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Um processo de (re)construção

Simples. Hermética. Política. Social. Intimista. Marginal. Filosófica. Romântica.


Dramática. Mimética... Em um primeiro momento, essas palavras podem parecer
aleatórias se postas no contexto plurissignificativo que compõem o léxico da língua
portuguesa. Mas as palavras em questão estão intrinsecamente relacionadas ao que o
escritor brasileiro Guimarães Rosa chamou de feitiçaria que se faz com o sangue do
coração humano: a Literatura. A qual possui um lugar significativo na construção da
identidade; retratação, ressignificação e transformação da realidade.
Sem a língua não existe comunicação, criação artística, consequentemente, não
existe literatura que é fortemente influenciada pelo recorte do tempo no qual está
inserida, ou seja, os contextos históricos são como pano de fundo e estritamente
essenciais para composição e interpretação dos textos literários dos mais diversos
autores. Tais contextos são carregados de nuances constituintes de identidades envoltas
por um “complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou
qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma
sociedade. (TYLOR, 1871, p.1., apud LARAIA, 2003, p.25), resumidamente, cultura.

Julgamentos de valor, antes de tudo, determinam a seleção de palavras do


autor e a recepção desta seleção pelo ouvinte. O poeta, afinal, seleciona
palavras não do dicionário, mas do contexto da vida onde as palavras foram
embebidas e se impregnaram de julgamentos de valor. Assim, ele seleciona
os julgamentos de valor associados com as palavras e faz isso, além do mais,
do ponto de vista dos próprios portadores desses julgamentos de valor
(BAKHTIN, 1976, p.9-10).

Destarte, Literatura.
Carregada das mais diversas antíteses, nemesis, realidades, denúncias,
ideologias, questionamentos, transformações; carregada de visões, “coisificações” e
“descoisificações” do mundo. Carregada de reflexos históricos, sociais e políticos.
O crítico literário, sociólogo e professor brasileiro Antonio Candido define três
de suas faces: “(1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e
significado; (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão do
mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento, inclusive
como incorporação difusa e inconsciente.”, as quais atuam interagindo entre si. Pode-se
associar tais faces a um modelo construtivo de realidade na medida em que são capazes
de fragmentar estruturas e abrir um caminho de possibilidades para reinventá-las.
Manoel de Barros, em um de seus poemas, não deixou de tentar fotografar o
silêncio, ainda que tenha reconhecido a dificuldade para tanto. A literatura na história
brasileira foi capturada em dois períodos: a literatura de um passado colonial e a
literatura de uma era nacional. A primeiro caracterizada por um retrato de molduras
estrangeiras, basicamente de caráter utilitário e a segunda construída a partir de 1836
reverberando o caráter nacionalista após a independência do Brasil em 1822. Reflete-se
uma nova sociedade, na qual o escritor reconhece um novo papel:

No primeiro quartel do século XIX esboçaram-se no Brasil condições para


definir tanto o público quanto o papel social do escritor em conexão estreita
com o nacionalismo.
Decorre que os escritores, pela primeira vez, conscientes de sua realidade
como grupo, graças ao papel desempenhado no processo de Independência e
ao reconhecimento de sua liderança no setor espiritual, vão procurar, como
tarefa patriótica, definir conscientemente uma literatura mais ajustada às
aspirações da jovem pátria, favorecendo entre criador e público relações
vivas e adequadas à nova fase. (CANDIDO, 1965)

Composta pela diversidade, a trajetória literária acompanha a quebra de


estruturas estabelecidas. No caso do Brasil, o processo foi se estabelecendo ao longo do
tempo, de modo que a quebra mais significativa no cenário nacional começa a acontecer
com o Pré-Modernismo e a se intensificar a partir da Semana de Arte Moderna. Um
processo antropofágico, deglutição da diversidade cultural para uma redescoberta do
Brasil e consequente descoberta de uma identidade. A ideia não era negar o estrangeiro,
mas utilizar a linguagem como ferramenta de desconstrução do que ela própria retratava
e estabelecer uma identidade nacional.
É certo que o escritor tem como matéria prima a linguagem. A linguagem
trabalha no âmbito da construção de sentidos sustentada por caráter simbólico. O leitor
interage com o que lê, a partir da sua própria visão de mundo e da visão do mundo do
outro, assim lhe é apresentado um universo vasto de uma perspectiva carregada de
abstratos concretos. ambos, leitor e escritor, estão inseridos em determinado contexto
espacial e temporal; ambos estão em um mundo em que um “eu” e um “outro”
existem. Logo, as palavras são carregadas de ideologias e, na medida em que evolui, a
literatura se distancia da neutralidade sendo apresentada pelo diálogo entre o que existe
no centro e o que existe na margem.
Neste sentido, até que ponto literatura e universal se unem? Por um lado a
literatura que reforça estereótipos geralmente se situa no centro, como exposto pela
escritora brasileira Conceição Evaristo que faz parte do movimento de militância negro:
Nós, oriundos de povos africanos, sabemos que esse universal é muito mais
dirigido a povos que são considerados que teriam uma humanidade e outros
não. Os povos africanos, os povos indígenas, eles sempre tiveram sua
humanidade questionada (Conceição Evaristo)

Por outro ela ainda é um meio de choque entre mundos distintos:


A nossa poesia e o nosso texto - falando de uma criação coletiva - tem tocado
profundamente as pessoas de outras experiências de vida completamente
diferente da nossa” [...] A poesia ainda é o lugar de trabalhar essa
possibilidade de encontro.

Destarte, Literatura.

Literatura para que? Literatura para (re)criar, realidades, mundos, visões,


sonhos. Literatura para se identificar, conhecer, autoconhecer; viver o ontem, o hoje e o
amanhã. Literatura como lupa, para ampliar aquilo que um dia esteve lá. Literatura para
viajar com os pés no chão, para ideologizar de desideologizar. Literatura como
ferramenta para rasgar. Porque como escreveu Cecília Meireles no poema Reinvenção,
“A vida só é possível reinventada.”
"A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro a se
organizar; em seguida, a organizar o mundo". (Cândido, 2004, p. 177 apud Maria Leda)
REFERÊNCIAS

BARONE, Leda Maria Codeço. Literatura e construção da identidade. Rev.


psicopedag., São Paulo , v. 24, n. 74, p. 110-116, 2007 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
84862007000200002&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 01 set. 2018.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. 4ª ed. São Paulo/Rio de
Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004, p. 169-191.

CAVALCANTI, Heloisa. Para enfrentar e combater certas realidades sociais, muitos


artistas se utilizam da lírica da poesia como sua principal ferramenta na sociedade.
Disponivel em: <https://gente.ig.com.br/cultura/2017-06-19/poesia.html>. Acesso em
03.09.2018

LARAIA, Roque De Barros. Cultura um conceito Antropológico. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Ed. 1986

NICOLA, José. Projeto Múltiplo - Literatura. Editora Scipione. 2014

SILVA, Luciana. Literatura e sociedade: da teoria do reflexo à construção discursiva de


identidades sociais. Revista da Pós-Graduação em Letras - UFPB. João Pessoa, Vol 7.,
N. 2/1, 2005 – p. 141-146

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