Você está na página 1de 7

Júlia Soares Parreiras

EDUCAÇÃO PARA PREVENÇÃO: uma alternativa para


melhoria da qualidade da água e das condições sanitárias de
comunidades carentes

Trabalho apresentado à disciplina de Biologia do Curso


Técnico de Edificações do Centro Federal de Educação
Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), realizado entre
janeiro e agosto de 2008.
Orientadora: Andréa Rodrigues Marques Guimarães

Belo Horizonte
Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG)
Avenida Amazonas, 5253. Nova Suíça, Belo Horizonte – MG. CEP. 30.480.000
2008

Introdução

O acesso à água potável e ao saneamento básico é fundamental para melhorar a


qualidade de vida e reduzir a pobreza. No mundo, 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à
água e 2,6 bilhões estão sem saneamento. A água não tratada, sendo um veículo de diversas
doenças, pode impossibilitar as crianças de freqüentar a escola aumentando a desigualdade
de aquisição de conhecimento. A organização mundial de Saúde (OMS) estima que, por
ano, 25 milhões de pessoas morrem no mundo devido a doenças transmitidas pela água
(Zancul, 2006). Os principais agentes causadores de doenças veiculadas pela água são as
bactérias, os protozoários e os vírus. Há também aquelas transmitidas por vetores que se
desenvolvem na água e outras em que o hospedeiro é aquático (Amabis & Martho, 2004).
Classes rurais excluídas muitas vezes se vêem obrigadas, pela falta de recursos
financeiros, a morar em margens de rios, sem a menor infra-estrutura no que se refere ao
tratamento da água, coleta e tratamento do esgoto e do lixo. Muitos despejam o esgoto e o
lixo nas suas águas e nas suas margens, o que provoca a procriação, naquele local, de uma
série de vetores, tais como ratos, baratas e escorpiões. A convivência dentro desse
ecossistema insalubre acaba gerando o aparecimento de doenças que comprometem a
qualidade de vida e saúde da população, especialmente das crianças. Assim, a água, que
poderia estar associada à idéia de vida e saúde, passa a ser associada à idéia de doença, à
medida que os córregos degradados transformam-se em focos de doenças (Polignano et al.,
2004).
Os estudos desenvolvidos pelas ciências podem melhorar a qualidade de vida dessas
pessoas. Uma alternativa para a melhoria da qualidade de água é o método SODIS, do
inglês Solar Disinfection (www.sodis.ch). Paterniani & Silva (2005) utilizaram para
desinfecção da água garrafas PET transparentes com a metade pintadas de preto colocadas
em um concentrador solar, proposto pelo IMTA - Instituto Mexicano de la Tecnologia de la
Agua, e conseguiram eliminar 99,9% Escherichia coli, uma bactéria entérica indicadora de
contaminação fecal (Macêdo, 2003).
O objetivo deste trabalho foi diagnosticar as condições higiênico-sanitárias e o nível
de escolaridade de uma comunidade próxima ao Rio das Velhas em Rio Acima (MG) e
confeccionar um texto informativo acerca dos meios de transmissão e prevenção de
doenças hídricas propondo a implementação do SODIS. Vários córregos da bacia do Rio
das Velhas, localizada na região central do Estado de Minas Gerais, têm sido poluído por
lixo e esgoto, além dos efeitos da degradação devido à urbanização e atividades industriais.

Materiais e Métodos

Nos meses de março e abril de 2008 foram feitos dois trabalhos de campo no
município de Rio Acima, localizado na região metropolitana de Belo Horizonte, a 39 km da
capital de Minas Gerais e na bacia Rio das Velhas. Para facilitar o estudo, uma região foi
divida em quatro setores: A, B, C e D (FIG. 1).
No primeiro trabalho de campo foram entrevistadas 66 famílias considerando todos
os setores. Cada família respondeu ao questionário n° 1, com perguntas referentes à
escolaridade, infra-estrutura da moradia, sua relação com o Rio das Velhas, higiene pessoal
e qualidade da água utilizada nas atividades domésticas. A partir das análises do
questionário n° 1, o setor que apresentou menor nível de escolaridade dentre as pessoas
entrevistadas, com condições higiênico-sanitárias insatisfatórias e que contribuem com a
poluição por esgoto no rio, foi o selecionado. Dez famílias foram cadastradas para a
aplicação do questionário n° 2, com o objetivo de diagnosticar as condições reais da
qualidade da água utilizada e o conhecimento acerca de doenças hídricas e do método
SODIS. Levando em consideração as análises do segundo questionário foi elaborado um
protótipo de um texto informativo que será aplicado junto à comunidade.

FIGURA 1 – Mapa dos setores A, B, C


e D do município de Rio Acima.

Resultados e Discussão

1. Escolaridade da comunidade dos setores


Com relação à escolaridade dos pais das famílias entrevistadas, 64% apresentaram no
máximo Ensino Fundamental I (1° ao 5° ano) e 33% Ensino Fundamental II (6° ao 9° ano),
sendo que nenhum dos entrevistados apresentou Ensino Médio ou curso Superior. Ao
contrário, as crianças a partir de 6 anos de idade e jovens até 26 anos estavam nas escolas
cursando do 1° ao 9° ano e Ensino Médio (92%). Foi constatado que o setor A apresentou
maior número de pais (79%) com somente educação básica (até o 5° ano) e 88% das
crianças e jovens estavam nas escolas.

2. Caracterização higiênico-sanitária dos setores


Os dados obtidos mostraram que as famílias de todos os setores recebem água
canalizada e tratada pela prefeitura do município, e a maioria apresenta o esgoto canalizado
(64%), sendo que apenas 17% utilizam fossas (GRA. 1A), sendo a coleta de lixo três vezes
por semana. O setor que apresentou mais problemas sanitários foi o A, pois 69% das
famílias utilizam fossas e, 31%, despejam o esgoto e água de banho e de cozinha à céu
aberto, contribuindo para a contaminação do Rio das Velhas e o local onde as crianças
brincam (GRA. 1B).

Rede de esgoto 0% Rede de esgoto


2% Fossa Fossa
17% 0%
À céu Aberto
À céu Aberto
Não Respondeu 31%
Não Respondeu

17%

64%
69%
A B
A maioria das crianças passa o dia sendo cuidadas pelas mães quando não estão na
escola e brincam no quintal de suas casas ou na rua. No setor A, 23% brincam à beira do
rio e muitas delas brincam descalças (85%). Considerando em todos os setores a relação
das pessoas com o Rio das Velhas, a metade não o utiliza para nenhum fim e 24% para a
pesca.
Com relação à higiene pessoal, normalmente as pessoas lavam suas mãos antes das
refeições e depois de ir ao banheiro (79%). O modo de desinfecção dos frutos e verduras
mais utilizado pelas famílias (56%) foi lavá-los com água corrente e, para beber, a
filtragem da água foi o método mais ocorrente, principalmente no setor A (62%).

3. Diagnóstico da qualidade de vida das famílias cadastradas


A região que apresentou menor nível de escolaridade dentre as pessoas entrevistadas,
com condições higiênico-sanitárias insatisfatórias e que contribuem com a poluição por
esgoto no rio, foi a do setor A, onde 10 famílias foram cadastradas e revelaram que a água
canalizada que chega às casas é puxada de forma clandestina da rede principal. Oito
famílias possuíam filtro, sendo que uma delas não o utilizava. Quatro famílias não
possuíam geladeira, uma não havia banheiro e em quatro casas não era feita a cloração da
água nas caixas d’águas.
Com relação ao conhecimento acerca de doenças de veiculação hídrica, a maioria
delas (70%) conhecia a xistosa (Esquistossomose) como uma doença que se pode pegar
nadando no rio e, 80%, tiveram conhecimento acerca da necessidade de tampar a caixa
d’água para prevenir a dengue. Somente 20% mencionaram o amarelão como doença
transmitida pelos pés descalços e 50% que se podem contrair lombrigas e vermes quando
não se lava as mãos antes de comer e depois de ir ao banheiro. Todas as famílias
demonstraram saber que se pode contrair outras doenças, mas não souberam citar nomes ou
não souberam associá-los aos meios de transmissão.

4. Elaboração do texto informativo


Análises de laboratório revelaram o SODIS como uma tecnologia simples, de baixo
custo com um grande potencial para melhorar a saúde daqueles que ainda não têm acesso à
água de beber potável, pois melhora a qualidade microbiológica da água (www.sodis.ch). A
maioria das famílias cadastradas no projeto não tinha conhecimento deste método (90%).
O diagnóstico do setor A mostrou uma relação da baixa escolaridade dos pais com a
desinformação sobre o modo de transmissão das doenças hídricas e prevenção. Essa relação
pode colocar em risco a saúde de suas crianças, pois as condições higiênico-sanitárias das
casas podem ser consideradas precárias. Baseando-se no contato estabelecido com as
famílias cadastradas que vivem às margens do Rio das Velhas em Rio Acima, está sendo
criada uma cartilha que vincula as informações sobre doenças hídricas às do SODIS (vide
as 1as versões no anexo 1 e 2). A princípio, o objetivo é voltar à região e fazer uma palestra
sobre doenças hídricas, ensinar como se faz a solarização e deixar as cartilhas para que,
principalmente as crianças, possam divulgá-las na comunidade e nas escolas.
Referências Bibliográficas

MACÊDO, J. A. B. Águas & Águas. 2ª ed. Belo Horizonte: CRQ-MG, 2004. 977 p.

PATERNIANI, J. E. S. & SILVA, M. J. N. Desinfecção de Efluentes com Tratamento


Terciário utilizando Energia Solar (SODIS): Avaliação do uso do dispositivo para
concentração dos raios solares. Revista de engenharia sanitária e ambiental 10: 9-13.
2005.

POLIGNANO, M. V. ; LISBOA, A. H. ; ALVES, A. L. ; MACHADO, A. T. G. M. ;


AMORIM, A. L. D. ; PINHEIRO, T. M. M. . Uma Viagem ao Projeto Manuelzão e à
Bacia do Rio das Velhas: Manuelzão Vai à Escola. 2ª. ed. Belo Horizonte - MG:
SEGRAC, 2004. 64 p.

ZANCUL, M. S. Água e saúde. Revista Eletrônica de Ciências CDCC - USP, São Paulo,
abr. 2006. Disponível em: http://www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_32/docs
/AtualidadesABRIL.doc. Acesso em janeiro de 2008.

SODIS. Disponível em http://www.sodis.ch. Acesso em março de 2008.


Anexo 1 – 1ª versão do texto da cartilha

Veve e Juju em: Educação para a Prevenção

Veve e Juju saindo da escola, caminhando próximas ao rio:


Juju: Foi legal a aula de hoje. Principalmente a parte em que a professora falou sobre a
importância da qualidade da água.
Veve: E também do tantão de doenças que podemos pegar com a água suja. O melhor é que
a gente pode fazer muitas coisas para não ficar doente.
Uma gotinha sai do rio:
Cristalina: Uau! Que bom, acho que vocês podem me ajudar. Sou a gotinha Cristalina e
moro em um rio muito sujo e as pessoas que moram lá perto estão sofrendo com isso.
Juju: Já sabemos como podemos ajudar.
Veve e Juju vão para casa e depois de um tempinho aparecem na comunidade onde passa
o rio em que à gotinha Cristalina mora para falarem com as crianças da comunidade:
Veve: Oi amiguinhos! Eu sou a Veve e viemos aqui para falar um pouco sobre a água.
Cristalina: Eu e minha família somos muito importantes para vocês.
Juju: É por isso que não devemos jogar lixo nos rios. Muito prazer eu sou a Juju!
Veve: Na água suja vivem micróbios muito perigosos.
Criança A: E o que eles podem fazer?
Juju: Quando bebemos água sem filtrar, não lavamos as mãos antes de comer e nadamos
no rio sujo eles entram na gente e causam muitas doenças. (Nesse momento, Veve mostra
um cartaz com desenhos de alguns micróbios segurando placas com os nomes das doenças
que eles podem causar).
Sol (que estava ouvindo toda a conversa): Haha!!! Tenho um segredinho: super poderes
que podem ajudar a melhorar a qualidade da água.
Veve: É verdade a professora falou que os raios do sol podem inativar alguns desses
micróbios que vivem na água.
Juju: Para isso precisamos de um lugar para colocar a água e podemos usar garrafas PET.
Criança B: Perto da minha casa tem várias.
Veve: Isso é muito bom, mas também vamos precisar de papelão para fazer um
concentrador solar.
Criança 3: Isso não é problema, mas o que é um concentrador solar?
Veve: Ah! Vamos mostrar pra vocês. (figuras com as crianças, juntamente com todos os
personagens, realizando as etapas da solarização).
Cristalina (depois de tudo pronto): Queridas crianças espero que vocês tenham entendido
o quanto é importante cuidar da água e tomar todos os cuidados para não ficar doente.
Anexo 2 – 1ª versão da história em quadrinhos da cartilha