, na invencibili-
belecimento dessa épica o período em que dade potencial dos nossos craques. Com essa
o cronista escreveu. Nelson, que viveu entre convicção, como vimos, Nelson inaugurou

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também essa modalidade de reflexão sobre por jogadores de clubes europeus? Como mo-
o homem brasileiro, a partir do futebol. Foi bilizaria seus dotes hiperbólicos para comen-
uma sacada genial, diga-se o que se quiser. tar essa situação kafkiana? E o que diria do
Sem jamais ter escrito um texto teórico so- marketing esportivo, dos clubes organizados
bre o assunto, Nelson criou algo que se pode segundo normas de gestão corporativa, do
chamar de um sistema, uma forma de pen- profissionalismo argentário dos atletas, dos
samento sobre o caráter nacional, do qual o fundos de investimento que fazem “parce-
futebol seria a forma expressiva por excelên- rias” draconianas com os clubes, dos agentes,
cia. É sobre ele que lemos nesta reflexão in dos managers, dessa turma toda que lucra
progress através das colunas jornalísticas. com o jogo e que poderia, como a grã-fina de
O que fica de Nelson cronista, qual o seu narinas de cadáver, perguntar perfeitamente
legado duradouro? Um deles salta à vista: “quem é a bola?” O que diria Nelson de tudo
ter sido o grande narrador da época de ouro isso? Naufragaria no desencanto como mui-
do futebol brasileiro. Por isso, seu amigo e tos dos nossos melhores escribas de hoje ou
seguidor, Armando Nogueira, o chamava tiraria de sua verve inesgotável forças para ir
de “Homero do futebol brasileiro”. O gran- além desse mundo contábil e reencontrar-se
de narrador épico. Quando pensamos nele, com o jogo?
como cronista, dificilmente poderíamos pen- Porque, no fundo, esse é o desafio de
sar em tempos melhores para sua atuação na todos nós, que escrevemos sobre futebol.
imprensa. Muito primitivo em certos aspec- Como, em meio a tantos interesses que
tos, o Brasil ainda era um país no qual, numa cercam o jogo, reencontrá-lo em sua pleni-
coluna de futebol, se podia citar Shakespeare, tude expressiva? É Nelson quem nos indi-
Cervantes, Dostoiévski, sem qualquer pudor. ca o caminho. Foi ele a nos lembrar que “a
Nenhum diretor de redação viria repreendê- mais sórdida pelada é de uma complexida-
-lo por falar em autores desconhecidos para de shakespeariana”. No mais humilde jogo,
a imensa maioria dos amantes do esporte. estão presentes, em potência, os elementos
Não se subestimava o leitor, naquela época. dramáticos para tirá-lo do plano referencial
A pergunta que não quer calar: o que e elegê-lo a mito. É preciso remover o que
seria desse colunismo hoje, nesse mundo vem à frente do jogo, o encobre e oculta, e
desencantado do futebol negócio, dos ho- reencontrá-lo em seus fundamentos.
mens robotizados pelo turbo capitalismo e Nelson Rodrigues, acusado às vezes de
na imprensa voltada para o culto às celebri- não ver direito partidas porque era míope e
dades? O que Nelson diria de um “escrete”, não usava óculos, enxergou como ninguém o
da pátria de chuteiras, formado inteiramente futebol em sua essência mais profunda.

B I B LI O G R AFIA

FREYRE, Gilberto. “Prefácio”, in Mário Filho. O Negro no Futebol Brasileiro. Rio de Janeiro,
Mauad, 2003.
RODRIGUES, Nelson. À Sombra das Chuteiras Imortais. Org. de Ruy Castro. São Paulo,
Companhia das Letras, 1993.
. O Profeta Tricolor. Org. de Nelson Rodrigues Filho. São Paulo, Companhia
das Letras, 2002.
SILVA, Marcelino Rodrigues da. O Mundo do Futebol nas Crônicas de Nelson Rodrigues.
Belo Horizonte, 1998.

144 REVISTA USP • São Paulo • n. 96 • p. 136-144 • DEZEMBRO/FEVEREIRO 2012-2013


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