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Índice
Í
CApa Turismo
O turismo brasileiro está vivendo
ótimas perspectivas adiante da
Copa de 2014 e as Olimpíadas
de 2016. A atividade nunca foi
tão promissora, e o país, além
de belo, está cada vez mais
bem preparado para receber
e satisfazer turistas de todo o
mundo. Mas é necessário acertar
o pulo. A Revista Novo Ambiente
percorreu o Sul do país para
conhecer alguns dos mais belos
destinos turísticos dessa região.

34

Na capa de nossa quinta edição, a belíssima queda d´água do Parque Caracol, em


Canela/RS, retratada pelo fotógrafo Leandro Dvorak, da equipe que percorreu o
Rio Grande do Sul. Leandro também foi o autor da foto que ganhou a capa na
edição passada da Revista Novo Ambiente, quando retratou a dura realidade dos
brigadistas diante dos incêndios no cerrado brasileiro.

Buraco do Padre em Ponta Grossa, Paraná


08 No meio

10 Engenharia
Vai reformar?
12 Tecnologia
“Nada se cria, tudo se copia”
Tecnologia
14 Agricultura
Sabedoria ancestral Satélites 28
18 Reportagem Especial Olhos no céu
Sem proteção contra a raiva
36 Turismo
Rio Grande do Sul
46 Turismo
Santa Catarina
54 Turismo
Paraná
68 Consumo Consciente
Responsabilidade compartilhada
72 Artigo
Svetlana Maria
78 Fauna Economia
Cuidado, não pise na entomofauna!
82 Artigo Balanços sociais 74
Delson Amador Do que é feita uma empresa
88 Literatura
Mudanças no clima das ideias
90 Artigo
Edemar Gregorio
92 Energia
Energia elétrica na visão de quem produz
94 Velho Ambiente

96 Lente Limpa
Estanis Neto
98 Da Redação
COP 10
84
Tão verdes quanto maduros

Biodiversidade
Na prática, a teoria é outra

5 Outubro/2010
Editorial
E
Uma publicação da Novo Ambiente Editora e Produtora Ltda.
CNPJ/MF.: 12.011.957/0001-12

S
Rua Professor João Doetzer, 280 - Jardim das Américas - 81540-190 - Curitiba/PR
Tel/Fax: (41) 3044-0202 - atendimento@revistanovoambiente.com.br
revistanovoambiente.com.br eguramente a melhor maneira de preservar
Ano 1 - Edição 05 - Outubro/2010 - Distribuição dirigida e a assinantes o patrimônio natural brasileiro é conhecê-
JORNALISTA RESPONSÁVEL - Carlos Marassi
-lo. Daí o motivo de capa desta e da próxima
marassi@revistanovoambiente.com.br edição: destacar os encantos de nossa terra. Inicia-
revisão - Karina Dias Occaso
mos a série de matérias pelo Sul, priorizando roteiros
Impressão - Posigraf A tiragem desta edição de 30.000 exemplares
Tiragem - 30 mil exemplares é comprovada pela BDO Auditores Independentes. e cenários que vale a pena visitar e preservar.
Diretor Geral
Dagoberto Rupp
Do Paraná de inúmeras e particulares caracte-
dagoberto@revistanovoambiente.com.br rísticas, emprestamos a beleza ímpar das Cataratas
financeiro
Jaqueline Karatchuk
ADMINISTRATIVo
Paula Santos
do Iguaçu, além de suas formações geológicas de
jaqueline@revistanovoambiente.com.br paula@revistanovoambiente.com.br encher os olhos. Da Santa e Bela Catarina, vieram os
comercial (DEC)
Paulo Roberto Luz João Augusto Marassi
cenários praianos, a gente alegre e orgulhosa de ter
paulo@revistanovoambiente.com.br joao@revistanovoambiente.com.br entre suas divisas o mais belo litoral do Sul. Da Serra
João Claudio Rupp Fábio Eduardo C. de Abreu
joaoclaudio@revistanovoambiente.com.br fabio@revistanovoambiente.com.br Gaúcha com suas históricas cidades, captamos rela-
João Rodrigo Bilhan Paulo Negreiros
rodrigo@revistanovoambiente.com.br negreiros@revistanovoambiente.com.br tos de um povo acostumado a vencer desafios pelo
ASSINATURAS trabalho, e o desafio agora é fazer crescer o turismo
Mari Iaciuk - mari@revistanovoambiente.com.br
Daiane Kelly de Oliveira - daiane@revistanovoambiente.com.br
sustentável.
Mônica Cardoso - monica@revistanovoambiente.com.br As equipes que percorreram esses estados busca-
Central de Jornalismo
ram destacar como é possível gerar riqueza a partir
Edemar Gregorio Juvino Grosco
edemar@revistanovoambiente.com.br jgrosco@revistanovoambiente.com.br da preservação de ecossistemas e paisagens que en-
Rafael de Azevedo Chueire Juliano Grosco
rafael@revistanovoambiente.com.br juliano@revistanovoambiente.com.br cantam turistas do Brasil e do mundo. Registramos e
Fernando Beker Ronque
fernando@revistanovoambiente.com.br
Marcelo C. de Almeida
marcelo@revistanovoambiente.com.br
vamos monitorar os movimentos com vieses susten-
Davi Etelvino
davi@revistanovoambiente.com.br
Alexsandro Hekavei
alex@revistanovoambiente.com.br
táveis que cada vez mais ocupam os balanços sociais
Leandro Dvorak Lucyo Eduardo P. A. de Oliveira de grandes empresas.
leandro@revistanovoambiente.com.br lucyo@revistanovoambiente.com.br
Paulo Negreiros Ricardo Adriano da Silva Entre inúmeras matérias que preparamos com
negreiros@revistanovoambiente.com.br ricardo@revistanovoambiente.com.br
Leonardo Pepi Santos Tiago Casagrande Ramos carinho para você, leitor, talvez uma chame sua aten-
leo@revistanovoambiente.com.br tiago@revistanovoambiente.com.br
Leonilson Carvalho Gomes Oberti Pimentel ção pela gravidade. Uma reportagem exclusiva traz à
leonilson@revistanovoambiente.com.br
Estanis Neto
oberti@revistanovoambiente.com.br
Uirá Fernandes
tona um problema que passou quase ao largo na mí-
estanis@revistanovoambiente.com.br uira@revistanovoambiente.com.br dia nacional: a suspensão da campanha de vacinação
Marcelo Ferrari Aélcio Luiz de Oliveira Filho
ferrari@revistanovoambiente.com.br aelcio.filho@revistanovoambiente.com.br antirrábica no Brasil, por causa da suspeita de que
ilustrações Webdesign ela tenha levado à morte centenas de animais em vá-
Fernando Beker Ronque
fernando@revistanovoambiente.com.br
rios estados do país (os números defasados em mais
conselho editorial de um mês do Ministério da Saúde podem esconder
Dagoberto Rupp
dagoberto@revistanovoambiente.com.br
João Augusto Marassi
joao@revistanovoambiente.com.br
outros muitas vezes maiores). Além disso, compro-
João Rodrigo Bilhan Fábio Eduardo C. de Abreu meteu a credibilidade de um ciclo que há anos vem
rodrigo@revistanovoambiente.com.br fabio@revistanovoambiente.com.br
Carlos Marassi Paulo Negreiros tentando varrer do mapa uma das mais graves for-
marassi@revistanovoambiente.com.br
Paulo Roberto Luz
negreiros@revistanovoambiente.com.br
Marilene Velasco
mas de doenças transmitidas por animais, que, ao
paulo@revistanovoambiente.com.br mara@revistanovoambiente.com.br homem, são da maior letalidade imaginável; afinal,
João Claudio Rupp Edemar Gregorio
joaoclaudio@revistanovoambiente.com.br edemar@revistanovoambiente.com.br em toda a história da humanidade, só se sabe de três
Clau Chastalo
Bem-Estar
Maria Telma da C. Lima casos de cura.
clau@revistanovoambiente.com.br telma@revistanovoambiente.com.br
Ana Cristina Karpovicz Paulo Fausto Rupp
cris@revistanovoambiente.com.br paulofausto@revistanovoambiente.com.br
Maria C. K. de Oliveira Dagoberto Rupp Filho Boa leitura!
maria@revistanovoambiente.com.br betinho@revistanovoambiente.com.br
Colaboradores
Priscila Stefen Flávio Jacobsen
Central de Jornalismo

FSC
Artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da Revista, sendo de total responsabilidade do autor. 7 Outubro/2010
Horário de verão
Está valendo o horário de verão. O Ministério de Minas e
Energia (MME) determina que nas regiões Centro-Oeste, Sul
e Sudeste a população adiante os relógios em uma hora até
o dia 20 de fevereiro de 2011. Segundo o MME, é registrada
uma redução de 5% no consumo de energia dessas regiões.

Seminário de veículos elétricos


Uma incógnita. Uma aposta. Um filão econômico. Um aposta da indústria automobilística ainda não aconteceu.
sonho ingênuo. Um grande inimigo da indústria do com- O 2.o Seminário Veículos Elétricos & Rede Elétrica, organi-
bustível fóssil. Os veículos elétricos flertam com o con- zado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE)
sumidor, mas ainda são desacreditados. Desde a década e pelo Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee),
de 70, as tecnologias de utilização de energia elétrica será promovido no dia 18 de novembro, no Rio de Janeiro.
como combustível insistem em sobreviver diante de um As inscrições com desconto podem ser feitas até o dia 31
cenário desanimador. Mas o movimento vem ganhando de outubro, no valor de R$ 650,00. O evento será realiza-
respeito e parceiros de peso nos últimos anos. Os lança- do no auditório da Associação Comercial do Rio de Janeiro
mentos mundiais impressionam, mas no Brasil a grande (ACRJ). Mais informações nos sites da ABVE e do Inee.

No meio
Táxi elétrico
Foto: Revista Novo Ambiente/Leonilson Gomes
São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curi-
tiba, ganhou o primeiro táxi elétrico do Brasil. O veículo
atenderá os usuários do Aeroporto Afonso Pena, onde a
Copel instalou o primeiro ponto para recarga de automó-
veis elétricos, chamado de eletroposto. O projeto envol-
ve estudos conjuntos da Copel, da Itaipu Binacional e do
Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec).
Ainda não há custos definidos para a energia disponível
no eletroposto, mas estima-se que a carga cheia custe en-
tre R$ 5 e R$ 8. Para a recarga do veículo, o motorista usa
um cartão pré-pago desenvolvido pelo Lactec que libera o
crédito para a energia. Os automóveis elétricos são mais
silenciosos, menos poluentes e têm custos de manutenção
e de rodagem mais baixos que os dos similares a combus-
tão. O quilômetro rodado do carro elétrico chega a custar
20% do de um carro a gasolina, álcool ou diesel. “Ampliar
a rede de eletropostos é uma das primeiras medidas para
popularizar o uso do carro elétrico”, afirmou o Presidente
da Copel, Ronald Ravedutti.

Outubro/2010 8
Pioneira solar Ibama em ação
Tauá, no Ceará, deve ganhar a primeira usina solar co- A Operação Arataú (rio próximo a Pacajá/PA), do Ins-
mercial do país, construída pela MPX. Inicialmente, serão tituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), aplicou mais
investidos R$ 10 milhões para a instalação de 1 MW de ca- de R$ 40 milhões em multas, embargando 3.416,59 hecta-
pacidade (o que daria para abastecer cerca de 1,5 mil resi- res de áreas desmatadas e apreendendo veículos, armas e
dências). A MPX, do empresário Eike Batista, pretende que motosserras, além de 36,352 m³ de madeira em toras. Na
a usina opere até 5 MW em até dois anos e aguarda licença região, foram detectadas 389 áreas desmatadas, que to-
da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Hoje, o cus- talizam 17 mil hectares desmatados entre agosto de 2007
to da energia solar chega a ser quase quatro vezes maior do e julho de 2010. Os proprietários receberam notificações
que o da energia eólica, outra fonte limpa e renovável, mas para remover os animais domésticos (gado bovino, cavalos
o aumento na escala de produção de peças e equipamentos muares). Nove fazendas, cujos rebanhos totalizam cerca de
utilizados nas usinas deve fazer o preço cair. A MPX pretende 5 mil reses, já foram notificadas.
instalar até 50 MW em outros projetos.

Foto: SMCS/Valdecir Galor


Híbrido na linha
Um ônibus que funciona com um motor
elétrico e outro a diesel começou a circular
em fase de testes em uma linha de transporte
público de Curitiba. Fabricado na sede da Vol-
vo, na Suécia, o novo veículo híbrido utiliza o
motor elétrico para o arranque e, ao chegar a
20 km/h, o motor movido a diesel é acionado.
A energia gerada pelas freadas vai recarregar
as baterias do ônibus e, enquanto ele estiver
parado, o motor a diesel fica desligado. Se os
resultados dos testes forem bons, o ônibus,
que reduz a emissão em 50% diante dos con-
vencionais, poderá começar a ser produzido
na fábrica da capital paranaense e inserido na
frota da cidade visando a Copa de 2014.

Ventos milionários
Para quem duvidava da força do mercado de energia
eólica, lá vai: o Banco Nacional do Desenvolvimento Eco-
nômico e Social (BNDES) vai financiar sete parques eólicos
e um sistema de transmissão no Rio Grande do Norte. Dos
R$ 801,8 milhões previstos no projeto, R$ 574 milhões já
foram aprovados. Com potência de 188 MW, os parques
serão instalados em Parazinho, no interior do estado, em
áreas de baixa densidade populacional e pouca atividade
econômica, com relevo e condições climáticas adequadas.
O projeto foi selecionado no Leilão de Energia de Reserva
de 2009, que assegurou os contratos entre cada uma das
usinas e a Câmara de Comércio de Energia Elétrica (CCEE),
garantindo a venda de 76 MW médios de energia por 20
anos, a um preço médio – atualizado anualmente pelo
IPCA – de R$ 150/MWh.

Foto: Revista Novo Ambiente/Leonardo Pepi

9 Outubro/2010
engenharia Habitação

Outubro/2010 10
carros Tecnologia

“Nada se cria,
tudo se copia”
Imagine um motor capaz de funcionar com qualquer tipo de óleo – inclusive
óleo de cozinha usado. Ou, então, um carro elétrico para dois ocupantes,
capaz de rodar por trechos urbanos em velocidades de até 80 km/h, sem
emitir nenhum tipo de poluente. Pode parecer inovador, até certo ponto
vanguardístico, mas os dois exemplos descritos existem, funcionam e são
viáveis há muitas décadas.

Q
uem se lembra do polêmico engenheiro inúmeros países na famosa “crise do petróleo”. Ba-
brasileiro João Augusto Conrado do Ama- seado em tecnologia de baixo custo, o modelo utili-
ral Gurgel? Além de ser a personificação zava baterias normais automotivas para acumular a
de uma conhecida marca de automóveis, ele, entre energia para seu propulsor, que gerava pouco mais
outras características, sempre foi tido como uma das de quatro cavalos, combinando enrolamentos de
cabeças mais brilhantes e criativas do automobilismo campo em série e paralelos. No entanto, a autono-
nacional. Soluções simples de engenharia, em projetos mia limitada e o inconveniente de precisar de mais
que primavam pela funcionalidade (beleza nunca foi de dez horas de carga para poder rodar foram
um referencial dos veículos Gurgel) e, acima de tudo, parcialmente responsáveis pela descontinui-
com custos reduzidos, durante muito tempo compuse- dade do projeto.
ram a identidade daqueles rústicos e até mesmo esqui-
sitos automóveis, que alguns entusiastas costumavam
usar como se fosse um atestado de brasilidade. Pois
bem. Um desses projetos, do começo da década de 70, O protótipo chamado
mais precisamente um protótipo chamado Itaipu (será Itaipu foi o pioneiro
mera coincidência?), foi o pioneiro na América Latina
a utilizar a eletricidade como força motriz. Enquanto o
na América Latina a
mundo engatinhava na questão ambiental, o concei- utilizar a eletricidade
to, na verdade, surgiu com o objetivo de “driblar” a como força motriz.
dependência dos combustíveis fósseis, pois os aiato-
lás haviam acabado de fechar as torneiras, jogando

Outubro/2010 12
Da Alemanha, o motor Elko
Também apoiada na figura de seu criador Ludwig não unicamente – vegetal, o Elko, apresentado no Brasil
Elsbett, a empresa homônima nasceu de uma iniciativa no final da década de 80, equipava um “moderno” Audi
familiar. Na década de 60, ela atuava com o objetivo prin- adaptado que era capaz de rodar mais de 30 km com
cipal de otimizar os motores movidos a óleo diesel dispo- apenas um litro do combustível à escolha do freguês (a
níveis no mercado. A busca constante por esses aperfei- revista Quatro Rodas, na época com muito bom humor,
çoamentos levou ao desenvolvimento, já nos meados de diga-se de passagem, o abasteceu com óleo de cozinha
1977, do motor multicombustível mencionado no início comum). Uma configuração simples de três cilindros ar-
desta matéria (Elsbett também criou o motor para carros ticulados empurrava o carro a velocidades razoáveis com
que hoje conhecemos como TDI – Turbo Diesel Injection um nível bastante honesto de desempenho. Em tempo:
– ou motor turbodiesel de injeção direta, comum em pi- o tipo de óleo usado, in natura, não prescinde de ne-
capes modernas de várias montadoras). Movido virtual- nhum tipo de processamento químico, ao contrário do
mente a qualquer tipo de óleo – preferencialmente, mas comentado biodiesel.

De volta ao presente
Empresa reconhecida e muito forte na Alemanha para óleo vegetal. Já a nacional Gurgel fracassou
e no mundo pela força de suas mais de 400 patentes, miseravelmente em suas tentativas de manter-se
todas relacionadas à pesquisa e ao desenvolvimento à tona financeiramente e faleceu de inanição, dei-
de novas soluções para motores diesel e multicom- xando como legado a marca da criatividade que faz
bustíveis, a Elsbett tem como carro-chefe, hoje, a a fama dos brasileiros também no automobilismo
venda de kits de conversão de motores “normais” mundial.

Ilustração: Revista Novo Ambiente/Fernando Beker


Agricultura Manejo

Sabedoria
ancestral
Ao olhar uma foto como esta, onde se vê
dois lobos-guará em meio ao canavial, o
pensamento natural é de que, expulsos
de seu habitat, os animais foram parar ali.
Mas, neste caso, justamente por causa do
canavial orgânico, fruto do projeto Cana
Verde, centenas de animais encontram
um lugar seguro para viver. As plantações
de cana-de-açúcar da Usina São Francisco
(UFRA), em Sertãozinho, interior de São
Paulo, possuem conceitos ancestrais de
manejo limpo e ilhas de biodiversidade que
protegem animais ameaçados de extinção.

Outubro/2010 14
Foto: Ascom/Grupo Balbo

O
projeto Cana Verde é conside-
rado um dos mais importantes
estudos sobre desenvolvimen-
to agrícola sustentável brasileiro. Foi uma
ousada iniciativa de manifestar o potencial
ecológico e conservacionista da cultura da
cana-de-açúcar, por meio da implantação
de um sistema produtivo com elevados
índices de sustentabilidade. Durante oito
anos, uma equipe de especialistas coorde-
nada pela Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) pesquisou as áreas
de cultivo da UFRA, pertencente ao Grupo
Balbo, e, após relacionar a estrutura da teia
alimentar em sua produção, constatou que
os canaviais orgânicos propiciavam condi-
ções de vida a diversas classes de animais
– mamíferos, aves, répteis e anfíbios – sem
interferência na produtividade da cana. “O
que é hoje um importante diferencial do
grupo, que o coloca na posição privilegia-
da que atualmente ocupa na indústria de
alimentos, já estava presente em seu nasci-
mento: o respeito à terra, que é a base de
todo o trabalho no campo, somado à aplica-
ção do conhecimento acumulado pelos pro-
fissionais da casa, e ainda as mais recentes
pesquisas científicas”, aponta Leontino Bal-
bo Junior, Diretor Comercial da companhia.

O que é hoje um
importante diferencial
do grupo, que o coloca
na posição privilegiada
que atualmente ocupa na
indústria de alimentos, já
estava presente em seu
nascimento: o respeito
à terra, que é a base de
todo o trabalho no campo,
somado à aplicação do
conhecimento acumulado
pelos profissionais da casa,
e ainda as mais recentes
pesquisas científicas.
Leontino Balbo Junior,
Diretor Comercial do Grupo Balbo

15 Outubro/2010
A utilização de defensivos e adubos
orgânicos possibilita a proliferação
de diferentes insetos e outros
antrópodos, fungos e microrganismos
benéficos ao plantio.

As 1.400 expedições realizadas dentro


do projeto identificaram que 340 tipos de
vertebrados convivem de forma surpreen-
dentemente integrada entre a mata e o ca-
navial. São animais como a lontra, a sucuri,
o teiú (lagarto), o passarão, o guariba e o
lobo-guará. E o que permite esse convívio
respeitoso entre produção e meio ambien-
te é o manejo ecológico, que, mantendo a
cobertura vegetal viva ou morta durante
quase todo o ciclo produtivo e a utilização
de defensivos e adubos orgânicos, possi-
bilita a proliferação de diferentes insetos
e outros antrópodos, fungos e microrga-
nismos benéficos ao plantio, formando
uma base alimentar atraente para muitas
espécies que não sobrevivem em lavouras
tradicionais.
O trabalho envolve desde a prepara-
ção da terra, adequação das variedades
para plantio, adubação orgânica, sistema-
tização das áreas para colheita – totalmen-
te mecanizada, abolindo definitivamente a
queima – até a embalagem e comercializa-
ção do produto. Isso sem aplicação de de-
fensivos, apenas reutilizando os nutrientes
gerados no processo produtivo e permitin-
do à natureza deflagrar mecanismos natu-
rais de proteção à cultura da cana.
Além do equilíbrio que permite manter
a saúde do solo, base do lucro da ativida- Além do equilíbrio que permite
de agrícola, o manejo ecológico mostrou-
-se altamente eficiente do ponto de vista
manter a saúde do solo, base
econômico. “Temos uma produtividade do lucro da atividade agrícola,
27% superior à do plantio convencional da o manejo ecológico mostrou-se
cana”, exalta Balbo Junior. Hoje, as usinas
do Grupo Balbo produzem 6 milhões de to-
altamente eficiente do ponto
neladas de cana-de-açúcar, 293 mil tonela- de vista econômico.
das de açúcar e 318 mil m3 de álcool.
Fotos: Revista Novo Ambiente/Oberti Pimentel

Outubro/2010 16
Foto: Ascom/Grupo Balbo

Pensando além
Na vanguarda da produção sustentável, o Grupo
Balbo, sediado em Sertãozinho/SP, detém a maior
cultura orgânica do mundo e hoje é uma referência
na preservação do meio ambiente. A Native, mar-
ca de produtos do grupo, é a maior exportadora de
açúcar orgânico, reconhecida pela ONU e por mais di-
versas entidades mundiais como uma das empresas
sustentáveis de práticas mais inspiradoras.
No início de setembro, suas usinas – São Fran-
cisco e Santo Antônio – foram as primeiras do setor
sucroalcooleiro a conquistar a certificação Rainforest mica, a propriedade agropecuária deve ser encarada
Alliance Certified, concedida pelo Instituto de Mane- como um organismo vivo, com múltiplas atividades
jo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e pela integradas, na qual o agricultor usa o ritmo biológico
Rede de Agricultura Sustentável (RAS), que compro- da natureza – solo, clima, fauna, flora, geologia local
vam boas práticas ambientais. Com isso, a Native – em seu trabalho. “Estamos cada vez mais focados
passa a utilizar o selo em seus produtos auditados – em desenvolver novidades que atendam a todos os
álcool e açúcar orgânico. públicos adeptos de uma vida saudável. No exterior,
A empresa mostra por que está sempre um especialmente nos países europeus, esse conceito é
passo à frente no conceito de sustentabilidade: re- muito valorizado. Queremos disseminar essa ideia
centemente, parte do cultivo de cana da Usina São no Brasil também”, lembra o executivo. A Native pos-
Francisco foi convertido em agricultura biodinâmica, sui dois produtos biodinâmicos: o açúcar cristal De-
inspirada na Antroposofia, corrente filosófica intro- meter e o café biodinâmico liofilizado Demeter, certi-
duzida no século XX por Rudolf Steiner. Na biodinâ- ficados pelo Instituto Biodinâmico (IBD).

Foto: Ascom/Grupo Balbo

As usinas São Francisco


e Santo Antônio foram
as primeiras do setor
sucroalcooleiro a conquistar
a certificação Rainforest
Alliance Certified, concedida
pelo Instituto de Manejo
e Certificação Florestal e
Agrícola (Imaflora).
reportagem Especial Vacinação

raiva
Sem proteção contra a

É um assunto que interessa a todos, já que somos alvos de


uma das mais terríveis doenças transmitidas de animais
para o homem: a raiva. No início do mês, o Ministério da
Saúde suspendeu a campanha nacional de vacinação an-
tirrábica. Motivo: 12 estados notificaram ao Ministério da
Saúde 1.401 eventos graves envolvendo animais (217
morreram menos de
72 horas após a
vacinação). Mais
de 20 milhões de
cães e gatos dei-
xaram de ser vaci-
nados no Brasil até
agora, e a raiva hu-
mana já fez sua segunda
vítima fatal em 2010.

Outubro/2010 18
Fotos: Revista Novo Ambiente/Leonilson Gomes
A
campanha de vacinação antirrábica está Existem vários fabricantes da vacina, e o Go-
suspensa pelo Ministério de Saúde (MS) verno Federal adquiriu 30,9 milhões de doses da
em todo o Brasil desde o dia 7 de outu- vacina RAI-PET, do laboratório Biovet, por R$ 23,4
bro. O motivo que levou a uma medida tão preocu- milhões para a campanha de 2010, segundo o pró-
pante para a saúde dos brasileiros é o grande nú- prio MS. Regina explica que não utiliza esta marca
mero de reações adversas que a vacina causou nos por considerá-la de baixa qualidade, e prefere pro-
animais domésticos, podendo ter levado à morte dutos importados mais conhecidos. Ainda assim,
centenas de cães e gatos. O MS, que fornece as doses muitos clientes suspenderam a vacinação por
aos estados, informa apenas que as análises do me- conta própria por causa do medo e até mesmo
dicamento e das vítimas estão em andamento, por- porque a forma como as poucas informações são
tanto não pode se posicionar claramente sobre o que apresentadas é confusa.
causou o incidente e quem foi responsável por ele. Ricardo Trípoli, reeleito Deputado Federal
O que se sabe é que essa vacina, que garante a pelo PSDB nas últimas eleições principalmente
imunidade por um ano, é diferente da aplicada nos por causa do trabalho de proteção animal, tem
anos anteriores, que imunizava o cão por apenas seis buscado explicações sem obter respostas. “Meu
meses. Enquanto isso, não existe uma data para o re- gabinete recebeu um grande volume de informa-
torno da vacinação contra a raiva. “A vacina animal ções sobre a reação violenta que estava aconte-
utilizada até o ano de 2009 foi a Fuenzalida & Pala- cendo em vários estados brasileiros, os animais
cios, substituída em 2010 pela de cultivo celular, por não estavam suportando, tendo choque anafi-
apresentar maior imunogenicidade e segurança, lático, problemas respiratórios e muitos óbi-
além de ser recomendada pela Organização Mundial tos. Liguei para o Ministério da Saúde e não
da Saúde (OMS)”, informa o Ministério. obtive informações via telefone, então fiz
A suspensão tem gerado dúvidas e abalou a cre- um ofício ao Ministro José Temporão para
dibilidade da campanha nacional de vacinação. “A re- que pudesse explicar por que a vacina esta-
percussão é muito grande. Vai ficar marcado. Mesmo va provocando estas reações nos animais.
que retome a vacina, as pessoas vão ficar desconfia- Eles tinham o prazo de quinze dias para
das. Antes, vacinar era um ato de prevenção; hoje, é responder, mas não o fizeram”, disse Trí-
um risco. Surge a pergunta aos donos: vale a pena va- poli no dia em que vencia tal prazo (15
cinar?”, questiona a veterinária Regina Motta, dona de outubro). Ele recebeu uma equipe
da Clínica Homeo-patas, na capital paulista. Ela diz da Revista Novo Ambiente em seu es-
que tem se surpreendido com o medo que se espa- critório de advocacia, em São Paulo,
lhou entre seus clientes, que utilizam seu consultório para uma entrevista cuja essência
para a vacinação dos animais. pode ser vista nas páginas seguintes.

A vacina animal utilizada até o ano


de 2009 foi a Fuenzalida & Palacios,
substituída em 2010 pela de cultivo
celular, por apresentar maior
imunogenicidade e segurança, além
de ser recomendada pela Organização
Mundial da Saúde (OMS).

Outubro/2010 20
21 Outubro/2010
Causa mortis
“Uma hora depois da vacina, Por causa do número de rea-
eles pararam de comer. Depois dis- ções adversas muito superior ao
so, cada um se retirou para um can- dos anos anteriores, São Paulo foi
to isolado, andando com dificulda- o primeiro estado a suspender a
des. Então a temperatura dos três vacinação, já no dia 19 de agosto.
caiu e eles ficaram gelados. A gata “Fomos mais precavidos e toma-
mais velha ficou completamente mos a decisão certa. Fizemos mui-
inanimada, com os olhos abertos, tas reuniões científicas, elaboramos
parecia estar morta”, conta Paulo documentos técnicos sobre a ques-
Palmer, morador da Vila Monumen- tão e até mesmo analisamos rela-
to, em São Paulo, relatando o dra- tórios para avaliar a situação que
ma que viveu com seus três gatos pegou o país de surpresa”, conta
após a aplicação da vacina. Outros Neide Takaoka, médica sanitarista e
seis felinos da família apresenta- Diretora-Geral do Instituto Pasteur,
ram reações semelhantes, embora cujos estudos ágeis foram definiti-
nenhum tenha morrido. “Temos vos para a suspensão da campanha,
um gato de 16 anos, e durante toda evitando novas mortes de animais.
a vida tomou a vacina anualmente Neide aponta que a preocupação
e nunca vi nada parecido”, admira do Ministério era de não parar a va-
Palmer, que afirma, ainda, que to- cinação onde o problema da raiva é
dos os animais da vizinhança, sem maior, por isso parte da demora em
exceção, passaram mal. interromper a vacinação.

Mea culpa
O MS confirmou, em nota do trunfo em sua defesa: o MS confir-
dia 1o de outubro, os incidentes ma que a qualidade e a adequação
com a vacina: “A investigação la- dos lotes de vacina destinados à
boratorial, realizada com cobaias, campanha nacional foram com-
indicou a ocorrência de efeitos provadas oficialmente, como é
graves e mortes depois da vaci- obrigatório, por meio de testes re-
nação que, até então, não eram alizados pelo Laboratório Nacional
previstos na literatura científica Agropecuário (Lanagro-Campinas/
disponível. Com base nesses re- SP), ligado ao Mapa. Ou seja, para
sultados, como medida cautelar, apontar a qualidade da vacina
o Ministério da Agricultura, Pe- como causadora das mortes, é ne-
cuária e Abastecimento (Mapa) cessário admitir, ao menos, a falha
recomenda a interrupção tem- de fiscalização que comprometeu
porária do uso da vacina, até que o sistema público de saúde.
a investigação laboratorial seja Ainda não se sabe de quem é
concluída. Entre os efeitos que a responsabilidade nem quando a
não eram previstos e que foram campanha de vacinação antirrábi-
observados, estão hemorragia, ca será retomada. Segundo o MS,
dificuldade de locomoção, hiper- 7,9 milhões de animais já foram
sensibilidade de contato e intensa vacinados, porém a meta era va-
prostração”, aponta a nota sobre cinar 28 milhões; portanto, mais
as cruéis reações em cobaias. No de 70% dos pets ainda estão sem
entanto, o laboratório tem um a proteção contra o vírus da raiva.

Outubro/2010 22
Modus operandi O que fazer com meu pet?
A veterinária Regina Motta explica que reações a Embora ninguém deva expor seus animais aos
vacinas sempre ocorrem, já que existem animais cujo riscos relatados na campanha nacional de vacinação
organismo tem funcionamento diferente do padrão. “A deste ano, é importante que, se tiverem condições
reação vacinal sempre pode acontecer, algumas são de para pagar uma vacina confiável, as pessoas não pa-
vírus vivo, outras de vírus modificado, mas é um produ- rem de vacinar seus pets, a fim de garantir sua segu-
to biológico que se introduz no organismo. Como você rança contra a raiva (veja texto referente). A partir
pode comer uma clara de ovo, ficar todo empipocado e dos cinco meses, cães e gatos já podem ser vacina-
isto evoluir para um choque anafilático, na vacina tam- dos, mas aconselha-se que seja feita uma avaliação
bém pode acontecer, mas numa parcela muito peque- por um veterinário para ver se o animal tem resistên-
na, e isso não é culpa da vacina, mas sim do organismo, cia para suportar a vacina. Animais de rua também
que reagiu de maneira errada àquela vacina. Uma dor- devem ser vacinados, porque são os mais expostos
zinha local, um calombinho, isso são coisas normais”, ao risco de infecção.
destaca. Regina ainda avalia que na campanha nacional Apesar do triste quadro deste ano, o Brasil é
de vacinação atirrábica houve o que considera erros de eficiente em matéria de produção e campanhas de
procedimento e na qualificação dos profissionais en- vacinação promovidas pelo Governo Federal. É ne-
volvidos: “As vacinas são aplicadas no meio da rua, não cessário esperar os resultados e torcer para que este
por veterinários, mas por técnicos, é intramuscular. Nos serviço volte a ser confiável, mas sempre mantendo
consultórios, a gente usa subcutânea. Se um animal os animais vacinados; afinal, a raiva é mortal.
está doente, ele não produz anticorpos, a vacina não faz
efeito e pode piorar seu quadro. Fica difícil saber se a
morte foi pela vacina, pois não se conhecia o estado do
cachorro”, diz a veterinária.
Segundo ela, para resgatar essa campanha, é ne-
cessário colocar o veterinário para trabalhar nela e
devolver a credibilidade para que os donos vacinem
seus animais. “Seria interessante o animal ser con-
sultado e vacinado dentro de um consultório, e não
no meio da rua.” A reação vacinal sempre pode
acontecer, algumas são de vírus
vivo, outras de vírus modificado,
mas é um produto biológico que
se introduz no organismo.

Regina Motta, veterinária


25 Outubro/2010
Uma esperança de cura
A raiva a é mais letal das doenças. Trata-se de criador do Protocolo de Milwaukee, que passou
uma encefalite viral aguda, que causa danos irrever- a ser adotado no Brasil. Esse método consiste em
síveis ao cérebro. Para se ter uma ideia, enquanto a utilizar medicamentos antivirais, analgésicos e se-
letalidade do famigerado vírus ebola assombrou o dativos com o intuito de levar o paciente ao coma
mundo algumas década atrás por matar mais de 80% induzido, para limitar a atividade cerebral, de modo
das pessoas contagiadas, a raiva mata, tecnicamen- que o vírus ataque somente o corpo do paciente.
te, 100% das pessoas após o início dos sintomas. Tec- Após 334 dias internado em Recife, Marciano está
nicamente porque, em toda a história, só foram do- com limitações para falar e para se locomover, pois
cumentados três casos em que a vítima sobreviveu as pernas estão atrofiadas.
após a manifestação da doença. Um destes sobrevi- O primeiro caso de recuperação após a utiliza-
ventes é o brasileiro Marciano Menezes Silva, de 16 ção do novo tratamento ocorreu em 2004, nos Esta-
anos, atacado no ano de 2008 por um morcego na dos Unidos, no estado de Wisconsin. Jeanna Giesa
zona rural de Floresta, interior do estado de Pernam- foi curada e hoje não apresenta sequelas, leva uma
buco, distante cerca de 500 km da capital, Recife. vida normal. Apesar do sucesso do Protocolo, uma
O tratamento ocorreu no Hospital Universitário menina colombiana de oito anos de idade morreu
Oswaldo Cruz (HUOC), em Recife. O sucesso se deu a de complicações após o tratamento, mas o óbito
partir de novas técnicas desenvolvidas pelo médico não foi causado pelo vírus, que foi vencido devido à
infectologista norte-americano Rodney Willoughby, eficácia da tecnologia da medicina.

E se alguém for mordido ou arranhado?


Recomenda-se que o local atingido seja lava- de incubação. Uma vez que a doença manifeste seus
do cuidadosamente com água e sabão e que a víti- sintomas, a letalidade é praticamente certa.
ma procure imediatamente uma unidade de saúde. Existem quadros sintomáticos variados da doen-
O início da doença é longo após a contaminação ça, mas os sintomas comuns a todos – homem e ani-
por mordida ou arranhão, sendo possível vacinar mais – são a salivação abundante, a mudança abrup-
e imunizar um indivíduo logo após o contato com o ta de comportamento, mudanças alimentares e, no
transmissor, antes que o vírus termine seu período caso dos animais, paralisia nas patas traseiras.

Na história
A palavra “vírus” tem origens na raiva. Em latim, ma extremamente agressiva, muitas vezes atacando
significa “veneno”, pois a saliva contaminada assim tudo e todos que estiverem à sua volta, com mordi-
era considerada, como o veneno das cobras. A do- das, arranhões, socos e chutes.
ença já é registrada pelo homem há milênios, mas Diante da inevitabilidade do óbito de um garoto
somente em 1504 foi descrita de forma correta pelo mordido por uma cadela raivosa, o já famoso cientis-
médico italiano Girolamo Fracastoro. ta francês Louis Pasteur decidiu aplicar a vacina para
A raiva aterrorizou a humanidade durante sécu- imunização que já vinha desenvolvendo, a qual tinha
los, principalmente em regiões habitadas por lobos, se provado eficaz em coelhos e cães. O garoto sobre-
que com sua força e agressividade chegavam a con- viveu e, devido ao sucesso da intervenção, o método
taminar uma dúzia de pessoas diretamente. Não é de se espalhou rapidamente pelo mundo. Ainda no final
se espantar que a doença fosse relacionada a forças do século XIX, já existiam centros de tratamento es-
satânicas, já que a pessoa contagiada reage de for- palhados pela Ásia, África, Américas e Europa.

Outubro/2010 26
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FOTO: Assoalho maciço de Alta Densidade Mesclado Carbonizado


Entrevista Roberto Trípoli

José Ricardo Alvarenga Trípoli está em seu sétimo Você tem cobrado explicações do Ministério da Saú-
mandato legislativo. Foi Vereador de São Paulo, quatro de por causa dos problemas de reações adversas na
vezes Deputado Estadual e reelegeu-se como Deputa- campanha nacional de vacinação antirrábica. Que
do Federal, em 2010, com 134.884 votos, tendo como respostas obteve até agora?
sua principal plataforma política questões ambientais, • Não recebi resposta ainda. A reação da va-
em especial a proteção animal. Foi Secretário de Meio cinação foi muito rápida e violenta, os animais não
Ambiente do estado de São Paulo, para o qual criou o estavam suportando, tendo choque anafilático, pro-
Código de Proteção Animal, e sua grande luta para o blemas respiratórios. Meu gabinete recebeu um
próximo mandato é a aprovação do Código Nacional grande volume de informações sobre o que estava
de Proteção Animal, projeto de sua autoria que tramita acontecendo em vários estados brasileiros. Eu liguei
no Congresso. Trípoli, que cobra explicações do Minis- para o Ministério de Saúde e não obtive informações
tério da Saúde sobre os problemas na campanha de via telefone, então fiz um ofício ao Ministro [José]
vacinação antirrábica, recebeu uma equipe de reporta- Temporão para que pudesse explicar por que a va-
gem da Revista Novo Ambiente para falar do assunto: cina estava provocando estas reações nos animais.
Outras informações que tivemos é que são dois tipos
de vacinas diferentes, pois havia sido comprado um
lote de um outro fabricante. O que chama a atenção
é que primeiro o Governo Federal suspende a vaci-
nação sem apontar os problemas que causaram essa
suspensão, além de não introduzir uma vacina nova
– afinal, estamos sob risco. Não há como aguardar
mais de 60 dias para o resultado das investigações fi-
carem prontos. Temos um problema eminente.

E se não houver resposta?


• Se não responderem, obviamente entrarei com
uma ação por crime de responsabilidade contra o
Ministro, porque cabe a ele responder. Os animais
brasileiros têm que ter guarida do Governo e devem
receber a atenção conforme determina a lei.
Fotos: Revista Novo Ambiente/Leonilson Gomes
Que suspeitas pairam sobre o medicamento utilizado?
• Conversei com vários veterinários e eles disse-
ram que esta vacina não era adequada para animais
de pequeno porte, outros disseram que esta era uma
vacina para bovinos. E se for realmente este o caso,
o resultado não pode ser outro senão o óbito diante
de uma dose tão grande em animais pequenos. Exis-
tiram cerca de 800 casos de reações adversas, mas o
número de óbitos pode subir muito mais, pois essas
informações que temos estão com um mês de defa-
sagem. Por que não adquiriram a mesma vacina utili-
zada sem problema nos anos anteriores?

A campanha nacional de vacinação perdeu credibi-


lidade? Quais são as consequências da suspensão
da vacina e da falta de informações para as futuras
campanhas?
• A informação correta é fundamental. Se o Go-
verno Federal tivesse uma reação rápida nas respos-
tas, seria mais fácil desmistificar o problema diante
da população. A longa demora nas respostas causou
um temor enorme. Nós recebemos um volume enor-
me de e-mails de pessoas apreensivas perguntando
se devem ou não levar seus animais para a vacina- Eles deviam ser legalmente considerados como
ção. Isso criou um grande trauma nas pessoas. Por membros da família?
outro lado, existem as pessoas que, por causa desse • Só para se ter uma ideia, na minha área pro-
medo, não vacinam seus animais, correndo o risco fissional, que é o Direito, acontece uma coisa muito
de que eles sejam infectados pela raiva. Essa demo- curiosa: um dos grandes entraves das separações ju-
ra na elucidação e nas orientações acaba por gerar diciais hoje em dia não é para as questões dos bens
desconfianças em todos os segmentos da saúde, seja materiais, é para saber com quem vai ficar a guarda
em relação aos animais, seja dos humanos. Se o Mi- dos animais domésticos. Existe até guarda compar-
nistério da Saúde não dá a atenção na dimensão exi- tilhada, em que o animal passa um final de semana
gida pelo problema, acaba perdendo a credibilidade com cada um dos donos que antes viviam juntos.
como um todo. Embora ainda não exista no Código Civil a figura do
cão ou do gato como um ser dentro das residências,
O Governo Federal tem se posicionado de forma a se faz esta guarda compartilhada informalmente.
entender o que os animais domésticos significam
para as pessoas? Quem teve um animal morto por causa da vacina-
• Os animais domésticos em boa parte do mun- ção pode processar o Estado?
do são vistos como um membro da família, eles ul- • Cabe um processo. A responsabilidade é do
trapassaram o limite de animais com os quais não Estado. Obviamente terá que ser comprovado que
existem relações de amizade e afeto. Para os idosos, o animal morreu por causa da vacina, o que não é
em especial, geralmente pessoas solitárias, eles se muito difícil, porque o próprio Ministério da Saúde já
tornam seus parceiros. Talvez o Governo não tenha admitiu e suspendeu a vacinação, por meio de seus
percebido a importância que se dá aos animais atu- testes e de seus relatórios. Cabe uma ação de res-
almente. A troca de afeto que se tem entre os ani- ponsabilidade contra o Estado pela perda de um ente
mais e os seres humanos é fantástica. Você pode ter querido. Imagine o trauma para uma criança que
brigado com a namorada, os familiares, os amigos, o cresceu com um animal e conviveu anos com ele e de
patrão, mas quando chega chateado em casa e abre repente vê o animal desaparecer de sua vida fora do
a porta, o animal está abanando o rabo para te rece- período de vida natural, justamente porque se teve o
ber, passando carinho e conforto para você. cuidado em vaciná-lo.

29 Outubro/2010
Tecnologia Satélites

Olhos
no céu

Outubro/2010 30
Foto: Revista Novo Ambiente/Leonardo Pepi

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tem papel fundamental


na observação dos recursos naturais brasileiros com a utilização de suas
tecnologias de sensoriamento remoto via satélite. A ferramenta permite
ver queimadas, secas de rios e seus efeitos, acompanhar o avanço do
desmatamento florestal ilegal na Amazônia e ainda enxergar ocupações
urbanas irregulares em áreas de risco – tudo graças a imagens transmitidas
do espaço. Com visões como essas, é inegável a relevância do Instituto
para o meio ambiente e o planejamento nacional.

S
ão muitos os satélites em órbita acima de
nossas cabeças, e suas utilidades são igual-
mente numerosas. Mas para o meio am-
biente brasileiro, os satélites contribuem de maneira
especial, graças ao Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais, o Inpe, vinculado ao Ministério da Ciência
e Tecnologia. A partir de projetos do Instituto, o Bra-
sil é único no mundo a realizar o monitoramento sis-
temático das florestas nacionais há mais de 20 anos.
O sensoriamento remoto, como é chamada a
tecnologia, além de detectar desmatamentos, tam-
bém permite a observação e coleta de dados e ima-
gens sobre queimadas, cheias ou secas de rios, áreas
agrícolas e urbanas.
“É observação da Terra”, explicou para a Revista
Novo Ambiente o chefe da Divisão de Sensoriamen-
to Remoto do Inpe, Milton Kampel. “Existem saté-
lites olhando para a Terra e outros olhando para o
espaço. O número de satélites é enorme, existem
classes de satélites de várias formas, em função de
sua resolução temporal, espacial, espectral, quantas
bandas ou canais possuem. Pancromáticos (geram
imagens em preto e branco ou tons de cinza, por
exemplo) ou multiespectrais (imagens em cores), e
ainda existem os radares. Podem captar concentra-
ção de clorofila, saúde das culturas agrícolas, área
destas atividades, mapeamento de cidades, uso e co-
bertura do solo, temperatura do ar, nuvens, dados de
ventos, ondas, aerossóis, enfim, é um número muito
grande de aplicações”, disse Kampel.
Com as queimadas que assolaram o país nos
meses de estiagem em 2010 (leia mais na edição 4
da Revista Novo Ambiente), o sensoriamento remo-
to do Inpe foi bastante solicitado, segundo o chefe
da Divisão. “Utilizamos imagens de sensoriamento
remoto para a prevenção e o acompanhamento de
queimadas, observando focos de calor, por exem-
plo. Neste tipo de sensoriamento de alta resolução
temporal, é possível detectar queimadas quase em
tempo real e emitir alertas, que são na verdade coor-
denadas destes pontos de calor para os órgãos com-
petentes”, ilustrou Milton Kampel.
Já com o uso de imagens de satélites com alta
resolução espacial (diferente da temporal), é possí-
vel detectar processos de urbanização irregulares
no uso e ocupação do solo. Um cruzamento destas
informações com outras provenientes de sistemas
de informações geográficas (SIGs) pode indicar a in-
clinação do terreno ocupado e, portanto, calcular a
declividade das encostas e os riscos de deslizamento,
“mas é importante saber se há intensidade de chuva
no período, vegetação e todo este tipo de informa-
ção”, acrescentou Kampel.

O Inpe produz relatórios anuais sobre o


desmatamento desde 1988, por meio do Programa de
Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes).

Outubro/2010 32
Tranferência de tecnologia
O pioneirismo do Inpe em sensoriamento remoto será
exportado para países tropicais no formato de curso. A me-
todologia desenvolvida para programas como o Prodes (Pro-
grama de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia, que
produz relatórios anuais desde 1988) e o Deter (Sistema de
Detecção do Desmatamento em Tempo Real, que faz rela-
tórios mensais desde 2004) é reconhecida pela comunidade
científica internacional, segundo Milton Kampel.
“Por conta da preocupação mundial em relação às mu-
danças climáticas e emissões de carbono, o exemplo do Bra-
sil através do Prodes e Deter, baseado em imagens de satéli-
tes, tem sido solicitado em outros países”, conta Kampel ao
lembrar que o Inpe criou recentemente o Centro Regional
da Amazônia (CRA) para assumir a responsabilidade por trei-
namentos para técnicos de países tropicais com o programa
TerraAmazon – sistema gratuito de monitoramento de flores-
tas desenvolvido pelo Instituto.
O CRA será capitaneado por Claudio Almeida, também
do Inpe, em Belém, no Pará, e contará com apoio de agências
internacionais como a Organização do Tratado de Coopera-
ção Amazônica (OTCA), a Fundação das Nações Unidas para
Agricultura e Alimentação (FAO) e a Agência de Cooperação
Internacional do Japão (Jaica).

Imagens para todos


Outro exemplo de pioneirismo do Inpe é a disponibili-
zação de milhares de imagens na internet, sem custo. Se-
gundo a assessoria de comunicação do Inpe, a oferta gra-
tuita de dados de satélites de média resolução ultrapas-
sou, em setembro, a marca de um milhão de imagens dis-
tribuídas pelo endereço <http://www.dgi.inpe.br/CDSR>.
A política de dados livres adotada pelo Inpe fez do
Brasil um exemplo mundial na área de observação da Ter-
ra, tornando o sensoriamento remoto uma ferramenta de
fácil acesso. O sucesso da iniciativa levou outros países,
como os Estados Unidos, a também disponibilizar gratui-
tamente dados orbitais de média resolução.
Exemplos como estes contrastam com parte das ob-
servações do chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto,
Milton Kampel, ao lembrar que “o Inpe tem enfrentado
um sério problema de não contratação nos últimos anos.
Não houve renovação do quadro de pessoas, o orçamen-
to do programa espacial brasileiro não cresce como gos-
taríamos de ver ele continuar crescendo”. E finalizou com
a reflexão: “O que justifica um programa espacial são os
benefícios para a sociedade.” Neste caso, parece que a
justificativa e os benefícios são muitos, mas as instâncias
superiores do setor público parecem não enxergar o fato
com a mesma clareza que as imagens dos satélites.

33 Outubro/2010
Turismo Região Sul

O pulo do gato
A expressão popular acima é velha, mas, se relacionada ao turismo
brasileiro, ela expressa muito bem o bom momento pelo qual ele está
passando e as ótimas perspectivas que tem diante da Copa de 2014 e as
Olimpíadas de 2016. A atividade – o turismo – nunca foi tão promissora,
e o país, além de belo, está cada vez mais bem preparado para receber
e satisfazer turistas de todo o mundo. Mas é necessário acertar o pulo.
A Revista Novo Ambiente percorreu o Sul do país para conhecer alguns
dos mais belos destinos turísticos dessa região.

O
s turistas estrangeiros deixaram quase
meio bilhão de dólares no Brasil no mês
de agosto, segundo o Banco Central. No
ano, foram quase U$ 4 bilhões. Se estes resultados
mostram que o setor cresceu muito no país, graças à
adoção de políticas eficientes como o Prodetur (que
já alocou R$ 2 bilhões em investimentos) e ousados
empreendimentos da iniciativa privada, seu horizonte
permite dizer que isso ainda é pouco diante do que o
turismo pode atingir, de forma sustentável, no Brasil.
O país ocupa hoje apenas a 45.a posição no
ranking de competitividade no setor de viagens e
turismo, segundo o relatório do World Economic Fo-
rum, realizado em Genebra em 2009.
Já foi pior. Há apenas dois anos estávamos na
59.a posição, o que demonstra também que esta-
mos avançando com rapidez nesta que pode ser uma
grande aliada para a sustentabilidade: “a indústria
sem chaminés”, que, se de imediato não garante
uma consciência socioambiental, ao menos gera a
necessidade de não se destruírem os atrativos natu-
rais, sob pena de acabar com o próprio meio de sus-
tento.
Diante das duas maiores vitrines mundiais – a
Copa de 2014 e as Olimpíadas no Rio em 2016 –, o
território nacional será vasculhado por olhos de todo
o planeta. O Brasil, bonito que só, cheio de encantos
para seduzir quem tem para gastar, deverá receber

Outubro/2010 36
cerca de 7 milhões de turistas estrangeiros no ano da A Revista Novo Ambiente percorreu o Sul do Bra-
Copa. Até lá, segundo as previsões mais modestas do sil para trazer às nossas páginas alguns destinos turís-
Governo, constantes no relatório “Turismo no Bra- ticos consolidados e outros que precisam de investi-
sil 2011-2014”, do Ministério do Turismo, mais de 6 mentos para se revelar viáveis. Lugares fascinantes de
milhões de brasileiros vão ganhar a vida trabalhando um país incrível. Biodiverso por excelência. Cosmo-
com turismo. Entre investimentos privados e nas três polita por criação. Nesse passeio pelo Brasil, menos
instâncias de governo, mais de R$ 17 bilhões devem dados estatísticos como os deste texto, mais obser-
ser aplicados em infraestrutura nos aglomerados ur- vações informativas pelo olhar de turistas que todos
banos das cidades-sede da Copa de 2014. somos fora de nossas cidades. Conversamos com au-
O crescimento econômico trouxe outro pilar que toridades, empresários, comunidade e turistas. Pro-
sustenta os bons tempos do turismo brasileiro: o turis- curamos levar ao leitor um pouco de informação que
mo familiar, que cresceu consideravelmente em função cerca essa altamente promissora atividade e, mais do
do aumento do poder de consumo da classe média. O que isso, procuramos trazer ao leitor dicas de lugares
número de hotéis deve crescer, pelo menos, 50% nos aos quais não podemos deixar de ir antes de morrer.
próximos quatro anos, ultrapassando os 30 mil – cresci- Na próxima edição, nossas equipes cruzarão
mento estimulado pelos mais de U$ 20 bilhões todo o belíssimo Nordeste Brasileiro.
em financiamentos de bancos federais
à iniciativa privada.

Foto: Revista Novo Ambiente/Leonilson Gomes


Turismo Rio Grande do Sul

Serra Gaúcha
Foto: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

A Serra Gaúcha tem motivos de sobra para merecer uma


visita. Além da geografia herdada do Criador, foi povoa-
da por imigrantes italianos. Eles trouxeram na bagagem
as características que deixaram o lugar ainda mais pito-
resco. Cidades como Gramado e Canela aliam charme
e romantismo à natureza para atrair as gentes. Outras,
como Bento Gonçalves, têm o vinho produzido com uva
da terra e engarrafados na origem como chamariz. Boa
comida, boa bebida, natureza e belezas de encher os
olhos dão o tom de quem vai à Serra Gaúcha.

Arquitetura e costumes europeus no Caminho das Pedras.

39 Outubro/2010
Gram ad o e
C ane la
Outubro/2010 40
A
s cidades apelam para
o sentido mais imedia-
to do ser humano. A
visão de quem chega a Gramado
e Canela pela primeira vez recebe
um bombardeio de cores e for-
mas. Tudo é feito e colocado cui-
dadosamente no seu devido lugar.
As construções, vitrines, jardins e
calçadas criam uma paisagem per-
feita e, para onde se olha, tudo pa-
rece ter saído de um cartão-postal.
Ao longo do ano, outros cenários
são montados para atrair os visi-
tantes. Além do famoso Festival
de Cinema de Gramado, outros
eventos turísticos e gastronômicos
são promovidos pelas duas cida-
des para manter o fluxo de turistas
constante durante os doze meses.
O Secretário de Turismo e De-
senvolvimento Econômico de Ca-
nela, Ditmar Bellmann, conta que a
maioria dos turistas vem para sentir
o frio do inverno ou então se encan-
tar com a magia do Natal. Entre os
meses de novembro e janeiro, tudo
é enfeitado e iluminado para rece-
ber cerca de um milhão de curiosos
quem vêm de diversas partes do
país e do exterior.
Juntas, Gramado e Canela têm
cerca de 70 mil habitantes. A proxi-
midade entre elas – 7 km de distân-
cia entre as áreas centrais – torna as
fronteiras praticamente imperceptí-
veis. Os três milhões de turistas que
visitam Gramado anualmente vão
também a Canela e vice-versa.

Centro de Canela.

41 Outubro/2010
Parque do Caracol
Se as regiões centrais de Gramado e Canela são
delicadamente planejadas e decoradas pela mão do
homem com o objetivo de chamar casais apaixonados
ou excursões da melhor idade em busca de aconchego,
é nos arredores que o trabalho da mão de Deus per-
manece quase intocado e atrai os ecoturistas. O mais
importante deles, o Parque do Caracol, tem cerca de 25
hectares e localiza-se dentro de uma Área de Proteção
Ambiental no município de Canela. O lugar conta com
trilhas ecológicas para observação da fauna e flora na-
tivas e uma casa preservada, construída no início dos
anos 1950, que serve como local para informações his-
tóricas, geográficas e da biodiversidade nativa.
Marcelo Daun veio de Minas Gerais com a namo-
rada para conhecer o Parque. O jovem casal conver-
sou com nossa equipe na Escada da Perna Bamba,
uma descida com mais de 700 degraus até a base da
Cascata do Caracol. “A descida faz jus ao nome da es-
cada. À medida que a gente vai descendo, vai fican-
do ofegante e com a perna balançando, mas a vista
é maravilhosa e a cachoeira é fantástica”, conta ele Entrada do Parque do Caracol.
pausadamente, enquanto faz respirações profundas.

Parque do Pinheiro Grosso


Perto dali, a 2 km do Caracol, a Prefeitura de Canela
está construindo a estrutura que abrigará o Parque do
Pinheiro Grosso. O nome homenageia uma araucária
de mais de 700 anos, provavelmente a testemunha viva
mais antiga dos acontecimentos daquele lugar.
O Secretário de Turismo Ditmar Bellmann explica
que a obra é uma estrutura definitiva para o Parque,
com uma passarela para os turistas poderem circu-
lar dentro da área. “Tivemos alguma dificuldade na
área por causa de uma recente invasão indígena. A
lei deles é diferente da nossa. Se alguém acender um
isqueiro lá, pode ir preso. O índio corta as árvores, faz
fogueira, acampa e ninguém pode fazer nada. Busca-
mos através da Justiça Federal a reintegração de pos-
se. E o pinheiro, que estava ameaçado, foi fundamen-
tal para garantir a reintegração”, explica Bellmann.
“Nosso turismo é baseado na natureza. O foco é
manter característica de cidade de interior, de cidade pe-
quena. Isso é trabalhado através de um projeto chamado
Canela Ecocidade, que é uma série de parâmetros defini-
dos pelo Conselho do Plano Diretor e Conselho do Meio
Ambiente e usados como diretrizes para as propostas
que o município implementa”, conclui o Secretário.

Outubro/2010 42
Sugestão de hospedagem

Gramado - Hotel Laghetto Siena


www.laghettosiena.com.br

Fotos: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

Vale dos Vinhedos


N
o Brasil, quando o assunto Vinhedos em Bento Gonçalves.
é produção de vinho de alto
padrão, todos os caminhos
apontam para o Sul. A procedência da mais
nobre das bebidas diz muito sobre a quali-
dade que ela tem. Como qualquer planta,
as parreiras têm suas preferências – neste
caso, clima, altitude, pressão atmosférica e
umidade, elementos que fazem toda a dife-
rença no aroma e sabor final do vinho.
Os imigrantes do norte da Itália, que
vieram para a Serra Gaúcha a partir de
1875, sabiam que as temperaturas mé-
dias e os 740 m acima do nível do mar
podiam propiciar vinhos tão bons quanto
os que eram produzidos em seu país. As
mudas, trazidas nas longas viagens pelo
oceano Atlântico, foram responsáveis
por transformar a paisagem que hoje é
conhecida como Vale dos Vinhedos.
Paisagem transformada e preservada
Fotos: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

Dezenas de vinícolas caprichosamente instaladas


às margens da estrada (ora de asfalto, ora de chão)
estão distribuídas em uma área dentro dos municí-
pios de Garibaldi, Monte Belo do Sul e Bento Gonçal-
ves (o maior deles). O território, com pouco mais de
80 km2, guarda muito mais do que preciosas garrafas
de vinho. Cerca de 26% das terras estão ocupadas
com vinhedos, 31% com outras culturas agrícolas e
os 43% restantes são de florestas.
O contato com o modo de vida rural é estimulado
pelas próprias vinícolas e também pelos hotéis estabele-
cidos dentro do Vale dos Vinhedos. Moysés Luiz Miche-
lon, Diretor de um dos principais hotéis do Vale, conta
que a vivência, o dia a dia do homem do campo virou um
importante atrativo da região. “O Complexo Turístico
Vale dos Vinhedos tem dois focos: turismo de lazer e tu-
rismo de negócios ou corporativo. Para este último, te-
mos um centro de eventos de 900 m2 e toda uma estru-
tura apropriada. Fora isso, atrações que vão desde uma
fazendinha, onde as crianças podem conhecer a cultura
do interior, a criação de galinhas, marrecos e ovelhas, até
um pomar com mais de mil plantas que dão frutas o ano
todo e que podem ser colhidas e consumidas no local.” O Complexo Turístico Vale dos
O hotel, que tem pista de trekking e acesso por tri-
lhas a 4,5 hectares de mata nativa, também disponibi-
Vinhedos tem dois focos: turismo
liza bicicletas aos hóspedes mais aventureiros. Quem de lazer e turismo de negócios ou
busca aprofundar o conhecimento da vitivinicultura corporativo. Para este último, temos
(produção de uvas e vinhos) vai encontrar o Memorial
do Vinho e um parreiral modelo projetado pela Em-
um centro de eventos de 900 m2
brapa Uva e Vinho. A história dos imigrantes italianos, e toda uma estrutura apropriada.
seus costumes e cultura estão contados na Casa do
Moysés Luiz Michelon, empresário
Filó, por meio de painéis, com fotos e textos.

Vinhedos em Bento Gonçalves.


Sugestão de hospedagem

Bento Gonçalves - Hotel Villa Michelon


www.villamichelon.com.br

Foto: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

Selo de Procedência
Hoje, vinícolas, hotéis, restaurantes e fabricantes
Em 1995, seis vinícolas se uniram e fundaram a As- de produtos artesanais somam mais de 30 associa-
sociação de Produtores do Vale dos Vinhedos (Aprovale) dos, todos familiares. O selo de Indicação de Proce-
com a intenção de criar uma denominação de origem, dência acompanha os produtos e tem espaço privi-
da mesma forma que acontece em Champagne, na legiado na fachada dos estabelecimentos. O Vale dos
França. O pedido foi encaminhado ao Instituto Nacional Vinhedos é o primeiro a conseguir este tipo de desig-
de Propriedade Industrial (Inpi) em 1998 e atendido em nação no Brasil. Os vinhos que levam o selo precisam
2001, depois de um levantamento histórico, geográfico ser produzidos com uvas provenientes da região e
e do potencial vitivinícola da região. engarrafados na sua origem.

Reconhecimento

Ano passado, uma criteriosa análise feita por 40 experts do mun-


do todo, entre eles um brasileiro, elegeu oito vinhos nacionais, to-
dos do Vale dos Vinhedos, entre os dez melhores do mundo para
a uva merlot. Foram avaliados vinhos varietais, ou seja, elabora-
dos com pelo menos 85% do mesmo tipo de uva.

47 Outubro/2010
turismo Santa Catarina
Foto: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak
Praia da Silveira.

Litoral
Catarinense
O litoral de Santa Catarina é uma das maiores riquezas do Brasil. Com
uma natureza incrível, a orla catarinense concorre sozinha com as praias
dos nove estados do Nordeste. Além da pesca, atrai turistas de todos os
tipos – dos que procuram praias selvagens e desertas até os que querem
as noites badaladas de Florianópolis e Balneário Camboriú.

49 Outubro/2010
A cidade com a noite mais agitada de Santa
Catarina guarda surpresas até para o mais
atento e calejado visitante. Balneário Camboriú leva
o título de Capital Catarinense do Turismo. E não é à
toa. A cidade tem pouco mais de 100 mil habitantes, Nós vivemos do turismo,
mas em 2009 recebeu nada menos que 4 milhões e é a nossa economia,
200 mil turistas. Só em janeiro deste ano, foram mais e é uma vergonha para
de 800 mil visitantes. É de se pensar no impacto que
essas centenas de milhares de pessoas que chegam o município que ainda
de um dia para outro causam em uma cidade. Para tenhamos poluição
isso, a Prefeitura tem que investir em conscientiza- no Pontal Norte.
ção e atendimento ao turista, transporte e, principal-
mente, em saneamento. Edson Dias, Prefeito de Balneário Camboriú
No último mês de setembro, a administração
municipal firmou convênio com a Caixa Econômica
Federal para obras no canal do Marambaia, que de-
semboca no canto norte da praia Central. Cerca de
R$ 13 milhões serão investidos para despoluição e
revitalização do canal. “Nós vivemos do turismo, é a
nossa economia, e é uma vergonha para o município
que ainda tenhamos poluição no Pontal Norte”, afir-
ma o Prefeito Edson Dias.

Outubro/2010 50
Fotos: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

Balneário
Camboriú

Orla de Camboriú.

Parque Unipraias
Quem gosta de mar e Mata Atlântica não pode
deixar de pegar o bondinho para o parque Unipraias.
O passeio, que dura aproximadamente 30min, é o
único do mundo que liga duas praias por bondinho. A
partida é da estação Barra Sul, na praia Central. Depois
disso, há uma estação no alto do morro da Aguada, de
onde se avista toda a cidade e as praias da região. A
terceira e última parada é na praia de Laranjeiras.
O parque Unipraias tem pouco mais de 200 mil m².
Destes, 130 mil m² são de área de preservação.

Praia de Laranjeiras
A praia de Laranjeiras é ideal para banho. Águas
calmas e limpas são o programa perfeito para a família,
que, além do mar, pode aproveitar a gastronomia do lu-
gar, que serve excelentes pratos à base de frutos do mar.

51 Outubro/2010
Florianópolis
Praias
M ais do que capital do estado, Florianópolis
é uma arca histórica e cultural do povo ca-
tarinense. Segundo a maioria dos historiadores, a an-
Com uma costa de 172 km, Florianópolis possui
mais de 40 praias. Algumas de águas mansas; outras,
tes chamada Nossa Senhora do Desterro recebeu em agitadas. De acesso fácil ou muito difícil. Na Joaquina,
1894 o nome que homenageou o imperador Floriano por exemplo, o turista tem estacionamento, chuveiros
Peixoto. A medida, imposta pelo próprio Império, pre- e restaurante. Já na praia de Naufragados, extremo sul
tendia dar cabo às revoltas que buscavam emancipa- da ilha, o acesso é por uma trilha (cerca de 1h30min
ção política. Contam os livros de História que Floriano de caminhada) ou de barco. Lá não existe infraestrutu-
sequer pôs os pés ali. ra, mas a natureza está totalmente preservada.
Florianópolis também é carinhosamente chama-
da de Ilha da Magia. Os mais desavisados creditam
o nome às belezas do lugar. Mas se buscarmos um Turismo de negócios
pouco mais a fundo, na cultura açoriana, vamos ou-
vir da fala cantada de um “manezinho” sobre as len-
das e os encantamentos que habitam a cidade. Florianópolis tem também um forte turismo de
Até hoje, manifestações culturais vinda da Ilha negócios. Um centro de eventos de 7.200 m², loca-
dos Açores estão bem vivas em “Floripa”. O boi de lizado no centro da cidade e que tem ao redor uma
mamão e a religiosidade, por meio da Festa do Di- boa rede hoteleira, recebe feiras, exposições e shows
vino Espírito Santo e do Terno de Reis, são algumas durante o ano todo. Dividido em dois pavimentos, o
delas. Isso sem falar no artesanato de rendas e na CentroSul possui ambientes para seminários, con-
culinária à base de frutos do mar. gressos e apresentações artísticas. O maior espaço
A cidade é culturalmente muito rica e possui di- tem capacidade para 2.560 pessoas sentadas. No fi-
versos teatros, galerias de arte e museus, que con- nal de outubro, receberá a 12.a Fenaostra – Festa Na-
tam a história de Santa Catarina. cional da Ostra e da Cultura Açoriana.
Foto: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

Vista noturna da Florianópolis.

Turismo acessível ma, Florianópolis recebeu em setembro o 1.o Semi-


nário de Turismo Acessível. Especialistas de diversas
partes do país estiveram na capital catarinense para
Cerca de 15% da população brasileira tem algum sensibilizar a comunidade acadêmica, profissionais e
tipo de deficiência. Estas pessoas também querem representantes do poder público acerca da adaptação
viajar, se hospedar em hotéis e conhecer lugares. En- dos ambientes de uso coletivo. Discutiu-se a concep-
tretanto, o mercado está pouco preparado para este ção de novos empreendimentos baseada nas premis-
público. Para discutir e buscar soluções para o proble- sas da inclusão social e desenho universal.

Cuidado com as bruxas

O ilhéu Franklin Cascaes (1908-1983), escritor,


pintor e escultor, conta que a cidade está infestada
de bruxas, porém elas passam despercebidas, dis-
farçadas de belas mulheres. Essa beleza, contudo,
não as impede de gorar pescarias, plantações ou
criações. Vale a dica: quando for a Florianópolis,
lembre-se de que, entre os pouco mais de 400 mil
habitantes, pode haver bruxas.

53 Outubro/2010
Vista de Garopaba.

Garopaba
U ma pequena cidade de 18 mil habitantes no litoral de Santa Catarina chama a aten-
ção para a explosão de turistas que a invadem entre o Natal e o carnaval. Nos meses
de verão, a população de Garopaba salta para 100 mil. E os visitantes vêm de vários estados e
também do exterior, principalmente da Argentina. Buscam descanso e badalação nas lindas
praias preservadas que cercam o município. Sol, águas transparentes, ondas perfeitas para
esportes náuticos, areia branca e gente “sarada” compõem o cenário da alta temporada.

Muita água, muito peixe e muito morro


O nome Garopaba é de origem indígena. Signifi- No inverno, as grandes ondulações vindas do sul
ca grande quantidade de água, peixes e morros. Até atingem a costa de Santa Catarina. O município de Ga-
a década de 70, a pesca artesanal era a principal ati- ropaba, que tem algumas das melhores praias do Brasil
vidade econômica. Ao longo dos anos, cada vez mais para a prática do surfe, tem também uma forte cultura
visitantes buscavam Garopaba. Quem não conhecia de pesca artesanal. E inverno em Santa Catarina é tem-
tinha curiosidade em conhecer, e quem já havia visi- porada de pesca da tainha. Até há alguns anos, as duas
tado queria voltar. Todo esse povo precisava comer, atividades entravam em constantes conflitos. Surfistas
beber e dormir. Assim surgiram restaurantes, hotéis morriam afogados, presos em redes de pesca, e acon-
e pousadas. Dos mais simples aos mais sofisticados, teciam diversas brigas entre os que queriam pegar on-
Garopaba tem hoje opções para todos os gostos e das e os que queriam pegar peixes. Hoje, um esquema
bolsos. O turismo ultrapassou a pesca e consiste hoje de bandeiras harmoniza as duas atividades. Quando as
na principal atividade econômica da cidade. condições para surfe estão perfeitas, os pontos de pesca
são liberados para os surfistas.

Surfe na praia da Silveira.

Outubro/2010 54
Do turismo à migração
O cenário montado no verão encanta os turistas
e os faz voltar sempre que podem. Alguns se apaixo-
nam a ponto de querer viver em Garopaba. É o caso
da gaúcha Simone Reichert, que está há dez anos
na cidade, onde também constituiu família. Simone
conversou com a Revista Novo Ambiente pertinho
de sua casa, na praia da Silveira. Enquanto a entre-
vista acontecia, a filha Ariela, de sete anos, construía
um castelo de areia ao lado da mãe. “A gente podia
estar trancado dentro de um apartamento assis-
tindo televisão. Em vez disso, estamos aqui nessa
manhã linda e ensolarada, curtindo a praia”, con-
ta a moradora, destacando a qualidade de vida que
tem. Na escola, Ariela aprende sobre a importância
da preservação da natureza e a limpeza das praias.
“Essa preocupação já existe desde pequeno. Alguns A cidade na baixa temporada
turistas também vêm com essa ideia, têm essa cons-
ciência, mas outros não, e acabam deixando seu lixo
na praia”, lamenta Simone. No verão, o movimento é intenso e a economia fica bas-
Na praia da Silveira, grande parte dos moradores tante aquecida. Mas na baixa temporada as coisas compli-
são de fora. “Nós temos uma associação e buscamos cam um pouco. “É pouco tempo de turismo para sustentar
medidas para preservar o lugar. A praia tem poucos o ano. A população tem dois meses de verão para ganhar
acessos justamente para que não haja uma explora- algum dinheiro. Fora isso, é preciso achar outros meios de
ção muito forte”, explica. sobrevivência”, conta a moradora da praia da Silveira.

Sugestão de hospedagem
Fotos: Revista Novo Ambiente/Leandro Dvorak

Garopaba - Morro da Silveira Eco Village


www.morrodasilveira.com
turismo Paraná

Foz do
Iguaçu

Cataratas do rio Iguaçu.


Foto: Revista Novo Ambiente/Leonardo Pepi

Foz do Iguaçu nasceu com um talento natural para o


turismo: as cataratas que deslumbram o mundo. Diante de
outras atrações criadas pelo talento humano, como a Usina
Hidrelétrica de Itaipu, a cidade hoje se consolida, segundo o
Ministério do Turismo, como a mais bem estruturada para o
turismo entre as não capitais em 2010. Após ter adotado uma
inteligente estratégia público-privada, a florescente economia
dá provas de maturidade e deixa a tríplice fronteira cada dia
mais bonita e sedutora para os turistas.

57 Outubro/2010
Foto: Revista Novo Ambiente/Leonilson Gomes

E
le havia percorrido quase 20 mil km, a clamação espontânea que mais se ouve do milhão de
maior parte a pé, e julgava ter visto de turistas que visitam as cataratas a cada ano, somente
tudo. Todos os tipos de feras, índios e aci- do lado brasileiro, em Foz do Iguaçu.
dentes geográficos. Estava boquiaberto, paralisado A diferença entre você e o Cabeza de Vaca é que
involuntariamente, mas não se sentia apavorado hoje também se pode ficar boquiaberto em lugares
por isso. Sua tez suada, castigada pelo sol e retaliada construídos ali pelo homem. Nesta região de tríplice
pela mata e seus insetos naquele momento era su- fronteira entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina, fica
avemente acariciada por gotículas brincalhonas que a megausina de Itaipu, a segunda maior do planeta,
subiam do vapor d´água, que criava densas nuvens que causou impactos definitivos na economia local e
ali, onde o rio rebentava de forma ensurdecedora. no cenário natural, transformando o Brasil em refe-
“São como trovões...”, pensou. Caía de muito alto, rência em autossuficiência energética, Foz do Iguaçu
caía por toda parte. A água troteava como milhões em cidade de porte e as Sete Quedas de Guairá em
de cavalos. Mesmo considerando-se um homem da objeto de lembranças, sobre as quais hoje se esten-
corte, conhecedor dos mais atualizados conceitos da de o grande lago Itaipu. A grandiosidade das barra-
ciência, diante das cataratas do rio Iguaçu o lendário gens é magnífica e parece ter sido feita sob a ótica
explorador Álvar Núñez Cabeza de Vaca considerou a de gigantes.
possibilidade de estar no lugar onde a Terra acabava.
A fronteira do mundo.
Passados 468 anos, a pessoa que chegar diante
das cataratas terá a mesma sensação do primeiro eu-
ropeu a entrar em contato com elas. A fronteira do Nesta região de tríplice fronteira entre
mundo é um desses lugares em que a natureza faz o o Brasil, o Paraguai e a Argentina,
homem rever sua arrogância ante um poder indomá- fica a megausina de Itaipu, a segunda
vel. Serviçais, quase 300 quedas d´água projetam um
fluxo ininterrupto e fascinante de água, um volume maior do planeta, que causou
fora da nossa capacidade de apreensão. É um titã na- impactos definitivos na economia
tural que diz: “Saiam da frente, estou oxigenando o local e no cenário natural.
planeta e não tenho tempo a perder.” “Uau!” é a ex-

Show de luzes na Usina de Itaipu.


Predestinado
Com seu grande talento para o turismo, Foz aca-
bou por criar outras atrações igualmente interessan-
tes, como o Parque das Aves, a Mesquita Muçulma-
na, as compras no Paraguai e na Argentina e uma
rede com mais de 100 hotéis que oferecem nume-
rosos serviços que mimam o cliente. São animados
programas de entretenimento (como rafting, ecotu-
rismo, atividades físicas, jantares, shows) para todas
as idades. O pecado mora ao lado para os amantes
dos cassinos, encontrados nas vizinhas Porto Iguazu
(Argentina) e Ciudad del Este (Paraguai). Foz do Igua-
çu é um verdadeiro oásis cercado de verde, ainda
que as fronteiras agrícolas avancem sorrateiramente
pela floresta subtropical. O Parque Nacional das Ca-
taratas do Iguaçu é um guardião das águas, da fauna
e da flora deste intocável quinhão do Brasil e protege
espécies ameaçadas.
A cidade é visceralmente ligada ao turismo, já que Parque das Aves.
praticamente não possui agropecuária, indústrias ou
mineração. Durante muitas décadas, Foz se viu entre
altos e baixos que devastavam a economia local e de- dade mais importante. Um modelo que apresenta
pois jogavam o que sobrava para os céus. Após muito resultados expressivos, como manter o número de
penar com a descontinuidade das ações por causa da visitantes acima de 1 milhão desde que foi adotado,
troca de governantes, a cidade dá um passo inteligen- mesmo diante da crise internacional, mas o objetivo
te ao adotar a gestão público-privada para sua ativi- é pelo menos triplicar esse número até 2014.

Cataratas do Iguaçu.

59 Outubro/2010
Acertando na parceria público-privada
Em 2007, o Prefeito de Foz do Iguaçu, Paulo Mac ficado a fiscalização e apreensão de mercadorias
Donald Ghisi, reuniu as entidades e os principais ilegais, traz mais sensação de segurança ao turista.
representantes da cadeia econômica do turismo e No entanto, a boa ação da PF teve um efeito colate-
promoveu uma inédita eleição de um secretário sem ral considerável antes de se passear pelo lado para-
ligações político-partidárias. Foi criada, então, uma guaio. Como o mercado dos sacoleiros recebeu um
estratégia de gestão integrada de turismo que tem se grande golpe com a eficiência da fiscalização, muitos
mostrado sólida. “Instituímos em agosto de 2007 uma que dependiam dele acabaram sem fonte de renda.
estratégia chamada ‘Foz do Iguaçu, destino do mundo’, Ouvimos alguns relatos de que a criminalidade au-
que preconiza ações de resultados trabalhando por mentou no lado paraguaio e que assaltos durante a
expertise. Nos últimos três anos, cerca de R$ 200 mi- noite em Ciudad del Este não são raros, e em cada
lhões foram investidos na construção e reestruturação quadra existe um segurança com seu armamento pe-
de hotéis, reformulação de frota e também na qualifi- sado à vista dos mal-intencionados.
cação de pessoal”, conta o Secretário de Turismo, Felipe
Gonzáles, o empresário eleito ao cargo por consenso.
A promoção como destino mundial colocou Foz de-
finitivamente no grupo de elite do turismo internacio-
nal. Foi mais de uma centena de ações de marketing em Nos últimos três anos, cerca de
29 países. Segundo o Estudo de Competitividade dos 65
destinos indutores do Desenvolvimento Turístico Regio- R$ 200 milhões foram investidos
nal de 2009, Foz do Iguaçu é a cidade mais bem estrutu- na construção e reestruturação
rada para o turismo entre as não capitais. O levantamen- de hotéis, reformulação de frota e
to, feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) a pedido do
Ministério do Turismo e do Sebrae Nacional, foi divul- também na qualificação de pessoas.
gado no dia 8 de outubro, em Brasília, pelo Ministro do Felipe Gonzáles, Secretário de Turismo
Turismo, Luiz Barretto. Foz ganhou 5 das 13 categorias
(acesso; serviços e equipamentos turísticos; aspectos
ambientais; capacidade empresarial; marketing e pro-
moção do destino).
Apesar de ser uma cidade onde em cada canto
se ouvem turistas e seus idiomas mais diversos, até
mesmo alguns dificilmente identificáveis, o turista
brasileiro é quem mantém a pujança do turismo em
Foz. “O mercado nacional ainda é o mais importante.
Em 2008, tivemos o recorde de visitas nas cataratas
do Iguaçu, com 1,15 milhão de turistas, em sua maior
parte brasileiros. Nosso objetivo é manter o cresci-
mento entre 5% e 10%, e é possível que ainda este
ano ultrapassemos o número de visitantes de 2008”,
diz Gonzáles, que recebeu uma equipe da Revista
Novo Ambiente em seu gabinete e também lembrou
que a ação da Polícia Federal (PF), que tem intensi-

Outubro/2010 60
Concorrentes como parceiros
“Existem eventos que promo- “O turismo de negócios mo- O hotel Rafain foi fundado por
vemos em nossos centros de even- vimenta todo o ciclo hoteleiro no Olímpio Rafain, um dos grandes
tos e levamos hospedagem para período de baixa de Foz do Iguaçu. pioneiros do turismo em Foz do
25 hotéis. Hoje, nós não os vemos Por isso a importância dos hotéis Iguaçu. Situa-se em uma avenida
mais como concorrentes, e sim terem centros de convenções, que que também recebe o nome do
como parceiros de negócios”, diz movimentam toda a cadeia de ser- patriarca da família gaúcha que se
Cândido Ferreira Neto, Diretor de viços de Foz do Iguaçu e cidades instalou na cidade de Foz em me-
Marketing e Vendas do Rafain Pala- vizinhas”, diz Cândido, que reforça ados do século passado. Sua loca-
ce Hotel, sobre o grande momento a capacidade estrutural da cidade. lização estratégica, suas enormes
pelo qual passa o turismo de Foz. “ Temos 20 mil leitos disponíveis to- e confortáveis instalações, seu
O Rafain possui nada menos que dos os dias em Foz do Iguaçu. Hoje atendimento poliglota, eficiente
43 salas de convenções hi-tech, in- recebemos 1,3 milhão de turistas, e simpático mantiveram o hotel
clusive a que é considerada a maior mas temos capacidade para aten- entre as melhores opções de hos-
dentro de um hotel no Brasil, para 4 der 3 milhões. Temos estruturas de pedagem na cidade nas últimas
mil pessoas, onde acontecem as be- transporte, de parques, gastronô- três décadas, e ele hoje é um im-
las e fartas festas de réveillon mais mica. Só falta desenvolver a ativida- portante indutor de crescimento
famosas da fronteira. de turística”, finaliza. econômico regional.

Existem eventos que promovemos


em nossos centros de eventos e
levamos hospedagem para 25
hotéis. Hoje, nós não os vemos
mais como concorrentes, e sim
como parceiros de negócios.
Cândido Ferreira Neto, Diretor de Marketing e Vendas do Rafain Palace Hotel

61 Outubro/2010
Campos
Gerais

Aregião dos Campos Gerais, que


tem como núcleo urbano a cidade
de Ponta Grossa, engloba beleza e
história únicas, mas não é classificada
pelo Ministério do Turismo como um
dos destinos turísticos indutores de
desenvolvimento regional.

Outubro/2010 62
Foto: Revista Novo Ambiente

E nquanto Foz do Iguaçu e Curitiba vivem tem-


pos áureos do turismo, outros roteiros pa-
ranaenses esperam sua vez para se consolidar, mas,
para isso, investimentos na infraestrutura e na divul-
gação são indispensáveis.
A região dos Campos Gerais, que tem como núcleo
urbano a cidade de Ponta Grossa, engloba beleza e his-
tória únicas, mas não é classificada pelo Ministério do
Turismo como um dos destinos turísticos indutores de
desenvolvimento regional. No entanto, entre os muni-
cípios localizados na região, 18 possuem belos atrativos
naturais e culturais. Esses municípios são, em sua maio-
ria, de pequeno porte, e o desenvolvimento do turismo
seria fundamental na oferta de postos de trabalho e no
fortalecimento das economias locais. Para se ter uma
ideia, enquanto a principal cidade da região disponibiliza
2 mil leitos em hotéis, Foz do Iguaçu disponibiliza um nú-
mero onze vezes superior.
Um dos exemplos da falta de infraestrutura está
na PR-153, conhecida como Rodovia do Talco. O
acesso a lugares como a Cachoeira da Mariquinha, o
Buraco do Padre e o Capão da Onça, áreas de beleza
ímpar, é péssimo. A estrada de terra fica deformada
pela grande quantidade de caminhões que por ela tra-
fegam e só é divertida aos mais aventureiros a bordo
de um veículo 4x4.
Uma das referências do turismo local, a Pousada
Juderi, fechou e, segundo proprietários vizinhos, suas
entradas foram tomadas pelo mato e a estrutura está
abandonada. Alguns empresários tentam trabalhar
em cooperativas, mas as dificuldades são muitas. Ain-
da assim, conseguem oferecer opções de qualidade
na Rodovia do Talco. “Estamos criando parcerias en-
tre empresários que querem explorar esse potencial
turístico. Mas as dificuldades em coordenar agendas,
interesses e níveis de comprometimento de cada um
dos interessados é grande”, conta Dryele Vriesman,
formada em Turismo, que abriu um encantador café
colonial na propriedade da sua família holandesa, a Fa-
zenda Nova Holanda. Dryele pretende fabricar embuti-
dos utilizando técnicas coloniais, o que incrementa os
atrativos, já que os turistas passam a ter contato com
os produtos da terra. É o caso da Adega Porto Brazos,
vizinha à Fazenda Nova Holanda, que produz deliciosas
bebidas, como vinho, licor e destilados feitos a partir
de amoras plantadas na propriedade. Outro parceiro é
a Xetá Experiências ao Ar Livre, que promove o ecotu-
rismo na região oferecendo passatempos como rafting
e atividades verticais (cachoeirismo, canionismo e ra-
pel), inclusive para grupos empresariais.

Vista do interior do Buraco do Padre.


Taça, a formação arenítica mais famosa do Brasil.

Um dos mais famosos car-


tões-postais do Paraná fica nesta
região, no município de Ponta
Grossa: a emblemática Vila Ve-
lha, um sítio geológico que apre-
senta formações intrigantes cau-
sadas pela erosão nos arenitos
vermelhos. O Parque Estadual de
Vila Velha foi tombado pelo De-
partamento Histórico e Artístico

v
do Estado do Paraná em 1966. A
visitação desordenada durante
décadas, somada ao vandalismo
que destruiu muitas peças im-
portantes, fez com que o Instituto
Ambiental do Paraná (IAP) tomas-
se duras medidas para preservar
este patrimônio. O trabalho de
revitalização e estruturação dei-
xou o Parque muito mais bonito,
porém fez com que a visitação
diminuísse acentuadamente. Na
verdade, o que mudou foi o perfil
dos visitantes. Antes, era um local
de encontro de pessoas da região,
que ali iam para fazer churrasco e
piquenique, muitas vezes sem ne-
nhum cuidado com o destino do
fogo e do lixo produzidos.
Hoje, a visitação só é feita
na companhia de um guia e não
se pode sair das trilhas para não

O Parque Estadual de Vila Velha


foi tombado pelo Departamento
Histórico e Artístico do Estado do
Paraná em 1966.

Outubro/2010 64
Fotos: Revista Novo Ambiente

Na região dos Campos


Gerais, existem mais
de 50 furnas, que são
definidas como “poços de
desabamento” pelo IAP.

Plataforma desativada no interior da Furna 1.

desgastar o arenito. Para chegar Lagoa Dourada, que seria uma meio à mata e entrar na cavidade
às formações rochosas, o turista “furna assoreada”. Antigamen- por meio de gigantescas forma-
deve deixar o carro no estacio- te, cogitava-se que as furnas, por ções como cavernas, mas que, por
namento do Parque e pegar um suas formações imponentes, po- sua extensão, mais parecem um
ônibus (eles saem a cada 10min). deriam ter surgido de quedas de portal de pedras construído por
Durante o trajeto a pé entre as meteoros. Hoje se sabe que são gigantes. Lá embaixo enxerga-se
formações, os visitantes podem cavidades causadas pela erosão, o céu por meio de um contorno
se deliciar com as formas de uma pelo curso subterrâneo de água redondo sustentado por paredes
garrafa esculpida na parede, de que as une. de pedra, que é a boca da furna,
um camelo deitado, com o impres- Na mais conhecida de todas, e os visitantes podem-se deixar
sionante perfil de uma índia e com chamada de Furna 1, um eleva- extasiar pela linda cachoeira que
a formação mais conhecida de to- dor panorâmico descia por mais surge no alto da furna e joga boa
das: a taça. Podem-se ver animais de 60 m até chegar a uma plata- parte do seu volume d´água em
ao longo da trilha, mas o ritmo forma sobre a parte inundada, um um sumidouro que alimenta os
meio “industrial” da visita de meia “lago” de intenso azul com mais lençóis que banham as furnas.
hora não permite tempo para a de 100 m de profundidade. Para Os Campos Gerais ainda pos-
contemplação que o lugar merece. a decepção dos turistas, o pesado suem outras atrações naturais,
Fica mais como um passeio rápido, elevador foi desativado por estar como o Cânion Guartelá (o 9.o do
mas que ainda assim compensa. claramente sobrecarregando os mundo em extensão), e comuni-
Dentro do Parque de Vila Ve- paredões que formam a furna. Po- dades de imigrantes, como Cas-
lha também se encontram Furnas rém, tanto essa desativação quan- trolanda. Apesar de carecer de
e a Lagoa Dourada, dois outros to a limitação às visitas foram me- estrutura adequada, vale muito
atrativos muito belos – embora didas acertadas, e, quem sabe, a pena conhecer a região, princi-
não tão atraentes, já que o turista tornem-se mais “soltas” à medida palmente para quem não espera
não pode interagir de outra for- que os visitantes tomarem consci- uma cadeia turística tão bem es-
ma senão contemplá-los a certa ência dos impactos que seu lazer truturada como a que existe em
distância. Na região dos Campos pode causar. Curitiba ou Foz do Iguaçu. São
Gerais, existem mais de 50 furnas, Outra furna, localizada fora passeios baratos, educativos e
que são definidas como “poços de do Parque de Vila Velha, já no muito emocionantes para aqueles
desabamento” pelo IAP. Dessas, distrito de Itaiacoca, é o belíssi- que tiverem sensibilidade no con-
quatro possuem estrutura de visi- mo Buraco do Padre. Neste, o vi- tato com a natureza em suas mais
tação, sendo uma delas a própria sitante pode pegar uma trilha em variadas formas.

65 Outubro/2010
comportamento Consumo Consciente

Responsabilidade
compartilhada
Um plano que conta com a participação de seis Ministérios pretende
nortear a sustentabilidade da produção e do consumo nacionais. O PPCS
está disponível no portal do Ministério do Meio Ambiente para consulta
pública e mostra-se uma agenda positiva para agregar esforços do
setor produtivo e da sociedade civil por um futuro com mais equilíbrio
ambiental e uso racional de recursos naturais. Um plano que, para
funcionar, precisa de mudanças de hábitos e culturas, e a iniciativa só pode
partir do indivíduo.

Q
uestionar se precisamos de cinco apare-
lhos de telefone celular, ou nove vagas
de garagem das quais pelo menos sete
ficam sem uso, ou ainda oito televisores espalhados Todos são usuários dos
pela casa é parte da ideia central do Plano de Ação recursos ambientais,
para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS), uma
portanto o Governo
iniciativa público-privada que aborda o consumo
consciente e menos voraz. Federal precisa dialogar
Na outra ponta do consumo está a produção, e, com todos. Vamos
portanto, cabe também aos produtores, à indústria,
para o debate com os
pensar seu futuro em uma sociedade em mutação,
preocupada com mudanças climáticas globais, su- setores, e o objetivo de
perpopulação planetária, excessos de resíduos e ho- encontros como este
rizonte incerto perante a mãe natureza. No Brasil, o
é aproximar a gestão
setor produtivo e a sociedade têm a oportunidade de
refletir e aprimorar desde já o PPCS. O Plano envolve ambiental pública com
seis Ministérios – Meio Ambiente; Ciência e Tecnolo- a gestão ambiental
gia; Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior;
corporativa.
Minas e Energia; Cidades; e Fazenda – e está em fase
de consulta pública. Izabella Teixeira, Ministra do Meio Ambiente

Outubro/2010 68
Apresentado pela primeira vez ao setor privado em São Paulo, durante
evento promovido pela Unilever e o Ministério do Meio Ambiente (MMA)
no início de outubro, o Plano, segundo a Ministra da pasta, Izabella Teixei-
ra, busca convergência entre todos os segmentos da sociedade. “Todos
são usuários dos recursos ambientais, portanto o Governo Federal
precisa dialogar com todos. Vamos para o debate com os se-
tores, e o objetivo de encontros como este é aproximar a
gestão ambiental pública com a gestão ambiental cor-
porativa”, disse a Ministra perante uma plateia
com industriais e representantes do setor
de varejo, como Carrefour, Wall Mart
e Pão de Açúcar.

69 Outubro/2010
Foto: Ascom

Para o Plano, a Ministra ressaltou três priorida-


des: promover a convergência entre temas da agen-
da ambiental; promover “links” e permitir que o
cidadão compreenda como as ações se ligam nesta
agenda e entenda o seu comportamento; e criar con-
dições para aproximar os setores público e privado.
“É impossível criar uma única regulamentação. Os
acordos setoriais serão feitos individualmente e da-
remos o caminho para construirmos o compromis-
so”, reforçou a Ministra Izabella Teixeira.
O PPCS apresenta-se como mais um passo, mais
um elo na corrente de tratados, planos e processos
rumo a uma economia de baixo carbono, e tal meta
não é possível sem mudanças nos atuais padrões de
produção e consumo. “O Plano é parte de um con-
texto internacional, de um esforço que vem desde a
Eco-1992 do Rio de Janeiro”, acrescentou a Secretá-
ria de Articulação Institucional e Cidadania Ambien-
tal do Ministério do Meio Ambiente, Samyra Crespo.
A intenção é, segundo a Secretária, ter o Plano
brasileiro referendado e discutido para a conferência
Rio+20, que se realizará em 2012. As diretrizes funda-
mentais abrangem temas como estilo de vida sustentá-
vel, gerenciamento de resíduos sólidos, manejo susten-
tável de recursos, design para a sustentabilidade, pro-
dução mais limpa e eficiência de recursos, transporte
sustentável, rotulagem ambiental e certificação, com-
pras públicas sustentáveis e mercados sustentáveis.
A Ministra Izabella Teixeira e o Presidente da Unilever Brasil, Kees Kruythoff.

Outubro/2010 70
Impactos de gigantes
Para se ter uma ideia do impacto e da responsa- bre o programa Por um Planeta mais Limpo e trazem
bilidade socioambiental de grandes grupos corpora- dicas de reciclagem e uso racional de água.
tivos como a Unilever ou o Grupo Pão de Açúcar, bas- O Presidente da Unilever Brasil, o holandês Kees
ta atentar para alguns de seus números. Kruythoff, falou para a Revista Novo Ambiente sobre
A gigante anglo-holandesa fatura US$ 51 bi- o que ele chama de “transformação sustentável da
lhões ao ano com negócios em mais de 100 países sociedade”: “Acreditamos que essa transformação
e atua em várias categorias, de cuidados pessoais a deve considerar não só o meio ambiente, mas tam-
alimentos, e possui dezenas de marcas no Brasil. Já bém a nutrição saudável e a autoestima das pes-
o grupo varejista brasileiro teve receita de R$ 26,2 soas”, disse. “A queda de 50% de consumo de água
bilhões em 2009, tem mais de mil lojas, 1,7 milhão na produção do Comfort Concentrado, por exemplo,
de metros quadrados de área de venda e 140 mil tem um impacto altíssimo no planeta, dada a magni-
funcionários. tude das vendas”, lembrou o executivo.
Outro dado sobre os impactos que negócios “Para nós, é fundamental fazer parte desse movi-
desta escala podem trazer à sociedade pode ser no- mento de diálogo que tem como objetivo maior aju-
tado nas palavras do Vice-Presidente da Unilever no dar a construir um novo modelo de desenvolvimen-
país, João Campos: “No mundo, 7 milhões de pesso- to, centrado no conceito de sustentabilidade. Que-
as usam nossos produtos a cada 30 minutos”, disse remos ajudar o Brasil a crescer e, ao mesmo tempo,
Campos durante sua palestra no encontro entre in- trazer benefícios para o planeta. Iremos dialogar com
dustriais, varejistas e o MMA. os consumidores para mostrar como pequenas ações
“Tornar um produto como o Omo mais concen- podem fazer uma grande diferença para construir
trado, por exemplo, reduz o consumo e aumenta a um futuro melhor, pois cada gesto conta. Todos nós
eficiência”, explicou Campos, que também destacou temos o papel de liderar individualmente e global-
a rotulagem ambiental do produto mais conhecido e mente”, finalizou Kruythoff. Está na ordem do dia a
lembrado da Unilever. Os rótulos do sabão falam so- nossa responsabilidade compartilhada.

71 Outubro/2010
72 Svetlana Maria de Miranda
advogada especialista em Direito Ambiental

Operações Consorciadas
Urbanas, por que não?
O meio ambiente artificial é compreendido
pelo espaço urbano construído, consistente
no conjunto de edificações (chamado espaço urbano
Entre essas diretrizes, deparamos com a figura
das Operações Urbanas Consorciadas, que consti-
tuem um conjunto de medidas coordenadas pelo
fechado) e pelos equipamentos denominados públicos Poder Público, com a participação de proprietários
(espaço urbano aberto). e moradores, a fim de alcançar, em uma determina-
Este aspecto está diretamente relacionado ao da região, melhorias sociais, valorização ambiental
conceito de cidade, que passou a ter natureza am- e transformações urbanísticas estruturais, garantin-
biental, não só em face do que estabeleceu a Consti- do, desse modo, que todos tenham existência digna
tuição Federal de 1988 ao preconizar como objetivos e que a propriedade tenha seu domínio exercido no
da política urbana a realização do pleno desenvolvi- interesse da sociedade e não apenas em face do inte-
mento das suas funções sociais e a garantia do bem- resse particular do proprietário.
-estar dos seus habitantes, mas, particularmente, o Nesse instrumento, o Poder Público delimitará a
Estatuto da Cidade, que, nesse contexto, instituiu área e elaborará um plano de ocupação, no qual es-
uma série de postulados e diretrizes com o escopo tarão previstos os aspectos essenciais, como a imple-
de nortear legisladores e administradores, não lhes mentação de infraestrutura, a nova distribuição de
indicando somente os fins a que se deve destinar a usos, densidades permitidas, padrões de acessibili-
política urbana, mas também evitando a prática de dade, entre outros.
atos que possam contravir os seus efeitos. Por esse motivo, as Operações Urbanas apresen-
tam um grande potencial de qualificação espacial
para as cidades, na medida em que permitem o tra-
tamento quase arquitetônico dos espaços urbanos,
sendo este dificilmente obtido apenas por meio do
Plano Diretor e do zoneamento, principalmente nas
grandes metrópoles.
Mas a pergunta que fica é: por que esse instru-
mento de política urbana, voltado para a estrutura-
ção inteligente dos espaços das cidades, ainda não é
amplamente utilizado pelo Poder Público?

Ilustração: Revista Novo Ambiente/Marco Jacobsen


Ilustração: Revista Novo Ambiente/Marco Jacobsen
Economia Balanços Sociais

Do que uma
empresa é feita

Outubro/2010 74
Ilustração: Revista Novo Ambiente/Marco Jacobsen

Um tipo de documento elaborado pelas empresas permite à sociedade


visualizar e conhecer os impactos de suas atividades – positivos ou negativos
– nas comunidades e no meio ambiente. O Balanço Social ou Relatório
de Sustentabilidade é uma forma de mostrar a todos que a empresa não
trabalha apenas para lucrar ou aumentar as vendas. Também indica ações
de compensação ambiental, investimentos em inovação e tecnologia, e
qualidade de vida. Ali é possível ver como a empresa se relaciona com a
sociedade e com a natureza.
V
ocê já se perguntou que impactos o fabri- que, desde os anos 1970, empresas de países como a
cante de sua televisão causa no meio am- França já apresentavam Balanços Sociais.
biente na hora de produzir o aparelho, ou “A ideia do Balanço Social no Brasil é mais recente.
que benefícios o produtor da carne de que você tanto Tudo o que se conhecia sobre Balanço Social estava nas
gosta gera na comunidade ou região em que está ins- estantes das universidades, resultado de pesquisas e de
talado? E a organização necessária para levar energia estudos com base nas experiências de outros países. No
elétrica até as tomadas da sua casa? Já imaginou como final da década de 80 e no início da de 90 foram publica-
ela é composta, quantas pessoas nela trabalham, que dos os primeiros relatórios de Balanço Social”, aponta o
empresas formam essa rede desde a produção, passan- estudo. Ainda segundo Brás, em 1997, graças à atuação
do pela distribuição, até a venda da energia que lhe per- do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, a bandeira
mite acender uma simples lâmpada? do Balanço Social ganhou força entre o empresariado
Talvez agora você esteja se perguntando onde pode nacional, por meio de modelo do Instituto Brasileiro de
encontrar tais informações ou até mesmo se elas exis- Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
tem. Sim, existem e estão disponíveis na forma de rela- Pouco mais de uma década depois, os avanços sur-
tórios – os Balanços Sociais ou Relatórios de Sustentabi- gem na forma de conscientização e atenção crescentes
lidade – nos sites das empresas. quando o assunto é gestão ambiental corporativa no
As empresas nacionais e internacionais aqui insta- Brasil. Segundo a Diretora-Presidente da editora Análise
ladas já perceberam a crescente importância desses do- Editorial, Silvana Quaglio, em sua apresentação sobre
cumentos como forma de garantir uma boa percepção o Anuário Gestão Ambiental 2009 – um levantamento
de suas atividades perante a sociedade e os grupos que elaborado pela editora desde 2007 com dados de 835
influem diretamente no seu desempenho organizacio- das maiores empresas e 14 dos maiores bancos do país
nal – os chamados stakeholders. –, “tem aumentado o grau de formalidade com que as
Mas nem sempre foi assim no Brasil se comparar- empresas tratam a variável ambiental”.
mos com outros países, sobretudo da Europa. O es- Este aumento do grau de formalidade no trata-
tudo A Importância do Balanço Social como Instru- mento das questões ambientais favorece diretamente
mento de Análise da Ação Social da Empresa, mono- a qualidade das informações presentes nos Balanços
grafia de Roberto Ruivo Brás apresentada ao Curso Sociais, já que estas passam a ser registradas formal-
de Especialização em Administração de Empresas, mente. “A maioria das empresas que responderam ao
COGEAE – Escola de Negócios, da Pontifícia Univer- questionário (para o Anuário 2009) afirmava conhecer
sidade Católica de São Paulo, e orientada pelo pro- os impactos ambientais de seus processos, atividades e
fessor Eduardo Fernandes Pestana Moreira, mostra serviços de maneira documentada”, afirma.

O número de empresas
que publicaram Balanços
Sociais no modelo Ibase
aumentou 26 vezes
entre 1996 e 2003, o que
evidencia a importância
dada ao documento a
partir dos anos 2000.

Outubro/2010 76
Padronização
Como a maioria dos relatórios e balanços do mun-
do corporativo, existem modelos de padrões para a ela-
boração dos Balanços Sociais. O modelo nacional mais
conhecido é o do Ibase, que costuma ser adotado por
boa parte das companhias brasileiras.
Outro modelo que ganha força por seu reconhe-
cimento mundial é o da entidade internacional Global
Reporting Initiative (GRI), considerado o único padrão
global de divulgação de informações financeiras, am-
bientais e sociais.
O padrão GRI, entretanto, nem sempre é adotado,
por causa de sua complexidade. No portal da entidade,
é possível baixar o manual de uso da metodologia em
português, que tem mais de 200 páginas e especifica 79
indicadores econômicos, sociais e ambientais que de-
vem constar no balanço. Por outro lado, o modelo Ibase
é consolidado no Brasil e, apesar de seu não reconhe-
cimento mundial, traz a vantagem da simplicidade na
elaboração e mais de uma década de desenvolvimento.
O modelo Ibase conta ainda com um portal com ban-
co de dados (www.balancosocial.org.br) com o modelo
disponível e dados de Balanços Sociais de mais de 360
empresas.

Para que serve o Balaço Social?

• Evidencia, com indicadores, as contribui-


ções à qualidade de vida da população e ao
meio ambiente.

• Apresenta os investimentos em pesquisa,


inovação e novas tecnologias.

• Amplia o grau de confiança da sociedade na


empresa.

• Revela as estratégias de sobrevivência e


crescimento da empresa para o futuro .

• Forma um banco de dados confiável para


análise e tomada de decisão dos stakeholders
(investidores, por exemplo).

• Mostra o grau de gestão participativa.

Fonte: Monografia A Importância do Balanço Social como


Instrumento de Análise da Ação Social da Empresa (PUC-SP)
fauna Insetos

Outubro/2010 78
Foto: Istock

Cuidado, não pise


na entomofauna!
Eles são legais, mas não são nada populares.
Muitas vezes recebidos às sapatadas, os
insetos, belos ou repugnantes, e sua cadeia
alimentar, que envolve bactérias, fungos e
outros microrganismos, sofrem calados, pois
são os últimos a ser considerados em cada
impacto. Mas formam um universo tão delicado
e complexo, que nem uma única flor nasceria se
eles deixassem de existir.

S
ão decompositores e vezes maior. A cada pesquisa um
base da cadeia alimen- pouco mais aprofundada, seja em
tar. Dispersores de se- qual bioma brasileiro for, uma pe-
mentes e pólen, fertilizadores e quena área estudada revela uma
oxigenadores. Os insetos traba- efusão de espécies desconheci-
lham como paulistanos e ninguém das. “Sou especialista e não con-
os enxerga. Quando da avaliação segui identificar, então é neces-
das queimadas, eles, os mais afe- sário fazermos um novo registro
tados, sequer são citados nos no- e uma descrição desse grupo”,
ticiários entre as baixas animais. diz Maria de Fátima Vieira, pes-
Nossa entomofauna, ou seja, quisadora do Instituto Nacional
o mundo dos insetos, é pouco de Pesquisas da Amazônia (Inpa/
estudada. O Ministério do Meio MCT), que revela ter encontrado
Ambiente (MMA) estima que, no possivelmente uma nova espécie
Brasil, existam mais de 10 milhões de gafanhoto, o Schistocerca, em-
de espécies de insetos diferentes, bora ele pertença a um grupo de
mas esse número pode ser muitas praga muito vasto.
As abelhas realizam um importante trabalho de polinização.

Fotos: Revista Novo Ambiente/Oberti Pimentel

Maria de Fátima e outra pes- seu comportamento ao longo do A equipe também observou um
quisadora, Leonor Cristina Silva tempo e em relação às plantas que besouro da espécie Epicauta, um
Souza, são responsáveis pelo es- estavam sendo plantadas para o melóideo que produz a cantaridina,
tudo “Entomofauna de jazidas e reflorestamento. Constatamos um uma substância química estudada
viveiros de Urucu (AM)”, iniciado saber já confirmado pela ciência para o combate de células cancerí-
em 2004 com o objetivo de reunir de que, por exemplo, a leguminosa genas e bastante procurada pelos
informações sobre a composição ingá utilizada nas áreas de reflores- pesquisadores da biotecnologia.
da entomofauna em plantios de tamento vive bem com as formigas Estudiosos observam que,
idades diferentes, determinar a e uma colabora com a outra para quanto maior a variedade de in-
riqueza e abundância dos grupos fazer com que o ambiente possa setos em um determinado ecos-
de insetos selecionados e verificar voltar ao seu estado quase nor- sistema, mais bem estruturada é
o comportamento alimentar me- mal”, afirma Maria de Fátima. a cadeia alimentar, e quase sem-
diante a utilização de iscas na re- A pesquisadora aponta, ainda, pre existe um número menor de
cuperação de áreas degradadas da que as formigas são consideradas indivíduos e um número maior de
Base Operacional Geólogo Pedro as engenheiras do solo, regeneran- espécies. As cadeias mais sensíveis
de Moura (BOGPM). do-o por meio da criação de minús- são aquelas que possuem muitos
“As formigas são numerosas culos canais, por onde também a indivíduos de poucas espécies, que
e verificamos tanto a diversida- água se infiltra. Perfuram solos de- muitas vezes, sem o controle natu-
de como a riqueza: a quantidade, gradados nos quais nem o maqui- ral de sua população, acabam por
quem são elas e depois traçamos nário pesado consegue penetrar. se tornar pragas.

Outubro/2010 80
82 Delson Amador
engenheiro eletricista

A energia dos átomos


E la é quase sempre associada apenas ao seu
potencial destrutivo. É fato que muitas má-
quinas de guerra dependem dela para existir, desde
Desmistificadas lá, porém herméticas no Brasil, as
considerações sobre a produção energética nuclear es-
tão associadas também a incidentes que sequer estão
os mais modernos submarinos às ogivas remanes- relacionados à operação de usinas, como o famigerado
centes da Guerra Fria, que equilibraram o mundo na acidente com o Césio-137 em Goiânia, que ocorreu por
ponta dos dedos de alguns poucos chefes de estado. falta de destinação adequada de material radioativo.
Porém, ela possui inúmeras aplicações, que suplan- Não bastassem as resistências da opinião pública rela-
tam, e muito, suas facetas beligerantes; afinal, é tão tivas à “reputação” desse tipo de geração, justamente
perigosa quanto o uso que fazemos dela. Solução por ser pouco explorada, há ainda divergências quanto
limpa, custo eficiente e com baixo impacto relativo à à forma como se administraria essa alternativa energé-
geração obtida, a energia nuclear vai além dos enre- tica, se por meio de entidades e empresas estatais, se
dos dos enlatados de ficção científica. Mais que futu- pela iniciativa privada. O controle da tecnologia do ciclo
rística, é uma solução de futuro. deve estar sob as mãos do Estado ou de grupos empre-
Segundo dados da Comissão Europeia, quan- sariais? E o aspecto de segurança – por que não nacio-
do o assunto é energia elétrica, 27,8% da geração nal – que esbarra nesta mesma interrogação? Os EUA
de todos os 27 países da União Europeia se dá por adotam um modelo gerenciado pela iniciativa privada,
meio de fontes nucleares. Um índice bastante alto, porém com forte regulação e fiscalização. Ele seria apli-
considerando que cerca de 16% do total de energia cável em nossa realidade?
gerada no mundo é deste tipo. Cabe ainda ressal- Vejo com bons olhos o crescente interesse sobre
tar a participação nuclear na matriz energética de o tema, em parte gerado pela liberação da construção
países como França, 77%; Lituânia, 64%; e Ucrânia, de Angra 3, e deixo aqui minha contribuição para a Re-
48%. Cabe acrescentar que, em volume de produ- vista Novo Ambiente, à guisa de sugestão de assunto
ção, também os Estados Unidos ocupam posição a ser mais detalhadamente explorado, pois, no geral,
de destaque neste setor. Tomemos por exemplo a mesmo as classes dirigentes têm uma visão stricto
França, com seu altíssimo percentual de utilização sensu sobre ele. Nada mais adequado a uma linha
do modal. A origem de sua energia não é um “tabu”, editorial que faz destas páginas um verdadeiro fórum
nem tema de discussões acaloradas, nem de gran- de discussão sobre desenvolvimento e sustentabilida-
des traumas. Também não há questionamentos de, uma vez que está em jogo a manutenção de uma
quanto à segurança de suas termoelétricas nuclea- matriz energética invejavelmente limpa que pode e
res, algumas, inclusive, instaladas em regiões fron- deve contar com mais alternativas e soluções de base
teiriças com outros países. igualmente de baixo impacto relativo.
Ilustração: Revista Novo Ambiente/Marco Jacobsen
Biodiversidade COP 10

Na prática,
a teoria é outra
O planeta vai discutir o destino da natureza viva e, com isso, boa parte
do que reserva o futuro da humanidade. A 10.a Conferência das Partes
da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 10) vai reunir 193 países
para debater e avaliar a biodiversidade do mundo. O Brasil é considerado
o país mais rico do planeta neste aspecto, mas ainda existe um grande (e
urgente) caminho a ser percorrido para transformar a pose de exemplo
ambiental em ações práticas e eficientes.

D
etentor de nada menos que uma quinta
parte de toda a biodiversidade do plane-
ta, o Brasil vai a Nagoya, no Japão, para
participar da COP 10 como a maior potência no que
se refere à variedade de espécies na natureza viva.
Fazemos parte do grupo de 17 países chamados me-
gadiversos, que juntos concentram cerca de 70% das
espécies catalogadas até agora.
A verdade é que apenas uma pequena parte da
fauna e da flora mundiais é conhecida. Hoje existe
cerca de 1,7 milhão de espécies cadastradas, mas as
organizações ambientais e cientistas dizem que isso
não representa nem 10% do total. Estimativas da Or-
ganização das Nações Unidas (ONU) apontam que po-
dem existir mais de 100 milhões de espécies, e muitas
delas estão desaparecendo sem sequer serem co-
nhecidas pela ciência. Diante disso, é fato que o Brasil
carece de pesquisadores na proporção do território
nacional para estudar o patrimônio natural.

Outubro/2010 84
Fotos: Revista Novo Ambiente/Oberti Pimentel

Tamanduá-bandeira atropelado na MS-040, próximo


a Brazilândia, cena comum registrada pelas equipes da
Revista Novo Ambiente nas estradas brasileiras.

85 Outubro/2010
Entre os dias 18 e 29 de outubro, participam do
evento 193 países filiados à Convenção sobre Diver- Contradições no discurso
sidade Biológica (CDB), dentro do cronograma da
ONU, que estabelece 2010 como o Ano da Biodiversi-
dade. Serão 12 dias fundamentais para o futuro pró- A perda acelerada de biodiversidade tem preo-
ximo e para as próximas gerações, nos quais serão cupado porque seu equilíbrio é fundamental para a
avaliados resultados de um acordo de conservação agricultura, o abastecimento de água, a extração de
ambiental assinado em 2002, durante a COP 6, rea- madeira, a qualidade do ar. Na fabricação de remé-
lizada na Holanda. dios, a importância da biodiversidade é ainda mais
Em janeiro, uma reunião pré-COP 10, em Curitiba, nítida. Segundo a ONU, cerca de 75% dos remédios
“nomeou” o Brasil como um dos países-chaves nas são consumidos tal qual o eram na Idade Média, ou
negociações da Conferência. Em Nagoya, serão tra- seja, não precisam ser industrializados. Existe mui-
tados temas como ocupação desordenada de áreas ta vontade e engajamento, mas as contradições no
naturais, caça e comércio ilegal de espécies, poluição discurso não são difíceis de identificar. O Brasil segue
de rios e mares, entre outros. As áreas de proteção se- como uma referência em preservação (embora seja
rão um dos principais focos das discussões. Segundo a apenas um dos “menos piores” do mundo), mas a
União Mundial pela Natureza (IUCN), menos de 2% da ineficiência em combater os incêndios que devasta-
superfície do globo está dentro de áreas protegidas.
No Brasil, são cerca de 70 milhões de hectares, o que
corresponde a 8% do território nacional.
O WWF-Brasil, uma organização não governa-
mental brasileira dedicada à conservação da natu-
reza, criou uma lista como sugestão para o governo
brasileiro alcançar, ainda em 2010, as metas de co-
bertura natural protegida por unidades de conserva-
ção estabelecidas pela CDB. O governo brasileiro se O governo brasileiro se
comprometeu a garantir a cobertura, por unidades comprometeu a garantir a
de conservação, de 10% em cada bioma (conforme a
área original) e de 30% na Amazônia. Hoje, somando cobertura, por unidades de
todas as unidades existentes no país, ainda resta pro- conservação, de 10% em cada
teger aproximadamente 2,5% do território nacional bioma (conforme a área original)
em área terrestre e 8,5% em área marinha.
As regiões sugeridas são a Reserva Extrativista Bai- e de 30% na Amazônia. Hoje,
xo Rio Branco – Jauaperi (Amazonas), o Parque Nacional somando todas as unidades
dos Lavrados (Roraima), o Parque Nacional Chapada dos existentes no País, ainda resta
Veadeiros (Goiás), o Parque Nacional Boqueirão da Onça
(Bahia) e outras unidades no cerrado do Amapá, no Ta- proteger aproximadamente 2,5%
buleiro do Embaubal (Pará), no Croa (Acre), no extremo do território nacional em área
sudoeste do Pantanal e em Bertioga, São Paulo. terrestre e 8,5% em área marinha.

Fotos: Revista Novo Ambiente/Leonilson Gomes


ram as áreas de proteção ambiental neste ano mos- duas décadas, quase 10 mil baleias minke foram aba-
tra que temos que ser um exemplo muito melhor. A tidas para “pesquisas”. A ira das organizações am-
agonia do cerrado em chamas foi fartamente docu- bientalistas se acentua pelo fato de que o consumo
mentada por fotos, filmagens e relatos das equipes da baleia pela população japonesa tem caído drasti-
da Revista Novo Ambiente (ver edição 4). camente, por opção, o que, portanto, não justifica a
Já o país que sediará o mais importante evento caça por motivos de força maior.
sobre biodiversidade do planeta não tem como var- O Japão tem utilizado dinheiro dos contribuintes
rer suas sujeiras para debaixo do tapete, mesmo por- para salvar a indústria baleeira da falência por diversos
que elas são grandes. A prática de caça às baleias é anos seguidos. Ainda assim, o governo japonês conti-
uma tradição nipônica desde a Idade Média, e, para nua irredutível, mas certamente receberá doloridos
burlar uma determinação internacional contra a caça puxões de orelha durante o evento. Outros países de-
aos cetáceos, o Japão criou um esquema para que os senvolvidos, como a Suécia e a Islândia, também pra-
baleeiros levassem consigo o status de representan- ticam a caça à baleia em escala industrial, incorrendo,
tes da “pesquisa científica”, uma fachada tão convin- assim, em um crime internacional e baixas muitas vezes
cente quanto cenários de papelão, por meio da qual insubstituíveis o planeta, já que a vida marinha tem de-
o governo ainda subsidia a carnificina. Nas últimas clinado muito rapidamente nas últimas décadas.

87 Outubro/2010
LITERATURA Mercado

Mudanças
no clima das ideias
A mudança climática evidenciada pela comunidade científica e organizações
internacionais acaba por gerar outra mudança: a forma de a economia encarar
a vida no planeta. O livro O que os economistas pensam sobre sustentabilidade,
organizado por Ricardo Arnt, traz a opinião de 15 representantes brasileiros da
área, em formato de entrevistas.
S
ão ideias novas, críticas e afirmações que, um dos entrevistados, Antonio Delfim Netto, coloca
apesar de óbvias, merecem seu destaque, com bastante propriedade alguns pontos em relação
como a frase de André Lara Resende presen- ao Brasil: “Convencer o sujeito de que continuar pobre
te no sumário da publicação: “A coisa mais disfuncional é ótimo me parece uma tarefa difícil. Nos países que já
do mundo hoje é o automóvel”. Pessimistas ou aparen- atingiram certo nível de crescimento, não sei. Num país
temente otimistas demais, como a frase do ex-Ministro como o Brasil, que tem o nível de renda per capita que
da Fazenda, Mailson da Nóbrega, segundo o qual “pro- tem, é inimaginável. O que precisamos é chegar no nível
vavelmente a gente vai ver competições de natação per capita da Noruega sem destruir o que sobrou.”
no rio Tietê algum dia”, as ideias presentes no livro são A leitura coloca diante do leitor respostas variadas
uma boa oportunidade para os leitores curiosos em e interessantes, como a de Luiz Carlos Bresser-Pereira:
relação aos temas sustentabilidade, desenvolvimento, “Temos de caminhar para compatibilizar o desenvolvi-
crescimento econômico, e meio ambiente. mento econômico, a melhoria dos padrões materiais
Em essência, a antologia incita os entrevistados de vida com a sustentabilidade do ambiente. Acho
a expressar suas opiniões acerca do que consideram que isso é possível, mas implica num processo de co-
“desenvolvimento sustentável”, conceito proposto operação muito grande e enquanto o mundo estiver
pelas Nações Unidas em 1987 no relatório Our Com- dividido em Estados-Nações será complicado”. Ou
mon Future (Nosso Futuro Comum), também conhe- a resposta do Diretor Executivo da Rio Bravo Investi-
cido como Relatório Brundtland. mentos e ex-Presidente do Banco Central, Gustavo
Para o relatório, o desenvolvimento sustentável é Franco: “Muitas empresas procuram práticas ditas
“aquele que procura atender às necessidades e aspira- sustentadas (...), mas o problema ambiental tem múl-
ções do presente sem comprometer a capacidade de tiplas dimensões e eu, francamente, às vezes tenho a
atender às do futuro”. A partir daí, surgem alguns ques- sensação de que poderíamos fazer mais do que, sei lá,
tionamentos: como continuar crescendo economica- um cartão de visita reciclável, ou coisas desse tipo.”
mente sem afetar a natureza ou esgotar seus recursos O debate da coletânea de entrevistas, por fim,
naturais? Ou como distribuir renda para diminuir de- permite ao leitor mais atento captar algumas ten-
sigualdades sociais sem crescer? E como viver em uma dências ou questões que podem revelar, até mesmo
economia de emissões reduzidas de carbono e se desen- nas palavras mais pessimistas, uma esperança para o
volver simultaneamente? Sem dar uma resposta exata, futuro socioambiental da humanidade.

89 Outubro/2010
90 Edemar Gregorio
escritor e jornalista

Sobre a vivência do mais


apto na fauna política
D iante da imensa cachoeira que se precipita
à sua frente, uma visão privilegiada de um
lugar na mata cuja trilha para se chegar só ele conhe-
presente empacotado de forma ordinária por um jo-
vem e que nunca mais seria aberto.
Porque não sentia saudades. Não sentia remor-
ce. Seus pensamentos mergulham. Ele oscila entre o sos. Não se sentia influenciável por sentimentos pas-
desejo de misturar-se na brancura das águas e a ne- sados. Estava pronto para fazer o que faz. Frases pron-
cessidade de voltar. O caminho de volta vai afastá-lo, tas que causaram mais efeitos na vida política nacional
talvez pra sempre, de uma Foz do Iguaçu que já foi do que leis inteiras. “Ao contrário do que nos querem
mais receptiva aos seus devaneios. fazer crer, é na tríplice fronteira que o Brasil começa,
A ironia do destino era quase engraçada, o fazia não onde termina”, dizia ele amiúde, para um público
retornar a paisagens de uma nostalgia reconfortante tão jovem quanto carente de líderes.
e amarelada, como as fotos que ficaram. Lembrou-se À medida que a eleição se aproxima, Foz do Igua-
com saudade das lutas por ideais que já não fazem çu se afasta dele. À medida que Foz se afasta, ele se
mais sentido. Monstros mal-educados que abando- afasta do jovem bonito que foi e de ideias inúteis.
naram o cenário político sem lhe pedir licença e, com Agora era uma lenda nos bastidores da política na-
isso, levaram embora suas justificativas veementes. cional, e sabia como ninguém que lendas são lendas.
Seus quarenta e poucos fizeram com que o prag- Que tratamento da imagem vira lenda. Que paterna-
matismo fosse a utopia mais necessária. Coordenar lidade política cria lendas. Que ele era um divertido
campanhas políticas tinha virado profissão bem re- contador de anedotas as quais as pessoas acredita-
munerada, trouxe status de estrategista, mas levou vam não ser anedotas.
consigo o romantismo do fazer movido pelas pulsa- Estava na hora de voltar à realidade, era o que o
ções. Ali em Foz, tinha acabado de vender seu candi- celular avisava. Era preciso polir o ouro que, de quatro
dato-produto de forma fria e convincente. Da forma em quatro anos, precisava de cuidados. Era o melhor e
certa. E pensava em como os discursos do coração sabia disso. Existia quem batesse uma falta de futebol
convenciam tão pouco em sua juventude. como ninguém, ou que fizesse um bolo de morango
Estranha não sentir a mesma inveja pela liberda- insuperável. Ele só sabia fazer ganhar. Bastava para
de dos pássaros que refrescavam suas asas estendi- que isso se transformasse em tudo o que quisesse.
das sobre onde o rio Iguaçu morria de forma épica. Um aprendizado calcado nos experimentos com uma
O pôr do sol o remete àquele entardecer nos idos de espécie tão diversa quanto a natureza que um dia con-
1980, quando decidiu partir para a capital, deixan- templou com olhos que já não existem mais, mas a
do a namorada, os amigos e uma promessa de que trilha pela qual enlameava seus sapatos de fivela con-
nada mudaria. A ex-namorada e os amigos, não via tinuava ali, escondida. Era reconfortante saber disso,
há muitos anos. Mas a promessa ficara ali, como um apesar de estar certo de que nunca mais voltaria ali.

Ilustração: Revista Novo Ambiente/Marco Jacobsen

Ilustração: Revista Novo Ambiente/Marco Jacobsen


energia Carta do Futuro

Outubro/2010 92
Lama vermelha e mortal
Mais um desastre ambiental acontece em um
ano em que a natureza já foi duramente castigada
com o maior desastre de derramamento de óleo dos
Estados Unidos, com o caso British Petroleum (BP).
Após o mar negro, como ficou conhecido o episó-
dio, que ainda deve ter consequências duradouras
e pouco conhecidas no futuro próximo, desta vez a
cor mudou para o vermelho: uma lama tóxica varreu
o sudoeste da Hungria, espalhando metais pesados
altamente poluentes, após a ruptura de um dique
da fábrica de bauxita e alumínio MAL Zrt. Um milhão
de metros cúbicos de lodo vermelho letal vazaram
do reservatório, inundando três povoados locais e
poluindo rios, inclusive um afluente do Danúbio. Se-
gundo notícias internacionais, mais de 40 km2 foram
afetados no dia 4 de outubro. Além dos inestimáveis
danos ambientais, nove pessoas morreram por causa Foto: Divulgação
da avalanche de lama vermelha, outras 150 ficaram
feridas e 50 seguem hospitalizadas. Seca amazônica
Foto: Divulgação
O estado que abriga o maior rio do planeta, o
Amazonas, sofre com a seca, e 25 de seus 62 municí-
pios decretaram estado de emergência. A seca preju-
dica a navegação e, consequentemente, o transporte
de cargas fluvial, responsável por levar alimentos aos
municípios. Segundo a geógrafa e pesquisadora do
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam),
Ane Alencar, a condição climática é decorrente do
fenômeno El Niño de 2009, que causa reflexos em
2010. Para piorar a situação, a pesquisadora lembra
que a forte estiagem atual ocorre em função da maior
frequência das secas no estado, mais intensas desde o
ano 2000. “A floresta não tem tido tempo de se recu-
Desde o acidente, equipes trabalham diariamen- perar”, lembra a geógrafa. A temporada de chuvas na
te para remover a lama da área afetada e evitar que Amazônia deve começar no fim de novembro.
as substâncias tóxicas cheguem ao rio Danúbio, um
dos maiores da Europa, cuja bacia hidrográfica inte-
gra, além da Hungria, a Alemanha, Eslováquia, Áus- Bois piratas
tria, Croácia, Bulgária, Moldávia, Ucrânia, Romênia
e Sérvia. Algumas fontes na internet afirmam que a Dois anos e meio após decisão judicial que orde-
lama já atingiu o Danúbio; no entanto, tal informa- nou a retirada de rebanhos criados em terra pública,
ção não é confirmada por agências de notícias in- o problema persiste. O Ministério Público Federal
ternacionais. Após o vazamento, o Estado húngaro (MPF) no Pará pediu à Justiça a retirada imediata do
interveio na empresa sob o pretexto de evitar novos gado irregular, os chamados bois piratas. Segundo o
acidentes e manter a segurança das instalações. Ape- MPF, há bois piratas em uma área federal em Alta-
sar do grave acidente, a fábrica voltará a funcionar. mira (PA), próximo à Terra Indígena Baú, dos índios
A organização ambientalista internacional Greenpe- kayapós. A atividade pecuária clandestina causou até
ace mostrou preocupação adicional, alertando para 2008 (quando foi feita a denúncia) uma devastação
a grande quantidade de poeira tóxica que poderá se de 6 km2 de floresta na região. O pedido do MPF foi
formar com a lama seca, poluindo o ar e causando encaminhado à Vara Agrária e Ambiental da Justiça
ainda mais estragos para pessoas e para a natureza. Federal em Belém.

Outubro/2010 94
Foto: Divulgação

Extração ilegal
Agentes do Ibama, Polícia Federal, Funai e Força
Nacional estiveram em Aripuanã/MT, em outubro,
para cumprir mandados de prisão, busca e apreen-
são. A ação é parte da operação Fazenda Brasil, de
combate à exploração ilegal de madeira em Terra Indí-
gena Cinta Larga, noroeste do Mato Grosso.

Menos energia Incêndios criminosos


Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica- Apesar de o período de estiagem estar no fim, o
da (Ipea) traz más notícias relacionadas ao problema país ainda apresentava, até o fechamento desta edi-
das mudanças climáticas. Como consequência do fe- ção, 32 incêndios florestais ativos. Sete unidades de
nômeno, as bacias hidrográficas brasileiras poderão conservação ainda seguiam atingidas pelo fogo, com
sofrer redução de seus estoques de água, causando focos em parques nacionais e reservas biológicas no
redução da capacidade de geração de energia elétri- Tocantins, Piauí, Bahia e Minas Gerais. O combate aos
ca, sobretudo no Nordeste. A redução dos estoques incêndios florestais está sendo feito pelo Instituto do
de água até 2100, segundo o estudo, seria mais mo- Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
derada na região Norte. Mas nas demais regiões, (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conserva-
pode haver redução da capacidade de geração de ção da Biodiversidade (ICMBio), com o apoio de ór-
energia hidrelétrica de 29,3% a 31,5%. Na agricultura, gãos ambientais e das polícias estaduais. Segundo a
o aquecimento global afetaria lavouras de cana-de- Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, há indí-
-açúcar e plantações de soja, milho e café, causando cios de que, em alguns casos, os incêndios em unida-
reduções nas áreas plantadas. des de conservação foram provocados. “Isso é crime,
estamos apurando e os culpados serão punidos.”
Foto: Divulgação

Problema ambiental corporativo


O bairro de Santa Cruz, zona Oeste do Rio de
Janeiro, sofreu no último mês com uma poeira
metálica que se acumulou em árvores, carros,
móveis e ainda provocou feridas de difícil cica-
trização na pele de moradores. Também foram
registrados casos de crises respiratórias. Com
o fato, surgiram denúncias de crime ambiental
contra a ThyssenKrupp Companhia Siderúrgi-
ca do Atlântico (TKCSA), dois meses após sua
inauguração no local. Uma missão formada por
representantes do Ministério do Trabalho e do
Ministério Público Federal, da Ordem dos Advo-
gados do Brasil (OAB), pela Deputada alemã do
Parlamento Europeu Gabriele Zimmer e mem-
bros da Fundação Oswaldo Cruz avalia as conse-
quências do problema. A siderúrgica foi multada
em R$ 1,8 milhão pelo Instituto Estadual do Am-
biente (Inea) do Rio de Janeiro.

95 Outubro/2010
Lente Limpa

Ao registrar o avanço da mancha urbana na maior cidade


do país, nosso fotógrafo Estanis Neto deixou seu gosto
pelas fotos em preto e branco expor a sensibilidade
capturada pela lente: a indignidade habitacional e
ambiental do mosaico de madeira, metal e fios.
Estanis Neto
DA REDAÇÃO Política

Tão verdes
quanto maduros
P
rovavelmente, ao correr os olhos por este Aparentemente, o crescimento do PV no Brasil
texto, você já sabe ou está prestes a saber trará em seu bojo mais do que uma nova força polí-
quem governará nosso país pelo próximo tica. Alargará as fronteiras da jovem democracia bra-
quadriênio. Sabe, portanto, mais do que nossa Cen- sileira. Pragmáticos, almejam o poder, porém sem-
tral de Jornalismo, que busca ajuntar algumas pala- pre será mais provável saírem destas hostes alguns
vras para compor este espaço “Da Redação”. traços de utopia, e ela, ao contrário do que pode
Mas uma certeza já se faz presente nestes meados parecer em um primeiro momento, é fundamental
de outubro: o fenômeno vivido nesta eleição continua- para chamar a atenção para a importância do envol-
rá pulsando como algo que nasceu para ficar. A acreana vimento decisivo da sociedade na condução de seus
Marina Silva saiu dos seringais para a vida nacional e próprios e sustentáveis rumos, sempre fundamenta-
atingiu seu melhor momento neste pleito eleitoral. E o dos nas decisões democráticas.
fez ancorada naquilo que acredita: o desenvolvimen-
to deve vir acompanhado de políticas ambientais que
preservem nossa relação com o meio ambiente.
Seus quase 20 milhões de votos empurraram para
o segundo turno uma eleição que se queria plebisci-
tária. E, ao fazê-lo, permitiram o aprofundamento do
debate sobre que país queremos, contribuindo, assim,
com o nosso aprimoramento democrático. Dessa for-
ma, Marina inseriu em definitivo a questão ambiental
no conjunto de temas que devem ser levados a sério
na hora de se propor um plano para a nação, inscreveu
o tema da sustentabilidade na agenda nacional.
O avanço do Partido Verde (PV) no Brasil de certa
maneira alinha-se a uma tendência já vivida por de-
mocracias evoluídas. França, Suécia e a gigante eco-
nômica Alemanha já experimentaram essa infiltração
de conceitos ambientais em uma política degradada e
inviável. E revitalizaram-se dando força política aos ver-
des, pela influência que já exerciam por causa de suas
iniciativas não governamentais. No entanto, não são
os verdes que estão mudando o planeta, pois isolados
eles não têm esse poder, e sim a força que a população
está atribuindo às questões ambientais.
Em todas as nações nas quais compõem gover-
nos, os verdes contribuem não apenas para as ques-
tões ambientais, invariavelmente induzem políticas
de maior inclusão de minorias no jogo do poder, em
especial a participação das mulheres (na Alemanha,
o PV, desde sua constituição, estabeleceu cotas de
50% para todos os níveis do partido).

Outubro/2010 98