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Ano 1, Nº 1

Produzida por Pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

REFORMA
Luterana:
493 anos
- Habacuque e a - Hino Castelo Forte em - O pastor e sua vida - 493 anos depois
justificação pela fé — dois arranjos, p. 44 devocional. p. 58. voltamos a Somente, p.
um tema central da - Hino Bênção da Irlan- - A Reforma. p. 4. 47.
Reforma em um estudo da. p. 46 - Mistura Indigesta, p.
profundo. p. 48. - Liturgia para Período 71.
do Advento. p. 66.
Apresentação da Revista
EXPEDIENTE
Publicação mensal de pastores da Igreja
Eletrônica Teologia & Prática
Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não oficial. A revista Teologia&Prática é uma iniciativa de pastores da
Tem como propósito divulgar textos teológicos/ Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Ela não tem caráter
pastorais, inéditos ou não, produzidos por oficial. Seu objetivo básico é coletar e compartilhar bimestral-
pastores da IELB, recuperar textos teológicos
mente, de forma organizada, via Internet, textos teológicos/pas-
escritos no passado e que não estão disponíveis
na Internet, divulgar de forma mais abrangente torais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB e que
a teologia evangélica luterana confessional e a regularmente circulam em listas da Igreja. Além disso, procura
reflexão teológica na IELB, e ser uma ferramenta recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão
prática para as atividades ministeriais em disponíveis na Internet. Um objetivo subjacente é a intenção de
suas diferentes áreas. Os conteúdos são de
divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica lute-
responsabilidade dos seus autores.
rana confessional e a reflexão teológica na IELB. Além de pos-
Colaboradores desta edição: sibilitar a reflexão teológica, a revista quer ser uma ferramenta
Comissão de Culto; David Karnopp; Dieter prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas.
J. Jagnow; Edson R. Tressmann; Egon M.
Seibert; Jarbas Hoffimann; Lindolfo Pieper;
Luisivan V. Strelow; Marcos Schmidt; Márlon
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é responsável para que exista um mínimo de organização na diferentes
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Rev. Jarbas Hoffimann ensaios, etc.), inéditos ou não. Cada autor é responsável pelo seu texto
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Rev. Jarbas Hoffimann sário, conta com voluntários para a avaliação. Não serão utilizados textos
de conteúdo político-partidário, que promovam o ódio ou a discriminação
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conforme a ordem de chegada.
Colaborações: 8. O organograma de produção é este:
Os textos a serem publicados na revista devem a) Lançamento: até o dia 25 do segundo mês da edição
ser enviados ao editor b) Preparação / Diagramação: do dia 1 ao dia 20 do segundo mês da edi-
ção
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História da Reforma, p. 4

A Importância dos Hinos de Lutero, p. 30 Graça, lei e evangelho, p. 20


Indulgências, p. 8

Habacuque e a justificação pela fé, p. 48

- 493 anos depois, voltamos ao Somente, p. 47


- Liturgia para o Período de Advento 2010, p. 66
- Lutero e os caminhos da liberdade, p. 40
- Lutero prega sobre o ministério pastoral, p. 38
- Mistura Indigesta, p. 71
- Música Bênção da Irlanda, p. 46
- Música Castelo Forte, p. 44
- Sermão sobre o Hino Castelo Forte, p. 42
- Todos os Santos, p. 41
- Um Tesouro desenterrado na Reforma, p. 70

O pastor e a vida devocional segundo


Martinho Lutero, p. 58
Rev. Lindolfo Pieper

A História da
REFORMA
No dia 31 de outubro come-
moramos o dia da Refor-
nham contra a excessiva autoridade
do papa, a supremacia da tradição
com as questões administrativas do
que com a fé. Eles eram acusados de
ma. Por isso, aproveitando a oca- sobre as Escrituras, a imoralidade nepotismo e corrupção, de empre-
sião, queremos usar este espaço para do clero (celibato), a adoração das gar parentes e de tirar dinheiro do
falar um pouco sobre a Reforma imagens, a doutrina do purgatório e povo para financiar obras de artes e
Protestante, o grande acontecimen- a negação do cálice aos leigos. campanhas militares. Papas como
to que despertou a atenção de todos O trabalho desses precursores Júlio II e Leão X tiveram uma ex-
no século 16. serviu para pavimentar o caminho cessiva preocupação com questões
A Reforma é, depois do adven- para a Reforma Protestante no sé- materiais, favorecendo assim a cor-
to do Cristianismo, o maior acon- culo 16, cujo grande líder foi o dou- rupção reinante entre muitos sacer-
tecimento da história. Partindo da tor Martinho Lutero. dotes.
religião, a Reforma deu um podero- Os abusos cometidos por gran-
so impulso a todo movimento pro- 2. Causas da Reforma de parte do clero foram outra causa
gressista e tornou o protestantismo da Reforma. As riquezas da igreja
a força propulsora na história da Houve vários fatores que contri- faziam com que homens, sem a ver-
civilização. buíram para que a Reforma aconte- dadeira vocação religiosa, pensando
Por causa do seu conteúdo e cesse, como políticos, econômicos, apenas nos lucros, seguissem a car-
concisão, na elaboração deste traba- intelectuais e religiosos. reira sacerdotal. Assim sendo, pra-
lho valemo-nos em parte como fon- A igreja teve grande força políti- ticavam coisas censuráveis, como a
te de pesquisa do livro O Homem e ca na Idade Média, mas no final des- venda de relíquias, o comércio de
o Sagrado, da Editora ULBRA. se período começou a perder o seu cargos, a simonia, a imoralidade e o
prestígio. O papado perdeu credi- abandono do celibato.
1. Os precursores da bilidade com o cisma do Ocidente, A invenção da imprensa pelo
com a transferência da sua sede para cientista alemão João Guttemberg,
Reforma
Avignon e a influência do monarca em 1455, favoreceu a difusão da Bí-
Durante a Idade Média, muitas francês nas decisões da igreja. blia, um livro que havia desapareci-
pessoas se levantaram contra os er- Neste contexto surgiram perso- do na época.
ros da igreja. São os assim chamados nagens que atacaram a autoridade O movimento conhecido como
precursores da refor- religiosa, que foram Renascença despertou o interesse
ma. Mas o mundo não Houve vários chamados de here- pela literatura clássica, pelo gre-
estava preparado para fatores que ges e condenados à go, latim e pelo hebraico, levando
recebê-los, de modo contribuíram para fogueira, como Sa- o povo a investigar os verdadeiros
que foram reprimidos que a Reforma vanarola, Wicliff e fundamentos da fé, independente
com violentas per- acontecesse, como João Huss. dos dogmas da igreja.
seguições, sendo na Nesse período O espírito crítico dos humanis-
políticos, econômicos,
maioria queimada no a igreja vivia uma tas fez com que muitos não aceitas-
intelectuais e
fogo como hereges. grande crise in- sem ideias religiosas que não tives-
religiosos. terna. Os papas se
Basicamente, esses sem uma base literal nas Escrituras
movimentos se opu- preocupavam mais Sagradas.
4 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Lutero e Luteranismo

O Humanismo, que foi um bra- Mesmo sendo professor univer- purgatório irá sair”.
ço da Renascença, se espalhou ra- sitário, Lutero continuou cuidando Vários clérigos criticaram a ati-
pidamente, formulando críticas à da sua paróquia em Wittemberg. À tude do papa em cobrar dinheiro
igreja e exigindo reformas radicais. medida que ia estudando a Bíblia, o pelo perdão dos pecados. Entre es-
Este estado de espírito preparou o Espírito Santo foi lhe revelando o tes estava Lutero, que divulgou 95
terreno para as teses de Martinho Evangelho. teses, atacando o comércio das in-
Lutero. Certo dia, ao meditar no Salmo dulgências, afixando-as na porta da
Porém a causa determinante que 22, depois em Romanos 1 e 3, reco- igreja de Wittemberg no dia 31 de
levou Lutero a reformar a igreja foi nheceu que a graça é um presente de outubro de 1517. Muitos intelectu-
espiritual: o desvio da igreja dos Deus. Jubiloso, excla- ais e religiosos aderiram às preposi-
ensinamentos das o estopim foi a mou: “Fiquei alegre. ções de Lutero. A nobreza e o povo
Escrituras Sagradas, venda do perdão dos Abriu-se-me assim também.
especialmente no que pecados, ou a assim toda a Escritura Sa- Em 1520 o papa expeliu uma
dizia a respeito à sal- chamada Questão das grada e o próprio céu”. bula, ameaçando-o de excomunhão
vação do homem. E Indulgências. Notou então o caso não se retratasse. Lutero quei-
o estopim foi a venda quanto a igreja ha- mou a bula papal em praça pública,
do perdão dos peca- via se afastado do proclamando ser a Sagrada Escritu-
dos, ou a assim chamada Questão Evangelho. A igreja do Castelo de ra a única autoridade em questões
das Indulgências. Wittemberg, por exemplo, possuía de fé e conduta cristã.
19 mil relíquias, colecionadas pelo Em 1521 Lutero foi intimado
3. Martinho Lutero eleitor Frederico o Sábio. Algumas pelo imperador Carlos V a compa-
recer à Dieta de Worms, a fim de
Lutero nasceu no dia 10 de no- delas eram supostamente pedaços
se retratar. Lutero, porém, não se
vembro de 1483 em Eisleben, pro- de madeira da manjedoura de Jesus,
retratou, fazendo na ocasião uma
víncia da Saxônia, na Alemanha. Es- espinhos da coroa da cruz de Cris-
memorável declararão diante do
tudou em Mansfeld, Magdeburgo e to e uma pena da cauda do Espírito
imperador: “A menos que eu seja
mais tarde em Eisenach. Com 17 Santo. Ensinava-se que o culto pres-
convencido pelo testemunho das Sa-
anos de idade ingressou na Univer- tado em tais igrejas reduzia as penas
no purgatório. gradas Escrituras e por se achar pre-
sidade de Erfurt.
sa a minha consciência pela Palavra
Durante os estudos em Erfurt,
de Deus, não posso e nem quero me
Lutero começou a ter conflitos de 4. Indulgências retratar de coisa alguma, porque não
consciência, que o levava constante-
é seguro e nem aconselhável proceder
mente a se perguntar: “Como con- O papa Leão X, amante das ar-
contra a consciência. Aqui estou. Que
seguirei a misericórdia de Deus?” tes, queria terminar a construção da
Deus me ajude. Amém”.
Regressando, certo dia, para casa, basílica de São Pedro. Para angariar
foi surpreendido por uma grande fundos, intensificou a venda das in- Por causa dessa sua atitude, Lute-
tempestade. Lutero refugiou-se na dulgências. ro teve que se refugiar no Castelo de
floresta. Subitamente um violento O dominicano João Tetzel foi o Wartburgo, onde traduziu a Bíblia
raio caiu perto dele, partindo uma que mais se destacou na venda de para o alemão moderno e escreveu
árvore pelo meio. Apavorado, Lute- indulgências. Sua vin- vários outros livros.
ro prometeu se tornar monge, caso da a uma cidade era Tão logo o Devido às ques-
Deus lhe poupasse a vida. anunciada com uma dinheiro no cofre cair, tões políticas, o impe-
Lutero ingressou no mosteiro grande pompa. Tet- a alma do purgatório rador deixou Lutero
em 1505. Dois anos depois foi or- zel erguia um crucifi- irá sair. trabalhar em paz por
denado sacerdote. Em 1512 foi con- xo na praça e pregava algum tempo. Mas
tratado para ser professor da uni- sobre os horrores do em 1529, Carlos V
versidade de Wittemberg, ocasião purgatório. Depois oferecia suas resolveu convocar a Dieta de Espi-
em que também recebeu o título de indulgências, dizendo: “Tão logo ra, onde foi decidido tolerar o lute-
doutor em teologia. o dinheiro no cofre cair, a alma do ranismo apenas onde ele já estivesse
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Lutero e Luteranismo

sido implantado e impedir a sua civil entre católicos e protestantes se se alcança apenas por meio da fé; só
propagação para outros territórios. estendeu durante 20 anos. mediante a graça de Deus é possível
Os luteranos se rebelaram contra Em 1555, porém, com a assina- se chegar à fé.
essa decisão, passando a partir daí a tura do documento Além disso, Lutero
serem chamados de protestantes. Paz de Augsburgo, três grandes reduziu os sacramen-
Desejando restabelecer a unida- os protestantes ob- princípios: a Bíblia tos, em número de
de cristã em seus domínios, Carlos tiveram a liberdade é a única fonte de fé; sete, para apenas dois:
V convocou no ano de 1530 a Dieta religiosa. a salvação se alcança Batismo e Santa Ceia.
de Augsburgo, solicitando aos lute- A inquietação apenas por meio da fé; Simplificou o culto,
ranos que elaborassem por escrito religiosa não se li- só mediante a graça passando a ser cele-
a sua doutrina, a fim de se tentar mitou exclusiva- de Deus é possível se brado na língua local
uma reconciliação com os católi- mente à Alemanha. chegar à fé. e não mais em latim.
cos. Como Lutero estava proscri- Em pouco tempo a Lutero decretou o
to, encarregou Filipe Melanchton Reforma se esten- fim da veneração aos
a executar essa tarefa. Melanchton deu por toda a Europa. Quando santos. Em seu lugar propôs a me-
redigiu um documento contendo Lutero morreu, em 1546, as suas ditação e a leitura da Bíblia. Aca-
28 artigos, o qual foi chamado de ideias haviam sido completamente bou também com a ociosidade dos
Confissão de Augsburgo, que é ain- difundidas em todo mundo. monges, transformando os mostei-
da até hoje a confissão básica dos ros em escolas.
luteranos. 5. Bênçãos da Reforma Com o fim da hierarquia ecle-
Não foi possível uma conciliação siástica, os sacerdotes se tornaram
entre católicos e luteranos. Carlos Os ensinamentos de Lutero se iguais aos demais fiéis, restando-
V resolveu então sufocar a rebelião baseiam em três grandes princípios: -lhes apenas o papel de guias espi-
com a utilização das armas. A guerra a Bíblia é a única fonte fé; a salvação rituais.
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Outras bênçãos da Reforma são: fessional, respeito à consciência, ligiosa.
a liberdade de pensamento, o livre ética, desenvolvimento social e pro- Hoje, a Igreja Luterana encon-
exame das Escrituras e a valoriza- gresso científico. tra-se espalhada pelos cinco conti-
ção do indivíduo, do trabalho e da Lutero, ao reformar a igreja, não nentes da terra. Espalhou-se pela
família. tinha nenhuma intenção de fundar Europa, caminhou para os Estados
6. Luteranismo uma nova igreja. Sua preocupação Unidos e mais tarde para outros paí-
era unicamente chamar a atenção ses, chegando à América Latina e ao
Muitos países aderiram ao movi- dos líderes religiosos para os erros Brasil no final do século dezoito.
mento iniciado por Lutero, como a doutrinários que eles vinham co- A principal característica da Igre-
Alemanha, a Finlândia, a Suécia, a metendo e reformar internamente ja Luterana é a fidelidade à Bíblia e
Noruega, a Dinamarca, a Boêmia, a igreja. Queria uma igreja como a pregação cristocêntrica. A Igreja
a Morávia, a Inglaterra, a Escócia, era nos tempos bíblicos, voltada à Luterana confessa e ensina que a
a Holanda, a Suíça e, em parte, a Bíblia, fundamentada sobre Cris- Bíblia Sagrada é a clara, pura e infa-
França, a Áustria e a Hungria. to, pregando o amor e perdoando o lível palavra de Deus; e que Cristo
A Reforma provocou também próximo. é o único caminho para se chegar
uma reforma na Igreja Católica. O Mesmo não querendo dividir a a Deus, que só por meio da fé em
Concílio de Trento procurou pôr igreja, isso acabou acontecendo. Os Cristo é possível alcançar o céu.
ordem na casa. Muitos admitem líderes religiosos da época, em vez Sejamos gratos a Deus por per-
que, provocando a Contra-Refor- de admitir os erros da igreja, julga- tencermos à Igreja Luterana e haver-
ma, Lutero tenha salvado a própria ram que Lutero era um falso mestre mos herdade esse tão valioso legado,
Igreja Católica. e o excomungaram da igreja. Fora que são os ensinos do Reformador,
Em virtude da Reforma, surgiu da própria igreja, Lutero só viu uma doutor Martinho Lutero.
na Europa uma nova ordem social maneira de continuar com a Refor- Rev. Lindolfo Pieper - Jaru-RO
caracterizada pelo pluralismo con- ma: criar uma nova comunidade re- pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

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Lutero e Luteranismo Rev. Jarbas Hoffimann

Introdução Tinha apenas a intenção de esclarecer sobre as indul-


gências.

Sem dúvida um dos fatos mais marcantes da


história da Reforma é o que se comemora
no dia 31 de outubro: a afixação das 95 teses na porta
“A indulgência está relacionada ao Sacramento
da Penitência. Na Penitência, esperavam-se o ar-
rependimento do pecador, a confissão na presença
da igreja do castelo de Witenberg. de um sacerdote, a absolvição e a satisfação impos-
O fato de que Lutero nesta época quereria reformar ta. Na satisfação, o pecador deveria fazer repara-
a igreja nas proporções que depois aconteceu é impro- ção ou expiação por causa do castigo que o pecado
vável. Mas ele não estava satisfeito com os rumos que acarretava. Era opinião corrente que o pecado não
se dava à Igreja. Por isso resolveu promover um debate só acarretava culpa, mas também castigo. Esse cas-
para esclarecer a questão. tigo deveria ser assumido aqui na terra ou expiado
Este estudo analisa as 95 teses de uma forma sim- no purgatório. Na Alta Idade Média e na Idade
ples: olhando o teor das mesmas. Depois, olha nova- Média Tardia desenvolveram-se, em conexão com
mente para as teses, mas agora no ângulo de um sermão o Sacramento da Penitência e com o surgimento da
de quase um ano depois. E por fim traz um pouco do doutrina das indulgências, doutrinas que diziam
pensamento que se pode captar de um escrito de Lute- respeito a questões de direito divino e de direito
ro sobre Daniel. Este escrito data de 1520. eclesiástico, ao purgatório e ao “tesouro da Igre-

INDULG
Há uma ressalva quanto às notas. Já que o material
usado faz parte de uma mesma coleção as nossas que
aparecem neste trabalho são bem diretas. Mostram a
página, o volume de que procedem e, quando há, o pa-
rágrafo (§) onde se encontra na página.

1. As 95 Teses
ja”. Este seria formado pelos méritos excedentes de
Cristo e dos santos, podendo ser usado pela Igreja
1.1. Uma História para conceder indulgências a terceiros”.3
A melhor formulação histórica para o pano de fun-
Nos é esclarecido que as indulgências, a princípio,
do das 95 teses é encontrada junto a estas. Na intro-
não tinham o mesmo sentido que chagaram a alcançar
dução desse do-
na idade média.
cumento. Que é
As indulgências, surgidas no século XI, diziam res-
encontrado no vo-
peito, inicialmente, apenas aos castigos temporais
lume um das obras
impostos pela Igreja, mas tarde, aos castigos tem-
de Lutero publi-
porais que deveriam ser purgados no purgatório
cado pela Editora
e, finalmente, também aos pecados de parentes já
Concórdia.
falecidos que estavam no purgatório”.4
A data do do-
cumento é bastan- Boa parte da motivação para propagar as indulgên-
te conhecida. É cias era arrecadar fundos aprisionando as consciências
“31 de outubro de em intranquilidade. Pois “A Cúria e o Estado papal de-
1517”1. E, segun- pendiam em grande parte das rendas auferidas com a
do a introdução, venda de indulgências”5.
as 95 teses não Para a cúria as indulgências eram garantia de renda
“tinham a inten- financeira, para os fiéis um modo de escapar do purga-
ção de deflagrar tório e castigo eternos.
um movimento”2.
1. 3 v.1, p. 21.
1. 1 v. 1, p. 21. 1. 4 v. 1, p. 21.
1. 2 v. 1, p. 21. 1. 5 v. 1, p. 21.

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Lutero e Luteranismo

Quando Lutero formulou as 95 teses ainda não ha- poderíamos tê-lo agrupado segundo as nossas afirma-
via “formulação dogmática”6 sobre o assunto indulgên- ções e proposições. Ignorando sua ordem. Mas pensa-
cias, mas ele enfrentou o interesse financeiro da Cúria. mos que da maneira que está seria melhor, para a ênfase
Como se percebe ao ler as teses, elas não têm for- devida ao documento e à insistência em alguns pontos,
mulação radical ou polêmica. Um dos sinais deste ca- como por exemplo que o papa não concordaria com o
ráter pacífico é que Lutero não exclui toda e qualquer que se está fazendo das indulgências.
indulgência, “limita-a, no entanto, às penas temporais A algumas teses não fizemos nenhum comentário,
impostas pela Igreja e volta-se contra a falsa segurança por isso elas seguem apenas para que o documento es-
provocada pela indulgência”.7 teja completo. À sua frente pusemos apenas a expressão
Há um novo conceito de ministério: “segundo Lute- “sem comentários”.
ro, o sacerdote só pode perdoar culpa como declaração de Por vezes recorremos ao documento chamado “Ex-
que ela já foi perdoada por Deus”.8 Isso foge à autoridade plicações do Debate sobre o Valor das Indulgências” de
eclesiástica necessária para a existência da indulgência. Agosto de 1518.
E quanto ao desejo humano de se livrar da ira divina Note-se o caráter pacífico já na introdução às teses:
Lutero é enfático: Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la,
“O cristão não deve fugir do castigo, mas assumi- discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a pre-
-lo como cruz”. As obras que o cristão deve realizar sidência do reverendo padre Martinho Lutero,

GÊNCIAS
mestre de Artes e de Santa Teologia e professor
catedrático desta última, naquela localidade. Por
esta razão, ele solicita que os que não puderem es-
tar presentes e debater conosco oralmente o façam
por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso
Senhor Jesus Cristo. Amém.10

são serviço ao próximo e não devem ser entendidas Como dissemos na introdução histórica, a compre-
como atos em prol de seu aperfeiçoamento ou ainda ensão de Penitência é a compreensão católico-romana.
como fuga aos castigos impostos por Deus e, como Esta compreendia contrição, arrependimento, confis-
tais, úteis ao ser humano.9 são e satisfação. Com esse pano de fundo se pode com-
preender melhor a primeira tese.
A caráter de crítica: 1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o
À época de Lutero se convidava para o debate. nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a
Quantas vezes nós fazemos isso hoje? Nos fechamos vida dos fiéis fosse penitência.
na nossa Teologia e Tradição, afirmando que somos os
únicos certos e não aceitamos, ou não temos coragem Sem comentários.
de debater, mesmo que seja para o esclarecimento. 2. Esta penitência não pode ser entendida como
Se temos a verdade, por que não a mostramos a to- penitência sacramental (isto é, da confissão e satis-
dos? Por que queremos ficar com ela só para nós? So- fação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
mos incapazes de Debater? Ou porque não acredita- 3. No entanto, ela não se refere apenas a uma pe-
mos que seja verdade? nitência interior; sim, a penitência interior seria
nula, se, externamente, não produzisse toda sorte
1.2. As 95 Teses de mortificação da carne.
No que segue procuramos examinar teses por tese
a fim de tentar ler o pensamento de Lutero. Para isso,
às vezes pode o trabalho pode parecer repetitivo, pois

1. 6 v.1, p. 21.
1. 7 v.1, pp. 21-22.
1. 8 v.1, p. 22. 1. 10 o documento completo está no v. 1, das Obras de Lutero,
1. 9 v.1, p. 22. das páginas 22 a 29.

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 9


Lutero e Luteranismo

Lutero nega que as indulgências possam livrar al- nham entrado à igreja com a permissão dos bispos.
guém das penas terrestres. 11. Essa erva daninha de transformar a pena ca-
4. Por consequência, a pena perdura enquanto nônica em pena do purgatório parece ter sido se-
persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira pe- meada enquanto os bispos certamente dormiam.
nitência interior), ou seja, até a entrada do reino
dos céus. Lutero está rebatendo a venda de indulgências para
livrar do purgatório até mesmo aos que já morreram.
Lutero mostra que o papa não tem nenhuma autori- Segundo sua concepção (aqui ainda não contra o pur-
dade além daquela dada por Jesus. É, no mínimo, uma gatório) só se pode fazer alguma coisa para livrar-se da
atitude de esclarecer à autoridade (da igreja). condenação aqui na terra.
5. O papa não quer nem pode dispensar de quais- 12. Antigamente se impunham as penas canônicas
quer penas senão daquelas que impôs por decisão não depois, mas antes da absolvição, como verifica-
própria ou dos cânones. ção da verdadeira contrição.
6. O papa não pode remitir culpa alguma senão
declarando e confirmando que ela foi perdoada por Lutero reafirma que só aos vivos é
Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reser- dada a oportunidade da salvação.
vados para si; se estes forem desprezados, a culpa 13. Através da morte, os mo-
permanecerá por inteiro. ribundos pagam tudo e já estão
mortos para as leis canônicas, tendo,
Deus perdoa por graça. Qualquer coisa. A qualquer por direito, isenção das mesmas.
pessoa. Assim as indulgências erram a ignorar esta gra-
ça. Já se pode perceber diferença do pensamento roma- Sem comentários:
no. 14. Saúde ou amor imperfeito no mo-
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa ribundo necessariamente traz consigo
sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humi- grande temor, e tanto mais, quanto
lhada, ao sacerdote, seu vigário. menor for o amor.
15. Este temor e horror por si
Sem comentários: sós já bastam (para não falar
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos de outras coisas) para pro-
vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser duzir a pena do purgatório,
imposto aos moribundos. uma vez que estão próximos
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do horror do desespero.
do papa quando este, em seus decretos, sempre ex-
clui a circunstância da morte e da necessidade. Claramente se vê que Lutero
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aque- aceita o purgatório.
les sacerdotes que reservam aos moribundos peni- 16. Inferno, purgatório e céu
tências canônicas para o purgatório. parecem diferir da mesma
“O purgatório, um estado de penitência e purifica- forma que o desespero, o se-
ção entre a morte e o juízo final, é, para a doutri- midesespero e a segurança.
na católico-romana, o local para o pagamento das
Nas teses 17 a 19 Lutero começa com “Parece”, ele
penas decorrentes dos pecados. Estas penas podem
não afirma. Demonstrando um caráter pacífico.
ser parcial ou totalmente eliminadas pelas indul-
17. Parece necessário, para as almas no purgatório,
gências. No mundo cristão, a doutrina do purga-
que o horror diminua na medida em que cresce o
tório surge primeiro em Orígenes, no século II. Em
amor.
1517 Lutero ainda aceita a doutrina do purgató-
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de
rio. Mais tarde irá abandoná-la completamente.11
argumentos racionais nem da Escritura, que elas
Lutero parece não acreditar que as indulgências te- se encontram fora do estado de mérito ou de cresci-
mento no amor.
1. 11 v. 1, p. 23, nota 7.

10 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Lutero e Luteranismo

19. Também parece não ter sido provado que as que se está discutindo neste documento.
almas no purgatório estejam certas de sua bem- 25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purga-
-aventurança, ao menos não todas, mesmo que tório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em
nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza. sua diocese e paróquia em particular.

Lutero não entra no mérito da autoridade do papa, O papa não detém o poder das chaves, poder que é
mas diz claramente que ele só pode entender sobre as usado para assegurar a validade das indulgências. O po-
penas que ele mesmo impôs, ou seja, não pode minis- der do papa é o mesmo que qualquer cristão: interceder
trar sobre as penas do purgatório. pelos outros. Neste caso, até mesmo pelos mortos que
20. Portanto, sob remissão plena de todas as pe- estão no purgatório.
nas, o papa não entende simplesmente todas, mas 26. O papa faz muito bem ao dar remissão às al-
somente aquelas que ele mesmo impôs. mas não pelo poder das chaves (que ele não tem),
mas por meio de intercessão.
Depois de uma introdução de 20 teses, Lutero bate
de frente com os vendedores de indulgências. Sem comentários:
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgên- 27. Pregam doutrina humana os que dizem que,
cias que afirmam que a pessoa é absolvida de tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma
toda pena e salva pelas indulgências do papa. sairá voando [do purgatório para o céu].
Segundo o pesquisador católico Nicolau Paulus, o
Para afirmar sua tese Lutero, acreditando no pregador dominicano João Tetzel realmente anun-
purgatório, usa este como argumento. O que não ciou em suas pregações a frase: “Antes que o dinhei-
for pago em vida será ali pago. ro tilinte na caixa, a alma salta do purgatório.”12
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no pur-
gatório de uma única pena que, segundo os câ- Lutero contrapõe a vontade de Deus à cobiça da
nones, elas deveriam ter pago nesta vida. Igreja.
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa,
Lutero parece aceitar que existam podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão
perfeitos. Isso pode ser classifica- da Igreja, porém, depende apenas da vontade de
do como uma clara leitura de sua Deus.
educação romana. Lutero ainda
não entende o homem como com- Sem comentários:
pletamente corrompido e comple- 29. E quem é que sabe se todas as almas no purga-
tamente justificado. tório querem ser resgatadas? Dizem que este não
23. Se é que se pode dar algum per- foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.
dão de todas as penas a alguém, ele,
certamente, só é dado aos mais per- Aqui está implícita a luta pela remissão dos pecados
feitos, isto é, pouquíssimos. que cada um deveria ter na fé católica.
30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua
Acusa as indulgências de serem enganação. contrição, muito menos de haver conseguido plena
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo ne- remissão.
cessariamente ludibriada por essa magnífica e in-
distinta promessa de absolvição da pena. Lutero não diz que as indulgências não sejam possí-
veis, mas que são quase. Uma vez mais não é polêmico
Parece contestar a autoridade superior do papa, mas e sim pacífico.
considerando o caráter destes escritos não nos atreve- 31. Tão raro como quem é penitente de verdade é
ríamos a afirmar isso a essa época. Mas poderíamos ar- quem adquire autenticamente as indulgências, ou
gumentar que essa tese leva a entender que cada bispo seja, é raríssimo.
e cura é um papa em seu território de domínio. A tese
não é clara quanto à autoridade do papa e nem é isso
1. 12 v. 1, p. 24, nota 13.

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 11


Lutero e Luteranismo

Demonstração de que não aceita de forma alguma 37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja
as indulgências e ainda condena que as espalha, atrapa- morto, tem participação em todos os bens de Cristo
lhando as consciências. e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta
32. Serão condenados em eternidade, juntamente de indulgência.
com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de
sua salvação através de carta de indulgência. O papa não deve ser ignorado, mas somente porque
declara o que Deus já deu.
Sem comentários: 38. Mesmo assim, a remissão e participação do
33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que di- papa de forma alguma devem ser desprezadas,
zem serem as indulgências do papa aquela inesti- porque (como disse) constituem declaração do per-
mável dádiva de Deus através da qual a pessoa é dão divino.
reconciliada com Deus.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem A indulgência dificulta a interpretação de pecado.
somente às penas de satisfação sacramental, deter- As consciências podem sentir-se tranquilas apesar de
minadas por seres humanos. quaisquer pecados. Não há contrição. Há suborno.
39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificí-
As breves confessionais davam à pessoa a segurança limo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a li-
de que na hora da morte poderiam se livrar do castigo berdade das indulgências e a verdadeira contrição.
eterno ou do purgatório. Ainda poderiam escolher a
quem melhor lhes parecia para confessar. Os que procuram indulgências estão tentando esca-
35. Não pregam cristãmente os que ensinam não par da culpa através de meios não lícitos. Está implícito
ser necessária a contrição àqueles que querem res- o pensamento de que se pode pagar pelos pecados co-
gatar ou adquirir breves confessionais. metidos.
As confessionalia, “breves confessionais”, eram 40. A verdadeira contrição procura e ama as pe-
parte importante das graças relacionadas com a nas, ao passo que a abundância das indulgências
proclamação das indulgências jubilares. Quem as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando oca-
comprasse tal privilégio adquiria o direito de es- sião para tanto.
colher um confessor, ao qual haviam sido conce-
Lutero contrapõe as boas obras às indulgências. São
didas autorizações ( faculdades) especiais para a
preferíveis as obras. Lutero ainda está no pensamento
absolvição. Além disso, adquiria uma indulgência
romano de que as obras são necessárias para a salvação.
plenária para ser usada uma vez na vida e para
41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as in-
a hora da morte. Os confessores indicados, quan-
dulgências apostólicas, para que o povo não as jul-
do da venda de uma tal bula extraordinária, ti-
gue erroneamente como preferíveis às demais boas
nham a autoridade de conceder dispensa também
obras do amor.
nos casos reservados ao papa e de transformar pro-
messas especialmente severas em outras de menor Lutero afirma que o papa não corrobora com as in-
peso. Além disso, podiam autorizar a retenção de dulgências.
bens ilegitimamente adquiridos, de matrimônios Lutero pensa ter o apoio papal ao discutir estas
entre pessoas inabilitadas devido a certos graus de questões. Na época julga poder usar a opinião pa-
parentesco, etc.13 pal contra seus adversários. Somente alguns anos
mais tarde é que verá que estava enganado.14
Qualquer cristão pode ser salvo, não apenas os que
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensa-
compram indulgências.
mento do papa que a compra de indulgências pos-
36. Qualquer cristão verdadeiramente arrepen-
sa, de alguma forma, ser comparada com as obras
dido tem direito à remissão pela de pena e culpa,
de misericórdia.
mesmo sem carta de indulgência.
Uma vez mais Lutero afirma que é melhor fazer
A graça é dada por Deus mediante Cristo.
1. 13 v. 1, p. 25, nota 16. 1. 14 v. 1, p. 26, nota 18.

12 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Lutero e Luteranismo

boas obras do que comprar indulgências. 49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgên-
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao po- cias do papa são úteis se não depositam sua con-
bre ou emprestando ao necessitado, procedem me- fiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se
lhor do que se comprassem indulgências. perdem o temor de Deus por causa delas.

As indulgências são fuga da pena. Nas duas teses abaixo, mais uma vez Lutero defende
44. Ocorre que através da obra de amor cresce o o papa. Sugere que este não sabe do que se passa na ven-
amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com da das indulgências. E que se soubesse não permitiria.
as indulgências ela não se torna melhor, mas ape- 50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa sou-
nas mais livre da pena. besse das exações dos pregadores de indulgências,
preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro
Comprar indulgências traz a ira de Deus, pois é a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas
preferível usar o dinheiro para ajudar ao necessitado. ovelhas.
Lutero afirma claramente que (segundo o pensamento 51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria
romano) para livrar-se do purgatório e inferno é neces- disposto — como é seu dever — a dar do seu di-
sário que se faça obras, ao invés de tentar fugir do casti- nheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores
go buscando as indulgências. de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro,
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um mesmo que para isto fosse necessário vender a Ba-
carente e o negligencia para gastar com indulgên- sílica de S. Pedro.
cias obtém para si não as indulgências do papa,
mas a ira de Deus. Sem comentários:
52. Vã é a confiança na salvação por meio de car-
Lutero entende que Deus dá bens às pessoas para tas de indulgências, mesmo que o comissário ou até
que elas possam viver e cuidar dos seus. Não se deve- mesmo o próprio papa desse sua alma como garan-
ria gastar com indulgências se vai faltar em casa. Isso tia pelas mesmas.
vai contra o princípio de se comprar a indulgência para
livrar-se do castigo eterno. Nas teses abaixo (53-55) Lutero defende o valor da
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem Palavra de Deus ante as indulgências. Estava se dando
bens em abundância, devem conservar o que é ne- muito mais valor às indulgências do que à Palavra de
cessário para sua casa e de forma alguma desperdi- Deus. Já não era a graça de Deus que salvava e livrava do
çar dinheiro com indulgência. castigo eterno, mas simplesmente a indulgência papal.
53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que,
Lutero aceita as indulgências (devemos lembrar que por causa da pregação de indulgências, fazem calar
Lutero aceita a autoridade do papa), mas afirma que por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
não devem ser forçadas e sim oferecidas. O comissário era uma pessoa comissionada pela
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de Igreja com a venda de indulgências.15
indulgências é livre e não constitui obrigação. Durante o período de sua permanência em uma
localidade, o comissário era senhor absoluto sobre
Sem comentários:
a igreja e sobre os sacerdotes. Determinava quando
48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder
e onde poderia ser pregado. Podia, além disso, sus-
indulgências, o papa, assim como mais necessita,
pender as indulgências especiais, proibir a confis-
da mesma forma mais deseja uma oração devota
são, sob pena de excomunhão, designar confessores
a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a
de indulgências.16
pagar.
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um
Lutero é confuso neste argumento. Não define mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às
como as indulgências poderiam ser úteis. Mas ele está indulgências do que a ela.
seguro de que as indulgências representam a tentativa 55. A atitude do papa é necessariamente esta: se
de fuga da ira de Deus. 1. 15 v. 1, p. 26, nota 19.
1. 16 v.1, p. 26, nota 20.

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 13


Lutero e Luteranismo

as indulgências (que são o menos importante) são timos.


celebradas com um toque de sino, uma procissão
e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais im- As indulgências servem como fuga da ira divina.
portante) deve ser anunciado com uma centena de 64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências
sinos, procissões e cerimônias. é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últi-
mos os primeiros.
Sem comentários:
56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede Nas teses abaixo (65-67) Lutero afirma que as in-
as indulgências, não são suficientemente mencio- dulgências servem apenas para arrancar dinheiro das
nados nem conhecidos entre o povo de Cristo. pessoas.
O tesouro da Igreja é formado pelas obras exceden- 65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as
tes de Cristo e dos santos. Estas obras excedentes es- redes com que outrora se pescavam homens possui-
tão confiadas à administração papal como thesau- dores de riquezas.
rus bonorum operum. Cabe ao papa distribuí-las 66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são
a quem delas necessita. Lutero nega essa concepção as redes com que hoje se pesca a riqueza dos ho-
na tese 58.17 mens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vende-
Sem comentários: dores como as maiores graças realmente podem ser
57. É evidente que eles, certamente, não são de na- entendidas como tal, na medida em que dão boa
tureza temporal, visto que muitos pregadores não renda.
os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajun-
tam. Indulgências não são nada quando comparadas à
graça de Deus em Cristo.
Lutero ainda acredita (como a igreja romana) que os 68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais
santos tenham méritos e que os possam compartilhar. ínfimas em comparação com a graça de Deus e a
58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos piedade na cruz.
santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a
graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o Lutero enfatiza a hierarquia à essa época. Talvez por
inferno do ser humano exterior. isso ele tenha escrito a tese seguinte.
69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir
Sem comentários: com toda a reverência os comissários de indulgên-
59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são cias apostólicas.
os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a
palavra como era usada em sua época. Lutero volta a defender o papa. Admitindo que os
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves comissários é que estariam desvirtuando aquilo que o
da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mé- papa lhes tinha ordenado.
rito de Cristo, constituem este tesouro. 70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de ob-
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e servar com os dois olhos e atentar com ambos os
dos casos, o poder do papa por si só é suficiente. ouvidos para que esses comissários não preguem os
seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi in-
Aqui se sente que Lutero valoriza o Evangelho aci- cumbido pelo papa.
ma de todas as coisas que a Igreja possa oferecer.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Sem comentários:
Evangelho da glória e da graça de Deus. 71. Seja excomungado e maldito quem falar con-
tra a verdade das indulgências apostólicas.
Sem comentários: 72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra
63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com a devassidão e licenciosidade das palavras de um
razão, porque faz com que os primeiros sejam os úl- pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aque-
1. 17 v. 1, p. 27, nota 21.

14 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Lutero e Luteranismo

les que, de qualquer forma, procuram defraudar o te estariam circulando entre as pessoas de sua época.
comércio de indulgências, Como na tese 82: se o papa pode tirar as pessoas do
74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a purgatório por dinheiro, por que não faz isso por bon-
pretexto das indulgências, procuram defraudar a dade? Com perguntas assim ele mostra que é totalmen-
santa caridade e verdade. te contra tais indulgências.
75. A opinião de que as indulgências papais são 81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz
tão eficazes ao ponto de poderem absolver um ho- com que não seja fácil, nem para os homens doutos,
mem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, defender a dignidade do papa contra calúnias ou
caso isso fosse possível, é loucura. perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: por que o papa não evacua o pur-
Lutero aponta para a inutilidade das indulgências. gatório por causa do santíssimo amor e da extrema
76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências necessidade das almas — o que seria a mais justa
papais não podem anular sequer o menor dos peca- de todas as causas —, se redime um número infi-
dos veniais no que se refere à sua culpa. nito de almas por causa do funestíssimo dinheiro
A teologia católica distingue entre pecados veniais para a construção da basílica — que é uma causa
e pecados mortais. Os primeiros não são pecados no tão insignificante?
sentido lato do termo. Os segundos referem-se aos 83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exé-
sete pecados capitais. Estes, enquanto não forem quias e os aniversários dos falecidos e por que ele
perdoados, têm como consequência a morte eterna, não restitui ou permite que se recebam de volta as
devendo, por isso, ser confessados.18 doações efetuadas em favor deles, visto que já não é
justo orar pelos redimidos?
Sem comentários:
84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus
77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso
e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem
fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores
ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e
graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.
amiga de Deus, porém não a redimem por causa
78. Afirmamos, ao contrário, que também este,
da necessidade da mesma alma piedosa e dileta,
assim como qualquer papa, tem graças maiores,
por amor gratuito?
quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de
85. Do mesmo modo: por que os cânones peniten-
curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.
ciais — de fato e por desuso já há muito revogados e
Nada é maior do que a cruz de Cristo, nem mesmo mortos — ainda assim são redimidos com dinhei-
a cruz do papa. ro, pela concessão de indulgências, como se ainda
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do estivessem em pleno vigor?
papa, insignemente erguida, equivale à cruz de 86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna
Cristo. hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não
constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta
Lutero lembra da responsabilidade de cada bispo uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com
frente ao seu rebanho. o dinheiro dos pobres fiéis?
80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólo- 87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa
gos que permitem que semelhantes conversas sejam e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm
difundidas entre o povo. direito à remissão e participação plenária?
88. Do mesmo modo: que benefício maior se pode-
Nas teses que se seguem (81-89) Lutero usa de sar- ria proporcionar à Igreja do que se o papa, assim
casmo para contra argumentar às indulgências. Ele é como agora o faz uma vez, da mesma forma con-
muito perspicaz e não parece temer o papa. Segundo cedesse essas remissões e participações 100 vezes ao
ele pensava não havia o que temer, pois o papa estaria dia a qualquer dos fiéis?
do seu lado. 89. Já que, com as indulgências, o papa procura
Lutero põe nas teses as perguntas que provavelmen- mais a salvação das almas do o dinheiro, por que
suspende as cartas e indulgências outrora já conce-
1. 18 v. 1, p. 28, nota 27.

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 15


Lutero e Luteranismo

didas, se são igualmente eficazes? das “coisas permitidas e autorizadas”. Elas seriam adi-
áforos. Pois ele mesmo afirma: “Se as almas são tiradas
Lutero chama a atenção ao fato de que as pessoas do purgatório através da indulgência, isso eu não sei e
merecem ao menos uma explicação dos abusos que es- também ainda não acredito, mesmo que alguns novos
tão acontecendo. Eles não deveriam ser tratados à força. doutores o afirmem.”19
90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes Também se pode perceber que Lutero acredita no
dos leigos somente pela força, sem refutá-los apre- Purgatório e que dali as almas poderiam sair através da
sentando razões, significa expor a Igreja e o papa à atuação dos vivos em favor Delas.
zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos. Se as almas são tiradas do purgatório através das
indulgências ... eu não sei e também ainda não
Sem comentários:
acredito. ... Por isso, para maior segurança, é mui-
91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas
to melhor que ores e atues por elas, pois isto está
em conformidade com o espírito e a opinião do
mais comprovado e certo.20
papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente
respondidas e nem mesmo teriam surgido. Há neste escrito um caráter mais polêmico do que
92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem nas 95 teses:
ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz! Ainda que alguns, para os quais esta verdade dá
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao grande prejuízo material, agora me chamem de
povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz! herege, não dou muita importância a semelhan-
te palavrório, pois quem está a fazê-lo são alguns
Os cristãos deveriam confiar que pelas penas esta-
cérebros tenebrosos que nunca cheiraram a Bíblia,
riam nos céus (se percebe a teologia romana) e não por
nunca leram os mestres cristãos, nunca enten-
comprarem as indulgências. Estas, ao contrário, geram
deram seus próprios professores e já estão quase a
uma esperança falsa e levam que leva ao inferno.
decompor-se em suas opiniões esburacadas e es-
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem
farrapadas. Pois se os tivessem entendido, sa-
por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas,
beriam que não devem difamar a ninguém
da morte e do inferno;
sem ouvi-lo e convence-lo do seu erro. Que
O caminho do céu passa pelas tribulações da terra. Deus dê a eles e a nós um entendimento cor-
O cristão sofre aqui, antes de estar na perfeição com reto! Amém.21
Deus. Isto é claro para Lutero.
O sermão é baseado sobre os argumentos de
95. e, assim, a que confiem que entrarão no céu an-
sua época e neles se fala que quanto ao ensino
tes através de muitas tribulações do que pela segu-
de mestres como Pedro Lombardo e S.
rança da paz.
Tomás
...atribuem três partes
2. – Um Sermão Sobre a à Penitência, quais
sejam: a contri-
Indulgência e a Graça ção, a confissão
e a satisfação.
Neste escrito, de meados de 1518. Lutero fala uma
Esta distinção,
vez mais abertamente sobre as indulgências. Não con-
em seu conceito,
tra, mas sobre elas. Pode-se sentir uma aparente incerte-
dificilmente ou
za de Lutero. Ele não quer falar contra as indulgências,
mesmo de forma
mas recomenda que não se use delas. Excetuando-se
alguma se acha
raríssimos casos. E mesmo nestes era preferível fazer
fundamentada na
obras.
Sagrada Escritura e
Este escrito foi produzido à mesma época que as
“Explicações do Debate sobre o Valor das Indulgências”. 1. 19 v. 1, p. 34, § 18.
1. 20 v. 1, p. 34, § 18.
Lutero prefere colocar as indulgências no campo 1. 21 v. 1, p. 34, § 20.

16 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Lutero e Luteranismo

nos antigos santos mestres cristãos.22 ricórdia para com o próximo.27

E Lutero chama a atenção para a falta de prova escri-


Afirmo que, mesmo que a Igreja cristã decidisse e turística para as indulgências. Há muita confusão en-
declarasse hoje que a indulgência elimina mais do torno delas e não se sabe se valem ou não. Por isso é tão
que as obras de satisfação, ainda assim seria mil necessário que se prove escrituristicamente.
vezes melhor que cristão algum comprasse ou de- Afirmo ... que não se pode provar, a partir da Escri-
sejasse a indulgência, mas preferivelmente prati- tura, que a justiça divina deseja ou exige do pecador
casse as obras e sofresse a pena. Pois a indulgência qualquer pena ou satisfação, mas sim unicamente
não é nem pode tornar-se outra coisa do que uma sua contrição e conversão sincera e verdadeira, com
dispensa de boas obras e de benéficas penas, que se- o propósito de, doravante, carregar a cruz de Cris-
ria melhor fossem preferidas do que abandonadas, to e praticar as obras acima mencionadas (mesmo
ainda que alguns novos pregadores tenham desco- que não estejam prescritas por ninguém).28
berto dois tipos de penas: medicativas e satisfacto-
rias, isto é, uma para o aperfeiçoamento, outras E ainda, provando pela escritura Lutero afirma:
para a satisfação.23 De nada vale dizer que as penas e as obras seriam
demasiadas, que a pessoa não conseguiria realizá-
Lutero afirma que mesmo as penas são bênção para -las por causa da brevidade de sua vida e que, por
o cristão. Pois nas penas está implícito o amor de Deus isso, precisaria da indulgência. Respondo que isso
em corrigir seus filhos. não tem fundamento e é pura invenção. Porque
Porque toda pena, sim, tudo o que Deus impõe é Deus e a santa Igreja a ninguém impõem mais
útil e contribui para o melhoramento do cristão.24 do que lhe é possível carregar, como também o diz
Em contra partida as Indulgências são “dispensa de Paulo: Deus não permite que alguém seja tentado
muitas boas obras”25. acima do que pode carregar. É grande vergonha
Como se afirmava que as indulgências cobrem ape- para a cristandade ser acusada de impor mais do
nas a última parte da Penitência (satisfação), Lutero que podemos carregar.29
volta suas atenções a ela. Observe-se também que a
teologia de Lutero ainda acredita na satisfação pro- Talvez pela dúvida Lutero não rejeitou completa-
duzida por obras (teologia romana) como “mortifi- mente as indulgências. Ele acreditou no seu valor, mas
cação da carne”26. apenas para pecadores preguiçosos. Como uma dádi-
A satisfação também é subdividida em três partes: va àqueles que não fazem obras de satisfação. Por isso
orar, jejuar, dar esmola, e isto da seguinte forma: “Deixa os cristãos preguiçosos e sonolentos comprarem in-
“orar” compreende todas as obras pró- dulgência. Tu, porém, segue teu caminho!”30
prias da alma, como ler, meditar, ou- A indulgência é permitida por causa dos cristãos
vir a palavra de Deus, imperfeitos e preguiçosos, que ao querem exercitar-
pregar, ensinar e si- -se resolutamente em boas obras ou não desejam
milares; “jejuar” in- sofrer. Pois a indulgência não promove o melhora-
clui todas as obras de mento de ninguém, e sim tolera e permite sua im-
mortificação da carne, perfeição. Por esta razão não se deve falar contra a
como vigílias, trabalho, indulgência, mas também não se deve recomendá-
leito duro, vestes gros- -la a ninguém.31
seiras, etc.: “dar esmo-
No princípio de não ir contra as indulgências Lute-
las” abrange todas as
ro ensina o que seria o uso correto destas. Tudo deveria
obras de amor e mise-
ser feito antes das ditas indulgências.
1. 22 v. 1, p. 31, § 1. 1. 27 v. 1, p. 32, § 3.
1. 23 v. 1, pp. 32-33, § 9. 1. 28 v. 1, p. 32, § 6.
1. 24 v. 1, p. 33, § 9. 1. 29 v. 1, p. 33, § 10.
1. 25 v. 1, p. 33, § 16. 1. 30 v. 1, p. 34, § 16.
1. 26 v. 1, pp. 31-32, § 3. 1. 31 v. 1, p. 33, § 14.

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Lutero e Luteranismo

Sim, e para que os ensine corretamente, atentem prios são escravos da corrupção” [2Pe 2.19]. Isso
bem: antes de todas as coisas (sem preocupação com diz respeito tanto às indulgências quanto a toda a
o edifício de São Pedro nem com a indulgência) de- falácia com a qual anunciam a dedicação às apa-
ves dar ao teu próximo pobre, se queres dar alguma rências como algo bom...35
coisa. Mas se chegar o momento em que, em tua
cidade, não há mais ninguém que necessite de aju- Falando dos abusos e daqueles que os cometem Lu-
da (o que jamais será o caso, se Deus quiser), então tero lembra que pecados e leis foram criados para que
deves ofertar, se quiseres, às igrejas, altares, orna- fossem podidas cobrar indulgências:
mentos, cálice, em tua cidade. E quando isso tam- E com que dificuldade o santíssimo perdoa esses
bém não mais for necessário, só então — se quiseres pecados fictícios, a não ser exclusivamente por di-
— podes contribuir para o edifício de S. Pedro ou nheiro, e nesse meio tempo ele favorece inclusive o
para alguma outra coisa. Mesmo assim, também adultério e os crimes mais ímpios! Por outro lado,
não deves fazê-lo por causa da indulgência. Pois com quantas indulgências ele recompensa tais jus-
São Paulo diz: “Quem não faz o bem sequer aos tiças! E com mérito. Pois tais pecadores devem ser
de sua própria casa não é cristão e é pior do que o dotados com tais remissões, e tais justos têm que ser
descrente.” [1Tm 5.8]32 coroados com tais prêmios, para que as indulgên-
cias e absolvições sejam tão verdadeiras como são
Peca quem tenta comprar a liberdade que é dada verdadeiros os pecados e as justiças. Ó abominação
pela graça de Deus. Lutero já afirma a graça gratuita de abominável!36
Deus. Mas aparentemente não com a ênfase que o fará
mais tarde. O papa que era respeitado nos documentos ante-
Incorre em grave erro quem pretende fazer satis- riores, não recebe o mesmo respeito, pelo contrário, é
fação por seus pecados, pois Deus os perdoa a toda chamado de anticristo e tem sua autoridade contestada.
hora grátis, por graça inestimável, e nada deseja Segundo as indulgências Lutero afirma:
em troca senão que doravante se leve uma vida De que maneira poderia ter descrito melhor o rei-
boa. A cristandade, esta sim, faz exigências; por- no e as obras do papa? Ele é um mero dolo, e, não
tanto, ela também pode e deve dispensar delas e obstante, feliz e próspero, a ponto de enfatuar o
não impor nada pesado ou insuportável.33 mundo inclusive com mentiras evidentes e coisas
de brincadeira, como se evidencia somente no caso
Lutero termina o sermão pedindo que Deus venha das indulgências. Pois qualquer coisas que ouse
a esclarecer a questão: “Que Deus dê a eles e a nós um empreender, por mais sujo e mentiroso que seja,
entendimento correto!”34 Ele ainda tem a esperança de em tudo o papa terá sucesso.37
reformar os erros na igreja de dentro para fora.
Não há dúvidas, neste documento Lutero já rom-
3. Resposta a Ambrósio Catarino peu com o que acreditava sobre as indulgências. Assim
como em outros documentos que examinamos fica cla-
Este documento é mais tardio que os anteriormente ra a posição “Luterana”: só a graça de Deus, revelada em
tratados. Data de outubro de 1520. Há várias outras re- Cristo pode livrar do castigo eterno. Nada que o ho-
ferências às indulgências. Mas como falam basicamente mem possa ordenar vai livrar os pecadores do inferno.
a mesma coisa, nós procuramos usar este apenas como
um exemplo do pensamento posterior de Lutero a res- Conclusão
peito da questão que girava em torno das indulgências.
Se antes Lutero tenta corroborar a atitude do papa Devemos considerar todo o pano de fundo situacio-
com o que estava sendo feito com as indulgências, aqui nal onde surgiram as 95 teses. Um dos aspectos que fica
ele fala claramente contra as Indulgências: claro nesta pesquisa é que Lutero, a princípio, não era
“Prometendo-lhes a liberdade, quando eles pró- conta as indulgências, mas queria esclarecimento sobre

1. 32 v. 1, pp. 33-34, § 16. 1. 35 v. 3, p. 73.


1. 33 v. 1, p. 33, § 13. 1. 36 v. 3, p. 77.
1. 34 v. 1, p. 34, § 20. 1. 37 v. 3, p. 92.

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Lutero e Luteranismo

as mesmas. Até que este esclarecimento existisse se de- deou sua opinião para acalmar as consciências que esta-
veria evitá-las. vam atormentadas.
Depois, contudo, Lutero é abertamente contra e ex- Isto, no mínimo, serve de exemplo para o posicio-
põe suas idéias. Em vários documentos Lutero expressa namento contemporâneo daqueles que se dizem Lute-
sua posição frente às indulgências. Estes documentos ranos.
não estão aqui englobados, pelo simples fato de que * Pesquisa científica apresentada ao Professor Paulo W. Buss,
eles têm praticamente o mesmo teor do documento da disciplina “Estudos na Teologia de Lutero”.
Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Iguaçu-RJ,
escrito a Ambrósio Catarino. Com a resolva de serem pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
articulados de forma um pouco distinta.
O que fica desse estudo é o profundo respeito que Bibliografia
Lutero tinha por quem ele cria ser a autoridade da
Igreja. E que quando esta autoridade é visto como um LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São
Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1987. v. 1.
“anticristo” ela não merece respeito. Ao contrário. As LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São
pessoas devem ser instruídas contra tais pessoas. Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1989. v. 2.
LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São
Se num primeiro momento Lutero hesitou em Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1992. v. 3.
ir contra as indulgências, foi pelo mérito da dúvida. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São
Quando teve certeza ele não mais hesitou e ainda alar- Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1995. v. 4.

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 19


Lutero e Luteranismo Rev. Luisivan Vellar Strelow

Graça,
lei e evangelho
no desenvolvimento da teologia de Lutero (1509-1521)
Wir sind alle bettler. Hoc est verum (1546)

L utero, muito cedo, adquiriu importantes, sem dúvida, mas o


profundo interesse e amor pelas que tem a fé e o conhecimento de
Escrituras. Sua vida e carreira teoló- Cristo. Pois a tarefa do teólogo não
quais são como “palha” que o fogo
da provação logo consome. Outras
passagens, no entanto, são como
gica foram guiadas, do início ao fim, é meramente explicar a “letra” das “ouro”, as quais trazem conforto ao
pela busca do conhecimento das Es- Escrituras, mas explicar as Escritu- coração, tornando-se ainda mais
crituras. ras segundo o seu “espírito”. O ver- valiosas e claras depois de passada a
Em 1508, Lutero escreveu a um dadeiro teólogo precisa ter familia- provação. As passagens bíblicas que
amigo contando que havia sido ridade com a “palavra externa” das apontam para as nossas boas obras
obrigado a deixar de lado o estudo Escrituras, mas precisa explicar as são como a “palha”, as quais também
da teologia para ensinar filosofia Escrituras segundo a fé em Cristo têm sua utilidade no cotidiano, mas
(lógica e de ética), mas que gostaria ou “palavra interna”, com auxílio do as passagens bíblicas que apontam
muito de voltar ao estudo da teo- Espírito Santo e seus dons. Estudar para Cristo, essas são como “ouro”,
logia. O estudo de Aristóteles, Lu- e ensinar a Bíblia é mais do que ex- pois trazem o conforto da salvação
tero escreveu nessa carta, era para plicar um texto literário, é lutar com eterna. O pregador que extrai das
ele duro como uma casca de uma as armas de Deus contra o pecado, Escrituras, com clareza, a palavra da
noz, mas o estudo das Escrituras era o mundo e o diabo. Por essa razão, lei e a palavra do evangelho, esse, se-
como encontrar a o verdadeiro teó- gundo Lutero, é um verdadeiro te-
amêndoa da noz. a verdade é que somos logo é aquele que, ólogo e doutor nas Escrituras. Por-
Em 1546, na últi- todos mendigos no estudo e ensi- que a graça de Deus não é revelada
ma de suas anota- no das Escrituras, em nenhum outro lugar senão nas
ções, Lutero escreveu que o conhe- ora, medita e luta (oratio, meditatio, Escrituras. O Antigo Testamento,
cimento do teólogo é sempre pobre tentatio faciunt theologum). por exemplo, é como o presépio, a
diante da riqueza das Escrituras: “a Nas Escrituras, nem todas as pas- manjedoura e os panos em que en-
verdade é que somos todos mendi- sagens são iguais, algumas são como contramos o Menino Jesus. A teolo-
gos” (Wir sind alle bettler. Hoc est madeira macia em que o sentido é gia da glória, escreveu Lutero, busca
verum). aberto ao teólogo ao primeiro gol- nas Escrituras a exaltação das obras
O trabalho do teólogo, para pe do machado, enquanto outras e do mérito humano; a teologia da
Lutero, não é outro senão o estudo são duras como um nó, e requerem cruz, porém, busca nas Escrituras o
e o ensino das Escrituras Sagradas. muita oração, meditação e luta até Filho de Deus que veio em humil-
Para Lutero, o verdadeiro teólogo é que o sentido delas se abra ao teó- dade e pobreza, para que nós o re-
aquele que fundamenta seu ensino logo. E nem todas as passagens bí- cebêssemos sem temor e com toda
na Palavra de Deus, e não em opini- blicas tem o mesmo peso, algumas a confiança.
ões humanas. O verdadeiro teólogo, trazem instrução para o cotidiano, Muito antes da controvérsia com
no entanto, não é o que domina as mas pouco conforto na tentação Zwínglio, Lutero já defendia a inte-
técnicas da hermenêutica, que são ou luta interior (Anfechtung), as gridade do texto bíblico, pois a gra-

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Lutero e Luteranismo

ça de Deus é encontrada somente mas a voz de Deus. Em vista disso, exige autocondenação (fé como
no texto bíblico, se o conservamos o teólogo não pode senão colocar-se contrição sob a ira misericordiosa
em sua integridade. A razão huma- como um mendigo diante graça de de Deus), mas a voz de um Pai que
na é uma grande dádiva de Deus, é Deus em Jesus Cristo. oferece perdão gratuito de todos
a “luz da natureza”, necessária para Lutero, no entanto, percorreu os pecados (fé como pura recepção
o estudo do texto bíblico em seus um longo caminho até encontrar da graça de Deus). Essa passagem,
aspectos exteriores (“letra” ou “pa- nas Escrituras um Deus gracio- diz Lutero, era para ele um nó de
lavra externa”). Somente o Espíri- so, pois havia aprendido a buscar madeira muito duro, cujo sentido
to Santo, contudo, concede a ilu- o Juiz severo. Como relatou num somente se lhe abriu por graça e
minação ou “luz da graça”, que é o importante Prefácio de 1545, foi iluminação de Deus, porque estava,
conhecimento do texto bíblico em batendo insistentemente na porta segundo suas palavras, preso a uma
seu aspecto interior (“espírito” ou das Escrituras que Lutero finalmen- compreensão da “justiça de Deus”
“palavra interna”). O teólogo que te encontrou, em Romanos 1.17, a que o impedia de compreender o
submete o texto bíblico à razão, es- boa notícia de que, no evangelho, sentido evangélico de Romanos
tabelece divisões e distinções que não ouvimos a voz de um Juiz que 1.17. Para Lutero, por muito tem-
reduzem as Escrituras a um código po, a “justiça de Deus” seria a justiça
de normas morais. O verdadeiro que Deus demanda da fé (verdadei-
teólogo, ao contrário, ele próprio é ra e plena contrição) e não a justiça
um cativo e servo das Escrituras, que a fé recebe de Deus (verdadeira
o qual ora, medita e luta com e plena absolvição). Lutero não ne-
o pecado, o mundo e o diabo, gou a necessidade da contrição, mas
para compreender cada passa- afirmou que a contrição pertence ao
gem bíblica, porque procura ofício da lei, enquanto a absolvição
ouvir nas Escrituras não o eco pertence ao ofício do evangelho.
de suas próprias opiniões, A lei produz tristeza por causa do
pecado, mas o evangelho traz a ale-
gria da salvação pela graça de Deus.
Jesus venceu a lei, na cruz, quando
morreu por todos os nossos peca-
dos, redimindo-nos de toda cul-
pa (castigo eterno) e de toda pena
(castigo temporal), e vence a lei
novamente, em nossa cons-
ciência, quando vence
a acusação da lei e
faz cessar a con-

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 21


O vestígio mais antigo de reorienta-
ção teológica ou de posicionamento
crítico em relação ao escolasticismo
medieval encontra-se numa anota-
ção de Lutero à margem do exem-
plar de estudo e trabalho das Sen-
tenças de Pedro Lombardo (Paris, c.
1100-1160). Em Erfurt, Lutero foi
sententiarius ou expositor das Sen-
tenças de Pedro Lombardo (1509-
1510), antes de sua viagem a Roma
(1510-1511) e transferência para
Wittenberg (1511). Com base no
testemunho dos Pais da Igreja e no
comentário de Pedro Lombardo,
Lutero afastou-se da concepção es-
colástica da graça em favor de uma
na graça de Deus em concepção bíblica e patrística. Para
permanente contrição inte- os escolásticos medievais, a graça
rior. Lutero identificava a contrição seria uma qualidade impessoal e
trição ou tristeza, como parte da fé em Cristo, o juiz supernatural (gratia creata, habitus
porque onde Cristo está, misericordioso. Desde, pelo menos, infusus) dada por Deus para capaci-
ali só pode haver alegria (ubi Chris- 1513, Lutero já sabia e ensinava que tar o ser humano a merecer a salva-
tus, ibi gaudium). a justificação não era por obras da ção. Lutero rejeitou esse conceito de
Segundo o testemunho de lei (justificação exterior), mas pela cunho aristotélico e adotou, nesse
Lutero, a descoberta do evange- fé em Cristo (justificação interior). momento, uma concepção da graça
lho como palavra da graça de Deus Desde 1515, igualmente, Lutero já como presença pessoal de Deus ou
abriu para ele as portas do paraíso, interpretava Romanos 1.17 em sen- a habitação do Espírito Santo no
porque, até então, vivia em perma- tido passivo, tal como relatou no crente (gratia increata).
nente purgatório, jamais avançando Prefácio de 1545. Contudo, somen- A graça da regeneração (a nova
para além da humilde contrição e te em 1518/1519, vida recebida no
acusação de si mesmo (humilitas, Lutero finalmente a descoberta do batismo) não se-
accusatio sui). A jornada de Lutero, teria achegado à evangelho como palavra ria uma qualida-
no entanto, até o seu encontro com compreensão de da graça de Deus abriu as de nova na alma
o evangelho da graça de Deus nas que o sentido pas- portas do paraíso. (qualitas recebida
Escrituras, foi longa, com avanços sivo da justificação ex opere operato
e recuos, com desvios e retomadas não apenas exclui as obras exterio- nos sacramentos), mas a habitação
do caminho. Ainda que Lutero res, mas também a contrição inte- do Espírito Santo com seus dons no
avançasse muitas vezes em direção à rior, e que a dádiva da “justiça de coração (cf. Explicação ao 3º Arti-
compreensão evangélica da doutri- Deus” é benefício inteiramente con- go do Credo, 1529). Fé, esperança
na da justificação, sentia-se obriga- ferido pela promessa do evangelho e e amor eram compreendidos na te-
do sempre de novo a recuar. A sua recebido pela fé. ologia escolástica como qualidades
compreensão da “justiça de Deus”, Grande parte da pesquisa em supernaturais (“virtudes teologais”),
em Romanos 1.17 e em outras pas- Lutero está dedicada a encontrar as as quais adeririam à alma junto com
sagens, o mantinha preso a uma marcas deixadas nos textos de Lute- as virtudes naturais (prudência, for-
doutrina da justificação que, se já ro, 1509 até 1521, que permitissem taleza, justiça e temperança). A gra-
não era por obras exteriores e méri- refazer a sua trajetória intelectual ou ça infusa seria necessária para tornar
to humano, ainda era por confiança peregrinação espiritual e teológica. as boas obras meritórias para a sal-

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Lutero e Luteranismo

dos Salmos, em 1513, Lutero já di-


ferenciava a “lei” do “evangelho”, e a
“justiça da lei” da “justiça do evan-
gelho”. É verdade que, no entanto,
ainda o fazia no sentido de distin-
ção entre “Antigo Testamento” (lei
carnal) e “Novo Testamento” (lei es-
piritual, lex spiritualis). A diferença
entre “lei” e “evangelho” seria ape-
nas de grau: a lei espiritual e interior
de Cristo seria “superior” à lei carnal
e exterior de Moisés. O “evangelho”
não apenas era “lei”, mas era uma
“lei” mais exigente do que a lei da
Antiga Aliança, porque exigiria ver-
dadeiro amor a Deus e verdadeira
contrição interior. Cristo, para Lu-
tero, nessa etapa de seu desenvolvi-
mento teológico, seria um “juiz mi-
vação. Lutero rejeitou essa definição deiro e irmão com Cristo. sericordioso” (iudex misericors). A
escolástica, e afirmou que a tríade Em sua aula inaugural como ex- graça de Deus se revelaria sob a ira,
paulina “fé, esperança e amor” são positor bíblico (lector biblicus) na a misericórdia sob o juízo (sub con-
dons do Espírito Santo, recebidos Universidade de Wittenberg, em trario specie). A fé, por sua vez, seria
no batismo, pelos quais vivemos fi- 1513, Lutero já distinguia entre verdadeira contrição e humildade
lhos de Deus, herdeiros do reino e uma justiça da “letra”, com base na interior (contritio, humilitas), con-
irmãos em Cristo: ut sit filius dei, lei e obras exteriores (iustitia pha- formidade com Cristo (conformitas
haeres regni, frater Christi (1518). risaica et legalis) de uma justiça do Christii) ou acusação de si mesmo
Segundo a doutrina escolástica, a “espírito”, com base no evangelho (accusatio sui). A justificação seria o
graça ou o amor (caridade) seria e na fé interior (iustita fidei). Lute- reconhecimento humilde do juízo
uma “substância” ou “qualidade” ro, desde esse tempo, já distinguia gracioso de Deus revelado no Evan-
que torna meritórias as obras huma- entre dois tipos de justiça: a do ho- gelho (iustitia dei = iudicium dei,
nas com vistas à aquisição da perfei- mem interior (homo interior), que é Romanos 1.17).
ção. Para Lutero, a graça ou o amor segundo o “espírito” e a fé (spiritus, Nas Preleções sobre Romanos
(caridade) é o Espírito Santo que fides) e a do homem exterior (homo (1515-1516), Lutero já passava a
cria um novo homem, perfeito, mas exterior), que é segundo a letra e as apontar funções distintas da lei e do
que ainda está em luta com o velho obras (littera, opera). Em 1518, Lu- evangelho: a lei revela a enfermida-
homem pecaminoso (simul iustus et tero chamaria a justiça da fé (confor- de (pecado) e destrói toda confian-
peccator). O batismo, midade interior ça em obras meritórias; o evangelho
Lutero rejeitou a revela a cura (graça) e aponta para a
para Lutero, não era a com Cristo — Fp
recepção de uma graça graça infusa e afirmou 2.7-8) de teologia misericórdia de Deus em Cristo. O
“material” (fé, espe- que “fé, esperança e da cruz (theologia Evangelho já é definido como uma
rança e amor como amor” são dons do crucis), e a justiça palavra sobre o Filho de Deus feito
virtudes implantadas Espírito Santo, recebidos das obras (cum- carne, morto e ressuscitado. Lutero
no batizado ex opere no batismo. primento exterior rejeita a distinção entre lei moral e
operato), mas o renas- da lei), de teologia cerimonial — erro cuja introdução
cimento e o ingresso, pela habitação da glória (theologia gloriae). na igreja atribuía a Jerônimo — na
do Espírito Santo, em uma nova “re- Na aula inaugural como lector interpretação da locução paulina
lação” com Deus, como filho, her- biblicus, em sua primeira exposição “sem as obras da lei” (sine operibus

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Lutero e Luteranismo

zão” ou “teologia da glória”); a fé


em Cristo leva ao reconhecimento
do pecado e da necessidade da gra-
ça de Deus (“julgamento à luz da
paixão de Cristo” ou “teologia da
cruz”). Nas preleções sobre Roma-
nos, a função da fé em Cristo é le-
var o cristão a viver em permanente
contrição e confissão de pecados:
“os justos nunca cessam de confes-
sar seus pecados” (comentário a Rm
legis). As obras tero contrasta o 3.11). O contraste entre a indigni-
da lei incluem as “amor” tal como dade humana (lei) e o amor imereci-
obras feitas em ensinado na teo- do de Deus (evangelho) já está pre-
obediência à lei de logia (Escrituras) sente na doutrina da justificação. O
Moisés, à lei natu- e na filosofia (Aris- amor imerecido de Deus, no entan-
ral ou a qualquer tóteles). Segundo to, não se revela apenas na cruz ou
outra lei criada pelos homens. A a definição filosófica, Deus só pode no sofrimento de Cristo (remissão
“lei” amplia-se cada vez mais, para amar o que tem mérito ou digni- da culpa), mas também na obra de
abarcar todas as obras. Ao mesmo dade perante ele, isto é, o justo e o Cristo no crente (remissão da pena
tempo, o “evangelho” concentra-se belo. Essa é a teologia da glória (es- por contrição, confissão e obediên-
cada vez mais em Cristo, o Filho colástica), segundo a qual as obras cia voluntária a Deus). A fé que jus-
de Deus encarnado, que morreu na justificam ou tornam o ser humano tifica é a fé que confessa o pecado,
cruz e ressuscitou. Em 1518, Lute- merecedor digno do amor de Deus. como aceitação do juízo de Deus
ro expressaria essa concentração do Segundo a teologia da cruz (Lute- sobre o pecador como verdadeiro
evangelho na fé em Cristo junta- ro), contudo, Deus ama o pecador (comentário a Rm 3.4).
mente com a ampliação da lei cujas e o justifica: “os pecadores são belos As Preleções sobre Romanos
obras não justificam, dizendo: “a lei por serem amados, não são amados (1515-1516), das quais as Teses de
opera a ira de Deus, mata, amaldi- por serem belos”. A lei aponta a ira Heidelberg (1518) são como que
çoa, acusa, julga e condena tudo o de Deus sobre os pecadores (23ª um resumo, apresentam uma dou-
que não está em Cristo” (Debate de tese) e destrói toda confiança em trina da justificação em que o livre
Heidelberg, 23ª tese). obras (o tronar-se justo para obter o arbítrio e as obras meritórias (“jus-
No Debate de Heidelberg, em amor divino). O evangelho revela o tiça ativa”) já não desempenham
1518, Lutero referiu-se à ação para- amor imerecido de Deus para com nenhum papel. Por outro lado, a fé
doxal de Deus como theologia crucis os pecadores (o amor que torna jus- em Cristo ainda não se distingue
em oposição a theologia gloriae. Os to o pecador). No primeiro caso, o inteiramente da contrição. O evan-
que buscam ser justificados pela fé amor é aprovação e Deus é juiz. No gelho ainda é compreendido como
em Cristo não confiam em obras segundo, o amor de Deus é imereci- promessa de cura proferida por um
exteriores, por maior que sejam sua do e cria o objeto de seu amor. “médico”, a qual inclui um diagnós-
“glória” no mundo, pois todas estão Nas preleções sobre Romanos tico de enfermidade. A linguagem é
denunciadas pela lei como “pecado”. (1515-1516), o amor imerecido de nova, mas o conteúdo já ainda é o
A função da lei é acusar tudo o que Deus é apresentado como aquele mesmo, a compreensão do evange-
não está em Cristo e do evangelho em relação ao qual não resta outra lho como a absolvição proferida por
é a de ordenar a fé em Cristo (23ª atitude de parte do pecador senão um “juiz misericorioso”, a qual ain-
e 26ª teses). Justo não é quem faz confessar o seu pecado (comentário da requer contrição e confissão de
muito, mas quem, sem obras, crê a Rm 2.11). A confiança em obras pecados (accusatio sui). A justifica-
muito em Cristo (25ª tese). Na 28ª leva à afirmação da justiça humana ção, para Lutero, nesse período, ain-
tese (e na sua fundamentação), Lu- perante Deus (“julgamento da ra- da é um julgamento de Deus sobre

24 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Lutero e Luteranismo

o pecador, e não a remissão de todos locava as Escrituras e a Patrística no rador tornaram-se, de um dia para
os pecados, graça e salvação. centro, rejeitando as especulações outro, inimigos da teologia bíblica
Quando teve início a controvér- filosóficas da teologia escolástica. de Lutero.
sia das indulgências, Lutero já havia Mas foi só gradativamente que os De 1517 até 1521, durante toda
avançado muito em direção à dou- frutos da nova hermenêutica, que a causa Lutheri (julgamento de Lu-
trina evangélica da justificação pela submetia ao intérprete e a todas as tero, concluído com sua excomu-
fé, mas ainda não havia percorrido o suas fontes literárias ao texto bíbli- nhão pelo papa e banimento pelo
caminho inteiro. Não temos como co. Em 1516, Lutero apresentou, na imperador em 1521), o Reformador
saber se a controvérsia sobre as in- forma de teses para debate, sua críti- teve de defender suas posições teo-
dulgências apenas levou Lutero a ca à teologia escolástica, ao mesmo lógicas contra os ataques contínu-
tomar posições mais firmes e fazer tempo que reformava os currículos os dos escolásticos e dos curialistas
pronunciamentos mais claros sobre da Universidade de Wittenberg, romanos. Lutero precisou defender,
a justificação, ou se levou Lutero a especialmente na Faculdade de Ar- especialmente, a sua doutrina da fé
avançar mais rapidamente na reo- tes (formação básica para todos os em relação com a doutrina dos Sa-
rientação teológica que já estava em alunos) e na Faculdade de Teologia. cramentos e da Justificação. Antes
curso. Não há dúvidas, porém, que, Como parte desse programa, Lute- de 1517, Lutero havia se ocupado
por uma ou outra razão, esse perí- ro dedicou-se, também, ao estudo pouco da doutrina dos sacramentos,
odo foi crucial para a reorientação de Grego e de Hebraico, sem, con- mas estes estão no centro do debate
teológica de Lutero. tudo, jamais abandonar a sua Bíblia com Roma (1517-1521) e com os
Até 1517, Lutero não havia pu- Latina (Vulgata). Entusiastas e Zwinglianos (1522-
blicado nenhuma obra sua. Nesse Em 1517, devido ao alcance 1529). A razão para isso é que a
mesmo ano, publicou sua exposição inesperado dos dois escritos sobre a doutrina da justificação, no sistema
sobre os Salmos Penitenciais e as 95 doutrina do arrependimento ou da medieval, era essencialmente uma
Teses sobre o Poder das Indulgên- Penitência, Lutero viu-se colocado doutrina sobre os frutos dos sacra-
cias. Esses dois escritos tornaram no olho do furacão. O comentário mentos.
Lutero um escritor conhecido mui- aos “Salmos Penitenciais”, escrito A doutrina da justificação tor-
to além de Wittenberg. As 95 Teses, em alemão, destinado à orientação nou-se uma questão controversa in-
especialmente, tornaram Lutero um do povo, foi recebido pelos huma- dependentemente da doutrina dos
reformador amado e apoiado pelos nistas como modelo sacramentos somente a
que esperavam ardentemente o re- da nova teologia bí- Os ataques à partir da Dieta de Augs-
torno à simplicidade da doutrina blica. As “95 Teses”, teologia de Lutero burgo em 1530, quando
e da igreja de Cristo, mas também escritas em latim, e não tardaram e a Confissão foi rejeitada.
odiado e atacado pelos que defen- propostas para o de- vieram da parte de A partir de 1530, com a
sores da teologia escolástica e da bate sobre a teologia teólogos de várias Confissão de Augsburgo
supremacia papal. Do início de sua e praxe da igreja en- Universidades. (luterana) e a Confuta-
atividade como expositor das Es- tre teólogos, foram ção da Confissão de Au-
crituras, de 1513 até 1517, Lutero logo publicadas gsburgo (católica), teve
havia apresentado uma proposta de também em alemão e, em poucas se- início, de fato, a controvérsia sobre
reforma da Teologia, abandonando manas, havia alcançado praticamen- a doutrina da justificação pela fé,
o método e o ensino escolástico, te toda a Europa. O que era para ser como um tema em si mesmo. Por
que chamou de “teologia da gló- popular, foi recebido pelos eruditos, essa razão, em 1531, Lutero comen-
ria”, e promovendo um programa e o que era para ser acadêmico, foi ta a Carta aos Gálatas e faz apon-
de Teologia baseado no estudo das acolhido pelo povo. Os ataques à tamentos para um Tratado sobre
Escrituras e dos escritos dos Pais da teologia de Lutero não tardaram e a Justificação (que não chegou a
Igreja. Essa reorientação hermenêu- vieram da parte de teólogos de vá- escrever) enquanto Melanchthon
tica correspondia a uma reforma da rias Universidades, da Cúria roma- comenta a Epístola aos Romanos,
Teologia segundo o ideal humanis- na e até mesmo do rei da Inglaterra, e escreve a Apologia da Confissão.
ta, defendido por Erasmo, e que co- Henrique VIII. O papa e o impe- De 1517 até 1521, no entanto, o de-

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Lutero e Luteranismo

bate sobre a doutrina da justificação progresso na perfeição cristã (remo- to, perdendo a salvação eterna, para
aconteceu dentro do debate sobre o ção do pecado iniciada no batismo). submeter-se ao papa, preservando,
papel da fé nos sacramentos, entre a Se não temos isso em mente, desse modo seu bem estar terreno.
doutrina escolástica dos sacramen- facilmente caímos no equívoco de Para Lutero, a escolha se daria entre
tos (ex opere operatur) e a insistên- muitos intérpretes de Lutero que a graça de Deus revelada nas Escri-
cia de Lutero sobre a necessidade dissociam a controvérsia sobre os turas e o beneplácito do papa, não
da fé para a parti- sacramentos (ques- lhe sendo possível reter ou conciliar
A penitência estava
cipação salutar nos tão eclesiástica ou da os dois. É por essa razão que, no Pre-
sacramentos (opus destinada àqueles que piedade popular) da fácio de 1545, Lutero relaciona de
operantis). Esse é o cometiam pecado mortal reorientação teológi- modo indissolúvel, uma coisa como
tema, por exemplo, depois do batismo, ... ca em relação à dou- corolário da outra, a doutrina da jus-
no confronto entre eles eram privados ao trina da justificação tificação pela fé “propter Christum”
Lutero e Cajetano, Sacramento do Altar. (questão acadêmica e a denúncia do papa como promo-
em Augsburgo, em ou da piedade pesso- tor da doutrina da justificação pelas
1518, e na obra Do al de Lutero). Lute- obras “anti Christum”.
Cativeiro Babilônico da Igreja, de ro, como vimos, entrou em choque Na mesma época em que tinha
1520. com os vendedores de indulgências início a controvérsia com Roma,
Segundo a teologia escolástica, porque tinha uma concepção distin- Lutero expunha a Carta aos He-
a graça da justificação (gratia iusti- ta da doutrina do arrependimento. breus (1517-1518). A escolha dessa
ficans) era recebida nos sacramentos Essa diferença se revelou especial- carta, depois de Romanos e Gálatas,
do batismo (gratia prima, iustitia mente do papel da fé na recepção não foi acidental. Primeiro, Lutero
prima) e da penitência (gratia se- dos sacramentos para recepção da havia se proposto estudar a Paulo
cunda, iustitia secunda). A peni- graça da justificação. Para os esco- para melhor habilitar-se à expor os
tência estava destinada àqueles que lásticos, os sacramentos conferem Salmos. Conforme Lutero registrou
cometiam pecado mortal depois do graça ex opere operatur com vistas para a posteridade no Prefácio de
batismo, os quais estariam privados, às obras meritórias que justificam 1545, ele buscava compreender a
se permanecessem impenitentes perante Deus. Para Lutero, os sacra- doutrina da justificação em Paulo,
(isto é, se não se confessassem), da mentos são o exercício da fé (ainda especialmente no versículo que lhe
admissão ao sacramento do altar. compreendida como humildade e causava maior dificuldade, a saber,
O debate sobre a doutrina da justi- contrição interior, ou conformidade Romanos 1.17, em relação com pas-
ficação, de 1517 até 1521, portan- com Cristo) que justifica o pecador sagens nos Salmos que também se
to, está centrado no papel da fé na perante Deus, sem as obras da lei, referiam à “justiça de Deus” (iustitia
recepção da graça da justificação pois não há possibilidade de mérito dei). Hebreus não só era tida como
nos sacramentos, e tem a ver direta- humano perante Deus (opus operan- paulina, mas era o texto fundamen-
mente com a questão da aquisição tis). Os escolásticos, conforme Lu- tal sobre a relação entre a lei (AT)
ou progresso na perfeição cristã ou tero dizia desde 1513, defendiam a e o evangelho (NT). Uma outra
remoção do pecado na vida cristã. “justificação exterior” ou “farisaica”, razão para o estudo de Hebreus no
Antes da controvérsia, Lutero não fazendo das obras um substituto da método hermenêutico de Lutero, a
havia comentado a doutrina dos fé na recepção digna dos sacramen- saber, a exegese “espiritual” (Cris-
sacramentos em detalhe, mas tan- tos. Perante Cajetano, em Augsbur- tocêntrica) do Antigo Testamento,
to ele como seus ouvintes tinham go, em 1518, Lutero se escandalizou de acordo com a distinção paulina
claro que a doutrina da justificação com a negação, por esse delegado entre “letra” e “espírito”, ou o AT
estava relacionada à recepção dos papal, da necessidade da fé para re- como “lei carnal e exterior” (obedi-
sacramentos (batismo, penitência e cepção digna dos sacramentos (isto ência externa, movida pela lei com
eucaristia): a recepção contrita da é, para a justificação). Mais tarde, suas recompensas e castigos) e o
absolvição e a recepção digna do afirmou que Cajetano o teria colo- NT como “lei espiritual e interior”
sacramento, para crescimento na cado, na prática, na situação de ter (obediência interior, movida por
graça da justificação, com vistas ao de escolher entre negar a fé em Cris- verdadeiro amor a Deus). Em sua

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Lutero e Luteranismo

preparação para expor a Para Lutero, os oferecida na Romanos 1.17, ainda ao tempo da
Carta aos Hebreus, Lu- sacramentos são o exercício penitência (ab- controvérsia com Roma, harmoni-
tero leu o Comentário da fé que justifica o solvição), seria za-se com as evidências de que des-
de Crisóstomo a He- pecador perante Deus, obtida pela fé de 1513 Lutero já desenvolvia o que
breus, onde encontrou sem obras da lei, pois não ou conformi- chamaria, em 1518, de “teologia da
um vocábulo funda- há possibilidade de mérito dade do cris- cruz”. Como vimos, nesse período,
mental para expressar humano perante Deus. tão à cruz de Lutero buscou reinterpretar, à luz
sua nova compreensão Cristo (confor- da distinção entre lei (obras da lei,
da fé nos sacramentos. mitas Christi). justificação exterior) e evangelho
Crisóstomo ensinava, especial- Filipenses 2.5-11 era, para Lutero, (fé em Cristo, justificação interior),
mente com relação à santa ceia, que o paradigma dessa “segunda justifi- o conceito de Cristo como Juiz Mi-
as palavras de Cristo no sacramen- cação” posterior ao batismo (iustitia sericordioso (iudex misericors) e
to são palavras de um testamento secunda), uma vida de penitência do evangelho como a revelação do
(testamentum), as quais requerem em conformidade com Cristo em “juízo da misericórdia” (iudicium
a morte do testador para que os sua humildade, obediência e cruz. A misericordiae). Lutero, na verdade,
herdeiros sejam beneficiados. No graça de Deus era revelada no evan- estava opondo dois aspectos da lei,
debate sobre as indulgências, Lute- gelho como “juízo misericordioso” a exigência exterior da lei (obras em
ro diferenciou os méritos de Cris- ou como “remédio amargo”, a saber, obediência aos mandamentos de
to (merita Christi) do tesouro da conformidade com a cruz de Cristo Deus) e a exigência interior da lei
igreja (thesaurus ecclesiae) (56ª-60ª e contrição interior. Na absolvição e (contrição e amor a Deus). Uma vez
teses). A aquisição da graça é ofício no sacramento, Lutero encontrava- tendo negado toda possibilidade de
de Cristo somente (officium Christi, -se não com o Cordeiro de Deus mérito humano, não lhe restava se-
solus Christus), mas sua administra- (o perdão gratuito de todos os pe- não o caminho do desespero quanto
ção na igreja é feita pelos ministros cados), mas com o Juiz (perante o à sua salvação eterna, porque a lei ja-
de Cristo (ofício das chaves). Na 60ª qual apenas a auto-acusação pode mais conforta, somente acusa (Me-
tese, Lutero afirma que o verdadeiro esperar misericórdia). lanchthon: lex semper accusat).
“tesouro da igreja” são as “chaves”, O conforto na teologia escolásti- Da mesma forma como Lute-
isto é, a administração do evangelho ca pressupunha a doutrina do méri- ro compreendia “justiça de Deus”
e dos sacramentos na igreja, pois a to, pois somente as obras meritórias como “juízo misericordioso”, tam-
graça da justificação, não é adquiri- seriam indicativos da salvação futu- bém identificava “coração puro”
da por obras meritórias, muito me- ra. Ao rejeitar a doutrina do mérito, com “coração contrito e humilde”
nos pelo comércio das indulgências, restou a Lutero apenas a acusação da (Sl 51.11,19). Também interpreta-
mas pelos méritos de Cristo. Em lei que destruía toda confiança em va in tua iustitia libera me (Sl 31.1;
cartas e relatórios sobre o encontro obras próprias, e o evangelho como 71.2) como humilde resignação sob
com Cajetano, em 1518, Lutero juízo misericordioso, que exigia o juízo de Deus e conformidade
enfatiza claramente a distinção en- contrição ou auto-acusação inces- interior com a cruz de Cristo (Fp
tre aquisição da salvação (justifica- sante. Em certo sentido, o que con- 2.5-11). Essas passagens bíblicas
ção propter Christum, justificação duziu Lutero à angústia e pavor foi eram, para Lutero, o fundamento
propter merita Christi) e a oferta ou seu próprio desenvolvimento teoló- (sedes doctrinae) do artigo da justi-
distribuição dos benefícios obtidos gico, pois a doutrina da lei tornou- ficação (locus iustificationis). Ele as
por Cristo por meio dos ministros -se clara para Lutero muito antes interpretava, porém, em termos de
de Cristo, na administração (justifi- dele chegar próximo de compreen- humildade e negação de si mesmo,
cação per fidem Christi). der que a doutrina do evangelho é segundo o ideal monástico de con-
Até então, Lutero entendia, se- a doutrina da graça e não a doutrina formidade [com] e imitação a Cris-
gundo havia aprendido na teologia do juízo misericordioso de Deus. O to (Gl 4.19). Ao final da controvér-
escolástica, que a morte de Cristo testemunho de Lutero, em 1545, sia, em 1521, Lutero chegaria a uma
obteria a graça ou justiça oferecida sobre o pavor e ódio que lhe cau- inteiramente nova compreensão de
no batismo, mas a graça ou justiça sava o termo “justiça de Deus” em todas essas passagens bíblicas, a co-

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 27


Lutero e Luteranismo

meçar por Romanos 1.17. O evan- rante a controvérsia, contudo, Lu- não se baseia em nenhum mérito ou
gelho não era mais o anúncio de tero descobriu que não só o pecado dignidade de nossa parte, porque a
Cristo como “Juiz misericordioso” ou as obras exteriores, mas também única dignidade que podemos ter
ou como “Médico” (também um a contrição interior pertence ao re- diante de Deus é a fé na sua pala-
“juiz”, diagnostica e impõe regime gime da lei. Lutero jamais deixou de vra e promessa de graça, de perdão,
para o paciente), mas o anúncio de afirmar que a verdadeira contrição é de vida e salvação. Deus não quer
Cristo como “Cordeiro de Deus”. essencial para a recepção dos sacra- nossa permanente auto-acusação,
Justificação (fé) e regeneração (nova mentos, mas nem a contrição inte- mas nossa fé. A lei remove a con-
vida) passaram a ser relacionadas, rior nem Jesus como legislador, juiz fiança nas obras para dar lugar à fé
com base em Romanos 5.15, como ou exemplo pertencem ao regime e ao conforto do evangelho, não
“graça” e “dom”: “Tudo é perdoado do evangelho, que é pura graça, per- para nos deixar permanentemen-
pela graça, mas nem tudo está cura- dão gratuito de todos os pecados, te em contrição. Em 1531, Lutero
do pelo dom” (Contra Latomus, misericórdia e salvação. Lutero pas- dirá que há um tempo da Lei e um
1521). sou a ensinar de forma clara que o tempo do Evangelho, ou que Moi-
Lutero já havia compreendido evangelho é o “testamento de Cris- sés tem seu ofício na consciência,
que a lei aponta para dentro do ser to” (testamentum) ou a “promessa mas que cessa quando começa o ofí-
humano, denunciando todas as suas da graça” (promissio). cio de Cristo. O evangelho aponta
obras como pecado, destruindo O evangelho aponta para fora para o Cristo pro nobis, o Cordeiro
toda a confiança quanto à possibili- de nós (extra nos), para a graça de de Deus, como um presente para
dade de justificação por obras. Du- Deus. A graça ou amor de Deus nós (donum), não o Cristo in nobis
como sacramentum ou exemplar
ao qual somos conformados e nem
o Cristo coram nobis como exem-
plum para ser imitado. O evangelho
é promessa (promissio), ele não se
ocupa de outra coisa do que anun-
ciar a história de Cristo pro vobis, e
a fé recebe Cristo pro me (Gl 2.20b:
“vivo pela fé no Filho de Deus, que
me amou e a si mesmo se entregou
por mim”).
A graça, escreveu Lutero no Pre-
fácio ao Novo Testamento de 1522,
não pode ser fragmentada. Lutero
rejeitou completamente a distinção
escolástica entre gratia prima (batis-
mo) e gratia secunda (penitência),
pois qualquer fragmentação na dou-
trina da graça a transforma em dou-
trina da lei e das obras meritórias.
Na Explicação do Segundo Artigo
do Credo nos Catecismos (1529),
Lutero fala da remissão de todos
os pecados, da morte, do inferno e
do poder do diabo como benefício
recebido de Cristo por seu santo e
precioso sangue. A graça de Deus é
o favor de Deus, é o próprio Deus

28 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Lutero e Luteranismo

propício e gracioso, que nos aceita cumprimento da


ou justifica por graça, por causa de lei quando a lei diz
Cristo (propter Christum, propter que nenhum mé-
merita Christi) e por meio da fé rito é possível. A
(per fidem) na promessa do evange- graça ilumina a ra-
lho (promissio, testamentum, verba zão, para que esteja
Christi). a serviço de Deus,
Fragmentar a graça na doutrina mas a graça, quan-
da justificação ou na consciência (in do deixa-se ilumi-
loco iustificationis) é uma outra idéia nar pela razão, já
de Deus do que a revelada do evan- não é graça, mas
gelho, mas não há meio termo, ou lei (cf. Comen-
estamos sob a graça ou sob a ira de tário de Gálatas,
Deus. Se fragmentamos a doutrina 1531/1535). Lei e
da graça, fatalmente reintroduzimos evangelho, juntos,
a lei na consciência ou na doutrina conduzem a Cris-
da justificação, e fazemos de Cristo to, em relação ao
um novo Moisés. A indivisibilidade qual as Escrituras
da graça de Deus, requer a distinção são como o presé-
entre lei e evangelho. Em 1531, de- pio, a majedoura
fendendo a doutrina da justificação e os panos em que
pela fé, Lutero afirmou: tudo o que estava Jesus (sola
não é graça, é lei. Scriptura).
A justificação pela fé, igualmen- A doutrina da justificação dis- fé, esperança e amor, pois nos sacra-
te, é sempre um ponto matemático, tingue, por um lado, a contrição mentos Deus não só nos absolve dos
indivisível, porque a indivisibilida- interior produzida pela pregação da pecados e nos coloca em nova rela-
de da graça requer a indivisibilidade lei do conforto da fé na promessa ção com ele, mas também envia a
da fé na justificação: a graça é um da graça de Deus. Por outro lado, nós o Espírito Santo com seus dons.
puro dar ou perdoar propter merita a doutrina da justificação distingue Pela fé na promessa da graça, o cris-
Christi (sola gratia) e a fé é um puro entre a fé na graça de Deus e a fé tão já vive nos céus com Cristo. Pela
receber ou ser perdoado propter me- como novidade de vida, ou regene- fé, esperança e amor, o cristão desce
rita Christi (sola fide). A obra reden- ração, pela habitação do Espírito dos céus e vem, como a chuva, regar
tora de Cristo não pode ser dividida Santo com os seus dons. Segundo a terra, isto é, louvar a Deus, servir
nem compartilhada (solus Chris- a “graça da justiça” ou o aspecto ao próximo e dar testemunho da es-
tus). Esse é o ponto matemático da forense da justificação (em sentido perança sob a cruz.
justificação, na perspectiva divina, lato), estamos reconciliados com Sem distinguir lei e evangelho,
é iustitia dei activa, e na perspectiva Deus. Segundo o “dom da justiça” portanto, não é possível encontrar
humana, é iustitia dei passiva. Qual- ou o aspecto sanativo da justificação nas Escrituras o seu tesouro mais
quer fragmentação da graça ou da fé (em sentido lato), lutamos contra o precioso, a revelação da graça de
significa, na prática, a inversão dessa pecado em arrependimento diário. Deus como amor que não mere-
equação, tornando Deus o receptor Ninguém é justificado por viver cemos e em relação ao qual jamais
e o homem o doador, fazendo de em fé, esperança e amor, mas quem podemos nos tornar dignos. So-
Cristo um legislador e juiz e não o está justificado vive em fé, esperança mos e seremos, diante da Escritura,
Cordeiro de Deus. Por consequên- e amor. Os sacramentos são a pro- sempre mendigos enriquecidos pela
cia, toda Escritura divide-se entre a messa da graça recebida em fé, sem graça de Deus que não tem fim. Wir
palavra da lei e a palavra da graça. A a qual não há justificação perante sind alle bettler. Hoc est verum.
lei destrói a soberba da razão huma- Deus. Mas os sacramentos também Rev. Luisivan Vellar Strelow,
na, pois a razão busca mérito pelo fortalecem o cristão em sua vida de pastor da Igreja Evangélica Luteana do Brasil

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 29


Música e Adoração Rev. David Karnopp

A importância dos
hinos de Lutero
para o estabelecimento da Reforma
Uma igreja que quer ser luterana, precisa, de que houve, porém, na igreja um período em torno de
todas as formas conhecer as suas ori- mil anos, onde a voz da congregação foi silenciada. Do-
gens. No desenvolvimento da Reforma, a música é um nal P. Hustad explica como isso aconteceu:
dos elementos que teve grande papel. Sem os hinos de Depois do século IV, quando o cristianismo co-
Lutero, a Reforma, teria acontecido igualmente, pois meçou a crescer rapidamente e particularmente
afinal, ela foi obra de Deus, mas jamais teria o impac- quando a adoração se tornou sacerdotal (execu-
to que teve. Ser igreja luterana requer dela não apenas tada pelos sacerdotes) o cântico foi confiado a um
conhecer a teologia luterana, mas também conhecer côro de sacerdotes. Para todos os propósitos práticos
o contexto em que ele nas-ceu. E para quem quer co- a voz da congregação foi silenciada por mil anos
nhecer o fato histórico da Re- da história cristã. A Schola Cantorum foi estabe-
forma, precisa necessariamen- Sem os hinos de lecida por Gregóio, o Grande (ci 540-604), para
te conhecer também sobre a Lutero, a Reforma, padronizar e ensinar o cantochão oficial da igreja
importância que a música teve teria acontecido (...) A tradição de se usar apenas vozes masculinas
para concretizá-la. igualmente, pois afinal, para a música se origina do conceito de que ado-
Neste trabalho não me ela foi obra de Deus, ração é conduzida apenas por sacerdotes; conse-
proponho a fazer uma análise mas jamais teria o qüentemente, as partes de voz mais baixas eram
crítica dos textos dos hinos de impacto que teve. supridas por homens que faziam parte de ordens
Lutero. O trabalho quer ape- sacerdotais menores.1
nas constatar a importância
que eles tiveram na sua época para firmar a Reforma,
bem como mostrar que a Reforma de hoje será melhor É preciso lembrar ainda que a língua usada oficial-
sucedida, quando aliada à uma hinódia firmada na Es- mente na igreja era o latim. As missas eram realizadas
critura com música contextualizada com nossa época. no latim. No entanto, a grande parte do povo cristão,
pelo mundo afora, não o compreendia plenamente e,
em conseqüência disso entendia poucas palavras que
1. A Música na igreja antes de ouvia na igreja. Naturalmente o canto da congregação
Lutero e toda participação do povo no culto também foi afe-
tado. Com isso a missa e o canto da congregação foram
E para compreendermos melhor o que representou legados cada vez mais ao clero, restringindo assim, a voz
a hinódia de Lutero no estabelecimento da Reforma, da congregação.
precisamos conhecer um pouco a respeito da música Mas pela glória de Deus este período nebuloso da
na igreja antes de Lutero. Não é, porém, objetivo deste igreja terminou quando surgiu Lutero, a Reforma e a
trabalho descrever longamente sobre este período. Mas sua hinódia. A partir de Lutero, a história da música na
dois fatos nos interessam. O primeiro é que na igreja igreja passa a ter um novo capítulo: “O canto congrega-
primitiva o cântico era congregacional, como também cional.” Lutero é conhecido como a pessoa que recupe-
o foi nos temos do Antigo Testamento. E o segundo é rou a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. Com
30 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Música e Adoração

ela em mente ele batalhou para que a


Palavra de Deus e o hinário fossem co-
locados nas mãos do povo, em sua pró-
pria língua. A igreja agora não era mais
composta apenas por monges e padres,
era a própria assembléia dos fiéis. To-
dos os cristãos deviam fazer parte da
adoração pública. E foi no aspecto do
culto e do canto congregacional onde
esta doutrina foi colocada em prática
de forma muito brilhante e onde teve
suas maiores realizações. Assim Lutero
reintegrou a participação da congrega-
ção no culto da igreja. Gustav Just sa-
lienta isso, quando diz:
Ao estabelecer a ordem do culto
Deus. Ela é inimiga de Satanás, através da qual
divino Lutero se preocupou muito com o fato de
pode-se espantar muita tentação e maus pensa-
que o canto não se restringisse apenas aos clérigos e
mentos. O diabo não a aprecia. A música é uma
meninos de côro, mas que a comunidade toda de-
das mais belas artes. A melodia dá vida ao tex-
-vesse cantar seus hinos em louvor a Deus nos céus,
to. A música espanta o espírito da tristeza, como
e isso, em sua querida língua materna.2
se pode ver na história do rei Saul. A música é o
Desta forma Lutero pode ser considerado o pai do melhor remédio para quem está triste, pois devolve
canto congregacional. Neste aspecto, querendo ser lute- paz ao coração, renova e refrigera. A música é um
rano de fato, talvez temos muito o que aprender ainda. belo e glorioso presente de Deus, muito semelhante
à teologia. Eu não trocaria meus poucos dons de
2. O que Significava música por nada neste mundo. Deveríamos ensi-
nar esta arte aos jovens, pois ela os torna gente boa
a Música Para Lutero? e habilidosa.4
Lutero admirava as artes, especialmente a música. Merle D’Aubigne também registra este sentimento:
Lutero era músico. Tocava Lutero tocava Certo dia, quando amigos cantavam lindos hinos
alguns instrumentos, espe- alguns instrumentos, em sua casa, ele exclamou com entusiasmo: “Se o
cialmente o alúde e a flauta. Senhor Deus espalhou tão admiráveis dons nesta
especialmente o alaúde
Também gostava de cantar. terra, que não passa de um obscuro recanto, como
“Era um exelente cantor,
e a flauta. Também
não será na vida eterna onde tudo é perfeição.” 5
tendo uma bela e agradável gostava de cantar.
voz de tom grave” 3. Com o Numa carta a Ludovico Senfl Lutero também ex-
dom de cantar e tocar, teve portas abertas para reintro- pressa este sentimento:
duzir a música na igreja. Não há dúvida alguma de que o germe de muitas
Na história da Reforma a música ocupa seguramen- virtudes está presente nas personalidades que são
te um dos mais emocionantes capítulos. Para Lutero a sensíveis à música; aquelas pessoas, entretanto, que
música tinha um valor muito especial. Ela não era ape- não são tocadas por ela, acre-dito que se parecem
nas mais uma atividade que fazia parte da sua vida e muito com toros de madeira e blocos de pedra. Pois
seu trabalho. Ela fazia parte do seu próprio sentimento. sabemos que os demônios odeiam e não suportam a
Nos seus escritos, quando fala sobre a música, percebe- música. Dou minha opinião bem franca e não he-
-se que ele escreve com “o coração”. Algumas declara- sito em afirmar que, depois da teologia, não existe
ções suas sobre a música são impressionantes: arte que se possa equiparar à música, porque so-
A música é um dos mais belos e gloriosos dons de -mente ela, depois da teologia, é que consegue uma
Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 31
Música e Adoração

coisa que no mais só a teologia proporci-ona: um fizeram outros. Afinal ela poderia atrapalhar esta com-
coração tranqüilo e alegre. Uma prova muito clara preensão. Mas Lutero vê as artes como dom de Deus e
disto é que o diabo, o causador de tristes preocupa- diz que “gostaria de ver todas as artes, particularmente a
ções e de tumultos perturbadores, foge do som da música a serviço daquele que as doou e criou”. Por isso ele
música quase tanto como da palavra da teologia. pedia que “cada cristão a tolere e, no caso de Deus lha ter
(...) Mas que estou eu louvando a música, tentan-
do pintar, ou melhor, desfigurar algo tão grande
em pedaço de papel tão pequenino? Acontece que é
muito forte e está transbordando o meu amor pela
música, que por diversas vezes me deu conforto e
me li-vrou de grandes aflições.6

Lutero entendia que cantar, era algo que deveria


fluir naturalmente do cristão. No prefácio do Hinário
de Wittemberg, de 1524, o primeiro hinário Luterano,
Lutero se expressa dizendo: “Acredito que nenhum cris-
tão ignora que cantar hinos sacros é coisa boa e agradável
a Deus” 7
O reformador era da opinião de que a música na
igreja devia servir como meio educativo. Neste mes-
mo prefácio ele diz que gostaria que a juventude fosse
ser educada na música e outras artes e “que tivesse algo
que lhe permitisse libertar-se das canções de amor e ou-
tros cantos profanos, aprendendo algo de sadio em seu lu-
gar”8. Numa outra ocasião se expressou dizendo que: “A
música é um auxílio à disciplina e à educação; ela torna
os homens mais amáveis, melhores, mais sociáveis, mais
razoáveis.” 9
Para Lutero a música na igreja tem especialmente
a finalidade de “difundir e promover o sagrado Evange-
lho”10. Falando do apóstolo Paulo, o qual recomenda
aos colossenses cantarem (Cl 3.16), diz ele que a música
na igreja deve servir para “difundir a doutrina cristã, a
fim de que ela seja praticada de toda maneira possível.”11
Ao falar da mú-sica como um dom de Deus, Lutero se
expressa dizendo:
After all, the gift of language combined with the
gift of song was only given to man to let him know
that he should praise God with both word and
music, namely, by proclaiming [the Word of God] concedido em grau maior ou idêntico, (a ele) que ajude a
throug music and by providing sweet melodies promo-vê-la”13.
with words.12 Os hinos de Lutero são, acima de tudo, uma con-
fissão de fé cristã. Eles surgiram das suas experiências
Lutero foi o grande batalhador para que as Escri- de lutas e vitórias de fé. O conteúdo bíblico e doutri-
nário deles revela esta convicção cristã e denuncia que
turas fossem ouvidas e compreendi-das. Para ele cada ele perseguia o objetivo de proclamar a palavra de Deus
palavra era importante. Com isso deveria se imaginar através da música. A música é um dos fatores presentes
que ele fosse abolir a música das atividades da igreja, e na igreja desde o seu início. Mas é à partir da Reforma
manter apenas a leitura dos textos dos hinos, como o que as grandes campanhas evangelísticas e mesmo o
32 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Música e Adoração

trabalho em geral das igrejas, vêm se aliando e apoian- tero teve o desejo de colocar nas mãos do povo uma
do na música e encontrando por meio dela uma facili- coletânea de hinos. Para ver este objetivo concluído, in-
dade maior de propagar aquilo que ensinam. centivou amigos a colaborarem. Em fins 1523 escrevia
a Espalatino:
3. Surgem os Primeiros Hinários Seguindo o exemplo dos profetas e Pais da Igreja,
estou disposto, a compor salmos em língua alemã
para o povo, de modo que a Palavra de Deus seja
preservada entre o povo também por meio do canto
(...) Eu lhe rogo que trabalhes conosco neste assun-
to e adapte alguns dos sal-mos em hinos.”14.

Por esta carta pode-se supor que Lutero tenha es-


crito outras cartas para outros ami-gos, solicitando no-
vos hinos. De qualquer forma Lutero preocupou-se em
compor hinos sacros na língua do povo, que tivessem
conteúdo bíblico, especialmente de acordo com os sal-
mos, que pudessem ocupar o lugar dos hinos que antes
eram cantados em latim. Alías, a característica que mar-
ca a hinódia de Lutero é que ela está profundamente
apoiada na palavra de Deus.
O primeiro hinário surgiu em 1524 com apenas
oito hinos acompanhados de notas musicais conhecido
como Achtliederbuch. Quando foi editado, estes hinos
já eram canta-dos em Wittenberg. Quatro deles eram
da autoria de Lutero. Uma das primeiras composições
de Lutero foi o hino: Nun Freut Euch, Lieben Chris-
ten G’Mein15 (Vós crentes, todos exultai). Com este
hino Lutero abriu o caminho para um novo elemento
na igreja cristã: a música. Não que antes não houves-
se música na igreja. Mas à partir da Reforma a música
começa a tomar um grande lugar na vida do povo de
Deus e a igreja cristã se identifica muito mais com ela
do que antes da Reforma. Milhões de hinos foram es-
critos depois deste primeiro hino pelo mundo afora. E
hoje seria impossível alguém contar os hinos cristãos
existentes no mundo.
Mas Lutero parece não ter ficado satisfeito com este
primeiro hinário. Ainda no ano de 1524 foi editado o
Luteranos segundo hinário, pelo amigo e músico Johann Walter,
com o nome de Geistliche Gesangbüchlein com 32 hi-
É nesta visão de música que surge o primeiro hiná- nos, dos quais 24 eram de autoria de Lutero. Paralela-
rio. E apesar da profundidade doutrinária, da clareza mente foram publicados dois hinários contendo 25 hi-
dos seus hinos, da riqueza poética, Lutero era humil- nos por editores diferentes com os mesmos hinos, mas
de em dizer que não possuía o dom da poesia. Mesmo com ordem diferente. Este segundo hinário, a princípio
assim, desde cedo, viu o quanto eram importantes os não foi designado para a congregação, mas para o coral.
hinos para que o povo pudesse aprender a Palavra por Ele era composto por motetos. Acontece que Lutero
meio da música, e melhor louvar a Deus. Por isso Lu- queria que seus hinos fossem cantados primeiro pelo
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Música e Adoração

coral para então familiarizar toda a congregação16. Ali- eram de sua autoria a metade dos hinos. Do segundo,
ás, esta ainda é uma prática existe na IELB e que tem além de ter sido lançado pouco tempo depois, mais da
dado bons resultados. metade eram de sua autoria. No total, Lutero compôs
É verdade que nem tudo era composição própria. aproximadamente 37 hinos. Este não é um número
Lutero e outros basearam seus hinos nos salmos, man- exato, pois de alguns hinos ele apenas modificou algu-
damentos e histórias da Bíblia. Canções folclóricas e mas palavras. E de outros apenas acrescentou uma ou
populares fo-ram transformadas em hinos novos para a duas estrofes. Por outro lado, também precisamos con-
igreja. Alguns hinos foram parafraseados de hinos lati- siderar que alguns dos seus hinos contêm de dez à quin-
nos. Outros tiveram apenas algumas palavras modifica- ze estrofes e de seis à nove linhas cada estrofe. Ou seja,
das. Além disso Lutero e outros receberam influências uma verdadeira obra literária. Esse fenômeno poético-
dos estilos musicais e poéticos da época. Estes aspectos -musical presente na propagação da causa da reforma,
na época não era exatamente um plágio, pois ainda não precisamos redescobri-lo na igreja de hoje.
haviam leis de imprensa. Um hino era objeto de domí- Vários hinários sucederam a estes dois, ainda no
nio público. tempo de Lutero. Como o povo começou a cantar
Os hinos de Lutero muito mais, publicar hinários tornou-se também numa
Outro fato em torno
do qual tem havido dú- foram da maior questão de negócio. Desta forma, já nesta época, come-
vidas e debates é se Lute- importância para çaram aparecer “piratarias” de hinários. Daí, para dar
ro foi autor tam-bém das que a Reforma fosse um toque de originalidade e para demonstrar a aprova-
músicas dos seus hinos. realidade. ção de Lutero, muitos editores faziam questão de que
É verdade que algumas Lutero escrevesse o prefácio. E realmente ele se dispôs a
ele tomou emprestadas. Por outro lado, Lutero foi mú- escrever vários. Nestes prefácios pode-se dizer que Lu-
sico. E na sua época o poeta e o músico era geralmente tero deixou registrada sua filosofia de música e poesia
o mesmo. A partir disso aceita-se que, se não de todas cristã18.
as músicas, mas uma grande parte são de sua autoria17.
O que nos interessa saber em nossos dias, é que 4. A Importância da Hinódia de
Lutero viu na música um aliado importante na propa-
gação da verdade eterna. E nisso Lutero se empenhou
Lutero Para a Reforma
com todas as suas forças. Esse esforço podemos ver A Reforma luterana se divulgou muito rápido por
na própria quantidade de hinos. Do primeiro hinário toda Europa. O motivo disso não foram apenas os es-
critos e conferências de Lutero. Os hinos de
Lutero foram da maior importância para que
a Reforma fosse realidade. Seus hinos produ-
ziram um impacto fora do comum. O povo
cantava na igreja e fora dela. “Eles chegaram
a ser publicados em cartazes e apregoados pe-
las ruas da Europa”19. Thedore Hoelty-Nickel
diz que eles eram levados de um lugar para
outro por meio de panfletos e até por trova-
dores ambulantes. Eram memorizados na lín-
gua alemã e assim abriam o caminho para a
Reforma20. A voz da congregação por tantos
anos reprimida, agora, além de poder cantar,
cantava confessando a fé e a alegria pela salva-
ção. No culto agora havia mais participação
do povo, pois podiam adorar na língua que
sabiam falar. E as pessoas não se cansavam
de cantar. Nas congregações pela Alemanha
e depois pelo mundo afora os hinos de Lu-
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Música e Adoração

deve, por acaso, o diabo nos ser gracioso? Quem,


afinal, deve ser gracioso para conosco, se não o pró-
prio Deus?”23

Tilemann Heshusius, amigo de Lutero, que editou


um hinário alemão em 1565, portanto após a sua mor-
te, falando deste impacto se manifestou: “O hino ‘Vós
crentes, todos exultai’ sozinho levou centenas de pessoas à
fé cristã; pessoas que antes nem queriam saber do nome
de Lutero”24.
Os hinos de Lutero realmente deixaram profundas
marcas na história da igreja. Na introdução da Citha-
ra Lutheri, de 1569 Cyriakus Spangenberg revela este
impacto:
Of all the mastersingers since the time of the apos-
tles, Luther is the best and most artful. In his
hymns and song one cannot find
tero e outros que nasceram da
Os hinos de Lutero... an unnecessary word. Everything
Reforma, levavam o evange-
flows beautifully and ar-tistically,
lho até mais rápido do que os 1. Eram fáceis de assimilar;
full of spirit and doctrine, and each
sermões, preleções e debates, 2. Tinham a linguagem do povo,
word seems like a sermon, or at le-
transformando milhares de simples e direta; ast a reminder of a sermon. There
corações. Rodolfo F. Hasse, 3. Tinho objetivos pedagógicos;
is nothing forced or artificial. The
falando deste impacto, diz 4. Tinham mensagem de profundo
rhymes are good, the words well
que: “Houve mesmo casos em consolo; chosen and artistic, the meaning
que, quando atacado o refor- 5. Tinham a música contextualizada
clear and unmistakable, the melo-
mador pelos sacerdotes católicos
dies attractive and warm. Altoge-
na igreja, o povo se levantava e
ther his songs are wonderfully rich
se retirava entoando hinos de Lutero”21. É, portanto, des-
and powerful without equal and unsurpassed by
ta época que vem o conceito de que “a Igreja Luterana é
other masters.25
a Igreja que canta”. O jesuíta Adam Conzenius, um dos
inimigos da Reforma expressou seu descontentamen-
to dizendo que: “É cantando que o povo adere à igreja Além disso, ainda podemos destacar outros fatores
herética; os hinos de Lutero atraíram mais almas do que dos hinos de Lutero, que os tornaram fundamentais no
seus escritos e sermões”22. Houve outros que foram con- estabelecimento da reforma:
tra a Reforma e que expressaram a sua opinião a respei- 1. Eram fáceis de assimilar. Percebe-se nos hi-
to dos hinos de Lutero. Talvez sem se darem de conta nos de Lutero uma sequência lógica do conteúdo.
e pensando causarem uma derrota, acabaram ajudando Ele não procura despejar muitos conteúdos num
a registrar o fenômeno da hinódia de Lutero na época. hino só. É como contar uma história, ou como
A respeito da eficácia dos hinos de Lutero Gustav um sermão, que tem tema e partes. Isso ajuda na
Just registra um dado pitoresco: assimilação do conteú-do dos hinos.
Em Braunschweig, um sacerdote manifestou ao 2. Tinham a linguagem do povo, simples e
duque o seu descontentamento pelo fato de que até direta. Tudo o que Lutero escreveu e traduziu
na capela do paço se cantavam hinos luteranos. O estava apoiado numa preocupação: fazer com
duque, que comumente se mostrava agastado em que o povo compreendesse. Seus hinos não fugi-
relação a Lutero, quis saber de que hino se tratava ram desta regra. Em fins de 1523, numa carta que
e qual era o seu conteúdo. Quando o sacerdote in- escrevia a Espalatino solicitando-o que auxiliasse
formou que o nome do hino era: “Queira Deus nos na composição e adaptação de hinos, Lutero se
ser gracioso”, o duque repreendeu-o dizendo: “Ora, expressou:
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Música e Adoração

Rogo-vos, sem embargo, que eviteis o uso de pala- dos seus primeiros hinos Nun Freut Euch, Lieben
vras novas e expressões da corte, a fim de que o povo Christen G”Mein (Vós crentes, todos, exultai)27.
possa entender facilmente. Que as palavras sejam o A música que Lutero e outros do seu tempo usa-
mais simples, porém puras e adequadas, e vede que ram era música da época. Neste aspecto, me pa-
seu significado seja claro e o mais parecido com os rece, que não viemos tendo uma “reforma” conti-
salmos.26 nuada. É verdade que têm havido alguns esforços
isolados em ter a nossa hinódia numa música
3. Tinham objetivos pedagógicos. Os hinos contextualizada. Mas por outro, têm havido di-
de Lutero serviram para ensinar as ênfa-ses prin- ficuldades em aceitar “oficialmente” músicas da
cipais da doutrina luterana. Neles Lutero des- nossa época e da realidade brasileira.
creve sobre: pecado, arrependimento, perdão,
graça, fé, salvação, nova vida em Cristo, palavra O êxito da Reforma deve-se, portanto, em grande
de Deus, batismo, santa ceia, morte e eternidade. parte, ao fato de Lutero ter sabido unir o conteúdo pro-
Através dos hinos o povo pode aprender os ensi- fundo, claro e bíblico com a música agradável da época.
nos da reforma. É verdade que essa é uma verdadeira arte. Mas para o
4. Tinham mensagem de profundo conso- crescimento da igreja de hoje é fundamental conti-nuar
lo. Depois de uma longa idade das trevas, agora unindo o útil com o agradável.
podia-se ouvir e cantar hinos que confortavam as
almas tristes. E os hinos de Lutero eram, acima de Conclusão
tudo, firmados na Escritura. Portanto, não ofere-
ciam um consolo barato, mas o consolo da infini- Uma igreja luterana no seu sentido pleno, procura
ta graça de Deus revelada na Palavra. conhecer todos os aspectos que fizeram parte da vida
5. Tinham a música contextualizada. Lutero de Lutero e da Reforma. A música em Lutero e seus hi-
além de compor música, tomou músicas folclóri- nos, certamente são aspectos de grande relevância para
cas emprestadas da sua época. Exemplo disso é a quem é herdeiro da Reforma. A igreja luterana já foi
melodia de Wach auf, wach auf, du schöne (Acor- chamada de “a igreja que canta”, e sempre será assim
da, acorda oh tu beleza) que Lutero usou para um chamada se ela tomar como prática aquilo que a música
representou no contexto da Reforma.
Rev. David Karnopp, - Vacaria-RS
pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

36 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Música e Adoração

Notas
1. Donald P. HUSTAD A Música na Igreja. São Paulo: Edições Vida
Nova. 1991.Trad. de Adiel Almeida de Oliveira. p. 109
2. Gustav JUST, Deus despertou Lutero. Trad. Gastão Thomé. Por-
to Alegre: Concórdia Editora Ltda. l983 p. 117
3. Leopoldo HEIMANN, in Mensageiro Luterano Novembro de
1982 p. 03
4. Castelo Forte 07 de Maio de 1983.Trad. de Vilson Scholz. Porto da Reforma. (Veja mais detalhes
Alegre: Concórdia Editora Ltda, São Leopoldo: Editora Sinodal em J.H.Merle D’Aubigne op.cit pp. 157-
5. J.H.Merle D’AUBIGNE, História da Reforma do XVI Século. 164). Parece-me que, por ser uma descrição
Trad. de J. Carvalho. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana. Vol. de um fato histórico, este hino não recebeu
III cap.IX p. 200 lugar na maioria dos hinários. Mas nas
6. Martinho LUTERO. Pelo Evangelho de Cristo. Carta a Ludovico principais obras de Lutero ficou registra-
Senfl. Porto Alegre: Concórdia Editora. São Leopoldo: Editora do como mais um escrito de Lutero. Este
Sinodal, 1984 p. 216 hino também é reconhecido como sendo o primeiro. (Veja em
7. Idem. Prefácio do Hinário de Wittemberg. p.203 Martinho Lutero. Obras selecionadas Vol 7. P 485-489) Mas
8. Idem, Ibdem p. 203 considerando que, o fato que hino descreve aconteceu já na
9. Citado por Leopoldo HEIMANN. Lutero era Músico. in Mensa- metade do ano e que no mesmo ano Lutero escreveu outros
geiro Luterano Nov. 83 p. 03 hinos, sou inclinado à crer que o primeiro hino de Lutero seja
10. Martinho LUTERO Pelo Evangelho de Cristo. Op. cit p. 203 o Nun Freut euch, Lieben Christen G’Mein.
11. Idem Ibdem p.203 16. Ulrich S. LEOPOLD in op.cit. p. 193
12. Martin LUTHER. Preface to Georg Rhau’s Symphonieae Iucun- 17. Um amplo debate sobre esta questão está no 3º Volume do
dae in Luther’s Works Liturgy and Hymns. Vol.53. Edited and Luther’s Work Op. cit pp.201-205
translated by Ulrich S. LEOPOLD. Philadelphia: Fortress Press, 18. Sobre os prefácios de Lutero para vários hinários veja em
1965 p. 323 Luther’s Work Op cit pp.311-334
13. Martinho LUTERO Pelo Evangelho de Cristo. Op. cit p. 203 19. Donald P HUSTAD, op. cit., p.289
14. Citado por Theodore HOELTY-NICKEL intitulado por Lutheran 20. Theodore Hoelty-Nickel, op. cit., p. 169
Hymnody no quarto volume da obra Luther and Culture. De- 21. Rodolfo F. HASSE, Frei Martinho Restaurador da Verdade. Por-
corah Iowa: Luther College Press. 1960 p.176 to Alegre: Concórdia Editora 3ª ed., 1983 p. 90
15. Este hino foi escrito em 1523 e normalmente é reconhecido 22. Gustav JUST, Ibidem.
como sendo o primeiro de Lutero. Acontece, porém, que neste 23. Idem, ibid.
mesmo ano, Lutero escreveu outros hinos, entre os quais o Ein 24. Millar PATRICK.The Story of the Church’s Song. Richmond,Vir-
neues Lied wir heben an. Neste hino de doze estrofes com ginia.: John Knox Press. 1962. p.76
nove linhas cada uma, Lutero retrata a história da persegui- 25. Citado por Theodore HOELTY-NICKEL, op.cit., p.162
ção ao convento agostiniano de Antuérpeia e o martírio dos 26. Citado por Martinho KREBS. A Música Sacra, no Lar Cristão
monges Heinrich Voes e Johann Esch, que aconteceu em 1º 1986 Porto Alegre: Concórdia, p. 67
de Julho de 1523 e que se tornaram os primeiros mártires 27. HUSTAD. Donald P. op.cit., p.126

Bibliografia
BAINTON, Roland H. Martin Lutero. 3. ed. Trad. de Raquel Lozada. Mexico: Ediciones Cupsa, l989
D’AUBIGNÉ, J.H. Merle. História da Reforma do XVI Século, Vol III. Tradução de J. Carvalho. São Paulo: Casa Editôra Pres-
biteriana
HASSE, Rodolpho F. Frei Martinho Restaurador da Verdade. 3.ed. Porto Alegre: Concórdia Editora, 1983
HEIMANN, Leopoldo. Lutero Era Músico in Mensageiro Luterano. Novembro de 1982 p. 03
HOLTY-NICKEL, Theodore Lutheran Hymnody in Luther and Culture Vol 4. Decorah Iowa: Luther College Press, 1960 pp.
162-182
HUSTAD, Donald P. A Música na Igreja. 1. ed. reimpressa. Trad. de Adiel Almeida de Oliveira. São Paulo: Edições Vida Nova,
1991
JUST, Gustav. Deus Despertou Lutero. Tradução de Gastão Thomé. Porto Alegre: Concórdia editora Ltda, 1983
KEITH, Edmond D. Hinódia Cristã. Tradução de Bennie May Oliver Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista
LAU, Franz Lutero. Tradução de Walter O. Schlupp. 2. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1980
LUTERO, Martinho. A Música in Castelo Forte 1983.Trad. de Ilson Kayser e Vilson Scholz. Porto Alegre:Concór-dia Ltda. São
Leopoldo: Editora Sinodal (01 à 07 de Maio)
LUTERO, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo. Tradução de Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia ditora Ltda, São
Leopoldo: Editora Sinodal, 1984 (pp. 203-231)
LUTERO, Martinho. Obras selecionadas Vol 7. Comissão Interluterana de Literatura. São Leopoldo: Editora Sinodal, Porto
Alegre:Concórdia Editora, 2000
LUTHER, Martin. Luther’s Works Vol.53 Edited by Ulrich LEOPOLD. Philadelphia: Fortress Press, 1965
PATRICK, Millar. The Story of the Church’s Song. Richmond,Virginia: John Knox Press, 1962

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 37


Homilética: Artigo Rev. Dieter Joel Jagnow

Lutero prega sobre o


ministério pastoral
O reformador Martinho Lutero usava as mais di-
ferentes plataformas para ensinar sobre os mais
variados temas bíblicos. Uma das mais importantes era
congregação). Isto signifi-
ca que o ministro precisa
ser escolhido ou comissio-
as suas pregações. nado pelo consenso dos
A seguir, uma síntese do seu ensino acerca do minis- membros (Lucas 14.1-11
tério pastoral em alguns dos seus sermões. — pregado em 5 de outu-
bro de 1544). É no ritual
O ministro precisa ser chamado da ordenação que os membros (ou a congregação) con-
cedem ao ministro uma vocação especial a ser desem-
Qualquer um que ten- penhada em seu nome e em favor deste ofício. O ofício
ciona ocupar o ofício do do ministério não pertence ao pastor, mas a todos os
ministério público preci- membros; é um ofício público. ( João 3.34; 7.16-18
sa ser chamado. Antes de — pregado em julho de 1531; 10.1-11 — pregado em
tudo, é preciso ser chamado pelo próprio Deus; é preci- 1522).
so ser enviado por Deus assim como Cristo foi enviado
pelo Pai ( João 3.34 — pregado em setembro de 1538).
Este chamado, no entanto, não vem diretamente de
Deus (como aconteceu com os profetas e apóstolos).
Deus usa um instrumento humano — a igreja (ou a

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Homilética: Artigo

O ministro é um mensageiro precisa ser estendido a todas as pessoas livre e gratuita-


mente (Mateus 20.24-28 — pregado em 5 de dezem-
O ministro é um mensageiro de Deus, diz Lutero. bro de 1537).
Como tal, ele precisa pregar a palavra de Deus. Somen-
te assim ele pode ser reconhecido como um verdadei- O ministro tem autoridade
ro ministro e mensageiro de Deus. Não existe praga
e infortúnio maior na terra do que um ministro que Como mensageiro de Deus no ministério público,
não prega o que Deus lhe ordenou o que pregasse. Se o pastor tem o direito de julgar assuntos relativos à
a Palavra de Deus não é pregada, seu poder e seu ofício doutrina e à vida (Mateus 7.1-2 — possivelmente pre-
deixam de existir (Lucas 2.1-14; Mateus 5.1-2 — pre- gado em 1531). O julgamento feito pelo ministro é o
gado em 1532; João 10.11-16). O ministro somente julgamento de Cristo e de Deus (Mateus 16.13-19).
pode pregar os santos propósitos de Deus de se relacio- Esta autoridade é espiritual e significa pregar e ensinar
nar continuamente com ele. (Lucas 2.1-14). Sendo um corretamente a Lei e o Evangelho de Deus. Certo disso,
verdadeiro mensageiro de Deus, as palavras do prega- o ministro precisa pregar com poder e sem medo; abrir
dor são palavras de Deus; a boca é uma característica do seu ministério (Mateus
as palavras que emprega 5.1-2)
são, na verdade, ditas por
Deus. E sendo mensageiro O bom ministro tem marcas
de Deus, o pastor é um ca-
nal através do qual Cristo O bom ministro de Deus possui marcas que o identi-
transmite seu Evangelho ficam, afirma Lutero: a) O ministro precisa ser verdadei-
do Pai para todas as pesso- ro, isto, pregar a verdadeira Palavra de Deus (João 8.12
as ( João 14.10). — pregado em setembro de 1531) e praticar o que ensina.
A sua fé é provada pe-
las suas ações. Onde
O ministro tem tarefas
doutrina e obras
O ministro ocupa este ofício para executar certas combinam, frutos são
tarefas, diz Lutero. A mais importante tarefa é a prega- produzidos (Mateus
ção da Palavra e a administração dos sacramentos. Esta 8.1-13). Para tanto, é
tarefa é tão importante porque através destes meios da fundamental que ele esteja convencido que a sua doutri-
graça as pessoas são, através da fé em Cristo, guiadas à na e mensagem é verdadeira, isto é, a Palavra de Deus.
vida eterna no céu (Mateus 7.22-23 — possivelmente Ele precisa poder sentir orgulho disso. Se não puder, é
pregado em 1531) e fortalecidas na fé salvadora (Ma- um traidor (João 8.12); b) O ministro precisa ser hu-
teus 11.25-30 — pregado em 15 de fevereiro de 1546). milde, isto é, servir às pessoas com humildade. Ele não
O pastor também é ordenado para fazer uso do ofí- é um ministro a fim de ser grande (João 13.1-17), alme-
cio das chaves que Cristo deu a Igreja; para julgar e ab- jar pompa e glória (João 10.11-16), poder ou um grande
solver (Mateus 16.13-19 — pregado em 29 de junho de salário (Mateus 20.24-28). Como é chamado para ser-
1519). Assim, ele é chamado para auxiliar a Cristo em vir, precisa resistir à maior tentação que enfrenta: hon-
seu ministério de repreender e perdoar pecados (Lucas ra e lucro (João 10.11-16); c) O ministro precisa amar
7.36-50). — amar o seu rebanho como uma mãe ama o seu filho
Tudo isso mostra que o ministro é chamado para (João 19.25-37). Se ele não ama, seu rebanho será mal
servir às pessoas, para cuidar do rebanho como um servido e logo se tornará preguiçoso e desgostoso; d) O
bom ou verdadeiro pastor ( João 10.11-16 — pregado ministro precisa reter a sua liberdade, isto é, ele precisa
em 1522). Ele executa ser livre a fim de pregar a Palavra de Deus sem medo. Se
esta tarefa através de en- ele almeja riquezas ou está preocupado em perder popu-
sino, instrução, conforto laridade e amizades, ele não pode pregar o que deveria
e exortação com a Pala- (Mateus 6.33 — pregado em 1532).
Rev. Dieter Joel Jagnow - Ribeirão Preto-SP
vra de Deus. Este serviço
jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 39


Homilética: Artigo Rev. Dieter Joel Jagnow

Lutero e os caminhos
da liberdade
“L iberdade cristã” foi um dos temas prediletos do
reformador Martinho Lutero. Para ele, o tema ti-
nha basicamente três ênfases: liberdade da igreja insti-
ela não pode discriminar.
Sendo de origem e essência
divina, ela não está sujeita
tucional, liberdade da tradição e liberdade da razão. A a autoridades terrenas,
seguir, uma síntese do que Lutero ensinou. mas ao senhorio de Jesus
Cristo. Ela sempre sofre e
Razão humana sai do seu curso quando se torna um palanque político
ou um rebanho servil de algumas pessoas. Sempre que
Para Lutero, a verdadeira liberdade cristã passa pela pessoas usurpam o senhorio de Jesus, a Igreja padece.
liberdade da falsa e pretensa autoridade da razão hu- A Igreja se torna real e vital sempre que um grupo
mana. A razão humana sempre quer moldar o coração de cristãos se reúne para ouvir a Palavra e receber os
e a fé das pessoas, seja em nível individual ou coletivo. Sacramentos. É neste exercício que se fortalece e se pre-
Ela quer mostrar quais são os caminhos da verdadeira para verdadeira liberdade cristã para gestos concretos
espiritualidade. Ela entrona e destrona deuses. Ela cria de amor. É a fé ativa no amor.
céus e destrói infernos. Ela anda de mãos dadas com
o misticismo, com a astrologia, com filosofias. Ela tem Tradição humana
uma capacidade essencial de produzir idolatria e incre-
dulidade. O seu maior perigo reside, em suma, em sua Para Lutero, a verdadeira li-
capacidade e natureza de se opor à Palavra de Deus. berdade cristã passa pela liber-
Para garantir a liberdade cristã, a Igreja tem o dever dade de tradições humanas. Costumes e tradições se
levantar, sempre que necessário, a Palavra de Deus con- desenvolvem em qualquer organização humana, inclu-
tra as idolatrias produzidas pela razão humana na épo- sive na Igreja. Algumas são boas e devem ser mantidas.
ca em que vive. A verdadeira liberdade cristã somente é Outras são ruins e devem ser descartadas.
exercida quando a razão humana é mantida cativa sob a Parte do dia-a-dia da Igreja é vivido como resultado
obediência a Cristo. de tradições humanas. Por isso, ela precisa ter a sabe-
doria de examinar-se sobre a validade das tradições que
Igreja institucional
pratica de acordo com a época em que vive. Ela precisa
Para Lutero, a verdadeira liberdade cristã passa pela ter cuidado para não transformar a lealdade e a uni-
liberdade da autoridade temporal da igreja institucio- dade doutrinária um exercício meramente intelectual.
nal. Por causa das distorções que a Igreja Cristã havia Ela precisa ter a coragem de livrar-se de fixações e pre-
sofrido, o principal esforço de sua obra reformadora conceitos que prejudicam sua missão de levar Cristo
foi o de clarear a verdadeira natureza e função da Igreja para todos. Ele precisa ter a ousadia de reexaminar e,
de Cristo. Ele mostrou que as Escrituras mostravam o se necessário, corrigir certas pressuposições teológicas
contrário do que estava sendo praticado: a Igreja, como que residem em interpretação humana ou em tradição
organização, não cria e nem controla a Palavra de Deus, história e não na Palavra de Deus.
mas é criada e controlada por ela. A Igreja não é pri- Para manter livre o Evangelho que liberta a Igreja
mariamente uma instituição, mas uma comunhão; não precisa, acima de tudo, guiar-se pela Palavra de Deus.
uma organização humana, mas a comunhão dos santos. Disse Jesus: “Se vós permanecerdes na minha palavra
Esta fraternidade espiritual não pode ser encarcerada sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a
entre paredes e legislações humanas. verdade e a verdade vos libertará”( João 8.31-32).
Isto traz implicações e advertências. A Igreja não Rev. Dieter Joel Jagnow - Ribeirão Preto-SP
pode estar confinada a uma época, raça, cor ou nação; jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

40 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Rev. Jarbas Hoffimann
Tradução e Adaptação

Todos os Santos —
a colheita de Deus
O Dia de Todos os Santos
foi observado já em datas
muito remotas na história da Igreja.
nha dado ênfase maior ao Dia da
Reforma, observado um dia antes,
o que diminuiu a atenção ao Dia de
nham de morrer; e, como prêmio da
vitória, eu lhes darei a vida.”
O símbolo mostrado aqui apre-
A data quer honrar a memória de Todos os Santos. senta a coroa que sustenta ramos de
Cristãos que já partiram, especial- Na maioria dos símbolos para trigo — o crente a quem o Senhor
mente os mártires. Perto da metade os santos a coroa está em evidên- da igreja juntou para a sua colheita.
do século 19 esta data foi mudada de cia. A coroa da vida é dada a todo Na parábola do joio e do trigo Jesus
13 de maio para 1º de Novembro. O aquele que perseverar na fé. No livro afirma: “colham o trigo e ponham
Dia de Todos os Santos permaneceu de Apocalipse o Senhor promete no meu depósito.” (Mateus 13.30).
na igreja da Reforma, embora se te- (2.10): “Sejam fiéis, mesmo que te- As almas deles já estão guardadas.
Os demais símbolos que apare-
cem aqui (o Alfa e o Ômega e o Chi
Rho), são designações para o Salva-
dor que tornou a colheita de almas
possível.
Há um hino que clama pela ob-
servação do Dia de Todos os Santos
e que diz: “Por todos os santos que
dos seus labores descansam, todos
que pela fé, ante o mundo confessa-
ram Seu nome, ó Jesus, seja sempre
louvado. Aleluia! Aleluia!”

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 41


Homilética: Sermão Rev. David Karnopp

Hino Castelo Forte


No fim da década de 1980, multidões cantavam Lutero deu início ao maior movimento da história da
“coração de estudante” de Milton Nascimen- Igreja Cristã: a Reforma Luterana. Com isso Lutero se
to. Era a música que dava embalo ao movimento “dire- indispôs com os líderes da igreja e ao mesmo tempo se
tas já”, que reivindicava eleições diretas, para presidente viu obrigado a escrever e pregar com ousadia contra os
da republica. abusos e erros da igreja romana. Todo ensino de Lutero
São inúmeros os hinos ou músicas desde o começo resumia-se em três princí-
em momentos trágicos
associadas a grandes conquistas da pios: “Somente a Escritura, somente a
história. Em momentos trágicos e crí- e críticos, multidões se graça, somente a fé”. Por esta atitude
ticos, multidões se uniram para cantar uniram para cantar hinos de Lutero e pelos seus escritos, Lutero
hinos e os usaram como uma espécie e os usaram como uma foi excomungado da Igreja.
de liga, para dizer: “estamos de mão espécie de liga O ano de 1529 foi um ano crítico
dadas nesta luta”. A história mostra para os luteranos. A causa da Reforma
que os fatores responsáveis por muitas das grandes andava em perigo. O Imperador Carlos V convocou
conquistas nem sempre foram armas e exércitos, mas uma grande reunião na cidade de Espira. Nesta reunião
foram hinos e músicas. um irmão do imperador veio trazer a ordem de que ne-
Certamente um dos ingredientes que mais deu liga nhuma corte do império poderia introduzir a Refor-
ao movimento da Reforma Luterana, foi o hino de Lu- ma Luterana e que ninguém poderia mais se converter
tero “Castelo Forte”. A história da Reforma Luterana para o luteranismo. Todo o processo da Reforma estava
havia chegado a um ponto crítico. Sabemos que este seriamente ameaçado. Era a hora mais escura na histó-
movimento não ia morrer, porque era obra divina. Mas ria da Reforma. Além disso, Lutero a toda hora sofria
certamente se houve um fator que teve papel impor- ameaças de morte.
tante na Reforma, este foi o hino Castelo Forte. Como Foi neste contexto sombrio de 1529 que Lutero es-
ele surgiu e qual o valor dele para nós hoje ainda? Para creveu e compôs seu mais famoso hino, Castelo Forte.
compreender vamos voltar aos tempos de Lutero. A segunda estrofe expressa muito bem este momento
No dia 31 de Outubro de 1517, Lutero pregou crítico bem como a confiança de Lutero de que esta
uma lista de 95 idéias, na porta da principal igreja de luta não era dele, mas ao Senhor. Numa tradução mais
Wittemberg, que falavam sobre como Deus oferece literal e resumida desta estrofe, Lutero diz que: Com
o perdão ao pecador. Estas idéias ficaram conhecidas nossas forças nada se pode fazer e por elas estaríamos
como “95 teses”. Lutero queria discutir estas idéias com perdidos, mas que Jesus, o Deus Filho, luta por nós.
as pessoas cultas em Wittemberg, pois as escreveu em Lutero baseou seu hino no salmo 46. O autor do
latim. Mas para sua surpresa elas logo foram traduzidas Salmo 46 descreve a confiança do povo de Deus em
para várias línguas e em poucas semanas se espalharam meio às dificuldades da vida e sua esperança por morar
por toda Europa. na cidade de Deus. Esta confiança permanece, mesmo
O objetivo de Lutero era combater alguns abusos quando os inimigos lutam contra eles. Mas Deus vence
que tinham invadido a igreja da época. E um dos abu- os inimigos e termina com as suas armas e ainda fala
sos era a venda de indulgências. As indulgências eram benignamente ao seu povo, encorajando-o nesta luta.
documentos que a igreja vendia com os quais se pro- A palavra “refúgio” lembra as cavernas naturais da
metia perdão de pecados. Lutero ensinou que o perdão Palestina, lugar de proteção. Lutero modificou esta fi-
de Deus não pode gura para o contexto da época: Os castelos medievais
Lutero ensinou que o ser comprado. construídos sobre rochas ou penhascos, que serviam
perdão de Deus não pode Deus o dá de gra- como lugar de refúgio e defesa contra o inimigo. A fi-
ser comprado. Deus o dá de ça a todos os que gura do castelo lhe era muito familiar. Em 1521 o Elei-
graça a todos os que creem creem em Jesus tor Frederico Sábio o sequestrou para protegê-lo dos
em Jesus Cristo. Cristo. inimigos. O lugar que ele ficou recluso, por 10 meses,
Este gesto de foi no Castelo de Wartburgo.

42 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Homilética: Sermão

Lutero tinha profun- diminuir. Temos,


se houve um da confiança de que Deus porém, armas po-
fator que teve é o refúgio contra as cila- derosas para nos
papel importante na das do maior inimigo do defender, contra
Reforma, este foi o cristão: Satanás. E o lugar todos os ataques
hino Castelo Forte. de encontrar este refúgio do inimigo ma-
é na Palavra. E Lutero ligno, entre elas a
estava muito seguro deste refúgio. Isso fica claro na Palavra e a oração.
terceira estrofe, onde diz que, mesmo que o mundo se Além delas,
enchesse de demônios, não haveria por que ter medo. uma arma poderosa é nos unirmos em um vibrante
Bastaria uma Palavra do Senhor para derrubá-los. hino. O Castelo Forte é uma ótima indicação, pois nele
Na quarta estrofe Lutero chega ao ponto mais singe- estão reunidas qualidades que poucas músicas reúnem:
lo desta confiança. Diz ele que mesmo que chegassem Palavra, Consolo, motivação, qualidade musical e po-
ao extremo de roubar o ética.
Castelo Forte corpo, os bens, mulher e Nestes tempos em que o Diabo nos assedia de todas
1. Castelo forte é nosso Deus, filhos, a palavra e o Reino as formas, façamos do Castelo Forte uma liga para nos
defesa e boa espada; de Deus não poderiam defender e para mostrar que estamos de mãos dadas
da angústia livra desde os céus roubar. com Deus e com os irmãos na luta contra o mal. Amém.
nossa alma atribulada. Rev. David Karnopp, - Vacaria-RS
Investe Satã Este hino rapidamen-
te se espalhou por toda a pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
com hábil afã

Salmo 46
e sabe lutar Terra. Ele é considerado
com força e ardil sem par; o maior hino evangéli-
igual não há na terra. co da história cristã. Ao
2. Sem força para combater, 1 Deus é o nosso refúgio e a nossa força,
teríamos perdido. longo de quase 500 anos, socorro que não falta em tempos de aflição.
Por nós batalha e irá vencer milhões de cristãos em 2 Por isso, não teremos medo,
quem Deus tem escolhido. diversas línguas fizerem ainda que a terra seja abalada,
Quem é vencedor? e as montanhas caiam nas profundezas do oceano.
dele seu hino de luta e de 3 Não teremos medo, ainda que os mares se agitem e rujam,
Jesus Redentor, consolo. Diz a história
o próprio Jeová, e os montes tremam violentamente.
pois outro Deus não há; que Lutero e seus com-
4 Há um rio que alegra a cidade de Deus,
triunfará na luta. panheiros o cantavam a casa sagrada do Altíssimo.
3. O mundo venham assaltar diariamente. Nos mo- 5 Deus vive nessa cidade,
demônios mil, furiosos, mentos de dificuldades e ela nunca será destruída;
jamais nos podem assombrar, Lutero dizia par o seu de manhã bem cedo, Deus a ajudará.
seremos vitoriosos. 6 As nações ficam apavoradas,
Do mundo o opressor, companheiro e braço
e os reinos são abalados.
com todo rigor direito, Filipe de Melan- Deus troveja, e a terra se desfaz.
julgado ele está; chton: “Vamos Filipe,
vencido cairá 7 O Senhor Todo-Poderoso está do nosso lado;
cantemos o salmo 46”. o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
por uma só palavra. Irmãos e irmãs, a igre-
4. O Verbo eterno ficará, 8 Venham, vejam o que o Senhor tem feito!
sabemos com certeza, ja de hoje não está livre Vejam que coisas espantosas ele tem feito na terra!
e nada nos perturbará de conflitos e momentos 9 Ele acaba com as guerras no mundo inteiro;
com Cristo por defesa. críticos e trágicos. Volta e quebra os arcos, despedaça as lanças
Se vierem roubar meia eles aparecem. Nes- e destrói os escudos no fogo.
os bens, vida e o lar — tes momentos, a igreja e 10 Ele diz: “Parem de lutar
que tudo se vá! e fiquem sabendo que eu sou Deus.
Proveito não lhes dá. os cristãos individual- Eu sou o Rei das nações,
O céu é nossa herança. mente têm usado armas o Rei do mundo inteiro.”
Ein Feste Burg — Martinho Lutero,
pouco ou nada reco-
11 O Senhor Todo-Poderoso está do nosso lado;
1528. Trad. Rodolfo Hasse. Mel. Martinho mendadas. Uma delas é o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
Lutero, 1528. se retrair, se esconder, se Texto da Bíblia NTLH da Sociedade Bíblica do Brasil

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 43


Música e Adoração
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44 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Música e Adoração
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Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 45
Música e Adoração

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46 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Artigo Rev. Edson Ronaldo Tressmann

493 anos depois voltamos ao


S
Somente
empre gosto de ler os fa- cada vez menos preparados a res-
tos históricos e comprovar ponder às questões do momento.
que a história sempre se repete. A burguesia estava crescendo, e a
Olhando para o século 16, onde igreja corrupta, tentava controlar
se iniciou a Reforma Protestan- os bens materiais através dos seus
te, e olhando para os dias de hoje, con- veram envolvidos em debates em prol dogmas. A intolerância religiosa era
sigo enxergar uma nítida repetição da da verdade. E as verdades das Escritu- outro fator. A própria mentalidade
história, claro, que com a diferença de ras estão esclarecidas de uma forma renascentista, onde o individualismo e
5 séculos adiante. bela e simples no Livro de Concórdia racionalismo levou ao desenvolvimen-
Outubro é o mês de decisão no Bra- (escritos confessionais da Igreja Evan- to do senso crítico, principalmente aos
sil. Os candidatos receberão um voto gélica Luterana, 1529-1580), que são clérigos. Nesse contexto surge o mon-
de confiança nas urnas. E esse voto se escritos confessionais da Igreja Evan- ge agostiniano Martinho Lutero. Não
deve as propostas feitas. Nos debates, gélica Luterana do Brasil, (IELB), da- é por acaso que ele é citado como o ho-
ouvimos as propostas dos candidatos tadas de 1580. mem de seu tempo.
e ainda ouvimos acalorados debates Assim como as novidades tecno- Lutero voltou seus olhos aos SO-
sobre a Reforma, mas não a do século lógicas nos agradam, assim também MENTE. Martinho, depois de gran-
XVI e sim as reformas políticas, eco- as novidades teológicas. Diante de de luta consigo mesmo em busca da
nômicas e sociais que cada um se pro- qualquer novidade que aparece, somos resposta na sua indagação sobre a sal-
põe a adotar depois de eleito. arrastados como folhas secas levadas vação, foi levado ao desespero, e nesse
As igrejas também se mobilizam pelo vento. desespero encontrou suas respostas na
nas eleições, pois, dependendo de Se os nossos candidatos buscaram Escritura Sagrada. Partindo de lá, des-
quem for eleito, as leis que estão em os nossos votos com defesas de refor- cobriu que SOMENTE....a Escritu-
andamento, depois de aprovadas, po- mas sociais, econômicas e políticas, ra....pela Graça......pela Fé.... por Cristo.
dem prejudicar o cristianismo. Politi- como pastor quero propor aos cristãos O estopim da Reforma foi a ven-
camente, a igreja está preocupada, e até a voltarmos os nossos olhos à Reforma da de indulgências, venda do perdão.
quando será assim? da Igreja do século 16, em especial aos Nós, 493 anos depois também esta-
A meu ver é que estamos em volta a “SOMENTE”. mos diante de um estopim, a venda da
muita tecnologia e teologia facilitado- SOMENTE...Escritura...Graça... bênção. E 493 anos depois precisamos
ra. Não estamos mais sendo educados Fé...Cristo. voltar nossos olhos ao SOMENTE....a
a uma reflexão profunda e debates ma- Qual era o cenário da Reforma? Escritura....pela Graça......pela Fé.... por
duros e expositivos de idéias. Apenas Durante a baixa idade média, a Eu- Cristo, e não nos deixar levar pelo
recebemos as informações e se gostar- ropa estava passando por um conjunto “copo d’água, lenço com suor, apresen-
mos, mesmo sem reflexão passamos de transformações sociais, econômicas tação no templo”, e supostos milagres.
adiante. Os Pais da Igreja sempre esti- e políticas, e assim, se iniciava uma Entre as reformas sugeridas pe-
nova socieda- los candidatos, creio que nós cristãos,
de. Sociedade 493 anos depois possamos reformar a
essa em que o nossa atitude e voltarmos à Escritura
homem renas- e vermos que nela nos é apresentada a
centista, com graça de que pela fé em Cristo somos
acesso aos li- salvos, e estando em Cristo, nada mais
vros, começa- nos importa.
va a discutir e Deus nos abençoe.
pensar coisas
do mundo.
Enquanto Rev. Edson R. Tressmann - Alto Alegre dos Parecis-RO
isso, os clérigos pastor da Igreja Evangélica Luteana do Brasil

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 47


Isagoge do Antigo Testamento Rev. Jarbas Hoffimann

A Reforma resgatou a verdade esquecida:


a Salvação pela fé em Jesus Cristo.
1. Introdução desta raiz. Partindo deste princípio temos duas opções
mais aceitas: qWQB;h] (abraçar, um abraço ardente)

H abacuque é um profeta muito discutido, princi-


palmente a unidade do livro. Alguns julgam que
o livro não é um todo, discordando da legitimidade do
e WqWQb;mh] (nome de uma planta de jardim assíria).
Existe ainda outra suposição segundo a qual o nome do
profeta derivaria do arábico kibikkatun (anão).
salmo, no terceiro capítulo, afirmando que seria um Numa coisa todos os eruditos concordam:
acréscimo posterior. A parte isagógica requer um estu- Sobre a pessoa do profeta não temos informações.
do profundo, e tem sido alvo de vários estudiosos, para Uma das adições apócrifas ao livro de Daniel
tentar elucidar esta dúvida quanto ao livro de Habacu- (568) conta uma legenda não histórica de suas
que. relações com Daniel entre os leões (Bel e o Dragão
Também no aspecto teológico, Habacuque foi um 33ss). Esta narrativa é na LXX (não em Teodócio)
grande profeta. Sua teologia é fundamental para a dou- atribuída a “Ambakum, filho de Jesus da tribo de
trina de igrejas como a Luterana. Ele mostra que apesar Levi” e se diz que ela foi tirada “de sua profecia”.
de todos os atropelos da vida, nossa vida é governada Desta tradição Mowinckel infere que, não obstan-

Habacuque e a ju
por Deus. Sendo assim, quem persistir na fé, e só na fé, te ser ela um midrash (narrativa devota tardia),
será recompensado. talvez tenha preservado uma tradição a respeito do
Como parte final apresentam-se as aplicações pasto- profeta e de seu pai, os quais, portanto, eram levi-
rais deste trabalho. De nada adianta um trabalho exaus- tas (569). Da forte influência do estilo dos Salmos,
tivo, como este se ele ficar guardado em uma gaveta, ele ainda conclui que o profeta pertencia aos nabis
esquecido. Precisamos aprender a estudar para depois do templo, que tinham ligações com os cantores do
transformar a teoria em prática. Mesmo que essa práti- templo e os autores dos Salmos (570).1
ca não seja pastoral ela pode ser acadêmica, servindo de
auxílio ao estudo de outros, assim como nós usamos as Alguns autores chegam a declarar que Habacuque é
experiências de outros neste trabalho. o profeta sobre quem “menos dados possuímos” 2 e eles
O livro de Habacuque nunca será totalmente esgo- estão certos, pouco se sabe realmente sobre este esplên-
tado em seu conteúdo, mas isso não impede que faça- dido profeta.
mos um estudo visando esse esgotamento.
2.2. Autoria e Data
O livro de Habacuque traz poucas informações so-
2. O Livro de Habacuque bre seu autor. No livro Habacuque apenas se identifi-
ca como “o profeta” [1.1 e 3.1]. Não há certeza sobre
2.1. Nome sua genealogia ou sua descendência. As pistas que te-
Pouquíssima coisa se sabe a respeito da pessoa do mos nos levam a considerar o livro apócrifo de Bel e o
profeta Habacuque. Seu nome é uma incógnita. A raiz Dragão, onde Habacuque teria tido um encontro com
de seu nome é qbh. Portanto seu nome seria derivado Daniel na cova dos leões. Apesar de ser um livro não
48 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Isagoge do Antigo Testamento

canônico, este acrésci- cación con el Habacuc que llevó la comida a Daniel
mo pode ter preservado encerrado em la cueva de los leones (Dn 14.32-
uma tradição antiga da 38). También se há sostenido que fue levita, por la
genealogia de Habacu- dedicatoria de su cántico. Igualmente se há creído
que. Segundo o livro de haber encontrado em hl'yaiq/ sus restos morta-
Bel, Habacuque seria da les, junto con los del profeta Miqueas, em tiempo
tribo de Levi, filho de Je- del imperador Teodosio (siglo IV). Pero ninguna de
sus (Bel 1.1 = LXX Dn estas noticias puede sostenerse con absoluta certeza.5
14.1).
Clemente de Ale- A Enciclopedia de la Biblia ainda traz três possíveis
xandria identifica Ha- datas para Habacuque: a) (336-324 a.C.) neste caso, ao
bacuque como contem- invés de caldeus (myDif.K;) os opressores seriam os ma-
porâneo de Jeremias e cedônios (myTiKi), liderados por Alexandre Magno; b)
Ezequiel, mas ele tam- Habacuque teria predito a destruição dos assírios (em
bém diz que Jonas e Habacuque são contemporâneos vez de caldeus seriam assírios) e aí a época seria anterior
de Daniel. A Concordia Self-Study Bible concorda à queda de Nínive (612 a.C.) c) Habacuque teria com-
que Habacuque seja contemporâneo a Jeremias, mas posto sua profecia depois da batalha de vymiKediK; (605
descarta sua ligação a Daniel. a.C.), porque os babilônicos tinham vencido aos Egíp-
O comentário cabalístico medieval rh'ZOh; dp,s, cios e estavam muito fortes e a ponto de conquistar a
(ca. 1300) o identifica como “filho de uma mulher Su- Palestina, sob o comando de Nabucodonosor.
namita” 3. Pela opressão apresentada no livro, onde o justo

ustificação pela fé sofre na mão do injusto, concluímos que o período de


Uma data que é praticamente consenso é 605 a.C.
Archer coloca o profeta entre 607-606 a.C., e para pro- Habacuque é posterior ao justo rei Joaquim, já que o
var seu ponto de vista ele lembra que à época os caldeus seu sucessor foi um rei mal:
(1.6-10) eram um povo que era tido como guerreiro, Jehoiakim, the evil successor of good king Josiah,
que estava dominando seus inimigos. Essa data tam- became a vassal (albeit an unfaithful one) of Ba-
bém se encaixa com uma data subsequente à “queda bylon, and his land suffered from repeated incur-
de Nínive (612), e talvez até depois de Nabucodonosor sions of Babylonian troops (2K 24:1-2). It is into
ter ganho sua vitória triunfante na batalha de Carque- the period, between 605 and 597 BC (the date of
mis em 605.” 4 Archer afirma também que a profecia, the first siege and surrender of Jerusalem), that the
provavelmente esperava um cumprimento rápido. Se prophetic activity of Habakkuk can be most natu-
tomarmos por base a data de 605 como sendo média, rally fitted. The promising days of Josiah, the refor-
teremos duas invasões como referenciais, uma em 605, mer of the religions life of his people and the resto-
por Nabucodonosor, outra em 597. rer (as was hoped) of the Davidic kingdom, have
Outro fato que indica uma data próxima a 605 é o given way to days of Jehoiakim, who “did what was
fato dos vv. 1.2-4 deixarem clara uma exploração dos evil in the sight of the Lord” (2K 23:37); evil is rife
pobres por parte da nobreza de Judá. Podemos então in the land, and the threat posed by the Babylo-
marcar a época posterior à morte de Josias (609). nian is no longer a clout the size of a man’s hand
Como diz a Enciclopedia de La Biblia: but a huge storm cloud, big with disaster.6
Profetizó hacia el 600 a.C., probablemente em
tiempos de Joaquim. No tenemos noticias ciertas De todos os argumentos apresentados, podemos
acerca de su vida. Se há pensado em una identifi- destacar em comum à maioria dos eruditos a datação
Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 49
Isagoge do Antigo Testamento

por volta do ano 605 a.C. para o Livro. Os argumentos como o último capítulo é um salmo, eles não fizeram
mais convincentes são iguais aos de Archer e o do Con- o comentário, como veremos na parte destinada à uni-
cordia Self-Study Commentary, acima, que tomando dade.
o texto bíblico aceitam como inimigo os caldeus e jus-
tificam que se fosse rei Joaquim, não haveria tamanha 2.3. — Texto e versões
injustiça no reino.
Alguns eruditos consideram o texto da TM de Ha-
Um caso aparte é a datação do último capítulo do
bacuque como completamente corrupto, devido a di-
livro de Habacuque. Existem dificuldades como a au-
versos problemas de leitura e variantes de leituras en-
sência deste salmo no comentário Qumran para o livro.
contradas em versões antigas. O texto foi estudado por
Como diz Schökel:
Brownlee (1959), que examinou mais de 160 variantes
Aqueles que negam a autenticidade colocam o sal-
do TM. Havia mudanças substanciais incluindo: mfyw
mo nas datas mais diversas, desde o século X até
por ~vea'w>, “homens culpados” em 1.11; wbrx em lu-
o III. Pretenderam alguns ver nele influências
gar de wOmrx,, “sua rede”, em 1.17; dnbw !nh em lu-
mitológico babilônicas (Stephens, Irwin), egípcias
gar de dnEwOb !yIY:h; (RVS: “vinho é traiçoeiro”) em 2.5;
(Zolli) ou cananéias (Cassuto, Gaster, Albright).
Elementos mitológicos não faltam, a composição,
mhydawm em lugar de mh,rewOam/, “sua vergonha”, em
2.15. As variantes no texto de Habacuque, apesar de
porém, é muito original e reflete a mesma concep-
serem muitas, não influenciam na mensagem geral do
ção que Jz 5 (cântico de Débora) ou Dt 33 (cânti-
texto. São mudanças tais as que Cothenet nota. São va-
co de Moisés). À parte o salmo, outros fragmentos
riações do TM devido a várias causas: textos com varia-
ou versos isolados foram considerados, por vezes,
ção consonantal, textos com revocalização consonantal
acréscimos posteriores.7
e tentativas na reinterpretação do texto.
Se existem dificuldades para provar que o salmo faz O autor era um homem de grande sentimento, es-
parte do livro, também existem para provar que não faz creveu várias frases memoráveis (2.2, 4, 14, 20; 3.2, 17-
ou que foi um acréscimo posterior. O fato de Qumran 19). Segundo a Concordia Self-Study Bible, o livro foi
não conter o último capítulo pode ser facilmente ex- muito popular no período intertestamentário.
plicado pela diferença literária deste último capítulo. Concluímos que, apesar das diversas dificuldades de
Provavelmente os comentaristas de Qumran estavam leitura, o livro não apresenta falha na parte teológica,
fazendo comentário do texto histórico-profético, e nas assim chamadas “bases de doutrina”. Nestas partes

Esboço
O esboço do livro de Habacuque é simples e todos os autores praticamente fazem o mesmo. Para nosso auxílio
tomaremos este que é um híbrido entre diversos modelos:

1. Os Problemas da Fé................................................................................................... 1.1-2.20


A. Como é que um Deus santo pode permitir a existência da iniquidade?..................................................... 1.1-12
1. Opressão em Judá, sem castigo................................................................................................................ 1.2-5
2. Os caldeus são o castigo divino.............................................................................................................. 1.6-12
B. Como é que Deus permite a uma nação ímpia triunfar sobre Seu povo?..............................................1.13-2.20
1. Crueldade sem compaixão, idolatria grosseira dos caldeus................................................................. 1.13-17
2. O que crê deve esperar humildemente, confiante na resposta divina...................................................... 2.1-4
3. O julgamento que atingirá os caldeus por causa dos cinco pecados que praticam.................................... 2.5-9
4. Deus continua sendo soberano da Sua terra.............................................................................................2.20
II. Solução de Todas as Dúvidas: a Oração da Fé e a Confiança Inabalável...................... 3.1-19
A. Oração pelo reavivamento.......................................................................................................................................3.1-2
B. Os julgamentos do Senhor no passado são sinal claro do futuro.................................................................. 3.3-16
C. O que crê regozija-se só em Deus, está segurao da vindicação da santidade de Deus.............................3.17-19

50 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


não existem corrupções, ou se existem
não mudam o sentido do texto.

2.4. Unidade do livro


Muitos eruditos sustentam que o Li-
vro de Habacuque contém três unidades

literárias maiores: a) um diálogo entre o


profeta e Deus (1.1-2.4/5); b) uma seção
contém uma série de oráculos da afli-
ção (2.5/6-20) e, c) um salmo no cap. 3
(Childs IOTS, 448).
Essa visão aumenta problemas, toda-
via, no que há pouco acordo a respeito
da inter-relação dessas unidades. Uma
proposta alternativa (Széles Habakkuk,
Zephaniah ITC, Sweeney HBC, fc.) sus-
tenta que o livro de Habacuque compri-
miu duas sessões distintas: a) Hc 1-2, o
pronunciamento (aF'm;) de Habacuque,
b) Habacuque 3 a oração de Habacuque.
Essas seções são formalmente demar-
cadas por suas respectivas subscrições em
1.1 e 3.1; os termos técnicos em 3.1, 9,
13, 19 que identificam o terceiro capítulo
como um salmo. Eruditos têm normal-
mente obtido um consenso que embora o Para os que levam a sério a tradição bíblica de que
livro provavelmente não tenha sido inteiramente escri- Davi se preocupava muito com a autoria e a mu-
to por um único autor (contra Eissfeldt 1965 e Bro- sicalidade dos Salmos, tais termos musicais não
wnlee 1971), ele apresenta forma que constitui uma oferecem nenhuma evidência de autoria de data
unidade literária coerente ( Jöcken 1977: 241-519). posterior. Além disto (sic) não há nada que impeça
Outros o vêem como uma composição cúltica ou li- um profeta de compor um salmo de ações de graça
túrgica (Fohrer 1985). Uma outra visão diz que o livro e de louvor ao Senhor. Grandes porções das escritu-
está organizado em torno da teodicéia ( Jeller 1973; ras proféticas são de caráter altamente poético, que
Gowan 1976; Bratcer 1984; Otto 1985; Gunneweg os próprios críticos se apressaram a indicar.10
1986; Sweeney HBC, fc). É obviamente importante o fato de que o Comentá-
O salmo é sempre um problema à parte para a acei- rio de Qumran do livro de Habacuque não inclui o ter-
tação da unidade de Habacuque. A maioria dos erudi- ceiro capítulo, visto se tratar de um testemunho muito
tos concorda com a unidade dos capítulos 1 e 2, mas antigo. Mas alguns escritores supervalorizam este fato.
contestam o terceiro capítulo. Pfeiffer indica uma data Alguns esquecem que a LXX, que também é um teste-
provável para o “terceiro século a.C.” 8 . Para tentar pro- munho muito precioso, traz o terceiro capítulo.
var seu ponto de vista, Pfeiffer tenta validar outra supo- Temos que levar em consideração também, que a
sição, a de que os estilos musicais dos Salmos seriam de LXX é uma tradução, ao passo que o Comentário de
uma “época posterior, e que, apesar de Amós 6:5 e outras Qumran, como seu nome diz, é um comentário e não
referências semelhantes, o rei Davi nada tinha que ver um trabalho de escribas ou tradutores. A LXX foi fei-
com música ou cânticos, por ser um homem de guerra” 9 . ta por judeus, para judeus de língua grega, e eles res-
Ou seja, tenta provar uma suposição com outra. peitavam demais o texto bíblico para incluir algo que
Mas Archer disse muito bem ao mostrar que: não fizesse realmente parte do livro. E ainda devemos
Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 51
Isagoge do Antigo Testamento

2.5. Qumran
O comentário de Habacuque em
Qumran tem 18 linhas em uma coluna ou
cerca de 15,24 cm de altura (mas cerca de 2
ou 3 linhas foram comidas sempre ao longo
da parte inferior da borda).
Da autoria de Qumran não se duvida:
The commentaries are without doubt origi-
nal compositions of the Qumran Sect, for the
Scriptures are distorted to show the persecu-
tion of the community by wicked, the favor
of God enjoyed by the Community, and the
ter em mente que o terceiro capítulo é estilisticamente punishment that will come upon the wicked.13
diferente dos dois primeiros, e que existem algumas su-
posições plausíveis para o fato de não estar incluído no Os pergaminhos do Mar Morto, ou escritos de
comentário, como afirma Millar Burrows: Qumran são muito importantes:
Sua ausência... nem sequer prova que os sectários The Dead Sea Scrolls are of importance in two
judeus desconhecessem o terceiro capítulo. Sendo principal areas of study: in textual criticism of the
um Salmo, não se adapta ao tipo de interpretação Old Testament, and in Judaism in the intertesta-
adotada para os outros capítulos. Há também a mental period.14
possibilidade de que o comentário não foi comple-
tado. A Septuaginta possui os três capítulos, mas se
esta parte da Septuaginta é mais antiga do que o 3. Estudo terminológico
Comentário de Habacuque é outra questão.11
Neste estudo tentamos exaurir todas as possibili-
Livros como a Enciclopedia de la Biblia lembram dades de interpretação dos dois principais termos da
que muitos eruditos acreditam que este seja um acrés- passagem fundamental de Habacuque, o versículo 2.4,
cimo posterior. Eles tomam por base o fato do comen- onde Habacuque coloca o cerne de sua teologia. As pa-
tário de Qumran não conter este último capítulo. lavras estarão sendo estudadas em todo o Antigo Tes-
O que pode ter acontecido é: tamento, o que nos dá um campo bastante amplo para
el comentarista de Qumran no acabó su trabajo, o trabalho.
o quizás no quizo utilizar el salmo, bien por la
diferencia de género literario que no permitirá ya
transposiciones en el domínio de la historia. La
3.1. qyDIc;
idea, por lo tanto, de la unidad del libro de Haba- No original, o substantivo masculino singular
cuc se impone y como dice Baumgartner, el primer qyDIc; ocorre 120 vezes, das quais, 10 vezes com a con-
capítulo espera una respuesta que da el segundo, junção w>, como aparece em Habacuque. Ele aparece um
éste prepara una situación nueva que aparece en total de 358 vezes em suas variações de masculino plu-
el tercero; y éste último, en fin, que comienza con ral, feminino e feminino plural. Só este fato já mostra
las palavras “Señor, he oído tu mensaje”, implica sua importância.
necessariamente los que han precedido.12 Seu sentido básico foi sempre o mesmo, quer dizer,
qyDIc; significa e significava “justo”. Interpretações bási-
Como vemos não há consenso sobre a unidade do cas são: 1. justo, quando se tratando de governo “a: Da-
livro, mas partindo do princípio do tema da teodicéia, vidic King 2Sm 23.3 b: of judges, Ez 23.45, Pr 29.2 c:
podemos encontrar unidade no livro. Habacuque têm of law Dt 4.8 d: of God Dt 32.4”15 . 2. justo, em caso de
uma espécie de diálogo com Deus durante os dois pri- alguém correto, certo. O sentido básico conota confor-
meiros capítulos e no terceiro, quando ele obtém suas midade com uma postura ética e moral. O sentido origi-
respostas ele canta uma canção de louvor ao Deus eterno. nal da raiz qdc foi “ser reto/franco”. O uso primitivo de
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Isagoge do Antigo Testamento

qd,c, (retidão, exatidão) — exceto em Gn 15.6; 18.19; pessoa masculino singular, aparece 2 vezes (Sl 96.13;
30.33) ocorrem em relação às funções de juízes. Neste Hc 2.4), da forma que está em Habacuque. Mas suas
sentido: todas as decisões devem ser tomadas impar- variações ainda aparecem mais 11 vezes: 2 vezes no
cialmente com justiça, com exatidão (qd,c,) Lv 19.15. Pentateuco (Êx 17.12; Dt 32.4), 6 vezes nos poéticos
Em outros ramos também era cobrada a mesma (Sl 100.5; 37.3; 119.30,86; Pv 12.17,22) e 3 vezes nos
qd,c,: Proféticos (Is 33.6; 25.1; Jr 5.1).
It is applied similarly to weights and measures Seu sentido é firmeza, constância, fidelidade. O
(Lev 19:36). Comercial fraud and deception are termo é usado para referir-se a “mãos” no Antigo Tes-
not allowed. In both these usages is seen the ba- tamento. Firmeza de mãos, como em Êx 17.12: “...fi-
sic sense of “not deviating from the standard.” caram as mãos firmes até ao pôr-do-sol.” Em outras pas-
The word describes three aspects of personal rela- sagens ele refere-se à conduta das pessoas e certas vezes
tionships: ethical, forensic, and theocratic.16 de Deus e do homem, como no Sl 119.30: “Escolhi o
caminho da fidelidade...”
Em sentido ético no tratamento do homem com seu Fora o livro dos Salmos, hn"Wma/ é traduzido por
próximo: pi,stij e não por avlh,qeia. hn"Wma/ também não aparece
The man who is righteous tries to preserve the pea- em construções onde tm,a, é muito comum. Assim, o
ce and prosperity of the community by fulfilling the Antigo Testamento diz que a “palavra” é tm,a,, mas esta
commands of God in regard to others. In the supre- nunca diz que ela é hn"Wma/.
me sense the righteous man (qyDIc); is one who serves Em Habacuque temos a frase: o justo viverá pela
God (Mal 3:18). sua fé. Aqui hn"Wma/ dificilmente significa meramen-
... the “righteousness” consisted in obedience to God’s te “piedosa honestidade” ou “fidelidade,” mas é o que
law and conformity to God’s nature, having mercy for conduz a pessoa que está de acordo com tm,a,, o qual
the needy and helpless. inclui sinceridade, fidelidade, confiança, e estabilidade.
The qyDIc;; gives freely (Ps 37:21), without regard for hn"Wma/ é peculiar ao qyDIc; e o traz à vida. Claro, essa
gain. The presence of this kind of people is the exal- sentença não deveria ser isolada de seu contexto. 2.4 é o
tation of the nation (Prov 14:34), and the memory antecedente do v.5, e não se refere à fé do profeta.
of the righteous man is a blessing. When men follow Devemos ver também essa passagem como foi tra-
God, righteousness is said to dwell in the city (Isa duzida na LXX, que lê evk pi,stew,j mou. Essa tradução
1:21). But when sin rules, it becomes a harlot.17 fortalece a visão de fidelidade de Deus e não a Deus:
“Pela minha fidelidade o justo viverá”. Devemos ques-
O qyDIc; é uma pessoa que deve tornar-se nova pes- tionar se a LXX aqui assume um texto hebraico dife-
soa cuja os atos são governados pela lei de Deus. A con- rente. Quando Paulo omite o pronome em Rm 1.17e
duta justa deriva de um novo coração (Ez 36.25-27). Gl 3.11 (talvez, mas não com certeza, em conexão com
Habacuque coloca esta outra interpretação: o justo de- a LXX), isto é mou com di,kaioj, “meu justo” e assim
veria viver pela sua fé (2.4) produz um diferente significado, talvez em conexão
Good conduct by an individual establishes a claim com a LXX, etc. A LXX traz a partícula mou, enquanto
on the Lord of deliverance from calamitous judg- os originais gregos do NT não a trazem. O que prova-
ment. Similarly, Gen 15:6 teaches that Abraham velmente aconteceu foi que houve um erro de tradu-
receivet Isaac as his heir because his trust in God’s ção e os LXX colocaram a partícula mou para que eles
promises was accounted as rigteousness.18 pudessem compreender como uma pessoa poderia ser
justa sem as obras da lei, apenas pela fé nas promessas
O sentido essencial da palavra sempre foi o mesmo, de Deus.
o ser justo, uma pessoa correta, uma pessoa que tem sua
vida guiada por Deus. 4. A Justificação por fé

3.2. qn"Wma/ Para entendermos como realmente se dá a justifica-


ção do fiel em Habacuque, devemos tomar o texto com
Este vocábulo, que é um substantivo feminino seriedade e respeito. Estamos lidando com o cerne de
singular, que vem acompanhado de sufixo da terceira toda a teologia cristã. O texto é tão importante a ponto
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Isagoge do Antigo Testamento

de ter sido citado três vezes no Novo Testamento, duas por toda sua maldade (2.13-14).
vezes por Paulo (Gl 3.11 e Rm 1.17) e uma vez pelo au- Habacuque fica especialmente preocupado com a
tor da carta aos Hebreus (10.37-38). São passagens que derrota para os caldeus, porque ele sabia o que aconte-
são “sedes doctrinae”, passagens que são fonte de doutri- cia com as nações subjugadas:
na. Esta é a ideia fundamental do livro de Romanos: O tratamento dado a uma cidade conquistada
San Pablo se muestra en repetidas ocasiones entu- era uma curiosa combinação de religião, cobiça e
siasta de la doctrina de Habacuc y toma de ella la crueldade. As antigas idéias religiosas, comparti-
idea fundamental de su epístola a los Romanos: la lhadas por Israel com os seus vizinhos, exigiam que
justicia de Dios brota de la fe y recae en la fe, en o deus da batalha recebesse a sua parte dos lucros
íntima relación con una de las ideas base del libro da vitória.
de Habacuc. Se insiste de nuevo en esta idea en la
epístola a los Galatas y en la de los Hebreos.19 Ou seja, se o povo de Deus fosse subjugado pelos
caldeus ele seria obrigado a seguir os deuses caldeus e
O profeta parece estar muito preocupado com a si- o profeta, como um servo de Deus não queria que isso
tuação de seu povo. Ele vê diariamente a opressão do acontecesse.
impiedoso sobre o humilde fiel. Ele vê violência contra O livro de Habacuque começa com a palavra
seu povo, provavelmente praticada pelo próprio povo aF’M;h;, oráculo, que tem o sentido de um peso a ser
(1.3). Vê o perverso se aproveitando cada vez mais do suportado. Este termo introduz um julgamento, embo-
justo (1.4). Vendo toda esta injustiça Habacuque clama ra isso não aconteça.
a Deus por uma resposta. Resposta que é dada em 2.4, Habacuque dá um exemplo de fidelidade, quando
onde ele é chamado a proclamar a fidelidade a Deus. ao invés de desesperar-se ele espera e confia em Deus.
A resposta a sua fidelidade logo vem: “o pecador orgu-
4.1. — Conteúdo lhoso que confia em si mesmo será condenado, e seu tempo
Temos cinco profecias evidentes em Habacuque: está próximo, somente o crente e fiel ficará de pé, justifica-
a) el rey caldeo, aguerrido y conquistador será do, no julgamento do Senhor. Só ele participará da vida
presa a su vez del expolio a que le someterán otros eterna, só ele tomará parte nesta vida, na continuação
pueblos; da história, 2:4.” Depois de resolvidas suas dúvidas,
b) el impío comete muchas injusticias, pero esas in- Habacuque glorifica a Deus, entoando um belíssimo
justicias recaerán sobre él; Salmo de louvor:
c) el impío oprime los pueblos sometidos, pero la E o poeta, consolado com esta certeza (a justiça
gloria de Yahweh resplandecerá; de Deus), entoa os versos finais (3.17-19). O
d) el impío se regocija con el oprobio de los demás, curso atormentado da história é trans-
pero la verguenza se cabrá en él; posto para imagens do
e) el impío es idólatra, pero Dios le impondrá si- mundo agrícola e
lencio.20 pecuário. E que
tudo apareça
como imerso
4.2. Mensagem
Israel está numa fase horrível. Existem pessoas de
todas as espécies se aproveitando do seu poder (religio-
so ou político) para afligir cada vez mais o povo. Ha-
bacuque se preocupa com isso e pergunta a Deus até
quando essas pessoas continuariam agindo assim. Deus
diz que suscitará os caldeus contra Israel. Habacuque
pergunta novamente: “por que justamente os caldeus,
que são um povo ímpio e idólatra, devem servir de ins-
trumento do castigo de Deus”. Ao que Deus responde
que a seu tempo, os caldeus também serão castigados
54 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Isagoge do Antigo Testamento

em desolação e morte, a fé em Deus é que ajuda a – Assírios (Budde, Cornill, Mowinckel, Weiser,
manter a atitude de otimismo.21 Sellin-Fohrer)
– Egípcios (Elliger)
– Babilônios e Caldeus (Wellhausen, Giesebrecht,
4.3. O Mal Delcor, Sellin, Pfeiffer, Trinquet)
Vários eruditos já discutiram sobre esse tema, o que – Tribos Árabes do norte (Cheyne)
cada vez mais contribui para tentar se chegar a uma – Persas (Lautergurg). Teoria estranha, visto que
conclusão sobre qual seria o problema do mal em Ha- o pouco que sabemos sobre os persas, nos conta de
bacuque. sua boa relação com os judeus
A revista Vox Scripturae fez um estudo sobre a pa- – Gregos [Alexandre Magno] (Duhm, Torrey)
lavra mal: – Selêucitas [Antíoco IV Epífanes 175-163 a.C.
A palavra hebraica [r: (ra‘) e seu feminino h['h' (Happel). Teoria sem fundamentação, visto que o
(râ‘âh), conforme o BDB, têm o sentido de mal, cânon dos 12 profetas menores já estava pronto por
miséria, calamidade, desgraça, erro e mal ético. volta de 190 a.C.
O NDITNT informa-nos que a LXX traduz o
termo hebraico por kako,j (kakós) e ponhro,j (po- Se deixarmos as especulações de lado e analisarmos
nerós). Segundo o NDITNT, kako,j (kakós) tem simplesmente o texto, chegaremos à conclusão que os
dois sentidos básicos: a) mal físico, muitas vezes inimigos são os caldeus, que como já dissemos, era um
relacionado com um castigo divino (Dt 31.17), povo que estava em franca ascensão por volta do ano
embora Deus também seja apresentado como um 605 a.C.
protetor contra o mal (Sl 23) e esteja sempre no
controle da situação e b) mal moral, sempre no
sentido concreto do termo (Mq 2.1). Já o termo 4.4. O justo viverá pela sua fé
ponhro,j (ponerós) adquire outras nuances no sen- Como vimos no estudo terminológico, as palavras
tido: “imprestável”, “corrupto”. Tal levantamento justo e fé são de extrema importância para a compre-
lexical confirma que o termo tem dois sentidos ensão da profecia de Habacuque. O justo é aquele que
fundamentais: mal físico e mal moral. vive em conformidade com a vontade de Deus, e por
isso será salvo, não por cumprir obras da lei. A fé não é
Mas trata-se de um conflito interno entre os diver-
uma mera fé em si mesmo e também não é a fidelidade
sos grupos judaizantes, ou de conflito entre Judá e al-
por parte de Deus para com o homem. É antes de tudo
guma ou algumas potências estrangeiras? As opiniões
uma fé pura, em Deus, nas promessas Dele.
são variadas, mas para a maioria dos críticos,
Paulo usou muito do livro de Habacuque, mostran-
o livro fala da opressão de Judá por
do que o conhecia bem. Sua carta aos romanos é cen-
um país estrangeiro. Mas
trada no tema de Hc 2.4: “O justo viverá pela sua fé”.
qual é o povo? Existem
Em Romanos temos a explicação desta teologia dada
diversas opiniões:
pelo próprio Apóstolo Paulo, o que nos serve de grande
auxílio para poder interpretar Habacuque.
Como a Concordia Self-Study Bible diz numa tra-
dução que fizemos: “Este Habacuque é um profeta do
consolo, que quer fortalecer e dar suporte ao povo, para
preveni-lo da perda da esperança na vinda de Cristo, po-
rém coisas estranhas podem acontecer. Ele usa todo plano
e estratagema que pode servir para dar forte sustento em
seus corações à fé na promessa de Cristo...
É realmente verdade que por causa dos pecados do
povo a nação deveria ser destruída pelo rei da Babilônia.
Mas Cristo e seu reino não falharia em vir sobre esse re-
lato...
Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 55
Isagoge do Antigo Testamento

Do mesmo modo nós podemos sustentar Cristo com a zendo: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fru-
palavra de Deus na antecipação do Último Dia, pois pa- to na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não
rece que Cristo está demorando muito a vir e não virá...” produzam mantimentos; as ovelhas sejam arrebanhadas
Assim temos novamente o conforto, pois os judeus es- do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me
tavam atormentados com a demorada vinda de Cristo alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O
e com os sofrimentos que aqui passavam, como hoje Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como
acontece. Mas como em Habacuque, aquele que per- os da corça, e me faz andar altaneiramente.”
manecer fiel viverá, pois o justo, pela sua fé (em Cristo)
viverá (eternamente). 6. Conclusão
4.5. O agradecimento do fiel Como dissemos na introdução, o livro de Haba-
cuque é riquíssimo e o seu conteúdo não será jamais
recompensado
extinguido, contudo, fizemos um estudo acurado de
Com um belíssimo canto é encerrado o livro do todas as obras que temos à disposição, juntamente com
profeta Habacuque. Como seria bom se todos nós sou- os textos originais e o texto no vernáculo.
béssemos colocar nossa confiança em Deus como ele Habacuque foi um exemplo de fidelidade a Deus,
fez (3.19). Este salmo se enquadra perfeitamente com exemplo a ser seguido por todos os crentes. Se nós an-
o restante do livro. Ele apenas foi escrito de forma di- darmos nos caminhos do Senhor, seremos justificados
ferente. Exemplos disso vemos por toda a literatura, pela nossa fé. A fé produz coração novo e vida nova.
alguns autores misturam história com poesia, fazendo Através dessa nova vida, o fiel começa já na terra a viver
um relato e depois colocando o texto em uma forma sua vida eterna.
mais agradável aos ouvidos e aos olhos. Assim terminamos este trabalho, na pretensão de
Vemos o salmo como um canto de louvor, um agra- ter alcançado pelo menos alguns dos objetivos aos
decimento por toda a atenção que Deus nos dá, assim quais nos propusemos. As aplicações pastorais são basi-
termina o livro de Habacuque, com uma beleza inigua- camente estas que nós expusemos no capítulo anterior.
lável. Mas como Habacuque é um texto riquíssimo em con-
teúdo teológico, cada pessoa poderá usá-lo e aplicá-lo
5. Aplicações pastorais em muitas outras circunstâncias.
Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Iguaçu-RJ,
Como Habacuque, nós também questionamos as pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
injustiças do mundo, principalmente quando essas
injustiças nos afetam diretamente. Como Habacuque
queremos ter nossas respostas e nossas soluções ime-
diatamente, somos impacientes. Queremos entender
os “mistérios” de Deus. Não deixamos Cristo governar
a nossa vida, como deve ser.
Contudo, temos o exemplo de Habacuque, que
viveu numa época de muito sofrimento e ameaça de
guerras e subsequente derrota. Ele estava confuso com
tudo que Deus lhe estava anunciando, como nós tam-
bém ficamos confusos com as coisas que acontecem ao
nosso redor. O profeta não desanimou, ficou firme em
sua fé até o fim, cumprindo o que Deus lhe ordenava e
anunciando ao povo as decisões de Deus. Habacuque
foi fiel, foi um justo e o justo vive pela sua fé.
Se permanecermos fiéis até o fim, teremos a vida
eterna e juntaremos nossas vozes à de Habacuque di-

56 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Isagoge do Antigo Testamento

Notas 9. Idem
10. Idem
1. YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento — p 170 11. Idem
2. SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. p. 1123 12. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. p. 997
3. ANCHOR BIBLE DICTIONARY, The. Ed.: David Noel Freed- 13. THE BIBLICAL WORLD. Ed. Charles F. Pfeiffer. p. 189
mann, vol. 3. p. 2.III 14. Idem
4. ARCHER Jr., Gleason L. — Merece Confiança o Antigo Testa- 15. Bible Works
mento. — p. 295 16. THEOLOGICAL WORDBOOK OF THE OLD TESTAMENTO.
5. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. p. 996 Ed.: R. Laird Harris. pp. 752-3
6. CONCORDIA SELF-STUDY COMMENTARY, Roehrs, Walter R. 17. Idem — p. 753
P. 635 18. Idem
7. SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. p. 1125 19. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. p. 997
8. ARCHER Jr., Gleason L. — Merece Confiança o Antigo Testa- 20. Idem p. 996
mento. — p. 296 21. SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. p. 1125

Bibliografia
ANCHOR BIBLE DICTIONARY, THE. Ed.: David Noel Freedmann, vol. 3, New York: Doubleday: 1992;
ARCHER Jr., Gleason L. — Merece Confiança o Antigo Testamento
BIBLE WORKS, versão 3.5 para computadores tipo PC
BIBLICAL WORLD, THE. Ed. Charles F. Pfeiffer — Grand Rapids. Baker Book House: 1966
CONCORDIA SELF-STUDY BIBLE, New International Version. General Editor: Robert G. Hoeber — Concordia Publishing
House, St. Louis: 1986
CONCORDIA SELF-STUDY COMMENTARY, Roehrs, Walter R., Concordia Publishing House, Saint Louis: 1979
ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. Ediciones Garriga, Barcelona: 1964
HEATON, E. W. O Mundo do Antigo Testamento., Trad.: Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Zahar editores: 1965
HEBREW AND ENGLISH LEXICON OF THE OLD TEXTAMENT, A –– With an Appendix Containing the Bilblical Aramaic.
Francis Brown, Oxford: Clarendon Press
LUTHER’S WORKS, vol. 35 — Word and Sacrament I. Ed. Helmut T. Lehmann — Philadelphia, Muhlenberg Press: 1960
NOVO COMENTÁRIO DA Bíblia, O. Ed.: F. Davidson M. A., vol II, São Paulo: Edições Vida Nova. 1985
SCHÖKEL, Luis Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português., Trad.: Ivo Storniolo, José bortolini. São Paulo: Paulus: 1997
SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. São Paulo: Paulinas: 1988
STUDIES IN OLD TESTAMENTE PROPHECY. Ed.: H. H. Rowley, Edinburgh: T. & T. Clark: 1950. pp 1-18.
THEOLOGICAL DICTIONARY OF THE OLD TESTAMENT. Ed.: G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren, vol. I — Revised
Edition. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1983.]
THEOLOGICAL WORDBOOK OF THE OLD TESTAMENT. Ed.: R. Laird Harris. Chicago: Moody Press: 1980
VOX SCRIPTURAE. Revista Teológica Brasileira. Vol III, nº 1, Março 1993. pp. 3-18. Luiz Alberto Teixeira Sayão. São Paulo: Edi-
ções Vida Nova
YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo.Vida Nova

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Lutero e Luteranismo Rev. Egon Martim Seibert

O Pastor e a Vida Devociona (necessidades especiais de irmãos) escritos, recomendou a respeito do


Introdução
para, finalmente, orar pelos congre- orar e ler a Bíblia.

D urante boa parte de meu Mi-


nistério Pastoral, de segunda a
sexta, iniciava diariamente minhas
gados seguindo a lista dos filiados
que apareciam no rol de membros.
Ao terminar de pronunciar meu úl-
1. A vida devocional
de um cristão (pastor)
atividades entrando às 8h00 no timo amém, quase sempre havia se segundo o que Lutero
meu gabinete de trabalho para fazer passado uma hora até uma hora e ensina sobre o orar.
o meu devocional que se desenrola- meia de tempo.
va, na maioria das vezes, do modo À noite, na cama ou no gabinete, Se cada um de nós pudesse des-
como segue: ainda uma breve oração de confissão crever, aqui e agora, a sua vida de-

a) Orava para que Deus Es-


pírito Santo me inspirasse
no trabalho e fortalecesse minha fé
de pecados, súplica de perdão, ação
de graças pelas bênçãos recebidas,
alguns pedidos especiais pelos fami-
vocional, certamente haveríamos
de receber contribuições valiosas.
Contudo, queremos agora, de um
pelo estudo de Sua Palavra (breve liares e por mim mesmo, e então me modo especial ver, ou então rever, o
oração). entregava aos prazeres... Do sono. que Lutero nos tem a dizer a respei-

b) Lia a Bíblia por cerca de


meia hora. Esta leitura
era sistemática, livro após livro.
Mas interessantemente e sem que-
rer, eu, sem o saber, fazia muito da-
quilo que Lutero, em alguns de seus
to da mesma.
Com respeito ao motivo que
cristãos têm para orar, Lutero em
Consultava comentários, lia ou-
tras traduções além da portuguesa.
Também aqui incluía as leituras da
trienal para o domingo quando de-
veria pregar sobre um dos seus tex-
tos. Na segunda, lia o Salmo e o tex-
to do Antigo Testamento. Na terça,
a epístola. Na quarta, o Evangelho.
O tempo gasto na leitura da Bíblia
era o momento que eu considerava
que Deus falava comigo.

c) Após a leitura, seguia o mo-


mento de oração que perdu-
rava por meia hora, mais ou menos,
também. Lia, a partir da convenção
da IELB em Veranópolis no ano de
1990, primeiramente as orações do
dia propostas no livro de orações de
George Kraus, “Palavra e Oração”.
Nestas orações, há um espaço sob
o título “Súplicas Especiais e Ação
de Graças” onde rabisquei o nome
de pessoas e de grupos que me eram
caros, e pelos quais orava então. De-
pois disso, seguia minhas anotações
que procediam das visitas pastorais

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Lutero e Luteranismo

al segundo Martinho Lutero


primeiro lugar deixa claro que Deus
o requer dos que são seus filhos. Ali-
ás, para Lutero, somente um cristão
podia orar pelo simples fato de que
aquele que não o é não sabe pelo que
ou como orar (Plass, p. 1.077).
Orar para Lutero não era algo fa-
cultativo ao cristão (Plass, p. 1.075
e 1.076). Para ele, cristãos obede-
cem ao seu Senhor e o fazem (Lu-
tero, 1995, p. 274, v. 7 e Livro de
Concórdia, p. 459). Ele até chega a
afirmar em 1539, em sua exposição
de 1Pedro 4.8, que alguém que não
ora não deveria sequer imaginar que
fosse cristão (Plass, p. 1.079).
Um segundo motivo que Lutero
apresenta para que cristãos orem en-
contra-se no fato de que Deus pro-
mete ouvir as preces de seus filhos
(Livro de Concórdia, p. 459; Lute-
ro, 1995, p. 274, v. 7). No entanto, Na instrução aos visitadores ele de- quer que sinta algo que lhe diga res-
ele deixa claro que embora haja a monstra que pastores “devem ins- peito, e também pela necessidade de
promessa de que Deus atenda todas truir as pessoas a pedirem a Deus outras pessoas entre as quais vive.
as orações, ele as atende a seu modo coisas terrenas ou eternas. Devem Por exemplo, por pregadores, auto-
(Lutero, 1995, p. 275, v. encorajar a todos ridades, vizinhos, empregados” (Li-
7). Por isso ele lembra a levarem suas pre- vro de Concórdia, p. 460).
que neste orar o cristão ocupações a Deus. Com respeito ao como orar,
pede que a vontade do Um padece pobre- Lutero lembra que a oração exige
Pai seja feita e não a sua, za, outro doença, fé verdadeira, baseada na palavra e
pois ele sabe o que verdadeiramen- o terceiro sofre por causa de peca- promessa de que Deus, por Cristo,
te é bom para seus filhos (Plass, p. dos, o quarto, por causa por meio de quem,
1.096 e 1.098). Além disso, este orar de descrença e outros aliás, a oração tor-
sempre deveria ser feito em nome males. Por isso muitos na-se aceitável dian-
de Jesus por causa de quem somos recorrem a Santo An- te dele, dará aos que
aceitos e ouvidos (Plass, p. 1.077). tônio, outros a São Se- oram toda a graça e
Ele afirma: “Em seu nome eu do- bastião, etc. Qualquer, bem (Livro de Con-
bro meus joelhos, embora eu não porém, que seja o problema, deve-se córdia, p. 474; Lutero, 1995, p. 275,
seja digno de ser ouvido por Deus” procurar ajuda em Deus” (Lutero, v. 7). Para ele a oração tinha que ser
(Plass, p. 1.078). 1995, p. 275, v. 7). No Catecismo sincera e não ser um ato de hipocri-
Uma terceira razão que Lute- Maior ele ainda diz: “Por isso deve- sia por meio do qual, aquele que ora,
ro aponta para que um cristão ore, mos nos acostumar desde a mocida- busca prestígio ou fazer grau diante
encontra-se nas necessidades que, de a orar diariamente, cada qual por de outras pessoas (Lutero, 1995, p.
tanto ele, como seu próximo, têm. toda a sua própria necessidade, onde 118, v. 5).

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Lutero e Luteranismo

O Reformador também declara pela conversão dos pecadores, pelos Beskendorf de Wittenberg, com
que o orar correto é feito com aten- inimigos (Plass, p. 1.099), pelos que quem Lutero já fazia então a barba
ção, do princípio até o fim. Por isso tinham problemas no casamento, no mínimo por 18 anos, o Refor-
ele lembra o próprio ofício daquele pelos soldados em guerra, muito mador deu, em 1535, instrução de
a quem escrevia, quan- embora fosse reti- como se deve orar. Segundo este es-
do afirmou: “Assim, cente com respeito crito, o Reformador reconhece que,
um barbeiro aplicado ao orar para que al- por vezes, perdera a vontade de orar
e competente tem que guém vencesse uma em razão do diabo e da própria car-
voltar seu pensamen- guerra que tivesse ne. O que fazia então? Dependen-
to, sua atenção e seus olhos, com um motivo injusto (Carr, p. 626, do da hora, ia ao quarto ou igreja,
muita precisão, para a navalha e os nota 48). ficava a sós ou colocava-se em meio
cabelos, e não se descuidar, não sa- Ao Mestre Barbeiro Pedro às pessoas, para então tomar em
bendo que esteja afiando ou cortan-
do. Mas, se ele, ao mesmo tempo,
quisesse fazer muita conversa ou
ficar pensando ou olhando outras
coisas, certamente iria cortar fora
a boca ou o nariz, e até o pescoço.
Desta forma, cada coisa que é para
ser bem feita, quer ter a pessoa in-
teira, com todos os seus sentidos e
membros, como se diz: “pluribus
intentus minor est ad singula sen-
sus — Quem pensa em muita coisa,
não pensa em nada, também não faz
nada direito. Tanto mais a oração
precisa ter o coração uno, por intei-
ro e exclusivo, se é que deva ser uma
boa oração” (Lutero, 1984, p. 323).
Para Lutero, o ato de orar podia
ser realizado a sós e, por exemplo,
com outros na Igreja, (Carr, p. 624).
De acordo com o seu pensamento,
este seu orar não era tão somente
feito em silêncio
ou falando em
voz alta. Até mes-
mo ele fazia uso
da música para
orar e afirmou
que ora o dobro
quem ora can-
tando (“Doppelt
betet, wer singet”,
Carr, p. 625).
O Reformador ensinou que cris-
tãos, além de orarem por si mesmos,
também oram pela Igreja e Estado,

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Lutero e Luteranismo

suas mãos o seu critério, era a melhor de todas as sintamos seguros, preguiçosos e re-
pequeno sal- orações (Lutero, 1984, p. 323), ou laxados, como se agora tivéssemos
tério e falar então, depois de cada petição orava tudo, e o diabo ferino nos assalte e
em voz alta algo que tinha a ver com a mesma, tome de surpresa, e nos tire de novo
os 10 Man- como por exemplo, na sexta petição a tua palavra preciosa ou provoque
damentos, o Credo e, dependendo conforme segue: discórdia e sectarismo entre nós, ou
da disponibilidade do tempo, ci- “6. A sexta petição: “E não nos ainda nos atraia ao pecado e à vergo-
tar passagens bíblicas de Jesus e do deixes cair em tentação”, e diga: nha, seja espiritual ou corporal; mas
apóstolo Paulo (Lutero, 1984, p. Ah, querido Senhor, Deus e Pai, dá-nos, por teu Espírito, sabedoria e
318). Depois disso ele orava de uma conserva-nos resolutos e bem dis- força, para que lhe resistamos com
só sentada todo o Pai Nosso (Lu- postos, ardorosos e aplicados em bravura e obtenhamos a vitória,
tero, 1984, p. 319) que, segundo o tua palavra e serviço. Que não nos amém.” (Lutero, 1984, p. 321)
Lutero, apesar deste seu exem-
plo, deixa claro ao Mestre Barbei-
ro que não queria que o mesmo se
prendesse às preces que ele lhe trazia
como exemplo e as repetisse todo o
dia como uma recitação qualquer.
Pelo contrário, o que ele desejava era
que o seu amigo se sentisse estimu-
lado quanto ao que poderia, com
suas próprias palavras, dizer quando
orasse cada petição da oração do Se-
nhor (Lutero, 1984, p. 322).
Ele também ressalta que, se hou-
vesse tempo, então ainda procederia
da mesma forma com os 10 Manda-
mentos. Ele os tomava nesta ordem:
a) como ensinamento, refletindo so-
bre o que Deus esperava nele, dele;
b) em seguida, fazia dele uma ação
de graça; c) então fazia uma confis-
são de pecados; para, finalmente,
d) colocar diante do Senhor numa
prece seus pedidos. E para que o
Mestre Barbeiro o pudesse compre-
ender, ele exemplifica todos os man-
damentos. Como exemplo disto,
transcrevo o que ele recomendou a
respeito do primeiro mandamento
(Lutero, 1984, p. 324).
“1. “Eu sou o Senhor, teu Deus”
etc. “Não terás outros deuses dian-
te de mim” etc. Aqui penso, em
primeiro lugar, que Deus exige de
mim e me ensina a confiar nele de
coração em todas as coisas, e que ele,
muito seriamente, deseja ser meu

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Lutero e Luteranismo

Deus. E como tal devo considerá-lo, mos, caso ele mesmo não se fizesse este teu mandamento e possa em
sob pena de perder a eterna bem- ouvir de forma tão manifesta e se nos confiança sincera, agir de acordo.
-aventurança. E meu coração em não oferecesse em nossa linguagem Protege meu coração, para que não
nada mais deve basear-se ou confiar, humana, querendo ser nosso Deus. me torne tão esquecido e ingra-
seja em algum bem, honra, sabedo- Quem, por tudo isso, lhe pode agra- to, não procure outros deuses nem
ria, poder, santidade ou qualquer decer o bastante para sempre e eter- consolo em quaisquer criaturas, mas
criatura. Em segundo namente? Em tercei- permaneça de todo o coração unica-
lugar, sou grato à sua ro lugar, confesso e mente contigo, meu único Senhor.
insondável misericór- professo meu grande Amém, querido Senhor Deus e Pai,
dia, por se voltar tão pecado e ingratidão, amém.” (Lutero, 1984, p. 324)
paternalmente para de ter desprezado, Embora Lutero tenha encerrado
mim, homem perdi- de maneira tão ver- este escrito chamando a atenção do
do, oferecendo-se a si gonhosa, doutrina Mestre Barbeiro para que o seu espí-
mesmo sem ser solici- tão bela e dádiva tão rito não se cansasse por querer fazer
tado nem procurado valiosa por toda mi- tudo isso de uma só vez, que uma
e sem qualquer merecimento meu, nha vida, e de ter provocado sua ira boa oração não precisava ser longa
para ser meu Deus, aceitar-me, e de forma tão horrível com inúmeras nem repetida várias vezes (Lutero,
por querer ele ser meu consolo, pro- idolatrias; isso me dói e peço miseri- 1984, p. 332), é verdade que ele gas-
teção, auxílio e força em todas as córdia. Em quarto lugar, peço e falo: tava cerca de 3 horas diariamente
aflições. Isso que nós pobres e cegos Deus meu e Senhor, ajuda-me por para meditar e orar (Carr, p. 624).
seres humanos temos procurado di- tua graça que eu, a cada dia, consi- Para Lutero, orar era a arte supre-
versos deuses e ainda os procuraría- ga aprender e compreender melhor ma (“Kunst über alle Künste”, Plass,

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p. 1.088). Ele não considerava que ta que cristãos agradecem também 2. A vida devocional
fosse algo fácil de se fazer (Plass, p. pelas coisas simples da vida, afir-
1.088). Aliás, ele julgava esta tare- mando: “Por isso esse versículo de-
de um cristão (pastor)
fa muito mais difícil do que pregar veria estar, com justiça, no coração e segundo o que Lutero
(Plass, p. 1.088). na boca de qualquer pessoa todos os ensina sobre o estudar
Por fim ainda cumpre lembrar dias, toda vez que come, bebe, olha, e meditar.
que Lutero ensinou que cristãos ouve, cheira, anda, fica parado ou
também agradecem por todas as toda vez que faz uso dos membros No prefácio do Catecismo Me-
coisas, até mesmo pelas simples. Em de seu corpo, dos bens ou de alguma nor, dedicado a “todos os pastores
meados de 1530, ele escreveu “O criatura, a fim de que se lembrasse e pregadores fiéis e piedosos” (Li-
Sublime Louvor” tendo como base de que, se Deus não lhe desse essas vro de Concórdia, p. 363), Lutero
o Salmo 118, do qual muitos de nós coisas para uso e não as preservas- faz ver que é preciso que se ensi-
recitam com fé e gratidão após as se contra o diabo, teria que carecer nem as partes principais do mesmo
refeições o versículo 29, aquele que delas” (Lutero, 1995, p. 25-26, v. 5). “inculcando-o nas pessoas” (Livro
diz “Rendei graças ao Senhor, por- E alguém que reconhece isso com de Concórdia, p. 364). Depois dis-
que ele é bondoso, e sua bondade um coração alegre, so, tendo decorado
dura para sempre”. certamente dirá, o texto (Livro de
Dentre as afirmações que Lutero segundo ele, algo Concórdia, p. 364),
faz neste documento, destacamos parecido com isso: os pastores deve-
que ele chama a atenção ao fato de “Vamos lá! Tu és riam ensinar o senti-
que muitos pensavam que já haviam um Deus amigo e do das palavras, para
entendido este versículo até a últi- bondoso que me que todos soubes-
ma gota, aos quais ele chama de pa- demonstras eter- sem o seu significa-
tifes e de quem ele afirma que jamais namente, isso é, sempre e sempre, do (Livro de Concórdia, p. 365). E,
se lembraram de agradecer a Deus sem cessar, a mim homem indigno neste ensinar, ele frisa que os pasto-
pelo leite que mamaram no seio de e ingrato, bondade e benefícios tão res deveriam martelar “especialmen-
suas mães, muito menos por tudo grandes: a ti se deve louvor e en- te no mandamento e parte” em que
quanto Deus lhes concedeu ao lon- grandecimento” (Lutero, 1995, p. houvesse maior negligência entre o
go de suas vidas. Sim, Lutero ressal- 26, v. 5). povo ao qual eles serviam (Livro de
Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 63
Lutero e Luteranismo

Concórdia, p. 365). E ele, ao con- pírito Santo está presente com este de Deus, dela falar e sobre ela me-
cluir que este ofício envolvia “muita ler, recitar e meditar, e concede luz ditar, era “auxílio poderoso contra
fadiga e trabalho, perigo e tentação, e devoção sempre nova e mais abun- diabo, mundo, carne e maus pen-
e, além disso, pouca retribuição e dante, de tal forma, que a coisa de samentos” (Livro de Concórdia, p.
gratidão no mundo”, deixa-lhes o dia em dia melhora em sabor e é re- 388). Para ele, cristãos deveriam,
consolo de que “o próprio Cristo cebida com apreço cada vez maior” além de no dia do descanso, ocupar-
quer ser a recompensa dos que tra- (Livro de Concórdia, p. 388). E ele -se diariamente com a palavra de
balharem com fidelidade” (Livro de aconselhou: “Perseverem em ler, en- Deus e trazê-la no coração e nos lá-
Concórdia, p. 366). sinar, aprender, meditar e refletir, e bios (Livro de Concórdia, p. 408).
No prefácio do Catecismo não desistam até fazerem a experi- Ele afirmou que todo o “nosso viver
Maior, ao criticar pregadores e pas- ência e adquirirem a certeza de que e agir, para chamar-se agradável a
tores que negligenciavam o inculcar mataram o diabo de tanto lecionar e Deus, ou santo, deve nortear-se pela
do Catecismo como pauta do seu se tornaram mais sábios que o pró- palavra de Deus” (Livro de Con-
ofício por motivo de preguiça ou prio Deus e todos os seus santos” córdia, p. 409). Quando, porém,
por serem “comilões despudora- (Livro de Concórdia, p. 390-391). isso não acontece, “quando o cora-
dos e servidores do próprio ventre” Para Lutero, não somente era
(Livro de Concórdia, p. 387), ele importante a leitura do Catecismo.
afirma que os mesmos demonstra- Ele cria que ocupar-se com a Palavra
riam honra e gratidão ao evangelho
que os libertava de cargas e apertos,
“lendo, pela manhã, ao meio-dia e à
noite, uma ou duas páginas do Ca-
tecismo, do Livrinho de orações, do
Novo Testamento ou de outra parte
da Bíblia, e rezassem o Pai-Nosso
por si mesmos e seus paroquianos”
(Livro de Concórdia, p. 387).
No mesmo prefácio, ao afirmar
que havia muitos que atiravam o
Catecismo em algum canto por se
julgarem doutos e considerarem-no
um livro simples e desimportante
(Livro de Concórdia, p. 387), ele
disse: “Não obstante, faço como
uma criança a que se ensina o Ca-
tecismo: de manhã, e quando quer
que tenha tempo, leio e profiro,
palavra por palavra, o Pai Nosso,
os Dez Mandamentos, o Credo, al-
guns salmos, etc. Tenho de continu-
ar diariamente a ler e estudar, e ain-
da assim não me saio como quisera,
e devo permanecer criança e aluno
do Catecismo” (Livro de Concór-
dia, p. 388). E ele ainda diz que
“existe multiforme proveito e fruto
em ler e exercitá-lo todos os dias em
pensamento e recitação. É que o Es-

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Lutero e Luteranismo

ção anda ocioso e a palavra não soa, to, prazer e devoção, e cria coração e
de Lutero, trazemos a recomenda-
o diabo pactua e realiza o estrago” pensamentos puros. Pois não há pa- ção que Lutero deixa a estudantes
(Livro de Concórdia, p. 410). Por lavras inoperantes ou mortas, senão de Teologia e um exemplo de oração
isso, ao terminar a explicação do 3º. eficazes e vivas” (Livro de Concór- para que pastores realizem:
Mandamento no Catecismo Maior, dia, p. 410 e 411). “Por isso eu vos admoesto, espe-
ele afirma: “quando se medita, ouve cialmente aqueles que desejam ser
e trata a palavra seriamente, ela tem Conclusão mestres da consciência dos outros,
o poder de nunca ficar sem fruto. e eu admoesto cada um de vós indi-
Sempre desperta novo entendimen- Ao encerrarmos este breve estu- vidualmente para que se treine atra-
do sobre a vida devocional de um vés do estudo, leitura, meditação e
cristão/pastor, segundo os ensinos oração de tal modo que esteja apto
na tentação a ensinar e confortar
as vossas próprias consciências as-
sim como as dos outros, bem como
guiá-las da lei à graça, da justificação
ativa para a passiva, em resumo, de
Moisés para Cristo (Plass, p. 949).
Oração de um pastor: “Senhor
Deus, tu me indicaste para ser um
bispo, um pastor na tua igreja. Tu
sabes que eu sou incapaz de assumir
tão grande e tão difícil encargo e, se
não fosse a tua ajuda, eu certamen-
te teria fracassado há muito tempo.
Por isso clamo a ti; quero dedicar
meus lábios e meu coração a teu ser-
viço. Desejo ensinar a este povo, e eu
mesmo quero aprender mais e mais.
Incute em mim o desejo de meditar
com diligência na tua Palavra. Usa-
-me como teu instrumento; só peço
que não me desampares, pois, se eu
me sentisse entregue a minha pró-
pria sorte, certamente poria tudo a
perder. Amém. (Kraus, p. 15-16).
Rev. Egon Martim Seibert
pastor da Igreja Evangélica Luterana do Braisl

Bibliografia
A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil. 2 Ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do
Brasil, 1999
CARR, Sister Deanna Marie. A consideration of the Meaning of Prayer in the Life of Martin Luther. Concordia Theological
Monthly, Saint Louis: Concordia Publishing House, p. 621-629, out. 1971.
KRAUS, George. Palavra e oração. Porto Alegre: Concórdia Editora, 1990.
LIVRO DE CONCÓRDIA. 5 ed. Traduzido por Arnaldo Schüler. Porto Alegre: Concórdia/São Leopoldo: Sinodal; 1997.
LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, vv. 5 e 7. Porto Alegre: Concórdia/São Leopoldo: Sinodal; 1995.
Pelo Evangelho de Cristo. Traduzido por Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia/São Leopoldo: Sinodal; 1984.
PLASS, Ewald M. What Luther Says. A Practical In-Home Anthology for the Active Christian. Saint Louis: Concordia Publishing
House, 1959.

Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 65


Litúrgica: Período de Advento Comissão de Culto da IELB

Sugestão Litúrgica para o Período de Advento


Veja uma sugestão de liturgia para o período dos Vivemos no segundo Advento. Estamos no
tempo da graça de Deus. E ainda hoje há opor-
quatro domingos iniciais do Ano da Igreja. Aqui tunidade de Salvação. Todos aqueles que creem
aparece sem a formatação adequada para uso prático em Jesus serão salvos.
no culto. Caso queira formatar à vontade, este texto Vivemos o Advento nos preparando na Palavra
pode ser usado. Caso queira o material finalizado, de Deus, na comunhão cristã. Procurando viver
verifique no blog da Comissão de Culto da IELB uma vida digna diante de Deus e do próximo.
Ao pecarmos temos um porto seguro e o con-
(www.liturgialuterana.blogspot.com). vite do Senhor: “Vem que eu perdoo você”. E
Lá você vai encontrar o material para imprimir, assim é o nosso Advento.
bem como para ser projetado e as partituras das me- Espere em Deus! Espere sempre em Deus!
lodias sugeridas nesta liturgia.
3. Confissão e Absolvição dos
Legenda: Pecados:
P.: A desobediência sempre causa tristeza. Filhos
P Pastor de pé entristecem seus pais quando desobedecem.
Nós também somos motivo de tristeza para
C Congregação sentados Deus quando desobedecemos aos seus manda-
mentos. Por outro lado, quando nos arrepende-
T Todos ajoelhados mos dos nossos maus caminhos, Deus se alegra
e nos estende o seu perdão. Quando recebemos
cantar o perdão, não precisa mais haver tristeza. Pode-
mos sair por aí, felizes da vida. Vamos, portan-
Prelúdio e entrada do(s) Oficiante(s): to, confessar os nossos pecados e receber com
alegria o perdão que Cristo nos dá.
Acolhida: Todos poderão ajoelhar-se, aqueles que não puderem, sentam-se.
T.: Ó Deus de toda a misericórdia, nós te confessa-
Preparação mos que somos pecadores e não fazemos a tua
vontade. Pecamos diariamente por pensamen-
tos, palavras, ações e omissões. Sabemos que
Hino: muitas vezes somos omissos no trabalho que tu
nos confiaste. Por todos os nossos pecados me-
1. Invocação: recemos a tua eterna condenação. Ó Deus, por
P.: O Senhor veio a nós com sua justiça, paz e sal- amor de Jesus Cristo, não nos condenes. Tem
vação. misericórdia de nós, pobres pecadores. Dá-nos
C.: Nós estamos alegres e viemos ouvi-lo e adorá- o teu perdão. Amém.
-lo.
P.: Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo! Quem me
segue terá a luz da vida e nunca andará na escu-
ridão.”. 4. Absolvição dos Pecados:
C.: Celebramos este culto em nome de Jesus, nossa P.: Irmãos em Cristo. O Salvador que veio no pri-
luz, e do Pai, nosso criador e do Espírito Santo, meiro Advento é o mesmo que hoje esperamos,
nosso Consolador. no segundo Advento. Na primeira vez ele cum-
P.: Vem, Senhor Jesus! priu sua tarefa e alcançou a salvação para os pe-
C.: Ó vem, Emanuel—Deus conosco. cadores. Todos aqueles que se arrependem dos
T.: Amém! seus pecados, creem em Jesus e têm o sincero
propósito de corrigir suas vidas, têm, em Jesus,
2. Alocução Confessional: o perdão de todos os pecados.
P.: Espere em Deus! Espere sempre em Deus! Como ministro da Palavra de Deus, eu anuncio
Advento é período de preparação. Aguardamos a graça do Senhor e perdoo todos os pecados de
o Senhor que vem. Não vem novamente me- vocês, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito
nino. Ele já veio criança, no primeiro Natal e Santo.
morreu para salvar a todas as pessoas. C.: Amém.
66 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Litúrgica: Período de Advento

5 Agradecimento pelo perdão 10. Hino:


(Cantado) — HL 1.3
P.: O perdão traz a notícia que nos alegra. Assim
11. Evangelho do Dia:
como o Sentinela esperava o nascer do dia, nós P.: “Foi assim que Deus mostrou o seu amor por
esperamos a volta do Senhor. E gratos canta- nós: ele mandou o seu único Filho ao mundo
mos. para que pudéssemos ter vida por meio dele.”
T.: Sentinela, eis nasce o dia; O Evangelho de hoje está escrito...
foge a noite tudo é luz; C.: Gloria, gloria, in excelsis Deo! |: Gloria, glo-
vai-se a treva, cessa o medo, ria, aleluia, aleluia! :|
já nos falam de Jesus! Leitura do Evangelho
Amoroso, desde o berço / ao triunfo lá na cruz, P.: Assim termina o Evangelho e “Eu não me en-
com sua graça nos liberta: vergonho do evangelho, pois ele é o poder de
para a glória nos conduz. Deus para salvar todos os que creem”.
C.: Gloria, gloria, in excelsis Deo! |: Gloria, glo-
ria, aleluia, aleluia! :|
Adoração
12. Confissão de Fé (Credo Apostólico):
6. Salmo do Dia 13. Hino:
6.1. Canto (ou Leitura) do Salmo
14. Mensagem (Sermão):
6.2. Glória Patri (Cantado) — HL 150.3
C.: Louvor e adoração / ao trino Deus rendamos! 15. Ofertório (cantado):
De nosso coração / um templo seu façamos! C.: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e reno-
Eterno é seu poder, / potente, sua mão. / va em mim espírito reto. Não me lances fora da
Ele é, e ele há de ser / o nosso galardão. tua presença e não retires de mim o teu Espírito
Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salva-
Ofício da Palavra ção e sustém-me com um voluntário espírito.
Amém.

7. Saudação: 16. Recolhimento das Ofertas


P.: Que o Senhor venha e esteja entre nós. P.: “Ao Senhor Deus pertencem o mundo e tudo o
C.: O Senhor está em nosso meio e que esteja conti- que nele existe; a terra e todos os seres vivos que
go também. nela vivem são dele”.
C.: “Não podemos, de fato, te dar nada, ó Senhor,
8. Coleta (Oração do Dia): pois tudo vem de ti, e nós somente devolvemos o
P.: ... que já era teu”.
C.: Amém. P.: “Que cada um dê a sua oferta conforme resol-
veu no seu coração, não com tristeza nem por
9. Leituras Bíblicas: obrigação, pois Deus ama quem dá com ale-
P.: A Palavra de Deus nos mostra o caminho certo gria”.
a seguir. Somente na Palavra do Senhor nós po- C.: “Com alegria e motivados pela fé no Salvador
demos conhecer Jesus Cristo e sua maravilhosa Jesus Cristo, nós queremos ofertar”.
obra de salvação. Com confiança no amor e na
graça de Deus, nós queremos ouvir a sua santa 16.1. Hino para o Ofertar
vontade e orientação para nós. Aqueles que se sentem movidos podem fazê-lo espontaneamente,
enquanto canta-se:
9.1. Antigo Testamento:
P.: Depois da leitura: “o ser humano não vive só 1. Com gratidão, Senhor/ queremos ofertar/
de pão, mas vive de tudo o que o Senhor Deus está ao teu dispor / o que dignaste dar.
diz.” 2. Oh! faze a fé vibrar / em nossos corações,/
e vem multiplicar / ofertas e orações.
9.2. Epístola: 3. Ajuda-nos, Senhor / teu nome proclamar/
P.: Depois da leitura: “Mais felizes são aqueles que E dá-nos mais amor / às almas a salvar.
ouvem a mensagem de Deus e obedecem a ela.” 4. Servir a ti, ó Deus / na igreja, emprego e lar/
Aleluia! concede sempre aos teus/ assim viver e andar.
C.: Aleluia, aleluia, aleluia!
Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 67
Litúrgica: Período de Advento

17. Convite à Oração—Oração Geral da o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo:
Igreja: Peguem, comam, isto é o meu corpo (†), que é
dado por vocês; façam isto em memória minha.
17.1. Convite: E, semelhantemente, também, depois da ceia,
Cita-se os motivos que serão incluídos na Oração Geral. pegou o cálice e, tendo dado graças, o entre-
17.2. Oração Geral da Igreja gou, dizendo: bebam todos deste; este cálice é
o Novo Testamento no meu sangue (†), que é
P.: ... derramado por vocês para remissão dos peca-
C. Amem. dos; façam isto, quantas vezes o beberem, em
18. Hino: memória minha.
22. Pax Domini:
Ofício da Santa Ceia P.: Que a Paz do Senhor Jesus esteja com todos vo-
cês hoje e sempre.
19. Prefácio: C.: E com você também.
P.: Ó povo redimido, / ó Filha de Sião! T.: Amém.
Eis vem o teu Ungido, / o Autor da redenção. P.: Manifestamos a Paz do Senhor, cumprimen-
Com paz e com venturas / teu Rei te vem aí; tando o irmão ao lado. Num gesto de amor mú-
hosana nas alturas / ao filho de Davi. tuo. Num gesto de reconciliação. Lembrando
C.: Jesus Cristo veio no primeiro Advento e virá como somos gratos por Deus nos trazer a paz.
novamente buscar os seus. Neste momento nos
apresentamos, a seu convite, pare receber seu 23. Agnus Dei
corpo e sangue. Para nossa salvação. 1. Digno és, ó Cordeiro / de todo louvor.
P.: Nada há de mais sublime do que o amor de Graças nós rendemos / por teu amor.
Deus por nós. E assim nos lembra a Santa Pa- 2. Tua seja a glória / e o domínio também.
lavra de Deus: “Porque Deus amou o mundo Para todo o sempre. / Amém. Amém.
tanto, que deu o seu único Filho, para que todo 3. Teus são os poderes / e os tronos também.
aquele que nele crer não morra, mas tenha a Hoje e para sempre. / Amém. Amém.
vida eterna.”. 4. Glórias nas alturas, / na terra também.
C.: Ao Pai celeste implora / contrito coração Glórias, aleluia. / Amém, Amém.
e, arrependido chora, / pedindo seu perdão.
Convida ao Rei divino / que faça habitação 24. Distribuição da Santa Ceia
com graça e amor genuíno / no triste coração. (Seguindo a recomendação apostólica (1Co
P.: O Pai de misericórdia renova suas promessas. 11.27-31), distribuímos a Santa Ceia apenas
Jesus voltará, este é o Advento que vivemos. As- aos membros confirmados em comunhão com
sim como veio no primeiro Advento. E agora o a nossa igreja, que estão preparados. Os visitan-
Pai quer fortalecer nossa fé enquanto participa- tes, que estão com vontade de participar desta
mos da Santa Ceia. Comunhão, pedimos que primeiro falem com
C.: Jesus do paraíso / visível voltará; o pastor, a fim de serem melhor instruídos so-
e, no último juízo, / os homens julgará. bre todo o significado deste Sacramento.)
No derradeiro advento / seus servos vem buscar, /
que em grande encantamento / nos céus o vão louvar.
Despedida
20. Pai-Nosso:
T.: Pai nosso, que estás nos céus. Santificado seja
o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua 25. Nunc Dimitis:
vontade, assim na terra como no céu. O pão C.: Senhor, agora despedes em paz o teu servo, se-
nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos as gundo a tua Palavra, pois os meus olhos viram
nossas dívidas, assim como nós também per- a tua salvação, a qual preparaste perante a face
doamos aos nossos devedores. E não nos deixes de todos os povos, Luz para alumiar as gentes
cair em tentação. Mas livra-nos do mal. e para glória de teu povo Israel. Glória ao Pai
Pois teu é o reino, e o poder, e a glória, para e ao Filho e ao Santo Espírito, como era no
sempre. Amém. princípio, agora é e por todo o sempre há de ser!
Amém.
21. Palavras da Instituição: 26. Ação de Graças:
P.: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que P.: Tendo participado da Santa Ceia, nós demos
foi traído, pegou o pão, e, tendo dado graças, um testemunho a respeito do nascimento e da
68 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010
Litúrgica: Período de Advento

morte de Jesus em nosso favor. Ao participar- Que sejamos tua boca a falar palavras boas aos
mos, com fé em Jesus, o Senhor nos perdoa os outros. Que sejamos tuas mãos a socorrer aos can-
pecados e fortalece a nossa fé. sados. Que sejamos teus pés, para ir aonde estão
C.: Estamos anunciando a morte do Senhor até precisando de nós.
que ele venha. T.: E que pelo mundo, sejamos a tua luz, a iluminar
P.: Rendamos ação de Graças ao Senhor e oremos: a escuridão. Assim como tu iluminas a nossa vida.
Deus Todo-Poderoso, nós somos gratos por- Amém.
que mais uma vez nos deste o conforto desta
refeição celestial. Com toda a igreja militante 28: Bênção:
e triunfante rendemos louvores a ti. Pois tu és P.: Recebam a bênção do Senhor.
o mesmo ontem, hoje e sempre. E continuas a O Senhor abençoe e guarde vocês.
nos abençoar física e espiritualmente. Recebe O Senhor faça resplandecer o rosto sobre vocês e
nosso louvor hoje e sempre. Em nome de Jesus tenha misericórdia de vocês.
Cristo, nosso Salvador, que vive e reina contigo O Senhor, sobre vocês, levante o rosto e dê a paz.
e o Espírito Santo. Um só Deus pelos séculos C.: Amém. Amém. Amém.
sem fim.
C.: Amém. 29. Comunicações, convites e
despedidas:
27. Oração de Despedida e envio:
P.: Oremos ao Senhor: 30: Hino Final:
Tu vieste, ó Senhor querido! Tu estiveste entre Seja sempre bem-vindo; Jesus quer estar com você.
nós e viveste como homem.
C.: Tu foste fiel até à morte e morte de cruz. E ven-
ceste! Liturgia completa e em diversos formatos no blo-
P.: Agora aguardamos sua segunda vida. E quere- gue Liturgia Luterana. Inclusive as melodias para as
mos estar contigo, todos os dias, até o fim dos partes cantadas, sugeridas nesta liturgia.
séculos. www.liturgialuterana.blogspot.com
C.: Abençoa-nos com tua presença e teu amparo.
Artigo Rev. Márlon Hüther Antunes

Um Tesouro
lidade, ênfase na família e vida em
sociedade (luta por impostos justos
e administração pública honesta e
transparente). A base desta pesquisa

Desenterrado
se ateve a quantas pessoas um deter-
minado acontecimento afetou, e sua
influência na atualidade. Depois de
montanhas de livros consultadas,

na Reforma
especialistas em várias áreas do co-
nhecimento elaboraram a lista dos
cem nomes.
A descoberta deste homem não

Em 31 de Outubro de 1517,
um tesouro estava por ser
desenterrado. O Monge Agostinia-
lugar.
A Revista Veja — Edição Espe-
cial do Milênio publicou uma pes-
pertence apenas aos luteranos, mas a
todos os que têm certeza do perdão
dos pecados unicamente pela obra
no Martinho Lutero, deu início a quisa da Revista americana Life, de Cristo Jesus, pois Ele é a chave
um movimento na Igreja de então, a respeito dos personagens que para o céu. A Santa Igreja Cristã é
denominado “Reforma”. Com o in- marcaram o milênio (1001-2000), aquela formada por pessoas que “são
tuito de resgatar a dignidade do ser Guttenberg e Lutero, contempo- como um edifício e estão construí-
humano, como filho de Deus, na so- râneos, ficaram entre os mais in- dos sobre o alicerce que os apóstolos
ciedade em que vivia e especialmen- fluentes: Guttenberg (1º) que se e os profetas colocaram. E a pedra
te na igreja que amava, denunciou destacou pela impressão da Bíblia fundamental desse edifício é o pró-
e derrubou os muros da exploração e Lutero (3º) o principal mentor da prio Cristo Jesus” (Efésios 2.20).
e comércio que mais afastavam as Reforma, que revolucionou vários
pessoas do centro da Igreja Cristã, conceitos no que diz respeito a Te- Rev. Márlon Hüther Antunes — Maceió
do que lhes aliviava a consciência. ologia, igreja, educação de boa qua- teólogo e pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil
Neste dia Lutero resolveu levar o as-
sunto ao debate, por isso fixou as 95
teses na porta da Catedral de Wit-
tenberg, querendo com isso abrir
os olhos das pessoas que ingenua-
mente eram ludibriadas com uma
Teologia cheia de interesses e bara-
ta. Pressionou e desafiou a igreja a
cumprir seu papel de apresentar o
perdão como um presente de Deus,
conquistado na cruz por nosso Se-
nhor Jesus Cristo, e não baseada em
obras, sacrifícios, indulgências (Efé-
sios 2.8-9) que cercavam a base do
cristianismo (problema que, 5 sécu-
los depois, volta à tona).
Ao traduzir a Bíblia para a língua
do povo, uma revolução iniciava.
Deus, que parecia aprisionado nos
mosteiros e templos, passou a fazer
parte do cotidiano das pessoas, sen-
do acessível a todos, em qualquer

70 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


Direto ao Ponto

Mistura indigesta
A história tem mostrado que misturar reli-
gião e política não traz coisa boa. Exem-
plos não faltam. No próximo 31 de outubro,
tes e bispos?”, responde: “Seu regime não é de
autoridade ou poder, mas de serviço e função”.
Já o estado “não pode estender-se ao céu e sobre
junto à urna eletrônica, seria oportuno dar um a alma, mas somente sobre a terra — o conví-
voto de confiança aos conselhos de Lutero. Foi vio dos seres humanos”. Onde existe mistura, o
neste dia, em 1517, que ele chamou os seus ad- resultado será a ruína do convívio das pessoas,
versários para um debate público sobre a práti- alerta o reformador.
ca das indulgências Neste princí-
— um fraudulento pio, os estatutos
negócio com o per- de minha insti-
dão de Cristo pare- tuição religiosa
cido com a venda (Igreja Evangé-
do voto. É o início lica Luterana do
da Reforma Lute- Brasil — IELB)
rana, movimento são claros: “Em
que traz mudanças obediência ao
globais no cenário princípio bíbli-
político e religioso e co da separação
a própria separação entre Igreja e
entre Igreja e Esta- Estado, tanto a
do. IELB como as congregações não se en-
Lutero e o povo alemão não tinham volverão em questões de política par-
o direito de escolher seus governantes tidária”. Por isto o código de ética do
— viviam sob o regime imperial. Mas, pastor em exercício: “Mesmo que deva
cumprindo o seu dever pastoral, acon- estar atento aos problemas da socieda-
selhou os príncipes a não se introme- de, não quero, enquanto pastor, exer-
terem em assuntos espirituais e os sa- cer política partidária”. Isto não sugere
cerdotes em questões da administração omissão e passividade política, mesmo
política. Há dois escritos básicos dele, porque, se no pensamento de Lutero
o Magnificat (1521) e Da Autoridade “política é o esforço constante e pa-
Secular (1523), que expõem com sa- ciente para estabelecer e manter uma
bedoria uma ética que falta no atual ordem social compatível com os valo-
contexto brasileiro. Lembra que é preciso “dis- res do cristianismo”, isto só acontece no exercí-
tinguir cuidadosamente os dois regimes de Deus cio cristão da cidadania política.
e deixá-los vigorar — um que torna cristão, o
outro que garante a paz civil e combate as obras Rev. Marcos Schmidt - Novo Hamburgo-RS
pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
más”. Ao questionar: “Que são, pois, os sacerdo-