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A Crise de 1929

A Crise de 1929 estourou nos Estados Unidos com o crack da bolsa de Nova York e depois
assolou praticamente todo o mundo ocidental numa crise econômica considerada como a maior
desde o advento da Primeira Revolução Industrial, no final do século XVIII, ocorrida na
Inglaterra.
A historiografia acerca do tema divide-se basicamente em duas vertentes que procuram explicar,
cada um a sua maneira, os fatores desencadeadores desta crise econômica nos Estados Unidos e
sua repercussão mundial. A primeira seria a linha marxista e a segunda a linha liberal. Ressalta-
se que a explicação liberal encontra dois caminhos distintos: uma vertente segue o caminho de
explicação da Crise de 1929 como uma crise agrária e outra como uma crise financeira.
A corrente marxista entende que a Crise de 1929 só foi possível devido à superexploração do
mercado consumidor. Ou seja, o mercado consumidor foi tão explorado, com baixos salários e
instabilidade no emprego, que chegou um momento que seu poder de compra não foi suficiente
para suprir a demanda. A concentração de renda chegou a um ponto insuportável.
A corrente dos liberais entende que a crise econômica dos Estados Unidos tornou-se mundial na
medida em que este país era um dos principais compradores e financiadores mundiais. No
entanto, para uns a crise nos EUA iniciou-se em meados de 1925, com uma crise de
superprodução agrária. Esta linha irá argumentar que o aumento da produtividade agrária norte-
americana, para suprir os países mergulhados na Primeira Guerra Mundial (1914-1919),
estimulou o setor financeiro. Terminada esta guerra a produção norte-americana se mantém,
mas os países europeus iniciam uma recuperação e já não compram a mesma quantidade que
obtinham durante a Primeira Guerra. Esta situação gerou a superprodução. Com isso, o setor
agrário não pôde pagar os empréstimos tomados no setor financeiro, o que arrastou este último
para a crise – desembocada na Bolsa de Valores. Para outros, da mesma corrente dos liberais, o
que ocorreu foi uma crise financeira. Esta linha desenvolve a ideia de que o setor financeiro, na
ocasião da Primeira Guerra Mundial, retirou os investimentos que havia na Europa e, com
receio de perder capitais, o investiram em massa nos Estados Unidos, sobretudo na Bolsa de
Valores. Com o fim desta guerra, estes investidores se apressaram em retirar seus capitais na
Bolsa de Valores para investir novamente na Europa. Esta situação provocou um verdadeiro
colapso no sistema financeiro norte-americano e, em seguida, como consequência das inter-
relações do sistema capitalista, mundial.
Expostas as três formas de se olhar o colapso econômico norte-americano e, a reboque, mundial,
iremos analisar os pontos principais desta chamada Crise de 1929.
As crises econômicas são vistas de forma diferente conforme o referencial teórico. Para os
marxistas, as depressões econômicas evidenciavam que o sistema capitalista chegaria a um
estágio em que tais crises o ruiriam, demonstrando suas contradições, a ponto de o fazer
desmoronar enquanto sistema. No entanto, para o liberalismo clássico, fundamentado por Adam
Smith e Davi Ricardo, tais crises eram "normais" e até bem vindas, pois mostravam o poder de
transformação que o capitalismo possuía. Nestas crises econômicas, os menos preparados
caíam. Sobravam, contudo, os mais capacitados.
O contexto histórico em que se passa a Crise de 1929 evidencia que esta, no entanto, não pode
ser considerada uma crise comum, "normal". Os países recém saídos da Primeira Guerra
Mundial não conseguem retomar as cifras econômicas anteriores a guerra. Além disso, o
capitalismo havia avançado nos grandes países industrializados. Esta situação provocou uma
inter-relação entre estes países capitalistas considerados "centrais". Por outro lado, os países
periféricos, como os da América Latina, sobreviviam basicamente das exportações a estes países
mais desenvolvidos economicamente. Esta rede de dependências mútuas fez com que uma crise
econômica norte-americana tornasse proporções mundiais. Somente a União Soviética não foi
afetada com tal crise, exatamente porque ela não fazia parte desta rede de relações capitalistas,
pois neste país havia um Estado Socialista.
Outros aspectos são indicados para se compreender a Crise de 1929. O Tratado de Versalhes,
elaborado após a Primeira Guerra Mundial, impôs à Alemanha o pagamento de indenizações por
ser considerada a "culpada" pela guerra. A crise econômica que se instalou na Alemanha com
estas imposições, dentre outras, provocou um clima de instabilidade na Europa, uma vez que a
este país era uma das principais economias neste momento.
A crise de desemprego que assolou o mundo após a Primeira guerra mundial nos ajuda a
entender a perspectiva marxista de que havia um subconsumo. Além do desemprego, os baixos
salários (que podem ser consequência deste quadro) e a falta de estabilidade no emprego e numa
futura aposentadoria levavam à um grande queda de consumo. Outro aspecto ímpar da Crise de
1929 é seu caráter universal, pois afetou todos os setores da economia e todas as camadas da
sociedade. Os países capitalistas centrais diminuem drasticamente suas importações,
ocasionando crises terríveis nos países exportadores. A falta de créditos no mercado piora ainda
mais este quadro.
Um acontecimento de tal amplitude não poderia deixar de repercutir na política dos países
afetados. O liberalismo clássico entrou em crise. Os países atingidos trataram de intervir na
economia para tentar salvar o que restara. O exemplo mais conhecido é o New Deal, nos
Estados Unidos, posta à frente por seu presidente Franklin D. Roosevelt (1933-45). Um
economista defendeu a ideia de que a crise era um problema de má distribuição da riqueza.
Segundo John Maynard Keynes (1883-1946), os governos deveriam garantir que as camadas
populares possuíssem meios de sobrevivência e consumo, para garantir o desenvolvimento do
sistema capitalista. Além disso, as ideias deste teórico britânico foram bem aceitas pelos
governos devido ao seu aspecto político-social. Ou seja, desenvolvendo medidas de proteção ao
trabalhador (salário-mínimo e seguro-desemprego, por exemplo) estes governos impediam,
consequentemente, a eclosão de revoltas em massa decorrente da caótica situação econômica.
Outro aspecto político discutido é em relação aos regimes fascistas. Alguns estudiosos afirmam
que a crise econômica foi a grande responsável pela ascensão destes regimes totalitários.
Argumenta-se que nos momentos de crise econômica, o surgimento de ideias autoritárias ganha
força, ainda mais num colapso das proporções da ocorrida em 1929. No entanto, como bem
mostra o historiador Eric Hobsbawn, as origens da ideologia fascista remonta à um outro
quadro. Seguindo a linha de raciocínio estabelecida por este estudioso, a ascensão do fascismo
após a Primeira Guerra Mundial foi uma resposta ao perigo real da eclosão das massas
trabalhadoras, e à Revolução Russa (a de Outubro de 1917, onde se levantou uma opção ao
sistema liberal capitalista vigente). Por fim, existe uma outra vertente para o surgimento dos
regimes fascistas. Este seria um modelo político erguido num momento específico de "vazio
hegemônico". Ou seja, na década de 1920 e 1930, não haveria um segmento da sociedade com
condições de estabelecer a hegemonia de seu projeto político. Neste momento, então, surge a
figura de um líder que "toma pra si" a responsabilidade política de desenvolver a nação. Estas
são, grosso modo, as linhas gerais que introduzem a discussão acerca do fascismo. Mas isso será
objeto futuro. Quanto à Crise de 1929, esperamos ter abordado seus aspectos mais importantes.

Bibliografia consultada:
CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: A Época Contemporânea.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia
das Letras, 1995.