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Capa

LINDSEY DAVIS

A INFORMADORA

UM MISTÉRIO NA ROMA ANTIGA

“Há uma mulher a agitar a Antiguidade Clássica: a arrojada Flávia


Alba."

The Guardian
Contracapa

Roma, ano 89 DC. As regras ditam que uma mulher deve ser submissa e
modesta. Não deve levantar a voz, vestir roupas extravagantes, sair à
noite, beber ou desafiar a autoridade... e muito menos envolver-se em
assuntos criminais.

Flávia Albia contraria todas estas normas (e mais algumas). Vive


sozinha na zona boémia de Roma, cultiva amizades pouco recomendáveis
e não se coíbe de lutar pelos seus direitos. Filha de um detetive,
Flávia decidiu desde cedo seguir os passos do pai. Mas a investigação
é uma profissão masculina. Para ser respeitada, ela sabe que terá de
ser a mais rápida, a mais perspicaz, a melhor.

Flávia é a única a reparar que o número de mortes inexplicáveis tem


vindo a aumentar na cidade. Por não terem ligação entre si nem
indícios de violência, não levantaram suspeitas. As denúncias de
Flávia são ignoradas pelas autoridades, que estão demasiado ocupadas
com a organização dos Jogos de Ceres, o momento alto do ano. E até
mesmo a própria Flávia, distraída com a perspetiva de um novo
romance, não vê que a morte está demasiado perto de casa...

"Inspirado em factos reais — a sucessão de mortes em Roma foi

registada por um historiador da época — A Informadora é Lindsey

Davis no seu melhor. Havia, de facto, crime na Roma Antiga.

E de dar graças aos Deuses!"

The Independent

"Esta irresistível viagem no tempo tem um encanto

suplementar: permite-nos ver o mundo antigo

sob a perspetiva de uma mulher.

Express
Badana da Capa

LINDSEY DAVIS

nasceu em Birmingham, Reino Unido, e estudou Literatura Inglesa em


Oxford. Começou por escrever livros românticos mas rapidamente
encontrou o tema que a afirmaria enquanto escritora: a Antiguidade
Clássica.

Foi já galardoada com diversos prémios literários, nomeadamente o


Crimewriters' Association Dagger, o Ellis Peters Historical Dagger e
o Sherlock Award. Em 2009, a cidade de Saragoça atribuiu-lhe o Prémio
internacional pela sua carreira de escritora histórica. Graças à
notoriedade que Roma ganhou com a sua obra, a cidade honrou-a com o
Premio Colosseo, em 2010. Em 20II foi distinguida com o prémio de
carreira Cartier Diamond Dagger pela Crime Writers' Association.

Para mais informações sobre a autora pode consultar o site

www.lindseydavis.co.uk

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chocolateparaalma.blogs.sapo.pt

Ou encontre-nos no Facebook em www.facebook.com/chocolate.para.alma


Badana da contracapa

Quando voltei para casa, já era mesmo muito tarde.

Grande parte de Roma estava a dormir. Os que se mantinham

acordados estavam doentes, afazer amor, a suicidar-se ou a

roubar alguém. Eu cá não ia interrompê-los.

Nunca corria riscos. Afinal, estava em Roma. Sim, já

uma vez tinha apunhalado um intruso e depois cometera

a estupidez de o comunicar às autoridades.

Sim, ao fim de algum tempo, o homem tinha morrido.

Não, não me arrependo.


Página de rosto

LINDSEY DAVIS

A INFORMADORA

TRADUZIDO DO INGLÊS POR

RAQUEL DUTRA LOPES


Ficha técnica

Título original:

THE IDES OF APRIL

©2013, Lindsey Davis

Capa: Maria Manuel Lacerda

Imagem da capa: Bridgeman/AIC

Paginação: GSamagaio

Impressão e acabamentos: Guide Artes Gráficas, Lda.

1 .a edição: março de 2014 Depósito legal n.° 370587/14 ISBN 978-989-


23-2566-8 Reservados todos os direitos

Edições ASA II, S.A.

Uma editora do Grupo Leya Rua Cidade de Córdova, n.° 2 2610-038


Alfragide - Portugal Telef.;(+351)214 272 200 Fax: (+351) 214 272 201
edicoes@asa.pt www.asa.pt www.Ieya.com
O ELENCO

Vizinhos e Família

Flávia Albia pronta para tudo, sem esperar nada de bom

Marco Dídio Falco & Helena Justina seu pai e sua mãe, pais típicos

Júlia e Favónia suas irmãs mais novas, raparigas normais

Póstumo o irmão mais novo, um rapaz muito estranho

Furão sempre à procura de sarilhos

Junilo um primo, surdo mas nada tonto

O falecido Lentulo um bom homem que morreu jovem

Ródão um mau gladiador que não morre

Prisca proprietária de uns banhos públicos

Serena sua massagista, pequena mas forte

Cloé e Zoé gladiadoras grandes e fortes

A família Mythembal disfarce local para Albia

Robigo uma raposa urbana

Tito Morelo um investigador dos vigiles, inapto mas

prestável

Cássio Scauro seu superior, um tribuno inferior


Félix o condutor de Falco, um engodo

Coices a sua mula, de bom ritmo

Tonta, Tola e Patareca três galinhas envolvidas em evasão

fiscal

Os Mortos e os Enlutados

Lúcio Basso falecido aos três anos, uma tragédia

Salvídia falecida, a cliente que nunca paga

Metelo Nepos um cliente equivocado, que paga


Celendina uma vítima idosa que falou de mais

Quilo o seu filho, que nada recorda

Lupo falecido aos 15 anos, outra tragédia

O pai e os irmãos de Lupo que nada viram de suspeito

Júlio Viador 23 anos, em forma, maçador e falecido

Cassiana Clara sua viúva desconsolada, que esconde algo

Laia Graciana do culto de Ceres, uma mulher com um passado

Venúsia sua criada, que nada diz

Márcia Balbila neófita de um culto rival, uma mulher cheia de


surpresas

Ino sua criada, falecida, uma memória comovente

Um agente funerário que lucra com tudo isto

Outros Intervenientes

A Deusa Ceres portadora de abundância (de problemas)

Andrónico um arquivista, um pretendente curiosamente sedutor

Tibério um agente à paisana, com perguntas por responder

Mânlio Fausto um edil da plebe, personagem incerta


ROMA, Monte Aventino: março-abril 89 d. C.
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Lúcio Basso tinha três anos quando, aproveitando uma breve distração
da mãe, saiu de casa a correr para ir brincar. Moravam na Clivus
Publicius, uma rua íngreme no monte Aventino, e foi aí que a carroça
de um construtor o atropelou. A carroça, que escapara ao controlo do
condutor ao acelerar pelo declive abaixo, pertencia a Metelo e Nepos,
uma organização que trabalhava a partir de um estaleiro no monte.
Ninguém falava de Nepos; ao início, cheguei a julgar que talvez fosse
uma invenção para algum estratagema de evasão fiscal.

Esta organização não era mais desonesta do que a maioria na Roma


Imperial. Fornecia equipamentos a proprietários de estabelecimentos
que pretendessem trocar um aspeto inegavelmente desmazelado por uma
aparência de higiene. O costume era a equipa de Metelo
responsabilizar-se por uma limpeza a fundo e uma renovação
sofisticada, prometendo completar os trabalhos no prazo máximo de
oito semanas. Na prática, todos os projetos demoravam dois anos,
poupando nos acabamentos. Reparavam bancadas de mármore com
argamassa, mudavam o degrau do patamar, forneciam uma tabuleta com
erros ortográficos e pediam mundos e fundos pelo serviço. Por essa
altura, os clientes, incapazes de se manterem em funcionamento com a
permanente nuvem de poeira, já tinham perdido a freguesia e estavam à
beira da falência.

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Eu ficava abismada por outros proprietários de tabernas, tendo visto
o que acontecera, continuarem a recorrer aos serviços da firma, mas
de facto recorriam. Ao longo dos anos, a Metelo e Nepos tinha obtido
bom lucro com os vendedores de zurrapa que inocentemente confiavam na
empresa. Porém, matar uma criança, na comunidade unida do Aventino,
onde sempre havia alguns princípios, era capaz de ser uma estupidez
do ponto de vista comercial.

Os ferimentos de Lúcio provocaram-lhe morte imediata. Nem teve


hipótese. Morreu junto ao passeio. Como era inevitável, nesse preciso
momento a mãe desvairada saiu da casa, o que contribuiu para aumentar
a revolta dos populares.

A carroça decrépita estava sobrecarregada. Os bois exaustos já tinham


há muito passado do auge e não havia dúvida de que o condutor seguia
para lá de embriagado, por mais que o negasse por princípio. O
princípio era que Salvídia, a viúva avinagrada que herdara o negócio
de mobiliário comercial do marido que enterrara, não lhe pagaria o
ordenado caso ele reconhecesse a verdade. Havia testemunhas, um
grande grupo reunido na Clivus, todas elas muito interessadas, mas
todas desapareceram quando um intrometido agarrou numa tabuinha, com
a intenção de começar a registar os nomes dos presentes.

Depois de o funeral - com o seu patético caixão minúsculo - ter tido


lugar, alguns vizinhos bem-intencionados começaram a sugerir que a
família teria direito a ser financeiramente recompensada pela
terrível perda. Todos concordaram que deveriam contratar de imediato
um informador para tratar das questões legais. Se ser atingido na
cabeça por um vaso de flores poderia valer dinheiro para a vítima,
qual seria o preço da vida de uma criança à luz da lei civil? Alguém
(corriam rumores de que teria sido o intrometido da tabuinha para
tirar notas que mencionei) até escreveu num muro um apelo a cidadãos
preocupados que tivessem presenciado o acidente, para que se
apresentassem. Isso deve ter surgido antes do primeiro dia de abril,
pois foi nas calendas que o vi.

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O aviso tinha um ar oficial. Embora não oferecesse de facto
pagamento, implicava possíveis benefícios. Na minha qualidade de
profissional, li-o com interesse. Considerei-o subtil.

Por essa altura, eu já estava envolvida na questão. Qualquer


investigador que fosse favorecido pela Fortuna aceitaria representar
a mãe inconsolável que procurava negociar uma compensação. Tratava-se
de uma tarefa de espírito comunitário, na qual uma pessoa de
reputação séria poderia manter a consciência tranquila: era uma
questão de se olhar para os factos, apresentá-los sucintamente aos
culpados, dizer: «Eu sou um informador cheio de experiência e isto
para mim é pão, pão, queijo, queijo; uma criança morreu e os membros
de qualquer júri teriam de limpar as lágrimas às togas, mas ninguém
quer que o caso chegue a tribunal, pois não?» Os culpados abririam os
cordões à bolsa e o informador recolheria a sua percentagem.

Não sucedeu isso comigo. A Fortuna nunca me favoreceu e ser mulher


acarretava o problema de por vezes só conseguir obter os trabalhos
que todos os informadores do sexo masculino haviam farejado e
recusado. Estava num mês desses. Quanto a mim, fui contratada por
Salvídia. A proprietária da Metelo e Nepos queria que eu contestasse
a reivindicação da mãe. Típico.

Do que já revelei acerca deste grupo construtor, o leitor calculará


que o meu contrato assentava numa base de «sem vitória não há
remuneração». Na verdade, eu começava a intuir que essa base até
poderia resumir-se a «mesmo que venças, os sovinas são capazes de
nunca te pagar» - como acontecia com tanto do meu trabalho,
infelizmente. Ao fim de uma semana, sentia-me disposta a abandonar o
miserável projeto, mas já lhe tinha dedicado uma quantidade
considerável de horas e, além disso, nunca gostei de ser derrotada. O
aviso a requisitar testemunhas dava-me a entender que não era a
única.

A inscrição no muro incluía uma morada à qual as pessoas podiam


dirigir-se para prestarem declarações e, dado que a minha
investigação estava parada, fui até lá, a fim de verificar se alguém
já o fizera.

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Argumentaria que estava a ajudar um dos lados da disputa, pelo que
tinha o direito de o perguntar. Sendo mulher, não tinha quaisquer
direitos em questões legais, mas porque haveria eu de deixar que isso
me impedisse de fazer o que quer que fosse? De qualquer maneira,
esperava que chegássemos a um acordo extrajudicial. Qualquer coisa
que acabasse depressa com aquilo, para eu poder abandonar o caso.

A morada correspondia ao Templo de Ceres. Ficava perto da minha casa


e do meu escritório, ainda que numa rua muito mais imponente do que o
beco em que eu vivia. Qualquer sítio seria mais elegante do que esse.
O Paço da Fonte não é minimamente atraente para os fundadores de
belos edifícios religiosos.

Em Roma, é comum marcar encontros em templos. Para desconhecidos,


trata-se de terreno neutro. Por exemplo, homens casados consideram
oportuno apanhar prostitutas nas escadarias de templos. Quanto mais
grandioso o templo, mais miserável será a multidão que o cerca.
Indiferente ao lado sórdido da nossa cidade, o povo passa sem dar por
nada. A sugestão de uma reunião num templo seria, presumi eu, uma
mera questão de conveniência. Sem lhe atribuir grande importância,
encaminhei-me para lá de livre vontade.

Só quando perguntei pelo contacto listado no aviso do muro é que


fiquei a saber que se tratava de um figurão, de toga debruada a
púrpura, que pertencia a uma classe antiga de magistrados. O Templo
de Ceres era o quartel-general e depósito de arquivo desta classe.

Pensei melhor. Depois fui a casa e alterei ligeiramente a minha


aparência. Ia visitar o gabinete de senhores de grande importância em
Roma: homens ricos e poderosos. Não me parecia que o próprio «Mânlio
Fausto» tivesse agarrado num giz e rabiscado um muro da Clivus
Publicius, mas algum dos seus lacaios decerto o fizera por si. Esse
lacaio deveria estar convicto de que Fausto gostaria de se impor. Por
definição, este magistrado era uma daquelas ameaças que enlouqueciam
comerciantes a verificar as balanças dos mercados.

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O meu pai tinha-me ensinado a evitar gente assim, embora, na verdade,
empertigados de tão elevada estirpe não privem comigo. Disponho de
alguns contactos, mas nenhum de tão alta importância.

Não obstante, respeitar a oposição traz sempre recompensa. Por isso,


mudei de roupa e vesti uma túnica comprida num tom neutro, não
branco, não de um linho completamente cru, mas aprumada, simples e
nada ameaçadora. Continha uma gola debruada que sugeria riqueza, o
que por sua vez era indicador de uma mulher com homens influentes a
apoiá-la, uma mulher que não deveria ser dispensada de forma
apressada ou com demasiada indelicadeza.

Os meus brincos eram simples rosetas de ouro. Acrescentei uma fileira


de pulseiras, para me imbuírem de confiança. De cabelo apanhado ao
alto, coloquei três gotas de um perfume discreto. Uma estola larga: o
ar recatado e respeitável de uma viúva. De facto sou viúva, pelo que
essa parte correspondia à verdade.

A minha mãe ensinara-me o papel de uma matrona submissa. Era ridículo


e hipócrita, mas já o representava como uma segunda natureza e
conseguia levá-lo a cabo sem me rir.

Assim, convencida de que era tão boa quanto eles e capaz de os


enfrentar, parti para o meu primeiro encontro com os edis da plebe.

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2

O Templo de Ceres fazia de tal maneira parte da minha paisagem local


que, regra geral, eu ignorava-o. Encontrava-se na encosta norte do
Aventino, a uma curta caminhada colina acima desde os portões ao
fundo do Circo Máximo. Era um edifício austero, desenhado num passado
remoto e que parecia mais grego do que romano, dado o seu pendor
arcaico; as pesadas colunas cinzentas que o rodeavam tinham bases
espessas e capitéis curiosos que, se isto é assunto que lhe
interesse, não eram nem jónicos, nem dóricos. Creio que o termo que
se utiliza é «de transição». Não me parece que a distinção desse que
pensar a muita gente; a maioria provavelmente nunca levantava os
olhos o suficiente para reparar nisso. Mas eu tinha passado a
infância a mil milhas de Roma, num vilarejo devastado durante uma
revolta e que ainda carecia de arquitetura interessante; quando
percebo que houve um esforço por construir algo fora do comum,
presto-lhe a devida atenção.

A verdade é que, depois de ter sido trazida para Roma pela família
que me adotou, tive de aprender rapidamente os usos e os costumes
deste local; em resultado, sei mais acerca dos mitos e dos monumentos
romanos do que a maior parte dos habitantes nativos da cidade. Tinha
uns quinze anos nessa altura e era muito curiosa. Com educação ao meu
dispor, tendo aprendido a ler e a escrever, eu devorava factos.

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Por vezes, isso ajudava-me no meu trabalho atual. No entanto, era
mais comum que me fizesse maravilhar com a história e atitudes
bizarras destes Romanos, que se julgavam senhores do mundo
civilizado.

Pelo menos tinham uma história. Conheciam as suas origens. Já eu, não
poderia dizer o mesmo a meu respeito.

O templo era uma homenagem a uma tríade: três deuses, todos juntos,
todos sagrados e confortáveis no meio do incenso e dos bolos de mosto
depositados. Para além de Ceres, a Mãe-Terra, uma dama robusta com
molhos de trigo que era uma das doze grandes divindades do Olimpo,
também albergava Líber e Libera, dois deuses menores de quem aposto
que o leitor nunca tinha ouvido falar, filhos de Ceres, segundo
julgo. Este culto triplo estava enraizado em rituais de fertilidade -
bem pode gemer!

Como é óbvio, um grupo organizado de mulheres religiosas atarefava-se


pelo templo. Nenhum altar sério pode deixar de ter gente metediça que
se organize numa altiva assembleia de bruxas; é uma forma de as
matronas locais poderem sair de casa uma vez por semana. A minha avó
adorava: um punhado de mulheres de classe alta a dedicarem-se a atos
de benevolência pela vizinhança, de cabeças viradas para baixo
enquanto partilhavam mexericos tal como depois partilhariam vinho sem
que os maridos ousassem censurá-las. A minha avó senatorial era uma
mulher maravilhosa, ultrapassada apenas pela sua equivalente plebeia,
cujo jugo doméstico era lendário por todo o Aventino. Se eu a
mencionasse na banca onde ela costumava comprar raízes para fazer o
seu caldeirão de caldo, o vendedor ainda fazia o gesto de fugir para
as colinas.

Um culto a um templo pode ser um bom argumento para impedir que as


mulheres controlem as coisas. Apesar de Ceres ser a portadora de
abundância, favorecendo sobretudo gente comum, fiquei a saber que as
suas devotas incluíam uma ave sovina, mimada desde que nascera, e que
se considerava muito superior. Esqueçam lá a liberalidade. Os
escravos públicos que varriam os degraus e faziam o papel de
seguranças encaminharam-me para ela por eu ser mulher, facto pelo
qual não lhes estou grata.

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Talvez se tenham apercebido de que eu era de um género completamente
diferente e quisessem rir-se um pouco.

Irmandade não foi algo que constasse da nossa reunião.

A arrogante rainha-sacra chamava-se Laia Graciana. Fora uma escrava


quem mo dissera; ela não se apresentaria a si mesma, não fosse eu
conspurcar-lhe o nome pronunciando-o. Enquanto ela era loura, eu sou
morena; e aí apenas começavam as diferenças entre nós. Convenci-me de
que era mais velha do que eu, embora de facto pudesse não o ser.
Comportava-se como uma velha matriarca dominadora com cinco gerações
de familiares amedrontados que receavam que ela alterasse o
testamento se eles se atrevessem sequer a espirrar. As suas vestes
eram de tecidos ricos, elegantemente drapeados com muitas dobras,
ainda que de uma horrorosa cor castanho-avermelhada que algum
tingidor astuto deveria ter ficado encantado ao impingir a uma
idiota. Quando se levantou, decidida a fitar-me lá do alto, senti-me
retesar por instinto. Percebi que ela sentia o mesmo — a meu ver, com
muito menos motivos para tal.

- O que deseja?

- Estou à procura de Mânlio Fausto.

- Ele não irá recebê-la.

- E se fosse eu a perguntar-lhe? Vim em resposta a um aviso público


que ele colocou.

O facto de eu defender a minha posição desnorteou-a. Com relutância,


dignou-se a mencionar que os edis trabalhavam num gabinete de uma rua
lateral junto ao templo. Suponho que só mo terá dito porque eu
poderia ter ficado a sabê-lo facilmente através de qualquer outra
pessoa.

Despedimo-nos com pouco afeto. Se, na altura, eu soubesse que os


nossos caminhos voltariam a cruzar-se, ter-me-ia sentido ainda mais
amargurada.

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As minhas duas irmãzinhas românticas acreditavam que estar tão
aperaltada como eu me encontrava naquela tarde era garantia de que
iria encontrar o amor da minha vida. Mas estava a parecer-me que não
seria naquele dia. O meu primeiro encontro foi bem desagradável;
enquanto observava um edifício vulgar que deveria ser o quartel-
general da edilidade, um portento saiu desaustinado para a rua e foi
contra mim. Irritado, resfolegou, apesar de não haver dúvida de que a
culpa era dele. Estava demasiado ocupado a dobrar-se para parecer uma
nulidade, um efeito que alcançava sem esforço algum. O velhaco não
passava de uma túnica de cânhamo com uma barbicha incipiente. Não
fazia mesmo o meu género. Desculpem lá, maninhas esperançadas!

- Oh, não se dê ao trabalho de pedir desculpa! É aqui o gabinete dos


edis?

Recusando-se a responder, afastou-se de cabeça baixa. Quanto a mim,


continuando a esfregar o braço magoado, ainda lhe fiz um gesto bem
masculino, mas receio que tenha sido em vão.

Enquanto cambaleava para o interior do edifício, substituí o esgar


pela minha expressão mais encantadora, com o intuito de impressionar
quaisquer ocupantes. Não havia vivalma à vista.

Pequenos aposentos davam passagem a um estreito corredor de entrada.


Seguia-se um pátio esquálido com uma fonte em miniatura em forma de
concha, da qual corria um fiozinho de água que ia gorgolejando em
soluços patéticos até escorrer por um trilho de limo verde abaixo,
por fora da bacia. Havia mosquitos esperançosos em redor.

Permaneci imóvel por um instante, à escuta. Não bati à porta nem


pigarreei. O meu pai também era informador privado e, segundo algumas
pessoas (ele, por exemplo), era o melhor de Roma. Eu tinha sido
treinada para correr riscos, abrir portas, observar o que me rodeava.

Sonhamos sempre encontrar um diário esquecido que revele um caso


amoroso comovente - não que isso alguma vez me tenha acontecido. Nos
dias que corriam, toda a gente era demasiado cautelosa.

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Sob o domínio do nosso último imperador, quando as pessoas cometiam
adultério - coisa que faziam como coelhos, pois ele era um déspota e
as pessoas precisavam de se animar - não tomavam nota dos pormenores.
Domiciano considerava que era seu dever sagrado punir o comportamento
escandaloso. Os seus agentes andavam sempre à procura de indícios.

A repressão tinha-se espraiado e alcançara os edis. Encorajados pelo


nosso governante austero e sisudo, os vigilantes dos mercados tinham
ainda mais escrúpulos naqueles tempos. Abatiam-se sobre burlas
alfandegárias, pesagens fraudulentas e usurpação de terrenos, embora
o alvo mais lucrativo fosse a prostituição. Ali no seu antro, eu via
enormes arcas blindadas, onde podiam ser guardadas todas as coimas
arrancadas a raparigas miseráveis em bares. As raparigas dos bares
eram vítimas fáceis para a polícia de costumes. Tradicionalmente,
sempre que uma empregada servia uma bebida a um cliente, este podia
reservar um lugar no andar de cima como digestivo. Isso se quisesse
apanhar chatos ou arriscar-se a ter de subornar um agente, no caso de
as autoridades decidirem fazer uma visita surpresa àquele bar, em
busca de prostitutas sem licença - que inevitavelmente encontravam.

Os subornos, calculava eu, iriam diretamente para as bolsas que os


edis prendiam ao cinto. Poderia Mânlio Fausto ser comprado com uma
peita? Quanto do seu vencimento proviria de luvas?

O edifício cheirava a pó. Era um lugar de pergaminhos para consulta


esquecidos e mapas de parede já sumidos. Velhos bancos de madeira
ocupavam salas de interrogatório desconfortáveis nas quais membros do
público, para ali levados a fim de serem interrogados, passavam a
sentir-se culpados pelo género de infrações das quais toda a gente
espera escapar incólume. Houve uma coisa que me espantou: uma jaula
com pernas de ferro, embora de momento sem prisioneiros.

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Alguém tinha aparecido atrás de mim.

- Estou a ver que está a admirar as nossas instalações! - Virei-me. O


simpático, que era aprumado e delicado, mostrou-se agradado com a
minha aparência física. Fingiu partir do princípio de que eu estava
ali para uma visita guiada. - Sua Eminência já mandou arrumar os
cativos por hoje, por isso, lamento, mas não vou poder mostrar-lhe
nem um.

Há dias em que o sol aparece e ilumina o nosso mundo. Entendemo-nos


de imediato, como que por artes mágicas.

Fiquei a observá-lo, uma experiência agradável. Teria sensivelmente a


minha idade e, ainda que não fosse mesmo ruivo, tinha olhos castanhos
e o cabelo, as sobrancelhas, a barba e o bigode acobreados,
sucedendo-lhe o mesmo aos pelos finos das costas das mãos e dos
braços - o conjunto completo. Origens? É difícil ter a certeza, mas
falava com um sotaque revelador de cultura. Se ocupava um posto
público, decerto seria um liberto, provavelmente de primeira geração.
Não desprezo ex-escravos. É possível que eu própria o seja; nunca o
saberei, sequer.

- Esta malga parece ter sido usada há pouco tempo. - Dei-lhe um toque
com a ponta do pé. Eu tinha os dedos arranjados e sandálias novas.
Era frequente usar sapatos mais adequados a uma idosa, com tiras a
todo o comprimento, para o caso de ter de me lançar a uma boa
caminhada; para esta visita, elegera calçado mais feminino. As solas
deixariam marca se pontapeasse alguém, mas a parte de cima consistia
apenas em duas fitas douradas unidas no intervalo entre o dedo grande
do pé e o segundo dedo. Se este funcionário tivesse algum especial
fetiche por pés, o meu peito do pé arqueado haveria de lhe deixar o
coração acelerado. - Ainda bem que não me sinto obrigada a roubar as
chaves e a libertar alguém nas suas costas.

- Fala como se fosse mesmo capaz de o fazer! — murmurou ele num tom
de admiração.

- Eu sou assim.

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As pontas das suas orelhas tinham uma ligeira curvatura para a frente
que lhe imprimia caráter; intuía que este incluísse uma personalidade
forte, humor e inteligência. A sua constituição esguia sugeria uma
vida despojada; tal como eu, era provável que tivesse passado
dificuldades. Aquilo que mais me agradava era que parecia que o sol
também brilhara para ele quando me encontrou naquela antessala.
Deixei-me levar, de boa vontade.

- Andrónico - apresentou-se. - Trabalho aqui como arquivista.

- Centenas de registos de multas nos mercados?

- Ora, isso seria enfadonho! - exclamou Andrónico, embora o meu


comentário tivesse sido neutral. Registos públicos escrupulosamente
guardados podem equivaler à sorte grande no trabalho a que me dedico.
Nunca desdenho a burocracia. - Os edis da plebe recebem decretos do
Senado, que têm de depositar em lugar seguro, aqui ao lado, no Templo
de Ceres. Todos esses registos passam a ser da minha
responsabilidade. - Estava a exagerar quanto à sua própria
importância, mas eu não lho levei a mal. - Trato deles com devoção,
embora nunca ninguém me peça para consultar o que quer que seja.

- Mas claro que, se alguma vez guardasse um pergaminho num lugar


indevido ou deixasse que um rato mordiscasse um deles, seria nessa
ocasião que algum fulano imponente de púrpura o requisitaria.

- Sabe como funciona o mundo! - O sorriso de Andrónico era triste e


encantador; ele estava bem ciente disso. - Mas a vida tem os seus
pontos altos. Por vezes, os edis reúnem-se, os quatro; temos dois
plebeus e dois patrícios, como decerto saberá. Para impedir que se
sujem com tinta, eu tenho o privilégio de lhes servir como secretário
para as minutas das reuniões. Aposto que já adivinhou que isso
significa compilar notas de ações que nenhum dos meninos mimados
levará a bom porto.

Eu sabia que ele estava a meter-se comigo, ou que pensava que estava.
Apesar de isso me agradar, nunca esqueci que os homens eram
matreiros.

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- Seduz todas as visitas? - perguntei-lhe.

- Só as atraentes.

Ele estava vestido de uma forma respeitável; tinha uma túnica limpa,
que nem sequer apresentava salpicos de tinta - mas conseguia
transmitir a impressão de que os seus pensamentos não eram assim tão
imaculados. Eu estava a gostar dele o suficiente para partilhar tais
pensamentos, mesmo que não lho mostrasse.

- Ah, não espere que vá na sua cantiga, Andrónico. Passo muito tempo
a explicar a mulheres tontas que a aleivosia masculina é o motivo
pelo qual os maridos delas desapareceram. Ainda que os maridos das
minhas clientes aparentem sempre ser os homens mais adoráveis, nenhum
deles capaz de fazer mal a uma mosca, as minhas investigações têm
tendência a revelar que, sem exceção, fugiram com uma rapariga de
alguma taberna. Invariavelmente, com uma corrente no tornozelo e, por
essa altura, já grávida de cinco meses.

- Oh - crocitou o arquivista. - Faz parte da campanha de moralidade


do imperador? Leva esses foragidos a tribunal?

- Não, localizo-os a pedido de esposas abandonadas que não têm meios


para recorrer à lei. As minhas clientes têm de se contentar com
agredir os sacanas com grandes frigideiras de ferro.

- E porque será que eu tenho a impressão de que os segura pelo


colarinho enquanto isso acontece?

Andrónico sorria de orelha a orelha. Porque haveria de lhe desfazer a


ilusão? Sorri também.

- Esse é o meu serviço de luxo... Mas referiu o seu superior


-comentei descontraidamente, de forma a encaminhar a conversa para o
motivo da minha visita. - Creio que é com ele que preciso de falar.
Será que o notável que dá pelo nome Mânlio Fausto se encontra
disponível? Ou vai enrolar-me com a velha patranha de «lamento, mas
ele acabou de sair»?

Fitou-me com um brilho irónico no olhar.

- É verdade que Fausto se ausentou. E até me custa dizê-lo, mas de


facto saiu do edifício mesmo antes de você entrar.

- Não seria aquele labrego que quase me atirou ao chão?

25
Pareceu-me ver algo a bruxulear no olhar do arquivista, mas ele
respondeu-me calmamente:

- Oh, esse devia ser o nosso mensageiro. - Depois de uma pausa,


acrescentou: - Tibério. Falou com ele?

- Não. - Porque haveria de falar? - Um tipo muito carrancudo. E como


é Fausto?

- É-me impossível fazer comentários. Ele tem demasiada noção de que


lhe devo este emprego.

- Não se dão bem? - adivinhei.

- Digamos apenas que, se acha que o nosso mensageiro é severo, não


vai gostar de Fausto.

Andrónico parecia determinado a mudar de assunto. Perguntou-me o que


me levara ali e eu falei-lhe do acidente na Clivus Publicius e do
aviso a requisitar testemunhas, no qual constava o nome de Fausto.

- Parece típico dele - observou. - E bastante intrometido.

- Bem, suponho que faça parte do seu papel... E já apareceram


testemunhas em resposta ao aviso?

- Só você.

Sorri-lhe, satisfeita com a cumplicidade que se tinha criado entre


nós com tanta facilidade.

- Não teria vindo se me restassem outras hipóteses... Vai referir a


Fausto que aqui estive?

- Porquê? Não me contou nada.

Andrónico também me sorriu com uma expressão conspiratória. Gostava


mesmo de lidar com este homem. Saía-me muito mais barato do que os
funcionários que eu costumo ter de importunar ou subornar.

- Queria pedir-lhe um favor atrevido. Se alguém aparecer com um


testemunho, será que pode informar-me?

- Adoraria. - Revelando então quanta vontade tinha de o fazer,


perguntou-me: - E onde é que a encontro?

Ponderava sempre com todo o cuidado na resposta a dar. As pessoas


podem encontrar-me no meu escritório; caso contrário, eu não teria
trabalho.

26
Mas havia uma diferença entre clientes que estavam demasiado
preocupados com o problema que os atormentava para poderem causar
outros problemas, e oportunistas que poderiam ter motivos traiçoeiros
para me perseguirem.

Andrónico trabalhava para um magistrado. Isso garantia que era de


confiança, certamente? Disse-lhe onde morava. Fosse como fosse, eu
tinha Ródão.

- É uma subida bem íngreme e não é fácil dar com a casa. Mas o meu
porteiro acompanha as visitas. O Ródão mostra-lhe o caminho.

- Parece muito exclusivo! Resfoleguei.

- Oh, pois é. O Paço da Fonte é o bairro miserável mais exclusivo do


Aventino.

E ele ainda não tinha visto Ródão. Não ia estragar-lhe a surpresa.

- E o melhor que consegue arranjar?

- Não passo de uma pobre viúva.

Nunca se deve dar a entender que se tem dinheiro.

- Ai sim? - troçou Andrónico. Observou a minha roupa de cima a baixo.


Gosto de um homem que distinga a verdade da bazófia. Na verdade,
gosto de um homem que repare que me vesti cuidadosamente para ir ao
seu encontro. Não obstante, ele ainda não me conhecia de facto. Ainda
não. - E que nome devo dizer quando for à sua procura?

- Flávia Albia. Basta que pergunte por Albia. Toda a gente me


conhece.

Muitas pessoas conheciam, mas «toda a gente» era um exagero. Tratava-


se de mais um estratagema de proteção que eu tinha aprendido; dava a
impressão de poder haver muita gente a zelar por mim.

Disse-lhe que precisava de ir andando, ao que ele respondeu que tinha


gostado de me conhecer. Havia mais gente a chegar por motivos
oficiais, pelo que saí sozinha, o que parecia ser a forma como aquele
gabinete operava.

27
No meu, gosto de me assegurar de que as visitas realmente partiram,
mas Andrónico não se via na necessidade de tomar tais precauções.

Portanto, nada de edil. Fora uma viagem em vão, como tantas outras.
Já estava habituada. Na rua, parei um pouco a olhar para o céu
romano. Ouvi o burburinho que me rodeava no Aventino e também vindo
de longe, de toda a cidade. Enquanto cheirava óleo quente nas chapas
de ferro onde se preparavam almoços, senti a opressão do Templo de
Ceres, cuja sombra tristonha se lançava pela rua.

Pedi mentalmente desculpa às minhas irmãzinhas românticas. Apesar do


meu encontro interessante, não me depararia com o amor da minha vida
naquela tarde. Não obstante, acabava de ter uma experiência
extremamente agradável. Isso já era melhor do que a norma.

Fosse como fosse, eu já tinha conhecido o amor da minha vida;


conhecera-o muito, muito tempo antes. Não se surpreenderá o leitor
mais do que eu, quando tinha a sábia idade de dezassete anos, por o
homem me ter usado e descartado assim que receou que a relação se
tornasse séria. A dor não durou; depressa conheci e casei com o Rapaz
da Quinta e, se houve quem julgasse que se tratava de uma paixoneta
para esquecer, era gente que não me compreendia de todo. Não houve
nada de falso no afeto que lhe dediquei.

Ele ainda andava por ali. Não o Rapaz da Quinta; o Rapaz da Quinta
morreu. O outro. Por motivos familiares, via-o em reuniões sociais e
por vezes até trabalhava com ele. Nesses dias, parecia que o nosso
passado o incomodava mais do que a mim.

Da visita à edilidade, algo tinha resultado. Se a relação que eu


tinha criado com o arquivista naquele dia viesse a dar frutos, seria
divertido.

Algo aconteceria com Andrónico. Hades, eu era uma informadora.


Conseguia perceber essas coisas.

28
3

O homem carrancudo chamado Tibério estava de pé ao balcão de uma


taberna um pouco mais acima na rua principal. A maior parte das
pessoas passaria pelo mensageiro dos edis sem o reconhecer, mas o meu
trabalho requer um bom poder de observação. Avancei discretamente
pelo outro lado da rua, sem estabelecer contacto visual. Aposto que
ele não reparou em mim.

Quaisquer que fossem as mensagens que os edis o encarregavam de


entregar, não deveriam ser assim tantas. Tinha uma taça e o tabuleiro
do bar à sua frente; parecia estar instalado para o resto da tarde.
Senti-me tentada a abordá-lo e exclamar: «Aposto três rabanetes em
como te venço!» Sabia que era capaz. O Rapaz da Quinta, o meu
falecido marido, tinha-me ensinado a jogar às damas, com a delicadeza
de me permitir que lhe ganhasse de vez em quando. Nunca queria saber
de quem ganhava; gostava apenas que jogássemos. Gostava da maioria
das coisas que fazíamos juntos e, como o meu tio - para quem ele
trabalhava - costumava dizer, tinha um coração do tamanho da Partia.

Eu não tinha nada que fazer, mas uma mulher respeitável de vinte e
oito anos não pode ir sozinha a uma taberna, exceção feita àquelas
que servem pequenos-almoços muito rápidos que consistem num pastel e
uma bebida quente antes de a maioria das pessoas estar a pé.

29
Mesmo nesse caso, é preciso aparentar que se tem uma banca de
verduras; chegar de madrugada na garupa de um burro, vinda de um
mercado bem remoto da Campânia, dá a uma mulher uma justificação
legítima para precisar de sustento. De outra forma, torna-se óbvio
que se está a anunciar serviços sexuais. Homens com propostas
indecorosas são bastante desagradáveis; as avozinhas furiosas a
rogarem-nos pragas são insuportáveis. As matronas romanas sabem mesmo
como expulsar uma rapariga frívola da sua rua com um mau-olhado. As
piores lançam-no a toda a gente, para não correrem o risco de
deixarem passar alguma.

Refletir sobre senhoras idosas e desagradáveis levou-me naturalmente


a pensamentos acerca da minha cliente.

Tinha de morder a língua para me obrigar a visitá-la mas, na minha


carreira de quase doze anos como informadora por conta própria,
sentira isso em relação a muitas das pessoas que me tinham empregado.
Não se trata de um trabalho através do qual se conheça a nata da
sociedade. Na verdade, para quem quiser ver os piores modos, os
motivos mais abjetos e as condutas mais tristes, esta é a profissão
certa. Os informadores lidam com o desconsolo a todos os níveis.

Salvídia, como já mencionei, tinha herdado a firma de construção


aquando da morte do marido. Ninguém tinha muito a dizer a seu
respeito, mas eu pressentia que teria começado por ser o típico
empreiteiro: por vezes trabalhador mas mais frequentemente
preguiçoso, e sempre um mau gestor, com problemas financeiros.
Salvídia não demorara a enrijecê-lo. Entrando de rajada na vida dele,
transformara a Metelo e Nepos numa máquina de extorsão até a tornar a
empresa vigarista de renovações de alta qualidade que agora era.
Nepos desaparecera, sendo provável que tivesse sido deliberadamente
afastado, enquanto o marido Metelo morrera uns anos depois, sob a
eficiência instigadora de Salvídia.

30
Esta obtinha imenso lucro da firma, mas isso não era evidente a
partir do estaleiro descuidado que eles continuavam a usar, nem da
habitação atafulhada que ela ocupava, mesmo ali ao lado. Sempre
tinham funcionado em instalações na Vicus Loreti Minoris, Rua Louro
Menor. A semelhança da maioria das estradas que atravessavam o grande
aglomerado de templos no Aventino, considerava-se superior às outras,
mas tinha os seus maus cheiros e zonas sórdidas. Começava perto do
Templo de Ceres, pelo que se encontrava na vertente noroeste do
monte, por cima do bairro dos barbeiros e do silo; elevava-se
ligeiramente em direção à área em tempos aberta onde Remo levara os
augúrios no concurso para ver quem fundaria uma nova cidade, Roma. O
leitor decerto conhecerá a história. Remo foi vencido pelo seu irmão
gémeo, Rómulo, que tinha todas as qualidades ideais de um grande
líder - e com isto quero dizer que fez batota. Da maioria dos pontos
altos mal dava para ver a cidade, quanto mais contar pássaros
suficientes para prever a formação de uma grande nação.

A Rua Louro Menor desembocava na Rua Louro Maior, no cruzamento com a


Rua da Armilústria, uma longa estrada secundária que passava perto de
onde eu morava. Estas foram algumas das primeiras vias que eu conheci
quando passei a viver no Paço da Fonte. Todas se situavam na parte do
monte mesmo acima do local onde os meus pais tinham a sua casa na
margem do rio. Isso era um pouco mais abaixo das salinas e da Porta
Trigemina. Quando a vida se complicava, eu podia encaminhar-me para
os degraus, descer a encosta escarpada e refugiar-me em casa. Muitas
vezes, ia lá só para os ver. Eram boas pessoas.

Mas naquele dia não precisava de refúgio: estava animada,


completamente em modo profissional. Tinha decidido que estava na
altura de dizer a Salvídia que podia ficar com a comissão. «Ficar»
era uma palavra mais cortês do que a que eu usara ao ensaiar o
discurso.

Fui ainda mais descortês quando o meu plano foi frustrado.

31
Eu tinha ido primeiro ao estaleiro porque era ali que a minha cliente
costumava estar, a infernizar a vida aos seus trabalhadores. O sítio
era uma balbúrdia de tábuas, placas de mármore (na maioria,
partidas), carrinhos de mão e baldes velhos cheios de pozolana (Nota
1) solidificada. Uma capa de poeira a cobrir tudo transformava-o num
cemitério de asmáticos. Dois trabalhadores de túnicas rasgadas
estavam acocorados numa coluna horizontal; um cão magricela e
acorrentado fingia-se capaz de me arrancar uma perna se eu me
aproximasse dele. Os homens pareciam demasiado deprimidos para falar
e o cão encolheu-se de encontro a um pedaço de uma divisória
desconjuntada quando olhei para ele. Recusei-me a perder tempo com os
homens, mas falei com o cão, que nessa altura se lembrou de mim e me
saudou com um ganido esperançoso. Da última vez tinha-lhe dado o
resto de uma almôndega bastante má que me arrependera de comprar, mas
naquele dia nada tinha para lhe oferecer. Ao menos poupá-lo-ia a uma
dor de barriga.

Segui caminho até ao escritório, esforçando-me em vão por manter as


sandálias limpas. Um tipo escanzelado que se autointitulava fiscal de
obras estava escondido num cubículo entre montes de folhas
empoeiradas. Contou-me a má notícia. Não haveria forma de ser paga,
nem sequer pelo trabalho que já tinha feito. Salvídia morrera.

Aquilo deixou-me em baixo. Afirmei:

— Já tive clientes a fazerem coisas impressionantes para não terem de


pagar, mas bater a bota é uma atitude extrema.

- Chegou a casa do mercado, deitou-se e parou de respirar.

Nota 1 - Pozolana é um material semelhante ao cimento inventado pelos


romanos e com origem vulcânica. (N. do E.)

32
- Qual foi a causa? Ela não era velha.

- Tinha quarenta e seis - gemeu ele.

O trabalhador, consumido pela desilusão e uma má alimentação, deveria


ter uns quarenta e cinco anos; naquele dia tinha ficado subitamente
nervoso perante a transitoriedade da vida. Provavelmente não tinha
apostado em cavalos perdedores suficientes nem fornicado tantos
acólitos como desejaria.

Soltei uma imprecação contida («Oh, que maçada!», ou algo do género)


e, uma vez que ele não tinha mais que pudesse contar-me, fui até à
casa, sob o pretexto de querer apresentar os meus pêsames. Na
verdade, queria verificar a informação. De facto ocorreu-me que
Salvídia poderia não estar morta de todo, tendo antes deixado
indicações para que tal me fosse transmitido de forma a livrar-se de
mim. Até me passou pela cabeça que talvez estivesse a evitar todos os
credores, com a intenção de se escapulir para uma villa secreta.
Qualquer pessoa em Roma por cujas mãos passasse dinheiro comprava uma
segunda casa à beira de um lago, na costa ou numa ilha.

Qualquer outra pessoa de Roma que tivesse dinheiro e uma firma de


construção teria vivido nalgum sítio melhor do que num antro da Rua
do Louro Menor, com o seu alpendre apoiado num poste para toldos e
ladrilhos de teto partidos empilhados dos dois lados do patamar. Um
loendro negligenciado num vaso teria convencido um informador mais
agitado do que eu de que Salvídia tinha morrido de envenenamento
botânico, mas mantive a calma.

Dentro da casa, havia ligeiramente menos poeira, mas o espaço estava


tão atulhado de materiais de construção como o estaleiro ao lado.
Naquilo que passava por átrio, que não tinha nem um lago ou mosaico
de bom gosto, encontravam-se bastantes estátuas de jardim que
evidentemente tinham sido tiradas das casas de outras pessoas. Uma
criada confirmou que a sua senhora estava, de facto, morta. Tinha
falecido nessa tarde. Se eu quisesse, poderia ver o corpo.

Talvez o leitor tivesse recusado o convite; eu não. É verdade que


Salvídia pouco mais era do que uma desconhecida.

33
Só tinha estado duas vezes na sua presença e em nenhuma ela me
agradara. Pela minha parte, não devia respeito algum à mulher e bem
podia ir-me embora.

Contudo, o meu paizinho era realmente do género agitado de informador


a que aludi há pouco: via malícia em tudo e durante toda a vida
cultivou o hábito de se deparar com situações em que as pessoas
morriam em circunstâncias suspeitas. Era uma forma de ganhar uns
quantos sestércios, expondo o que tinha acontecido. Não havia motivo
algum para eu considerar que algo invulgar sucedera a Salvídia;
tratava-se de uma mulher desagradável que provavelmente expirara
devido à sua própria bílis. Todavia, eu fora ensinada a inventar
sempre uma desculpa para inspecionar um cadáver. Ser convidada a vê-
lo era um privilégio bem-vindo: ia agarrar-me a ele como um piolho à
túnica de uma meretriz.

34
4

Como me tinham dito, a mulher jazia no seu quarto, um dos poucos


locais da casa que estava mobilado de forma normal. Anos antes, ela e
Metelo deviam ter investido numa cama de casal bastante sólida,
embora as tiras que sustinham o colchão já estivessem demasiado
lassas para o meu gosto. Concluí que ela nunca havia arranjado um
amante, caso contrário teriam rebolado um para cima do outro em
momentos de descanso, o que seria desagradável. Porque será que as
pessoas que vivem rodeadas de funcionários nunca os incumbem de
reparar as coisas necessárias?

O quarto tinha os armários e os baús habituais. Não havia janelas,


pelo que, embora o cheiro não fosse particularmente acre, a falta de
ar fresco tornava-se opressiva.

- Ela estava assim mesmo quando a encontrei - disse a criada numa voz
tremida, à entrada.

Não vi motivo para fazer comentários. Estava a perguntar-me quanto


tempo teria de ficar com um ar solene junto à cama antes de poder ir-
me embora sem ser indelicada.

Salvídia estava deitada de barriga para cima. Tinha os braços


estendidos ao lado do corpo e uma aparência descontraída; ou morrera
durante o sono ou alguém lhe fechara as pálpebras. Esvaziada de vida,
era uma concha, de meia-idade de acordo com os anos que tinha mas já
mirrada como uma velha; tratava-se, sem dúvida, de uma mulher que
poderia afirmar ter levado uma vida dura.

35
Salvídia tinha uma constituição robusta, o tipo de peso que chega com
a menopausa. Usava o cabelo preso num carrapito simples, que
provavelmente seria ela mesma a arranjar. Tinha os braços flácidos e
o rosto enrugado e abatido. Estava vestida com as roupas do dia a
dia, o mesmo estilo de túnica amarfanhada em que eu a vira, com uma
faixa a cingi-la muito, como se contivesse a sua zanga constante com
tudo. A aliança de casamento e outro anel simples ocupavam-lhe os
dedos; os brincos eram pendentes de um dourado baço que davam a
impressão de terem sido o único par que colocara todos os dias ao
longo dos últimos vinte anos. Não tinha outros adornos e no quarto
não havia estojos ou caixas de joias à vista; também não se viam
potes de cremes ou outros produtos cosméticos. Não gastava dinheiro a
embelezar-se.

Presumi que o seu coração tivesse subitamente parado de bater, ou


algo semelhante. Era isso o que parecia. Nada sugeria qualquer género
de interferência. A sua pele apresentava algumas manchas castanhas de
formato indistinto, como seria de esperar numa mulher daquela idade,
nada mais. Nenhuma nódoa negra. De facto, reparei num arranhão
pequeno e fino no seu antebraço esquerdo, ligeiramente avermelhado em
redor, mas era uma escoriação que qualquer pessoa podia fazer ao
raspar descuidadamente em algum sítio. Salvídia nunca se movimentara
com elegância.

Até um corpo sem vida é capaz de emitir uma aura. A agitação


incessante daquela mulher tinha terminado, mas o seu cadáver
assinalava frustração permanente. Senti a sua submissão infeliz à
morte depois de uma vida que, na minha opinião, e talvez também na
dela, fora em grande medida desperdiçada. Alguma vez teria sequer
sabido o que era a satisfação? Eu duvidava.

Deprimida, saí do quarto. A criada permaneceu para velar a patroa,


com mais lealdade do que eu esperaria.

36
Parecia que o pessoal esquecera que ela fora irritante e sentia
tristeza normal perante a sua partida prematura. Isso deveria
proporcionar-me fé na decência humana, mas ao invés desconcertava-me.
Como precisava de me recompor, avancei até uma pequena área no
exterior para lá do átrio, na qual reparara ao entrar.

Com proprietários mais zelosos, aquele espaço poderia ter sido


transformado num pequeno e elegante pátio ajardinado. Salvídia
preenchera-o quase por completo com uma enorme bacia de pedra, do
género que se vê nos banhos públicos, se bem que aquela era grosseira
e feia, não de alabastro ou pórfiro polido. Descaído, o monstro tinha
um ar tão desajeitado e pesado que eu não conseguia imaginar como
teriam conseguido manobrá-lo até ali - nem por que se teriam dado a
esse trabalho. Estava ali depositado, não servia quem quer que fosse
e apenas arruinava o que poderia ter sido um agradável lugar ao ar
livre.

Encontrei um banco, virado ao contrário e encostado a um muro baixo.


Certamente não seria utilizado havia anos. Com esforço, endireitei-o
num pequeno espaço onde o sol incidia, e depois empoleirei-me nele,
com cuidado para evitar as partes que tinham musgo. Comecei a
refletir ponderadamente, como se costuma fazer quando se fica
irritado — e que irritada estava eu. Sentia-me furiosa por a morte
inconveniente de Salvídia significar provavelmente que eu tinha
perdido a oportunidade de ser remunerada.

Calculei que ninguém me incomodaria enquanto eu me mantivesse ali a


cismar. Da casa à minha volta apenas provinha silêncio, como se até a
criada pudesse ter-se ido embora. Ainda não vira outros membros do
pessoal e perguntei-me se a patroa teria sido demasiado avarenta para
ter mais, ou se aquando da sua morte todos tinham aproveitado e
fugido. A maioria das casas tem cheiros de cozinha, cães a ladrar,
batidas e passos distantes, pedaços de conversas indecifráveis.

37
Aquele lugar permanecia estático, aparentemente deserto. Nem um pombo
partilhava o meu nicho. Tudo dava a impressão de que nunca houvera
grande vida por ali. Até chamar-lhe «casa» parecia um exagero.

Pelo menos era calmo. Por fim, a irritação e a melancolia que eu


sentia abrandaram. No preciso momento em que me preparava para ir
embora, fui surpreendida pela chegada de um desconhecido. Não o
ouvira a aproximar-se e ele ficou igualmente surpreendido por me ver.

O recém-chegado estaria no final da casa dos trinta, era esguio,


tinha um rosto banal e usava roupas decentes mas não dispendiosas.
Percebi que não era, nem nunca havia sido, escravo. Nem musculado nem
empoeirado, parecia mais um empregado de escritório do que um dos
trabalhadores da firma de construção. Se pensasse mesmo que Salvídia
tinha um amante, poderia ter suspeitado que seria ele mas, apesar de
se dar ares de ser dono e senhor do lugar, não me parecia. Mais uma
vez, era uma questão de instinto.

Pela forma como se insinuou sem se fazer notar, até podia ser um
ladrão que tivesse entrado para tentar a sua sorte e ver se
conseguiria rapinar qualquer coisa. Mas, nesse caso, seria de esperar
que ele atravessasse o átrio em direção ao interior da casa, em busca
de objetos que pudesse surripiar rapidamente, em vez de se dirigir
para este lugar e encostar-se ao pequeno muro entre as colunas do
peristilo, com um ar tão desalentado quanto o meu. Talvez se sentisse
em baixo por motivos similares. Teria também acabado de ver o
cadáver? Quando reparou em mim, não fez qualquer movimento com o
intuito de se retirar. Estranhamente, também não me expulsou.
Limitou-se a assentir uma vez com a cabeça, como um desconhecido que
se sentasse perto de mim num parque público, embrenhando-se depois
nos seus pensamentos. Portanto, deixei-me ficar e esperei para ver o
que aconteceria. O meu pai diria que esta espécie de curiosidade lhe
causara bastantes problemas. Mas é preciso confiarmos na nossa
intuição. (Esta ideia, comentaria a minha mãe num tom áspero, também
deixara demasiadas vezes o querido paizinho em maus lençóis.)

38
Por fim, o desconhecido levantou-se e apresentou-se. Chamava-se
Metelo Nepos e era o único herdeiro e executor testamentário de
Salvídia. Inquiri-o a respeito do seu nome, pois sabia que «nepos»
era a palavra latina para «sobrinho».

- É só um nome - respondeu bruscamente, como se a mesma pergunta já


lhe tivesse sido feita vezes de mais. - O meu nome!

Muito bem. Os Romanos orgulham-se da sua magnífica organização mas,


no que concerne aos nomes que atribuem aos bebés, falta-lhes lógica.
Se bem que não aconselho referi-lo num jantar social, sobretudo se o
interlocutor tiver um nome estapafúrdio.

O visitante descontraiu-se o suficiente para me explicar que o Metelo


original que fundara a companhia fora seu pai, enquanto Salvídia,
segunda mulher deste, era sua madrasta. Também me contou que não
tinha intenção alguma de dar continuidade ao negócio e que o
venderia, dizendo-o com amargura suficiente para me convencer de que
o meu palpite quanto a ter sido afastado da empresa pela madrasta
estava correto. Pelo menos tinha partido e dedicara-se àquilo que
sempre quisera fazer; tornara-se queijeiro. Eu comentei que isso era
diferente. Ele disse que nem por isso, quando se gosta de queijo.

E eu gosto. Estávamos em sintonia, embora não com grande


extravagância. Então, ele decidiu assumir uma postura oficial:

- E poderei perguntar o que veio aqui fazer?

Já estava à espera da pergunta e não via motivo para faltar à


verdade.

- Chamo-me Flávia Albia. Trabalho como informadora. Salvídia


contratou-me para exercer pressão legal contra uns requerentes de
compensação financeira.

- Por algum trabalho malfeito? - Via-se bem que conhecia o negócio


familiar. Resumi-lhe a história do atropelamento do pequeno Lúcio
Basso. Nepos perguntou-me que acordo procuravam os pais; quando
respondi, propôs de imediato: - É justo. Diga-lhes que, assim que
tiver vendido a firma, lhes pago.

Fiquei atónita.

39
- A bem da verdade, a minha comissão era para que desistissem!

- Apesar do condutor embriagado e da carroça sobrecarregada?

- Metelo Nepos, não prezo todos os trabalhos que me vejo forçada a


executar.

- A família merece qualquer coisa. Estou a anular a decisão da


Salvídia. Nunca nos entendemos. E a si, é-lhe devido algo?

Ainda perplexa com a sua atitude, contei-lhe o que esperava cobrar,


para além das despesas; Nepos consentiu quanto a honrar também essa
dívida. Não vi razão alguma para mencionar que o acordado fora
receber se o caso se resolvesse favoravelmente.

Não me parecia que a mágoa estivesse a tornar o homem benevolente. O


mais provável era que estivesse a mentir para se livrar dos credores.
Enquanto eles se deixavam embalar pelas suas promessas, ele agarraria
na herança e desapareceria. Não me tinha dito onde ficava a sua
quinta. Até apostava que seria longe de Roma.

Ainda assim, era possível que se tratasse de um indivíduo


invulgarmente honesto. Se queria ser bom, à laia de purificação
moral, isso era lá com ele. Não se tratava de algo com que me
deparasse muito, mas continuava a ter uma mente aberta.

Depois Metelo Nepos voltou a encostar-se a um pilar, virou o rosto


para espreitar o pequeno pedaço de céu que era visível lá em cima e
soltou um suspiro cansado igual a tantos que eu já tinha ouvido.

- Esse suspiro fez-me lembrar os meus clientes, regra geral numa


primeira visita - disse-lhe. Não havia dúvida de que parecia estar
perturbado. - Quando não sabem bem se a incumbência que pretendem
dar-me os fará parecer loucos... o que até acontece com frequência,
exceção feita a casos de «Acho que a minha mulher vai para a cama com
o talhante». Esses costumam ser verdade. Uma súbita efusão de bifes à
mesa de jantar tende a ser denunciadora.

- Fale-me do trabalho que realiza - instou-me Nepos. Não era uma


pergunta de cortesia.

Apresentei-lhe a minha biografia profissional, realçando o lado mais


mundano: procurar adolescentes fugitivos ao serviço de pais ansiosos,
buscas rotineiras de certidões de nascimento ou diplomas de passagem
à reserva do Exército, ou ainda por herdeiros desaparecidos ou
galinhas em falta que os vizinhos já tivessem cozinhado com
estragão...

40
Mencionei outros aspetos do meu portfólio estranhamente
diversificado. Falei-lhe de quando tinha investigado o médico
charlatão que violava pacientes do sexo feminino depois de lhes dar
pílulas para dormir. De que às vezes ilibava suspeitos inocentes de
investigações dos vigiles, quando os nossos homens justos escolhiam a
opção mais fácil, independentemente de terem ou não provas. E havia
também o trabalho que eu fazia ocasionalmente para os irmãos Camilo,
dois procuradores em ascensão que podiam precisar da assistência de
uma mulher enquanto recolhiam indícios.

- Impressionado?

- Trabalha sobretudo para mulheres?

- Sim. - As clientes do sexo feminino confiavam em mim. Evitavam


informadores do sexo masculino, conhecidos por apalparem e fazerem
coisas mais indecentes. Além do mais, muitos dos homens nesta
profissão não eram competentes. - Porque pergunta, Nepos? - Eu tinha
um pressentimento estranho.

- Faça qualquer coisa por esta mulher! - exclamou Nepos. - Está


contratada. Quero que alguém investigue a morte súbita da minha
madrasta.

A proposta espantou-me. O meu palpite teria sido que ele precisava


dos serviços de um informador por estar convencido de que um rival
malvado lhe roubara a receita do seu melhor queijo.

- Nepos, se eu não tivesse precisado do dinheiro, nem uma constipação


lhe teria dado enquanto ela era viva.

- Ajude-a agora que está morta, Albia.

Assarapantada, percorri todos os motivos que tinha já enumerado para


me persuadir de que o óbito de Salvídia não tinha qualquer interesse.

- O facto de uma pessoa morrer inesperadamente não significa que a


causa não tenha sido natural. Acontece.

41
Está sempre a acontecer. Muitas pessoas morrem por razões que nunca
são esclarecidas. Pergunte a qualquer agente funerário.

- Não - discordou ele. - Esta morte não bate bem.

- Porquê? O que o inquieta? Nepos não parava de se mexer.

- A velhota era rija como tudo, ainda nem tinha cinquenta anos e
estava ótima. Os funcionários dela dizem que ainda hoje de manhã
estava igual a si própria... mas depois, ao que parece, chega a casa,
larga as compras no átrio e cai inconsciente sem nada que o
justifique? Não acredito. É impossível. Eu não me dava bem com ela,
mas não aceito isso.

- Nepos, não há indícios de atividade criminosa. Guarde a comissão. -


Resolvi que ele não era a única pessoa em Roma capaz de ter gestos
magnânimos. Para além disso, tinha aquela terrível sensação agoirenta
que se experimenta quando se julga que um caso fatigante está
enterrado e ele volta à superfície. - Contratar-me seria um
desperdício de dinheiro.

- Isso é uma decisão que me cabe a mim - replicou Metelo Nepos num
tom funesto. - Ou investiga esta situação, ou contrato outra pessoa.

Portanto, aceitei a incumbência. Se o enteado estava determinado a


desbaratar o dinheiro que acabava de herdar, porque haveria isso de
beneficiar outro informador? Eu já lá estava, por isso acedi, aceitei
a tarefa e ainda agradeci educadamente.

Ele só podia estar enganado.

Porém, há sempre aquela pontada que não desaparece. Que nos mói
sempre. E se as suas suspeitas obtusas não fossem obtusas de todo? E
se ele tivesse razão?

42
5

Ainda que não acreditasse ter em mãos um caso digno de investigação,


não deixei de analisar os factos. Havia um procedimento rotineiro;
segui-o. Nepos acossava-me como um mastim faminto, pelo que não
poderia dar-me ao luxo de ser descurada. De qualquer maneira, eu
queria mesmo que o meu relatório final o tranquilizasse. Por vezes, é
esse o objetivo - dizer ao nosso cliente que não tem de se preocupar.

Ocasionalmente, quando o melhor é protegê-los de uma verdade


incómoda, há que dizer-lhes que está tudo bem mesmo quando se prova
que as suspeitas eram fundadas - mas não me parecia que esse viesse a
ser o resultado neste caso.

Tornei a observar o cadáver, desta feita com o enteado a meu lado


para lhe indicar a triste normalidade daquele corpo. Cético, ele
fungou.

Depois passei várias horas a refazer os movimentos de Salvídia ao


longo daquele dia. Interroguei a criada e mais alguns membros do
pessoal que Nepos arrancou de divisões das traseiras para falarem
comigo. Asseverei-me de que a dona da casa não mostrara quaisquer
tendências suicidas.

43
Conversei com os trabalhadores do estaleiro. Estes afirmaram que não
havia dúvida de que ela tinha muitos planos, planos agradáveis para
arrebanhar dinheiro a clientes. Em seguida, a criada acompanhou-me às
bancas do mercado onde Salvídia costumava comprar mantimentos;
identificámos aquelas em que ela tinha estado nessa manhã,
comparando-as com as compras que continuavam nos sacos. No mercado,
ninguém me fez revelações invulgares.

Pensei no motivo. Imaginando que Nepos tinha razão, uma morte não
natural tem uma causa, que não conseguíamos identificar, e um
perpetrador. Se a mulher de facto tivesse sido despachada, quem
quereria fazê-lo? A imagem que formei ia ao encontro da minha
experiência com Salvídia; tratava-se de uma personagem mesquinha com
quem ninguém quereria partilhar uma ceia de peixe, mas, afinal, fora
uma mulher de negócios, pelo que nunca lhe conviera desavir-se por
completo com as pessoas. Estava sempre a dar ordens aos escravos
domésticos, mas não era insuportável; quase por princípio desapontava
os clientes, mas estes raramente se davam ao trabalho de apresentar
queixa. Era esse o limite da sua agressão. Quando lidara comigo,
mostrara-se irascível, mas não tanto que eu recusasse o caso que me
propunha. Eu tinha decidido que podia trabalhar com ela. Portanto,
agora que colocava a pergunta do costume - ela tinha inimigos? - a
resposta era que nem por isso. Roma estava cheia de mulheres tão
desagradáveis quanto ela.

Comentei com Nepos que a única pessoa que beneficiava da morte de


Salvídia era ele mesmo: afinal, era o herdeiro. Acordámos que se ele
tivesse assassinado a madrasta de alguma forma indetetável, seria uma
grande estupidez estar a chamar atenção para o facto. Se o houvesse
feito, contratar-me poderia funcionar como cortina de fumo. Porém, a
menos que outra pessoa estivesse desconfiada em relação àquela morte,
não havia necessidade alguma de deitar achas para a fogueira.

Assegurei-me de que não esquecíamos a família do menino, Lúcio Basso.


O condutor ébrio e a carroça atafulhada de Salvídia tinham-no matado.

44
Não obstante, ela tentara descaradamente evitar pagar uma
compensação. Isso significava que os pais enlutados poderiam devotar-
lhe um verdadeiro rancor. No entanto, esperavam receber uma grande
soma de dinheiro em breve - porque, em termos realistas, eles tinham
uma acusação irrefutável de negligência que os meus melhores esforços
não poderiam ter contestado. Convinha-lhes mantê-la viva, para que
pudesse pagar-lhes. Mesmo assim, fui visitá-los. Todos tinham álibis.

Com relutância, Nepos aceitou que não havia indícios de qualquer


desventura. Ainda assim, queria chamar um médico para analisar o
corpo; persuadi-o a guardar o dinheiro e pedir a opinião de um agente
funerário, que, fosse como fosse, teria de ser contratado. É gente
que vê o suficiente para apresentar a melhor avaliação do que terá
acontecido a um morto.

O cangalheiro parecia competente. Observou o corpo e não cedeu a


entusiasmos indevidos. Reparou na marca que eu tinha assinalado no
braço de Salvídia, embora, tal como eu, achasse que se tratava de
algum arranhão acidental. Afirmou que naquela primavera havia
mulheres a morrerem discretamente por toda a cidade sem razão
aparente. Isso podia significar que alguma espécie de doença
invisível estava a apoderar-se delas, mas o mais provável era que
fosse uma coincidência estatística. O seu veredito foi o velho
adágio: «E fruta da época.»

Levou o cadáver. Prometi a Nepos que iria ao funeral. É uma boa


altura para reclamar honorários, antes que os herdeiros se dispersem.

O meu dia acabou muito mais tarde do que tinha previsto quando saíra
de manhã cedo para ir visitar os edis. Contudo, isso é comum no
género de trabalho a que me dedico. Estava a anoitecer e eu precisava
de comer, pelo que fui ver a minha família, que me daria de jantar,
num verdadeiro lar cheio de calor, luz, conforto e conversas
animadas. Isso deixar-me-ia com melhor disposição. Também poderia
pedir conselhos em relação a Salvídia - não que alguém tenha sido
capaz de acrescentar alguma ideia útil, afinal. Todos concordámos que
eu tinha levado a cabo as únicas investigações possíveis. Se isso
nada revelava, então nada deveria haver para descobrir.

45
6

Quando voltei para o meu edifício, já era mesmo muito tarde. Grande
parte de Roma estava a dormir. Os que se mantinham acordados estavam
doentes, a fazer amor, a suicidar-se ou a roubar alguém. Eu cá não ia
interrompê-los.

Tínhamos um trato. Depois de a noite cair, as famílias endinheiradas


enviam as filhas que as visitam numa cadeirinha, transportada por
escravos encorpados que alumiam o caminho com archotes. Eu aceitava
isso. Os solavancos deixavam-me maldisposta, mas aceitar uma escolta
assegurava a paz familiar. Assim que a cadeirinha alcançava o Paço da
Fonte, estávamos no meu território e era eu quem ditava as regras. Os
liteiros sabiam que deviam deixar-me junto às peças do oleiro, cuja
oficina trancada ficava em frente ao meu edifício, e que deixava um
círio aceso para iluminar o seu trabalho. Uma noite, o círio haveria
de incendiar o espaço, reduzindo a cinzas os seus montes de
escorredores de uvas e almofarizes de fundo áspero, mas, entretanto,
sempre era um ténue ponto de luz. Saltei da cadeirinha e fiquei em
silêncio à escuta, para me assegurar de que não havia um criminoso à
espera para me atacar.

A esquina, antes de deixarem a viela, os liteiros olhavam para trás;


se eu lhes fizesse sinal de que tudo estava bem, eles seguiam
caminho.

46
Se algo na rua me parecesse estranho, chamava-os para junto de mim.
Nunca corria riscos. Afinal, estava em Roma. Metade das pessoas
assaltadas a meio da noite são atacadas à soleira da sua própria
casa.

Talvez o leitor esteja a pensar que os liteiros poderiam levar-me até


dentro de casa. Oh, claro - e mostrava a todos os vilões do monte
Aventino qual era a minha porta? Uma mulher sozinha, desta vez até
elegantemente vestida, a voltar exausta e um pouco entornada...
estava pronta para ir para a cama. Não me apetecia ter de espetar uma
faca de trinchar num ladrão ou num violador.

Sê sincera, Albia: está bem, até viveria bem com isso. Só não estava
disposta a ter de passar o resto da noite nalguma sala de
interrogatório na esquadra dos vigiles, a dar em doida com um tipo
quase analfabeto a tentar escrever «autodefesa». Rufiniano, sem
dúvida. O tipo era honesto, mas completamente imbecil.

Sim, já uma vez tinha apunhalado um intruso e depois cometera a


estupidez de o comunicar às autoridades.

Sim, ao fim de algum tempo, o homem tinha morrido.

Não, não me arrependo.

O Edifício Águia, no Paço da Fonte. Toda a gente continuava a chamar-


lhe a velha lavandaria, embora não o fosse havia anos e ninguém
soubesse o que era feito do proprietário. Alguns ter-se-iam reformado
para gozar os lucros, mas corria o rumor de que este os tinha
dissipado em bebida.

Passei o olhar pelo grande prédio, semideserto como era já habitual,


embora mal se visse uma nesga iluminada, nem sequer nas partes que eu
sabia habitadas. Os inquilinos que tinham emprego estariam a pé ao
raiar da aurora para se dedicarem aos trabalhos estafantes; os
mandriões e outros desempregados não podiam gastar óleo nas
lamparinas. Seis andares de miséria degradada impunham-se diante de
mim, portanto, como uma fortaleza negra onde prisioneiros de guerra
passassem a noite a ser torturados.

47
Talvez fosse uma ilusão da escuridão, mas por vezes parecia-me que
toda aquela forma imensa pendia sobre o paço como se estivesse
prestes a desmoronar-se. Era do género de edifício onde morriam
pessoas solitárias cujos corpos permaneciam semanas sem serem
descobertos. Se alguém não fosse visto durante algum tempo, partíamos
simplesmente do princípio de que estaria a esconder-se de um cônjuge
desavindo ou das autoridades. E o que era um mau cheiro no meio de
tantos outros?

Um senhorio tipicamente miserável tinha sido proprietário do local


durante muitos anos, até o ter vendido a pessoas de consciência.
Planos bem-intencionados de renovação ficaram por concretizar,
derrotados por erros estruturais que se tinham averiguado chegar até
às fundações, ou àquilo que passava por fundações. O novo
proprietário contratou um construtor; o construtor chamou um
arquiteto; o arquiteto levou um engenheiro; o engenheiro disse que
nada feito, que ficassem com a comissão, porque nem que lhe pagassem
mais pelo risco ele tocaria naquele sítio.

Até então, o Edifício Águia ali estava, aguentando-se por pouco. Se


algum inquilino tivesse uma tosse mais forte, era-lhe pedido que se
instalasse em casa de amigos, não fosse a reverberação deslocar algum
elemento crucial da estrutura.

Eu vivia no edifício sem pagar renda. O meu pai, dado à nostalgia,


via o prédio hediondo como a casa da sua juventude despreocupada. A
minha mãe, numa atitude pouco comum, fizera-lhe a vontade, e fora
assim que a minha louca família comprara o espaço.

Originalmente, tinham sonhos benevolentes que incluíam ocupar os


apartamentos com inquilinos merecedores que ficassem agradecidos;
este idealismo excêntrico esmoreceu quando os primeiros vadios se
«esqueceram» de pagar a renda e usaram as escadas como lavabos. Agora
a intenção era demolir a desgraça periclitante e vender o lote vazio
a um senador milionário, ludibriando-o dizendo-lhe que havia ali
potencial para a construção de uma casa privada.

48
Acabaria por acontecer. Um general ambicioso das províncias seria
trapaceado com falinhas mansas que o convenceriam da exclusividade do
monte Aventino, um refúgio pouco conhecido da azáfama da cidade, um
distrito romano histórico com terra privilegiada para desenvolvimento
imobiliário a um preço razoável, uma oportunidade raramente
disponível para construir uma casa à medida...

Não pense que vivíamos iludidos com este plano. Já tínhamos uma
pessoa em vista. Chamava-se Trajano.

Sim, talvez o leitor já tenha ouvido falar dele e, sim, é verdade que
hoje em dia ele possui uma pequena mansão discreta no monte Aventino.
O meu pai pode parecer um louco, mas descende de uma linhagem ousada
de bufarinheiros capazes de venderem frutos secos a donos de pomares
de amendoeiras. O meu avô, por exemplo, era um leiloeiro, o que - com
a devida discrição ao especificar o rendimento para efeitos fiscais -
significava que estava tão bem na vida como alguém pode precisar de
estar. Depois da sua morte, todos beneficiámos, incluindo eu.

Porém, dinheiro disponível não ajudava o Edifício Águia. Qualquer


investimento nele seria um desperdício. Uma parede lateral estava a
desviar-se e a sujidade ficava mais negra a cada ano que passava. Já
não era seguro usar a varanda do meu escritório no andar de cima,
ainda que essa fosse a única característica positiva desses
aposentos. Devia mudar-me, mas vivia ali porque estava habituada. As
águas-furtadas do prédio sempre tinham albergado um gabinete de
informador, pelo que havia clientes potenciais que tinham ouvido
falar do sítio e o achavam. Depois de subirem a custo seis andares de
escadas, até os que julgavam ir ao encontro do meu pai desistiam,
contentando-se comigo.

Escondido - muito mais abaixo, acreditem -, eu tinha o meu próprio


apartamento, um refúgio de cuja existência a maioria das pessoas nem
sequer suspeitava. Foi aí que vivi durante os três anos felizes do
meu casamento.

49
Ali fiquei depois porque, ainda que a vida continue, nunca me ocorreu
que ela me favorecesse uma segunda vez. Parei ali, com as minhas
memórias. Era tudo o que tinha. A felicidade tinha-me visitado e
partido.

O meu marido morreu num acidente. Por essa altura, eu já trabalhava


como informadora, ganhando o meu próprio sustento num gesto de
independência, embora o legado do meu avô tivesse deixado a família
bastante à vontade em termos financeiros. Tinha apenas vinte anos
quando enviuvei. A família ofereceu-me a segurança do regresso a
casa; com delicadeza, recusei a oferta. As minhas raízes estavam ali.
Antes de ter sido adotada, tive uma infância dura. Foi importante
que, durante o meu breve casamento, tenha conseguido manter uma boa
vida. Já vivia sozinha há oito anos, e desenvencilhava-me bastante
bem.

A maioria das pessoas conformar-se-ia com uma saída fácil. Eu


continuei a trabalhar porque encontrar soluções para problemas tinha
um apelo lógico. Por vezes, era capaz de encaminhar outras pessoas
para um estado de paz mental. E preciso ter objetivos, quando já se
gozou toda a alegria e não se espera que o destino nos conceda mais.

Devia estar mais cansada do que me dera conta. Estava a dar-me para a
lamechice.

Era altura de me mexer. Sabia como desaparecer entre as sombras e ali


havia muitas. Felizmente, ali ninguém punha lanternas para iluminar a
rua, por isso quaisquer gatunos teriam de se esforçar muito para me
ver.

Atravessei a rua. A experiência ensinara-me a avançar cautelosamente.


No Paço da Fonte, à noite, regra geral orientava-me pelo olfato.
Mesmo com prática, podia acabar por pisar qualquer coisa com as
minhas sandálias douradas. Talvez encostar os dedos descobertos a
algo que ainda se mexesse, apesar de estar semimorto...

50
O edifício tinha um decrépito alpendre corta-fogo, anexado a um
pórtico que corria ao longo da rua. Dentro do alpendre, fora
acrescentada uns anos antes um gradeamento de ferro. Não fiquei
surpreendida quando vi que Ródão, estupidamente, não o tinha
trancado.

De cada lado do vestíbulo havia um par de aposentos que abrigavam


velhas escadarias de pedra, as quais basicamente suportavam o
edifício. Pouco mais do que cubículos, num deles guardávamos
vassouras e baldes, no outro o meu pai tinha instalado um zelador/
porteiro que deveria escrutinar os visitantes e usar as vassouras e
os baldes. Como de costume, alguém de quem ele se apiedava tinha-se
candidatado ao lugar. Ródão. Não fora uma das suas melhores escolhas
- mas ele era uma desgraça a selecionar pessoal e aquele não fora nem
de longe o pior dos casos.

Um lampião emitia uma luz fraca do lado de fora do nicho onde Ródão
obtivera permissão para viver. Creio que era ali que em tempos a
lavadeira se escondia de mulheres iradas cujas túnicas cor de açafrão
apareciam raiadas de verde; era ali que ela emborcava do seu frasco
para esquecer a triste realidade da vida. Mesmo nos dias que corriam
acontecia um ou outro cliente aparecer e perguntar a Ródão por um
lençol deixado para lavar cinco anos antes.

- Calma aí!

- Oh, caramba, Ródão! - Eu acabava de ser impedida de avançar pelo


meu próprio porteiro. Este saiu do seu cubículo e, com um encontrão,
obrigou-me a recuar para fora do alpendre. De nada serviria desejar
que fosse tão eficiente com desconhecidos. Era grande, mas parecia
ensonado e entorpecido. - O que estás a fazer a pé a meio da noite,
seu idiota?

Ródão era um antigo gladiador, incapaz de assustar uma mosca. Devia


ser o ex-gladiador mais velho do mundo. Regra geral, até aqueles que
obtêm a liberdade estão tão arrasados pela arena que não sobrevivem
muito tempo na reforma mas, se continuasse a comer as suas lentilhas,
Ródão haveria de chegar aos noventa. Tinha um nariz horrorosamente
partido, mas isso fora obra de um inquilino que o atingira na cara
com uma marreta.

51
A verdade era que o motivo da sua longevidade era precisamente o
facto de nunca ter sofrido lesões no exercício da profissão. Enquanto
gladiador era tão inútil que o treinador para quem trabalhava não o
punha a lutar. Durante a maior parte da vida, Ródão tinha deambulado
pelo monte Aventino, a servir de guarda-costas e cobrador de rendas.
Agora começava a resvalar para a senilidade natural e tinha a visão
demasiado turva para reconhecer que estava a barrar a passagem à
mulher que lhe entregava o ordenado. Deveria ser o meu pai a fazê-lo,
mas ele detestava lidar diretamente com Ródão.

- Oh, és tu - resmoneou. A forma furiosa como lhe pontapeei a canela


enquanto ele tentava afastar-me com uma carga de ombro deveria tê-lo
feito perceber isso. - Isto é que foi uma noite e tanto. Veio cá um
tipo à tua procura.

- Um visitante? E dizes que isso é uma noite e tanto?

- Eu estava a jantar - respondeu num tom patético. - Tive de o


acompanhar até lá acima ao gabinete e depois voltar a descer com ele.
As minhas linguiças ficaram mesmo frias mas, ainda assim, ele nem
sequer me deu uma gorjeta.

- Quem era, um cliente? Trabalha até tarde e não pode vir durante o
horário de expediente? Posso esperar por ele amanhã; espero que lhe
tenhas dito isso. Como é que ele se chama?

Ródão fungou. Não com força suficiente, pois teve de limpar o nariz
ao braço.

- Não chegou a dizer-me.

Por todos os deuses. Era por isto que para a minha família Ródão era
uma criatura a desprezar. Quão simples será perguntar: «Quem devo
dizer que visitou?» Sobretudo após vários anos comigo a explicar-lhe
educadamente como fazê-lo? Nem sequer tinha de escrever os nomes.
Afinal, Ródão não sabia escrever.

Ocorreu-me um pensamento. Teria sido o arquivista da edilidade? Nesse


caso, estava muito entusiasmado.

52
Um cínico poderia considerar aquilo uma prova de entusiasmo
excessivo. Descrevi Andrónico:

- Um tipo amistoso. De olhar vivo e arruivado. - Ródão fitou-me com a


sua expressão vaga. - Usava uma túnica branca debruada a azul?

Por vezes perguntava-me se ele faria de propósito para ser tão


irritante.

- E capaz.

Indiquei-lhe que, se aquele homem voltasse, ele deveria levá-lo de


imediato ao meu gabinete e tratá-lo bem.

- Se eu não estiver, marca uma reunião como deve ser.

Mas eu iria estar. Iria ficar por ali deliberadamente, para o caso de
se tratar de facto do arquivista.

Por fim, o porteiro idiota admitiu que o visitante prometera


regressar no dia seguinte. Isso deixou-me tão contente que nem tentei
voltar a pontapeá-lo quando me despedi dele.

Talvez Ródão nunca tenha ficado com o cérebro feito em papa na arena,
tendo já nascido avariado. Eu tinha praticamente a certeza de que ele
nunca reparara nos meus aposentos. Se assim era, tratava-se de uma
boa notícia, pois não poderia revelá-los a quem quer que fosse.

Eu morava no segundo andar. A porta da frente estava bloqueada por


floreiras empoeiradas, com as plantas a morrer como se o último
inquilino tivesse desaparecido pela calada da noite. Era exequível
passar por cima das floreiras, mas eu raramente entrava ou saía por
aí. Em vez disso, subia apenas um andar, saindo da vista de Ródão ou
de quem quer que se encontrasse na entrada. Poderiam ouvir-me a
entrar num apartamento que era habitado por uma família do Norte de
África, imigrada da Mauritânia. Bem, a maior parte da família. Vivia
lá a mãe, com um número crescente de criancinhas andrajosas, cujos
tons de pele eram muito diversos.

53
Nenhum deles dizia uma palavra que fosse na nossa língua, o que me
poupava ao embaraço de ter de perguntar pelo pai.

O apartamento tinha quatro divisões, dispostas ao longo de um


corredor, mas eles só ocupavam três. Servindo-me da minha
prerrogativa de filha do senhorio, reservara para mim o uso da
última. Até tinha lá um canapé, entre outras coisas. Mas o seu
principal propósito era dar-me acesso a um passadiço decrépito de
madeira que tinha sido construído à laia de escada de incêndio.
Quando este lugar era uma lavandaria, os primeiros degraus conduziam
a uma área atulhada onde a roupa era deixada a secar no rés-do-chão;
agora isso era um pátio abandonado, que dava acesso tanto à rua como
a uma viela nas traseiras. Quem quer que me seguisse até ao
apartamento dos africanos encontraria o meu quarto vazio e calcularia
que eu saíra e fugira por ali.

Pode parecer que vivia obcecada com medo de ser seguida até casa.
Isso era o legado do intruso que eu tinha esfaqueado. Sermos
invadidos na nossa própria casa deixa sequelas permanentes. Nunca se
recupera por completo.

A semelhança da maioria dos prédios arrendados de Roma, o Edifício


Águia tinha normas de segurança mínimas. Para além do primeiro piso,
construído com maior robustez, as escadas de incêndio dos andares
superiores tinham apodrecido e não haviam sido substituídas. Em caso
de incêndio, todos os moradores desses pisos ficariam encurralados.
Porém, o velho passadiço proporcionava-me mais do que uma rota de
fuga privada. Avançando um pouco mais por ele, chegava a um velho
painel encostado ao muro. Ali ocultados estavam uns degraus íngremes
e estreitos. Davam passagem ao interior, à minha verdadeira casa.

Aquele meu refúgio sempre fora o melhor apartamento do edifício. Era


pequeno, apenas três boas divisões, uma delas com uma fornalha que eu
usava para aquecer bebidas, embora raramente cozinhasse de facto, em
primeiro lugar porque nunca aprendera a fazê-lo como deve ser e em
segundo porque não queria encher a casa de fumo. Ao longo dos anos,
fora-a equipando com mobílias bastante elegantes e sofisticadas,
graças aos negócios de antiguidades da minha família.

54
Quando chegava a casa, depois de um dia cansativo, encontrava ali
paz, tranquilidade e consolo para a alma Era o meu lugar de memórias
felizes.

Entrei, tranquei a porta, despi-me e deitei-me na cama para dormir.


Muito poucas seriam as pessoas que saberiam onde me encontrava. Só os
pesadelos poderiam importunar-me e, felizmente, nessa noite nenhum me
visitou.

55
7

Na manhã seguinte, bem cedo, estava no meu gabinete. Sentia o coração


ligeiramente palpitante. Dediquei-me a tarefas inócuas que servem
para ocupar o tempo, como despejar o caixote de lixo, arrumar cartas
a que não me daria ao trabalho de responder e lançar os dados num
jogo solitário.

Ouvi Ródão e o visitante a aproximarem-se. A vários andares de


distância, Ródão resmungava, sem fôlego e dando a impressão de poder
desmaiar a qualquer momento. Se alguma vez me levasse um indesejável
que fosse preciso forçar a sair, teria de ser eu a tratar disso.
Teria de expulsar o desordeiro e depois voltar a subir para rebocar
Ródão, ofegante, até ao rés-do-chão.

Felizmente, o visitante em causa era amigável. Como toda a gente, não


tinha sido capaz de manter um ritmo razoável ao subir as escadas,
pelo que o ouvi exclamar de alívio ao chegar ao último andar. Depois
terá passado por uma coleção antiga de ânforas vazias até alcançar a
minha porta gasta. Abri-a de rompante. O meu coração bateu com mais
força ao ver a figura esguia e a expressão ávida do homem encantador
que tinha conhecido no dia anterior.

Andrónico ainda estava a olhar para a tabuleta de mosaico, com a sua


mística lua em quarto crescente.

56
Por estas bandas, as pessoas achavam que eu era druida. Isso era uma
estupidez, mas eu não as corrigia. Os clientes admiram passados
exóticos.

- Andrónico! Mas que surpresa... obrigada, Ródão, já podes ir...

Enxotei Ródão o mais depressa possível, enquanto o arquivista


permanecia à entrada e fitava a minha antessala.

Tinha-a transformado num boudoir bem diferente da divisão simples e


masculina que herdara. Dá para fazer tanta coisa com ornamentos
delicados. Um informador não deveria receber pessoas num buraco
despojado que pareça a sala das traseiras de uma taberna onde os
proxenetas e os jogadores se juntam. Bem, a menos que todos os
clientes sejam proxenetas e jogadores. Esta é uma profissão de baixo
nível.

O espaço ínfimo estava agora arranjado para conversas confortáveis.


Eu tinha uma cadeira de espaldar alto, um trono de vime que indicava
claramente quem mandaria. A poltrona onde clientes agitados podiam
afundar-se e desabafar o que lhes ia na alma tinha uma manta
colorida, bem como almofadas que eles podiam abraçar nervosamente
enquanto contavam as suas histórias. Havia uma pequena mesa redonda
com um tampo de madeira marchetada, onde podiam ser servidos
refrescos, depois de termos chegado a acordo sobre pequenos
pormenores importantes acerca do meu pagamento. Numa prateleira,
encontravam-se obras de arte grega cuidadosamente escolhidas.
Empréstimos da casa de leilões, iam sendo substituídos a intervalos
regulares. A arte implica sempre bom gosto e confiança. Sugere que as
peças poderão ter sido ofertas de antigos clientes com motivos para
se sentirem agradecidos. E muito mais subtil do que arranjar cartas
de recomendação, que as pessoas julgam sempre tratar-se de documentos
forjados pelo próprio.

A arte, se for suficientemente sólida, também pode ser usada como


marreta na cabeça de algum indivíduo grosseiro que nos ofenda.

57
- Que bom vê-lo. - Sentei-me e indiquei-lhe a poltrona.

- Sabia que tinha vindo cá alguém ontem à noite, mas eu não estava
disponível...

- Não fui eu. - Calculei que Andrónico quisesse disfarçar a sua


ânsia. - Onde estava, então?

Tinha uma pequena ruga entre aqueles olhos afastados e quase


demasiado intensos. Quanto a mim, sentia-me demasiado alegre para me
preocupar. Afinal, estávamos só a conversar.

- Com a minha família.

- Não com um amante?

O homem era adepto de abordagens diretas. Piscou-me o olho, como que


para demonstrar que sabia que tinha feito uma pergunta atrevida.

Já com muita experiência, retorqui com humor:

- Oh, o do veleiro teve de se ausentar e a última notícia que tive


dele foi que estava retido por infrações alfandegárias; parece que
desta vez não se vai safar. O ator também me deixou pendurada; anda
muito ocupado com um grupo de viúvas velhas. Até já fez uma hérnia,
só de carregar as arcas de joias delas...

- Lê muita poesia satírica?

- Não, escrevo as minhas próprias falas.

De momento, não tinha amante algum. Havia muito tempo que não, mas
uma rapariga nunca deve mostrar-se demasiado disponível. Não num
primeiro encontro. Afinal, tinha amor-próprio.

Andrónico parou com o interrogatório. A minha frente, instalou-se


numa posição descontraída, com um braço ao longo das costas da
poltrona. Agradou-me a forma como se pôs à vontade. Íamo-nos
avaliando um ao outro, ambos a fingir que não o fazíamos. Continuava
a achá-lo encantador.

- Desculpe - disse ele, adivinhando-me os pensamentos.

- É claro que aqui é você quem faz as perguntas!

Mantive o tom ligeiro.

- É verdade. Não quereria desperdiçar os meus talentos de


interrogadora, que aprendi com tanto labor... O que o traz por cá?

58
- E vai logo direta ao assunto! - Inclinou-se para a frente com uma
expressão franca. - Houve um desenvolvimento. Queria ser o primeiro a
contar-lhe.

- É atencioso! Fico maravilhada... Então, qual é a novidade?

- Salvídia morreu. Alguém da família dela... um sobrinho... foi


informar Fausto ontem à noite.

Decidi não indicar ao meu novo amigo que já estava a par da morte da
mulher, e também não o corrigi quanto ao verdadeiro estatuto de
Metelo Nepos. Gostava de Andrónico, mas não o conhecia
suficientemente bem - ainda - para infringir as minhas próprias
regras: não dizer nada que não seja necessário dizer.

- Isso é um choque, Andrónico. Ela não era velha. O que aconteceu?

- Ao que parece, chegou simplesmente ao fim da linha da sua vida.


Deve ser complicado perder uma cliente. Foi por isso que achei que
quereria saber: não vale a pena desperdiçar mais tempo com ela.

- Sim, obrigada. - Ocorreu-me que ele não poderia ter estado presente
durante a conversa entre Nepos e Mânlio Fausto. O Nepos que eu
conhecera teria, sem dúvida, mencionado a um magistrado as dúvidas
que o assolavam quanto à forma súbita como a madrasta falecera.
Gostava de saber qual teria sido a reação de Fausto. Teria tentado
dissuadi-lo? - E esse tal «sobrinho» foi à casa do edil? Porque é que
você estava lá?

- F lá que vivo. - Presumivelmente, teria sido escravo lá. E possível


deduzir muito a partir do que um liberto prefere calar. Alguns são
desabridos em relação às suas origens; afinal, não são culpados por
terem sido escravos. Contudo, dava para perceber que Andrónico era
bastante sensível. Nunca iria proferir as palavras «escravo» ou
«liberto» referindo-se a si mesmo. - A casa é do tio dele; desde a
infância que Fausto tem morado com o tio, com algumas interrupções.

- Ele não é casado?

- Divorciado.

59
- Uma separação por mútuo acordo, ou terá sido apanhado com uma
criada da copa?

- Correram rumores... Ele deixou a mulher muito depressa e teve de


devolver o dote. Nunca consegui obrigá-lo a explicar o que aconteceu;
há uma conspiração de silêncio na família.

- Leu o diário dele?

- O idiota não tem um diário.

- Mas que desgraça de homem... diga-lhe que tem a responsabilidade de


esclarecer a questão à sua criadagem dedicada!

- Bem, se se afastou do leito do matrimónio, agora comporta-se como


um pedante moralista - resmungou Andrónico.

- Não tem uma amante, então?

- Nem toca na rapariga que lhe faz a cama.

- Então ela acha que ele é muito bem-educado... mas preferia que ele
fizesse alguns avanços, para poder receber um grande presente nas
Saturnais! E o tio?

- Oh, é de um molde completamente diferente. Túlio é um pouco


tresloucado de mais para poder ficar amarrado ao casamento. Conhece o
género: atira-se a qualquer escravo, de qualquer idade, seja do sexo
masculino ou feminino; até consta que já se levantou depois das
entradas, saiu da sala com um servo, fornicou o rapaz na antessala e
regressou para o prato principal como se nada tivesse acontecido,
retomando a conversa onde a tinha deixado... Flávia Albia, realmente
sabe fazer perguntas. Estou impressionado.

- É só uma questão de hábito. Peço desculpa.

- Oh, não me importa que queira saber o escândalo de Fausto...

- Não me contou escândalo algum que envolvesse Fausto - corrigi-o.

- Não, ele é uma mosca morta.

- Se alguma vez tiver de privar com ele, gostaria de ir munida com


alguma história sórdida do seu passado! - Já tinha confirmado que
Andrónico não gostava mesmo de Mânlio Fausto. A sua atitude para
comigo era tão franca que percebia que estava a ser reticente quanto
à má relação que mantinha com o edil.

60
É claro que isso me espicaçou o interesse, embora o tenha deixado
passar, por ora. Ele considerava-me direta, mas eu também era capaz
de ser muito paciente. - Então, Andrónico, ontem à noite?

- Fausto recebeu uma visita... por vezes as pessoas abordam-no por


motivos profissionais depois do jantar.

- E ele reage bem? Não se importa de ser encurralado em casa, quando


está a descontrair?

- Eu nunca o vi descontrair! Encara o «dever» com uma atitude pia.


Adora sofrer. E suponho que estivesse curioso.

- Ao passo que você não estava de todo interessado no que quereria o


sobrinho de Salvídia? - provoquei-o.

Andrónico arqueou as sobrancelhas, franzindo a testa e adotando um


falso ar de inocência.

- Quando Fausto se levanta e abandona um doce de noz-moscada para ir


receber uma visita misteriosa, eu de facto costumo segui-lo e
encostar a orelha à porta.

- Precisa de saber o que ele anda a tramar?

- Gosto de poder vigiá-lo e protegê-lo.

Nalgumas casas, os libertos interessam-se por motivos dúbios,


desejando causar fricções entre membros da família e planeando, até,
exercer chantagem. Afortunadamente, a forma pacata como Andrónico
brincava a respeito do assunto tranquilizaria até o próprio Fausto.

De súbito, assumiu uma expressão mais séria.

- De facto, eu também tinha interesse na questão, Albia. A verdade é


que eu próprio tive um encontro desagradável com aquela mulher
horrível. Até me custa recordá-lo. Salvídia foi ver Fausto, mas ele
não estava. Tive de ser eu a lidar com ela. Estava furiosa por causa
do aviso no muro, o que pedia testemunhas da morte da criança.
Descompôs-me com tanta violência que me deixou a tremer.

- Oh, coitado!

- Como se a culpa fosse minha! - Andrónico ainda parecia abalado.


Tendo conhecido Salvídia, podia imaginar porquê. – Ela era terrível.

61
A arrogância dela era simplesmente inaceitável. Achei que ia atacar-
me fisicamente.

- Suponho que receasse que o acidente acarretasse consequências. -


Mânlio Fausto poderia deixar cair uma mão de ferro sobre a firma de
construção, punindo-a por negligência. Carroças sobrecarregadas e
condutores embriagados caíam na área de atuação dos edis. - Contou a
Fausto que ela o confrontou dessa maneira? Ele mostrou-se compassivo?

- Segundo Fausto, a minha função é ser sempre útil aos membros do


público.

- Ele não sabe muito acerca do público.

- Albia, isso é mesmo verdade! Quando o sobrinho dela chegou, Fausto


ordenou-me que ficasse onde estava. Eu não podia aceitar isso. Ele
foi receber o visitante e eu segui-o à socapa.

- Achou que teria surgido algum problema da vossa altercação? Porque


haveria um parente de sentir necessidade de informar um magistrado da
morte de Salvídia, Andrónico?

- Não faço ideia.

O arquivista encolheu os ombros.

- Talvez - sugeri dissimuladamente -, ele esteja disposto a pagar a


compensação exigida pela morte do pequeno Lúcio Basso e por isso ache
que o aviso a pedir testemunhas deve ser retirado? Para pôr uma pedra
no assunto? Se a intenção dele for manter o negócio em funcionamento,
não quererá a acusação de assassinos de crianças a macular a
reputação da construtora. E se quiser vendê-la, ainda precisará mais
de ocultar o que aconteceu, para poder pedir um bom preço e desfazer-
se de uma preocupação.

- Ocorre-me outro motivo para ele pagar a compensação: querer evitar


que a companhia seja multada por negligência - retorquiu Andrónico.

- É possível.

Dado que Nepos era meu cliente, sentia-me obrigada a manter um tom
neutro.

62
- Oh, tem uma natureza tão confiante! - comentou o meu interlocutor
com um sorriso, ignorando que eu tinha simplesmente optado por não
parecer demasiado despachada. Ele fazia elogios como muitos homens:
lugares-comuns que eu considerava embaraçosos. - Então em que pé fica
agora em relação a Salvídia? Pode deixar de trabalhar para a causa
dela?

Mas que amigo tão generoso. Parecia mesmo determinado a poupar-me a


trabalho desnecessário.

- Se a compensação for paga, torno-me redundante. Infelizmente para


mim, Salvídia tinha-me obrigado a um contrato que estipulava que só
me remuneraria se ganhasse.

Andrónico inclinou a cabeça de lado.

- Está zangada?

- Não. Uma criança morreu. O caso nunca me agradou.

O arquivista levantou-se, parecendo satisfeito com a minha resposta.

- Então! Dado que aquela seresma saiu de cena e que o seu trabalho
está concluído - propôs-me -, talvez possa sair e almoçar comigo?

Eu tinha trabalho. Mas sabia como acelerá-lo. De repente,


transformava-me no género de mulher que vai almoçar com um homem que
conheceu apenas no dia anterior.

Deixei-o escolher o lugar. Graças a Juno, não quis ir ao


estabelecimento da minha tia, embora tenhamos passado por ele.

Escolheu uma casa de pasto com um pátio interior, isolada do barulho


da rua e bem gerida, pelo que estava agradavelmente ocupada por uma
clientela de fregueses comerciais. Tomámos um almoço ligeiro, de
peixe frito com salada e água a acompanhar. Conversámos e rimos. Ele
não fez quaisquer avanços. Quanto a mim, contive-me valentemente de
os fazer, embora me sentisse tentada. Uma mulher tem necessidades. As
minhas havia muito que não eram satisfeitas.

63
Demasiado. Gostava mesmo dele e estava disposta a uma aventura.

Depois ele voltou para a edilidade. Tinha muito jeito para se mostrar
triste por ter de se ir embora.

Sozinha, voltei para uma praça antiga chamada Armilústria, onde


fiquei sentada durante muito tempo, a pensar na vida.

64
8

A Armilústria era o nome partilhado por um festival e um santuário. O


local era um espaço murado antigo, dedicado a Marte, o deus romano da
guerra. Desde tempos imemoriais, era ali que as armas eram
ritualmente purificadas em março e em outubro, os meses de início e
fim da época de combates. A cada cerimónia seguia-se uma grande
procissão até ao Circo Máximo: só ruído e triunfalismo. Os Romanos
adoram fazer estardalhaço.

Uma vez que o espaço servia como campo de desfile durante as


cerimónias da primavera e do outono, era mantido praticamente
despojado, embora houvesse um templo de um dos lados, um altar
permanente de pedra ao centro e um par de bancos, destinados às
senhoras mais velhas. A um canto encontrava-se o alegado túmulo de
Tito Tácio, um rei sabino que governara juntamente com Rómulo durante
algum tempo, há milhares de anos. Sendo estrangeiro, teria sido
enterrado ali, no que então era a colina dos forasteiros; um carvalho
proporcionava sombra ao seu sepulcro. Deverá ter sido substituído.
Nem mesmo os carvalhos duram tanto.

Entre festivais, era costume a Armilústria estar deserta. Eu gostava


de ir até àquele lugar e ficar ali sentada. Era melhor do que um
parque público, com a constante agitação causada por casais de
apaixonados, crianças de escola nas suas correrias, pedintes e loucos
a fingirem-se perdidos como forma de encetarem conversa com
desconhecidos.

65
Ali quase não havia detritos, já que a populaça nunca ia para aquele
local com comida nas mãos, e também não havia aquele cheiro
desagradável a excrementos de cão que tende a fazer-se sentir até nos
jardins mais formais onde as pessoas podem levar os seus animais de
estimação.

Não me interpretem mal. Gosto de cães. Num período terrível da minha


juventude, vivi nas ruas da vila em que nasci e andava à procura de
comida com os cães sem dono; tratavam-me com maior bondade do que a
maioria dos seres humanos. Tornei-me tão selvagem quanto eles.
Talvez, no meu coração, ainda o fosse. Quando parava para pensar nas
minhas origens e personalidade, o receio de ter uma natureza não-
romana perturbava-me. Não havia dúvida de que assustava os outros. Os
homens, sobretudo. Não que incomodar os homens me tirasse o sono.

De uma matrona romana exemplar esperava-se docilidade, mas eu já


tinha reparado que poucas correspondiam a esse ideal. Parecia-me que
os homens romanos tinham criado um regime prescritivo para as suas
mulheres precisamente por serem elas quem detinha o verdadeiro poder
doméstico. Deixávamo-los pensar que eram eles quem mandava. Mas, em
muitos lares, enganavam-se.

Eu gostava da Armilústria porque, mesmo sem vestígios de cães,


albergava um certo aroma, um odor almiscarado perto de qualquer
arbusto, um cheiro râncido a vida selvagem que afastava muita gente:
o local era frequentado por raposas. Ali sentada, quieta e em
silêncio, já as vira muitas vezes. Para mim, que nunca criara patos
nem galinhas, as raposas eram uma espécie de cão, mais selvagem e
intrigante.

Naquele momento, as raposas do Aventino estavam a provocar-me


ansiedade. Era abril. A meio do mês teria lugar um dos vários
festivais que preenchiam o calendário romano, desta feita a Cerialia,
os Jogos de Ceres. A semelhança da Armilústria, incluíam sempre
vários dias de eventos públicos no Circo, mas com uma característica
adicional que me parecia abominável.

66
Na primeira noite, eram lançadas raposas vivas pela colina abaixo,
com archotes acesos presos às caudas. Convivas aos gritos dirigiam-
nas para o Circo, onde morriam em agonia.

Nalguns anos, eu ausentava-me da cidade. A minha família tinha uma


casa na costa.

Naquele ano, haveria um grande leilão em que o meu pai estava


envolvido, por isso os outros só iriam para a beira-mar mais tarde e
queriam que eu ficasse também em Roma. Desde que enviuvara que era
ponto assente que passava aquela época com eles. A nossa família
tinha quase tantos dias rituais como a cidade tinha festivais e os
idos de abril eram um compromisso obrigatório na minha agenda. De uma
forma tácita, tinham tornado isso a condição para me permitirem a
independência durante o resto do ano. No dia 13 de abril, durante os
Jogos de Ceres, era o meu aniversário. Nos idos, eu tinha de estar
com eles.

Oh, vamos lá despachar isto.

Ninguém sabe quando nasci, nem quem eram os meus pais. Nunca ninguém
saberá. Ser informadora, no seio de uma família de investigadores,
não fazia diferença alguma. Nunca viria a descobri-lo. Até eu
aceitara, havia anos, que uma investigação seria uma perda de tempo.
Nunca voltaria à Britânia. Não havia nada para mim lá. Nem sequer a
verdade.

Era um bebé a chorar quando fui encontrada nas ruas de Londínio, essa
terriola miserável no extremo enevoado do mundo. Tinha sido
abandonada, ou talvez escondida para ficar protegida, quando as
tribos de Boudica atacaram e arrasaram o acampamento romano. Havia
uns quantos oficiais importantes na Britânia no tempo de Nero;
tratava-se de uma província nova e muito remota. Era pouco provável
que eu fosse filha de algum oficial, pois nesse caso teriam dado pela
minha falta. Havia soldados, mas os soldados não devem ter família e,
numa província de fronteira em rebelião, essa regra costuma ser
aplicada.

67
A hipótese mais provável era que eu fosse filha de algum comerciante,
o que significava que poderia ser de qualquer nacionalidade, ou de
nacionalidade mista, filha de mãe britânica ou não.

Os bebés arrancados ao horror costumam ser vistos como milagres.


Trazem esperança numa altura de caos e tristeza. Houve quem me
acolhesse. Passei a infância entre comerciantes. Essas pessoas
desmazeladas e de pouca educação, emigrantes do continente europeu,
trataram-me com decência, até que cuidar de mais uma criança e
alimentar mais uma boca se tornou um fardo. Comecei a desconfiar de
que estavam a pensar vender-me para algum tipo de escravatura, e
então fugi. Era uma criança de rua magricela, triste, que ninguém
queria e que dormia em colunatas frias, recebendo tantos golpes como
maldições.

Por fim, outras pessoas caridosas deram por mim e salvaram-me. Dídio
Falco e Helena Justina, os meus novos, cultos, aventureiros,
carinhosos e excêntricos pais, decerto não recusavam um desafio;
nessa altura eu era selvagem, estava cheia de vermes e, ainda que
nunca tivéssemos falado disso depois, tinha sido cobiçada pelo
proprietário de um bordel e violada. Também era agressiva e irascível
- atitudes que nunca me abandonaram por completo. Contudo, ansiava
por sobreviver. Reconheci uma oportunidade. Como nunca fui estúpida,
aceitei-a.

Vim para Roma. Fora-me proporcionado um certificado de cidadania


romana. Acedi a ser formalmente adotada (os meus salvadores tinham
princípios; deram-me a possibilidade de escolha). Os aniversários são
importantes para as famílias romanas e eu fui encorajada a escolher
uma data que pudéssemos passar a ver como minha. Dado que a Revolta
de Boudica tinha acontecido no outono, e que por essa altura eu já
sobrevivia sem mãe, pareceu-me provável que tivesse nascido na
primavera. O aniversário do meu pai adotivo era em março; selecionei
uma data três semanas depois da sua, o que nos daria tempo para
recuperar de uma festa familiar e preparar a seguinte. Escolhi os
idos de abril bem antes de saber o que quer que fosse acerca das
raposas.

68
Vinham do campo, seguindo as grandes estradas, esgueirando-se pelas
valas de escoamento ao longo da Via Latina, da Via Ápia e da Via
Ostiense, à cata dos montes de lixo e detritos nas sarjetas. Sabiam
em que lugares da cidade havia capoeiras com aves destinadas aos
talhos ou a bancas de mercado: patos, galinhas, faisões, gansos e, de
vez em quando, até aves exóticas como pavões ou flamingos. Comiam
ratos. Por vezes surripiavam cachorros, gatos bebés ou pombas
amestradas; decerto levavam os cadáveres de animais de estimação e
também ratos e pombos. Por vezes apanhavam uma bela lampreia do lago
de algum jardim. Tragavam a pele e as espinhas de peixes; depenicavam
ossos de coelho; fugiam atabalhoadamente com o peso de carcaças de
carne que levavam na boca; circundavam as bancas dos talhantes,
lambendo o sangue das ruas; roubavam os restos de oferendas
religiosas dos altares ao ar livre.

Depois de uma noite em busca de comida, o mais provável era que se


escapulissem de novo para as suas tocas na Campânia, a planície
agrícola que rodeava Roma. Outras ficavam. Eu sabia isso porque
reconhecia pelo menos um animal na Armilústria. Já o vira algumas
vezes; reconhecia-lhe o tamanho, o formato do corpo e os hábitos. A
hora tardia a que costumava visitar o espaço murado. A maneira como
parava, de orelhas levantadas, para verificar se seria seguro. O seu
avanço ao longo da sombra, quase impossível de detetar a menos que os
nossos olhos estivessem muito habituados à escuridão e dessem por
movimentos mínimos. Devia ter arranjado uma toca ali algures. Eu
chamava-lhe Robigo. É o nome que se dá à ferrugem do trigo.

Nalgumas noites eu chegava à Armilústria com uma tigela de restos e


alimentava-o. Ele já sabia que eu apareceria. Se permanecesse tempo
suficiente, poderia vê-lo; tinha aprendido a procurar as suas
orelhas, muito alçadas enquanto ele se encolhia no cimo do muro, à
espera e alerta até se sentir seguro. Depois deslizava pelo muro
abaixo, de cauda completamente esticada, e fundia-se com a sombra.

69
Eu tinha de forçar a vista para lhe detetar os movimentos. Mantendo-
se perto do muro, aproximava-se da tigela, com os seus passinhos
engraçados e sempre hesitantes. Farejava, comia. A forma como se
alimentava era surpreendentemente elegante. Fazia com que os cães
domésticos parecessem glutões desmazelados.

O mais pequeno som levava-o a esconder-se silenciosamente. Mas logo


voltava a aparecer, regressando à tigela até ter comido tudo.

Gostava de tartes, com molhos variados. Achava que cereais secos eram
um insulto. Em muitos aspetos, tinha um apetite igual ao meu.

Uma vez devo ter-lhe dado um pedaço de peixe perigosamente


apodrecido. Robigo levantou-o delicadamente e pousou-o na relva a uma
boa distância, antes de voltar a acabar os outros restos.

Nunca reconhecia a minha presença. Eu tinha noção de que comungava


com a Natureza enquanto esta se mantinha alheada.

Talvez o facto de quase ter sido queimada viva na tempestade de fogo


que destruiu Londínio fosse o que me deixava tão furiosa em relação
aos archotes e ao terror que os devotos de Ceres perpetravam sobre as
raposas do Aventino. As raposas eram como eu. Reservadas, implacáveis
e autossuficientes. Inteligentes e indomesticáveis, mas capazes de
uma forte lealdade. Eram criaturas solitárias capazes de socializar,
alegre e divertidamente, mas que depois tornavam a isolar-se.

Todas vivíamos na comunidade urbana, mas sub-repticiamente. Nunca


chegávamos a fazer realmente parte dela.

70
9

Os informadores têm rituais ridículos. Um deles dita que, se morrer


alguém relacionado com um caso, sobretudo se for nosso cliente, é
preciso ir ao funeral. Toda a gente finge que esta ação simboliza o
nosso bom caráter e sentimentos nobres. Amas diligentes criaram-nos
para que tivéssemos maneiras elegantes. Não só nos compadecemos dos
enlutados como somos nós mesmos almas perturbadas que partilham a sua
mágoa.

A verdadeira razão é um mito - nada mais, acreditem -, o mito de que


será possível ver o perpetrador a carpir ao lado da pira. Por vezes
os culpados estão de facto presentes, mais não seja porque a maioria
dos assassínios é cometida por um familiar da vítima. Nesse caso, o
melhor é desistir de imediato. A pessoa que se procura tem exatamente
o mesmo nariz arrebitado e mau hálito de todos os parentes inocentes,
bem como a mesma expressão inócua. Se disfarçarem bem, nunca se
detetará e apanhará o culpado.

O mito do funeral pressupõe que o assassino seja um idiota que,


atraído pelo espetáculo fúnebre, estará desejoso - ou desejosa - de
observar os resultados plangentes do seu crime e ser identificado.
Também implica que os informadores tenham poderes proféticos e sejam
capazes de perceber, sem se servirem de feitiços ou talismãs mágicos,
qual dos enlutados ali presentes está de facto a ser consumido pela
culpa.

71
Nunca conheci um informador que tivesse conseguido esta façanha de
reconhecimento. Vou, mas nunca espero resultados.

Os funerais romanos são compostos por dois eventos, com mais de uma
semana de intervalo. Tradicionalmente, os informadores estão
presentes no tristonho enterro no exterior, não no festim mais alegre
nove dias depois. Quem quer que tenha escrito o nosso livro de regras
deveria ser deprimente - ainda que, a bem da justiça... se
esperássemos nove dias e gozássemos o festim, todos os vilões se
teriam recomposto e quaisquer indícios estariam perdidos; para além
disso, quem quer que nos tenha contratado para proceder à
investigação poderá ter ficado a saber que vai herdar um olival e
talvez tenha perdido o interesse em levantar ondas.

A leitura do testamento deve ser feita no dia do banquete, mas por


essa altura qualquer pessoa com esperança de receber um legado já
terá feito o selo descolar-se do pergaminho à luz da lâmpada para lhe
dar uma espreitadela. Desta forma, o desafortunado informador perde a
oportunidade de detetar uma reação suspeita. Se alguém espumar de
raiva colérica perante uma herança ultrajante, isso acontece várias
noites antes, na biblioteca, sem testemunhas para além das traças.

Seja como for, poderá não haver qualquer questão ofensiva. A maioria
dos testamentos é elaborada por advogados, e alguns são capazes de
fazer um bom trabalho de aconselhamento aos seus clientes (sei que
custa ouvi-lo). Além disso, as pessoas que planeiam a sua morte têm
um desejo louco de que pensem bem delas, pelo que muitos testamentos
adotam um tom desavergonhadamente conciliador. O escravo que esperava
corroer-se de desilusão por o terrível amo não lhe conceder a
liberdade acaba na verdade por ser liberto, com uma pensão quase
adequada e dinheiro suficiente para erigir uma pequena placa a
elogiar a magnanimidade do amo.

72
A irmã mortificada por receios de negligência herda a quinta em
Laurento. A esposa ressentida é enaltecida como a mulher mais
merecedora. Parceiros de negócios ficam delirantes pois agora poderão
deitar as mãos à lendária adega...

Todos estes pensamentos me passavam pela cabeça enquanto nos


despedíamos de Salvídia. Foi na tarde seguinte, na necrópole da Rua
Ostia. Os funerais romanos implicam um longo período de espera em pé;
a menos que se chegue tarde, exclamando que as estradas de Taranto
estão um horror, é preciso esperar horas, desde a chegada do caixão
até o corpo arder o suficiente para algum enlutado triste raspar as
cinzas. O pior é no inverno, mas, mesmo sendo abril, a madeira deste
funeral era verde e húmida. Apesar de os agentes funerários terem os
seus métodos secretos de atear um fogo rapidamente, parecia que
Salvídia estava relutante quanto a partir.

Metelo Nepos estava presente, como é óbvio, a liderar a procissão de


enlutados. A maioria parecia pertencer ao séquito de trabalhadores
domésticos e da firma de Salvídia, ao invés de ser constituída por
amigos ou vizinhos. Não me surpreendeu que ela não tivesse um
verdadeiro círculo social. Identifiquei a mulher do enteado, mais
jovem do que ele e grávida de seis meses; encontrava-se entre um
pequeno grupo de mulheres de idade similar, provavelmente suas amigas
a prestar-lhe apoio e não gente que quisesse despedir-se da falecida.
Falavam sem cessar das suas casas e crianças, até que me afastei.

Acabei ao lado de uma daquelas senhoras de idade que adoram ir a


funerais. Poderia ter sido minha avó. Uma figura minúscula e frágil
envolvida em faixas negras, tirava os seus trajes de luto da arca da
roupa com frequência e sabia manter um véu no lugar, mesmo num dia
ventoso. Tinha um ar vago e doce como um bolo de mel, mas decerto
usaria uma língua viperina quando lhe era conveniente. Esperava que
me fosse mais útil do que as jovens donas de casa.

73
- Nada como um bom funeral para nos fazer sair de casa! -comentei,
para dar início à conversa. Ela pareceu ficar interessada na minha
atitude franca. - Chamo-me Flávia Albia; tinha uma relação
profissional com a falecida. Conhecia-a bem?

Era possível que aquele tesouro não conhecesse Salvídia de todo e se


limitasse a passar os dias perto da necrópole, juntando-se a qualquer
procissão que ali chegasse; podia vangloriar-se de ter vivido mais do
que o cadáver, fosse ele qual fosse, e até apostava que gostava de
integrar o grupo de eleitos que voltavam à casa para tomar uma
refeição ligeira. Ninguém gosta de contrariar uma senhora idosa. A
minha avó conseguia ver as casas de bastantes desconhecidos dessa
maneira.

- Oh, conhecia-a há anos. E a investigadora, não é?

A resposta indicava-me que, de facto, tinha uma relação com a


defunta, caso contrário não saberia o que eu fazia. E, tal como
esperava, a intriga interessava-lhe.

- Vizinha? - arrisquei. Queria situá-la antes de revelar demasiado


acerca de mim.

Mas ela não mordeu o isco. Ignorou a minha pergunta com a surdez
seletiva que as senhoras de idade usam com tanta facilidade.

- Que bom filho. Ainda bem que ele a contratou.

Desisti da primeira pergunta e, num tom ligeiro, fiz-lhe outra:

- Então você acha que aconteceu qualquer coisa estranha?

- Ooh, eu não saberia dizer! - É um truque que elas gostam de usar.


Na realidade, nenhuma se menosprezava dessa forma. Contraiu os lábios
para demonstrar que haveria muito que saberia dizer, mas manteve a
fachada de ser demasiado insignificante para fazer comentários. -
Ninguém quer saber da minha opinião.

- Eu quero - desafiei-a com uma expressão franca. - Parece que não


vou ser capaz de fazer muito mais do que tranquilizar Metelo Nepos,
mas vou dar o meu melhor. Gostaria de saber o que pensa alguém com a
sua sensatez.

A velha senhora fitou-me com um ar ligeiramente reprovador,


indicando-me que sabia reconhecer a bajulação descarada e que isso
não resultaria consigo, que era sábia como uma coruja. Sorri, sem me
deixar intimidar.

74
Percebia que ela estava a avaliar-me. A tentar decidir se me
censurava considerando-me uma miúda leviana ou se podia chegar a
admitir que eu fosse experiente e capaz. Obviamente, não achava mal
que eu trabalhasse. Provinha de um estatuto suficientemente baixo
para aceitar que muitas mulheres tinham de ajudar os maridos a ganhar
a vida na loja, padaria ou fornalha da família; compreendia que
algumas de nós não tínhamos um chefe de família e nos víamos
obrigadas a arranjar forma de evitar a prostituição sem deixar de
conseguir dinheiro para a renda e a comida. Calculei que fosse
incluir-me na categoria das manicuras e cabeleireiras, das mulheres
que sabiam de cremes herbais e remédios tradicionais, das escravas
libertas com instrução suficiente para saberem ler ou escrever cartas
para outras pessoas. E, sim, da abortadeira local.

Quanto a mim, categorizei-a como viúva, é claro. As mulheres morrem


jovens, de parto, ou aguentam durante décadas e vivem durante muitos
anos após a morte dos maridos.

Os músicos fúnebres deram início a uma explosão de flautas e pratos,


que nos obrigou a ficar caladas durante algum tempo.

Depois o momento perdeu-se. Já não consegui arrancar mais nada à


idosa, que me informou ter de se ir embora. Ao despedir-se, deu-me
uma palmadinha na mão e encorajou-me:

- Faça o que puder por ela, querida.

Não havia dúvida de que estava a insinuar que Salvídia partira antes
de tempo.

Enquanto a idosa se afastava, alguém que devia conhecê-la comentou


que ela não podia permanecer mais tempo devido às suas obrigações em
casa. Nesse caso, contrariamente ao meu palpite, ela não vivia
sozinha, mas tinha um familiar próximo do qual tinha de cuidar; não
ficou claro quem seria. Ou um marido a babar-se, já demasiado demente
para a reconhecer, ou algum filho ou filha incapaz que tivesse
nascido com problemas. Um fardo e uma responsabilidade diários, por
quem o corpo velho e exausto tinha de se manter vivo, pois de outra
forma aquele ser ficaria desamparado.

75
O vislumbre de uma vida tão dura deixou-me melancólica.

Sem nada que fazer durante cerca de uma hora a observar a pira ao
frio, fui pensando e acabei por considerar o que ela obviamente
pensava a respeito da morte de Salvídia.

Aproximei-me do cangalheiro. A sua contribuição anterior, quando lhe


fora pedida a opinião, simplesmente não me satisfazia; voltei a
inquiri-lo acerca do comentário que tinha feito ao avaliar o cadáver.

- Disse que «era fruta da época». Referia-se a pessoas más a baterem


a bota sem motivo aparente? Tenho de admitir que me ficou na cabeça.
Importa-se de me contar o que o levou a dizer aquilo?

Tratava-se de um tipo barrigudo e pomposo, habituado a tratar os


enlutados com condescendência. Devia ser particularmente penoso para
mulheres indefesas acabadas de enviuvar. Tudo o que o homem foi capaz
de me responder foi que «tinha uma vaga impressão». Continuava
convencido de que poderia não passar de coincidência.

— E as mortes têm sido só de mulheres? — insisti.

— Não, de todos os géneros. Só mais algumas mortes súbitas do que é


habitual... talvez. Não tenho estado a contar. Não me peça nomes.

- Correm rumores? - perguntei. Por vezes o povo tem jeito para


detetar atividades ilegais.

O agente funerário lançou-me um olhar breve. Não parecia nervoso nem


acossado. Não me enxotou como se fosse uma jovem tola. Pelo
contrário, pareceu ponderar a minha pergunta de um modo justo até me
responder honestamente que não, não corriam. Se estava a abafar um
escândalo, fazia-o muito bem. Tive de acreditar nele.

Eu estava a ficar com mais dúvidas em relação a Metelo Nepos. Num


momento tranquilo, enquanto ele esperava pela altura de cumprir o seu
dever de reunir as cinzas numa urna de cerâmica, aproximou-se de mim
e agradeceu-me por estar presente.

76
Aproveitei a oportunidade para mencionar que sabia que ele tinha
visitado o edil. Ele confirmou que tinha ido lá dizer que pagaria a
compensação financeira pela morte da criança e assegurar-se de que a
família ficaria satisfeita com o que estava a ser oferecido. Não fez
qualquer referência ao anúncio na parede; parecia demasiado decente
para exigir a sua remoção ou para sequer pensar nisso.

Nepos informou-me que tinha mencionado ao magistrado as suas


suspeitas quanto à morte da madrasta. Tinha também discutido a minha
contratação. (Quem me dera que o meu amigo arquivista me tivesse
avisado a respeito disso.)

- Falei com Fausto acerca de todos os aspetos que você tinha


verificado com tanto cuidado, Albia, e reconheci que não tinha
encontrado quaisquer indícios. - Nepos parecia recear que eu pudesse
ficar agastada. Efetivamente, se o caso fosse real, eu gostaria que o
cliente me consultasse antes de envolver as autoridades. - O edil não
é como os vigiles, mas tem responsabilidades nos domínios da lei e da
manutenção da ordem pública. Pareceu-me correto informá-lo acerca dos
meus receios. Tranquilizei-o.

- Isso é absolutamente razoável. Não tentaria impedi-lo... Então, o


que achou dele? De acordo com os meus contactos, Mânlio Fausto
parece... digamos, pouco compassivo.

Nepos fitou-me por um instante, parecendo surpreendido.

- Não, achei-o muito direto. Não fala muito, mas escuta. Uma escolha
boa e inteligente para o posto.

- Isso é raro.

- Exatamente! - replicou Nepos, num tom irritado, como se eu tivesse


insultado um amigo seu.

Não deixei que isso alterasse a imagem do edil que formara a partir
do que me contara Andrónico. Muitos são os homens que assumem
comportamentos bastante diferentes com visitas de negócios com quem
só lidam uma vez e com os membros do seu pessoal.

77
Nesse caso, o que são em casa, regra geral, corresponde ao seu
verdadeiro caráter. Mânlio Fausto decerto teria competências sociais;
precisava de votos para vencer a eleição para o seu cargo. Em suma,
devia saber conversar com falinhas mansas. Era bem possível que se
tivesse mostrado cortês para com Nepos duas noites antes e continuar
a ser um suíno pernicioso para os seus escravos e libertos todos os
dias.

- E reagiu ao seu mal-estar quanto à morte de Salvídia? Nepos estava


a observar as chamas crepitantes.

- Não particularmente.

- Presumo então que ele não esteja a pensar dar seguimento à questão?

Nepos falava num tom algo abstrato.

- Não. Não, não fará isso.

A semelhança do cangalheiro, Nepos assumia uma postura descontraída e


aparentemente sincera. Mas não era bom a representar. Era um
queijeiro, um vendedor. Não passava a vida a executar um espetáculo
de emoção falsa, como é obrigação profissional de qualquer agente
funerário. Nepos parecia tão honesto que, se um pedaço de queijo
tivesse uma mancha de bolor, ele apontaria para lá e aconselharia o
cliente a retirar a parte pior antes de se servir de uma fatia. Por
isso, neste caso, eu percebia o seu jogo: quando tentava iludir-me,
caía uma cortina. Tinha discutido mais coisas com Fausto para além
das que estava disposto a revelar, pelo que escamoteava um tópico que
não queria partilhar comigo.

Passava-se qualquer coisa. Algo que estava a ser ocultado do público


em geral e de mim em particular.

78
10

Os esquadrões da morte saíram à rua nessa noite.

Quando cheguei a Roma, reinava o imperador Vespasiano, austero mas


decente. Os meus pais conheciam-no. Também conheciam o seu filho mais
velho, Tito, mas este só viveu mais dois anos depois da morte do pai,
anos dominados pela desastrosa erupção vulcânica do monte Vesúvio.
Mesmo nesse momento sombrio, Roma era bem gerida e prosperava. No
entanto, aquando da morte inesperada de Tito, os rumores que corriam
acerca de ter sido envenenado pelo seu irmão ciumento, Domiciano,
eram indicativos do género de jugo que se seguiria. Oito anos mais
tarde, estávamos habituados à desconfiança e ao medo. Guardas
pretorianos eram enviados com regularidade em busca daqueles cuja
fraca opinião que tinham do imperador suscitara o ódio deste.

Falhar na tarefa de lisonjear aquele déspota anafado era um deslize


fatal. Muitas pessoas cometiam inadvertidamente tal erro; a mais
pequena coisa tinha a capacidade de o ofender. Portanto, enquanto
regressava, cansada, da necrópole, não fiquei surpreendida ao divisar
um pequeno grupo de soldados a passar ao fundo de uma rua escura; não
havia dúvida das intenções sinistras do ajuntamento. A medida que
marchava pelo bairro adentro, toda a gente ia desaparecendo das ruas.
Até um gato fugiu, a miar.

79
Percebera que os soldados eram homens desapiedados que, se o
apanhassem por perto, o agarrariam pela cauda e o sacudiriam até
darem cabo dele.

Por essa altura a noite estava escura, sem luar ou luz de estrelas,
apesar de ser demasiado cedo para a chegada dos guardas imperiais.
Regra geral, gostavam de surpreender as vítimas batendo súbita e
estrepitosamente à porta quando todos estavam a dormir. Mesmo antes
da madrugada, um porteiro ensonado deparava-se com homens de rostos
cerrados e espadas desembainhadas, enviados em missão de punição,
muitas vezes por um crime que a vítima desconhecia ter cometido. Se
os soldados aparecessem durante as horas noturnas, havia menos
possibilidade de resistência; também havia menos possibilidade de
indignação pública suscitada por vizinhos zangados. Os tiranos morrem
de medo de motins. Quando a pálida luz da manhã chegava, a notícia de
mais uma morte entre a classe alta infiltrava-se por basílicas e
empórios, ainda que tais eliminações brutais da humanidade nunca
fossem formalmente listadas na Gazeta Diária.

Nessa noite, o primeiro aviso da presença deles eram os archotes. Os


guardas levavam sempre muitos e bons archotes. Assassinos treinados
precisam de chamas longas e duradouras; só os melhores são escolhidos
para punidores de Domiciano. Estes pesos-pesados são soldados de
elite; não querem marchar numa missão para assassinar algum senador
bexiguento e serem surpreendidos por um dos larápios que andam pelas
ruas à noite. Seria demasiado vergonhoso terem de voltar para o Campo
Pretoriano e verem-se forçados a admitir que tinham sido detidos e
ficado sem as medalhas e adagas elegantes, que então se encontrariam
nas mãos de um ladrãozeco do Beco dos Ossos.

Estávamos habituados aos esquadrões de execução. Essa era a parte


pior - já os aceitávamos. Havia crianças a crescer em Roma sem nunca
terem conhecido uma existência normal e segura. Nem mesmo os adultos
que recordavam melhores tempos questionavam a forma como as coisas
eram.

80
Para alguém como eu, que trabalhava entre intrujões e traidores, a
nova atmosfera de terror era um pano de fundo apropriado. Tínhamos
alcançado um período aflitivo no qual Domiciano estava claramente a
ficar mais cruel. Acreditava que a sua esposa o traíra com um ator;
as suas guerras no exterior eram escarnecidas; tinha acabado de
sobreviver a uma rebelião na Germânia, liderada por um homem em quem
confiava; e a sua adorada sobrinha Júlia morrera. Vingava-se em nós,
seus súbditos indefesos. Provavelmente apercebera-se de que, por mais
que quisesse ser adorado, ninguém gostava dele. Quanto mais pessoas
executava por terem revelado hostilidade, e quanto mais fracas se
tornavam as suas justificações, menos amado ia sendo o nosso
execrável tirano... Nem ele nem nós podíamos escapar ao ciclo de
miséria.

As execuções constantes tinham afetado o povo. A incerteza política


conduzia ao desespero. As pessoas perdiam a moralidade - as que algum
dia a haviam tido. Um cínico diria que isso proporcionava mais
trabalho aos informadores - o imperador, por exemplo, decerto se
servia de espiões, espiões em todos os níveis da sociedade, espiões
que eram bons, maus ou, nos dias que corriam, absolutamente
indiferentes à vaga noção de honestidade que outrora regera
alguns de nós. Tal como o próprio imperador queria destruir os
inimigos pessoais que via escondidos atrás de cada pilar palaciano,
os informadores encontravam muita gente disposta a trair outras
pessoas. Arranjar uma altercação com o vizinho por causa do limite de
uma propriedade ou insultar um vendedor que servisse alho-francês
podre eram conjunturas perigosas. Podia acabar no tribunal, com algum
informador transformado em procurador a acusar-nos de traição ou
daquele conceito maravilhosamente nebuloso, «ateísmo» - tudo com
depoimentos ajuramentados para «provar» o crime que, na verdade,
nunca acontecera.

Nunca trabalhei para o Estado. Tinha familiares que o haviam feito em


tempos, mas agora era demasiado perigoso. Nenhuma prática duvidosa,
fosse no quarto ou na religião, seria exposta por mim para prolongar
a campanha moralista do imperador e ajudá-lo a ficar bem-visto
perante os deuses.

81
Nenhum filósofo barbudo que cometesse a tolice de discorrer acerca de
tiranos históricos me veria na fila de trás a escrevinhar notas que
lhe valeriam o exílio para uma terra muito desconfortável. Nenhuma
mulher tonta que lesse o horóscopo precisava de recear que eu a
denunciasse por ter profetizado a morte de Domiciano.

Qualquer clarividente que tivesse algum jeito para prever facas e


envenenamentos estava a salvo de mim. A semelhança de toda a gente,
eu estaria demasiado interessada em saber ao certo quando poderíamos
esperar um golpe decente com um assassínio bem organizado. Sabia o
que pensava acerca de Domiciano, mas ocultava as minhas opiniões.

Em teoria, nada tinha a temer dos Guardas mas, como qualquer pessoa,
quando os ouvia aproximarem-se mantinha-me longe deles. Não queria
que um oficial de mau génio chegasse à conclusão de que uma mulher
sozinha na rua depois de escurecer só poderia ser uma prostituta.
Ficaria à sua mercê. Alegar que se está a «regressar de um funeral»
soaria a desculpa esfarrapada. Por isso, mantive-me cautelosamente no
limiar escuro de uma loja enquanto eles passavam.

Mais uma vez, enquanto esperava, fiquei preocupada. A admissão de


Nepos acerca de ter falado a meu respeito e do meu trabalho deixara-
me perturbada. Isso poderia dar azo a problemas. E a questão da morte
de Salvídia não parava de me inquietar. Poder-se-ia dizer que, em
comparação com os problemas que algum oponente corajoso do imperador
estaria prestes a ter naquela noite quando os Guardas chegassem a sua
casa, a morte inexplicada de uma mulher de meia-idade que
provavelmente sofria de algum problema de coração pouca importância
tinha. Mas aquele magistrado, Mânlio Fausto, o homem alegadamente
inteligente a quem Metelo Nepos se afeiçoara, claramente o instruíra
a parar de falar comigo - quando até à data gozávamos de uma relação
profissional franca.

82
Detestava isso: a impressão de que o meu cliente e um agente oficial
tinham estabelecido alguma espécie de pacto masculino, do qual me
excluíam arrogantemente.

Naquelas ruas escuras, carregadas com a ameaça que era o rasto dos
Pretorianos, comecei a pensar em todo o género de coisas. Depois de
eles terem ido embora, as pessoas continuaram dentro de casa, com as
persianas fechadas. Não se ouvia música, nem risos. A calma voltou a
reinar. Naquela quietude invulgar e desconcertante, um encobrimento
insidioso de estranhos crimes começava a parecer quase plausível.

Voltei a amaldiçoar Nepos - mas desta feita a minha irritação tinha


motivos práticos. Lembrei-me de que me tinha esquecido de lhe pedir
para me pagar os honorários, conforme se comprometera a fazer.

83
11

Nessa noite não tinha energia para ficar com os nervos em franja.
Estava demasiado cansada e pouco comera ao longo de todo o dia; era
mais fácil ignorar os meus pensamentos insatisfeitos. Não seria a
primeira vez que tinha de dar por perdido trabalho já efetuado. As
perdas salpicavam-me o livro de contas como se algum gorgulho daninho
se tivesse insinuado, deixando pequenas manchas por todo o
pergaminho.

Na manhã seguinte, dediquei tempo às coisas comuns que uma rapariga


tem de fazer. Percorri o apartamento e fui recolhendo a roupa suja,
reuni-a numa bela trouxa e levei-a para ser lavada. As pessoas julgam
que a vida de um informador se resume a expor fraudes em tribunal e
espancar testemunhas casmurras, mas é preciso ter lençóis e túnicas
limpas. A falta de higiene afugenta os clientes. De qualquer maneira,
detesto ter comichão.

Muitas vezes tomava o pequeno-almoço numa taberna chamada Xarroco,


mas nos dias em que me dedicava a tarefas domésticas limitava-me a
mastigar qualquer resto de pão que encontrasse por casa. Levei um
para ir comendo a caminho da lavandaria. Mastigava devagar; aquele
pão era tão velho e estava tão duro que podia partir-me um dente.

84
Recolhi a trouxa anterior e fui diretamente para os banhos de Prisca,
um estabelecimento civilizado exclusivamente feminino, onde me
permitiam que entrasse mesmo quando estava fechado. Nenhuns banhos
devem abrir durante a manhã, mas eu era uma presença assídua e
deixavam-me usar quer o ginásio quer a biblioteca, fosse a que hora
fosse. Foi a própria Prisca quem me abriu a porta, com um dos seus
cumprimentos delicados:

- Estou a ver que a tua cabeleireira voltou a fazer greve! E se não


levas a mal que te diga, Flávia Albia, é capaz de estar na altura de
começares a usar uma faixa à volta do peito.

Mas porque será que nos banhos públicos as pessoas acham que têm
direito a ser insultuosas?

Ela só queria vender-me uma faixa. A minha figura nada tinha de


errado, qualquer homem concordaria. Era mais baixa do que poderia ter
sido com uma infância melhor, mas, quando o meu peito cresceu, já
tinha sido adotada pela família Dídio e era bem alimentada. Em termos
físicos, tive um desenvolvimento tardio, mas suficiente. Dava a
impressão que chegara à casa dos vinte ainda a crescer. Agora que era
adulta, mantinha-me em forma; tinha tudo no sítio certo,
independentemente do que Prisca pudesse querer dar a entender.

Atirei os meus quadrantes para a taça do dinheiro, fiz um gesto que


poderia parecer amistoso se Prisca fosse mesmo muito pitosga, e
depois, seguida pelo seu cacarejar, avancei para o balneário, livrei-
me do que estava a usar, agarrei numa toalha para manter o recato e
encaminhei-me para o espaço principal.

A sala de banhos ficava à direita; tratava-se de uma enfiada simples


de águas tépidas, banho de vapor e águas frias, com uma banheira. À
esquerda, abria-se um pequeno pátio com colunatas onde as pessoas
podiam descontrair calmamente ou exercitar-se freneticamente. Um par
de mulheres fortes vestidas com roupas de combate ofegavam pelo
espaço com broquéis elegantes e espadas de madeira, a dar espetáculo.
Não tenho quaisquer objeções a que haja mulheres gladiadoras, mas se
tais aspirantes querem adotar desportos rudes, gostaria que tivessem
amor-próprio suficiente para lutarem como deve ser; aquelas eram
ineptas.

85
Recusei-me a observá-las, pois imaginei que seria isso o que as
madames tolas queriam.

Prisca tinha-me seguido.

- Ainda deves ter um pouco de água morna de ontem à noite. Porque


nunca vens a uma hora normal? Queres que alguém te esfregue?

- Eu desenrasco-me.

Era duro para as raparigas que tentavam alguns trocos usando um


estrígil em clientes que não conseguiam enxaguar o óleo de banho do
próprio corpo, mas Prisca já me conhecia há muito; nem sei porque me
perguntava aquilo. Eu levava sempre o meu estrígil, que era de osso e
tinha a curvatura certa, e naquele momento estava a usar um
frasquinho de óleo de amêndoas puro que uma das minhas irmãs me
oferecera nas últimas Saturnais. Prisca não obtinha lucro comigo a
vender-me qualquer mercadoria, mas sabia que eu não causava problemas
e que, se continuasse a agradar-me, eu continuaria a pagar a taxa de
entrada. Ela era uma mulher de negócios astuta.

Sentou-se comigo no patamar do banho a vapor; quando as coisas


estavam calmas, gostava de conversar. Eu não reclamava, pois por
vezes ela era uma fonte de rumores que se revelavam úteis.

Tratava-se de uma mulher de constituição franzina, de meia-idade,


sempre com uma túnica comprida e sem mangas permanentemente húmida e
a colar-se-lhe ao corpo, e com umas sandálias de enfiar no dedo e
sola de ráfia. Eu só lhe conhecia dois adornos: uma corrente de ouro
esverdeado e umas argolas pesadas. Apesar de várias tentativas para
descobrir a sua história, continuava a não fazer ideia de como teria
ficado à frente daqueles banhos públicos. Não ficaria surpreendida se
ela tivesse atacado o anterior proprietário, quer fosse seu marido ou
algum desconhecido, segurando-lhe a cabeça debaixo de água na
banheira até o afogar, para em seguida tomar tranquilamente conta do
lugar.

86
A decisão de o tornar exclusivamente para mulheres fora dela. A
maioria dos banhos públicos tinha sessões para os dois sexos,
separadas por horários diferentes.

Ainda que Prisca permanecesse completamente vestida, eu não me opunha


a que me observasse enquanto eu tratava das minhas abluções. Ela via
corpos suficientes para ficar indiferente. Este sítio era motivo de
risota para as minhas irmãs, que afirmavam tratar-se de um clube para
lésbicas. Como tinham catorze e dezasseis anos, consideravam a ideia
perigosa e emocionante. Na verdade, a maior parte das outras clientes
eram trabalhadoras, algumas nem sequer prostitutas mas mulheres com
trabalhos honestos como bordadeiras, parteiras ou escamadeiras. Mães
que, com filhos em idade de ir à escola, iam até ali em busca de paz
e sossego. Tias solteironas e vetustas iam resmungando agarradas aos
seus frascos de óleo, tentando usar o menos possível para poupar
algum dinheiro. Era possível que qualquer uma daquelas mulheres
pertencesse à irmandade grega ou tivesse alguma ligação a ela, mas
nos banhos de Prisca a proporção não era maior do que na sociedade em
geral e essas inclinações não eram mais visíveis.

- Quem são as duronas do jardim?

- Zoé e Cloé. São inofensivas... embora julguem que aterrorizam toda


a gente. Em que estás a trabalhar? Alguma coisa interessante?

Prisca estava a par do que eu fazia. Por vezes encaminhava-me


clientes.

- Nada de especial. - Eu era sempre discreta. - A minha última


cliente acaba de morrer.

Ela riu-se.

- Sabes mesmo escolhê-los!

- Ao que parece, anda gente a morrer antes de tempo, sem razão


aparente.

- Ai sim?

Prisca não se mostrou interessada. Se havia uma crise, era óbvio que
a notícia ainda não alcançara o circuitos dos banhos.

87
Isso interessava-me, pois os banhos públicos são onde a maioria dos
rumores ganha vida.

Terminei a minha rotina e Prisca deixou-me a sós. Sequei-me, vesti


uma das túnicas lavadas que tinha ido buscar à lavandaria e depois
sentei-me junto à colunata. As exibicionistas das espadas e escudos
tinham-se ido embora, pelo que me encontrava sozinha. Isso convinha-
me. Gostava de algumas pessoas, mas tinha um feitio solitário. Ouvia
Prisca e as suas várias escravas a cirandarem e de quando em vez a
falarem umas com as outras, mas ninguém me importunava. Não pensei no
meu trabalho - limitei-me a restaurar o espírito em paz.

Se tivesse chegado mais tarde, teria feito uma sessão com Serena, a
melhor manipuladora física do Aventino, mas ela costumava trabalhar
só quando os banhos estavam oficialmente abertos. Pentear o cabelo e
secá-lo ao sol acalmava-me quase tanto como uma massagem. Os gestos
longos e pausados traziam-me sempre à memória os primeiros meses
depois de ter vindo para Roma. Fiquei logo a conhecer todas as
parentes do sexo feminino que passara a ter; eram muitas e aprendi a
recear as que tinham a mão pesada. Sempre que alguma delas visitava a
nossa casa, eu era oferecida para ser arranjada. A maior parte das
mulheres de Roma é dona de um pente para catar piolhos e gosta de o
usar.

Tenho cabelo escuro que, infelizmente, não oferece qualquer pista


quanto à minha nacionalidade original. Vou lembrar-me sempre da
primeira vez que Helena mo lavou: o seu toque firme mas delicado
enquanto me obrigava a suportar a água quente no couro cabeludo
sensível, comigo a choramingar e a contorcer-me, seguindo-se o
maravilho cheiro limpo a rosmaninho à medida que ela ia enxaguando e
desembaraçando o cabelo todo. Podia ter ordenado a uma escrava que
cuidasse de mim, mas tinha escolhido acolher-me e ela própria
assumira a responsabilidade pelas tarefas desagradáveis de me limpar
e domar os meus hábitos selvagens.

88
Eu queria tanto ter uma mãe, embora ao início mal conseguisse confiar
nela, não fosse a nossa relação ter um fim abrupto. Precisei de anos
para perceber que a maternidade não foi uma coisa natural para ela;
via-a como um dever e preferiria de longe estar a ler ou passar tempo
com o marido.

Agora amava-nos. Não, não devo dizê-lo assim; sempre nos dera amor,
generosa e desafogadamente, mas apreciava-nos mais, agora que éramos
mais crescidas e que podia falar connosco como suas iguais.

Detestara ver-me sair de casa para ganhar a vida como informadora;


vira a minha partida como um fracasso seu. Mas também ela era um
espírito tenaz e independente; tinha-me ensinado isso. Já não havia
dúvida de que estava orgulhosa de mim, e era frequente eu visitá-la e
pedir-lhe opinião sobre o meu trabalho.

Já que estava a pensar na minha mãe, decidi que almoçaria com ela.

As meninas tinham saído para visitarem amigas e o nosso irmão estava


a ter lições, pelo que fiquei horas lá em casa, entre conversa e
silêncio, simplesmente a passar algum tempo com ela. Justamente
quando começava a pensar ir embora, as minhas irmãs apareceram, muito
animadas; depois o meu pai chegou, vindo da casa de leilões, pelo que
fomos todos para o terraço, onde procedemos à cerimónia de ouvir o
seu dia. Muitas taças de azeitonas depois, declinei o convite para
jantar e segui pelo monte até ao Paço da Fonte.

Estava bem-disposta. O dia estava quase acabado, mas que importância


tinha isso? É a vantagem de se trabalhar por conta própria. Pode
gerir-se o próprio horário - o que é uma excelente desculpa para não
se trabalhar de todo.

Fiquei ainda mais bem-disposta quando Ródão apareceu para me dizer


que Metelo Nepos tinha ido ali enquanto eu não estava e me deixara
algo. Levara-me o pagamento pelo trabalho que eu desempenhara para
Salvídia, mais um extra por me ter contratado também.

89
Até me oferecera uma amostra do seu queijo. Que homem tão civilizado.
Os bons sentimentos que nutria por ele avivaram-se de imediato.

Era demasiado tarde para me dedicar ao trabalho e, como não sabia


quanto tempo Nepos permaneceria em Roma agora que o funeral já tivera
lugar, decidi ir até à Rua do Louro Menor, a fim de o informar de que
tinha recebido o que me deixara e agradecer-lhe.

Foi então que o encontrei num estado de absoluta perturbação. Ia


visitar a casa de uma vizinha que acabava de morrer, depois de ter
assistido ao funeral da madrasta dele. Chamava-se Celendina. Na
altura não ficara a saber o seu nome, mas deduzi que se tratava da
anciã com quem eu tinha conversado na necrópole. Isso era motivo de
sobra para acompanhar Nepos e apresentar as minhas condolências -
embora ambos soubéssemos que era a curiosidade profissional que me
levava lá. No dia anterior, Celendina encontrava-se perfeitamente
bem, um ser autossuficiente que se mantivera ao lado da pira sem o
menor queixume até ter de ir embora. Ainda tinha a imagem dela na
minha mente, a caminhar a bom ritmo para casa. Apesar de ser idosa,
tanto eu como Nepos ficámos espantados ao saber que tinha falecido
escassas horas depois disso.

Nepos estava muito transtornado. Eu não podia criticá-lo. Parecia


haver uma semelhança impressionante entre aquela morte e a da sua
madrasta. Nenhum de nós julgava tratar-se de uma coincidência.

Celendina morava mesmo na esquina da rua. Enquanto seguíamos até lá,


eu ia tentando acalmar Metelo Nepos, mas em vão.

Um vizinho simpático tinha fornecido um par de pequenos ciprestes que


se encontravam a ladear a entrada. Os habitantes da zona mantinham-se
bem atentos a visitantes, como é costume quando algo estranho
acontece e não se quer perder o que se sucederá. Pouco depois, já
tínhamos várias pessoas a facultarem-nos informação.

90
Passara um dia e uma noite desde que a idosa fora encontrada morta. O
seu corpo já não estava dentro de casa, pois fora levado por um
agente funerário - de incumbência oficial. De alguma forma, os
vigiles tinham-se envolvido na questão. Segundo nos contaram, percebi
que haviam recolhido o corpo para uma autópsia, em caso de alegada
criminalidade. Porém, isto parecia diferente do que ocorrera antes
com Salvídia, pelo menos de acordo com a versão dos vizinhos - uma
triste história que só emergira lentamente à medida que as pessoas
começavam a ter dúvidas.

Era com o filho que Celendina morava e as suspeitas dos vigiles


centravam-se nele. Como eu deduzira, já nascera com problemas; foi-
nos dito que só quem o conhecia muito bem era capaz de comunicar com
ele. Nunca fora capaz de sair e transformara-se num fardo estranho e
pesado que ficava transtornado se o deixassem sozinho durante muito
tempo, motivo pelo qual a mãe saíra mais cedo do funeral. Por vezes
os vizinhos tomavam conta dele na ausência de Celendina, mas
percebia-se que ninguém gostava de o fazer. Ninguém queria cuidar
dele a tempo inteiro. Órfão, tinha um futuro incerto.

O filho, Kylo, já não estava em casa. Os vizinhos diziam que tinham


sido atraídos pelos seus gritos na noite anterior. Ao forçarem a
entrada, encontraram-no com o corpo sem vida da mãe, a abaná-lo
violentamente. Todos partiram logo do pressuposto de que deveriam ter
tido algum desentendimento e de que ele a matara. Em tais
circunstâncias, as pessoas voltam-se facilmente contra um homem com
problemas mentais. Seguiu-se um tumulto e os vigiles chegaram. Kylo
estava detido, acusado do homicídio da mãe.

Uma peculiaridade dos acontecimentos era que, embora ninguém fosse


capaz de perceber a maioria das coisas que Kylo dizia, quando fora
encontrado tinha dito distinta e repetidamente: «Flávia Albia». O meu
nome.

91
12

Fiz questão de ir ao encontro dos vigiles antes que estes fossem à


minha procura.

A nossa coorte local era a Quarta. O quartel-general ficava na Décima


Segunda Circunscrição, perto da Piscina Pública e do Aqueduto Márcio.
Também tinham subquartéis, um das quais zelava pela Décima Terceira,
ali no Aventino. Eu conhecia-o bem. Ia lá desde que vivia em Roma,
por isso não me assustava.

Dava para perceber que estávamos a aproximar-nos do quartel pelo


número de tascas soturnas que só serviam bebidas. O complexo tinha
uns portões enormes por onde se entrava num pátio cheio de
equipamento de combate a incêndios, que era o primeiro propósito das
associações de vigilantes. O outro interesse, pelo crime,
desenvolvera-se quando as patrulhas que saíam à noite em busca de
fumo se deparavam constantemente com ladrões e intrusos nas suas
próprias patrulhas de malfeitoria noturna. Os vigiles começaram a
prendê-los. Assim, a manutenção da lei e da ordem tornara-se uma
função adicional. Seria bom pensar que desta forma Roma se tornara um
lugar mais seguro, mas só um idiota acreditaria nisso.

A força era composta por ex-escravos, voluntários que serviam durante


seis árduos anos e depois ganhavam o privilégio da cidadania - se
sobrevivessem.

92
Eram liderados por ex-soldados, um dos quais, da Quarta, era meu tio.
Embora estivesse oficialmente reformado, sempre que conseguia
escapulir-se à minha tia continuava a deambular pelo quartel como um
fantasma reprovador, com a justificação de ter um assunto inacabado;
havia um criminoso em particular que não conseguira apanhar. Isso
continuava a obcecá-lo.

A semelhança de muitas organizações comunitárias, nunca havia


dinheiro suficiente para suprir as despesas com a manutenção dos
vigilantes, que também não tinham qualquer prestígio ou incentivos
para atingirem níveis de excelência. Isto conferia aos homens um ar
compungido e desmazelado; muitas vezes eram vistos encostados a uma
bomba de água nalguma viela tranquila, fingindo estar à espera de
serem chamados, quando, na verdade, estavam a petiscar e a aliciar
mulheres de moralidade suspeita. Tinham um tribuno sem graça, cujo
poleiro era no edifício principal da Décima Segunda, enquanto Tito
Morelo era o responsável pelas investigações na nossa zona. Era
típico - obeso, de cabeça rapada e atitude preguiçosa. Não suava
tanto como os outros, mas todos cheiravam mal.

- Flávia Albia! Não me venha pedir favores. Ele conhecia-me. Isso


quer dizer, na gíria dos vigiles, que sabia quem eram o meu pai e o
meu tio (grandes amigos, que tinham cooperado em muitos casos no seu
tempo - um tempo que há muito tinha passado, ainda que eles não
fossem dessa opinião). A minha presença dificilmente seria
reconhecida ali se não fosse por um desenvolvimento afortunado num
velho caso: a minha própria reputação assentava na ocasião em que
denunciara um médico que drogava as pacientes e abusava delas. Duas
dessas mulheres tinham-se aliado e pediram-me ajuda. Infelizmente,
isso fora dez anos antes e começavam a escassear os homens que se
lembravam. Os vigiles têm memória curta. Ainda que em teoria acumulem
experiência de campo e criem um registo pormenorizado de casos
anteriores, na verdade só se interessam pelas tarefas da semana. E em
metade do tempo nem isso lhes importa.

Contei a Morelo ao que ia. Ele cuspiu. Todos os vigiles eram


grosseiros.

93
- Sim, temos o rapaz cá. Digo rapaz, embora deva ter mais de trinta
anos, só que é como um bebé grande. E é mesmo grande; a pobre mãe
deve ter tido muita dificuldade em lidar com ele.

- Então qual é o veredito? - perguntei, numa tentativa de demonstrar


respeito pela sua opinião.

- É capaz de urinar num bacio. Não temos de lhe mudar a fralda.

- Não seja chato, Morelo. Qual é o veredito em relação à mãe dele?

- O óbvio. Matou-a.

- Isso é verdade?

- Não, é conveniente - reconheceu ele. - Você já nos conhece, somos


muito orientados para o serviço público. Só queremos manter uma boa
taxa de casos resolvidos.

Se ele fosse mais sofisticado, isto passaria por uma piada. Assim
sendo, era uma mistura estranha de vergonha ténue quanto aos
fracassos da associação com verdadeiro desinteresse.

Disse-lhe que ouvira um rumor acerca de estarem a acontecer muitas


mortes misteriosas. Ele encolheu os ombros.

- Ninguém nos contou. Mas também nunca nos contam nada. Pensei que
era capaz de haver um motivo para tal...

- Agora há um edil envolvido nisso.

- Pois, claro que há! - exclamou ele num tom desdenhoso. Sorri para
lhe mostrar que partilhava do seu desdém.

- Posso ver esse tal Kylo?

- Está nos calabouços. Tenho um dos meus rapazes a tomar conta dele,
um que também tem uma filha que nasceu simples. Sabes como é. Cabeça
grande e olhos trocados. Diz o pai que a menina precisa de ajuda mas
tem uma personalidade maravilhosa. Que é vulnerável mas absolutamente
adorável.

- E você, o que acha?

- Que ele tem razão - replicou Morelo de imediato, fitando-me


diretamente. - É mesmo.

- Tem uma personalidade maravilhosa?

- Foi o que eu disse.

94
- Mas Kylo é diferente? Acha que é capaz de ser violento?

- Ele é esquisito. - Imitou o filho de Celentina, com um braço ao


peito, a mão caída e uma anca mais subida do que a outra. - Uma
pessoa assim pode ser temida na zona, sobretudo sendo tão grande e
forte. Se um grupo de vizinhos, movido pela comoção, encontra a
mulher morta com o filho aos berros e agarrado ao cadáver... o que é
que acontece? A reação instintiva seria que todos assumissem que
sacudira a mãe até a matar.

- E então?

Morelo podia ser gordo e preguiçoso, mas tinha um cérebro e por vezes
dava-se ao trabalho de o usar.

- Pode ter sido algo diferente. E se Kylo, na verdade, entrou em


pânico? Se a encontrou morta, ficou perturbado e depois começou a
abaná-la com toda a força, a ver se conseguia acordá-la?

Comentei que era uma ideia incrivelmente imparcial, ao que Morelo -


corado - respondeu que eu não deveria citá-lo.

O prisioneiro estava sentado no chão do segundo pátio. O vigilis de


guarda pusera-o a dar migalhas a pombos. Fisicamente, não parecia
mais imbecil do que qualquer vendedor ambulante ou mensageiro
doméstico, embora os problemas mentais fossem óbvios no olhar alheado
e na postura que assumia. Morelo fizera uma boa imitação.

Kylo era alto, possante e profundamente retraído. Tinha caracóis como


um rapazinho, mas de facto já passara dos trinta; apesar disso,
bastava um olhar de relance para se perceber que não era capaz de
tomar conta de si mesmo. A mãe deveria cuidar de tudo: alimentação,
vestuário, higiene, mantê-lo ocupado, controlar-lhe os impulsos
sexuais. Teria passado a vida a defendê-lo da ignorância dos outros e
a batalhar para que o aceitassem.

Apresentei-me. Se bem que me parecesse grosseiro falar acerca de Kylo


na sua presença, ele não nos prestava a mínima atenção. O vigilante
concordava que, sem a mãe, Kylo estava perdido.

95
- E ele sabe disso.

Ainda que parecesse não estar a ouvir-nos, olhou para nós quando
mencionámos a sua mãe. Vi o medo e a tristeza no seu olhar. Sim, ele
sabia. A única pessoa que alguma vez se preocupara com ele e cuidara
dele tinha desaparecido. Estava sozinho; ninguém o queria; estava
acabado.

Consegui chamar-lhe a atenção por um instante e então disse-lhe num


tom claro:

- Chamo-me Albia. - Parecia não significar nada para ele. Repeti: - O


meu nome é Flávia Albia. Alguém me disse que querias falar comigo.

Não obtive resposta. Expliquei ao vigilante que Kylo teria dito o meu
nome aos vizinhos. Se assim fora, já se esquecera do motivo. Talvez a
mãe tivesse chegado a casa e falado do funeral de Salvídia,
mencionando que me conhecera. Nos primeiros momentos de terror após a
morte de Celendina, era possível que ele se tivesse agarrado às
últimas palavras dela. Agora não haveria forma de o fazer explicar.
Tinha-se esquecido por completo.

Dado que o vigilante tinha uma filha com problemas, mesmo que fossem
diferentes dos de Kylo, parecia-me que valeria a pena pedir-lhe
opinião.

- Ele não tem ar de assassino. E só um grande fardo torto que parece


contentar-se a alimentar os pombos. Acha que matou a mãe?

Com pesar na voz, o homem respondeu:

- Acho que teremos de agir como se pudesse tê-lo feito.

- Poderia ter sido acidental?

- Consigo imaginá-lo.

- A sério? Pode ter-se irritado por uma coisa insignificante e


atacado de repente? E talvez Celendina não tenha sido suficientemente
forte ou rápida para se afastar e ficar em segurança?

- E possível.

- Conheci a mãe num funeral. Imagino que talvez estivesse cansada


quando regressou a casa e se tenha distraído...

96
Ou talvez Kylo estivesse abespinhado por ela o ter deixado sozinho.
Mas ele agora parece dócil.

- Vamos mantê-lo aqui mais uns dias antes de o acusarmos. Fui


incumbido de o observar e avaliar. Isso não me satisfazia.

- Não há testemunhas do que é dito que ele fez, nem provas. Isto para
vocês é justiça?

- Não - respondeu o homem em voz baixa. - Os vizinhos estavam a


atirar pedras à casa. Estavam determinados a dar cabo dele. Isto é
prisão preventiva, para o proteger.

Quando me ia embora, Morelo saiu de uma sala de interrogatórios e


chamou-me.

- Sua Eminência quer falar consigo. Tenho ordens para a levar à


Décima Segunda.

Referia-se a Cássio Scauro, o tribuno, o tal sem sentido de humor.


Scauro liderava a coorte como os seus predecessores; o método
consistia em sentar-se de pernas estendidas na casa do quartel
principal enquanto congeminava formas de arrepanhar o orçamento para
seu uso pessoal. Governava o quartel seguindo a bela tradição de o
deixar em autogestão.

Eu sabia que um interrogatório verdadeiramente sério implicaria


amarrarem-me a um banco ou cadeira e submeterem-me a uma série
interminável de perguntas aos gritos numa atmosfera muito violenta.
Era pouco provável que se servisse de instrumentos metálicos
aquecidos para infligirem dor insuportável, embora essa hipótese não
pudesse ser descartada. O objetivo era forçar uma confissão. Qualquer
confissão. Não tinha de corresponder à verdade. Para quê perder tempo
com pormenores?

- O que é que ele quer?

- Como de costume, fazer-lhe algumas perguntas.

- Ajuda para as vossas investigações? Vai autorizar o pacote completo


de tortura?

97
- Para isso precisa de uma nota do Prefeito - reconheceu Morelo, como
se achasse que tal afirmação me tranquilizaria. - Tive a impressão de
que o seu interrogatório se limitará ao básico: ameaças horríveis e
crueldade psicológica.

- Que maravilha! Então e quando é que você vai buscar-me? -


perguntei-lhe, receosa.

- Quando tiver oportunidade - respondeu-me.

O seu tom estava carregado com a sugestão de que tal nunca


aconteceria. Só esperava que ele não esperasse uma recompensa por se
«esquecer» - sobretudo se consistisse em favores sexuais. Talvez
adotasse uma atitude tranquilizadora por respeito ao meu pai e ao meu
tio. Isso poderia contribuir para a sua decisão, mas o verdadeiro
motivo era o seu desprezo pelo tribuno.

- Certo. Não pense que irei a bem.

- Não, vou levar um esquadrão comigo.

- Presumo que não sirva de nada perguntar o que me acusam de ter


feito, Morelo?

Ele riu-se.

De ombros descaídos, tapei-os com a estola, zangada.

- E ainda espera que acredite em si quando me diz que não se passa


qualquer coisa estranha?

Morelo demorou a responder. O bruto flácido e indolente detestava


mesmo o tribuno com todas as suas forças.

- Imagino, Flávia Albia, que se eu quisesse tomar a iniciativa e


irritar o velho, poderia começar a fazer perguntas acerca de mortes
misteriosas.

Dei-me por satisfeita. Desprezava-o, mas ainda havia uma pinga de


profissionalismo nele. Era capaz de desempenhar o papel de um bom
agente quando escolhia fazê-lo. Também ficaria profundamente agastado
se descobrisse que o superior hierárquico o tinha mantido na
ignorância. Se Morelo chegasse de facto a descobrir alguma coisa
esquisita que andasse a passar-se no Aventino e que o tribuno não lhe
tivesse referido, então o ódio enraizado que devotava a Cássio Scauro
poderia levá-lo a transmitir-me os pormenores.

98
13

Bem, Flávia Albia... está a esconder uma história e tanto! Só havia


uma maneira de neutralizar a minha depressão: almoçando. Tinha ido ao
Xarroco, a casa de pasto do bairro que pertencia há vários anos aos
meus familiares, onde o arquivista do edil acabava de me descobrir.
Provavelmente Ródão tinha-lhe dito onde eu estaria e, ao cumprimentar
o meu novo amigo com o coração a palpitar, por uma vez dei graças
pelo porteiro.

Andrónico sentou-se no banco à minha frente. Junilo, o jovem


empregado, aproximou-se para se inteirar do que ele queria. Sendo
Junilo, limitou-se a ficar ali em silêncio, com uma tabuinha encerada
a postos para tomar nota do pedido. Tinha um avental. Inclinara a
cabeça. Era óbvio o motivo pelo qual estava ali.

Uma vez que Andrónico nada disse, Junilo afastou-se, provavelmente


julgando que o cliente precisava de mais tempo para decidir. Reparei
que o arquivista passou a bolsa do seu cinto para uma posição mais
central, em vez de a deixar sobre a anca. Isso indicou
convenientemente a Trínio, o carteirista, onde poderia encontrá-la
depois de acabar de emborcar o seu mulso, para arranjar o valor da
bebida do dia seguinte antes de ir embora.

- O empregado parece um bocado...

- Surdo.

99
Ainda irritada depois do episódio na associação de vigilantes,
disparei:

- Certo! Ia só comentar que todos os empregados podem ser estranhos.

- O Junilo é surdo. O que quer dizer que nasceu sem ouvir. E antes
que sugira que vamos a alguma espelunca onde o pessoal pareça normal
mas depois cuspa no caldo e faça tramoias com a conta, ele é meu
primo.

O arquivista acenou descontraidamente com uma mão, abarcando a


caupona.

- Ah! Um negócio de família?

Era notório que estava a pensar que aquilo era um antro decrépito. No
Xarroco, até as teias de aranha tinham teias de aranha. Por vezes
agitavam-se com a brisa, como se os espíritos de antigos clientes
pedissem descanso.

Andrónico fez uma expressão séria - era a sua forma de introduzir uma
piada.

- Presumo que talvez não lhe façam um desconto mas enxotem as moscas
do prato antes de lho servirem?

- Quando se lembram. - Finalmente, eu acalmara-me. - Nunca peça a


especialidade da casa, que a especialidade é comida estorricada. -
indiquei a Junilo que Andrónico comeria o mesmo que eu: o prato do
dia, grão (era sempre grão), com alface a acompanhar, um ovo cozido
esfarelado em cima da alface e um copo de vinho que não era
propriamente de Falerno. - Está a ver, foi fácil.

- Com certeza, Albia, eu compreendo. Ele é só surdo. Não implica que


seja estúpido.

Junilo, que sabia ler nos lábios ou pelo menos interpretar atitudes,
lançou-nos um olhar irritado e afastou-se de mau humor para a
cozinha. Era um rapaz bonito que, aos dezassete anos, revelava uma
personalidade tolerante. Eu tinha uma relação especial com ele, pois
Junilo também fora adotado pela família Dídio, certamente depois de a
sua deficiência ter sido detetada e os pais terem despejado o bebé
surdo numa conduta do lixo.

100
Pelo menos tinham escolhido uma que era bastante usada. Ele
sobrevivera, e fora o meu pai quem o encontrara. A minha tia, que não
tinha filhos, acolheu-o. Precisava de alguém que pudesse acarinhar. O
marido era imprestável.

Fora Junilo quem dera ao estabelecimento o nome de Xarroco. Tinha


razão ao afirmar que não fazia sentido continuar a chamar-lhe Flora -
como era conhecido na encarnação anterior - já que ninguém se
lembrava de quem teria sido essa Flora. Para publicitar o espaço, ele
encomendara um mural de um peixe feio com olhos no cimo da cabeça e
uma grande boca. Eu achava-o bastante parecido com o tio Gaio, o pai
de Junilo, embora nunca o tenha referido.

- Na verdade, ele é extremamente inteligente - afirmei, ainda à


defesa.

- Provavelmente precisa de o ser - replicou Andrónico num tom calmo e


sensato. Estava diligentemente a reconquistar a minha amizade e eu
não via motivo para lhe dificultar a tarefa.

Para justificar o meu mau humor, relatei os meus problemas do dia com
os papalvos das autoridades.

- Foi só uma questão técnica. Mas quando fazem alarido do poder que
têm, são uma ameaça... - A comida dele chegou. Esperei que ele a
observasse e provasse. No Xaroco, não eram ambiciosos, mas sabiam
cozer um ovo. - Então! O que queria dizer com a minha «história»,
Andrónico? Anda alguém a espalhar rumores maliciosos?

Ao regressar ao balcão, Junilo executou uma dança pateta para que eu


visse; estava a indicar-me que Andrónico era ainda pior do que o
género de seguidores que eu costumava ter. Por azar, Andrónico viu-o
pelo canto do olho e, no seu tom mais provocador, comentou:

- Calculo que seja inevitável que os seus familiares façam pouco de


qualquer amigo que vejam consigo!

- As Saturnais vão ser divertidas - concordei, sem rebater a forma


como ele se definira. - Por essa altura, as minhas irmãs, tias, a
costureira da minha mãe e o macaco de estimação já nos terão visto
justos.

101
A minha vida vai ficar virada do avesso.

- Acho que sobreviverá. - Andrónico tinha pousado a colher,


provavelmente com alívio, quando o grão lhe atingiu as papilas
gustativas; a minha tia continuava a usar uma saca que devia ter
comprado no ano da erupção do Vesúvio. Depois falou numa voz grave e
mais intensa: - Do que ouvi dizer hoje de manhã, você é rija. E uma
personagem interessante... Não parece incomodada por haver gente a
falar de si?

Esbocei um sorriso delicado.

- Espero sempre por saber ao certo qual será o episódio rocambolesco


ou a mentira elaborada que circula a meu respeito. - Confrontámo-nos
em silêncio durante alguns instantes, ele a resistir como forma de me
provocar, até que acrescentei num murmúrio: - E a quem a mentira terá
sido contada.

Andrónico arvorou o seu ar espantado, de olhos esbugalhados e


sobrancelhas tão arqueadas que lhe faziam rugas na testa.

- Fale! - ordenei num tom mais severo. Para o ajudar, disse-lhe: - Já


sei que Metelo Nepos contou a Mânlio Fausto que tinha contratado um
informador. - Não explorei a questão de Andrónico não me ter
informado do que Nepos dissera. Talvez devesse tê-lo feito, mas
estava mais interessada em saber o que acontecera naquele dia. - Terá
isso alguma coisa que ver com esta conversa acerca da minha
«história»?

A confissão de Andrónico não se fez tardar.

- Era só uma questão de tempo, Albia, até que Fausto pedisse uma
investigação sobre os seus antecedentes.

- Você já o tinha dito. Ele é um sacana intrometido.

- Rotina. Tudo o que fez foi consultar o registo da associação de


vigilantes.

- E descobriu que eu não constava do registo.

- Ah! Sim, descobriu.

Os vigiles fazem inventários de personalidades que o Governo decide


monitorizar. Gente com carreiras duvidosas ou que siga religiões
estrangeiras encorajadoras de morais soberbas, que as autoridades
consideram altamente perigosas.

102
Entre uma miscelânea de prostitutas e astrólogos, esses registos
incluem informadores.

- Deve ser complicado - sugeriu Andrónico. - Estar numa lista dessas?

- Mas eu não estou! Não poderia opor-me; afinal, é absolutamente


verdade que nós, informadores, seguimos rituais curiosos, especulamos
acerca de questões éticas e, acima de tudo, vendemos os nossos
serviços. Tentamos resolver enigmas, tal como os matemáticos.
Sentamo-nos em bares a filosofar... embora, louvados sejam os deuses,
não seja obrigatório deixar crescer a barba.

- Nem sequer quando trabalham disfarçados? - brincou Andrónico. A


forma como o disse era quase sedutora. Muito agradável.

O nome do meu pai constava da lista dos vigiles. Ele achava isso
hilariante. Mas nunca iam revistar a nossa casa, nem se davam ao
trabalho de o prender. Provavelmente, o seu nome tinha uma indicação
ao lado, dizendo «Não Incomodar», por ser demasiado bem relacionado
com o antigo imperador, Vespasiano.

O meu nome nunca tinha sido acrescentado. Quando me tornei


informadora, o meu tio Lúcio tratou disso, afirmando num tom
antiquado que tudo o que eu fazia era escrever cartas de amor para os
analfabetos.

Às vezes escrevia-as. Quando as lamechices eram demasiado banais,


passava-as ao secretário egípcio do meu pai. Os clientes gostavam.
Ele tinha uma caligrafia lindíssima.

- Então, imagino - sondou Andrónico com delicadeza - que tenha


apagado o seu nome dos registos a troco de uma soma considerável?

- Não, o meu tio dos vigiles nunca me incluiu no registo.

Ele assobiou.

- Então você tem amigos bem colocados em todo o lado!

103
Perguntei a Andrónico o que tinha feito o edil ao saber que o meu
nome não constava da lista. Deveria ter adivinhado: subiu de nível e
recorreu a Cássio Scauro. Apesar de trabalharem em ramos distintos da
lei e da manutenção da ordem, Fausto decerto consideraria que,
enquanto magistrado, se encontrava acima de um comandante de coorte.
Scauro não seria da mesma opinião, mas decerto também não recusaria a
convocatória. Agora já sabia por que motivo Morelo me tinha dito que
eu era mal vista pelo tribuno.

Uma coisa era certa. Assim que Scauro regressara ao quartel depois de
um sermão austero de Mânlio Fausto, havia chamado o seu amanuense. Eu
escapara durante doze anos, mas agora constava mesmo daquela maldita
lista.

- Na verdade - garantiu-me Andrónico -, você saiu bastante bem da


discussão. Cássio Scauro foi ao nosso encontro, muito nervoso, à
espera de um escândalo. Queria que Fausto ignorasse a omissão
proporcionando-lhe o máximo de informação, para parecer que sabiam
tudo a seu respeito. E depois do que ele contou ao meu amo, Fausto
ficou bem impressionado.

- Esclareça-me. O que se diz que eu fiz?

Interessava ao tribuno apresentar-me como sendo virtuosa, de modo a


justificar porque nunca tinha sido listada. Ao que parecia, eu era
uma viúva amável, determinada e inteligente (e com as relações
sociais anteriormente referidas) que ajudara os vigiles num caso
dificílimo de fraude médica. Ficara implícito que eu me colocara em
risco nessa altura, funcionando como chamariz.

- Na verdade - disse a Andrónico -, a única condição que os meus pais


me impuseram quando me dediquei a esta profissão foi nunca, nunca
agir como isco. Corre sempre mal. Qualquer mulher que se exponha ao
perigo com um criminoso é uma tola.

- Fico encantado por ser tão sensata, Albia.

- É claro que já o fiz. Só não lhes conto antecipadamente.

104
Isso, escusado será dizer, é o principal motivo pelo qual este
estratagema ridículo falha. Ninguém sabe onde estamos, portanto, como
é possível que nos facultem apoio ou nos salvem?

Andrónico debruçou-se por cima da mesa. Já tinha abandonado a tigela


da refeição. Comia depressa e provavelmente nunca tinha consciência
do sabor da comida; quando ficava satisfeito parava, sem se dar ao
trabalho de rapar a tigela.

- Por favor, tenha cuidado - pediu-me, muito sério.

- Continuo aqui. Por pouco. Ele tinha-se aproximado demasiado de mim;


preocupava-se excessivamente com o meu bem-estar. Eu não tinha a
menor intenção de o assustar contando-lhe todas as situações
complicadas de que me desenvencilhara à justa.

Fi-lo contar-me mais acerca do que fora dito.

Cássio Scauro descrevera-me perante Fausto como um espécimen exótico;


demorara-se no facto de eu ter chegado a Roma vinda da Britânia, com
todos os floreados disparatados que isso costuma comportar. Gemi.

- A ilha remota e misteriosa, escondida nas névoas, em que os


habitantes ruivos que usam calças e grossos colares de ouro estão
sempre pintados de azul... Acredite no que lhe digo, o nevoeiro não é
minimamente romântico quando se vive no meio dele.

- E são mesmo azuis?

- É claro que não! Bem, às vezes... mas hoje em dia os grandes


idiotas sardentos querem usar togas e ganhar uma fortuna a intrujar
todos os que lá chegam com alguma falcatrua de importação e
exportação. Se frequentar os banhos públicos significa que uma vida
de conforto e aquecimento subterrâneo está ao seu alcance, o típico e
despachado homem tribal britânico está disposto a fazer isso. Porque
há de viver numa cabana, se o tesouro imperial lhe providencia um
fórum? Porque há de lavrar a terra, se o comércio internacional é
canja?

105
Vêm a correr dos campos, mortinhos por vender ostras de Rupitiae a
Roma.

- E nós ávidos por comprá-las! - comentou Andrónico a sorrir.


Evidentemente, ouvira dizer que a iguaria britânica superava as
outras.

- O que permite aos Bretões que se embebedem até caírem para o lado
nas tabernas de Londínio.

- A propósito... você, minha cara, pode parecer uma pequena e


aprumada matrona romana com um roca numa mão e as contas do pessoal
doméstico na outra, mas tem um passado provinciano obscuro e é
possível que seja uma druida.

Voltei a sentir o coração pesado.

- Resolvo os meus casos passando com um ramo de azevinho por cima dos
indícios? Que ridículo. É certo que deixei que esse rumor se
espalhasse há anos, mas tem de acreditar que não fui eu que lhe dei
azo. Na verdade, os druidas são velhos tortuosos, todos eles. Barbas
embaraçadas e segredos místicos. Nunca tomam nota do que quer que
seja, não vão as pessoas aperceber-se de que são uns aldrabões. E
depois um advogado astuto explicou-me que em Roma praticar artes
mágicas é um crime capital.

- Fausto foi informado de que você conhece, de facto, alguns


advogados astutos.

Andrónico estava a fitar-me atentamente, mas havia suficiente


divertimento no seu olhar para me agradar.

- Mais tios. Consulto-os de graça, sempre que temos uma festa


familiar.

- Que conveniente! Os famosos Camilli, segundo creio? - Oh, que


maravilha! Cássio Scauro tinha mesmo entrado em pormenores. -
Advogados em ascensão... e ambos no Senado. Essa notícia foi
desconcertante para um edil da plebe, posso assegurar-lhe, Albia. Ele
acha-se tão superior... e depois descobriu que estava bem acima dele
na escala social.

- Não gosta mesmo nada de Fausto!

106
Perguntei-lhe sem rodeios: o que lhe tinha feito o edil? Como
estávamos a partilhar informação pessoal com tanta franqueza,
Andrónico contou-me.

Mânlio Fausto pertencia à elite da plebe, do género que tinha uma


longa história de confrontos com o Senado; esta classe era de tal
forma rica e poderosa que se recusava a acatar ordens da aristocracia
tradicional. Príncipes dos negócios e do comércio. A medida que Roma
se tornava um grande império, tinham visto e explorado as
possibilidades: a família de Fausto encomendara, construíra e
arrendara armazéns. Com esta estratégia, enriquecera imenso. Apesar
de viverem modestamente no Aventino, julgava-se que teriam baús
cheios de dinheiro e não havia dúvida de que eram senhores de um
batalhão de escravos, todos eles dispendiosos, selecionados pelo tio
do edil por serem belos ou talentosos. Estes eram cuidados e educados
com a mesma atenção aos pormenores que os Fausti dedicavam aos seus
armazéns. Um administrativo liberto com um passado destes poderia
considerar-se uma mais-valia tremendamente desejável.

Por isso, depois de educado e treinado na casa do tio e de lhe ser


concedida a alforria (finalmente, reconhecia o seu estatuto),
Andrónico esperara uma promoção. Ambicionava ocupar a posição de
secretário pessoal de Mânlio Fausto. Já Fausto tinha outra opinião.
Não lhe permitiria esse tipo de acesso aos seus documentos privados.
Andrónico sentia que o sobrinho deveria recorrer a si com gratidão
como assistente e confidente. Ao invés, Fausto não só recusara como
ainda resolvera que ele trabalharia fora de casa como arquivista, no
Templo de Ceres.

- Eu quase que aguentava... mas este ano o suíno conseguiu ser eleito
edil. E claro que foi o tio Túlio a tratar disso, puxando
vigorosamente os cordelinhos e untando as mãos necessárias, como de
costume. Portanto, agora tenho de aturar o maldito sobrinho dele
todos os dias, continuando a não ter o emprego que queria... e que,
se o mundo fosse justo, bastaria pedir para o ter.

107
- Coitado.

- Obrigado. É realmente uma desgraça imerecida.

Junilo tinha perdido a esperança de que fôssemos pedir mais alguma


coisa que nos aumentasse a conta. Uma vez que continuávamos a ocupar-
lhe a melhor mesa, pousou um par de bebidas gratuitas à nossa frente.
Fitou-nos com um olhar furioso, que nós ignorámos.

- Então - disse eu enquanto brindávamos -, enquanto Fausto e o


miserável tribuno bisbilhotavam, em que lugar discreto e privilegiado
estava você?

- Eles estavam sentados lá fora, no pátio. Eu coloquei-me junto a uma


porta aberta numa divisão em frente à colunata. Cássio Scauro tem uma
voz ribombante; Fausto fala baixo...

- Mas é mais dado a ouvir.

- Pensava que não o conhecia...? - Andrónico parecia melindrado por


eu ter outras fontes de informação.

- Por acaso houve uma pessoa que mo descreveu. Se calhar devia


conhecê-lo... já que está tão interessado em mim.

- Não. Não tenha contacto nenhum com ele.

- Porque não? O que é que o torna assim tão perigoso?

- Dê-me ouvidos. Não o faça.

Andrónico mostrava-se tão insistente que fingi estar de acordo.


Obviamente, tinha apenas espicaçado a minha curiosidade.

Para o distrair, voltei a centrar a conversa nas minhas origens na


Britânia. Expliquei-lhe que tinha sido uma bebé-milagre, arrancada às
cinzas da cidade arrasada de Londínio. Sendo arquivista, Andrónico
ficou fascinado.

- Então não tem uma certidão de nascimento?

- Todos os meus problemas fossem esse! É possível que tenha existido.


Nesse caso, provavelmente terá sido destruída durante a Rebelião...
e, mesmo que tivesse sobrevivido, de nada serviria, pois ninguém
saberia que me pertencia.

108
- Então é mesmo bretã?

- É possível que não. Posso ser qualquer coisa. A maioria dos


escravos sabe mais acerca de si do que eu.

- Isso é complicado. Será algo que um edil possa usar contra si,

Albia?

- Não - respondi num tom calmo. - Tenho cidadania romana, com um


diploma oficial a garantir-ma. Como cidadã, fui oficialmente adotada.
Esse homem não poderá tocar-me... mesmo que quisesse fazê-lo. E
porque haveria de querer, Andrónico?

- Ele é capaz de ser vingativo quando o afrontam.

- Mas que fiz eu que o ofendesse?

- Anda a farejar.

- O quê? Se toquei nalguma questão confidencial, Mânlio Fausto só


terá de me explicar. Sou uma mulher razoável... Olhe, não está a
perceber, é por isto que eu acho que se calhar deveria ir falar com
ele.

- Ele não vai recebê-la.

- É a segunda vez que me dizem isso com tanta certeza. Porquê? Esse
ser pomposo está convencido de que tem uma agenda fenomenalmente
ocupada ou... - já tinha perdido a calma -...será que o que se passa
é que morre de medo de mulheres?

Andrónico pensou um pouco. Por fim, como se a luz tivesse passado por
entre umas persianas, disse:

- Acho que acertou em cheio, Albia!

109
14

Ficámos sentados na caupona. Os fregueses iam saindo. Junilo passou


um pano pelas mesas e depois sentou-se sozinho com umas plantas de
construção. Era um rapaz inteligente. Em várias ocasiões, a minha tia
arranjara-lhe lições pagas, quando conseguia desencantar um professor
compreensivo. Ele tinha estudado geografia e, segundo me parecia,
matemática. Era particularmente dotado para a geometria. Praticar
luta livre impedira-o de ser maltratado por outras crianças.

Recentemente, depois de o pai se ter reformado das funções


governativas, a família mudara-se para uma casa mais pequena; Junilo
agarrara nas plantas para travar o tipo hediondo de remodelação que
Júnia e Gaio tinham imposto no apartamento anterior. Gaio Bébio era
um homem incapaz de distinguir em que lado do prego deveria martelar.
Não obstante, estava sempre a tentar criar um solário sofisticado no
terraço. Os seus projetos costumavam interromper-se quando ele caía
de um escadote e magoava as costas.

Eu e Andrónico ora falávamos, ora não. Parecia que ele não precisava
de regressar à edilidade nessa tarde. Percebi que tinha uma atitude
despreocupada; entrava e saía conforme lhe apetecia. Isso poderia
desagradar a um amo picuinhas.

110
Apesar de ser um dia ensolarado, ainda não fazia calor. Abril é um
dos meses mais agradáveis em muitas nações. Sentia-me a deslizar para
um estado sonhador, que não era provocado apenas pelo vinho.

O resto do dia passou sem contratempos. Ao fim de algum tempo, eu,


Andrónico e o meu primo tornámo-nos as únicas pessoas no
estabelecimento. O meu querido primo não via qualquer motivo para
desaparecer e deixar-nos a sós. Apesar de ser adotado, possuía todas
as características mais irritantes da nossa família. Era interessante
que ele tivesse absorvido os defeitos dos outros, enquanto eu
permanecia tão pacata e discreta.

Quando as pessoas começaram a chegar, vindas dos empregos, Junilo


levantou-se para preparar rojões de porco, que ia grelhar em espetos.

Olhei de relance para Andrónico. Os bares estavam proibidos de servir


pratos de carne. O amo dele, o edil, castigaria a minha tia se este
crime alguma vez lhe fosse apontado. Andrónico sorriu; não apoiava de
forma alguma as funções oficiais de Fausto. Junilo fez-nos sinais
muito enfáticos, indicando-nos que nos ofereceria rojões para
levarmos, sem qualquer custo, desde que deixássemos de lhe ocupar a
melhor mesa. (Só havia duas mesas naquele espaço minúsculo; a melhor
e a que ficava a caminho da latrina.) A maior parte dos clientes
encostava-se ao balcão durante o dia, mas à noite havia mais procura
por lugares sentados; gostavam de jogar aos dados e outros jogos de
tabuleiro. Se estivessem sentados com uma mesa de permeio, sempre se
ganhava mais um segundo para intervir quando se desentendiam por
causa do jogo e tentavam matar o oponente.

Portanto, aceitámos uma grande espetada e, como o leitor já terá


adivinhado, levámos os rojões para minha casa.

Enquanto caminhávamos, os níveis de excitação entre mim a Andrónico


iam aumentando significativamente.

111
Procurei Ródão, para o caso de haver mensagens. O matulão inútil não
estava.

Andrónico foi avançando, lançando-se escada acima em direção ao meu


escritório. Se tivesse sido mais lento, eu tê-lo-ia levado ao meu
apartamento privado, como estava seriamente a considerar. Quando o
apanhei, o meu admirador demasiado zeloso já tinha perdido a
oportunidade. Isso não queria dizer que tivesse perdido tudo. Por
esta altura, estávamos extremamente contentes na companhia um do
outro. Num dos patamares, puxou-me para si e beijámo-nos. O seu beijo
era leve e esvoaçante, comparado com o que eu realmente gostava, mas
naturalmente ele estava apenas a fazer uma introdução ao trabalho
mais sério que se desenvolveria depois...

No escritório, ignorei o cadeirão e instalámo-nos lado a lado no


canapé. Parecia o sítio indicado para ficarmos. Quando Andrónico
descontraiu, com um braço ao longo do espaldar, também me pareceu
natural que o seu braço deslizasse e me envolvesse os ombros. Fingi
não dar importância ao gesto, enquanto ele fingia não se aperceber do
que estava a fazer.

Como qualquer pessoa que tenha passado um longo período faminta e


abandonada, comi tudo. Nunca desperdiço comida. A semelhança de
qualquer liberto de uma casa privilegiada, o arquivista tivera uma
vida de facilidades. Independentemente das misérias da escravatura e
do patronato após a alforria formal, nunca tivera de ganhar o
sustento. Roma estava cheia de gente como ele, que sabia que haveria
sempre comida gratuita em casa e que não pensava no desperdício.
Mordiscou os rojões para saciar a fome e depois concentrou-se noutras
questões.

Essas questões começaram pelo deslizar do braço. Depois, acariciou-me


a nuca. Em seguida, aproximou-se mais. Tinha uma mão a subir-me pelo
braço, com os dedos bem adentrados na minha túnica; a outra segurava-
me o queixo, em busca de um beijo. Embora eu estivesse com a
concentração noutro local, debatia-me com fechos para o ajudar.

112
Ele preparava-se para me acariciar onde eu estava desesperada por ser
acariciada...

Revivi aquele momento emocionante mas ligeiramente embaraçoso em que


nos ajustamos a um novo amante. Perguntamo-nos como será ele. Ainda
não estamos bem em sintonia e não sabemos ao certo se irá haver
entendimento. Não queremos admitir o nosso interesse desmesurado, não
vá dar-se o caso de termos interpretado mal o dele e acabemos por
fazer figura de tolos...

Obviamente, eu sabia. Andrónico era o meu género de herói: atraente,


divertido, bem-apessoado, com uma idade semelhante à minha,
originário da classe baixa e ambicioso, empenhado em melhorar. Fazia-
me rir; a falta que isso me tinha feito. Parecia dedicado. Falávamos
do meu trabalho, comíamos e apreciávamos vinho na companhia um do
outro, éramos basicamente almas gémeas. Eu tinha-me apaixonado por
ele tanto quanto seria possível. O facto de toda a minha família ir
censurar-me por não o conhecer há tempo suficiente e avisar-me para
ter cuidado só tornava a situação irresistivelmente aliciante.

Perto do momento final de entrega total, estávamos completamente


embrenhados um no outro - embora não tanto que perdêssemos a noção de
onde nos encontrávamos. Exatamente ao mesmo tempo, ouvimos alguém a
aproximar-se. Afastámo-nos e tentámos aparentar um ar indiferente.

Regra geral, eu ouvia os visitantes. Botas ou sapatos são fáceis de


detetar quando se está alerta e, ao fim de seis andares, a maioria
das pessoas chegava sem fôlego e a cambalear, fazendo bastante
barulho. Alguém que conseguira evitar isso encontrava-se lá fora, no
cimo das escadas. Aquela pessoa aproximara-se tão silenciosamente que
só poderia tê-lo feito de propósito. Tinha-nos apanhado de surpresa e
estava mesmo do outro lado da porta, a tentar desavergonhadamente
forçar-me a fechadura.

113
15

Reconheci o homem que forçou a entrada do meu escritório. Tinha-o


desprezado aquando do nosso primeiro encontro, quando ele fora contra
mim ao sair do gabinete dos edis; agora estava furiosa com ele. Era o
tipo chamado Tibério, que supostamente servia de mensageiro aos
magistrados.

Era robusto, como fora o meu avô plebeu - sem ser obeso, mas com um
corpo forte e pernas resistentes. Poderia ter-me arrombado a porta
com força de ombros se não tivesse sido capaz de manobrar
convenientemente o ferrolho. Naquele dia, trazia uma túnica cor de
areia de um material qualquer que devia provocar-lhe comichão; não
parava de se coçar, ainda que eu não visse pulgas a saltar. Um cinto
largo e grosseiro segurava-a. Tinha o mesmo manto que eu lhe vira da
última vez dobrado sobre um ombro; devia ser a sua vestimenta
informal quando se encontrava em espaços fechados.

Se o tio do edil selecionava os escravos pela beleza, devia ter


enviado um criado míope no dia em que aquele homem fora comprado,
isso presumindo que teria sido uma aquisição no mercado de escravos.
O rosto por barbear dava-lhe o ar clássico de qualquer trabalhador
das ruas de Roma. Poderia ser um condutor ou um cobrador de rendas.
Mais do que um trabalhador manual, no entanto: um homem a executar um
trabalho que requeresse competência e confiança considerável da parte
do empregador.

114
Não havia sombra de timidez nos seus modos.

- Que confortável! - comentou com amargura.

Tinha avaliado o que se passava entre mim e Andrónico, apesar de


estarmos a mostrar-nos imperturbáveis. Era a primeira vez que o ouvia
falar. Tinha um sotaque mais refinado do que a sua aparência sugeria.
Como o arquivista, deveria ser um liberto. Teria sido encorajado a
treinar a dicção para condizer com a casa abastada. Lancei-lhe um
olhar fulminante.

- A maioria das pessoas bate à porta - afirmei numa voz gélida. - A


maioria das pessoas considera que deve conceder ao proprietário de
uma casa o direito de admitir visitas na sua esfera de controlo.

Tibério fitou-me com uma expressão firme mas algo divertida. Os seus
olhos eram cinzentos. É coisa em que reparo sempre, pois os meus
também são. No entanto, os dele eram de um tom mais frio; quando eu
era mais nova, tinha olhos azuis.

A maior parte da população de Roma tem olhos castanhos, embora haja


muitos olhos azuis e cinzentos. Nero tinha olhos azuis. Que os de
Tibério fossem cinzentos não era relevante. Nunca iria fantasiar com
a possibilidade de aquele tipo ter algum grau de parentesco que o
ligasse a mim. Porém, não deixo de reparar.

- És a Flávia Albia!

Ele não ficou à espera de uma resposta torta. Ainda bem, porque eu
estava tão surpreendida com a forma imprevista como ele tinha entrado
que não me ocorria qualquer ideia. Inevitavelmente, acabaria por me
deparar com bastantes pensamentos a respeito dele. E não haveriam de
ser elogiosos. Ele concentrou-se em Andrónico:

- Deram pela tua falta; tanto no trabalho como em casa. - Andrónico


não reagiu. Tibério voltou-se de novo para mim. - Preciso de falar
contigo... não agora. É demasiado tarde e, com franqueza, é
inconveniente. Vim avisar-te. Visito-te amanhã de amanhã. Espero que
aqui estejas... se é que és capaz disso. - Percebi que já tinha
tentado encontrar-me antes.

115
Depois tornou a dirigir-se a Andrónico. - Vou jantar a casa. Podes
acompanhar-me.

Não era exatamente uma ordem. Ainda assim, a forma como falava
deixava poucas escolhas. Como «estafeta» não passava de um
mensageiro, mesmo que as tarefas de que o amo o incumbia
significassem que depositava confiança nele. Era vários anos mais
velho, embora dificilmente pudesse considerar-se superior a um
arquivista, muito menos alguém a quem tivesse sido atribuída uma
posição num dos templos principais. Como seu igual, portanto, ainda
esperei que Andrónico protestasse. Ao invés, ele lançou-me um dos
seus olhares pesarosos e levantou-se, disposto a partir com o outro.

Tentei compreender. Andrónico poderia ter relutância em admitir que


se passava algo entre nós. Eu sabia que não devia questionar a
dinâmica de uma casa estranha mas, se ele partisse calmamente, eu ia
começar a questionar-me se não me teria enganado. Se, afinal, não
seríamos de todo almas gémeas.

Foram-se embora juntos. Ouvi-lhes os passos escada abaixo, desta


feita com Tibério a fazer barulho à medida que se afastava. Tanto
quanto me era dado a entender, não iam a conversar.

Fiquei furiosa, angustiada e profundamente desapontada.

Fiz o que as mulheres têm de fazer: arrumei o escritório; levei os


espetos do Xarroco para os lavar e devolver à caupona no dia
seguinte; arrastei-me tristemente para o meu apartamento; fui para a
cama sozinha.

Nessa noite, ouvi os gritos terríveis e quase humanos que sabia serem
das raposas. Era pouco provável que mais alguém reparasse. A
violência e o medo eram lugares-comuns durante as horas das trevas e
poucos quereriam investigar.

Por causa disso, lembrei-me de que, em breve, os agentes do Templo de


Ceres colocariam armadilhas para apanharem os animais necessários ao
seu horrendo ritual. Aquele edil da plebe, Mânlio Fausto,
fiscalizaria os Jogos, pelo que deveria ter interesse no ritual dos
archotes. Mais uma razão para não gostar dele.

116
16

Acordei a sentir-me grogue. Apesar de abatida e amargurada, estava


determinada a rebelar-me contra o abominável Tibério. Nenhum factótum
barbudo me dava ordens para esperar por ele. Nem alguma vez lhe
perdoaria ter-me interrompido o encontro amoroso. Isso fora
obviamente maldoso; na noite anterior, separara-nos de propósito.

Deixei-me ficar deitada durante algum tempo, com a disposição árida


de uma mulher fisicamente frustrada. Olhei em redor, lembrando-me de
que eu e o meu marido tínhamos feito amor naquele apartamento com
tanta alegria jovem e enérgica.

Não tinha levado ali homem algum desde que o perdera. Aquele lugar
era nosso. Ao fim de oito anos, sentimentalismos à parte, era o meu
lugar, onde eu podia fazer o que bem me apetecesse; ainda assim, só
um caso amoroso mesmo muito bom me levaria a suspender o regime casto
que impusera àquele espaço depois de Lentulo ter morrido.

Agora estava preparada a deixar entrar um novo homem ali; sabia que
estava.

Teria acontecido, poderia ter sido Andrónico na noite anterior, ainda


que a cabeça me dissesse que era demasiado cedo na nossa relação para
lhe abrir as portas da minha casa.

117
Por um lado, até estava satisfeita por ele me ter obrigado a segui-lo
até ao escritório. Por outro, se nos tivéssemos escondido no meu
apartamento, Tibério nunca nos encontraria... Apesar de Andrónico ser
um homem de uma inteligência vibrante, parecia que não tinha reparado
na ausência de uma cama propriamente dita no meu escritório. Não
deverá ter parado para pensar onde seria que eu costumava dormir. Um
informador nunca teria deixado escapar esse detalhe.

Tinha havido outros homens. Eu não era uma virgem vestal. Bem,
naqueles tempos já nem as vestais eram virgens. Se os rumores
correspondessem à verdade, todas essas mulheres veneradas de rostos
cerrados tinham amantes. Quanto a mim, ia tendo casos, por vezes com
pessoas de quem gostava muito. Nenhum durava. Para ser sincera, até à
data nenhum fora uma relação que eu quisesse mesmo que durasse. Levei
um ou dois dos menos tontos a reuniões familiares, embora isso nunca
tenha corrido muito bem. As suas falhas depressa eram expostas, pois
Mânlio Fausto não era a única pessoa em Roma capaz de investigar o
passado alheio; eu tinha o meu escrutinador pessoal, quer o desejasse
quer não. Assim que o nosso devotado pai pressentia algum interesse
masculino numa das suas filhas, não tardava a preparar um ficheiro
digno de informador acerca do amigo suspeito. Passara a vida a fazê-
lo a nível profissional, pelo que era incrivelmente bom a descobrir
defeitos.

Isso tinha a tendência de matar a paixão. Na maioria dos casos, os


amantes fugiam, apavorados. Por vezes, o conteúdo do ficheiro era
bastante para me fazer querer deixar o amante, fosse como fosse.

E pronto.

Para frustrar o mensageiro e a «reunião» arrogante que ele achava que


marcara comigo, levantei-me cedo, agarrei nas minhas coisas e fui até
aos banhos de Prisca, disposta a passar lá a manhã toda. Para quebrar
o jejum, poderia comprar qualquer coisa ao vendedor ambulante que
circulava com um tabuleiro de petiscos.

118
Durante as horas de funcionamento oficial, tinha saborosas salsichas
quentes; de manhã só oferecia o que sobrara da noite anterior - mas
eu cá acho que por vezes uma salsicha fria, preservada na sua própria
gordura, vale por si mesma.

Prisca deixou-me entrar e resmungou como de costume por eu aparecer


antes do almoço. Respondi-lhe que qualquer pessoa com uma vida
amorosa haveria de o fazer. E preciso planear com antecedência.
Ofereceu-se para me recomendar um bom trepanador, que costumava
conseguir não matar os pacientes em quem fazia buracos na cabeça,
pois, se eu ia arranjar uma vida amorosa, estava a precisar de
examinar o cérebro.

Passei pelas várias divisões de banhos, sem me apressar. Serena


encontrava-se lá, pelo que me entreguei aos seus cuidados para uma
massagem revigorante. Alguns banhos públicos empregam massagistas
enormes, montanhas de gordura que oferecem serviços poderosos. Serena
era tão esguia e diminuta que parecia impossível ela conseguir
manipular quem quer que fosse, mas saltava para a plataforma onde
deitava as vítimas e ajoelhava-se mesmo em cima de nós com todo o seu
peso, esmagando de fornia magnífica os músculos tensos. Agradava-me
que nunca quisesse conversar. Quem quer saber de bisbilhotices
quando está a ser feito num oito? Tudo o que eu desejava naquele dia
era ficar ali deitada enquanto ela fazia o que fosse necessário,
deixando-me a sonhar com o arquivista, com os seus olhos vivos e
expressão cativante, e com o que eu sabia que tinha sido a sua
intenção na noite anterior, a de me tornar maravilhosamente sua...

Foi um sonho de curta duração. Enquanto eu me encontrava ali deitada


na laje, ouvimos uma voz masculina e zangada a discutir com o pessoal
na antessala. Fiquei chocada. O mensageiro do edil tinha-me
localizado e estava mesmo a tentar interrogar-me ali. Lancei um olhar
assombrado a Serena, que era uma jovem astuta, sempre consciente do
recato das clientes. Quando o casmurro Tibério abriu caminho para a
sala de massagens, Serena já me tinha coberto a barriga com uma
toalha - ainda que, como os banhos são conhecidos pela avareza, se
tratasse de uma toalha pequena.

119
As minhas partes privadas continuaram a sê-lo. Tudo o resto estava
limpo, oleado, tonificado e à mostra. Ele tinha uma boa vista. Ao
menos isso destabilizou-o. Corando, recuou, enquanto ordenava
rudemente que eu me vestisse e fosse falar com ele. Serena foi ao seu
encontro sem sequer me consultar, fazendo-o sair a sua frente, com a
palma da mão encostada ao peito dele. Já no corredor, disse-me que
iria buscar as minhas coisas ao balneário.

- O sacana miserável que espere! - ripostei bem alto.

Já me tinha levantado da laje. A minha túnica e as sandálias, como


Serena sabia perfeitamente, estavam penduradas num cabide de madeira
da sala de massagens. Enfiei-me na túnica antes de virar a laje de
tratamento de lado, incluindo o cavalete que a suportava. Quando a
deixei junto à parede, trepei para cima dela, para tentar alcançar
uma janela pequena, quadrada e sem vidro que iluminava a divisão.
Conseguia chegar lá, mas a abertura era muito pequena. Era preciso
planear bem aquilo.

Podia sair da maneira óbvia, passando primeiro a cabeça a custo, mas


isso seria uma escolha tola. A parede exterior do edifício era lisa,
sem saliências a que eu pudesse agarrar-me, o que me obrigaria a
deixar-me cair para a rua também de cabeça e partir os braços e a
própria cabeça ao aterrar. Talvez um homem optasse por esse método,
esperando estupidamente que corresse tudo bem, mas eu forcei-me a pôr
em prática o método mais sensato: manter-me dentro da sala e fazer os
pés saírem primeiro, para depois me esgueirar pelo parapeito,
agarrando-me a ele enquanto me virasse para a parede, a fim de descer
o mais possível antes de ter de me soltar e conseguir, desse modo,
aterrar de forma mais segura.

Assim fiz. Sentia-me orgulhosa de mim mesma. A janela era tão


estreita que a túnica que eu esperava que me protegesse se enrolou e
foi subindo pelo meu corpo à medida que eu me escapulia; por isso, o
caixilho de madeira raspou-me a pele como um ralador de queijo.

120
Enquanto descia, também fui alvo de exclamações de admiração do
pátio, onde as duas mulheres que brincavam aos gladiadores tinham
estado a confrontar-se. Chamara-lhes a atenção ao atirar as
sandálias. Se fossem lésbicas, estava a ser-lhes oferecida um belo
espetáculo, já que quando surgi, virada de costas, estava nua desde
as axilas. Lá me esgueirei, puxando a túnica o melhor que podia, e
elas tiveram a delicadeza de me amparar; cheguei ao nível do chão sem
ser demasiado apalpada.

Agradeci-lhes a ajuda. Elas estudavam-me descaradamente. Enquanto


ajeitava as vestes, concluí que mereciam a emoção. Zoé e Cloé
apresentaram-se. Já sabiam quem eu era. Depois fizeram-me chegar a
uma saída nas traseiras que todas conhecíamos. Forçaram o portão
trancado empurrando-o (eram raparigas fortes e não receavam esforços)
enquanto eu saltitava e afivelava as sandálias.

Tornei a agradecer-lhes e corri pela ruela. Elas incentivaram-me e


ainda ouvi o portão a fechar-se quando voltaram para o interior.

Aquilo era bom sinal. Queria dizer que não tinham visto o motivo
desapontado da minha fuga louca: a correr, dei de caras com Morelo,
da Quarta Coorte. O suíno anafado estava encostado a uma esquina, a
chuchar no dedo e à espera que eu escapasse dos banhos de Prisca para
me levar à entrevista prometida com o seu tribuno.

- Flávia Albia! Para quê tanta pressa?

- Oh, raios, Morelo! Como me encontrou?

- Ródão referiu que era capaz de estar por aqui. - Não sei porque me
dava ao trabalho de perguntar. - Aquele bronco do gabinete dos edis
chegou primeiro, mas calculei que fosse capaz de o deixar para trás.
Por isso, aqui estou. O otário continua lá à frente à sua espera,
mas, querida, agora você é toda minha.

- Soldado, admiro o seu raciocínio - disse eu, embora estivesse a


amaldiçoá-lo.

121
Morelo perguntou-me se eu iria a bem ou se seria melhor passar-me uma
corrente à volta do lindo pescoço e puxar-me. Garanti-lhe que isso
seria desnecessário; poderia esquecer quaisquer ideias de excitação
erótica. Bondage estava fora de questão; a única formalidade
requerida seria passar pela casa de uma familiar minha que pudesse
acompanhar-me. Ele disse que não havia tempo para isso. Que surpresa!
Pelo menos impedia que fossem duas as mulheres a sofrerem no
interrogatório. Não queria que uma tia minha assistisse àquilo.

Por princípio, perguntei-lhe se poderia mandar chamar o meu pai, já


que era ele a figura patriarcal da minha família, a quem competia
falar legalmente por mim. Morelo replicou que tomara nota do pedido
mas que obviamente não o faria e perguntou se eu julgava que ele era
estúpido. Mais uma vez, que grande surpresa.

Até então, tudo aquilo era fogo de vista, quase rotina. Mas imaginava
que o que se sucederia em seguida com o tribuno seria bem diferente.

122
17

O quartel principal da Quarta Coorte encontrava-se convenientemente


situado ao fundo do Aqueduto Márcio, do qual as tropas podiam retirar
água. Uma esquina do edifício dava para a Rua dos Lagos Públicos (uma
comodidade que já não existia), com a entrada do quartel voltada para
a estrada que subia desde o Aventino pela Porta Ardeatina, que a
partir daí passava a chamar-se Clivus Triarius. O quartel era o
típico edifício imponente, com pátios interiores de dois andares onde
homens de serviço se penduravam a «preparar equipamento»;
interessavam-se por demais em mulheres não acompanhadas. Já o
esperava. Morelo respondeu à maioria dos comentários sugestivos. Eu
fiz-me de surda.

Os vigiles estavam desarmados, no sentido convencional do termo. No


entanto, como eram ex-escravos robustos, munidos de machados, arpéus
de abordagem, cordas e outros apetrechos de peso, nunca se devia
menosprezá-los. Morelo oferecia-me uma proteção teórica, mas mantive
os olhos postos no chão. Costumo considerar-me afoita, mas nunca
aprecio situações destas. Depois de passarmos pelos enormes portões,
não havia para onde fugir. Não diria que alguém ouviria os meus
gritos, mas gritar ali era tão normal que ninguém iria ligar.

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Ao fundo de três amplos pátios havia um altar e ao lado uma guarita,
na qual um tribuno da coorte se escondia quando não estava a almoçar.
Morelo tinha-se autoincumbido de me proteger naquele ambiente
masculino. A custo, perguntou-me se eu queria que ele entrasse
comigo.

- Não, obrigada. Não interfira com a técnica do seu querido tribuno,


Morelo. Será tão mais simples para ele deixar-me apavorada se eu
estiver encurralada e sozinha entre homens desconhecidos!

Morelo, que sempre fora um bebé no que à tortura diz respeito,


pareceu ficar aliviado por não ter de assistir à dor e ao terror,
embora afirmasse que esperaria ali fora apenas porque o tribuno tinha
um gabinete bastante exíguo. Prometeu que depois me acompanharia até
casa e eu repliquei num tom cruel que ele estava a partir do
princípio de que sairia dali a andar. Ele estremeceu e eu inspirei
fundo. Ele bateu à porta e eu entrei.

Lá dentro, na divisão escassamente mobilada, na verdade havia espaço


para quatro homens, para além de Scauro. Tentei não permitir que o
número de interrogadores me preocupasse. Assim que pus um pé na
divisão, senti-me desconcertada. Diante de mim estava uma mesa baixa
que eles provavelmente tinham requisitado a uma taberna, sobre a qual
se encontravam várias tigelas cheias de azeitonas e pastéis
elaborados.

Contive um sorriso. Assim que percebi para que seriam, dei-me conta
de que Cássio Scauro e os seus brutos estavam prestes a ser
completamente vigarizados. As suas táticas de intimidação tomavam a
forma de acepipes.

Instalaram-me num banco desdobrável, com pernas cruzadas como os que


eram usados por oficiais importantes, com uma almofada (era bastante
incómoda, mas fiquei espantadíssima por ma darem) e depois
perguntaram-me, num tom solícito, se estava confortável ali. O
tribuno devia ter-me dispensado o seu próprio banco. Mas que honra.
Comecei a pensar se conseguiria fazer chichi de terror ali.

124
Antes de começarmos, tivemos uma conversa breve e embaraçosa acerca
do tempo naquele dia. Até então, a tentativa de me intimidarem estava
a resultar, já que eu detesto esse género de conversa de
circunstância.

Os cinco homens reuniram-se em círculo, ficando Scauro mesmo à minha


frente, para poder dirigir as negociações. Estavam todos de pé. Isso
não me parecia ameaçador, pois simplesmente não havia outros assentos
no gabinete e, de qualquer maneira, todos eles tinham um ar acanhado.

Cássio Scauro tinha um grande nariz, mechas grisalhas e a postura de


satisfação própria de um homem que ocupa o seu tempo à custa do
erário público num emprego sem saída. Tinha vencido o sistema.
Deveria ter sido centurião das legiões, mas isso não implicava
necessariamente que fosse arguto, apenas astuto nas manobras. Expulso
do exército propriamente dito por motivos de «idade», tinha
maquinado para se insinuar no tecido de Roma, mas nunca passaria dos
vigiles para as mais concorridas Coortes Urbanas ou para a Guarda
Pretoriana. Era lamentável, pois nos vigiles era mais provável que
prejudicasse o povo em geral.

- Então, és Flávia Albia, filha de Falco. Ouvi falar muito a teu


respeito. - Decidi não lhe dar qualquer encorajamento. Obviamente,
estaria a questionar-se se se atreveria a perguntar: «Será que me
vais mostrar as mamas?» Eram todos iguais, inclusivamente no
vocabulário abominável. Só se continha por ser possível que todos os
outros também quisessem apalpá-las. Era demasiado mesquinho para
deixar os seus homens divertirem-se. - Com que então trabalhas na
comunidade, como informadora? Trata-se de uma ocupação invulgar para
uma mulher. Que investigações interessantes tens em curso
ultimamente, Flávia?

Ninguém de quem eu goste me trata por Flávia. Deixei-o fazê-lo sem


qualquer comentário. Ele achava que estava a adotar uma postura
íntima, sem se aperceber de que me abespinhava.

- Oh, sabe como é... - Nunca lhe falaria dos casos em que realmente
trabalhava. - Há sempre o que fazer.

125
Basta aproximarmo-nos de uma casa de banhos e oferecermo-nos para
apanhar o pervertido que passa a vida a espreitar pelo buraco que fez
na parede do balneário das mulheres. Nunca falha. Eu ajudo.

- Fascinante.' - Os seus vigiles deveriam deter esses pervertidos e


ele tinha bem noção disso. Como justificação para não o fazerem, ele
alegaria falta de pessoal, mas o verdadeiro problema era uma absoluta
falta de interesse em resolvê-lo. Metade dos seus homens, se lhes
fosse dada a oportunidade, espreitariam por esse buraco e veriam as
mulheres a despirem-se. Apostava que ele também o faria. - Podemos
oferecer-te alguma coisa, Flávia? Uma bebida, talvez?

- Não, obrigada. Não vai querer perder tempo a mandar um moço buscar
chás de menta para todos... é uma complicação tomar nota de quantos
serão com mel, quantos sem. E há sempre um freguês incómodo que
prefere chá de borragem...

Decidido a ser um anfitrião gracioso, Scauro apontou avidamente para


os bolos de amêndoa. Não me mexi. Prefiro salgados. Ele, que deveria
ser um típico homem guloso, estava a esforçar-se ao máximo por não se
babar.

Por fim, não resistiu mais ao tesouro espraiado ali tão perto e,
embaraçado, puxou uma guloseima para si. Logo recolheu a mão como um
menino que tivesse ouvido os passos da mãe. Aguentou um pouco mais,
mas depois tornou a estender a mão e começou a mastigar. Os outros
homens, com um ar cobiçoso, observavam o superior a embuchar. Tive
pena deles e sorri-lhes, tentando adivinhar qual teria sido enviado
para comprar aquelas coisas com moedas de todos. Alguém tinha dado
uns pastéis com um aspeto extremamente rançoso ao moço de recados. Ao
fim de três dias na escudela, perdem volume e ficam com a pele
encarquilhada.

- Que invulgar... - Scauro estava a empanturrar-se demasiado


depressa. Quase se engasgou com o bolo e teve de fazer uma pausa para
conseguir respirar. Tinha migalhas à volta da boca toda. Os outros
pareciam ansiosos. Não obstante o treino para reanimarem pessoas
inconscientes por inalarem fumo, a menos que fossem pais de crianças
pequenas não teriam grande experiência a lidar com asfixia.

126
Quando o tribuno parou de tossir, continuou a frase entre inspirações
audíveis: - .. .ter alguém como tu a visitar-nos aqui.

- Imagino - respondi num tom grave. - Bem-sucedida e admirada na


comunidade. Uma filha educada da classe equestre, sobrinha de
senadores. - Regra geral, não me valeria destes argumentos de forma
tão vincada, mas sentia-me inspirada pelo que Andrónico me contara
acerca de o estatuto da minha família ter impressionado o edil.
Lancei um olhar indiferente a Scauro: - Em vez das habituais
prostitutas das traseiras das arenas, pobres raparigas, todas
dispostas a abrirem as pernas peludas para que as vossas tropas as
deixem apenas com um olho negro e uma grande multa.

Os cinco homens ficaram com um ar embaraçado. Ouvi uma ou duas


inspirações repentinas. Provocadas por nervos, não por remorsos.

Fitei Cássio Scauro com um olhar mais prolongado e direto.

- Isto é divertido, mas e se fôssemos honestos? Sei porque me trouxe


cá. Certas pessoas que se consideram importantes decidiram que você,
pobre homem, deveria ser incumbido de me impedir de fazer qualquer
coisa que eu estava a fazer. Primeiro, deve negar que se passe algo
de estranho em Roma. Depois irá suplicar-me que pare de me interessar
por este crime hipotético que ninguém admite que esteja a ocorrer.

O tribuno tinha parado de comer.

- Flávia, és uma mulher muito astuta!

Ele tinha mudado de tom, não muito, apenas ligeiramente. Senti, de


facto, um calafrio a percorrer-me por dentro da túnica. Scauro sabia
atirar um elogio com a quantidade certa de ameaça. Ambos estávamos
cientes de que ele alcançara aquele cargo através da aplicação
habitual de subornos e brutalidade. Era frequente os oficiais dos
vigiles serem de fraca qualidade, mas ele não era de forma alguma do
nível mais baixo; tinha poder suficiente para me assustar.

127
- Fui muito bem ensinada - repliquei simplesmente.

Era o suficiente para o recordar de onde provinha a minha perícia. No


entanto, eu não tinha de facto possibilidade de chantagear aquele
homem através das minhas ligações familiares. Sob o jugo de
Domiciano, tanto o meu pai como os meus tios se mantinham
despercebidos. Os meus pais passavam longos períodos fora de Roma.
Scauro deveria estar a par de tudo isso.

Tínhamos chegado ao ponto-chave do encontro. O tribuno contorcia-se,


como se tentasse expressar um conceito delicado.

- Imaginemos... - começou cautelosamente ao fim de algum tempo. -


Imaginemos apenas que tenham ocorrido um ou dois episódios similares.

- Episódios. - Saboreei a palavra, como se estivesse impressionada


com a subtileza do seu vocabulário. - Refere-se ao estranho surto de
gente morta?

- Não quero dizer isso, Flávia.

- Eu sei que não, Cássio, meu amigo. E por isso que estou
solicitamente a dizer estas palavras por si. Posso proferir o
inominável porque não estou obrigada pelo vosso código oficial de
confidencialidade... mas não tenha medo; sou sempre discreta.

O tribuno pareceu ficar tão aliviado quanto dividido.

- Vou ser absolutamente sincero contigo Flávia... - Duvidava! - É


capaz de ter havido um ou dois incidentes estranhos e preocupantes.
Os meus homens estão a investigá-los, noite e dia. Esperamos
conseguir conter a situação muito em breve. Até que isso aconteça,
não haverá qualquer declaração pública. Trata-se de um procedimento
absolutamente normal - insistiu.

- Com certeza - concordei.

O facto de eu parecer obsequiosa estava a deixá-lo nervoso. Percebi


que sentia que não poderia confiar numa jovem que concordasse
placidamente consigo. Talvez tivesse tido namoradas traiçoeiras que o
tivessem roubado, embora não me desse a impressão de que houvessem
sido muitas.

128
- As pessoas em altos cargos que sabem como gerir estas coisas
disseram que não devemos fazer nada nesta fase que possa inflamar a
situação.

- Até saberem com o que estão a lidar - explicitei eu, como se


fôssemos cúmplices. Agradou-lhe que eu conhecesse o jargão
estabelecido. - A minha família sempre colaborou estreitamente com o
Governo. Cássio Scauro, porque não me permite que o ajude, através
das minhas investigações?

- Ora então! Não te envolverás nisto, Flávia! - O tribuno estava em


pânico. A minha proposta dissimulada assustava-o. Tinham-lhe dado
ordens para se livrar de mim e, no entanto, ali estava eu, a sorrir e
a aproximar-se mais. - Temos de manter isto num nível profissional.
As autoridades superiores não querem rumores loucos que pudessem
abalar a confiança pública.

- Eu nunca encorajaria rumores.

- Oh, nós sabemos que não! - exclamou Scauro.

Todos os outros se mexeram e começaram a acenar com a cabeça, ávidos


por me demonstrarem que eu era conhecida por ser diplomática e servir
o interesse público.

Suspirei.

- Foi muito franco, Tribuno, conseguindo ainda assim manter a


discrição que os seus superiores poderiam requerer. Estou-lhe
agradecida.

- Podemos contar contigo?

- É claro que podem.

Até cedi e peguei com dois dedos numa das azeitonas esquecidas,
sacudindo-a da salmoura antes de a comer para que não pingasse sobre
a mesa que nem por sombras estava limpa. Um dos homens mais corajosos
aproveitou para tirar um bolo. Todos os outros estavam a postos,
prontos a lançarem-se aos doces assim que pudessem.

- Sempre - garantiu Scauro num tom convincente. - Sempre que os


vigiles puderem ajudar-te no teu trabalho, Flávia Albia, só tens de
vir cá e pedi-lo. Tito Morelo... conheces Morelo, não conheces...?

129
- Conheço, conheço. Um tipo impecável. Bom homem de família e um
agente tremendamente experiente.

- Morelo tem ordens para te ajudar em tudo o que queiras.

- Que bom sabê-lo, Scauro. — Se ele queria acreditar que estava a


conquistar-me, podia deixá-lo ter as suas ilusões. - Mas nisto não? -
arrulhei num tom divertido, como se tivéssemos passado a ser amigos,
capazes de partilhar uma piada.

- Nisto, não! - persistiu o tribuno, com os olhos ensombrados pela


possibilidade de não ter sido capaz de me coagir, conforme lhe fora
instruído.

- Conte comigo.

Eu conseguia ser amável. E também conseguia dizer mentiras.

Levantei-me, despedi-me de cada um dos homens com um aperto de mão


muito formal e saí. Atrás de mim, ouvia as exclamações de homens que
tinham estado numa posição desconhecida que os deixara muito
nervosos, e que por fim aliviavam a tensão atacando os bolos de
amêndoa.

130
18

Quando cheguei ao pátio, com os seus montes desordenados de tapetes


de corda acinzentada, Morelo estava a conversar e a rir-se com alguns
dos vigiles. Apressando-me de pilar em pilar, conseguir percorrer a
colunata em bicos de pés sem que ele ou qualquer outro homem desse
por mim, após o que me pus a caminho do outro lado do Aventino.
Infelizmente, ele apanhou-me.

- Pelos hermafroditas sagrados, Morelo! Aquele homem para quem


trabalhas é um velhaco. Ainda assim, tenho a satisfação de te
informar que me disse que deveria unir forças contigo. Devemos
partilhar informação... e, para começarmos bem, vais contar-me tudo o
que preciso de saber acerca destas mortes inexplicadas.

- Scauro disse isso? - perguntou ele, desconfiado.

- É claro que disse. Achas que te passava a perna... sobretudo numa


coisa com esta importância? Logo agora que Scauro me pressionou a
fazer as coisas bem?

- Suponho que não... não que me tenham dito grande coisa. Apiedei-me
dele e forneci-lhe uns quantos factos à cabeça:

- Comecemos com a questão de parecer haver um surto de mortes


estranhas e inexplicadas. As pessoas chegam a casa, vindas de alguma
expedição perfeitamente normal, mas sentem-se esquisitas; deitam-se e
pouco depois são encontradas mortas.

131
Não há explicação nem são encontradas quaisquer marcas nos corpos.
Morelo assentiu com a cabeça. Prosseguimos caminho.

- As vítimas são todas mulheres, Morelo, e de meia-idade ou idosas?

- Não sei. Isso seria peculiar. Regra geral, a tendência é


perseguirmos assassinos de jovens. Os criminosos fazem-nos por...
-Encavacado, Morelo interrompeu-se.

- Excitação sexual. - Fui brusca com ele. O homem era um investigador


dos vigiles. Devia saber o que faziam os assassinos em série. -
Estupores patéticos que espalham a sua semente em cadáveres que não
podem reagir. Ou, se esses pervertidos conseguem de facto fazer
alguma coisa com a pila, sexo consumado.

- Violação - concordou ele, de semblante fechado. - Antes ou depois


da morte.

- Ninguém violou Salvídia ou Celendina. Tanto quanto sabemos, não


houve sequer uma tentativa de lhes chamar a atenção. Não ocorreu
qualquer roubo. Nenhum ataque, na verdade... E se ninguém se
aperceber de que houve um assassínio, não pode haver excitação alguma
para o assassino à espera que a notícia se espalhe. Não, Morelo, isso
não é.

- E um verdadeiro enigma, Albia.

- Estará meramente fascinado por ficar impune?

- Pode ser do género de criminoso que goste de achar que é tão


esperto que engana as autoridades por completo.

- Não há mensagens anónimas passadas por entre os portões a dizerem:


«Fi-lo outra vez, seus idiotas!»

- Oh, o que não falta é disso! - ripostou Morelo com um sorriso. - E


são todas de Nónio, a vangloriar-se de roubar tangas de meninas dos
estendais.

- E estas mortes estão a acontecer só aqui? - perguntei, mantendo a


seriedade. - No nosso bairro? Ou num perímetro mais alargado?

- Por toda a cidade - admitiu Morelo. - A ser verdade.

132
- Então o que tem sido feito para o descobrir?

- É difícil de dizer. Por onde começar? As vítimas parecem ser


completamente aleatórias. Não só temos um assassino invisível como as
próprias mortes também são invisíveis. Como havemos de manter
registos se ninguém dá pelo problema e apresenta queixa?

- Não, isso é uma grande desconsideração da parte do povo! Mas há


alguém a manter registo? Em quantas vamos?

- Acabaram de me dizer que começasse.

Parecia perturbado com a ordem e eu não o criticaria. Seria uma


tarefa entediante e provavelmente inútil.

- Qual vai ser a abordagem?

- Confirmar com os agentes funerários. - Apontou para uma tabuinha


que levava enfiada no cinto. - Scauro apresentou-me uma lista sem
fim.

- Oh - exclamei. Deveria ter sentido vergonha de recorrer a


semelhantes táticas quando continuei num tom inocente: - Deve ter
sido a essa lista que Cássio Scauro se referia quando estava a
balbuciar acerca de cooperarmos... deixa-me ver a lista que já te
digo com quais deves falar.

Ele passou-me a lista. Era tão influenciável... a mulher dele devia


levar uma vida às direitas. Apostava que tinha mais anéis de cobra e
brincos de três pérolas do que qualquer outra do Aventino e que
quando queria que ele levasse a sua mãe mal-humorada a passar umas
férias no campo, ele se limitava a fazê-lo.

Havia demasiados nomes e moradas para memorizar; logo, disse a Morelo


que o procedimento mais simples seria eu levar a tabuinha para casa,
fazer uma cópia e devolver-lhe o original. O leitor já adivinhou: o
tonto caiu na patranha.

Não me dei ao trabalho de transcrever a tabuinha e usei-a


diretamente. Passei o resto desse dia a fazer a ronda dos agentes
funerários, de modo a falar com eles antes dos vigiles.

133
À hora de jantar, as minhas roupas tresandavam a mirra e a bolo
fúnebre, mas, para além disso, pouco tinha conseguido. Falara com
todos, alegando ter sido contratada para ajudar porque os vigilantes
tinham excesso de trabalho e, além disso, precisavam de disfarçar as
suas investigações, servindo-se de um civil. Apresentando-me como
consultora à paisana, citei Cássio Scauro quanto à necessidade de
manter os níveis de confiança pública.

- O objetivo dele é prevenir surtos de pânico e motins.

Toda a gente quer evitar situações dessas. Os agentes funerários


detestam comportamentos que interfiram com as suas procissões pelas
ruas. Os únicos motins de que gostam são os que acabam com as Coortes
Urbanas a acudir para acalmar os ânimos espancando os manifestantes
com tanto entusiasmo que o resultado é uma amálgama de cadáveres.
Mesmo na Roma de Domiciano, tais motins eram raros.

Todos os cangalheiros juraram que seria impossível identificar com


algum grau de certeza quaisquer vítimas do assassino aleatório. No
entanto, também todos confirmavam que havia cada vez mais rumores. Em
geral, os profissionais eram da opinião de que as pessoas estavam a
morrer de uma maleita indetetável, na maioria das vezes sem sequer
suspeitarem de que algo estranho lhes tinha acontecido. Havia alguns
que se perguntavam se poderia haver mão criminosa na questão.

Maleitas indetetáveis, em Roma, queriam dizer magia ou veneno. Ou as


duas coisas. Eu recusava-me a acreditar em magia, mas poderia estar a
lidar com gente que acreditasse. Sabia que, segundo os vigiles,
veneno significava que o assassino só poderia ser uma mulher, embora
eu não sugerisse isso a quem quer que fosse. Os investigadores do
sexo masculino agarrar-se-iam com unhas e dentes à ideia, mas eu era
cautelosa. Não havia provas. Prefiro fazer deduções baseando-me em
factos concretos, em vez de moldar os factos para que se adequem a
alguma teoria forense preexistente. Sobretudo quando tal teoria fora
concebida por homens paramilitares bastante conservadores.

134
Acabei apenas com dois casos prováveis. Uma das vítimas fora um
rapaz, a outra uma criada de uma senhora rica. As duas mortes tinham
ocorrido em março. Obtive as respetivas moradas. Era realmente muito
tarde para aparecer e começar a fazer perguntas, mas, ainda assim,
decidi experimentar a mansão.

Um porteiro convencido de que a sua função requeria ser desagradável


barrou-me a entrada. Aceitei tranquilamente a imposição, ciente de
que a melhor tática seria voltar durante o dia, noutro turno do
pessoal doméstico. Se insistisse e armasse confusão, o suíno
intransigente iria mencionar a minha visita a quem o substituísse;
afastando-me, teria mais hipóteses de encantar o escravo do dia
seguinte e conseguir entrar.

Fui devolver a tabuinha a Morelo que, fosse como fosse, já não estava
de serviço. Respeito a «colaboração». Atenciosamente, desenhei
estrelas ao lado dos nomes dos cangalheiros que tinham sido
prestáveis.

Voltei para casa, talvez com esperança de que o arquivista tornasse a


visitar-me. Ródão disse-me que não o tinha visto. Concluí que
Andrónico deveria estar a ser altamente vigiado por Fausto, o
magistrado desmancha-prazeres.

Tinha comprado pão a caminho de casa. Fiz uma refeição ligeira, com o
queijo que Metelo Nepos me dera. Gostei. Havia de dois géneros, ambos
apimentados e revigorantes.

A medida que a minha exaustão se ia dissipando, comecei a matutar. Na


tranquilidade de casa, considerei o que sabia e se valeria a pena
prosseguir. Já tinha a certeza de que um assassino aleatório andava à
solta nas ruas, provavelmente com cúmplices que cobririam uma área
abrangente. As notícias andavam a ser censuradas para não chegarem às
secções mais sensacionalistas da Gazeta Diária. O edil e o tribuno
tinham unido esforços e decidido manter-me afastada. Scauro fora
incumbido de me enxotar, tendo ordens para ser cordato: nada de
ameaças ou violência.

135
Fora esse o motivo que o levara a apresentar-me azeitonas e bolos.
Poderia essa cortesia dever-se ao edil? Nem isso conseguia fazer-me
gostar dele.

Aqueles homens julgariam mesmo que bastava um mil-folhas e uma taça


de chá de menta para comprar a minha obediência? Que ridículos. Tudo
o que tinham conseguido fora indicar-me que algo estava de facto a
passar-se. O que, por sua vez, me deixara de imediato determinada a
lançar-me de cabeça para explorar o problema.

Dado a minha vida amorosa, apesar de ainda promissora, se ter


deparado com um impasse, envolvi-me numa estola escura e saí com
comida para deixar à raposa a quem chamava Robigo. Não a vi, nem a
qualquer uma das outras, quando visitei a Armilústria. No entanto,
horas depois nessa mesma noite, já com a cidade adormecida, ouvi o
chamamento de um animal. Provinha de algures perto do rio. Desta
feita não eram gritos, mas um único latido, repetido várias vezes. A
maioria das pessoas teria julgado tratar-se de um cão doméstico, mas
eu percebi que era mais rouco e soube que era uma das raposas.

136
19

No dia seguinte, investiguei o outro caso possível. Lupo trabalhava


numa azafamada banca de peixe junto à Porta Trigemina, onde se ouviam
os barcos e se sentia o cheiro do Tibre. Tinha quinze anos, era muito
ágil e um pouco atrevido, o irmão do meio entre cinco rapazes; cabia-
lhe abrir ostras. Segundo o pai, era querido por todos e muito
popular; toda a gente gostava dele. Isso talvez fosse verdade. Tendo
em conta que não havia ninguém zangado a apontar o dedo da culpa a
outra pessoa, parecia razoável acreditar que o rapaz não tinha
inimigos.

O pai também calculava que Lupo não tivera namoradas. Por ter
reparado na forma como os olhos do pai seguiam qualquer mulher que
passasse pela peixaria a caminho de uma fonte ali perto, cheguei a
interrogar-me se o casto Lupo não teria herdado algumas tendências
libidinosas, mas estava disposta a aceitar que a sua vida não tivesse
acolhido amores capazes de levar uma rapariga desprezada a desejar-
lhe mal.

O pai parecia matreiro; ele e as suas roupas cheiravam


irrecuperavelmente a peixe. O próprio Lupo poderia ter parecido um
semideus de cabelos dourados quando visto ao longe por uma rapariga
otimista, mas calculei que o falecido rapaz tivesse dificuldade em
atrair alguém que pudesse abraçar e manter perto de si.

137
Provavelmente morrera virgem; e o pai era do género que lamentaria
isso pelo filho.

No entanto, as pessoas são surpreendentes. Afinal, de alguma maneira


o pai persuadira uma mulher a dar-lhe pelo menos cinco filhos. Os
outros quatro irmãos, que também trabalhavam na banca, eram
parecidos, como se tivessem todos a mesma mãe. Concluí que a pobre
alma deveria ser uma escrava, sem hipótese de recusar.

Sabia que tinha sido o pai a referir ao cangalheiro a estranha forma


como Lupo morrera. Perguntei-lhe o que o levara a pôr em causa a
morte do filho.

Até então, só o pai tinha respondido às minhas questões mas, nessa


altura, os quatro rapazes abandonaram o que estavam a fazer e
reuniram-se à nossa volta. Supus que aquele tivesse sido o tema de
muitas conversas familiares. Estavam tranquilos; nenhum deles clamava
estridentemente por justiça, como outros familiares enlutados
poderiam fazer. Depressa fiquei com a impressão de que nunca haviam
esperado que alguém encarasse o assunto com seriedade. Tinham falado
das suas suspeitas ao cangalheiro, mas não tinham apresentado uma
queixa aos vigiles. Isso era preocupante. Podia implicar a existência
de outros casos em que famílias desanimadas que desconfiassem das
autoridades se mantivessem caladas.

Perscrutei todos os membros da família enquanto falavam, atenta a


qualquer sinal de comportamento distinto que indicasse que um deles
tivesse motivo para atacar o irmão. Não detetei qualquer atitude
suspeita.

O dia da morte de Lupo parecera igual a tantos outros. Tinha estado


acocorado no seu banco baixo, de cabeça voltada para o balde das
ostras que ia abrindo. Soltou um grito e disse que qualquer coisa o
tinha picado. Os irmãos disseram-me que assim fora porque, tratando-
se de uma família unida e afetuosa, todos tinham ido espreitar e
viram uma grande gota de sangue brilhante na parte de trás do pescoço
de Lupo, que envergava uma túnica com uma abertura larga e lassa.

138
Mostraram-me a peça. Era o irmão mais novo, Tito, que a tinha
vestida. Até se notava uma marca cor de ferrugem no forro que todos
diziam ser uma mancha de sangue. Parecia ser mais do que o que
provocaria, por exemplo, uma picada de inseto.

As minhas irmãs mais novas não ficariam com uma túnica de alguém que
morresse, quanto mais usá-la por lavar durante as três semanas
seguintes; mas, quando a pele, o cabelo, as sandálias e tudo o que se
tem tresanda ao ganha-pão da família, atrevo-me a dizer que não se é
esquisito. Eu própria andaria com o cheiro a escamas de peixe nos
sapatos durante os dias seguintes, só por ter atravessado a rua até
ali.

- Então e o que aconteceu depois?

Lupo continuou a trabalhar durante mais algum tempo. Queixou-se de


que estava tonto. Disseram-lhe que descansasse à sombra. Quando a
família fechou a peixaria nessa noite e o chamou, encontrou-o morto.

Era essa a história toda, na verdade. Tinham feito sempre as


refeições em conjunto, e mais ninguém ficara doente. Asseguraram-me
que, se Lupo tivesse engolido uma ostra estragada, ter-se-iam seguido
sintomas diferentes, sintomas que ele definitivamente não
demonstrara. Não tinham quaisquer laços que os ligassem a Salvídia ou
a Celendina. No dia em questão, tinham passado várias pessoas pela
banca com proximidade suficiente para tocar em Lupo enquanto ele se
mantinha de cócoras na rua. Mas ninguém tinha sido visto a parar ou a
falar com ele; o pai servira um cliente, a uns bons dois metros de
distância. Nenhuma razão fizera com que os outros reparassem ou se
lembrassem de algum transeunte em particular.

Ao reviverem o acontecimento, pai e filhos ficaram desalentados. Era


a primeira vez que se permitiam considerar as verdadeiras implicações
do que previamente fora um vago mal-estar acerca do que ocorrera; a
primeira vez que alguém punha em palavras concretas que Lupo fora
assassinado - ali mesmo à frente deles.

139
Tudo o que fosse preciso, disseram-me. Estavam dispostos a tudo,
desejosos de obter justiça para Lupo. Deixei-os verem-me a tomar
notas com um ar muito grave, querendo assegurar-lhes de que agora
alguém estava a levar a sério a morte do rapaz e que, se possível,
quem quer que o tivesse matado seria encontrado e detido.

Depois de me ir embora, olhei para trás. Tito, o irmão com a túnica


herdada, virara-se de costas e estava obviamente a chorar ao fundo do
cubículo; um dos outros tentava consolá-lo. O pai estava simplesmente
imóvel, perdido, impotente na sua miséria. Outro irmão ocupava-se a
pontapear pedrinhas para a sarjeta, com gestos zangados.

Tinham falado pouco acerca da dor que sentiam, mas as suas poses e
atitudes privadas diziam-me tudo. Tinham-se passado três semanas
desde aquela perda. Continuavam assoberbados pela tristeza. Quem quer
que tivesse matado o rapaz partira-lhes os corações. Lupo, o abridor
de ostras, não seria esquecido com facilidade; parecia-me que nunca o
seria.

A peixaria ficava perto do rio e dos armazéns de sal, a caminho da


Porta Trigemina. Quando me fui embora, teria sido uma caminhada fácil
ao longo da zona ribeirinha até à casa da minha família, mas eu
estava demasiado deprimida para socializar. Acabara de presenciar
mais uma boa família avassalada pela mágoa. Parecia-me errado
aproveitar o tempo para estar com a minha.

Subi o monte, galgando lentamente as íngremes Escadas de Cássio, a


minha rota habitual até casa. Voltei ao apartamento mas, sentindo-me
inquieta, tornei a sair. Sabia onde ia. Avisei Ródão, sem saber se me
teria ouvido. Os meus passos levaram-me até ao Xarroco. A manhã ia a
meio, pelo que não havia clientes, nem haveria durante pelo menos
mais uma hora, quando a multidão do almoço começasse a entrar.
«Multidão» era exagerar um pouco o cenário previsível. Eles tinham
uns quatro clientes habituais ao almoço, dos quais dois só lá iam de
vez em quando e um só podia ir caso o filho não estivesse a usar a
perna de pau nesse dia.

140
O leitor poderá presumir que estou a brincar, se isso o reconfortar.

Disse a Junilo que fizesse uma pausa. Eu ficaria ali a tomar conta do
espaço. Eles tinham um empregado velho chamado Apolónio, que acabaria
por chegar mas, entretanto, eu sabia o que fazer. Precisava de um
lugar sossegado para pensar.

O meu primo deu-me um pouco de vinho numa grande taça e um jarro com
água. Indicou-me que, se tivesse fome, poderia servir-me. Por meio de
gestos, disse-lhe que preferia não viver perigosamente. Dei-lhe um
beijo na face e deixei-o ir dar uma volta.

Antes de me sentar despejei uma boa quantidade de água na minha taça


de vinho e agarrei no pote de ervas aromáticas para lhe acrescentar
algum sabor. No Xarroco, qualquer sabor era melhor do que o vinho
propriamente dito. Empoleirada a uma mesa, dei um golinho e depois
sentei-me com a cabeça entre as mãos, a estudar as minhas notas.
Qualquer pista que eu esperasse ver sobressair não o fez.

O que aconteceu enfureceu-me. Entrou uma pessoa, que se sentou à


minha frente. Era o mensageiro do edil, Tibério.

Tratava-se de um homem robusto, de movimentos discretos e confiança


subtil. Pelo canto do olho, eu tinha-lhe reconhecido a forma e vira-o
a aproximar-se. Não me dei ao trabalho de levantar a cabeça.

- Estamos fechados.

- Não vim para tomar bebidas. Vim ver-te. Puxou o seu banco para mais
perto da mesa.

Levantei a cabeça e lancei-lhe um olhar de desprezo. Todos os aspetos


daquela reunião me incomodavam. Ele tinha-me interrompido a
tranquilidade; estava a perseguir-me diariamente; interferira no meu
encontro amoroso com Andrónico; o seu amo tinha-me levado à sua
presença pela mão dos vigiles e feito tentativas patéticas de me
ludibriar.

- Não quero ver-te, Tibério... é assim que te chamas?

- Cala-te e ouve.

141
- Desaparece.

O homem tinha visto a minha tabuinha de notas. Sem aviso, esticou a


mão e tirou-ma. Fiquei furiosa, mas não fiz qualquer movimento para a
recuperar, confiante de que aquilo que eu escrevera não teria
qualquer sentido para ele. Sempre usei estenografia. Num caso
sensível, escrevia as notas em código.

Para um homem das ruas, parecia estranhamente estudioso enquanto ia


lendo.

- Impressionante! - Calculei que estivesse a querer mostrar-se


condescendente. O facto de ser capaz de ler o que eu escrevera (e de
facto tinha lido, demorando-se e sem saltar linha alguma) só
contribuiu para a minha irritação. - Não te disseram que abandonasses
tudo isto?

Recuperei a tabuinha.

- Ouve! - Eu estava mesmo zangada. - Não me digas que não há um


assassino silencioso. Não me digas que ninguém morreu em
circunstâncias peculiares. Porque eu sei que há, e vou continuar a
investigar isto até conseguir provar o que tem andado a passar-se.
Acabo de interrogar membros de uma família atingida que precisa de
ajuda... ajuda essa que as autoridades, incluindo o teu amo
mesquinho, o edil, se recusaram a dar às vítimas porque estão
demasiado ocupadas a forjar um encobrimento ridículo com pastéis
rançosos.

Houve uma alteração no seu rosto que, num homem melhor, teria sido
interpretada como divertimento perante a hospitalidade dos vigiles.
Mas não fez comentários.

- Vai-te lixar - disse-lhe. - Não vou falar contigo. Sai desta


caupona enquanto ainda tens pernas para andar.

Tibério recostou-se, de mãos atrás da nuca, a observar-me. Depois,


num tom comedido que não me impressionou, replicou:

- Convenhamos que parece haver um assassino silencioso. Talvez mais


do que um. Se assim for, tu, Flávia Albia, tinhas uma ligação pelo
menos a duas das vítimas.

142
Estou a ponderar a possibilidade de seres suspeita.

Não sei o que me deu. Quando o idiota disse aquilo, pus-me de pé num
pulo. Acho que a minha intenção era sair desaustinada do
estabelecimento. Ele também se levantou. O seu movimento foi calmo
mas determinado. Obviamente, tencionava bloquear-me a passagem, mesmo
que isso implicasse uma intervenção física. Ele era sólido e eu
esguia. Se nos defrontássemos, seria um conflito desigual.

- Não vou ouvir isto!

- Vais fazer o que eu te disser.

Ao ir para ali, tinha levado o espeto de metal do meu jantar gorado


com Andrónico. Agarrei-o. Depois de Tibério se endireitar, por
instantes apoiou-se com uma mão na mesa, enquanto arrastava o banco
para se afastar. Eu estava muito, muito zangada. Ergui o espeto e
cravei-lho com toda a força. Perfurei-lhe a mão de um lado ao outro,
prendendo-o ao tampo de madeira.

143
20

Assim que o mensageiro tentou mexer-se, a dor atingiu-o e o sangue


começou a jorrar. Nesse momento, ele gritou. Parecia-me que, por mera
sorte, não lhe tinha acertado em tendões, mas a situação tornara-se
mesmo complicada. Para começar, ele continuava preso à mesa. Se o
deixasse assim, a minha tia teria algo a dizer. Mudei de tática.

- Fica quieto - ordenei-lhe, adotando um tom compassivo. - Não te


preocupes. Eu meti-te nesta encrenca e vou tirar-te dela.

Entretanto, Tibério tinha tido tempo para reagir; estava em brasa.

- Não te chegues mais. Flávia Albia, vai procurar um médico, vai


depressa e traz o que estiver mais próximo. Caso contrário, se te
aproximares o suficiente, mordo-te até à espinha para que caias e
morras comigo neste buraco.

Mas que intenso. Estaquei, como se admirasse a sua bravata, e depois


exclamei:

- Nenhum médico em quem se possa confiar virá ao Xarroco. E eu de


certeza que não te vou levar ao colo até uma clínica, preso à mesa...
Oh, não! Olha!

Quando apontei para um ponto na parede atrás dele, o instinto traiu-o


e ele virou a cabeça. Puxei o espeto, ao que ele voltou a berrar de
dor.

144
Agarrei numa esponja que Junilo usava para limpar vinho derramado e
pressionei-a com força sobre um dos lados da ferida.

Enquanto Tibério se afastava de mim, embora mantendo a esponja


pressionada contra as costas da mão, encontrei algo que me parecia um
trapo limpo para lhe estancar o sangue da palma. Imobilizei-lhe o
pulso. Ele tornou a protestar, mas fiz pressão sobre os dois furos
que o espeto lhe deixara, com a mão entre as minhas. Não tinha a
menor semelhança com o toque de dois amantes, acreditem.

Ele estava muito pálido. Com um cotovelo, empurrei-o para que


voltasse a sentar-se no banco. Já era ele quem pressionava as
feridas.

- Senta-te. Não me desmaies. Não me digas que não podes ver sangue.

- Não havia necessidade de seres cruel. Eu tinha de te perguntar.

- Então arriscaste-te a uma má reação.

- Estou a ficar com a impressão de que não gostas de mim, Albia.

Ignorei o comentário.

- Precisas de limpar esta ferida.

- O que é que o espeto teve?

- Rojões de porco. Um molho delicioso de mel com rosmaninho. Não te


preocupes; eu lavei-o. Seja como for, estavam muito bem passados; a
especialidade desta caupona é comida estorricada...

O mensageiro voltou a levantar-se. Atirou a esponja e o pano para o


lado; haveria de se arrepender, pois o sangue continuava a fluir. Ia-
se embora. Deixei-o ir.

Sentei-me no meu banco, também eu já a sentir-me um pouco incomodada,


para ser sincera. Tinham decorrido anos desde a última vez que
infligira um ferimento daqueles a alguém. Anos desde que precisara de
o fazer. De repente, estava outra vez nesse período negro, uma órfã
de rua, a lutar por sobreviver.

145
Nessa altura, era simplesmente assim que eu vivia. Quando o
recordava, sentia-me fraca perante tanta miséria.

Eu queria ser uma pessoa respeitável. Queria pertencer a uma boa


família romana e levar uma vida decente.

Ainda estava perdida em reminiscências sombrias quando o mensageiro


entrou novamente na taberna, a cambalear. Apoiando-se a um dos
balcões, fitou-me com um olhar estranho, como se conseguisse
aperceber-se dos meus pensamentos obscuros. Se assim fosse, não fez o
menor esforço por descobrir em que consistiriam.

- Então, responde-me à maldita pergunta, Albia. Não quero voltar a


ser espetado. És ou não uma assassina?

- E se seguisses a lógica? Se fosse, porque haveria de o admitir? -


Devolvendo-lhe o olhar, resmoneei: - Não sou.

- Continua a dizer isso - replicou ele com frieza. - Acredita em mim,


vais querer que eu ache que és inocente.

Virou-se e tornou a desaparecer. Ainda fui até à rua, para ver se


havia um rasto de sangue que eu pudesse seguir e verificar se ele
estava bem, mas devia ter parado de sangrar.

Pensei: «Mal posso esperar por contar a Andrónico!» Mas depois algo
me refreou a vontade e logo soube que não o faria. Teria de dar
demoradas explicações acerca do meu passado. Andrónico não estava
preparado para saber que género de mulher eu era capaz de ser. Quanto
a mim, não estava preparada para lhe contar. Talvez nunca viesse a
estar. Estava demasiado habituada a disfarçar as minhas longínquas
origens.

Sentia-me abalada pelo que fizera a Tibério. Não me via a braços com
tanta agressividade desde os velhos tempos anteriores a vir para Roma
para ser civilizada. Tamanha violência pertencia à história que eu
queria esquecer. Detestava aquele homem por me ter obrigado a
regressar àquela situação.

146
21

Estava demasiado perturbada para trabalhar mais naquele dia. Levei as


notas para casa, subi até ao escritório, deixei a tabuinha de lado e
deitei-me no canapé dos visitantes com uma manta a tapar-me as
pernas. Os arranhões que fizera ao escapar pela janela dos banhos de
Prisca tinham-se transformado em vergões bem marcados; amaciara-os um
pouco com um bálsamo de azeite que tinha muita utilidade na minha
vida, mas continuava tensa e dorida. Repousei, a sentir pena de mim
mesma. Por pouco não adormeci.

O mensageiro foi outra vez à minha procura.

Tinha alguma esperança de ouvir Andrónico a subir os seis lanços de


escadas, mas não fiquei surpreendida por ser apenas Tibério. Tinha a
porta ligeiramente aberta, com as portadas da varanda também
entreabertas, pelo que corria uma brisa pela divisão. Estava um dia
ameno e era um esforço que eu fazia à laia de limpeza de primavera.

Agora Tibério trazia uma enorme ligadura volumosa e branca a


envolver-lhe a mão e o pulso esquerdos, pela qual algum médico
deveria ter cobrado mundos e fundos; até lhe teria dado uma tira para
ter o braço ao peito.

147
Apesar de o acesso estar desimpedido, desta vez bateu antes de
entrar, dando uns toques circunspectos na ombreira da porta. Deitada
no sofá, limitei-me a olhar para ele.

Vi-o a caminhar até ao limiar da varanda, por onde espreitou; tentei


convencê-lo mentalmente a dar um passo em frente e provocar a queda
da estrutura toda, indo também parar lá abaixo, mas por azar ele
apercebeu-se do perigo. O meu pai e o meu tio Lúcio tinham prendido
cordas para impedir que alguém abrisse a porta por completo e eu fora
instruída a nunca mais ir lá fora. Tibério inspecionou as medidas de
segurança, puxando uma corda ao acaso para testar a tensão antes de
se voltar de novo para o gabinete. Com umas quantas passadas,
espreitou a outra divisão. Tratava-se de um daqueles homens que nunca
pedia autorização e se limitava a meter o nariz onde lhe apetecia
como se tivesse pleno direito de o fazer.

Quando abriu a cortina, o que viu sobressaltou-o. O que em tempos


fora um quarto era agora um espaço sem mobílias, cujas tábuas de
madeira gastas eram agraciadas apenas por uma instalação artística de
tigelas e baldes que continham toda a chuva que passasse pelas telhas
em falta, que eram bastantes. As paredes, secas exceto durante
chuvadas cataclísmicas, tinham sido equipadas a meu pedido com
grandes cubículos de madeira. O teto estava protegido por redes, para
impedir que os pombos os considerassem um bom sítio para se
instalarem. As prateleiras abrigavam a minha extensa biblioteca - os
meus livros de consulta e as notas de casos antigos. Um benefício de
registar as investigações em tabuletas enceradas era que estas eram
mais baratas do que o papiro e muito mais duradouras. Além disso, a
humidade não as afetava.

Tibério pestanejou. Repôs a cortina na posição original, agitando-a


para a endireitar.

Mantive-me quieta. Por esse motivo, ele ocupou o meu trono habitual.
Tirou a almofada onde eu encostava os rins e pousou-a no colo, para
repousar o braço magoado.

- Flávia Albia, não és uma jovem refinada!

148
Tibério abanou um dedo lentamente, um dedo que saía das ligaduras.
Era mais velho do que eu, embora não o suficiente para assumir uma
atitude tão paternalista. De qualquer modo, ralhar comigo não fazia o
género do meu pai, que nunca desperdiçava energia. Podia chamar-me
idiota e depois afastar-me para que me retratasse, se ambos
considerássemos que era necessária alguma retratação.

- Obrigada pelo «jovem». Faço vinte e nove anos para a semana. Isso
não passa de uma picada, deixa-te de lamechices. Segue o meu
conselho: livra-te das faixas elegantes e deixa as feridas respirarem
ao ar. A ligadura tem bom aspeto mas, se não fizeres o que te digo,
isso vai supurar aí por baixo.

O buraco que eu lhe tinha feito podia ser pequeno, mas a forma como
ele cuidava do braço sugeria que teria a mão a arder. Manteve o tom
pomposo:

- Talvez devesses ter presente, Flávia Albia, que Mânlio Fausto podia
mandar encerrar a taberna da tua tia.

- Ai sim? Sob que pretexto?

- Comportamento arruaceiro. Um ataque a um funcionário do edil...

Resfoleguei.

- Magnífico! Adoraria passar um dia no tribunal por causa disso. O


teu edil fez-me ser acossada por paramilitares e tu, seu servo
hediondo, tens-me seguido para todo o lado. Imagina o que um bom
advogado de defesa poderia argumentar: Membros do júri, esta pobre
mulher, uma viúva respeitável, de constituição frágil e antecedentes
honestos, ainda de luto pelo esposo, tem sido submetida a indecências
abismais... Cruzei os braços, olhei para o colo e representei o papel
de uma matrona recatada, silenciosa em tribunal enquanto os homens
inteligentes falavam acerca dela. O homem, Tibério, uma criatura rude
das ruas, chegou até a surpreendê-la quando ela estava desnuda na
sala privada de massagens de uns banhos públicos exclusivamente para
mulheres! Como reagiriam, caso se tratasse da vossa nobre sobrinha ou
filha?... Oh, Tibério, leva-me já a um juiz!

149
Ele corou quando referi que me tinha visto nua. Fiquei satisfeita por
conseguir deixá-lo desconfortável, mas não insisti na questão, já que
a memória também me deixava um pouco desconcertada. Ao fim de algum
tempo, a sua pergunta foi inesperada:

- Ainda sofres pelo teu marido? Pensava que ele tinha morrido há
algum tempo.

Fui apanhada de surpresa.

- Oito anos. Nove, pensando bem. Sim, sinto a falta dele. Tínhamos um
bom casamento.

- Isso é raro.

O mensageiro parecia intrigado, embora falasse num tom pesaroso.

- Cássio Scauro deve ter sido ridiculamente pormenorizado quando


falou de mim ao teu amo. Presumo que estivesses presente quando
Fausto o interrogou?

Ele pareceu ficar pouco à vontade.

- Estava lá, sim.

- Fazes ideia de quão desagradável é para uma mulher ter homens


reunidos a espiolharem-lhe a vida?

- Sim, compreendo - acedeu Tibério.

- Tenho o direito à dignidade.

- Manténs muito bem a dignidade, tendo em conta as circunstâncias. -


Fiquei surpreendida. Não parecia que estivesse a escarnecer. - Peço
desculpa. - Não sabia se o fazia em nome próprio ou se incluía os
edis, o tribuno, Morelo e todos os outros vigiles que tinham tentado
intimidar-me. O mensageiro estava dócil. - Estabelecemos umas
tréguas?

- Acho bem. - Eu não era vingativa. - Seja como for, quero saber
porque não paras de me perseguir.

Fizemos uma pausa breve para nos recompormos. Levantei-me e servi-nos


bebidas. Apenas o básico: duas taças resistentes, de vidro sírio
verde, e um jarro de água. Tibério sopesou o copo com a mão direita
intacta, ainda a olhar em volta e a observar o conteúdo do gabinete,
como se o meu espaço lhe parecesse inusitado.

150
Reparou na prateleira das esculturas e eu vi-o a arquear as
sobrancelhas. Talvez tivesse ouvido dizer que os informadores
habitavam locais sórdidos, cheios de ânforas de vinho vazias, com
baratas a circular e o cheiro a sandálias velhas a pairar no ar.

Por fim, recostou-se, indicando que estava na hora de conversarmos.

Deixei bem claro que, se alguém ia ceder, teria de ser ele. Ele foi
franco; fiquei surpreendida por o ser tanto. Também sabia expor os
factos de uma forma lógica. Não o caracterizaria como rude; limitava-
se a falar em termos simples. Devo ainda mencionar que nunca me senti
alarmada na sua presença e que, tendo em conta o trabalho que ele
desempenhava, o considerei honesto.

Segundo me contou, operava como olhos e ouvidos do edil nas ruas


desde que Fausto assumira o cargo. Eu sabia que este tinha sido
eleito em julho do ano anterior, iniciando funções oficiais há quatro
meses, em janeiro. Havia quatro edis - dois dos quais eram da plebe -
que dividiam a cidade entre si, ficando cada um responsável por um
quarto. Portanto, Fausto deveria ter influência para lá dos picos do
Aventino. Os seus vários deveres incluíam a reparação de templos, de
esgotos e de aquedutos; a limpeza e pavimentação das ruas; a
regulação do trânsito e de animais perigosos; a preservação de
edifícios delapidados; a prevenção de incêndio em todos os géneros de
propriedades; a superintendência de banhos públicos e tabernas (daí a
sua capacidade genuína de arruinar a vida da minha tia Júnia,
proprietária do Xarroco); a promulgação de leis antijogo e usura;
para além disso, como se a lista não fosse desculpa suficiente para
interferir na vida quotidiana das pessoas, competia-lhe ainda zelar
pela moralidade pública, o que incluía a prevenção de superstições
estrangeiras. Os deveres mercantis dos edis envolviam supervisionar o
aprovisionamento de bens; eles eram oficiais de padrões de comércio;
verificavam pesos e medidas.

151
A somar a tudo isto, eram responsáveis por alguns aspetos dos jogos
públicos, contando-se aqui o ritual das raposas durante os Jogos de
Ceres.

- Ter um espião a trabalhar para ele deve aumentar as coimas que


Fausto recolhe - comentei -, o que será um bom combustível para a sua
ambição pessoal.

- Ele não é indevidamente ambicioso - contrapôs Tibério.

- Então como o vês?

- Como um homem decente, que tenta cumprir o seu dever público.

Soltei uma risada de escárnio, sem me conter.

- Enganas-te - argumentou o mensageiro, num tom paciente. - É verdade


que cresceu com dinheiro e sem ter de fazer o que quer que fosse.
Perdeu os pais, um a seguir ao outro, aos dezasseis anos. Foi viver
com Túlio, irmão da mãe, e, embora sempre tenha havido a ilusão de
que este lhe ensina o negócio, na verdade quem manda é o tio. Aliás,
concorrer à edilidade foi ideia do tio, como é óbvio, com o objetivo
de aumentar o prestígio conjunto da família... mas isso não impede
Fausto de o ver como uma oportunidade de, finalmente, concretizar
algo útil.

- Bem, Tibério, és um bom advogado. Mas ele a mim parece-me um


político típico, com um acrescento de piedade.

Tibério encolheu os ombros.

Passámos então a discutir as mortes peculiares. Tibério queria que eu


soubesse que Fausto sempre as tinha encarado seriamente. Ele,
Tibério, fora transferido das suas incumbências anteriores de
investigar vendedores ambulantes desonestos para se dedicar a tempo
inteiro a tentar descobrir o assassino. Até afirmou que era isso que
estava a fazer quando se deparou com o acidente que matou Lúcio
Basso, atropelado pela carroça descontrolada.

- É claro que, se o perpetrador se concentrasse numa única área,


seria fácil inundar a rua de homens. Mas ele, partindo do princípio
de que seja apenas uma pessoa, mexe-se. Estes ataques parecem ter um
caráter aleatório. Isso impossibilita-nos a tarefa.

152
- Alguns dos incidentes aconteceram aqui no alto dos morros, mas o
abridor de ostras estava lá em baixo, junto ao rio... - Esbocei um
pequeno sorriso. - Presumo que estejas a par do rapaz das ostras? Já
conspiraste com Morelo hoje?

Tibério também sorriu.

- Ele contou-me que lhe surripiaste a lista, Albia.

- Pedi-lha emprestada.

- Chama-lhe o que quiseres. Agora Morelo anda a esfalfar-se na tua


esteira, a fazer segundos interrogatórios a quem não deverias ter
interrogado ontem. - Inclinando a cabeça para um lado, o mensageiro
perguntou-me noutro tom: — Já investigaste a criada assassinada?

- Ainda não. Não tentes impedir-me!

- Tem calma. Não era essa a intenção. Mânlio Fausto mudou de ideias a
teu respeito.

- A sério? - respinguei. - Que improvável, tão pouco tempo depois de


ter tentado livrar-se de mim.

- Sim, a sério, rapariga. - Inclinou-se um pouco para a frente. -


Olha, tenta dar-lhe algum crédito. Ele é um bom homem.

Não fez qualquer tentativa de dizer o que teria levado Fausto a mudar
de ideias. Ainda assim, os magistrados não precisam de se explicar.
Não seria a primeira vez que um deles se revelava confuso e
contraditório.

- Não é essa a impressão que o meu amigo Andrónico me dá. Agora a


nossa relação estava exposta. Porque não? Éramos pessoas livres.

Tibério fez uma expressão perturbada. Parecia estar a tentar decidir


quanto havia de dizer.

- Tem muito cuidado, Albia.

- O que queres dizer com isso?

- Quero dizer que tenho a noção de que não vale a pena tentar
influenciar-te no que lhe diz respeito. Não vais dar-me ouvidos. Mas,
por favor, não te fies em tudo o que Andrónico disser.

- Não gostas dele.

153
- É recíproco - declarou Tibério, ainda mais seco do que era
habitual.

- Queres explicar? -Não.

Para evitar o meu olhar, o mensageiro serviu-se de mais água,


equilibrando cuidadosamente o jarro e a taça só com uma mão. A
conversa tinha chegado a um impasse. Retrocedi, voltando atrás e
interrogando-o acerca da tal mudança de opinião que ele atribuía a
Fausto.

Estava relacionada com a outra morte suspeita de que eu ouvira falar


ao interrogar agentes funerários, a da criada de uma senhora
abastada. Tibério já sabia algo a esse respeito. Senhora e criada
tinham saído, abrindo caminho pela rua. A criada levara um encontrão
tão forte que quase caíra; pouco depois de chegarem a casa, ela tinha
morrido.

Morelo recebera ordens para não se imiscuir na questão, dado o


estatuto elevado da senhora. Mânlio Fausto decidira que enviar uma
mulher recolher um depoimento formal seria mais discreto e
tranquilizador. Eu teria esse privilégio, munida de uma carta de
apresentação e até de honorários.

Era uma mudança de opinião e tanto. Depois de incumbir o mensageiro


de me localizar e impedir de investigar Salvídia ou Celendina, de
ordenar aos vigiles que também me ameaçassem, o edil determinava algo
completamente diferente. Já não queria que eu fosse assediada. Agora
queria contratar os meus serviços.

154
22

Eu não via motivo para disfarçar a ironia: - Então para ficarmos


claros, Tibério: num instante o teu edil está determinado a arruinar
a relação que tenho com os meus clientes e impedir-me de trabalhar,
mas de repente quer contratar-me?

- Não é bem «contratar». Isso implica demasiada permanência. -


Tibério mostrou-me os dentes, num esgar de irritação. - Uma
entrevista. É do teu interesse colaborares.

- Mais ameaças! Mas porque é que não interroga ele mesmo a mulher?
Ele é do mesmo estatuto que ela. Podia ter o marido dela, que sem
dúvida será um compincha dele, sentado na...

- Ele acha que a abordagem de uma mulher poderá ser benéfica; agora
que está satisfeito por seres uma profissional... - Ele percebia que
eu estava a ficar em brasa. Ergueu a mão que não tinha ligaduras num
gesto quase, embora não por completo, conciliador. - Não faças finca-
pé, Albia. - Mantive-me hostil. - Isto tem alguma complexidade.

- Ai sim? Qual é o intuito dele?

- O que está em questão não é Fausto...

- Porque não? O homem está a tentar encenar esta investigação de uma


maneira mesmo muito bizarra. Justifica os motivos dele.

155
- Já falámos do que Fausto está a tentar conseguir com o seu papel de
magistrado. Conduz o interrogatório, Albia, e vê o que te parece.
Depois, se for necessário, eu explico o resto.

Já que, de qualquer maneira, eu queria interrogar a mulher, cedi.


Mais valia ser paga por isso. Podia ter pedido um valor mais alto do
que o que costumava cobrar, mas mantive a integridade.

Márcia Balbila era mais um membro da sociedade plebeia abastada. Ela


e o marido viviam numa grande mansão de dois andares da Rua dos
Plátanos. Desfrutava de vista para o rio e da proximidade de uma mata
de plátanos. No dia anterior, eu fora mandada embora. Apesar de a
tarde já ir avançada, achei que valeria a pena voltar a tentar.

A carta de apresentação funcionou, pelo que, desta feita, fui


autorizada a entrar. Depois, fizeram-me esperar. Já contava com isso.

A matrona que tinha perdido a criada estava no início da casa dos


trinta e usava roupas e joias lindíssimas. Sob tal aparato, era
vulgar. Talvez o soubesse. Outras duas criadas, sem dúvida parte de
uma comitiva muito maior, acompanharam-na quando me recebeu. Estavam
vestidas de forma muito mais simples e sem quaisquer adornos. Não
havia indícios de que Balbila lhes batesse, mas eram demasiado
submissas para que eu percebesse se tinham alguma personalidade.
Interessavam-me, pois a jovem falecida tinha sido colega delas.

Eu tinha partido do pressuposto de que a criada era jovem, embora as


outras duas já não fossem raparigas. Como escravas, provavelmente
esperavam ser alforriadas aos trinta.

Márcia Balbila julgava que ia dirigir o interrogatório, mas eu tinha


mais experiência, pelo que consegui orientar o diálogo a meu favor.
Enquanto conversávamos, ela recostou-se elegantemente num canapé
cheio de almofadas, enquanto eu me via forçada a ficar num divã sem
encosto. Não obstante, não tenho problemas de postura e tomar notas é
mais fácil estando instalada num assento duro.

156
Márcia tinha saído com uma amiga, que não fora referida na história
que eu conhecia. Cada uma das mulheres fora acompanhada por uma
criada, embora não levassem guarda-costas. O grupo passeava pela
Vicus Altus, com as criadas atrás, a uma distância suficiente para
não ouvirem a conversa das senhoras. Todas seguiam bem envolvidas em
estolas para manterem uma aura de respeitabilidade, o que eu viria a
considerar significativo.

Ino soltara um grito. Márcia Balbila e a amiga tinham-se voltado,


provavelmente com a intenção de admoestar a rapariga, e viram-na a
cambalear. Teria caído no chão, caso a outra criada não a tivesse
agarrado e ajudado a permanecer de pé. Ambas julgavam que alguém
havia batido em Ino por trás, com força, e estavam convencidas de que
fora propositado. Apesar de haver mais gente na rua, não estava
particularmente apinhada. Todas as mulheres concluíram que deveria
ter sido uma partida maldosa de alguém da

classe baixa.

Sentindo-se vulneráveis, apressaram-se a ir para casa. Ino estava


triste e a chorar, mas não havia motivo para esperar que depois fosse
encontrada morta no seu cubículo.

Márcia Balbila mandara fazer uma placa de pedra como recordação de


Ino. Insistiu para que alguém a tirasse da parede (era bastante
pequena) para poder mostrar-ma. Eu comentei que a criada era muito
bonita. Ao que parecia, nem tão bonita nem tão jovem como o retrato
na placa, mas Márcia Balbila considerara que seria mais agradável
recordá-la com um ar nobre e artístico.

- Diga-me, sabe se a Ino tinha algum admirador?

- Certamente que não! Eu nunca permitiria uma coisa dessas! Consegui


persuadir a senhora a deixar-me trocar umas breves

palavras com as outras criadas, que admitiram sem ser necessária


grande pressão que Ino tinha, de facto, um namorado. Era um escravo
da mesma casa, que cuidava da indumentária do marido, mas tinha um
álibi sólido; toda a gente podia confirmar que se encontrava era casa
quando o incidente na rua tivera lugar e nada fazia para além de
chorar desde que Ino morrera.

157
A amiga de Márcia Balbila fora muito referida. Ambas eram membros
seniores do culto do Templo de Ceres, segundo a própria Márcia me
contou; uma mulher muito mais velha era a sacerdotisa principal,
embora eu percebesse que elas estavam de olho na posição. A amiga era
uma mulher maravilhosa, que pertencia a uma importante família da
elite plebeia, muito abastada; uma figura de proa no culto das
senhoras, era religiosamente devota e um modelo de autossacrifício
para a comunidade. Chamava-se Laia Graciana. Já a tinha conhecido, da
primeira vez que fora ao Templo de Ceres. Tinha ficado com a ideia de
que era mesmo indigesta.

Não obstante, teria de a visitar. Márcia Balbila informou-me que, na


altura, a sua querida e religiosa amiga julgara ter vislumbrado a
pessoa que dera o encontrão a Ino.

- Comunicaram isso aos vigiles?

- Oh, não. As pessoas como nós nunca têm contacto com eles. Laia
Graciana disse que faria chegar uma nota à edilidade.

Fantástico.

Então Mânlio Fausto já sabia tudo acerca daquilo.

Encontrei-me com Tibério à hora marcada no dia seguinte. Tinha


prometido apresentar-lhe o ponto da situação no Xarroco. Quando
cheguei, o mensageiro estava a pedir uma bebida a Junilo. Preparei-me
para servir de intérprete, mas parecia que ele estava a
desenvencilhar-se; não que eu passasse a aprová-lo só porque
conseguia comunicar calmamente com o meu primo surdo.

Junilo deve ter-se apercebido de que eu estava agitada, pois deu-me


um abraço e depois levou-me uma taça de pistácios. Mantive-os do meu
lado da mesa, para que Tibério não lhes chegasse.

- Estou mesmo zangada contigo, Tibério. Tinha-te custado muito


mencionar que havia outra senhora altiva e poderosa e outra criada
oprimida, e que eu teria de acabar por conduzir outro interrogatório.
.. a Laia Graciana?

158
Ele fez um ar de surpresa.

- Conhece-la?

- Já fomos apresentadas. Não vou gostar disto.

- Porquê? Apesar de estar a tragar pistácios furiosamente, fiz um


esgar como se soubessem a aloé. Porém, até perceber em que
circunstâncias me encontrava, contive os insultos.

- Não faz o meu género.

Reparei que a surpresa do mensageiro dava lugar a uma centelha de


humor. Contudo, ele ficou em silêncio.

- Explica-te! - exigi. Dado que a sua expressão se tornou


absolutamente enigmática, continuei a arengar: - Isto é ridículo.
Laia Graciana tem ligações suficientes à edilidade para comunicar
diretamente aquilo a que assistiu. Então, porque não o fez? O que a
impediu e por que razão Fausto não vai diretamente fazer-lhe as
perguntas necessárias? Porque me há de envolver?

- Não é nada de sinistro.

- Então?

- Prefere não ser ele mesmo a interrogar Laia Graciana. - Ao ver a


minha reação, Tibério abriu o jogo: - Há anos que não se falam. Laia
Graciana é a ex-mulher dele.

Admito que me ri.

159
23

Depois de uma pausa, Tibério perguntou-me nervosamente: - Então,


sempre vais vê-la?

- Não perderia a oportunidade por nada deste mundo! - Eu nunca teria


feito perguntas íntimas acerca do próprio edil, mas o pessoal pode
ser útil. Muitas confidências partilhadas por um escravo ou liberto
já se revelaram a chave de um caso, pelo que insisti: - Põe-me a par
de tudo.

Ele arqueou uma sobrancelha.

- Preciso de saber em que estou a meter-me, Tibério. Por que motivo


ao certo Fausto não recolhe este depoimento por si mesmo? - O
mensageiro mantinha-se inexpressivo. - Algo estranho deve ter
acontecido. É muito comum as pessoas divorciarem-se, mas sem cortarem
relações durante anos. Os plutocratas plebeus formam um círculo
pequeno. Sempre que alguém organiza um recital de poesia, garantir
que Fausto e Graciana não se veem deve ser muito inconveniente para a
anfitriã. Fala-me do casamento e do divórcio.

Ele estava a fazer um esgar tão carregado que eu receei que se


fechasse em copas.

- Isto é confidencial, Albia.

- Queres que eu pergunte antes à madame? O que foi? Ela ia para a


cama com quadrigários? Ou seriam atores e os seus substitutos?

160
- Não lhe digas isso! Ele parecia horrorizado.

- Ela é demasiado pudica para ouvir uma sugestão destas?

- É uma mulher respeitável.

- Oh, estou a ver! Então a culpa foi dele? - Tibério guardou


silêncio. - Alguma coisa aconteceu. Até o meu amigo Andrónico, que
gosta de saber tudo, parece não estar a par da história. Mas eu acho
que ele pressente que houve uma história. Ele desconfia, por isso eu
também... Será que tu sabes? - Tibério assentiu ligeiramente com a
cabeça. Recostei-me. Gostaria de saber como fora que ele tivera
acesso àquela informação privilegiada. - Como? Qual é o teu passado,
Tibério? Cresceste na casa do tio dele?

-Não.

Pus-me a adivinhar:

- Chegaste lá com Fausto? Vindo da casa dos pais dele depois de terem
morrido? - Era uma diferença entre Tibério e Andrónico, que parecia
ter sido escravo de Túlio. - Quando Fausto casou, também saíste de
casa com ele?

- Para onde ele for, eu vou. - De súbito, Tibério inspirou, como se


pretendesse desviar-me daquela questão, para logo em seguida se
lançar no esclarecimento que eu solicitara. - Fausto casou-se aos
vinte e cinco anos, a idade em que um homem deve ocupar o seu lugar
na sociedade. Foi o tio que tratou disso, por motivos comerciais e
sociais...

Resfoleguei.

- Sei bem como isso funciona: Jovem, está na altura de teres um


herdeiro. Junta-te a esta mulher que nunca viste, mas nós devemos
dinheiro ao pai dela; é uma virgem bem protegida, só com doze anos...
— Uns seres à maneira, estas classes altas!

- Laia Graciana tinha pelo menos dezoito anos.

- Nesse caso, retiro o comentário. Mas o resto assenta que nem uma
luva! - Tibério não o negou. - Então Fausto e a imperiosa Laia foram
consagrados numa união ao gosto do tio dele, que puxou todos os
cordelinhos. E depois?

161
- O casamento durou alguns anos de uma forma cordial.

- Estou a tomar nota da tua escolha de palavras! Filhos? -Não.

- Dormiam no mesmo quarto? Ou cada um tinha o seu, como os


tremendamente ricos?

- Separados - respondeu Tibério, lançando-me um olhar repreensivo;


ignorei a reprimenda. - Mas tudo o que devia acontecer acontecia.

- Não com grande espontaneidade! Quando queriam ter relações sexuais,


um deles tinha de marcar um encontro. Aposto que sei de qual deles se
esperava que o fizesse. Exigir os seus direitos será prerrogativa
masculina... Então, qual deles procurou paixão noutro lugar? Quem
rompeu os votos matrimoniais?

Tendo feito a pergunta crucial, limitei-me a esperar enquanto Tibério


se debatia com a sua consciência. Por fim, quando falou, foi como se
eu lhe tivesse arrancado a verdade através da tortura dos vigiles.

- O que aconteceu foi inteiramente culpa de Mânlio Fausto. Foi


conciso, mas deu-me tudo o que eu precisava de saber.

Tratava-se de uma história pouco edificante. Fausto não só tivera o


tio a cuidar dele, como também atraíra o interesse de um homem
distinto, uns quinze anos mais velho do que ele, que conhecia o seu
falecido pai e lhe oferecera amizade e proteção. Segundo Tibério, o
homem mais velho não tinha filhos mas era influente, enquanto o jovem
era atraente, talentoso, uma mais-valia social. Tratava-se do género
de situação em que uma adoção formal poderia ter sido considerada.
Até se falava de Fausto ser patrocinado para ingressar no Senado.

O patrono tinha uma esposa muito mais jovem e bela.

- Voluptuosa?

- Um espírito livre.

- Era a isso que me referia... a derramar pela frente sob rendas


provocantes.

- Não era tímida - concedeu Tibério, com a sua postura severa.

162
Por vezes, quando o patrono se ausentava em negócios, Fausto era
recebido na casa apenas pela linda mulher. A superfície, a relação de
que desfrutava na casa do protetor era a de um parente favorecido, um
jovem primo ou sobrinho, por exemplo, que pode entrar ou sair sem ser
questionado - embora, como é óbvio, tal liberdade seja perigosa.
Embora a sua própria mulher fosse sempre bem-vinda, regra geral não o
acompanhava. Ao longo do casamento, ela passava muito tempo com os
seus amigos. Demasiado, talvez.

- Podes deduzir o resto - disse Tibério, num tom seco. - Certa noite
em que estavam sozinhos, o ambiente tornou-se intenso. A jovem
sentia-se insatisfeita com o marido envelhecido. Ele amava-a e
admirava-a...

- Mas raramente fazia exigências na cama?

- Quem sabe? Um homem mais jovem tinha óbvios pontos a seu favor, e
talvez o casal caído em tentação até se tenha convencido de que o
homem mais velho os deixava juntos de propósito.

- Quem deu o primeiro passo, sabes?

- Ela ofereceu. Fausto aceitou.

- Então aproveitaram uma conjunção louca, durante a qual estas duas


pessoas enfastiadas e mimadas se emocionaram com os riscos que
corriam... E o que aconteceu depois? - perguntei em voz baixa.

- Naturalmente, a ligação foi descoberta... e não demorou muito; mal


tinha passado uma semana desde o primeiro encontro. Uma escrava
denunciou Fausto a Laia Graciana. Ela deixou-o de imediato e voltou
para casa do pai. O tio Túlio teve de intervir e salvar a situação,
com alguns custos. Isto aconteceu no tempo de Vespasiano, quando os
casos extraconjugais eram vistos com mais indulgência do que
Domiciano os trata agora; se isto se passasse nos dias de hoje, a
mulher traidora e o amante seriam processados, perderiam tudo e
acabariam no exílio. Mesmo nessa altura, a situação foi horrível. Um
marido enganado é obrigado a divorciar-se da mulher, como sabes.

163
- E assim que os escravos começam a abrir o bico acerca de adultério,
as coisas ficam feias.

- Isso mesmo. Fausto tinha desperdiçado o seu próprio potencial,


magoara imenso as pessoas à sua volta e destruíra dois casamentos.
Pior, traíra um homem impecável, que lhe tinha oferecido uma grande
amizade.

- E fê-lo por amor? -Não.

O mensageiro era severo. Bebeu água com a expressão de quem tem dores
de barriga.

- Aposto que ela já o tinha feito - comentei. Tibério pareceu ficar


intrigado.

- E possível... Morreu. Morreu de parto.

- Fausto era o pai?

- Não. Nem pensar. Ele nunca mais a viu e isso aconteceu uns dois
anos depois.

- Outro amante robusto! Então, Tibério, e depois? Fausto regressou em


desgraça para casa do tio Túlio, onde teve de suportar um fogo
cerrado de culpa, não duvido... sobretudo porque o escândalo tinha
saído caro. Manteve a cabeça baixa, fez o que lhe mandavam. Sabia que
qualquer potencial ou ambição que alguma tivesse detido fora por água
abaixo devido à sua própria estupidez. .. Para agora ser edil, tem de
ter trinta e seis anos, segundo as regras. Alguma vez voltou a casar?

Tibério abanou a cabeça.

- O homem vive com culpa.

Pensei que dez anos de culpa não eram úteis a ninguém. Também me dei
conta de que mesmo que aqueles acontecimentos tivessem chegado à
coluna dos escândalos da Gazeta Diária, o vergonhoso quadro de avisos
do Fórum quanto aos feitos das celebridades, eu não teria reparado na
altura. Mas parecia que tudo tinha sido encoberto de forma
satisfatória.

Eu e Tibério estávamos desalentados.

164
Tínhamos simplesmente discutido aquela historieta sórdida da idiotice
de um jovem, ocorrida uma década antes, mas o efeito que teve em nós
foi suficientemente soturno para que Junilo se aproximasse, receoso
de que uma tragédia maior nos tivesse afligido. Tranquilizei-o e
depois levantei-me para ir recolher o depoimento de Laia Graciana.
Deixei Tibério no Xarroco; da última vez que olhei para trás, Junilo
tinha-lhe levado o tabuleiro das damas.

Ele não ia jogar. Eu sabia que Junilo o teria acompanhado ou que ele
poderia jogar contra si mesmo. Talvez o tabuleiro das damas fosse o
seu disfarce habitual quando estava de vigia.

O mensageiro tinha-me dado a morada. Laia Graciana casara de novo


após a separação furiosa de Fausto, mas esse marido falecera,
seguindo-se o seu pai. Desde então, ela mudara-se do que sem dúvida
teria sido uma imensa casa familiar para um apartamento menor, mas
mesmo assim espaçoso, que pertencia a um irmão. Também se situava na
Rua dos Plátanos, onde vivia a sua amiga Márcia. Mais vistas
esplêndidas. Mais mesas pesadas de mármore com pernas douradas e
trabalhadas. As estatuetas eram melhores em casa de Márcia Balbila,
os frescos não. O mesmo decorador da moda teria vendido às duas
mulheres instáveis lamparinas de bronze e era por isso que havia duas
casas onde o óleo se espalhava no chão de mosaico sempre que os
escravos tentavam encher os reservatórios.

O facto de sabermos algo acerca da história de uma pessoa que possa


provocar-nos pena não conduz inevitavelmente a uma mudança de
atitude: eu continuava a achar que Laia Graciana era uma cabra
arrogante. Quanto a ela, estava demasiado interessada em perceber
quem seria eu e porque estaria a trabalhar para os edis para se
lembrar de que já me tinha conhecido. Não o disse; foi algo que eu me
limitei a ver no seu olhar, perguntando-me se teria noção de quão
rude fora comigo da primeira vez.

Não lhe fiz quaisquer perguntas acerca do casamento ou do ex-marido.


Não sou estúpida.

165
Ainda assim, desta feita observei-a com mais atenção. Parecia ser da
minha idade (ainda que os seus modos lhe acrescentassem anos); era da
minha altura (menos tonificada); loura (natural); de olhos castanhos
(pintados, mas com grande subtileza). Custa-me admiti-lo, mas era
bem-parecida. Sabendo que o seu ex-marido fora seduzido por uma
rebenta-colchetes (o termo que o meu marido usava para as
mamalhudas), seria significativo que Laia Graciana tivesse um peito
quase liso? Importante era também o facto de Tibério me ter contado
que a mulher com quem Fausto tivera o caso fosse «um espírito livre».
Isso costuma querer dizer vivaz, graciosa e mais dada a admirar cada
palavra saída da boca de um homem do que a censurá-lo. Graciana era
uma censuradora. Não conseguiria conter esse hábito, tal como não
seria capaz de deixar de se julgar especial devido ao seu papel no
culto de Ceres.

Quando fui levada à sua presença, uma velha escrava abandonou


discretamente a divisão. Laia Graciana não achava que precisasse de
companhia ou apoio. Era uma personalidade poderosa. Todos à sua volta
o sabiam.

Seria assim quando se casara, aos dezoito anos? Ou teria o choque da


traição do marido servido para a endurecer?

Peguei na minha tabuinha de notas e expliquei-lhe ao que ia.

- A minha primeira pergunta é a seguinte: Márcia Balbila afirmou que


o incidente com a criada, Ino, aconteceu na Vicus Altus. Isso ainda é
bastante longe daqui; pode explicar porque estavam lá, por favor?

Com um laivo de impaciência, Graciana respondeu:

- Fica no caminho de volta desde o Templo de Ceres. Eu e Márcia


costumamos voltar a pé quando o tempo está agradável, depois de
cumprirmos os nossos deveres no culto. Regra geral, descemos pela Rua
da Armilústria, mas é uma caminhada entediante, de tão longa e reta.
Nesse dia, optámos por um desvio pelas ruas secundárias e mais
sossegadas. Portanto - terminou ela num tom triunfante -, se alguém
estivesse decidido a atacar Ino, não poderia ter adivinhado que
alteraríamos a nossa rota.

166
Não poderá ter-nos esperado... deverá ter-nos seguido.

Ela era perspicaz. E quanto lhe agradava salientar aquilo antes de eu


poder dizê-lo.

Mantive-me em silêncio, a tomar nota do pormenor.

- Conte-me o que aconteceu.

- Márcia Balbila já lho deve ter descrito. Graciana mostrava-se um


pouco petulante, incomodada por

estar a ser visitada em segundo lugar. Permaneci calma.

- Ela disse que você viu qualquer coisa.

- Acho que vi.

- Mesmo que tenha acontecido depressa, qualquer perceção passageira


poderá ser útil.

- Bem. A criada gritou. Eu e a querida Márcia virámo-nos de imediato


para ver o que se passava e prestar a assistência necessária. - Não
fora essa a impressão que eu recolhera da querida Márcia; ela tinha
dado a entender que as senhoras do culto tinham ficado incomodadas
com o facto de a rapariga gritar em público. -A minha criada estava
nesse momento a amparar Ino, que se tinha desequilibrado. Se alguém a
empurrou, terá sido com extrema força. Antes de ir reconfortá-las,
tive a impressão de divisar um homem, a quem não vi o rosto, pois
estava a afastar-se de mim. Tive a impressão momentânea de que ele
estivera envolvido no ataque, de que tinha acabado de fazer um
movimento dirigido a Ino.

- Que tipo de movimento?

Avancei a palma da mão como se estivesse a empurrar uma porta.

- Não. - Em seguida, imitei um golpe de adaga, com o punho para cima


e a mão a descer. - Não, também não foi isso. Foi mais assim...

Laia Graciana fez um gesto diferente, com o braço voltado para baixo,
à altura da cintura: um movimento rápido.

- Que interessante. Acha que tinha uma arma?

- É ilegal andar armado!

167
- Essa regra é capaz de não travar um assassino - ripostei com
secura.

- Se tivesse, seria uma arma extremamente pequena. - Laia Graciana


aproximou o polegar dos dois primeiros dedos da mão.

- Como o plectro de um músico.

Estaríamos à procura de um harpista enlouquecido?

- Mas quando Ino morreu, não lhe foram detetados quaisquer


ferimentos, segundo creio.

- Tinha um braço magoado - corrigiu-me Laia Graciana.

- No sítio em que alguém a empurrara com força suficiente para a


fazer girar sobre si mesma. Um encontrão tremendo, na verdade.

- Ela ficou virada para ele? Então terá dito que reconhecia o
atacante? Ou seria alguém que conhecia mas não queria admiti-lo, não
fosse Márcia Balbila ficar zangada?

- Compreendo o que diz. Não. O pessoal de Márcia Balbila leva vidas


decentes e respeitáveis. Ino achava que tinha sido impetuosamente
acotovelada por alguém que talvez nem se tivesse dado conta de que
lhe acertara. Todas julgámos tratar-se de um acidente. .. até ela ter
morrido de forma tão inesperada, horas depois. Nessa altura, algumas
de nós... - referia-se a si mesma, mas fingia-se modesta -, juntámos
dois mais dois.

- E você não reconheceu de todo a pessoa que tinha vislumbrado?

- Eu não conheceria uma pessoa que se encontre numa rua!

- Não, claro que não. - Aquela mulher era tão pura que nem o próprio
irmão cumprimentaria num lugar público. Isso, assumindo que ele não a
via primeiro e fugia para evitar falar com ela.

- Então será que pode descrever o homem que viu?

- Vulgar.

Nenhum assassino em série gostaria de ser descrito assim! Tendem a


considerar-se excecionais.

- Altura? Constituição? Cor?

Ela não fazia ideia. Tratara-se de um transeunte, alguém no meio da


multidão, anónimo.

168
- Um escravo?

- Não, um escravo não.

- Tinha cabelo comprido?

- Não, não era um rapaz. Era mais velho.

- Barba?

- Não. Acho que não.

- Um operário? Um soldado?

- Como é que eu hei de saber?

- Alguém de libré imperial? -Não.

- Há mais alguma coisa que possa contar-me?

- Isso foi tudo o que vi. -Já estava a guardar a minha tabuinha
quando, de repente, Graciana acrescentou num tom perturbado:

- Ela deixou cair a estola. - Olhei para ela com um olhar intrigado.
- Ino. Terá sido repuxada no momento da colisão? Enquanto Márcia
Balbila e a minha criada reconfortavam a rapariga, eu apanhei-a.

Apesar de Laia Graciana estar claramente incomodada com aquele


pormenor, não me parecia relevante. Estava disposta a ir-me embora.
Mas ela já não conseguia conter-se:

- Então... colabora de perto com o edil Fausto?

- Nunca fomos apresentados. - Presenteei-a com um sorriso alegre.


Demasiado alegre para a preocupar, caso fosse ciumenta.

- Recebo instruções do pessoal dele. Presumo que o conheça por laços


sociais?

- O tio dele mantém relações de amizade com o meu irmão -replicou


Graciana num tom indiferente. Mulheres como ela estão habituadas a
negar histórias desagradáveis. Tinha apagado qualquer referência ao
seu casamento falhado.

Ela percebeu que eu sabia. E detestava-me por isso. Como nunca sou
insensata, não a criticava por isso.

169
24

Fui até à Vicus Altus e dei uma vista de olhos. Era só uma rua. Nada
de invulgar ou significativo. Voltei para trás.

Quando finalmente regressei ao Xarroco, Tibério ainda lá estava, com


o tabuleiro intacto à sua frente. As damas continuavam na bolsa de
cabedal, como se ele nunca as tivesse tirado. Parecia ter ficado a
deprimir-se, talvez continuando a pensar no casamento falhado do
edil.

No instante que demorou a levantar a cabeça e a reparar em mim, tive


oportunidade de o observar. Alguns clientes de bares mostram-se
nitidamente vulneráveis, sobretudo se estiverem preocupados; ele não.
Apercebi-me, por exemplo, de que Trínio, o carteirista, não tinha
feito tentativa alguma de se aproximar, e parecia-me improvável que
alguns bêbedos arruaceiros se metessem com ele.

Ao longo dos poucos dias passados desde que conhecera o mensageiro,


ele nunca visitara um barbeiro; aquela sombra desagradável no rosto
tinha-se transformado numa barba descuidada que lhe ocupava todo o
rosto. Andrónico também tinha barba -Hades, devia haver mais barbas
naquela casa do que numa academia de filósofos gregos. Mas a de
Andrónico, clara e arruivada, era cuidadosamente aparada. A uma curta
distância, era indetetável. De forma alguma lhe ocultava as feições.
O mensageiro, por seu turno, era mais moreno; no rosto dele, só se
viam os olhos cinzentos e desconfiados.

170
- Desculpa ter demorado tanto. Estou surpreendida por ainda estares
aqui.

- Sabia que voltarias.

Expliquei-lhe que fora até ao outro lado da colina para inspecionar o


lugar do crime.

- Conheces a Vicus Altus? - Tibério dissimulou, mas eu percebi que


era incapaz de o localizar. Agradou-me expor a minha ilustração: - E
uma rua curta e estreita, acima do rio e paralela a ele, atrás do
Templo da Rainha Juno. - Continuava a não obter reação. - Parte da
esquina da Rua do Louro Menor. - Tibério endireitou-se. - É isso
mesmo - prossegui em voz baixa. - Se estamos à procura do mesmo
assassino para as quatro mortes estranhas que identificámos, esta é a
zona dele. Muito perto de onde Salvídia e Celendina viviam. Não
sabemos ao certo onde elas foram atacadas, mas a localização é
significativa. Também podem ter sido acotoveladas por ele na Vicus
Altus.

- E o abridor de ostras?

- Ainda estava perto. A peixaria fica mais perto da margem do rio, é


verdade... mas é junto à Porta Trigemina: mesmo abaixo do Templo de
Ceres. Todos os eventos que identificámos ocorreram na zona noroeste
do Aventino. Isso circunscreve a busca.

Perante o olhar pensativo de Tibério, disse-lhe que tinha avisado


Laia Graciana para que nem ela, nem as outras senhoras do culto
andassem pela rua sem a presença de guarda-costas; ela replicara que
tinham passado a usar cadeirinhas ou liteiras, num tom que não
deixava dúvidas que considerava que eu estava a abusar da minha
autoridade ao querer dar-lhe conselhos, sobretudo porque ela pensara
primeiro na medida de segurança.

O mensageiro murmurou:

- E mesmo típico dela!

Tratou-se de um comentário para si mesmo; não estava a partilhá-lo


comigo.

171
Contei-lhe também o que Laia Graciana me transmitira acerca do
acidente com Ino. Tibério deixou-me falar até ao fim, sem
interromper. E, quando acabei, continuou calado.

- Que tal me saí? - indaguei, num tom ligeiramente satírico, pois


julgava que lidara de forma excelente com a situação.

Ele fez um esgar.

- Interrogaste a criada de Laia Graciana?

Mentalmente, praguejei. Quando lho sugerira, Graciara ripostara que


isso não seria necessário.

- Oh, tu terias insistido!

Tibério assentiu com a cabeça, ao que eu me senti pouco profissional.


Ele tinha razão; dispúnhamos de tão poucas testemunhas que eu deveria
ter interrogado a rapariga também, independentemente do que a sua
patroa queria, não fosse dar-se o caso de ela ter visto mais qualquer
coisa.

Alguns informadores teriam ignorado o problema, mas eu admiti de


imediato a falha. Disse-lhe que poderia voltar e interrogá-la.

Pareceu perder o interesse e a forma como segurava a mão indicava-me


que a ferida que eu lhe fizera com o espeto estava a doer-lhe. Disse-
lhe que deveria ir para casa e descansar.

Ele levantou-se. Sendo um homem tão duro, estava visivelmente


desmoralizado naquela tarde.

- Sim, está dorido. Não te dês ao trabalho de pedir desculpa, Albia.

- Não me arrependo.

Tibério menosprezou a minha afirmação com um dos seus olhares sábios.

- Arrependes, sim!

Saiu abruptamente da caupona sem se despedir. Agradeci aos deuses não


estar obrigada a privar muito com ele.

172
25

Dado o ceticismo demonstrado pelo homem do edil, eu estava


determinada a provar o meu valor. Na manhã seguinte, regressei de
facto ao apartamento de Laia Graciana e pedi para ver a criada dela,
ficando a saber que se chamava Venúsia e que tinha saído com a
patroa. A escrava mais velha, que abandonara a divisão quando
Graciana me recebera, falou comigo. Parecia sensata. (Esta impressão
pode ser tão enganadora!) Queria dizer-me que tinha interpelado
Venúsia acerca do que acontecera e que a criada insistia que não vira
qualquer atacante.

- Ela é boa rapariga?

A idosa parecia dividida. Não obstante, tinha pelo menos sessenta


anos, o que deveria fazê-la desconfiar de quem quer que tivesse menos
de trinta.

- Sempre foi muito leal à patroa.

- Hum?

- Dá a sua opinião, se vir alguma coisa errada...

Parecia estar a referir-se a algum incidente antigo ou a um traço de


caráter que talvez devesse ser condenado, mas, se fosse esse o caso,
ela não ia dizer. Facilmente imaginei um cenário em que a mulher mais
velha permanecesse calada e conservadora, enquanto a mais jovem
tagarelasse de forma imponderada.

173
Referi que Ino, a criada de Márcia Balbila, tinha um admirador.

- Não me admira... sabe como são as jovens como Ino. Disse-lhe que
sabia. Tentei não pensar em Andrónico enquanto conversávamos.

- Umas tolas que se deixam levar pelos homens, tantas delas!

- Oh, sim! — Eu também, eu também. - Diga-me... a Venúsia é assim?

- Não, a menos que a tontinha tenha conseguido manter o seu cupido


bem escondido.

Guardei só para mim o facto de ver por que motivo faria Venúsia algo
assim, que não era apenas por trabalhar num ambiente em que os
hábitos dos escravos eram minuciosamente escrutinados pelos mais
velhos, com regras austeras prescritas por proprietários mesquinhos.
Não são só os escravos que precisam de ser discretos. Qualquer mulher
que fale acerca do amante antes de o conhecer durante pelo menos
cinco anos arrisca-se a acabar por descobrir que é uma tola.

Dei seguimento à minha busca por Venúsia, percorrendo diligentemente


o monte até ao Templo de Ceres, onde a mulher mais velha me dissera
que Graciana fora com a criada, mas também aí ela me escapou. Há uma
certa classe de testemunhas que se pode dar por garantido que será
irritante. Louras ricas, por exemplo.

Estava na hora de escrever o meu relatório.

Para o fazer, não regressei ao Paço da Fonte, como era habitual, mas
fui para casa dos meus pais e ditei-o a Katutis, o secretário egípcio
do meu pai, que era altamente formado. Dado que muitas vezes os seus
serviços eram subaproveitados lá em casa, ficou encantado. Redigiu-o
a tinta sobre papiro, para ficar com bom aspeto - talvez fosse o
relatório mais caro alguma vez apresentado a um cliente. O meu pai
assistiu ao decorrer do trabalho e riu-se até mais não.

Tornei a subir o Aventino, com o rolo elaborado e marcado por Katutis


no exterior como «Altamente Confidencial», e atado com cordões, nos
quais colocou selos de cera de segurança.

174
Por sorte, tenho um selo. É uma moeda antiga embutida num anel.
Mostra um rei bretão, com madeixas horríveis de cabelo espetado, que
parece estar ávido por que os prestáveis invasores romanos mandem
alguns barbeiros decentes para a ilha.

Percorrendo as Escadas de Cássio, desci a Vicus Altus para executar a


tarefa seguinte: entregar o relatório. Nesse dia estava bem coberta,
pois sabia que ia visitar mulheres que faziam grande questão de serem
respeitáveis. De manhã, até me tinha perguntado se haveria de pedir
aos mauritanos do primeiro andar que me emprestassem a filha mais
velha, que tinha dez anos; por vezes levava a criança silenciosa como
acompanhante. Mas acabara por decidir, como habitualmente, que seria
demasiado trabalhoso. Em vez disso, embrulhara-me numa estola enorme,
do género que é tão grande e quente como uma toga mas que emana
carradas de respeito quando se visita mulheres sofisticadas. Na rua,
podia usá-la e ficar irreconhecível - com a cabeça tapada, cara e
atrativos corporais neutralizados, nada à mostra para além das pontas
dos dedos.

Por isso, enquanto passava discretamente pela Vicus, divisei Tibério


à espreita. Tinha-se desfeito da ligadura e da faixa chamativas que
usara no dia anterior, envolvendo a mão magoada num pedaço
esfarrapado de tecido, de aparência suja, que talvez tivesse sido
arrancado a alguma túnica usada. Andava à cata, sem dúvida à procura
do nosso assassino, tal como eu. Ambos nos tínhamos disfarçado de
escravos ocupados nos nossos deveres, com a discrição típica dos
escravos nas ruas romanas. Mais ninguém teria sequer olhado duas
vezes para nós, embora eu obviamente o tenha visto.

Podia ter-lhe entregado o meu relatório, mas tinha uma ideia melhor.
Queria ir à edilidade, esperando encontrar Andrónico.

Que maravilha! Ele estava lá.

Ambos ficámos encantados por finalmente tornarmos a ver-nos.


Andrónico presenteou-me com algumas palavras bem escolhidas a
propósito de Mânlio Fausto, que o tinha mantido com rédea curta nos
últimos dias.

175
Eu percebia que o meu amigo vivia o dilema de qualquer liberto: ao
ser alforriado, poderia partir e ser dono de si mesmo, com a vida
amorosa que lhe aprouvesse, mas para isso teria de correr grandes
riscos financeiros. Entrar num negócio com muito pouco capital
inicial. Enfrentar um possível fracasso. Se, pelo contrário, quisesse
permanecer num emprego seguro com pessoas que o conheciam, ficava
sujeito ao facto de os seus patronos, que era o que tinham passado a
ser, esperarem dar-lhe ordens. Beneficiava de alguns direitos quanto
à proteção que estes lhe ofereciam, mas em troca via-se obrigado a
ser obediente. Era evidente que Andrónico não tinha o caráter humilde
necessário para aceitar tal situação e que considerava a sua posição
extremamente frustrante.

Libertei o meu corpo quente das dobras da estola. Ele assistiu ao


processo com o entusiasmo de uma criança a desembrulhar um presente.
Assim que viu o papiro, agarrou nele, rindo-se do aviso de
confidencialidade e dos selos.

Expliquei-lhe:

- Apesar de Fausto ter dado ordens aos vigiles para que me impedissem
de dar continuidade às minhas incumbências privadas, depois
contratou-me, homem confuso que é! Esse é o meu relatório formal,
para lhe entregar.

- E acabas de o dar - brincou Andrónico - à única pessoa capaz de


desfazer os nós, ler os segredos e substituir os selos de forma
indetetável!

- Ah, pois. - Cheguei a hesitar, mas apenas por um breve instante.


Confiava nele. - Presumo que falsificar selos legais seja a primeira
coisa que um arquivista aprende!

- Não, a primeira é como esconder depressa uma taça de posca no


estojo de um pergaminho, se o patrão entrar.

Posca, que é pouco mais do que vinagre ou vinho estragado por ser mal
armazenado, é uma bebida de escravo. Não fiz comentários. Sabia que
ele detestaria que lho recordasse - e que eu estivesse tão ciente do
seu passado.

176
Segurando-me na mão direita, examinou o meu anel de sinete. Depois de
o comparar com as marcas na cera, continuou a segurar-me a mão.
Agrada-me um amante competente, mas sentia-me envergonhada por nos
encontrarmos num gabinete público. Em Roma, só pessoas da mais baixa
classe - ou nobres mesmo muito embriagados - fazem amor em público.
Por seu lado, Andrónico parecia apreciar o perigo de poder ser
descoberto.

- Felizmente - disse ele, de olhos fixos nos meus e muito perto de


mim -, sei o que se passa. Há gente a ser atacada nas ruas. Já há
algum tempo que ocorrem reuniões de altas instâncias, incluindo todos
os edis. Dos quatro, três esperam poder adiar qualquer ação até ao
final dos mandatos, deixando o problema para os tolos do ano
seguinte. Só Fausto tem de ser diferente. Fez disto uma missão
pessoal. O idiota quer apanhar o assassino do Aventino e, se
fracassar, ficará destroçado.

- Provavelmente com razão. O povo não merece ser protegido?

- Com certeza.

Andrónico escudara-se com o seu ar distraído, quase como se estivesse


a pensar dar uma resposta diferente. Concluí que teria uma baixa
opinião do povo - facto pelo qual eu não poderia culpá-lo
inteiramente. Quanto mais gente eu conhecia, mais desalentada ia
ficando.

- Fausto está?

- Não, graças a Júpiter.

- E algum dos outros três?

- É claro que não. Não julgas que esses meninos de ouro trabalham,
pois não, Albia? - Andrónico puxou-me para si, começando a beijar-me
delicadamente o pescoço. Cheirava a uma essência que deveria ser
dispendiosa; eu considerava engraçado que ele gostasse de tais luxos
e que tivesse dinheiro para os adquirir. - Então, o que descobriste
para o triste homem?

- Oh, está tudo aí - respondi num murmúrio, ainda a tentar manter um


olho na porta, não fosse alguém entrar. Tenho critérios.

177
Nunca gostei de beijos em público. Quero descontrair e entregar-me
por completo. E também gosto de conforto. Não havia dúvida de que
estava disposta a entregar-me por completo a Andrónico, mas não
encostada ao baú do dinheiro do gabinete público de um magistrado.
Quem quer ter um ferrolho velho e enferrujado espetado nas costelas?
- Vais ver, se quebrares os selos... Pediram-me que interrogasse Laia
Graciana.

- Por causa do incidente que terá causado a morte à criada da amiga


dela?

Fiquei satisfeita por Andrónico ter ouvido falar disso sem eu ter de
revelar uma confidência.

- Sim, calham-me todos os trabalhos maravilhosos... Tive de me


obrigar a ser cordial.

- Coitada! Ela é uma vaca. Nem aguento levar documentos ao templo


quando ela anda por lá de um lado para o outro, armada em Rainha dos
Céus.

- Eu sobrevivi.

Em seguida, Andrónico comentou:

- Laia Graciana, há? Sabes que ela e Fausto partilham um passado


obscuro?

- Foi por isso que me incumbiram de recolher o testemunho dela. — Por


maravilhoso que fosse voltar a estar nos seus braços, eu não tinha a
menor intenção de lhe revelar que talvez Laia Graciana tivesse visto
o assassino. Também não lhe contaria o que Tibério me confidenciara
em relação ao antigo divórcio.

- Sim, ele faz grandes desvios para evitar qualquer contacto com a
altiva Laia... e ela também nunca se aproxima dele. Algo se passou
ali, Albia. Daria muito para saber o que terá sido ao certo!

Para distrair o meu amigo inquisitivo (e para tentar ignorar por onde
vagueavam as suas mãos), referi a minha teoria ponderada de que se
uma das criadas tivesse uma relação secreta, decerto seria discreta a
respeito disso, dada a minha opinião de que qualquer mulher deveria
evitar fazer alarde acerca do amante.

178
Criámos fantasias cómicas:

- Sabes... ou ele está prestes a abandoná-la inesperadamente, para


concretizar a sua verdadeira ambição de se juntar às legiões ou de
partir numa longa viagem marítima...

- ...ou então - completou ele por mim -, a confidente dela, que era
a sua melhor amiga, revela-se uma verdadeira cabra, nem mais nem
menos do que a mulher com quem ele andava a enganá-la. ..

Rimo-nos. Era maravilhoso ter com quem partilhar momentos divertidos


no meio de trabalho sério. Andrónico era mestre da arte da sedução
ligeira, da amizade simples. Fazia-me sentir segura e eu deixava-me
afundar nessa sensação agradável, apesar de saber que demasiada
confiança poderia ser algo perigoso.

- Então... - sugeriu ele. - Suponho que não vás alardear a meu


respeito?

Não conseguia evitar: era um homem; precisava de ser o centro de


tudo. Limitei-me a esboçar um sorriso sábio. Regressámos ao tema das
minhas investigações.

- Desconfias de que tenha sido um namorado a atacar as criadas,


Albia?

- Não há indícios disso.

Ressoaram passos na colunata exterior. Quando o maldito mensageiro


entrou, eu e Andrónico estávamos inocentemente sentados em bancos
afastados um do outro.

- Livraste-te do fraco disfarce, segundo vejo - troçou Tibério,


inclinando a cabeça na direção da minha estola descartada. Tinha de
me mostrar que também me tinha visto na Vicus Altus. Fiquei a pensar
se me teria seguido até ali, com a intenção de interromper qualquer
diversão com Andrónico. - Se é que já podem tirar os olhos um do
outro... suponho que isto seja o teu relatório? Devo levá-lo?

Fitou Andrónico com ar de poucos amigos e o arquivista teve de lhe


ceder o papiro.

179
- Cobri praticamente tudo - intervim, tentando distraí-los da
hostilidade mútua. - Ainda não falei diretamente com a segunda
criada, mas uma fonte indicou-me que ela não viu nada. É claro que
quero confirmar isso. Vou continuar a tentar dar seguimento a esta
situação.

- Mantém-me informado.

Não repisei a minha opinião acerca das mulheres e dos seus amantes.
Tibério não era um homem com quem se brincasse.

O mensageiro deixou-nos, de papiro enrolado na mão, e foi para outro


lugar do edifício.

Mencionei a Andrónico que o vira a patrulhar a rua onde os incidentes


haviam tido lugar.

- Parece obcecado.

- É claro que pode haver outra explicação - replicou Andrónico num


tom fatídico.

- Qual?

- Nunca te deste conta de que o próprio Tibério é uma personagem


bizarra? É um solitário. Alguém que vagueia pela cidade, uma pessoa
fria, sem amigos, arrogante e antissocial, que não consegue fazer
alguém gostar dele, mesmo quando tenta... embora na maior parte das
vezes ele não se preste a esse esforço. Um homem a quem foi dada a
tarefa de andar pelo meio do povo, exercendo o seu juízo acerca do
caráter e do comportamento alheios... Então, não poderá ter decidido
impor um castigo pessoal àqueles que considera estarem em falta?

- Continua.

Desagradava-me o rumo que aquilo estava a tomar, mas deixei-o


acrescentar o seu final.

- Que coincidência seria, Flávia Albia, caso se viesse a descobrir


que ele estava envolvido naquilo que tens vindo a investigar?!
imagina que Tibério é o teu vilão.

180
26

Naqueles tempos, os Romanos viviam mergulhados em suspeita. O nosso


imperador paranóico tinha-nos deixado a todos demasiado dispostos a
desconfiar uns dos outros. Disse a Andrónico que ponderaria a sua
sugestão. Falava a sério. Por norma, gosto de seguir o meu próprio
julgamento. Mas a verdade era que aquela ideia acerca do mensageiro
também já me tinha ocorrido.

Não havia dúvida de que Tibério conhecia Salvídia, pois fora ele quem
escrevinhara o aviso a solicitar testemunhas depois do acidente com o
condutor dela. Eu não estava a par de qualquer dado que o ligasse à
idosa, Celendina, nem de que se tivesse cruzado com o abridor de
ostras, mas isso de forma alguma seria impossível. Decerto sabia
muito a respeito de Laia Graciana. Perante os laços oficiais entre a
edilidade e o Templo de Ceres, que também deveriam incluir o culto,
provavelmente conhecia igualmente a amiga dela, Márcia Balbila. Não
seria demasiado desonroso que um mensageiro de confiança privasse com
tais mulheres, ao passo que o cargo que ocupava também não era tão
altaneiro que o impedisse de conversar com as criadas.

Vagueando pelas ruas a pretexto de procurar transgressões públicas,


Tibério encontrava-se numa posição ideal para atacar transeuntes.

181
Tinha um ar obscuro. Eu sempre pressentira algo de errado a seu
respeito.

Comecei a discutir a questão com Andrónico, que estava ávido por


partilhar as suas ideias sobre o assunto. Tivemos de nos calar quando
Tibério tornou a aparecer.

- Um bom relatório - comentou. Apesar de eu ter dirigido o papiro ao


edil, o suíno arrogante tinha-se outorgado o direito de o abrir e
ler. Depois, para minha surpresa, acrescentou: - Vou encontrar-me com
Morelo logo à noite para rever um plano de ação. Podias juntar-te a
nós.

Respondi que assim faria. Reparei de imediato que Andrónico me fazia


sinal para que o recusasse. Naturalmente, Tibério também reparou;
esperou, com um esgar, que eu fizesse o que o arquivista me indicava.
Se achavam provável que eu me deixasse influenciar, estavam os dois
bem enganados. Perguntei a que horas deveria chegar ao quartel e, uma
vez que a hora da reunião coincidia com a do jantar, aconselhei
Tibério a levar a sua própria comida.

- Os vigiles têm o terrível hábito de mandar comprar tartes quentes


ao Xero.

- Não são famosas?

- Lendárias. Toda a gente vai ao Xero, há anos que assim é. Se o teu


amo alguma vez quiser organizar uma investigação pública a casas de
tartes, poderá impedir muitas intoxicações alimentares.

Andrónico estava com ar de desejar que eu não tivesse avisado Tibério


a respeito daquilo.

Não via qualquer vantagem em ficar por ali enquanto eles mediam
forças. O mensageiro arruinara o ambiente entre mim e o meu amigo.
Despedi-me de Andrónico com um beijo cordial na face, conseguindo
aproximar-me o suficiente para lhe sussurrar que a melhor forma de
controlar Tibério seria vigiar o que ele andava a fazer.

182
Depois fui para casa.

Nessa noite, depois de passar pelos banhos públicos, caminhei até ao


quartel local dos vigiles. O último turno de vigia ia patrulhar a
cidade, por isso o edifício estava silencioso e vazio, mas parecia-me
muito mais seguro do que quando as tropas estavam presentes.
Encontrei Morelo na sua sala de interrogatórios. Tratava-se de uma
divisão luxuosa no quartel — um nicho encardido com uma mesa que
tinha marcas suspeitas de queimaduras, um par de bancos de três
pernas cuja quarta perna fora arrancada para bater em suspeitos e um
velho manto pendurado num gancho. A mesa servia para Morelo apoiar as
botas enquanto limpava as unhas com uma faca que em tempos tirara a
um prisioneiro.

Dado que pareceu ficar surpreendido ao ver-me, enquanto voltava a


encaixar uma perna num dos bancos, expliquei-lhe que tinha sido
convidada.

- A sério? Tibério engraçou contigo, foi?

- Não, ele acha que eu sou uma amadora inútil. Não faço ideia do
motivo por que me terá favorecido esta noite... a menos que soubesse
que eu traria lulas com molho de alho.

Pousei o recipiente em cima da mesa. Morelo endireitou-se de imediato


para poder espreitar. Os vigiles reagem a estímulos muito simples.

- Não sabia que era uma festa em que cada convidado deveria trazer a
sua ânfora. - Não precisava de se preocupar, pois na verdade ninguém
levou ânfora alguma.

Como o mensageiro ainda não tinha chegado, perguntei-lhe se se


conheciam bem. Segundo Morelo, era frequente partilharem informação,
coisa que faziam desde que Mânlio Fausto ocupara o seu posto em
janeiro.

- O mensageiro parece-me uma presença soturna - comentei. Morelo


lançou-me um olhar carregado.

183
- Oh, Tibério é formidável!

Normalmente, eu considerava o oficial de inquéritos bastante astuto,


pelo que a sua resposta surpreendeu-me.

Ouvimos passos no átrio lá fora e Tibério apareceu.

- Está uma noite calma!

- Tenho toda a gente de serviço. Até os que estavam de folga.

- Prometeste-lhes um bónus?

- Não, tudo o que prometi foi não lhes desfazer a cabeça a murro. -
Morelo baixou o tom de voz. - Os fundos andam escassos.

- Talvez eu possa ajudar? - ofereceu o mensageiro, enquanto procedia


à rotina de consertar temporariamente um banco. Calculei que pudesse
deitar a mão à caixa das coimas da edilidade para arranjar algum
fundo de maneio.

Morelo acenou com a mão.

- Não, não. O insidioso Scauro está a preparar um orçamento. Talvez,


para variar, o nosso tribuno se revele útil.

Aquela hora da noite em abril, a divisão já estava às escuras; Morelo


acendeu lamparinas de cerâmica, a maioria com cenas pornográficas,
como é óbvio. Reunimo-nos à volta da mesa. Fomos petiscando enquanto
comíamos. Tibério tinha levado um pequeno cesto de piquenique com
pãezinhos que chegavam para todos, e queijo, dizendo que fora Metelo
Nepos quem o fornecera. Presumi que tivesse sido uma oferenda para o
edil mas Tibério a tivesse rapinado.

Sorri.

- Suponho que, quando se vive numa casa grande, sobretudo tratando-se


do antro de um solteirão, deverá haver competição para surripiar
petiscos da copa...

- Eu considero que aparecer pessoalmente com um ar esfomeado costuma


resultar - concedeu Tibério.

Como receava, Morelo tinha-se munido de uma grande tarte de coelho,


do Xero. Com óbvia relutância, fê-la passar por nós. Tibério cortou
educadamente uma fatia mínima. Eu senti-me tentada, mas contive-me.

184
Ignorando o perigo do molho que pingava da tarte ainda na sua mão,
Morelo esticou um mapa encarquilhado das ruas da nossa área. Parecia
ter décadas; apontei para certas áreas desatualizadas.

- Oh, dá para chegarmos de Alfa a Omega - balbuciou Morelo.

- Bem, talvez de Alfa a Fí... - sugeriu Tibério, quase a deixar-se


sorrir.

Tenho de reconhecer que a hora seguinte de colaboração tripartida foi


uma sessão invulgar. Correu melhor do que eu esperava. Os dois
aceitavam-me; eu conseguia trabalhar com eles. Todavia, pareciam um
par ligeiramente desasado e era inédito que homens como eles
consultassem uma mulher. Porém, todos encarávamos o problema com a
mesma seriedade.

Primeiro listámos os factos conhecidos. Morelo contribuiu com um pano


de fundo surpreendentemente útil:

- Descobri que isto está a acontecer noutras zonas de Roma e corre o


rumor de que também noutras partes do Império. Isso pode implicar uma
conspiração global, para quem goste de tais teorias. Eu cá não vou
nisso. Acho mais provável que um pervertido execute uma data de
ataques aleatórios na rua num determinado local e que depois, por
mais que os que mandam julguem que têm tudo sob controlo, a notícia
se espalha, porque as pessoas não são parvas.

- E um rumor dá ideias a outro louco? - intervim.

- Imitadores?

Para além desta pergunta, Tibério estava a deixar Morelo liderar a


reunião, pelo menos até então. Mas eu tinha dificuldade em ver
Tibério como um subordinado retraído.

- É um fenómeno conhecido. Bem, se conseguirmos apanhar o nosso, os


outros continuarão à solta mas, para ser sincero, eu só quero limpar
a minha zona. Acho mesmo - continuou Morelo, num tom defensivo que
era também muito convincente -, que, se nos concentrarmos no nosso
perpetrador, se lhe aplicarmos diretamente procedimentos eficazes e
conseguirmos de facto detê-lo, isso será mais útil do que disparar às
cegas pela cidade inteira e, convenhamos, sem obter o que quer que
seja.

185
Tibério assentiu com a cabeça. Enquanto o observava, pensei em como
seria irónico se Andrónico tivesse razão e ele fosse realmente o
assassino. Andrónico defendera a teoria com garra e persuasão, mas
agora parecia-me uma ideia louca. Tibério levantou a cabeça e, vendo
talvez que eu o examinava com uma curiosidade sombria, trincou um pão
com a sua expressão mais desagradável. Aquele homem seria capaz de
vencer a competição de caretas dos Jogos Olímpicos.

Debatemos a minha teoria acerca de o assassino do Aventino ser um


habitante local. Mostrei a Morelo no seu mapa a conjunção em forma de
Y entre a Vicus Altus e a Vicus Loreti Minoris. O mapa de pele devia
ser uma antiguidade valiosa, mas o investigador dos vigiles agarrou
num frasco de tinta e marcou os locais dos incidentes. Passava metade
da vida a procurar propriedade roubada; isso fizera-o perder qualquer
respeito por tesouros.

A outra metade do seu tempo era dedicada a vítimas de violência. Eu


não sabia se ele também perdera o respeito pela vida humana mas,
naquela noite, estava a prestar-lhe a devida atenção teórica.

- Tanto quanto sabemos - realçou -, todos os ataques têm ocorrido em


plena luz do dia.

- Não faria mais sentido servir-se das horas da noite? - perguntei. -


Não é isso que faz a maior parte dos assassinos reincidentes?

- Sim, mas há duas desvantagens nessa abordagem - comentou Morelo. -


Menos gente na rua, o que lhe dá menos encobrimento aos ataques. E,
depois do crepúsculo, as ruas enchem-se de vigiles. A ideia de nos
encontrar é capaz de lhe dar miúfa.

Pela primeira vez, eu e Tibério uníamos forças, pois ambos revirámos


os olhos perante tal possibilidade.

- Ele gosta de ir jantar a casa - concluí. Estávamos a presumir que


seria um homem, tendo em conta o possível avistamento de Laia
Graciana. - Talvez seja obrigado a ir... poderá ter uma mulher que o
domine? Está sempre a criticá-lo; ele não se atreve a fazer-lhe
frente.

186
Vinga-se atacando outras pessoas, em vez de lidar com quem vive e de
quem tem medo?

- Ou tem uma mãe que o domina - corrigiu-me Morelo. - Duas das


vítimas não eram jovens.

- Isso não justifica o rapaz das ostras.

- Se é uma coisa que o excita sexualmente, o rapaz não fica excluído


- respondeu Morelo num tom cínico. Tibério parecia desconfortável.

Apesar de não ter feito comentário algum enquanto eu e Morelo


conversávamos, mantivera-se atento. O mensageiro ia comendo o queijo
tranquilamente, cortando fatias finas, que saboreava. Servia-se da
faca com que Morelo tinha estado a limpar as unhas; eu vira-o a
limpá-la com muito cuidado na bainha da túnica. A túnica era aquela
áspera que ele tinha usado dois dias antes, embora desta vez
envergasse por baixo uma com um ar mais macio, que se via na bainha e
nas mangas: era o seu estilo às camadas. Os generais exibem-no nas
estátuas, para indicar que podem comportar um grande guarda-roupa.

Dei por mim a fitar aquele queijo. Sem dizer palavra, ele cortou
várias fatias e colocou-as ao meu alcance. Apesar de a textura
parecer pouco promissora, Metelo Nepos deveria tê-lo fumado. O
resultado era maravilhoso. Mastiguei devagar, dando a entender que me
agradava, mas sem chegar ao ponto de agradecer.

As minhas lulas em alho tinham acabado. Desapareceram num instante; é


sempre melhor comê-las enquanto ainda estão um pouco quentes, mas
entre os três tinha sido uma espécie de corrida

para as apanhar.

- Pode ser um escravo - sugeri, ainda a mastigar pausadamente.

A ideia agradou a Morelo.

- A quem os amos incumbam diariamente de tarefas no exterior...?

- ...e que faça qualquer coisa vingativa enquanto está fora

de casa.

187
Tibério limitava-se a ouvir, mas fez uma expressão de concordância,
considerando que era uma hipótese plausível.

Sem mais indícios disponíveis que ajudassem a definir o nosso


assassino, a conversa centrou-se em medidas para o apanhar. Isso, por
sua vez, levou-os a planearem rotas de forças de segurança, o que já
me pareceu enfadonho. Ali fiquei, debruçada sobre a mesa. Tibério e
Morelo estavam desassossegados devido aos Jogos de Ceres, prestes a
terem lugar. O Aventino seria ocupado ao longo de sete dias de
eventos públicos, o que ofereceria àquele homem amplo encobrimento e
novas oportunidades. Mesmo que puséssemos fim ao silêncio acerca das
mortes e avisássemos os habitantes locais para que tivessem cuidado,
a nossa zona seria visitada por muitos forasteiros que nada saberiam
de tais avisos.

A certa altura, enquanto estávamos a fazer uma pausa da concentração


árdua, Morelo olhou para mim e exclamou, dirigindo-se a Tibério:

- Ela adora isto!

- Conspirar em divisões pequenas e escuras, cheias de fumo de


lamparina? Pois adora - concordou o mensageiro.

Em circunstâncias normais, eu teria esperneado por dois homens


estarem a falar assim a meu respeito, mas estranhamente o comentário
não fora nem ofensivo nem condescendente. Naquela noite, éramos todos
amigos.

- E melhor do que interrogar mulheres arrogantes - repliquei com à-


vontade. - Persuadir aquelas senhoras que se ocupam do culto de Ceres
a revelarem-me algo de útil foi tão empolgante como limpar vómito do
chão.

Morelo soltou uma risada.

- Alguém tem de o fazer. Albia, alguns trabalhos são demasiados


nojentos para os homens!

- Medricas. O truque é não deixar que elas reparem que estou a


orientá-las para que me deem respostas concretas.

188
- Ela é filha de Falco - indicou Morelo a Tibério, como se assim
explicasse a minha profissão. - Conhece-lo?

- Sei quem ele é. Morelo anuiu.

- Ela é tesa.

Tibério deveria estar a começar a ficar com as tripas às voltas por


causa da fatia minúscula de tarte de coelho do Xero; só podia estar
distraído, pois também assentiu com a cabeça. Então, Morelo

perguntou-me:

- E o que pensa o teu velhote, Albia?

- Oh, não me venhas com essas tretas, Morelo. Já faço o meu trabalho
há doze anos e não preciso de ouvir a velha história de E se
pedíssemos a alguém mais experiente, e já agora do sexo masculino,
que intervenha? Hoje em dia ele mantém-se na sombra, não vá Domiciano
lembrar-se de que são inimigos. Seja como for, a minha família
inteira está completamente obcecada com o leilão de Viador.

Tibério arqueou uma sobrancelha. Pousou a faca.

- Por acaso não te referes a Júlio Viador? O importador de peles?

Assenti com a cabeça.

- É um legado enorme que vai ser vendido pelos herdeiros.

Porquê? Conhecias o falecido?

- A tratar-se do mesmo homem, Túlio tem negócios com ele... tinha,


segundo deverei dizer. Viador até foi lá a casa uma vez. Era jovem,
mais novo do que eu, certamente. - Ainda que fosse difícil calcular
ao certo, a avaliar pelo rosto, Tibério parecia estar no meio da casa
dos trinta. - Fico muito surpreendido por saber que morreu, Albia.
Quando é que isso aconteceu?

- Deve ter sido em março. A primeira vez que ouvi falar do leilão foi
numa festa de família.

O aniversário do meu pai. O que me trouxe à memória: o meu estava a


aproximar-se rapidamente.

Tibério manteve-se em silêncio por um momento e depois

prosseguiu:

- Não simpatizei com ele... era um daqueles tipos que passa o dia
inteiro a exercitar-se... Nada de conversa, a menos que se quisesse
saber quantos pesos tinha levantado, e era mesmo fastidioso à
refeição, porque tinha imenso cuidado com a dieta.
189
- Estava em forma? - perguntou Morelo, apenas para contribuir para a
conversa, mas apercebendo-se de imediato da relevância que isso
poderia ter. - Merda! Jovem e saudável!

Tibério parecia pensativo.

- Nunca conheci um homem tão em forma. Demasiado para morrer! Tenho a


impressão de que será melhor fazer algumas indagações discretas
acerca disto amanhã.

Eu e Morelo entreolhámo-nos. Depois, também nos remetemos ao


silêncio.

A possibilidade de termos acidentalmente esbarrado noutra morte a


acrescentar à lista deixou-nos a todos na mó de baixo. A reunião foi
dada por terminada.

Guardei as migalhas e os restos da crosta da tarte no recipiente onde


levara as lulas.

- E para uma ceia à meia-noite? - troçou Morelo.

- Para um cão vadio.

Ia levá-lo às minhas raposas.

Devido ao adiantado da hora, o investigador sugeriu que o mensageiro


deveria acompanhar-me até casa. Pressenti o que estaria em causa: um
pressentimento masculino de que talvez Tibério tivesse alguma
hipótese. Morelo era casado e tinha três filhos pequenos; não que
isso o impedisse de tentar a sorte, não fosse saber que eu conhecia a
sua esposa. Uma boa mulher. Casara com um miserável, mas que escolha
tinha a maioria das mulheres? No entanto, caso se esticasse, Morelo
estava bem ciente de que Púlia ficaria a saber disso.

Considerando que se encontrava eliminado à partida, Morelo assinalava


assim que o caminho estava desimpedido para o mensageiro. Talvez
achasse que estava a ser generoso. Não sei se o casamenteiro porco
chegou mesmo a piscar o olho, mas era só o que faltava.

190
Tibério não se mostrou impressionado - obrigada, Juno!

Rejeitei a oferta.

Saí sozinha do quartel, caminhando depressa para me assegurar de que


não era seguida pelo mensageiro. Ia a caminho da Armilústria. Quando
cheguei, Robigo devia ter fome. Praticamente assim que pousei a
comida no chão e me afastei, pressenti a sua presença. Em cima da
muralha, vi a sua cabeça a surgir, de orelhas espetadas. Depois
desceu pela muralha e começou a farejar o que

lhe tinha levado.

Não me demorei. De súbito, sentia-me nervosa, como se alguém


estivesse à espreita. Também Robigo parecia estar mais alerta do que

era habitual.

Por sorte, o Paço da Fonte era ali perto. Estuguei o passo. Cheguei a
casa e vi que, contrariamente ao costume, Ródão tinha trancado a
grade do portão. Eu sabia forçar a entrada, embora fosse complicado e
demorasse sempre algum tempo. Depois de entrar e de me desenvencilhar
a trancá-la de novo à pressa, espreitei para a rua por entre a rede
metálica.

Tibério estava a poucos passos de distância. Tinha os pés afastados e


os braços cruzados. Ao perceber que o tinha visto, virou a cabeça,
como se me reprovasse por correr riscos. No instante a seguir,
desapareceu.

É claro que alegaria que estava apenas a assegurar-se de que eu


chegava a casa sã e salva. Eu não poderia averiguar os seus
verdadeiros motivos e sentia-me ultrajada. Estava mais enervada por
ter sido seguida por ele do que se um desconhecido me tivesse
perseguido em segredo. Sabia que as mulheres tendem a ser atacadas
por homens que já conhecem.

Tibério deveria ter-me visto com a raposa. Detestava mesmo que alguém
da edilidade soubesse que me interessava pelos bichos. A Cerealia,
com o seu ritual abominável, estava a aproximar-se. E eu estava a
planear fazer alguma coisa para os impedir de pegarem fogo às
raposas.

191
27

Tomei o pequeno-almoço com os meus pais. Se ficaram surpreendidos com


a minha chegada madrugadora, disfarçaram bem, para além do comentário
habitual:

— Querida, és sempre bem-vinda... mas não acabes com a pasta de


azeitonas!

Em seguida, não demorou a vir à tona:

- Confessa lá... o que andas a fazer?

Não os mantive em suspenso. Nem fingi que fora puro amor filial o que
me levara a querer partilhar os seus pãezinhos brancos, carnes frias
e patê refrescante de pepino. Admiti imediatamente que queria que me
informassem acerca do que propiciara o grande leilão de Viador.

Quando saí, munida de factos, da avaliação do meu pai e da morada do


falecido, já sabia que ele vendera peles de toda a Europa, o que sem
dúvida explicava porque privava com o tio do edil da plebe, um homem
que arrendava armazéns. Os importadores trazem os seus ganhos e
depois Roma tem os negociadores mais astutos do mundo; estas
sanguessugas escorregadias nunca vendem ao primeiro comprador mas,
enquanto regateiam para conseguirem um acordo extorsionário, os bens
têm de ser colocados nalgum lugar e acondicionados em bom estado.

192
Eu tinha aprendido num pequeno seminário que, mesmo num país tão
quente como Itália, as peles davam dinheiro. Não só os animais vivos
eram apreciados na arena como a raridade e o luxo das peles de
grandes felinos, ursos, lobos, arminhos e até coelhos facilmente
encontravam mercado. O avô de Júlio Viador tinha viajado pessoalmente
a muitas das províncias; e o mesmo fizera a geração seguinte, à
medida que a família ia ficando cada vez mais especializada e
próspera. Em tempos mais recentes, Viador pudera dedicar-se a uma
vida de lazer em Roma e enviar tropas de agentes em seu lugar. Podia
passar o dia inteiro num ginásio, pois tinha vários armazéns cheios
de peles. Era um jovem instalado em Roma que, se tivesse continuado
vivo, iria dar início à sua própria família.

A venda da casa aquando da sua morte tinha deixado os meus parentes


leiloeiros extremamente contentes. Os lucros das peles permitiram
comprar uma coleção enorme de mobiliário exótico, bronzes antigos,
uma baixela de prata belíssima - para além de uma quantidade
impressionante de, segundo a opinião avalizada do meu pai,
reproduções terríveis de estatuária grega. O meu pai confiava que
venderia até as falsificações. As pessoas compram qualquer coisa e um
laivo de fraude serve apenas para aumentar o entusiasmo de alguns
clientes, que esperam que o leiloeiro esteja enganado para poderem
assim passar-lhe a perna.

Os que assim pensam não conhecem a família Dídio.

Era bizarro visitar uma casa no decorrer das minhas investigações e


encontrá-la cheia de familiares meus. Júlio Viador tinha vivido numa
grande moradia sobre o Tibre, numa das melhores partes do Janículo -
não me refiro à zona pobre e enxameada a que chamamos Transtiberina,
repleta de imigrantes de origem duvidosa e de delinquentes a
esconderem-se das autoridades, mas mais além, no cimo das encostas da
colina, com vistas aprazíveis da cidade. A minha família tem uma
moradia lá, ainda mais bem situada do que a de Viador. Trata-se de
uma zona tranquila.

193
Libertos imperiais instalam-se ali para viverem do que foram
acumulando. Criminosos e vigaristas bem-sucedidos possuem grandes
mansões, muitíssimo cerradas e guardadas por cães de aspeto
ameaçador. Senadores e empresários reformados andam por lá,
observando a cidade e lamentando a glória perdida.

A casa de Viador tinha sido praticamente despojada de tudo. Os nossos


carregadores entravam e saíam, mantendo a habitual compostura e
levando as últimas peças a serem vendidas na Porta de Pompeu, o local
de leilões que o meu falecido avô, Dídio Favónio, sempre preferira. A
supervisionar a operação encontrava-se Górnia, que já deveria ter
noventa anos. Fora obrigado a reformar-se a dada altura mas, quando a
Saepta Júlia ardera, cerca de uma década antes, e uma morte súbita
reduzira a família, Górnia regressara como substituto e nunca mais
voltara a partir. Cumprimentei-o, vendo-o a andarilhar por ali nas
suas pernas fininhas como as de um inseto desenhado. Ele apresentou-
me a um dos membros do pessoal de Viador. Górnia estava a fingir que
o deixava tirar notas, embora o nosso carregador principal se
encarregasse sempre de decorar listas e custos.

O tipo que Górnia me apresentava, Porfírio, era um secretário júnior


que entretanto se tornara dispensável. Era um escravo e não tinha
idade suficiente para ser alforriado, mesmo que o testamento de
Viador o previsse. Devia estar prestes a ser vendido a desconhecidos,
embora tentasse disfarçar a ansiedade natural em relação ao destino
que poderia aguardá-lo. Com uma tristeza discreta devido à perda do
seu amo, falou comigo à vontade e era, segundo me parecia, de
confiança.

Fiquei a saber que não havia familiares próximos, o que costuma


assegurar a transmissão de pessoal como Porfírio. No caso de Viador,
depois de algumas provisões para a esposa, todos os legados seriam
atribuídos a parentes distantes, nenhum dos quais desejava ficar com
algum dos escravos da casa. Também iam encerrar a firma da família e
vender as mercadorias, logo, outros trabalhadores ver-se-iam
igualmente afetados. Uma casa estabelecida e um negócio próspero,
ambos criados ao longo de três gerações, seriam extintos.

194
Júlio Viador casara, mas pouco tempo antes. A viúva não lhe dera
filhos e não se julgava que estivesse grávida. Isto tinha reduzido o
que lhe seria deixado: pouco mais levaria do que o seu dote. Outro
resultado da morte deste jovem, portanto, era que uma mulher que
nunca fizera mal a uma mosca teria de regressar à casa paterna, onde
provavelmente seria encarada como um fracasso, por voltar sem nada de
um casamento muito curto.

Porfírio disse-me que Júlio Viador, embora não fosse intelectual,


tinha sido um bom amo. Era suficientemente rico para ser um mandrião
se o desejasse, mas de facto interessava-se pelo negócio. Tinha
muitos contactos, ainda que poucos amigos próximos. Toda a gente
gostava dele. Parecia não ter feito quaisquer inimigos. No dia em que
morreu, chegou a casa, vindo do ginásio, como era habitual, foi ao
seu quarto para mudar de roupa e depressa o encontraram já sem vida,
na cama. Não se queixara de indisposição alguma e não pedira ajuda. A
sua morte súbita, aos vinte e três anos, era considerada uma
tragédia.

- O que achas que causou a morte, Porfírio?

- Ninguém sabe.

- Foi examinado por um médico?

- Ele não tinha estado doente.

- Então não chamaram um médico para examinar o corpo?

- Não havia motivo.

- E o agente funerário disse alguma coisa acerca da morte abrupta


numa idade tão jovem?

- Só que era fruta da época.

Quando eu estava a sair da casa, Tibério apareceu. Ficou mesmo


irritado por eu me ter antecipado. Furioso, ordenou-me que não
interferisse, já que tinha deixado bem claro que ele tencionava tomar
as rédeas da ação.

195
Claramente, não estava habituado a competir com alguém num caso.

- Temos pena. Eis a situação: corresponde ao padrão. Tinha uma saúde


perfeita. Não houve tempo para se chamar um médico e o agente
funerário limitou-se a balbuciar as baboseiras do costume. Há uma
viúva jovem. Disseram-me que está arrasada. Sabes perfeitamente,
Tibério, que devo ser eu a conduzir esse interrogatório.

- Eu sou capaz de lidar com jovens viúvas!

- Oh, não me parece.

Chegámos a acordo: iríamos juntos. Ele esperaria do lado de fora,


enquanto eu entrava na divisão para fazer delicadamente perguntas à
rapariga desesperada.

Chorava muito. Só tinha dezanove anos e estava completamente


desconcertada por se deparar com uma perda tão próxima. Interroguei-a
em casa do pai, claro está. Enquanto antes geria a sua própria
residência, agora tivera de aceitar voltar a ser a menina da casa,
sem uma verdadeira posição. Os seus pais eram velhos e, ainda que
provavelmente amáveis, não estavam a ajudá-la a readaptar-se. Mal
conseguia suportar a ideia de perder o seu marido perfeitamente
decente, quanto mais a de voltar a ser atirada para o mercado do
casamento, quando tinha julgado que a sua vida estava traçada.

Não era tola. Fui direta e disse-lhe que desconfiávamos de mão


criminosa. A minha notícia deixou-a histérica, mas acabou por se
acalmar e pensar na questão com mais tranquilidade. Percebi que,
quando ficasse a sós, continuaria a cismar. Aquela jovem simples
nunca escaparia ao horror do assassínio do marido.

Parti imediatamente do princípio de que haveria outra pessoa


envolvida. Não perdi tempo algum a admitir a possibilidade de a
mulher ter matado Viador (normalmente, esta é a primeira questão a
verificar). Ela não teria a menor noção de como fazê-lo.

196
Além do mais, parecia haver ali genuíno afeto - ou, pelo menos, mágoa
por tê-lo perdido. A morte dele em nada a beneficiava. Na verdade,
perdera a grande liberdade que tinha como esposa de um homem muito
rico - sobretudo (sejamos cínicos) tratando-se de um que passava o
dia inteiro no ginásio.

Não pude aferir quanto amara o marido, mas percebi que se sentia
responsável por ele. Num casamento, que mais poderá ser pedido? Ela
choraria Júlio Viador. Percorreria a memória da vida que tinham
passado juntos, lamentaria não terem aproveitado melhor o tempo... e,
se o amasse o suficiente, até desejaria ter tido um filho dele. Fora
um homem que só falava de atletismo, descrito como um péssimo
companheiro de refeição, mas muitas lágrimas seriam derramadas em sua
memória.

Dado que à viúva não ocorria alguém que tivesse detestado Viador,
receava agora que o atacante aparentemente sem motivo pudesse querer
atacá-la também. O assassino não só lhe destruíra o lar e dilacerara
a vida, como ainda a aterrorizara.

197
28

A viúva de Viador era apenas um ano mais nova do que eu quando perdi
o Rapaz da Quinta. O seu sofrimento ecoava o meu. Regra geral, eu
previa situações do género, mas esta apanhou-me de surpresa.
Inesperadamente emotiva, saí da divisão onde deixara a rapariga a
chorar.

Tibério esperava-me lá fora. Limitei-me a resumir os factos, sendo o


mais concisa possível.

- Ela não sabe nada de novo. Nem sequer o viu quando ele chegou a
casa. Ouviu os prantos e depois levaram-na até ao cadáver dele. Nunca
tinha visto um morto. Só se lembra do terror que sentiu. O
acontecimento corresponde ao padrão. É tudo. - Uma nova vaga de
emoção assoberbou-me. - Tem a vida arruinada. Pouco mais é do que uma
criança. Eu tinha a idade dela quando perdi o meu marido de forma
igualmente repentina. Sei aquilo por que ainda terá de passar... Não
fales comigo. Não me sigas. Já estou farta de ti!

Não sei o que o meu rosto revelaria, mas a forma súbita como me fui
embora deve ter sido bastante impressionante. Tibério deixou-me ir
sem uma única palavra de protesto. Depois de o deixar, ele deve ter
voltado à edilidade e mandado Andrónico à minha procura.

198
Eu não estava nem no Edifício Águia, nem no Xarroco. Só poderá ter
sido Ródão a sugerir em que outro local eu poderia encontrar-me. Não
imagino que Tibério o tenha dito a Andrónico, embora na noite
anterior o mensageiro tivesse ficado a saber que eu tinha outro poiso
local: estava encolhida na Armilústria, sentada num dos bancos, com a
estola à minha volta.

Não tinha chorado, mas estava com uma disposição tão negra que até a
mim me espantava. Sabia que deveria ter agido de modo mais controlado
em casa da viúva. Isso só piorava as coisas.

- Atrevo-me? - perguntou Andrónico num tom suave enquanto se sentava


a meu lado.

Esforcei-me por não ficar irritada por ele ter pedido autorização
para se juntar a mim e por o fazer com tanta hesitação. Primeiro,
empoleirou-se na ponta do banco; depois deslizou para mais perto de
mim e limitou-se a fazer-me companhia. Parecia ter noção de que era
disso que eu precisava. Por vezes foge-se apenas para que alguém que
goste de nós vá à nossa procura. Em metade das vezes, ninguém o faz.
É essa a tragédia da vida.

Quando, por fim, olhei diretamente para ele, aqueles olhos castanhos
mostravam-se tão compassivos que por pouco não me desmanchei a
chorar. Ele fez-me uma careta trocista. Sabia que eu era capaz de ser
levada pela fúria, mas eu via que isso não o assustava.

Perguntei-me se saberia que tinha sido eu a fazer o ferimento na mão


de Tibério.

Ao fim de algum tempo, murmurei:

- Agradeço a tua amabilidade. Não vais ficar em apuros? Podiam


dispensar-te do trabalho?

- Estou a seguir ordens. Nem quero imaginar o que terás feito a


Tibério. Ele acha-se um durão, mas estava com um ar mesmo assustado.

199
- Não fui profissional. Deixei-me perturbar, em vez de permanecer
neutra.

- Queres contar-me?

- Obrigada, mas não. A minha estupidez não é problema teu.

- Achas? - Andrónico fitou-me com uns olhos tristes e arregalados. —


Fui agarrado pelo cachaço, arrancado à sala de arquivo, informado de
que Flávia Albia me encara como um amigo, pelo que é capaz de não me
comer o fígado e os olhos... e então mandam-me vir reconfortar-te. Se
não me tivesse mexido como uma pulga assustada, teria a marca da bota
dele na parte de trás da túnica!

Soltei uma risada ligeira, pensando que teria gostado de testemunhar


essa breve cena.

- Parece que andas a passar muito tempo com ele - resmoneou o meu
amigo, naquele tom quase queixoso que usava por vezes.

- Ciumento?

- Claro! Estremeci.

- Que ideia horrível. Não sejas imbecil. Foi em trabalho. Ele achou
que podia servir-se das minhas capacidades femininas. Não repetirá a
experiência.

- Ele quer aproveitar-se da tua perícia para depois se apropriar da


glória - avisou-me Andrónico. - Nele, tudo é uma questão de
aparência.

- Tenho noção disso.

- Então e ajudaste-o?

- Não o suficiente para ter qualquer valor.

Suspirei e descontraí, contente por estar com alguém em quem


confiava. Era por isso que ficara tão afetada. A jovem viúva
solitária tinha-me recordado de que costumava partilhar as minhas
preocupações com o Rapaz da Quinta. Conversar sobre os meus casos com
Lentulo sempre me ajudara a esclarecer os enigmas. Ele adorava ouvir-
me; para ele, eu era como uma contadora de histórias. Desde a sua
morte que não tinha nada de semelhante, motivo pelo qual me
identificara tanto com o isolamento sentido pela viúva de Viador.

200
Ainda assim, agora tinha alguém com quem podia confidenciar.

- Não há esperança, Andrónico. Estamos a tentar resolver uma série de


mortes aparentemente sem qualquer ligação entre si, onde nem sequer
as vítimas afligidas se apercebem de que algo mau aconteceu. - Fiz
uma pausa. - Exceto talvez uma velhota. Celendina. Ela disse o meu
nome; poderia estar a dizer ao filho que me envolvesse.

- Ela disse mais alguma coisa? - perguntou Andrónico, incentivando-me


a contar a história para me ajudar a repensar os indícios. Eu adorava
a forma atenciosa como ele me escutava.

- Acho que não. Mesmo que tenha dito, o filho, a única pessoa com
quem falou, é incapaz de se recordar.

- O que lhe aconteceu?

- Ficou trancado na associação de vigilantes?

- Acham que ele a matou?

- Possivelmente. Mas não poderia ter matado os outros. Nunca saía de


casa.

- E não tens outras pistas sobre quem andará a fazer isto? Virei a
cabeça e tornei a olhar para ele.

-Não.

- Também nunca me dirias! - comentou ele com um sorriso.

- Pois não - concordei, também a sorrir, pois agradava-me reconhecer


abertamente que por vezes teria de ser discreta. Andrónico encolheu
os ombros. Se havia segredos entre nós, isso não nos incomodava.

Em vez de insistir, rogou-me que lhe dissesse porque estava tão


incomodada. Como se tratava de uma questão pessoal, que não
influenciava caso algum, decidi contar-lhe. Expliquei-lhe o assomo de
memória que havia tido quando as feições delicadas e imaturas da
mulher enlutada de Viador e a forma como se desfazia em lágrimas me
tinha feito recordar a minha própria juventude. Ela tinha passado a
primeira fase, a da recusa em aceitar o que acontecera, e encontrava-
se agora na do espanto. Eu sabia isso tudo.

201
Sabia como era o pânico que ela estava a sentir, ao descobrir-se só
de forma tão inesperada.

- Quando isso me aconteceu, eu tinha percorrido inocentemente o


caminho até casa depois de comprar coroas de flores para um evento
familiar e, quando cheguei, havia gente à minha espera no
apartamento. Contaram-me que tinha havido um acidente na rua. Que
Lentulo tinha morrido. Os meses seguintes foram terríveis... o
isolamento absoluto, por mais que as outras pessoas se compadeçam. O
medo de sermos incapazes de aguentar a vida sozinhos, depois de nos
habituarmos a partilhar tudo. - O meu bom amigo acenou com a cabeça,
cheio de amabilidade. Isso fez-me pensar que mágoas, se algumas, ele
próprio teria conhecido. É comum os escravos enlutados não poderem
demonstrar a sua mágoa, devendo prosseguir impassivelmente os deveres
que lhes competem. - Ele deveria fazer essas coisas simples,
Andrónico... pois até um tipo rico de vez em quando deve encontrar um
brinco que a mulher perdeu, ou tomar a decisão de chamar o
carpinteiro, ou decidir que o almoço será de carnes frias quando ela
não pode escolher. Júlio Viador passava o dia no ginásio, mas decerto
iria a casa às refeições e para dormir, mesmo que só resmungasse
quando ela falava com ele.

Quando finalmente parei, abalada por tantas revelações acerca de um


tema sobre o qual nunca tinha falado, Andrónico perguntou-me num tom
submisso:

- Achas que tinham uma boa relação?

- Sei que tinham. Isso tornou-se óbvio enquanto falava com ela.

- Ela é jovem. Há de tornar a casar.

- Por ora nem consegue pensar nisso. Andrónico sorriu.

- E, claro está, tu não voltaste a casar.

- Eu era uma personagem fraturante. A viúva de Viador vem de uma


família muito convencional. Ela própria é convencional. Os pais dela
hão de arranjar-lhe outro marido, sugerindo que será um consolo.
Suponho que ela acatará a sugestão. É maleável.

202
Vão empurrá-la para essa situação antes de ela estar preparada, bem
antes de ter estabilizado. E vai acreditar que é a coisa certa a
fazer.

- Pareces mais importunada em relação a essa jovem, que ao menos


continua viva, do que quanto ao morto - comentou Andrónico.

- Ele já não pertence ao mundo dos vivos. Já não sente dor.

- Como é que sabias que a viúva era jovem? - perguntei abruptamente,


embora de facto fosse lógico.

- Foi a nossa casa quando Viador jantou com Túlio.

- Foi? — Tibério não mencionara esse pormenor. Concluí que só dava


importância aos homens, pois dissera tão-somente que tinha conhecido
Júlio Viador. Uma esposa a acompanhá-lo não era relevante. - Viste-a?

- Bonita, não propriamente estúpida, mas perdia-se quando os homens


começavam a falar. Encontrei-a a deambular pelo peristilo, toda
engalanada nas suas roupas ricas e joias sofisticadas, a mergulhar os
dedos numa fonte, entediada até mais não. Sabes como é: os homens
passam horas a discutir contratos, ela é admirada pelos moços de
serviço durante bastante tempo, pede licença para utilizar os lavabos
e depois fica no jardim durante o máximo de tempo possível.

- Oh, conheço essa cena!

Também eu desfrutara de um pouco de ar fresco noturno numa colunata


fragrante, querendo ir para casa mas tendo de permanecer nalgum
jantar infeliz para dar a impressão de cordialidade. Entretinha-me a
imaginar formas hediondas de provocar a desgraça de outros convivas -
embora, na minha opinião, a mulher de Viador não tivesse tanta
imaginação.

- Felizmente, lá aparece um arquivista elegante e jovial que se


apieda e conversa com ela.

Era a minha vez de sentir ciúmes, embora os disfarçasse melhor do que


ele.

203
- Tens-te em grande conta, Andrónico! Também conheceste Viador?
Tibério diz que não gostou dele. Qual foi o teu veredito?

- Pescoço grosso, cabeça dura. Coxas grandes, bíceps grandes, uma


opinião de si mesmo ainda maior. Um brigão.

- Porque dizes isso? Ele intimidava-a?

- Não, não diria tanto. Mas é verdade que se levantou da sala de


jantar, querendo saber o que a demorava.

- Ela tinha medo dele? Não fiquei com essa impressão.

- A tua apreciação é sempre certeira - elogiou-me Andrónico.


Derretia-me com a sua admiração, talvez com demasiada facilidade.
Estava habituada a pessoas que davam elogios de forma mais
provocadora e que os disfarçavam com ironia. — Definitivamente não
tinha medo. Voltou de bom grado para a sala de jantar com o marido.
Ele passou o braço peludo por cima dos ombros dela, ela passou o seu
à volta da cintura dele. - Assenti com a cabeça, tranquilizada.
Passado um pouco, Andrónico acrescentou: - Depois Fausto mandou
chamar o flautista para aligeirar o ambiente da festa. Viador e a
mulherzinha não ficaram até muito tarde. Ele tinha bebido muito e
concluído algumas questões com Túlio. Suponho que a terá levado para
casa para uma boa queca.

- Às vezes és muito grosseiro!

- Eu sei como são essas pessoas - replicou ele. Deixou bem claro que
não estava a fazer um elogio.

Pouco tempo depois, o frio e a rigidez do corpo convenceram-me de que


estava na hora de ir andando. Antes de Andrónico me ter encontrado,
eu tinha enfrentado a raiva e a dor; falar com ele ajudou. Levantei-
me... e logo tornei a sentar-me, pois tinha divisado duas orelhas
esticadas por cima da muralha; Robigo, a minha raposa favorita,
estava ali sentado, e talvez já estivesse há algum tempo.

Andrónico reparou e, astuto como era, percebeu que eu estava


particularmente interessada. Também voltou a sentar-se. Não dissemos
uma palavra, enquanto eu esperava por ver o que faria Robigo.

204
Eu não lhe tinha deixado comida; fiquei, pois, espantada com o facto
de o animal descer e andar a farejar por ali; depois não detetei
movimento durante algum tempo, mas ainda não o vira ir-se embora. Por
fim, aproximei-me do sítio onde costumava deixar-lhe restos e
descobri o motivo: uma grande armadilha tinha sido colocada no sítio
onde eu habitualmente pousava a sua tigela. Robigo estava lá dentro,
a dar em doido.

Acocorando-me perto dele, comecei a falar-lhe num tom calmo. Ele


imobilizou-se, colado ao lado oposto da armadilha. Andrónico avançou
por trás de mim para ver o que estava a acontecer. Também se acocorou
a meu lado.

- Andam a apanhar raposas para a Cerealia.

- Bem, não vão ficar com esta!

Apesar de trabalhar para os edis, tão intimamente ligados ao Templo


de Ceres, o meu amigo tinha uma atitude suficientemente insubordinada
para eu não recear uma traição.

Falando em voz baixa para manter a raposa aprisionada tranquila,


contei a Andrónico a minha aversão pelo ritual dos archotes e o facto
de alimentar os animais ali.

- Alguém me deve ter visto! Usaram a confiança dele em mim para o


apanharem. A culpa é minha.

- O que vais fazer?

- Libertá-lo, claro. Mas preciso de o acalmar primeiro. Dão com cada


dentada...

Levantei-me e aproximei-me da armadilha, sempre a murmurar a Robigo,


que entretanto tinha começado a tremer violentamente e a revirar os
olhos à medida que eu avançava. Sobressaltou-se uma vez, mas não
correu de um lado para o outro na jaula como quando eu o encontrara.
O seu belo pelo estava molhado de saliva espumosa; tinha sangue no
focinho. Devia ter tentado morder a jaula para se libertar.

205
A armadilha era uma jaula comprida de arame, em forma de caixa.
Parecia velha e enferrujada; deviam usar as mesmas, ano após ano.
Punham carne crua numa ponta. Ao entrar, o que só devia ter
acontecido depois de muita investigação cautelosa, Robigo pisara um
cordel que puxara a porta, fechando-a. Eu tinha de puxar um arame
para que a porta voltasse a abrir-se. Precisava de me pôr de lado e
de me afastar da entrada, deixando-lhe a rota de fuga desimpedida.

Quando ordenei a Andrónico que saísse do caminho, ele perguntou-me:

- Queres que eu faça isso?

- Não é preciso.

- Presumo que já tenhas mexido em armadilhas de animais?

- Nunca o admitirei!

Naquele ano e já antes, sim, tinha-o feito. Vagueava pelo Aventino em


busca das armadilhas e salvava o máximo de animais capturados que
conseguisse. Quando encontrava armadilhas vazias, deixava-as com as
portas bem fechadas.

- O ritual deles é maldoso. Faço tudo o que posso para os impedir.

- Eles não se limitam a apanhar criaturas da zona - disse-me


Andrónico. Estava a par dos preparativos. - Em abril, um campónio
velho e sinistro, suado e que tresanda a pocilga, traz uma carroça
cheia da Campânia.

- Eu sei. É o mesmo todos os anos. Pagam-lhe uma recompensa por cada


raposa viva que fornece. Se conseguir descobrir onde é que guardam
essas, também as libertarei.

- Estás a falar a sério! - maravilhou-se Andrónico.

- Confio na tua discrição - avisei-o.

Não lhe pedi que me ajudasse. Isso seria demasiado. Mas, de moto
próprio, ele disse que ia ver se conseguia descobrir onde os edis
guardavam as raposas da Campânia. Já deveriam ter chegado a Roma.

206
Eu tinha puxado o cordel da jaula de Robigo e já podia abrir a porta.
A raposa-macho observava-me, sem emitir qualquer som. Assim que viu
que o caminho estava desimpedido, passou pela abertura e fugiu, com a
cauda a adejar atrás. Como sempre que liberto um animal encurralado,
senti o mesmo assomo de pânico que ele deveria ter sentido, a que no
entanto se seguia um alívio feliz.

207
29

Passei grande parte do dia seguinte a tratar da minha própria vida.


Não abandonara a investigação dos crimes, mas não havia pistas óbvias
a seguir e eu não tinha a mínima vontade de me submeter a mais
agravos de Tibério, pelo que estava determinada a evitá-lo. Coligi as
minhas notas acerca de vários outros casos de clientes privados;
ultimamente, tinha-os negligenciado. Executei tarefas domésticas, que
incluíram até coser uma fita entrançada na gola de uma túnica que,
por ser quadrada, tinha sofrido o desgaste habitual na parte mais
frágil de um canto. Estava a cobrir o ponto de escada com o debrum
entrançado, o que também fortaleceria a gola e prolongaria a vida da
peça. Era uma boa túnica, azul, que sempre fora uma das minhas cores
preferidas, apesar de ser dispendiosa e desbotar imenso.

Gostava bastante de costurar. Agradava-me o puxa-e-empurra tranquilo


da agulha enquanto ia perfurando as camadas de túnica e forro para
fazer passar a linha, e a satisfação de alisar bem o trabalho, para
ficar direito à medida que progredia.

A tarefa acalmava-me depois de mais uma experiência que me deixara


horrorizada: tinha passado a manhã a andar pelo Aventino, em busca de
mais armadilhas de raposas. Tinha encontrado várias. A exceção de
uma, todas estavam vazias e eu deixei-as seguras.

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A última continha uma raposa jovem, morta. Antes ou depois de ter
caído, os corvos tinham conseguido enfiar o bico pela grade de arame,
arrancando-lhe os olhos. Enxotei-os, mas depois só fui capaz de me
afastar também.

Tinha acabado de coser a gola quando Andrónico apareceu. Eu estava no


meu escritório, sentada em frente às portadas da varanda para
aproveitar a melhor luz. Ao ouvir a sua saudação animada, mordi a
linha depois do último ponto e enfiei cuidadosamente a agulha na fita
entrançada; as agulhas não são baratas.

- Qualquer dia teço ao tear como uma esposa tradicional! -trocei de


mim mesma enquanto arrumava o meu trabalho e pegava na caixa de
costura.

O meu amigo tirou-ma da mão, inspecionando o estojo elegante que fora


um presente dos meus pais: de uma bela e fragrante madeira de cedro,
com padrões de marfim embutidos e encaixes de prata. As minhas irmãs
mais novas tinham-se entretido a rechear o conteúdo: um dedal de
bronze, uma tesoura, um abre-casas, um estojo de marfim gravado para
agulhas. Eu enchera a caixa com restos de cordão entrançado e linhas,
botões e contas. Para qualquer outra pessoa não passava de uma
miscelânea desarrumada, embora para mim cada tesouro barato
representasse uma história passada.

- Alguém gosta de ti!

Ao pousar a caixa decorativa na minha mesa, Andrónico estava com o


seu ar desconfiado. O meu adorado de cabelo castanho ali estava,
esguio e cuidado, sem fazer ideia de quão pouco necessário seria ter
ciúmes por minha causa.

- Não é um homem! - repliquei, já sabendo como ele pensava. - Tenho


pais generosos.

- Manténs-te próxima da tua família.

- As pessoas que conhecem a minha história nunca estão à espera


disso... mas porque não?

209
- Vives sozinha - respondeu Andrónico. - Mas parece que escondes
muito do que te rodeia.

- Não escondo o que quer que seja.

- Vives neste sítio horrível, apesar de teres um pai rico.

- Este escritório era do meu pai antes de ser meu. Ele singrou o seu
próprio caminho no mundo e eu faço o mesmo.

- Tiveste sorte, mas viras as costas a uma fortuna. — Andrónico


parecia incapaz de compreender a situação que eu escolhera. Suponho
que, para um liberto, o dinheiro fosse demasiado importante. -
Disseste-me que vieste do nada. Se isso é verdade... - A sua sugestão
implícita de que eu pudesse ter inventado a minha história para o
impressionar espantou-me. Eu tinha um passado complicado; porque
haveria alguém de carregar o fardo de um passado miserável se não
fosse necessário? - .. .porque não aproveitas agora o que tens à tua
disposição?

- Isso pareceria óbvio para a maioria das pessoas. E presumo que seja
o maior receio do meu pai que algum homem de quem as suas filhas
gostem adote uma atitude dessas. - Enquanto explicava a alternativa,
fui erguendo o queixo com orgulho. - Eu não. Nunca o farei. Dou valor
à fortuna, mas abro o meu próprio caminho sempre que posso. Qualquer
um que seja meu amigo perceberá a minha perspetiva.

- Só queria compreender. - Agora Andrónico estava com os olhos muito


abertos, a boca muito séria e uma expressão honesta e franca. - Adoro
a forma como vês as coisas, Albia!

Como que para o provar, disse-me porque tinha ido ao meu encontro. Já
sabia onde os edis mantinham as raposas para a Cerealia. Foi uma
notícia que decerto lhe valeu o meu afeto e gratidão.

O que fizemos durante a hora seguinte foi perigoso e poderia ter


suscitado a ira pública. Andrónico estava ávido não só por me mostrar
onde deveria ir, mas também por se juntar a mim e ajudar. Eu às vezes
cometia loucuras, mas nunca as tinha feito com um parceiro.

210
Como o nosso destino era o Templo de Ceres, que ele conhecia tão bem
e que eu desconhecia quase por completo, teria sido inútil protestar.
De qualquer maneira, a nossa amizade facilmente permitia a partilha
daquela aventura imprudente. A caminho de lá, perguntou-me:

- E o que pensaria a tua maravilhosa família sobre disto?

- Todos me desaconselhariam veemente de o fazer! Tinha-lhe dado a


resposta certa. Ele soltou uma risada delicada.

Por meu turno, perguntei-lhe porque tinha permissão para sair do


emprego. Ele explicou-me que Fausto estava a presidir a uma grande
reunião devido aos preparativos para os Jogos de Ceres, um dever que
não poderia negligenciar, enquanto o tio fora a um banquete bem
regado, uma saída noturna habitual para Túlio. O pessoal da casa
estava sem supervisão. Escravos e libertos entravam e saíam conforme
lhes apetecia.

Estava uma noite agradável, embora fresca. Havia gente na rua, mas
não em grande número. Quanto a nós, avançávamos lado a lado, como
amantes a passear. Ainda era cedo, e havia demasiada luz, para que a
maioria dos ladrões começasse a operar, enquanto as anciãs que
zelavam pelas normas morais tinham ido para casa, partilhar ceias
frugais com os seus gatos. As famílias que saíam de lojas e oficinas
não nos prestavam atenção alguma, dado que obviamente não andávamos a
ver montras. Ninguém se lembraria de nós. Ninguém teria imaginado o
nosso propósito ilegal.

Chegámos ao templo. Um de tantos no Aventino, a sua posição isolada


no lado noroeste, com vista para o Circo Máximo, significava que este
templo em particular ficava voltado para a cidade em frente, como se
oferecesse alguma rivalidade ambiciosa aos imponentes deuses romanos
oficiais do Capitólio.

Ceres era benevolente para com os humanos. Tinha-nos dado a


agricultura e, por via desta, o hábito de uma vida regrada. Como
poderia a deusa que ensinara a humanidade a lavrar, que descobrira o
trigo para nos oferecer, que reinava como patrona de valores humanos
decentes, da paz e da justiça, requerer a tortura de raposas?

211
Um dos seus companheiros naquele templo antigo era Líber, o Pai da
Liberdade, deus do vinho e da virilidade, mas — talvez porque o
álcool solte as línguas - também um promotor da liberdade de
discurso. Aquele templo representava um centro há muito estabelecido
de rebelião contra as restrições da ordem social. O que eu e
Andrónico pretendíamos fazer enquadrava-se pelo menos nesse espírito.

Não que as autoridades plebeias fossem aprová-lo. Se fôssemos vistos


com as raposas - se fôssemos apanhados -, isso seria considerado um
«insulto a Ceres». Tradicionalmente, a punição era a forca.

Nessa noite, o meu amigo estava tão animado que me maravilhava.


Puxou-me pelos degraus gastos e por entre as colunas afastadas e
atarracadas sob os frontões de madeira descorada e depois encaminhou-
se para o santuário. Eu nunca estivera lá dentro. Em Roma, a maior
parte da vida religiosa tem lugar ao ar livre, onde os altares para
sacrifícios se encontram. Na véspera do festival, havia mais gente
presente do que era habitual. As velhas vendiam bolos e favos de mel
em pequenas bancas instaladas entre as colunas.

Passámos por elas e entrámos sem problemas. Outra mulher de idade,


com um vestido branco ao estilo grego, obviamente a sacerdotisa-mor,
estava a cuidar da estátua de Ceres. Os seus movimentos eram perros,
mas endireitou os molhos de trigo da deusa e o archote até ficar
satisfeita antes de se virar. Reconheceu Andrónico e talvez tenha
sido reprovador o olhar que lhe lançou, mas não fez qualquer
tentativa de o expulsar. Ignorou-me. Era permitida a presença de
mulheres ali.

Andrónico era um belo ator. A laia de justificação da nossa presença,


começou a dar-me uma lição sobre as estátuas do culto, como um guia
perante uma turista curiosa.

212
Em sacrários individuais, havia três deuses de bronze extremamente
elegantes, pagos com as coimas que os edis extraíam: Ceres, sentada
na caixa envolvida em serpentes que continha itens secretos usados
nos seus mistérios; Líber, com o seu odre dionisíaco; e Libera,
associada a Prosérpina, a filha que Ceres perdeu para o deus do
Submundo, mas que salvou...

Ao contrário de muitas histórias do panteão oficial de deuses e


deusas - esse grupo estouvado e amoral que parecia preocupar-se acima
de tudo com casos amorosos -, o da Mãe e da Donzela interessava-me
particularmente. A história delas era crucial para o festival.
Dentro de algumas noites, mulheres trajadas de branco percorreriam
todo o Aventino com archotes, representando a busca desesperada da
deusa desolada pela filha desaparecida, quando a terra morre nas
trevas do inverno antes de a mãe reencontrar a filha na luz e
rebentos verdes poderem voltar a irromper. Até na cidade - sobretudo
na cidade, onde havia tantas bocas para alimentar - era celebrada a
renovação do cereal que sustentava a vida.

Uma vez, segundo a lenda, um rapaz encontrara uma raposa a roubar


galinhas. Quando tentara queimar a raposa viva, esta fugira e,
correndo com a cauda em chamas, incendiara os campos e destruíra as
preciosas colheitas de cereais. Desde então que se castigavam raposas
em nome de Ceres...

Ficámos sós no átrio que cheirava a incenso. Havia umas quantas


lamparinas suspensas a iluminar e acompanhar os deuses. Andrónico
piscou-me o olho, mas, comedido, não desrespeitou de forma alguma as
divindades. Levou-me para o exterior nas traseiras; esgueirámo-nos
por entre as colunas e descemos do pódio, já com o coração aos pulos.
Não havia dúvida de que ele liderava a expedição à medida que saíamos
da rua principal, mantendo-nos nas sombras ao longo de um dos lados
do templo, até chegarmos a uma passagem discreta. A maior parte dos
templos tem-nas, regra geral tratando-se de entradas para caixas-
fortes subterrâneas onde podem ser guardados tesouros. Ali ficava o
arquivo senatorial pelo qual Andrónico era responsável, um armazém de
decretos mantidos no cerne da Roma plebeia, cuidados por gente comum,
como numa afronta à aristocracia.

213
Ele levou-me lá dentro e mostrou-me os columbários, as filas
intermináveis de urnas que continham pergaminhos e compunham o seu
domínio.

Roubou-me um beijo. Estava altamente excitado e eu percebi que queria


mais e o conseguiria, desafiando a moralidade ali no meio dos
pergaminhos armazenados, caso eu não estivesse absolutamente
concentrada na nossa missão.

- Depois! - sibilei, deixando-o perceber que também desejava que não


tivéssemos de esperar.

Mais adiante na rua, ainda por baixo do templo, havia um armazém.


Desarrumado mas funcional, era idêntico a qualquer esconderijo para
equipamento. Era ali que guardavam os materiais de limpeza e as
lamparinas, itens do culto e um monte de archotes nunca antes acesos
a postos para o festival. Andrónico mostrou-me um pilar fálico, um
atributo de Líber, ali abandonado a acumular pó. Segundo me contou,
as sacerdotisas do culto formavam um grupo de matronas moralistas que
se tinham desfeito do enorme membro ereto numa das muitas limpezas de
primavera a que se dedicavam. Tocou-lhe sugestivamente com um dedo;
rimo-nos.

Ao contrário do arquivo, do qual Andrónico possuía uma chave


especial, tínhamos encontrado aquele armazém destrancado. Ele contou-
me que devia haver dois escravos públicos a guardá-lo, os mesmos
coitados que varriam os degraus do templo e todos os dias iam buscar
água a fontes para lavarem o altar. À noite saíam para cear e, como
serviam um templo que abrigava um deus do vinho, sabia-se que eram da
opinião de que Líber quereria que melhorassem a refeição com as
alegrias de sumo de uva fermentada. Por isso, demorariam algum tempo
a voltar, já tocados.

Tinham deixado uma lanterna acesa para não tropeçarem nos objetos
quando regressassem - e para proporcionarem alguma luz às
incumbências que tinham naquele momento: quatro raposas aflitas e
sarnentas.

214
Agimos depressa.

Os animais estavam todos dentro de uma grande jaula. Tinham água, mas
não havia comida à vista. Rosnavam e o fedor das tristes criaturas
tinha-se impregnado no armazém. Quanto a mim, não conseguia imaginar
como haveriam de as apanhar e controlar o suficiente para lhes
prenderem archotes acesos às caudas. A ideia era hedionda. Andrónico
disse que seriam chamados homens dos estábulos imperiais.

- Eu sei o que as raposas fazem - reconheci. - O meu marido nasceu


numa quinta. Sempre detestou raposas porque matam as aves. Arrancam
as cabeças às galinhas, quer precisem de comida quer não. Todos os
anos, enquanto eu me escondia em casa e deplorava o ritual, ele saía
e juntava-se à procissão, aos gritos no meio da multidão até ao
Circo.

- Então vocês não tinham nada em comum?

- O amor faz-nos ficar com alguém apesar dos desentendimentos.

- Não percebo - disse ele.

- Então cala-te e ajuda-me a fazer isto.

Tínhamos de ser cautelosos. Raposas à solta naquele armazém


provocariam um caos que de nada serviria. Precisávamos de que as
criaturas fossem diretamente para a rua e fugissem. Para nos
assegurarmos de que era isso que acontecia, manobrámos aquela grande
jaula até à entrada antes de a abrirmos. As raposas encolheram-se,
pois receavam que quiséssemos fazer-lhes mal. Ao início, limitaram-se
a fitar a porta aberta, avaliando a nova situação. Enxotámo-las,
tentando não fazer muito barulho, para não atrair as atenções. Por
fim, uma delas avançou e pôs o nariz de fora, após o que correu rente
ao chão, à procura de um lugar seguro; as outras seguiram-na. A
terceira esperou pela quarta, como se fossem companheiras ou irmãs.
Já na rua, todas se misturaram nas sombras e depressa deixaram de ser
visíveis. Ouvi um latido roufenho e nada mais.

Afastámos a jaula para podermos sair. Eu só queria ir embora dali o


mais depressa possível; Andrónico decidiu então causar ainda mais
contratempos aos rituais.

215
Agarrou na pilha de archotes e despejou-a na estrada. Entornou um
balde de alcatrão por cima deles. Perante a minha admiração, mal
sendo capaz de acreditar na sua ousadia, ele ateou uma acha na
lanterna. Protegendo a chama, com os olhos brilhantes, levou o seu
círio para o exterior e deixou-o cair sobre a pilha de tições. Estes
inflamaram-se, provocando um brilho quente e súbito que nos iluminou
as faces arrebatadas. Pontapeou um archote solto para aquela
fogueira, o que causou uma torrente de chispas. Eu corri para dentro
em busca de mais archotes para acrescentar à fogueira, até toda
aquela rua lateral estar cheia de luz e fogo.

O cheiro do fumo deveria ter-se espraiado. Ao ouvir o apito próximo


de um vigilante, Andrónico deu-me a mão e, ambos a rir bem alto,
finalmente virámo-nos e fugimos. Assim desaparecemos da área do
templo, correndo para a noite, tal como as raposas.

216
30

Tínhamos fugido para norte porque os gritos nos indicavam que os


vigiles se aproximavam vindos da rua do lado da entrada do templo.
Para nos afastarmos deles chegámos ao sopé da colina, perto do silo
de trigo, e então os nossos passos levaram-nos naturalmente até à
margem do Tibre. Caminhámos, sem largarmos a mão um do outro, pelo
longo pórtico da Porta Trigemina. As bancas estavam fechadas por ser
de noite e algumas tinham mesmo sido levadas; apesar de passarmos
pela banca familiar de Lupo, o abridor de ostras assassinado, esta
encontrava-se deserta e nós não mencionámos o assunto.

Tínhamos acalmado, embora continuássemos de cabeças encostadas, o meu


cocuruto escuro contra as suas patilhas arruivadas, e a desatar a
rir. Éramos como crianças marotas, embora os nossos atos nos
tornassem bem piores do que uns traquinas. As consequências poderiam
ter sido pavorosas, e não apenas para nós. Poderíamos ter provocado
uma terrível destruição; as madeiras centenárias do telhado do templo
inflamar-se-iam num instante se uma fagulha saltasse à altura de um
frontão. Depois, quem poderia prever o alcance das chamas? Tinham
decorrido pouco mais de dez anos desde que um enorme fogo arrasara
metade de Roma; os trabalhos de reconstrução ainda estavam em curso.

217
Olhámos para o rio. Passeámos pelo porto, junto das velhas salinas e
dos barcos ancorados, ouvindo a água a bater na margem e os ruídos
dos armazéns e das tabernas nas duas margens. Escurecera havia pouco
tempo. Roma era uma amálgama de sombras misteriosas e edifícios
ocultos à nossa volta, com a luz remanescente a infundir o céu acima
de nós, onde apenas uns fiapos de nuvem deslizavam lentamente e ainda
não havia estrelas. Abril ia a meio, o tempo estava fresco mas
suportável, com uma brisa impetuosa que comportava um laivo ténue do
calor estival que em breve chegaria. Tinham começado a surgir luzes
minúsculas, meros pontinhos. Onde havia seres humanos reunidos para
se entreterem, fileiras ocasionais pendiam como contas do colar de
uma deusa nos céus. Pontos isolados no alto de edifícios marcavam a
vigília de um estudioso ou de doentes insones.

Eu e Andrónico estávamos em silêncio. Perto da água fazia mais frio;


tínhamos agasalhos; deixámos de dar as mãos e cada um se envolveu
melhor nos abrigos, ficando separados. Naquele momento, o local
poderia ser considerado romântico; mais tarde, tornar-se-ia um sítio
indecoroso, frequentado por prostitutos de todos os sexos e pelos
seus clientes, já para não falar dos carteiristas que os perseguiam,
regra geral em conluio com as rameiras. Até então, passeios e vias
tinham estado praticamente libertas. Porém, agora a proibição diurna
de veículos com rodas era levantada, pelo que as carroças começavam a
avançar ruidosamente do porto para o interior de Roma. Em breve as
ruas estariam caóticas. Em uníssono, movemo-nos, regressando ao
Aventino.

Subimos a colina por onde a descêramos. Sozinha, eu não teria feito


isso, mas estava a deixar Andrónico liderar. Ele parecia gostar do
perigo; até nos fez passar pela parede traseira do templo, para
olharmos para aquela rua lateral, o local do nosso crime. Os vigiles
deviam ter extinguido o fogo e varrido os resíduos. Ouvíamos vozes
dentro do armazém, embora não conseguíssemos ver lá para dentro.

218
- Hão de apanhar mais raposas. Hão de trazer mais archotes. Mas
provocámos-lhes um belo contratempo... - Andrónico piscou-me o olho.
- E Fausto detestará esta interferência na sua gestão do festival.

- Isso agrada-te - comentei.

Irritar o amo deveria ter sido a motivação para Andrónico me ajudar


naquela noite.

- Oh, pois agrada! Fizemo-lo parecer inútil. Vai ficar lívido!


Parecia não dedicar o mais ínfimo pensamento a termos feito

algo de errado. Essa era uma grande diferença entre nós. Uma
sociedade civilizada precisa de regras (obrigada, Ceres, por levares
a humanidade a abandonar os seus hábitos bárbaros!). Eu estava bem
ciente de que tínhamos infringido essas regras. Para mim, isso
justificava-se porque uma pessoa civilizada deve estar sempre
disposta a exercer o seu direito à escolha. Um indivíduo deve ter
consciência - e servir-se dela. Eu podia parecer selvagem, mas
naqueles tempos isso não passava de uma ilusão; Andrónico parecia
respeitável, mas talvez isso fosse enganador. Naquela noite,
aparentava não ter consciência.

O insensato temerário teria descido a rua para ver melhor, mas eu


recusei-me a acompanhá-lo. Seria perfeitamente capaz de caminhar como
uma transeunte inocente, mas porque haveríamos de desafiar a sorte e
deixar que reparassem em nós? Fiz questão de que avançássemos por um
par de quarteirões, virando depois dos Templos de Flora e Luna, para
em seguida avançarmos pela minha zona por umas quantas ruas
secundárias e isoladas, até subirmos pela Rua da Armilústria.

Acabámos no Xarroco. Era um caso clássico de apetência por vinho, que


tornaria a animar-nos no anticlímax após uma aventura louca. Quem
quer que tenha reparado na nossa chegada, de olhos brilhantes e sem
fôlego, certamente terá pensado que vínhamos diretamente de uma cama
de paixão ardente. Como não havia mesas disponíveis, encostámo-nos ao
balcão. Era aí que estávamos, a mordiscar uns petiscos e a emborcar
vinum primitivum (o único vinho saboroso da casa que a minha tia
tinha, jurando que o nome era mal aplicado), quando Tibério e Morelo
chegaram com cara de poucos amigos.

219
Passara tempo suficiente para que tivessem sido chamados ao local do
incêndio pela patrulha que o detetara, para avaliarem os estragos e
alinhavarem uma teoria. Muito bem, rapazes. Tibério deveria lembrar-
se de que eu dava de comer a Robigo; sabia que eu gostava de raposas.
Agora ele e o investigador dos vigiles estavam ali à minha procura.
Verem Andrónico comigo só lhes dava mais ideias.

Morelo explicou em tom grave o sucedido, com o ar de um homem que crê


estar a desperdiçar tempo com gente já ao corrente da situação.
Envergava o seu equipamento de serviço noturno: o traje diurno
habitual por cima da pança gorda, mais uma machada enfiada na parte
de trás do cinto e um bastão pesado à frente. Parecia que nenhum
deles era decorativo e que ele lhes dava uso com frequência. Já
Tibério estava a usar a melhor túnica que eu alguma vez lhe vira, de
um branco prístino e esmerado; parecia irritado, como se tivesse sido
arrancado a uma noite de lazer que lhe custasse perder. Andrónico
poderia esperar que tivéssemos deixado Mânlio Fausto lívido, mas o
edil não se poria a percorrer vielas fétidas durante a noite, onde
bêbedos poderiam insultá-lo ou pegas apalpado indecentemente por
baixo da toga. Tinha enviado o seu homem-das-ruas para sofrer por si.

- Olha, Albia, nós sabemos que tens um interesse bondoso pela vida
selvagem - dirigiu-se-me Morelo na sua voz oficialmente
condescendente. Tibério mantinha-se calado, de braços cruzados.

- Estou a ver. - Cuspi um caroço de azeitona. - É claro que adoro


animais. Nasci numa província cheia de cavalos, onde os bárbaros
veneram lebres... mesmo quando vim para Roma, era eu quem passeava o
cão da família. Por isso, para um idiota, é uma conclusão lógica.
Porque hás de dar-te ao trabalho de procurar provas, Morelo, quando
podes atacar um alvo tão fácil?

220
- Onde é que vocês têm estado? - perguntou pacientemente. Tibério
continuava calado. Aqueles olhos cinzentos iam-se

movendo, observando, avaliando, chegando a más conclusões.


Preocupava-me mais do que Morelo.

- Aqui! - interveio Andrónico, embora eu tivesse estado a tentar


mantê-lo fora da conversa. - Estivemos aqui, a cear e a petiscar,
toda a noite. Perguntem a quem quiserem.

Na verdade, qualquer pessoa poderia dizer que ele estava a mentir -


mas ninguém o faria. Os movimentos habituais já tinham tido lugar
entre os outros fregueses: assim que os vigiles chegaram, tinham
deslizado moedas pelo balcão para saldar o que haviam consumido
(subestimando bastante o consumo), desaparecendo em seguida. Morelo
fizera-se acompanhar por dois dos seus homens, mas estes tinham-se
dedicado aos seus procedimentos habituais -ficar de pé, com um ar
simplório, enquanto todas as potenciais testemunhas se iam embora.

Outrora, em Londínio, eu teria sido a primeira a esgueirar-me. Agora


era respeitável e tinha de me impor. Para Tibério e Morelo, fugir
provaria a minha culpa.

O Xarroco tinha-se esvaziado de repente, exceção feita ao meu primo.

Dado que a taberna estivera bastante apinhada até então, Junilo ainda
não limpara o balcão. Tratava-se da noite em que o outro criado ia ao
seu clube; Apolónio frequentava uma reunião semanal de enigmas de
geometria, um passatempo inofensivo mas que não podia ser referido
diante de qualquer pessoa ao serviço da edilidade ou dos vigiles,
sobretudo no atual clima paranoico de Roma. A matemática é uma
atividade suspeita. Todos aqueles desenhos de hipotenusas devem ser
planos de tentativas de homicídio. A álgebra é um código traiçoeiro.
Quem conhece um estudante de cálculo infinitesimal que não nutra
ambições insaciáveis de governar o mundo? E quem quer que afirme que
Arquimedes foi assassinado durante a tomada de Siracusa por um
soldado que não sabia quem ele era ignora a forma como operam as
forças militares.

221
Terá certamente havido uma ordem secreta: homem afazer diagramas na
terra equivale a alvo número um.

A expressão do mensageiro dizia-me que o seu alvo era eu.

Então: Apolónio, que mantinha o balcão meticulosamente limpo, não


estava presente. Junilo presidia alegremente à perfeita balbúrdia. A
meu lado, Andrónico acenou com o braço por cima das tigelas e taças
usadas em cima das placas de mármore. Isso deveria bastar. Não
obstante, seguiu-se uma pantomina na qual Andrónico perguntou a
Junilo se nos tinha servido durante toda a noite. Morelo também
participou, agitando o dedo indicador para avisar Junilo de que
aquele era um assunto de extrema importância.

Quanto a mim, observava a cena com apreensão. Junilo apoiou-se nos


antebraços. Afastando uma madeixa comprida que lhe tinha caído sobre
os olhos, franziu o sobrolho, para demonstrar que queria ter a
certeza de que tinha percebido. Apontou para as taças de comida, como
um mau ator numa tragédia muito enfadonha. Na verdade, já me conhecia
o suficiente para saber que eu nunca teria pedido polenta e que, caso
o estufado de alho francês com lentilhas fosse meu, eu teria rapado o
molho com o dedo antes de acabar. Nunca deixo a loiça cheia de
resíduos.

Junilo era um rapaz inteligente e bem humorado com uma certa


malandrice, que tinha uma deficiência. Era independente e aceitava o
que a vida lhe dava. Mas tinha sido adotado pelos Dídio, pelo que era
nosso. Todos cuidávamos dele. Isso deixava-me desconfortável nesta
situação.

Junilo mentiu a Morelo e ao mensageiro sem hesitar:

- Toda a noite - cantarolou, com as suas sílabas caracteristicamente


pesadas. A mãe esforçara-se muito para o ensinar a falar, mas ele
exagerava nas consoantes e demorava-se nas vogais. O seu discurso
parecia sempre estranho, embora fosse inteligível quando ele se
atinha a coisas simples. - Albia no Xarroco.

222
Apontou para a imagem do peixe. Depois sorriu, olhando para todos os
que estavam do outro lado do balcão, como um acrobata particularmente
irritante à cata de aplausos. O rapaz maroto estava a servir-se da
sua própria fraqueza. O que resultava na perfeição.

Andrónico deveria ter permitido que a história morresse ali, mas


deixou-se levar pela diversão da invenção.

- Podes dizer a verdade, Junilo... houve um grande intervalo, quando


fomos lá acima.

- Lá acima? - espantou-se Morelo, que já me conhecia há alguns anos


e, com razão, considerava aquilo invulgar. - Para quê?

- O que achas? - troçou Andrónico. A luz de uma pequena lamparina


incidia-lhe no cabelo e na barba enquanto ele respondia. - Isto é uma
taberna, há quartos, os fregueses deixam as refeições para se
divertirem.

Dei por mim a corar. Era um costume das tabernas que o sexo
acompanhasse a bebida, um serviço regra geral vendido pela empregada,
embora fosse comum que as empregadas cansadas ficassem aliviadas se
os clientes se limitassem a arrendar o espaço e se desenvencilhassem
por si mesmos.

O Xarroco nunca tivera uma empregada e por acaso eu sabia que, apesar
dos vários eventos duvidosos que tinham lugar nos dois quartos do
andar de cima, naquele momento o espaço encontrava-se arrendado a um
grupo de empreiteiros da Gália. Estes vinham para Roma ganhar
dinheiro e trabalhavam horas sem fim, misturando pozolana nas docas,
o que é trabalho pesado; quando voltavam, alinhavam-se como sardinhas
em lata e dormiam. Até a minha tia dizia que não armavam confusão.

- Olha, Junilo! Flávia Albia passou a noite a divertir-se no quarto


lá em cima? - Morelo acompanhou a pergunta com um gesto grosseiro, à
laia de ilustração. Vi o olhar de Junilo a vacilar, pois sabia que eu
lhe daria um sermão, mas, tentando agradar a toda a gente, acenou com
a cabeça, fazendo uma expressão muito séria. - Oh, muito bem! -
rezingou Morelo, acrescentando para Tibério que nunca poderiam levar
Junilo a tribunal.

223
- Belo álibi - resmungou-me.

E claro que ele sabia que eu estava perfeitamente disposta a ir para


a cama com Andrónico, embora preferisse que ele não se vangloriasse
disso em público. O rosto enojado de Tibério indicava que me
desprezava.

Não posso dizer que tenha ficado com a reputação conspurcada, mas não
há dúvida de que a minha dignidade tinha sofrido uma valente afronta.

Morelo fez mais uma tentativa patética de prosseguir o


interrogatório. Inclinou-se subitamente na minha direção, farejou-me
o manto e anunciou:

- Sabes, Albia, um nariz treinado deteta distintamente que cheiras a


fumo!

Mais uma vez, Andrónico apresentou uma bela desculpa:

- Isso será de estar há horas sentada ao lado da grelha da carne.

- Carne! - resmoneou Morelo, como que a sugerir ao homem do edil que


isso sempre era razão para prender alguém, mas Tibério limitou-se a
abanar a cabeça. Não tinha estômago para leis de restauração naquela
noite. O Xarroco estava a salvo.

Junilo, que estava habituado a servir-se da surdez para vender mais,


fingiu que achara que «Carne» era um pedido, pelo que começou a
preparar pratos com pedaços de cabrito em folhas de alface. Os
vigiles que Morelo levara logo quiseram servir-se, como seria de
esperar. Pouco depois, já estavam a pedir bebidas. Era difícil
perceber que estivera ali a ser debatida alguma questão legal. Até
Tibério já mordiscava o cabrito, salpicando os cubos estorricados com
azeite para os tornar comestíveis, enquanto desenrolava lentamente a
ligadura da mão como se esta o magoasse. A ligadura daquela noite
também era absolutamente branca, a condizer com a túnica; combinar os
acessórios parecia um toque inusitado. Qualquer um o tomaria por um
janota que tinha quem lhe cuidasse do guarda-roupa.

224
Morelo e os seus homens olharam para a ferida e fizeram uma careta.
As cicatrizes de um lado e do outro da mão do mensageiro pingavam,
vermelhas e inflamadas; ele também parecia um pouco febril. Todos os
vigiles foram observar-lhe a mão, como se fossem especialistas. Um
deles foi incumbido de ir chamar o cirurgião ao quartel, para que
este trouxesse os seus unguentos de mástique.

Eu e Andrónico estávamos afastados de um lado; parecia aconselhável


não abandonarmos o local demasiado depressa, depois de termos
insistido de tal forma na nossa longa permanência na taberna. Ele
olhou-me de esguelha.

- Por acaso não sabes como é que ele fez aquilo?

- Porque me perguntas? Eu não sou mãe dele. O que é que ele diz?

- Que se apoiou num prego. Contive o riso.

- A sério? Sempre foi idiota?

Pelo canto do olho, vi Junilo a recolher astutamente os espetos em


que tinha grelhado a carne. O meu jovem primo era mesmo perspicaz. Eu
adorava o rapaz, e a sensação de amargura por ele ter sido persuadido
a mentir regressou.

Pouco depois, passei pela cozinha em direção ao local que servia de


lavabos para os fregueses. A caminho, pisquei o olho a Junilo. Ele
agradeceu-me por ter atraído tanta clientela. A verdade era que a
taberna estava à cunha.

A latrina era um risco para a saúde pública, num barracão anexado às


traseiras. A maioria dos homens ignorava-a e urinava no beco, pelo
que quem ali fosse de sandálias abertas teria de ter cuidado com o
que pisava. Fiz o que tinha a fazer e depois escapuli-me sem me
despedir de quem quer que fosse. Todos os outros eram homens e eu
tinha-me sentido excluída. Até Andrónico estava a rir-se de alguma
piada vulgar com um dos vigiles. Parecia pouco provável que reparasse
que eu me fora embora.

Fui para casa.

225
Ao entrar no Edifício Águia, avistei um animal qualquer a esgueirar-
se ao fundo do quintal. Tanto poderia ser um cão como um gato.
Esperava que fosse a raposa que eu tinha visto uma vez a tomar conta
das crias. Ficara de guarda, debaixo dos degraus, com um ar de
exaustão maternal, enquanto os cachorros passavam uma boa hora a
brincar à apanhada e a saltitarem entre selhas velhas, muito
divertidos.

Disse a Ródão que trancasse o gradeamento e não permitisse a entrada


a ninguém que não morasse ali.

- Isso inclui aquele teu amigo?

- Eu não tenho amigos, Ródão. - Era um mito que eu gostava de


disseminar: os informadores são gente inconstante e solitária. Que
informador pode esperar clientes, se for conhecido por desbaratar o
tempo com um círculo social animado? - Se um dos meus amantes
aparecer, não estou para aí virada. Rejeitá-lo irá apenas deixá-lo
mais ávido amanhã, não é verdade?

- Que amantes? - perguntou Ródão, com um ar intrigado.

Horas depois, o que não constituiu grande surpresa, ouvi de facto


Andrónico a chamar por mim. Não parecia lá muito sóbrio. Apesar de
abanar o portão, Ródão deveria estar a ressonar na sua enxerga e nem
lhe respondeu. De qualquer modo, eu não me sentia pronta para uma
primeira noite de paixão. Libertar as raposas com ele tinha-me
entusiasmado, mas estava ressentida pelo que se sucedera no Xarroco.
Tapei a cabeça com a almofada até aquilo que passava por silêncio se
instalar no Paço da Fonte.

Sabia que tinha agido contra os meus próprios interesses. Isso


certamente provava que estava apaixonada, ou pelo menos excitada. É
obrigatório haver arrufos. Já tinha idade suficiente para saber como
as coisas funcionavam. É assim que se testa se um caso é sério,
quando ele fornece o alimento necessário à poesia angustiada. É
preciso que haja separações no processo de acasalamento, não é?

226
31

Acordei ciente de que já tinham passado doze dias de abril, o que o


calendário romano descreve como a véspera dos idos. Ia começar o
festival da Cerialia. Os organizadores fariam sacrifícios no templo e
haveria uma grande corrida de cavalos no circo; aquela noite
terminaria com o ritual das raposas em chamas. Já não havia muito que
eu pudesse fazer acerca disso. Tentei. Nunca desisto.

Passeei pelo Aventino, em busca de armadilhas. Tinham montado mais,


talvez por estarem a ficar desesperados. Cada armadilha tinha um
membro da associação dos vigiles discretamente de guarda, a fingir
que tomava uma bebida ao balcão de uma taberna ou encostado a uma
parede, servindo-se de um rebento para palitar os dentes.

Estava a voltar para casa, bastante desanimada, quando me deparei com


Morelo. Este não me guardava qualquer ressentimento pelo dia
anterior, quanto mais não fosse porque fora demasiado preguiçoso para
preencher uma ficha de acusação. Estava convencido da minha culpa,
mas era realista; sem testemunhas, o seu caso era fraco - não que
isso tivesse grande importância num tribunal romano. Ele sabia que eu
poderia chamar boas pessoas como testemunhas abonatórias, pelo que,
independentemente dos estratagemas a que um procurador recorresse,
quando os pesos-pesados da minha defesa começassem a falar o caso
seria anulado.

227
Os meus advogados eram do género que depois pediria uma remuneração
pela «falsa» acusação... É claro que sim. As pessoas que eu conhecia
especializavam-se em pedidos de compensação.

Todavia, mostrou-se tão clemente naquela manhã que eu até fiquei a


pensar se ele, ou talvez a esposa, simpatizaria com o que eu sentia a
respeito do ritual das raposas. Era concebível que um casal urbano
não tirasse prazer algum das horríveis e velhas tradições, enraizadas
numa pré-história rural. Porém, eu não ia insistir com o oficial dos
vigiles. Quando questionadas acerca de qualquer aspeto religioso, as
pessoas, na sua maioria, atêm-se ao estabelecido.

- Deixa lá isso, Albia - censurou-me ele, confirmando a minha


suposição. - Só vais piorar as coisas. Agora os agentes do edil andam
a apanhar cães de focinho pontiagudo, para fazer as vezes das
raposas. Tem a bondade de desistir, mulher! Os meus filhos ainda
agora arranjaram um cachorro de pelo arruivado. Enquanto temos de o
manter dentro de casa para os caçadores de cães não levarem o
coitadinho, ele faz chichi nos tapetes todos e está a dar com a minha
mulher em doida!

Esbocei um sorriso triste e derrotado.

O ambiente nas ruas tinha mudado da noite para o dia. Os visitantes


afluíam a Roma, vagueando pelo Aventino não tanto por ser um espaço
cultural importante para os viajantes, mas simplesmente porque era
ali que se encontrava o Templo de Ceres, o centro do festival. Os
trabalhadores estavam a começar o feriado. Havia mais gente do que
era habitual naquela manhã e, à noite, tudo estaria a abarrotar. As
tabernas estavam abertas. Vendedores ambulantes com travessas de
petiscos duvidosos andavam pelas ruas. Raparigas com grinaldas
sentavam-se nos passeios, rodeadas de montes de verduras e flores
demasiado pesados para serem transportados. Só a corrida no Circo
Máximo deixaria a zona novamente sem multidões.

228
Nesse momento, Morelo enfrentaria uma ansiedade dupla: precisaria de
policiar a pista de corridas no vale, ao mesmo tempo que mantinha as
casas e as empresas no alto do monte sob vigilância, para as escudar
dos ladrões que tentariam aproveitar-se da ausência dos
proprietários. Ele já estava habituado, mas adorava queixar-se.

Ficámos a uma esquina, a trocar rumores. Inevitavelmente, conversámos


acerca da nossa grande preocupação, os assassínios aleatórios. Ele
contou-me que, tanto quanto sabia, não tinha havido mais ataques na
zona. As autoridades tinham colocado mais homens nas ruas, para
controlar as multidões. O gesto não convencia Morelo. O instinto
dizia-lhe que aquele louco agia por algum motivo pessoal ainda
desconhecido, convicção com a qual eu concordava. Não seria o simples
facto de haver multidões o que o atrairia. Só se alguém que ele já
tivesse debaixo de olho fosse às corridas é que ele o perseguiria.
Mesmo assim, isso seria uma alteração ao padrão, que era atacar as
vítimas enquanto estas se dedicavam a atividades quotidianas.

Antes de nos despedirmos, Morelo não conseguiu deixar de me


perguntar:

- Então, andas a dar umas voltas com aquele guardador de pergaminhos?

- Sou capaz.

- É cá uma personagem...

- Isso é um insulto na gíria dos vigilantes?

- Demasiado espertinho. Arrogante. Detesto gente assim. Senti-me


magoada por o meu julgamento estar a ser ofendido.

- És uma desgraça. Ele agrada-me. É inteligente, espirituoso,


grato...

- Um peso-pluma. - Morelo não se deixaria influenciar. Era um homem


muitíssimo teimoso e senhor das suas opiniões. - Não olha de frente.
Aposto que te engana, miúda.

Também eu teimosa, afastei-me, distraindo-me com pensamentos acerca


do trabalho para esquecer a conversa desagradável.

229
Havia duas coisas que gostava de ter feito melhor naquele caso Uma
delas era falar diretamente com a criada de Laia Graciana. A outra
era o interrogatório à viúva de Júlio Viador, que eu não soubera
orientar devidamente. Como não estava muito longe da casa dos pais
dela, voltei lá para a visitar de novo.

Factos: Chamava-se Cassiana Clara. Tinha um rosto redondo, com olhos


solenes, embora fosse atraente quando conseguia esboçar a sombra de
um sorriso. Uma figura elegante e bem penteada; as criadas
massajavam-na devotamente com óleos. A julgar pelas sobrancelhas
perfeitas, livrava-se regularmente de pelos supérfluos, mantendo-se
agradável para o homem da sua vida. Só haveria um, como é óbvio. Bem,
um de cada vez. Mas as viúvas endinheiradas não ficam sozinhas.

Eu imaginava que Viador tivesse ficado satisfeito quando a futura


noiva lhe fora apresentada e que se mantivera contentado com o
casamento.

A viúva era a filha mais nova de pais abastados, embora não tanto
quanto a família do marido. Os irmãos mais velhos que tivesse estavam
casados com o intuito de levarem boas vidas e produzirem netos, como
os pais julgam ter o direito de esperar. Clara, que provavelmente
sempre fora encarada como menos fiável por ser a bebé da família,
tinha regressado a casa, em sofrimento e em apuros, inquietando toda
a gente e estando ela própria inquieta.

Pedi desculpa por ter sido tão abrupta da última vez. Decidi
explicar-lhe porquê, referindo francamente o meu próprio luto, embora
tenha guardado silêncio sobre o tempo que se tinha passado
entretanto. Isso forneceu-nos uma ligação. Sentámo-nos e conversámos;
ela estava grata pela minha companhia. Quando se sofre uma perda
enorme, os outros tratam-na como se fosse uma doença, ainda que o
sofredor não tenha danos físicos. Cassiana Clara, que agora vagueava
pela casa da mãe como uma subordinada, vira a sua vida social
restringida.

230
Demasiado dócil para se queixar, estava secretamente entediada.

Desta feita, parecia à vontade na minha companhia. Qualquer


estranheza por ser interrogada por uma informadora e qualquer choque
por o seu marido ter sido assassinado já tinham sido superados.
Tivera tempo para pensar na morte de Viador, tranquilamente e ao seu
próprio ritmo.

Acertara nas minhas previsões. Ela tinha cismado. Depois fora falar
com os escravos que tinham visto o marido naquele dia, nos momentos
depois de ele chegar a casa do ginásio. Um deles contara-lhe que
Viador estava sempre a dar palmadas no braço como se tivesse uma
irritação; mencionou que algo o arranhara.

- Como um anzol, foi o que o escravo me disse.

Embora Clara parecesse acreditar nisso, eu tinha dúvidas; os anzóis,


pelas suas características, permanecem agarrados à carne. Deixam um
rasgão grande e ensanguentado, se forem arrancados. Nenhuma das
nossas vítimas tinha uma marca dessas.

Tomei nota do nome do escravo, apesar de Clara dizer que duvidava de


que ele soubesse muito mais.

Falámos acerca da mudança de estatuto dos escravos e da provação por


que estavam a passar. Cassiana Clara já vira por si mesma quão
ansiosos estavam em relação ao destino que os esperava, o que se
tornara uma nova preocupação para aquela matrona jovem e
privilegiada. Disse-me que estava a tentar arranjar lugares para
tantos quanto podia em casas de gente que conhecia, em vez de os
consignar ao mercado de escravos. Sabia o suficiente acerca do mundo
para compreender quão cruel isso poderia ser. Alguns membros leais do
pessoal estavam a ser acolhidos na casa dos seus pais, um ou dois iam
para uma irmã sua. Não consegui aferir quanta energia teria dedicado
a esta tarefa, mas percebia que a reorganização da mão de obra lhe
dava algo que fazer. Fiquei surpreendida por uma rapariga com os seus
antecedentes se interessar pelo assunto.

231
Quanto a outra questão, também não me enganara: Clara acedera a
voltar a casar. Já estava prometida a um dos herdeiros de Viador, um
homem mais velho; conhecera-o e achava-o gentil. Não me cabia
entristecer-me.

Eu disse-lhe que contasse ao noivo o que estava a fazer pelos


escravos.

- Ele ficará impressionado com a sua bondade... será uma boa base
para o vosso casamento. - Ela ficou perplexa. Não tinha a mais
pequena malícia. - Imponha-se, Cassiana Clara. Poderá ser muito mais
jovem do que o seu novo marido, mas vai querer as chaves da despensa,
em vez de ficarem nas mãos de um liberto escarninho que já lá
trabalhe há anos. Deixe bem claro que espera ocupar um lugar como
dona da casa. Que quer ter um papel. Quer levar uma vida útil.

Ela não respondeu, mas eu vi que a ideia estava a enraizar-se


seriamente.

Fiz-lhe perguntas sobre o casamento com Viador. Ela falou


abertamente. Sim, a obsessão que ele tinha pelo exercício físico
impusera algumas limitações à vida doméstica, mas ambas concordámos
que havia coisas piores que um homem podia fazer. Os negócios podem
ser letais. Beber é mau. Ela mencionou o jogo como uma possibilidade
hedionda e eu aludi à pornografia mas, como ela corou, não insisti.
Assegurei-me de que abordávamos estas questões, esperando em vão
deparar-me com uma pista para o que teria motivado o assassínio de
Viador.

Depois passei a outro tema:

- Importa-se que lhe pergunte por um evento social em particular?


Creio que uma vez vocês jantaram em casa de um proprietário de
armazéns, chamado Túlio, que vive com o sobrinho. Este sobrinho agora
é um edil da plebe, embora na altura talvez não fosse.

Uma expressão reservada toldou o rosto de Clara. Assentiu com a


cabeça; disse que se lembrava desse jantar.

- Fomos lá uma vez. Não foi muito antes de o meu marido ter morrido.
- Viador morrera no mês anterior, ou não muito antes disso, a julgar
pela data em que a minha família fora incumbida de tratar do leilão:
março ou, no máximo, finais de fevereiro.

232
- Nunca

mais lá voltámos.

- Porquê? - Não houve resposta. - Bem - sugeri —, normalmente os


homens gostam de tratar de negócios nos seus próprios espaços... nos
rostra do Fórum, em espaços pequenos de claustros privados, em
locandas escondidas ao lado do Empório... - Clara assentiu com a
cabeça. Eu esperei e depois perguntei delicadamente: - Aconteceu
alguma coisa? Pode falar-me dessa noite?

- Isto é importante, Albia?

Eu não podia propriamente admitir: quero descobrir se o teu

marido te maltratava.

- Para ser sincera, não sei. Às vezes coisas estranhas têm


importância. .. Já estive em jantares desse género, e não gostei.
Enquanto os homens se atarefam com as suas políticas ou negócios,
qualquer mulher que os tenha acompanhado pode ficar a sentir-se uma
intrusa indesejada. E, pelo que tenho ouvido dizer acerca do tio do
edil, tenho a impressão de que é assustador.

Clara foi persuadida a confidenciar que não, não achara Túlio

uma simpatia.

- Não se tratou de nada tremendamente óbvio, Albia. Sabe como é: o


género de velho que nos cumprimenta com um tudo-nada de afeto a mais,
que nos convida a partilhar o divã a que toma a refeição como se a
honra da nossa companhia fosse toda

sua...

- Muitos toques?

- Nada que fosse grosseiramente óbvio.

- Oh, sim. Põem-nos as patas em cima só o suficiente para dar a


impressão de que somos umas emproadas por não gostarmos e conseguem
fazer-nos passar o tempo inteiro a sentirmo-nos muito
desconfortáveis, sempre a tentarmos fugir-lhes. E entretanto os
outros homens presentes aparentam não reparar no que se está a
passar, porque nenhum deles quer enfrentar e repreender o velho
nojento.

233
- Ele ia limitar-se a rir. - Clara sabia como era. - Seja como for, a
casa era dele.

- E é claro que nessa situação uma esposa tem de contribuir para os


interesses dos negócios do marido suportando o abuso... Tudo o que se
pode fazer é fugir para os lavabos e demorar bastante tempo a
regressar aos canapés do jantar. - Não houve reação. - Era a única
convidada? Quem mais lá estava? Foi uma ocasião formal, com os nove
pratos da praxe?

- Não, foi só uma ceia informal, na verdade. Túlio e o sobrinho, eu e


Júlio.

- A mesa não estava ninguém do pessoal da casa?

- Que eu me lembre, não.

Tibério, que dissera ter estado lá, detestaria ouvir aquilo!

- Eu nunca conheci o sobrinho, Mânlio Fausto.

- É muito gentil.

- Tem bons modos?

- Tivemos uma conversa agradável acerca de música.

- E a comida, como era?

- Muito agradável - respondeu Clara. Rimo-nos. Ela pareceu aperceber-


se das limitações do seu vocabulário.

- Mas não o suficiente para querer prová-la de novo?

- Não, depois o meu marido pediu-me desculpa e disse que não


voltaríamos a visitá-los.

- Parecia ser um homem decente.

Mal jogado. A viúva encolheu-se, subitamente chorosa.

- Era. Era um marido maravilhoso. Não estivemos casados muito tempo,


mas Júlio era afetuoso e protetor e eu sinto a falta dele.

Ficámos em silêncio enquanto ela se recompunha.

- De que é que ele tinha de a proteger? — murmurei delicadamente. -


Ou de quem?

- De nada - apressou-se a viúva a responder. Se teve um momento de


pânico, estava a disfarçá-lo bem. - De ninguém. Foi só uma maneira de
falar.

- Contaram-me que estava no jardim e que ele foi buscá-la?


234
- Tinha sentido a minha falta.

- Que maravilha. - Num tom inofensivo, acrescentei: - Aconteceu mais


alguma coisa?

- O que quer dizer? - perguntou Clara.

Não insisti, sobretudo porque não sabia bem o que queria dizer. Em
vez disso, afirmei animadamente:

- Mudando de assunto, quer-me parecer que nessa noite conheceu um bom


amigo meu! Conversou com o encantador arquivista deles, que dá pelo
nome de Andrónico?

Tal como acontecera quanto à presença de Tibério, Cassiana Clara


esquecera aquilo.

- E possível. Não me lembro.

Calculei que a falha na memória se devesse a ter estado tão


preocupada em escapar às mãos do tio Túlio.

- Aquela casa dá-me que pensar - comentei. - Só homens e, do que


tenho ouvido, muita tristeza. Culpas velhas e ressentimentos atuais.
Achou que o ambiente era...

- Correu tudo bem - interrompeu-me Clara, como se já não aguentasse


recordar mais a noite. - Foi um jantar perfeitamente normal!

Ao menos já tinha variado do adjetivo «agradável». Algo tinha


acontecido. Qualquer coisa que ela se recusava a discutir comigo.

Nessa altura, a maldita mãe dela teve de intervir. Era idosa, muito
cordial, amável mas firme, e foi até ao quarto de propósito, para se
livrar de mim: achava que a pequena e indefesa Clara já me dera
suficiente do seu tempo. Ainda estava enlutada e em sofrimento; eu
devia ter mais consideração. Não poderia haver mais que eu precisasse
de saber; deveria despedir-me.

Eu e Cassiana Clara entreolhámo-nos por um breve instante, como duas


amigas a criticarem ligeiramente a geração mais velha. Mas ela não
discutiu com a mãe.

235
Talvez estivesse genuinamente satisfeita por se livrar de mim -
embora eu continuasse a achar que tinha ficado aliviada por ter uma
visita com quem falar. Alguém que fora vê-la em particular, como se
ela tivesse importância. Enquanto era casada, fora importante para o
marido. Eu agora acreditava nisso.

Abraçámo-nos e beijámo-nos como velhas amigas; depois de tanta


confidência, tornara-se um ritual necessário. Eu tenho pouca
paciência para essa charada. Não quereria ser amiga dela. Não poderia
desgostar dela, mas concordava com o comentário de Andrónico: não era
propriamente estúpida, mas depressa ficava perdida. Ele referira-se a
quando os homens falavam de negócios à sua frente mas, com dez anos a
separar-nos, ela também parecia perder-se quando eu falava com ela.
Não tinha personalidade nem experiência suficientes para sermos
iguais.

Talvez eu fosse presunçosa. Não havia dúvida de que sentia pena dela.
Antes de me ir embora, lembrei-me da sua ansiedade aquando da minha
visita anterior, por recear que o assassino do marido pudesse
persegui-la também.

- Deveria tê-la tranquilizado mais. Permita-me que o faça agora. Do


que conseguimos perceber, ele seleciona as vítimas ao acaso. Depois
avança para a seguinte. Nunca procura alguém relacionado com os
crimes anteriores.

Bem, isso sem contar com Celendina, morta depois de assistir ao


funeral de Salvídia, mas eu não fazia ideia de como ou porquê isso
teria acontecido.

Cassiana Clara fitou-me com um olhar estranhamente fixo.

- A menos que saiba quem ele é, e porque anda a fazer isto, como pode
ter a certeza, Albia?

Não reclamei ter a certeza, pois eu era a perita e ela apenas uma
inocente. Era possível que tivesse razão. Por vezes quem está de fora
pode ser perspicaz simplesmente por ver determinado acontecimento com
outros olhos. Pensaria no que ela tinha dito.

236
32

Eu não tinha a mínima vontade de almoçar. Perdera o interesse por


qualquer coisa que não fosse a obsessão quanto ao que iria acontecer
nessa noite às raposas.

O ambiente do Aventino tinha descambado. Os forasteiros ali presentes


para o festival tinham-se apropriado do espaço e os habitantes locais
estavam com dificuldades em encontrar lugar nos estabelecimentos que
costumavam frequentar. Éramos acotovelados nas nossas próprias ruas
por visitantes que não pareciam ter a mais pequena noção de que nos
haviam invadido o território. Porque será que os turistas nunca dão
espaço às outras pessoas nos passeios? Porque farão tanto barulho e
se comportarão como idiotas desrespeitosos? Será que deixam o cérebro
em casa, numa prateleira ao lado das boas maneiras, quando fazem as
malas de viagem? Saem das suas cadeirinhas, mesmo à nossa frente, e
depois ali ficam estacados, boquiabertos e de olhar vazio. Não é que
nos ignorem; simplesmente não nos veem.

Eu nem sequer era romana, mas abominava aquela torrente de ocupantes.


O impacto seria temporário mas, como acontecia todos os anos,
perturbava-nos.

Um assassino a quem não fizesse diferença quem atacava consideraria


aqueles otários vítimas fáceis, mas eu duvidava de que o nosso se
aproveitasse da situação.

237
Os forasteiros não representavam desafio algum. Seria alguém da zona,
alguém que lhe tivesse chamado a atenção de alguma maneira.

Quanto tempo decorrera desde o seu último ataque? Demasiado, concluí.


Deveria estar a precisar de excitação outra vez. Os assassinos
daquela cepa tinham padrões regulares de comportamento. Partindo do
princípio de que ele planeava antecipadamente os ataques, decerto
estaria a planear uma nova morte naquele preciso instante.

Caso não fizesse planos, agindo antes segundo impulsos súbitos, o


desejo de poder - a empedernida sensação de poder de que os
assassinos reincidentes desfrutam - poderia levá-lo à ação em
qualquer momento. Poderia estar a picar a sua próxima vítima enquanto
eu ficava ali na Rua da Armilústria, a praguejar mentalmente ao ser
empurrada por idiotas selvagens muito bem vestidos e acabados de
chegar da Campânia, onde tinham deixado o cérebro.

Fui para casa. De mau humor, subi os degraus até ao escritório, como
se pretendesse dessa forma distanciar-me da multidão. Não fui
completamente bem-sucedida, pois o ruído erguia-se entre os edifícios
estreitos e parecia amplificado quando me alcançava. Ao longo das
horas seguintes, mesmo ficando no interior e recusando-me a espreitar
pela varanda, ia-me sentindo cada vez mais ciente de grandes
quantidades de gente a movimentar-se na rua. A maioria, até então,
mantinha-se tranquila. O festival incluía rituais solenes e
sacrifício, com um profundo objetivo religioso. E a maior parte ainda
não tinha encontrado um antro de que gostasse e no qual se instalaria
durante aquela noite, bebendo até mais não.

Fosse como fosse, havia a corrida. Era um grande evento. Cavalos e


cavaleiros treinavam há bastante tempo. Seria a primeira saída da
época; os proprietários esperavam que os seus cavalos se tornassem o
vencedor famoso da época.

238
Também os jóqueis ansiavam por fama. As apostas públicas eram ilegais
- mas o resultado movia muito dinheiro.

A minha zona foi ficando mais sossegada à medida que toda a gente se
dirigiu em bando para o circo. O volume do principal pico do Aventino
ficava entre o Paço da Fonte e o Circo Máximo, o que abafava
parcialmente o som; no entanto, quanto os edifícios em volta ficavam
silenciosos, dava sempre para distinguir o rumorejar distante.
Começava com arrancos de música ao longe enquanto a procissão
religiosa atravessava os portões cerimoniais na abside mais distante
de nós, passando pelos novos arcos triplos construídos em honra do
imperador Tito. Depois um breve assomo de aprovação vocal poderia
acompanhar a chegada do atual imperador ao seu camarote oficial,
embora a nova plataforma elaborada de Domiciano, bem no alto do
Palatino no seu palácio imponente, o tornasse quase invisível para a
multidão tão mais abaixo.

Seguindo aconselhamento legal, retiro o que acabo de dizer. Consta


que havia gente atirada aos animais da arena por insultar o imperador
durante a sua audiência nos Jogos. Escrever criticamente a seu
respeito era igualmente mau.

Seguia-se uma interrupção no barulho, que era quando mulheres


vestidas de branco executavam ritos misteriosos em honra de Ceres;
esses ritos estavam reservados às iniciadas, embora um membro da
cátedra romana de sacerdotes superiores, o Flamen Cerialis,
oficiasse, na sua capa e coroa pontiaguda, enquanto os edis da plebe
também desempenhavam um papel tradicional nas preces. Isto seria
importante para o ambicioso Mânlio Fausto. Os edis que geriam bem os
Jogos e conquistavam a aprovação do público podiam mais tarde usar
esse apoio para alcançar cargos mais importantes. Não era fácil
impressionar uma multidão romana. Indiferentes à sua glória, muitos
membros da audiência predominantemente masculina ainda estariam a
reunir-se, a conversar entre si e a avaliar o espaço em redor durante
aquela parte da cerimónia. Teriam de suportar os ritos, mas ficariam
entediados. Não dá para fazer apostas acerca do sacrifício de uma
porca prenhe.

239
Na verdade, mesmo para uma audiência romana extremamente prática e
capaz de apostar as próprias avós, fazer apostas durante este momento
solene é encarado com maus olhos. As mesmas avós, moralistas, terão
passado esse ensinamento.

Ouvia-se então um ruído prolongando e constante, à medida que a


audiência se instalava nos lugares para assistir à corrida, um
burburinho regular que dava azo a um crescendo estridente quando os
concorrentes apareciam. Esta efusão fazia-se sempre notar no
Aventino, pois os doze portões de partida, pintados em cores
garridas, ficavam do nosso lado da pista. Uma explosão de som marcava
o momento em que se abriam. A cada volta completada pelos cavalos, o
barulho aumentava. Dava para acompanhar o progresso de cada corrida
sem ser preciso estar lá. Percebia-se cada vez que os líderes
passavam pelos torniquetes nas extremidades da barreira central, essa
construção curiosa de divisão das pistas que tinha grandes ovos de
mármore para contar as voltas, entre estátuas de golfinhos,
obeliscos, refúgios para assistentes, pequenos templos e altares.

Uma corrida no Circo consistia em sete voltas. O final fazia-se


acompanhar por um brado a plenos pulmões que ressoava até ali em
cima, atravessando o tecido instável do meu edifício. A audiência
estaria de pé, em êxtase. Enormes lufadas de flatulência carregada de
alho e couves flutuariam acima do estádio, um miasma maduro que mal
seria contido pelo cheiro de pastilhas para o hálito e pomadas para o
cabelo. A ovação ao vencedor seria o ponto alto da vida do jóquei;
até o cavalo exaurido ergueria a cabeça e participaria da glória.

Depois de terminada a corrida, o normal era que as várias saídas


esvaziassem o Circo em poucos momentos. Naquela noite, porém, as
pessoas não iriam embora. Naquela noite, esperariam sentadas por mais
entretenimento. Os vendedores de petiscos correriam pelas bancadas
entregando taças e trouxas de comida. Os marechais tentariam impor a
ordem, só para demonstrar que tinham esse privilégio.

240
Com uma multidão daquelas dimensões - estimava-se que fosse composta
por duzentas e cinquenta mil pessoas, embora uns primos meus tivessem
feito as contas e afirmassem que o total correspondesse apenas a dois
terços desse número -, certamente haveria quem desmaiasse. Alguém
cairia para o lado e não voltaria a si, suscitando rumores de ter
morrido. Gente intrometida esticaria o pescoço para ver os liteiros,
até novas luzes piscarem numa ponta do estádio, onde clamores e
gritos selvagens anunciavam a chegada das raposas.

Desci para o meu apartamento, para que fosse menos provável sentir
quaisquer ganidos de dor e cheiro a pele queimada.

Tentei não imaginar como teriam as raposas aterradas e contorcidas


sido agarradas, manuseadas, presas e atadas a archotes nas suas belas
caudas. Tentei bloquear pensamentos acerca da agonia que sentiriam,
quando esses archotes fossem ateados e as libertassem, com homens a
assobiar e a gritar, fazendo-as fugir do templo e correr pelas
encostas até ao grande vale do Circo, reunidas pelos portões do
início das corridas, chocadas pelo tumulto cruel que a sua chegada
provocava e por fim sujeitas a um massacre, por entre os gritos
encantados da assistência.

Nessa altura, só os que tinham compaixão na alma compreendiam que


aquilo era motivo de vergonha. E todos os anos eu me perguntava se
viver decentemente não deveria ser uma oferenda dos humanos à
generosa deusa Ceres.

241
33

A manhã seguinte era a do décimo terceiro dia de abril, os idos.


Seria um longo dia para mim e, a seu tempo, eu veria que se tratava
do ponto central das minhas investigações. Também era o dia do meu
aniversário, ainda que não me tivesse lembrado disso ao acordar.
Quando se vive sozinho, todos os dias são iguais.

Teve um começo mundano. Doméstico. Infernizei a vida ao rapaz que


varria as escadas, ao carregador de água, ao fornecedor de lamparinas
e a Ródão. A supervisão de pessoal masculino e pouco aplicado é o
papel tradicional de uma mulher romana, seja num negócio, numa quinta
ou numa casa. Somos nós quem detém as chaves. Quem organiza as rotas.
Quem sabe onde está o equipamento quando é preciso. Mantemos as
coisas em funcionamento, enquanto os mentecaptos e os ostensivamente
preguiçosos ficam a mandriar. Os homens estão convencidos de que
gerem o Império. O Império colapsaria sem nós.

Mandar nos outros espevitou-me. Depois mudei a roupa da minha cama,


escolhi a minha indumentária, arrumei o porta-joias. Fui aos banhos
públicos, esfreguei-me com mais força do que era habitual, envolvi o
corpo em óleos hidratante, permiti que uma rapariga me fizesse um
penteado exótico, investi numa manicura, deixei-me ser cativada
também para arranjar os pés, tratei da depilação que já estava em
atraso e descontraí lentamente.

242
Prisca apareceu.

- Já sei tudo sobre esses assassínios que andas a investigar!

- Ah, agora já se fala disso?

- E muito! Quando é que vais apanhá-lo?

Se eu soubesse a resposta, pensei tristemente, estaria na rua a


prender o cretino naquele momento. A proprietária dos banhos não
queria ouvir os meus argumentos racionais. A histeria pública tinha-
se alastrado e, segundo me contava, havia centenas de vítimas. Por
uma vez, senti uma ténue empatia em relação a Mânlio Fausto, por ter
querido manter aquela epidemia de mortes em segredo.

O assassino era um poeta louco, fui informada. Guardava rancor a quem


quer que tivesse nascido numa quinta-feira e atacava essas pessoas
com punhais pequenos e finos feitos de prata. Prisca ouvira todos
aqueles disparates de um vendedor de unguentos da Rua Lupino, cujo
sobrinho trabalhava no gabinete das finanças.

- Quer dizer que os assassinos são conhecidos por não se apresentarem


a pagar o imposto? - repliquei. - E imagino que ele tenha lábio
leporino, joanetes e seja do signo Aquário? Oh, deixa-te disso.
Nenhuma das vítimas tinha uma marca de punhal, Prisca. Acho que deve
usar veneno.

Concluí isso naquele preciso momento. A sua arma era demasiado


pequena para infligir danos visíveis; devia usar um pequeno
instrumento pontiagudo, revestido com uma pasta venenosa, como as das
flechas dos caçadores. O veneno era o que aniquilava as vítimas. Mas
não seria o mesmo tipo de veneno, pois o que os caçadores usavam
causava paralisia antes da morte e não tínhamos quaisquer indicações
nesse sentido. Tudo o que sabíamos era que devia ser rápido.

- Veneno! - alvoroçou-se Prisca, entusiasmadíssima por ter uma


oportunidade de contar algo novo às outras pessoas.

243
Naquela noite, o assassino tresloucado já teria um frasco de
alabastro dourado com uma poção letal produzida por anões da
Capadócia a partir de uma receita transmitida em segredo há mais de
trinta gerações, para a qual não existia antídoto que não a exposição
ao luar, e identificar-se-ia marcando uma letra grega na testa das
vítimas que se contorciam e arquejavam até ao estertor final. O
Assassino Omega tinha nascido e a culpa era minha.

Vesti uma túnica lavada e sapatos rendados, após o que saí dos banhos
públicos para me dedicar a investigações sérias.

Quando os indícios são escassos, é preciso escavar, escavar, escavar


o pouco que se tem. Mais uma vez, pus-me a caminho do apartamento de
Laia Graciana e tentei ver a criada evasiva, Venúsia.

Estavam mesmo decididas a desapontar-me. Desta feita, disseram-me que


Venúsia já não se encontrava ali. Tinha sido enviada «para repousar»
para uma das propriedades que a sua senhora tinha no campo. Não
consegui perceber se isso seria uma punição disfarçada ou uma
recompensa por bons serviços. Numa semana em que Laia Graciana ia
participar num festival importante, parecia estranho que um membro do
pessoal incumbido de um cuidado tão pessoal deixasse Roma. Que mulher
deixa a criada desaparecer no preciso momento em que ficará sob
escrutínio público nas cerimónias no Circo Máximo? Bem vistas as
coisas, que criada quereria perder uma ocasião dessas? Deveria ser
difícil deixar passar a oportunidade de receber um presente de
agradecimento durante o festival, ou, melhor ainda, uma bonificação
em dinheiro.

Para além da relutância habitual quanto a permitirem-me a entrada, a


situação no apartamento de Laia não favorecia visitantes inesperados
naquele dia. Durante a Cerialia, era costume entre a alta sociedade
plebeia convidar outros finórios para jantar. Laia Graciana e o irmão
iam ser anfitriões de um grande jantar nessa noite, pelo que a
entrada estava cheia de escravos azafamados com varas compridas para
limparem teias de aranha do teto e das cornijas de gesso, enquanto
outros lavavam o chão com esponjas, o que provocava o risco de
qualquer um poder cair de escadotes, escorregar no mármore molhado ou
levar com uma vara na cabeça.

244
Entretanto, uma série de empreiteiros afetados andava de um lado para
o outro com decorações para a sala de jantar e a discutir com um
criado para receberem.

Quando alguém gritou:

- Quem é que se sentou nas papoilas e nas grinaldas de espigas de


trigo?

Pareceu-me que estava na altura de me ir embora.

Não era época de papoilas. Mesmo o trigo, esse outro símbolo


tradicional de Ceres, estaria na fase de plantação, não de colheita.
Deviam ser artificiais.

Os decoradores profissionais («estilistas de banquetes temáticos»,


conforme se autointitulavam) tinham tido a feliz ideia de usar
cobras, como as serpentes gémeas que puxavam a quadriga de Ceres
enquanto esta procurava Prosérpina, a sua filha raptada. Ninguém de
bom gosto e prestígio social quer ter cobras vivas no seu belo lar,
pelo que tinham sido criadas cobras falsas por um jovem de cabelo
desgrenhado que gostava de trabalhos manuais.

Oh, caramba.

Não obstante, tentei falar com ele, ajudei-o a instalar as suas


estruturas, que admirei educadamente, pois sabia que estaria
desesperado por aprovação e que mais ninguém se teria dado ao
trabalho de lha dar. Conversámos acerca da preparação dos carros
alegóricos dos triunfos militares. Falámos da quadriga de Ceres, que
teria cobras ainda maiores. Perguntei-lhe o que esperava alcançar no
futuro. Escrevi o seu nome numa tabuinha de notas para o caso de ter
uma comissão e poder recomendá-lo. Pelo menos, disse-lhe que era essa
a razão.

Depois contei-lhe que também me sentia um pouco rejeitada e muito


frustrada por causa do problema de Venúsia. E ele contou-me que tinha
ouvido alguém mencionar que ela fora para Arícia, onde existia um
antigo templo dedicado a Ceres.

245
Demasiado longe para ir até lá, infelizmente. No entanto, poderia ser
útil sabê-lo.

Precisava de ser animada encontrando-me com Andrónico. Queria


desesperadamente ser perseguida num quarto pequeno por um homem com
um brilho determinado no olhar.

Fui até ao gabinete da edilidade, mas um escravo público disse-me,


enquanto recolhia muito lentamente as folhas do pátio, que ninguém lá
estava. Deixei o escravo a juntar as suas folhas uma a uma e a
colocá-las da mesma forma num balde, como se se tratasse de ovos de
casca muito fina.

Iria perguntar por Andrónico a casa do edil. Ele era um cidadão


livre. Os amigos poderiam visitá-lo. Nunca tinha estado intimamente
envolvida com um liberto, mas decerto esse seria o objetivo de se ser
alforriado... Talvez as suas amizades tivessem de entrar por uma
porta lateral, mas visitá-lo seria sem dúvida possível...

Decidi não o fazer. Mânlio Fausto continuava a ser uma entidade


desconhecida e eu não me sentia à vontade quanto a aventurar-me tão
perto. Mas a ideia era tentadora. Arranjar forma de me insinuar na
casa de alguém? Tentei não imaginar familiares meus a instarem-me a
fazê-lo. Hades, enquanto informadora, eu tinha sido treinada para
correr esse tipo de riscos.

246
34

Encontrei-o. Io Saturnalia! Aquela figura ligeira e o seu cabelo


denso penteado para trás provocaram-me um baque no coração. Andrónico
caminhava animadamente pela Rua da Armilústria, agitando um pequeno
frasco de vidro preso ao pulso esquerdo por uma tira de couro.
Parecia um frasco de óleo de banho. Vi-o enquanto regressava a casa
de mau humor, que logo se desvaneceu. Armou uma farsa, fingindo que
não se recordava de mim. Eu adorei, deliciada com a sua patetice
alegre.

Depois cumprimentámo-nos com um beijo nas faces, extremamente


formais, de modo a respeitar a nossa posição em público numa rua
principal. Senti-lhe o hálito quente e promissor no rosto. A sua face
passou muito perto da minha, sem lhe tocar, limitando-se a murmurar
entre dentes, suprimindo o desejo. Enlouqueceu-me, como era a sua
intenção.

Caminhámos.

Ele tinha-se desfeito da barba. O efeito não era muito notório devido
à sua cor tão pálida, que nunca lhe ocultara as feições; ao início,
eu nem dei pela diferença, mas ele estava muito ciente do facto.

247
Tinha havido uma razia ao pelo facial, segundo me contou. Apesar de
os ritos de Ceres serem reconhecidamente gregos, Fausto tinha dado
ordens para que todos ostentassem patrióticos queixos romanos bem
escanhoados. Até fora contratado um barbeiro especialmente para
tratar de todos.

- Até de Tibério?

- Até da criada peluda da cozinha! Albia, nem vais reconhecer


Tibério.

Andrónico disse-me que Mânlio Fausto esperava que toda a gente da sua
casa se apresentasse engalanada todas as noites, a fim de assistir em
grupo a quaisquer cerimónias do festival que ele tivesse organizado.
Estavam todos em exibição. Não poderia haver faltas.

- O devido apoio ao amo?

- E para ostentar a sua própria opulência através do tamanho da


comitiva! - queixou-se o meu amigo. -A maior parte dos outros está
estupidamente encantada, porque ele dá bilhetes de graça. É claro que
dá. Se um edil não for capaz de encher as bancadas do Circo com gente
da sua casa a aplaudi-lo, de que serve ocupar essa posição? Eu
gostava de me escapulir e ir ver-te, mas qualquer ausência será
notada e comunicada por algum espião maldoso da comitiva aduladora.

- Não te metas em apuros por minha causa, Andrónico.

- És tão querida!

Não estava a ser querida; era uma questão de diplomacia; o bem-estar


de Andrónico era importante e eu tinha algum interesse próprio nisso.
Não queria que Mânlio Fausto concluísse que eu estava a desviar um
membro do seu pessoal dos deveres que lhe competiam. Eu ainda nem
conhecia aquele homem, mas sentia que tínhamos uma relação espinhosa.

Disse a Andrónico que estava muito satisfeita por tê-lo encontrado


por acaso naquele dia. Talvez tenha sido tolice, mas mencionei que
ponderara a ideia de ir a sua casa e perguntar por ele. Como de
costume, o meu malicioso amigo acolheu de imediato a sugestão ousada.

248
Comentou que a casa do edil era ali perto, pelo que poderia levar-me
lá de imediato e fazer-me uma visita guiada.

É claro que poderia ser má ideia. E eu deixei-me convencer.

Porque corro riscos destes? Bem, pelo menos, a minha avozinha do


Aventino teria ficado orgulhosa de mim. Como referi a propósito do
funeral de Salvídia, Junila Tácita aproveitava qualquer oportunidade
para inspecionar as casas dos vizinhos. A casa de um edil? Oh, que
emoção! Ela esperaria que eu verificasse se os lençóis tinham buracos
de traças e que passasse um dedo pelas prateleiras, em busca de pó.

249
35

Em Roma, as casas dos poderosos são tão bem protegidas dos intrusos
quanto possível. Têm muros altos, nenhuma janela para o exterior, os
porteiros mais hostis do mundo e, muitas vezes, tropas de guardas
taciturnos de estranhas províncias ultramarinas, com cães a rosnar
que não respondem quando se lhes fala em latim - a não ser que alguém
lhes ordene «Mata!». Essa ordem todos reconhecem. A luz do dia, pelo
menos, essas casas também são conhecidas por estarem apinhadas de
gente curiosa, convidada a dar uma vista de olhos por vários membros
do pessoal. Numa casa com tal estatuto, toda a gente se julga um
escravo atrevido numa peça de teatro. Cunhados desempregados de
ajudantes de cozinha passeavam-se pelos armazéns, surripiando bens.
Amigas lépidas de criadas visitavam-nas e experimentavam as camas,
ainda mornas depois de os donos da casa se terem levantado. Os
factótuns eram lamentavelmente propensos a vangloriar-se diante das
pessoas com quem bebem em restaurantes de peixe às sextas-feiras. Até
os camareiros mais pretensiosos adoravam ter uma oportunidade para
impressionar; tipos elegantes que alegavam ter recebido formação em
boas maneiras nalguma pequena vila, propriedade de um parente de
Júlio César, facilmente podiam ser induzidos a ostentar a perfeitos
desconhecidos a mansão em que trabalhavam.

250
É um triste facto que só quando um informador esforçado tem um motivo
legítimo para querer visitar um desses locais pareça difícil entrar.
Era garantido que Mânlio Fausto e o tio teriam proibido visitas
fortuitas. Mas eu sabia que o mais provável era estarem resignados.

Viviam na encosta ocidental da colina, perto do principal conjunto de


armazéns que detinham. Situavam-se no triângulo de grandes
propriedades a oeste da Rua dos Plátanos, ou seja, perto de Laia
Graciana e Márcia Balbila; era claramente um enclave de aristocracia
plebeia. Túlio ocupava metade de um quarteirão com uma típica mansão
urbana, de certa imponência, com um átrio logo a seguir à porta
principal, para lá do qual o olhar era atraído para um jardim
interior. Uma vista típica e formal. Paisagens criadas para
impressionar.

Todas as divisões públicas estavam situadas ao lado da entrada. Havia


gente a dirigir-se ali para tratar de negócios, provavelmente todos
os dias. Só os poucos a quem era permitida intimidade com os amos
avançariam até aos aposentos e salões privados. Pressenti que
existiriam muitas divisões dessas, a que se acederia por discretos
corredores no piso inferior e no andar de cima. Numa cidade onde a
maioria das pessoas vivia amontoada e sujeita à halitose e aos
sovacos malcheirosos dos outros, os afortunados ocupantes daquela
casa tinham espaço.

Andrónico ultrapassou sem hesitações as portas duplas da frente, que


davam para dois degraus de mármore, estando cada piso adornado com as
habituais roseiras em urnas a condizer. Um porteiro idoso, que
provavelmente vivia ali há muitos anos, pôs a cabeça de fora do seu
cubículo; tinha uma expressão surpreendida, mas não levantou qualquer
objeção quanto ao facto de o arquivista me levar lá para dentro.
Talvez tenha julgado que eu fora ali por causa de um fornecimento de
tinta, mas não me parece.

251
Dentro do átrio existia um larário, um altar de família encostado a
uma parede, com sinais de que os deuses da casa eram contemplados
diariamente com oferendas. As flores e os bolos de trigo pareciam
frescos.

- Túlio - explicou Andrónico.

Eu assenti com a cabeça. Não seria a primeira vez que um homem que
mostrava um desrespeito costumeiro pelas mulheres era muito reverente
para com os deuses. Como chefe de família, seria ele mesmo quem faria
as oferendas. Considerar-se-ia um «tradicionalista à moda antiga».
Apostava que, se o conhecesse, quereria enfiar-lhe as atitudes
tradicionais pela goela tradicional abaixo antes que ele tivesse
tempo de me dizer que belo traseiro eu tinha e de o tentar apalpar.
Esperava bem que não nos cruzássemos com ele.

Fui levada pelas áreas principais da casa, sentindo-me nervosa. Havia


uma sala de jantar interior, com áreas de cozinha situadas
convenientemente ao lado direito do jardim. Salões com lugares
sentados e alguns expositores de estatuetas encontravam-se do outro
lado, juntamente com uma pequena biblioteca; não havia tempo para
puxar pergaminhos e descobrir o que se leria por ali. Todo o espaço
estava decorado com frescos que tinham sido pintados num passado não
muito remoto, como se houvesse um programa de manutenção rotineiro.
Suponho que esperava deparar-me com cenas pornográficas mas, a
existirem, não vi nem uma. Apenas representações de mitos menores,
paisagens arquitetónicas estilizadas e grinaldas agradáveis à vista,
bem executadas mas nada inovadoras nas combinações cromáticas.

O local onde o edil vivia com o tio era bom, sem ser particularmente
ostensivo. Percebia-se que havia dinheiro, mas este era usado com
parcimónia, pois o lugar tinha uma elegância simples. Fiquei
surpreendida com a atmosfera calma. Aquela casa era bem gerida, de
uma maneira informal que me impressionou bastante. Apesar de não ter
sido convidada, não tardei a sentir-me confortável.

252
O ambiente descontraído não se enquadrava com o antagonismo que eu
testemunhara entre Andrónico e Tibério, nem com a forma ríspida como
Andrónico falava acerca do edil e do tio; todavia, isso era revelador
da capacidade da natureza humana para degenerar, mesmo num bom
ambiente.

Andrónico tinha pedido a um moço da casa que nos levasse refrescos


para o jardim. Sendo um liberto da família, ele podia pedir petiscos;
como sua convidada, eu continuava a tentar aparentar encontrar-me ali
por causa de material de escritório, para o qual Andrónico
pretenderia um desconto. Instalámo-nos num banco, com uma pequena
mesa portátil com grandes canecas e pratos em miniatura, como se a
casa fosse nossa.

Não cheguei a perceber se Túlio estaria presente. O jovem amo decerto


estava em casa, segundo ele me disse. Depois de se ter deitado muito
tarde para gerir o festival, o edil ainda se encontrava profundamente
adormecido no quarto; e como teria mais que fazer naquela noite e nas
várias que se seguiriam, ninguém iria incomodá-lo. Saber que ele
estava tão perto provocava-me uma sensação de estranheza, apesar de
Andrónico parecer indiferente à possibilidade de Fausto aparecer a
bocejar.

E sempre intrigante ver uma pessoa em casa quando até então só a


conhecemos no exterior. Ali, Andrónico estava relaxado com nunca.
Perdia aquele pendor nervoso e inquieto. Por vezes um escravo passava
e cumprimentava-o silenciosamente, com um aceno de cabeça. Ele
correspondia, parecendo dar-se bem com todos.

Fiquei satisfeita. Agradava-me saber que ele podia ser assim.

Ao fim de pouco tempo, já falávamos animadamente. Naturalmente, a


nossa conversa centrou-se no edil, depois de eu explicar que me
sentia acanhada por estar na casa dele sem o seu conhecimento ou
permissão.

- Então ele dorme sempre até à hora de almoço? Está exausto por causa
da organização do festival?

253
- Para ser justo, a Cerialia tem exigido muito dele. - Era
provavelmente a primeira vez que Andrónico se mostrava compreensivo
ao faiar de Fausto. - Não está habituado a esforçar-se tanto. É muito
importante para ele ficar bem visto e ultimamente não se tem sentido
muito bem.

- Serão nervos?

- Não, eie não é nervoso. Mas está desesperado por deixar uma
excelente impressão.

- Então, e como foi ontem à noite?

- Oh, sabes como é, o habitual. Muita gente a desfilar vestida de


branco, hinos, archotes, rituais complicados desempenhados
silenciosamente em altares especiais.

- Farra com os deuses.

- É uma perda de tempo do grémio feminino... são elas quem trata da


maioria das cerimónias. A menos que queiram ser virgens vestais, as
mulheres não têm outra hipótese de serem sacerdotisas dominadoras.

- Laia Graciana adora?

- E comporta-se como se dirigisse o culto; como é uma mulher só,


engana-se. A sacerdotisa-mor de Ceres é sempre uma esposa fértil,
para dar continuidade ao mito de tudo em abundância. Ter gémeos é
bom... trigémeos ainda melhor; trigémeos que sobrevivam ao parto é
ouro sobre azul.

- Mas isso é bastante raro! Referes-te à velhota que vimos na outra


noite no templo?

- Essa mesma. «Uma mulher madura de uma boa família», ou antes uma
velha mal-humorada que não é capaz de se lembrar das deixas nas
cerimónias porque o cérebro bem-nascido já lhe falha. Graciana está
sempre a querer ajudá-la, mas ontem à noite foi despromovida para
junto das outras, todas a cabriolarem como gregas de antigamente.

Eu já tinha estado em festivais do género.

- Quando se dá um grande archote ardente a uma devota de um culto,


ela vai adorar apontá-lo a qualquer coisa de uma maneira ritualista.

254
Andrónico presenteou-me uma imitação hilariante.

- Umas poses terríveis, com uma solenidade lentíssima. Danças


realmente embaraçosas de jovens obrigados a vestirem falsos fatos
helénicos. Representações terríveis, com diálogos mesmo medíocres.

- Oh, então divertiste-te! - comentei com um sorriso, ao que


Andrónico resfolegou.

- Sim, diverti.

Obviamente, esperava que eu questionasse tal afirmação mas, para o


provocar, recusei-me a fazê-lo.

Mantivemo-nos em silêncio durante algum tempo. Eu estava a gostar do


pão que nos tinham trazido com os refrescos. Era fresco e estaladiço
e tinha sido servido, partido em oito pedaços, num cesto com um pano
de uma brancura imaculada. Viera a acompanhar uma pequena travessa de
prata com queijo que, a menos que me enganasse, fora feito por Metelo
Nepos, o enteado de Salvídia. Tinha a certeza de que reconhecia os
sabores, embora infelizmente nenhum fosse fumado; talvez Tibério o
tivesse devorado todo. Ao menos a tragédia proporcionara mais
clientes a Nepos.

Ocorreu-me que, uma vez que aquele parecia ser o único jardim
interior da casa, deveria ter sido nesse lugar que Cassiana Clara se
demorara na noite em que ali jantara com Viador. Tentei imaginar o
local iluminado por algumas lamparinas a bruxulear entre as colunas.
Havia festões de jasmim onde esvoaçavam pardais, pequenas estátuas de
jovens dríades e uma fonte borbulhante que tinha de facto água a
correr. Seria um sítio agradável para alguém se esconder - a menos
que depois se tivesse algum género de encontro infeliz. Ela tivera.
Eu já estava certa disso.

Reparei que, caso Clara tivesse gritado de aflição, os comensais na


sala de jantar facilmente a ouviriam e viriam em seu socorro. Uns
quantos passos teriam levado Viador até ali, furioso por a sua jovem
esposa ter sido afrontada de alguma maneira. Imaginei-o a chegar, a
passar um braço musculado à volta de Clara e a levá-la de novo para o
divã a fim de provar a sobremesa, ouvir o flautista e retomar a
conversa cordial com Fausto, acerca de música...

255
- O que é que deixou Cassiana Clara tão perturbada? - perguntei. -
Falando com ela, percebi que ficou mesmo.

Andrónico pareceu sobressaltar-se.

- Porque perguntas?

- Mera curiosidade.

- E uma rapariga tola.

- Todas as raparigas são tolas. Eu própria o fui, em tempos que já lá


vão. Ela cresceu num ambiente protegido, é jovem, é provável que se
entedie facilmente com conversas prolongadas acerca de espaços de
venda e condições de armazenamento.

- Pessoalmente - brincou Andrónico -, nunca me farto de saber a


quantos denários anda a jeira e do livre fluxo de correntes de ar
para a melhor prevenção do bolor.

Eu adorava o seu sentido de humor.

- Estás a dar-me um belo vislumbre dos diálogos à mesa do pequeno-


almoço nesta casa.

- Tens razão. Logo ao raiar da aurora, temos de assistir a um


simpósio sobre o arejamento subterrâneo cerealífero, de que constam
os mais recentes receios acerca de estragos feitos por ratos e
besouros. Túlio é um proprietário de armazéns muito bem-sucedido,
Albia.

- Isso proporcionou-lhe uma bela casa em que pode organizar os seus


simpósios acerca de besouros... Então - insisti -, o que aconteceu
quando Clara se enfastiou com as taxas de arrendamento de espaço?

Andrónico encolheu os ombros.

- Como te disse, encontrei-a aqui e falei com ela, com o intuito de a


animar, se possível. Bem difícil, devo dizer! Quando percebi que
estava a ficar pouco à vontade por se encontrar sozinha com outra
pessoa, é claro que saí de cena.

- Que bons modos - murmurei. Eu não tinha considerado que Cassiana


Clara fosse acanhada, nem sequer naquela fase de luto, mas eu era
mulher.

256
Ele fingiu-se enaltecido.

- Seja como for, ela não fazia o meu género.

- Isso teria feito diferença?

- Porque não? - replicou ele num tom ligeiro. Senti o estômago a


revolver-se, mas lembrei-me de que ele era homem. Decerto não teria
noção de que aquilo me provocava uma pontada de ciúmes... Ou será que
tinha? Contudo, o que me disse em seguida chocou-me: - Fausto deve
ter chegado logo a seguir, quando ela ainda aqui estava sozinha, e
não terá acreditado na sua sorte.

- Fausto?

- Ele vive aqui, sabes?!

- Mas «não terá acreditado na sua sorte», Andrónico?

- Agarrou-a. Ela gritou. Toda a gente corre para aqui, com o marido
enlouquecido à frente de todos.

- Ei, espera lá!

Eu tinha de me readaptar à nova versão. Tratava-se de uma


possibilidade que nunca me tinha ocorrido. Até então, não imaginara o
edil, ao que constava tão petulante, como um homem capaz de se atirar
a uma visita do sexo feminino na sua própria casa, quanto mais quando
o marido se entretinha com a sobremesa de nozes e pêssegos a poucas
jardas de distância.

- A culpa foi da rapariga - disse Andrónico.

- Porquê? Tudo o que Cassiana Clara fez foi colocar-se por breves
instantes no sítio errado, por precisar de fazer uma pausa de um
jantar fastidioso.

Eu podia aceitar que Clara fosse suficientemente inexperiente para


ter ficado secretamente excitada pela conversa sedutora de um homem
mais velho (as regras ditavam que um edil tinha de ter pelo menos
trinta e seis anos, enquanto ela tinha dezanove, uma diferença
significativa). Mas qualquer coisa séria a levaria a escandalizar-se,
disso eu não duvidava. Não teria sabido como lidar com a situação. De
qualquer modo, ela era devotada a Júlio Viador... a menos que a sua
devoção atual se tratasse de culpa póstuma.

257
- Ela deu-lhe corda. - Retesei-me instintivamente, ao que Andrónico
abandonou de imediato a atitude insensível. - Oh, estava só a testar-
te! Tenho noção de que estás em pulgas para me acusar de toda a
espécie de hipocrisia masculina, querida Albia. Tens toda a razão.
Uma mulher deveria poder sentar-se sozinha no jardim de uma casa
privada...

- Ou onde quer que seja! - resmoneei.

- Sem que todos os homens exaltados que a vejam o interpretem como


sinal de que podem tomá-la.

- Estás a dizer que Mânlio Fausto é farinha do mesmo saco abjeto que
o tio?

Andrónico limitou-se a fazer um trejeito, deixando-me tirar as minhas


próprias conclusões.

Juntei aquela informação ao que Tibério me contara acerca do velho


caso amoroso do edil. Imagine-se: nessa altura, Fausto, ao ficar a
sós com a rebenta-colchetes que o patrono tinha como troféu, assumira
que a beldade estava ali para quem a quisesse tomar. «Ela ofereceu.
Ele aproveitou», dissera Tibério. Mas segundo parecia, essa mulher
gostava dele e queria as suas atenções.

Sem conseguir explicá-lo bem, de súbito senti que gostaria de


perguntar a Tibério o que pensava acerca daquela história do ataque a
Cassiana Clara.

- Podes imaginar o furor que foi quando a tolinha desatou a gritar. A


culpa foi da rapariga - repetiu Andrónico, num tom factual. Depois
acrescentou: - Por isso, estás a ver, Albia, há bons motivos para
dizer que foi Fausto quem se vingou eliminando Viador de cena... uma
desforra por lhe interromper a diversão e lhe ter feito frente.

258
36

Eliminando Viador? — Inspirei profundamente. - Estás a acusar Fausto


de ter assassinado o magnata das peles? Oh, então! Deixa-me que te
lembre, Andrónico, que da última vez que quiseste dar uma opinião
acerca disto, apontaste para Tibério.

- Sim, de facto, pareço ser bastante inconstante. - Sorriu, sem se


deixar intimidar. Eu tinha um fraco pelo seu pendor aparentemente
amoral. As raparigas gostam do imprevisível. Depois explicou: - A
verdade, Albia, é que ontem à noite aconteceu uma coisa que me fez
ver a situação de maneira diferente.

- O quê? O que aconteceu? O que descobriste? Andrónico recostou-se,


com as mãos cruzadas atrás da cabeça

arruivada. Eu nunca tinha tido qualquer dúvida de que ele gostava de


ser o único foco da minha atenção. Esperava que isso não o fizesse
exagerar.

- Passou-se uma coisa ontem depois da corrida de cavalos. Refreei-me,


aparentando calma.

- Conta-me.

- Vá lá. Estás entusiasmada. Admite.

- Estou. E tu agora mostra lá se és um verdadeiro jogador ou se tens


a caixa dos dados vazia, seu provocador insuportável.

259
Andrónico, que como de costume se tinha mostrado esquisito em relação
à comida que nos haviam levado, parou então para se servir de uma
fatia de queijo e saboreá-la. O que realmente o deliciava era o
suspense. Deixei-o gozá-lo.

- A minha caixa de dados nunca está vazia.

Por vezes falava de uma forma que parecia demasiado séria. Mas
fitava-me com a sua expressão confiante. À medida que ia crescendo,
fui observando pessoas que funcionavam numa parceria amorosa próxima,
pelo que a sua atitude naquele momento me deu uma sensação calorosa
de promessa em relação à nossa própria relação. As pessoas deveriam
funcionar assim.

- Oh, vá lá, amigo!

Ele debruçou-se para a frente para me confidenciar:

- Foi o seguinte. Quando os procedimentos da noite de ontem chegaram


ao fim, deu-se um grande choque social. Havia uma reunião marcada em
casa da sacerdotisa-mor; Fausto foi, como é natural. Boa parte da
comitiva teve de ir embora, mas eu consegui acompanhá-lo. - Não pude
deixar de pensar melancolicamente que nesse momento ele poderia ter-
se escapulido e ido ao meu encontro. Porém, não se deve ser egoísta.
- Fomos então até à casa da velhota, onde fingimos divertir-nos entre
vinho com especiarias e bolos de aveia, estando a maior parte das
pessoas a desejar não terem ido para ali. Fausto ia acumulando
elogios, mas a noite tinha-o arrasado; ele parecia praticamente
acabado. Foi nessa altura que aconteceu. Enquanto as pessoas
começavam a despedir-se e a ir embora, Laia Graciana aproximou-se de
Fausto e falou com ele.

Pestanejei.

- Pelo que sei, isso deve ter sobressaltado toda a gente.

- Sobretudo ele! Regra geral, ignoram-se. Tratava-se do género de


evento em que ela poderia perfeitamente tê-lo evitado. Ela odeia-o;
ele não suporta ter de lidar com ela. No entanto, ela avançou na
direção dele e confrontou-o sem quaisquer rodeios. Ele, coitado, nem
sabia para onde haveria de olhar!

- Então e o que queria Laia?

260
- Falar com ele... em privado! Inspirei pela boca, de dentes
cerrados.

- Que maçador.

- Confia em mim, Albia.

- Seu patife! Ouviste-os?

- Eu não ia perder aquilo. Tu terias ido para lá comigo.

- Oh, se teria.

- Terias de passar por um pequeno loureiro, mas felizmente os potes


de plantas em que me vi obrigado a esconder-me eram grandes.

-E?

- Ele disse: Mas que surpresa! E ela: Cala-te e ouve. Gostava só de


saber se tens noção de quem era Venúsia. Para irritar, depois o
sacana limitou-se a exclamar: Não haveria de ser essa Venúsia? Era
como se eu soubesse que eu estava à escuta.

Se fosse minimamente atento, havia uma boa probabilidade de Fausto


desconfiar de que Andrónico o espiava. Qualquer membro do seu pessoal
poderia fazê-lo. Na Roma de Domiciano, isso era inevitável, quer as
pessoas tivessem segredos quer não. Na verdade, colocarmo-nos por
trás de uma planta ou de um estátua que nos privasse da visibilidade
era extremamente insensato. Havia quem dissesse que, naqueles tempos,
até as folhas de louro tinham ouvidos.

- Então Fausto sabe qualquer coisa acerca de Venúsia, ainda que para
isso tenha de ser recordado por Laia. Ela considera que isso tem
importância suficiente para interromper dez anos em que tudo fez para
o evitar? - Eu tinha a mente a mil. - Andrónico, Venúsia era a outra
criada presente quando a rapariga de Márcia Balbila foi atacada na
Vicus Altus.

Andrónico assobiou baixinho.

- E agora sabemos o que ela em tempos fez a Fausto - acrescentou ele.

- Descobriste?

- Oh, fiquei a saber muito com a bela conversa deles, Albia.


Pormenores que já há anos queria saber. Ao que parece, talvez seja um
moralista agora, mas nessa altura era um degenerado.

261
Finalmente, descobri o que aconteceu para o casamento deles terminar.

- Então? - perguntei cautelosamente.

- Por sorte, Laia Graciana é do género que gosta de ser teatral


quando tem oportunidade de se espojar em coisas desagradáveis.

Sim, Fausto. Venúsia, aquela que, quando tiveste o teu nojento caso
amoroso com aquela terrível mulher, foi leal e me contou. Ao que ele
só foi capaz de responder: Oh! O reportório dele é
extraordinariamente entediante.

Estendi as pernas e dei pontapés irrequietos no ar.

- Bem, isso é interessante, mas não percebo porque te leva a dizer


que Fausto poderá ter matado Ino.

- Não percebes? Enganou-se na criada!

- O quê?

- Fausto sabia perfeitamente que tinha sido Venúsia a destruir-lhe o


casamento. Como é natural, nunca lhe perdoou por ter ido denunciá-lo.
Quem perdoaria? Pretendia vingar-se dela, matando-a;

mas, vistas de trás, duas criadas envolvidas em estolas parecem


idênticas. Imagina que, em vez de irem cada uma atrás da sua patroa,
como seria de esperar, tinham inconvenientemente trocado de posições?

- Com um grupo de gente a avançar em conjunto, é fácil que isso


aconteça - concordei.

- Sim... logo, ele atacou Ino por engano.

- Boa teoria. Mas não passam de palpites. Como podes ter a certeza de
que trocaram de posições?

- Não posso - reconheceu ele. - Mas aposto que, se perguntares a


qualquer uma das sobreviventes, to confirmarão.

Eu tinha mais um motivo para acreditar.

- Isso poderá explicar outra coisa que fiquei a saber hoje: Laia
enviou Venúsia para o campo. Achei estranho, mas não o é, se tiver
sido para a proteger. E será que as duas criadas poderiam ser
confundidas? Como será essa Venúsia?

262
- Parece uma velha gárgula grega.

- Conhece-la?

- Já a vi no templo com Laia. Provavelmente, Andrónico estava a


exagerar e, de qualquer maneira, o casamento tinha acabado dez anos
antes. Parecia pouco provável que Fausto alguma vez tivesse reparado
bem na criada da mulher. Até poderia não ser capaz de a reconhecer,
ao fim de tanto tempo.

- Ela foi-se embora para salvar a pele, não vá ele voltar a tentar
apanhá-la - concluiu Andrónico num tom definitivo. - Sabes para onde
a mandaram?

- Não, não sei. Olha, matar uma criada que o tivesse atraiçoado seria
uma coisa muito óbvia... e também bastante tarde, não te parece? Dez
anos depois? - Ouvia a minha voz a tornar-se severa. - Tenho de te
dizer que a tua teoria é muito rebuscada, Andrónico. Que um homem na
posição dele ande por aí a provocar mortes é...

- Exequível, se for louco.

- Tu vives na casa dele. Achas que é louco?

- Porque pensas - replicou ele num tom suave -, que tenho tido tanto
cuidado para te manter longe dele?

Correspondi ao seu sorriso, fitando-lhe os olhos carinhosos.

- Mas estás a sugerir que terá sido responsável também pelas outras
mortes? - perguntei, debatendo-me por me manter concentrada na
questão profissional, não obstante a postura afetuosa de Andrónico. -
Salvídia, por exemplo?

- Ele sabia que Salvídia tinha causado a morte daquele rapazinho.


Ficou furioso. Afixou aquele cartaz a pedir testemunhas.

- Pensava que tinha sido Tibério a fazer isso.

- Tinha ou não tinha o nome de Fausto? Segundo creio lembrar-me,


foste ao nosso gabinete à procura dele, Albia.

Assenti com a cabeça.

263
- Muito bem. Suponhamos que, nesse caso, o edil levou um pouco longe
de mais o seu papel de representante público. Detestava que a
negligência de Salvídia tivesse provocado a morte a uma criança, pelo
que, em vez de se limitar a multar-lhe a companhia, se autoincumbiu
de fazer justiça rigorosa. E a idosa? Celendina não tinha feito nada
que o incomodasse.

- Ah, essa não sei. Deve haver uma razão. Simplesmente ainda não a
divisámos. Se calhar aquele filho de que me falaste matou-a mesmo...
Já quanto ao rapaz das ostras - apressou-se Andrónico, antecipando-se
às minhas perguntas -, Fausto costuma comprar provisões especiais.
Adora comida. Gosta de ostras e é zeloso quanto a quem as fornece.
Deve ter ido a essa banca e, não sei como, o rapaz há de tê-lo
irritado.

Era habitual que chefes de família fizessem compras para a casa dessa
maneira. Os homens, em particular, consideravam-se especialistas do
comércio. Matar um rapaz que, por exemplo, não abrisse bem as ostras
parecia pouco provável mas, assim que começamos a pensar que alguém é
louco, as regras da normalidade deixam de valer. Quanto a isso,
Andrónico tinha razão. Todos nos debatemos por identificar motivos,
mas os assassinos são uma raça imponderável e inconstante.

Aquilo era bizarro. Ali estava eu, em casa de um homem sem o seu
conhecimento, enquanto um subordinado dele tentava convencer-me de
que o amo era um assassino em série. Andrónico parecia quase
indiferente à situação. Eu estava cada vez menos à vontade.

- Tínhamos chegado à conclusão - protelei - de que o assassino deve


viver na área onde as mortes têm ocorrido, ou pelo menos os ataques
às vítimas.

Andrónico encolheu os ombros.

- Viver... ou trabalhar?

Ele tinha razão. Mesmo ao lado do Templo de Ceres ficava o gabinete


da edilidade.

264
Observei um escravo, carregado com uma grande travessa com uma
baixela que incluía taças com guardanapos imaculados como os que nos
tinham sido entregues, a caminhar pelo passadiço do andar superior
como se fosse levar aquela a um dos quartos. O rapaz estava a
cambalear. Teve de se apoiar a uma coluna. Tratava-se de uma travessa
importante. Pus-me de pé.

- Não posso continuar aqui a falar dele. Vou para casa. Num tom quase
excitado, Andrónico perguntou-me:

- Tens medo do homem?

- Não. - Talvez devesse ter. No entanto, os informadores têm de se


mostrar valentes. - Não quero que saia do quarto e nos veja a
analisar o que ele poderá ter feito. E prematuro. Temos de reunir
indícios que o liguem aos crimes. A maior parte do que disseste
poderia perfeitamente aplicar-se ao teu suspeito anterior, Tibério.

Mas não a questão da criada. A criada destruíra o casamento do edil.


Vingar-se dela era um motivo que só assentava a Mânlio Fausto.

Andrónico seguiu a minha sugestão.

- E não há dúvida de que estás a pensar que é Tibério quem costuma


andar na rua.

Eu não tinha avançado tanto no meu raciocínio, mas acenei com a


cabeça.

- Pensa nisto. Sim, Tibério sai disfarçado, mas não te deixes


enganar. Já sabes como é Fausto. Quer executar o seu trabalho melhor
do que qualquer edil anterior. A seu favor, há que dizer que não fica
com o traseiro togado no gabinete, à espera de notícias. Familiariza-
se com o que acontece na área.

- Conhece a sua zona? Andrónico bateu palmas.

- Exatamente.

- Ele sai por ali? Conhece sítios como a Vicus Altus e a Rua do Louro
Menor? Passa frequentemente pela Porta Trigemina?

- Passa pela Porta para comprar ostras de Rupitiae. Acha-as muito


mais saborosas do que as de Lucrino.

265
Ele estava a começar a convencer-me. O que só me dava mais motivos
para desaparecer dali. Repeti que ia para casa e, desta feita,
preparei-me para partir.

Não fiquei surpreendida quando Andrónico decidiu acompanhar-me. E,


com o coração mais animado, soube como ele pretendia que isso
acabasse. Mesmo em público, tornava-o óbvio. Quando saíamos da casa,
avançando lado a lado, ele aproximou-se tanto de mim como se fôssemos
dois amantes a caminho da cama.

266
37

Desde a Rua dos Plátanos, era um percurso mais curto até ao Paço da
Fonte a partir da casa de Túlio e Fausto do que do outro lado da
colina, como nas minhas visitas anteriores à área do Templo de Ceres.
Porém, até aquele passeio me proporcionava algum tempo de reflexão.

Raramente me sinto triunfante ao identificar algum malfeitor. Na


maioria das vezes, parece-me um desperdício. Quanto mais esperto o
criminoso, mais isso se aplica.

Eu e Andrónico não falámos muito. Ele estava só a pensar em fazer


amor, como se falar de mortes tivesse uma carga erótica. Apesar de o
prazer me atrair, e de em qualquer outra ocasião ser uma questão
urgente, eu estava temporariamente perdida naquele caso. Não era
momento para colaboração. Nem sequer sabia se quereria isso. Em
conjunturas críticas, prefiro remoer sozinha as investigações. Ainda
que tivéssemos uma certa intimidade, o seu método de saltar para
conclusões imediatas sempre que havia uma reviravolta não se
coadunava com o meu modo de agir. Eu demoro até atingir resultados.
Revejo e testo todas as pistas e todos os factos, para o caso de
haver erros ou elos em falta. E o que é mais importante é que o faço
quando estou preparada. Para mim, naquela tarde, estar em silêncio
era apenas uma forma de arejar o cérebro para o preparar para quando
fosse ponderar.

267
Queria sentar-me sozinha na minha poltrona, num quarto silencioso,
com uma taça de vinho cheia a meu lado e uma tabuinha para tirar
notas sobre o colo.

Bem, teria de atacar a investigação mais tarde, depois de eu e


Andrónico termos caídos nos braços um do outro e passado um tempo
delicioso um com o outro... Eu era humana.

Nesse momento, havia duas coisas a saltarem para a frente da minha


consciência. Precisava de pedir a Cassiana Clara que confirmasse se,
naquela noite do jantar, Mânlio Fausto a tinha atacado. Se o tivesse
feito, isso seria um fator decisivo.

Também queria interrogar a criada de Laia Graciana, Venúsia, a


respeito de Fausto. Em particular: como ficara ela a par do caso
extraconjugal e o que foi (se não fora apenas o seu caráter
desagradável) que a levara a dizer alguma coisa? Teria sido realmente
lealdade para com Laia? Uma verdadeira amiga poderia ter tentado
manter a jovem esposa na ignorância e preservar-lhe a felicidade -
ou, para quem é cínico em relação ao casamento, preservá-lo durante
todo o tempo possível.

Uma ideia que eu começava a desenvolver era a seguinte: enquanto


Fausto e Laia eram casados, será que ele tinha seduzido a criada?
Muitos maridos lançam a mão às serventes das mulheres. Venúsia
poderia apreciar as atenções veladas de Fausto, convencendo-se até de
que seria especial; nesse caso passaria a odiá-lo se ele começasse
outro caso amoroso, o que a levaria a denunciá-lo à patroa por
despeito, por ser também uma amante frustrada.

Enquanto caminhava com Andrónico, perguntei-lhe se Fausto poderia


fazer isso. Andrónico replicou que o homem era conhecido pelo seu
atrevimento com as escravas. Segundo me disse, quando visitava outras
casas, as pessoas já sabiam que ele representava um risco e tomavam
medidas para manter as raparigas bem-parecidas longe dele.

— Não é o único homem em Roma com essa reputação - concluiu.

268
- Concordo. Mas estás a pintá-lo de uma maneira muito diferente de
tudo o que eu tinha ouvido até agora. Tu mesmo não me disseste uma
vez que ele nem sequer tocava com um dedo na rapariga que lhe faz a
cama? Espero que não estejas a inventar esta tua sessão de corte e
costura!

- Agora que penso nisso, ele tem um escravo a cuidar-lhe do quarto -


respondeu num tom grave. - E eu cá nunca me dedico à costura. Mesmo
quando é preciso coser papiros uns aos outros no escritório do
arquivo, delego essa tarefa.

- Não há nada de mal em trabalhar com uma agulha - discordei, a


sorrir. - Não é tão delicado como se julga. Para atravessar o pano,
por vezes é preciso fazer muita força.

- A sério?

As tolices acerca de bordados e costura preencheram o tempo enquanto


íamos do fundo da viela até ao Edifício Águia, onde tanto queríamos
chegar para nos livrarmos da roupa e cairmos nos braços um do outro.
Até eu tinha recuperado o interesse. Em vez disso, à entrada
deparámo-nos com Ródão, muito enervado.

- Oh, louvados sejam os deuses, Albia... eu não sou capaz de tratar


disto! É um animal! Está nas escadas. Ninguém consegue passar. Alguém
tem de se livrar daquilo.

O matulão estava à beira das lágrimas, tal era a sua inquietação por
ter de apanhar e expulsar uma criatura selvagem que entrara no
edifício. Calculei que fosse uma ratazana ou até um rato. Mesmo
munido com ratoeiras, o nosso zelador era demasiado sensível para as
esvaziar. Costumava levar-mas.

- Acalma-te, Ródão.

Ao ir para casa com um amante, não queria deparar-me com uma


emergência doméstica. Dá mau aspeto. Faz perder tempo. Estraga o
ambiente. Por isso, sim, fiquei furiosa. Ródão estava tão habituado
às pessoas ficarem incomodadas com ele que mal reparou. Já Andrónico
não escondia o riso.

269
- E que coisa é essa, um leão fugido?

- Tu és um gladiador, Ródão - resmunguei. - Arranja uma lança e


resolve o problema.

Eu sabia que Ródão nunca tinha matado o que quer que fosse. Perante
um verdadeiro predador, ele próprio morreria, de cobardia.
Felizmente, não vivíamos numa área que fosse regularmente assolada
por animais exóticos a escaparem de jardins de exposição de gente
rica.

Ródão passou-me uma vassoura. Ao aceitá-la, assumi a


responsabilidade. Ele tinha transformado a vassoura num testemunho de
uma espécie de corrida de estafetas, o sprint da besta selvagem.
Agora cabia-me correr com o problema.

Praguejei. Com Andrónico a acotovelar-me, muito empolgado, passei por


Ródão, que fugiu para o seu cubículo, onde ficaria a tapar as orelhas
até tudo chegar ao fim. Entrei no átrio do prédio. Ao início, não vi
nem ouvi o que quer que fosse. Depois dei pelos sons aflitos e
desconcertantes. Ao subir lentamente o primeiro lanço de escadas,
deparei-me com uma terrível visão. Uma das raposas usadas no ritual
da noite anterior tinha sobrevivido ao Circo e escapado.
Terrivelmente queimada nas patas traseiras, tinha-se arrastado pelo
Aventino e entrara no nosso prédio. Embora tivesse conseguido livrar-
se do archote a que a haviam amarrado, os estragos eram horrendos: a
criatura exausta quase não tinha cauda, a pele estava calcinada e as
suas longas patas traseiras pendiam, inúteis.

Estava deitada a um canto do primeiro patamar. Os seus olhos


ambarinos estavam apagados e cheios de terror. Quando me aproximei,
debateu-se o melhor que podia, mas estava demasiado fraca para sequer
cuspir ou rosnar.

- Para. Não te aproximes! - Andrónico estendeu a mão para me travar.

Percebi por que motivo Ródão estava tão perturbado. Era a minha vez
de ficar histérica.

270
- O que podemos fazer? Temos de a ajudar!

- Já não pode ser salva, Albia. Não há esperança.

- Então tenho de pôr fim à sua miséria. Não posso deixá-la assim!

A cena piorou, pois as crianças africanas que viviam no primeiro


andar ouviram as nossas vozes e espreitaram pela porta, atrás da qual
deviam ter estado escondidas. Como já havia adultos que podiam
prestar-lhes atenção, desataram a gritar. Estavam a assustar a
raposa. Estavam a assustar-me. Ordenei-lhes que fossem para dentro,
mas elas limitaram-se a gritar mais alto.

- Certo. Afasta-te. - Andrónico assumiu o controlo. Foi maravilhoso.


Quanto a mim, tremia que nem varas verdes. Sempre que a raposa
patética estremecia e se agitava, o pânico apoderava-se de mim.
Escondi a cara entre as mãos, mal sendo capaz de olhar, e ouvia os
meus próprios gemidos. Enquanto eu me enervava, Andrónico avaliava a
situação. - Isto não vai ser fácil... - Tirou-me a vassoura. - Vai lá
abaixo ver se o Ródão me arranja uma faca decente. Arranja qualquer
coisa... vai, Albia!

A conter os soluços, obedeci. Poderia ter ido buscar uma das minhas
facas, mas não era capaz de passar pelo animal ferido para chegar ao
meu apartamento ou ao escritório. Atrás de mim, ainda ouvi Andrónico
a mandar as crianças para dentro; desta vez, o barulho decrescente
foi indicativo de que os pequenos tinham obedecido.

Se em parte eu estava preparada para tratar da raposa ferida, por


outro lado sentia-me aliviada por, ainda que claramente desagradado
com a situação, Andrónico estar disposto a substituir-me.

Foi preciso muito tempo para que Ródão me arranjasse uma faca
adequada. Não lhe agradava que eu entrasse no seu cubículo
malcheiroso e, quando o empurrei e passei por ele, parecia incapaz de
se lembrar de onde guardava as coisas. Contudo, tinha tão poucas
posses que era fácil ver a maioria. Algumas tinham começado por
pertencer a outras pessoas, ao que parecia.

271
Quanto ao resto, era tralha. Potes rachados e enxota-moscas sem
penas. Um colchão cheio de altos e baixos. Uma tanga pendurada numa
velha lança -que não tinha punho, caso contrário eu tê-la-ia levado.
Por fim, o porteiro apresentou-me uma adaga terrível que devia fazer
as vezes de talher elegante nos dias em que não comia com as mãos.
Aos tropeções, tornei a subir as escadas. Para meu grande alívio,
descobri que já tudo tinha terminado.

A raposa estava inerte e Andrónico tinha-se encostado à parede, com


um ar pálido e a respiração acelerada. Largara a vassoura num degrau.
O silêncio e a calma reinavam.

- Não faças perguntas. - Olhou para mim com uma expressão cansada. -
Não fiques triste. Ela morreu. Faleceu, minha querida de coração
sensível, não precisas de pensar em mais nada. - Impedindo-me de
fazer perguntas, também não me deixou aproximar mais. - Limitou-se a
esgotar as forças e parou de respirar, sem medo ou sofrimento.

Não me contaria. Talvez estivesse a dizer a verdade e a raposa


tivesse simplesmente morrido de exaustão e perda de sangue, ou talvez
ele a tivesse ajudado de alguma maneira. Desconfiei que me tinha
mandado ir ter com Ródão ao andar de baixo para se livrar de mim
enquanto lhe acabava com a dor.

Convenci-me de que Andrónico tomara alguma atitude, embora não


conseguisse imaginar qual. Não via qualquer arma no animal morto.
Quanto ao arquivista, estava desarmado. Se lhe tivesse batido com a
vassoura, não teria resultado e o barulho teria sido audível. Além
disso, o meu amigo não era assim tão cruel.

Enquanto o abraçava, Ródão apareceu com uma saca para levar o trágico
cadáver, já a representar o papel de grande homem, agora que outra
pessoa tinha resolvido o problema difícil. Debruçou-se para apanhar o
corpo estropiado da raposa, arquejando devido ao esforço de se
dobrar. Desviei o olhar e Andrónico protegeu-me, encostando-me ao seu
ombro.

272
Eu ainda estava a tremer quando o porteiro se endireitou, de saca na
mão. Os seus joelhos estalaram ruidosamente. Numa voz afetada, disse-
me:

- Não sei se estavas a contar com isso, Albia... mas está lá em baixo
uma cadeirinha enviada pelo teu pai para te levar.

Hades. Devia estar a contar com isso. Tinha-me esquecido. Eram os


idos de abril. O meu aniversário obrigatório.

273
38

Eu encontrava-me em estado de choque por causa da raposa morta. Caso


contrário, poderia ter lidado melhor com a situação.

Poderia ter convidado Andrónico a acompanhar-me a casa dos meus pais.


Porque não o fiz? Sobretudo porque não o conhecia há tempo
suficiente. Ainda o queria só para mim. Assim que se apresenta um
amigo à família, esta apropria-se dele. Os meus pais haveriam de o
interrogar, cada um à sua maneira, discreta e determinadamente; as
minhas irmãs haveriam de fazer perguntas inanes acerca de nós à sua
frente; até o meu irmãozinho, uma criança difícil no melhor dos
casos, haveria de o fitar de uma forma desconcertante. Não estávamos
preparados para isso.

Mencionar que era o meu aniversário parecia desnecessário. Ficaria


envergonhada. Por isso, olhando para trás, devo ter dado a Andrónico
a triste impressão de que se tratava de uma ocasião previamente
marcada mas sem grande importância, da qual poderia escapar-me cedo.
Ainda era apenas hora de almoço.

- Vais ficar bem? - perguntou-me num murmúrio carinhoso. Eu estava


nervosíssima, o que ele deveria pensar que ainda se devia à raposa.

- Vou estar com a minha gente, não te preocupes.

274
- Oh, eles cuidam dela - acrescentou Ródão, apesar de ninguém lhe ter
pedido a opinião. - Aquele Falco é um sacana e tanto, mas o resto da
família é bastante amável e engraçada.

- Obrigado, Ródão!

Andrónico parecia mais divertido com a recomendação contraditória do


que incomodado por ir perder-me.

Garanti-lhe que poderia cumprir o seu dever de participar no festival


do edil nessa noite, sem qualquer obrigação para comigo. Já não
estávamos com vontade de ir para a cama juntos, mesmo que eu
estivesse disponível. A raposa moribunda tinha-nos reprimido o
desejo. Eu estava perturbada e ele ficara abalado pelo que quer que
tivesse acontecido enquanto se encontrava a sós com a raposa.
Demoraríamos algum tempo a recompor-nos.

Pedi-lhe desculpa por ter de ir embora tão apressadamente; ele disse


que talvez voltasse ao Paço da Fonte mais tarde, para me ver. A
promessa vaga não era suficientemente séria para me levar a mencionar
que eu própria talvez não regressasse antes da madrugada.

Estava demasiado entorpecida para pensar com clareza. Ainda mal


conseguia falar.

Andrónico despediu-se de mim com palavras doces e depois foi-se


embora. Terá visto a cadeirinha, com os seus liteiros pacientes, lá
fora à minha espera. Provavelmente pensava que, para estar a ser
convocada de manhã, seria para um almoço leve e talvez uma tarde de
mexericos. Eu continuava renitente quanto a explicar-lhe que se
tratava do meu aniversário.

Depois de ele se ter ido embora, subi até ao meu gabinete com o
intuito de ir buscar a túnica azul a que cosera a faixa entrançada no
outro dia, para usar então. Ainda tinha a agulha espetada no forro da
gola, onde a tinha deixado quando Andrónico aparecera. A minha
intenção era guardá-la no estojo de osso que tinha na minha caixa de
costura, mas não consegui encontrá-lo, o que me

275
A caixa estava apinhada; o conteúdo saltaria se o remexesse
demasiado, e eu estava com pressa. Parti do princípio de que
simplesmente não estava a ver o estojo, como por vezes acontece com
um objeto mesmo à nossa frente. Acabei por ter de espetar a agulha
numa sobra de fita. Agarrando na caixa e na túnica, tranquei o
escritório e desci as escadas.

Quando cheguei ao apartamento, já estava zangada comigo mesma por ser


desmazelada. Gosto de manter o equipamento arrumado. Mas estava tão
descoordenada que até pôr brincos me custava; não conseguia encontrar
o furo de um dos lóbulos, que devia ter sido feito num certo ângulo e
se mostrava sempre esquivo em alturas de pressa. Depois de mudar de
roupa e de tratar da minha aparência, acalmei-me. Antes de sair,
despejei a caixa de costura para cima de uma mesa de apoio e percorri
sistematicamente tudo o que continha, determinada a não me deixar
vencer. O estojo não se encontrava ali.

Poderia ter caído no chão do escritório, mas eu não tinha tempo para
voltar e procurá-lo. De qualquer maneira, estava convencida de que o
teria visto. Detesto a sensação de algo não estar bem. Detesto
sobretudo qualquer indício de me terem mexido nos pertences. O estojo
das agulhas era bonito e útil, mas não valioso; o escritório continha
outros artigos que atrairiam um ladrão, todos eles perfeitamente
transportáveis. Não são muitos os intrusos que se deem ao trabalho de
subir tanto num prédio, já que cada novo andar comporta mais riscos;
o meu apartamento no primeiro andar estaria muito mais sujeito a ser
roubado. Portanto, o que se passaria ali?

Por fim, estava pronta para sair, no meu vestido azul, sandálias
douradas e os melhores brincos que tinha, sabendo que a minha mãe
comentaria que eu estava com um ar cansado, como, ao que parece, as
mães têm de fazer. O cansaço, quando deriva dos problemas da vida,
não pode ser disfarçado. Nem pode uma mãe ser impedida de nos mirar
com olhos semicerrados, ainda que saibamos que é a sua forma de nos
mostrar que se preocupa.

276
A primeira coisa que as minhas irmãs guinchariam seria: «Que cabelo
horrível, Albia!» Aquelas duas tolinhas, Júlia e Favónia, atacar-me-
iam com pentes de ornamentos, levando-me com elas para remediarem
pelo menos aquele defeito detetado.

De repente, tive vontade de estar lá. Queria ser mimada pelas minhas
irmãs e celebrada como rainha do dia. Queria familiaridade.
Descontrairia - na verdade, já começava a descontrair. Emergiria dos
cuidados e atenções das raparigas novamente mais animada e divertida,
cheia de vontade de aproveitar o meu aniversário. Até queria, em
parte, afastar-me de Andrónico, pois há uma tensão subtil quando se
está com um novo homem, cujas reações ainda são desconhecidas. Com
ele, eu sentia-me constantemente em alerta.

Em casa, poderia ser simplesmente eu mesma. Todos me conheciam e


lamentavam alegremente. Era esse, segundo eu tinha aprendido desde a
adolescência, o propósito de uma família.

Antes de partir, reparei em Ródão e perguntei-lhe:

- Deixaste alguém subir até ao meu gabinete nos últimos dias sem me
teres dito?

-Não.

Só poderia dar-me esta resposta. Quem quer problemas?

- E na outra noite? Aquele homem chamado Tibério veio à minha


procura, com o vigilante Morelo.

- Vieram ao meu cubículo. Eu sabia que não estavas cá.

- E eles acreditaram em ti?

- Porque não?

- Porque qualquer pessoa que te conhece não espera que te lembres do


que quer que seja!

Ródão fitou-me e disse lentamente:

- Nunca subiram. Parecia que achavam que sabiam onde poderiam


encontrar-te nessa noite. Limitaram-se a dar meia-volta e a ir para
outro sítio qualquer.

Então falei com mais calma:

- Ródão, eu acho que esteve alguém no meu escritório.

277
- Que eu saiba, não, Albia. Desisti.

- Bem, mantém os olhos bem abertos. Ródão fez uma expressão acanhada.

- Feliz aniversário, já agora.

- Obrigada, Ródão.

Sim, tive um aniversário maravilhoso. Os meus parentes sabem


organizar uma festa. Como já era tradição, foi tão boa que a noite
caiu antes que eu me desse conta. Reconhecidamente toldada, a minha
intenção era chamar a cadeirinha e ir para casa, mas fui atrasada à
última da hora. Por essa altura, já ninguém estava a tomar decisões
sensatas. Fui persuadida a ter uma conversa reconfortante em privado
com o meu irmão mais novo.

Póstumo já tinha onze anos. Todos conhecíamos a sua verdadeira mãe,


uma personagem interessante que geria uma grande companhia de
entretenimento. Tália poderia ter instintos maternais para com crias
de leão, mas ser responsável por um filho humano assustara-a,
levando-a a entregá-lo à nossa família. Havia dúvidas em relação à
paternidade, mas a versão a que todos nos cingíamos era a de que o
meu avô o perfilhara, mesmo antes de morrer. Era certamente nisso que
ele, vaidoso, gostaria de acreditar.

Os meus pais acolheram o bebé e, por também ser adotado, sempre se


assumira que eu e ele teríamos uma relação especial. Na verdade, não
partilhávamos nem sangue nem empatia. Eu tinha alguma pena dele mas,
para ser sincera (e esperava que ele não o percebesse), nunca me
afeiçoara ao rapaz. Ele também não simpatizava por aí além comigo. A
bem da verdade, ele não dedicava grande afeto às outras pessoas. Os
meus pais e as minhas irmãs tratavam-no com delicadeza e justiça, mas
ele encarava tudo com desconfiança, ciente desde o início de que a
sua existência obrigava o meu pai a partilhar consigo, como meio-
irmão, um grande legado; quem quer que gostasse do meu pai veria
Póstumo, por esse motivo, como um cuco no ninho.

278
Quem quer que visse o meu pai como alguém muito mais astuto
suspeitaria, de facto, de que só tinha adotado o rapaz porque, como
seu filho, a questão da herança já não se aplicava... Provavelmente,
era isso que o meu irmão achava.

Póstumo fazia poucos amigos, dentro ou fora da família, e parecia


apreciar o isolamento. Tinha o género de personalidade que nos leva a
pensar que, quando crescer, tal pessoa se tornará um torturador
público. Contudo, albergava ansiedades genuínas.

Tinha-se preocupado com a sua segurança durante toda a curta vida.


Agora, segundo me dizia, estava convencido de que a mãe biológica
estava de olho nele. Tinha atingido uma idade em que poderia ser útil
para o trabalho dela. Póstumo receava que ela em breve aparecesse a
reclamá-lo (tratava-se de uma criança esperta, pois passado pouco
tempo foi mesmo isso que ela fez).

- Anima-te - disse-lhe, quando me foi pedido que sondasse o problema


e interviesse, na qualidade de irmã mais velha. - Nesse caso serás o
único rapazinho da História que, em vez de fugir de casa para se
juntar a um circo, tem de fugir de um circo para ir para casa.

O meu irmão fitou-me com o seu ar mais pesaroso. Ia dizer que estava
a passar por uma fase difícil mas, no percurso dele, uma fase difícil
limitava-se a dar lugar a outra, sem o mais pequeno intervalo.

- Como te sentirias, Albia, se aqueles vendedores de couves viessem


de Londínio e quisessem levar-te com eles?

- Acredita no que te digo, criança; a vida com os Dídio ensinou-me a


tomar decisões excitantes. Fugiria das couves e tornar-me-ia domadora
de leões.

Reconheci mentalmente que já estava a beber vinho há tanto tempo que


era possível estar a encarar a sua infelicidade com demasiada
ligeireza. O meu irmão foi-se embora, zangado, e eu fiquei a sentir-
me tão culpada que precisei de beber mais vinho com os meus pais, que
se encontravam igualmente deprimidos por não conseguirem lidar com
ele.

279
Abandonei as intenções de regressar ao Paço da Fonte nesse dia. Eles
ainda tinham o meu quarto disponível; como em muitas ocasiões antes
dessa, passei lá a noite.

Dei um salto a casa na manhã seguinte, mas foi mesmo uma visita
breve. Precisava de levar algumas coisas porque, durante a festa,
também tínhamos falado de trabalho. Perante os misteriosos
assassínios, toda a gente concluíra que só havia uma coisa a fazer em
seguida. Como os parentes costumam fazer, os meus deram-me ordens;
como todos fazemos para evitar discussões, cedi. Por isso, ia fazer-
me a caminho de Arícia, para onde Laia Graciana tinha enviado a
criada, Venúsia.

Venúsia tinha de ser interrogada. Nem os vigiles nem a edilidade


alguma vez o fariam e, mesmo que fizessem, podíamos ter a certeza de
que dariam cabo de tudo. Morelo era um mandrião; Fausto e o seu
mensageiro estavam implicados. Eu, para além de neutra, era mulher.
Poderia dar a volta a uma criada. A questão crucial era que, ao
contrário de todos os outros, eu era eficiente. O meu pai iria
emprestar-me uma carroça e um condutor para aquela manhã, de modo que
eu poderia chegar lá.

Alguém de quem eu costumava ter boa opinião teve a bela ideia de que
o macambúzio, o meu irmão, me acompanhasse na viagem, com o objetivo
de se distrair dos seus próprios problemas.

Obrigadinha, mãe.

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Alguns informadores têm vidas diferentes da minha. Esses figurões são


insultados por sátiros e historiadores, mas pouco importância dão a
isso, pois, com os lucros que obtêm, podem reformar-se em luxuosas
villas instaladas em penedos magníficos com vista para mares azuis
como pedras preciosas. Refiro-me às caras famosas que se apresentam
em casos de tribunal célebres. É verdade que são ferramentas
desprezíveis de imperadores despóticos, mas podem compensar o
desprezo público com a alegria simples de terem belas condições de
trabalho. Os seus gabinetes são elegantes. Pessoal discreto serve-os,
com salvas de prata. Têm horários curtos e convenientes. Quando se
vêm obrigados a viajar, presumindo que se trata de uma emergência em
que nenhum agente possa ser enviado no lugar deles, fazem-no com
imenso estilo e conforto, em liteiras estofadas com uma enorme
comitiva, fazendo muitas paragens para se alimentarem, o que incluirá
vinhos antigos e patê de lagosta, servidos por rapazes nus da Numídia
sob toldos desmontáveis. Com berloques.

Trabalhando por conta própria, não era esse o meu estilo. Não fosse o
meu pai ter-me emprestado uma carroça, eu teria ficado à beira da
estrada da Via Apia, a tentar apanhar boleia numa carreta de feno.

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Os condutores de carretas de feno são todos umas bestas, eu bem sei.

Em vez disso, fui agraciada com um certo Félix e a sua mula, chamada
Coices, a equipa imortal que compunha a carroça secreta de transporte
de dinheiro da casa de leilões. Era, por definição, decrépita. Tinha
de parecer ter uns cinquenta anos, com um eixo sempre a ameaçar
quebrar-se, um veículo tão pouco sofisticado que ninguém o usaria
para outra coisa que não para transportar três galinhas e uma saca de
lã muito malcheirosa. Na verdade, o eixo estava muito bem oleado e as
rodas eram novas. Tinha um chão falso, sob o qual se encontrava um
compartimento reforçado onde se guardavam tesouros e/ou sacos de
moeda cunhada. Coices tinha as pernas tortas mas, se lhe déssemos
tanta ração e água quanto queria, era capaz de andar muito mais
depressa do que seria de esperar. Já Félix era a pessoa a quem menos
assentava o adjetivo Feliz ou Afortunado, a prova viva de que ninguém
poderá prever como será um bebé quando se lhe impõe o rótulo para
toda a vida. Servíamo-nos dele porque era de confiança em estalagens
à beira da estrada; toda a gente se afastava do seu rosto tristonho,
pelo que nunca se misturava com más companhias ou dizia a potenciais
salteadores que levava dinheiro. As galinhas, batizadas pelas minhas
irmãs, chamavam-se Tonta, Tola e Patareca. Eram do piorio, sempre
dispostas a bicar passageiros.

Félix apanhou-me à entrada da velha lavandaria, com Póstumo já com um


ar infeliz dentro da carroça. Era proibida a circulação de veículos
com rodas em Roma durante o dia, mas havia exceções para carroças das
obras, pelo que Félix dominara há muito a arte de ter uma tábua nas
traseiras para parecer legítimo. Expliquei ao meu irmão que era por
isso que tínhamos uma tábua tão útil connosco, a qual poderia ser
usada para atravessarmos qualquer terreno pantanoso quando parássemos
ao longo da viagem para fazer chichi atrás de um arbusto. Póstumo
ficou horrorizado; não aguentava que fizessem pouco dele.

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Alguns rapazes teriam levado as suas marionetas para se entreterem
inocentemente ao longo da viagem. Póstumo tinha o seu furão. Chamava-
se Furão. Era esse o género de imaginação tresloucada que o meu irmão
não só tinha como se orgulhava de possuir.

Perguntei a Félix, o qual confirmou os meus receios acerca de os


furões e as galinhas não se entenderem. De facto, não entendem.
Passámos a viagem inteira com Furão a dar em louco, sempre a tentar
apanhar as três galinhas.

Lembro-me de ter visitado Arícia quando era jovem. Os meus pais


tinham ido ao templo de Diana em Nemi, durante uma das suas missões
oficiais ultrassecretas. Ninguém pode falar acerca de algumas das
aventuras loucas que tiveram. O meu pai não poderá publicar as suas
memórias durante os próximos dois mil anos, mais coisa menos coisa.

Dessa vez, foi uma curta passagem a meio de dezembro, numa estalagem
hedionda. Isso tinha-me deixado uma fraca impressão de um local que
agora se me afigurava extremamente próspero. Como primeiro ponto de
paragem na azafamada rota entre Roma e o Sul de Itália, Arícia
encontrava-se numa posição privilegiada para persuadir gente a
despender dinheiro enquanto ainda estava de bom humor. No limite
externo dos montes Albanos, tinha um clima agradável. A localização
também era boa, com belíssimas paisagens de um vale que deveria ser
uma antiga cratera vulcânica e que se estendiam até ao mar, a uma
distância nebulosa. Estes benefícios, somados à proximidade da
cidade, tinham levado muitas famílias romanas de bom nome e situação
financeira ainda melhor a escolher a zona para uma segunda
residência. Para delícia gastronómica destas famílias, o fértil solo
vulcânico fornecia excelentes vegetais às bancas dos mercados, havia
um prato local fabuloso de porco cozinhado com funcho, produzia-se
vinho e os morangos das montanhas faziam jus à fama. Outro bónus era
o início de uma via sagrada de três milhas ao longo dos bosques até
Nemi, com o seu altar numa localização lindíssima, junto ao lago;
aqui Diana apresentava-se como deusa do parto indolor.

283
Entre os sofisticados serviços médicos oferecidos constava a
orientação conceptiva para os cidadãos livres e ricos, que afluíam em
massa ao local.

Obviamente, muito do aconselhamento neste altar envolvia intercessão


junto da deusa e preces, processos dispendiosos, mas também era
possível que fosse dito aos suplicantes que «fizessem sexo com mais
frequência», o que decerto levaria a visita a valer o dinheiro gasto.
Aposto que também funcionava. Não havia dúvida de que Nemi tinha uma
reputação maravilhosa, bem como um rendimento a condizer.

O meu pai achava que, se os inférteis desembolsassem uma tarifa


extra, os sacerdotes haviam de dar uma mãozinha. Ele é terrível.

Mas muitas vezes tem razão.

Em Arícia, existia um templo quase esquecido, dedicado a Ceres.


Também ela uma deusa da fertilidade, embora, ao contrário de Diana,
não especificamente virginal, Ceres, na sua coroa de espigas de
trigo, era honrada com bustos e estátuas sentadas, amamentando duas
crianças pequenas. Uma maternidade abundante deprimia os casais com
dificuldades em ter filhos, pelo que havia poucos benfeitores daquele
templo. Faltavam-lhe todas as instalações elegantes do complexo de
Diana, ali tão perto.

O facto de ter sido abandonada no meio das pobres acólitas do templo


também não era muito apelativo para a criada solteirona de Laia
Graciana. Encontrei-a a arrastar-se pelos cantos. Se fora ali deixada
para sua própria segurança, a verdade era que não se sentia grata.

Eu tinha deixado Félix e a nossa bagagem num mansio que esperava que
fosse diferente daquele em que os meus pais haviam pernoitado. Vira-
me obrigada a levar Póstumo comigo. Não se pode deixar um rapaz e um
furão sozinhos numa estalagem.

284
Com a sua atitude sombria e insultuosa, sem dúvida seria raptado por
malfeitores que o confundiriam com o filho de um cônsul e o
despachariam para uma aldeia da Sardenha. Os bandidos teriam de o
aturar, enquanto ele se queixaria acerca das condições em que o
mantinham e lhes criticava a ineficácia nas negociações. Nós não
pagaríamos qualquer resgate. O bando desesperado acabaria a suplicar-
nos que o livrássemos do meu irmão. Pior, Póstumo não demoraria a
tornar-se chefe do bando, uma tarefa que lhe assentaria como uma
luva. Mas isso não era vida para um furão e, sendo eu uma acérrima
defensora dos animais, tinha de pensar no futuro de Furão.

Póstumo não abriu a boca durante o interrogatório; até Furão se


manteve sossegado dentro da túnica dele, raramente pondo a cabeça de
fora. O meu irmão nunca incomodava quando se estava a trabalhar.
Gostava de observar o que quer que estivesse a acontecer e depois
concluir quão melhor ele próprio o teria feito.

Venúsia andava de um lado para o outro e tentava distrair-me


perguntando-me se o meu querido menino quereria um sumo ou uma tigela
de passas. Póstumo nunca fora uma criança que aceitasse sumo de
senhoras maçadoras que o tratassem como se tivesse três anos. Mesmo
quando tinha de facto três anos, comportava-se como um velho, um
velho com várias mulheres enterradas debaixo das tábuas do soalho com
machadas enfiadas na cabeça. Fulminou Venúsia com o seu olhar fixo
que perguntava abertamente por que motivo aquela mulher estúpida não
sabia que tudo o que ele queria era que o deixassem embrenhar-se no
bosque sagrado, encontrar um ouriço e desmembrá-lo da forma mais
sanguinária possível.

Durante o finca-pé a respeito do sumo, aproveitei para olhar com


atenção para Venúsia. Fiquei espantada por ela já não ser uma
rapariga. Temos tendência a presumir que a criada de uma senhora será
uma jovem, cuja conversa será mais divertida e que obedecerá com mais
facilidade - e a quem até se poderá bater; a placa que Márcia Balbila
me mostrara da sua criada decerto a representava como jovem.

285
Mas a verdade era que Márcia admitira livremente que a representação
de Ino fora embelezada em relação ao original, para melhor ornamentar
o salão.

Venúsia era uma mulher de certa idade, que rondaria, segundo me


parecia, os quarenta e cinco anos. Ainda sem poder reformar-se
(porque as criadas tendem a resistir durante anos, tratando das
borbulhas das patroas, determinadas a nunca perderem as suas
assistentes), mas à beira de perder a esperança, pensei. Andrónico
exagerara ao descrevê-la como uma gárgula, mas isso resultava do
desdém de um homem por qualquer mulher mais velha que não fosse uma
beldade que quisessem seduzir. Ela tinha um corpo estranho, um rosto
desfigurado por uma verruga proeminente e uma atitude inflexível. Do
que eu sabia, Laia Graciana estava à sua altura, mas com outros
empregadores, Venúsia teria sido um pesadelo.

Expliquei-lhe que a visitava para a interrogar a propósito do


incidente com Ino. Venúsia mostrou-se hostil. Com os métodos
habituais de vamos-conhecer-nos-melhor, fui inserindo subtilmente
algumas perguntas acerca dos tempos do casamento de Laia e Fausto.

- O que pensava disso?

- Ela podia ter arranjado muito melhor.

- Não era a favor da união?

- Nunca gostei dele.

Agora que já a vira, perguntava-me se seria este o motivo pelo qual


Fausto não apreciava Venúsia. Qualquer jovem marido poderia guardar
rancor a uma criada que tivesse demasiada intimidade com a sua
mulher, que exercesse sobre ela uma influência que lhe fosse
desfavorável, sobretudo se ele e a mulher não fossem, desde logo,
muito compatíveis. Venúsia deveria ter mais uns dez anos do que Laia,
tendo possivelmente sido formada pela mãe desta; tratava-se de uma
mulher que fora encarregada de uma noiva quando a própria noiva ainda
era uma menina. Poderia ter laços profundos que a ligassem à família
de Laia, laços que se sobreporiam aos que passaria a ter em relação
ao casal.

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Pessoalmente, ter-me-ia livrado dela. Não digo que o teria feito
apenas se me encontrasse no lugar de Mânlio Fausto. Se fosse Laia,
tê-lo-ia feito.

Decidi de imediato que nunca existira uma relação entre Fausto e


aquela mulher. Mesmo agora, passada quase uma década desde o
divórcio, os seus olhos escuros chispavam de desprezo quando o
mencionava. Mesmo supondo que numa fase muito incipiente ela o
tivesse julgado bem-apessoado e nutrido uma paixoneta por ele, isso
só poderia ter sido unilateral e terminado muito cedo.

- Dizem-me que sempre foi tremendamente leal à sua patroa? Venúsia


fez um esgar de desdém.

- Quer dizer que quando ele a enganou e eu descobri me assegurei de


que ela ficava a saber?

- Sim, era mesmo a isso que me referia. Como descobriu, já agora?

- Reparei que ele estava a comportar-se como se andasse a tramar


alguma. Dei pelo perfume da mulher nele. Fui até à outra casa e falei
com os escravos de lá. Eles não tardaram a contar-me.

- Então estavam a par das coisas ilícitas que tinham lugar lá?
Venúsia soltou uma risada seca.

- É claro! Acha que essas coisas alguma vez escapam ao pessoal? As


pessoas são tolas se acreditam que aquilo que fazem num divã nunca é
detetado.

- Oh, as pessoas são tolas, isso é certo! Fausto alguma vez fez
olhinhos a outra pessoa?

- Que eu saiba, não.

- Nunca?

- Uma vez foi suficiente. Laia Graciana era demasiado boa para que a
tratassem assim.

- Não o considerava um predador? Ele nunca tentou atirar-se a si?

- Está a brincar!

- Acredite em mim, foi sugerido.

- Por idiotas!

287
- Bem, é certo que ele tem apoiantes. Os que o seguem consideram que
o caso foi um erro estúpido, mas único.

- Então fê-lo à pessoa errada. Ela tinha-me a cuidar dela. Mesmo


passado tanto tempo, Venúsia mostrava-se inclemente.

Laia também, presumivelmente. Perguntei-me quanto, então e agora, a


insistência da criada na punição de Fausto teria influenciado a
perceção da mulher.

- Venúsia, acha que Mânlio Fausto a culpa pelo fim do casamento?

- Nós não temos qualquer contacto com ele, por isso não saberia
responder. - Não obstante, respondeu: - Mas não, eu acho que se culpa
a si mesmo. O que está certo. A culpa foi dele.

- Então considera que ainda lhe guardará rancor?

- Oh, não me parece que goste de mim! - proclamou Venúsia, num tom
orgulhoso. - Mas não julgo que pense sequer nessa questão.

- Ele não seria homem de congeminar uma vingança ao longo de muitos


anos?

- Duvido! - Mais uma vez, fez um esgar desdenhoso. - Isso implicaria


demasiado esforço. Ele nunca teve tanta perseverança.

- Um amigo meu sugeriu-me que Fausto poderia querer atingi-la e que,


enganando-se, teria atacado Ino.

- Que tolice. Quem o disse?

- Uma pessoa do gabinete da edilidade.

- O seu homem elegante!

- Conhece Andrónico? — espantei-me.

- Não! Já o vi. O gabinete fica mesmo ao lado do templo. Reconhecemos


os homens que lá trabalham. Sei que ele anda por ali consigo. -
Parecia rancorosa. - Não se fala de outra coisa.

Detesto ser tema de mexericos, mas mantive a calma. Senti uma forte
necessidade de avançar.

- Bem, estávamos a falar de Fausto. Tem medo dele?

- Com certeza que não.

- Então de quem tem medo, Venúsia?

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- Não tenho medo de quem quer que seja.

- Então por que motivo - insisti -, está encafuada nestes matagais, a


um dia de viagem de Roma, num altar decrépito por onde não passa quem
quer que seja? Enquanto a sua senhora está a participar nas
cerimónias mais sagradas do ano e decerto precisa de si? - Ela nem
pestanejou. - Conte-me, Venúsia, de quem se esconde?

289
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Não percebo a sua pergunta! - Venúsia estava obviamente a fazer-se


desentendida. - Este é um altar devotado a Ceres, a nossa deusa. A
minha senhora faz parte do culto de Ceres; um dia será sacerdotisa-
mor, acredite em mim. Retorqui:

- Primeiro terá de voltar a casar! Estamos a perder tempo, Venúsia.


Mais uma vez, porque está aqui?

- Fiquei muito incomodada com o que aconteceu à pobre Ino, pelo que a
minha senhora teve a amabilidade de me enviar para aqui durante algum
tempo, para eu poder recuperar.

- Num sítio onde ninguém pudesse alcançá-la?

- Não compreendo.

- Oh, voltamos ao mesmo! Muito bem. - Não tinha paciência para a sua
resistência casmurra. - Relate-me os factos, então. O que aconteceu
exatamente quando Ino foi atacada?

Agora a mulher já dava sinais de estar sob pressão; tinha gotas de


suor na testa, que começou a enxugar. Ainda assim, descreveu a
caminhada pela Vicus Altus, indicando que Ino tinha sido acotovelada
com força e depois tropeçara - tudo em sintonia com os relatos que eu
já ouvira. Quando lho perguntei, ela confirmou que, sem motivo
especial, seguia atrás de Márcia Balbila, enquanto Ino ia atrás de
Laia Graciana.

290
- Laia pensou ter visto alguém a atacar Ino.

- Isso eu não sei. A minha senhora não tem a obrigação de me contar


tudo. - Só para mim mesma, pensei: Mas aposto que tu achas que devia!
K luta por controlo em casa de Laia deveria ser cansativa. Só a
personalidade contundente de Laia a terá mantido independente.

- Viu esse homem? -Não.

- Reparou em alguém a misturar-se discretamente com os outros


transeuntes?

- Já lhe disse que não.

- Reconheceu alguém na rua nessa altura?

- Não.

- Ino disse alguma coisa acerca dele? -Não.

- Como é que ela perdeu a estola?

- O quê?

- A estola. Deixou-a cair, foi Laia que me disse.

- Não sei. Deveria ser de um material suave. Ela tinha-a a cobrir a


cabeça, como uma boa rapariga. - Num gesto automático, Venúsia imitou
a forma como uma mulher respeitável segura a estola com uma mão
colocada elegantemente junto à garganta, para a manter ancorada sobre
o cabelo à medida que caminha. - Deve tê-la soltado quando tropeçou.

- De que altura era ela? Da sua? Mais alta? Mais baixa?

- Era mais ou menos da minha altura.

- E a constituição dela?

- Parecida com a minha.

Venúsia tinha, como muitas escravas, alguns centímetros a menos do


que a média romana, talvez porque as suas origens remotas se
encontrassem numa província onde a norma fosse mais baixa. Apesar de
não ser magra, tinha uma constituição esguia, com braços finos e os
ossos das clavículas salientes por cima da gola da túnica.

291
Os plebeus ricos tinham vidas saudáveis, embora tratassem os escravos
com frugalidade. Laia Graciana era ainda mais magra, o que eu sempre
vira como sinal de falta de gozo pela vida, pois a senhora de uma
casa não estava sujeita a quaisquer restrições dietéticas. Era mais
alta do que Venúsia, tal como a sua amiga Márcia Balbila. Isso era
normal.

- Que idade tinha Ino?

- Faria trinta para o ano. Eu sei porque estava sempre a falar disso.
Queria comprar a sua liberdade nessa altura e juntar-se com o seu
amigo.

- Que amigo era esse?

- Um dos escravos da casa. Da casa delas.

- Sim, já ouvi falar dele. Márcia Balbila não sabia, mas sem contar
com ela era um segredo bastante conhecido. Mais algum admirador em
quem ela estivesse interessada? Alguém do exterior?

- Não me parece. Não teria conhecido ninguém.

- Seria difícil - sugeri -, para alguém com patroas como a sua e a de


Ino, juntar-se a um homem que não fizesse parte do pessoal da casa?

- Oh, impossível. - Isso era um disparate. Muitas escravas e libertas


estabelecem relações com o exterior. Algumas entram e saem de casa de
poucos em poucos minutos, como abelhas numa colmeia. Venúsia fitou-me
e o seu olhar era quase lamentoso. Tinha uns olhos castanhos tão
escuros que eram quase pretos; eram insondáveis, fazendo-me lembrar a
água residual que se acumula no exterior de uma oficina industrial. -
Seja como for, nem todas somos criaturas livres como prostitutas.
Algumas de nós seguem a moralidade.

Estava a querer insultar-me. Era um golpe fácil e maldoso. Senti o


maxilar a endurecer.

- Procurar companhia prazenteira nada tem de errado. E você, Venúsia,


tem um amante? - Limitou-se a abanar a cabeça, enojada. - Alguma vez
teve?

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- Nunca - replicou ela num tom seco, como se eu lhe tivesse
perguntado se alguma vez se tinha dedicado à feitiçaria.

Foi um momento crucial. Em retrospetiva, poderia perfeitamente ter


interpretado aquilo mal. Poderia ter julgado que a brusquidão com que
falava significava que negava os homens por ser inexperiente e nenhum
ter alguma vez olhado para ela. No entanto, houve um instinto
repentino que me disse que aquilo parecia mais a ênfase excessiva de
alguém a querer esconder uma má experiência.

Não sou capaz de explicar de onde provém esse tipo de impressão, para
uma informadora. Por vezes, é uma ninharia que lhe dá azo. É fácil
não lhe ligar. Mas muitas vezes a impressão revela-se correta.

- Teria gostado de comprar a sua liberdade e de ser independente?

- Não tenho dinheiro.

- Deve ter recebido recompensas. Não é dada a poupanças?

- Para quê? Só se acaba por se ser enganado.

- Quem a enganou?

- Ninguém. Não sou assim tão estúpida. Então, para quê falar disso?
Fiquei a cismar.

Desisti pouco depois, exausta devido à longa viagem desse dia e à


impossibilidade de trespassar a muralha de resistência da criada. Era
como se eu não estivesse a tentar identificar um homem que pudesse
representar uma ameaça para ela. Por princípio, tinha modos secos e
displicentes, como alguém que fosse deliberadamente desagradável,
tirando um prazer privado disso. Desprezava-me. Não era a primeira
vez que eu era vista como insignificante por uma testemunha; contudo,
não deixava de me fazer sentir insatisfeita, sem ter cumprido o meu
propósito.

Levei Póstumo dali, passando pelo altar deserto. Ali nos demorámos a
observar a estátua de Ceres, sentada e a representar a Mãe Dedicada.

293
Não se tratava de uma figura em quem não se pudesse confiar, capaz de
abandonar uma bebé numa rebelião ou explorar um rapazinho relutante
como acrobata na corda bamba. A Ceres de Arícia tinha o olhar brioso
e extrovertido de uma mulher satisfeita com a sua posição e o seu
papel azafamado, alimentando os filhos enquanto realizava tantas
outras tarefas no mundo. Tinha o cabelo abundante puxado para trás,
preso junto à nuca em canudos mantidos no lugar com a sua leve coroa
de espigas de trigo. Era bonita, de olhos bem abertos, usava uma
gargantilha com torcidos e brincos com rosetas. Sorria, calma e
competente. Trazia-nos, a mim e ao meu irmão, a memória da mulher que
nos tinha adotado, a nossa própria Mãe Dedicada. Isso fez-nos sorrir.
Sim, a Póstumo também.

Era demasiado tarde para regressarmos a Roma ainda naquele dia.


Teríamos de pernoitar na estalagem. Enquanto nos dirigíamos para lá,
resmoneei, cansada:

- Bem, foi uma viagem e tanto para não ouvirmos nada de útil!

Póstumo voltou-se e olhou para mim. Ponderou a minha afirmação.


Poderia ter onze anos, mas era assustadoramente observador.

- Ela esteve a mentir-te.

Ora, eu sabia isso. Só tinha de perceber o que essas mentiras


encobriam.

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Demorámos o dia inteiro a voltar a Roma. Isso em parte deveu-se a


problemas de trânsito, mas também tivemos os nossos próprios atrasos.
Quando finalmente alcançámos e começámos a subir o Aventino, até a
carroça parar em frente à velha lavandaria, as três galinhas estavam
reduzidas a duas. Duas galinhas muito assustadas.

Félix, o condutor, estava de péssimo humor por causa disso.


Afeiçoara-se a todas as galinhas. Deixou Póstumo comigo, fingindo ter
de levar a carroça na direção oposta à que tomaria para levar o meu
irmão a casa. Quanto a Póstumo, saiu resignadamente, com Furão
pendurado no seu pescoço. Furão já não estava a dar em doido. Com um
fim trágico para Tonta, Furão atingira o seu objetivo.

Eu estava acabada. Sentia-me pronta para me deixar cair na cama em


casa, mas ainda tinha de ir levar o meu irmão a casa dos meus pais. E
o meu cérebro tinha estado em polvorosa, vendo-me obrigada a resolver
crises com homens e animais. Tinha viajado frequentemente com os meus
pais, pelo que estava bem habituada a discussões entre os meus
companheiros, mas nunca antes tivera de apanhar aves histéricas.

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Ainda assim, as coisas acalmam sempre depois de toda a gente ficar
exaurida. Só é preciso saber quando sacar da cesta de piquenique.
Depois, a única vantagem de uma Jonga vantagem com um condutor
antipático e um rapaz que vive num mundo só seu é que se tem a
oportunidade de organizar as ideias.

As minhas tinham-se ordenado quase por si mesmas, com resultados que


me perturbavam. Já não acreditava que o edil tivesse matado a criada
- ou qualquer uma das outras pessoas do Aventino mortas em
circunstâncias desconhecidas. Não tinha as características certas.

Isso implicava que o meu amigo Andrónico estava a semear sarilhos ao


jurar que assim era. Perguntei-me se deveria mesmo conhecer o edil
para o avaliar em primeira mão, mas Andrónico também tentara implicar
o mensageiro Tibério, algo que eu considerava igualmente incorreto,
por isso, para quê dar-me a esse trabalho? Pessoas como eu deviam
evitar todos os magistrados. Era definitivamente má ideia apresentar-
me a um que estivesse a meio do festival mais importante do seu
mandato e acusá-lo de ter cometido uma série de crimes inomináveis.
Tudo o que eu sabia acerca de Mânlio Fausto me indicava que ficaria
muito encolerizado sob a sua túnica. Sobretudo se não o tivesse
feito.

Caso fosse inocente, eu passaria o resto da minha carreira com essa


marca, a trabalhar numa cidade onde as autoridades soubessem da minha
acusação escandalosa. Não era sensato. Até tinha parentes que
sublinhariam com desagrado que, por lei, o edil tinha direito a ser
recompensado por lhe ter manchado a reputação. Alguns dos sacanas
estavam tão ávidos por ganharem nome na praça pública que, tratando-
se de um caso potencialmente controverso e chamativo, até poderiam
apressar-se a processar-me em nome de Mânlio Fausto.

Eu já tinha cometido muitas ações estúpidas, mas nunca por outra


pessoa me incitar. Gostava de cometer os meus próprios erros.

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Não havia qualquer razão para julgar que alguém da casa de Fausto e
Túlio estivera diretamente envolvido nos crimes e, francamente,
começava a ficar irritada com o arquivista por estar sempre a sugeri-
lo. Era evidente que Andrónico estava ressentido em relação às
pessoas com quem vivia, mas isso era irrelevante para a minha
investigação e ele deveria ter ficado calado.

Já tinha conhecido pessoas assim, que julgavam que o meu trabalho não
passava de um grande jogo. Para elas, tentarem enviar-me atrás de uma
pista errada era um desafio e muitas vezes uma piada. As suas teorias
assemelhavam-se a ideias loucas, malformadas e inúteis congeminadas
num bar, onde de facto tinham o hábito de vir à tona. Eu ignorava-as
- pelo menos quando era sensata.

Reconheci, demasiado tarde, que me deixara convencer de que podia


confiar no julgamento de Andrónico baseada apenas no que sentia por
ele. Estava furiosa comigo mesma. Comportara-me como uma tolinha.

Não que o culpasse pela viagem infrutífera. Afinal, alguém tinha de


perguntar a Venúsia se vira alguma coisa. Até já estava com alguma
vontade de contar a Tibério que, apesar das suas dúvidas em relação à
minha competência, eu tinha levado a investigação àqueles extremos -
a uma viagem de vinte milhas, que me ocupara durante dois dias -,
isso supondo que alguma vez voltássemos a trocar ideias sobre o tema,
o que parecia pouco provável.

Mas talvez devêssemos encontrar-nos. Eu tinha perguntas a que ele


talvez soubesse responder e uma ideia a testar. Como disse, tinha
pensado muito.

Assim que chegámos ao Paço da Fonte, Ródão correu para me dizer que
Andrónico tinha estado lá. Queria reajustar-me, dadas algumas das
dúvidas que me tinham acometido. Decerto não tinha passado aquela
viagem a meditar sobre as altas esferas da filosofia astronómica.

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- Esse teu amigo esteve cá - resmungou Ródão, num tom tão rude que eu
calculei que tivessem trocado umas quantas palavras quanto à minha
ausência. Deveria ter deixado uma mensagem. - É um sacana bem
irritante.

Nesse momento, o próprio Andrónico apareceu. Ali estava eu, exausta,


com alguma bagagem aos pés, depois de Félix nos ter largado, a mim e
a um miúdo rabugento de onze anos, Furão, e ainda Ródão, a fitar-nos
com um ar curioso. As mulheres têm de lidar com tais situações,
adiando as exigências dos amantes. Andrónico apercebia-se do meu
problema, mas não deixava de me assoberbar. Ocorreu-me que ele era
como um cão que não aguentasse ficar sozinho. Tinha o mesmo género de
ciúmes egocêntricos e, conforme se revelava, era igualmente propenso
a amuar, a ressentir-se por eu partir em segredo, sem o levar a
reboque.

- Tive de ir a uma reunião familiar e depois precisei de entrevistar


a tal criada, Venúsia... aconteceu tudo muito depressa, mas agora
voltei, pelo que espero que possas perdoar-me.

- Foi o aniversário dela - anunciou Póstumo. Suponho que terá pensado


que o detalhe poderia ajudar.

- E quem é este? - perguntou Andrónico, com um brilho nos olhos e a


apontar para Póstumo que, louvados sejam os deuses, era demasiado
jovem para ser confundido com um rival.

- O meu irmão. Não é tão maléfico quanto parece, mas nunca lhe vires
as costas.

Andrónico avaliou o meu irmão, que era uma criança rechonchuda,


devido à atitude determinada com que comia. O afeto que poderia
dedicar a alguém era outorgado à comida. Sobre o corpo sólido,
Póstumo usava uma túnica de boa qualidade, que tinha conseguido
manter razoavelmente limpa porque era do estranho género de criança
que gosta de ser cuidadosa. A bizarra criatura também tinha sido
submetida a um corte cabelo impecável, devido ao meu aniversário.
Tinha um ar arrogante e superior. O furão deverá tê-lo resumido para
Andrónico: trata-se de um animal de estimação habitual para um
simplório rural, mas na cidade definia o meu irmão como um menino
rico e mimado.

298
Póstumo fitou-o também. A maior parte das pessoas achava que o olhar
do meu irmão era desconcertante. Mesmo no meu estado cansado,
pareceu-me divertido analisar a reação de Andrónico. Ambos estavam
habituados a ocupar uma posição específica, observando todos os
outros com uma expressão desdenhosa.

- Ela agora tem de me levar a casa - reclamou-me Póstumo num tom


informal mas eficiente.

- Tens? - Andrónico suplicava da forma mais convincente ao seu


dispor. Senti um tremor no coração. Ele sabia como tornar as suas
atenções fervorosas. Também sabia como seduzir e desorientar uma
mulher que julgava ter decidido querer que a deixassem em paz. -
Quando é que te tornaste uma pedagoga, a arrastar pequenos pupilos
pelas ruas?

- Não tenho alternativa.

- Então e eu?

- Andrónico, ele tem onze anos. Está a ficar escuro; não pode andar
sozinho pelo Aventino. Ainda assustava os assaltantes. Ou passa a
noite comigo aqui... - Eu via que isso não se adequava a quaisquer
que fossem os planos do meu amigo. - .. .ou tenho de o levar.

Não havia razão alguma para que Andrónico não descesse a colina
connosco e depois voltasse comigo. Ninguém o sugeriu.

Em vez disso, perguntou abruptamente:

- O que tinha assim tanta urgência para teres de ir atrás de

Venúsia?

Oh, por Juno. Aqui não, agora não.

- Precisava de lhe perguntar se tinha visto alguma coisa.

- E tiveste alguma sorte? - quis ele saber.

Eu estava consciente de que Póstumo considerava o meu amigo uma


experiência científica colocada diante de si pelo seu tutor (um
académico de pouca monta, mas sincero, e quem, como o leitor terá
adivinhado, Póstumo desdenhava).

299
- Não, nenhuma.

- Então onde é que ela está?

- Algures no campo. Precisas de saber?

- É claro que não - respondeu Andrónico tão depressa e num tom tão
razoável que me senti admoestada. - Parece que estamos a ter uma
discussão, Albia.

Apesar de falar com ligeireza e de ter os olhos abertos na sua


expressão de inocência, Andrónico estava tenso. As pessoas com quem
eu privava chamariam a este tipo de diálogo uma conversa.

Discussões era quando se atiravam tigelas de comida, fazendo questão


de que estivessem cheias. Na maioria, eram tidas com crianças mal
humoradas. Tinha havido muitas com Póstumo.

- Então a tua viagem foi inútil? - perguntou, uma vez que não reagi
ao seu comentário acerca da discussão. Não estava preparada para
discórdias naquela noite.

- Não, mas deu-me a certeza de que preciso de ver Fausto.

- Eu disse-te para não fazeres isso. - Enquanto eu digeria aquilo,


Andrónico insistiu: - Devias fazer o que te digo!

Ele devia saber que aquilo era má ideia. Qualquer pessoa seria capaz
de ver que eu estava cansada e irritadiça mas, sob quaisquer
circunstâncias, tinha sido muito mal jogado.

- Porque és o homem?

- Não sou o teu chefe de família - concedeu ele, como se fizesse uma
tentativa tardia de acalmar a tensão. Deixei o momento passar. Ou
fingi que deixava. Quando os homens começam a dar-me ordens, sou uma
ótima atriz.

Póstumo deu-me a mão. Isso era invulgar. Percebi o que estava a


tramar: adorava um impasse; adorava ainda mais incentivá-lo. No seu
tom de auto confiança assustadora, o meu irmão afirmou:

- O chefe de família de Flávia Albia é o nosso pai, Marco Dídio


Falco.

300
Com o que me pareceu ser uma única inspiração, Andrónico voltou a
mostrar-se suave como seda.

- E claro que é, meu homenzinho, e não há dúvida de que tens de


voltar para junto dele! Vai lá, Albia.

- Se o nosso pai morrer - anunciou Póstumo, como se tivesse estado a


preparar-se para o fazer -, o chefe de família de Albia serei eu.

Já era demasiado. Fazendo-me uma careta, Andrónico afastou-se a


gingar pela ruela, depois de dizer num tom cheio de significado:

- Bem, se calhar passo por cá depois! Não fiz comentário algum.

- Devias passar a noite connosco - instruiu-me o meu potencial chefe


de família. Como intermediário de um caso amoroso, Póstumo era um
mercenário eficiente.

Deixei a bagagem com Ródão e parti com o rapaz. Comecei a um ritmo


acelerado, mas abrandei. Tínhamos de ter cuidado. Na nossa ausência,
as cerimónias dos Jogos de Ceres haviam continuado todos os dias; por
onde quer que uma procissão tivesse serpenteado no Aventino, haveria
ainda restos das nozes atiradas pelos espetadores - a retribuição de
Ceres - nos passeios, capazes de levar os desatentos a torcerem um
joelho. Os meus sapatos não eram adequados para aquela caminhada. Até
o meu irmão estava tão cansado que punha os pés onde não devia e
precisava do meu amparo quando tropeçava. A última coisa que eu
queria era que ele deixasse cair o furão e depois termos de persuadir
o bicho furtivo a sair de uma valeta.

Quando chegámos a casa, o meu irmão afastou-se de mim e avançou pela


casa a gritar alegremente:

- Adivinhem só! O Furão matou a Tonta e comeu-a! Ele sabia que as


minhas irmãs desatariam a chorar.

Tinha onze anos. Era só uma criança. Parecia muito sábio para a
idade, mas por vezes nós sobrestimávamo-lo.

301
Metade das vezes, ele não compreendia a importância das coisas que
dizia e fazia. Nunca se deve tentar chamar um rapaz à razão; de nada
vale. Nós, que o conhecíamos e tentávamos amá-lo, aceitávamos as suas
excentricidades e até a sua rudeza. Mas outras pessoas poderiam
interpretá-lo muito mal.

Quem me dera não me ter lembrado nesse momento do abridor de ostras,


Lupo. Isso fez-me pensar que as coisas que um rapaz diz ou faz de
forma demasiado descontraída à pessoa errada podem ter resultados
terríveis.

Senti-me grata por o meu irmãozinho levar uma vida resguardada,


sempre em casa. Nunca andava nas ruas onde os misteriosos atacantes
se encontravam à espreita.

302
42

Poderia ter passado a noite com os meus pais, como Póstumo de modo
tão astuto sugerira, mas não estava com disposição para companhia - a
deles ou a de quem quer que fosse.

Andrónico regressou, de facto, ao Paço da Fonte. Quase parecia saber


que eu preferia não o ver. Eu sentia que ele estava a tentar impor a
sua vontade, o que nunca é um bom truque para um homem que queira
impressionar-me. Encontrava-me no meu apartamento do segundo andar.
Ainda nem sequer me despira - estava deitada na cama como se
esperasse que acontecessem mais coisas naquela noite.

Em Roma, haveria outras mulheres sozinhas deitadas no centro de camas


enquanto homens noutras divisões as amaldiçoavam por isso. Um dos
ritos a Ceres requeria que, como prova de castidade, as mulheres se
negassem a qualquer toque masculino; para garantir que isto
acontecia, os homens tinham de dormir noutro sítio. É claro que esse
era um ritual para os ricos. Os pobres não teriam camas que
chegassem.

Eu tinha ouvido dizer que as senhoras que se mantinham em celibato em


honra de Ceres bebiam uma mistura de cevada e poejo para suprimirem o
apetite sexual. Corria o rumor de que também se misturavam drogas,
pois cereais e simples ervas de sebes não bastariam, segundo
constava, para mitigar o desejo feminino.

303
Já eu não precisava nem de ervas, nem de drogas. Para matar a paixão,
nada supera ver um homem a uma nova luz.

Saberá o leitor que, mesmo em doses baixas, o óleo de poejo é


venenoso? As pessoas cozinham alegremente com esta planta, da qual
também fazem infusões, mas diz-se que as parteiras o usam para
induzir abortos. E pode ser fatal. Estaria o assassino misterioso a
usar algum veneno similar e facilmente disponível em qualquer
despensa? Ou encontrar-se-ia em posição de ter acesso a algo mais
especializado?

Então, tal como prometera, Andrónico regressou. Não fiquei


surpreendida.

Quantas vezes esperarão as mulheres acordadas pela aparição de um


amante, apenas para se desiludirem quando isso acontece? Eu tinha-o
feito. É necessário um nível de entusiasmo acerca de uma relação que
se perde abruptamente. Algures na estrada a caminho de Arício, ou já
a voltar, a Via Apia tinha reclamado toda a alegria que eu sentia ao
ver o arquivista. Naquela noite, eu queria genuinamente ser casta.
Isso nada tinha que ver com observação religiosa, referindo antes um
perfeito balde de água fria. Perdera a ânsia. A nossa cisão era
permanente. Nunca mais voltaria a querer que Andrónico me tocasse.

Ele teria consciência disso? Iria aceitá-lo? Seria um homem que


deixasse uma amante desencantada partir?

Ouvi-o a bater à porta com força e a gritar para que o deixassem


entrar, a que se seguiu a resposta rosnada de Ródão. Pé ante pé, fui
até à minha porta, que abri sem fazer barulho para que não dessem
pela minha presença. Se o arquivista conseguisse entrar no prédio, eu
estava pronta para fechar a porta bem depressa e trancá-la, para
depois ficar a tremer do lado de dentro, a esconder-me dele.

É estranho como acontece: a passagem subtil de estarmos completamente


caídas por um homem para não o querermos de todo.

304
- Ordens são ordens - insistia Ródão, como se fosse um empregado
zeloso. Aquilo era novidade e uma completa hipocrisia. Para ele, as
ordens eram para esquecer ou ignorar. — Os proprietários deste prédio
são muito exigentes. Depois de trancar o gradeamento, não posso
deixar ninguém entrar.

- E se eu morasse aqui?

- Mas não moras, pois não?

Por vezes esquecia-me de que Ródão tinha passado muitos anos como
guarda-costas de um senhorio. Sabia não se deixar persuadir e manter
uma postura de ligeira ameaça capaz de desarmar a coragem de qualquer
um.

- Estou farto disto!

Até Andrónico parecia pronto a lutar. Eu opunha-me a que isso


acontecesse. Ródão seria um gladiador falhado, mas ainda era
suficientemente grande para infligir dor; magoado, era provável que o
arquivista se tornasse mau. Como era egoísta, não queria ter de
arranjar outro porteiro, no caso de Andrónico conseguir magoar Ródão.
Saía barato, era demasiado estúpido para nos roubar e a família já o
conhecia há muitos anos; quem é que gosta de mudanças?

Andrónico continuava a arengar.

- Primeiro a mulher passa a vida desaparecida, depois acha que pode


passar-me a perna... tenho vontade de matar aquele fedelho pestilento
que estava com ela.

- É melhor não tentares.

Devia ser o tom que Ródão usava antigamente para assustar inquilinos
com pagamentos em atraso. Com o portão a servir de barreira de
segurança, ele representava de bom grado o papel de durão que fazia a
oferta lenta e fácil de puxar os órgãos de alguém por um orifício
invulgar. Como um embalsamador egípcio - mas com a vítima ainda
viva... pelo menos quando Ródão começasse.

- Não serei ridicularizado... alguém pagará por esta inconveniência!

- Manda a conta! - troçou Ródão.

- Tu ou ela! Tanto me faz quem sofre.

305
O grito agressivo de Andrónico tinha o objetivo de gelar quem o
ouvisse. Não pude deixar de pensar se ele teria adivinhado que eu
estava à escuta.

Depois de ter a certeza de que ele se fora embora, saí das sombras.
No átrio de entrada, quando desci as escadas, um par de lamparinas de
óleo ao nível do chão emanava uma luz doentia que, apesar de fraca,
me bastou para distinguir a figura de Ródão, a espreitar por entre as
grades, parecendo um touro flácido, na sua túnica esfarrapada só com
um braço. Ouviu-me e virou-se, sem dar mostras de surpresa alguma.

Trocámos um longo olhar.

- Obrigada, Ródão. Não o deixes entrar - disse em voz baixa. - Se ele


alguma vez voltar a vir procurar-me, diz-lhe que não estou. Inventa
uma desculpa qualquer.

Ródão não falou; limitou-se a assentir com a cabeça.

Voltei para os meus aposentos. Assegurei-me de que todas as portas


estavam trancadas. Não estava propriamente assustada, mas tinha o
coração a latejar.

Poderia ser difícil livrar-me daquela situação em segurança. Mas


teria de o fazer.

306
43

Na manhã seguinte quis sair de casa, ir para algum lugar onde ninguém
pudesse encontrar-me.

Fui aos banhos públicos, em parte para refletir melhor. Mas nunca
resulta. Física e mentalmente, eu estava tão esgotada pelo dia
anterior que a minha mente não parava de divagar.

Dos banhos obtive dois benefícios. Em primeiro lugar, fiquei limpa.


Uma informadora deveria começar o dia a sentir-se impecável. Em
segundo lugar, suficientemente revigorada para me decidir a agir. Pus
de parte os intermináveis círculos de especulação acerca da morte de
Ino, da posição de Venúsia, das loucas ligações ao edil e ao seu
adultério ocorrido há tanto tempo. Em vez disso, usaria o truque de
investigação que raramente falha: recuar e tornar a verificar todos
os pontos onde ainda permaneciam dúvidas.

Primeiro, fui visitar Cassiana Clara. Ela podia esclarecer sem


delongas a acusação de Andrónico, que dizia que o edil a assediara.
Mas a Fortuna jogava contra mim. Ela não estava em casa. Fiquei a
saber que se tinha ausentado de Roma (mais uma fugitiva?). Clara não
se refugiara num altar, mas tinha-se instalado numa propriedade que
pertencia ao seu futuro segundo marido, à beira-mar, bem para sul, na
Campânia.

307
Só me restava perguntar-me se seria para que pudesse conhecer o noivo
ou se haveria uma explicação mais sombria por detrás daquilo. Não
havia dúvida de que era demasiado longe para eu viajar até lá, o que
me deixava com a impressão de que o local poderia ter sido escolhido
por essa razão. Na casa, ninguém me dizia mais. Não me permitiram que
entrasse e questionasse os pais. Acabei por maldizer o porteiro, um
funcionário sensaborão que enfiou os polegares no cinto, num gesto
revelador de que estava habituado a que o maldissessem e que era para
o lado que dormia melhor.

Tive mais sucesso na minha tentativa seguinte. Voltei a subir e a


descer o Monte, gastando mais sola ao dirigir-me ao quartel da Quarta
Coorte; felizmente, tinha decidido que era dia de calçar sapatos
confortáveis. Queria pedir aos vigiles que me deixassem interrogar o
filho de Celendina, Kylo. Partindo do princípio de que ele não tinha
sido levado a um magistrado que o houvesse condenado a uma morte
terrível por matricídio.

Ainda o tinham. Na verdade, parecia que quaisquer acusações de ter


assassinado a mãe tinham sido discretamente abandonadas. Os homens
fortes também precisam de fazer uma pausa nas suas atitudes
briguentas. Kylo era o último pardal bebé a ter caído no pátio de
exercícios do quartel. Acabara por ser adotado pelos vigiles. Riam-se
dele, mas alimentavam-no, hospedavam-no e deixavam-no andar por ali
quando havia grupos a repousar no pátio. Até o levavam a bares.

Se conseguissem emagrecê-lo e torná-lo móvel, poderia inclusivamente


tornar-se bombeiro, embora ainda faltasse muito para isso acontecer.
Entretanto, os homens usavam-no como prisioneiro de confiança,
guardando as celas simples onde eram trancados outros prisioneiros
temporários. O grande jovem parecia mais ameaçador do que deveria ser
e devotava-se solenemente à tarefa. Era bem capaz de subjugar bêbedos
e calar incendiários indignados. Se os vigiles decidissem acolhê-lo
em definitivo, essa era a melhor oportunidade que ele teria.

308
Desde que nenhum oficial metediço à procura do que fazer levantasse
ondas, Kylo teria ali uma ocupação para o resto da vida. De uma forma
bruta, os vigiles seriam a sua nova família.

Não se importaram que eu o interrogasse. Sentámo-nos os dois no chão


do pátio interior. Um dos vigiles supervisionou o interrogatório,
acocorado num balde virado ao contrário, sem nos prestar atenção e a
escarafunchar o nariz. Morelo, no entanto, foi ter connosco;
encostou-se a um pilar e fingiu ocupar-se a desbastar um pau. Estava
determinado a ficar a par de quaisquer novos dados que eu recolhesse.

O tratamento que Kylo recebera ali tinha-o modificado; já não era o


prisioneiro aterrado que eu conhecera. O jovem tinha-se acalmado e
mostrava-se mais confiante entre outras pessoas.

Abordei-o com muita delicadeza.

- Kylo, lembras-te da tua mãe, não lembras? — Ele assentiu com a


cabeça. Franziu ligeiramente a testa de preocupação, mas sem
gravidade. - Pensas nela? - Babou-se um pouco, mas limpou o queixo ao
braço. - Ela gostaria de pensar que sim. Deves ter muitas saudades
dela. Eu conheci-a, sabes? Tivemos uma bela conversa no funeral de
outra pessoa. Achei-a uma senhora encantadora.

Kylo estava com um ar desconfortável mas, até então, compreendia que


deveria falar comigo e não fugir. Continuei, sempre em voz baixa.

- Sabes quem sou, não sabes? Chamo-me Flávia Albia. - Ele fitou o
chão. - Já me tinhas visto uma vez, Kylo; vim cá para falar contigo.
E os teus novos amigos aqui dos vigiles também me conhecem e são meus
amigos. Mas quando a tua mãe morreu, nós ainda não nos conhecíamos,
pois não? Por isso, gostava de saber porque terás dito o meu nome às
pessoas quando lhe aconteceu uma coisa má.

De repente, Kylo olhou na minha direção.

- Vives aqui?

Parecia que era capaz de falar perfeitamente bem quando assim queria.
Não tive qualquer dificuldade em entendê-lo.

309
- Não, Kyío, tenho uma casa minha. Porquê?

- Eu devia ir buscar-te.

- Quando a tua mãe se sentiu mal?

- Ela deitou-se. Disse-me: «Não me sinto bem, Kylo. Kylo, vai buscar
Flávia Albia.» Mas eu não sabia onde tinha de ir.

- Kylo, isto é importante. A tua mãe disse-te porque queria que


fosses procurar-me? - Ele parecia confuso. - Kylo, ela tinha-te
contado que me conhecera nessa tarde?

Ele ficou a pensar e eu esperei em silêncio.

- Ela contava-me sempre o que acontecia quando saía. Era como se


fosse uma história.

- E como era essa história, Kylo? Lembras-te?

- Oh, eu gosto de histórias. Lembro-me sempre delas.

- Eu também gosto de histórias. Contas-me esta?

Ele parecia hesitante quanto a começar, mas a minha calma sorridente


tranquilizou-o. Endireitou-se e, de uma forma bastante formal,
relatou o que tinha acontecido, como se fosse um artista de rua a
recitar contos tradicionais para lhe deixarem dinheiro no chapéu.
Fazia pequenos gestos para indicar novos intervenientes e até
modificava a voz de acordo com quem falava.

- Ela disse: «Conheci aquela investigadora. Uma pequena simpática.


Melhor do que eu esperava.» - Um pouco afastado de nós, Morelo
resfolegou ao ouvir aquilo. Kylo lançou-lhe um olhar reprovador, como
se ele fosse uma criança malcomportada a perturbar a aula. - E eu
respondi: «Oh, isso é interessante, mãe.» Depois ela disse-me:
«Quando me vinha embora, estava um homem à espera na estrada ao pé
dos túmulos. Perguntou-me: 'Viste Flávia Albia no funeral de
Salvídia?' Mas como eu não gostei dele, mandei-o ir dar uma volta.
Fiz-lhe mesmo frente, Kylo, disse-lhe das boas!» E essa — concluiu
Kylo -, é toda a história que a minha mãe me contou nesse dia.

Tentei não ficar chocada com a ligação a mim.

- Aposto que, quando a tua mãe decidia que não gostava de alguém, não
tinha papas na língua!

310
Rimo-nos os dois, a pensar nisso.

- E, Kylo, só mais uma coisa. Quando a tua mãe começou a sentir-se


mal, disse-te se achava que alguém lhe tinha feito qual-

quer coisa?

- Oh, sim.

- Quem, Kylo?

- Devo dizer-te?

- Sim, por favor.

- Ela disse: «Deve ter sido ele, aquele patife mesquinho. Atacou-me.
O que me perguntou se eu tinha visto Albia.» Foi esse homem? -
perguntou Kylo.

- Sim. Creio bem que deve ter sido, Kylo. Mas não te preocupes. Vamos
apanhá-lo e castigá-lo.

- O patife mesquinho! - vociferou Kylo a plenos pulmões,


sobressaltando-nos a todos.

- O patife mesquinho - concordei, num tom muito mais calmo.

Morelo mexeu-se e acompanhou-me aos portões.

- Preocupada?

- Eu não.

- Não te armes em valente, isto é sério, Albia. Ele queria-te. É


possível que Celendina te tenha salvado a vida naquele dia.

- Pagando com a própria.

- Por isso, sim, é uma coisa séria. Deves conhecê-lo. Porque haveria
algum sacana pervertido de querer encontrar-te, Albia?

- Não sei. - Tinha um palpite. - Bem, cuida bem do filho dela,


Morelo.

- Se o pusermos atrás das grades, vou ficar com receio de que te


insinues aqui para o libertar.

- Experimenta!

- Tu farias isso.

- Oh, se faria.

311
Ali ficámos durante algum tempo, cada um perdido nos seus próprios
pensamentos.

Aquilo não nos facultava qualquer elemento de identificação. Nem Kylo


vira o homem. Contudo, mostrava motivação. Um assassino demente fazia
uma pergunta simples - «Viste Flávia Albia?» — e Celendina não
gostava dos seus modos. Sozinha, numa estrada ao lado de uma
necrópole enquanto começava a escurecer, a sua primeira reação poderá
perfeitamente ter sido de alarme. Talvez ele fosse demasiado
persistente, com a arrogância e a urgência de um louco. Ela zangara-
se. E assim ele tinha sido rejeitado com uma resposta azeda de uma
mulher velha e cansada, preocupada com o filho que deixara sozinho.

- Celendina gostou de ti, Albia. Tentou proteger-te.

- E eu estou-lhe grata por isso. Mas não queria que tivesse sofrido
por minha causa. Morelo, achas que ele a seguiu?

- É possível. A julgar pelos outros casos, se a tivesse atingido


junto aos túmulos, ela não teria tido tempo de chegar a casa antes de
o veneno tomar conta do seu corpo.

- Então talvez alguém do bairro o tenha visto.

- Por Júpiter! Vou tentar - resmungou Morelo. - Já que és tu que o


dizes. Não sei como me convences a fazer as coisas. Mas vou mandar um
par de rapazes para a rua, para que batam à porta dos vizinhos e lhes
perguntem.

Agradeci-lhe. Até fui simpática.

- Morelo, mais uma coisa. Tentei falar com aquela rapariga cujo
marido foi uma das vítimas. Ela saiu da cidade, por algum motivo que
talvez seja significativo. Talvez possas esclarecer-me uma dúvida...
conheces Mânlio Fausto? - Morelo anuiu. Não fez comentários, mas
fitou-me com um ar notoriamente estranho. - Ele é um sátiro? Assedia
mulheres?

- Fausto?

- És surdo ou fazes-te? Então?

312
- Não.

- É tudo o que tens a dizer?

Num tom grave, Morelo respondeu:

- Mânlio Fausto, edil da plebe, não apalpa, agarra, afaga, aperta,


faz cócegas ou insere a sua santificada pilinha em mulheres.

- Então gosta de rapazes? - repliquei.

- Duvido. Duvido muito. É normal. Mas é uma pessoa reservada - disse


ele. - Que homem tão sensato!

Estava prestes a ir-me embora, mas deixei-me ficar.

Morelo tornou a mirar-me com uma expressão cética. Em resposta,


suspirei. Compreendíamo-nos. Ele era tão lento que fazia com que um
caracol parecesse descontrolado, mas ao fim de meio dia a ponderar
uma questão, tinha algumas capacidades de raciocínio.

- O que foi?

- Morelo, acho que cometi um erro terrível.

- Só de olhar para a tua cara, estou a ficar com um pressentimento


horrível... por Júpiter - repetiu, enquanto eu o observava a tomar
consciência do que eu estava a dizer. - Acho que vou mijar-me pelas
pernas abaixo... Sabes quem é. - Era uma afirmação, não uma pergunta.
Ele também tinha entendido.

- Não sei o que fazer, Morelo. Não tenho provas, só aquela sensação
nauseante de quando vemos a resposta. A resposta que tem estado à
frente dos meus olhos desde o início.

- Oh, eu e essa resposta somos velhos amigos, caramba! Volta cá para


dentro - ordenou-me. Tinha-se animado tanto quanto alguma vez se
permitia. Não cairia no exagero de dizer que estava entusiasmado, mas
havia um leve brilho de interesse no seu olhar. - Sabes com quem
precisas de falar. Podes usar o meu gabinete. O meu turno está a
chegar ao fim. - Nada interferia com isso. Os vigiles do turno
principal trabalhavam durante toda a noite e, de manhã, estavam
desesperados por ir para casa.

313
Para além do facto de Morelo ser casado, ter três filhos e aquele
cachorro de pelo arruivado que quereriam saltar-lhe para cima assim
que chegasse, o homem estava arrasado. - Passo por casa dele e aviso-
o.

- É possível que não esteja lá.

- Estará. Estiveram todos acordados até à meia-noite, a assistir


àquelas peças. O deus negro do submundo a surgir em palco na sua
quadriga ribombante e a raptar a linda virgem que ia apanhando
flores. Quem quereria perder isso? Toda a audiência fica
nervosíssima, ansiosa por uma verdadeira violação de uma verdadeira
virgem. Cavalos a sério que resfoleguem. Gritos a sério. Sangue a
sério. O melhor do teatro romano.

- Tanto quanto sei, seu animal, nem em nome da cultura se mostram


desfloramentos de donzelas durante cerimónias religiosas solenes.

Morelo deu-me um toque no queixo.

- Picante, a Cerealia deste ano. Ouvi dizer que o astuto Fausto quer
popularizá-la, mostrar algo escandaloso para atrair mais público...
Espera no meu gabinete. Há lá um belo mapa que podes ir vendo, por
isso não tens de ler pergaminhos confidenciais. Se mexeres no meu
estilete, não lhe partas a ponta; caso contrário, corto-te na mesada.

Percebi o que o tipo ensonado estava a tentar fazer, apesar da sua


falta de jeito: aligeirar o ambiente. Dizer-me que eu estaria segura
enquanto esperava ali.

Vi-o seguir rua abaixo e, para o que era habitual nele, ia


praticamente a correr.

314
44

Quando Tibério entrou na sala de interrogatórios, tinha trocado a


exuberância da túnica branca e prístina da outra noite por uma mais
corriqueira que parecia ter sido roubada dos banhos públicos enquanto
os escravos que construíam as estradas se lavavam. Mas o que me fez
ficar a olhar para ele foi o facto de ter rapado todo o pelo facial.
Barbeado, estava quase irreconhecível.

A versão melhorada sentou-se à minha frente, com a mesa de madeira de


Morelo entre nós. Eu tinha estado sozinha durante muito menos tempo
do que esperava. Apesar de ao chegar não dar qualquer sinal de
pressa, depois de Morelo lhe ter falado de mim deveria ter acelerado
o passo. Sem o esperar, senti-me agradecida.

Observei-o. Escanhoado, revelava um bom rosto que suportaria a


familiaridade acarretada pelo dia a dia. Nem demasiado feio, nem
demasiado bonito para se poder confiar nele. Com uns toques
perdoáveis, um escultor poderia torná-lo nobre. Nariz reto, boca
firme, maxilar forte, expressão astuta, aqueles olhos cinzentos e
alerta que eu já conhecia. A pele bronzeada da classe trabalhadora
romana, que passa a maior parte do dia no exterior.

Aguentou o meu escrutínio, embora o recato o fizesse corar. Isso era


bom. Naquele dia, eu precisava de gostar dele ou, pelo menos, de que
não me desagradasse explicitamente.

315
- Ficas bem barbeado.

Como era típico dele, ignorou o elogio.

- Tenho andado à tua procura. - Debruçou-se para a frente, apoiado


nos cotovelos, com o queixo pousado nas mãos. - Há coisas a discutir.

- Eu também. - Reconheci que iríamos trabalhar em conjunto, depois do


nosso recente desentendimento. - Fui a Ari cia.

- Não precisavas. Vou trazer essa mulher de volta para Roma.

- Ela não virá.

- Não terá escolha. Custódia oficial.

- Bem, eu tentei. Parece-me pouco provável que revele o que quer que
seja.

- Pois, a mim também - concordou Tibério num tom triste.

- Morelo pode ocupar-se dela. Quero que ele a mantenha aqui no


quartel. — Ao ver a minha expressão, apressou-se a acrescentar:

- Pode mantê-la aqui durante um par de noites, para segurança dela,


nada de métodos brutais. Isso nunca revela a verdade. Ela tem passado
a vida inteira em ambientes confortáveis. O que vai ver e ouvir num
quartel deverá bastar para a levar a confessar. A alguém.

- Referia-se a mim.

- Laia Graciana — disse eu. - A falar com alguém, será com Laia.
Tibério arqueou as sobrancelhas com um brilho nos olhos que

me indicava que a ideia era boa. Portanto, estávamos de novo de boas


relações.

Fiz uma pausa significativa. Tibério começou a mexer nos estiletes e


nas penas, o equipamento que Morelo me avisara que não partisse.
Ambos nos sentíamos pouco à vontade; tínhamos de arranjar forma de
dar início a uma conversa difícil.

Continuando o tópico da criada, abordei o tema de forma oblíqua.

- Duvido de que ela tenha feito alguma coisa de errado, mas Venúsia
está a proteger alguém. - O mensageiro parou de mexer nas coisas.

316
- Posso ser a única pessoa do Império que acredita nisto mas, mesmo
quando não se consegue selar o acordo que se pretendia, uma viagem
longa nunca é um desperdício. Tem-se muito tempo para pensar.

Tibério recostou-se novamente, de braços cruzados.

- Queres partilhar esses pensamentos?

Preparei-me para revelar todas as minhas tristes conclusões. Sentia-


me como Kylo - com a grande diferença de que compreendia as
implicações.

- Comecemos por Arícia. Fui lá no dia a seguir aos idos. Tive uma
conversa longa e francamente entediante com a criada. Ela não me
disse nada, pelo menos diretamente. Venúsia é...

Estava a ter dificuldades em escolher as palavras porque queria ser


justa para com ela; tinha alguma compaixão por aquilo que agora via
como o seu problema pessoal. Tibério esboçou um sorriso astuto.

- Sim. Eu conheci-a.

- Recentemente?

- Não, há anos que não a vejo.

- Então não és tu o seu amante secreto? Isso fê-lo engasgar-se de


horror masculino.

- Não! Ela tem um amante?

- Cheguei a essa conclusão, embora não se trate do homem que me


encorajaram a identificar. Segundo Andrónico, trata-se do teu querido
amo, o edil. -Tibério expirou de forma evidente. - Ele alega que
Fausto se meteu com a criada e depois a trocou pela mulher do
patrono, o que teria levado Venúsia, despeitada, a destruir-lhe o
casamento. Essa é a versão de Andrónico. A minha é diferente. - Eu
estava a observar Tibério com atenção e vi que se continha de dar uma
resposta irritada. Fitámo-nos; ele continuou a escusar-se a comentar.
Por sua vez, observava as minhas emoções à medida que eu ia
especulando. Agradou-me o facto de que esperasse por ouvir o meu
veredito; agradou-me que me considerasse capaz de chegar a uma
conclusão de forma independente.

317
- Perguntei a Venúsia se conhece Andrónico; ela negou-o. E julgo que
isso não é verdade. Acho que o conheceu muito bem. Para usar as suas
próprias palavras, mencionou que eu «andava por ali com ele», o que
me deixou cora a impressão de que isso lhe importava.

- O que significa...? - quis saber Tibério.

- Andrónico forjou uma relação com ela. - O meu companheiro cerrou os


lábios numa expressão enigmática. - Posso imaginar o seu método,
infelizmente. Insinuou-se até estar próximo o suficiente e depois
tentou sacar-lhe o que ela sabe acerca de Fausto.

- E conseguiu?

- Não tenho a certeza. Ele sabe do caso extraconjugal, mas só há


pouco tempo; ouviu-o da boca de Laia. É um manipulador -admiti. -
Venúsia poderá ter acreditado que se tratava de amor, mas eu já o
ouvi descrevê-la em termos rudes. Ele despreza-a... como a muitas
outras pessoas.

Tentei não pensar que talvez me desprezasse a mim também.

- O desdém é o sentimento fundamental para ele. - Tibério parecia


falar entre parênteses. - Albia, tentei alertar-te para que não
privasses com ele. Salta de mulher em mulher... tem-no feito desde a
adolescência. Começou cedo, segundo me consta. Mas porque está a
desenterrar essa história? Para fazer chantagem?

- Suponho que sim.

- Não funcionaria. Fausto não tem nada a perder. Laia Graciana já


acha que ele vale zero. O tio não se importa. O patrono e a mulher
morreram há muito.

Eu não me sentia tão confiante.

- Poderia dificultar a vida do teu edil. O escândalo tem sempre a sua


importância. Uma revelação de adultério, mesmo agora, conspurcaria o
seu mandato... e poderia deixá-lo em apuros sérios diante do
imperador. Fausto pode pensar que esta história morreu há muito, mas
sabes como os destroços voltam à superfície, sempre com o mesmo
fedor. Andrónico acha-se capaz de controlar os outros através de
qualquer conhecimento que eles não queiram que ele possua.

318
Tibério franziu o sobrolho.

- Foi exatamente por isso que não lhe foi atribuído o posto de
secretário.

- Ele ressente-se amargamente disso; está sempre a queixar-se... Mas


deixa-me acabar. As fantasias loucas pioram. Andrónico queria que eu
acreditasse que Fausto desejava de tal forma vingar-se de Venúsia por
esta o ter denunciado que a perseguira e atacara. Deveríamos
acreditar que ele tinha matado a outra criada, Ino, por engano.

- Oh, céus! Flávia Albia, não acreditas nesse esterco?

- Não. - Deixei passar um instante antes de acrescentar: - Já não.

- O que quer dizer...?

Fiz uma nova pausa e depois, pela primeira vez no dia, provoquei-o:

- Tens de ter cuidado. Foi a ti que acusou primeiro.

- Então é um tolo.

- Sim, para tua sorte, foi isso que eu pensei.

- Obrigado!

Tibério deixou cair os braços sobre a mesa. Eu estiquei a mão e


segurei-lhe o pulso. Não tinha ligaduras, pelo que, sem intimidades
indevidas, eu podia inspecionar a ferida que lhe tinha infligido,
virando-lhe a mão para ver os dois lados. As feridas estavam a secar
e finalmente a cicatrizar.

- Devia ter-te dado ouvidos. - Falou num tom descontraído.

- Precisava de apanhar ar. Cheguei a ficar de cama; numa manhã, até


houve conversas animadas acerca de septicemia, mas recuperei e
desapontei toda a gente.

- Ouvi dizer que estavas adoentado. - Na verdade, não fora exatamente


isso que eu ouvira. Soltando-lhe abruptamente o braço, desviei o
olhar daquela nova versão escanhoada do mensageiro.

- Foi estranhamente autodestrutivo para Andrónico insistir que o


assassino misterioso proviria da vossa casa.

319
- Ele é assim. Estupidamente impulsivo. Nunca terias pensado nisso,
se ele tivesse deixado o assunto em paz. - Tornava-se óbvio que
Tibério já adivinhara o que eu ia dizer em seguida.

- Ele sabe criar uma história. O raciocínio dele é que tu ou Fausto


estavam bem localizados para encontrarem vítimas na rua e que
conheciam diretamente todos os sítios relevantes. No entanto, também
ele passa livremente entre a vossa casa e o templo. Ninguém lhe vigia
os movimentos, bem, não muito. - Eu sabia que Tibério por vezes o
fazia. - E, depois de eu ter começado a pensar... - Inspirei
profundamente. - O próprio Andrónico tornou-se o meu principal
suspeito.

Pronto. Já estava dito. Tinha feito a acusação que me perturbara


durante todo o percurso da Via Ápia no dia anterior.

Com a sua postura sombria, ao início Tibério nem pestanejou. Não era
um homem que se prestasse a sensacionalismos.

Devia ter percebido que a tensão me deixara com a boca sequíssima.


Sem dizer palavra, levantou-se, pegou num jarro que estava numa
prateleira e saiu, regressando com água. Encontrou taças, selecionou
as menos lascadas de uma coleção díspar que Morelo guardava numa
cesta no chão. Depois de servir, bebemos lentamente, com a
preocupação amarga a impedir-nos de apreciar a água. Isso querendo
acreditar que será possível saborear o aroma e as notas da mistela
que os vigiles tinham na fonte onde enchiam os baldes para combaterem
incêndios.

Nessa altura, a situação alterou-se. O mensageiro levou a mão a uma


bolsa que tinha presa ao cinto, um desses adereços de couro onde os
homens gostam de transportar os seus trocos, cadernos e facas de
debaste. A única vantagem que lhes vejo é que são uma boa prenda
quando não se sabe o que oferecer no aniversário de um familiar. Os
homens são tão esquisitos em relação a estas coisas, querem mesmo
escolher a sua, mas é possível resolver o problema por eles. Teria
Tibério alguém com quem combinar um aniversário «secreto» ou uma
prenda para si mesmo por ocasião das Saturnais?

320
Duvidava, embora ele me parecesse um homem a quem isso divertiria.

Retirou de lá alguns objetos, colocando o primeiro na mesa à minha


frente, com uma mão, enquanto pegava em mais qualquer coisa. Era um
frasco pequeno e redondo, com uma tira no gargalo para ser
transportado. De vidro verde, tira castanha, sem marcas distintivas.
Havia uma botica ao lado dos banhos de Prisca que os vendia às dúzias
e isso repetia-se por toda a cidade de Roma e pela extensão do
Império. Um simples frasco de abluções.

- Diz-te alguma coisa?

- Talvez. Andrónico tinha um desses numa manhã em que o vi. Presumi


que fosse óleo de banho. A maioria das pessoas com meios leva o seu
próprio óleo.

- Podes identificar com certeza que este frasco é dele?

- Sem cometer perjúrio, não. Desculpa; sou sempre uma péssima


testemunha.

Os informadores detestam ser reduzidos ao nível de inutilidade geral


com que costumam deparar-se nas suas investigações. Envergonhada,
deitei a mão ao frasco e tirei-lhe a tampa de madeira para o cheirar.

Tibério gritou:

- Cuidado! - E eu quase o deixei cair. Não sei o que continha;


decerto não era óleo. Um líquido qualquer menos espesso, com um
estranho odor que poderia ser químico ou derivado de alguma planta.
Eu tinha aberto uma mão para despejar um pouco na palma mas depois,
subitamente receosa, decidi não o fazer. Tibério reclamou o frasco e
fechou-o, ainda apenas com uma mão. - Que tolice, Albia! Isto vai ser
testado.

- Como?

- Tendo-te em consideração, nalguma criatura que até tu consideres um


verme. O que achas dos pombos?

- Tenta com uma ratazana. Esperas resultados fatais?

- Tu não?

321
- Onde encontraste isso?

- O quarto dele foi revistado hoje de manhã.

- Então já sabias a verdade?

- Não «sabia». Suspeitava. Mas como estamos sempre de candeias às


avessas, tenho tentado não o condenar até me ver obrigado a fazê-lo.

- Bem, não queremos ser injustos com alguém que já assassinou várias
pessoas, pois não? Pelos deuses, é muito mais fácil acusar um
desconhecido.

Tibério parecia preocupado comigo.

- Isto tornou-se demasiado pessoal? Queres afastar-te?

- Quero ver isto acabado.

- É difícil. - Falando em voz baixa, o mensageiro também parecia


afetado.

- Tem de ser feito - repliquei, embora tivesse o maxilar contraído e


um tom desolado. - Então, que mais tinhas no baú das provas?

Exibido com um gesto conspiratório, o segundo item era o meu próprio


estojo de agulhas.

- Isso é meu. - Ouvi a voz a falhar-me. Senti-me abrasada, depois


maldisposta, embora não estivesse surpreendida.

- Não o protejas, Albia.

- Nem quero fazê-lo. Ele deve ter-mo roubado.

Fiquei calada, lembrando-me da tarde em que tinha estado a coser a


fita entrançada. Vira Andrónico a examinar-me a caixa de costura, com
aqueles olhos cor de avelã a brilharem de curiosidade enquanto ele
abria a caixa e explorava o conteúdo. Devia ter-me surripiado o
estojo das agulhas mesmo à minha frente.

Tirei o tampão, um pequeno chumaço de papiro velho, e abanei o


estojo, mais uma vez ciente de que o meu companheiro estremecia
devido ao perigo, se bem que daquela vez eu estava a despejar o que
lá estivesse dentro para cima da mesa, de forma segura. Todavia, não
caiu nada; o estojo estava vazio. Tibério perguntou-me quantas
agulhas eu tinha.

322
- Uma neste estojo, mais a que ainda tenho em casa. Duas já é um
luxo. Sabes quanto custa uma agulha?

Mentalmente, ouvi Andrónico a dizer «Eu cá nunca me dedico à


costura...» Como muitas das suas afirmações, aquela tivera um duplo
significado.

Numa voz baixa, Tibério confirmou:

- Tem havido mortes idênticas provocadas por agulhas envenenadas. Uma


delas foi encontrada ainda espetada numa vítima, no Esquilino. O
homem sentiu qualquer coisa a picá-lo, por isso virou-se
inesperadamente e o atacante teve de largar a agulha. Mas esse
lunático foi apanhado, por isso podemos ter a certeza de que as
mortes no Aventino têm sido causadas por outra pessoa. O método já é
conhecido há algum tempo, mas foi deliberadamente ocultado ao
público.

- Oh, vocês e os vossos malditos segredos! Mas cometeram um erro,


Tibério. Alguém que soubesse poderia servir-se da ideia para dar a
ideia de que os seus assassínios faziam parte da epidemia geral. Isso
distrairia as atenções.

-Sim?

- Andrónico deve saber.

- Eu nunca lhe disse, Albia.

- Tens a certeza? Ele uma vez disse-me que tirou notas em reuniões
acerca da situação em que estavam presentes os quatro edis. Quando
falaram das mortes por picada de agulha, ele deve ter ouvido o método
a ser discutido.

- Isso faz sentido. — Tibério bebeu o resto da água, tornou a encher


a taça e mais uma vez bebeu tudo. Apoiou-se de novo nos cotovelos,
para se aproximar um pouco mais de mim. Nas associações de
vigilantes, as manhãs eram calmas. Não havia sons de gente lá fora na
colunata, nem no pátio de revista aos soldados. No entanto, e apesar
de estarmos sozinhos na sala de interrogatórios, Tibério baixou
instintivamente o tom da voz: - Então, Flávia Albia, digamo-lo: eu e
tu estamos convencidos de que o assassino da agulha à solta no
Aventino é o nosso arquivista, Andrónico.

323
45

Andrónico era o assassino. Agora que havia outra pessoa a concordar


com as minhas suspeitas, tudo me parecia tremendamente óbvio.

Para disfarçar o pânico, nervosa, recorri ao humor.

- Oh, ele não pode ser um assassino; os olhos dele brilham! O


mensageiro deixou-se ficar em silêncio enquanto eu me debatia com a
verdade. Eu estava a empatar. Ele sabia. Pela primeira vez, via-me
frente a frente com as implicações pessoais. Não demorou muito, pois
o terror tinha passado a noite toda à espreita. Não era a primeira
vez que dava impetuosamente o coração a um homem que depois traía a
minha confiança - mas era, sem dúvida, a ocasião mais sinistra.

- É a história da minha vida - admiti com amargura. - Ser enrolada


por um sacana, demorando demasiado tempo a dar por isso...

A avaliar pela sua expressão, Tibério já lidara com mulheres


amarguradas e tinha pouca paciência para a minha autocomiseração, mas
tudo o que me disse foi:

- Pelo que vi, Andrónico apaixonou-se, de facto, por ti. Inflamei-me.

- E eu apaixonei-me espetacular, indesculpável e ridiculamente por


ele!

324
- Calma.

- Se não fosse uma série de acidentes... e o meu próprio


constrangimento, vale a pena dizê-lo... a coisa poderia ter sido
muito pior. Pelo menos, nunca fui para a cama com ele.

Queria que Tibério soubesse. Porquê? Não era da sua conta. Ele
ignorou o comentário. Talvez estivesse embaraçado.

- Estou furiosa. Roubou-me uma coisa para usar nos seus terríveis
ataques... pior, era uma coisas que me tinha sido oferecida pela
minha querida irmã mais nova! E um bom estojo para agulhas, fazia-me
lembrar de Júlia, mas agora nunca mais serei capaz de voltar a usá-
lo.

Tibério voltou a apoderar-se dele. De qualquer maneira, precisava


daquilo como prova.

Escondi a cara entre as mãos, agora furiosa comigo.

- Mas que baralhada! É isto que toda a gente espera quando se faz o
trabalho tradicional de um homem. Oh, por Juno; é o que qualquer
mulher honesta mais teme. Incompetência, pura e simples. Emaranharmo-
nos num caso terrível; piorar ainda mais as coisas; ir para a cama
com um assassino; comprometermo-nos e às futuras possibilidades de
trabalhar, arriscando até não o condenar...

Escusado será dizer que, enquanto eu arengava, Tibério escutava com


uma expressão inescrutável. Duvido de que tivesse noção de que havia
muito pouca gente a quem eu fosse revelar tamanha profundidade de
sentimentos. Sentia mesmo que podia confiar nele.

Ele tinha-se afastado da mesa, com os braços completamente esticados,


enquanto se instalava para me ouvir, como se essa fosse uma
formalidade desagradável que tivesse de ser ultrapassada.

Terminei. Fiquei calada. Ele adotou uma expressão que passava por
razoável; até inclinou ligeiramente a cabeça. O fingido.

- Disseste-me — corrigiu-me —, que não foste para cama com ele.

325
- Estás a ser pedante.

- Isso é melhor - entoou o miserável suíno - do que ser histérico. -


Passado um instante, acrescentou numa voz séria: - Cometeste um erro.
Durou algumas semanas. Alguns de nós têm de viver com o facto de
abrigarmos esta criatura durante anos. Parecia inofensivo. Teríamos
posto fim ao seu mau comportamento em casa. Ele nunca teria sido
detetado como assassino sem as tuas investigações. Para minha
vergonha, eu cheguei até a tentar que os vigiles te travassem.

- Pax!

- Obrigado. Então, Flávia Albia, e se nós os dois, com calma e


sensatez, tentássemos reconstituir a sequência dos acontecimentos?

Eu fiz o primeiro resumo, enquanto o mensageiro ia expressando a sua


concordância assentindo com a cabeça em silêncio. Tinha reparado que
ele fazia aquilo em reuniões. Dava a impressão de que estava à espera
para apanhar os outros em falta, mas entretanto eu apercebera-me de
que ele gostava de ouvir toda a gente primeiro, para o caso de isso
influenciar a sua própria contribuição. Se visse necessidade de
intervir antes, assim faria.

- Para começar no ponto em que eu me envolvi na questão -disse eu -,


Andrónico matou Salvídia porque esta visitou a edilidade e o atacou
verbalmente; ela estava enfurecida por causa do aviso afixado a pedir
testemunhas da morte do pequeno Lúcio Basso.

- A culpa é minha!

- Pois é - concordei impiedosamente. Tinha sido ele a escrevê-lo. -


Andrónico tinha razão quanto a não ser responsável por isso e apenas
o homem que ela encontrara no gabinete, mas a reação violenta de
Salvídia abalou-o. Era injusta. A indignação deixou-o possesso, como
é costume acontecer-lhe, por isso dedicou-se a uma extraordinária
vingança, matando-a. Depois eu apareci no gabinete e ele talvez
quisesse que eu parasse de investigar... Lembro-me de que estava
sempre a dizer: «Então não precisas de perder mais tempo.»

326
Suponho que terá ido ao funeral para tentar encontrar-me, ainda a
desejar assegurar-se de que eu não descobria provas que o
incriminassem. Encontrou a velhota ao pé da necrópole. Celendina
levou-lhe a mal de uma maneira que ele achou insultuosa, pelo que a
seguiu até casa e a matou também.

- Morelo acha que escapaste por pouco nessa noite.

- Andrónico poderia ter-me matado em qualquer altura.

- Ah, mas ele não tardou a ser incapaz de te resistir!

- Deixa-te de piadas de mau gosto.

- Não estava a brincar - replicou Tibério num tom conciliador. - Lá


em casa, falava de ti, dizendo que eras uma criatura lindíssima.
Havia esperança de que tu pudesses reformar a faceta irresponsável do
seu caráter... mas quero que saibas que nunca desejei que ele
estivesse contigo. - Fez uma pausa. - Esforcei-me bastante para vos
manter separados.

Sentindo-me desconcertada, prossegui:

- Antes destes ataques, ele tinha matado Júlio Viador... porquê? Será
que, quando Cassiana Clara estava sentada no jardim da vossa casa
durante aquele jantar e Andrónico a encontrou, foi ele o homem que
assumiu que, conforme ele me disse em termos muito grosseiros, ela
estava «a pedi-las»? Ele atirou-se a ela? Eu queria persuadi-la a
dar-me um depoimento...

Tibério abanou a cabeça e interrompeu-me:

- Não há necessidade. Podemos deixar que a rapariga esqueça o


incidente, se é que alguma vez esquecerá que isso esteve na origem da
morte do marido. Eu estava na colunata do outro lado do jardim, a
voltar dos lavabos. Andrónico não me tinha visto. Vi tudo. E, sim,
ele tentou abusar dela. Ela era muito inexperiente; o ataque foi um
grande choque para ela.

- Então ele interpretou mal a situação? Ela gritou? - Um aceno de


cabeça. - Viador apressou-se a ir ao jardim, viu a mulher a debater-
se, ficou furioso e, como as outras vítimas, deixou bem claro o que
achava de Andrónico?

327
- Viador chegou mesmo a bater-lhe.

- Oh, agora vemos que essa foi a sentença de morte de Viador!

- Parece ter sido o primeiro - comentou Tibério num tom soturno. - Um


bom murro de um homem atlético provocou a sua degeneração e
transformação em assassino. E Andrónico caiu mesmo em desgraça lá em
casa nas semanas que se seguiram a ter atacado Cassiana Clara -
contou-me. — Túlio avisou-o. Por pouco não foi dispensado de forma
permanente dessa vez.

- Dessa vez?

- Ele tem um longo historial de insubordinação. Ser repreendido não


surte efeito algum. Nunca admite ter feito algo de mal. Se for
obrigado, culpa outras pessoas; quando passamos a conhecê-lo,
conseguimos ver o seu cérebro astuto a arranjar desculpas enquanto se
contorce. - Tibério descrevia-o com fadiga; fiquei com a impressão de
que ele tinha estado envolvido em tentativas de reabilitar o culpado.
- Ele conquista Túlio, que gosta de uma vida fácil, com aquele seu
charme.

- E Fausto?

- Sabe perfeitamente como ele é.

- Uma vez, Andrónico levou-me lá a casa - admiti, sabendo que Tibério


arquearia uma sobrancelha reprovadora. Foi o que aconteceu. -
Pareceu-me que o resto do pessoal se dava bem com ele.

- É assim que ele se safa - disse Tibério, com um esgar de desdém. -


Nós vemo-lo como um predador, mas a maioria das pessoas não repara em
nada de invulgar. Sabe passar despercebido. Tem escondido a
agressividade e a falta de remorsos à vista de todos.

- Quando eu disse a Cassiana Clara que o seu marido tinha sido


assassinado, ela ficou aterrorizada pela possibilidade de ele ir
atrás dela. Na altura, pareceu-me exagerado. Mas é claro que ela tem
razão. Se recear que ela forneça indícios que o comprometam... que
diga que ele a assediou e que o marido dela o ameaçou... Andrónico
também a atacará. Quando alguém o ameaça, ele limita-se a fazer essa
pessoa desaparecer.

328
Clara foi enviada para longe de Roma para ficar protegida? O edil
avisou a família dela?

- Sim. Em relação às duas perguntas. Isso era um alívio.

- Então - concluí. - E o que pensamos acerca de Lupo?

- Lupo?

- O rapaz das ostras. Tibério respondeu de imediato:

- Compramos o nosso marisco nessa banca. Lupo era respingão; eu


lembro-me dele. Gostava de brincar com os clientes, era um típico
vendedor; às vezes tornava-se chato, basicamente por ser demasiado
jovem para perceber quando fazia comentários inapropriados. A Porta
Trigemina fica perto do templo, pelo que, se mais ninguém se
encontrasse desse lado do monte mas Andrónico tivesse de estar no
arquivo, era incumbido de ir buscar mantimentos. Em certa ocasião,
chegou a casa a queixar-se muito de um rapaz que tinha sido mal-
educado. Levara a coisa a peito, como sempre. Recusava-se a voltar
lá.

— Mas é óbvio que voltou, pelo menos uma vez mais do que deveria -
concluí eu tristemente. - Quando interroguei a família, todos
disseram não ter visto ninguém no dia em que Lupo morreu, mas se
fizermos Andrónico passar por lá, talvez se lembrem. — Talvez.

Tibério levantou-se. O assunto estava a afetá-lo. Também a mim, por


isso segui-lhe o exemplo. Sentia o corpo rígido, cansado e abatido.
Ele queixou-se de estarmos sentados naquela sala fechada e abafada há
demasiado tempo para podermos pensar com clareza; sugeriu que
deixássemos o quartel e fôssemos a algum lado com outra vista e que
fosse mais arejado.

A porta, Tibério parou, observando-me de perto. Percebeu que eu


estava relutante quanto a ir embora.

- Estás bem?

- Sim.

329
- Não me parece

- Hei de estar.

Ele esperou um pouco mas, ao ver-me de queixo erguido, fez-me avançar


para a colunata e fomos andando.

330
46

Lentamente, enquanto eu e Tibério caminhávamos pela nossa cidade


naquela manhã, recuperei a coragem. Vivia em Roma há quinze anos, a
maioria dos quais no Aventino. Aquelas eram as minhas ruas. Decidi
que não seria expulsa delas por medo.

Os nossos passos afastaram-nos da beira-rio e fizeram-nos seguir numa


direção que eu raramente tomava. Devemos ter virado perto do Jardim
dos Plátanos, um parque público bastante desolado perto da rua que
tinha o nome das mesmas árvores, embora eu fosse tão distraída que,
mais tarde, não me lembrava de todo do percurso. Depois avançámos
pela encosta sul da colina principal até sairmos da Décima Terceira
Circunscrição e entrarmos na Décima Segunda, ao lado do quartel-
general da Quarta Coorte, onde eu fora recebida por Scauro e pelos
seus capatazes. Não fizemos qualquer referência a isso.

Durante muito tempo, não falámos de todo, vagueando pela larga Rua
dos Lagos Públicos em direção ao Circo Máximo. Em vez de descermos
até à pista de corridas, percorremo-la por cima, de novo ao longo do
sopé da colina, passando pelos dois Templos de Vénus e chegando por
fim ao jardim coberto de flores e vegetais do deus Vertumno. Lembro-
me de dizer a Tibério, no Templo de Vénus Verticórdia, que só em Roma
a deusa do amor e do desejo poderia ser venerada numa versão
intencionalmente puritana.

331
- Vénus, a que «vira os corações» para a virtude... para a castidade
das mulheres, claro está - resmunguei.

- Fidelidade no amor - contrapôs Tibério, revelando uma faceta


romântica.

- Para quem acredite nisso!

- Tu não?

- Eu acredito. O meu marido era-me fiel, e eu a ele.

- Já reparei que só tens coisas boas a dizer do teu casamento.

- Bem, foi curto!

- E há muito tempo? Mas ainda usas aliança.

Isso não era verdade. Eu e Lentulo nunca nos tínhamos dado a esse
trabalho. Com secura, expliquei-lhe que tinha adquirido aquele anel
poucos anos antes, num leilão que a minha família organizara, e que o
usava para incutir uma certa aura de responsabilidade ao meu
trabalho. Talvez isso tivesse travado alguns homens, embora eu não
tivesse qualquer vontade de relembrar ao mensageiro que por vezes
tinha um ar disponível. Já era suficientemente mau que ele soubesse
que atraíra Andrónico.

- Alguma vez foste casado, Tibério?

Ele só usava um anel de sinete, cujo símbolo era um animado cavalo


com cauda de peixe. Eu vira-o ao inspecionar-lhe a mão marcada.

- Uma vez.

- Oh... e nunca mais?

- Eu não disse isso.

Aquele homem deixava muitas coisas por dizer, como eu começava a


suspeitar.

A nossa deambulação tinha-nos conduzido até à zona mais baixa da


íngreme Clivus Publicius. Tínhamos de passar pela casa onde vivera o
pequeno Lúcio Basso, o local exato onde ele fora atropelado pela
carroça da Metelo e Nepos.

332
Na parede em que Tibério afixara o seu fatal aviso a convocar
testemunhas, os pais tinham instalado uma enorme placa em memória da
criança. Deviam ter gastado o dinheiro de compensação que o sobrinho
de Salvídia lhes pagara. Uma mensagem comovente recordava Lúcio:

Viveu três anos, quatro meses e dez dias: uma pequena alma que
adorava brincar regressou aos deuses do submundo: as esperanças dos
pais foram arrebatadas.

Num tom impaciente, Tibério resmoneou que a família Basso teria feito
melhor se aplicasse o dinheiro nos outros filhos. Senti-me obrigada a
murmurar que talvez a placa lhes proporcionasse algum conforto. Ele
declarou que esse tipo de conforto era sobrevalorizado.

Em seguida, zangado, comentou que a porta da casa estava outra vez


aberta. Não tinham aprendido nada. Qualquer outra criança poderia
voltar a correr para o exterior e expor-se a uma situação perigosa.

- Não sei porque há quem se preocupe!

- Tens filhos? - perguntei-lhe.

- Não, nunca tive a oportunidade de negligenciar descendência


inocente!

Tibério avançou, comigo a tentar acompanhá-lo. Serpenteámos pelas


zonas altas, atravessando pequenas ruas com mercados e fontes em
entroncamentos, sob a presença imponente do Templo de Diana no
Aventino, avançando por mais ruelas e vielas, até regressarmos à zona
da minha casa. Durante muito do tempo que passámos juntos, pouca
consciência tive do meu companheiro. Estava perdida em divagações
privadas, por vezes de um género neutro que serve para esvaziar o
cérebro de preocupações, mas frequentemente eram de um teor muito
mais sombrio. Caminhávamos; eu reclamava o meu direito a fazê-lo,
após uma noite longa e de uma manhã de apreensão.

333
Expor Andrónico tinha-me abalado. O que aquele assassino empedernido
fizera deixara-me desconsolada e com falta de fé. Pior, antes de ter
acalmado com o passeio, sentira-me profundamente assustada.

O próprio Tibério queria recomendar-me que não fosse complacente.

- Até ele estar acorrentado, Albia, mantém-te alerta. Se disseste ou


fizeste alguma coisa que o tenha irritado...

- Acertaste! Infelizmente, deixei-o. Ele não me perdoará isso. Não


via qualquer necessidade de me alongar quanto ao final do meu caso
amoroso. Porém, fiz questão de mencionar que o meu irmão fora
perigosamente desagradável para com Andrónico na noite anterior,
talvez da mesma forma que o jovem Lupo certa vez se atrevera a
incitar-lhe rancor - um rapaz a agir com naturalidade sem se
aperceber de que isso punha em causa a sua própria segurança. Tibério
era da opinião de que Póstumo deveria ser mantido dentro de casa, só
para jogarmos pelo seguro.

Quanto a mim, não deu conselhos. Era um tipo sensato.

Por toda a parte reinava um ambiente animado mas descontraído, típico


de uma época festiva. As pessoas estavam a almoçar. Não houve
qualquer sugestão no sentido de que eu e Tibério devêssemos fazê-lo
juntos. Em vez disso, deixou-me no Xarroco, onde eu lhe disse que
Junilo cuidaria de mim. Com um ar cansado, Tibério disse que tinha de
ir para casa. Fora um gesto amável ter-me acompanhado quando eu
deixara o quartel, embora eu percebesse porque o fizera. Também ele
precisava de tempo para se preparar para a ação seguinte.

- Andrónico tem-se mantido ocupado em casa com tarefas a mando de


Túlio. Está na hora de o confrontar. Para depois o deter.

Contra a minha própria vontade, pensei em Andrónico, sem noção de


que, enquanto trabalhava para o tio do edil, o castigo se aproximava.

334
Túlio decerto estaria a par do que se passava. Teria sido informado
da revista ao quarto e dos indícios descobertos; enquanto Tibério
acabava de investigar o caso, Túlio deveria ter acedido a
supervisionar Andrónico. Com o quê? Listas? Datas e preços de
arrendamentos? Revendo velhos contratos que já só serviriam para
embrulhar espinhas de peixe ou ser simplesmente despejados com o
resto do lixo da casa? Seria de esperar que um velho empresário
experiente fosse capaz de manter o seu arquivista ocupado, sem
revelar quaisquer sinais de que as acusações formais estavam prestes
a ficar concluídas.

Eu não tinha a mínima vontade de ver Andrónico ser preso, nem tão-
pouco de saber o que lhe aconteceria no sistema judicial. Só poderia
haver um fim para um liberto que fosse considerado culpado de
homicídio ilícito, sobretudo quando dois dos cidadãos assassinados -
Viador e Salvídia - eram ricos. O assassínio acarretava a pena de
morte. Ele não era suficientemente importante para que o seu
julgamento se arrastasse. A acusação seria brutal, a defesa fraca.
Dificilmente poderia valer-se de tradicionais testemunhas abonatórias
que suplicassem por ele, alegando o seu bom caráter. A justiça seria
veloz. Só haveria um resultado. Ele seria enviado para a arena e
destroçado pelos animais.

Eu tudo faria para estar longe de Roma nessa altura.

- Não te atormentes a pensar nisso - disse Tibério num tom carregado.


- Já acabou. Podes deixar o resto comigo.

Palavras corajosas e másculas - uma declaração que parece sempre


convincente e nunca corre mal, pois não?

No Xarroco encontrei o consolo habitual. Muitos clientes solitários


iam ali em busca de esquecimento. Uma taça de vinho ajudou-me a
recuperar a confiança. Bebi a segunda sem dar por nada. Outra ainda
deixou-me absolutamente intrépida. Creio tratar-se de um efeito
conhecido.

335
Fui a casa dos meus pais, pois precisava de os avisar que mantivessem
Póstumo dentro de casa. Isso não era assim tão fácil, segundo me
informaram com algum azedume. O meu irmão andava fascinado com os
rituais noturnos que faziam parte dos Jogos de Ceres. Escapulia-se
sempre que queria. Respondi-lhes que isso não interessava, que o
sacaninha tinha irritado o assassino da agulha e que, se queriam
evitar uma fatalidade, tinham de o fazer obedecer a ordens. Sou capaz
de ter acrescentado que educar um rapaz de onze anos certamente não
seria muito complicado e que me sentia surpreendida com a falta de
disciplina que habitualmente lhe era aplicada naquela casa de loucos.
As minhas palavras tendiam para o desvairo e a minha lógica para o
incompreensível.

Sugeriram-me que talvez me agradasse deitar-me um pouco em sossego,


no jardim do terraço.

Por estranho que possa parecer, acatei a sugestão. Dormi durante


horas. Ninguém me perturbou. Quem se atreveria?

Quando acordei na espreguiçadeira, com frio e a sentir-me indolente,


percebi pela alteração da luz que já tinha passado a tarde inteira.
Os barulhos do rio - o alvoroço quotidiano das descargas, os choques,
os gritos dos estivadores e o guinchar das roldanas -tinham
diminuído. Os sons das ruas lá em baixo eram diferentes dos que se
ouviam durante o dia: quase não havia burros a passar, com os seus
sinos a badalar, e as conversas banais tornavam-se audíveis. Um melro
cantava num telhado ali perto, reclamando para si aquele território.

Pelo ar vogavam correntes de óleo quente e ervas aromáticas que


assinalavam os cozinhados que começavam em casas e estabelecimentos
comerciais. Se eu ficasse ali durante muito mais tempo, seria
obrigada a jantar com a minha família e submetida a muitos
comentários jocosos. Discretamente, fui-me embora, envergonhada, e
caminhei cabisbaixa até ao meu próprio ninho, passando pelos banhos
de Prisca.

336
Tinham acabado de abrir formalmente as portas; a azáfama poupava-me a
ter de fazer conversa.

No Paço da Fonte, não havia sinal de Ródão. Avancei pela casa do


primeiro andar, onde vivia a família Mythembal. Ouvia crianças a
chorar numa divisão para a qual eu não tinha visibilidade. Escutei os
protestos noturnos enquanto a mãe, cansada, tentava lavá-las com água
fria e as crianças, teimosas, lhe resistiam até adormecerem a meio de
um prato. Embrenhadas no seu ritual familiar, nenhuma delas deu por
mim. Fui logo para o meu quarto ao fundo do corredor, segui para o
passadiço por cima do pátio, subi as escadas estreitas e cheguei ao
meu refúgio escondido. De repente, apercebi-me de quão desesperada
estava por me encontrar em casa, sozinha, naquele silêncio profundo
onde o único movimento era o das partículas de pó no ar. Deixei o
cérebro em branco. Já não havia coisa alguma a considerar.

O apartamento tinha uma área minúscula onde eu podia preparar comida.


Mergulhei uma taça num balde de água fria e bebi sofregamente. Virei-
me para a minha sala principal, sem a perfeita noção do que estava a
fazer. Ali fiquei, a olhar.

Aquela sala estava mobilada com uma poltrona larga que servia de
cama, um banco de apoio com pés de bronze, duas arcas com um elegante
trabalho de encastre, um tapete no chão, um candeeiro suspenso,
lembranças e quadros nas paredes. Duas janelas quadradas instaladas
na espessa parede exterior deixavam passar a luz.

Ainda entrava alguma luz naquele fim de tarde. A suficiente para eu


reparar se algo não estivesse bem. Nada estava em falta. Nenhum dos
meus pertences parecia fora de sítio. Mas eu tinha um pressentimento.
O leitor sabe como é quando um rato se instala atrás de um armário e
nós sentimos a presença dele ainda antes de o vislumbrarmos pelo
canto do olho, muito antes de darmos pelas caganitas e pelo cheiro
que o denunciam?

Eu tinha uma travessa de vidro que continha três maçãs da última vez
que eu a vira. Agora, só lá estavam duas. A minha caixa de costura,
em que eu não tocava desde o meu aniversário, parecia ter girado.

337
A tampa ainda estava fechada mas, quando me aproximei e a levantei,
vi que a pequena tira de tecido em que eu espetara a agulha de coser
tinha desaparecido.

Durante a minha ausência daquela manhã, alguém fora ao meu


apartamento.

338
47

Eu sabia quem tinha sido e porque tinha ido ali. Andava à minha
procura. Eu seria a sua próxima vítima.

As portas do meu quarto estavam fechadas. Antes que o verdadeiro


pavor se instalasse, atravessei a divisão com passos zangados e abri-
as de par em par. Poderia ter sido um gesto tolo, mas não estava
ninguém no quarto.

Entrei em pânico. Deixei o apartamento pela porta principal, que


raramente usava. Depois de passar por cima das floreiras, corri
desenfreadamente escadas abaixo. Ródão tinha reaparecido, sabia-se lá
de onde, e estava a falar com dois dos vigiles. Não fiquei
surpreendida quando me disseram que tinham sido enviados para me
avisar: Andrónico deveria ter pressentido que ia ser preso. Tinha
fugido da casa do edil.

Quando lhes comuniquei que ele já havia estado em minha casa,


indicaram-me que esperasse no pátio com o segundo paramilitar:
Rufiano. Eu conhecia-o. Fora ele quem tomara notas da vez em que eu
tivera aquele outro intruso, em quem espetara uma faca da cozinha.
Rufiano era um incapaz, mas a sua presença reconfortava-me. O outro
homem levou Ródão. Apressaram-se escadas acima, indo em primeiro
lugar revistar o meu escritório e depois, andar por andar, verificar
cada patamar e os apartamentos do prédio.

339
Ródão abriria os que estavam desocupados com as chaves-mestras que o
meu pai, ainda que com relutância, lhe deixara; se ninguém
respondesse dos aposentos habitados, eu sabia que ele forçaria a
porta encostando-se a ela. Se os inquilinos se queixassem, ele havia
de lhes cobrar a reparação.

Enquanto esperava com Rufiano, o rapaz das candeias apareceu para


cumprir os seus deveres noturnos, carregando uma grande ânfora
redonda de azeite espanhol. Eu disse-lhe que servisse todas as
lamparinas que tínhamos, enchendo-as até à borda para que durassem o
mais possível. Ele pareceu ficar espantado com a mudança de
estratégia mas, lentamente, encarregou-se disso. Por fim, as áreas
comuns ficaram mais iluminadas do que alguma vez acontece nas escadas
e nos espaços abertos dos prédios, para grande espanto dos
habitantes.

Depois de todo o edifício ter sido revistado, percebemos que


Andrónico não estava por ali. Fiquei a saber que Morelo entrara cedo
ao serviço e que estava a liderar a busca. Rufiano foi enviado para o
notificar acerca da minha visita indesejada.

- Diz-lhe que perdi outra agulha.

Ródão trancou o portão. Eu fui informada de que, quando regressasse,


Rufiano deveria permanecer no pátio. Haveria ali guardas durante toda
a noite. Para maior segurança, o outro homem levou-me até ao meu
apartamento e percorreu-o comigo, inspecionado tudo de novo. Concluiu
com os habituais conselhos sombrios que os vigiles dão à população,
dizendo-me que mantivesse as persianas fechadas e não deixasse entrar
desconhecidos. Presumo que tinha noção de que, para variar, estava a
falar cora alguém que de facto o ouvia. Tolerou o meu comentário
acerca de eu ter a recear alguém que conhecia e depois ocupou-se a
conferir todos os ganchos e dobradiças das persianas. Isso fazia-o
sentir-se melhor. A mim, não me consolava. Admito que, quando fiquei
sozinha, me sentei na poltrona, a tremer.

Ouvi instruções austeras serem dadas a todos os outros habitantes do


primeiro e do segundo andares.

340
Uma atenção tão especial nunca surte o efeito tranquilizador que as
autoridades pretendem; deixa toda a gente mais agitada. Não que
alguém acredite, por outro lado, quando os vigiles afiançam que não
há motivos para preocupação. As palavras «Está tudo dentro da
normalidade; por favor, voltem para dentro de casa» deixam
imediatamente toda a vizinhança nervosa.

Tinha perguntado se poderiam levar uma mensagem a casa do meu pai,


sobre a necessidade de proteger Póstumo.

- Oh, sim, parece que ele uma vez matou um rapaz.

Era óbvio que os vigiles de serviço já tinham sido informados a


fundo.

Quando Rufiano regressou depois de ter estado com Morelo,


acompanhavam-no dois outros soldados. Levei-lhes bebidas quentes,
como uma boa dona de casa. Mostraram-se muito respeitosos. Julgo que
os seus bons modos invulgares foram o que me pareceu mais alarmante.

Eu nada mais podia fazer. Passei a noite deitada em cima da cama,


completamente vestida e praticamente sem dormir.

341
48

A dada altura, acabei por adormecer. Acordei mais tarde do que era
habitual. Um banho com um pano húmido e roupas lavadas ajudaram-me a
sentir-me melhor. Consegui beber posca e comi tudo o que encontrei:
uma côdea de pão, uma fatia de carne seca, uma mão-cheia de passas.

Recusei-me a tocar nas duas maçãs; haviam de ficar naquela travessa


até ganharem bolor.

Apesar de me sentir como que de luto, pus uns brincos de que gostava
(as minhas rosetas de filigrana etrusca) e um lenço colorido. Tinha
escolhido sapatos confortáveis e uma túnica resistente em linho de
boa trama; prendi o cabelo muito bem com mais ganchos do que era
habitual. Naquele dia, estava a vestir-me para a ação.

Um vigilante do turno do dia que eu não conhecia tinha rendido


Rufiano. Permitiu-me que saísse do edifício, ainda que com uma
relutância estúpida, já que eu lhe tinha dito que ia encontrar-me com
Morelo ao quartel. O homem foi comigo; despistei-o ao fundo do Paço
da Fonte e fui sozinha até ao quartel. Recusava-me a ser protegida
por simplórios. Se aquilo era o melhor que o orçamento público podia
facultar, eu preferia não ser protegida de todo.

342
Era tão cedo que dava para ver nas ruas alguém a aproximar-se à minha
frente ou ouvir quem quer me seguisse. Com Andrónico, era isso que eu
tinha a recear. Caminhei pelo meio da estrada, sempre que a rua era
suficientemente larga para me proporcionar essa segurança extra,
evitando aproximar-me de qualquer entrada ou escadaria escura. Alguns
cães vadios olhavam para mim e bocejavam. Tristes escravos públicos
varriam os pavimentos e vi um ladrão de rosto comprido a caminho de
casa, desapontado e de mãos a abanar. Um par de tabernas que se
mantinham abertas toda a noite durante os festivais estavam cheias de
gente de fora que entretanto se sentia devastada pela ressaca. Um dos
foliões que parecia não ir voltar à vida estava a ser levado numa
maca.

Morelo encontrava-se na sua sala de interrogatórios, a receber


relatórios. Andrónico ainda não tinha sido visto.

O que fiquei a saber foi que Venúsia tinha sido obrigada a regressar
de Arícia na noite anterior. Apesar de ser tão tarde, em seguida
chegara uma liteira coberta, da qual saíra uma mulher rude com uma
carta que Morelo não poderia recusar e que a autorizava a ver a
prisioneira.

- Laia Graciana? Que maçada!

- Bem, eu tentei impedir os rapazes de coçarem o traseiro à frente


dela, mas, Hades, isto é um quartel de trabalho, Albia! O que é que
ela esperava?

- O que aconteceu?

- Eu não participei na discussão. Foi curta e terrível, a avaliar


pelo estado em que ficou a prisioneira. Tive de pedir ao medico que
lhe desse uma dose de tónico de papoila... o que ela, como é óbvio,
aceitou avidamente. Depois disso, já a senhora saiu da cela como se
fosse uma deusa da guerra, dizendo que tinha obtido tudo o que
precisava.

- Tratando-se de Laia, deu a impressão de que qualquer idiota poderia


ter-se incumbido do interrogatório, poupando-a assim ao incómodo?

343
- Pois! Obviamente não ia contar-me, Albia, já que não passo do homem
encarregado de apanhar o perpetrador, o que seria demasiado útil, não
seria? Lá se foi embora a pavonear-se, dando-me ordens para informar
o edil de que hoje a meio da manhã apresentará as suas conclusões no
seu gabinete. Sorte a dele! Ninguém se atreve a ir a casa dela
importuná-la.

- Eu podia tentar - ofereci-me, embora não tivesse grande vontade de


o fazer.

- Não te esforces em vão - aconselhou-me Morelo. - Que diferença faz


mais uma hora ou duas?

- E quanto baste para que Andrónico torne a matar.

- Bem, isso não deve ser problemático. E a ti que o nosso amigo quer
apanhar em seguida, e tu estás aqui, não estás, querida?

Eu nem sequer tive energia para lhe ordenar que não fosse
condescendente.

- Muito segura e confortável aqui comigo no meu gabinete privado -


comentou Morelo. - Podíamos deitar-nos juntos, se estiveres com tempo
de sobra?

O grande barrigudo estava só a espicaçar-me.

Em vez de nos deitarmos, levou-me a uma tasca gordurosa onde os


vigiles comiam quando acabavam o turno, sentou-me num banco a um
canto por trás de uma muralha de homens grandes e deu-me um segundo
pequeno-almoço, desta feita de tamanho elefantino. Dizia que era o
«romano completo». Tinha toda a sofisticação e quantidade de uma
refeição que os bárbaros devorariam antes de se lançarem num saque de
três dias.

Tive de me sentar na Armilústria para digerir o banquete pesadíssimo.


Não vi Robigo. Desde a noite do ritual dos archotes ardentes que não
descortinava raposa alguma. Sabia que o meu amigo provavelmente tinha
morrido no Circo.

A meio da manhã, fui à edilidade. Um escravo preocupado contou-me que


Laia Graciana já tinha chegado, mas que se fechara com Tibério, com
ordens para que ninguém os perturbasse.

344
Se ela fosse mais suportável, eu teria entrado por ali de qualquer
maneira mas, tratando-se daquela pessoa, decidi não optar pela
atitude arrojada. Esperaria que a cabra miserável se fosse embora e
ouviria os factos diretamente do mensageiro. Já era suficientemente
mau ter de o aturar.

Não havia outro sítio onde eu quisesse estar, pelo que esperei no
pátio deles. Era estranho encontrar-me no quartel-general dos edis
sem Andrónico, pelo que me senti grata por estar sozinha enquanto
lidava com essa pontada. Ainda assim, isso mataria o demónio. Aquilo
era apenas um gabinete de serviço público. Como em todos, a mobília
estava imunda e os sacanas obrigavam-nos a ficar de pé.

Eu tinha recusado a bebida que me ofereceram, o que foi um erro, pois


não tardei a sentir-me sequiosa depois do pequeno-almoço com os
vigiles, que continha tiras de presunto fumado; até as fatias de pão
eram salgadas — tratava-se de comida para homens que suavam as
estopinhas a combater incêndios. Enxotando os mosquitos que
enxameavam a fonte, bebi um pouco de água, mas depois, como o fluxo
gorgolejava e era escasso, encontrei um pau e comecei a picar a saída
para que corresse melhor. E uma tradição familiar melhorarmos o
abastecimento de água de quem quer que visitemos, quer nos convidem a
fazê-lo ou não. É preciso assegurarmo-nos de que não bloqueamos a
coisa toda por engano ou, pelo menos, de que não o fazemos quando
estão a ver-nos.

Laia e Tibério deveriam ter tomado bebidas pois, enquanto me


debruçava a ocupar-me do passe de magia necessário a que a água
fluísse melhor, um escravo recolheu as taças vazias deles. Ao levar a
travessa, deixou a porta entreaberta. A partir de então, passei a
ouvir um suave murmúrio de vozes. Sabendo que se tratava de material
confidencial, tentei não escutar, mas não com grande afinco.

Morelo tinha Venúsia numa cela pequena, austera e malcheirosa, onde


ela ouviria os terríveis sons de homens ali perto a serem espancados
e de bêbedos a gritarem, para além de outros ruídos desagradáveis que
ela nem saberia identificar.

345
Tinha ficado frenética. A mera aparição de Laia Graciana,
representando o papel de senhora preocupada capaz de usar a sua
influência para a libertar, fora suficiente para a fazer ceder.
Lavada em lágrimas, Venúsia confessara aquilo que afirmava ser toda a
história: Andrónico abordara-a, seduzira-a e acabara por enganá-la.
Até a tinha burlado, ficando-lhe com as poupanças de toda a vida.
Laia deu a Tibério pormenores que me pareceram terrivelmente
familiares, no que dizia respeito às táticas do arquivista. Segundo
tudo indicava, até a levara a almoçar ao mesmo sítio onde me tinha
levado uma vez.

Quando se apercebera de que o amante se distanciava, Venúsia tornara-


se exigente; ameaçara contar a Laia que ele andava a arranjar
problemas ao edil. A resposta dele fora o ataque que resultara na
morte de Ino. Aterrorizada, Venúsia relatara os seus medos a Laia,
embora sem admitir ainda todos os contornos da relação; enviaram-na
para Arícia. Ouvi Tibério a comentar que poderia ter sido melhor
perguntar primeiro, para o caso de o conselho oficial ser diferente,
devido à investigação. Nessa altura, alguém, provavelmente o próprio
Tibério, terá reparado que a porta estava aberta, pelo que esta se
fechou sem barulho.

Continuei com o meu elegante trabalho de manutenção da fonte. Não


precisava de ouvir o que se seguiria. Era capaz de me divertir a
imaginar a resposta de Laia a quem lhe sugerisse que deveria ter
procurado conselho.

Por fim, a porta tornou a abrir-se. Laia foi a primeira a sair,


exclamando:

- Não vale a pena discutir. Vou fazer isso!

Falava como se a sua intenção fosse ter os testículos do mensageiro


torrados num pão.

A criada mais velha, que eu reconheci, deveria ter vindo a acompanhá-


la; avançou muito depressa, presumivelmente para preparar a
cadeirinha de Laia, que eu tinha divisado na rua ao chegar.

346
Tibério, de lábios cerrados, escoltou Laia até ao átrio, por onde ela
deixaria o edifício. Levou-a pela colunata, que tinha alguma folhagem
enredada nas colunas. Como permaneci ao lado da fonte a um canto,
nenhum deles me viu. Fui, por conseguinte, uma testemunha secreta da
despedida deles: Tibério debruçou-se e deu um beijo determinado na
face de Laia Graciana. Após uma certa hesitação, ela chegou mesmo a
retribuir o gesto, ainda que com um beijo zangado. Depois revirou as
saias ao voltar-lhe costas; partiu sem que qualquer um deles trocasse
mais palavras.

Aquilo tinha sido inesperado. Eu não teria problemas em acreditar que


Tibério servisse de intermediário de confiança, tendo em conta que
Laia não suportava Mânlio Fausto. Mas um beijo no rosto é uma
formalidade limitada a contactos íntimos; está estritamente reservada
a colegas próximos, amigos e familiares. Tais despedidas não deveriam
ocorrer em Roma entre uma mulher daquele estatuto, parte da elite do
culto a Ceres, e um homem que funcionava como pouco mais do que moço
de recados de outra pessoa. Ora, ora!

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49

Tibério ali ficou, de polegares enfiados no cinto, como que a


assegurar-se de que Laia saíra daquele espaço. Quando se virou e
reparou em mim, fiquei quase com a impressão de que a sua expressão
se aligeirou. Eu estava inocentemente a raspar o musgo da bacia em
forma de concha da fonte. Largando o pau, limpei as mãos.

- Oh, estás aí! - exclamei num tom descontraído.

Se ele receava que eu tivesse visto o seu momento bizarro com Laia
Graciana, não corou.

Segui-o para a sala que ele estava a ocupar, na qual pelo menos eu
nunca tinha estado com Andrónico. Devia ter sido decorada para os
edis. Frescos animados mostravam heróis a fazerem monstros derramar
sangue, sob o olhar de donzelas tolas, em várias localizações
rochosas: o género de aventura negra que as pessoas julgam que terá
lugar no estrangeiro. Eu, que tinha vivido no estrangeiro, sabia que
não era assim. Nenhuma das personagens estava completamente vestida.
Havia rebordos de vegetação bonita e laivos distantes da beira-mar.
Eu era capaz de conviver com aquilo. Mas não por escolha própria.

Foi-me oferecido um cadeirão de senhora, que ainda estava quente do


traseiro magro de Laia. Saltei de lá e decidi-me por um banco
almofadado com pernas cruzadas.

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Tibério ocupou um assento másculo, de pedra dura. Não era bem
mármore; o meu pai tinha vários melhores a um canto do armazém das
antiguidades. Mantive uma atitude dócil enquanto o meu companheiro
relatava tudo o que eu tinha ouvido Laia a dizer. Inclinou a cabeça
para trás e observou-me com um ar sobranceiro, como se adivinhasse
que eu tinha estado à escuta.

Tibério suspirou.

- Temos um problema.

- A sério?

- Andrónico fugiu...

- Sim, enquanto andavas a passear pelo Aventino para ganhares


coragem, ele estava calmamente a comer uma maça no meu apartamento e
a levar a única agulha de coser que me restava.

- Receio que tenha saído da nossa casa com um cesto de documentos


velhos, sob o pretexto de os ir mandar fora. O porteiro não tinha
sido avisado, porque não queríamos alarmar Andrónico com algum
indício de complicações. Mas ele deve ter tido um pressentimento; já
não voltou. Pelo menos encontrámos e prendemos o boticário que lhe
fornecia o veneno, e avisámos outros. Ao que parece, Andrónico
mostrava-se bastante franco quanto a quem era. Dizia que precisava do
veneno para pincelar em flechas com que atingia ratos no arquivo.

- Todos os envenenadores usam essa desculpa — resmunguei. - Seria de


esperar que os boticários já estivessem preparados para denunciar
pessoas com ar de louco e problemas com ratos.

- Tu conhece-lo - respondeu Tibério num tom cansado. - Umas quantas


piadas oportunas acerca de os parasitas serem insuportavelmente
tenazes e... aquele seu ar confiante de olhos bem abertos é capaz de
convencer qualquer pessoa.

A mim, por exemplo.

- Desculpa - pediu Tibério, ainda que eu nem tivesse falado. Assumiu


um tom mais despachado. - Olha, não tenho tempo a perder com paninhos
quentes em relação à tua vida amorosa.

349
É preciso fazer planos. Não és a única pessoa na mira de Andrónico
desde que ele anda por aí à solta. Laia Graciana corre perigo. Ela
pressentiu que alguém a seguia ontem e, quando chegou a casa depois
de ir ao quartel ontem à noite, viu mesmo um homem à espreita do lado
de fora do seu apartamento. Tem a certeza de que se tratava da mesma
pessoa que entreviu quando Ino foi atacada. Descreveu a constituição
e a cor distintiva do cabelo de Andrónico.

Eu não sentia grande compaixão por Laia. Ao menos o seu perseguidor


não lhe invadira o apartamento, para além de que ela não vivia
sozinha. Teria sempre gente à sua volta e, a somar à comitiva de
funcionários, Tibério disse-me que ela e o irmão teriam um esquadrão
de proteção a vigiá-los noite e dia, composto pelos belos soldados
das Coortes Urbanas.

Ora, mas que bem para o culto de Ceres! Andrónico nem deveria ter
noção de que o irmão de Laia existia. Cheguei a salientar que tudo o
que me tinha sido atribuído fora um par de vigiles quase inúteis.
Tibério irritou-me ao responder que isso era por me considerarem mais
capaz.

Depois fiquei a saber que o «problema» era mais complexo e arriscado


do que salvaguardar umas quantas casas que fossem possíveis alvos até
o assassino ser apanhado. Naquela noite, havia um sério risco de
Andrónico tornar a atacar. Apesar de ter sido perseguida -
provavelmente por Andrónico estar furioso por ela ter colocado
Venúsia fora do seu alcance -, Laia insistia em fazer parte de um
ritual noturno que era um ponto alto da Cerialia: as mulheres do
culto percorreriam o Aventino, vestidas de branco e transportando
archotes, representando a busca da deusa Ceres pela sua filha
desaparecida. Resmunguei, incrédula e a imaginar a cena: mulheres que
não tinham o menor sentido de orientação a correrem em todas as
direções e a chamarem Prosérpina em todos os entroncamentos. Havia
muitos no Aventino, a maioria em áreas pouco recomendadas, vigiadas
ou iluminadas.

350
- Tibério, não podemos permitir que isto aconteça! Certamente que só
por um ano, Laia Graciana poderá ficar em casa a tecer no seu tear?

- Ela recusa-se terminantemente. Bem, quem é que gosta de tecer?

- Pede ao irmão dela que a tranque em casa.

- Não, ele acha que ela é incrivelmente corajosa e intrépida. -O


mensageiro olhou para o chão. - E claro que isto tem que ver com
Fausto.

- Ela põe-se a jeito para ser um alvo, como forma de se vingar da


infidelidade dele? Se alguma coisa lhe acontecer, a culpa é toda
dele?

- Ela não pensará assim, pelo menos não conscientemente. Mas tens
razão: como organizadores, os edis são responsáveis pela segurança
das mulheres do culto. Normalmente, tudo o que isso requer é manter
os bêbedos longe delas. - Tibério deixou cair a cabeça entre as mãos.
Quando tornou a levantá-la, tinha uma expressão invulgarmente
satírica. - E por vezes mantê-las longe dos bêbedos... Albia, isto
vai ser um pesadelo. Já deves ter visto como é. Uma data de mulheres
em quem não se devia confiar que transportassem archotes ardentes e
que, na minha opinião, emborcaram em segredo vinho fortificado com
substâncias muito duvidosas. Correm desenfreadas como bacantes,
gritando a plenos pulmões e ameaçando incendiar toda a maldita zona.

Tratava-se de uma revelação deliciosamente íntima acerca de um ritual


que a maioria das pessoas julgava ser tranquilo. Ri-me, em parte
devido ao seu desespero.

— A tratar-se desse género de festa louca, também quero participar.

Tibério endireitou-se. Afirmou que era a melhor ideia que alguém


tinha tido até então. Ele faria parte do grupo que patrulharia a área
e eu poderia ir com ele. Assim ele teria a oportunidade de zelar
pessoalmente pela minha segurança, ao mesmo tempo que eu o assistia
com a minha própria observação.

351
50

Ia correr mal, quase de certeza. Fazer de uma mulher um chamariz para


um homem que já enviara demasiados corpos prematuramente para a pira?
Era um convite ao desastre.

Passei o resto do dia em casa, supostamente a descansar. Tinha sido


escoltada até ao Paço da Fonte pelo vigilante que finalmente tornara
a encontrar-me. Depois levou-me aos banhos de Prisca. Gostei do
tratamento, mas o meu verdadeiro propósito era fazer uma proposta a
duas pessoas que, a meu ver, podiam ser úteis.

Zoé e Cloé, as mulheres que queriam ser gladiadoras, ficaram


intrigadas com a minha história. Contei-lhes a verdade acerca de
Andrónico e do perigo que ele representava, pois queria ser justa.
Expliquei-lhes que ele estava decidido a apanhar-me e também a uma
das participantes do culto que andaria pelo Aventino naquela noite.
Tibério tinha-me dito que, para a encorajar, Laia estaria com a
amiga, Márcia Balbila; eu queria que elas tivessem guarda-costas.

-As mulheres vão estar na quadriga, porque a sacerdotisa-mor é


demasiado idosa para andar pela rua. Por isso, saberemos sempre onde
aquelas duas se encontram, mesmo que todas as outras se espalhem como
ovelhas fugidas. É uma noite só para mulheres, ou deveria sê-lo...
bem, no que diz respeito às participantes... por isso não podemos
encher as ruas de soldados; isso seria descabido.

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Mas ninguém levantará objeções se os alvos tiverem duas amazonas
armadas.

- Essa quadriga... - Cloé era a mais divertida. - Já a vi noutros


anos. É puxada por grandes serpentes, não é? Não podemos disfarçar-
nos de cobras?

- Não. Vamos ter homens musculados escondidos dentro dos disfarces de


monstro. Suficientemente fortes para arrastarem a quadriga. .. ou
para ajudarem caso o assassino seja tão estúpido que se aproxime. Se
o fizer, vocês precisarão de se mover com rapidez. Lembrem-se,
mantenham-se longe dele; não deixem que vos atinja com uma agulha
envenenada. Ou às senhoras do culto, aninhadas na quadriga - senti-me
obrigada a acrescentar, já que nada tinha contra Márcia Balbila.

Zoé parecia altamente desconfiada de tudo aquilo.

- Essas mulheres são lésbicas?

- É claro que não! Uma delas é casada. A outra já teve um marido.

- Isso pode ser um disfarce.

- Não me parece mesmo, Zoé. Márcia Balbila tem filhos, segundo creio.
- Nem acreditava que estava a ter aquela conversa com duas raparigas
robustas que usavam armaduras e espadas. - Ouçam, a irmandade também
não é assim tão grande... e tu e Cloé?

Zoé ficou escandalizada.

- Nós somos só boas amigas. Muito boas, imaginava eu.

- É como a Laia e a Márcia. E, se eu me enganar, não hão de atacar-


vos, são fiéis uma à outra.

- Não queremos ser vistas com sáficas. Temos de pensar na nossa


reputação.

- E não pensaram nisso quando quiseram ser gladiadoras?! Lá arrastei


as tímidas amazonas até à casa de Márcia, onde as mulheres do culto
estavam a preparar-se, vestindo-se com as suas túnicas brancas ao
estilo grego e coroas de trigo falso, todas a pairar como se se
tratasse de uma festa de casamento.

353
Tal como o mensageiro insinuara, as damas devotas estavam bem
fornecidas de grandes taças de prata com um líquido quente que
emanava um potente cheiro aromático. E não me refiro a tomilho e
rosmaninho.

Ali, para meu grande espanto, tive uma conversa com as duas matronas
respeitáveis semelhante à que tivera antes com Zoé e Cloé.

- Só não demonstrem demasiado afeto uma pela outra - avisei-as num


tom maldoso. - Não vão querer que as amazonas fiquem com uma ideia
errada sobre vocês. Quanto a mim, não me importa minimamente o que as
pessoas fazem, mas elas são intransigentes. Nada de carinhos!

Balbila e Graciana pareciam desconcertadas mas, quando as deixei,


ainda as ouvi a terem um ataque de riso nervoso.

Fui numa cadeirinha fretada até ao templo, o lugar onde tinha


acordado encontrar-me com Tibério.

O Templo de Ceres estava cheio de gente naquela noite mas, assim que
cheguei, ele afastou-se de um grupo de homens e aproximou-se de mim.
Tinha sido escanhoado outra vez e estava de branco, embora tivesse um
manto escuro. Para cumprir o estipulado por lei, tinha de estar
desarmado. Se eu estivesse no seu lugar, teria infringido a lei mas,
sendo ele o homem do edil, suponho que só lhe cabia cumpri-la.

Eu própria ia de branco. Só possuía uma túnica branca apropriada, que


por acaso era de um material delicado não muito opaco. Felizmente era
suficientemente longa para me tapar as resistentes botas que me
chegavam aos tornozelos e que, sendo acessórios pouco condizentes com
gazes de seda, eram excelentes para desferir pontapés. Como não tinha
uma coroa de trigo, entrançara um colar de ouro no cabelo; o penteado
tinha sido feito por uma profissional nos banhos de Prisca, onde, já
que tinha tempo, uma rapariga também me arranjara as sobrancelhas e
me maquilhara.

354
Este efeito cuidado levou Tibério a engolir a seco.

- Estou a ver que queres dar nas vistas!

- Dá-me um archote e ficarei igual às outras.

- Nenhuma delas acha necessário usar transparências.

Eu tinha uma túnica interior perfeitamente espessa (ainda que um


pouco curta porque se me tinham acabado as longas) que deixava o
vestido fino decente.

- Oh, cala-te, nem eu tenho catorze anos, nem tu és a minha mãe.

Deixei que o pudico me fitasse. Tínhamos discutido o plano do vestido


branco; permitir-me-ia andar entre as mulheres do culto.

A reprovação dele estava a estragar-me a disposição. Já que grande


parte da minha vida era passada com uma aparência desleixada, por
motivos profissionais, por vezes gostava de me atirar aos cosméticos
e às joias. Reconheço que a minha mãe teria achado quatro colares um
pouco excessivo, mas era demasiado tarde: a minha perfeita bolsa de
trazer ao cinto já estava cheia, com dinheiro para uma emergência e
uma arma pequena mas mortal que eu poderia fazer passar, se
necessário, por uma faca de cortar fruta.

Todas as mulheres deveriam ter uma pequena adaga decorativa de caça.


Nunca se sabe quando se precisará dela.

355
51

Salve, deusa, preserva esta cidade em harmonia e prosperidade.

Traz-nos todos os produtos da terra, alimenta o nosso gado e os


nossos rebanhos, doa-nos as espigas, dá-nos as colheitas. Cultiva-nos
também paz, para que aquele que semeou possa também colher! Sê
graciosa, ó tu por quem três vezes rezamos, grande Rainha das deusas!

Laia Graciana estava a ser a protagonista entre as colunas de fumo do


altar. Ela era a loura Ceres durante aquela noite. Depois dos
cânticos solenes no templo, tinha ascendido numa enorme quadriga,
fingindo agitar as rédeas. Márcia Balbila ali estava, atrás dela,
relegada para a posição de portadora do archote. Enquanto Laia se
inclinava para diante, a guinchar para que fossem mais depressa, dois
homens dentro de grandes fatos de serpente faziam o veículo avançar.
Era uma coisa grande, pesada, lançada. As cobras de rostos amigáveis
puxavam o veículo com cordas escondidas presas às rodas.

Competia-lhes circular pelo Aventino, parando em cada entroncamento


enquanto as celebrantes soltavam gritos efusivos em todas as
direções. No dia seguinte, Prosérpina seria devolvida à mãe, vinda do
submundo de Plutão com a romã que mordiscara, e isso seria uma
representação muito mais pacata. Naquela noite, Ceres estava a deixar
as colheitas morrerem no inverno enquanto procurava a sua filha.

356
Cada uma das mulheres do culto levava uma tocha comprida e ardente,
com a qual corria, a lamentar-se. Todas tinham produzido fatos
clássicos, com vários graus de sucesso; a maioria conseguira um
peplo, com pregas na parte de cima e preso nos ombros com broches,
enquanto as mais ousadas deixavam as laterais abertas. A bem do
recato, o vestido grego é volumoso, pelo que, se fosse feito com
primor, muitas dobras impediriam que se entrevissem os seios. (Os
homens aos balcões das tabernas esperavam o contrário.) Algumas
mulheres pretendiam tanta autenticidade que usavam o cabelo solto e
iam descalças, como sinal de luto ritual, embora qualquer uma que já
o tivesse feito nas ruas do Aventino soubesse que, pelo menos,
deveria usar sandálias. A maioria das mulheres romanas tinham um par
de sandálias de enfiar o dedo que passaria convenientemente por
grego. Nunca se sabe, pois não, se será necessário galopar pelo
bairro em defesa da antiga religião?

Nenhuma das mulheres teria consultado um mapa antes de ir para ali;


no emaranhado de ruelas estreitas e anónimas, era bem possível que se
separassem e acabassem por perder-se, com graves consequências.
Morelo enviara vigiles para a rua, prontos a dirigi-las de volta ao
rebanho como cães pastores.

Fiz uma última tentativa de pôr fim ao fiasco.

- Isto é demasiado arriscado! Será que, por uma vez, não podem
deixar-se de pantominas?

- Isto é importante - contrapôs Tibério. - Ceres libertou-nos da


nossa condição bárbara, educou a humanidade, deu-nos civilização. O
objetivo é reaprender a nossa história. Desta forma, poderemos chegar
a viver alegremente e morrer com maior esperança.

Ri-me.

- Alguém tem andado a pôr as leituras em dia! Estás a defender o teu


edil.

- Não sejas mesquinha, Albia. Ele tem de gerir os Jogos com cuidado e
reverência, reverência para com os deuses através de atos de
veneração. A intenção é interceder e pedir-lhes o favor, fazer com
que Ceres manifeste boa vontade em relação a Roma, para garantir uma
boa colheita para o bem-estar da cidade.

357
- Boa sorte! - resfoleguei.

Tibério, de cenho carregado, marchou atrás da quadriga; eu, sem o


cenho carregado, avancei a seu lado. Zoé e Cloé saltitavam, cada uma
do seu lado. Os homens em fatos de cobra com escamas guardavam a
frente. Laia e Márcia tinham um certo grau de proteção simplesmente
porque a plataforma em que seguiam era elevada. Outros membros do
culto andavam por ali, à mercê da sua própria disposição. Tinham o ar
imprudente de mulheres que poderiam estar com um grão na asa, embora
eu me sentisse surpreendida por se manterem tão controladas. Tibério
dignou-se a sorrir, dizendo que as princesas plebeias aguentavam bem
a bebida.

Nas estradas irregulares, era difícil manobrar a quadriga. Tinha um


defeito de construção no eixo que a fazia inclinar-se para um lado,
mais um fator que abrandava o progresso. Os homens que a puxavam
tinham de se enviesar para a forçar a avançar a direito. Quando um
deles se enganava, isso por vezes resultava em baterem com as cabeças
de serpente; os monstros carnavalescos começavam a ganhar um ar
esfarrapado e desleixado. Um até tinha perdido a língua vermelha e
bífida.

Fomos circulando pelo Aventino, com paragens frequentes. De cada vez


que parávamos, as mulheres soltavam gritos lascivos. Por fim, o
desfile deteve-se num entroncamento particularmente malcheiroso, onde
uma grande multidão se reunira, à espera. Um homem que se fazia
passar por uma velha coxa abordou Ceres com uma torrente de piadas e
insultos imundos. Isso fazia parte do ritual; representava uma antiga
serva, Bauba, filha de Pã e Eco, a única pessoa que fizera Ceres
sorrir durante a busca da triste deusa.

Tibério encostou-se ao balcão de uma taberna e fez sinal para que


fossem servidas bebidas.

358
- Isto vai demorar algum tempo... Não acreditarias, Albia, como é
difícil contratar um insultador. Até tivemos de estabelecer um
horário, listar termos aceitáveis e a quantidade de vezes que ele
está autorizado a usar os piores palavrões. Fausto teve de passar
horas a avaliar atores que lhe contavam anedotas porcas.

- Gerir os ritos com cuidado e reverência - recordei-o num tom grave.


- Suponho que, se quer que seja um ano memorável, precisará de o
tornar sensacionalmente grosseiro? Estás a supervisionar o guião de
ribalta? Se ao menos eu tivesse trazido a minha tabuinha de notas,
poderia ajudar-te e assentar quantas vezes já disse «foda-se».

- Flávia Albia, comporta-te com recato.

- Como uma vez disseste, eu não sou uma jovem fina.

- És, quando decides sê-lo. Age com naturalidade, pode ser?

- Desmancha-prazeres! - resmunguei, embora sem grande alento.

Sentia-me como um cão repreendido, ainda que sem intenção de rebolar.


Se eu fosse um cão, seria um terrier britânico, determinado e
teimoso. Talvez Tibério não os conhecesse, mas a verdade é que nunca
podem ser domados. Decidem por si mesmos quem respeitar; depois de
feita essa escolha, revelam uma lealdade extrema e irrevogável.
Felizmente, Tibério e eu nunca ficaríamos nessas condições.

Deixou a sua bebida. Que homem o faz?

Também me abandonou, e demorei um pouco a ver porquê. A multidão


estava ainda mais compacta naquele entroncamento, desejosa de ver o
cenário de Baubo. Até o ator que fazia de velha se agarrava a uma das
rodas da quadriga para evitar ser arrastado para fora do alcance dos
ouvidos da deusa, tal era a pressão dos celebrantes, enquanto Laia
decerto pouquíssimo ouviria do deboche, com aquelas orelhas que
pareciam conchas — e das quais pendiam brincos extremamente
dispendiosos, segundo me apercebi.

359
Ela e Márcia começavam a parecer preocupadas pela quantidade de
pessoas que lhes rodeavam o veículo, embora eu tenha reparado que
havia um grupo de homens voltado para fora e a empurrar os mirones -
claramente, eram vigiles.

O objetivo deles era controlar a multidão, mas não tinham reparado


num perigo pior: com movimentos semelhantes aos de um caranguejo, a
tentar trepar a roda oposta àquela a que Baubo se agarrava, estava
alguém com uma cabeça familiarmente arruivada. Tibério deveria tê-lo
visto, e avançava tanto quanto podia por entre a horda animada. Nunca
conseguiria alcançá-lo. De nada serviria tentar segui-lo, pelo que,
sem quaisquer pretensões de elegância, subi para o tampo do balcão da
taberna e levantei-me. Choquei duas canecas de metal uma contra a
outra por cima da cabeça e gritei o mais alto que pude para alertar
as amazonas guarda-costas.

Cloé era a que se encontrava mais perto. Sendo a mais máscula do par,
era baixa, corpulenta e destemida. Atirou-se a Andrónico. Este
pendurou-se na quadriga. Ela agarrou-se a ele. A quadriga de Ceres,
com a sua bela decoração, começou a oscilar tão violentamente que as
duas mulheres que nela seguiam gritaram e espreitaram por cima da
carroçaria. E há que dar todo o crédito a Márcia Balbila, que nessa
altura agarrou firmemente no seu longo archote ritual e bateu com a
extremidade inferior em Andrónico, como uma lavadeira com um batedor
de roupa. Acho que fez pontaria à cara dele, o que teria sido
perfeito, mas só lhe acertou no ombro. Conseguiu expulsá-lo; ele caiu
no chão, com Cloé em cima, a esmagá-lo. Então Márcia perdeu a garra e
desatou aos gritos histéricos. Laia mostrou-se à altura e esbofeteou-
a para a fazer parar, com tanta força que eu receei que lhe fosse
arrancar algum dente. Perdeu o equilíbrio e caiu para trás da
quadriga.

Tibério tinha alcançado o veículo. Gesticulava furiosamente para os


carregadores vestidos de cobra. Ouvi-o gritar:

- Vão! Vão!

Eles obedeceram e a quadriga, a custo, avançou um pouco.

360
Zoé apareceu e deparou-se com Cloé a segurar Andrónico numa prisão de
cabeça com um braço, enquanto com o outro ajudava Márcia Balbila a
levantar-se, de olhos arregalados de admiração perante as suas
manobras com o archote. Márcia, estonteada, cambaleou e encostou-se a
Cloé. Zoé interpretou mal a situação. Sempre belicosa, praguejou e
atirou-se a Cloé, que por seu lado teve o bom senso de empurrar
Márcia para a afastar do caminho. Enquanto elas se digladiavam com as
espadas de madeira, para delícia histérica da multidão, Andrónico
conseguiu esgueirar-se.

Fugiu e eu tentei berrar para que alguém o capturasse. Debalde.


Estávamos no Aventino. Sempre que se grita «Agarra, que é ladrão!»,
como que por instinto os desconhecidos intrometem-se no nosso caminho
para nos impedirem de apanharmos o culpado, que foge a rir-se.

Fui puxada da taberna por homens ávidos a quem agradava uma mulher a
dançar em cima de um balcão, usando um vestido semitransparente.
Estavam demasiado embriagados para me provocarem verdadeira
ansiedade. Escapei-lhes e contorci-me por entre gente encantada, em
direção ao local da ação.

Vi Tibério a saltar para as traseiras da quadriga enquanto a multidão


avançava e ajudava a empurrá-la. Aquilo correu tão bem que o veículo
se lançou para diante, mais depressa do que durante toda a noite.
Toda a gente seguiu com ele, exceto eu. Ali fiquei, de pé numa área
tornada escura e silenciosa, com o archote de Márcia Balbila quase a
apagar-se. Peguei-lhe e rodopiei-o até a chama voltar a crescer.
Erguendo-o, parti a bom ritmo atrás dos outros, no encalço do vulto
que tinha avistado: alguém que seguia a procissão, mantendo-se atrás
nas sombras para que ninguém reparasse. Eu sabia que era Andrónico.

361
52

Perdi-o. Devia ter-se misturado com a multidão. Quando eu lá cheguei,


vi Tibério na quadriga a olhar ansiosamente para trás, como se
tivesse entrevisto o nosso suspeito ou outro risco qualquer. O
veículo tornou a parar subitamente; o ator que fazia de Baubo estava
de novo a tentar ganhar o seu vencimento. Naquele momento estava a
representar uma cena tradicional em que a velha grasnava como se
sofresse desesperadamente a dar à luz (ajudada pela multidão que
ecoava em coro: «Força!») e depois levantava as saias para revelar as
suas partes pudendas (seria isso o que divertia Ceres? - devia ser
fácil entretê-la). Então, Baubo apresentava um filho da própria Ceres
- representado naquela noite, para maior efeito cómico, por um leitão
enfaixado. O diálogo era tão refinado como os acontecimentos. Laia
Graciana parecia consternada, mas era encorajada a sorrir por
espetadores barulhentos que não sabiam que ela era demasiado
altaneira.

Eu tinha mais com que me preocupar. A caterva ali era ainda maior, e
incluía um rapaz que, horrorizada, reconheci. Tinha trepado até meio
de uma coluna num alpendre para ver melhor e estava ali pendurado por
um braço. Ao menos eu tinha reparado nele. De olhos esbugalhados, com
toda a sua inteligência curiosa e solene, estava o jovem Póstumo a
observar, a absorver cuidadosamente cada pormenor, cada obscenidade.

362
Pelos deuses, o meu terrível irmão tinha uma tabuinha encerada e um
estilete; apesar da posição periclitante em que se encontrava, estava
a tomar nota das piadas. Baubo tinha reparado e estava com um ar
furioso por lhe roubarem as ideias.

Houve mais alguém a ver aquilo. Póstumo não tinha descortinado


Andrónico, mas este encontrava-se de olhar fixo nele. De repente,
avistei o arquivista, que já começara a avançar com passos
determinados em direção ao meu irmão.

Eu estava demasiado longe. Tentei gritar, mas o barulho era tanto...


Comecei a abrir caminho entre a multidão, atacada por cheiros e mãos
que me apalpavam, servindo-me do archote para ganhar espaço. Era
difícil agitá-lo mas pisei uns quantos pés e golpeei algumas
costelas, conseguindo passar.

Vi um braço a erguer-se e a agarrar Póstumo. Com o medo a deixar-me


nauseada, saltei para cima de uma grande panela à porta de uma loja,
vendo então que tinha sido Tibério, com Morelo a segui-lo de perto.
Póstumo foi puxado para o chão, a debater-se furiosamente, pois
perdeu a tabuinha das notas. O alívio tomou conta de mim enquanto via
o meu irmão a ser passado de mão em mão como uma vítima resgatada de
um edifício em chamas, naquela que era uma manobra clássica dos
vigiles. Algures no final daquela linha, ouviria uma reprimenda. Se
Morelo tivesse dito aos seus homens quem era Póstumo, seria escoltado
até casa, na esperança de que os nossos pais, agradecidos,
retribuíssem com uma bolsa de dinheiro. Caso o meu pai se encontrasse
a organizar alegremente a sua adega, talvez a recebessem de facto.

Andrónico tinha desaparecido outra vez. Eu comecei a avançar aos


ziguezagues, tentando encontrá-lo. Ouvi Morelo a gritar a alguns dos
seus homens:

- Continuem à procura do ruivo!

Alcancei Tibério e Morelo. Gestos frenéticos indicavam onde Andrónico


deveria estar, e abrimos caminho nessa direção. Devia ter saltado por
entre a parafernália que havia no solo em frente a uma loja,
pontapeando um grande jarro de sebo para lamparinas.

363
Cheirava pessimamente e, espalhando-se pela estrada, deixara as
pedras escorregadias. Também já havia gente a atirar nozes e a tentar
acertar noutras pessoas com aqueles pequenos mísseis duros.

A quadriga abrandou e depois tornou a avançar, mais uma vez auxiliada


pela multidão. Agora usavam o grito do episódio de Baubo, «Força!»,
como se o ímpeto doloroso do veículo imitasse o processo de
nascimento. Como era muito maior, a multidão empurrava com mais
veemência; com o veículo pesado a oscilar como um bebé a deslizar
subitamente da sua mãe, um dos homens disfarçados de cobra que iam à
frente tropeçou no sebo derramado. Caiu e gritou de agonia quando uma
roda o atropelou. A quadriga teve um solavanco espetacular e depois o
eixo quebrou-se.

Laia e Márcia foram atiradas para fora do veículo. As amazonas


apressaram-se a guardar Laia, enquanto Morelo avançava, agarrava
Márcia e a puxava para a entrada de um prédio. Mais perto de mim,
Tibério tinha finalmente localizado Andrónico. Eu esforcei-me por ir
atrás dele, pisando ou acotovelando quem quer que estivesse no meu
caminho. No preciso momento em que Tibério o alcançou, a bota do
mensageiro escorregou numas nozes espalhadas. Ia tão depressa que não
conseguiu parar; espalhou-se ao comprido nas pedras da calçada.
Andrónico deixou-se cair sobre ele, esmurrando-o repetidas vezes com
movimentos rápidos, conseguindo esticar bem o braço. Sem fôlego, o
mensageiro mal era capaz de se proteger. Eu ainda tinha o archote, e
então lancei-me diretamente, agitando-o com uma arma, descrevendo
arcos largos.

- Andrónico! Enfrenta uma mulher, se consegues!

Às arrecuas, para se afastar da chama, era a custo que se mantinha de


pé. Eu estava extremamente zangada e queria que ele soubesse.
Embelezada nos banhos de Prisca e com as minhas joias, devia ser uma
visão e tanto. Ele parecia abalado.

A brandir o archote, estava mesmo a tentar pegar-lhe fogo. Se


pudesse, tê-lo-ia matado. Tibério impediu-me. Ainda no chão, ele
agarrou-me pelo tornozelo, a abanar a cabeça.

364
Esperneei e libertei-me, mas por essa altura Andrónico já tinha
recuado, praguejado, virado e desaparecido no meio das pessoas.
Tibério esforçou-se e pôs-se de pé.

— Deixa estar; vamos apanhá-lo...

Estava muito magoado e tinha um corte no sobrolho que precisava de


ser limpo. Perscrutei a multidão; Andrónico tinha desaparecido.
Afastei Tibério da confusão e encontrámos refúgio na entrada para
onde Morelo tinha empurrado Márcia Balbila, uma escadaria sombria num
prédio típico habitado por várias pessoas, que fedia a humidade,
negligência e urina por despejar num grande tanque.

— Cérbero...!

— ... com sinos na cauda!

Recuámos depressa. Morelo e Márcia ainda ali estavam, muito próximos


um do outro, e não propriamente a debater o controlo da ordem
pública. Pensei que talvez tivesse de a salvar, mas depois apercebi-
me de que era Márcia quem estava a fazer a maior parte do trabalho.
Morelo estava simplesmente encostado a um balaústre, de olhos
fechados, a pensar que era o seu dia de sorte. Felizmente tinha tido
a presença de espírito de afastar o machado, caso contrário ter-se-ia
eviscerado no processo. Deixei-lhes o archote, não fossem precisar de
mais luz.

Lá se ia a abstinência do festival.

No exterior, eu e Tibério encontrámos um espaço em que podíamos


recostar-nos. Ele conseguiu limpar parte do sangue com um braço.
Tranquilizámos a respiração. Encontrei um lenço que tinha dobrado na
minha bolsa presa ao cinto e ele usou-o para fazer pressão no corte
do sobrolho.

Ficámos a ver a rua a esvaziar-se lentamente. A quadriga danificada


foi rebocada por membros dos vigiles. Laia Graciana deveria ter sido
salva e levada para casa. As outras mulheres do culto também tinham
desistido da noite.

365
Zoé e Cloé estavam a cuidar dos dois homens em fatos de cobra; vimo-
los a dirigirem-se para uma taberna. O que tinha sido atropelado
precisava de ser apoiado pelas duas mulheres mas, apesar de poder ter
algumas costelas partidas, ainda estava claramente a fim do que quer
que a noite pudesse reservar-lhe. Ambos tinham a seriedade inocente
de tipos convencidos de terem engatado um par com quem seria bem
provável safarem-se. Zoé e Cloé iam fazê-los pagar-lhes bebidas. Bem,
era isso que eu supunha. Quem saberia?

- Que quarteto intrigante - comentou Tibério com um sorriso.

- Não falta material para mal-entendidos! Então - disse eu, num tom
pensativo. - E então aqueles... Morelo e Márcia?

Eu e o mensageiro entreolhámo-nos. Não pudemos evitá-lo; dobrámo-nos


sobre nós mesmos e rimo-nos até voltarmos a ficar sem fôlego.

Estava alguém a observar-nos.

Fui eu a sentir o olhar acusador. Fui eu a vê-lo primeiro. Devíamos


estar a segui-lo, mas há quanto tempo estaria Andrónico a observar-
nos? Não poderia saber a causa do divertimento histérico que nos
deixara a segurar o estômago e a rir até às lágrimas; fitava-me como
um homem que tivesse encontrado a sua noiva na cama com o avô.

Mantivera-se imóvel em frente a uma loja fechada. Quando se apercebeu


de que eu o tinha visto, atirou a cabeça para trás num gesto
desdenhoso e afastou-se de nós. Eu fui logo a correr atrás dele, sem
perder tempo a explicar a Tibério o que se passava, embora este me
tenha seguido tão de imediato que poderia ter-me pisado a bainha do
vestido, fazendo-me tropeçar.

Estávamos perto do enorme Templo da Rainha Juno - a exótica Juno do


Aventino, levada para ali de Veio, quando Roma conquistou os
Etruscos, não a grandiosa versão grega que vivia no Capitólio.

366
Andrónico correu pelo lado do edifício e depois ao longo da
frontaria do minúsculo Templo da Liberdade, do qual se diz ser a
biblioteca mais antiga de Roma, o sítio onde os escravos são
alforriados. Há sempre algumas pessoas por ali; ele ziguezagueou por
entre vários grupos, talvez sem ter noção de que, onde quer que
houvesse luz suficiente de lanternas, o tom castanho-avermelhado do
seu cabelo o denunciava. Talvez soubesse e não se importasse. Gostava
da perseguição e julgava-se invencível. Naquela noite, até então
ninguém o tinha apanhado. Porque haveria de recear ser capturado?

Movia-se mais depressa do que a sua passada descontraída dava a


entender; não estávamos a conseguir encurtar a distância que nos
separava dele. Chegou à rua comprida que o levaria aos Templos de
Minerva e Diana. Começou então a saltar, empoleirando-se em produtos
empilhados no exterior de lojas, que lançava ao chão, criando assim
obstáculos ao nosso progresso, enquanto os proprietários indignados
saíam para tornarem a arrumá-los. Rolavam canecas e baldes pelo nosso
caminho. Lojistas descontentes puxavam-nos as túnicas, gesticulando
em várias línguas estrangeiras e clamando por justiça enquanto nós
nos afastávamos em passo apressado.

Lançou-se para as ruas secundárias. Correu por ruelas atulhadas com


anos de lixo, onde excrementos pavimentavam as estradas. Esgueirou-se
em torno de fontes onde velhos bêbedos esfarrapados preguiçavam.
Desapareceu por entradas sombrias e estreitas que podiam ser becos
fatais. As prostitutas que afastou tinham-se recomposto e estavam
prontas a abusar de nós, que corríamos atrás dele. Os cães que ele
perturbara esticavam as pernas e já estavam a pensar dar-nos
dentadas. Tivemos sorte, pois estavam demasiado ocupados a urinar em
cantos para se darem a esse trabalho. Quando tropecei em detritos,
Tibério deu-me a mão. Quando ele resvalou em lodo, direito como um
patinador num lago gelado, eu amparei-o.

Andrónico atravessou a Rua do Louro Maior. Havia carroças de entregas


por todo o lado, agora que as atividades do festival tinham
terminado.

367
Durante um curto intervalo, confundiu-nos esquivando-se entre as
carroças, após o que cortou para uma rua perpendicular e tornou a
fugir, passando por tabernas e oficinas, derrubando uma banca de
legumes para que nos víssemos obstados por torrentes de couves
rolantes.

Saiu para a Clivus Publicius, com bastante avanço. Perdemo-lo de


vista. De repente, voltámos a vê-lo, já montado numa mula
assarapantada que tinha soltado de uma carroça cujo dono não estava
presente. Montou o animal em pelo, afastando-se de nós colina abaixo
e olhando para trás com uma expressão de alegria a iluminar-lhe o
rosto, com um braço erguido como se segurasse um estandarte triunfal
e a gritar insultos. Ironicamente, estávamos muito perto do sítio
onde a carroça puxada por bois tinha matado Lúcio Basso.

Ele sabia que estava a salvo. No momento em que nos preparávamos para
o seguir, um destacamento sombrio de guardas pretorianos marchou por
ali. Os altos e brutos de toga eram inconfundíveis, com as botas da
tropa a surgirem por baixo das túnicas e as espadas sob as roupas.
Nunca usam armadura quando estão dentro de Roma, mas também não
precisam. Provavelmente tinham sido enviados para executar algum
filósofo a quem Domiciano criticasse por defender um mundo melhor,
mas nós serviríamos de aperitivo, só para que ficassem com a
disposição certa antes de se dedicarem ao assunto sangrento a que
iam.

Sem podermos desaparecer a tempo e sem pilar algum que nos oferecesse
refúgio, tínhamos acabado mesmo entre aquele nobre esquadrão de
morte. Os grandes homens enfastiados ficaram imediatamente
insatisfeitos com a nossa presença. Pessoas ofegantes a correr só
podem estar a fugir de algum crime. Gente que oferece explicações
fracas é gente que deve passar tempo numa cela, a dar consistência à
história que conta sob uma dieta de fome entrecortada por visitas de
um torturador. Quanto a mulheres nas ruas em vestidos pouco opacos,
precisam de levar um bom tratamento e aqueles eram os heróis certos
para o fazer - um depois do outro, ou vários em simultâneo, caso não
houvesse tempo para uma fila ordeira.

368
Se e quando Tibério se queixasse por mim, receberia atenções
similares. No Campo Pretoriano havia uma escala de indemnizações,
onde as pessoas com queixas acerca de assédio costumavam descobrir
que, na verdade, não receberiam recompensa alguma, sendo antes
acusadas de velhos mitos militares como «insulto a um oficial romano»
e «uniformes danificados».

Estávamos em apuros. Presumi que teria de me ocorrer um qualquer


raciocínio rápido, embora o meu cérebro cansado se recusasse a
cooperar. Fiquei surpreendida, por conseguinte, quando Tibério se
endireitou, afastou o centurião - uma besta lenta e sarnenta -,
proferiu umas quantas palavras, mostrou o seu anel de sinete e me fez
sinal para me aproximar de si sem correr perigo. Entretanto, eu tinha
estado a aprender palavrões novos e a ser apalpada à bruta. Um dos
homens tinha aquele talento especial de tirar roupas às mulheres sem
que elas sequer se apercebessem do que estava a fazer.

Ouvi moedas a tilintar. O centurião proclamou num tom reservado:

- Então uma boa-noite, senhor! - olhando para mim como se achasse que
eu era uma tipa qualquer a quem Tibério pagasse à hora no «salão de
manicura». Nenhum de nós tinha energia para o corrigir. Eu estava
demasiado preocupada quanto ao estado da minha indumentária. Tive de
recuperar da sarjeta um dos colchetes das alças.

Os guardas afastaram-se a marchar, para darem seguimento ao trabalho


importante que realizavam em nome do imperador. Deixaram-nos ali
sozinhos no pavimento escuro, como duas sacas extraviadas.

369
53

Só muito mais tarde, depois de eu ter sido levada para casa e de me


atirar para a cama, completamente derreada, é que me dei conta de
quão peculiares deveríamos ter parecido ali na Clivus Publicius e,
como tal, da sorte que fora termos escapado. Tibério não só tossia do
esforço como tinha o rosto magoado e ferido, como se tivesse
participado num torneio profissional de pugilismo. Quanto a mim,
tinha a traqueia tão dorida que mal conseguia respirar, enquanto o
suor de tanta correria deveria ter-me esborratado a pintura dos
olhos. Ele perdera o manto no início da polvorosa; eu nunca o tivera.
Devíamos parecer incoerentes e agitados, mesmo para guardas
pretorianos, habituados a encontrar todo o tipo de figuras más,
capazes de lhes oferecer um amplo rol de desculpas esfarrapadas.

Servindo-se da sua misteriosa influência, Tibério salvara-nos da


situação. Tínhamo-nos deparado com uns quantos vigiles. Eu fui posta
numa cadeirinha e escoltada até ao Paço da Fonte. Um guarda ficou
destacado. Apesar de o meu cérebro estar agitado com imagens loucas
da noite, devo ter caído num sono profundo.

370
No dia seguinte, acordei sabendo que não tínhamos planos. A situação
parecia impossível. Na véspera, as mulheres do culto tinham-nos
facultado um foco para a nossa busca, mas os ritos daquele dia teriam
lugar no Circo Máximo. Mesmo que o nosso alvo se dignasse a aparecer,
entre duzentas mil pessoas seria invisível. Certamente não cometeria
a estupidez de atacar durante as cerimónias. Para além disso,
Andrónico demonstrara que não temia uma busca dos vigiles — e com
razão. Mesmo sem fundos, não lhe faltavam recursos. Se não desse nas
vistas na cidade, poderia escapar-se indefinidamente à deteção. Até
poderia fugir de Roma. Tínhamos de arranjar forma de o fazer
aparecer, e depressa. Enquanto me esforçava por levantar, lavar e
vestir roupas normais do dia-a-dia, não me ocorria a mínima ideia
acerca de como o conseguir.

Fui até ao Xarroco. Sentei o corpo rígido a uma das mesas do interior
e indiquei a Junilo que queria pão e mulso. Por sua livre iniciativa,
levou-me o que restava de uma travessa de carnes frias; despejou os
restos de várias taças de azeitonas entre as últimas fatias de
salsichas da Lucânia e tiras de presunto fumado no grande prato onde
preparava a comida para levar e os petiscos que servia ao balcão aos
trabalhadores madrugadores. O meu vigilante de serviço manteve-se de
pé e tomou qualquer coisa básica. A comer em piloto automático,
deixei-me cair num devaneio ocioso.

O dia estava ameno e corria uma brisa que não era fria. A manhã já ia
a meio, pois eu tinha-me levantado tarde. Não havia outros fregueses.

A vida parecia má. Não havia esperança, solução ou propósito.

Sem que eu me tivesse apercebido, Junilo tinha ido para a cozinha das
traseiras, levando loiça para lavar. Em qualquer caupona isso era uma
rotina quotidiana. Ficaria ali durante algum tempo, a tratar dos
preparativos para a enchente da hora de almoço. O vigilante deveria
ter ido usar os lavabos e, tratando-se de um homem incapaz de
permanecer calado, começou a conversar ou, pelo menos, a falar com
Junilo.

371
Não tinha obtido qualquer alegria com a minha companhia. Ouvia-o a
tagarelar acerca das corridas ou de qualquer outro assunto
aborrecido, acompanhado por alguns resmungos ou frases curtas do meu
primo, entre sons de comida a ser cortada e distribuída. Não os via.
Estava sozinha. Sendo parente dos proprietários, ficaria encarregada
do estabelecimento se algum cliente aparecesse e estava habituada a
servir-me do que quisesse, pelo que Junilo não tinha de se dar ao
trabalho de verificar se eu precisava de alguma coisa. Junilo e o
outro homem estavam fora da minha vista e a várias jardas de mim
quando alguém de debruçou sobre um dos balcões que davam para a rua,
a uns meros quatro pés do local onde eu estava. Era Andrónico.

372
54

Por estranho que parecesse, mesmo naquele espaço confinado, não me


assustava muito estar sozinha com ele. Era mais fácil encontrar-me
frente a frente com ele do que ser ameaçada por uma presença
invisível. De qualquer maneira, eu conhecia-o. Mesmo tratando-se de
um assassino, sentimos que isso tem importância. Como fomos amigos,
ele não nos magoará. Acreditará que poderemos ajudá-lo. Amámo-lo,
logo, não poderá matar-nos. Entre as pessoas que ele ameaça, nós
estaremos a salvo.

- Ora, aí estás tu! - exclamou.

Estava apoiado num cotovelo, debruçado sobre os pedaços de mármore de


formas irregulares e cores pastel que compõem os padrões loucos da
maioria dos balcões de tabernas. Estava a fitar-me com aquele seu
velho ar, o vislumbre de inocência com os olhos abertos, a testa
enrugada e o olhar brilhante, cúmplice e conspiratório. Era como se
os últimos dias não tivessem acontecido. Voltava a mostrar-se
arrapazado e inconstante, no papel do homem por quem eu me
apaixonara. Porém, desta vez a atração não existia.

Mantive um tom sereno.

- Estou surpreendida por apareceres, Andrónico!

- Porquê? Não fiz nada de errado.

373
Ele acreditaria sempre nisso. Estava no cerne da sua loucura, era uma
doença da sua alma. Não tinha remorsos.

- Sabes o que fizeste. Mataste cinco pessoas; cinco, que nós


saibamos. Viador, o rapaz, Salvídia, a velhota e a criada. Houve
mais?

Ele encolheu os ombros. Parecia indiferente.

- Admites que mataste essas pessoas?

- Porque não? Nenhuma representa uma perda. Não os chores. Todos o


mereceram.

- Houve outros, antes? Ou começaste quando ouviste falar das mortes


por picada de agulha na reunião dos edis? Foi isso que te deu a
ideia? - Vendo que ele não respondia, insisti: - Andrónico, houve
outros?

Ele voltou a insistir:

- Isso foi tudo.

Nunca saberia se podia acreditar nele.

- Então confessas, Andrónico? Cinco pessoas ofenderam-te e por isso


assassinaste-as? Sabias que andavam a ser usadas agulhas envenenadas
num surto de mortes por toda a cidade de Roma. Achaste que poderias
fazer algo similar e ocultar os teus crimes?

- Não fui eu, estou só a enganar-te.

- Foste tu.

- Porque te importas?

- Porque detesto injustiça! - insurgi-me. A sua falta de empatia


exasperava-me. Não havia como chamá-lo à razão. - Todas essas pessoas
foram roubadas à vida antes de tempo e por motivos mesquinhos. Tudo
porque és um sacana insensível, irresponsável e absolutamente
empedernido. Encantador à superfície... mas na verdade és desonesto,
arrogante e completamente impiedoso.

Por fim, a minha agitação abalou-o. A minha falta de compostura


obrigou-o a dizer:

- Se tens razão, então lamento tudo isso.

Percebia os pensamentos que ele já estava a formar, as desculpas que


já procurava, arranjando uma história nova qualquer para tentar dar-
me a volta.
374
- Tive uma vida difícil, Albia. Não fazes ideia.

- Tretas. Eu sei o que são vidas difíceis. Nunca foste abandonado,


nunca passaste fome, nunca te bateram nem abusaram de ti. O que sabes
acerca do isolamento e do desespero? Do frio que corta, de maldições,
do medo e da miséria constantes? Nunca suportaste nada disso. Sempre
tiveste um telhado e comida, nunca conheceste a insegurança.
Comparado comigo, Andrónico, sendo um liberto criado num lar
confortável e a quem foram dadas todas as oportunidades, foste
tremendamente afortunado.

Ele nunca aceitaria a minha comparação. Era totalmente egocêntrico.

Eu estava a tentar que ele não percebesse que eu procurava uma forma
de obter auxílio. Parecia que, pela primeira vez na história do
estabelecimento, ninguém passava por qualquer das ruas em cuja
esquina o Xarroco se encontrava. Se eu tentasse chamar a atenção de
Junilo e do vigilante, Andrónico facilmente me alcançaria antes que
eles compreendessem o que eu queria. Na minha mesa, nada serviria de
arma satisfatória.

- Estou a tentar perceber porquê, Andrónico. Porque tens tanto


rancor, porque és tão infeliz? Es afável e talentoso, respeitado
enquanto arquivista, e tens uma boa posição num templo prestigiante.
- Fui acometida por uma ideia. - Parece que tudo se azedou quando
Mânlio Fausto se tornou edil. Tu e ele já se tinham desentendido por
causa da posição de secretário que ele te recusou... considera-lo
ocioso e incapaz, favorecido pelo tio e numa posição elevada
simplesmente por ser quem é. Tenho razão?

- Astuta como sempre - replicou Andrónico, transformando-o num dos


elogios que eu passara a detestar. — Vês as coisas tais como elas
são, querida Albia... porquê ele? O mais honrado em Roma? Os edis têm
de constar entre os cem oficiais mais importantes da cidade. O que é
que ele alguma vez fez para o merecer?

- Conquistou votos e agiu de forma eficiente... é assim o sistema, tu


sabes! Eu acho que o teu principal problema é ele ser demasiado forte
para ti - disse-lhe.

375
- Ele conhece-te bem. Não te faz a vontade. Todas as coisas terríveis
que fizeste às outras pessoas foram provocadas pela simples inveja
que tens dele?

Perante uma pergunta desagradável, Andrónico limitava-se a não


responder.

Ainda sem forma de pedir ajuda, eu começava a ficar sem ideias. Não
queria de todo falar com ele e era um grande esforço concentrar-me em
argumentos a apresentar a alguém cuja mente funcionava de uma forma
tão diferente do normal. Não me atrevia a desviar os olhos dele.
Sabia que era exasperante.

- Encontraste o meu apartamento, segundo me consta. E antes já me


tinhas tirado o estojo das agulhas?

- Foi só para ter uma recordação tua - declarou Andrónico, como se de


um troféu amoroso se tratasse. — Podes recuperá-lo, se quiseres...

Determinada a pôr fim aos seus jogos, perdi a paciência e disparei:

- Não mintas. Não podes fazer isso. É Tibério quem o tem agora.
Observei-o a ajustar a sua história, como o próprio Tibério me
descrevera.

- Eu e ele damo-nos bem. Posso pedir-lho a qualquer altura.

- Vocês não se dão bem. Ele não to daria; precisa dele como prova.

- Mas a ti daria! - replicou ele, com um sorriso que não me agradou.

- Ainda tens as minhas agulhas de coser?

- Provavelmente não. Quem sabe?

Tinha-as. Com um pouco de sorte, não tivera fora oportunidade de as


revestir com algo perigoso. Como se fosse completamente normal,
disse-lhe:

- Bem, eu oferecia-te uma bebida, mas sabes que tenho de ficar de


olho em ti, não vás galgar esse balcão e espetar-me uma agulha
envenenada.

376
Em resposta, ele fitou-me com um sorriso muito, muito doce.

- Usei a última. Usei-a para matar a raposa. - Ele estava outra vez a
mentir, pois eu sabia que ele tinha estado no meu apartamento depois
de tratar da raposa. - Tinha de a ajudar, não tinha?

Fiz isso por ti, Albia.

- Eu sei. - Mantive-me calada, apesar da minha raiva. De que serviria


dizer-lhe que preferiria não ter sido alvo de tal consideração da
parte de um assassino? Não precisava dele. Poderia ter arranjado
forma de fazer o necessário. Quando a raposa ferida estava nas
escadas, eu poderia ter sido corajosa, prender-lhe a cabeça com a
vassoura e tido a atitude humana. - Sim, essa foi a tua única ação

decente e honesta.

— E, sabes, foi horrível fazer aquilo! Não era mesmo trabalho para
uma mulher - insistiu Andrónico.

Isso fez-me revoltar. Há sempre quem considere que o trabalho que


desempenho é impróprio para as mulheres. Detesto essa

atitude.

— Na tua opinião, uma mulher deveria limitar-se a admirar


respeitosamente os homens e submeter-se-lhes. Cala-te e admite.

- Nunca te tratei assim, Albia.

— O que me fizeste foi pior. Eu não fui alguém que tu tivesses


escolhido para um fim específico, como Venúsia, a quem tentaste
extorquir o que sabia acerca de Fausto e até acabaste por lhe roubar
o dinheiro. De mim, gostaste. Acredito mesmo nisso. Querias a nossa
amizade, tanto quanto és capaz de apreciar algo... mas, mesmo assim,
mentiste-me, enganaste-me, manipulaste-me e ludibriaste-me.

- És tão severa comigo! - Sem vergonha, sorria.

- Ao menos nunca me roubaste as poupanças.

Ele fingiu-se chocado. Depois, inacreditavelmente, perguntou:

- Estás a dizer-me que está tudo acabado?

- É claro que estou. A nossa alegada amizade morreu no momento em que


comecei a perceber como és.

377
Andrónico fitou-me com a sua expressão ciumenta, de sobrolho
carregado.

- Então há outra pessoa?

Ele nunca mudaria. A culpa nunca seria dele. Nunca aceitaria que ele
próprio frustrara os seus intentos, que fora ele quem se condenara
aos olhos de uma mulher sensata. Passaria a vida - a que lhe restasse
- a culpar os outros. Quando culpasse alguém com demasiada convicção,
eliminaria essa pessoa. Planearia a sua destruição, prepararia a arma
em segredo, persegui-la-ia, atacaria e depois deliciar-se-ia com a
morte como se, de alguma forma, tivesse chamado a si uma
responsabilidade - não para vingar as ofensas que imaginava, mas para
purgar a própria sociedade.

Por aquela rejeição, ele também me mataria, se pudesse.

De repente, aconteceram duas coisas.

Junilo apareceu vindo das traseiras, com um grande recipiente de


barro onde vinha o horrível grão do dia do Xarroco.

Dois homens que conhecíamos caminhavam lado a lado a caminho da


caupona: Morelo e Tibério.

378
55

Os três deverão ter percebido o apuro em que eu me encontrava mais ou


menos ao mesmo tempo. Começaram todos a avançar na minha direção.
Ouvi um apito, a convocatória que levaria todos os vigiles por perto
a correr para ali. Junilo alcançou uma velocidade espantosa para um
rapaz com os braços carregados de cerâmica pesadíssima e uma refeição
quente que acabara de preparar com esforço. Não haveria de querer
entorná-la e desperdiçá-la. Sendo o que estava mais próximo,
cambaleou para diante e interpôs-se com o recipiente, de modo que
Andrónico, que claramente estava a pensar saltar por cima do balcão
para me agredir, hesitou. Ele já tinha provado o grão do almoço;
decerto não quereria debater-se com aquela mistela poderosa.

Tinha a possibilidade de fugir pela outra rua, mas decidiu-se pelo


ataque direto. Virou-se e correu em direção aos outros. Por instinto,
eles separaram-se, oferecendo-lhe dois alvos. Ele escolheu Morelo.
Partindo do princípio de que o robusto Morelo estaria à altura,
Tibério avançou para o Xarroco, para o caso de Andrónico ter feito
mal a alguém ali. Eu já estava de pé. Morelo debateu-se brevemente
com o fugitivo, mas gritou quando Andrónico lhe espetou qualquer
coisa. Ciente do resultado de uma agulha envenenada, Morelo gelou de
terror. Andrónico fugiu.

379
Tibério verificou como eu estava, gritou um agradecimento a Junilo e
depois tornou a sair para ajudar.

Cambaleando para a rua, também eu alcancei Morelo. Ainda tinha uma


agulha espetada no braço. Com um ataque de pânico, estava a arquejar.
Arranquei a agulha, segurando-a cuidadosamente pelo fundo entre o
polegar e um dedo. Deixei-a cair numa sarjeta. Depois, tudo do que
consegui lembrar-me acerca de veneno era aquele remédio popular para
mordeduras de cobra ou de escorpião: saquei da minha pequena faca e
fiz um corte na pele avermelhada de Morelo para poder espremer a
picada e fazê-lo sangrar o mais possível de imediato. Tibério passou
um braço por baixo dele e susteve-o, não fosse ele desmaiar.

- Marte vingador, ele acabou comigo!

Tibério e Junilo estavam a levá-lo para a caupona, onde ele poderia


receber mais atenção.

- Pronto, Morelo, foi só uma picadela de mosquito. Albia fez-te muito


pior.

- Sê corajoso - instei-o, embora não o julgasse. - Resiste. Fica


connosco, Morelo. Vou pedir aos meus tios advogados que me processem
para te conseguir uma indemnização; queres estar por cá para
receberes o pagamento, não queres?

Eu sabia que estava lívida; o mensageiro não tinha muito melhor cara.
Olhámo-nos, encarando em desespero o facto de Morelo poder estar para
lá de qualquer ajuda.

Já havia vigiles por todo o lado; deviam ter estado estacionados em


esquadrões pelas ruas e vielas próximas, revistando a área em busca
de Andrónico. Depressa se reuniu uma multidão à nossa volta,
incluindo os habituais falsos médicos, boticários, alveitares,
barbeiros e todos os outros charlatães que afirmam deter
conhecimentos clínicos na esperança de obterem lucro com acidentes na
rua. Os liteiros corriam, acotovelando-se para serem os primeiros da
fila preparados para levar quaisquer feridos para casa e cobrar-lhes
mais por lhes deixarem manchas de sangue nos estofos.

380
Tudo o que nos faltava era um informador macilento a oferecer
conselhos jurídicos, mas eu tratava disso. Era sempre profissional.

Morelo estava a balbuciar acerca da mulher e dos filhos, pelo que


tinha definitivamente desistido. Junilo levou-lhe uma taça com água,
que ele recusou, e bebi-a eu. Lembrei-me de que Andrónico me tinha
dito que usara a última agulha envenenada na raposa e disse-o, o que
acalmou Morelo um pouco. Por cima da cabeça deste, Tibério
transmitia-me a mensagem silenciosa de que não confiaria no que quer
que Andrónico afirmasse, mas o que o pobre Morelo mais precisava era
de que o tranquilizassem. Qualquer coisa: dado o seu trabalho,
conhecia bem a desonestidade. Ou estava a salvo, ou dali a pouco
tempo sentiria uma forte necessidade de se deitar, altura em que
saberíamos pelo menos que teria uma morte serena.

Concluí que ele preferiria que ninguém se referisse a essa


possibilidade.

Os vigiles dispersaram a multidão e ordenaram às pessoas que fossem


para casa. Durante o tempo que demoraram a arranjar transporte para
levar Morelo até ao quartel, falei com Tibério.

- Isto mais parece uma piada!

- Sim. Quero apanhá-lo hoje.

Contei-lhe como tinha sido a minha conversa ali na taberna com


Andrónico. Eu e Tibério estávamos encostados a um balcão. A volta das
mesas havia gente apinhada a ligar e tratar de Morelo. Junto ao outro
balcão, uns quantos fregueses habituais do Xarroco tinham aparecido e
exigiam ser servidos como se nem sequer tivessem reparado no que
estava a acontecer. Nunca deixavam que uma emergência interferisse
nos seus direitos de clientes habituais. O fleumático Junilo servia-
os.

Desalentado, Tibério repetia a história de Andrónico, como se


procurasse uma pista que justificasse o seu caráter.

381
- Sempre recebeu um tratamento especial, talvez tenha sido esse o
problema. Túlio considerava-o extremamente arguto... o que ele é, em
vários aspetos. Foi educado e treinado para ocupar uma boa posição
administrativa.

- Quando Fausto apareceu, depois de ficar órfão, as coisas alteraram-


se para Andrónico?

- Andrónico é capaz de ter achado que sim. Túlio continuou a vê-lo da


mesma maneira, como um escravo de primeira categoria... mas, no seu
entender, era tudo o que alguma vez seria, enquanto um sobrinho era
um sobrinho.

- Família.

De súbito, Tibério abriu o jogo e confidenciou-me:

- Albia, a ironia é que Andrónico é capaz de ter motivo para


verdadeiro ressentimento. Reparaste nas orelhas distintivas dele?

Tragicamente, tinha reparado. Tinha-as mordiscado. As pontas das


orelhas de Andrónico voltavam-se invulgarmente para a frente, quase
como se, enquanto bebé, os lóbulos tivessem sido dobrados por uma ama
tola que os beliscasse com os dedos.

- O tio Túlio.

- O quê?

- As orelhas de Túlio são assim - contou-me Tibério num tom grave. -


Vários dos escravos da casa herdaram essa característica.

- Túlio perfilhou-o?

Isso não era raro. Legalmente, não faria qualquer diferença, já que
em Roma uma criança tinha o estatuto da sua mãe. Alguns proprietários
de escravos reconheciam os filhos, se sentissem verdadeiro afeto
pelas pessoas em questão, embora não houvesse qualquer obrigação. Eu
tinha a sensação de que Túlio era um homem rigoroso.

- Calcula o que a imaginação desenfreada de Andrónico faria com tal


informação! — comentou Tibério.

Na minha opinião, não ter concluído quem seria o seu provável pai
revelava que Andrónico não era tão genial como se julgava.

382
Filho natural de um amo rico? A inveja que sentia pelo sobrinho teria
explodido.

Morelo estava a ser levado. Vi Tibério a trocar umas palavras


discretas com alguns dos vigiles antes de voltar para junto de mim.

- Vou assegurar-me de que chegas sã e salva a casa.

Por essa altura eu estava trémula, tão abalada pelos acontecimentos


que não discuti.

Caminhámos até ao Paço da Fonte, com um par de vigiles a seguirem-nos


de perto. Eu não era capaz de olhar furtivamente em redor; apesar de
não descortinar vivalma à espreita, calculava que Andrónico não
estaria longe. Avançávamos em silêncio.

Diante da velha lavandaria, a ruela estava como era habitual. A


pequena enfiada de lojas pobres tinha as persianas abertas, mas não
havia negócio. As que ficavam mais abaixo, do mesmo lado da rua,
pareciam igualmente modorrentas. Cobertores de aspeto duvidoso
pendiam de varandas. As crianças da família Mythembal saltitavam em
poças que provavelmente eram de urina animal; fugiram quando nos
aproximámos. O sol brilhava, o que num parque teria sido agradável
mas ali se limitava a aquecer a imundície, cozinhando o conteúdo
nojento das poças e dando vida a vermes. Sobre os pavimentos
irregulares pairavam cheiros de processos industriais, espinhas de
peixe e excrementos recentes.

Um forasteiro consideraria aquele lugar ominoso. A mim parecia-me


sujo, esquálido, mas depressivamente normal.

Tibério deixou-me diante da olearia. Em voz baixa, disse-me que, para


minha própria segurança, deveria passar o dia no meu apartamento, de
portas trancadas e sem receber visitas. Afirmou-o num tom austero e
fez questão de esperar que eu acatasse a instrução, acenando-lhe
relutantemente com a cabeça.

- Faz o que te digo, Albia. Fica em casa!

- Pelos deuses, que és tirânico.

383
Avancei sozinha por entre a sujidade da rua. Não havia sinal de
alguém destacado para me proteger. Vi Ródão sentado num banco no
velho pátio, embora não se percebesse porquê; veria quaisquer
visitantes, se tivesse os olhos ramelosos abertos; tal como estava,
parecia ferrado a dormir.

Quando cheguei ao alpendre, olhei para trás. Tibério ergueu um braço


à laia de despedida e depois, inesperadamente, gritou:

- É melhor pores-te a trabalhar, rapariga! Já está na altura de


fazeres qualquer coisa útil pelos teus clientes no teu lindo
escritório!

Tinha acabado de me dizer que descansasse. Sabia mesmo tirar-me do


sério. E toda a rua devia tê-lo ouvido. Era praticamente uma calúnia.
A resmungar, entrei no prédio.

Tibério estava a tornar-se tão contraditório como o arquivista. Com o


peso das primeiras instruções austeras que me dera, a ideia de me
deixar cair exausta no meu apartamento era mesmo muito atraente. No
entanto, rebelde como sempre, optei por dar um pulo ao último andar
primeiro. Se houvesse mensagens à minha espera no escritório, poderia
levá-las para baixo e trabalhar. Eu decidiria como desempenhar o meu
trabalho.

Subi, sentindo o cansaço nas pernas à medida que avançava de piso em


piso. Era impressionante, mas o rapaz que levava o lixo deveria ter
tirado todas as velhas ânforas do último patamar. Havia anos que
insistia com ele para que o fizesse. Para irritação minha, alguém -
ele? - tinha estado no escritório. A porta exterior encontrava-se
aberta. Para além disso, do outro lado, a porta da varanda também
estava aberta. Perguntei-me se o meu pai teria finalmente incumbido
um empreiteiro de verificar a estabilidade da varanda; as cordas já
não detinham a velha porta. Era uma característica daquele espaço que
só se conseguisse ver parte da varanda, a parte junto à porta. Um
material estranho estava a ser agitado pela brisa que soprava
constantemente devido à altura do andar. Vendo aquela coisa chamativa
a flutuar, pensei que poderia estar uma mulher sentada lá fora, até
que reconheci a minha própria estola, a que deixava sempre no
escritório para quando ficava com frio.

384
Avancei. A estola tinha sido amarrada à pega de uma das velhas
ânforas. Hades, o que seria aquilo? As ânforas, umas cinco daquelas
coisas empoeiradas e pesadas, estavam todas lá fora. Lá se ia a ideia
de o rapaz as ter levado. Tinha-se limitado a arrastá-las para ali.
Eu teria de voltar a puxá-las para dentro, pois aquele peso a mais
era perigoso. Apostava que a intenção dele fora levantá-las e deixá-
las cair na ruela, mas não tinha sido capaz. Quanto a mim, nem sequer
o tentaria.

Todos adorávamos aquela varanda. Não saberia dizer quantos fins de


tarde amenos tinha visto, com familiares meus sozinhos, aos pares ou
trios, quer por simples prazer quer em busca de consolo durante
alturas difíceis. Eu sempre a adorara. Tentada, saí.

Parecia bastante sólida. Era verdade que nos pontos de junção na


lateral do edifício havia grandes rachas, suficientes para terem
sobressaltado o meu pai e o meu tio Lúcio. Oh, mas que glorioso
atributo, se alguma vez fosse renovado de forma segura. Tinha-lhe
mesmo sentido a falta.

Aquela era, como sempre fora, a melhor característica do Edifício


Águia. As duas divisões sombrias enfiadas debaixo do telhado quase se
tornavam desejáveis devido à sua presença. A vista, imensa e
desimpedida, era fabulosa. Tornei a olhar para lá dos telhados
vermelhos. Por alguma disposição arbitrária de construção, era
possível ver por um intervalo largo entre a profusão de casas e
observar o rio Tibre e os campos da outra margem. Ouvia-se o zunzum
distante da vida romana, detetava-se a exótica miscelânea de odores,
sentia-se que se fazia parte de uma grande cidade, ainda que
conservando o isolamento proporcionado por um espaço privado. Sentir
o sol no rosto era maravilhoso.

Aventurei-me até à balaustrada e olhei para baixo. A ruela estava


cheia de homens. Um deles, ao ver-me aparecer por cima dele, começou
a gesticular como louco, abrindo os dois braços num movimento
urgente.

385
Outros também olharam para cima, a apontar e a gritar. Não ouvia o
que diziam.

De súbito, compreendi. Involuntariamente, estava metida num estúpido


plano masculino.

Tinha de sair dali. Tudo aquilo era inseguro. Eu estava a pôr o


resultado em risco. Aqueles tolos, Morelo e Tibério, deveriam ter-me
contado. Todavia, mesmo que o tivessem feito, era provável que eu
tivesse ido ali dar uma olhadela; conhecia-me e sabia o quanto
prezava a minha independência. Agora era demasiado tarde. Estávamos
todos em apuros.

Assim que pisei o limiar da porta, bastou-me olhar de relance para as


cordas para perceber. Todas tinham sido cortadas com um único golpe,
provavelmente de machado.

Não devia estar ali. Quando Tibério me escoltara de volta ao Paço da


Fonte, o seu propósito era claro e eu deveria ter seguido as suas
primeiras indicações, ignorando o comentário exagerado que fizera
depois em relação ao escritório. Eu deveria ter-me mantido bem longe
dali.

Era uma armadilha para Andrónico. Eu tinha sido usada como engodo.

386
56

Ouvi passos a aproximarem-se. Estava encurralada. Tinha-me colocado


em risco; correra mal.

A julgar pelos sons, o homem já estaria um ou dois andares abaixo do


meu, e subia depressa. Os apartamentos nos andares que nos separavam
estavam desocupados e trancados. Não tinha para onde ir.

Não tinha armas. Não sou uma combatente.

Decidi-me pela única ação evasiva. Rapidamente, esgueirei-me para a


segunda divisão, o meu arquivo com o telhado que deixava entrar água,
e escondi-me atrás da cortina. Estava a pensar depressa. Se ele
chegasse ali e não me visse, eu teria uma oportunidade. Se
conseguisse passar por ele, fugir por trás dele, talvez conseguisse
ser a primeira a chegar lá abaixo. No entanto, ele não tinha nada a
perder e era veloz. O risco de me apanhar e apunhalar nas escadas era
demasiado grande.

Mantive-me praticamente imóvel. Ouvi-o chegar e parar junto à


entrada. Devia estar a observar o espaço, ainda no patamar.

Avançou. Os seus passos atravessaram o escritório, levando-o até à


porta de fole.

Ia perceber que eu não estava na varanda. Eu tinha um segundo para


agir. Saí de trás da cortina e percorri a divisão. Vi-o; empurrei-o
com as duas mãos no meio das costas; impeli-o com força para a
frente.

387
A surpresa deu-me tempo, o desespero deu-me força. Arrojei a porta
para a fechar, ficando eu do lado de dentro e ele do lado de fora.

Aquilo só podia acabar em desastre. Ele estava a tentar abrir a


porta, que eu segurava em pânico, para a manter trancada. Ainda que
ele tivesse uma constituição ligeira, não deixava de ser um homem
contra uma mulher, e ele agora estava a ser abertamente violento. A
porta era um fole frágil com painéis deteriorados, fruto de muitos
maus tratos passados e até de violência ocasional. Ao longo de anos,
pessoas já bebidas tinham ido recorrentemente contra ela. Só a
bizarria do delapidado trinco de madeira, que sempre encravara e se
recusara a funcionar convenientemente, jogava a meu favor.

Percebi que estava a dizer-me qualquer coisa. Via-o através do


entrançado da porta, a recuar até à balaustrada. Estava prestes a
lançar-se contra a porta, que inevitavelmente cederia para dentro.
Encostei-me à ombreira, com todo o peso a pressionar o puxador.
Sentia-me impotente.

Ouvi gritos lá em baixo. Alguém vinha a caminho. Mas não a tempo de


nos alcançar.

Andrónico também gritava. Correu conforme planeado contra a porta.


Não sei como, mas consegui mantê-la fechada. Ele ficou tão frustrado
que saltou e bateu com dois pés no chão. Na tentativa seguinte, já
não consegui segurá-la e ele entreabriu-a. Estava a fitar-me quando
ouvimos um estrondo tremendo, de algo a rachar-se. Senti as vibrações
através das solas das sandálias. A parede externa estremeceu. Ele não
percebeu. Espero que nunca tenha entendido o que estava a acontecer,
embora seja quase certo que sim. Sei que gritou. Sempre que penso
naquele momento, ainda o ouço.

A velha varanda separou-se do edifício. O peso morto das ânforas e a


nossa disputa foram demasiado para os suportes enfraquecidos. A
construção antiga despegou-se da alvenaria e despenhou-se ao longo de
seis andares. Andrónico caiu com a varanda.

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Uma nuvem de pó de argamassa avançou pela divisão e envolveu-me.
Oscilei, desequilibrada, à beira do espaço vazio. Enquanto tombava,
uns braços fortes esmagaram-me e Tibério levou-me para um lugar
seguro. Um de nós soluçava de choque; até é possível que fosse ele.

Ouvimos sons terríveis quando a varanda aterrou com a sua carga


estrondosa. Gritos na ruela lá em baixo. Depois, silêncio.

O mensageiro virou-me para me inspecionar. Pediu desculpa. Eu pedi


desculpa. Ele por não me ter revelado o plano, eu por não o ter
entendido. Isso estava resolvido. Nenhum de nós voltaria a referir-
se-lhe.

Disse-me que tinha de ir lá abaixo. Compreendi porquê. Deveria segui-


lo assim que pudesse. Deixou-me. Depois de deixar de ouvir os seus
passos urgentes, não aguentei ficar sozinha e, apesar de ainda me
sentir fragilizada, desci também.

No Paço da Fonte havia um monte de destroços, mas nada terrível que


se visse. Os vigiles tinham tapado o corpo. Estranhamente, mais
ninguém se magoara. Tibério apressou-se a confirmar que estava tudo
terminado; foi atencioso da parte dele.

Fui levada para casa do meu pai, onde passei a noite e o resto do dia
seguinte. Mesmo depois de o escritório tornar a ser seguro, demoraria
algum tempo a querer voltar lá, e talvez nunca o quisesse.

389
Até o meu apartamento continha memórias. Precisava de me recompor
antes de poder sentir-me confortável ali.

A Cerialia estava a chegar ao fim, e nessa noite haveria uma grande


corrida de quadrigas no Circo. Seria o último evento dos Jogos que o
edil tinha de supervisionar. Enviou bilhetes à minha família, mas
nenhum de nós foi. Eu fiquei calmamente em casa até depois do almoço
do dia seguinte. Todos iam para a nossa villa na costa e eu iria com
eles.

Precisava de algumas coisas do meu apartamento. Voltei lá sozinha


nessa tarde, caminhando lentamente pelas Escadas de Cássio. Em
primeiro lugar, fui ao quartel dos vigiles, onde fiquei a saber que
Morelo tinha adoecido, mas conseguira sobreviver. Estava em casa e,
como me disseram que ia recuperando, deixei votos de melhoras e não
incomodei a esposa dele, Púlia. Em busca de tranquilidade, fui até ao
parque deserto da Armilústria. Sentei-me no banco do costume, onde
fiquei durante algum tempo, a refletir.

Ainda ali estava, e a começar a enfastiar-me com a solidão, quando


ouvi alguém a aproximar-se. Não levantei a cabeça. Uma mulher
solitária deve evitar estabelecer contacto visual com desconhecidos.
Não que se tratasse de um desconhecido. Eu conhecia aquele homem.
Reconhecia a sua forma de caminhar. Sabia exatamente quem era, embora
nunca antes o tivesse visto no resplandecente traje romano, a que não
faltava sequer a faixa larga e roxa, indicadora de estatuto social,
na sua toga luxuosa. Estava com bom aspeto. Muito bom. Envergava
mantos com confiança. Como de costume, não se fazia acompanhar por
guarda-costas, mas não precisava deles. Dado o elevado posto que
ocupava, a sua pessoa era sacrossanta.

Ainda antes de olhar para ele, soube que teria olhos cinzentos e que
suportava as pregas pesadas da toga no braço esquerdo
descontraidamente dobrado, com uma mão que passara a ter uma cicatriz
permanente.

390
Era, tal como eu esperava, Tibério Mânlio Fausto, o edil da plebe.

391
58

Uma das comissuras dos seus lábios retesou-se. - Já tinhas percebido.

- Sabias que sim.

- Desculpa o secretismo. Gosto de ver as coisas por mim mesmo.

- Toda a diversão de um disfarce: desleixo, barba por fazer e, o


melhor de tudo, maus modos; poder ser grosseiro com toda agente. - Eu
mostrava-me impávida. - Felizmente, eu compreendo, edil. O lema da
nossa família é: Se queres alguma coisa feita, há gente a quem dás
ordens. Se queres alguma coisa bem feita, tens de ser tu a fazê-la.

Ouvia a voz da minha mãe a dizê-lo; o meu pai regia-se assim. Helena
também.

- Segues a tradição familiar.

- Sou uma mulher independente.

Fausto, como devo habituar-me a chamar-lhe, parecia quase admirado,


embora, tratando-se dele, não tanto assim:

- Oh, Albiola, lá isso és. Albiola?

Os meus parentes nunca usaram diminutivos.

392
Até o Rapaz da Quinta que, na qualidade de meu marido, tinha o
direito de ser sentimental, não me tratava por algo mais pessoal do
que «miúda», o que era o mesmo que dizia a qualquer mula que
conduzisse ou até a um rato que uma vez tivera de enxotar do nosso
apartamento. Vindo do edil, não fazia ideia de como reagir. Ele
percebeu e esboçou um sorriso ténue. Por um instante pensei
esbofeteá-lo, mas desisti. Já tinha sido repreendido o suficiente
pela ex-mulher.

Percebi então porque beijara Laia com tanta determinação no outro


dia. A saudação formal era um direito que tinha enquanto seu ex-
marido. Estava a asseverar que ela já não o intimidava. Depois de uma
penitência de dez anos, tinha-se finalmente livrado da culpa.

Cheguei-me para o lado, de modo a que o edil pudesse sentar-se


comigo.

- O que queres, Fausto?

- Estava preocupado contigo. Pensei que poderias precisar de consolo.


- Comecei a negá-lo, mas ele interrompeu-me. - A verdade é que eu
próprio estou cansado e deprimido. Lamento o que aconteceu. Se calhar
achei que, se aparecesse, tu poderias consolar-me.

Ri-me. Ele suportou-o. Era severo, mas tolerante. Agradava-me.

Por isso, ficámos lado a lado, curvados e em silêncio durante


bastante tempo. Ele era famoso por não falar. Eu nunca tagarelo.
Pressentia que, no seu disfarce de mensageiro, tinha aprendido a
falar mais comigo do que alguma vez falava com a maioria das pessoas;
quanto a mim, tinha-me sentido capaz de ser franca com ele. Todavia,
conseguíamos comunicar sem palavras. Juntos, abandonámos o esforço de
não nos deixarmos abater por acontecimentos tão terríveis. Em
silêncio, enfrentámos a nossa tristeza, o nosso cansaço, até a
depressão e os remorsos por erros cometidos. Sempre que uma grande
investigação chega ao fim, segue-se um período de melancolia. Desta
vez, essa angústia era pessoal. Pelo menos estávamos a partilhá-la.

393
Transmiti-lhe as novidades acerca de Morelo. Fausto contou-me que
tinha estado numa reunião de avaliação do festival e que fora
congratulado pela sua contribuição. Ele era modesto, mas eu já sabia
que a Cerialia daquele ano era considerada um grande sucesso. Isso
seria vantajoso para ele, mesmo que eu tivesse compreendido que não
procurara qualquer benefício próprio, agindo antes por devoção.
Todavia, parecia-me que aceitaria quaisquer proveitos que daí
adviessem. Não acreditava em todos os seus protestos de falta de
ambição. Ele queria, segundo me dissera, viver alegremente e morrer
com maior esperança.

Para ele, a captura dos assassinos das agulhas não ficaria por ali.
Muitas mortes aleatórias haviam ocorrido em Roma e as autoridades
continuavam as buscas; Fausto passara a ser visto como um
especialista, ainda que a reputação não lhe agradasse. Ofereceu-me
uma comissão para o assistir mas, como ele obviamente esperava,
declinei. Era uma questão demasiado pessoal.

Depois Fausto remexeu debaixo da toga e tirou qualquer coisa da bolsa


que trazia ao cinto. Pousou um pacote no meu colo.

- O Estado quer recompensar-te, mas sabe-se lá quando ou com


quanto... Isto é da minha parte.

Enquanto eu verificava o conteúdo, ele desviou o olhar.

Tinha-me comprado um conjunto de agulhas de coser, de bronze bem


trabalhado que não enferrujaria, com buracos entalhados e de vários
tamanhos, cuja serventia ia desde coser lona a fazer bordados
delicados. Agradeci-lhe, embora estivesse pesarosa. Agora tinha de
enfrentar a verdade; o meu tempo com ele enquanto mensageiro tinha
chegado ao fim. Um edil era diferente. Um dos cem melhores. Aquilo
era uma despedida.

- Lavores zelosos, Albia. Mantêm-te em casa, fora de perigo, ocupada


no teu lar.

Fiquei surpreendida, tanto pelo presente tão bem escolhido como pela
piada.

De repente, a sua mão recaiu na minha para me chamar a atenção. Atrás


do altar a Marte, no centro da Armilústria, por cima da muralha,
Mânlio Fausto tinha avistado um par de orelhas pontiagudas.

394
Expirei de encanto e alívio. Era a minha raposa-macho preferida,
Robigo.

Tinha deixado restos, ainda que sem esperança alguma de que uma
raposa aparecesse. Agora Robigo estava ali, atento mas descontraído.
Praticamente assim que o vi, decidiu descer pela muralha. Ficámos
calados a observá-lo: aquelas patinhas atarefadas levaram-no até ao
que eu lhe deixara para comer, sempre de focinho voltado para baixo.
Estava suficientemente próximo de nós para que lhe víssemos os olhos
ambarinos, o focinho branco, os bigodes, a ponta preta da cauda.
Comeu e depois, contrariamente ao que era habitual, ali ficou, com um
ar relaxado. Bocejou. Desatou a coçar rapidamente o pelo atrás de uma
das orelhas negras.

Durante todo esse tempo, eu sentia a mão de Fausto, pesada sobre a


minha, como se se tivesse esquecido de que a tinha ali. Só me
libertou quando Robigo se afastou em silêncio.

Tinha chegado a altura de ir embora. Quando me levantei, de forma


bastante abrupta, Fausto pôs-se de pé e amparou-me o cotovelo.
Naquela última tarde, eu sentia relutância quanto a afastar-me da sua
companhia. Queria levá-lo para o meu apartamento. Naquele dia, era o
único homem que eu receberia lá de bom grado. Seria por causa da aura
de autoridade que detinha? Ou simplesmente porque a sua maturidade e
estabilidade me agradavam?

O instinto dizia-me que ele queria ir comigo. Seria por motivos


inevitáveis. Eu queria ir para a cama com ele, fazer amor com
contorções e gritos para esquecermos a dor e as memórias recentes.
Ele também procurava consolo; tinha-o dito. Poderia ser uma única
vez. Éramos pessoas fortes.

- Estás bem? - perguntou-me, num tom carregado de intensidade.

- Nem por isso.

395
Eu disse-lhe que me poderia acompanhar até ao Paço da Fonte, se
estivesse desesperado por ser útil.

- Nozes, azeitonas... uma tarde de diversão?

Estávamos muito próximos um do outro. Eu gostava do seu odor ténue.


De perto, era uma loção tão leve que quase poderia ser apenas o
cheiro natural da pele limpa.

Encostou delicadamente a testa à minha.

- Não me tentes! Porque não?

Eu estava a par de algumas razões. O seu historial indicava que era


capaz de ser apaixonado, mas o passado deixara-o desconfiado. Era
rico e ocupava uma posição de elite; precisava de uma imagem
imaculada. Eu estava na lista de suspeitos observados pelos vigiles.
Nenhum edil com ambições correria tal risco.

A justificação que deu não era uma que eu esperasse.

- Seria mais do que agradável. Mas sabes o que aconteceria. Depois,


haveríamos de nos esconder em becos para nos evitarmos mutuamente.
Gostei de trabalhar contigo, Albia. Esperava que no futuro pudéssemos
voltar a ajudar-nos um ao outro. Continuemos amigos.

Esse hediondo lugar-comum. Qualquer mulher compreende o que realmente


quer dizer.

Ainda sei que, se o tivesse beijado, ele não teria resistido. Mas
sorri e recuei, libertando-nos a ambos da pressão.

Recordei o dia em que fora vê-lo pela primeira vez, quando visitara o
Templo de Ceres e colidira com Fausto no limiar do gabinete da
edilidade. Tinha-me vestido para impressionar um magistrado,
divertindo-me com o facto de as minhas irmãs acharem que, quando nos
damos a tanto trabalho, conheceremos alguém especial...

O seu interesse por mim como colega tinha uma certa inocência. Eu
sabia que não era assim tão simples.

396
Em Roma, não é possível inverter as regras. De qualquer modo, o homem
tinha um bom coração. Afinal, dera-se ao trabalho de escrever aquele
comunicado no muro, a convocar testemunhas da morte do pequeno Lúcio
Basso. No nosso mundo tristonho, onde a maioria das pessoas e dos
magistrados carecia de consciência, tal decência era efetivamente
especial.

Disse-lhe que ia para a costa; ele pareceu ficar desapontado. Quando


lhe disse que voltaria em breve, o seu rosto desanuviou-se.

- Tomas sempre o pequeno-almoço no Xarroco?

- Na maior parte dos dias.

- Talvez eu pudesse ir lá também e tomá-lo contigo.

- Bem, sabes onde fica.

Nunca o faria; estava a enganar-se no seguimento de um caso que ambos


tínhamos detestado. Mas era com ele, cumprir a promessa. Trabalharmos
novamente seria aceitável, se alguma vez acontecesse.

Por isso, despedimo-nos na Armilústria, tristes e castos. O edil


virou-se e seguiu em direção à casa do tio. Eu avancei sozinha para o
Paço da Fonte.

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NOTA HISTÓRICA

Durante este período algumas pessoas tratavam de mergulhar agulhas em


veneno e depois picar com elas quem quer que lhes aprouvesse. Muitos
dos que assim foram atacados morreram sem sequer saberem a causa, mas
vários dos assassinos foram denunciados e punidos.

Dião Cássio, História de Roma, Epítome, Livro 67

FIM