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INTRODUÇÃO

AO SERVIÇO SOCIAL

autor do original
FLAVIA ABADE

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2015
Conselho editorial  sergio cabral, claudete veiga, claudia regina de brito

Autor do original  flavia abade

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  rodrigo azevedo de oliveira

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  fabrico

Revisão linguística  aderbal torres bezerra

Imagem de capa  nome do autor  —  shutterstock

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

A116i Abade, Flavia


Introdução ao Serviço Social / Flavia Abade.
Rio de Janeiro : SESES, 2015.
88 p. : il.

ISBN 978-85-5548-066-9

1. Gênese do Serviço Social. 2. História do Serviço Social. 3. Formação


profissional e Serviço Social. 4. Prática profissional e Serviço Social.
I. SESES. II. Estácio.
CDD 361.32

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 7

1. A origem do Serviço Social no contexto mundial 10

Gênese do Serviço Social 10


Mary Richmond e o Serviço Social de Casos 17
O Serviço Social na Europa e nos EUA: diferentes trajetórias 19
O surgimento da profissão na América Latina 21

2. A história do Serviço Social no Brasil 28

Contextualização histórica 28
As primeiras escolas brasileiras de Serviço Social 30
O Estado Novo e as instituições assistenciais 32
A ideologia desenvolvimentista e o amadurecimento
do Serviço Social no Brasil 37
Movimento de Reconceituação da profissão 40

3. Formação Profissional em Serviço Social 46

O processo de formação profissional 46


A ABEPSS 49
Diretrizes curriculares 52
Pós-graduação em Serviço Social 54
4. Prática profissional em Serviço Social 62

O exercício profissional do assistente social 62


A Lei de Regulamentação da Profissão 64
As entidades representativas da categoria 66
O projeto ético-político 71

5. O Serviço Social e suas dimensões 76

A dimensão ético-política 76
A dimensão teórico-metodológica 78
A dimensão técnico-operativa 79
A dimensão investigativa 83
Teoria, prática, ética e pesquisa: quatro lados de uma mesma profissão 87
Prefácio
Prezado(a) aluno(a)
Sejam bem-vindos à disciplina Introdução ao Serviço Social!
Estudaremos a história da profissão e sua transformação em categoria profis-
sional inscrita na divisão sociotécnica do trabalho. Para tanto, vocês conhecerão
o contexto sócio-histórico de surgimento da profissão, os principais aspectos da
formação acadêmica e da prática profissional e a profissionalização do Serviço
Social. Também será possível debater e refletir sobre as diferentes dimensões do
Serviço Social contemporâneo: a dimensão técnico-operativa, a dimensão ético-
-política, a dimensão investigativa e a dimensão teórico-metodológica.
É importante citar que a trajetória histórica da profissionalização do Serviço
Social no contexto mundial está intrinsecamente envolvida com os primórdios
da industrialização e com a expansão do capitalismo, sendo necessário com-
preender a emergência da questão social decorrente do desenvolvimento deste
sistema produtivo. A profissão também sofreu forte interferência do pensa-
mento católico, o que também será abordado nesta disciplina.
Além disso, conheceremos as primeiras escolas de Serviço Social e as ações
sociais das quais originaram o Serviço Social brasileiro, sendo necessário res-
gatar alguns conhecimentos históricos sobre os governos brasileiros, princi-
palmente o governo Vargas e o governo de Juscelino Kubistchek, nos quais o
Serviço Social se expandiu. Abordaremos também o Movimento de Reconceitu-
ação da profissão, através do qual a categoria rompeu com a alienação e cons-
truiu sua própria identidade crítica.

Desejo a todos bons estudos!


Professora Flávia Abade

7
1
A origem do Serviço
Social no contexto
mundial
1  A origem do Serviço Social
no contexto mundial

Neste capítulo, propomos reflexões sobre o surgimento do Serviço Social en-


quanto uma profissão, compreendendo que seu desenvolvimento ocorreu pa-
ralelamente ao avanço do sistema capitalista. Estudaremos a emergência das
questões sociais e seu agravamento, assim como a racionalização da assistên-
cia social como resposta a tais questões. Também conheceremos as primeiras
escolas de Serviço Social e as propostas iniciais de atuação da profissão.

REFLEXÃO
• Conhecer a gênese do Serviço Social
• Relacionar o surgimento da profissão com o desenvolvimento do capitalismo e o agra-
vamento da questão social
• Conhecer as primeiras escolas de formação e as primeiras práticas profissionais de
Serviço Social

REFLEXÃO
Você se lembra de ter ouvido falar sobre a Sociedade de Organização da Caridade? Ela foi a
instituição precursora da assistência social que buscou racionalizar as ações filantrópicas e
já se preocupava, no final do século XIX, com a capacitação de agentes profissionais para o
exercício da assistência social. Falaremos mais sobre essa importante instituição ao abordar-
mos a racionalização da prática da assistência social.

1.1  Gênese do Serviço Social

Toda profissão surge a partir da emergência de alguma demanda social que a


faz necessária. As profissões são criadas e legitimadas no interior das socieda-
des e buscam suprir a ausência de ações e atividades que possam solucionar
problemas ou melhorar a vida das pessoas. O surgimento do Serviço Social
enquanto uma profissão não foi diferente. O Serviço Social surgiu a partir da

10 • capítulo 1
necessidade de se aprimorar ações de caridade e transformá-las em práticas
eficazes e competentes que pudessem minimizar mazelas sociais.
A respeito da origem do Serviço Social, Estevão (2013, pp. 15) explica:

[…]como e por que ou para que surge uma profissão. Em primeiro lugar é quando ela
se torna socialmente necessária e as práticas profissionais se gestam no labor cotidia-
no. Antes de serem instituídas, as profissões se legitimam pela sua eficácia social e/
ou política.[…] O Serviço Social também começou assim.

Não há como compreender a origem do Serviço Social sem relacioná-la aos


primórdios do capitalismo, pois a profissão emergiu e se desenvolveu a partir
da expansão do sistema capitalista e do consequente aprofundamento das con-
tradições sociais.

A origem do Serviço Social como profissão tem, pois, a marca profunda do capitalis-
mo e do conjunto de variáveis que a ele estão subjacentes – alienação, contradição,
antagonismo – , pois foi nesse vasto caudal que ele foi engendrado e desenvolvido.
(MARTINELLI, 2011, p. 66)

O crescimento urbano e industrial ocorrido nos primórdios do século XIX


geraram o aumento da miséria e da pobreza. Com isso, ações filantrópicas
realizadas pelas instituições religiosas e também pela sociedade se intensifi-
caram. Além disso, alguns ramos da ciência, como por exemplo, a Sociologia,
iniciaram estudos buscando compreender o fenômeno social que vinha emer-
gindo concomitante à expansão capitalista: a questão social.

A história do Serviço Social pode ser melhor compreendida no livro escrito por Maria
Lucia Martinelli, intitulado Serviço Social: identidade e alienação, no qual a autora
cita que “as condições peculiares que determinaram o seu surgimento como fenômeno
histórico, social e como atividade profissional, e em que se produziram seus primeiros
modos de aparecer, marcaram o Serviço Social como uma criação típica do capitalismo,
por ele engendrada, desenvolvida e colocada permanentemente a seu serviço, como
uma importante estratégia de controle social, uma ilusão necessária para, juntamente
com muitas outras ilusões por ele criadas, garantir-lhe a efetividade e a permanência
histórica.” (MARTINELLI, 2011, pp. 66-67)

capítulo 1 • 11
Para compreendermos com mais clareza como ocorreu a racionalização da
assistência social e sua transformação em profissão, faz-se necessário estudar-
mos a expansão do capitalismo e o surgimento da questão social como dispara-
dores do surgimento do Serviço Social. É o que veremos a seguir.

1.1.1  Modo de produção capitalista e a emergência da questão social

O capitalismo constitui-se num modo de produção essencialmente marcado pela


posse privada dos meios de produção e pela exploração da mão-de-obra daqueles
que não detêm tais meios. O trabalhador assalariado, desprovido de meios de pro-
dução, vende sua força de trabalho e subordina-se aos proprietários para prover
sua subsistência. Não obstante, o emprego de trabalhadores assalariados gera lu-
cro para a classe detentora dos meios de produção, a burguesia. O lucro nada mais
é do que as vantagens monetárias extraídas da relação entre a classe trabalhadora e
a burguesia e que geram para a burguesia a acumulação de capital.
O surgimento e desenvolvimento desse modo de produção modificou significati-
vamente as relações sociais e a estrutura social, dividindo a sociedade em duas gran-
des classes: a classe trabalhadora e a burguesia. O capital, expresso através de dinhei-
ro e mercadorias, constitui a relação social determinante da sociedade capitalista. A
reificação do capital, ou seja, sua identificação com coisas materiais é uma maneira
necessária de encobrir as relações entre as classes antagônicas. E a continuidade do
processo de produção capitalista, ou seja, sua reprodução, é também um processo de
produção e reprodução de classes sociais. A classe capitalista ou burguesia compra a
força de trabalho e cria a mais-valia1, que se converte em meios de consumo da pró-
pria burguesia e de aquisição de novas condições de produção necessárias à amplia-
ção do processo produtivo. Sendo assim, a classe trabalhadora, ao vender sua força
de trabalho, cria os próprios meios de sua dominação, não compreendendo que a
riqueza provém do trabalho e não do capital. Através da chamada mistificação do
capital naturaliza-se as condições de produção como se o produto do trabalho fosse
produto do capital, sendo que o trabalhador, além de produzir mercadorias, produz
capital. Nesse modo de produção, as relações sociais estabelecidas pelos homens
através da troca de mercadorias aparecem misteriosamente como relações entre coi-
sas, o que pode-se denominar como o fetiche da mercadoria2.

1  Mais-valia: Trabalho não pago apropriado pela classe capitalista


2  Os conceitos explicados neste parágrafo se baseiam na teoria marxista sobre o capitalismo. Para melhor com-
preensão, ver Iamamoto, M. I; Carvalho, R. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação
histórico-metodológica.Cortez: 2014. 40ed.

12 • capítulo 1
CONEXÃO
O capitalismo tem sido matéria de estudos entre economistas e sociólogos e, recentemente,
foi publicada obra considerada inovadora a respeito deste sistema. Trata-se do livro “Capital
in the Twenty-Firsty Century”, ainda não traduzido para o português, de autoria de Thomas
Piketty, que assim como Karl Marx critica duramente as desigualdades econômicas e so-
ciais produzidas pelo capitalismo desenfreado. Para mais informações sobre a obra, leia a
reportagem publicada pela Folha de São Paulo, clicando no link: <http://www1.folha.uol.
com.br/ilustrada/2014/05/1453454-economista-thomas-piketty-faz-critica-admirada-do-
capitalismo.shtml>

O capitalismo emergiu simultaneamente ao declínio do sistema feudal. En-


tretanto, sua expansão se deu após a Revolução Industrial iniciada na Inglater-
ra no final do século XVIII e sua propagação ocorreu durante a primeira metade
do século XIX em vários países europeus, chegando também aos Estados Uni-
dos. Foi nesse período que se pode observar de forma impactante os efeitos do
capitalismo no contexto social.

A introdução das máquinas automáticas e o surgimento das grandes unidades fabris


foram resultados materiais da Revolução Industrial, cujos efeitos ultrapassaram os li-
mites da fábrica e atingiram a sociedade como um todo. Neste sentido, não constitui
exagero afirmar que a Revolução Industrial, qual um cavalo de Tróia, abrigava em seu
interior uma revolução econômica e uma revolução social que mudaram a face do
século XIX (MARTINELLI, 2011, pp.36)

A expansão do capitalismo se deu através da exploração da classe trabalha-


dora e da pauperização da população e se deparou com manifestações contrá-
rias diversas, sendo o movimento operário uma expressão organizada de resis-
tência e recusa à ideologia capitalista.
As lutas operárias tiveram início no final do século XVIII, a princípio, com
revoltas contra as máquinas ou questões internas à fábrica. Posteriormente,
passaram a ganhar caráter político diante do fortalecimento da consciência de
classe dos trabalhadores em organizações sindicais. Conforme menciona Mar-
tinelli (2011, p. 70):

capítulo 1 • 13
A estratégia utilizada pela burguesia, concentrando o trabalhador na grande indústria,
constituíra fértil terreno para a construção da identidade de classe do proletariado,
condição essencial para a estruturação de sua consciência de classe. Foi lá, no interior
da fábrica, que se criou a dinâmica inicial em direção à consciência de classe, que o
trabalhador individual deu os primeiros passos de seu percurso em direção à classe
social, com consciência de classe. A própria burguesia, através de suas estratégias
burguesas, concentrando o trabalhador nas grandes cidades e nas grandes indústrias,
contraditoriamente oferecera as condições para o surgimento do proletariado, consoli-
dando-se não só sua posição de classe social, mas de classe política.

As lutas e a politização do movimento operário durante os séculos XVIII e


XIX atemorizaram a burguesia, se constituindo em uma das facetas da ques-
tão social. Outra face das contradições sociais inerentes ao capitalismo era o
aumento da pobreza e da miséria. Era evidente que a expansão do capitalismo
por vários países do ocidente, com o desenvolvimento da industrialização e
o domínio do capital, era acompanhada pelo agravamento da questão social:
camponeses despossuídos, enorme contingente de reserva de trabalhadores,
condições precárias de trabalho, doenças, pobreza, fome e miséria.
HTTP://WWW.CAFECOMSOCIOLOGIA.COM/2010/05/CAPITALISMO-CHARGE.HTML

A questão social se tornava mais complexa e grave, consequências do rápido


crescimento urbano e industrial. A pobreza era vista pela burguesia como um mal
necessário e era tolerada desde que não colocasse em risco a expansão do capital.

14 • capítulo 1
A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvi-
mento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo
seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifes-
tação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a
qual passa a exigir outros tipos de intervenção, mais além da caridade e repressão. O
Estado passa a intervir diretamente nas relações entre o empresariado e a classe tra-
balhadora, estabelecendo não só uma regulamentação jurídica do mercado de traba-
lho, através da legislação social e trabalhista específicas, mas gerindo a organização e
prestação dos serviços sociais, como um novo tipo de enfrentamento da questão social.
(IAMAMOTO, CARVALHO, 2014, p.83)

Foi assim, que na Inglaterra, no século XIX, foi criada a primeira instituição
de assistência social com o objetivo de controlar a pobreza e manter a expansão
capitalista. É o que veremos a seguir.

1.1.2  A racionalização da assistência social

A prática da assistência, ao longo da história, recebeu conotação de caridade


para com os pobres. O advento do cristianismo agregou o aspecto de justiça so-
cial, além do ato de caridade vinculado à assistência, modificando suas bases.
Conforme explica Martinelli (2011, p. 97)

A organização da prática da assistência, como expressão da caridade cristã, além de


ter integrado o temário de vários Concílios, foi objeto de preocupação de muitos teólo-
gos e membros destacados da Igreja, como São Paulo, São Domingos, Santo Agosti-
nho, Santo Ambrósio, São Francisco, São Bernaro e São Bento, entre outros.

A mesma autora complementa afirmando que o principal organizador da


doutrina cristã foi Santo Tomás de Aquino que colocou a caridade como um
dos pilares da fé e de justiça social aos mais humildes.
No século XVI, durante a Reforma Religiosa na qual a Igreja se dividiu em
dois campos, o catolicismo e o protestantismo de Martim Lutero, a prática da
assistência passou a ser realizada pelo Estado, tendo voltado às mãos da Igreja
somente um século mais tarde, com São Vicente de Paulo.
Não obstante, o que se observa é que intrínseca à ideia da caridade sempre
esteve a intenção de manter a subordinação dos pobres aos ricos.

capítulo 1 • 15
© GALINA MIKHALISHINA | DREAMSTIME.COM

As ações de caridade eram realizadas sem nenhum critério e dependiam


apenas da boa vontade das pessoas. As primeiras tentativas de sistematização
da assistência social surgiram a partir da metade do século XIX, junto a paró-
quias, através de voluntários, sem caráter profissional.
A normatização da assistência social tem seu marco histórico na criação da
Sociedade de Organização da Caridade, fundada por integrantes da burguesia
inglesa aliados ao Estado e à Igreja Católica no ano de 1869.

CURIOSIDADE
Esta pode ser considerada a primeira proposta de prática para o Serviço Social. Apesar
de não atender às reivindicações da classe trabalhadora da época, a assistência prestada
pela Sociedade de Organização da Caridade continha embasamento científico e visava à
racionalização da assistência. A percepção da pobreza como “problema de caráter” levou a
Sociedade a organizar a assistência em torno da proposta educativa de “reforma de caráter”
junto às famílias pobres, defendendo a cientificidade das ações,

Esta pode ser considerada a primeira proposta de prática para o Serviço So-
cial. Apesar de não atender às reivindicações da classe trabalhadora da época,
a assistência prestada pela Sociedade de Organização da Caridade continha
embasamento científico e visava à racionalização da assistência. A percepção
da pobreza como “problema de caráter” levou a Sociedade a organizar a assis-
tência em torno da proposta educativa de “reforma de caráter” junto às famílias
pobres, defendendo a cientificidade das ações, demonstrando uma postura
alienada em relação ao agravamento da “questão social” ocasionado pela orga-
nização deficiente da sociedade.

16 • capítulo 1
O desenvolvimento de ações de educação familiar com famílias de operá-
rios e pobres em geral através da criação de centros sociais de atendimento
caracterizava a prática da assistência social promovida pela Sociedade, que se
expandiu também para os Estados Unidos. A Sociedade defendia a capacitação
de visitadores sociais para a realização de um adequado inquérito domiciliar.
Sobre a visita domiciliar, Martinelli (2011, p. 105) comenta que eram desen-
volvidas na Inlgaterra, a princípio, com dois objetivos: conhecer as condições
de moradia e de saúde da classe trabalhadora e socializar o modo capitalista de
pensar. A Sociedade de Organização da Caridade passou a defender sua utili-
zação em situações específicas, como na concessão ou regularização de bene-
ficios, defendendo a necessidade de capacitação dos visitadores sociais para a
realização de um inquérito domiliciar adequado.
A qualificação dos agentes que executavam a assistência social passou a ser
uma preocupação, sendo que muitos cursos passaram a ser oferecidos, visando
o treinamento dessas pessoas. Mary Richmond, da Sociedade de Organização
da Caridade de Baltimore, destaca-se em sua iniciativa. Falaremos de forma
aprofundada sobre seu trabalho a seguir.
No ano de 1899, foi fundada a primeira escola de Serviço Social do mundo,
em Amsterdã, na Holanda, dando início ao processo de secularização3 da pro-
fissão, pelo qual se substitui as explicações religiosas pelas científicas. A Socio-
logia passa a ter uma grande contribuição na formação dos assistentes sociais.

1.2  Mary Richmond e o Serviço Social de Casos

Mary Ellen Richmond (1861-1928), assistente social norte-americana, influen-


ciou diretamente a criação das escolas de formação de assistentes sociais, pois
demonstrava grande preocupação com a qualificação dos agentes executores
da assistência social. Sua contribuição para a sistematização do ensino em Ser-
viço Social foi fundamental.
As ideias de Richmond consistiam em realizar um bom diagnóstico social
para uma intervenção estratégica baseada na reforma do caráter e reintegração
do indivíduo à sociedade. O trabalho de Richmond apresentava um cunho re-
acionário4 que agradava a burguesia, já que atribuía ao indivíduo as responsa-
bilidades por sua situação social. A assistência social proposta por Richmond

3 Secularizar: Voltar à vida leiga ( o que era da vida religiosa). Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
4 Reacionário: que é contrário a mudanças sociais e políticas; conservador. Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Por-
tuguesa

capítulo 1 • 17
também trabalhava com o meio social no qual o indivíduo estava inserido, den-
tre eles a escola, a família e o emprego. Mas não fazia crítica ao sistema capita-
lista e sua repercussão direta na questão social.

A tese de Richmond, mais reacionária, sensibilizava muito a burguesia, que entendia


que aquele tipo de prática respondia à função econômica da assistência, de modo indi-
reto, uma vez que a ação social individual, seja reformando o caráter, seja promovendo
a melhoria das condições de saúde, contribuía para a recolocação do trabalhador no
mercado de trabalho. (MARTINELLI, 2011, p. 107).

Mary Richmond criou o Serviço Social de Casos, pelo qual o assistente social
através de técnicas diversas, como visitas domiciliares, entrevistas e reuniões
realizava sugestões e orientações ao indivíduo e às instituições que o cercavam,
buscando resolver aquele caso através do apoio ao desenvolvimento individual
complementado com algum tipo de ajuda material. Publicou livros importan-
tes no início do século XX que abordavam o Serviço Social de Casos e as técni-
cas utilizadas pelos assistentes sociais, como o diagnóstico social. Dentre suas
obras, se destaca o livro Diagnóstico Social, publicado em 1917.

CONEXÃO
Para conhecer melhor a história e obra de Mary Richmond, visite o site <http://www.his-
toryofsocialwork.org/eng/details.php?cps=6&canon_id=133>

18 • capítulo 1
O método de trabalho do Serviço Social de Casos criado por Richmond in-
fluenciou o Serviço Social norte-americano e até hoje está presente na forma-
ção profissional do assistente social. Posteriormente, outros métodos foram
criados, visando atender as problemáticas sociais de forma mais eficiente,
como o Serviço Social de Grupos e o Serviço Social de Comunidade.

1.3  O Serviço Social na Europa e nos EUA: diferentes trajetórias

O Serviço Social norte-americano e o Serviço Social europeu seguiram diferen-


tes trajetórias. O primeiro foi fortemente influenciado pelas teorias psicológi-
cas e psicanalíticas, com grande ênfase na abordagem individual. Já o segundo,
enfatizou a linha sociológica e a abordagem grupal e teve, inicialmente, forte
influência da Igreja Católica.
Nos Estados Unidos, o Serviço Social era considerado uma atividade refor-
madora do caráter, partindo do princípio de que o indivíduo deveria ser o alvo
do trabalho social para que a sociedade funcionasse adequadamente. A obra de
Richmond marcou esta fase do Serviço Social norte-americano e possibilitou o
reconhecimento dessa atividade profissional pelo ramo acadêmico, criando
a Escola de Trabalho Social (antiga Escola de Filantropia Aplicada) vinculada à
Universidade de Columbia, em Nova Iorque, no ano de 1919. O crescimento do
número de profissionais e o aumento do nível de organização dos trabalhadores
sociais culminou na fundação de uma Associação Nacional de Trabalhadores So-
ciais, que posteriormente encampou a Sociedade de Organização da Caridade.
As Sociedades de Organização da Caridade europeias buscavam compreen-
der a estrutura da sociedade e os problemas dela decorrentes, embasadas nas
teorias sociológicas conservadoras de Auguste Comte, Fréderic Le Play e Émily
Durkheim e mantinham forte elo com a ideologia da Igreja Católica. A prática
social europeia na primeira metade do século XX abrangia ações de controle,
repressão e ajustamento aos padrões burgueses.
As encíclicas papais, caracterizadas por orientações doutrinárias da Igreja
Católica, foram amplamente utilizadas para embasar as práticas de assistência
social europeias e a formação dos profissionais de Serviço Social da época. A
encíclica Rerum Novarum, divulgada por Leão XIII, em 1891, apresentava uma
proposta de conciliação entre a classe burguesa e o proletariado através de uma
reforma social visando superar os problemas da época através de ações de edu-
cação e Serviço Social. A encíclica Quadragesimo Anno, divulgada por Pio XI, em

capítulo 1 • 19
1931, escrita após quarenta anos da publicação da Rerum Novarum, procurou
enfatizar a concepção católica nas ações de educação e assistência e reafirmar
a importância da Igreja na solução dos problemas sociais.
Além disso, a assistência social europeia fundamentava-se em escritos so-
bre as Conferências de São Vicente de Paulo, que tinham sua origem no século
XVII, buscando assim, ordenar a prática da assistência social com base no fun-
damentos da Igreja Católica.

Enquanto nos Estados Unidos, já a partir de 1920, ganhava força a Associação Na-
cional de Trabalhadores Sociais, na Europa o esforço se concentrava em garantir a
hegemonia do pensamento católico e do grupo de profissionais que o adotava como
referencial para suas ações. (MARTINELLI, 2011, p. 119).

Tamanha era a influência da Igreja Católica no Serviço Social europeu que


no ano de 1925 surgiu a União Católica Internacional de Serviço Social – UCISS,
organismo que exerceu influência também sobre países latino-americanos. A
UCISS passou a ser responsável pela formulação do processo de ensino de Ser-
viço Social, tendo definido quatro áreas: científica, ténica, moral e doutriná-
ria. A União Católica enfatizava as qualidades pessoais dos assistentes sociais,
como a vocação e disposição para servir somadas ao preparo técnico-científico.
A profissionalização do Serviço Social avançou rapidamente após a Primeira
Guerra Mundial, tanto em instituições públicas quanto em instituições parti-
culares, exercendo uma função de controle e repressão das manifestações so-
ciais e escondendo da sociedade as grandes mazelas geradas pela miséria.
É interessante observar que a legitimação da profissão decorreu da própria
classe dominante que se sentia amparada e protegida diante da atuação do as-
sistente social frente aos pobres. Conforme conclui Martinelli (2011, p. 121):

Como o criador não podia deixar de legitimar a criatura, tanto essa identidade atribuída
quanto a prática assistencial desenvolvida pelos assistentes sociais eram plenamente
ratificadas pela burguesia. Instalou-se, porém, aí o grande paradoxo que veio a marcar
profundamente a trajetória histórica e a própria face do serviço social: a legitimação
de sua prática não decorreu da população usuária, mas sim da classe dominante – os
mandantes da prática – e, depois , os contratantes dos serviços profissionais dos as-
sistentes sociais.

20 • capítulo 1
A seguir, veremos como a profissão surgiu nos países da América Latina,
conhecendo as primeiras escolas latino-americanas de Serviço Social.

1.4  O surgimento da profissão na América Latina

A primeira escola de Serviço Social da América Latina foi fundada no Chile, no


ano de 1925. Trata-se da Escola Alejandro Del Río. Na ocasião, o Chile se depa-
rava com uma nova realidade social advinda de seu processo de industrializa-
ção. Surgia o proletariado e com ele as manifestações influenciadas pela ideias
socialistas da experiência russa. Além disso, a expansão capitalista neste país
também veio acompanhada da miséria, crescimento urbano desorganizado e
migrações de camponeses para a cidade. Tal contexto propiciou o início da atu-
ação do assistente social no país.
Chama a atenção o fato de que a primeira escola de Serviço Social na Améri-
ca Latina tenha sido fundada por um médico, o Dr. Alejandro Del Río, apoiado
pelo Estado chileno. Dada a gravidade dos problemas de saúde dos trabalhado-
res e a falta de condições para a realização de tratamento e prevenção de doen-
ças era evidente a carência de outros profissionais para suprir a infraestrutura
exigida pela complexa situação.O assistente social teria o papel de complemen-
tar o trabalho do médico e a criação de uma escola de formação de tais profis-
sionais reflete a necessidade de expansão do Estado chileno em busca da defi-
nição de um projeto que atendesse às classes dominantes.
Fortemente influenciado pelo modelo europeu, o Serviço Social latino-a-
mericano não se diferenciou de outras profissões que também consideravam o
Velho Mundo como a organização social mais viável na época. Por este motivo,
pode-se afirmar que a Igreja Católica teve um papel fundamental no desenvol-
vimento do Serviço Social na América Latina, tal qual na Europa.
Castro (2011, p. 71) explica:

Em relação às primeiras escolas de Serviço Social – tanto chilenas quanto as de outros


países - , cabe ainda uma observação sobre a sua origem, pois na constituição destes
centros de estudos colocam-se em jogo duas estratégias, em muitos casos comple-
mentares: de um lado, a iniciativa do Estado (ou vinculada a ele), e, de outro, a Igreja
Católica e seus aparelhos conexos. No que se refere à escola fundada por Del Río, a
sua origem está mais próxima da esfera das necessidades de expansão estatal.

capítulo 1 • 21
As profissionais pioneiras escolhiam o Serviço Social como uma vocação,
um gesto de renúncia pessoal que se sobrepunha às necessidades materiais. A
maioria não dependia de seu salário para viver, já que advinham de camadas so-
ciais altas. Tais características conferiram à profissão atributos relacionados à
plena disponibilidade do profissional e baixa exigência quanto à remuneração.
A fim de ilustrar a formação profissional recebida nas primeiras escolas de
Serviço Social da América Latina, Castro (2011) relata as características da for-
mação da Escola Elvira Matte de Cruchaga, segunda escola de Serviço Social
fundada no Chile. A começar pelos requisitos exigidos na admissão das alunas:
idade entre 21 e 35 anos, atestado médico de boa saúde, recomendação paro-
quial e um texto escrito sobre sua história pessoal.
O curso tinha duração de três anos e o programa de ensino se divida em uma
parte teórica e outra prática e incluíam:

•  Ramo teórico: Religião; Psicologia; Pedagogia; Sociologia; Economia


Social; Assistência Social; Legislação Social; Direito; Instrução cívica;
Anatomia e fisiologia; Higiene privada e pública; e Ética profissional.

•  Ramo prático: Tratamento de caso social individual; Encaminhamentos


jurídicos; Técnicas de escritório e estatística; Contabilidade; Primeiros
socorros; Cuidados domiciliares a doentes; Puericultura; Nutricionis-
mo; Trabalhos manuais; e Exercícios de oratória.
© ALPHASPIRIT | DREAMSTIME.COM

Conforme descrito acima, é possível


notar que o surgimento do Serviço Social
na América Latina sofreu influência do
pensamento católico, já que nos primei-
ros cursos oferecidos o programa incluía
o ensino religioso. Também é importante
ressaltar que o currículo foi sendo adap-
tado conforme a profissão foi se desen-
volvendo e até o final deste livro, teremos
clareza da necessidade das adequações
que foram sendo realizadas e das mudan-
ças operadas no interior da profissão.

22 • capítulo 1
ATIVIDADE
Procure redigir com suas palavras a relação entre o sistema capitalista e o surgimento da
profissão de assistente social.

REFLEXÃO
Serviço Social não é caridade

O Serviço Social não se caracteriza por ações de caridade e filantropia, também não se trata
de ajudar os pobres.
O Serviço Social é uma profissão que busca a efetivação de direitos sociais e para al-
cançar tal objetivo conta com uma política pública estruturada, com ações bem definidas e
organizadas.

LEITURA
Escola sim, esmola não
Âmbar de Barros

Durante muito tempo me perguntei se a esmola dada às crianças que me abordavam nos
faróis de São Paulo era um bem ou um mal.
Eu dava, sim; mas depois me sentia culpada, era invadida por um misto de impotência e
raiva. Raiva por viver num país injusto e desigual; impotência por não saber o que fazer para
ajudar as crianças abandonadas à própria sorte numa cidade tão difícil e perigosa.
Hoje, não dou mais esmola para crianças e jovens e não me sinto culpada. Dirijo a área de
projetos de uma fundação dedicada à capacitação do professor da escola pública. E há dez
anos trabalho como voluntária numa organização não-governamental que atua na promoção
dos direitos de crianças e adolescentes.
Quando meninos e meninas me abordam, no carro ou na calçada, eu paro. Olho para eles,
converso. Se eles dizem que estão com fome, convido-os para a lanchonete mais próxima.
Quase nunca aceitam.

capítulo 1 • 23
A convivência com Cesare de Florio La Rocca, presidente do Projeto Axé, me ensinou
muito. Aprendi com os educadores de rua de Salvador que as crianças que perambulam
pelas grandes cidades brasileiras, em geral, não são desnutridas, pois são as mais aptas a
sobreviver.
Aqueles que optam pelos desafios, pela liberdade e pelo perigo das ruas são heróis
da sobrevivência. São os que dizem não a uma vida que não é vida. Não suportam mais a
violência doméstica, preferem correr riscos a continuar passando fome, amontoados em
barracos e cortiços.
O contato com eles e o conhecimento de suas trajetórias de vida me deu a certeza de
que eles não precisam de esmola. Eles precisam de cidadania, e a esmola é o oposto disso:
é a perpetuação da diferença. Vai na contramão da construção da auto-estima que essas
crianças e jovens devem recuperar.
O gesto de dar esmola identifica aquele que a recebe como mendigo. Fere a dignidade
da criança. Cria nela uma dependência perigosa em relação ao bom samaritano que, ao lhe
dar um dinheiro fácil, aplaca seu sentimento de culpa, mas mata na criança o desejo de so-
nhar, de elaborar um projeto de vida.
Quanto menor e mais desamparada a criança, mais dinheiro ela ganha. Vigiada pela mãe
(estaria ela protegendo ou explorando?), aprende logo cedo a ganhar dinheiro fácil. Acon-
tece que a generosidade pública estanca quando o menino cresce. Os vidros dos carros se
fecham, com medo do jovem pedinte.
Criança precisa de pai e mãe empregados, escola de qualidade, respeito e dignidade.
Todos concordam, mas, na prática, quase ninguém faz nada. Quase ninguém acompanha as
propostas de seus candidatos para a infância, nem cobra dos políticos que elegeu, no Execu-
tivo e no Legislativo, eficiência nas ações sociais, nem doa algumas horas de seu tempo livre
para ajudar a escola pública de seu bairro. Quase ninguém.
O querido Betinho, com quem trabalhei na campanha contra a fome, dizia que dava esmola,
sim. Que muitas crianças precisavam levar para casa um dinheirinho: era a diferença entre
passar fome e dormir de barriga cheia.
Concordo com ele: a solidariedade humana deve ser praticada a todo momento. Não me
recuso a dar dinheiro a alguém que não tem um centavo para voltar para casa. Ou a um adulto
que procura um emprego para manter a família. Ou a uma pessoa mais velha, desamparada.
Dou a eles de bom grado a minha ajuda. Há momentos em que o melhor que você pode fazer
por alguém é mesmo abrir a carteira.
Às crianças eu dou muito mais do que alguns trocados. Dou horas de trabalho que eu
roubo dos meus próprios filhos, minha militância de cidadã, o respeito que eles merecem
como seres humanos em formação.

24 • capítulo 1
As moedas esquecidas no cinzeiro do carro e dadas, às pressas, aos meninos que se
esgueiram entre os veículos podem aliviar a consciência do motorista, mas não são solução
para a criança. Fazem mal a ela. Cada centavo recebido, cada nota amassada diminuem ainda
mais sua baixa auto-estima.
A mensagem passada junto com o dinheiro é que a criança deve se esforçar para comover,
chorar, mentir, inventar uma tragédia ainda maior do que a que ela já vive. Como criança comove
mais, é presa fácil de adultos inescrupulosos nas ruas.
A sociedade brasileira pode fazer mais do que dar esmola. A bolsa-escola reduziu muito
o número de crianças pedintes nos faróis de Brasília. O MEC está tentando envolver setores
diversos da sociedade no esforço de levar todas as crianças para a escola.
A implantação das classes de aceleração das secretarias da Educação do Paraná e de São
Paulo e do Instituto Ayrton Senna, além da existência de projetos como o Crer para Ver, da Fun-
dação Abrinq e da Natura, demonstra que o Brasil, muito lentamente, se dá conta de que criança
não precisa de esmola, e sim de escola.
Texto publicado na Folha de São Paulo, 21 de março de 1998.
Âmbar de Barros, 38, jornalista, é diretora de projetos da Fundação Victor Civita, mantida
pelo Grupo Abril, e presidente do conselho da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da
Infância).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, Âmbar de. Escola sim, esmola não. Folha de S. Paulo, 21 de março de 1998

CASTRO, Manuel Manrique. História do Serviço Social na América Latina. Tradução


de José Paulo Netto e Balkys Villa Lobos. 12ed. São Paulo: Cortez, 2011.

ESTEVÃO, Ana Maria. O que é Serviço Social. 6 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.

IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Bra-
sil. Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 40ed. São Paulo: Cortez,
2014.

MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. 16ed. São Paulo: Cortez,


2011.

capítulo 1 • 25
NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo você conhecerá a história do Serviço Social no Brasil, incluindo a criação
das primeiras escolas de formação e o contexto sócio-histórico no qual ocorreram as primei-
ras práticas profissionais. Além disso, conhecerá como ocorreu a expansão do Serviço Social
e as principais mudanças ocorridas nas ações sociais.

26 • capítulo 1
2
A história do
Serviço Social no
Brasil
2  A história do Serviço Social no Brasil
Neste capítulo, conheceremos o surgimento e o desenvolvimento do Serviço So-
cial Brasileiro, contextualizando-o historicamente, já que a história do Serviço So-
cial se desenvolveu paralelamente à história dos governos e políticas brasileiras.

OBJETIVOS
• Conhecer a história do Serviço Social no Brasil
• Identificar as instituições assistenciais que marcaram o desenvolvimento do Serviço So-
cial brasileiro
• Realizar uma leitura crítica sobre a expansão do Serviço Social durante a política de-
senvolvimentista
• Compreender o Movimento de Reconceituação da profissão

REFLEXÃO
Você se lembra de ter estudado nas aulas de História sobre o desenvolvimentismo? Tais
ideias interferiram no destino econômico e social do país, pois visavam retirar os países latino-
-americanos do atraso a que estavam submetidos em relação aos países de Primeiro Mundo.
Os assistentes sociais da época também foram fortemente influenciados por essa tendência
desenvolvimentista, aderindo às propostas técnicas de desenvolvimento de comunidade pro-
venientes dos Estados Unidos.

2.1  Contextualização histórica

Para compreendermos o surgimento do Serviço Social no Brasil, faz-se impor-


tante situar o contexto socio-histórico desde o início do século XX. É importante
lembrar que o país acabava de sair de um regime escravocrata e já começava a se
industrializar. Nessa época, a população operária constituía-se minoria e era for-
mada na sua maioria por imigrantes; apresentava condições de vida e de trabalho
precárias: moradias insalubres, carência de água tratada, rede de esgoto e ilumi-
nação elétrica, frequentes acidentes de trabalho, baixos salários. A presença de
trabalho infantil e jornadas de trabalhos elevadas eram comuns nas indústrias

28 • capítulo 2
da época. Os operários não possuíam direito a férias, descanso semanal remune-
rado ou licença para tratamento de saúde.

CONEXÃO
Para compreender a história do Brasil do período colonial ao início da industrialização, leia o
resumo publicado pelo site Brasil Escola. Ele é bem didático e de fácil compreensão.
<http://www.brasilescola.com/geografia/resumo-historico-economico-brasil-fim-colonialis-
mo-capitalismo.htm>

Tais condições motivaram a organização do proletariado que passou a lutar


por leis sociais que reconhecessem sua cidadania, lutas estas marcadas pela
ocorrência de greves e manifestações. Surgem, a princípio, as Ligas Operárias e
as Caixas Beneficentes, com fins assistenciais e cooperativos, que dão origem,
posteriormente, às Sociedades de Resistência e aos Sindicatos.
Um marco importante na conquista de alguns direitos sociais é a participação
do governo brasileiro na Convenção da Organização Internacional do Trabalho,
no ano de 1919, da qual tornou-se signatário, o que propiciou a transformação
das recomendações da Convenção em leis a partir da década de 1920. Nos anos
de 1926 e 1927, foram aprovadas leis importantes para a proteção ao trabalho,
dentre elas, a lei de férias, acidente de trabalho, seguro-doença, o código de me-
nores e trabalho feminino.
Contudo, o que se via era a intervenção repressora do Estado junto às ma-
nifestações operárias que aliado à Igreja e à classe dominante não realizou a
proposição de políticas públicas eficazes.

Assim, no decorrer da Primeira República, o saldo acumulativo das conquistas do mo-


vimento operário é bastante estreito. Da mesma forma o balanço de medidas estatais
e particulares visando à reintegração, ou simples repressão do movimento operário,
tendem largamente para esta última. (IAMAMOTO, CARVALHO, 2014, p. 144)

Após a crise da bolsa de valores de Nova Yorque em 1929, que impactou em


vários países capitalistas, ocorreu no Brasil a chamada “Revolução de 1930”,
pela qual as oligarquias cafeeiras foram depostas do poder e foi decretado o
fim da República Velha e início da República Nova. Getúlio Vargas assumiu o

capítulo 2 • 29
poder, a princípio, provisoriamente dando início a denominada Era Vargas. Na
ocasião, o Estado tomou para si a incumbência de diminuir as tensões prove-
nientes das manifestações trabalhistas que contou com amplo apoio da Igreja
Católica e de alguns grupos dominantes. A Igreja Católica passa a intervir na
vida social, colaborando inclusive com a Revolução Constitucionalista de 1932,
organizando o sindicalismo católico e, posteriormente, criando os Círculos
Operários. Amplia consideravelmente as instituições católicas laicas, criando
instituições centralizadoras do apostolado social, através da Ação Católica Bra-
sileira, fundada em 1935. As encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno
influenciaram as respostas aos problemas sociais formuladas por estas insti-
tuições, buscando os princípios da cristandade para realizar a justiça social.

À Igreja Católica, através do apostolado de seu movimento laico, caberá a tarefa de


reunificação e recristianização da sociedade burguesa por intermédio da ação sobre as
corporações e demais grupos básicos […] Será necessário harmonizar as classes em
conflito e estabelecer entre elas relações de verdadeira amizade. Acima da regulamen-
tação jurídica do Estado laico deverá prevalecer o comunitarismo cristão. (IAMAMOTO,
CARVALHO, 2014, p. 169)

A Constituição de 1934 oficializa a parceria Estado-Igreja, explicitando o ca-


tolicismo como religião oficial, reconhecendo o casamento religioso pela lei
civil e proibindo o divórcio, garantindo a institucionalização de alguns princí-
pios católicos. O surgimento do Serviço Social no Brasil é marcado, pois, pela
influência da Igreja Católica.

2.2  As primeiras escolas brasileiras de Serviço Social

Precederam a criação das primeiras escolas algumas ações sociais desenvolvi-


das por instituições assistenciais, como a Associação das Senhoras Brasileiras
(1920), no Rio de Janeiro, e a Liga das Senhoras Católicas (1923), em São Paulo.
Suas ações de conteúdo assistencial e paternalista deram bases materiais e or-
ganizacionais para que na década seguinte houvesse a expansão da ação social
e o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social.

30 • capítulo 2
O elemento e a base organizacional que viabilizarão o surgimento do Serviço Social se
constituirão a partir da mescla entre as antigas Obras Sociais – que se diferenciavam
criticamente da caridade tradicional – e os novos movimentos de apostolado social,
especialmente aqueles destinados a intervir junto ao proletariado, ambos englobados
dentro da estrutura do Movimento Laico, impulsionado pela hierarquia. (IAMAMOTO,
CARVALHO, 2014, p. 178)

No ano de 1932, em São Paulo, foi dado o primeiro passo da trajetória do


Serviço Social brasileiro: a criação do Centro de Estudos de Ação Social (CEAS) e
nele, a realização do primeiro curso de qualificação de agentes da prática social,
fruto da iniciativa das cônegas de Santo Agostinho. O curso foi denominado:
Curso Intensivo de Formação Social para Moças e foi ministrado pela assistente
social belga Adèle de Loneuax, da Escola Católica de Serviço Social de Bruxelas.
O CEAS surgiu com o intuito de tornar mais efetiva as obras de filantropia
promovidas pelas classes dominantes paulistas sob patrocínio da Igreja. Sua
criação também buscava dinamizar o movimento do laicado. O primeiro rela-
tório do CEAS evidencia a formação de seus membros voltados para a doutrina
social da Igreja com aprofundamento a respeito dos problemas sociais e inter-
venção direta junto ao proletariado visando afastá-lo de influências subversi-
vas. Os cursos promovidos pelo CEAS eram diversos: filosofia, moral, legislação
do trabalho, doutrina social, enfermagem de emergência, etc.
No ano de 1936, após o desenvolvimento do CEAS, é fundada a Escola de
Serviço Social de São Paulo. Em 1940, surge o Instituto de Serviço Social de
São Paulo destinado à formação de trabalhadores sociais especializados para
o Serviço Social do Trabalho e no decorrer da década de 1940 surgem diversas
escolas de serviço social nas capitais dos Estados. Isto porque a demanda por
assistentes sociais no mercado de trabalho era maior do que o número de pro-
fissionais disponíveis. Muitas instituições passaram a oferecer bolsas de es-
tudo aos alunos, o que modificou o perfil dos assistentes sociais: se antes as
assistentes sociais eram mulheres da classe dominante, com o financiamento
de instituições através de bolsas de estudo, a classe média alta e parcelas da pe-
quena burguesia urbana também passaram a abarcar a categoria profissional.
Em sua fase embrionária, a produção em matéria de Serviço Social foca-
va o pensamento social da Igreja, baseado no pensamento católico europeu,
propondo-se à mobilização da opinião católica para o apostolado social, valen-

capítulo 2 • 31
do-se das encíclicas papais. A fundamentação teórica dos assistentes sociais
orientava-se para a reprodução da força de trabalho do proletariado e de sua
reprodução enquanto classe social. As intervenções eram focadas na família e
continham caráter assistencial complementar à renda obtida através da venda
da força de trabalho dos trabalhadores. Também compreendiam ações médi-
co-sanitaristas de caráter profilático e encaminhamentos a serviços diversos. A
representação que faziam do proletariado era a representação produzida pela
classe dominante e reproduziam as relações sociais de produção capitalista.

2.3  O Estado Novo e as instituições assistenciais

A implantação do Estado Novo no ano de 1937 que encerra o período de transi-


ção tem início com a outorga da nova Carta Constitucional. Pela primeira vez,
há uma referência na legislação federal a respeito dos serviços sociais, pela qual
o Estado fica obrigado a assegurar o amparo aos desvalidos, à matenidade e à
infância. Na chamada era Vargas, há um grande investimento na industrializa-
ção e uma expansão do mercado de trabalho urbano. Fortemente marcado por
seu aspecto violento, o Estado Novo busca superar a luta de classes através da
repressão e tortura concomitantemente e inversamente apresenta uma postura
política voltada para as massas: atende parcialmente algumas reivindicações
dos setores populares. A legislação social da era Vargas inibe a exploração “pri-
mitiva” da força de trabalho, sem deixar de reforçar a dominação do capital. A
legislação sindical transforma os sindicatos em meros aparatos burocráticos
do Estado e centros assistenciais complementares à Previdência Social manti-
dos pelos impostos sindicais.

De acordo com Iamamoto & Carvalho (2014, p. 254), o desmonte da função mobiliza-
dora dos sindicatos faz emergir a “figura do pelego, líder sindicalista comprometido com
a burocracia do Ministério do Trabalho, desvinculado da categoria profissional a que
pertence e que se caracteriza pela docilidade ante o patronato e pela manipulação de
recursos assistenciais.”

De acordo com Iamamoto & Carvalho (2014, p. 254), o desmonte da função


mobilizadora dos sindicatos faz emergir a “figura do pelego, líder sindicalista
comprometido com a burocracia do Ministério do Trabalho, desvinculado da

32 • capítulo 2
categoria profissional a que pertence e que se caracteriza pela docilidade ante o
patronato e pela manipulação de recursos assistenciais.”
Na esteira da política de massas surgem instituições novas: Seguro Social,
Justiça do Trabalho, Assistência Social. Tais instituições caracterizavam-se por
atenuarem as sequelas da exploração capitalista, pouco modificando as condi-
ções de vida da população.

As reivindicações históricas do proletariado, ao serem incorporadas por intermédio de


políticas assistenciais, sofrem um processo de falsificação e burocratização, passando
a ter como elementos centrais ocultos os interesses hegemônicos dentro do Estado:
a acumulação e o enquadramento da Força de Trabalho. (IAMAMOTO; CARVALHO,
2014, p. 255)

No ano de 1938 é criado o Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS), ór-


gão público responsável por estudar os problemas sociais. E após o engajamen-
to do país na Segunda Guerra Mundial, tem-se a criação da primeira grande
instituição de assistência social, a Legião Brasileira de Assistência (LBA).

“Criada em 28 de agosto de 1942, a Legião Brasileira de Assistência (LBA) teve longa


existência e significou um marco na organização da assistência social no Brasil. Inicial-
mente a LBA direcionou os seus esforços para atender as famílias dos soldados que es-
tavam na Europa, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial – o próprio nome
da instituição expressa nítida referência militar. A primeira-dama Darcy Vargas agregou
mulheres das classes mais privilegiadas do país para compor uma legião de combaten-
tes femininas que, mesmo não indo para o cenário da guerra na Europa, deveriam atuar
no Brasil como verdadeiros soldados naquilo que eram capazes de fazer: cuidar dos mais
necessitados, principalmente das famílias dos pracinhas. Logo que a guerra acabou o
Boletim Informativo da LBA explicou que em tempos de paz os serviços de assistência
social seriam prestados em colaboração com o poder público e outras instituições pri-
vadas abrangendo uma ampla gama de serviços (O programa..., 1945, p.6). Ao obser-
varmos a estrutura da LBA nota-se que ela foi organizada como um superministério ou
supersecretaria, abarcando serviços da assistência social à saúde, da educação à habi-
tação, da pesquisa social à propaganda, enfim, atuando em diferentes frentes de ação,
que não por acaso foram prioritárias durante o governo Vargas.” (MARTINS, 2011, p. 16)

capítulo 2 • 33
“Criada em 28 de agosto de 1942, a Legião Brasileira de Assistência (LBA)
teve longa existência e significou um marco na organização da assistência so-
cial no Brasil. Inicialmente a LBA direcionou os seus esforços para atender
as famílias dos soldados que estavam na Europa, com a entrada do Brasil na
Segunda Guerra Mundial – o próprio nome da instituição expressa nítida re-
ferência militar. A primeira-dama Darcy Vargas agregou mulheres das classes
mais privilegiadas do país para compor uma legião de combatentes femininas
que, mesmo não indo para o cenário da guerra na Europa, deveriam atuar no
Brasil como verdadeiros soldados naquilo que eram capazes de fazer: cuidar
dos mais necessitados, principalmente das famílias dos pracinhas. Logo que
a guerra acabou o Boletim Informativo da LBA explicou que em tempos de paz
os serviços de assistência social seriam prestados em colaboração com o poder
público e outras instituições privadas abrangendo uma ampla gama de serviços
(O programa..., 1945, p.6). Ao observarmos a estrutura da LBA nota-se que ela
foi organizada como um superministério ou supersecretaria, abarcando servi-
ços da assistência social à saúde, da educação à habitação, da pesquisa social à
propaganda, enfim, atuando em diferentes frentes de ação, que não por acaso
foram prioritárias durante o governo Vargas.” (MARTINS, 2011, p. 16)
A LBA apresentava como objetivo inicial a prestação de assistência às famí-
lias dos soldados convocados para a guerra e outros assuntos referentes ao es-
forço de guerra. Posteriormente, seus objetivos se estenderam a todas as áreas
da assistência social, contribuindo para a racionalização da assistência no Bra-
sil. Contava com financiamento do governo e de algumas entidades privadas.
Em relação às técnicas do Serviço Social no interior da LBA, eram desen-
volvidas visitas domiciliares, inquéritos sociais, pesquisa social e entrevistas e
utilizava-se o método do serviço social de casos para decisão quanto a auxílios
financeiros, encaminhamentos para serviços médicos, regularização de docu-
mentos, obtenção de empregos, etc.

A organização da LBA e a sua especialização na assistência social indicam como o Es-


tado Novo propiciou as condições para o exercício do que poderíamos chamar de uma
‘cidadania feminina’ baseada na utilidade social das mulheres por meio da extensão
moral da maternidade para a sociedade. Essa cidadania, de perfil bastante conservador,
também se fez presente em outros contextos políticos, como o Estado Novo salazarista,
a Itália fascista e a Espanha franquista.

34 • capítulo 2
Esses regimes tiveram apoio considerável das mulheres organizadas em associações
muito semelhantes à LBA, que se sustentaram na ideia da participação política das
mulheres a partir daquilo que as habilitava para a intervenção social: a capacidade de
cuidar com a qual a natureza as dotou. A criação da LBA é contemporânea à organiza-
ção da assistência social fundada numa racionalidade política dos Estados de bem-es-
tar e em padrões científicos de pesquisa, estratégias de ação e formação de recursos
humanos presentes nos países ocidentais. (MARTINS, 2011, p.16)

No ano de 1942 foi criado o Serviço Nacional de Aprendizagem Inustrial


(SENAI) visando a organização de escolas para formação e qualificação de
industriários.

O SENAI, criado no limiar e um novo ciclo de expansão capitalistas da formação eco-


nômico-social brasileira, aparece, enquanto instituição social, claramente determinado
por aquela conjuntura. A adequação da Força de Trabalho às necessidades do sistema
industrial se revestirá, esquematicamente, de dois aspectos principais: o atendimento
objetivo ao mercado de trabalho, no sentido de supri-lo de trabalhadores portadores das
qualificações técnicas necessárias, e a produção de uma Força de Trabalho ajustada
psicossocialmente (ideologicamente) ao estágio de desenvolvimento capitalista. (IA-
MAMOTO, CARVALHO, 2014, p. 280)

O SENAI foi uma das primeiras instituições a incorporar o Serviço Social


que em seu âmbito utilizava a metodologia de serviço social de caso e de grupo.
As práticas sociais realizadas pelo assistente social no interior da instituição
tinham como objetivo o ajustamento do trabalhador à ordem capitalista, atra-
vés de encaminhamentos a outras entidades, orientação familiar, organização
de passeios culturais, readaptação profissional, encaminhamentos aos servi-
ços oferecidos na própria instituição (dentista, médico, nutricionista) e orga-
nização de associação de alunos. O olhar para as determinações subjetivas do
trabalho findava em reforçar a divisão social do trabalho, a obediência e a do-
minação de classes, sendo que o assistente social ficava encarregado dos casos
que desviavam deste padrão exigido.
Além da LBA e do SENAI, outra instituição assistencial desempenhou pa-
pel importante na prática de serviço social no Brasil: o Serviço Social da Indús-

capítulo 2 • 35
tria – SESI. O SESI foi criado com o intuito de oferecer melhores condições de
vida aos trabalhadores da indústria. A criação do SESI ocorreu em 1946, num
momento de pós-guerra, e demonstrou a estratégia adotada pela burguesia in-
dustrial para enfrentar a questão social: a prestação de serviços assistenciais
aos operários e suas famílias, incluindo lazer, educação popular, atendimento
médico, odontológico, assistência alimentar e habitacional.
O setor de Serviço Social do SESI atuava como um facilitador das atividades
adaptadas às necessidades dos operários e de suas famílias. Realizava plantão,
encaminhamentos, avaliação social para concessão de benefício e orientações.
Pode-se afirmar que a atuação do Serviço Social no SESI demarca sua institucio-
nalização e sua incorporação pela burguesia industrial.
As instituições assistenciais acima citadas, somadas a outras que surgiram
no país após a década de 1930, diretas ou indiretamente geridas pelo Estado,
exerceram um papel fundamental frente às ações de disciplinamento e repro-
dução da força de trabalho favorecendo a manutenção da dominação de classe.
As instituições assistenciais respondiam às reivindicações da classe trabalha-
dora com a oferta de benefícios que possibilitavam a manutenção da capaci-
dade de trabalho dos operários. Sendo assim, continham um aspecto político-
-ideológico acoplado a suas propostas: ao oferecerem benefícios, impunham
alguns hábitos próprios da classe dominante e transmitiam a ideia de aceitação
das relações sociais vigentes.
Pode-se afirmar que a legitimação e institucionalização do Serviço Social
ocorreu concomitantemente ao desenvolvimento das instituições assistenciais,
ampliando-se o mercado de trabalho e consolidando a profissão enquanto um
grupo de trabalhadores assalariados com práticas sociais institucionalizadas.

As grandes instituições assistenciais desenvolvem-se num momento em que o Serviço


Social, como profissão legitimada dentro da divisão social do trabalho – entendendo o
Assistente Social como profissional que domina um corpo de conhecimentos, métodos
e técnicas – é um projeto ainda em estado embrionário; é uma atividade profunamente
marcada e ligada à sua origem católica, e a determinadas frações de classes, as quais
ainda monopolizam seu ensino e prática. Nesse sentido, o processo de institucionaliza-
ção do Serviço Social será também o processo de profissionalização dos Assistentes
Sociais formados nas Escolas especializadas.(IAMAMOTO; CARVALHO; 2014, p. 327)

36 • capítulo 2
Assim, o Serviço Social se desenvolveu a partir da identidade atribuída pelo
capitalismo e pela Igreja, identidade esta despolitizada e desprovida de cons-
ciência social, não se constituindo como uma identidade própria da categoria
profissional. Seu modo de trabalho se caracterizava por um agir imediato alie-
nante e alienado, denominado por alguns autores como o fetiche da prática.
Sem tomar consciência das contradições inerentes à sociedade capitalista, a
categoria profissional somente respondia aos interesses da classe hegemônica
e não se engajou em um projeto coletivo de ação profissional. O Serviço Social
aproximou-se da burguesia e se afastou da classe trabalhadora, pois suas ações
profissionais atendiam muito mais aos interesses do capital do que às reinvin-
dicações da classe trabalhadora e visavam à manutenção da ordem social.
A institucionalização do Serviço Social ocorreu principalmente através do
Estado que, unido à classe dominante, se tornou o maior empregador do as-
sistente social. E a linha de prática do Serviço Social no Brasil, que até então
recebia forte influência européia, em especial da linha franco-belga, a partir
dos anos de 1940 passou a se aproximar da experiência norte-americana. É o
que veremos a seguir.

2.4  A ideologia desenvolvimentista e o amadurecimento


do Serviço Social no Brasil

Na década de 1960 o Serviço Social atingiu seu auge em termos de desenvolvi-


mento, passando por transformações e modernizações. Os congressos organi-
zados pela categoria e a busca pela integração à perspectiva desenvolvimentis-
ta que prevalecia no país favoreceram e contribuíram para o amadurecimento
técnico e teórico da profissão .
A proposta desenvolvimentista pela qual o Brasil passou teve início com a
posse de Juscelino Kubitschek como presidente da República. Assim, se engen-
drou a ideologia desenvolvimentista, com a abertura da economia para a inter-
nacionalização. A proposta desenvolvimentista envolvia crescimento econômi-
co acelerado e uma maior integração do país ao sistema capitalista, visando o
aumento da riqueza e a consequente superação da miséria. Acreditava-se que o
desenvolvimento econômico do país traria resultados positivos para toda a so-
ciedade e não favoreceria apenas determinados grupos ou setores. JK conciliou
uma política populista com uma grande participação do capital estrangeiro na
economia nacional. Assim, as indústrias e grandes empresas passaram a ser
um mercado de trabalho crescente para o Serviço Social.

capítulo 2 • 37
O crescimento industrial ganhou maior dimensão a partir do governo de Juscelino Ku-
bistchek (1956-1961) com a criação de medidas alfandegárias para a vinda de empre-
sas inernacionais para o Brasil. Esse período foi conhecido pelo seu otimismo no que
tange ao crescimento da economia brasileira em que medidas como o Plano de Metas
incentivaram a produção industrial. Essa política do JK para estimular o crescimen-
to industrial ficou conhecida como nacional-desenvolvimentista, ela concetrava suas
atenções em investimentos na área de energia e de transportes. Para isso, JK utilizou
o capital estrangeiro permitindo a entrada de empresas multinacionais para o Brasil,
como a montadora de automóveis, Volkswagen. (Site brasilescola.com)

Em relação aos congressos de Serviço Social, no ano de 1945 ocorreu o I


Congresso Pan-Americano de Serviço Social, realizado no Chile que marcou a
afirmação da influência norte-americana no Serviço Social da América Latina.
Ressalta-se nesse congresso um amplo debate a respeito do Serviço Social na
Indústria, da formação profissional e do intercâmbio interamericano.
O primeiro Congresso Brasileiro de Serviço Social ocorreu em 1947, organi-
zado pelo CEAS e reuniu representantes das principais entidades particulares
e governamentais vinculadas ao Serviço Social. Foi um congresso preparatório
para o II Congresso Pan-Americano de Serviço Social que ocorreu no Rio de Ja-
neiro no ano de 1949. Este último já apresentava um discurso profissional mais
secularizado e menos apostolar, com olhar para as técnicas, valorizando os mé-
todos de Caso, Grupo e Comunidade. Entretanto a ideia do reajustamento dos
indivíduos permaneciam como base da intervenção do assistente social.
Contudo, foi a partir do II Congresso Brasileiro de Serviço Social realiza-
do em 1961 que os assistentes sociais passaram a participar efetivamente do
projeto desenvolvimentista e rever suas práticas, buscando readequá-las à rea-
lidade vivenciada pela sociedade brasileira na época. Sobre as resoluções do II
Congresso, Iamamoto e Carvalho apontam:

Criticam-se as práticas paternalistas das grandes instituições assistenciais, constata-se


a inadequação das estruturas político-administrativa às exigências do desenvolvimento
socioeconômico e a necessidade de medidas corretivas; verifica-se a necessidade de
uma reforma universitária […] Pede-se melhor qualidade e pontualidade nos serviços
prestados pela Previdência Social, Salário-família e Auxílio Desemprego. (IAMAMOTO
E CARVALHO, 2014, P. 374)

38 • capítulo 2
Os projetos profissionais do Serviço Social se expandiram na direção desen-
volvimentista presentes nos governos de JK e de Jânio Quadros, buscando de-
senvolver a sociedade com técnicas de desenvolvimento de comunidade.
Cabe mencionar que tanto as propostas dos assistentes sociais quanto a
ideologia desenvolvimentista não mencionavam a estruturação das relações
sociais na sociedade capitalista, assim como não explicavam as determina-
ções do processo social. O desenvolvimentismo mantinha a ordem social tal
qual encontrava-se, dividida em classes sociais e propunha o crescimento eco-
nômico como solução para os problemas do país. A ênfase dada à técnica de
desenvolvimento de comunidade se difundiu no Serviço Social na época, sob
o prisma da modernização trazida ao país através de programas patrocinados
por organismos internacionais. Esta técnica penetrou nos meios rurais através
da educação de adultos e em programas diversos, exportada pela indústria do
conhecimento norte-americana.
De acordo com Castro (2011), o desenvolvimento de comunidade apresen-
tava uma abordagem funcionalista da questão social e era adequado à realida-
de social norte-americana e não à sociedade brasileira, devido às claras distin-
ções entre elas. O assistente social tinha o papel de organizar a população no
sentido de obter realizações materiais, como contruções de escolas e serviços
de saúde. Entretanto, a ênfase do desenvolvimento de comunidade nos méto-
dos de trabalho e o engajamento da categoria profissional na proposta desen-
volvimentista sob a égide do crescimento econômico como forma de combater
os problemas sociais acarretou na reiteração do clientelismo. As ações profis-
sionais não eram críticas em relação à estrutura econômica desigual e a neces-
sidade de transformação da realidade social, buscando apenas identificar as
necessidades da população e os recursos disponíveis.
Dentre os pressupostos do Desenvolvimento de Comunidade, pode-se citar:

•  O incentivo à participação popular como forma de obter desenvolvimen-


to social

•  O desenvolvimento de métodos de motivação da participação popular

•  O Desenvolvimento de Comunidade enquanto proposta de superação do


subdesenvolvimento

capítulo 2 • 39
A ideologia contida no Desenvolvimento de Comunidade era a de que as so-
luções para os problemas da sociedade estavam na própria sociedade, desres-
ponsabilizando o próprio Estado das obrigações para com o progresso social.
Todavia, não se pode negar que todo o processo do Serviço Social com a
proposta desenvolvimentista do país e com a adoção do método de Desenvol-
vimento de Comunidade propiciou a revalorização da profissão e seu reconhe-
cimento social.

2.5  Movimento de Reconceituação da profissão

A partir da década de 1960, o Brasil passou a viver tempos difíceis. O mundo vi-
nha passando por muitas transformações: a divisão em dois blocos, sendo um
capitalista e outro socialista, denominada Guerra Fria; a Revolução Socialista
Cubana em 1959. A situação do país era caracterizada por uma economia de-
pendente que gerava o aumento da pobreza e da miséria e atendia aos interes-
ses dos países desenvolvidos. O golpe de 1964 que deu início à ditadura militar
veio cercear a liberdade da população e destruir a organização social e política
conquistada pelos trabalhadores até aquele momento.
Nesse contexto alguns profissionais da categoria começaram a desenvolver
uma percepção crítica da realidade e também da profissão. Passaram a buscar a
superação da alienação, negando as aparências do capitalismo e redefinindo o
significado da profissão. Os agentes críticos começaram a questionar a identidade
atribuída ao Serviço Social pela classe dominante e a não-identidade que tomava
conta dos profissionais durante os tempos da ditadura, considerando que a profis-
são não era legitimada pela classe trabalhadora.

Para a classe trabalhadora, a prática do Serviço Social significava imposição, dirigida a


situações particulares e divorciada dos reais interesses do proletariado; para os “agen-
tes críticos”, inúmeros eram os questionamentos que se colocavam quanto à legitimi-
dade de uma prática que, aprisionada pela tecnoburocracia, deixava de pulsar com o
movimento social e histórico, esvaziando-se politicamente e perdendo a possibilidade
de responder aos desafios colocados pela realidade. (MARTINELLI, 2011, P. 143)

Os profissionais que assumiram tal postura crítica passaram a batalhar por


uma mudança na realidade profissional, realizando uma leitura crítica do pro-

40 • capítulo 2
cesso. Tal movimento foi denominado Movimento de Reconceituação e seus
agentes críticos procuraram reunir em torno de seus objetivos o maior número
possível de profissionais da categoria. É evidente que a desunião e a fragmenta-
ção que permeavam a categoria impediram que o Movimento fosse bem suce-
dido no seu início, dividindo a categoria em dois grupos: os reconceituados e os
não-reconceituados, ou seja, aqueles que adotavam posições revolucionárias
versus os que mantinham as tradicionais práticas.
Alienação e crítica passaram a conviver entre os profissionais do Serviço
Social a partir do Movimento de Reconceituação iniciado em 1965. Ao longo
das décadas de 1970 e 1980, o movimento ganhou força e um novo percurso
profissional foi traçado, a partir da construção de uma identidade mais próxi-
ma das classes populares. Conhecer a realidade das classes populares e suas
reivindicações era a única saída para reverter a postura impositiva e controla-
dora que a profissão vinha exercendo. As alianças com a classe trabalhadora
marcam a nova fase do Serviço Social, com ações politizadas vinculadas aos
interesses ds classes populares.

Foi a partir do momento em que começou a rompoer a alienação, a negar a identida-


de atribuída, a recusar os modelos importados, que a categoria profissional conseguiu
expandir sua base crítica, produzindo novas alternativas de prática. Se historicamente
a sua legitimidade decorreu de seu papel auxiliar no processo de reprodução das rela-
ções sociais capitalistas, agora a ruptura da alienação lhe permitia divisar um novo hori-
zonte, no qual a ordem social capitalista já não ocupava mais uma posição hegemônica,
antes expressando-se como produto de um regime assinalado, como tudo que é ser
humano, pela transitoriedade. O objetivo da prática social transportava-se, assim, para
uma outra dimensão, onde a busca fundamental passava a ser a produção de novas
relações sociais, a superação da sociedade capitalista. (MARTINELLI, 2011, P. 151)

O quadro a seguir ilustra as principais mudanças ocorridas no discurso do


Serviço Social antes do Movimento de Reconceituação e após o Movimento de
Reconceituação.

capítulo 2 • 41
SERVIÇO SOCIAL PRÉ- SERVIÇO SOCIAL PÓS-
RECONCEITUAÇÃO RECONCEITUAÇÃO
• Assistência aos pobres e carentes • Compromisso com a população
• Patologia social • Mudança de estrutura
• Serviço Social de Casos • Direito dos trabalhadores
• Serviço Social de grupos • Revolução social
• Desenvolvimento de comunidade • Conscientização social

A partir do Movimento de Reconceituação, os assistentes sociais passam a


construir sua própria identidade profissional, altamente crítica em relação ao
sistema capitalista, às relações sociais e à ordem social vigente. Inicia-se a auto-
crítica aos métodos “importados” e a neutralidade exigida na aplicação de tais
técnicas, denotando a procura por um Serviço Social mais brasileiro.
Tal movimento se expandiu por toda a América Latina devido à situação
semelhante abarcada por todos países vizinhos. Dessa forma, pode-se afirmar
que o desenvolvimentismo cedeu espaço à uma concepção conscientizadora-
-revolucionária, fundamentada na metodologia de trabalho marxista, o mate-
rialismo histórico dialético. Gradualmente, o Serviço Social rompeu com a alie-
nação em relação à identidade atribuída da categoria e assumiu uma postura
menos conservadora.
O III Congresso Brasileiro de Serviço Social realizado no ano de 1979, co-
nhecido como o Congresso da Virada, reafirmou os interesses da categoria em
mudanças de postura e demonstrou sua organização frente a um novo projeto
profissional.

ATIVIDADE
1. Pesquise na internet ou em livros de História a proposta desenvolvimentista iniciada
com o governo de Juscelino Kubistchek.

2. Aponte suas principais características e faça uma reflexão crítica sobre os efeitos desta
proposta para a sociedade brasileira.

42 • capítulo 2
REFLEXÃO
Agora que você conhece melhor as instituições brasileiras de assistência social pioneiras do
Brasil, procure refletir sobre o papel social que elas desempenharam na sociedade e seus
impactos junto à população trabalhadora.

LEITURA
Leia o artigo intitulado Gênero e assistência: considerações histórico-conceituais sobre práti-
cas e políticas assistenciais, de autoria da historiadora Ana Paula V. Martins, sobre os cuida-
dos e a organização da assistência social no Brasil, clicando no link:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702011
000500002>

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Manuel Manrique. História do Serviço Social na América Latina. Tradução
de José Paulo Netto e Balkys Villa Lobos. São Paulo: Cortez, 2011.

ESTEVÃO, Ana Maria. O que é Serviço Social. 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil.
Esboço de uma interpretação histórico-metodológica.

MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. São Paulo: Cortez, 2011.

MARTINS, Ana Paula Vosne. Gênero e assistência: considerações histórico-concei-


tuais sobre práticas e políticas assistenciais. História, Ciências, Saúde –Manguinhos,
Rio de Janeiro, v.18, supl. 1, dez. 2011, p.15-34.

SITE BRASIL ESCOLA. <www.brasilescola.com>

capítulo 2 • 43
NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo você conhecerá a formação acadêmica em Serviço Social, as diretrizes
curriculares e os programas de pós-graduação da área.

44 • capítulo 2
3
Formação
Profissional em
Serviço Social
3  Formação Profissional em Serviço Social
Neste capítulo será apresentado o tema da formação acadêmica dos alunos dos
cursos de Serviço Social, suas principais diretrizes e inclui também a apresen-
tação dos cursos de pós-graduação em Serviço Social.

OBJETIVOS
• Apresentar a ABEPSS (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social),
entidade responsável pela coordenação e articulação do projeto de formação profissional;
• Apontar a situação da formação profissional na graduação e pós-graduação
• Discutir as diretrizes curriculares previstas para o curso de Serviço Social

REFLEXÃO
Você se lembra dos motivos que o levaram a escolher este curso de graduação? A princípio,
o ingresso na profissão de assistente social exigia vocação e renúncia pessoal. Atualmen-
te, o compromisso ético-político somado ao arcabouço teórico-metodológico garantem um
profissional competente e engajado ao projeto da categoria. Além disso, o assistente social
inserido na divisão sociotécnica do trabalho é um trabalhador assalariado como tantos outros
que também precisa lutar por melhores condições de trabalho e remuneração permanente-
mente, não podendo exercer suas atividades profissionais de forma voluntária.

3.1  O processo de formação profissional

A formação profissional consiste em um espaço de reprodução da profissão,


além de se tratar de um contexto no qual a cultura profissional é organizada e
reorganizada. Devido a essas características, não é exagero afirmar que o pro-
cesso de formação profissional envolve um aspecto de complexidade, pois o
objeto da profissão é extremamente complexo. Cabe lembrar que o assistente
social possui enquanto objeto profissional as manifestações da questão social
na realidade e que esta encontra-se em constante modificação e vem se comple-
xificando à medida que as estratégias de reprodução do capitalismo tornam-se
mais sofisticadas. A formação está entrelaçada ao objeto profissional, o que

46 • capítulo 3
permite compreender os motivos pelos quais o processo de formação profis-
sional é bastante complexo.
O processo de formação profissional não se restringe ao ensino em Serviço So-
cial: trata-se de um processo contínuo e inacabado de autoqualificação. A educação
permanente é uma premissa importante para aqueles que escolhem a profissão de
assistente social, pois a atualização é sempre necessária para quem lida diretamen-
te com a realidade social.
Outro aspecto importante da for-

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mação profissional é a construção de
saberes a respeito da prática social. O
assistente social, seja aquele que está
envolvido com a pesquisa inserido em
programas de pós-graduação, ou mes-
mo aquele que está atuando na prática
deve buscar construir conhecimento so-
bre a realidade social e sobre as manifestações da questão social na população.
A investigação ou pesquisa acerca realidade é uma das dimensões do exercício
profissional, como veremos em capítulo posterior.
O ensino acadêmico em Serviço Social equivalente à graduação objetiva a
preparação inicial para o exercício profissional, direcionando o profissional
quanto ao referencial teórico-metodológico, ético-político e técnico-operativo.
É essencial que durante a graduação, os discentes de Serviço Social compreen-
dam o processo de formação em sua totalidade, o que envolve sua historicidade
e sua relação com a realidade social e deve abranger as três dimensões acima
citadas: a teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa.
Ao estudarmos a gênese do Serviço Social no primeiro capítulo deste livro,
vimos que o Serviço Social surgiu como uma estratégia de enfrentamento da
questão social proposta pela burguesia. No contexto histórico brasileiro, pu-
demos perceber que o surgimento da profissão coincide com o fim da escravi-
dão e início do assalariamento e teve forte influência da Igreja Católica através
do apostolado laico. As entidades criadas pela igreja para disseminação de sua
doutrina social foi impactante para a expansão de ações sociais, dando as bases
para a criação da profissão, sendo que o CEAS, fundado pela Igreja Católica, re-
presentou um marco na atribuição de maior efetividade às ações filantrópicas.

capítulo 3 • 47
Pode-se afirmar que a pedra angular da formação em seus primórdios teve
forte influência europeia do modelo franco-belga, se lembrarmos que o primeiro
curso de qualificação de agentes da prática social, denominado Curso Intensivo
de Formação Social para Moças, foi ministrado pela assistente social belga Adèle
de Loneuax, da Escola Católica de Serviço Social de Bruxelas. Havia forte influên-
cia do ideário franco-belga de ação social que se baseava no pensamento de São
Tomás de Aquino (o tomismo do século XII) e em sua retomada por Jacques Ma-
ritain na França e pelo Cardeal Mercier na Bélgica (neotomismo no fim do século
XIX). O modelo fundamentava-se numa linha de apostolado do “servir ao outro”,
tomando como base o princípio neotomista de salvar corpo e alma. O modelo
franco-belga limitou-se a uma formação essencialmente doutrinária e moral.
A partir de 1940, sob a influência do desenvolvimentismo e das técnicas nor-
te-americanas de ação social, há uma grande ênfase na questão metodológica
com o intuito de modernização da profissão no Brasil. A aproximação do país
com os Estados Unidos da América (EUA) repercurtiu diretamente na profis-
são, que passou a utilizar metodologias de ação que tornassem a prática profis-
sional mais eficaz. Nesta época, a formação profissional tinha seus alicerces no
ensino das metodologias de Caso, Grupo e Desenvolvimento de Comunidade e
adquiriu um perfil mais técnico, afastando-se do pensamento católico.
A partir da década de 1960, aumentou-se a exigência quanto a um profissio-
nal mais moderno e ocorreu a vinculação efetiva com as disciplinas atreladas às
Ciências Sociais, como a Sociologia, a Psicologia Social e a Antropologia. Estas
passaram a integrar o currículo da graduação, sendo disciplinas ministradas
nos primeiros anos do curso. A laicização da formação, ou seja, a desvinculação
da fundamentação teórica da profissão do pensamento cristão, ocorreu neste
período, iniciando-se a ruptura com o Serviço Social tradicional e a renovação
da profissão através do chamado Movimento de Reconceituação.
O Movimento de Reconceituação propiciou alguns desdobramentos que se dis-
tinguiram de acordo com a perspectiva teórica adotada, não se constituindo um
movimento homogêneo. Alguns autores citam três perspectivas:

1.  A perspectiva de modernização conservadora: ênfase na especialização


e avanço técnico-científico – impulsionada pela metodologia do De-
senvolvimento de Comunidade;

48 • capítulo 3
2.  A perspectiva de reatualização do conservadorismo: orientação fenome-
nológica, valorização da subjetividade;

3.  A perspectiva de intenção de ruptura: rompimento com o conservado-


rismo e adoção da teoria marxiana.5

Nos anos de 1978-1979, emanou o movimento de revisão curricular, que foi


oficializada pelo Conselho Nacional de Educação em 1982. A partir da revisão,
novos objetivos foram propostos, assim como outros conteúdos foram defini-
dos, enfatizando-se a função social da formação profissional e a importância
de uma prática consciente, inserida no contexto das relações de classe. O Có-
digo de Ética Profissional de 1986 apresentou muitos avanços nessa direção e
buscou privilegiar a atenção às demandas atreladas aos interesses das classes
subalternas. Ocorreu um giro no perfil profissional: de um perfil apenas técni-
co para um perfil técnico-intelectual; de um profissional que apenas intervinha
na realidade para um profissional qualificado em termos de competências e
habilidades para apreender as relações e os processos sociais.
No ano de 1996, criou-se um currículo mínimo para a formação em Serviço
Social e no ano de 2002, houve a aprovação pelo Ministério da Educação e Cultura
(MEC) das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Serviço Social. Tais
diretrizes apresentavam a perspectiva da teoria social-crítica, a luta pela emanci-
pação humana, pela construção de uma sociedade sem dominação e exploração
e trazia a “questão social” como o grande alicerce sócio-histórico da formação.

3.2  A ABEPSS

A Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) foi cria-


da em 1946, logo após a criação do primeiro curso de Serviço Social da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. A princípio, a entidade era deno-
minada Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS). No ano de
1979, a ABESS assumiu a tarefa de coordenar e articular o projeto de formação
profissional, passando a se chamar Associação Brasileira de Ensino de Serviço
Social. No ano de 1980, houve a criação do Centro de Documentação e Pesquisa
em Políticas Sociais e Serviço Social (CEDEPSS) devido às demandas advindas do

5 Marxiana: abordagem da teoria marxista a partir das próprias obras de Karl Marx.

capítulo 3 • 49
surgimento dos cursos de Pós-Graduação. Na década de 1990, a ABESS passou a
ser denominada ABEPSS, mudança justificada pela indissociabilidade do ensi-
no e pesquisa, além da explicitação da natureza científica da entidade. A ABEPSS
organiza o Encontro Nacional de Pesquisadores de Serviço Social – ENPESS, de
dois em dois anos, além de oficinas, encontros e assembleias.
De acordo com seu Estatuto, trata-se de uma “entidade civil, de natureza aca-
dêmico-científica de âmbito nacional, de direito privado, sem fins lucrativos e
com duração indeterminada.” Apresenta os seguintes objetivos:

50 • capítulo 3
I – propor e coordenar a política de formação profissional na área de Serviço Social
que associe organicamente ensino, pesquisa e extensão e articule a graduação com a
pós-graduação; II – fortalecer a concepção de formação profissional como um proces-
so que compreende a relação entre graduação, pós-graduação, educação permanen-
te, exercício profissional e organização política dos assistentes sociais; III – contribuir
para a definição e redefinição da formação do assistente social na perspectiva do
projeto ético-político profissional do Serviço Social na direção das lutas e conquis-
tas emancipatórias. IV – propor e coordenar processos contínuos e sistemáticos de
avaliação da formação profissional nos níveis de Graduação e Pós-Graduação. V –
estimular intercâmbios e colaborações nacionais e internacionais entre as Unidades
de Formação Acadêmica, grupos de pesquisa, pesquisadores, entidades representati-
vas da categoria dos assistentes sociais; VI – promover articulação entre associações
acadêmicas e científicas congêneres; VII – apoiar iniciativas de criação de Programas
de Pós-Graduação na área de Serviço Social no país; VIII – acompanhar o processo
de autorização, reconhecimento e renovação dos cursos de Graduação e Programas
de Pós-Graduação; IX – fomentar e estimular a formação e consolidação de grupos
de pesquisa nas universidades e/ou outras instituições voltadas para a pesquisa; X –
estimular a publicação da produção acadêmica na área de Serviço Social e assegurar
a publicação semestral da Revista Temporalis como revista nacional da ABEPSS; XI
– divulgar cadastro de pesquisadores em Serviço Social; XII – promover eventos aca-
dêmico-científicos na área do Serviço Social; XIII – manter atualizadas as subáreas de
conhecimento e especialidades em Serviço Social nos órgãos de fomento à pesquisa
adequando-as aos eixos temáticos de orientação acadêmico-científica definidos no
âmbito da ABEPSS; XIV – representar e defender os interesses da área de Serviço
Social, nas agências de fomento no que se refere ao ensino, pesquisa e extensão;
XV – fortalecer a concepção de ensino de graduação presencial, denso, crítico, laico
e numa perspectiva de totalidade. (ESTATUTO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
ENSINO E PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL- ABEPSS, 2008)

CONEXÃO
A TEMPORALIS é uma revista criada em 2000 editada pela ABEPSS e se destina a publi-
cação de trabalhos científicos sobre temas atuais e relevantes no âmbito do Serviço Social,
áreas afins e suas relações interdisciplinares. Visite o site da revista acessando o link:

capítulo 3 • 51
<http://periodicos.ufes.br/temporalis>

A ABEPSS mantém Grupos Temáticos vinculados a sua estrutura; tais gru-


pos são formados por pesquisadores de Serviço Social e áreas afins e funcio-
nam com autonomia. Desenvolvem reflexão teórica a respeito de temas impor-
tantes na área social e buscam a produção e circulação do conhecimento, além
de promoverem debates sobre as principais linhas de pesquisa na área de Ser-
viço Social, dentre elas:

•  Trabalho, Questão Social e Serviço Social;


•  Política social e Serviço Social;
•  Serviço Social: fundamentos, formação e trabalho profissional;
•  Movimentos Sociais e Serviço Social;
•  Questões Agrária, Urbana, Ambiental e Serviço Social;
•  Serviço Social, Relações de Exploração/Opressão de Gênero, Raça/Etnia,
Geração, Sexualidades

3.3  Diretrizes curriculares

A formação profissional em Serviço Social sofreu várias modificações na última


década, acompanhada das mudanças ocorridas na política educacional nacio-
nal. De acordo com a resolução nº 15 de 13 de março de 2002, ficaram estabele-
cidas as diretrizes curriculares para os cursos de Serviço Social.

Em seu Art. 2o, a resolução traz que o projeto pedagógico de formação profissional a
ser oferecida pelo curso de Serviço Social deverá explicitar:
a) o perfil dos formandos;
b) as competências e habilidades gerais e específicas a serem desenvolvidas;
c) a organização do curso;
d) os conteúdos curriculares;
e) o formato do estágio supervisionado e do Trabalho de Conclusão do Curso;
f) as atividades complementares previstas. (Ministério da Educação, 2012)

A resolução dispõe sobre cada um dos aspectos que devem estar explicita-
dos no projeto pedagógico, a começar pelo perfil exigido dos formandos:

52 • capítulo 3
Profissional que atua nas expressões da questão social, formulando e implementando
propostas de intervenção para seu enfrentamento, com capacidade de promover o
exercício pleno da cidadania e a inserção criativa e propositiva dos usuários do Ser-
viço Social no conjunto das relações sociais e no mercado de trabalho. (Ministério da
Educação, 2012)

Em relação às competências e habilidades a serem viabilizadas, destacam-se:


1.  Capacitação teórico-metodológica e ético-política;
2.  Compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvi-
mento sócio-histórico;
3.  Preparação para a formulação de respostas ao enfrentamento da ques-
tão social.
Quanto aos conteúdos a serem ministrados nas disciplinas do curso de Ser-
viço Social, a resolução aponta três núcleos de fundamentação da formação
profissional:

• núcleo de fundamentos teórico-metodológicos da vida


social, que compreende um conjunto de fundamentos
teórico-metodológicos e ético-políticos para conhecer
o ser social;

• núcleo de fundamentos da formação sócio-histórica da


sociedade brasileira, que remete à compreensão das ca-
racterísticas históricas particulares que presidem a sua
formação e desenvolvimento urbano e rural, em suas di-
versidades regionais e locais;

• núcleo de fundamentos do trabalho profissional, que


compreende os elementos constitutivos do Serviço So-
cial como uma especialização do trabalho: sua trajetória
histórica, teórica, metodológica e técnica, os compo-
nentes éticos que envolvem o exercício profissional, a
pesquisa, o planejamento e a administração em Serviço
Social e o estágio supervisionado.

capítulo 3 • 53
Os núcleos englobam um conjunto de conhecimentos e
habilidades que se especifica em atividades acadêmicas,
enquanto conhecimentos necessários à formação profissio-
nal. Essas atividades, a serem definidas pelos colegiados, se
desdobram em disciplinas, seminários temáticos, oficinas/
laboratórios, atividades complementares e outros compo-
nentes curriculares. ( Ministério da Educação, 2012)

O documento também especifica a necessidade de supervisão sistemática


dos estágios enquanto atividade obrigatória na formação e a possibilidade de
realização de atividades complementares, como por exemplo, monitoria, ini-
ciação científica, participação em seminários e projetos de extensão.
O decreto nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei de Di-
retrizes e Bases da Eduacação Nacional de 1996, possibilitou a oferta de cursos de
ensino superior à distância. Tal decreto aumentou consideravelmente o número
de cursos de Serviço Social no país e consequentemente o número de formandos.
Tal expansão gera algumas preocupações a entidades como ABEPSS e CFESS,
principalmente em relação à manutenção da qualidade do ensino nas institui-
ções de ensino superior e às dificuldades que estes profissionais terão para se
inserir no mercado de trabalho.

Segundo dados do CFESS, o contingente profissional indicava 110.000 assistentes


sociais, o que significa que, pela primeira vez na história da profissão, o número de
alunos supera o de profissionais, o que confirma a tese de Iamamoto (2008) acerca
da formação de um exército assistencial de reserva. (Lewgoy, A. M. B; Maciel, A. L. S.;
Reidel, T., 2013)

Neste sentido, a produção científica da área de Serviço Social vem desenvol-


vendo pesquisas sobre a formação profissional e apontando lacunas que pos-
sibilitem identificar os pontos a serem melhorados para o fortalecimento do
projeto de formação da área.

3.4  Pós-graduação em Serviço Social

O surgimento dos primeiros programas de pós-graduação no país ocorreu a

54 • capítulo 3
partir da década de 1930, com franca expansão a partir da década de 1960. As
transformações políticas, sociais, econômicas e culturais do período ditatorial,
com forte incentivo ao sistema capitalista geraram a necessidade de determi-
nado suporte tecnológico e científico à política de modernização. Organizados
nos moldes da estrutura educacional norte-americana, os programas de pós-
graduação privilegiavam ( e ainda privilegiam) a formação de técnicos para
atuarem nas políticas de desenvolvimento nacional e o estímulo a pesquisas
voltadas para atender os interesses do mercado.
Nesse contexto de modernização conservadora se dá a criação dos primeiros
programas de pós-graduação em Serviço Social, sendo que os primeiros cursos
foram implantados nas Universidades Católicas de São Paulo e Rio de Janeiro.

É também neste contexto e conjuntura, no marco do projeto e do processo de moder-


nização conservadora, tendo em vista a necessidade de desenvolver as forças pro-
dutivas e de construir um perfil de profissional que lhe fosse funcional, que se dá a
criação da pós-graduação em Serviço Social no Brasil, com claro perfil tecnológico
e parametrizada pelo modelo norte-americano, sendo os primeiros cursos implanta-
dos nas Universidades Católicas de São Paulo e do Rio de Janeiro, ambos em 1972.
(GUERRA, 2011, p. 131)

O Movimento de Reconceituação da profissão, já citado em capítulo an-


terior deste livro, desperta a preocupação com a qualificação profissional e
com a pesquisa. A categoria passa a reivindicar novos aportes teóricos crítico-
-sociais que exigem uma renovação da formação do assistente social também
nos programas de pós-graduação. E é por meio da vertente crítico-social, fun-
damentada no marxismo, que o Serviço Social consolida sua legitimidade no
campo acadêmico, adquirindo maturidade intelectual.
O ano 2000 e os que se seguem apresentaram desafios importantes para a
produção intelectual e para os programas de pós-graduação brasileiros, princi-
palmente aqueles da área de humanas. Vemos na contemporaneidade a predo-
minância da lógica mercantilista e a educação, em todos os seus níveis, sendo
instrumentalizada para responder às necessidades do capital e dos serviços ofe-
recidos no mercado. Com isso, acompanha-se um processo de sucateamento da
educação e o aumento de parcerias entre universidades e empresas, assim como
a participação de pesquisadores no desenvolvimento de novas tecnologias di-

capítulo 3 • 55
recionadas às empresas, o que coloca em risco a autonomia das universidades.

CONEXÃO
Para mais informações sobre a lei que prevê ações de inovação tecnológica, consulte o link
da legislação que dispõe sobre os incentivos à inovação e à pesquisa científica. <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.973.htm>

Neste sentido, a proposta de um Serviço Social crítico à ordem capitalista vi-


gente tem incentivo limitado, principalmente em relação a financiamento para
pesquisas.

Quanto aos parcos recursos disponibilizados, não é qualquer pesquisa que recebe
apoio financeiro: há uma clara depreciação das instituições dedicadas à pesquisa,
pressionadas, a partir dos critérios de avaliação, sob critério de rentabilidade e lucro, a
oferecerem soluções ao setor produtivo-mercantil submetendo seus objetivos acadê-
micos aos resultados imediatos. (GUERRA, 2011, p. 142)

Contudo, a pós-graduação em Serviço Social no Brasil, após mais de dez


anos de investimento em sua consolidação pela ABEPSS, vem se apresentando
como uma área fecunda.
A pós-graduação em Serviço Social é exercida majoritariamente pelas uni-
versidades públicas, com pouca expressividade nas instituições privadas. De
acordo com o Relatório Trienal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pesso-
al de Nível Superior (CAPES) produzido no ano de 2013, a área de Serviço Social
é composta por 31 programas de pós-graduação, a maioria deles concentrado
na Região Sudeste.
O crescimento dos cursos de Mestrado e Doutorado em Serviço Social vêm
ocorrendo gradualmente, possibilitando maior acesso ao processo de forma-
ção de docentes na área. O quadro a seguir mostra como os pesquisadores
estão organizados para realizarem seus estudos científicos.

56 • capítulo 3
ESTRUTURAS DE PESQUISA TOTAL DESCRIÇÃO

04 São Paulo
01 no Pará
03 no Rio de Janeiro
Grupos de pesquisa (Cadas- 01 em Santa Catarina
trados na Plataforma Carlos 19 03 em Porto Alegre
Chagas do CNPq) 03 na Bahia
01 em Tocantins
03 em Minas Gerais
01 no Sergipe

30 Programas ern funcionamento e


Cursos de Pós-Graduação em
em organização
Serviço Social (Em funciona- 31
10 Programas possuem disciplinas
mento segundo a (APES)
relacionadas ao tema da Formação

Quadro 3.1 – Demonstrativo das estruturas de Pesquisa em Serviço Social no Brasil


Fonte: Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Formação e Exercício profissional (GEFESS, 2012).

O dado mais preocupante apresentado no quadro acima diz respeito ao bai-


xo número de programas de pós-graduação que oferecem disciplinas sobre o
tema da formação profissional. Isso pode ser preocupante e traz muitas inda-
gações, como por exemplo, por que a ausência de debate sobre a formação jus-
tamente no contexto de formação de docentes?
O próximo quadro apresenta dados referentes à produção bibliográfica em
Serviço Social que tratam do tema “formação profissional”, publicadas durante
o período de 2000 a 2010.

TIPO DE
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 TOTAL
PRODUÇÃO ANO

ENPESS 10 17 41 35 22 102 227


Anais de
evento
CBAS 31 32 43 64 170

capítulo 3 • 57
Revistas serviço
00 00 00 00 04 04 01 00 10 01 04 20
social e sociedade

Revistas tempo-
14 02 03 00 20 01 03 08 04 10 05 70
ralis

Teses 01 01 02 01 01 01 07

Dissertações 06 03 04 01 02 03 02 01 04 05 31

Total de
30 36 25 02 97 03 44 54 38 16 180 525
produções

Quadro 3.2 – Demonstrativo da produção bibliográfica em Serviço Social sobre formação


profissional no período de 2000 a 2010.
Fonte: Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Formação e Exercício profissional (GEFESS, 2012).

Analisando o quadro, pode-se constatar um aumento na produção bi-


bliográfica da área a respeito de questões relativas à formação profissional,
demonstrando uma importante ação dos acadêmicos na tentativa de dar vi-
sibilidade a tais questões que são de suma importância para a superação das
barreiras institucionais e de outras condições adversas que limitam a formação
de futuros assistentes sociais.

ATIVIDADE
Leia e comente:
Pela primeira vez na história da profissão, o número de alunos supera o de profissionais, o
que confirma a tese de Iamamoto (2008) acerca da formação de um exército assistencial
de reserva.

REFLEXÃO
Algumas mudanças nas políticas de educação superior no país interferiram diretamente no
perfil dos profissionais recentemente formados. Sobre tais mudanças, leia o texto abaixo e
reflita sobre os impactos delas na formação profissional do assistente social.
“Na esteira das mudanças em curso na política de educação superior do início do século
XXI, no Brasil, sublinhamos a gestão de Tarso Genro (2003/2004), na qual foi apresentada
a primeira versão do Projeto Lei da Reforma da Educação Superior no país. Também, nesse
período (2004), foi aprovado o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES),
institucionalizando o papel do Estado como avaliador da política e a Gratificação pelo Exercí-
cio da Docência (GED), materializando a avaliação individual dos docentes por desempenho.
O Programa Universidade para todos (PROUNI), conformando a esfera pública não-estatal,

58 • capítulo 3
mediante a compra de vagas públicas em IES privadas com incentivos fiscais. Também é
apresentado o PL 3627/Política de Cotas, num esforço para dar respostas às históricas de-
sigualdades de acesso das “minorias” ao ensino superior; e a portaria 4059/MEC que aprova
a inclusão da modalidade do ensino semipresencial em até 20% da carga horária total dos
cursos de graduação no país, estimulando o EAD também no ensino presencial.”

Fonte: LEWGOY, A. M. B; MACIEL, A. L. S.; REIDEL, T. A formação em Serviço Social no


Brasil. Temporalis. Brasília (DF), ano 13, n. 25, p. 91-111, jan./jun. 2013. P. 97.

LEITURA
CHAUÍ, Marilena. Reforma do ensino superior e autonomia universitária. Revista Serviço So-
cial & Sociedade, São Paulo, ano 20, 1999.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Lei n° 10.973, de 2 de dezembro de 2004. Dispõe sobre incentivos à inovação e
à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo e dá outras providências. 2004.
Acesso em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Lei/L10.973.
htm> Acesso em: 27 out. 2014.

CAPES. Relatório de Avaliação 2010-2012 Trienal, 2013.

CASTRO, Manuel Manrique. História do Serviço Social na América Latina. Tradução


de José Paulo Netto e Balkys Villa Lobos. 12ed. São Paulo: Cortez, 2011.

ESTEVÃO, Ana Maria. O que é Serviço Social. 6 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.

FERREIRA, Severina Irene Tomaz; BRITO, Dalliana Grisi Ferreira; MIRANDA, Suelle Marce-
lino. A formação profissional do assistente social no Brasil: um estudo de suas
tendências históricas. Trabalho apresentado no XV Encontro Latino Americano de Inicia-
ção Científica e XI Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale
do Paraíba

GUERRA, Y. D. A pós-graduação em serviço social no Brasil: um patrimônio a ser preservado.


Temporalis, Brasilia (DF), ano 11, n.22, p.125-158, jul./dez. 2011.

capítulo 3 • 59
IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil.
Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 40ed. São Paulo: Cortez, 2014.

LEWGOY, A. M. B; MACIEL, A. L. S.; REIDEL, T. A formação em Serviço Social no Bra-


sil. Temporalis. Brasília (DF), ano 13, n. 25, p. 91-111, jan./jun. 2013.

MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. 16ed. São Paulo: Cortez,


2011.

Site da ABEPSS. <www.abepss.org.br>

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo você conhecerá alguns aspectos que condicionam e determinam a prá-
tica profissional em Serviço Social. Além disso, apresentaremos as entidades representativas
da profissão e o projeto ético-político profissional.

60 • capítulo 3
4
Prática profissional
em Serviço Social
4  Prática profissional em Serviço Social
Neste capítulo será abordado o excercício profissional do assistente social, seus
condicionantes internos e externos e suas especificidades. Também falaremos
sobre as entidades representativas da profissão, a fiscalização do exercício pro-
fissional e o projeto ético-político do Serviço Social.

OBJETIVOS
• Compreender as especificidades da profissão, seus condicionantes internos e externos;
• Analisar as entidades representativas e a fiscalização da profissão
• Entender o projeto ético-político enquanto oranização política e construção coletiva da
profissão

REFLEXÃO
Você se lembra de ter ouvido falar a respeito dos Conselhos que defendem e fiscalizam as
profissões? Assim como a Medicina, a Psicologia, a Enfermagem, o Direito e outras profis-
sões, o Serviço Social também possui uma entidade representativa, o Conselho Federal de
Serviço Social, com a finalidade de disciplinar o exercício profissional, de modo que os inte-
resses da categoria sejam assegurados.

4.1  O exercício profissional do assistente social

O Serviço Social é uma profissão marcada por determinações históricas e sociais


provenientes da expansão e desenvolvimento da sociedade capitalista. Sua na-
tureza não pode ser considerada de forma endogenista e a-histórica, como uma
mera profissionalização e sistematização das ações de caridade. Os processos
históricos, políticos e econômicos formados a partir da sociedade de classes,
própria do capitalismo, constituem o contexto de surgimento e expansão da pro-
fissão e não podem ser desconsiderados. O Serviço Social é uma profissão reco-
nhecida na divisão social do trabalho, produzida a partir do desenvolvimento da
industrialização e da urbanização e está inserida no contexto da luta de classes.
O assistente social está inserido na divisão social e técnica do trabalho e pos-

62 • capítulo 4
sui uma utilidade social. Assim como os demais trabalhadores assalariados, ele
necessita vender sua força de trabalho em troca de sua subsitência através do
salário que lhe é pago. A inserção do assistente social no mercado de trabalho
ocorreu a partir do momento que o Estado assumiu a tarefa de propor e admi-
nistrar políticas sociais, pelo qual o profissional do Serviço Social passou a ocu-
par um espaço sócio-ocupacional. Os determinantes do trabalho profissional
constituem interesses antagônicos próprios da luta de classes.
Apesar de se constituir em uma profissão liberal, o Serviço Social não possui
os meios necessários para exercê-la sem que haja sua contratação por alguma
entidade, empresa ou pelo Estado (seu maior empregador na atualidade). En-
tretanto, essa característica possibilita uma autonomia profissional garantida
no Código de Ética da profissão. Outra particularidade da profissão é a relação
direta estabelecida com o usuário com possibilidades distintas de intervenção
de acordo com os objetivos da instituição que a emprega. Outro traço próprio
da profissão é sua indefinição de funções o que permite ampliar suas ações de
acordo com as demandas da instituição.
O assistente social, inserido na divisão sociotécnica do trabalho, participa
ativamente da reprodução das relações sociais, estando simultaneamente a
serviço das classes trabalhadoras e respondendo às demandas do capital.

Reproduz também, pela mesma atividade, interesses contrapostos que vivem em ten-
são. Responde tanto a demandas do capital como do trabalho e só pode fortalecer
um ou outro polo pela mediação do seu oposto. Participa tanto dos mecanismos de
dominação e exploração como ao mesmo tampo e pela mesma atividade, da resposta
às necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e da reprodução do antago-
nismo nesses interesses sociais, reforçando as contradições que constituem o móvel
básico da história (IAMAMOTO; CARVALHO, 2001, p.75).

A prática profissional do Serviço Social não pode ter uma visão endógena, que
considere apenas seu ponto de vista. É preciso considerar os condicionantes in-
ternos e os condicionantes externos do trabalho do assistente social. Dentre os
condicionantes internos estão o aprimoramento do instrumental e do desempe-
nho técnico-operativo do profissional. Dentre os condicionates externos es-
tão as circunstâncias sociais e históricas na qual a prática profissional se realiza.
As múltiplas manifestações da questão social são a matéria-prima do pro-
cesso de trabalho do assistente social, ou seja, seu objeto de intervenção. O pro-

capítulo 4 • 63
duto do processo de trabalho são os serviços sociais. Conhecer seu objeto de
intervenção é primordial para a ação profissional.

4.2  A Lei de Regulamentação da Profissão

A Lei no 8.662, de 7 de junho de 1993, que dis-


põe sobre a profissão de Assistente Social e dá
outras providências consite em um dos apa-
ratos legais que regem a profissão. A citada
lei traz em seu início a obrigatoriedade do di-
ploma do curso de Serviço Social e a inscrição
no Conselho Regional de Serviço Social para o
efetivo exercício da profissão. Em seu quarto
artigo, a lei aponta as competências do assis-
tente social, que consistem em dez itens, já
que um deles foi vetado:

I – elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da adminis-


tração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares;
II – elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do
âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil;
III – encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à po-
pulação;
IV – (Vetado);
V – orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identi-
ficar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos;
VI – planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais;
VII – planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da
realidade social e para subsidiar ações profissionais;
VIII – prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indi-
reta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no
inciso II deste artigo;
IX – prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às
políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da cole-
tividade;

64 • capítulo 4
X – planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de
Serviço Social;
XI – realizar estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de benefícios e servi-
ços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas
e outras entidades. (LEI DE REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO, 1993)

Além dos itens já citados a legislação aponta algumas atividades que são pri-
vativas da profissão, como a supervisão de estágio em Serviço Social, a execução
de programas na área de Serviço Social e a realização de perícias sobre a matéria
de Serviço Social. Com a promulgação da Lei 13.317, de 26 de agosto de 2010,
esta foi acrescentada à lei de regulamentação da profissão, incluindo que a car-
ga horária de trabalho do assistente social deverá ser de 30 horas semanais.

Art. 5º Constituem atribuições privativas do Assistente Social:


I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos,
programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar
programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III - assessoria e consultoria e ór-
gãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades,
em matéria de Serviço Social; IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais,
informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social; V - assumir, no magistério
de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e fun-
ções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular;
VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social;
VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação
e pós-graduação; VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo
e de pesquisa em Serviço Social; IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de
exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assis-
tentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X
- coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos
de Serviço Social; XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal
e Regionais; XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou
privadas; XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira
em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. (LEI DE REGULAMEN-
TAÇÃO DA PROFISSÃO, 1993)

capítulo 4 • 65
A referida lei também aborda o tema da inscrição nos Conselhos Regionais
pela qual os Assistentes Sociais realizam o pagamento das contribuições com-
pulsórias (anuidades). Importante mencionar que a Carteira de Identificação
Profissional expedida pelos CRESS servirá de prova para fins de exercício pro-
fissional e também pode ser utilizada como Carteira de Identidade Pessoal em
todo o território nacional.
Outra citação importante é a responsabilidade das Unidades de Ensino de
credenciar e comunicar aos Conselhos Regionais de sua jurisdição os campos
de estágio de seus alunos e designar os Assistentes Sociais responsáveis por sua
supervisão. Ressalta-se que somente os estudantes de Serviço Social, sob super-
visão direta de Assistente Social que esteja em dia com seus deveres profissio-
nais, poderão realizar estágio de Serviço Social. Além disso, em seu Art. 15., a
redação da lei traz a vedação ao uso da expressão Serviço Social por quaisquer
pessoas que não desenvolvam atividades previstas nos artigos que tratam das
competências e atribuições privativas do assistente social (Art. 4º e 5º da lei).
A lei também detalha as competências do Conselho Federal de Serviço Social
(CFESS) e dos Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS) que serão expla-
nadas em item a seguir que trata especificamente do Conjunto CFESS/CRESS
enquanto entidade representativa da categoria.

4.3  As entidades representativas da categoria

4.3.1  Conjunto CFESS/CRESS

De acordo com a Lei 8662, de 7 de junho de 1993, que regulamenta a profissão


de Assistente Social, os Conselhos Regionais de Serviço Social juntamente com
o Conselho Federal de Serviço Social compõem um conjunto (CFESS/CRESS),
uma entidade jurídica com o objetivo de disciplinar e defender o exercício da
profissão em todo o território nacional. Os CRESS possuem autonomia admi-
nistrativa sem prejuízo de sua vinculação ao CFESS.
O Conselho Federal de Serviço Social, com sede no Distrito Federal, foi criado
a partir do decreto 994, de 15 de maio de 1962. Através desta determinação ficou
definido que a fiscalização do exercício profissional caberia ao Conselhos Fede-
ral de Assistentes Sociais (CFAS) e aos Conselhos Regionais de Assistentes Sociais
(CRAS), que mais tarde passou a ser denominado Conselho Federal de Serviço
Social (CFESS) e Conselho Regional de Serviço Social (CRES), respectivamente.

66 • capítulo 4
No início, a atuação do conselho era meramente fiscalizadora e mantinha
caráter autoritário, sem aproximação com a categoria profissional. Assim como
outros conselhos profissionais, exerciam uma função controladora e burocráti-
ca da atividade laboral. As ações se restringiam à inscrição e pagamento da taxa
anual de contribuição. Tal postura conservadora e a-crítica refletia o momento
histórico da profissão na ocasião de seus primeiros anos de funcionamento.
A partir do Congresso da Virada e do Movimento de Reconceituação da Profis-
são, eventos já comentados anteriormente neste livro, as entidades representati-
vas também passaram a assumir uma postura mais comprometida com a demo-
cratização e articulação política entre entidades representativas, profissionais e
movimentos sociais. Foi por meio da disputa pela direção das entidades repre-
sentativas de alguns profissionais imbuídos do novo projeto profissional que se
deu a mudança no interior dos conselhos.

Sintonizada com as lutas pela redemocratização da sociedade, parcela da categoria


profissional, vinculada ao movimento sindical e às forças mais progressistas, se or-
ganiza e disputa a direção dos Conselhos Federal e Regionais, com a perspectiva de
adensar e fortalecer esse novo projeto profissional. Desde então, as gestões que as-
sumiram o Conselho Federal de Serviço Social imprimiram nova direção política às en-
tidades, por meio de ações comprometidas com a democratização das relações entre
o Conselho Federal e os Regionais, bem como articulação política com os movimentos
sociais e com as demais entidades da categoria, e destas com os profissionais. (Fonte:
www.cfess.org.br)

Dentre as atribuições do CFESS estão as tarefas de fiscalização, orientação e


defesa o exercício profissional.

O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) é uma autarquia pública federal que
tem a atribuição de orientar, disciplinar, normatizar, fiscalizar e defender o exercício
profissional do/a assistente social no Brasil, em conjunto com os Conselhos Re-
gionais de Serviço Social (CRESS). Para além de suas atribuições, contidas na Lei
8.662/1993, a entidade vem promovendo, nos últimos 30 anos ações, políticas para a
construção de um projeto de sociedade radicalmente democrático, anticapitalista e em
defesa dos interesses da classe trabalhadora. (Fonte: www.cfess.org.br)

capítulo 4 • 67
Quanto às competências dos CRESS, em suas respectivas áreas de jurisdi-
ção, podemos assinalar:

I - organizar e manter o registro profissional dos Assistentes Sociais e o cadastro das


instituições e obras sociais públicas e privadas, ou de fins filantrópicos;
II - fiscalizar e disciplinar o exercício da profissão de Assistente Social na respectiva
região;
III - expedir carteiras profissionais de Assistentes Sociais, fixando a respectiva taxa;
IV - zelar pela observância do Código de Ética Profissional, funcionando como Tribu-
nais Regionais de Ética Profissional;
V - aplicar as sanções previstas no Código de Ética Profissional;
VI - fixar, em assembléia da categoria, as anuidades que devem ser pagas pelos As-
sistentes Sociais;
VII - elaborar o respectivo Regimento Interno e submetê-lo a exame e aprovação do
fórum máximo de deliberação do conjunto CFESS/CRESS. (Lei 8662, de 7 de junho
de 1993)

O conjunto CFESS/CRESS vem promovendo debates profissionais importan-


tes junto à categoria, como por exemplo, a respeito das revisões dos Códigos de
Ética e da Lei de Regulamentação da Profissão. Em seus encontros nacionais,
fórum máximo de deliberação da profissão, as entidades conduzem discussões
que buscam ampliar os espaços da categoria em defesa dos direitos sociais.
Em relação ao papel fiscalizador do conjunto CFESS/CRESS, o que vemos é
um esforço em identificar as demandas da categoria discutindo-se condições
de trabalho, autonomia, defesa de espaço profissional, atribuições e capacita-
ção. Os CRESS criaram suas Comissões de Fiscalização (COFIs), inicialmente
formadas por conselheiros, sendo posteriormente ampliadas com a contra-
tação de agentes fiscais. E atualmente contam com uma Política Nacional de
Fiscalização, um instrumento fundamental para impulsionar e organizar estra-
tégias políticas e jurídicas conjuntas e unificadas para a efetivação da fiscaliza-
ção profissional em todo o território nacional, levando-se em consideração, no
entanto, as particularidades e necessidades regionais.

68 • capítulo 4
Os espaços de discussões do Conjunto relativos à Política de Fiscalização têm sido
ampliados, a exemplo dos Seminários Nacionais de Capacitação das COFIs que acon-
tecem a cada 2 anos (realizados a partir de 2002), além da continuidade dos Semi-
nários Regionais de Fiscalização que ocorrem juntamente com os Encontros Descen-
tralizados, preparatórios para o Encontro Nacional. Outro espaço previsto é a Plenária
Ampliada, para aprofundamento de alguma temática, e ainda o Projeto Ética em Movi-
mento, espaço privilegiado para a ampliação do debate e reflexão ética. (Fonte: www.
cfess.org.br)

De acordo com o Art. 16º da Lei 8662 de 7 de junho de 1993, os CRESS pode-
rão aplicar penalidades aos infratores da Lei, através de multas, suspensão do
exercício profissional quando este deixar de cumprir o disposto no Código de
Ética ou ainda cancelar definitivamente o registro profissional, caso comprove-
-se a gravidade da infração. Complementa referindo que a penalidade pode se
estender à instituição ou empresa caso se comprove responsabilidade ou coni-
vência com a infração cometida pelo profissional.

CONEXÃO
O CFESS prepara periodicamente documentos que manifestam a opinião da entidade a res-
peito de determinados temas. É o “CFESS Manifesta”. Acesse o link do CFESS Manifesta
sobre o último Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, realizado no ano de 2013.
<http://www.cfess.org.br/arquivos/cfessmanifesta_14cbas-grafica4paginas.pdf>

Para compreender a política de fiscalização do exercício profissional é ne-


cessário distinguir competências de atribuições privativas. A competência é a ca-
pacidade de solucionar algum assunto que não é exclusivo de determinada área
profissional específica. Já a atribuição privativa diz respeito às funções que são
prerrogativas exclusivas de determinada profissão. Portanto, o que delimita a
atividade enquanto privativa do assistente social é sua qualificação enquanto
matéria de Serviço Social. Por sua vez, pode-se afirmar que constituem matéria
de Serviço Social as expressões da questão social

capítulo 4 • 69
4.3.2  ENESSO

A história do movimento estudantil brasileiro teve seu amadurecimento com a cria-


ção da União Nacional dos estudantes (UNE), em 1937. As lutas e manifestações
estudantis foram interrompidas no ano de1964, graças ao golpe militar e a UNE
foi fechada, sendo reaberta apenas em 1979, juntamente com a abertura política.
Neste mesmo período, ocorreu o primeiro Encontro Nacional de Estudan-
tes de Serviço Social (ENESS), no ano de 1978, em Londrina-PR, promovido pelo
Centro Acadêmico da Universidade Estadual de Londrina – UEL. A partir daí,
sucederam os demais encontros e a organização dos estudantes de Serviço So-
cial se fortaleceu, alcançando representatividade nas entidades da categoria
profissional e demais movimentos estudantis.
Atualmente, há a Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social (ENES-
SO), uma entidade representativa dos alunos de Serviço Social cuja direção é
eleita anualmente no ENESS. A entidade reconhece a UNE como a instância
máxima representativa do movimento estudantil, mas mantém sua autono-
mia. Dentre as finalidades da instituição, estão:

a) fomentar e potencializar a formação político-profissional dos estudantes de Serviço


Social, bem como suas entidades representativas;
b) promover o fortalecimento político-organizacional das entidades de base (CA’s ou DA’s);
c) promover o debate acerca dos problemas dos estudantes de Serviço Social;
d) Garantir o contato permanente dos estudantes de Serviço Social com a categoria
dos Assistentes Sociais, suas entidades nacionais e latino-americanas;
e) Viabilizar a integração com os movimentos populares e sociais como forma de cres-
cimento político dos estudantes e de reforço e ampliação das lutas desses movimentos;
f) Consolidar o contato com as demais executivas de curso a fim de reforçar o papel
destas no movimento estudantil e construir novas alternativas de luta para o movimento.
g) Coordenar e organizar nos encontros Estaduais, Regionais e Nacionais, junto às es-
colas sede dos eventos, buscando a articulação com as demais entidades da categoria
para a realização dos mesmos.
h) Apoiar a construção e organização de CA’s onde não existam os mesmos.
(Fonte: http://enesso.xpg.uol.com.br/enesso/estatuto.htm)

70 • capítulo 4
No ENESS, organizado anualmente, ocorrem as deliberações a respeito da or-
ganização política do movimento estudantil em relação a questões pertinentes ao
Serviço Social. Existem também os Encontros Regionais de Serviço Social (ERESS),
os Conselhos Nacionais de Estudantes de Serviço Social (CONESS) e os Conselhos
Regionais de Estudantes de Serviço Social (CORESS) nos quais ocorrem a discus-
são sobre a formação política e profissional no nível nacional ou regional.

CONEXÃO
Para obter mais informações sobre a ENESSO, acesse o site da entidade: <http://enesso.
xpg.uol.com.br/>

A ENESSO também realiza bienalmente e de forma alternada Seminários


Nacionais e Regionais de Formação Profissional e Movimento Estudantil em
Serviço Social, cujo público alvo são estudantes de Serviço Social a nível nacio-
nal ou regional, entidades representativas, profissionais em nível nacional ou
regional e a comunidade em geral. Os seminários se constituem numa instân-
cia de discussão e proposição acerca da formação profissional, do movimento
estudantil e, em especial, da formação político-pedagógica dos estudantes e de
suas entidades representativas. Há espaços destinados à apresentação de pro-
duções discentes, oriundas da iniciação científica, extensão, estágio curricular
e monografias de conclusão de curso, proporcionando a socialização da produ-
ção acadêmica no âmbito nacional ou regional.

4.4  O projeto ético-político

O Serviço Social, em sua concepção sócio-histórica, é uma profissão tida como


uma especialização do trabalho coletivo que objetiva, através de sua prática,
o enfrentamento das expressões da questão social. O projeto ético-político da
profissão busca um sentido e uma direção ao exercício profissional, respeitan-
do sua dinamicidade própria e seu caráter complexo e propiciando a constru-
ção coletiva da identidade da profissão. Além disso, tal projeto orienta a pró-
pria formação profissional em relação aos conteúdos a serem ministrados nas
disciplinas. Assim como os projetos societários, é um projeto coletivo e busca
representar os interesses da categoria e elaborar sua própria identidade.

capítulo 4 • 71
O projeto ético-político revela a autoimagem da profissão, seus valores e
princípios, suas funções e seus requisitos, define regras. Ele está disposto no
Código de Ética da Profissão, promulgado em 1993, onde estão definidos os
princípios que regem a profissão. São eles:

I. Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a


ela inerentes - autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais;
II. Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo;
III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda so-
ciedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes traba-
lhadoras;
IV. Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação
política e da riqueza socialmente produzida;
V. Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade
de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como
sua gestão democrática;
VI. Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito
à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das
diferenças;
VII. Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas
existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramen-
to intelectual;
VIII. Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma
nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero;
IX. Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem
dos princípios deste Código e com a luta geral dos/as trabalhadores/as;
X. Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com o aprimo-
ramento intelectual, na perspectiva da competência profissional;
XI. Exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar, por questões
de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual,
identidade de gênero, idade e condição física.

É importante citar que apesar de hegemônico, tal projeto ético-político não


é único. Também faz-se importante mencionar seu caráter histórico e inaca-
bado, sujeito a mudanças e reconstruções. Seu caráter democrático procura

72 • capítulo 4
traçar uma noção clara da profissão e, além de se materializar no Código de
Ética Profissional, também está presente nas diretrizes curriculares e na lei que
regulamenta a profissão.

ATIVIDADE
Aponte os principais aspectos do Projeto Ético-político do Serviço Social.

REFLEXÃO
Leia o texto abaixo e comente sobre o exercício profissional do assistente social que precisa
se distanciar de um agir imediato.
“Em uma sociedade, como a nossa, que se organiza por esta lógica de mercado, as
pessoas são importantes enquanto são produtivas e quando não produzem, é como se já
não fossem nem sequer seres humanos. É impressionante constatarmos como o econômico
invade as relações sociais e como certas práticas retiram cidadania dos sujeitos, fragilizando
a sua já frágil condição humana. Não dialogam com os sujeitos em sua plenitude, descon-
sideram a sua consciência política, reduzindo o campo de intervenção do Serviço Social ao
mero atendimento pontual da solicitação das pessoas. Nosso ato profissional é muito mais
pleno do que o atendimento imediato da solicitação. É muito maior do que isso. Certamente,
vamos prestar o atendimento, mas tendo até mesmo a coragem em alguns momentos de
recolher aquele gesto espontâneo da resposta imediata.
A nobreza de nosso ato profissional está em acolher aquela pessoa por inteiro, em co-
nhecer a sua história, em saber como chegou a esta situação e como é possível construir
com ela formas de superação deste quadro. Se reduzirmos a nossa prática a uma resposta
urgente a uma questão premente, retiramos dela toda sua grandeza, pois deixamos de con-
siderar, neste sujeito, a sua dignidade humana.” (Martinelli, 2006, p. 11)

LEITURA
Recomenda-se a leitura da publicação do CFESS sobre as atribuições privativas do assisten-
te social, produzido pela Comissão de Orientação e Fiscalização (COFI). Acesse o link para
fazer o download gratuito do documento na íntegra:
<http://www.cfess.org.br/arquivos/atribuicoes2012-completo.pdf>

capítulo 4 • 73
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Manuel Manrique. História do Serviço Social na América Latina. Tradução
de José Paulo Netto e Balkys Villa Lobos. 12ed. São Paulo: Cortez, 2011.

CFESS. Conselho Federal de Serviço Social. Código de Ética do Assistente Social. 10ed.
Brasília, 2012.

ESTEVÃO, Ana Maria. O que é Serviço Social. 6 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.

IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil.
Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 40ed. São Paulo: Cortez, 2014.

MARTINELLI, Maria Lúcia. Reflexões sobre o Serviço Social e o projeto ético-político profis-
sional. Emancipação, 6(1): 9-23, 2006,

MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. 16ed. São Paulo: Cortez,


2011.

MARTINELLI, M. L. Sentido e direcionalidade da ação profissional: projeto ético-político em


serviço social. In: BAPTISTA, Myrian Veras; BATTINI, Odária (orgs). A prática profissional
do assistente social: teoria, ação, construção do conhecimento.Volume 1, 2009.

Site do Conselho Federal de Serviço Social. www.cfess.org.br

SOUZA, Maciela Rocha. Serviço Social e o exercício profissional: desafios e perspectivas


contermporâneas. Revisa Eletrônica da Faculdade José Augusto Vieira. Ano V. n.7,
setembro /2012.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo abordaremos as dimensões do exercício profissional, sendo elas: a di-
mensão ético-política, a dimensão teórico-metodológica, a dimensão técnico-operativa e a
dimensão investigativa. Tais dimensões são separadas didaticamente mas devem estar inte-
gradas durante a atuação profissional.

74 • capítulo 4
5
O Serviço Social e
suas dimensões
5  O Serviço Social e suas dimensões
O exercício do Serviço Social perpassa algumas dimensões que propiciam uma
atuação engajada no projeto político da profissão, permitindo uma interven-
ção qualificada sobre a realidade social. São elas: a dimensão ético-política, a
dimensão teórico-metodológica, a dimensão técnico-operativa e a dimensão
investigativa. É o que estudaremos neste capítulo.

OBJETIVOS
• Conhecer as dimensões que integram a prática profissional em Serviço Social
• Refletir sobre a intevenção sobre a realidade social
• Apreender as possibilidades de exercício profissional alinhado ao projeto profissional
da profissão.

REFLEXÃO
Você se lembra do projeto ético-político profissional, citado no capítulo anterior? Ele é a base
para um exercício profissional em consonância com um Serviço Social transformador e nor-
teia todas as dimensões da atuação do assistente social.

5.1  A dimensão ético-política

Pensar a dimensão ético-política da profissão implica em situar a profissão no


movimento dinâmico da sociedade que pode tanto reproduzir as relações so-
ciais quanto transformá-las. A profissão apresenta origens burguesas e ao lon-
go de sua história atendeu às demandas do capital, ratificando-o e mantendo
a exploração da classe trabalhadora. Romper com tais origens e construir seu
próprio projeto profissional significa participar coletivamente do processo de
produção de novas relações sociais, rompendo com a alienação e com as amar-
ras do sistema capitalista.

76 • capítulo 5
Um contexto sócio-histórico refratário aos influxos democráticos exige, contraditoria-
mente, a construção de uma nova forma de fazer política - que impregne a formação e o
trabalho dos assistentes sociais - capaz de acumular forças na construção de novas re-
lações entre o Estado e a sociedade civil que reduzam o fosso entre o desenvolvimento
econômico e o desenvolvimento social, entre o desenvolvimento das forças produtivas
e das relações sociais. Requer, portanto, uma concepção de cidadania e de democracia
para além dos marcos liberais. A cidadania entendida como capacidade de todos os
indivíduos, no caso de uma democracia efetiva, de se apropriarem dos bens socialmente
produzidos, de atualizarem as potencialidades de realização humana, abertas pela vida
social em cada contexto historicamente determinado. (IAMAMOTO, 2004, P. )

A dimensão ético-política da profissão implica em assumir uma luta social


pela transformação da sociedade. Nesse sentido, a profissão construiu princípios
que norteiam o cotidiano profissional para uma ação ético-política transforma-
dora. Tais princípios estão presentes no Código de Ética do assistente social:

• O reconhecimento da liberdade como valor ético central, que requer o reconheci-


mento da autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais e de
seus direitos;

• A defesa intransigente dos direitos humanos contra todo tipo de arbítrio e autori-
tarismo;

• A defesa, aprofundamento e consolidação da cidadania e da democracia – da so-


cialização da participação política e da riqueza produzida;

• O posicionamento a favor da equidade e da justiça social, que implica a universali-


dade no acesso a bens e serviços e a gestão democrática;

• O empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, e a garantia do plu-


ralismo;

• O compromisso com a qualidade dos serviços prestados na articulação com outros


profissionais e trabalhadores. (CFESS, 2012)

capítulo 5 • 77
5.2  A dimensão teórico-metodológica

A dimensão teórico-metodológica do Serviço Social inclui as correntes teóricas


que fundamentaram e fundamentam sua prática ao longo dos anos de seu pro-
cesso de surgimento e desenvolvimento. Para iniciar é importante lembrar que
o Serviço Social é uma profissão inscrita na divisão sociotécnica do trabalho e,
portanto, exerce uma atividade especializada.
Como já citado anteriormente, a profissão surgiu nos ardis do capitalismo
e se desenvolveu sob forte influência das ações de caridade cristãs e doutrinas
da Igreja Católica. O caráter de apostolodado que a profissão obteve em sua
gênese possibilitou que a abordagem dos indivíduos tivessem cunho religioso.
A questão social era vista como um problema moral e o assistente social deveria
trabalhar para ajustar o comportamento dos indivíduos para que estes se inte-
grassem à sociedade capitalista.
Os referenciais teórico-metodológicos orientadores da ação tinham sua
fonte na Doutrina Social da Igreja, no ideário franco-belga de ação social e no
pensamento de São Tomás de Aquino (séc. XII): o tomismo e o neotomismo(re-
tomada no fim do século XIX do pensamento tomista por Jacques Maritain na
França e pelo Cardeal Mercier na Bélgica).
Dentre os postulados filosóficos tomistas, incluem:

•  O conceito de dignidade da pessoa humana;

•  A capacidade de desenvolver potencialidades;

•  A perfectibilidade;

•  A natural sociabilidade do homem;

•  A compreensão da sociedade como união dos homens para o bem comum;

•  A necessidade da autoridade para cuidar da justiça.

Em meados dos anos 1940, o Serviço Social entra em contato com a teo-
ria positivista trazida pelas técnicas norte-americanas de intervenção social.
A abordagem positivista analisa os fatos a partir de sua aparência, abstraindo
aquilo que é invariável. Restringe-se ao que se pode verificar, de forma a obter
uma visão fragmentada da realidade. Não aponta mudanças, apenas ajustes e
manutenção. A valorização das técnicas e da eficiência são características das
práticas positivistas.

78 • capítulo 5
Pode-se afirmar que, o Serviço Social, em sua fase embrionária, esteve am-
plamente voltado para a manutenção da ordem social e amenização das mazelas
sociais com vistas a apoiar a classe dominante e fortalecer o sistema capitalista.
Com o passar do tempo, a categoria profissional passou a questionar seu
papel social tradicional e após o Movimento de Reconceituação, buscou rom-
per com o Serviço Social conservador. O aprofundamento da produção intelec-
tual da categoria resultou em três vertentes:
•  A vertente modernizadora, caracterizada pela incorporação de aborda-
gens funcionalistas, estruturalistas e sistêmicas. Constituem o projeto
renovador tecnocrático fundado na busca por eficiência e eficácia.

•  A vertente inspirada na fenomenologia, dirigida aos sujeitos e suas vivên-


cias. Prioriza a concepção de diálogo, pessoa e transformação do sujeito.
Pode ser considerada uma reatualização do conservadorismo que mar-
cou o início da profissão.

•  A vertente marxista, que possibilita a compreensão da luta de classes e


das contradições presentes na sociedade capitalista.

Inicia-se a partir de então um debate plural, um diálogo entre as diversas ver-


tentes e, inegavelmente, a tradição marxista assume centralidade nesse processo.

Durante muito tempo a Sociologia, a Psicologia e a Filosofia foram as disciplinas nas


quais o Serviço Social procurou as explicações para fundamentar sua prática cotidiana.
Por esses caminhos, conseguimos entender um pouco o mundo e a sociedade em
geral, mas ainda buscamos explicar, por exemplo, como o brasileiro de hoje usa a ci-
dade, como ele encara a prestação de serviços e quais são seus direitos de cidadania,
inclusive os direitos dos assistentes sociais, cuja profissão é essencialmente urbana.
Fazer a ponte entre o cotidiano e a História é uma questão nova, tanto nas Ciências
Sociais como no Serviço Social. (ESTEVÃO, 2013, p. 60)

5.3  A dimensão técnico-operativa

A dimensão técnico-operativa do Serviço Social diz respeito a sua instrumenta-


lidade, ou seja, as ferramentas de trabalho disponíveis para a atuação profissio-
nal. Tal dimensão foi duramente criticada após o Movimento de Reconceitua-

capítulo 5 • 79
ção, visto que se temia o uso de técnicas de forma reducionista, que atribuissem
à profissão um caráter tecnicista e pragmático.
A partir do Movimento de Reconceituação, houve uma necessidade de críti-
ca às práticas profissionais conservadoras, a fim de buscar a emancipação pro-
fissional e a reflexão sobre a atuação do assistente social. As denúncias quanto
ao uso de técnicas sem um aprofundamento teórico e como um fim em si mes-
mo fizeram com que, durante alguns anos, o Serviço Social buscasse se apro-
priar da teoria marxista e se afastasse de seu repertório técnico-operativo.
Cabe mencionar que o debate sobre a dimensão técnico-operativa não pode
ocorrer de forma isolada e desarticulada das demais dimensões da profissão.
Também é importante dizer que se constitui tarefa complexa, visto que a pro-
fissão ocupa espaços diversos e realiza ações de diferentes naturezas, desde a
gestão até o atendimento direto a usuários.
Conforme apontam Mioto & Lima (2009, p.27):

[...] o processo interventivo não se constrói a priori, ao contrário, faz-se no seu próprio
trajeto, e essa construção não depende só do Assistente Social, mas também dos ou-
tros sujeitos envolvidos, dentre eles, o espaço sócio-ocupacional no qual o profissional
está inserido e os destinatários das ações nele desenvolvidas.

Além disso, distintamente ao que ocorre com as demais dimensões, a di-


mensão técnico-operativa apresenta material bibliográfico escasso, com pouco
aprofundamento em relação ao “fazer profissional”. Entretanto, algumas refle-
xões e contribuições vêm surgindo para suprir a carência de debates a respeito
da instrumentalidade do Serviço Social.
Miotto & Lima, em artigo a respeito da dimensão técnico-operativa do Ser-
viço Social, definem que o “fazer profissional” possui indicadores externos à
profissão, sendo eles:
4.  A área de atuação: Educação, Saúde, etc
5.  Os usuários: crianças, adolescentes, idosos, etc.
6.  Os instrumentos: entrevista, visita domiciliar, etc
7.  As funções: levantamento socioeconômico, encaminhamento, etc.

As mesmas autoras citam que a ação profissional contempla elementos


condicionantes e elementos estruturantes.

80 • capítulo 5
Os elementos condicionantes se caracterizam pela existência de um projeto
profissional que define a direção ético-política a partir de uma concepção teó-
rico-metodológica.
Os elementos estruturantes dizem respeito ao próprio conhecimento, pla-
nejamento, objetivos, abordagens e recursos a serem empregados nas ações
profissionais.

O movimento que se tem em mente consiste na articulação dialética entre as três


dimensões referentes ao Serviço Social: teórica, ética e técnica. São considerados:
o conhecimento/investigação da realidade na qual se intervém; o planejamento e a
documentação do processo de trabalho; os objetivos, as formas de abordagens dos
sujeitos a quem se destina a ação; os instrumentos técnico-operativos e outros recur-
sos implicados na ação. (MIOTO & LIMA, 2009, p. 38)

A ilustração a seguir resume de forma clara o movimento gerado pela ação


profissional.

Como fazer:
Definição do Suporte
Que ação: teórico da ação;
Definição da ação escolha da
Objetivos abordagem; escolha
dos instrumentos
técnicos-operativos
e demais recursos
Para quê:
Marco referencial
teórico/analítico
Onde:
Natureza do espaço
sócio-ocupacional

Para quem:
Sujeitos em situação

Ação profissional em movimento: articulação entre as dimensões teóricas, éticas do Ser-


viço Social.
Fonte: Mioto, 2006.

Assim, o “fazer profissional” acontece a partir da articução entre o univer-


sal, o particular e o singular, através do estabelecimento da relação indivíduo/
sociedade. As ações profissionais podem ocorrer vinculadas a três processos
interventivos:

capítulo 5 • 81
1.  Processos político-organizativos: ações de mobilização e organização
da população em torno de seus interesses. Podem ocorrer através da
assessoria prestada pelo assistente social

2.  Processos de gestão e planejamento: ações de gestão de políticas e ser-


viços através da criação de protocolos de serviços, programas ou insti-
tuições.

3.  Processos socioassistenciais: ações socioeducativas, socioemergenciais


ou periciais desenvolvidas diretamente com os usuários.

Os processos acima descritos contribuem para que o profissional tenha


clareza em relação ao alcance de sua intervenção. Na contemporaneidade, o
Serviço Social abrange vários espaços sócio-ocupacionais e problemas sociais
de diversas naturezas.
Pesquisa realizada por Nogueira (2004), a respeito da área de concentração
dos trabalhos apresentados durante o XI Congresso Brasileiro de Assistentes
Sociais, verificou que a área temática da Seguridade Social é um dos espaços
privilegiados de atuação do assistente social, principalmente na gestão, con-
forme ilustrado no quadro abaixo. A autora constatou uma variedade de áreas
temáticas e enfatizou a importância da capacitação continuada com ênfase na
dimensão técnico-operativa, dada a complexidade e variedade dos espaços só-
cio-ocupacionais atuais.

ÁREAS TEMÁTICAS NÚMERO DE


TRABALHOS
Estado, Direitos e Democracia 59

Seguridade Social - Concepção 45

Seguridade Social - Controle Social 38

Seguridade Social - Gestão 129

Seguridade Social - Financiamento 07

Direitos Geracionais - Infância c Juventude 77

82 • capítulo 5
NÚMERO DE
ÁREAS TEMÁTICAS TRABALHOS
Direitos Geracionais - Velhice 28

Questões de Gênero, Raça/Etnia e Sexualidade 61

Direitos e Garantias das Pessoas com Deficiência 26

Famílias e Sistemas de Proteção Social 40

Questão Urbana e o Direito à Cidade 28

Questão Agrária e o Acersso à Terra 10

Desenvolvimento Regional, Meio Ambiente e Direito à Vida 21

Projeto Ético-Político, Trabalho e Formação Profissional 23

Serviço Social, Educação e Expressões Artísticas 34

Serviço Social e Sistema Sócio-Jurídico 21

Serviço Social e Relações de Trabalho 65

Políticas e Alternativa de Trabalho e Renda 26

Sociedade Civil e a Construção da Esfera Pública: Movimento


61
Sociais, Redes. ONGS, e o Terceiro Setor

5.4  A dimensão investigativa

O caráter investigativo do exercício profissional consiste na atitude de pesqui-


sar a respeito da realidade na qual se dá a intervenção do assistente social. Exi-
ge um profissional aberto à permanente investigação e entendimento daquilo
que não é esperado. Implica num movimento de construção, desconstrução,
estranhamento e contestação de ideias e conceitos.

capítulo 5 • 83
O que seria, então, a propalada atitude investigativa? Remete a uma postura aberta do
sujeito para investigar, a permanente curiosidade, expectativa para aprender e enten-
der o inesperado, o acaso, o que extrapola suas referências e o leva a ir além. A atitude
investigativa consiste numa postura inquieta e curiosa, por isso é fundamental na ba-
gagem cotidiana do profissional. A ausência dessa postura pode levar à cristalização
das informações, à estagnação do aprendizado profissional, o que, consequentemente,
comprometerá o compromisso do assistente social com a qualidade dos serviços pres-
tados à população usuária. (FRAGA, 2010, 53)

A pesquisa sobre a realidade é sempre delimitada a um contexto sócio-his-


tórico e cultural e resulta em um conhecimento que é parcial e privisório. O
conhecimento possui vários níveis:
•  Conhecimento intuitivo: nível preliminar do conhecimento a partir das
percepções advindas dos órgãos do sentido;

•  Conhecimento oriundo do entendimento: apreensão passiva do cotidia-


no e da realidade;

•  Conhecimento oriundo da razão crítico-dialética: compreensão dinâmi-


ca do real, captando seu processo de constituição e apreensão para além
da imediaticidade do cotidiano;

Tais níveis são distintos, porém complementares e o conhecimento oriun-


do da razão crítico-dialética pode ser considerado o nível mais alto do conhe-
cimento.

Todo conhecimento se inicia pelos órgãos dos sentidos (intuição). O empirismo restrito
limita o conhecimento a este seu nível preliminar e estabelece a máxima de que só se
aprende a fazer fazendo. O conhecimento pode partir do senso comum, mas tem que
ir além dele. Há que se incorporar este conhecimento, porém, analisá-lo criticamente,
negá-lo (o que significa dizer que há mais coisas sobre o objeto do que estamos su-
pondo) e elevá-lo a um novo patamar, o que significa agregar conhecimentos novos,
às vezes, abrir mão de velhos preconceitos. A nova síntese permite que o processo se
renove através de novo questionamento, cujo resultado tende a ser o aprofundamento
do conhecimento sobre o objeto estudado. (GUERRA, s/d, p.7)

84 • capítulo 5
A pesquisa sobre a realidade social inerente ao exercício profissional objeti-
va a interpretação de um objeto, como por exemplo um processo social ou um
conjunto de documentos. Ao analisar de forma sistemática seu objeto e inter-
pretá-lo, o assistente social estará se preparando para resolver problemas atra-
vés de um projeto de intervenção. Investigar a realidade é fundamental para um
exercício profissional crítico e fundamentado.
A realidade social sempre apresenta elementos que não se manifestam na
aparência e não podem ser conhecidos de forma imediata. Para se conhecer
a essência de um fenômeno é preciso apreendê-lo em sua totalidade. Vamos
tomar como exemplo uma família, supondo que uma determinada família seja
o objeto que o assistente social objetiva investigar. Ela não poderá ser compre-
endida sem que se leve em consideração o contexto na qual está inserida, como
se relaciona com esse contexto e como o contexto interfere na família. Somente
assim, o profissional conseguirá apreendê-la em sua totalidade. Nesse sentido,
o assistente social, ao se deparar com um objeto em sua prática profissional,
deverá sempre se perguntar: o que há além das aparências desse objeto?
Toda totalidade apresenta aspectos universais, particulares e singulares
que encontram-se articulados e que necessitam ser captados para a adequada
interpretação do objeto. Retomando o exemplo da família enquanto objeto a
ser conhecido em sua totalidade, podemos afirmar que ao analisar determi-
nada família, temos um objeto em si, ou seja, uma situação singular, que é a
família vista de forma imediata, em suas aparências. Para apreender sua tota-
lidade é preciso compreender a instituição familiar e suas concepções, valores
e processos sócio-históricos inserida em uma sociedade capitalista, ou seja, o
objeto em sua universalidade. A particularidade do objeto é manifesta em suas
necessidades, interesses, valores e não se expressam em sua aparência. É na
particularidade que buscamos a essência do objeto, sua dimenão mediata.
É importante mencionar que a realidade sempre apresenta contradições, in-
teresses divergentes, valores opostos e o método dialético de conhecer a realida-
de opera nestas contradições em busca de uma síntese. Outra característica pró-
pria da realidade é a coexistência de elementos velhos e novos com tendências de
predominância de um ou outro, dependendo do momento ou situação. Cabe ao
profissional enquanto investigador da realidade, organizar as informações, iden-
tificando aquelas que atendam aos seus objetivos e que propiciem a construção
do conhecimento a respeito da realidade estudada. Tal conhecimento irá instru-
mentalizar o assistente social para sua intervenção profissional.

capítulo 5 • 85
[…] a investigação é inerente à natureza de grande parte das competências pro-
fissionais: compreender o significado social da profissão e de seu desenvolvimento
sócio-histórico, identificar as demandas presentes na sociedade, realizar pesquisas
que subsidiem a formulação de políticas e ações profissionais, realizar visitas, perícias
técnicas, laudos, informações e pareceres sobre matéria de Serviço Social, identifi-
car recursos. Essas competências referem-se diretamente ao ato de investigar, de
modo que, de postura a ser construída pela via da formação e capacitação profissional
permanente (cuja importância é inquestionável), a investigação para o Serviço So-
cial ganha o estatuto de elemento constitutivo da própria intervenção profissional.
(GUERRA, s/d, p.13)

Podemos citar alguns momentos profissionais nos quais o assistente social


estará desempenhando sua dimensão investigativa: durante entrevistas com
usuários para conhecimento de sua situação, durante uma visita domiciliar
para conhecimento do contexto sociofamiliar do usuário, nas análises docu-
mentais da instituição. Tais exemplos podem ser denomindos de conhecimen-
tos diretos, que obtemos juntamente aos usuários ou objetos de estudo. Há
também os conhecimentos indiretos, os quais adquirimos através da consulta
bibliográfica a respeito de determinado objeto de estudo.
A pesquisa científica também é considerada como parte da dimensão inves-
tigativa da profissão. Como já mencionado anteriormente ao abordamos a pós-
-graduação em Serviço Social, a produção científica e bibliográfica sobre temas
pertinentes à area de Serviço Social é ampla e abrange temáticas que permitem
contruir novas possibilidades de instrumentalidade mais eficazes e comprome-
tidas com os princípios da profissão.

[…] a pesquisa desenvolve nossa capacidade de investigar as instituições, seus usuá-


rios, as demandas profissionais, os recursos institucionais, as agências financiadoras,
o orçamento. Permite preparar respostas qualificadas às demandas institucionais,
organizacionais ou dos movimentos sociais, vislumbradas no projeto de intervenção
profissional. Pela via da pesquisa é facultado ao profissional formular respostas que
não apenas atendam às demandas, mas que, compreendendo o conteúdo político de-
las e o contemplando, ele possa reconstruí-las criticamente. (GUERRA, s/d, p. 17)

86 • capítulo 5
A pesquisa científica é fundamental para a proposição de ações profissio-
nais que alcancem a transformação social. Ela não pode estar desvinculada
da prática profissional, pois teoria e prática devem caminhar juntas, a teoria
oferecendo suporte à prática fundamentada e eficaz. Dessa forma, a profissão
consegue romper com o pragmatismo que a coloca na posição de solução dos
problemas de forma imediata, sem a devida reflexão teórica necessária à ação
profissional comprometida.

5.5  Teoria, prática, ética e pesquisa: quatro lados de uma mesma


profissão

Como vimos nos itens anteriores, o Serviço Social abarca quatro dimensões,
sendo elas: a do fazer profissional (dimensão técnico-operativa), a do saber pro-
fissional (dimensão teórico-metodológica), a do poder profissional (dimensão
ético-política) e a da cientificidade da ação profissional (investigativa). As qua-
tro dimensões explicitadas compôe uma exigência profissional que ao atuar so-
bre a realidade, o fará de forma crítica, eficiente e ética, priorizando o projeto
profissional da profissão e o compromisso com a população.
A integração das dimensões profissionais permite ao profissional uma com-
preensão clara da realidade social, a identificação das possibilidades de atua-
ção, a definição de estratégias adequadas e alinhadas com a defesa dos direitos
sociais, o engajamento ético-político previsto no projeto coletivo da profissão e
uma prática profissional consistente.
O esvaziamento teórico, o apego às técnicas e sua pretensa neutralidade
são elementos que fazem parte do passado da profissão e que foram superados
após o movimento de Reconceituação da Profissão e a adoção da teoria marxis-
ta pelo Serviço Social. Alguns desafios se colocam em relação ao aprimoramen-
to e qualificação do exercício profissional contemporâneo, como por exemplo,
a ampliação de pesquisas a respeito da instrumentalidade do trabalho profis-
sional, o que envolve repensar a dimensão técnico-operativa e resgatar ferra-
mentas importantes utilizadas pela profissão ao longo de sua trajetória, ou ain-
da, propor novas estratégias de ação coerentes com o momento atual.

Orientar o trabalho nos rumos aludidos, requisita um perfil profissional culto, crítico e
capaz de formular, recriar e avaliar propostas que apontem para a progressiva demo-
cratização das relações sociais.

capítulo 5 • 87
Exige-se, para tanto, compromisso ético-político com os valores democráticos e com-
petência teórico-metodológica na teoria crítica em sua lógica de explicação da vida
social. Estes elementos, aliados à pesquisa da realidade possibilitam decifrar as situa-
ções particulares com que se defronta o assistente social no seu trabalho, de modo a
conecta-las aos processos sociais macroscópicos que as geram e as modificam. Mas,
requisita, também, um profissional versado no instrumental técnico-operativo, capaz
de potencializar as ações nos níveis de assessoria, planejamento, negociação, pesqui-
sa e ação direta, estimuladora da participação dos sujeitos sociais nas decisões que
lhes dizem respeito, na defesa de seus direitos e no acesso aos meios de exercê-los.
(IAMAMOTO, 2004, p.33)

ATIVIDADE
Após a leitura do Capítulo 5, responda a seguinte questão:
• Qual a importância de cada dimensão do Serviço Social para uma prática comprometida
com os princípios da profissão?

REFLEXÃO
“Somos profissionais cuja prática está direcionada para fazer enfrentamentos críticos da reali-
dade, portanto precisamos de uma sólida base de conhecimentos, aliada a uma direção política
consistente que nos possibilite desvendar adequadamente as tramas conjunturais, as forças
sociais em presença. É neste espaço de interação entre estrutura, conjuntura e cotidiano que
nossa prática se realiza. É na vida cotidiana das pessoas com as quais trabalhamos que as
determinações conjunturais se expressam. Portanto, assim como precisamos saber ler conjun-
turas, precisamos saber ler também o cotidiano, pois é aí que a história se faz, aí é que nossa
prática se realiza.
Certamente não estamos pensando no cotidiano como um espaço repetitivo, vazio, mas
sim como um espaço contraditório e complexo onde a realidade se revela, onde os problemas
se expressam. Saber ler a conjuntura a partir do cotidiano, significa identificar acontecimen-
tos, contextos, relações de força, para saber onde e como atuar.” (Martinelli, 2006, p. 11)

88 • capítulo 5
LEITURA
A fim de alcançar uma melhor compreensão a respeito da concepção histórica do Serviço
Social, leia o artigo “O que Serviço Social quer dizer”, de autoria de Vicente de Paula Faleiros.
O artigo apresenta uma revisão bibliográfica a respeito das concepções atribuídas ao Servi-
ço Social ao longo dos anos, assim como as definições da profissão feitas por associações
profissionais. Vale à pena ler!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Manuel Manrique. História do Serviço Social na América Latina. Tradução
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IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil.
Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 40ed. São Paulo: Cortez, 2014.

MARTINELLI, Maria Lúcia. Reflexões sobre o Serviço Social e o projeto ético-polí-


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MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. 16ed. São Paulo: Cortez,


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FALEIROS, Vicente de Paula. O que Serviço Social quer dizer. Serv. Soc. Soc., São Pau-
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originalmente publicado nos Anais do referido Seminário: MOLINA, M. L. M. (Org.) La cuestión
social y la formación profesional en el contexto de las nuevas relaciones de poder

capítulo 5 • 89
y la diversidade latinoamericana. San José, Costa Rica: ALAETS/Espacio Ed./Escuela
de Trabajo Social, 2004, p. 17-50.

MIOTO, Regina Célia Tamaso; LIMA, Telma Cristiane Sasso. A dimensão técnico-opera-
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NOGUEIRA, Vera Maria Ribeiro. Intervenção profissional: legitimidade em debate. Katálysis,


v. 8, n.2, 2005.

EXERCÍCIO RESOLVIDO
Capítulo 1

Procure redigir com suas palavras a relação entre o sistema capitalista e o sur-
gimento da profissão de assistente social.
Resposta: O sistema capitalista, enquanto um sistema produtivo baseado na exploração da
força de trabalho daqueles que não detêm os meios de produção, se desenvolveu concomi-
tante ao agravamento das mazelas sociais. As desigualdades sociais advindas da expansão
do capitalismo eclodiram à medida que a industrialização e a urbanização se intensificaram,
com o agravamento da miséria, da fome, do desemprego e das condições de saúde da po-
pulação. As lutas operárias por melhores condições de vida e de trabalho passaram a ate-
morizar a classe detentora dos meios de produção, a burguesia, que apresentavam interesse
de manter a ordem vigente para reprodução do capital. Foi assim que a burguesia, aliada ao
Estado e à Igreja Católica, intensificaram as ações de caridade e racionalizaram a assistência
social, tornando-a mais organizada e permanente. A partir de então, surgem alguns cursos
preparatórios voltados para agentes sociais e instituições com o objetivo de prestar assistên-
cia social, marcando os primórdios da ação profissional de Serviço Social.

Capítulo 2

Pesquise na internet ou em livros de História a proposta desenvolvimentista


iniciada com o governo de Juscelino Kubistchek. Aponte suas principais ca-
racterísticas e faça uma reflexão crítica sobre os efeitos desta proposta para a
sociedade brasileira.

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Resposta: O desenvolvimentismo diz respeito à política econômica nacional adotada pelo
governo de Juscelino Kubistchek, que esteve à frente da presidência do Brasil entre os
anos de 1955 a 1960, e instituiu o Plano de Metas pelo qual procurou desenvolver a in-
dustrialização, investindo nos setores de transporte e energia, indústrias de base e indústria
automobolística. Também houve grande investimento na educação e procurou-se substituir
as importações. De acordo com a política de JK, o desenvolvimento econômico advindo da
expansão da industrialização enriqueceria o país e reduziria as desigualdades sociais. JK
também procurou facilitar a entrada do capital estrangeiro. Infelizmente, a política desenvol-
vimentista deu início ao endividamento externo e não alcançou os objetivos esperados. Hoje,
sabe-se que desenvolvimento econômico não é, necessariamente, sinônimo de desenvolvi-
mento social. Apesar do aumento do PIB (Produto Interno Bruto) ocorrido na época, a maior
parte da população não se beneficiou deste crescimento, pois grande parte das indústrias
se concentrou na região sudeste. Outros problemas sociais surgiram, como por exemplo, a
migração em massa do nordeste para o sudeste.

Capítulo 3:

Leia e comente: Pela primeira vez na história da profissão, o número de alunos


supera o de profissionais, o que confirma a tese de Iamamoto (2008) acerca da
formação de um exército assistencial de reserva.
Resposta: O início da profissão no Brasil foi marcado por uma rápida expansão da deman-
da de trabalho em instituições sociais assistenciais e poucos cursos de formação, o que
propiciou à categoria um amplo mercado de trabalho com vagas disponíveis. A partir das
transformações na política educacional nas últimas décadas e o incentivo à criação de novos
cursos de ensino superior no país, a realidade profissional modificou, passando a haver mais
oferta de cursos de Serviço Social e um grande número de profissionais disponíveis no mer-
cado de trabalho que, apesar da ampliação dos espaços sócio-ocupacionais decorrentes da
implantação do SUAS, não consegue absorver toda demanda, formando-se um verdadeiro
exército de reserva de assistentes sociais. Se por um lado, o fenômeno indica uma expansão
do Serviço Social no Brasil, por outro lado, há a preocupação com o emprego dos recém-for-
mados e com a manutenção da qualidade dos novos cursos.

capítulo 5 • 91
Capítulo 4:

Aponte os principais aspectos do Projeto Ético-político do Serviço Social.


Resposta: O Projeto Ético-político do Serviço Social foi construído coletivamente pela
categoria profissional e apresenta o resultado de um processo contínuo e inacabado de
construção da identidade própria da profissão, em substituição a uma identidade atribuída,
característica da gênese da profissão. A princípio, o Serviço Social se posicionou em prol dos
interesses das classes dominantes, não questionando a implicação das ações de seu traba-
lho na reprodução das relações sociais capitalistas. Apresentava uma prática alienada e alie-
nante que favorecia manutenção do status quo. A partir do Movimento de Reconceituação e
da incorporação da teoria crítico-social, os assistentes sociais passaram a construir princípios
que norteiam a profissão e que a colocam em defesa dos interesses das classes trabalha-
doras e da garantia dos direitos sociais, reconhecendo a liberdade enquanto o valor ético
central. Apesar de hegemônico, ol projeto ético-político não é único. Seu caráter democrático
aponta uma noção clara da profissão e, além de se materializar no Código de Ética Profissio-
nal, também está presente nas diretrizes curriculares e na lei que regulamenta a profissão.

Capítulo 5:

Após a leitura do Capítulo 5, responda a seguinte questão: qual a importância


de cada dimensão do Serviço Social para uma prática comprometida com os
princípios da profissão?
Resposta: O exercício profissional competente e em consonância com os princípios éticos
da profissão e com o projeto ético-político da categoria necessita contemplar quatro dimen-
sões: a do fazer profissional (dimensão técnico-operativa), a do saber profissional (dimensão
teórico-metodológica), a do poder profissional (dimensão ético-política) e a da cientificidade
da ação profissional (dimensão investigativa). As quatro dimensões explicitadas compõe uma
exigência profissional e este, ao atuar sobre a realidade, o fará de forma crítica, eficiente e
ética, priorizando o projeto profissional da profissão e o compromisso com a população. Por
isso devem estar articuladas entre si, não podendo considerar uma mais importante que outra.

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